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CORPO, DANÇA, EXPRESSÃO E MOVIMENTO ALESSANDRA TORRES BITTENCOURT ISBN 978-65-5821-017-7 9 7 8 6 5 5 8 2 1 0 1 7 7 Código Logístico 59837 ALESSANDRA TORRES BITTENCOURT Corpo, dança, expressão e movimento Alessandra Torres Bittencourt IESDE BRASIL 2021 © 2021 – IESDE BRASIL S/A. É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem autorização por escrito da autora e do detentor dos direitos autorais. Projeto de capa: IESDE BRASIL S/A. Imagem da capa:OSTILL is Franck Camhi/Shutterstock Todos os direitos reservados. IESDE BRASIL S/A. Al. Dr. Carlos de Carvalho, 1.482. CEP: 80730-200 Batel – Curitiba – PR 0800 708 88 88 – www.iesde.com.br CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ B542c Bittencourt, Alessandra Torres Corpo, dança, expressão e movimento / Alessandra Torres Bitten- court. - 1. ed. - Curitiba [PR] : IESDE, 2021. 116 p. : il. Inclui bibliografia ISBN 978-65-5821-017-7 1. Dança. 2. Linguagem corporal. I. Título. 21-70231 CDD: 793.3 CDU: 793.3 Alessandra Torres Bittencourt Doutora em Educação pela Universidade Tuiuti do Paraná (UTP). Mestre em Comunicação e Linguagens pela mesma instituição. Especialista em Corpo Contemporâneo, Bacharel e Licenciada em Dança pela Faculdade de Artes do Paraná (FAP/UNESPAR). Especialista em Design de Embalagens pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). Bacharel em Desenho Industrial: Programação Visual pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Atua no Ensino Superior desde 2008 e foi docente da UTFPR, da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro) e do Centro Universitário Campos de Andrade (Uniandrade). Possui experiência com os cursos de Tecnologia em Artes Gráficas, Arte-Educação e Educação Física. Trabalha como docente da Uniandrade desde 2011, no curso de Educação Física, sendo responsável por disciplinas que envolvem o corpo, o movimento e a expressividade, como: Dança, Dança de Salão, Atividades Rítmicas, Ludomotricidade e Psicomotricidade. SUMÁRIO Agora é possível acessar os vídeos do livro por meio de QR codes (códigos de barras) presentes no início de cada seção de capítulo. Acesse os vídeos automaticamente, direcionando a câmera fotográ�ca de seu smartphone ou tablet para o QR code. Em alguns dispositivos é necessário ter instalado um leitor de QR code, que pode ser adquirido gratuitamente em lojas de aplicativos. Vídeos em QR code! SUMÁRIO Agora é possível acessar os vídeos do livro por meio de QR codes (códigos de barras) presentes no início de cada seção de capítulo. Acesse os vídeos automaticamente, direcionando a câmera fotográ�ca de seu smartphone ou tablet para o QR code. Em alguns dispositivos é necessário ter instalado um leitor de QR code, que pode ser adquirido gratuitamente em lojas de aplicativos. Vídeos em QR code! 1 Desenvolvendo a consciência do corpo 9 1.1 Reflexões sobre o corpo 9 1.2 Conhecendo o corpo 15 1.3 O corpo brinca 22 2 Linguagem do corpo 30 2.1 Gesto 30 2.2 Sons 37 2.3 Expressividade 41 3 O movimento: Laban e seu estudo 50 3.1 Rudolf von Laban: teórico do movimento 50 3.2 Corpo e espaço 57 3.3 Outros elementos do movimento 61 4 A dança na escola 68 4.1 Linguagem da dança 68 4.2 Dança como área de conhecimento 73 4.3 Caminhos para a dança na escola 80 5 A dança no século XXI 88 5.1 Dança e tecnologia 88 5.2 Movimento e mídia 98 5.3 O corpo na cibercultura 104 Este livro pretende estimular a reflexão e a criatividade dos profissionais que trabalham com as linguagens artísticas, especialmente com a dança, nas diversas instituições de ensino do país. Todos que estão envolvidos com a educação dessas linguagens deveriam se perguntar, com frequência, quais as contribuições e funções da arte na escola e na sociedade. Qual a função do professor nesse processo? Como é possível estimular a criação, a experimentação e a fruição da arte, dentro e fora da escola? Para ajudar a responder essas questões, o primeiro capítulo trata das concepções de corpo ao longo da história, bem como dos aspectos da motricidade humana, necessários para o desenvolvimento de habilidades cognitivas, motoras e afetivas. A partir do segundo capítulo, as questões expressivas são abordadas objetivando observar aspectos da linguagem do corpo, por meio dos estudos de teóricos que se debruçaram na compreensão do gesto, do som e da expressividade. Afinal, o ser humano percebe a si mesmo e ao outro por meio de suas relações interpessoais, usando a linguagem expressiva. O terceiro capítulo traz o teórico que estudou o movimento, Rudolf von Laban, e que continua influenciando profissionais das áreas da arte e da educação. O conhecimento da teoria e prática de Laban é praticamente obrigatório no ensino brasileiro, considerando que seus princípios estão dispostos nos Parâmetros Curriculares Nacionais de Arte. As leis que contemplam as linguagens artísticas na educação brasileira são tratadas no quarto capítulo e têm o intuito de promover a compreensão da dança como uma das linguagens artísticas que é (ou deveria ser) trabalhada na escola. Para finalizar o livro, é abordada a mudança do mundo analógico para o mundo digital, que afetou igualmente as artes e influenciou o caminho e a relação entre a dança e a tecnologia. APRESENTAÇÃO Vídeo A partir do século XXI, não é mais possível fugir da influência da conexão via rede para a criação e fruição da dança e de outras linguagens artísticas. Aos profissionais e educadores, fica o desafio de interagir, de modo mais frequente, com a tecnologia, além de propor um novo olhar estético para as artes, nas mídias contemporâneas. Desejo-lhe ótimas e novas experiências dançantes na escola! Bons estudos! Desenvolvendo a consciência do corpo 9 1 Desenvolvendo a consciência do corpo Estudar, compreender, refletir sobre o corpo é o mesmo que desvendar a história. As concepções de corpo, assim como a cul- tura e a sociedade, transformaram-se ao longo do tempo. Neste capítulo veremos algumas delas de acordo com o contexto históri- co, além de aspectos da motricidade humana que são necessários para o desenvolvimento de habilidades cognitivas, motoras e afe- tivas. Para finalizar o capítulo, vamos ver de que forma podemos compreender melhor nosso corpo por meio de atividades lúdicas que estimulam o desenvolvimento humano. 1.1 Reflexões sobre o corpo Vídeo Imagine que você passou algumas horas estudando, lendo e assis- tindo videoaulas na frente do seu computador, ou em uma outra tela qualquer, como em um celular, um tablet ou uma televisão. Em algum momento é possível que se sinta desconfortável, comece a perceber alguma dor e queira trocar de posição. Estar sedentário por algumas horas não significa que esquecemos as partes do nosso corpo, porque ele nos dá sinais da nossa existência física. Aliás, a tarefa intelectual (ler, refletir, por exemplo) não acontece além do seu corpo, ela é igualmen- te corpórea, embora outros recursos corporais (cog- nitivos e emocionais) é que sejam ativados. Dito isso, perceber e reconhecer-se no corpo não é privilégio de bailarinos ou atletas, só porque são menos sedentários. Todos nós podemos 1 nos reconhecer corporalmente, porém, historicamente, separamos os sentidos do resto do corpo e, ainda hoje, colocamo-nos em uma visão dualista, tendo 1 No sentido de sermos respon- sáveis por esse reconhecimento corpóreo que, às vezes, não acontece por simples negligên- cia ou, ainda, por problemas mais graves de saúde mental. Não entrarei no mérito de pato- logias relacionadas ao corpo. 10 Corpo, dança, expressão e movimento que explicar de que corpo (humano) estamos falando, como se corpo e alma, cérebro e resto do corpo estivessem divididos. O termo corpo vem do latim corpus e significa a estrutura física, ana- tômica de um ser humano ou animal. Esse termo tem váriossignifi- cados, além de corpo humano, por exemplo, corpo docente, que se refere a um grupo específico, ou corpo de uma letra, que designa o tamanho de uma fonte, como Arial 12pt. Segundo Dagognet (1992 apud GREINER, 2005), o corpo sempre foi sinônimo de cadáver, algo morto, físico, em oposição à alma ou anima. A civilização grega, considerada o berço da civilização ocidental, utiliza- va o termo soma para designar corpo sem considerar funções psíqui- cas, tendo outro termo para simbolizar o corpo vivo. Provavelmente, desde a civilização grega é que essa visão separada de corpo físico e mental tenha se construído no mundo ocidental. 1.1.1 O corpo e a civilização grega Três grandes filósofos gregos influenciaram a cultura ocidental e nos deixaram o legado de uma das primeiras concepções de corpo, estruturada histórica e filosoficamente: Sócrates, Platão e Aristóteles. Segundo De Luca (1999), esses pensadores nos deixaram as bases para a maneira como nos enxergamos. Para eles, era importante desenvolver o corpo integral. A educação nesse período foi pensada em desenvolver o corpo tanto na parte fí- sica quanto na parte mental (alma), contudo separavam-se atividades do intelecto e do exercício físico, dando maior valor ao desenvolvi- mento da alma. Embora os três filósofos citados não concordassem com a ordem a qual o corpo deveria ser educado, primeiro o físico e depois o intelecto ou vice-versa, todos valorizavam o corpo harmonio- so (por meio de atividades físicas) para abrigar a alma (pelo desenvol- vimento do intelecto). A civilização grega é repleta de registros valorizando o corpo harmo- nioso, que representava boa saúde. O corpo era construído pelo treina- mento por meio de atividades físicas em conjunto com atividades mentais. A valorização da estética corporal estava relacionada com a ca- Desenvolvendo a consciência do corpo 11 pacidade atlética, a fertilidade e a saúde. Os jogos olímpicos são um exemplo dessa valorização do corpo e da capacidade atlética do homem. “O grego desconhecia o pudor físico, o corpo era uma pro- va da criatividade dos deuses, era para ser exibido, adestrado, treinado, perfumado e referenciado, pronto a arrancar olhares de admiração e inveja dos demais mortais” (BARBOSA; MATOS; COSTA, 2011, p. 25). Contudo, o significado de apreciar o corpo ia além do narcisismo, pois, para que o homem tivesse uma vida plena, deveria cuidar de si próprio, do corpo e da mente. As atividades físicas eram primordiais para os ho- mens mostrarem suas habilidades guerreiras, especialmente nos jogos olímpicos. Da beleza ao pecado, o corpo passa a ter outra concepção devido ao cristianismo. A crença de que Deus está em toda par- te e tudo vê faz com que homens e mu- lheres cubram seus corpos, inclusive na sua intimidade. Ocultar o corpo fazia par- te do pensamento cristão, que o abominava como vestimenta da alma, esta última consi- derada aprisionada no corpo. Desse modo, a dualida- de corpo e alma é evidenciada valorizando a alma em detrimento do corpo. O bem-estar em busca da salvação e da vida eterna só poderia ser efetivado com a valorização da alma em vez dos prazeres. A educação sufoca e controla o corpo, reprimindo os desejos da carne por serem considerados pecado. Ao negar tudo que é material, o homem, como ser divino, deve controlar seu corpo e todas as tentações a que ele é submetido. Segundo Werneck (1997, p. 304), o “corpo como fonte de pecado é a causa de todos os males e da decadência humana”. 1.1.2 Corpo e Idade Média A Idade Média foi dominada pelo cristianismo, o que favoreceu o dualismo corpo e alma, ou carne e espírito. Esse período foi marcado pelas punições corporais, como o autoflagelo. Os castigos e as puni- Figura 1 Estátuas representando os corpos atléticos e harmoniosos. Discóbolo, nome da estátua à direita, na Grécia antiga era como eram chamados os atletas que arremessavam o disco. aperturesound/Shutterstock Se rg ey V as ily ev /S hu tte rs to ck . 12 Corpo, dança, expressão e movimento ções públicas eram autorizados pelas instituições religiosas, com a in- tenção de salvar a alma daquele que era punido. Esses castigos eram verdadeiros espetáculos em praça pública, desde a punição até a con- denação do réu, e todo o povo se reunia para assistir tal “ato festivo” (BARBOSA; MATOS; COSTA, 2011, p. 27). Ainda na época medieval, é possível verificar o quanto a mulher era reprimida por ser considerada bruxa. Era entendido que os demônios em corpos femininos perseguiam os homens para se apropriar de suas almas. As mulheres como símbolo de sexualidade representavam o de- mônio e muitas delas foram mortas. Desse modo, era fácil reafirmar o pecado da carne, considerando que toda mulher poderia ser bruxa e dominar o corpo do homem. m at rio sh ka /S hu tte rs to ck 1.1.3 Corpo e Renascimento O Renascimento nega os valores antigos, tornando o homem dono de si e não mais vigiado pela ordem religiosa. Junto com esse período surge uma nova visão do corpo. No Renascimento, também denomina- do de Era Moderna, havia uma preocupação em valorizar a liberdade do homem e a razão em detrimento da espiritualidade. As pinturas de Leonardo Da Vinci são exemplos de valorização e redescoberta do corpo, assim como a importância de seu estudo cien- tífico inserido no trabalho do artesão. É possível verificar tais eventos em filmes que retratam a época, como O nome da rosa. Escrito por Umberto Eco em 1980, o suspense investigativo retrata a época medieval e aborda as crenças religiosas que regiam a sociedade. Direção: Jean-Jacques Annaud. Itália; França; Alemanha: 1986. Filme Desenvolvendo a consciência do corpo 13 Foi nesse período de descobertas científicas que começaram a estu- dar o corpo por dentro e por fora, tornando-se, assim, mais um objeto de pesquisa. O corpo começou a ser analisado, des- crito e investigado em sua parte anatômica e biome- cânica. Além da teologia e da filosofia, outras ciências surgiram, como a matemática, a química e a biologia. A referência da antiguidade clássica influenciou a visão de corpo no Renascimento e favoreceu não só o corpo saudável e harmonioso, valorizando a ativi- dade física, como o dualismo corpo-alma. Descartes é considerado o filósofo que instaurou e validou a no- ção de corpo. Para ele, o homem consistia em duas partes: uma tratava-se da razão, do pensamento, da alma; e a outra tratava-se da matéria, o corpo distinto da alma. A razão torna-se mais importante, sendo o corpo seu servo. A aristocracia fazia atividade física por prazer e para aperfeiçoar a saúde do corpo, enquanto os tra- balhadores usavam seus corpos para serviços mais pesados: agricultura, artesanato, malabarismo, arte e servidão à corte. Por esse motivo, os trabalhos corporais foram validando o pensamento de que a razão prevalece sobre o corpo. 1.1.4 Corpo e indústria À medida que as sociedades foram crescendo, a produção agrícola se ampliou, o comércio se expandiu e as grandes indústrias começam a ser criadas. A Era Industrial surgiu com uma nova concepção de corpo: o corpo como uma máquina. A Revolução Industrial colaborou com o acúmulo de capital e o corpo trabalhava como fonte de energia para favorecer esse processo. Os movimentos corporais eram regidos pelo tempo e espaço da indústria, um corpo manipulável e oprimido. Com o aumento das indústrias, surgiu a necessidade de mão de obra especializada, portanto precisavam fazer escolas para os traba- lhadores além daquelas voltadas só para a elite. O ensino teve que ser ampliado para o bem da indústria. Assim, a educação do corpo discipli- nado surge para poder servir às necessidades do mundo do trabalho. Figura 2 Homem Vitruviano – Leonardo da Vinci. Re ee d/ Sh ut te rs to ck 14 Corpo, dança, expressão e movimento O século XIX foi impactado pelas mudanças da Revolução Indus- trial e suas transformações sócio-históricas, como: a ampliação de técnicas agrícolas, a criação de novosmeios de transporte (como o navio a vapor), a substituição do carvão pelo petróleo e pela eletrici- dade. Para isso era necessário mais trabalhadores, aumento do ho- rário de trabalho e mais mão de obra especializada. Nesse contexto, mulheres e crianças eram igualmente exploradas para o trabalho na indústria, fortalecendo a visão de corpo como máquina geradora de energia para produção do capital. O século XX foi marcado por duas guerras mundiais, e uma grande transformação na concepção de corpo ocorreu, especialmente após a Segunda Guerra. Depois de anos reprimindo dores da guerra, o corpo passsou a contesta, libertar-se e clamar por mudança. Assim, algumas manifestações são lembradas até hoje, como o movimento de libertação das mulheres, de valorização dos negros, dos hippies e dos índios. É a mesma época do rock and roll, que pregava amor livre, drogas e sexo. O corpo estava se libertando de amarras históricas, mostrando tudo o que estava reprimido de uma forma explícita e pública. Usar roupas soltas, pegar carona, fumar, namorar, eram atitudes que indicavam uma liber- tação corporal. Independentemente de juízo de valor (certo ou errado, feio ou bonito), era a concepção de corpo que estava reprimida na socie- dade há séculos e encontrou caminhos para ser exteriorizada. Qualquer que seja a época histórica e quanto mais tentamos compreender as concepções de corpo em suas diferentes culturas, é possível perceber a necessidade do ser humano em explicar a diferen- ça daquilo que é matéria – o corpo como carne, “casca” ou “armadura” – para algo que não se pode enxergar imediatamente, a alma – o senti- mento, o pensamento, a história que aquele corpo conta, mesmo que sua intenção seja uma visão de corpo integral. 1.1.5 Corpomídia A teoria de corpo denominada corpomídia foi proposta por Christine Greiner e Helena Katz no início do século XXI. As duas autoras, envol- vidas no mundo da dança e da comunicação, apropriaram-se dessas ciências para criar sua concepção de corpo, baseando-se na teoria da A intenção deste texto é mostrar quanto a noção de corpo muda de acordo com a transformação da sociedade ao longo da história. Atenção Desenvolvendo a consciência do corpo 15 evolução e da comunicação. A dança é compreendida como linguagem do corpo e, por isso, é difícil de ser explicada em palavras. Portanto, essa concepção foi bastante difundida e aceita entre a área da dança na primeira década do século XXI. Para as autoras, o corpo não é um recipiente onde guardam-se in- formações, tampouco um meio pelo qual a informação passa, como se fosse um meio de transmissão. Toda informação que recebemos está em constante troca e transformação com aquelas referências que pos- suímos. Com base nessecruzamento de informação é que o corpo se torna o que é: a mídia de si mesmo, por meio das trocas de mensagens recebidas, enviadas e processadas. Imagine que você está recebendo uma informação nova, por exem- plo, a concepção corpomídia. Porém, você já conhece outras refe- rências a respeito de concepções de corpo e, à medida que escolhe processar esse cruzamento de novas mensagens percebidas e trans- formar em nova informação, seu corpo ressignifica suas referências. É um processo cognitivo que tem origem na motricidade, então o corpo remodela seu modus operandi e sua maneira de agir. O corpomídia faz parte de um processo evolutivo que seleciona as informações que vão construindo o corpo, transmitidas pelo processo de contaminação. Essa concepção de corpo é apenas um exemplo para tentar explicar em palavras, mais uma vez, algo que vários pesquisadores trabalham até hoje para fazer. Não há dúvidas que somos historicamente conta- minados pelo conceito de corpo separado da mente e que o nosso dis- curso, por mais integral que tente ser, ainda é dualista, legado deixado pelos filósofos gregos e base do pensamento ocidental. Imagine que você está com gripe e vai trabalhar. Seu corpo está contaminado com uma infor- mação (biológica, fisiológica, emocional, cognitiva, motora), no caso, um vírus (que represen- ta, neste texto, uma mensagem e um significado). Quando seu colega de trabalho chega perto de você e é contaminado por essa informação, o corpo dele percebe a mensagem e processa de outro modo, podendo ou não ter os mesmos sintomas. De qualquer forma, seu colega foi contaminado com uma informa- ção nova, que será ressignificada naquele corpo. Exemplo 1.2 Conhecendo o corpo Vídeo O conhecimento do corpo está relacionado aos estímulos externos que geram ações, ou seja, geram o movimento, por exemplo, observar, olhar e sentir. O movimento é considerado o principal elemento para o crescimento e o desenvolvimento do ser humano (BUENO, 1998). Toda ação está relacionada a um movimento, assim como todo movimento está relacionado a uma ação com significado. 16 Corpo, dança, expressão e movimento Mesmo as nossas primeiras ações, aquelas que não temos controle, chamadas de atos reflexos, são responsáveis pela origem de nossas fu- turas ações, voluntárias e conscientes. Um exemplo de ação reflexa é quando tomamos um choque na tomada. Imediatamente, nosso corpo responde, retraindo os músculos e sentindo a dor e o susto do choque. Isso acontece automaticamente, antes de a mensagem ir para o cérebro e, por isso, é denominada de ação incons- ciente ou reflexa. Essas ações, mesmo fugindo ao nosso controle, fazem parte da nossa percepção de sobrevivên- cia. Ao tropeçar em uma fogueira e cair com as mãos em cima dela, temos a mesma resposta rápida de movimento reflexo que faz parte da nossa sobrevivência, pois não quere- mos que aquela dor continue e que o fogo atinja o resto do corpo. Então, uma ação reflexa é involuntária, ou seja, uma resposta rápida a um estímulo, mas é precursora de nossas ações motoras conscientes. Outro exemplo de ação reflexa é quando o médico toca no seu joe- lho com um martelinho de borracha. A perna se move para cima no sentido de esticar o joelho, antes mesmo de você pensar na ação, O mesmo ocorre quando um bebê usa a mão para prender o dedo de um adulto, está utilizando o reflexo de preensão, o que irá ajudá-lo futura- mente a manipular objetos. Figura 3 Movimentos reflexos M on gk ol ch on /S tu di o 72 /S hu tte rs to ck Os exemplos vistos até aqui são de movimentos reflexos. Para que o bebê e a criança comecem a ter uma consciência do corpo, das WAYHOME studio/Shutterstock Desenvolvendo a consciência do corpo 17 suas ações físicas, intelectuais, sociais e emocionais, é de fundamen- tal importância o estímulo psicomotor que se dá, especialmente, do nascimento até os 8 anos aproximadamente. Veremos a seguir alguns aspectos da psicomotricidade que colaboram para o reconhecimento e o desenvolvimento das ações motoras voluntárias, ou seja, movimen- tos conscientes. Os conceitos funcionais da psicomotricidade são aque- les que conseguimos medir e perceber se o ser humano está integrado em um espaço e um tempo adequados para sua idade. Todo “professor deve considerar o desenvolvimento motor da crian- ça, observar suas ações físicas e habilidades naturais” (BRASIL, 1997, p. 49). Dessa maneira, é possível capacitar o corpo para o movimento, ampliar o vocabulário motor e dar sentido às potencialidades das crian- ças e dos jovens. 1.2.1 Coordenação dinâmica global A coordenação dinâmica global 2 está relacionada ao controle dos movimentos amplos do corpo. “Sua função é permitir, da forma mais eficaz e econômica possível, movimentos que interessam a vários segmentos corporais, implicados em um gesto ou em uma atitude” (BUENO, 1998, p. 51). A coordenação dinâmica global pode ser estática ou dinâmica. A coordenação estática está relacionada a movimentos que permitem a conservação de certa atitude, por exemplo, ao imitar uma estátua, fa- zer uma pose ou esperar imóvel. A coordenação dinâmica é utilizada para executar movimentos que exigem mais de um grupo muscular trabalhando ao mesmotempo, por exemplo: correr, saltar, arremessar, engatinhar, rastejar, rolar etc. A intenção desta seção é compreender que a parte psicomotora está interligada ao reconhecimento do corpo, do eu e das escolhas motoras. Não cabe aqui falar da psicomotri- cidade em si, mas como essas características psicomotoras colaboram para podermos ajudar a criança por meio de estímulos de reconhecimento pessoal, interpessoal e formação da sua identidade corporal. Atenção Podem ser encontradas nomenclaturas diferentes como: coordenação dinâmica geral (LE BOULCH, 2001), ou simplesmen- te coordenação motora. 2 Figura 4 Crianças correndo. M on ke y B us in es s Im ag es /S hu tte rs to ck 18 Corpo, dança, expressão e movimento 1.2.2 Coordenação motora fina Quando a criança consegue controlar pequenos músculos (mãos, dedos, boca, olhos) para fazer atividades específicas e exercícios re- finados, como encaixar, colar e recortar, ela está envolvida com a coordenação motora fina. A relação olho-mão, conhecida como coordenação visomotora, é quando a criança consegue controlar movimentos pelo olhar. Para desenhar uma linha, por exemplo, é preciso acompanhar o lápis com os olhos. Para rabiscar, pintar, encaixar, observar e explorar, é preci- so mover esses pequenos músculos. Esse tipo de estímulo vai favorecer o desenvolvimento da grafia e colaborar para a construção da identidade da criança, que começa a ter maior autonomia ao conseguir pegar a própria comida com o talher, por exemplo. 1.2.3 Tônus, postura e equilíbrio O tônus muscular refere-se à resistência de um músculo durante uma ação. Quando tocamos um músculo, percebemos pelo nosso tato se ele está muito firme, ou seja, se a resistência à distensão é elevada, o que é denominado de hipertonia. Já o contrário, a chamada hipotonia ocorre quando percebemos o músculo flácido, ou seja, a resistência à distensão é baixa. O tônus muscular nos dá a capacidade de manter a postura e o equilíbrio corporal. A postura está diretamente relacionada ao tônus e constitui uma unidade tônico-postural (BUENO, 1998). É o tônus que ajuda a criança a ficar em determinadas posições: em pé, sentada, deitada. Para cada ação corporal, há uma postura ou uma mudança de posturas que são definidas com a ajuda da energia tônica canalizada para tal ação. O in- divíduo deve ser capaz de dominar cada postura para poder executar a ação pretendida, e o tônus é o responsável pela manutenção postural. O equilíbrio compreende a noção de distribuição do peso corporal em relação ao espaço, ao tempo e ao eixo de gravidade. Para Bueno (1998), é a base para a coordenação dinâmica global. Há dois tipos de equilíbrio: o estático e o dinâmico, sendo o primeiro mais difícil por exigir maior concentração e controle. Dominar o equilíbrio estático significa saber controlar sua postura. Já o equilíbrio dinâmico relacio- Figura 5 Bebê utilizando sozinho o talher. Ole.CNX/Shutte rstoc k Desenvolvendo a consciência do corpo 19 na-se com o centro de gravidade e com o domínio do tônus e da pos- tura. O aparelho vestibular é o responsável por manter as sensações relacionadas ao equilíbrio, incluindo a posição ereta. “Na evolução psi- comotora da criança é necessário que ela tome consciência do seu con- tato com o solo e com a mobilidade da articulação do pé e do tornozelo para uma boa progressão do equilíbrio” (BUENO, 1998, p. 56). Figura 6 Crianças praticando exercício de equilíbrio. Da vid T ad ev os ia n/ Sh ut te rs to ck 1.2.4 Esquema e imagem corporal Segundo Bueno (1998), algumas pessoas acabam compreendendo esquema e imagem corporal como termos sinônimos. Porém, o esque- ma corporal está relacionado à percepção das partes do corpo e suas funções. A personalidade da criança é formada pela compreensão e percepção do seu esquema corporal, por isso é indispensável para o equilíbrio das funções psicomotoras. A ação é uma linguagem funda- mental, pois por meio dela o indivíduo se comunica com o mundo. Des- se modo, o esquema corporal faz parte do resultado das experiências corporais (ações) que vão criando a consciência de si e da relação com o meio. A imagem corporal é a percepção que a pessoa tem de si mesma, e não somente de suas funções motoras. A imagem corporal, para Schilder (1963 apud FONSECA, 2008), refere-se a uma relação perma- aparelho vestibular: conjunto de órgãos do ouvido interno, orgão sensorial responsável pelo equilíbrio e pelos estímulos auditivos. Glossário 20 Corpo, dança, expressão e movimento nente com a história motora, afetiva e cognitiva. É por meio dessa inter- -relação que o indivíduo vai se estruturando e reestruturando de modo contínuo ao longo da vida. Perceber o corpo como baixo ou alto e ter consciência de si e de suas capacidades e habilidades ajudam no desenvolvimento da identidade da criança. A imagem corporal, a identidade, o esquema corporal são construídos por meio das experiências com o outro. Muitas vezes, a visão de nós mes- mos se dá no processo relacional, em nosso investimento no outro e no investimento do outro em nós. As novas percepções de mim mesmo e da minha relação com o outro e o meio se tornam constantes a cada ação psicomotora e desenvolvendo a maturidade biopsicossocial do ser no mundo. 