Prévia do material em texto
Júlia Demuner - MED UVV XXIX
DPOC - Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica - Robbins, cap.13
Doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) é caracterizada pela progressiva obstrução ao fluxo de ar ,
em grande parte irreversível, normalmente com aparecimento clínico em pessoas de meia-idade ou idosos
com um histórico de consumo de cigarros, e que não pode ser atribuída a outra doença específica, tal como
bronquiectasia ou asma.
Em suas formas prototípicas, os quatro distúrbios deste grupo, enfisema, bronquite crônica, asma e
bronquiectasia, possuem características clínicas e anatômicas distintas, contudo a sobreposição entre eles é
comum. Devido à propensão de coexistirem, o enfisema e a bronquite crônica estão frequentemente
agrupados dentro da categoria de doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC).
Fatores de Risco DPOC
Tabagismo
O tabagismo é a principal causa de DPOC, pois provoca declínio na função pulmonar que excede aquele
esperado apenas pelo envelhecimento, e a magnitude da perda é dependente da intensidade e da duração
da exposição à fumaça de cigarro. Assim, os efeitos cumulativos do tabagismo contribuem em grande parte
para o aumento da prevalência da DPOC com o avançar da idade.
Exposições Ambientais
Trabalhadores expostos à poeira em determinados ambientes de trabalho, tais como minas, fábricas de
algodão e instalações de manuseio de grãos, comumente desenvolvem sintoma de tosse e expectoração e
podem sofrer perda permanente da função pulmonar, pois as exposições repetidas à combustão de
biomassa nos alojamentos confinados provocam obstrução ao fluxo aéreo.
Responsividade das Vias Aéreas
Broncoconstrição aguda após inalação de concentrações diluídas de histamina ou metacolina ,
denominada hiper-responsividade brônquica , é uma característica de definição de asma, mas também
está presente em muitos pacientes com DPOC.
Fatores Genéticos
A ideia de que as proteases são importantes baseia-se, em parte, na observação de que pacientes com
deficiência genética da antiprotease α1-antitripsina possuem predisposição ao desenvolvimento de
enfisema pulmonar, o qual é agravado pelo tabagismo. A α1-antitripsina, que está normalmente presente no
soro, em fluidos teciduais e nos macrófagos, é uma importante inibidora de proteases (particularmente a
elastase) secretada por neutrófilos durante a inflamação.
O dano à matriz extracelular mediada por proteases desempenha papel fundamental na obstrução das
vias aéreas observada no enfisema, visto que as vias aéreas menores são normalmente mantidas abertas
pela retração elástica do parênquima pulmonar. A perda de tecido elástico nas paredes dos alvéolos que
envolvem os bronquíolos respiratórios reduz a tração radial, consequentemente levando os bronquíolos
respiratórios ao colapso durante a expiração , gerando uma obstrução funcional do fluxo aéreo, apesar da
ausência de obstrução mecânica.
Júlia Demuner - MED UVV XXIX
Enfisema
O enfisema caracteriza-se pelo aumento permanente dos espaços aéreos distais aos bronquíolos
terminais, acompanhado pela destruição de suas paredes , sem fibrose significativa. Há quatro tipos
principais de enfisema: (1) centroacinar, (2) panacinar, (3) acinar distal e (4) irregular, mas somente os dois
primeiros tipos causam obstrução significativa das vias aéreas.
- Enfisema centroacinar (centrolobular): as porções centrais formadas pelos bronquíolos respiratórios , são
afetadas, ao passo que os alvéolos distais são poupados , assim, espaços aéreos enfisematosos e
normais coexistem dentro do mesmo ácino e lóbulo. As lesões são mais
comuns e graves nos lobos superiores, especialmente nos segmentos
apicais, sendo mais comum em tabagistas , geralmente ocorrendo em
associação à bronquite crônica.
