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com o simples clique de um mouse, na comodidade de seu lar – e que pode ainda ser feito, potencialmente, com maior variedade e a preços mais baixos. Não é surpreendente que uma das áreas de maior crescimento entre as novas empresas pontocom tenha sido a do ramo de viagens, e, embora muitas empresas tenham desaparecido no “estouro da bolha”, outras como lastminute.com e Expedia estabeleceram-se como players principais. Claro que nem todo mundo está disposto a comprar online e, de qualquer maneira, sempre haverá campo para o agente de viagens de agência, especializado no serviço per- sonalizado, atuando como mediador entre os serviços virtuais e aqueles clientes que não se sentem muito à vontade com computadores. Como se pôde verificar, a euforia inicial acerca da indústria pontocom deu lugar a um avanço mais cauteloso de negócios baseados na Internet. A verdade é que, sejam quais forem as condições tecnológicas, sociais ou mercadológicas envolvi- das, a chave para se criar – e manter – vantagem compe��va tende a pertencer àquelas or- ganizações que inovam con�nuamente. A Tabela 1.1 indica algumas das formas nas quais as empresas podem obter vantagem estratégica pela inovação. 1.2 Tipos de inovação Antes de avançarmos, é necessário definir alguns termos. O que entendemos por “ino- vação”? Estamos basicamente falando de mudança, e esta pode assumir diversas formas; para os fins deste livro, iremos nos centrar em quatro categorias abrangentes (os “4 Ps” da inovação).²¹ • Inovação de produto – mudanças nas coisas (produtos/serviços) que uma empresa oferece; • Inovação de processo – mudanças na forma em que os produtos/serviços são criados e entregues; • Inovação de posição – mudanças no contexto em que produtos/serviços são introduzi- dos; • Inovação de paradigma – mudanças nos modelos mentais subjacentes que orientam o que a empresa faz. Por exemplo, um novo modelo de carro, um novo pacote de seguro contra acidentes para bebês recém-nascidos e um novo sistema de entretenimento domés�co seriam exemplos de inovação de produto. Já a mudança nos métodos de fabricação ou nos equipamentos u�liza- dos para produzir o carro ou o sistema de entretenimento domés�co, ou mesmo nos procedi- mentos administra�vos, no caso do seguro, seriam exemplos de inovação do processo. Às vezes, a linha divisória é muito tênue – por exemplo, uma nova balsa marí�ma movida a jato seria tanto uma inovação no produto quanto no processo. Os serviços repre- sentam um caso par�cular dessa combinação em que os aspectos de produto e processo muitas vezes se fundem – por exemplo, um novo pacote de viagem é uma mudança no produto ou no serviço? 30 Parte I Gestão para a Inovação A inovação também pode ser a�ngida pelo reposicionamento da percepção de um produto ou processo já estabelecido em um contexto de uso específico. Encontramos um bom exemplo disso num produto bem conhecido no Reino Unido: Lucozade, originalmente desen- volvido como uma bebida à base de glicose para auxiliar na convalescença de crianças e enfer- mos. Essas associações com doenças foram esquecidas pelos novos donos, SmithKline Beecham, quando relançaram o produto como uma bebida energé�ca des�nada ao crescente mercado de fitness, em que agora é apresentado como um auxiliar na melhoria de desempen- ho da a�vidade �sica saudável. Essa mudança é um ó�mo exemplo de inovação de “posição”. Em alguns casos, as oportunidades de inovação surgem quando repensamos a forma como olhamos para algo. Henry Ford mudou dras�camente o conceito de transporte, não por haver inventado o motor à combustão (ele entrou rela�vamente tarde no setor) ou por haver desenvolvido o processo de montagem do mesmo (já que a indústria automobilís�ca estava estabelecida como um setor especializado há cerca de 20 anos). Sua contribuição residiu em mudar o modelo de um padrão que oferecia um produto artesanal feito sob encomenda por um especialista para poucos clientes abastados, para outro que disponibilizava um automóvel para qualquer cidadão a um preço que ele podia pagar. A mudança da produção artesanal para a produção de massa foi nada menos do que uma revolução na forma como os carros (e, mais tarde, incontáveis outros produtos e serviços) eram criados e vendidos. É óbvio que fazer com que a nova abordagem funcionasse na prá�ca também precisou de grande inovação no produ- to e no processo, como no desenho de componentes, desenvolvimento de novas máquinas, remodelagem de fábricas e, especialmente, no sistema social em torno do qual a mão-de-obra estava organizada. Exemplos recentes de inovação de “paradigma” – mudança nos modelos mentais – incluem a introdução de linhas aéreas de baixo custo, a oferta de seguro e outros serviços finan- ceiros pela Internet e o reposicionamento de bebidas como café e sucos de frutas como produ- tos com design sofis�cado. Embora a Enron tenha ficado conhecida, em sua úl�ma fase, por sua prá�ca financeira inadequada, originalmente alcançou proeminência como uma pequena construtora de linhas de gasoduto que percebeu o potencial da inovação de paradigma no setor de u�lidades. Num clima de priva�zação e de globalização, através da distribuição em sistemas de rede, energia e outras u�lidades, como comunicações por banda larga, torna-ram-se muito rapidamente mercadorias que podiam ser negociadas como açúcar ou cacau no mercado de futuros.