1.2.5 Organização espacial e temporal De acordo com Bueno (1998), é difícil compreender a noção de es- paço, de tempo e de corpo separadamente, pois o corpo ocupa um espaço em determinado tempo. É pelo nosso corpo que a percepção de espaço e tempo se desenvolvem. A organização espacial é a capacidade de tomar consciência da si- tuação das coisas entre si. As noções de direção, de distância, de mo- vimentar coisas de um lugar para outro ou de organizá-las colaboram para a compreensão da percepção espacia. Pe organização espacial, a criança aprende a se situar na sua casa, na escola, nos caminhos que percorre e nos locais que frequenta. A percepção espacial ocorre, em um primeiro momento, funda- mentada na referência do próprio corpo; é uma noção egocêntrica, pessoal e se organiza de acordo com a experiência do esquema corpo- ral. Piaget denominava essa fase de pré-operacional, em que a criança é mais egocêntrica e pensa que tudo que lhe acontece está relacionado com suas vontades. Já Wallon 3 chamava essa fase (entre os 5 e 6 anos) de personalística, que é quando a criança evolui por si, desenvolvendo sua identidade (BUENO, 1998). A percepção temporal está totalmente relacionada à noção espa- cial. O tempo, por sua vez, é algo mais abstrato, que não pode ser ob- jetivado e percebido como o espaço, mas pode ser expresso pelo som. Figura 7 Bebê observando sua ima- gem refletida no espelho. ARTYOORAN/Shutterstock Jean Piaget centrou seus estudos na importância do movimento para formação da inteligência. Para saber mais, algumas obras deste autor estão disponíveis na internet para download, gratuitamente. Disponível em: https://www. livrosgratis.com.br/ler-livro- -online-119943/jean-piaget. Acesso em: 5 jan. 2021. Saiba mais Henri Paul Hyacinthe Wallon foi filósofo, médico e psicólogo. Ele também baseou seus estudos no desenvolvimento cognitivo. Para Wallon, a motricidade, a afetivi- dade e a cognição têm a mesma importância, criticando estudos anteriores que privilegiavam a compreensão do aspeto motor ou cognitivo. 3 https://www.livrosgratis.com.br/ler-livro-online-119943/jean-piaget https://www.livrosgratis.com.br/ler-livro-online-119943/jean-piaget https://www.livrosgratis.com.br/ler-livro-online-119943/jean-piaget Desenvolvendo a consciência do corpo 21 De acordo com Bueno (1998), a organização temporal é a capacida- de de: Perceber a ordem dos acontecimentos Perceber a duração de intervalos de tempo Compreender os ciclos que se renovam Compreender como o tempo é irreversível Antes, depois, durante. Hora, minuto, andar, correr, acelerar, frear. Estações do ano, dias da semana, meses, anos. Envelhecimento, plantas,animais, pessoas. Vamos ver algumas situações para exemplificar o desenvolvimento de noção do tempo: • Uma criança viajando de carro com os pais normalmente per- gunta várias vezes: “estamos chegando?”, “falta muito?”, “já chegamos?”. • Uma criança conta uma história e diz: “eu fui brincar na casa do tio João, amanhã”, “Nós vamos ver a vovó, ontem?”. Várias atividades são desenvolvidas na educação infantil para que a criança consiga desenvolver a organização temporal. Pode-se pedir para observar uma plantinha nascendo ou fazer um calendário e deixar desenhado na sala, com os dias da semana indicando os aniversários. O exercício rítmico é uma das formas de explorar a noção de tempo, assim como outras formas de conscientização corporal. Para perceber o ritmo, é necessário explorar o espaço ao redor com o próprio corpo. Fazer atividades rítmicas com música e explorar o ritmo natural favore- ce o desenvolvimento da noção rítmica. Para Bueno (1998, p. 67), a praxia do ritmo, ou seja, a capacidade de reproduzir estrutu- ras rítmicas pela noção da evolução dos fenômenos temporais com domínio da sucessão dos elementos constituintes de uma estrutura rítmica homogênea, só é obtida com grande vivência corporal do ritmo em relação a si primeiramente e depois em relação ao outro. Vimos até agora como é importante o desenvolvimento de algumas habilidades da criança para que ela consiga compreender-se como ser 22 Corpo, dança, expressão e movimento no mundo: coordenação dinâmica global, coordenação motora fina, tônus, postura, equilíbrio, imagem e esquema corporal, organização es- pacial e temporal. Além disso, não podemos esquecer outros fatores do desenvolvimento, como a percepção dos sentidos (audição, visão, tato, olfato, paladar) e os conceitos que tratam da interação do eu com o mun- do (expressão, comunicação, afetividade). Esses aspectos irão construir a identidade da criança, suas habilidades, capacidades motoras, cognitivas e afetivas, por meio de jogos e brincadeiras por ela experienciados. 1.3 O corpo brinca Vídeo Quando nascemos, não somos ainda civilizados, no sentido de não sermos conscientes das regras sociais a nossa volta. À medida que vamos crescendo, aprendemos que algumas ações não podem acon- tecer em determinados lugares. Assim, o corpo começa, desde cedo, a aprender como se mover em determinadas situações. Essas regras são essenciais para manter a sociedade organizada, contudo, algumas crianças, especialmente as menores de 5 anos, desobedecem algumas delas, como ao pegar algo ao seu alcance no mercado ou na farmácia sem avisar os pais. Propositalmente, os mercados, bancas, mercearias e estabele- cimentos em que as crianças costumam ir com um adulto têm mer- cadorias que as atraem, como balas, pirulitos, biscoitos, bichinhos e personagens da moda. As crianças não levam balas para casa sem pa- gar no intuito de roubar, porque para elas não é errado levar embora, até que alguém explique como e por que aquilo pode ou não ser feito, ou seja, até que ela compreenda a regra social em vigor. Depois que a criança começa a entender que as coisas têm valor e que não é possível simplesmente pegar e levar embora, ela começa a mostrar para o adulto aquilo que quer levar/comprar. Nesse caso, tem outra regra que ela desconhece: não fazer escândalo em lugares públicos. Quantas vezes vemos crianças no mercado ou na mercearia chorando, gritando, fazendo uma cena por ter sido contrariada? Não estamos questionando aqui se isso é recorrente, se a criança é mimada ou se a culpa é do adulto que está junto, mas dando um exemplo de uma situação que pode acontecer ao menos uma vez na vida dessa criança até ela descobrir que também há uma regra social para isso. Imagine você nessas duas situações com uma criança, o que você faria? Iria ensinar o que é certo? Ou falaria que não pode e explicaria o porquê? Indepen- dentemente de sua resposta, a criança seria repreendida de alguma forma e sua ação seria tolhida. Claro que essas situações são exemplos extremos de como o corpo pode ser reprimido. Porém, isso é mais comum do que imaginamos. Para refletir Desenvolvendo a consciência do corpo 23 Podemos perceber que em qualquer lugar, como escola, igreja, tra- balho, ou casa de parentes, nossos movimentos são, de alguma ma- neira, reprimidos. Uma das maneiras de estimular a ação corpórea e ao mesmo tempo ensinar regras sociais para as crianças é por meio de jogos e brincadeiras. A criança aprende dessa maneira e começa a resolver problemas individualmente e/ou em grupo. Brincar no escor- regador sozinha, mas sob supervisão de um adulto, é uma maneira de experimentar uma sensação nova e individual. Participar de um jogo ou de uma brincadeira que exija a cooperação em equipe é outra for- ma de aprender a resolver problemas. O estímulo das habilidades motoras faz parte do aprendizado da criança e favorece não só a parte motora, mas afetiva e cognitiva. Con- siderando que as crianças do século XXI estão cada dia mais vivendo “dentro” de telas individuais de smartphones, tablets e outros dispo- sitivos, é de responsabilidade do adulto, seja tutor, mãe ou professor, estimular experiências motoras, lúdicas e criativas. 1.3.1 Brincadeira de criança Atualmente está cada vez mais difícil ver crianças brincando. Por que isso acontece? Primeiro porque muitas não moram mais em casas, que são locais com espaços abertos. Um pedaço de grama ou de calça- da já seria o suficiente para a criança espalhar alguns objetos para brin- car. Os edifícios nem sempre têm área comum, como quadra, jardim ou churrasqueira. Os espaços encolheram, assim como os movimentos corporais, fazendo com que as crianças brinquem na escola, no parque ou em casa de parentes e amigos. Por esse motivo, o horário de recreio (intervalo) na escola é ansiosamente esperado, mesmo em dias de chuva, considerando que nesse lugar as crianças têm mais espaço aberto para se mover e ainda assim são controladas por adul- tos: espaço e segurança no mesmo lugar. Figura 8 Crianças brincando de cabo de guerra. Ro be rt Kn es ch ke /S hu tte rs to ck 24 Corpo, dança, expressão e movimento Outro motivo por que as crianças não brincam mais como antiga- mente é devido à insegurança que os pais têm em deixá-las brincarem na rua ou na pracinha devido à violência urbana. Isso acaba diminuindo as interações sociais entre vizinhos, amigos de bairro ou de rua. Algu- mas crianças em cidades pequenas, normalmente conseguem experi- mentar formas diferentes de brincar, explorando mais sua capacidade corporal do que as que vivem em grandes centros urbanos. O videogame, o smartphone e a internet começaram a se tornar as melhores opções de brincadeira para aqueles que vivem em espaços pequenos e violentos, o que dificulta não só a movimentação corpórea e expressiva da criança e do futuro adulto, mas de seu processo de desenvolvimento afetivo, emocional e social. Além disso, crianças que não podem sair de casa enquanto os adultos estão trabalhando podem enfrentar outros problemas de saúde, como a obesidade 4 . Figura 9 Menina jogando videogame. Af ric a St ud io /S hu tte rs to ck O papel do adulto, para que a criança comece a desenvolver sua coordenação global na idade pré-escolar, consiste em transmitir afeto e segurança enquanto ela tenta descobrir formas de resolver os proble- mas propostos em determinadas brincadeiras. Na escola, o professor deve saber intervir, sem dar a resposta. As crianças menores de 5 anos podem ter mais dificuldades de compreender a brincadeira ou a situa- ção-problema 5 do que crianças maiores. É possível dar exemplos ges- tuais, verbalizar outra instrução ou mostrar um exemplo de finalização do processo, mas nunca dos caminhos que a criança deve tomar para chegar ao resultado, estes devem ser conquistados por ela. Não cabe aqui discutir os pro- blemas de saúde que podem ser causados. São apenas exemplos para deixar os adultos e respon-sáveis atentos. Os profissionais da educação devem, igualmente, ter um olhar apurado para esse tipo de situação. 4 Uma situação-problema consiste em “colocar a criança em uma tarefa bem definida, onde deverá encontrar uma resposta através de ajustamentos progressivos, permitindo-lhe assim a descoberta de uma nova praxia. (...) Praxia – conjunto de movimentos coordenados com uma finalidade determinada” (LE BOULCH, 2001, p. 150). 5 Desenvolvendo a consciência do corpo 25 “É a imaginação da criança que cria suas próprias experiências” (LE BOULCH, 2001, p. 149). Quando sugerimos jogos ou brincadeiras que estimulam a motricidade da criança, nem sempre é o gesto ou o movi- mento que importa como resposta, mas a pesquisa que a criança fez até chegar àquele resultado. O professor precisa saber orientar e dei- xar a criança explorar o corpo, o movimento e a expressividade para colaborar em seu desenvolvimento. A seguir, alguns exemplos (não são fórmulas prontas) de brincadeiras que podem ser utilizadas para esti- mular as habilidades biopsicossociais da criança. 1.3.2 Jogos e brincadeiras É possível encontrar muitos exemplos de brincadeiras 6 que explo- ram o corpo e ajudam na descoberta e tomada de consciência. Para que isso aconteça, precisamos começar do simples para o mais com- plexo, assim como nas fases de um videogame. Primeiro, devemos per- mitir que a criança reconheça as partes essenciais do corpo e depois as diferentes. Mobilizar a cabeça, o tronco, os braços e as pernas por meio da verbalização pode ser um começo. Depois pode-se explorar a face e suas partes: boca, testa, bochecha, orelha, acessórios de orelha e ir di- ficultando. À medida que a exploração corporal vai se desenvolvendo, a criança começa a descobrir seu próprio vocabulário motor, assim como a consciência do corpo, a noção de eixo corporal, o equilíbrio e o tônus começam a ficar mais precisos. A verbalização das partes do corpo co- labora com o desenvolvimento da linguagem e da fala. A brincadeira de estátua pode ser utilizada para o desenvolvimento da linguagem, assim como para o desenvolvimento do equilí- brio, tônus e postura. Brincar de estátua consiste em mover-se com um comando específico e ficar para- do em outro. Normalmente, é utilizado um som enquanto o indivíduo se move, estimulando a percepção auditiva e, ao pausar o som, o mo- vimento para, como uma estátua, mantendo a postura, o tônus e o equilíbrio. Deixar a criança se expressar verbalmente, além de corporalmente, faz parte do desenvolvimen- to infantil, por isso escutá-la e interagir ver- balmente é tão importante quanto a interação não verbal. Os jogos e brincadeiras sugeridos são baseados em LE BOULCH (2001) 6 Figura 10 Crianças brincando de estátua. Ia ko v F ili m on ov /S hu tte rs to ck 26 Corpo, dança, expressão e movimento As brincadeiras de saltos e transposição de obstáculos são boas para trabalhar a coordenação motora global. Uma sugestão seria dese- nhar formas no chão (círculos) e pedir para que as crianças pulassem dentro delas. Deixe que elas descubram de qual maneira fica mais fácil pular: com dois pés, com um pé, com mais ou menos impulso. Para ir dificultando a brincadeira, o espaço entre as formas pode ir mudando e formando circuitos diferentes. Esse tipo de brincadeira lembra muito uma brincadeira antiga cha- mada amarelinha. Depois que o desenho da brincadeira já está no chão, a criança tem que pensar no espaço que vai saltar, depois de arremessar um objeto na casa específica. Lançar e saltar são exemplos de movimentos que estimulam a coordenação motora global. É possível aproveitar a brincadeira da amarelinha para pro- por novos desafios, como estimular a coordenação motora fina por meio do desenho (montagem) da brincadeira. Pe- dir para que as crianças saltem e lancem o objeto dentro da casa que vai pular, de maneiras variadas, é um exem- plo de exploração das partes do corpo. Quanto mais estudamos os aspectos psicomotores e o desenvolvimento humano, mais temos a noção de que eles estão interligados intrinsecamente. É possível anali- sar uma única brincadeira, como a da estátua, por meio de vários aspectos psicomotores dependendo do nível de maturação corporal 7 . Por exemplo, quando a criança cessa o movimento, ela tem que parar em uma postura es- pecífica. Para mantê-la, ela precisa ativar músculos específi- cos, trabalhando o tônus e o equilíbrio. Enquanto a criança se move, se tiver o som de uma música ou algum comando, ela deve estar atenta pela percepção visual e auditiva para saber que horas terá outro comando da brincadeira. Esses exemplos são de brincadeiras de criança que estão se per- dendo com o tempo, devido ao meio tecnológico que as crianças têm sido expostas. Esse tipo de brincadeira, como amarelinha, pega-pega, esconde-esconde, entre outras, são praticadas nas escolas, por terem mais espaço e ser um ambiente controlado, isto é, os professores estão acompanhando e o local é, teoricamente, mais seguro. Figura 11 Crianças brincando de amarelinha. New Africa/Shutterstock Nem sempre a idade da criança está relacionada ao nível de maturação corporal. Para poder- mos incluir os indivíduos e suas habilidades, devemos saber em qual nível de maturação corporal se encontram. 7 Desenvolvendo a consciência do corpo 27 Contudo, as crianças quando ficam em suas moradias, muitas vezes não têm espaço suficiente para brincar ou são proibidas de brincar em determinados lugares da casa ou da área comum de edifícios e condo- mínios. Primeiro porque nem todas as crianças moram em casa, por- tanto os movimentos já são naturalmente mais contidos. Além disso, aquelas que moram em casa, não têm necessariamente um lugar que seja grande e adequado para brincadeiras. São inúmeras situações que dizem respeito à segurança, prevenção de acidentes, aos tipos de mo- radia, de classe social, entre outras. Qualquer que seja a situação de não se utilizar muito as brincadei- ras de criança mais antigas, o fato é que as crianças gostam de brin- car de games, utilizar tablets ou ficar brincando nos smartphones, e não podemos simplesmente julgar, mas devemos saber refletir sobre cada situação e, ao mesmo tempo, adaptarmo-nos ao contexto atual. A tecnologia veio para facilitar muitas coisas e dificultar outras. Por exemplo, não há nada melhor para conter movimentos corporais do que deixar a criança sentada em frente a uma tela, sem supervisão de adulto, como se lá estivesse mais segura. O melhor caminho para o professor seria adaptar-se e incluir em suas aulas e brincadeiras a tecnologia a favor do desenvolvimento hu- mano e das habilidades motoras, cognitivas e afetivas. Para crianças maiores, por exemplo, pode-se utilizar alguns aplica- tivos de perguntas e respostas durante uma gincana. A gincana é um tipo de brincadeira em que algumas equipes são submetidas a várias provas de habilidades. As equipes podem ser bem democráticas e in- cluir crianças de todas as idades. A sugestão em utilizar os smartphones pode ser para ler códigos QR ou para responder certas questões antes de completar determinada prova. Outro caminho que o professor pode aderir seria adaptar as brin- cadeiras antigas ao uso de tecnologia, de acordo com a turma. Pre- cisamos ter em mente e respeitar as condições de todos os tipos de alunos e turmas. Afinal, nem todos os alunos são familiarizados com a tecnologia e é preciso ter cuidado ao adaptar certas brincadeiras para não causar outros problemas de competição entre eles. Seja qual for o tipo de brincadeira que o professor queira propor, é imprescindível uma leitura minuciosa da turma para poder fazer as adaptações necessárias, com ou sem tecnologia. Além disso, o estímulo código QR: é um exemplo de código de barras que contém certo tipo de informação: um link, um preço, uma pergunta, uma imagem etc. Ele pode ser lido por meio da câmera de um dispositivo móvel. Atualmente, os smartphones já vêm com essetipo de função. Glossário 28 Corpo, dança, expressão e movimento ao desenvolvimento motor, cognitivo e afetivo deve sempre ser consi- derado. Os adultos, professores, pais, tutores são os responsáveis pela formação da próxima geração. Para refletir Você lembra quais brincadeiras participava quando era criança? Brincava na rua, em casa, na escola, onde? A brincadeira que veio à memória chamava-se pular elástico, e eu brincava na escola entre as amigas, os meninos não partici- pavam. E você? CONSIDERAÇÕES FINAIS Este capítulo buscou compreender o corpo por meio da história, assim como a importância em desenvolver os aspectos biológicos, psicológicos, sociais e motores. Ao longo da história, o corpo já foi cultuado e margina- lizado. É pelos registros da história e da nossa própria que vamos desen- volvendo nossa identidade e nossas habilidades. Nosso desenvolvimento como ser humano depende das nossas ações e relações com o outro e com o meio. Aprendemos a nos relacionar por meio das brincadeiras que estimulam nossos sentidos, emoções, cognição e motricidade. Cabe aos adultos (professores, tutores) estimular todos os aspectos da psico- motricidade da criança para colaborar na construção de sua identidade, lembrando a importância que a arte tem nesse processo. ATIVIDADES 1. Perceba seu corpo. Você consegue, a partir do que estudou nesta seção, escrever o que ele significa para você? 2. Qual experiência importante para seu desenvolvimento você lembra de ter vivido na infância? De que forma você acha que ela colaborou no seu desenvolvimento? 3. Pense em um exemplo de brincadeira que possa ser adaptada junto à tecnologia e descreva-a. O filme Como Estrelas na Terra: Toda Criança é Especial trata de um aluno que tem proble- mas de aprendizagem, os quais são percebidos pelo professor de artes, que é fundamental para o seu desenvolvimento motor, afetivo e cognitivo. Podemos perceber a sen- sibilidade do professor ao incluir o aluno e estimulá- -lo no desenvolvimento de suas capacidades. Direção: Aamir Khan. Índia: Aamir Khan Productions, 2007. Filme Vídeo Desenvolvendo a consciência do corpo 29 REFERÊNCIAS BARBOSA, M. R.; MATOS, P. M.; COSTA, M. E. Um olhar sobre o corpo: o corpo ontem e hoje. Psicol. Soc., Florianópolis, v. 23, n. 1, p. 24-34, abr. 2011. Disponível em: http://www. scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-71822011000100004&lng=en&nrm=i so. Acesso em: 5 jan. 2021. BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: Arte. Brasília, DF: MEC/SEF, 1997. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/ livro06.pdf. Acesso em: 5 jan. 2021. BUENO, J. M. Psicomotricidade, teoria & prática – estimulação, educação e reeducação psicomotora com atividades aquáticas. São Paulo: Editora Lovise, 1998. DE LUCA, N I. (Re)Significando o Corpo: um estudo sobre as concepções de corporeidade legitimadas pelos professores de Educação Física de uma escola pública. 1999. Dissertação (Mestrado em Educação Física) – Setor de Pos-Graduação - Universidade Federal de Santa Catarina. Santa Catarina, 1999. Disponível em: https://repositorio.ufsc.br/ handle/123456789/80561. Acesso em: 5 jan. 2021. FONSECA, V. da. Desenvolvimento psicomotor e aprendizagem. Porto Alegre: Artmed, 2008. GREINER, C. O Corpo: pistas para estudos indisciplinares. São Paulo: Annablume, 2005. LE BOULCH, J. O desenvolvimento psicomotor: do nascimento até os 6 anos - A psicocinética na idade pré-escolar. Porto Alegre: Artes Médicas, 2001. WERNECK, C. L. G. Educação Física: novos olhares sobre o corpo. In: SOUZA, E. S.; VAGO, T. M. (orgs.). Trilhas e partilhas: educação física na cultura escolar e nas práticas sociais. Belo Horizonte: Ed. 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O objetivo deste capítulo será observar aspectos da linguagem do corpo por meio dos estudos dos teóricos que se debruçaram em estudar o gesto, o som e a expressividade. 2.1 Gesto Vídeo Veja as fotos na Figura 1 e perceba o que os gestos, de cada situação, representam. A imagem A é uma imagem gestual que indica felicidade, que está tudo bem, um “ok”, positivo. Já a imagem B representa alguém que está perdendo a paciência, que está brava, irritada, indicando sen- timentos negativos em relação à dada situação. Enquanto a imagem C traz uma mulher fazendo um gesto que indica um pedido de silêncio. Figura 1 Representação de gestos Kra ken im ag es .co m /S hu tte rs to ck . WA YH OM E s tu dio /S hu tte rs t o ck Ma ste r13 05 /S hu tte rs to ck . A B C O corpo pode falar de modo verbal ou não verbal. A linguagem ver- bal é composta por códigos predeterminados: as palavras que consti- tuem o signo linguístico, sendo esses sinais verbais que mostram duas Linguagem do Corpo 31 formas de significado: um perceptível e outro inteligível. Sons e letras representam um signo perceptível da linguagem verbal. Por exemplo, a palavra gato tem como significado um determinado animal de esti- mação, mas também pode ser usada como uma gíria para indicar uma pessoa bonita. Quem nasce no Brasil comunica-se verbalmente pelo uso da língua portuguesa, já os nascidos em Londres se comunicam usando a língua inglesa. A comunicação verbal, portanto, é estabelecida por meio da linguagem que aprendemos em nosso local de origem, com sílabas, palavras, frases e regras para construção de um discurso ou texto. Quanto à comunicação não verbal, segundo alguns pesquisadores, pode ocorrer em aspectos distintos, conforme apresentado no Quadro 1. Quadro 1 Classificação de comunicação não verbal Tipo Definição Aspectos paralinguísticos (comunicação paralinguística) Estão relacionados ao som e ao silêncio. Elementos da fala como timbre, ritmo, intensidade, prosódia – entoação e pausas vocais. Aspectos cinésicos 1 (comunicação cinésica) São posturas, gestos, movimentos do corpo, expressões faciais. Aspectos proxêmicos (comunicação proxêmica) Estão relacionados ao uso do espaço - proximidade do locutor, uso do espaço corporal em relação ao meio social – vestuário, objetos que nos cercam. Fonte: Elaborado pela autora com base em Viana, 2014 e Ramos, 2007. Pode-se dizer, de acordo com o Quadro 1, que esses aspectos da lin- guagem corporal exprimem emoções, sentimentos e ideias reforçando a comunicação verbal e, às vezes, substituindo-a. Muitas vezes não percebemos o quanto a linguagem não verbal se faz presente na comunicação humana e quão importante ela é para transmitir o que queremos dizer, informar, demonstrar. Veja a seguir dois exemplos de pesquisas feitas por cientistas da comunicação. O antropólogo Ray Birdwhistell (1918-1994) considerou a comu- nicação não verbal (gestos, atitudes, postura, olhar, expressão facial, toque, vestuário etc.) responsável por 65% a 70% da transmissão de informação em uma conversa. Os outros 35% faziam parte da comuni- cação verbal (VIANA, 2014). Já Albert Mehrabian (1939 –), pioneiro em pesquisas sobre linguagem corporal, demonstrou, nos anos 1950, que os aspectos não verbais correspondiam a 93% da comunicação, sendo Do grego kinēsis+ico; relaciona- do ao estudo dos movimentos, gestos e expressões corporais. 1 Aspectos proxêmicos: termoutilizado para o estudo do espaço do indivíduo em um meio social. Glossário 32 Corpo, dança, expressão e movimento 38% relacionados aos aspectos vocais (voz, entoação e timbre), e 55% aos aspectos visuais (postura, gestos, quantidade de contatos por meio do olhar e aspecto em geral), o que significa que apenas 7% estariam relacionados, efetivamente, à linguagem verbal (língua nativa e a men- sagem por ela transmitida) (VIANA, 2014). Muitos resultados de pesquisas relacionadas à comunicação não verbal demonstram que ela representa uma porcentagem significativa na transmissão de mensagens. Por esse motivo, devemos observar e compreender os gestos, os sons e as expressões. 2.1.1 Princípios do livro O Corpo Fala Como você viu no Quadro 1, um dos tipos de comunicação não ver- bal é a de aspecto cinésico, certo? Trata-se da comunicação feita por meio de gestos, expressões, posturas. Os autores da obra O Corpo Fala, Pierre Weil e Roland Tompakow (1986), criaram quatro princípios rela- cionados à percepção cinésica na comunicação que foram denomina- dos de princípios da teoria de informação e percepção cinésica. Esses princípios são analisados dentro de situações em conjunto, e não de uma pessoa falando de modo isolado, mas interagindo com outra ou com um grupo. Não cabe aqui trazer tudo o que eles já falaram, por isso exemplificaremos com imagens dois princípios. O primeiro princí- pio será nomeado de concordância – “os componentes simultâneos das mensagens” (WEIL; TOPAKOW, 1986, p. 87) sempre concordam ou dis- cordam entre si. Então, na Figura 2 vemos que as três pessoas receben- do a mesma mensagem pela leitura de um documento, reagem com uma linguagem corporal que demonstra estarem de acordo com o lido. Figura 2 Pessoas no trabalho baranq/Shutterstock. Linguagem do Corpo 33 Já na Figura 3, as duas pessoas envolvidas com a mesma mensagem estão em desacordo. O segundo princípio é denominado de discernimento – “é possível discernir entre atitude conscientemente exteriorizada e atitude consciente ou inconsciente- mente oculta” (WEIL; TOPAKOW, 1986. p. 88). A Figura 3 mostra um homem e uma mulher discutindo. A ati- tude conscientemente exteriorizada na cena está no homem, que está com as mãos abertas em direção à mulher. Já ela responde com uma cara fechada, tendo uma atitude oculta com os braços cruzados. Claro que os autores sa- bem que não existe apenas um nível de inconsciente, mas eles deixam esse trabalho para que os profissionais da área possam explicar. Vale ressaltar que, se o corpo fala, não podemos nos limitar a ouvir uma pessoa ao mesmo tempo em que estamos no celular, por exem- plo. Desse modo, não conseguiremos compreender a mensagem que a pessoa está tentando emitir. Esse simples ato de atenção pode evitar muito desconforto na comunicação. A seguir vamos ver outro autor que colaborou com estudos na co- municação não verbal. 