- Enfisema panacinar (panlobular): os ácinos encontram-se
uniformemente aumentados , desde o nível do bronquíolo respiratório
até os alvéolos cegos terminais. Ao contrário do enfisema centroacinar, o
enfisema panacinar ocorre mais comumente nas porções inferiores dos
pulmões e está associado à deficiência de α1-antitripsina.
Patogenia
A inalação da fumaça de cigarro e de outras partículas nocivas causa
dano e inflamação pulmonares que, especialmente em pacientes com
predisposição genética, levam à destruição do parênquima (enfisema)
e a doenças das vias aéreas (bronquiolite e bronquite crônica). Os fatores
que influenciam o desenvolvimento do enfisema são os seguintes:
- Células e mediadores inflamatórios: uma grande variedade de mediadores inflamatórios encontra-se
aumentada (incluindo leucotrieno B4, IL-8, TNF e outros), amplificando o processo inflamatório (citocinas
pró-inflamatórias) e induzindo alterações estruturais (fatores de crescimento).
- Desequilíbrio protease-antiprotease: diversas proteases que causam ruptura dos tecidos conjuntivos
são liberadas pelas células inflamatórias e epiteliais e, nos pacientes que desenvolvem enfisema, existe uma
deficiência relativa de antiproteases protetoras .
- Estresse oxidativo: espécies reativas de oxigênio são geradas pela fumaça do cigarro e por outras
partículas inaladas, ocasionando lesões teciduais adicionais e inflamação.
Júlia Demuner - MED UVV XXIX
Bronquite Crônica e Bronquiolite
A bronquite crônica é diagnosticada com base nos achados clínicos e define-se pela presença de tosse
persistente durante, pelo menos, 2 anos consecutivos , sendo comum entre tabagistas e em residentes de
cidades com poluição atmosférica . Alguns pacientes com bronquite crônica apresentam evidências de
vias aéreas hiperresponsivas, com broncoespasmo e chiado intermitentes (bronquite asmática), ao passo
que outros pacientes, principalmente os fumantes antigos, desenvolvem obstrução crônica do fluxo de ar,
geralmente associada a enfisema (DPOC).
Patogenia
A característica marcante da bronquite crônica é a hipersecreção de muco que se inicia nas vias aéreas
maiores, tendo como principais causas o tabagismo e os poluentes atmosféricos. Estes irritantes ambientais
induzem a hipertrofia das glândulas mucosas na traqueia e nos brônquios , bem como aumento no
tamanho das células caliciformes mucossecretoras nas superfícies epiteliais dos brônquios menores e
dos bronquíolos. Estes irritantes também causam inflamação , caracterizada pela infiltração de macrófagos,
neutrófilos e linfócitos e, diferentemente da asma, não se veem eosinófilos na bronquite crônica.
Enquanto a hipersecreção de muco é, primariamente, um reflexo do
envolvimento dos brônquios maiores, a obstrução do fluxo de ar na
bronquite crônica é resultado de (1) doença de vias aéreas menores ,
induzida pelo tamponamento mucoso da luz bronquiolar, pela
inflamação e pela fibrose da parede bronquiolar e (2) enfisema
coexistente . Em geral, ao passo que a doença de vias aéreas
menores (bronquiolite crônica) é um componente importante da
obstrução de fluxo de ar inicial e branda, a bronquite crônica com
obstrução do fluxo de ar significativa encontra-se, quase sempre,
complicada por enfisema.
Fisiopatologia DPOC
Enfisema
Lesões enfisematosas ao redor das pequenas vias aéreas
comprometem significativamente a patência dos bronquíolos, contribuindo para a limitação ao fluxo aéreo.