²¹ 31Capítulo 1 Fatores Fundamentais na Gestão da I novação Da inovação incremental à inovação radical Uma segunda dimensão da mudança é o grau de novidade envolvido. Obviamente, atualizar o modelo de um carro não é o mesmo que aparecer com um conceito de carro totalmente novo, que possua um motor elétrico e seja feito de uma nova composição de materiais diferentes de aço e vidro. Da mesma forma, aumentar a velocidade e a precisão de um tor no elétrico não é a mesma coisa que subs�tuí-lo por um processo de fabricação a laser controlado por computa- dor. Há diferentes graus de novidade desde melhorias incrementais me- 15 nores até mudanças realmente radicais que transformam a forma como vemos ou usamos as coisas. Algumas vezes, essas mudanças são comuns em alguns setores ou a�vidades, mas às vezes são tão radicais e vão tão além que mudam a própria base da sociedade, como foi o caso do papel da energia a vapor na Revolução Industrial ou das presentes mudanças resultantes das tecnologias de comunicação e informá�ca. A Figura 1.1 ilustra esse processo, enfa�zando a idéia de que tal mudança pode ocorrer no nível dos componentes ou subsistemas ou afetar o sistema como um todo. Mapeando o espaço da inovação Cada um de nossos “4 Ps” da inovação pode ocorrer ao longo de um eixo, desde a mudança incremental até a mudança radical; a área indicada pelo círculo, na Figura 1.2, é o espaço poten- cial para a inovação, dentro do qual cada organização pode operar. Se ela realmente u�liza e explora todo esse espaço, é uma questão de inovação estratégica, e falaremos sobre esse assunto mais adiante. Considerando que o gerenciamento do processo de inovação é necessário, essas diferenças tornam-se importantes. As maneiras como lidamos com a mudança incremental diária será diferente daquelas u�lizadas ocasionalmente para lidarmos com mudanças radicais em produ- tos ou processos. Mas precisamos lembrar que é o nível de novidade percebido que importa; a novidade está no olho de quem a vê. Por exemplo, em uma organização de 32 Parte I Gestão para a Inovação NÍVEL DESISTEMA INCREMENTAL RADICAL NÍVEL DE COMPONENTE (“fazendo aquilo que fazemos melhor”) Melhorias em componentes Novos componentes para sistemas existentes Materiais avançados para melhoria de desempenho de componentes Energia a vapor, “revolução” da Tecnologia de Informação e Comunicações (TIC) e biotecnologia Novas gerações, como MP3 e download versus CD e fita-cassete Novas versões de motores automo�vos, aviões, aparelhos de T V (“novo para a empresa”) (“novo para o mundo”) FIGURA 1.1 Dimensões da inovação porte e tecnologicamente avançada como a Shell ou a IBM, sistemas de informação em rede avançados são comuns, mas para uma revenda de automóveis pequena ou para um pequeno negócio de alimentação o uso de um simples computador de uso pessoal conectado à Internet pode ainda representar uma mudança radical.²³ 1.3 A importância da inovação incremental Embora a inovação, algumas vezes, envolva uma mudança descon�nua – algo completamen-te novo ou uma resposta a condições profundamente alteradas – na maioria das vezes ela ocorre de forma incremental. Os produtos raramente são “novos para o mundo”; a inovação de processos é basicamente centrada na o�mização ou na “eliminação de pragas do sistema”. (E�lie indica que as inovações realmente novas para o mundo estão restritas a apenas cerca de 6% a 10% de todos os projetos que se dizem inovadores.) Estudos acerca do desenvolvimento do processo incremental (tal como o famoso estudo de Hollander sobre as fábricas de rayon da Du Pont) sugerem que os ganhos cumula�vos de eficiência são muito maiores a 33Capítulo 1 Fatores Fundamentais na Gestão da I novação 24 PRODUTO (SERVIÇO) PROCESSO INOVAÇÃO (incremental... radical) (incremental... radical) POSIÇÃO “PAR ADIGMA” (MODELO MENTAL) FIGURA 1.2 O espaço da inovação. (incremental... radical) (incremental... radical) (in cr em en ta l.. . r ad ic al ) (in cr em en ta l.. . r ad ic al ) longo prazo do que aqueles ob�dos com as mudanças radicais ocasionais.² Outros exemplos incluem os estudos de Tremblay sobre fábricas de papel, de Eno sobre o refino de petróleo e de Figueiredo sobre a fabricação de aço.