2.1.2 François Delsarte e seu sistema de ensino François Delsarte (1811-1871) teve uma infância difícil, extremamen- te pobre. Sua mãe abandonou seu pai e fugiu com ele e o irmão para Pa- ris. Aos 10 anos, o menino já tinha perdido a mãe e logo em seguida perdeu o irmão; assim foi encontrado por um homem que trabalhava na rua e o levou para sua casa. Durante o período que acompanhava o homem nas ruas, via cantores por todo canto, o que desper- tou seu interesse pela música. Aos 13 anos, o pequeno gênio desenvolveu um método para escrever as canções que tanto gostava e ou- via, o que logo foi percebido por um professor de música, que enxergou seu talento e o le- Figura 3 Casal discutindo WAYHOME studio/Shutterstock Podem ser profissionais da área do gesto e do inconsciente: neu- rologistas, psiquiatras, psicólo- gos, peritos em microexpressões faciais, entre outros. Atenção A intenção do livro O Corpo Fala é justamente ser prático e de fácil com- preensão. Além disso, a leitura é uma dica para que possamos parar para observar, analisar e perceber a linguagem corporal do outro. WEIL, P.; TOMPAKOW, R. Petrópolis: Vozes, 1986. Livro R. Carjat/W ikim edia Com m ons 34 Corpo, dança, expressão e movimento vou para sua casa. Aos 14 anos foi admitido no Conservatório de Paris e pôde aperfeiçoar seu talento musical e artístico. Foi cantor e trabalhou em ópera, porém teve que se aposentar cedo (com aproximadamente 23 anos) devido a problemas vocais. Após sua carreira breve, dedicou sua vida a estudar a expressividade não só da voz, mas do gesto. Estudou anatomia e fisiologia para obter o máximo de conhecimento a respeito do aparelho fonador e se debruçou na ca- pacidade de cada indivíduo, ensinando a consciência de trabalhar com suas habilidades e dificuldades. Delsarte não poupou esforços para de- senvolver o seu sistema de ensino da arte da expressividade, conheci- do como estética aplicada. Sistema de ensino de Delsarte Delsarte acreditava que o corpo, invólucro da alma, expressava-se por meio de três condições que regiam a lei universal: o espaço, o tem- po e o movimento. A sua pedagogia está baseada na metafísica e no empirismo, em que a relação corpo-alma se torna objeto de estudo. A alma, para Delsarte, expressa-se por meio do movimento, em um espa- ço e em um determinado tempo. A força que produz esse movimento podia ser de três tipos: força vital (vida-corpo), mental (mente-inte- lecto) ou emotiva (emoções, alma). A força vital causa o movimento para fora, a força mental causa movimento para dentro, e a força emo- tiva mantém o corpo em equilíbrio, não há um movimento indo para dentro ou para fora. Por exemplo, uma pessoa que tenha hábitos inte- lectuais e que priorize a parte mental tem sua natureza revelada pelo movimento subjetivo, mais para dentro, em direção ao corpo. Ao con- trário, aquela pessoa mais expansiva tem sua natureza revelada pelo movimento objetivo e pela força vital. Se a natureza do indivíduo for governada pelo emocional, então o movimento pode ser objetivo ou subjetivo de acordo com a força mais presente, vital ou mental. Ao se debruçar no estudo do gesto expressivo, Delsarte criou suas nove leis do gesto, também denominadas nove leis do movimento, ins- piradas na física mecânica. Delsarte identificou nove fatores de mo- vimento e os relacionou à expressividade: movimento, velocidade, direção, reação, forma, personalidade, oposição (equilíbrio), sequência, altitude (altura) (SOUZA, 2012). metafísica: uma das disciplinas da filosofia que estuda a natureza da realidade e a relação entre a mente (consciente e subconsciente) e a matéria. empirismo: teoria do conheci- mento relacionada, especifica- mente, à experiência sensorial para adquirir o conhecimento do mundo. Glossário mecânica: parte da física que estuda o movimento e o repouso dos corpos, sendo o movimento seu objetivo principal. Glossário Linguagem do Corpo 35 Quadro 2 Nove leis do movimento Lei do movimento Os gestos se expandem com paixão e excitação; gestos se contraem com pensamento ou reflexão, gestos são moderados quando há amor e afeição. Lei da velocidade O movimento é mais ou menos veloz de acordo com a força aplicada à massa do agente. Lei da direção e extensão Todos os gestos têm uma direção e, dependendo dela, Delsarte clas- sificava como vital, mental ou emocional. Lei da reação Qualquer extremo de emoção tende a reagir ao seu oposto. Por exemplo: uma criança, quando é extremamente repreendida pela mãe para não fazer determinada ação, fica irritada e pode represen- tar isso por meio de chutes e pontapés no ar até o clímax do choro, que representa o desabafo de sua raiva. Lei da forma Todo gesto ocupa uma forma específica no espaço. E cada um deles é classificado, segundo Delsarte, com a tríade vital-mental-emocional. Lei da personalidade O gesto, o movimento, o som marcam sinais da personalidade dentro do contexto cultural em que a pessoa vive. O tom de voz de uma mãe, a maneira com que um homem toca sua barba. Cada gesto e som imprimea personalidade do agente. Lei da oposição Está relacionada ao equilíbrio e à gravidade. Imagine uma linha verti- cal no centro do corpo da cabeça aos pés. Essa linha imaginária man- tém o homem em equilíbrio. Qualquer desvio dela, de acordo com Delsarte, precisa de uma compensação oposta. Quando levantamos uma perna, por exemplo, temos que compensar esse movimento com alguma força ou gesto oposto, pode ser a contração muscular ou um braço estendido do lado oposto para gerar equilíbrio. Lei da prioridade ou sequência do gesto É a ordem em que os agentes de expressão (forças vital, emocional e mental) aparecem. Desse modo, primeiro temos uma ideia, para depois expressá-la. A natureza vital é uma das primeiras a se afirmar no gesto, em seguida a natureza emocional e, por fim, a mental, embora não seja uma regra fixa. Lei da altitude Quanto mais para cima o gesto é, mais positivo e, quanto mais para baixo, mais é negativo. Uma queda, por exemplo, gera um gesto ne- gativo, e um salto, positivo. Fonte: Elaborado pela autora com base em Morgan, 1889. O gesto, para François Delsarte, significava a revelação imediata do ser e por meio dele o ser se manifestava de modo instintivo, por mais que tenha sido treinado. Podemos treinar nossa voz, ou aquilo que va- mos falar e comunicar – como um discurso importante, por exemplo –, mas o som sempre vem junto do gesto e é este que para Delsarte “des- mascara” a expressão do ser, sendo mais fácil perceber sua verdade e sua emoção. Desse modo, não é possível escapar das verdades do nosso caráter, já que nossa natureza imprime as formas da nossa mente pelos movimentos corporais, da linguagem não verbal (MORGAN, 1889). O canal do youtube Metaforando faz análises das microexpressões faciais pelo especialista em linguagem corporal, perito facial da emoção, Vitor Santos. Disponível em: https://www. youtube.com/c/Metaforando/ featured. Acesso em: 28 dez. 2020. Curiosidade https://www.youtube.com/c/Metaforando/featured. https://www.youtube.com/c/Metaforando/featured. https://www.youtube.com/c/Metaforando/featured. 36 Corpo, dança, expressão e movimento Quando viajamos a um lugar que não conhecemos a língua, normal- mente nos mexemos mais, fazendo gestos e movimentos para indicar aquilo que estamos precisando. De preferência buscamos alguém ou algum lugar que possa tirar algumas dúvidas turísticas com os gestos que conseguimos fazer. Não é difícil identificar um turista quando o observamos gesticular com as mãos, os braços, o olhar e outras ex- pressões do corpo. Figura 4 Turista solicitando orientação. 9n on g/ Sh ut te rs to ck Os gestos podem ser objetivos e subjetivos. Veja o quadro a seguir: Quadro 3 Classificação dos gestos Fonte: Elaborado pela autora com base em Santos, 2011. Tipos de gestos Gestos Situações de uso Objetivos Quando nos referimos a causas ou condições exter- nas – exemplo: apontar um objeto. Mais observável em crianças que fazem as ações sem julgamento, mais espontâneo. Subjetivos Quando é resultado de uma expressão de ação subjetiva, como pensar em algo que se aprende – exemplo: colocar a mão na testa ou na boca enquanto compreende um texto. Mais observável em crianças maiores e jovens que começam a racionalizar ações. Kh os ro / fi zk es /S hu tte rs to ck O filme mudo Tempos Modernos é um exemplo de como o gesto é prati- camente uma linguagem universal. Charles Chaplin por meio da expressão corporal possibilitava que todos compreendessem suas ideias. Direção: Charles Chaplin. Estados Unidos: Charles Chaplin Productions, 1936. Filme Linguagem do Corpo 37 François Delsarte preocupou-se em transmitir seu conhecimento aos alunos com a finalidade de dar-lhes liberdade de expressão sem ter que repetir códigos do teatro 2 que os tornavam exagerados ou “afeta- dos”. A intenção era que cada aluno pudesse descobrir, dentro da sua natureza e da sua capacidade natural, a expressividade do gesto, da oratória, da linguagem corporal. Além do gesto, Delsarte debruçou-se nos estudos do som, especial- mente da voz. Entenda teatro aqui como todas as formas de expressão dentro de um teatro – música, dança, peça teatral, circo etc. 2 2.2 Sons Vídeo O som é utilizado pelo ser humano para se comunicar. Os sons que emitimos, desde que nascemos, são para expressar nossos sentimen- tos. À medida que vamos amadurecendo, desenvolvemos a percepção auditiva que está relacionada aos sons emitidos e a seus significados. Veremos a seguir as implicações vocais na linguagem corporal. 2.2.1 Som O som é tudo aquilo que ouvimos, embora seja uma explicação bem simplista e esteja relacionada ao senso comum. Quando aprendemos o som nas aulas de física, entendemos o fenômeno acústico como vibra- ção de energia (onda) em um meio que assim se propaga. Dito de outra forma, o som é uma vibração de onda que se propaga através de um meio (sólido, líquido, gasoso). O ser humano só consegue captar frequências de onda sonora que variam entre 20Hz e 20.000Hz. As frequências de onda sonora menor que 20Hz são consideradas infrassom e, aquelas acima de 20000Hz, ultrassom. A audição humana é capaz de diferenciar algumas características do som: altura, intensidade, timbre, duração. Ao contrário do que muitos pensam, a altura não é o volume que aumentamos ou diminuímos ao ouvir uma música, mas está relacionada à fre- quência da onda sonora, podendo ser classificada como grave ou aguda. Curiosidade Alguns fenômenos naturais, como terremotos, avalanches, raios, podem emitir infrassons. Alguns animais conseguem emitir e perceber infrassons e ultrassons. Baleias e girafas comunicam-se por meio de infrassons. Exemplo de insetos com audição ultrassônica são: louva-deus e mariposa. 38 Corpo, dança, expressão e movimento A intensidade sonora é também chamada de nível sonoro e pode ser classificada como forte e fraca. A unidade do nível sonoro é o Bel e no nosso dia a dia usamos o decibel (dB) como medida, por ser o múltiplo da unidade Bel. Nesse caso, aumentar ou diminuir o som vai variar o nível sonoro, ou seja, os decibéis que são emitidos. Figura 5 Quadro de decibéis Em ir Ka an / S hu tte rs to ck respiração sussurro chuva carro secador trombone motor a jato movimento de folhas geladeira conversa caminhão helicóptero sirene de polícia fogos de artifício som de baixa intensidade som de média intensidade som muito barulhento som extremamente alto limite de intensidade O timbre é o resultado da vibração da onda sonora em determinado meio. É a característica que permite diferenciar dois sons de mesma altura e mesma intensidade, mas podem ser emitidos por diferentes instrumentos. Nesse caso, uma música na mesma altura e intensidade executada por um piano e depois por uma guitarra é diferenciada pelos timbres dos instrumentos. Cada instrumento pode ter seu próprio tim- bre, dependendo do material que vibrará a onda sonora. Por exemplo, uma guitarra feita no Brasil e outra nos Estados Unidos são fabricadas de materiais e maneiras diferentes, o que irá diferenciar seus timbres. Cada um de nós tem um timbre de voz porque o material que compõe nossa “caixa acústica” é diferenciado, dando a cada ser humano uma identidade vocal. Linguagem do Corpo 39 A duração do som está relacionada ao tempo em que a vibração da onda sonora ocorre. Pode ser rápida, lenta, acelerada ou desacelerada. O mesmo som pode ser emitido em tempos variados. 2.2.2 Voz Retomando o que já foi visto no início do capítulo, a linguagem está classificada em verbal e não verbal. Vimos em Delsarte o quanto ele se debruçou no estudo do gesto, embora já houvesse estudos sobre gestos das mãos e posturas. Figura 6 Chironomia - gestos das mãos, estudo antes de Delsaarte. W ik im ed ia C om m on s Contudo, a voz também fez parte de suas observações. Sabemos que, antes de falarmos com a língua materna e copiar palavras que os adultos esperam, ansiosamente,que os bebês imitem, o ser humano emite sons para se expressar. O som do choro, de um gemido de dor ou de um balbuciar de palavra significa, assim como o gesto, uma ex- pressão de emoção. Para Delsarte a voz é um som e, assim como o gesto, está classificada de acordo com a tríade da natureza humana, ou correspondente aos três estados do ser: vital, emotivo e mental. Assim ele define o som em: 1. Vital – é o som, a voz do peito, expressão do sensível; é ouvida quando o lado animal de nossa natureza é ouvido; paixões, raiva, tristeza, ódio são as nuances da voz – trêmula, nervosa, confiante etc. 2. Emotivo – é o som modulado ou o tom, chamado de voz média, expressões emocionais; pode ser ouvida quando nem o lado mental ou vital é predominante. 40 Corpo, dança, expressão e movimento 3. Mental – é resultado da fala articulada; a voz da cabeça ou mental; expressão da fala depois que o sentimento foi racionalizado. Pode ser ouvido quando falamos, fazemos uma palestra ou ministramos uma aula. Considerando a voz como um meio de expressividade assim como o gesto, Delsarte fez questão de estudar a fundo a anatomia e a fisio- logia do aparelho fonador a fim de explicar aos seus alunos a importância de cuidar da voz e saber expressar-se por ela. Por ter perdido sua capacida- de de cantar e expressar-se por meio da voz ainda jovem, não é de se espantar o quanto Delsarte que- ria que seus alunos tivessem esse cuidado. Desse modo, sua preocupação estava em ajudar o aluno a compreender a produção da sua voz. No vídeo Teste de Audição Divertido: Você é um Super Humano?, publicado pelo canal Incrível, é possível testar o quanto você consegue escutar a frequência de onda sonora. Na verdade, é só uma brincadeira para ter uma noção de quanto podemos ouvir. Contudo, para que você tenha um registro científico disso, procure seu médico e faça os testes específicos que são capazes de dizer como vai a saúde do seu ouvido. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=KszGV_UfBXw. Acesso em: 28 dez. 2020. Vídeo aparelho fonador: é um composto de órgãos do ser huma- no, responsável por emitir o som. São eles: pulmões, traqueia, laringe, lábios, dentes, alvéolos, palato duro, palato mole, parede rinofaríngea, ápice da língua, raiz da língua, nariz. Glossário Os elementos principais para produção de todos os sons tratados nos ensinamentos de Delsarte eram: os pulmões (e diafragma), a la- ringe (traqueia) e a boca. Um dos exercícios primordiais para o corre- to uso da voz seria a respiração (inspiração e expiração), prática que fortalece os órgãos que produzem os sons. A boa leitura é recomen- dada por Delsarte, assim como outros exercícios. Ao ler, podemos praticar a respiração correta, o tom de voz, a postura adequada para que o som saia sem esforço e sem machucar os órgãos que o emitem. Quantas vezes já pediram para você ler algo em voz alta e você teve vergonha? Raramente praticamos a leitura em sala de aula, exercício que poderia colaborar para a expressividade da voz, inclusive para dar confiança aos tímidos, equilíbrio aos mais agitados, e segurança ao falar em voz alta. Au tta po n W on gt ak ea w/ Sh ut te rs to ck https://www.youtube.com/watch?v=KszGV_UfBXw. Linguagem do Corpo 41 2.3 Expressividade Vídeo François Delsarte influenciou muitos outros artistas e pesquisado- res do movimento humano que desenvolveram suas próprias teorias do movimento expressivo. Os anos 1920 foram marcados pela criação de alguns métodos de dança, ginástica e práticas corporais, sendo um deles a ginástica ex- pressiva. Sem esquecer do contexto da época, o início do século XX marca um novo pensamento dançante que negava os padrões fixos e rígidos do balé clássico. Por esse motivo, a descoberta de novas possi- bilidades de práticas corporais começaram a ser pensadas e desenvol- vidas. Antes disso, Émile Jaques-Dalcroze (1865-1950) já se preocupava com as técnicas rígidas utilizadas com os alunos que aprendiam mú- sica. E, embora alguns considerem Rudolf Bode o criador da ginástica moderna, foi Dalcroze que o formou e, portanto, merece o crédito de influenciador dessa criação. 2.3.1 Émile Jaques-Dalcroze Émile Henri Jaques-Dalcroze (1865 – 1950) nasceu em Viena (Áus- tria). Sua família, de origem suíça, influenciou o seu gosto pela música, pois seu tio – e padrinho – era professor, violinista e pianista. Aos 6 anos começou a estudar piano. Sua família voltou para Suíça e Dalcroze seguiu seus estudos de música. Quando jovem frequentou, além da escola normal, o Conservatório de Genebra. Sempre foi inte- ressado por música, contudo, teatro e literatura também fa- ziam parte de suas paixões, as quais lhe renderam prêmios de composição e recitação, antes de se formar no colégio, aos 16 anos. Aos 19 anos foi para Paris seguir carreira ar- tística e para bancar os custos dos seus estu- dos começou a trabalhar como pianista em um hotel. Aos 21 anos seguiu para Argel 3 (uma colônia francesa) a convite do compositor Er- nest Adler e, ao lado dele, ajudou a dirigir a orquestra Vaudeville. Lá Émile Jaques pôde observar rituais má- gicos africanos, corpos que se contorciam ao dançar e Wikimedia Commons 3 Atual Argélia. Curiosidade Dalcroze foi um nome artístico escolhido por Émile Henri Jaques e ficou conhecido com o sobrenome Jaques-Dalcroze. 42 Corpo, dança, expressão e movimento o ritmo exótico daquelas músicas de forte influência árabe. Em Argel, esse lugar exótico e rico em dança, música e rituais mágicos, Dalcroze começou a pensar sobre seu sistema de educação musical. Voltou para Viena para se especializar na Academia de Música da cidade. No final dos seus dois anos de estudo, o artista tinha mui- tas ressalvas com relação ao ensino da música. Percebeu que seus professores se importavam mais com a métrica do que com a sensi- bilidade dos alunos. A visão científica da música se sobrepunha à arte musical, à expressividade e ao que dava colorido a uma obra. Assim, Dalcroze resolveu mudar esse panorama tornando o ensino mais sen- sível, criando, assim, uma educação musical mais completa. Aos 27 anos passou a ministrar aulas na cadeira de Harmonia e Sol- fejo, no Conservatório de Genebra. Intrigado com as dificuldades de seus alunos, Dalcroze foi levado a estudar mais a fundo a relação músi- ca-ritmo-movimento-expressão, resultando em seu método de ensino denominado Ginástica Rítmica ou Rítmica (MADUREIRA, 2008). Enquanto esteve no Conservatório de Genebra como professor, tentou convencer os diretores de que seu método, a Rítmica, era impor- tante para os futuros musicistas. Contudo, seu método foi brutalmente criticado e ele chegou a ter suas invenções sendo denominadas como satânicas. Seus colegas musicistas acreditavam que Dalcroze tinha se convertido para o mundo da dança, pois trabalhava com exercícios corporais e expressivos em suas aulas. Além disso, alunos usavam os pés descalços, os braços e axilas desnudas, e a expressividade causava espanto e repulsa. Seus estudos só puderam seguir adiante mediante documento assinado por 35 pessoas influentes, entre eles artistas, mé- dicos, professores e psicólogos atestando sua capacidade em ministrar tal método. Mesmo assim, suas aulas foram supervisionadas por auto- ridades eclesiásticas, o que causou espanto daqueles que lhe eram mais próximos. Descontente com a impossibilidade de fazer seu laboratório de ex- pressividade em Genebra, Dalcroze parte para a Alemanha a convite de amigos influentes para comandar um instituto totalmente voltado aos estudos da Rítmica. Encontrou, fora de sua pátria, o acolhimento que tanto precisava para continuar trabalhando com o que realmente acre- Linguagem do Corpo 43 ditava. “Sabeis que, se eu deixei Genebra, foi por sentir que o Conserva- tório, do ponto de vista musical, atravancava o meu caminho graças à hostilidade de seu diretor” (JAQUES-DALCROZE 1939 apud MADUREIRA, 2008, p. 55). Essa experiência durou apenas três anos, sendoobrigado a fechar as atividades devido à eclosão da Primeira Guerra Mundial, fato que não impediu de comprovar a eficácia de seu método. Foram 85 anos bem vividos, dedicados às suas paixões: música, dança e teatro. Esperou por quase vinte anos para ter um instituto com seu nome na cidade de Genebra. O Instituto Jaques-Dalcroze, inaugu- rado no dia 14 de outubro de 1915, foi importante para poder expandir seu método, embora o primeiro instituto com seu nome tenha sido fundado em Londres. 2.3.2 Rítmica A Rítmica foi o método criado por Dalcroze para trabalhar a expressividade da música representada pela expressividade corporal. Por meio de seu método, os alunos poderiam se transformar em mu- sicistas completos, fundamentado em alguns princípios norteadores: 1. Todo ritmo é movimento; 2. Todo movimento é material; 3. Todo movimento necessita de espaço e tempo; 4. O espaço e o tempo estão ligados pela matéria que os atravessa num ritmo eterno; 5. Os movimentos das crianças bem pequenas são puramente físi- cos e inconscientes; 6. É a experiência física que forma a consciência; 7. A perfeição dos meios físicos produz a inteligibilidade da percep- ção intelectual; 8. Regular os movimentos é desenvolver a mentalidade rítmica. (JAQUES-DALCROZE, 1945, p. 113 apud MADUREIRA, 2008, p. 73) Por meio desses princípios, Dalcroze tirou algumas conclusões: I. Aperfeiçoar, regular e encadear com elasticidade os movimen- tos em diferentes nuances, formando um todo, é desenvolver a mentalidade rítmica. A primeira escola de Rítmica foi a London School of Dalcroze Eurhythmics (Escola de Rítmica Dalcroze de Londres), fundada na Inglaterra em 1913 por seu amigo e colaborador Percy Ingham. Curiosidade 44 Corpo, dança, expressão e movimento II. Aperfeiçoar a força e a leveza dos músculos, regulando as propor- ções do tempo nas suas relações com a dinâmica, é desenvolver o sentido rítmico-musical e o sentimento da quadratura. III. Aperfeiçoar mais especialmente os músculos do aparelho respirató- rio é favorecer a liberdade absoluta das cordas vocais e criar a sono- ridade nas suas diversas nuances reguladas pelo sopro é fornecer ao sentido do fraseado um agente mecânico leve e inteligente. IV. Aperfeiçoar a força e a leveza dos movimentos regulando as pro- porções de espaço (movimentos combinados e atitudes estáti- cas) é desenvolver o sentido do ritmo plástico que, por sua vez, é um complemento do ritmo musical. (JAQUES-DALCROZE, 1945, p.113 apud MADUREIRA, 2008, p. 73) A estética aplicada de Delsarte é uma influência visível nos estu- dos da plástica animada de Dalcroze. Ambos trabalhavam o corpo em atitudes expressivas, e mesmo que Dalcroze não se aproximasse da religiosidade de Delsarte, pode-se dizer que concordavam com a preo- cupação em conectar: corpo (funções vitais), mente (intelecto, pensa- mento) e alma (sentimentos). As figuras a seguir mostram alguns festivais de Rítmica em que os alunos de Dalcroze se apresentavam. Figura 7 Exercício de plástica Jaques-Dalcroze, Emile, 1865-1950/Wikimedia Commons Jaques-Dalcroze, Emile, 1865-1950. Wikimedia Commons Figura 8 Estudo da plástica Alguns estudos de Dalcroze têm o nome de plástica animada, que fazia parte dos exercícios da Rítmica e nada mais era do que expressar com o corpo (ritmo plástico) a percepção da música e, dessa forma, compreenderiam melhor não só as partes técnicas de uma música, mas a relação entre a expressividade da música e do movimento. Por esse moti- vo, muitas críticas que lhe eram feitas estavam relacionadas a sua possível traição à música em detrimento da dança (plástica animada). Saiba mais Linguagem do Corpo 45 Para Dalcroze, assim como a música, a dança apresentava muitos problemas, sendo incompleta para os intérpretes modernos. O balé era uma dança considerada cheia de rigidez, maneirismos e valoriza- ção da técnica em detrimento da expressão de sentimentos. Por esse motivo, em vez de apenas criticar, Dalcroze deu algumas sugestões para os profissionais da dança, que souberam (alguns e não todos) se apropriar de seus ensinamentos. São eles: 1. estudo da respiração do ponto de vista das nuances dinâmicas e agógicas 4 ; 2. estudo dos diversos pontos de partida do movimento; 3. estudo dos impulsos e reações em todas as suas nuances; 4. estudo de todas as variações de tempo e energia; 5. estudo dos diferentes tipos de marcha; 6. estudo da orquestração corporal (Plástica Animada); 7. estudo das oposições de linhas; 8. estudo dos deslocamentos; 9. estudo da relação da dança com a música, com a palavra, com a luz; 10. estudo da polimetria e polirritmia (ordenação e dissociação de movimentos); 11. estudo dos diversos tipos de anacruse; 12. estudo das relações entre os timbres instrumentais e os gestos do corpo; 13. estudo das marchas contínuas; 14. estudo das oposições. (JAQUES-DALCROZE, 1939, p. 6-8 apud MADUREIRA, 2008, p. 127) Há três partes distintas do seu método de ensino de Dalcroze: euritmia 5 , solfejo e improvisação. A euritmia é o contrário de arritmia, embora o som dos termos seja próximo. Por ter observado muitos problemas de dificuldade rítmica em seus alunos, Dalcroze criou o termo euritmia, que trata do processo de ensino e aprendizagem da música por meio dos movimentos corpo- rais. A base desse processo de ensino trata de escutar a música, seus elementos harmônicos e melódicos, suas diferenciações de sons e expressar com movimentos naturais do corpo. A marcha era um dos movimentos básicos escolhido por Dalcroze porque é um movimen- to que marca o ritmo pessoal e natural, como se fosse nosso próprio metrônomo. Mudança no andamento do som para dar mais expressão à palavra e/ou frase musical. 4 Os termos euritmia com um “r” e eurritmia com dois “r” são igualmente usados no Brasil, embora a Associação Brasileira dos Euritmistas (ABRE) sugira o uso do termo com apenas um “r”. 5 harmonia: “é o estudo de combinações de notas soando simultaneamente (acorde) e de seu encadeamento” (ANDRADE, 1989, p. 254) . melodia: é uma sequência de notas musicais; a parte que conseguimos cantarolar, quando esquecemos a letra ou a “melodia”. Glossário metrônomo: é um objeto, po- dendo ser analógico ou digital, que serve para medir o tempo da música, ou seja, sua métrica, seu andamento. Glossário 46 Corpo, dança, expressão e movimento Os alunos mostram o que estão ouvindo pela marcha. Assim, há um desenvolvimento de uma consciência corporal e individual enquanto estão trabalhando em grupo. Por meio da marcha, os alunos tomam consciência dos seus próprios movimentos e dos elementos musicais e tentam perceber o grupo sem esquecer do seu ritmo natural e sua consciência corporal. O movimento da marcha vai, aos poucos, sendo dificultado pela inclusão de outros elementos corporais em relação à atenção aos elementos musicais. A euritmia favorece o desenvolvimen- to individual por meio de uma aula em grupo, respeitando os limites de cada um. Alguns objetivos da eurritmia podem ser classificados como: au- mento da concentração, melhora da coordenação motora, compreen- são do equilíbrio, identificação das reações conscientes ou automáticas do corpo. O solfejo trata do estudo da harmonia e melodia musical por meio da voz, sendo a percepção auditiva a base para o seu estudo. Desse modo, a euritmia privilegia o desenvolvimento dos movimentos natu- rais do corpo, enquanto o solfejo privilegia o desenvolvimento da voz. É importante ressaltar que o solfejo não está separado da experiência da euritmia, contudo, didaticamente, pode ser trabalhado separadamen- te. Ler e escrever música é uma das partes fundamentais do solfejo. Depois que os alunos desenvolvem seu ouvido interno, desenvolvem a leitura e os ditados melódicos. Algumas habilidades desenvolvidas no solfejo são: memória, escuta e identificação de elementos musicais. Quando o aluno começa a compreender as experiências de eurit-mia e solfejo, então é capaz de improvisar. A improvisação acontece quando o aluno já tem um conhecimento prévio de seu vocabulário motor e vocal e consegue se expressar de modo mais livre e criativo. Pode-se dizer que a improvisação é o processo de consolidação das experiências de solfejo e euritmia. Os alunos devem ser capazes de expressar seus sentimentos, não somente usando sua voz, mas pela coordenação entre olhos, ouvidos, mente e corpo de modo criativo e consciente. Linguagem do Corpo 47 Para Portinari (1989), três princípios fizeram parte do método Dalcroze: • O desenvolvimento musical deve ser experienciado por todo o corpo. • “O despertar do instinto motor é responsável pela consciência das noções de ordem e equilíbrio” (PORTINARI, 1989, p. 135). • A habilidade imaginativa é ampliada por meio da relação entre o pensamento e o movimento do corpo. Tanto Delsarte quanto Dalcroze, em suas teorias de Plástica Anima- da e Estética Aplicada, faziam uso do piano como instrumento primor- dial para desenvolver a expressão corporal e vocal. Contudo, não era necessário ter um talento para tocar ou para cantar. Ambos respeita- vam as habilidades e as capacidades de cada aluno. CONSIDERAÇÕES FINAIS Este capítulo teve o intuito de desvendar os métodos criados para de- senvolver a linguagem corporal. A expressividade do corpo é desenvolvida a partir da proposta de que o gesto e o movimento não devem ser rígidos, codificados a ponto de esquecermos de senti-los. Essa visão, comparti- lhada por François Delsarte, resultou na Estética Aplicada e nas Leis do Gesto, que deram sustentação para o seu método de ensino. Não é possível compreender o método de Delsarte sem entender o quanto a religiosidade estava atrelada aos seus estudos. Acreditando o ser humano ser obra divina, entendia que as três leis que regiam o univer- so também o regiam: tempo, espaço e movimento. Então, o movimento era uma força interna do ser humano que ocorria em um determinado tempo, em algum lugar e essa força estava classificada em outra tríade: vital, mental e emotiva. Fundamentado nesse princípio que Delsarte cate- gorizou muitas de suas ideias. Seguindo o pensamento de Delsarte, Émile Jaques-Dalcroze, um músico e compositor virtuose, acabou usando a voz como objeto principal de seus estudos, resultando na Rítmica ou Ginástica Rítmica. A Rítmica se aproxi- mava dos estudos de Delsarte quando a expressividade era colocada como conteúdo primordial a ser desenvolvido. O ritmo significava movimento, 48 Corpo, dança, expressão e movimento então a voz era resultado do movimento corporal. Cantar ou mover sem sentir é o mesmo que observar uma marionete copiando um movimento, por mais que seja perfeito e esteticamente agradável, não toca quem faz e quem frui porque lhe falta a emoção, a expressão do sentimento. Com o avanço da tecnologia, nós acabamos nos perdendo entre as te- las dos dispositivos móveis, videogames e computadores sem perceber a falta que o afeto nos faz. Não estamos mais acostumados a nos expressar, a não ser por poucos caracteres e imagens com filtro que não condizem mais com nossa personalidade, nossa expressão interna do ser. Trabalhar a comunicação não verbal torna-se cada vez mais atual, con- siderando que o ser humano está cada dia mais se escondendo dentro dos seus dispositivos digitais. ATIVIDADES 1. Dê exemplo de um gesto subjetivo e de um objetivo de acordo com a classificação de Delsarte. Explique cada um deles. 