As repercussões fisiopatológicas do enfisema relacionam-se a alterações da função respiratória e da
circulação pulmonar. A insuficiência respiratória é provocada por:
(1) redução do fluxo aéreo , sobretudo na expiração, por causa da obstrução de bronquíolos e da
diminuição da elasticidade pulmonar causada pela perda do componente elástico dos septos alveolares ;
(2) dificuldade de acesso do ar inspirado às paredes alveolares, pelo aumento do ar residual;
(3) redução da superfície de trocas pela destruição dos septos alveolares . Por causa da redução do
leito capilar (pela destruição septal ), da compressão dos capilares septais pelo aumento do ar residual e
da vasoconstrição arteriolar decorrente da hipóxia e hipercapnia, pode haver hipertensão pulmonar. Em
consequência de tudo isso, as manifestações clínicas principais do enfisema são dispnéia, tosse, chiado e
sobrecarga do coração secundário à pneumopatia (cor pulmonale).
Os pulmões humanos apresentam uma rica rede de fibras que contém
elastina e outras proteínas da matriz, que conferem integridade
estrutural e elasticidade às paredes alveolares. O recolhimento elástico
refere-se à tendência intrínseca do pulmão para desinflar após a
insuflação dos alvéolos, uma propriedade assegurada por um labirinto
denso de fibras elásticas e outros elementos da matriz dentro do
parênquima pulmonar, juntamente com a tensão superficial na
Júlia Demuner - MED UVV XXIX
interface ar-líquido alveolar.
O recolhimento elástico mantém a permeabilidade das pequenas vias aéreas através de ligações
alveolares radiais e fornece uma parte da pressão necessária durante a expiração. No enfisema, a perda do
recolhimento elástico pulmonar resulta em danos às fibras elásticas e perda de área de superfície alveolar,
com obstrução subsequente do fluxo aéreo.
! A perda de elasticidade do pulmão relacionada à idade explica em grande parte o declínio normal do
VEF1 com o avanço da idade.
Um aumento na resistência ao fluxo aéreo brônquico é outra característica sentinela da mecânica pulmonar
em pacientes com DPOC. A resistência aumentada na DPOC se deve principalmente ao estreitamento e à
perda das vias aéreas com menos de 2 mm de diâmetro, conhecidas como pequenas vias aéreas , mesmo
antes de ocorrer destruição enfisematosa, com isso, a resistência ao fluxo aéreo periférico na DPOC é
maior em relação aos pulmões normais .
Um dos principais aspectos fisiológicos de DPOC é a limitação do fluxo aéreo expiratório devido à perda
do recolhimento elástico pulmonar e ao aumento da resistência viscosa do fluxo aéreo nas pequenas vias
aéreas. A gravidade do enfisema e a obstrução do fluxo aéreo estão diretamente relacionadas ao
enchimento ventricular esquerdo prejudicado, à redução do volume sistólico e ao débito cardíaco menor,
sem reduzir a fração de ejeção.
Quadro Clínico
DPOC deve ser suspeitada em todos os adultos que se queixam de sintomas respiratórios crônicos ,
particularmente a dispneia, que limita as atividades da vida diária. As características clínicas que aumentam
a probabilidade de DPOC incluem idade avançada, uso atual ou passado de cigarros, início insidioso
de dispneia com progressão lenta, histórico de bronquite aguda para a qual se procura assistência médica
e sintomas de tosse crônica, produção de escarro e sibilos .
Exame Físico
Os achados de exame físico geralmente são normais em pacientes com doença leve a moderada, e os
sinais físicos característicos podem estar ausentes, mesmo na doença grave. Os achados comumente
presentes na DPOC grave incluem aparecimento de um tórax em formato de barril, diafragma rebaixado
(detectado por percussão), fase expiratória prolongada e uso de músculos acessórios da respiração.
As bulhas são normalmente hipofonéticas e a ausculta do tórax pode revelar sons respiratórios diminuídos
ou uma variedade de roncos, sibilos e estertores.
Fenótipos
Júlia Demuner - MED UVV XXIX
- Pink Puffers ("sopradores róseos"): é o estereótipo do enfisematoso . Paciente magro , com pletora facial
e o tórax em tonel , apresenta dispnéia grave do tipo expiratória , sem sinais de ''cor pumonale'' mas com
hipoxemia significativa. À ausculta, espera-se diminuição dos murmúrios vesiculares , sem ruídos
adventícios.