2. Experimente a atividade a seguir: fale um som “A” como se fosse mostrar a garganta para um médico, deixe a cabeça reta. Continue fazendo o som e mova a cabeça para cima. Escute. Perceba. Faça a mesma coisa com a cabeça para baixo. Escute. Perceba. Faça o movimento da figura a seguir falando o mesmo som “aaaaaaaa” ou “ooooooo” e escute. Em seguida, anote suas observações: o que mudou de uma posição para a outra? Por que será que isso aconteceu? 3. De que modo é possível, por meio da Rítmica de Dalcroze, criar uma atividade para crianças? REFERÊNCIAS ANDRADE, M. de. Dicionário Musical Brasileiro. Belo Horizonte: Itatiaia, 1989. CAMARGO, M. L. M. de. Música/Movimento: um universo em duas dimensões. Belo Horizonte: Villa Rica, 1994. MADUREIRA, J. R. Émile Jaques-Dalcroze: sobre a experiência poética da rítmica – uma exposição em 9 quadros inacabados. 2008. Tese (Doutorado em Educação) - Universidade Estadual de Campinas, Faculdade de Educação, São Paulo. Disponível em: http:// repositorio.unicamp.br/jspui/handle/REPOSIP/251774. Acesso em: 23 dez. 2020. MORGAN, A. An Hour With Delsarte: A Study of Expression. Boston: Lee and Shepard, 1889. Disponível em: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/0/03/An_hour_with_ Delsarte%3B_a_study_of_expression_%28IA_hourwithdelsart00morg%29.pdf. Acesso em: 23 dez. 2020. Vídeo Linguagem do Corpo 49 RAMOS, F. Estratégias e Protocolo para a Comunicação Corporativa. Porto: Media XXI, 2007. SANTOS, Eleonora. François Delsarte, um ponto para a dança. Repertório, Salvador, n. 16, p.181-190, 2011. Disponível em: https://repositorio.ufba.br/ri/bitstream/ri/5671/1/5403- 14512-1-PB%5B1%5D.pdf. Acesso em: 23 dez. 2020. SOUZA, E. T. de. François Delsarte e a Dança Moderna: um encontro na expressividade corporal. Rev. Bras. Estud. Presença, Porto Alegre, v. 2, n. 2, p. 428-456, dez. 2012. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2237- 26602012000200428&lng=pt&nrm=iso. Acesso em: 23 dez. 2020. VIANA, B. Comunicação não verbal e expressões faciais das emoções básicas. Revista de Letras, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, s. II, n. 13, p.165-181, dez. 2014. Disponível em: https://www.utad.pt/cel/wp-content/uploads/sites/7/2018/05/revista_de_ letras_13.pdf. Acesso em: 23 dez. 2020. WEIL, P.; TOMPAKOW, R. O Corpo Fala. Petrópolis: Vozes, 1986. 50 Corpo, dança, expressão e movimento 3 O movimento: Laban e seu estudo Neste capítulo iremos conhecer Rudolf von Laban, teórico do movimento que influenciou e continua influenciando as áreas da arte e da educação. Os estudos, as pesquisas e as experiências de Laban sobre o movimento humano foram registrados em livros escritos por ele e difundidos por ele e seus discípulos. No Brasil, os princípios de Laban começaram a ser estudados no final dos anos 1940. Tanto no Brasil quanto no exterior, profissionais do movi- mento, da educação e da arte estudam Laban, sua filosofia e suas experiências corpóreas. O conhecimento da teoria e da prática de Laban é obrigatório no ensino brasileiro, considerando que seus princípios estão dispostos nos Parâmetros Curriculares Nacionais de Arte do ensino fundamental. Depois de conhecer sua história, iremos compreender e identificar os fatores do movimento: peso, espaço, tempo e fluência. Figura 1 Rudolf von Laban Wikimedia Co mm on s 3.1 Rudolf von Laban: teórico do movimento Vídeo Rudolf Laban (1879-1958), filho de um governador militar do império austro- -húngaro, nasce na Bratislava 1 , cidade perten- cente a Hungria, em 1879. O interesse pelo movimento e pelas expressões artísticas ocorre desde pequeno. Como seus pais viaja- vam muito devido ao cumprimento de traba- lhos militares e diplomáticos, Laban ficava a maior parte do tempo sendo educado por tu- tores. Estimulado pelas histórias contadas por sua avó, baseadas em mitos e lendas, passava muito tempo representando-as com seu teatro de bonecos. Podemos perceber que esse é seu primeiro Bratislava é a capital da Eslováquia e se situa na fronteira entre a Áustria e a Hungria. 1 O movimento: Laban e seu estudo 51 contato com as artes, em que suas brincadeiras consistiam em soltar a imaginação fazendo seus fantoches expressarem histórias que ele ouvia e criava. Algumas vezes acompanhava os pais em suas viagens e podia co- nhecer e observar outras culturas e ser educado por professores locais. Todas essas experiências diferenciadas para um jovem garoto dificul- tavam sua adaptaçãoem um ensino formal. Em uma dessas viagens, Laban conheceu os rituais dervixes e a sua dança rodopiante. A dança dos dervixes faz parte de um ritual místico e consiste em se conectar com sua espiritualidade por meio de giros no eixo do corpo até chegar ao êxtase. O encanto pelos dervixes estava nessa energia interna ou pulsão, como definiu mais tarde, e fazia com que o movimento aconte- cesse de modo a instigar sua curiosidade. Figura 2 Dança dervixe M az ur T ra ve l/S hu tte rs to ck . O modo de vida a que Laban estava submetido, desde a infância, tornou-o criativo, refinado e interessado pelas artes. Ainda jovem, aprendeu desenho e pintura com um pintor amigo de seu pai. Nessas aulas, aprendeu noções de perspectiva, observação e proporção e co- meçou a se interessar pelas formas geométricas. Quanto mais passava o tempo, mais Laban tinha a certeza de que não queria seguir a carreira militar e diplomática do seu pai. Sua edu- cação proporcionou uma visão de mundo diferenciada; por isso, ficava Dervixes são praticantes do islamismo sufista, uma ordem religiosa similar à dos monges cristãos. Glossário 52 Corpo, dança, expressão e movimento cada vez mais evidente para o jovem menino sua vontade de se dedicar ao movimento livre e expressivo. Aos 18 anos, foi encaminhado por seu pai para a Academia de Cade- tes, em Viena. Preocupado com os interesses artísticos do filho e com a falta de disciplina na escola tradicional, seu pai acreditava que ele iria se sair bem no treinamento militar e na habilidade que tinha com a cavalaria. Porém, Laban só demonstrava interesse quando ficava res- ponsável por dirigir os festivais de dança de final de ano. Três anos se passaram até que o pai de Laban se convenceu de que ele deveria mesmo se especializar e estudar aquilo que lhe interessava: as artes. Desse modo, enviou o filho para estudar na Escola de Belas Artes de Paris para aprender arquitetura, desenho e pintura. Foi lá que Laban teve seu único treinamento formal. Em Paris, casou-se com uma artista plástica, trabalhou como ilustra- dor, fez projetos arquitetônicos para o teatro e se envolveu com ceno- grafia e figurinos. Assim, estava cada vez mais próximo do teatro e dos artistas do movimento por meio de seu trabalho e de sua participação em movimentos culturais, conhecendo artistas, diretores, atores e bai- larinos. Teve conhecimento de uma teoria do movimento por meio de François Delsarte. Laban já se interessava pelo estudo do movimento desde que viu os dervixes dançando. Mesmo tendo participado e trabalhado com várias manifestações artísticas, tinha uma preocupação em relação à dança: que ela era efêmera e não ficava registrada, como uma obra de dese- nho, pintura, escultura, poesia ou música. Com base nessa preocupa- ção, começou a desenvolver um método que pudesse registrar não só os passos da dança, mas as posições e as dinâmicas do corpo, ou seja, se um determinado movimento era mais pesado ou mais leve, mais lento ou mais rápido. Laban ficou viúvo cedo e voltou para a Alemanha em 1910 casado pela segunda vez, com uma cantora. Continuou os estudos sobre a es- crita da dança e os experimentos sobre o movimento que o levaram a conhecer Jaques Dalcroze e seu método de ensino. Tanto Dalcroze quanto Delsarte colaboraram para que Rudolf von Laban continuasse a sua pesquisa do movimento, pois ambos corrobo- ravam com a visão de expressão total do movimento, e não apenas a habilidade técnica. O movimento: Laban e seu estudo 53 Rudolf Laban tinha uma visão holística e universal do movimento e dedicou toda a sua vida a observar e a procurar na natureza o seu significado e as suas ramificações. Ele buscava a harmonia do movimento e uma relação corporal expressiva e comunicativa com a totalidade da existência. (TREVISAN, 2009, p. 71) Laban acreditava que os corpos se moviam como o cosmos, uns ao redor dos outros, sempre em conjunto, assim como planetas e satéli- tes que se movem em conjunto para um equilíbrio do universo. Nes- se sentido, Laban começou a desenvolver danças com muitas pessoas envolvidas, pois para ele a dança se caracterizava como comunitária, acontecendo em grupos. Assim, Laban começa a desenvolver alguns princípios do estudo do movimento e aplicá-los em seus alunos. Os festivais de verão na Suíça que dirigiu no início do século XX uniam artistas e amadores com o ob- jetivo de “desenvolver no aluno o conhecimento de todo o seu corpo e como usá-lo expressivamente, proporcionando a descoberta dos seus meios individuais de expressão e comunicação” (TREVISAN, 2009, p. 71). As aulas eram baseadas na tríade dança-som-palavra. O programa das aulas não era fundamentado em uma técnica, mas no desenvolvi- mento de habilidades como: coordenação, versatilidade rítmica, rela- ção corpo-espaço, equilíbrio, flexibilidade. Devemos lembrar que nessa época, final do século XIX e início do século XX, muitos artistas, pensadores e pesquisadores do movimen- to estavam tentando renovar o pensamento da dança, e uma das for- mas era negar o modo arbitrário como as aulas de dança aconteciam. O ballet clássico era uma das danças bastante difundidas no ocidente e continha regras de vestimenta e de posições de braços, pernas, pés e corpo, com nomes específicos para cada movimento. A técnica do ballet explorava habilidades físicas, e os bailarinos se expressavam por meio de gestos codificados que significavam algum sentimento ou al- guma frase/parte da história contada. Ao contrário das regras rígidas do ballet e do tecnicismo exigido aos bai- larinos, as aulas de Laban aconteciam ao ar livre para favorecer o contato com a natureza; os pés descalços ficavam livres de uma sapatilha que aper- tava os dedos e as roupas eram soltas e leves para facilitar o movimento. Além dos cursos que ministrava, Laban começou a desenvolver um trabalho de dança com uma comunidade, envolvendo pessoas de to- 54 Corpo, dança, expressão e movimento dos os tipos. As danças eram criadas por meio das experiências do- mésticas e de trabalho dos moradores locais. Esse tipo de dança era chamado de dance farm (tradução literal do inglês: “dança da fazenda”) e deu subsídios para provar que a dança era uma manifestação natural de expressão do homem. Posteriormente, foi denominada movement choir (dança coral), a qual incluía habitantes locais que eram estimula- dos a se envolver com a dança por meio de seus movimentos cotidia- nos e suas experiências ocupacionais. Nos anos 1920, Laban já tinha criado sua própria escola, e muitos colaboradores da área do movimento o ajudaram a disseminar e de- senvolver sua teoria 2 . Ao final da Primeira Guerra Mundial, Rudolf Laban morava em Hamburgo e, reconhecido no mundo da dança, tinha escolas espalha- das por várias cidades da Europa, cada uma dirigida por um mestre de dança formado por ele. A dança coral começou a ser introduzida nas escolas e conseguiu atingir várias comunidades por toda a Europa. Laban acreditava que “da mesma forma que cantores amadores parti- cipam de corais junto de cantores profissionais, dançarinos amadores, dentro das suas possibilidades, poderiam dançar com dançarinos pro- fissionais” (TREVISAN, 2009, p. 72). Esse é um dos motivos pelos quais Laban foi tão difundido no Brasil e no mundo e até hoje seu pensamen- to influencia a dança escolar, pois ele dava oportunidade para todos, de acordo com suas possibilidades de mobilidade. Em 1928, já morando em Berlim, Laban apresentou seu sistema de notação coreográfica em um congresso de dança. A Kinetographie Laban, conhecida no ocidente como Labanotation, era um conjunto de sinais gráficos que permitia registrar todo movimento humano. Além da posição do tronco e dos membros, era possível registrar a qualidade daquela forma ou movimento. Com base nesse sistema, Laban conse- guiu coreografar, à distância, dez mil camponeses em uma dança coral para se apresentarem no festival de Viena. Dos 10 mil participantes, apenas 2.500 eram bailarinosprofissionais. Cada participante ou grupo de participantes aprendeu e ensaiou os movi- mentos antes do grande encontro. Quando todos os participantes foram reunidos, todos conseguiram executar a coreografia de modo harmônico. É possível dizer, então, que ele foi um dos precursores do flashmob 3 . Mary Wigman, Kurt Jooss, Albrecht Knust, Lisa Ullmann foram os colaboradores de Laban para organizar e publicar sua teoria do movimento. 2 flashmob é quando um grupo de pessoas se apresenta, normal- mente, com uma dança ou uma manifestação artística em um local previamente combinado. As pessoas começam a dançar ou cantar como se estivessem ocupando aquele lugar (praça ou shopping, por exemplo) e, depois que se apresentam, dispersam-se rapidamente. As manifestações artísticas são previamente organizadas e ensaiadas antes da ação acontecer. 3 O movimento: Laban e seu estudo 55 Em 1933, antes da Segunda Guerra, Hitler cria o Gabinete Nazis- ta e nomeia Joseph Goebbels para ministro da cultura e propaganda do Terceiro Reich. Nessa época, Laban se torna o coreógrafo do Berlin State Opera e fica responsável pela direção de dança e movimento em toda a Alemanha. Desse modo, conseguiu convencer o Ministério da Cultura e Propaganda a financiar cursos e espetáculos de dança para jovens dançarinos desempregados. Além disso, conseguiu incluir a dança nos Jogos Olímpicos de 1935, mesmo que fosse fora das compe- tições e fora da concepção nacionalista. No ano seguinte, Laban recebeu a tarefa de coreografar mil desem- pregados para o espetáculo que ocorreria paralelamente aos Jogos Olímpicos. Porém, ao assistir um pouco do ensaio, Goebbles proibiu sua apresentação. A partir de então, Laban se transformou em um ini- migo do Estado, foi perseguido pelos nazistas e teve que fugir do país, primeiramente para Paris e posteriormente para a Inglaterra, local em que ficou até o final da vida. Em 1938, os ingleses entraram na Segunda Guerra e Laban teve que mudar seu ramo de atuação: começou a trabalhar em torno das de- mandas da guerra. Com a ajuda de alguns clientes, tornou-se consultor do Ministério da Aeronáutica, onde buscou um melhor desempenho nos saltos para as tropas que pulavam de paraquedas. Conhecedor do movimento, foi consultor de várias indústrias para investigar o movi- mento dos novos operários, ou melhor, operárias, considerando que a força de trabalho tinha mudado de homens (que estavam na guerra) para mulheres. Mesmo depois do final da guerra, continuou a ser convidado por in- dustriais a buscar um movimento mais eficaz, com menos esforço, fato que otimizaria os movimentos, dando mais lucro às indústrias. Junto a F. C. Lawrence, Laban aprimorou o sistema de notação coreográfica (Labanotation), deixando registrado no livro Effort 4 o resultado de suas experiências com os operários, cujo objetivo era aplicar as teorias de Laban para que os funcionários das indústrias pudessem ter um maior rendimento com o menor esforço físico possível. Até os anos 1940, as instituições escolares da Inglaterra limitavam a compreensão de consciência corporal e boa forma ao que era aplicado nas aulas de Educação Física, ou seja, o treinamento corporal. Algu- mas pessoas já se questionavam a respeito desse tipo de treinamento e compreendiam que o corpo deveria ser “treinado” de maneira mais O vídeo FLASH MOB Oprah vs. Black Eyed Peas I Gotta Feeling Chicago, do canal Ramon Vingerling, apresenta um recorde: o maior flashmob da história, com 21 mil pes- soas. Ocorreu em 10 de setembro de 2009, com o objetivo de comemorar mais uma temporada do programa de TV da apre- sentadora Oprah Winfrey, por meio da transmissão ao vivo do show do Black Eyed Peas. Aproximada- mente 800 fãs foram res- ponsáveis por disseminar a coreografia da música “I got a felling” para mais de 20 mil pessoas que parti- ciparam do flashmob. Disponível em: https://www.youtube. com/watch?v=O_52kTYGD1c. Acesso em: 18 jan. 2021. Vídeo Effort significa “esforço”, em tradução literal do inglês. Para Laban, “é a pulsão resultante das atitudes internas que ativam o movimento, imprimindo-lhe variadas e expressivas qualidades. [...] Laban usou o termo antrieb = propulsão, impulso, ímpeto pela primeira vez, em 1910. Durante a II Guerra, antrieb foi traduzido por Laban para o inglês como effort e este termo foi empregado por ele para nomear as mudanças de qualidades que os trabalhadores aplicavam ao movimento e conti- nuou a ser usado no teatro, dança, na avaliação da personalidade e na terapia corporal” (RENGEL, 2003, p. 60, grifos do original). 4 https://www.youtube.com/watch?v=O_52kTYGD1c https://www.youtube.com/watch?v=O_52kTYGD1c 56 Corpo, dança, expressão e movimento completa. Essa visão holística de desenvolvimento das capacidades motoras e expressivas chamou a atenção das autoridades educacio- nais da Inglaterra, que convidaram Laban e sua discípula Lisa Ullmann para transmitir seus princípios aos professores do país. Os cursos, as conferências, as demonstrações e os experimentos deram subsídios aos professores ingleses para que aplicassem os prin- cípios de Laban nas escolas, tornando-o, assim, cada vez mais próximo da área da educação. Laban foi um dos primeiros pensadores do movimento a se preo- cupar em incluir a dança no currículo escolar, unindo as áreas de arte e educação dentro de uma proposta pedagógica. Para Laban, era im- portante que o aluno pudesse compreender melhor o seu corpo, pre- servando a espontaneidade e a habilidade criativa, com o objetivo de utilizá-lo de maneira expressiva. Assim, poderia desenvolver no aluno uma consciência corporal, integrando o conhecimento intelectual à ha- bilidade artística. Laban influenciou escolas do mundo todo, começando pela escola de Lisa Ullmann, a Art of Movement Studio, aberta em 1946 e que aca- bou se tornando um centro de dança educativa na Inglaterra. Além da dança, o teatro utilizou seu método da arte do movimento, e até hoje os princípios de Laban são difundidos nas duas áreas. Laban começou a ser mais difundido no Brasil no final dos anos 1940, por meio do seu livro Dança educativa moderna, publicado em 1948. Isabel Marques (coreógrafa, escritora e diretora de dança) foi uma das alunas de seu método: fez mestrado no Laban Center for Movement and Dance, em Londres, difundiu os princípios de Laban no Brasil junto a ou- tros pesquisadores da dança e foi “pioneira no Brasil na sistematização e pesquisa na área de ensino de dança” (MARQUES, 2014, p. 176). Para concluir esta seção, cabe salientar que os princípios de Rudolf von Laban tiveram e ainda têm um papel fundamental no ensino de dan- ça do Brasil, pois fazem parte dos Parâmetros Curriculares Nacionais de Arte (BRASIL, 1997; BRASIL, 1998a) e, indiretamente, dos PCN de Educa- ção Física, dentro de atividades rítmicas e expressivas (BRASIL, 1998b). O movimento: Laban e seu estudo 57 3.2 Corpo e espaço Vídeo Os estudos de Rudolf Laban abordavam princípios teórico-práticos do movimento e da expressividade, tendo tido muitas denominações: Teoria do Movimento, Arte do Movimento, Análise Laban de Movimen- to e Sistema Laban de Movimento, o qual foi chamado até os anos 1980 de Sistema Effort-Shape (Expressividade-Forma) e abrange estu- dos, práticas, experiências, cursos e congressos desenvolvidos pelos colaboradores de Laban (FERNANDES, 2006). Laban compreendeu que o movimento só acontece com um determinado esforço que gera uma expressividade, assim como observou na dança dos dervixes. As principais ações de esforço humanas são recolher e espalhar. Recolher é quando o movimento sai de uma extremidade e vai para o centro do corpo, enquanto espalhar ocorre do centro do corpo para a extremidade. Assim, as ações básicas do movimento humano são feitas com determinado esforço em um certo espaço cor- poral em relação ao espaço físico (ambiente). O espaço é um dos fatores de movimento estudados por Laban; os outros são: fluência,peso e tempo. A origem dessa ciência do movimento foi denominada por Laban de Coreologia, que é como se fosse uma linguagem do movimento que pode comunicar não só a sua parte externa, mas o intelecto e a emoção embutidos nele. Coreologia é a lógica ou ciência da dança, a qual poderia ser enten- dida puramente como um estudo geométrico, mas na realidade é muito mais do que isso. Coreologia é uma espécie de gramática e sintaxe da linguagem do movimento que trata não só das formas externas do movimento, mas também do seu conteúdo mental e emocional. Isto é baseado na crença que movimento e emoção, forma e conteúdo, corpo e mente são uma unidade inseparável. (LABAN 1966 apud RENGEL, 2003, p. 35) De acordo com Rengel (2003), a Coreologia, ou seja, a ciência da dança, engloba a corêutica e a eukinética, “o uso instrumental do cor- po, o relacionamento (do corpo com ele mesmo, com outro(s) corpo(s), e do(s) corpo(s) com o espaço) e os sistemas de notação” (RENGEL, 2003, p. 35), elementos atualmente reunidos na Labanotation. Faça a seguinte observação: encolha o abdômen e imagine o umbigo colando nas costas, isto é, uma contração muscular e um movimento de recolher. Mantenha o abdômen como está e abra os braços como se fosse abraçar alguém. Esse movimento é o de espalhar. Perceba que, desse modo, é possível se movimentar espalhando e recolhendo ao mesmo tempo. Na prática 58 Corpo, dança, expressão e movimento A corêutica engloba os estudos da relação corpo-espaço. Ou seja, é quando organizamos nosso espaço pessoal em relação a outros espa- ços (pessoas, ambientes). Segundo Rengel, é “o estudo da organização espacial dos movimentos que Laban desenvolveu” (RENGEL, 2003, p. 36). O espaço corporal é denominado cinesfera 5 , isto é, o nosso corpo é como se fosse nosso território, o lugar que ocupamos no espaço. Imagine que ao redor do seu corpo existe uma esfera que lhe envolve como um escudo; isso é denominado cinesfera, e ela se move ou pausa com você – “é a esfera dentro da qual acontece o movimento. [...] É a esfera de espaço em volta do corpo do agente na qual e com a qual ele se move” (RENGEL, 2003, p. 32). Sy da P ro du ct io ns /S hu tte rs to ck . Figura 3 Representação gráfica de cinesfera O fator de movimento no espaço estudado por Laban pode ser ob- servado por volta dos três meses de vida do ser humano. O bebê com essa idade começa a ter uma maior percepção dos sentidos e, por meio da visão, esforça-se para focalizar os pais e os objetos. Ao se locomover para o sentido dos objetos ou dos pais, o bebê começa a experienciar o fator espaço. Primeiramente, o ser humano tem contato com o espa- ço pessoal; depois, com o espaço parcial; e finalmente, com o espaço geral. Por meio da observação espacial externa, começamos a nos co- municar com o outro e com as coisas/objetos. Então, a tarefa do fator espaço é a comunicação, pois trabalha o foco de atenção para indicar onde ocorre o movimento. Também denominada kinesfera. 5 O movimento: Laban e seu estudo 59 As qualidades de movimento referentes ao fator espaço estão rela- cionadas à concentração e ao foco no espaço, podendo ser classifica- das como: direta ou flexível. A qualidade direta e/ou unifocada ocorre quando o movimento é executado de um ponto a outro, em uma trajetória que mantém o foco no ponto de chegada. Normalmente, são movimentos lineares e retos que ocorrem a partir das extremidades, mão, pés e dedos. Laban aborda os termos flexível e multifocado como sinônimos. Essa qualidade está presente quando o “agente foca toda a atenção corporal em vários pontos do espaço” (RENGEL, 2003, p. 18), e não em um único ponto. Para compreender melhor o fator espaço, devemos observar algu- mas de suas subcategorias, como: trajetória, níveis, direções, tamanho (dimensão, extensão), planos. • Trajetória: está relacionada ao deslocamento de um ponto a outro. O agente se move em uma trajetória reta, curva ou mista (reta e curva). • Níveis: são movimentos que podem ser feitos em nível baixo, médio ou alto. Por exemplo, um movimento no nível alto pode ser um salto ou quando uma bailarina fica na ponta dos pés. Bit- tencourt afirma que “um movimento no nível baixo pode ser uma pessoa agachada. Um movimento no nível médio é a pessoa em pé, fazendo uma caminhada. Uma caminhada com joelhos do- brados está em nível médio, e com os pés flexionados em nível alto” (BITTENCOURT, 2020, p. 70). • Direções: podem ser cima, baixo, direita, esquerda, atrás, à frente, diagonais e suas combinações. O movimento pode ser com o corpo todo ou uma parte do corpo – braço ou perna. As direções diagonais estão relacionadas a três dimensões, podendo ser de comprimento (cima-baixo), de profundidade (frente-atrás) ou de amplitude (lado – esquerda-direita). Por exemplo, é possível pedir um movimento do braço para a dia- gonal direita, frente e cima. • Tamanho: categoria que pode ser grande ou pequena, além de suas nuances. Segundo Bittencourt, movimento grande é aquele mais longe do eixo do corpo e o pequeno é o contrário. Por exemplo: quando está muito frio, 60 Corpo, dança, expressão e movimento ficamos mais encolhidos para dormir, com os membros bem perto do corpo, isto é, um movimento pequeno e bem perto do eixo corporal. Um movimento grande é quando abrimos bem os braços para receber alguém com um abraço, ou seja, nos- sos membros superiores estão bem longe do eixo do corpo. (BITTENCOURT, 2020, p. 70) A extensão está relacionada ao tamanho do movimento, que pode ser para fora ou para dentro, como recolher e espalhar, já explicados anteriormente. Os movimentos para fora aparecem maiores do que os movimentos para dentro. • Planos: conforme Alessandra Bittencourt, planos são a combinação de duas direções, denominados de plano da porta, da mesa e da roda. O plano da porta combina as direções cima e baixo, por exemplo: polichinelo. O plano da mesa combina as di- reções frente e trás, como o movimento do avião, em que pernas e braços ficam como se estivessem sobre uma mesa com uma perna de base de apoio. O plano da roda combina as direções frente e trás, um exemplo é uma cambalhota para frente ou para trás. (BITTENCOURT, 2020, p. 71, grifos do original) A corêutica, ou seja, o estudo do fator espaço, era praticada por meio de exercícios espaciais executados diariamente, denominados escalas, que se tratavam de sequências de movimentos realizadas dentro de um espaço (uma “esfera” imaginária ou um icosaedro). A figura do icosaedro a seguir representa o mais próximo de uma esfera, tendo sido construído por Laban para a prática e experimen- tação do seu método. Figura 4 Icosaedro construído por Laban Pa ke ha /W ik im ed ia C om m on s O movimento: Laban e seu estudo 61 Além da corêutica, que se refere ao estudo do espaço, a coreolo- gia engloba a eukinética, que é o estudo dos aspectos qualitativos do movimento. O termo eukinética foi criado logo no início da carreira de Laban, em 1910. Com base nesse estudo, ele desenvolveu o con- ceito de esforço, que, como já foi explicado, é uma “pulsão resultante das atitudes internas” (RENGEL, 2003, p. 60) que dão expressividade ao movimento. Assim, os aspectos qualitativos do fator espaço podem ser classifi- cados como flexível ou direto. As outras categorias estudadas na corêu- tica, como direção, níveis e planos, não são aspectos qualitativos. Embora nem todos possam ser mensuráveis, é possível medir uma di- reção, uma trajetória ou um eixo para determinar um plano. A seguir, vamos conhecer os outros fatores de movimento. O livro Domínio do movimento foi o primeiro a ser publicado no Brasil a respeito do estudo de Laban. Organizado por sua discípula Lisa Ullmann, contém alguns exemplos de exercícios. LABAN, R. São Paulo: Summus, 1971. Livro 6 Trataremos elementos e fatores do movimento como sinônimos. 3.3 Outros elementos do movimento 6 Vídeo Vamos relembrar que Rudolf von Laban foi res-ponsável por desenvolver uma teoria que identificou os componentes de um movimento, os quais são chamados de fatores do movimento: fluência, espaço, peso e tempo. Para Laban, o movimento ocorre por meio da capacidade mental (racional/emocional) e física, podendo ser consciente ou inconsciente. Vamos aprender, nesta seção, sobre fluên- cia, peso e tempo. 3.3.1 Fluência A fluência é um dos primeiros fatores a serem observados quando um bebê começa a se desenvolver. Os primeiros movimentos são de contração ou de expansão, e ainda que os bebês apresentem pouco domínio do próprio corpo, o movimento “flui”. O fator fluência é responsável por ajudar no desenvolvimento da integração das partes do corpo. Um exemplo é quando você começa a mover só a mão e os dedos da mão; depois, você move só a articulação de ombro e cotovelo. Quando você compreende essa integração do braço como uma unidade, seu movimento flui de modo mais livre e 62 Corpo, dança, expressão e movimento menos “robotizado”. É o que os dançarinos de break fazem: eles sepa- ram bem a ação de cada parte do corpo e, quando integram algumas, o movimento flui, parecendo uma unidade. O braço da bailarina que dança a morte do cisne no ballet O lago dos cisnes é um exemplo clássi- co de integração e progressão do movimento. Então, a tarefa do fator fluência é a informação, pois trabalha com a progressão do movimento para indicar como ele ocorre. As qualidades de esforço da fluência são categorizadas por: livre/liberada ou controlada/contida/limitada. A fluência livre pode ser denominada con- tinuada, fluente, abandonada ou expandida; já a fluência controlada pode ser denominada cuidadosa, restrita, contida, cortada ou limita- da (RENGEL, 2003). Nem sempre a qualidade da fluência é identificada no movimento, mesmo que todo movimento “flua”, pois outros fatores e qualidades podem estar mais evidentes. A Fluência apoia a manifestação da emoção pelo movimento, pois os extremos e/ou as gradações entre um alto grau de aban- dono do controle ou uma atitude de extremo controle, manifes- tam no movimento os aspectos da personalidade que envolvem a emoção. (RENGEL, 2003, p. 64, grifo do original) 3.3.2 Peso O fator de movimento no peso é identificado no desenvolvimento quando começamos a buscar a verticalidade corporal. O bebê inicia suas experiências com a força da gravi- dade, primeiramente, ao deixar cair objetos e, poste- riormente, ao cair sentado quando tenta ficar em pé ou se equilibrar em alguma posição. O peso colabora para o desenvolvimento da as- sertividade, pois a estabilidade encontrada propor- ciona segurança e confiança. Além disso, desenvolve o domínio do próprio corpo, considerando que dá autonomia ao indivíduo, pois ele pode se locomover sem a ajuda de um adulto. Figura 5 O lago dos cisnes True Touch Lifestyle/Shutterstock. Figura 6 Queda no judô Bo ris R ya po so v/ Sh ut te rs to ck . O movimento: Laban e seu estudo 63 A tarefa do fator peso é a intenção, pois trabalha com a sensação do movimento para indicar o que ocorre com ele. As qualidades de esforço do peso podem ser classificadas entre: leve e firme/pesado. Os movimentos leves demonstram suavidade, bondade ou mesmo superficialidade. Normalmente, são aqueles que fazemos para cima, contra a gravidade, como saltos. Os movimentos firmes ou pesados são mais fáceis de fazer para baixo, a favor da gravidade, como uma queda de judô, e demonstram resistência, poder, tenacidade. Rengel (2003) coloca quatro atributos que devem ser considerados dentro do fator peso, que são as forças de gravidade, cinética e estática e a resistência externa. A força de gravidade faz com que o corpo tenha que se esforçar tanto para cima quanto para baixo, a fim de alcançar a verticalização. A força cinética faz com que o corpo se mova no espaço e gera uma energia necessária para que possamos mover o corpo ou partes dele. A força de gravidade pode ser superada de modo leve ou firme, assim como a força cinética pode gerar movimentos com o corpo ou partes do corpo com a qualidade leve ou firme. A força estática, ao contrário da força cinética, é uma energia de resistência; usamos essa força para manter o corpo sem mo- vimento, e não para movê-lo. Por meio da tensão muscular, ou seja, uma resistência interna, conseguimos manter o corpo sem se mover, assim como quando brincamos de “estátua”. A resistência externa é aquela que acontece quando um obje- to ou uma pessoa exerce certa tensão sobre nosso corpo. Assim, desenvolvemos uma noção de tensão muscular por meio do outro, quando um corpo pode resistir a outro corpo, parte do corpo, um ob- jeto ou parte do objeto. Todas essas forças e resistências podem ser exercidas de modo leve ou firme ou com as possibilidades de gradações entre ambos. 3.3.3 Tempo O tempo indica a velocidade do movimento, que pode ser mais len- to ou mais rápido. Esse fator é o último a ser observado no desenvol- vimento humano. A criança passa os cinco primeiros anos de vida sem ter muita noção de tempo. Por esse motivo, elas falam “fui na vovó Figura 7 Salto de bailarina YAAV/Shutterstock. 64 Corpo, dança, expressão e movimento amanhã”, “vou comer arroz com feijão ontem”. A partir dos cinco ou seis anos, as brincadeiras começam a ter ordem, de quando começa e quando termina, desenvolvendo uma maior noção de tempo. O desenvolvimento do fator tempo colabora para se obter maior tolerância à frustração. Quando a criança pede um doce “agora” e não o ganha, ela consegue compreender que pode receber “depois”. A tarefa do fator tempo é a operacionalidade, pois trabalha com a decisão do movimento para indicar quando ele ocorre. As qualidades de esforço do tempo podem ser classificadas como: sustentada e súbi- ta. Laban não gostava de utilizar os termos lento e rápido para indicar sustentado e súbito, pois acreditava que eles poderiam indicar aspectos quantitativos do movimento. A sua intenção era justamente dar ao mo- vimento termos que significassem qualidades de esforço qualitativas, por se tratar de atitude interna, portanto não mensurável. Laban denominou as combinações de movimentos possíveis dos fatores espaço, peso e tempo de ações básicas de esforço. São elas: tor- cer, pressionar, chicotear, socar, flutuar, deslizar, pontuar e sacudir. O Quadro 1 apresenta as oito ações e a identificação das qualidades de esforço de cada fator. Quadro 1 Lista das oito ações básicas, de acordo com Laban. Ação básica Espaço Peso Tempo Torcer Flexível Firme Sustentado Pressionar Direto Firme Sustentado Chicotear Flexível Firme Súbito Socar Direto Firme Súbito Flutuar Flexível Leve Sustentado Deslizar Direto Leve Sustentado Sacudir Flexível Leve Súbito Pontuar Direto Leve Súbito Fonte: Rengel, 2003, p. 24. Para finalizar e relembrar, observe a seguir alguns dos princípios básicos que, segundo Mota (2012), regem a teoria Laban. • O movimento é universal, está em todas as coisas vivas; portanto, significa vida e pode ser consciente ou inconsciente. O movimento: Laban e seu estudo 65 • A qualidade da vida está relacionada, diretamente, à sofisticação do movimento. • As características que fornecem informações sobre a qua- lidade geral da vida/movimento são: intenção, variedade e complexidade. • O ser humano é uma unidade composta de subunidades interde- pendentes: corpo-mente-espírito. • As duas finalidades do movimento são: 1) alcançar ou realizar coisas tangíveis, como o trabalho; 2) abordar valores intangíveis, como a prece e a adoração. • O ser humano se move para satisfazer necessidades que podem ser: 1. básicas – ex.: locomover, deslocar; 2. maiores – ex.: extravasar energia e aliviar tensões; 3. sutis – ex.: expressar a própria singularidade; 4. sociais – ex.: integração com outros. Outras observações gerais a respeito dos fatores do movimento que não podemos esquecer são: • Todo movimento contém os quatro elementos: espaço, fluên- cia, peso e tempo. Porém,eles são explicados de modo separa- do para que sejam mais facilmente compreendidos. Do mesmo modo, é possível trabalhar mais o desenvolvimento de um aspec- to específico, dependendo da necessidade do aluno. • É provável que os elementos/fatores e suas qualidades não fi- quem nítidos em um ou outro movimento ou sequência de mo- vimentos, pois podem evidenciar/comunicar uma qualidade ou elemento específico. • As qualidades de esforço foram colocadas neste texto em seus extremos, como leve e firme, contudo todas elas contêm nuances entre os dois extremos propostos. • A corêutica não está separada da eukinética e vice-versa! Embora estejam separadas para fins didáticos e tenham objetivos distin- tos, elas são complementares. O livro O corpo em movimento: o Sistema Laban/Bartenieff aborda os estudos de Laban com a visão da pesquisado- ra Ciane Fernandes e suas experiências como professora da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia. É mais uma referência a ser conhecida por quem quer se aprofundar nos estudos de Laban. FERNANDES, C. 2. ed. São Paulo: Annablume, 2006. Dica 66 Corpo, dança, expressão e movimento CONSIDERAÇÕES FINAIS Chegamos ao final do capítulo que abordou o Sistema Laban e seu estudo sobre o movimento. Não se preocupe caso tenha ficado alguma dúvida em relação a tantos conceitos novos. Com tempo, estudo e expe- rimentações teórico-práticas do movimento, o corpo vai compreendendo a visão dele e, assim, consegue transmitir aos outros novas possibilidades de se mover. Laban foi um estudioso do movimento que conseguiu conquistar as áreas do teatro e da dança à medida que ia compartilhando suas ideias em suas aulas, cursos e conferências. Não podemos esquecer que, para ele, todos podiam e deviam participar de manifestações artístico-expressivas, independentemente de serem profissionais ou não. Valorizar o limite e a eficiência de cada corpo é um dos seus legados. Não é à toa que as esco- las brasileiras utilizam Laban para abordar a expressividade do movimen- to nas artes e na educação física. ATIVIDADES 1. Como Laban conseguiu aprimorar suas pesquisas do movimento durante a Segunda Guerra? 2. Indique e explique uma das contribuições de Rudolf Laban para o ensino do movimento. 3. Crie uma atividade que envolva qualquer um dos fatores do movimento e justifique qual aspecto e qual qualidade serão abordados. REFERÊNCIAS BITTENCOURT, A. T. Atividades rítmicas e dança. 1. ed. Curitiba: Iesde, 2020. BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: Arte. Brasília, DF: MEC/SEF, 1997. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/ livro06.pdf. Acesso em: 20 jan. 2021. BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: terceiro e quarto ciclos do ensino fundamental – Arte. Brasília, DF: MEC/SEF, 1998a. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/arte.pdf. Acesso em: 20 jan. 2021. BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: terceiro e quarto ciclos do ensino fundamental – Educação Física. Brasília, DF: MEC/SEF, 1998b. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/fisica.pdf. Acesso em: 20 jan. 2021. Vídeo http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/livro06.pdf http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/livro06.pdf http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/arte.pdf http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/fisica.pdf O movimento: Laban e seu estudo 67 FERNANDES, C. O corpo em movimento: o Sistema Laban/Bartenieff na formação e pesquisa em artes cênicas. 2. ed. São Paulo: Annablume, 2006. MARQUES, I. A.; BRAZIL, F. Arte em questões. São Paulo: Cortez, 2014. MOTA, J. Rudolf Laban, a coreologia e os estudos coreológicos. Repertório, Salvador, n. 18, p. 58-70, 2012. Disponível em: https://repositorio.ufba.br/ri/bitstream/ri/6786/1/44.pdf. Acesso em: 23 jan. 2021. RENGEL, L. P. Dicionário Laban. São Paulo: Annablume, 2003. TREVISAN, M. C. A. Stanislávski-Laban: do texto à encenação. 2009. Dissertação (Mestrado em Artes) – Instituto de Artes, Universidade Estadual Paulista, São Paulo. Disponível em: https://repositorio.unesp.br/bitstream/handle/11449/86878/trevisan_mca_me_ ia.pdf?sequence=1&isAllowed=y. Acesso em: 15 jan. 2021. https://repositorio.ufba.br/ri/bitstream/ri/6786/1/44.pdf https://repositorio.unesp.br/bitstream/handle/11449/86878/trevisan_mca_me_ia.pdf?sequence=1&isAllowe https://repositorio.unesp.br/bitstream/handle/11449/86878/trevisan_mca_me_ia.pdf?sequence=1&isAllowe 68 Corpo, dança, expressão e movimento 4 A dança na escola Os profissionais que atuam com a educação das linguagens artísticas nas escolas e que se preocupam com sua atividade pe- dagógica devem, de tempos em tempos, refletir a respeito das questões contidas nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) de Arte. Algumas dessas questões incluem refletir a respeito da função da arte na educação, na sociedade e na formação do ser humano e discutir de que forma o professor pode ser incluído nesse processo. Neste capítulo compreenderemos a dança como uma das linguagens artísticas trabalhada (ou que deveria ser) na escola. É importante percebermos as possibilidades de tratar da dança no ambiente escolar e estarmos cientes da legislação brasileira que rege a educação dessa linguagem. Primeiro, conheceremos as leis que contemplam as artes e, depois, especificaremos a linguagem da dança. 4.1 Linguagem da dança Vídeo Antes de tratarmos da linguagem da dança, especificamente, devemos responder à seguinte questão: quais são as linguagens artísticas contem- pladas no ensino fundamental, de acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais de Arte? Segundo os PCN (BRASIL, 1997; BRASIL, 1998), as qua- tro linguagens artísticas são: artes visuais, dança, música e teatro. Apesar de a história da arte remeter aos primórdios da humanidade, o ensino dela na escola é relativamente recente. A arte sempre esteve presente na vida das pessoas, seja para fabricar uma ferramenta para a caça, seja para celebrar a colheita cantando e dançando, seja para registrar feitos por meio de desenhos nas cavernas. O ensino desse tipo de ação era passado de geração para geração e fazia parte dos valores A dança na escola 69 de cada cultura, tribo, grupo ou sociedade. Podemos dizer que o en- sino da arte faz parte da formação do ser humano como ser social. Gu st av o Fr az ao /S hu tte rs to ck Figura 1 Pintura de tribo indígena da Amazônia Figura 2 Berimbau: instrumento de roda de capoeira Fr ed S . P in he iro /S hu tte rs to ck É fácil reconhecermos esse tipo de ensinamento nos rituais reli- giosos, por exemplo. Por mais que cada religião seja distinta e tenha suas singularidades, suas crenças e seus valores, normalmente seus rituais vêm acompanhados de canto, dança e representação teatral e imagética. Esse tipo de manifestação artística é aprendido por meio da convivência em sociedade, dentro de um grupo familiar. Além dos rituais religiosos, há celebrações de colheita, guerra, fertilidade, ma- trimônio, entre outras. No Brasil, o ensino de arte como conteúdo do currículo escolar começa a reconhecer algumas linguagens artísticas em detrimento de outras a partir do século XIX. Barbosa (1978) afirma que o desenho era a linguagem que resumia o ensino da arte na escola primária e secundária. Um dos primeiros registros encontrados da exigência do ensino do desenho foi o artigo “Generalização do ensino do desenho”, escrito em 1878 por André Rebouças. Nele, o autor afirma que o ensino do desenho era obrigatório na França e que deveria ser imediatamente copiado no Brasil. Esse estudo reconhece o desenho como um componente da comunicação e com- plemento da escrita, da caligrafia e da ortografia. Já a prática musical, nessa época, era responsabilidade da Igreja e dos ambientes religiosos. A partir de meados do século XIX, o Decreto 70 Corpo, dança, expressão e movimento n. 331, de 17 de novembrode 1854, instituiu a música no currículo esco- lar, com “noções de música e exercícios de canto em escolas primarias de 1º e de 2º graus” (MALAQUIAS; VIEIRA, 2019, p. 45). Embora o Decre- to não tenha estimulado de modo significativo a educação musical, po- demos afirmar que foi um primeiro passo para o seu reconhecimento. Segundo os PCN de Arte (BRASIL, 1997, p. 22), “na primeira metade do século XX, as disciplinas Desenho, Trabalhos Manuais, Música e Canto Orfeônico faziam parte dos programas das escolas primárias e secun- dárias, concentrando o conhecimento na transmissão de padrões e modelos das culturas predominantes”. A disciplina de Desenho era subdividida em: Desenho Geométrico, Desenho do Natural e Desenho Pedagógico. Seu objetivo estava voltado para a parte técnica, dos ofícios, e não necessariamente para o contexto da arte. Nesse caso, cabia ao professor transmitir os códigos e os con- ceitos de padrões estéticos, os quais eram reproduzidos pelos alunos. Figura 3 Crianças desenhando Se ve nt yF ou r/ Sh ut te rs to ck A dança e o teatro apareciam em festividades e celebrações esco- lares, como Páscoa, Dia da Independência e Natal, com a finalidade de A dança na escola 71 que fossem apresentados depois de serem decorados textos e movi- mentos marcados (BRASIL, 1997). No início do século XX, o ensino da arte estava voltado para a transmissão e a reprodução de conteúdos estéticos, privilegiando a vi- são utilitarista e imediatista da arte. Nos anos 1930, o projeto de Canto Orfeônico, preparado pelo compo- sitor Heitor Villa-Lobos, foi responsável por levar a linguagem musical a todo o país. Contudo, encontrou dificuldades no ensino, fazendo com que a educação musical fosse restrita à memorização de peças orfeônicas, pri- vilegiando o caráter cívico e de exaltação. De acordo com os PCN (BRASIL, 1997, p. 22), “o Canto Orfeônico foi substituído pela Educação Musical, criada pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira de 1961, vigo- rando efetivamente a partir de meados da década de 60”. Até os anos 1960, os cursos de formação de linguagens artísticas eram escassos, assim como os professores dessa área. Desse modo, o ensino da arte nas escolas poderia ser feito por qualquer pessoa que tivesse certa habilidade, assumindo as disciplinas de Desenho, Desenho Geométrico, Artes Plásticas e Música. A dança continuava sendo camuflada em aulas de Ginástica e/ou Educação Física, e o ensino do movimento corporal dentro das esco- las estava relacionado à manutenção do corpo saudável, e não à arte. A dança poderia ou não fazer parte da educação do corpo dentro de uma disciplina de linguagem artística, embora continuasse sendo vista como atividade recreativa e comemorativa. Nos anos 1970, a arte é reconhecida na escola como disciplina obri- gatória de Educação Artística no ensino fundamental (1º e 2º graus). A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), n. 5.692, de 11 de agosto de 1971, determina, em seu artigo 7º, que “será obrigatória a in- clusão de Educação Moral e Cívica, Educação Física, Educação Artística e Programas de Saúde nos currículos plenos dos estabelecimentos de 1º e 2º Graus” (BRASIL, 1971, grifos nossos). Essa reforma foi um passo importante para difundir as linguagens artísticas no ensino formal, já que a educação artística se tornou obri- gatória. No entanto, o ensino da arte encontrava resistências, devido ao contexto social e político que o país enfrentava. O favorecimento do en- sino tecnicista facilitava renegar o ensino da arte na escola, e a ditadura militar no país privilegiava a educação do corpo como atividade física. 72 Corpo, dança, expressão e movimento Mais uma vez a linguagem da dança estava velada dentro de uma aula ou outra de Educação Artística ou Educação Física e contava com o interesse pessoal do professor em ensinar esse tipo de linguagem corporal aos alunos. O ensino formal da dança continuava sendo feito em cursos especí- ficos, em escolas, clubes e teatros. Somente em 1956 surge o primeiro curso superior de Dança do Brasil, na Universidade Federal da Bahia, para formar profissionais da área. Por mais que existisse professores capacitados, foi a única universidade a formar profissionais de dança no país até 1984, quando surge o curso superior de bacharelado e li- cenciatura em Dança, na Faculdade de Artes do Paraná (FAP) 1 . Assim, o contingente de profissionais da área de dança era muito restrito para reivindicar um lugar no currículo escolar. Os cursos superiores de licenciatura em Educação Artística forma- vam docentes que ensinavam Arte nas escolas e que tinham a dança como conteúdo de formação. Isso fazia com que esses profissionais fossem capazes de ministrar aulas de todas as linguagens artísticas: desenho, desenho geométrico, música, artes visuais e dança. Dessa forma, os professores de Arte acabavam tendo uma respon- sabilidade enorme de ensinar diversas linguagens, embora aprender e ser profissional em apenas uma delas (músico, bailarino, artista plásti- co, ator etc.) já demandasse vários anos de estudo contínuo. A educação artística na escola não alcançou as possibilidades edu- cacionais e culturais, resultantes das manifestações espontâneas e autoexpressivas, desconfigurando os sentidos e significados da arte, provocando o desenvolvimento indiscriminado de ideias vagas e imprecisas sobre a função da educação artística na educação escolar, relegando o professor da área a um papel cada vez mais irrelevante e passivo. (BEZERRA; RIBEIRO, 2020, p. 9) A dança não consegue encontrar na Educação Artística um lugar para ser contemplada, mas acaba se disseminando na escola dentro da Educação Física, mesmo sendo submetida a apenas celebrações do calendário escolar. Estava inserida na música e no teatro, porém sempre com uma característica de complemento e adorno das ativi- dades escolares. Apenas nos anos 1990 a dança começa a ser, definitivamente, ques- tionada e incluída nas escolas como linguagem artística, resultando na Lei n. 9.394/1996, que abordaremos a seguir. Hoje a FAP é a Universidade Estadual do Paraná (Unespar). 1 A dança na escola 73 4.2 Dança como área de conhecimento Vídeo Por muitos anos, a dança como linguagem artística dentro da escola apareceu como aula extracurricular, não obrigató- ria. Foi (e às vezes é) considerada como área não autônoma, por não ter conteúdo próprio ou pela falta de conhecimento dos conteúdos singulares que ela contempla. Strazzacappa (2003) faz uma reflexão a respeito da dança, de seu conteúdo e de como outras áreas se apropriaram dessa linguagem. Por exemplo, a dança ensina a respeito do corpo e do movimento, mas isso a Educação Física também faz; apresenta noções de música e movimentos rítmicos, que também são abordadas pela Música; aborda questões estéticas, ainda tratadas nas artes visuais, e questões expressivas, trabalhadas no teatro. Quanto ao desenvolvimento da criatividade e da imaginação, ao desenvolvimento motor, à memória e aos aspectos afeti- vos e cognitivos, essas são questões ensinadas em todas as linguagens artísticas. Após a LDB n. 9.394, de 20 de dezembro de 1996, a Educação Artística no Brasil deixa de ser apenas uma atividade escolar para participar do conteúdo curricular como a disciplina de Arte. Em seu capítulo II, artigo 26, parágrafo segundo, está descrito: “O ensino da arte constituirá componente curricular obrigatório, nos diversos níveis da educação básica, de forma a promover o desenvolvimento cultural dos alunos” (BRASIL, 1996). A dança é mencionada pela primeira vez em documento na- cional, como parte integral da educação em Arte, nos PCN de 1997. “No transcorrer do ensino fundamental, o aluno poderá desenvolver sua competência estética e artística nas diversas modalidades da área de Arte (Artes Visuais, Dança, Música, Teatro) 2 ” (BRASIL, 1997, p. 39). Os conteúdos de Arte nos PCN de 1997 e 1998 estão dis- postos em três eixos norteadores: “a produção,a fruição e a reflexão” (BRASIL, 1997, p. 41) e/ou “produzir, apreciar e contex- tualizar” (BRASIL, 1998, p. 49). Como o próprio nome sugere, eles são para dar um norte, um caminho a seguir, dentro das aulas Marques (2003) ressalta que desde 1989 o regimento das escolas públicas de São Paulo inclui a Arte como disciplina oficial do currículo nas modali- dades de teatro, dança, música e artes visuais. 2 74 Corpo, dança, expressão e movimento de Arte. Além disso, os três eixos descritos não devem ser colocados em uma ordem específica, apenas contemplados na aula da maneira que for mais adequada ao professor. O eixo da produção está relacionado “ao fazer artístico (como ex- pressão, construção, representação) e ao conjunto de informações a ele relacionadas, no âmbito do fazer do aluno e do desenvolvimento de seu percurso de criação” (BRASIL, 1998, p. 50). O ato de produzir é desenvol- vido por meio da experimentação das diversas linguagens artísticas. Apreciar ou fruir se relaciona a perceber, decodificar e interpre- tar a arte e o seu universo. “A ação de apreciar abrange a produção artística do aluno e a de seus colegas, a produção histórico-social em sua diversidade, a identificação de qualidades estéticas e significados artísticos no cotidiano, nas mídias, na indústria cultural, nas práticas populares, no meio ambiente” (BRASIL, 1998, p. 50). Contextualizar ou refletir permite que os alunos aprendam as lin- guagens artísticas “à medida que forem capazes de perceber, agir efeti- vamente em arte e compreendê-la não apenas como objeto, mas como campo de sentido e âmbito perceptivo, sensível e cognitivo” (BRASIL, 1998, p. 50). Desse modo, os estudantes aprendem a fazer conexões com outros saberes, como os contextos históricos e sociais. Observar, analisar e criticar são também formas de contextualizar e podem ser feitas por meio de processos de produção e apreciação. A reflexão compartilhada gera um contexto de ensino e aprendiza- gem cooperativo, que expressa a natureza social do saber. Essa ex- periência coletiva, por sua vez, realimenta a reflexão de cada aluno, pois envolve níveis distintos de elaboração de saberes, o que pro- voca, desequilibra e promove transformações nas aprendizagens individuais. Nesse ambiente, deve-se educar para o exercício de respeito mútuo, crítica (fazer e receber), solidariedade, diálogo, re- cepção à diversidade de intuições, ideias, expressões, sentimentos, construções e outras manifestações que emergem nas situações de aprendizagem artística e estética. (BRASIL, 1998, p. 50-51) Os três eixos norteadores acabam ficando mais evidentes quando os conteúdos específicos da dança são abordados. Cada linguagem ar- tística (dança, teatro, música e artes visuais) tem os conteúdos diferen- ciados nos PCN-Arte 3 de acordo com a idade de desenvolvimento: do 1º ao 4º ano e do 5º ao 8º ano de ensino. Os PCN-Arte foram publicados em 1997 e 1998, antes da Lei Ordinária n. 11.274/2006, que ampliou de oito para nove anos o ensino fundamental. Por esse motivo é que foram mantidos no texto os termos 1º ao 8º ano do ensino fundamental. 3 A dança na escola 75 Para o primeiro e o segundo ciclos de ensino, ou seja, do 1º ao 4º ano (aproximadamente dos 6 aos 9 anos de idade), os PCN-Arte subdividem os conteúdos da dança em três aspectos: a dança na expressão e co- municação humana; a dança como manifestação coletiva; e a dança como produto cultural e apreciação estética. A dança na expressão e comunicação humana aborda o conhe- cimento do corpo, as observações e experimentações de movimentos corporais, os gestos, as expressões e a seleção e organização de movi- mentos experienciados. A dança como manifestação coletiva deve estimular o aluno a reco- nhecer a dança como uma atividade de grupo, de cultura e de sociedade. Com base na observação, os discentes devem ser capazes de enxergar e respeitar as qualidades de movimento de cada um, compreendendo e aceitando que cada corpo tem um desenvolvimento diferente e indivi- dual. Nesse momento, é importante trabalhar em grupo para que cada indivíduo possa se reconhecer dentro do todo, interagir em conjunto e comunicar-se com o grupo. Valorizar as habilidades de cada um e respei- tar a individualidade e a diferença devem fazer parte do convívio, da cria- ção e da comunicação do grupo. E a dança como produto cultural e apreciação estética “refere-se ao saber ver, distinguir, compreender, relacionar, analisar e argumen- tar sobre a dança” (BRASIL, 1997, p. 64). O aluno deve ser estimulado a assistir à dança, observar e reconhecer danças presentes em regiões diversas e analisar as manifestações de dança em épocas variadas. Para o terceiro e o quarto ciclos de ensino, ou seja, do 5º ao 8º ano (aproximadamente dos 10 aos 13 anos de idade), os PCN-Arte subdividem os conteúdos específicos da dança em três aspectos, os quais serão “(...) privilegiados de acordo com as necessidades dos alunos e o contexto sociopolítico e cultural em que se encontram: dançar, apreciar e dançar e as dimensões sociopolíticas e culturais da dança” (BRASIL, 1998, p. 74). O aspecto dançar no contexto escolar está relacionado à continua- ção do desenvolvimento das habilidades corporais adquiridas nos anos anteriores. O trabalho de memória e reprodução de sequências criadas pelos próprios alunos, dentro de um contexto estudado previamente, pode ser aprofundado. Conhecer técnicas de movimento, identificar habilidades corporais e relacionar o conhecimento novo ao que já foi apreendido devem favorecer a interpretação e a criação em dança, assim como a consciência corporal. 