- Blue Bloaters ("inchados azuis"): é o estereótipo do bronquítico grave . Paciente obeso com sindrome da
apnéia do sono e distúrbio grave de trocas gasosas , o que induz hipoxemia significativa, manifesta como
cianose . Espera-se sinais de ''cor pumonale'' e, portanto, manifestações de insuficiência ventricular
direita e de congestão sistêmica, como edema . À ausculta pulmonar, encontram-se ruídos adventícios .
DPOC x Asma
Quando nos deparamos com um paciente jovem, não fumante, com história pregressa de rinite alérgica e
que relata variar ao longo dos dias, o aparecimento dos sintomas respiratórios juntamente com a
espirometria mostrando distúrbio obstrutivo, se estabelece o diagnóstico de asma . Por outro lado, quando
estamos diante de um paciente de meia idade, fumante de mais de 40 maços por ano, queixando-se de
dispneia com piora progressiva ao longo dos anos, esperamos encontrar na espirometria uma análise
funcional típica de DPOC.
Diagnóstico
Frente à possibilidade de DPOC, é necessário pedir um raio x para afastar qualquer outro processo
infeccioso e, também, gasometria para avaliar equilíbrio ácido-base e oxigenação.
Testes da Função Pulmonar
A obstrução ao fluxo aéreo pode ser mais bem determinada pela espirometria. Se a relação entre o VEF1 e
a capacidade vital forçada (VEF1/CVF) é menor que 0,70 após a administração de um broncodilatador
via inalatória, um defeito obstrutivo está presente , porém, caso haja uma grande melhora no VEF1 após o
tratamento com broncodilatador inalado, pode ajudar a identificar um paciente com asma predominante .
A capacidade de difusão de monóxido de carbono mede a captação de monóxido de carbono entre o ar
inspirado e a corrente sanguínea, assim, diminuições na DLCO refletem a perda de área de superfície
Júlia Demuner - MED UVV XXIX
alveolar que está disponível para a transferência de gás e corresponde aproximadamente à gravidade do
enfisema.
Após o diagnóstico ser estabelecido, a espirometria de seguimento pode ajudar a determinar se a piora da
dispnéia se deve à DPOC, como indicado por uma diminuição no VEF1, ou por outra causa, como
insuficiência cardíaca.
Radiografia
Os sinais comuns de DPOC grave em uma radiografia de tórax incluem pulmões hiperinsuflados,
diafragmas retificados e espaço claro retroesternal aumentado. As paredes de grandes bolhas
enfisematosas podem ser visualizadas como linhas finas e curvilíneas, e enfisema grave pode aparecer
como regiões de hipertransparência relativa.
As radiografias de tórax geralmente são normais na DPOC leve a moderada e, às vezes, na DPOC grave.
Portanto, uma radiografia de tórax não é um teste diagnóstico adequado para DPOC, sendo usada
principalmente para excluir outras doenças pulmonares .Tomografia computadorizada (TC) do tórax, que
é uma modalidade de imagem superior para avaliar a magnitude e a distribuição do enfisema, não é útil para
a condução do tratamento usual da DPOC.
Traquéia em “bainha de sabre”: a traqueia em bainha de sabre é um achado patognomônico da DPOC. A
traqueia obtém um formato diferente, de uma forma que ela fica afilada laterolateralmente e esticada
anteroposteriormente, aspecto, segundo dizem, como a bainha de um sabre.
Tratamento
Cessação do Tabagismo
A cessação do tabagismo reduz os sintomas de tosse e produção de escarro em muitos pacientes com
DPOC, mas melhora a função pulmonar apenas ligeiramente. Cerca de uma década após parar de fumar, a
taxa de declínio de VEF1 em pacientes com doença leve a moderada é revertida à forma observada nos não
fumantes durante toda a vida, o que torna improvável que esses ex-fumantes irão desenvolver DPOC grave.
Broncodilatadores
Os agonistas β2-adrenérgicos e anticolinérgicos são amplamente utilizados para tratar a DPOC.