76 Corpo, dança, expressão e movimento O aspecto apreciar e dançar busca aperfeiçoar a compreensão dos elementos dos movimentos relacionados às ações corporais executa- das com certa energia, no tempo e no espaço. Experimentar, investigar e diferenciar questões de improvisação, composição coreográfica e re- pertórios, bem como refletir sobre elas, estão incluídos nesse aspecto. No aspecto das dimensões sociopolíticas são abordados assuntos que envolvem a dança e que transformam o seu significado por meio do aprendizado de sua história. Os aspectos de método de ensino, forma, técnicas de dança, valores culturais e contextos diversificados darão subsídios para essa reflexão, o que proporcionará a descoberta de temas atuais, de modo que seja possível compreender o papel do corpo nas variadas manifestações artísticas. Apesar de os primeiros PCN-Arte terem sido publicados em 1997, as palavras-chave para o ensino da dança não podem ser esquecidas e devem ser constantemente revisitadas. Desse modo, a dança é vis- ta como compreensão e comunicação humana, manifestação coletiva e produto cultural. Para cada olhar dançante, não podemos esquecer que dançar, apreciar esteticamente, fruir e refletir acerca das dimen- sões sociopolíticas estão interligados. Quadro 1 Palavras-chave para o ensino da dança na escola Conteúdos (1º ao 4º ano) Conteúdos (5º ao 8º ano) Expressão e comunicação humana Dançar Apreciar Refletir/compreender dimensões socio- políticas e culturais Manifestação coletiva Produto cultural Apreciação estética Fruir Fonte: Elaborado pela autora com base em Brasil, 1997; Brasil, 1998. Podemos dizer que a dança é reconhecida nas escolas brasileiras como área de conhecimento a partir do final dos anos 1990. Por mais que tenhamos registros de dança dentro da escola antes disso, ela sempre acabou cumprindo um papel de preenchimento de calendário escolar em festividades e celebrações. Até a publicação dos PCN-Arte, percebemos que os conteúdos de dança continuavam sendo bastante amplos, mas ao menos as linguagens artísticas já começavam a ter um maior posicionamento dentro do ensino obrigatório. Os registros de dança dentro da escola datam do começo do século XX, porém era uma atividade velada dentro de outros conteúdos ou de outras disciplinas que trabalhavam o corpo. Curiosidade A dança naescola 77 A Base Nacional Comum Curricular (BNCC), em sua versão final de 2018, prescreve as novas normas da educação básica brasileira. As quatro linguagens artísticas contempladas no componente curricular Arte continuam sendo dança, teatro, música e artes visuais. Assim, o texto da BNCC a respeito do ensino de linguagens artísticas acaba sen- do uma validação e um amadurecimento dos PCN-Arte. Cada linguagem artística dentro da Base deve articular seis dimen- sões, que vão ao encontro do que já estava posto nos PCN-Arte, a sa- ber: criação, crítica, estesia, expressão, fruição e percepção. • A criação refere-se ao construir, produzir algo. Trata-se de “apreender o que está em jogo durante o fazer artístico, processo permeado por tomadas de decisão, entraves, desafios, conflitos, negociações e inquietações” (BRASIL, 2018, p. 194). • A crítica é baseada em impressões e análises, dando ao sujeito novas possibilidades de compreensão. “Essa dimensão articula ação e pensamento propositivos, envolvendo aspectos estéticos, políticos, históricos, filosóficos, sociais, econômicos e culturais” (BRASIL, 2018, p. 194). • A estesia é sinônimo de sensibilidade, da capacidade de sentir algo/alguém, seja físico ou emocional. “O corpo em sua totali- dade (emoção, percepção, intuição, sensibilidade e intelecto) é o protagonista da experiência” (BRASIL, 2018, p. 194). Com a experiência corporal é que desenvolvemos a capacidade de perceber e sentir. • A expressão é um modo de linguagem, sendo possível se expressar por meio da fala, da escrita, do corpo e do gesto. No caso da dança, o corpo acaba sendo o principal meio 4 . A expressão corporal está diretamente relacionada à estesia. • A fruição “refere-se ao deleite, ao prazer, ao estranhamento e à abertura para se sensibilizar durante a participação em práticas artísticas e culturais” (BRASIL, 2018, p. 195). • A reflexão está relacionada à construção de um pensamento, ou seja, conhecimento com base em experiências de expressão, es- tesia e fruição. “É a atitude de perceber, analisar e interpretar as manifestações artísticas e culturais, seja como criador, seja como leitor” (BRASIL, 2018, p. 195). Não significa que a fala, a escrita ou outros meios de linguagem não possam estar atrelados a essa manifestação. 4 78 Corpo, dança, expressão e movimento Quadro 2 Legislação da educação brasileira PCN Arte BNCC Conteúdos Produção Fruição Reflexão Criação Crítica Estesia Expressão Fruição Percepção Fonte: Elaborado pela autora com base em Brasil, 1997; 1998; 2018. Alguns conteúdos da dança que envolvem a linguagem corporal são abordados tanto na disciplina de Dança quanto na de Educação Física. Os quadros a seguir apresentam transcrições de trechos da BNCC, com os conteúdos e as habilidades de dança do 1º ao 5º ano, que são de conheci- mento obrigatório dos profissionais que trabalham com a linguagem cor- poral e artística na escola. Quadro 3 Dança – 1º ao 5º ano Contextos e práticas (EF15AR08) Experimentar e apreciar formas distintas de manifestações da dança pre- sentes em diferentes contextos, cultivando a percepção, o imaginário, a capacidade de simbolizar e o repertório corporal. Elementos da linguagem (EF15AR09) Estabelecer relações entre as partes do corpo e destas com o todo corporal na construção do movimento dançado. (EF15AR10) Experimentar diferentes formas de orientação no espaço (deslocamentos, planos, direções, caminhos etc.) e ritmos de movimento (lento, moderado e rápido) na construção do movimento dançado. Processos de criação (EF15AR11) Criar e improvisar movimentos dançados de modo individual, coletivo e co- laborativo, considerando os aspectos estruturais, dinâmicos e expressivos dos elemen- tos constitutivos do movimento, com base nos códigos de dança. (EF15AR12) Discutir, com respeito e sem preconceito, as experiências pessoais e cole- tivas em dança vivenciadas na escola, como fonte para a construção de vocabulários e repertórios próprios. Fonte: Brasil, 2018, p. 200-201. Os conteúdos e as habilidades de dança do 6º ao 9º ano estão des- critos a seguir. Quadro 4 Dança – 6º ao 9º ano Contextos e práticas (EF69AR09) Pesquisar e analisar diferentes formas de expressão, representação e encenação da dança, reconhecendo e apreciando composições de dança de artistas e grupos brasileiros e estrangeiros de diferentes épocas. (Continua) A dança na escola 79 Elementos da linguagem (EF69AR10) Explorar elementos constitutivos do movimento cotidiano e do mo- vimento dançado, abordando, criticamente, o desenvolvimento das formas da dança em sua história tradicional e contemporânea. (EF69AR11) Experimentar e analisar os fatores de movimento (tempo, peso, fluên- cia e espaço) como elementos que, combinados, geram as ações corporais e o movimento dançado. Processos de criação (EF69AR12) Investigar e experimentar procedimentos de improvisação e criação do movimento como fonte para a construção de vocabulários e repertórios pró- prios. (EF69AR13) Investigar brincadeiras, jogos, danças coletivas e outras práticas de dança de diferentes matrizes estéticas e culturais como referência para a criação e a composição de danças autorais, individualmente e em grupo. (EF69AR14) Analisar e experimentar diferentes elementos (figurino, iluminação, cenário, trilha sonora etc.) e espaços (convencionais e não convencionais) para composição cênica e apresentação coreográfica. (EF69AR15) Discutir as experiências pessoais e coletivas em dança vivenciadas na escola e em outros contextos, problematizando estereótipos e preconceitos. Fonte: Brasil, 2018, p. 206-207. Para a Educação Física, a BNCC (BRASIL, 2018) sugere, entre outras coi- sas referentes ao ensino da dança, como o ritmo, o gesto e as brincadeiras cantadas, também o ensino das danças do Brasil e do mundo (folclóricas, urbanas etc.) e das danças de matriz indígena e africana (de salão, folclóri- cas etc.). Ou seja, as disciplinas de Arte e Educação Física têm os mesmos objetos de ensino e devem saber trabalhar juntas, explorando uma parce- ria, a fim de estimular o ensino da dança e de outras áreas artísticas. Figura 4 Bumba meu boi Je an L op es /S hu tte rs to ck 80 Corpo, dança, expressão e movimento Figura 5 Representação do folclore brasileiro Xa xa s/ Sh ut te rs to ck Ressaltamos que qualquer regra, norma ou organização de compe- tências e habilidades do ensino da Arte na escola é apenas uma suges- tão, e não necessariamente uma obrigação a ser cumprida no currículo escolar. Afinal, cada escola pode e deve organizar seus próprios currícu- los, adequando-os à sua realidade. De qualquer modo, é imprescindível saber quais são as orientações básicas para a educação brasileira, dis- postas nos documentos publicados. As informações aqui analisadas tratam, especialmente, do ensino fundamental, ou seja, do 1º ao 9º ano. A escolha de observar os con- teúdos do ensino fundamental em detrimento do ensino médio foi devido à atenção que devemos ter na formação inicial do indivíduo. A sugestão é que façamos a mesma pesquisa e reflexão que foi reali- zada nesta seção com as informações referentes ao ensino médio, as quais estão contidas na BNCC. 4.3 Caminhos para a dança na escola Vídeo Atualmente, o documento que rege as normas do currículo da educação brasileira é a BNCC, disponível no portal do Ministério da Educação (MEC). Os conteúdos da dança aparecem descritos na Base como sugestões do que deve ser abordado na escola. Cada estado tem seu próprio Plano de Desenvolvimento Curricular. O Paraná, por exem- plo, denomina o seu de Currículo da Rede Estadual Paranaense (Crep). Com base no que foi proposto pelo governo federal, o Paraná desenvolveu e adaptou esse currículo de acordo com as necessidades do estado. Assim é em cada estado do Brasil. Saiba mais A dança na escola 81 Porém, como afirma Marques (2003), ainda existe uma distância entre o que é proposto e o que é efetivamentecolocado em prática. A esse respeito, a autora refere-se à aplicação dos PCN-Arte. É certo que muita coisa já mudou, e a dança vem tomando seu espa- ço na escola de modo mais efetivo. Um dos motivos de isso acontecer é a disseminação dos conhecimentos da autora, pioneira na sistemati- zação do ensino da dança escolar no Brasil. Algumas questões levantadas por Marques (2013) se referem ao conceito de dança que estamos propagando nas escolas. O primeiro passo para melhorar o seu ensino é questionar professores, alunos, funcionários e pais a respeito do entendimento deles de dança. Que tipo de conhecimento caracteriza a arte? Qual a função da arte na sociedade? Qual a contribuição específica que a arte traz para a educação do ser humano? Como as contribuições da arte podem ser significativas e vivas dentro da escola? Como se aprende a criar, experimentar e entender a arte e qual a função do professor nesse processo?. (BRASIL, 1997, p. 21; BRASIL, 1998, p. 22) É válido compreendermos a dança como uma rede de relações en- tre intérprete, movimento e espaço cênico (MARQUES, 2013). Trabalhar a dança como arte só é possível à medida que conseguimos diferenciar ela do movimento, na Educação Física, do ritmo, na música, ou da inter- pretação, no teatro. Segundo Marques (2013, p. 27, grifos do original), “para que estejamos trabalhando (...) a dança enquanto arte, devemos atentar para as relações entre: quem/com quem se move? O que se move? Onde se move? Acima de tudo, o que diferenciará o trabalho com a linguagem da dança/arte é a pergunta: por que se move?”. Para a autora, o que distingue a dança dos movimentos da Educação Física ou das brincadeiras é a forma com que os signos se relacionam 6 . Um signo pode ser compreendido como uma palavra, por exemplo, cadeira. A cadeira representa um objeto que serve para se sentar, mas cada um irá a significar de acordo com suas referên- cias: pode ser uma cadeira de madeira, de plástico, de praia ou com três pés de apoio. O mesmo signo acaba tendo significados distintos dependendo dos contextos social, histórico e cultural. Isabel Marques é coreógrafa, escritora, diretora e professora de dança. Graduada em Pedagogia, é mestre em Dança pelo Laban Centre, Londres (hoje Trinity Laban), e doutora em Educação. “Foi redatora dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) na área de dança e do documento de EJA – área de dança lançados pelo MEC. Assessorou a UNESCO com redação de documento para dança na América Latina no ano de 2002. Prestou assessoria ao governo do Estado do Paraná na redação de documento de Arte para Educação de Jovens e Adultos em que a proposta metodológica de Isabel Marques – Dança no Contexto – foi adotada por todo o Estado”. (CALEIDOS, 2021) Biografia A autora afirma que essa dife- renciação de maneira alguma diminui o valor da Educação Física ou da brincadeira. 6 82 Corpo, dança, expressão e movimento Assim, um movimento de acenar para alguém dando “tchau” pode ser só um gesto em uma situação de despedida. Na dança, pode significar um ato de amor, desprezo, ódio, alegria, falsidade etc. depen- dendo do intérprete, do espaço e das relações entre eles. ro be rjz m /S hu tte rs to ck Figura 6 Movimento de aceno Desse modo, as respostas às perguntas “Quem?”, “Com quem?”, “Onde?”, “Como?” e “Por que” se move são conteúdos dançantes. O intérprete da dança é quem se move, seja sozinho, seja com ou- tros intérpretes, ambas as situações ocorrendo no espaço. Esse intér- prete, ou intérpretes, move-se em algum lugar no espaço, respondendo à questão “Onde se move?”. A questão “O que se move?” está relacionada ao movimento feito pelo corpo do intérprete, que se move em relação a outros e em relação ao espaço. “Por que se move?” faz referência às motivações do ato de se mo- ver, que podem ser por várias razões, intenções, “questões estéticas, éticas, sociopolítico-culturais que movem os dançantes (artistas)” (MARQUES, 2013, p. 28). Mas como fazer isso em sala de aula? Imagine uma turma de crian- ças e dê a sugestão de brincarem com seus próprios corpos, desco- brindo que partes juntas/separadas podem se mover. Para começar, podemos perguntar: quando a professora anda, o que se move? E se A dança na escola 83 andássemos com apoios diferentes, além dos pés, quais seriam? O que se move agora? À medida que as crianças experimentam, descobrem e resolvem essas questões que parecem simples, começam a observar que cada corpo se move de modo diferente, mesmo tendo as mesmas articulações para explorar. Essa atividade pode ser identificada como uma brincadeira, pelas crian- ças, como uma “bagunça”, pela direção da escola, e como um processo de dança sem música, pelo professor. Já para o MEC, a mesma atividade pode ser identificada como um requisito da BNCC do 1º ao 5º ano, habilidade (EF15AR09), quanto aos aspectos da linguagem da dança. É claro que nesse requisito da BNCC a atividade está cumprindo só uma parte, que é a relação entre as partes do corpo e destas com o todo. Porém, ao trabalhar outras questões e as suas relações, a cons- trução do movimento dançado começa a aparecer, em um primeiro momento, de modo espontâneo, para depois se tornar consciente. As propostas de dança devem começar das mais fáceis para as mais difíceis. Nesse caso, Marques (2013) propõe, em primeiro lugar, dançar com o corpo todo e, depois, com as partes dele. Para dificultar a ativida- de, depois de ter explorado bem a primeira parte, é possível dançar em locomoção com o corpo todo e com as partes. A brincadeira, atividade ou coreografia sem música deve ter uma conversa posterior com a finalidade de compreender as dificuldades e as facilidades de cada estudante. A conversa final deve ocorrer como forma de estimular a criatividade e refletir sobre a noção de respei- to entre os corpos e os movimentos diversos executados, bem como “toda proposição relacionada à dança, principalmente em situações em que o corpo é o foco de ensino e aprendizagem, inclua também mo- mentos de problematização e contextualização daquilo que está sendo proposto como campo de conhecimento” (MARQUES, 2013, p. 84). As crianças aprendem brincando, experimentando, problematizan- do e observando. Para que possam ter referências de dança além das suas próprias e das de seus colegas, a sugestão é escolher vídeos de danças ou imagens de manifestações culturais como meio de ampliar o vocabulário corporal e visual. Quando mostramos uma imagem ou um vídeo de capoeira, por exemplo, podemos fazer uma dança com movimentos que mudam o apoio no chão. Além disso, é possível problematizar todo o contexto 84 Corpo, dança, expressão e movimento que envolve uma roda de capoeira, como a cultura, os valores, a músi- ca, a dança e a religião. CR EA TI ST A/ Sh ut te rs to ck Figura 7 Capoeira Ao apresentar um vídeo ou um grupo de dança com um estilo especí- fico, é possível igualmente problematizar a respeito da parte estética, do modo como se movem, onde se movem e por que se movem. “Danças, leituras, reflexões podem gerar mais movimentação, combinações, ou- tras danças de autoria das crianças, outras vontades de assistir à dança e assim vamos, dançando!” (MARQUES, 2013, p. 51). Pr es sm as te r/ Sh ut te rs to ck Figura 8 Grupo de dança A dança na escola 85 A dança na escola deve ser compreendida com base nessas relações, e não apenas como simples comemorações e coreografias prontas para mostrar aos pais no final do ano. Além disso, é importante fazermos com que os alunos se envolvam nos processos dançantes de improvisação, criação e questionamento. O resultado dessa divisão de responsabili- dades pode significar uma dança mais verdadeira, expressiva, criativa e com sentido para os que dançam e para os que a assistem. Os caminhos para a dança na escola estão longe de serem conside- rados os ideais, por estarem marcados por preconceitos mesmo nos dias atuais. A arte da dança faz parte do ensinona escola. Devemos refletir sobre o que o mundo impõe e o que é realmente necessário para o processo de ensino e aprendizagem. Quebrar tabus, conversar sobre conceitos preestabelecidos e estimular o pensamento crítico de- veria ser, constantemente, objeto de pesquisa do professor que trata da linguagem da dança e de qualquer linguagem artística. CONSIDERAÇÕES FINAIS Os professores envolvidos com as linguagens artísticas, especialmente a dança, sabem que os caminhos para a consolidação dessa área na esco- la vêm causando mudanças positivas, embora sejam pontuais. Percebemos que os documentos publicados a partir de 2018 pelo MEC privilegiam as artes visuais, a dança, a música e o teatro como linguagens obrigatórias na escola. Antes disso, os PCN-Arte de 1997 e 1998 já orga- nizavam os conteúdos da dança, mesmo que tenha demorado algumas décadas para que ela fosse valorizada. Embora tenhamos evoluído na organização de conteúdos na disciplina de Arte, a prática pedagógica continua distante da teoria. Somos respon- sáveis por fazer com que o documento que rege a educação brasileira seja colocado em prática. A dança, como última linguagem artística valorizada na escola, merece ocupar seu espaço ao lado das demais. As leis, as normas e os decretos pesquisados nos dão um norte a se- guir. Não são e não devem ser rígidos, estando em constante movimento e transformação para que possamos melhorar e valorizar, cada vez mais, a arte como parte da formação do ser humano. 86 Corpo, dança, expressão e movimento ATIVIDADES 1. A arte está presente na formação do ser humano. Dessa forma, aprendemos os valores que levamos conosco para a vida por meio da observação do nosso grupo social. Pense em algum exemplo de ensinamento relacionado à manifestação artística que foi passado a você em algum lugar que frequentou (igreja, escola, casa) e que ainda é presente em sua vida. Justifique. 2. De acordo com a habilidade (EF15AR10) presente na BNCC, proponha e explane uma atividade dançante para alunos entre o 1º e o 5º ano. 3. Conhecendo as habilidades sugeridas pela BNCC para cada área da educação, compare um tópico das linguagens artísticas (teatro, dança, música ou artes visuais) com o currículo do seu estado. Observe e explique se há muitas semelhanças, diferenças e/ou adaptações possíveis. REFERÊNCIAS BARBOSA, A. M. Arte-educação no Brasil. São Paulo: Perspectiva, 1978. BEZERRA, D. D. da. S.; RIBEIRO, L. G. A história do ensino da dança no Brasil e a educação básica. Incomum, Goiás, v. 1, n. 1, p. 1-19, 2020. Disponível em: https://revistas.ifg.edu.br/ incomum/article/view/750. Acesso em: 11 mar. 2021. BRASIL. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, DF: Ministério da Educação, 2018. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_versaofinal_site.pdf. Acesso em: 11 mar. 2021. BRASIL. Lei n. 5.692, de 11 agosto de 1971. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 11 ago. 1971. Disponível em: http://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei/1970-1979/lei-5692-11-agosto- 1971-357752-publicacaooriginal-1-pl.html. Acesso em: 11 mar. 2021. BRASIL. Lei n. 9.394, de 20 dezembro de 1996. Diário Oficial da União, Poder Legislativo, Brasília, DF, 23 dez. 1996. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L9394. htm. Acesso em: 11 mar. 2021. BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: ensino de quinta à oitava séries – Arte. Brasília: MEC/SEF, 1998. Disponível em: http://portal.mec.gov. br/seb/arquivos/pdf/arte.pdf. Acesso em: 11 mar. 2021. BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: ensino de primeira à quarta séries – Arte. Brasília, DF: MEC/SEF, 1997. Disponível em: http://portal. mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/livro06.pdf. Acesso em: 11 mar. 2021. CALEIDOS. Instituto Caleidos: arte, ensino, sociedade, 2021. Página inicial. Disponível em: https://www.institutocaleidos.com/index.html. Acesso em: 11 mar. 2021. Vídeo https://revistas.ifg.edu.br/incomum/article/view/750 https://revistas.ifg.edu.br/incomum/article/view/750 http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_versaofinal_site.pdf http://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei/1970-1979/lei-5692-11-agosto-1971-357752-publicacaooriginal-1-pl.html http://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei/1970-1979/lei-5692-11-agosto-1971-357752-publicacaooriginal-1-pl.html http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L9394.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L9394.htm http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/arte.pdf http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/arte.pdf http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/livro06.pdf http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/livro06.pdf https://www.institutocaleidos.com/index.html A dança na escola 87 MALAQUIAS, T. A.; VIEIRA, A. M. D. P. Keith Swanwick: da teoria à transformação da Escola de Música e Belas Artes do Paraná. Curitiba: Appris, 2019. MARQUES, I. A. Dançando na escola. São Paulo: Cortez, 2003. MARQUES, I. A. Interações: crianças, dança e escola. São Paulo: Blucher, 2013. STRAZZACAPPA, M. Dança na educação: discutindo questões básicas e polêmicas. Revista Pensar a Prática, Goiânia, v. 6, p. 73-85, 2003. Disponível em: https://www.revistas.ufg.br/ fef/article/view/55. Acesso em: 11 mar. 2021. https://www.revistas.ufg.br/fef/article/view/55 https://www.revistas.ufg.br/fef/article/view/55 5 A dança no século XXI O século XXI veio cheio de mudanças, especialmente as que se referem às tecnologias de informação e comunicação. Cada dia mais, as informações digitais começam a fazer parte da nossa ro- tina. Os aparelhos que usamos são extensões da vida, com vários “ambientes” dentro deles: banco, mercado, documentos, farmácia, transporte, comida, teatro, cinema, gostos, preferências, amigos, família etc. Praticamente tudo que imaginamos cabe dentro de um smartphone, e algumas dessas coisas também cabem em: smartwatch, tablet e outros dispositivos que virão. A mudança do mundo analógico para o mundo digital afetou igualmente as artes. Assim, neste capítulo, abordaremos a arte da dança, com o objetivo de refletir e aguçar a curiosidade para a relação dança-tecnologia, por meio dos meios utilizados na dan- ça há séculos, até o início do século XXI. Além disso, precisamos desenvolver um olhar estético para as artes, nas mídias contem- porâneas, e compreender a influência da conexão via rede para a criação e fruição da dança. 5.1 Dança e tecnologia Vídeo A tecnologia está inserida na dança há muito mais tempo do que imaginamos. A palavra tecnologia vem do grego tekhnología e está sepa- rada pelos termos tekchno, que significa arte, indústria e ciência, e logia (logos), que quer dizer linguagem e estudo. Portanto, a tecnologia é a linguagem ou o estudo da arte e da ciência, estando presente em nossa vida não somente como produto, mas como parte de um fenôme- no social. Pa O_ ST UD IO /S hu tte rs to ck 8888 Corpo, dança, expressão e movimentoCorpo, dança, expressão e movimento https://www.shutterstock.com/pt/g/Poobest+Thongdetchai A dança no século XXI 89 A tecnologia está presente no nosso cotidiano e resolve proble- mas de uma forma inovadora para cada contexto histórico. Por exem- plo, com a descoberta do fogo, aquecer e iluminar se transformou na tecnologia da época. Logo, o fogo deu origem a outras formas de ilumi- nar e desenvolver energia. Além disso, o ato de se locomover de um lugar a outro, dentro de um trem, foi uma tecnologia inovadora para a época, pois encurtou a distância entre os seres humanos. Conversar com outra pessoa ao telefone é outro exemplo; demorava muito tempo para que a conversa pudesse acontecer – às vezes, um longo dia de espera –, pois um ter- ceiro indivíduo precisava conectar duas linhas telefônicas para que as duas pessoas pudessem se comunicar. Atualmente, nossas distâncias estão cada vez menores, por maiores que sejam, devido à comunicação via internet. É possível que alguém na China converse com outro alguémno Brasil, mesmo que estejam distantes fisicamente. Por meio da internet, é possível fazer uma liga- ção de voz ou de vídeo, em dispositivos diversos, como: smartphones, tablets, computadores pessoais, carros, relógios etc. Desse modo, a distância encurta e as informações chegam em tempo real. Na dança, a tecnologia não começa com o computador, mas com efeitos de ilusão. Segundo Spanghero (2003), é difícil desvincular a tecnologia da história da dança. Por esse motivo, vamos conhecer al- guns aspectos históricos que influenciaram a relação entre dança e tecnologia no século XXI. Na Idade Média, a tecnologia era representada por efeitos me- cânicos das máquinas de voar para realizar um sonho, uma bailari- na mostrar sua leveza e ausência de esforço no espaço. Nesse caso, as máquinas “traziam consigo a realização do desejo de elevação” (SPANGHERO, 2003, p. 28). No século XVI, além dos efeitos mágicos proporcionados pela tecnologia, os bailarinos começaram a dançar dentro de um cenário que podia se mover e no qual as bailarinas podiam atravessar o palco voando. “Em 1564 aparece o primeiro balé de corte com elementos constituintes, dança, música, poesia, cenário com máquinas, ligados a uma ação dramática” (BOURCIER, 1987, p. 81). Os novos efeitos cênicos representavam a tecnologia da época, con- siderando que os cenários foram estáticos por muito tempo, uma vez 90 Corpo, dança, expressão e movimento que eram representados por pinturas. “A cenografia permanecia fixa, feita por painéis verticais de madeira e estuque nos quais a paisagem era pintada” (ZILIO, 2010, p. 158). Como os palcos ainda eram peque- nos, as pinturas eram feitas em perspectiva para dar ideia de profundi- dade e aumentar, de modo ilusório, o espaço total do palco. Entre o final do século XVI e meados do século XVIII, algumas transformações tecnológicas referentes às embarcações marítimas aconteceram, incluindo a forma de içar velas, incorporada pela ceno- grafia teatral, otimizando a troca de cenários durante espetáculos. A interação entre a dança e as formas de iluminação aponta algu- mas mudanças e diferenças no decorrer da história: “claridade do sol, tochas de fogo, candelabros para velas, lâmpadas de óleo animal, luz a gás, elétrica, incandescente” (SPANGHERO, 2003, p. 29). O balé Giselle, apresentado em Paris, em 1841, é um exemplo de como os recursos tecnológicos de cenário e iluminação colaboravam para dar efeitos de- sejados durante o espetáculo. Foi possível diferenciar o primeiro ato, que ocorria durante o dia, ao ar livre, do segundo ato, que se passava em uma penumbra, cheia de sombras e mistério. Desde o primeiro ato, a plateia já percebia as mudanças que a dança poderia proporcionar com seus novos efeitos visuais. A iluminação, neste ato [ato branco] conseguiu atingir níveis até então impensáveis na composição de outras atmosferas. O público fica absorvido por uma magia espetacular nunca antes experimentada. [...] O hábito de fechar cortinas entre os atos era recente, sendo que antes, a mudança de cenários era feita às vistas da plateia. [...] tudo tinha outra tonalidade [...] vestidos de noiva, transformados em tutus 1 , permitiam um efeito má- gico na iluminação. [...] bailarinas presas por arames atravessa- vam o palco num salto. (PEREIRA, 1998, p. 54 apud SPANGHERO, 2003, p. 30, grifo nosso) O século XIX permitiu que o teatro tivesse notoriedade e fama, ga- rantindo a diversão da burguesia. A tecnologia da arquitetura teatral possibilitou que os cenários e as cortinas se movessem “sozinhos”, já que as máquinas conseguiam esconder os maquinistas. Tutus é plural de tutu, que é uma vestimenta utilizada no balé clássico. É uma saia que fica armada ao redor da cintura da bailarina e possibilita ver a perna inteira, não apenas a parte de baixo, como as saias mais longas (tutu romântico). 1 A dança no século XXI 91 Figura 2 Cabos e correntes nos bastidores de um teatro no século XX T. M . M cC ar th y/ Sh ut te rs to ck O voo das bailarinas era feito não só por cabos, mas também pelas sapatilhas de ponta. A representação da leveza e da flutuação no espaço ocorria, antes das sapatilhas, pe- los sapatos de salto. Contudo, não eram confortáveis e dificultavam os movimentos. Com os cabos que permitiam “voar”, as bailarinas tocavam apenas a ponta dos pés no chão. “Várias bailarinas foram apontadas como a pri- meira a ter utilizado esse lindo recurso” (CAMINADA, 1999, p. 137). Porém, Marie Taglioni foi a bailarina re- conhecida pela história pelo feito de usar sapatos de ponta (sapatilha de ponta) pela primeira vez, em 13 de janeiro de 1832, na Ópera de Paris. Figura 3 Marie Taglioni Fa us tin H er r/ W ik im ed ia C om m on s 92 Corpo, dança, expressão e movimento As sapatilhas de ponta foram um artefato que marcou a estética do balé 2 após o período romântico 3 ; as primeiras eram sapatos rechea- dos com algodão, dificultando ficar em uma pose nas pontas dos pés por mais de um segundo (MOURA, 2001). Graças à evolução tecnológica na produção de sapatilhas, começou-se uma preocupação com questões relacionadas aos mate- riais dos sapatos, dando início a uma visão ergonômica 4 para os pés. Atualmente, as sapatilhas usam materiais mais firmes, resistentes e du- ráveis, diferentemente do algodão. Figura 4 Sapatilha de ponta be zi ku s/ Sh ut te rs to ck . O final do século XIX foi marcado por várias descobertas tecnoló- gicas, como a lâmpada elétrica, os automóveis, o avião, o processo de aperfeiçoamento da fixação de imagens, entre tantas outras 5 . Do mes- mo modo, pensadores e filósofos escreveram teorias, publicaram suas reflexões e influenciaram muitos outros filósofos, pesquisadores, cien- tistas e artistas, como Sigmund Freud (1856-1939), que publicou um de seus primeiros artigos, e Charles Darwin (1809-1882), que publicou a teoria das espécies – ambos frequentemente lembrados e estuda- dos, no século XXI, por seu legado. Todo esse conjunto de ideias, inven- ções e reflexões a respeito do final de um século e início de um novo transformou as maneiras de pensar, sentir e agir. Loie Fuller (1862-1928) foi uma artista das artes cênicas e da dança que explorou uma dessas invenções. Em 1898, Marie e Pierre Curie descobriram o elemento quí- O balé clássico privilegiava corpos alongados, magros, de acordo com o pensamento romântico da época: “a mulher ideal para os românticos [...] poderia ser descrita como pálida, frágil e doente [...] visto que os românticos consideravam a palidez indicação de uma alma pura, capaz de oferecer amor de forma incondicional” (MOURA, 2001, p. 103). A estética do balé condiz com esse pensamento. 2 O período romântico no balé acontece devido à influência do movimento literário romântico que aconteceu na Europa, na primeira metade do século XIX. Esse movimento pregava, além de outras coisas, a delicadeza e a magia, presentes na estética do balé da época. 3 O termo ergonômico se refere à ergonomia, uma ciência que estuda a relação do homem com seu trabalho (em casa, na escola, no escritório etc.), para que consiga executá-lo de maneira adequada, evitando lesões e danos ao corpo. Seu princípio é o bem-estar humano, relacionado ao uso de espaços e materiais – por exemplo, o computador. 4 Outras descobertas: 1826: surgimento da fotografia; 1846: invenção da anestesia; 1886: primeiro automóvel (Benz Patent-Motorwagen); 1895: descoberta do raio-X. 5 A dança no século XXI 93 mico radium, e Fuller pediu-lhes permissão para que pudesse usá-lo em sua coreografia (MOURA, 2001). A história exemplifica o espírito da dança de Fuller. Ela foi uma artista que sempre se preocupou em pesquisar e acompanhar as novidades científicas e tecnológicas de seu tempo. Manipulando luz e tecidos conseguia os efeitos pretendidos. O movimento destinava-se a obter tais efeitos de ilusão ótica, e, juntamente com a luz, transformava o corpo em uma borboleta, orquídeaou em nuvens. (MOURA, 2001, p. 123) A coreografia de Loie Fuller causou espanto de- vido à ilusão causada pela luz. O corpo da bailarina ficava quase invisível por baixo de um tecido bran- co, longo e grande, sugerindo não haver braços e pernas. Desse modo, a iluminação cênica criava formas diversas à medida que o tecido, o palco e o corpo eram tocados pela luz. Para essa artista, a ex- periência de ilusão do movimento e sua paixão por criar efeitos cênicos se tornaram aspectos mais im- portantes do que a expressividade e a técnica do bai- larino. “Sua obsessão em criar uma dança de efeitos cênico-visuais, a torna, ao nosso ver, uma das mais importantes pioneiras que estabeleceu novos con- ceitos em design para palco” (MOURA, 2001, p. 124). Assim como Loie Fuller, Oskar Schlemmer (1888-1943) aproximou as artes cênicas da tecnolo- gia. Schlemmer foi pintor, escultor e cenógrafo, além de ter participado da Bauhaus como professor e di- retor do departamento de teatro. A Bauhaus foi uma instituição de ensino da arte, fundada na Alemanha em 1919, e teve grande influência nas artes, especialmente da Europa, entre os anos 1920 e 1930. Seu objetivo era formar a co- munidade por meio da arte e torná-la útil para o homem moderno. A relação entre a arte e a técnica proporcionou que essa instituição se tornasse conhecida como a pioneira no ensino do design: ao sistematizar uma metodologia para o ensino do design e, ainda, ao buscar a relação entre artesãos, arte e indústria. Fe- chada pelos nazistas, em 1933, suas ideias vão se perpetuar nos Estados Unidos com a imigração de alguns professores, tornan- do-se referência para o ensino do design contemporâneo. (RIBEI- RO; LOURENÇO, 2012, p. 1) Figura 5 Loie Fuller Fa lk S tu di o/ W ik im ed ia C om m on s 94 Corpo, dança, expressão e movimento A participação de Oskar Schlemmer na Bauhaus favoreceu a conti- nuidade de estudo sobre seus interesses: a forma, o corpo, o movimen- to, o espaço e a relação entre eles. Nesse lugar, Schlemmer desenvolveu uma coreografia denominada Balé Triádico (Triadisches Ballett), em 1922. Com base em suas pesquisas referentes à relação homem-espaço, de- senvolveu “um conjunto de teorias sobre a estruturação do homem como figura vertical que se movimenta dançando interativamente com o espaço e como este por sua vez influencia o dançarino. O espaço para ele tem uma continuidade com o homem e este o absorve em suas ca- racterísticas” (CARVALHO; BOCCARA, 2009, p. 1). Figura 6 Oskar Schlemmer e o Balé Triádico (Triadisches). Ba uh au sl er 1 00 /W ik im ed ia C om m on s Triadisches Ballett é uma obra desenvolvida para três dançarinos, tendo ao todo 12 coreografias e 18 figurinos. A interação entre luz, formas e movimento compõe o primeiro balé totalmente abstrato. Os dançarinos têm figurinos que cobrem a face; portanto, retira-se a expressividade e se valoriza a forma, a estética e a técnica. Essa obra modificou o pensamento dançante da época, e outras pesquisas rela- cionadas às experimentações interativas entre técnica e arte começa- ram a ser exploradas a partir de então. As coreografias de Alwin Nikolais 6 (1910-1993) têm muita relação com as obras de Oskar Schlemmer. Isso porque o corpo não era apa- rente e havia uma valorização das formas, na intenção de que os baila- rinos pudessem transcender a individualidade ou o próprio humano na transfiguração de maneiras abstratas. Assista ao vídeo Triadic Ballet, Black Part, do canal Benedikt Frey, de uma reprodução do balé de Oskar Schlemmer para compreender melhor os elementos que constituí- ram essa composição. Disponível em: https://www. youtube.com/watch?v=GM3iC- yCf8A. Acesso em: 6 abr. 2021. Vídeo Alwin Nikolais estudou música, dança e design cênico, sendo reconhecido pela interação de elementos (multimeios) nas suas obras coreográficas e de efeitos visuais de iluminação. 6 https://www.youtube.com/watch?v=GM3iC-yCf8A https://www.youtube.com/watch?v=GM3iC-yCf8A https://www.youtube.com/watch?v=GM3iC-yCf8A A dança no século XXI 95 Nikolais utilizava sua genialidade para trabalhar com a luz, de modo a criar efeitos visuais entre imagem e movimento. Foi bastante critica- do por tentar “desumanizar” o corpo, sem prestigiá-lo, como era feito em todas as danças, e por trabalhar com a forma, o movimento e a luz. “A relação entre a dança e o computador começou por volta da dé- cada de sessenta, onde os primeiros softwares para notação do movi- mento, composição coreográfica, análise do movimento e outros usos, foram desenvolvidos” (BITTENCOURT, 2007, p. 23). A partir dos anos 1970, Merce Cunningham (1919-2009) começa a de- senvolver coreografias para as telas de vídeo e de cinema. Cunningham participou de um programa de televisão chamado Câmera 3, destinado a levar coreógrafos de destaque para conhecimento do público. Enquanto preparava o trabalho que ia ser levado para a televisão, percebeu quantas limitações tinha o espaço da tela. Ao mesmo tempo, seu olhar observou novas possibilidades de compor suas obras – foi assim que começou a trabalhar com profissionais dessa área (AMORIM; QUEIROZ, 2000). Assim, “desde os anos 60, Cunningham demonstra interesse em associar a dan- ça aos novos suportes midiáticos” (SPANGHERO, 2003, p. 43). Figura 7 Companhia de dança Merce Cunningham de Si ng el /W ik im ed ia C om m on s Assista dois exemplos de vídeos a seguir, respec- tivamente, Alwin Nikolais’ Noumenon, publicado pelo OHIOToday, e Tensile Involvement by Nikolais Dance Theatre, Joyce Theater 1993, do canal Nikolais/Louis Foundation for Dance, referentes às obras de Alwin Nikolais, para compreender melhor os elementos que constituíram suas composições. Observe como a música e a dança eram abstratas, porém os efeitos visuais já mais elaborados. Disponível em: https:// www.youtube.com/ watch?v=ZmnIZrg_1iQ. Acesso em: 6 abr. 2021. Disponível em: https://www. youtube.com/watch?v=w7- wobUsRyk. Acesso em: 6 abr. 2021. Vídeo Merce Cunningham nasceu em 1919, no estado de Washington, nos Estados Unidos. Aos 13 anos já frequentava aula de sapateado e dança de salão. Gostava do palco, mas não necessariamente de dançar (AMORIM; QUEIROZ, 2000). Mesmo que tenha tentado se tornar ator, foi a área da dança que teve o privilégio de chamá-lo de mestre. Desde 1944, trabalhava com John Cage, e o processo de criação da dupla permitiu que realizassem produções em parceria com artistas da música, das artes visuais, do vídeo, do cinema e das tecnologias. Biografia http://www.youtube.com/watch?v=ZmnIZrg_1iQ http://www.youtube.com/watch?v=ZmnIZrg_1iQ 96 Corpo, dança, expressão e movimento Surge, assim, no início dos anos 1970, uma nova forma de videoar- te, chamada de videodança. De acordo com Spanghero (2003, p. 37), ela “engloba três tipos de prática: o registro em estúdio ou palco, a adaptação de uma coreografia preexistente para o audiovisual e as danças pensadas diretamente para a tela”. Registrar uma coreografia é fazer uma cópia da obra por meio do filme. Pode ser filme antigo ou novo, com VHS, DVD ou smartphone e com um ou mais dispositivos gravando ao mesmo tempo, sem muitas alterações coreográficas. Quem se adapta ao movimento é o filme. A segunda prática se refere a adaptar uma coreografia que já existe para o audiovisual ou criar uma coreografia especialmente para esse tipo de mídia. Quem fazia isso com propriedade era Merce Cunningham. O terceiro tipo de prática que relaciona dança e imagem se chama, em inglês, screen choreography, ou seja, uma dança concebida para a projeção na tela. “São danças criadas para o corpo do vídeo e para o olho que se habituou a conviver com televisão, vídeo e cinema” (SPANGHERO, 2003, p. 38). Spanghero (2003) aborda, ainda, uma quarta prática, nomeando-a de videocenografia. Esse processo de dança ocorre no palco com a presença de pro- jeções gravadas ou em tempo real, como uma parceria dançan- te entre homem e máquina.Merce Cunningham, desde o começo dos anos 1990, inova, mais uma vez, ao utilizar o computador como ferramenta de criação e inte- ração no processo de desenvolvi- mento de suas obras. Cunningham foi pioneiro na utilização, para inte- ragir com a dança, do software Life Forms, “uma ferramenta informáti- ca de composição para a criação da dança. [...] Imaginado e desenvolvi- do como uma ferramenta criativa, Spanghero (2003) afirma ser difícil dizer com precisão qual a primeira videodança realizada no mundo, considerando que a história dela se confunde com outros dispositivos midiáticos e outras formas artísticas. Curiosidade Assista ao vídeo Beach Birds for Camera, de 1993, publicado por Elliot Caplan. Essa é uma das obras de Cunningham criada especialmente para a câmera. O local que a câmera enquadra os movimentos ajuda a construir a coreogra- fia para a tela. Foi um aprendizado tanto para o coreógrafo quanto para seus bailarinos. Disponível em: https://vimeo. com/141096694. Acesso em: 6 abr. 2021. Vídeo Figura 8 Merce Cunningham de Si ng el /W ik im ed ia C om m on s software: programa de computador. Glossário Para conhecer mais sobre o programa, visite o site do Life Forms Studio. Disponível em: http://www. lifeforms.com/products/lifeforms/. Acesso em: 6 abr. 2021. Site https://vimeo.com/141096694 https://vimeo.com/141096694 http://www.lifeforms.com/products/lifeforms/ http://www.lifeforms.com/products/lifeforms/ A dança no século XXI 97 do coreógrafo ao curioso, é possível iniciar uma pesquisa de movimento através da interface gráfica” (REGO; NEPOMUCENO, 2015, p. 8). Ainda sobre o software: o LifeForms permite a criação de uma coreografia mais orgânica, porque o idealizador pode testar o resultado várias vezes. Filmes que dependem de animação, como Titanic e Avatar, utilizam siste- mas parecidos com esse. Os autores querem dar um efeito mais próximo possível do real. Merce Cunningham também foi um dos primeiros bailarinos a usar filmadoras no palco para ir além do registro do espetáculo. (USO..., 2011) O Life Forms utiliza sensores e câmeras para captar os movimen- tos. Ao processar a informação por meio do computador, o coreógrafo pode ter uma visão melhor de como ficará sua composição no palco a ser apresentado; assim, máquina e humano trabalham em parceria. Podemos dizer que Merce Cunningham foi o primeiro profissional da dança que experimentou esse tipo de interação e que o apresentou ao público. Cunningham utilizava: softwares para coreografar e quando esteve no Brasil, na turnê 2004, apresentando BIPED 7 , mostrou que o cenário desta coreo- grafia é uma exploração de possibilidades dentro das tecnologias de animação em captura de movimentos. Esta coreografia estreou em abril de 1999, na Califórnia. Paul Kaiser e Shelley Eshkar 8 co- laboraram com Cunningham para fazer uma nova obra de coreo- grafia virtual, sendo que o movimento e não a aparência física dos bailarinos foi transportado para imagens digitais. As animações que compõem o cenário de BIPED foram criadas com os softwares Character Studio e 3D Studio Max. A captura de movimentos para o cenário foi realizada no Modern Uprising Studio no Brooklin, NY. É importante ressaltar que sem a parceria de artistas da dança e cien- tistas ou “artistas das máquinas”, unindo forças com os patrocina- dores, esta obra (BIPED), ficaria inviável. (BITTENCOURT, 2007, p. 23) Até aqui vimos um pouco sobre como dança e tecnologia se transformaram ao longo da história da dança no Ocidente. Estamos falando, especialmente, dos profissionais da Europa e dos Estados Unidos. No Brasil, uma das primeiras bailarinas a trabalhar com o com- putador na dança foi Analivia Cordeiro, a partir dos anos 1970, realizan- do danças exclusivamente para a câmera, sem utilizar o palco; ou seja, a apresentação coreográfica era feita por meio de uma fita VHS. Este trabalho foi parcialmente custeado pelo National Dance Residency Program, um programa mantido pelo The Pew Charitable Trusts e administrado pela New York Foundation for the Arts. 7 Paul Kaiser e Shelley Eshkar são artistas digitais. Kaiser é cofun- dador do Riverbed Multimedia Studio, em Nova York, que explora a integração entre arte digital, dança, desenho e animação gráfica. Ambos trabalham individualmente e são parceiros em vários projetos, como BIPED: coreografia, de Cunningham, e Gostcathing, de Bill T. Jones. 8 Para compreender me- lhor o trabalho de Merce Cunningham, assista ao vídeo BIPED Trailer | Merce Cunningham at 100 at the Kennedy Center, publicado pelo canal The Kennedy Center, da obra Biped, criada no final dos anos 1990. Nela, bailari- nos reais dividem o palco com bailarinos digitais e formas dançantes. Os bailarinos digitais apare- cem dançando à frente e atrás dos bailarinos reais. A música eletrônica é outro componente digital que compõe a obra. Disponível em: https:// www.youtube.com/ watch?v=o9BiF_6gt40. Acesso em: 6 abr. 2021. Vídeo https://www.youtube.com/watch?v=o9BiF_6gt40 https://www.youtube.com/watch?v=o9BiF_6gt40 https://www.youtube.com/watch?v=o9BiF_6gt40 98 Corpo, dança, expressão e movimento A videodança 9 de Analívia Cordeiro se transformou em livro, o Nota-Anna: a escrita eletrônica dos movimentos do corpo baseada no Método Laban (1998), resultado de seu mestrado em Artes da Univer- sidade Estadual de Campinas (Unicamp). O livro que acompanhava o espetáculo em fita VHS era uma das poucas publicações brasileiras re- lacionadas à dança e tecnologia e à escrita eletrônica da dança. Das ilusões óticas do século XV às do século XXI, observamos que o ser humano continua experimentando e pesquisando o tema. Muita coisa mudou entre a relação de dança com tecnologia. Desde os ce- nários “se movendo” à frente do público, mostrando os “segredos” de quem os movia, até as ilusões criadas por computador, infere-se que a dança está em constante adaptação às tecnologias. Dessa forma, as mudanças, inovações e transformações artísticas acontecem em inte- ração com o desenvolvimento humano da arte, sociedade e tecnologia. Veremos, nas próximas seções, alguns exemplos dessa interação. 5.2 Movimento e mídia Vídeo Por meio do contexto cultural do final do século XIX e durante todo o século XX, os meios de comunicação e a “cultura de massa” ganharam força, e as “belas letras” 10 e as “belas artes” foram perdendo a impor- tância que tinham no século XVIII (SANTAELLA, 2005). A cultura de massa é uma expressão que surge com a Revolução Industrial, quando as máquinas começaram a influenciar muitas pessoas pela grande quantidade de produtos e informações que conseguiam pro- duzir e distribuir em menos tempo. Desse modo, a mídia – ou seja, os meios de comunicação e informação – podia divulgar e distribuir notícias. O termo mídia vem do latim media, plural de medium, que signifi- ca meio. O meio é o lugar onde é transmitida a informação: televisão, internet, rádio etc. Na comunicação, mídia se refere aos meios de co- municação social, sejam analógicos (jornais, revistas), eletrônicos ou digitais. “Podemos entender a mídia como todos os aparatos técnicos usados como meios de comunicação” (THOMPSON, 1998, p. 5 apud SBORQUIA; GALLARDO, 2002, p. 107). A dança, antes de ser divulgada por um meio de massa (mídia), era uma atividade de elite, somente para pessoas que podiam estu- dar, assistir espetáculos e conhecer obras de arte e outras culturas. Da A videodança é a dança feita para o vídeo, sendo esse utili- zado como meio para mostrar trabalhos coreográficos. 9 O site Ana Livia Cordeiro apresenta um pouco sobre o Nota-Anna, um software de notação de movimento. Disponível em: https://www.analivia. com.br/nota-anna-portugues/ Acesso em: 6 abr. 2021. Site A cultura de massa se trata de uma reprodução cultural, e não uma pro- dução, isto é, um produto reproduzido muitas vezes até atingir o maior número de pessoas – por exemplo, uma roupa de uma marcaespecífica, uma comida ou um brinquedo “da moda”. Chamada também de indústria cultural, abrange espetá- culos públicos, literatura e música, que influenciam o estilo de vida da sociedade, objetivando o lucro. Saiba mais As belas letras se desenvolveram devido ao apoio financeiro da elite: reis, igreja, aristocratas governos etc. Belas letras e belas artes são termos referentes a esse período. 10 https://www.analivia.com.br/nota-anna-portugues/ https://www.analivia.com.br/nota-anna-portugues/ A dança no século XXI 99 mesma forma, no Brasil, as pessoas com maior poder aquisitivo tinham acesso a espetáculos de dança e outros conhecimentos artísticos. Vamos abordar, nesta seção, a dança divulgada na mídia brasileira 11 . Os programas de televisão são consumidos até hoje, no Brasil, por vá- rios motivos. Primeiramente, os canais de TV não pagos democratizam a mídia para a população mais carente. Outro motivo é a facilidade e praticidade em assistir televisão sem precisar de nenhuma outra conexão, como a internet. A satisfação dos programas da televisão brasileira é medida com base no Índice Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope), que é feito pelo número de aparelhos ligados. Desse modo, quanto maior for esse número, maior é a satisfação de quem está assistindo e maior se torna o interesse dos produtores. No site oficial do Ibope, é possível perceber que os rankings de audiência da emissora TV Globo são bem maiores do que das outras. O Domingão do Faustão 12 é um exemplo de alta audiência, nas tardes de domingo das famílias brasileiras, nos anos 1990 e início dos anos 2000, que vinculava a dança à sua programação. Logo que estreou, a produção do programa escolhia bailarinas profissionais nas academias do Rio de Janeiro para dançarem ao fundo da tela, fazendo uma com- posição visual com as atrações e com o apresentador, Fausto Silva. Em 1994, foi criada a Aeróbica do Faustão, com um elenco fixo, selecionado pela produção, com bailarinas profissionais. Esse progra- ma de alta audiência abriu caminhos para que profissionais da dança pudessem pensar em outras possibilidades de visibilidade, além dos palcos. O “palco” da TV se mostrava aberto, com possíveis oportuni- dades na mídia, como as de fazer entrevistas, divulgar espetáculos, aulas, escolas de dança ou trabalhar na televisão. A partir dos anos 2000, o elenco foi chamado de Balé do Faustão e começou a ganhar mais destaque no programa, participando com outras funções, como assistente de palco ou coreógrafa de um quadro de dança. O quadro denominado Dança dos Famosos começou a ser exibido em 2005 e deu oportunidade para que as bailarinas atuassem como coreógrafas. Nesse quadro, celebridades da televisão, da música, do esporte e das mídias, com pouco ou nenhum conhecimento de dança, foram convidadas a participar, dançando diversos estilos, especialmen- te dança de salão, com os profissionais do programa. Era uma compe- Não se trata de questionar a qualidade da programação, mas de conhecer o que e como a mídia divulgava e divulga a dança no país. 11 Domingão do Faustão é um programa da Rede Globo co- mandado por Fausto Silva desde 1989. Finalizado em dezembro de 2021. 12 100 Corpo, dança, expressão e movimento tição de danças de par, contendo vários ritmos, em que as bailarinas profissionais do elenco fixo ensinavam os famosos. Os jurados técni- cos convidados para avaliar os dançarinos eram todos profissionais de dança conhecidos no Brasil. O Dança dos Famosos foi um reality show inspirado em um show de talentos britânico, o Strictly Come Dancing. Ko zl ik /S hu tte rs to ck Figura 9 Casal dançando para câmera Assim, com a Dança dos Famosos no Domingão do Faustão, foi possível ver mais pessoas falando sobre essa atividade e, ainda que te- nha gerado pouca reflexão ou questionamento, serviu para democra- tizar o acesso à dança. Em vez de pensarmos em uma crítica negativa, antes de compreendermos o fenômeno da dança na mídia, devemos conhecer o que e como ela nos oferece essa informação para, depois, podermos questionar e analisar os fatores sociais ali envolvidos. Em 2011 e 2012, a emissora Sistema Brasileiro de Televisão (SBT) produziu e transmitiu duas temporadas do programa Se ela dança, eu danço, com base em outro programa americano, So u think u can dance. O programa do SBT, que durou apenas dois anos no ar, era uma com- petição de talentos de dançarinos sem, necessariamente, ter um par, diferentemente da versão da Rede Globo. Na emissora de TV Rede Record, o programa Dancing Brasil come- çou em 2017 e tinha o formato do quadro Dança dos Famosos, tam- bém com base em um programa americano, o Dancing with the stars. No programa brasileiro, celebridades eram convidadas a participar de A dança no século XXI 101 danças de par, de salão e outros ritmos, com profissionais da dança que faziam as funções de coreógrafo e bailarino. A Rede Record é uma emissora que tem menos audiência do que a Globo, de acordo com o site do Ibope. Contudo, o Dancing Brasil é mais um exemplo de demo- cratização da dança na mídia. Ho ne yk in g/ W ik im ed ia C om m on s Figura 10 Dancing with the stars Percebe-se que os programas de televisão têm em comum o objetivo de democratizar a dança, espalhando esse tipo de linguagem ao público por meio da cultura de massa. Além disso, os programas de televisão brasileiros têm como base os internacionais, com o mesmo formato, incluindo júri, dançarinos profissionais e convidados famosos. Pela facilidade econômica em assistir esse tipo de mídia, a audiência da televisão brasileira ainda é grande. Outro fenômeno que ocorre com a dança devido ao uso da mídia é a utilização das redes sociais na internet. A diferença dessas mídias é que a conexão com a internet é obrigatória para que uma rede so- cial funcione. Nesse caso, mesmo que muitas pessoas tenham conexão com a internet, é necessário que paguem pela sua utilização, diferente- mente da televisão, que continua sendo a forma mais democrática, por ter canais abertos, isentos de pagamento. 102 Corpo, dança, expressão e movimento A maior rede social, em 2019, era o TikTok, que tinha a dança como motivo principal. Ele é uma ferramenta utilizada para publicar vídeos curtos, incluindo funções para edição dos vídeos antes da postagem, o que atrai os mais jovens. A exposição da dança no TikTok acabou viralizando na internet com a reprodução de coreografias que pode- riam ser feitas por todos. Além dos aplicativos, redes sociais e outros programas conectados à internet, há jogos eletrônicos exclusivos para aqueles que gostam de dançar. Os videogames não necessariamente precisam de conexão com a internet para que o usuário participe do jogo de dança. Contudo, possui o mesmo problema que ocorre com a utilização da internet: o custo desse tipo de consumo. Os aparelhos de jogos eletrônicos sempre tiveram um alto custo por utilizarem tecnologias atuais e inovadoras. Dito isso, dançar em videogames não é tão democrático quanto ver a dança na televisão. Po- rém, pelos jogos, a dança se torna uma atividade interativa, diferente- mente dos programas de TV, que não têm esse tipo de interação. Eu ge ni o M ar on gi u/ Sh ut te rs to ck Figura 11 Jogo eletrônico Outro exemplo de jogo eletrônico são aqueles encontrados em “ca- sas de jogos eletrônicos”, as quais se parecem com um parque de diver- são de jogos via tela. Nesse lugar, a pessoa paga para se divertir nos A dança no século XXI 103 seus brinquedos de preferência. Os jogos de dança são máquinas gran- des, em que a pessoa pode interagir dançando, por meio de uma super- fície interativa no chão ou de reconhecimento do corpo via câmera. Algumas máquinas contêm uma plataforma para que a pessoa fi- que em cima com indicações de direções no espaço. Ao ver instruções na tela, a pessoa deve se mover para as direções indica- das para continuar no jogo. Desse modo, o tempo de mudança de direção vaise alterando e a pessoa come- ça a dançar pelo movimento que faz com os pés. Outro exemplo são os jogos que a pessoa pode acompanhar por meio de uma tela e uma câmera que lê o movimento corporal. Desse modo, o jogador pode dançar com o que vê na tela, imitando os movimentos. iC hz ig o/ Sh ut te rs to ck Figura 13 Jogo de dança A maioria das mídias em que a dança aparece como atração está condicionada a outras condições prévias. Por exemplo, é necessária uma conexão com a internet para utilizar os serviços de streaming que oferecem séries, filmes, documentários e programas relacionados à dança. Outro exemplo são os aparelhos de jogos, chamados consoles, que devem ser comprados para poder instalar ao lado da televisão an- tes de brincar de dançar. Ou, ainda, é preciso pagar pela entrada em Figura 12 Máquina de jogo de dança Sp or t0 8/ Sh ut te rs to ck 104 Corpo, dança, expressão e movimento uma “casa de jogos eletrônicos”, para poder se divertir com os jogos de dança. Em todos os casos, percebe-se a necessidade de um gasto para consumir essas atrações. Por esse motivo, é possível afirmar que a televisão continua sendo a mais democrática entre as mídias no Brasil para a divulgação da dança. 5.3 O corpo na cibercultura Vídeo O que é cibercultura? Você já ouviu falar nesse termo? Cibercultura é o título do livro de Pierre Lévy e significa a existência de uma cultura no ciberespaço. E o que é ciberespaço? É o espaço das comunicações em rede, resultado da intercomunicação mundial de computadores, em que as informações são digitais. Assim, “a informação digitalizada pode ser processada automaticamente, com um grau de precisão quase absoluto, muito rapidamente e em grande escala quantitativa” (LÉVY, 2000, p. 52). Para Lévy, nenhum outro processo, a não ser o processa- mento digital, tem essas qualidades ao mesmo tempo: automatização, precisão, velocidade e distribuição em larga escala. A cibercultura pode ser compreendida como a cultura do ciberespaço e trata dos valores morais e éticos, técnicas, práticas e modos de convi- ver nessa “sociedade” de relações de processamento digital. Derivada de uma série de descobertas e criações científicas e tecnológicas nasce a Cibercultura, que surge como um movi- mento intrigante, envolvendo sociedade com novas tecnologias criando um mundo chamado ciberespaço e recriando a comu- nicação, transformando a maneira de fazer comunicação de forma maleável, interativa e ao alcance de quem tiver interesse. (SOUZA et al., 2010, p. 2) De acordo com Romero (2019), a cibercultura e o ciberespaço po- dem ser pensados como o resultado entre as relações humanas do mundo globalizado, considerando que as gerações nascidas na era digital têm necessidades distintas de comunicação e buscam formas culturais diversificadas. A dança acaba se transformando junto à geração digital e começa a desenvolver trabalhos de ciberdança, disponíveis no ciberespaço. A ciberarte, segundo Lévy (2000), é um processo colaborativo, difícil de identificar o autor, considerando que aqueles que experimentam a obra são igualmente cocriadores. De modo algum o autor irá desapa- Ciberdança é a dança no/do ciberespaço. “A ciberdança é uma linguagem híbrida que une dança e tecnologias contemporâneas, se desenvolve em ambientes gráficos de computadores e permite ao professor/artista/pesquisador utilizar-se de processos digitais e virtuais, a fim de explorar uma nova lógica de processos educativos e criativos” (REGO, NEPOMUCENO, 2015, p. 7). Saiba mais A ciberarte é a arte no/do ciberespaço. Glossário A dança no século XXI 105 recer, mas com certeza é uma das características da cibercultura que favorece o declínio dessa figura. Uma das características mais constantes da ciberarte é a par- ticipação nas obras daqueles que as provam, interpretam, ex- ploram ou lêem. Nesse caso trata-se de [...] uma coprodução da obra, já que o “espectador” é chamado a intervir diretamente na atualização (a materialização, a exibição, a edição, o desenrolar efetivo aqui e agora) de uma sequência [...] de acontecimentos. (LÉVY, 2000, p. 135-136) A seguir, vamos ver o exemplo de companhias de danças que têm as ca- racterísticas apontadas por Lévy (2000): criação coletiva, espectador como cocriador e obra como processo em aberto e em constante mudança. Das experimentações das danças em diálogo com a internet, surge, em 1996, o artista, coreógrafo e matemático britânico Richard Lord, que desenvolve obras para esse tipo de mídia, “batizadas pelo artista de Web Dances (Web Danças), que geraram reverberações na comuni- dade da dança contemporânea” (TAPIA, 2012, p. 43). Essa reverberação traz o surgimento da companhia de dança Mulleras, em 1998, voltada para o desenvolvimento de danças para a internet. Didier Mulleras, coreógrafo e bailarino francês, em conjunto com o engenheiro e cenógrafo Nicolas Grimal, cria uma experiência coreo- gráfica entre movimento, computador, internet e vídeo, denomina- da Mini@tures (1998-2001). Junto com sua mulher e dançarina Magali Viguier-Mulleras, Didier criou o roteiro das danças e as coreografias. A equipe de Grimal “ficou responsável pelos processamentos de imagem, da captura à encenação” (TAPIA, 2012, p. 43). Mini@tures foi considerado o primeiro projeto de dança contemporâ- nea criado para a rede, desenvolvido com o apoio de artistas da dança e artistas das tecnologias de informação e comunicação. A obra envolveu to- dos os tipos de ciberarte: música eletrônica, coreografia, vídeo, web design, e até a performance ao vivo. Veja a seguir a explicação da obra: A obra consiste na performance produzida para o palco, além de 100 videoclipes para Internet, que duram menos de um minu- to. A Internet não é utilizada somente como meio de divulgação do trabalho, mas é literalmente o palco da obra. Por isso, foram levados em consideração os limites de tempo de transferência de dados do computador remoto para o computador local e o tamanho de arquivo, com o objetivo de facilitar que o pú- blico pudesse acessá-la. As miniaturas apresentadas mesclam A expressão Web é abreviatura do termo World Wide Web (www), isto é, a internet, mundialmente conhecida a partir de 1991. Curiosidade Confira a produção de Didier Mulleras no site do artista. Disponível em: http://www. didier-mulleras.com/. Acesso em: 6 abr. 2021. Site 106 Corpo, dança, expressão e movimento o diálogo entre corpo, dança, computação gráfica e Internet. (TAPIA, 2012, p. 43-44) O segundo exemplo a ser mencionado aqui se trata de uma com- panhia de dança nacional que trabalha com a tecnologia de modo diferente da Mulleras. O Grupo Cena 11 é uma companhia de dança brasileira, com sede em Florianópolis, em Santa Catarina, com traba- lho voltado para a dança aliada à tecnologia, tornando-se referência nacional e internacional nessa área. Contudo, o objetivo do grupo não é trabalhar apenas no ciberespaço, mas explorar a cultura digital para suas apresentações no palco. O grupo trabalha desde 1995, sob direção de Alejandro Ahmed, e trata a tecnologia como extensão e expansão do corpo. Em 2002, o Cena 11 lança o projeto SKR Procedimento 1, com o intuito de “provo- car a troca de informações entre dança e tecnologia, educação, técnica e prática, ampliando o diálogo entre as artes cênicas e as novas áreas relacionadas ao corpo e sua interação com o ambiente” (SPANGHERO, 2003, p. 104). Esse projeto, mostrado em forma de apresentação no palco, fazia referência à “caixa de Skinner”, que foi um instrumento “criado para estudar o comportamento de animais, em caráter labo- ratorial, que serviria de base ao estudo do comportamento humano” (SPANGHERO, 2003, p. 104). Os bailarinos dividiam o palco com robôs, e estes eram responsáveis por controlar o movimento dos corpos humanos naquele espaço. Todos aqueles que estavam no palco davam a impressão de serem máquinas interagindo entre si, sendo controlados uns pelos outros enquanto dan-çavam: o bailarino é controlado pelo robô, que é controlado por outro humano. As questões do início do século XXI vêm de encontro à disse- minação da internet, no Brasil, desde o final dos anos 1990, e à relação homem-máquina, tratada pelo Grupo Cena 11: quem está sendo contro- lado? Quem é sujeito e quem é objeto? Desse modo, estamos nos transformando, cada dia mais, em obje- tos das redes que fornecem informações pessoais de toda ordem para usar aplicativos de modo “gratuito”. Acabamos nos desumanizando, mesmo com toda a facilidade que a tecnologia tem proporcionado para nos humanizar. A dança no ciberespaço pode e deve tratar dessas questões, consi- derando que conseguimos imergir em experiências artísticas de modo Assista o vídeo mini@tures / compagnie mulleras, do canal didier umlleras, que aborda um pouco sobre a obra Mini@tures. Disponível em: https:// www.youtube.com/ watch?v=hCFEztNgUFQ. Acesso em: 6 abr. 2021. Vídeo No site do Grupo de Dança Cena 11, é possível conhecer a história do grupo e ver exemplos de seus espetáculos em tre- chos de vídeos. O Cena 11 é uma companhia de dança premiada nacional e internacionalmente. Disponível em: https://www. cena11.com.br/. Acesso em: 6 abr. 2021. Site https://www.youtube.com/watch?v=hCFEztNgUFQ https://www.youtube.com/watch?v=hCFEztNgUFQ https://www.youtube.com/watch?v=hCFEztNgUFQ https://www.cena11.com.br/ https://www.cena11.com.br/ A dança no século XXI 107 mais complexo do que em décadas anteriores, como no caso da com- panhia de dança Gilles Jobin. O coreógrafo Gilles Jobin investiga a relação entre dança, ciência e cibercultura. O dançarino contemporâneo de prestígio mundial foi re- conhecido nos anos 1990 como um dos mais importantes coreógrafos suíços independentes, devido às suas propostas diferenciadas para a cena da dança. Assim, Jobin é considerado um dos autores da primeira peça de dança contemporânea imersiva de realidade virtual. Caecilia Charbon- nier e Sylvain Chaguè, fundadores do laboratório Artanim, em Genebra, são igualmente realizadores da obra denominada VR_I 13 . A performance VR_I é feita para cinco pessoas de cada vez, na qual os participantes são orientados a utilizar os aparatos tecnológicos liga- dos a seus corpos e por meio deles ficam imersos em tempo real em um espaço virtual. Nesse espaço, eles encontram outros humanos de tamanhos diferentes – gigantes ou minúsculos – e com eles interagem por alguns minutos. Desse modo, foi possível unir dança e cibercultura e trazer para os que passaram por essa experiência reflexões acerca dos novos paradigmas a respeito do sentir, observar e fazer dança. “A concepção de dança proposta por Jobin indica um rumo diferente, apresenta um atrito nos meios convencionais de ver e sentir corpo e dança” (ROMERO, 2019, p. 88). Atritos, reflexões e sensações irão com- por e desenvolver o ciberespaço e as ciberartes daqui para frente. São inúmeras as companhias e os profissionais da dança e das tecnologias que desenvolvem e estão se dedicando a desenvolver pro- jetos e espetáculos de dança para as telas, para o ciberespaço e para as plataformas que vão sendo criadas. Os três exemplos dados neste capítulo aparecem mais como uma forma de aguçar a reflexão sobre o desenvolvimento da dança em relação à tecnologia e o que está por vir nas próximas décadas. Cabe ressaltar que nunca foi tão importante quanto na segunda dé- cada do século XXI ter conhecimento das tecnologias de informação e comunicação e trabalhar com o ciberespaço. A pandemia de Covid-19, que começou a assolar o mundo desde o final de 2019, impulsionou artistas de todas as áreas a se dedicarem mais às suas pesquisas e experimentações, de modo a favorecer o hibridismo entre as artes e as ciências digitais, considerando que a indústria de espetáculos e os lugares com grande fluxo ficaram totalmente fechados. Artanim é um laboratório que trabalha com tecnologias de captura de movimento. O laboratório “realiza trabalhos ligados à medicina esportiva, animação 3D, realidade virtual e realidade aumentada” (ROMERO, 2019, p. 86). Saiba mais Essa obra, apresentada em ou- tubro de 2017, ganhou o Grand Prix de inovação para as novas plataformas do 46º Festival du Nouveau Cinema em Montreal. 13 O vídeo VR_I: A DANCE PIE- CE IN IMMERSIVE VIRTUAL REALITY by Gilles Jobin & Artanim, do canal dance- techtv, trata de uma bre- ve explicação referente à construção do projeto e da participação do públi- co. Mesmo em inglês, é possível compreender as pessoas interagindo com os bailarinos e entre elas. Disponível em: https://www. youtube.com/watch?v=mb08_ ZGTVPs. Acesso em: 6 abr. 2021. Vídeo https://www.youtube.com/watch?v=mb08_ZGTVPs https://www.youtube.com/watch?v=mb08_ZGTVPs https://www.youtube.com/watch?v=mb08_ZGTVPs 108 Corpo, dança, expressão e movimento CONSIDERAÇÕES FINAIS A dança no século XXI promete aproximar artistas e cientistas, com a finalidade de criar obras em parceria e em colaboração com áreas distin- tas da sua de origem. Um dos motivos dessa aproximação é a relação do ser humano com a informação e comunicação, especialmente depois da disseminação da internet no cotidiano. Apesar de toda essa facilidade de acesso à informação, acredita-se que a televisão, no Brasil, continuará tendo seu espaço, devido aos pro- blemas sociais existentes no País. Muitas emissoras têm canais pagos, e os aplicativos de música ou filmes são igualmente pagos. Assim, os brasi- leiros continuarão tendo uma referência de dança e de arte imposta pelos programas que a televisão oferece. Por esse motivo, profissionais e educadores que trabalham com dança precisam compreender que os estereótipos, valores e conceitos podem ser muito diferentes entre uma pessoa e outra. Nem todos terão a capa- cidade acadêmica de discernimento, nem mesmo os acadêmicos terão a capacidade de discernimento popular quando se trata de manifestações dançantes. Cabe, no século XXI, compartilharmos a dança, desde nossos precursores até as formas possíveis de se criar, especializar e refletir so- bre essa área. Esperamos que isso aconteça com todas as artes, em geral, e que o ciberespaço possa ser mais democrático. ATIVIDADES 1. Qual é a relação que pode ser traçada entre dança e tecnologia? Dê exemplos. 2. Qual é o conteúdo midiático de dança que você já assistiu, tentou assistir ou ainda assiste? Explique e reflita sobre o que e como a dança está representada nessa mídia. 3. O Grupo Cena 11 mostrou, em um de seus trabalhos, a relação homem-máquina. Reflita e comente sobre essa relação nos dias de hoje, sem se esquecer da interação entre artista, público, ciberespaço. Vídeo A dança no século XXI 109 REFERÊNCIAS AMORIM, G.; QUEIROZ, B. Merce Cunningham: pensamento e técnica. In: ANTUNES, A. et al. Lições de dança 2. Rio de Janeiro: UniverCidade, 2000. p. 81-107. BITTENCOURT, A. T. A influência da tecnologia na dança. In: VENTURELLI, S. (org). Arte e tecnologia: interseções entre arte e pesquisa tecno-científicas. Brasília: Universidade de Brasília, 2007. p. 21-26. BOURCIER, P. História da dança no Ocidente. São Paulo: Martins Fontes, 1987. CAMINADA, E. História da dança: evolução cultural. Rio de Janeiro: Sprint, 1999. CARVALHO, A. R.; BOCCARA, E. G. Ballet Triádico da Bauhaus: pesquisa, experimentações e execução. Reflexões e registros do percurso de uma reconstituição. IARA: Revista de Moda, Cultura e Arte, São Paulo, v. 2, n. 1, set./dez., 2009. 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Provavelmente, seu pensamento sobre a noção de corpo esteja relacionado à área a qual lhe chama mais atenção. Se for a área de saúde, então, pode ser que separe o corpo entre uma parte anatômica e uma parte emocional. Se você é artista de dança, então talvez você consiga compreender que a parte motora e a parte cognitiva estão relacionadas, por mais que tenha aprendido na escola que o corpo é composto por cabeça, tronco e membros, ou seja, uma visão ainda dualista. O corpo é resultado daquilo que nos contaminou ao longo do nosso tempo de vida, dos ambientes que ocupamos e da história que fazemos parte. 2. Vou dar um exemplo pessoal. Eu morei desde criança em edifício. Lugar pequeno e família pequena, no centro da cidade, onde não era possível brincar na rua ou sair sem um adulto. Aos finais de semana, tinha uma atividade em uma rua perto do meu edifício. Lá, espalhavam papéis em um calçadão fechado para carros, e as crianças tinham um espaço para pintar, com tintas coloridas, um copo com água e pincéis. As crianças se sentavam no chão e os pais ficavam por perto enquanto elas desenhavam e podiam se achar um pouco “artistas” naquele momento. Era uma forma de interagir com outras crianças e trabalhar o aspecto afetivo e social. Mesmo muito pequena, eu já conseguia perceber que tinha um espaço de pintura e precisava respeitar o do outro. A coordenação motora fina era estimulada ao ter que usar os pincéis. A criatividade era outro elemento trabalhado ao escolher cores e elaborar um desenho. Além disso, eu precisava manter o tônus para as posturas que eu assumia enquanto pintava (sentada, de joelhos). Os processos motores, cognitivos e afetivos estavam relacionados nessa atividade simples que com certeza fez diferença na minha formação. Qual é seu exemplo? Fiquei curiosa! 3. A brincadeira proposta trata-se de uma gincana, exemplo dado no texto. Para essa gincana, as equipes deverão ter ao menos um smartphone para poder ler os códigos QR espalhados pelo circuito da brincadeira. Ter apenas um dispositivo possibilita incluir aqueles que não estão familiarizados com a tecnologia. A brincadeira pode ter 112 Corpo, dança, expressão e movimento qualquer tipo de atividade, como lançar uma bola em um alvo, pular em espaços determinados, passar por pneus, correr entre cones, encher bexiga, enfim, adaptar os objetos disponíveis. Esses circuitos devem ser correspondentes à fase de desenvolvimento motor. Para poder incluir crianças maiores e menores na mesma equipe, pode-se sugerir atividades simples e criativas. Antes de começar qualquer tipo de circuito, a equipe deve ler o QR code e responder uma questão. Caso esteja correta, podeprosseguir para a próxima atividade. Ganha aquela equipe que responder o último QR code corretamente depois de concluir todos os circuitos propostos. 2 Linguagem do Corpo 1. Gesto subjetivo – Cruzar os braços no meio de uma explicação de aula. Esse gesto pode significar que estou tentando compreender melhor o conteúdo, ou que já estou cansada e meu cérebro já não está conseguindo acompanhar o raciocínio do professor. Normalmente, os gestos subjetivos são concêntricos, ou seja, vão para o centro do corpo. Gesto objetivo – dar um abraço de saudades em alguém que amo muito. É um gesto objetivo porque está relacionado a uma condição externa, uma pessoa que não vejo a tempos e estou feliz em rever. Essa condição externa também representa um movimento que vai para fora do centro do corpo, por isso pode ser chamado de gesto objetivo ou excêntrico. 2. Tem diferença. Você consegue perceber que, quando a boca está voltada para cima, o som é mais agudo, ou seja, suas cordas vocais não estão comprimidas, estão mais relaxadas. Já, quando você coloca a cabeça para baixo, o som fica mais grave porque as cordas vocais ficam mais espremidas, portanto, mais tensas. O que você ouviu está relacionado ao nosso aparelho fonador e com como a postura influencia na nossa voz. 3. Crianças menores (até 5 anos, aproximadamente) são mais espontâneas. Contudo, devido à facilidade em usar tablets, smartphones e outros dispositivos, elas podem se sentir envergonhadas, tímidas ou “travadas” corporalmente. Então, começar com uma caminhada simples ao ouvir uma música seria o ideal para que começassem a se soltar. Não esqueçam de adequar o nível de dificuldade da tarefa para o desenvolvimento motor das crianças: aquelas até uns 5 ou 6 anos talvez tenham mais espontaneidade do que aquelas entre 6 e 10, por exemplo. Enquanto as crianças marcham, o professor pede Gabarito 113 para que elas observem o seu próprio movimento, com os braços alternados ao lado do corpo. Depois devem observar os colegas e se estão caminhando no mesmo ritmo. Ao trabalharem com o ritmo em conjunto, começam a se perceber em relação ao outro e como parte do grupo. Aos poucos, pode-se incluir a percepção auditiva para certos sons da música e pedir para que elas incluam outras partes do corpo junto com a marcha enquanto escutam determinado som. Algumas possibilidades são: trabalhar o ritmo, aumentando e diminuindo o andamento da música; trabalhar o espaço – mudando as direções da marcha; trabalhar a parte vocal – fazendo com que as crianças cantem enquanto marcham/caminham. 3 O movimento: Laban e seu estudo 1. Durante esse período, Laban teve que se adaptar ao contexto da guerra e começou a trabalhar em prol daqueles que precisavam, aplicando seus estudos do movimento. Colaborou com a aeronáutica para aprimorar o salto de paraquedas. Trabalhou como consultor de industriais que perderam seus homens para servir na guerra e tiveram que contratar suas mulheres. Nesse caso, a intenção era otimizar o movimento para que fosse eficaz com o mínimo de esforço possível. Além disso, colaborou com o Terceiro Reich enquanto era responsável pela direção de dança e movimento de toda a Alemanha. Antes de ser considerado detrator do governo, ajudou a disseminar a dança para pessoas que não tinham condições de pagá-la. 2. Talvez uma das contribuições mais evidentes seja a de que Laban valorizava o ser humano e seu movimento de acordo com suas possibilidades. Ao negar a escola de ballet clássico, tão difundida, sistematizada e autoritária, na época em que viveu (devemos lembrar que o ballet clássico, embora continue a ser uma dança bastante divulgada e praticada, apresenta hoje maior conhecimento científico em relação ao corpo e ao seu treinamento, diferentemente do que ocorria no contexto vivido por Laban), ele compreendeu o movimento humano como capacidade expressiva para qualquer um que o desejasse explorar. Além de valorizar profissionais da dança e do teatro, Laban divulgou seus estudos a todo e qualquer profissional da educação que tivesse interesse em trabalhar de modo mais confortável com o movimento e a expressividade. 114 Corpo, dança, expressão e movimento 3. Um exemplo pode ser o de explorar o fator espaço, que pode ser feito com crianças, entre sete e nove anos, do ensino fundamental. O público-alvo foi delimitado para que não se esqueça de fazê-lo, porém essa atividade pode ser feita com qualquer público. A atividade consiste em dançar em certa direção à medida que o comando é dado. As crianças vão explorar as direções por meio de alguns números no espaço. Por exemplo: para começar, o professor pode colar um papel ou desenhar o número 1 na frente da sala; o número 2, atrás; o número 3, à direita; e o número 4, à esquerda. Durante a música, a criança deverá se expressar naquela direção após o comando dado. O fator espaço a ser explorado nessa atividade são as direções, que podem começar com 2, como frente e trás, e ir passando para mais direções, a fim de dificultar a brincadeira. A qualidade do movimento não vai importar nesse momento de exploração das direções. O importante é compreender a relação do corpo no espaço. 4 A dança na escola 1. Há várias formas de manifestações culturais que estão presentes em nossa vida e que, por estarem tão arraigadas em nosso cotidiano, quase não percebemos. Por exemplo, uma cantiga de roda aprendida na escola pode ser considerada um ensinamento passado de uma geração para outra, assim como uma receita de comida típica ou um ritual de passagem comum a uma família. Cada manifestação dessa tem aspectos culturais significativos, e a arte está presente em todos por meio da dança, da música, dos gestos, dos desenhos, das pinturas, dos gostos, das roupas etc. Uma família pode ter o costume de se reunir em um domingo de almoço e cantar músicas que os parentes mais velhos gostam, ou um estilo de música e dança que todos apreciam. Outro exemplo é o casamento, um ritual de união de duas famílias que pode acontecer em qualquer religião. Desse modo, aprendemos seus ritos singulares, incluindo roupas, músicas, danças e comidas. 2. Uma sugestão de tópico é propor às crianças explorar o espaço mudando de direção, primeiro na posição em pé, caminhando; depois, deslocando-se com outros apoios, como barriga, costas, joelhos, mãos etc. Isso ajudará a resolver várias questões, além das espaciais e temporais. Ao pedir para que mudem de apoio, os alunos perceberão seu corpo e como podem trocar de posição. Também responderão à questão “Onde se movem?” dentro de um espaço, explorando as direções frente, atrás, laterais e diagonais. O professor pode pedir para que os movimentos fiquem mais lentos ou mais Gabarito 115 rápidos, dependendo da direção escolhida, para dificultar a atividade, estimulando a percepção temporal. 3. Nesta resposta, devemos apresentar um exemplo de como podemos refletir a respeito das sugestões dos governos federal e estadual e da sua adaptação para a escola. Uma opção é ver o conteúdo de dança para o 1º ano do ensino fundamental no estado do Paraná. Algo importante de notarmos é que os conteúdos do Paraná estão divididos em períodos trimestrais, com a finalidade de facilitar o planejamento escolar. Tanto a BNCC quanto o Currículo da Rede Estadual Paranaense (Crep) – os dois documentos analisados – mantêm o texto relacionado ao mesmo código: “(EF15AR08) Experimentar e apreciar formas distintas de manifestações da dança presentes em diferentes contextos, cultivando a percepção, o imaginário, a capacidade de simbolizar e o repertório corporal” (BRASIL, 2018, p. 201). Dentro do tópico de dança analisado, percebemos que o governo do estado do Paraná está exatamente de acordo com a proposta do governo federal para o 1º ano do ensino fundamental, sem alterações. Com relação ao conteúdo, a sugestão de valorizar festas e comemorações locais aparece no Crep. A resposta é apenas uma comparação para posterior reflexãoe sugestão de desenvolvimento curricular em cada contexto escolar. Nesse caso, valorizar danças regionais do estado, além daquelas que a mídia já explora, é fundamental para que os estudantes se reconheçam como parte da sociedade e compreendam e respeitem crenças e valores. 5 A dança no século XXI 1. A relação dança-tecnologia vem acontecendo ao longo da história da dança. Não se pode mais negar esse tipo de interação, seja em um espaço físico, como em um teatro com iluminação, efeitos sonoros, movimento de cortinas, luzes e imagens, seja no ciberespaço, com o público interagindo com a obra. Um exemplo foi o espetáculo da companhia Didier Mulleras, em São Paulo, no Itaú Cultural, no início dos anos 2000, em que os vídeos pré-produzidos pela companhia ficavam disponíveis em computadores espalhados pelo local onde acontecia um evento artístico. Esses vídeos eram manipulados pelo público, isto é, pela pessoa que estava assistindo. À medida que a pessoa dava outro comando e clicava em um link, outra parte de uma coreografia aparecia e, desse modo, fazia-se a coreografia que queria assistir. 116 Corpo, dança, expressão e movimento 2. Normalmente, costuma-se haver bastante conteúdo sobre dança, desde filmes e séries via streaming a programas em canais de televisão fechados. Um exemplo é um programa de televisão dos Estados Unidos chamado Dance Moms, transmitido por um canal pago do Brasil chamado Lifetime Channel; é um reality show de oito temporadas dentro da escola de dança da professora e proprietária Abby Lee Muller. Nesse programa, foi possível observar o pensamento de dança na cultura americana. A dança contemporânea é valorizada nos festivais, incluindo acrobacias e habilidades físicas e técnicas, muitas vezes, em detrimento da emoção. Espera-se que, em sua resposta, o aluno apresente e explane o modo como a dança é abordada em algum programa na mídia. 3. Atualmente, o ciberespaço abriu oportunidades para que os artistas pensem além do palco, do vídeo e do espaço físico. Na dança, o público e o artista têm a possibilidade de interagir entre eles e com a obra artística, com todos sendo transformados em artistas da mesma obra. O ciberespaço facilita a interação entre pessoas de diferentes lugares, países e nações, aproximando as fronteiras. Homem e máquina irão trabalhar em conjunto, em uma dependência mútua, na arte, nos esportes e no cotidiano em geral. Exemplo: smartwatches, que monitoram a saúde; eletrodomésticos com listas de mercado ou aviso de produtos faltantes; entre outros. CORPO, DANÇA, EXPRESSÃO E MOVIMENTO ALESSANDRA TORRES BITTENCOURT ISBN 978-65-5821-017-7 9 7 8 6 5 5 8 2 1 0 1 7 7 Código Logístico 59837 ALESSANDRA TORRES BITTENCOURT