² -² Melhorias con�nuas desse �po têm recebido considerável atenção nos úl�mos anos, primeiramente como resultado do movimento gerencial de “qualidade total”, refle�ndo os ganhos significa�vos que os fabricantes japoneses têm ob�do com melhoria na qualidade e na produ�vidade através de mudança incremental sustentada.² Mas isso não é novidade – princí- pios semelhantes sustentam o famoso efeito “curva de aprendizagem”, em que a produ�vidade é sensivelmente melhorada com o aumento na escala de produção; a razão disso reside na aprendizagem e na con�nua inovação incremental resultante da solução de problemas que acompanha a introdução de um novo produto ou processo.³ Experiências mais recentes com a aplicabilidade da mentalidade “enxuta” de gestão, verificadas no setor manufatureiro e de serviços e, de forma crescente, entre empresas, bem como dentro das mesmas, enfa�zam o grande potencial desse �po de inovação con�nua.¹ Uma maneira na qual a abordagem da inovação con�nua pode ser aproveitada de forma produ�va é por meio do conceito de modelo plataforma ou robusto. Essa é a forma de criar “espaço e elas�cidade dentro da embalagem” e depende da capacidade de criar uma plataforma básica forte que possa ser ampliada. Rothweel e Gardiner exemplificam de muitas formas tais “modelos robustos”, que podem ser estendidos, ou de alguma forma modificados, para aumentar o alcance ou a vida ú�l do produto, incluindo-se as linhas aéreas da Boeing e os motores a jato da Rolls-Royce.³¹ Inves�mentos expressivos feitos por grandes fabricantes de semicondutores, como a Intel e a AMD, são de certa forma amor�zados quando u�lizados para desenvolver e produzir uma linha de disposi�vos baseados em famílias comuns ou plataformas, tais como os processadores Pen�um, Celeron, Athlon ou Duron. Os fabricantes de automóveis estão cada vez mais voltados para a produção de modelos que, embora sejam aparentemente diferentes em es�lo, adotam componentes co-muns, tais como mesmos assoalhos e chassis. Talvez o produto plataforma mais comum seja o Walkman, originalmente produzido pela Sony como um rádio e toca-fitas portá�l: seu conceito plataforma tornou-se suporte para uma vasta gama de ofertas de todos os maiores fabricantes nesse mercado e tecnologias dele derivadas, como o minidisco, o CD, o DVD e, mais recentemente, os tocadores de MP3. Em termos de inovação de processo, muito progresso foi alcançado com a habilidade de melhoria e aumento de desempenho a par�r de modelos conceituais originais no decorrer de muitos anos – em áreas como fabricação de aço e de produtos químicos, por exemplo. Em termos de inovação de serviços, há outros exemplos em que um conceito básico pode ser adaptado e remodelado para atender a uma vasta gama de aplicações assemelhadas, evitan- do-se os altos custos da concepção original – como é o caso de diferentes �pos de financiamen- to hipotecário e de seguros. As plataformas e famílias são formas importantes para que as empresas recuperem seu inves�mento inicial em P&D (pesquisa e desenvolvimento) por meio da aplicabilidade da tecno- logia em uma série de outros mercados. A Procter & Gamble, por exemplo, inves�u muito no desenvolvimento da ciclodextrina, originalmente desenvolvida para a fabricação de 34 Parte I Gestão para a Inovação 5 6 7 5 9 0 detergentes; mas conseguiu usar essa tecnologia e suas variações em uma família de produtos que inclui controladores de odor (“Febreze”), sabonetes e fragrâncias finas (“Olay”), desodori- zantes de geladeira, desinfetantes, alvejantes e amaciantes para tecidos (“Tide”, “Bounce” etc.). Conseguiram inclusive licenciar tal tecnologia para uso em áreas não-compe��vas, como nos setores de limpeza industrial de carpetes e na indústria farmacêu�ca. 1.4 A inovação como um processo baseado no conhecimento A inovação é uma questão de conhecimento – criar novas possibilidades por meio da combi- nação de diferentes conjuntos de conhecimentos. Estes podem vir na forma de conhecimento sobre o que é tecnicamente possível ou de que configuração pode responder a uma necessi- dade ar�culada ou latente. Tal conhecimento pode já exis�r em nossa experiência, baseado em algo que já vimos ou experimentamos antes, ou pode resultar de um processo de busca – busca por tecnologias, mercados, ações da concorrência etc. Também pode ser explícito em sua forma, codificado de modo que outros possam acessá-lo, discu�-lo, transferi-lo etc. – ou pode exis�r de modo tácito: conhecido, mas sem formulação.³² O processo de combinação desses diferentes conjuntos de conhecimento em uma inovação bem-sucedida ocorre sob condições de alta incerteza. Não sabemos exatamente como a inovação final será (e não sabemos como chegaremos a ela). A gestão da inovação com- preende nossa capacidade de transformar essas incertezas em conhecimento; mas só podemos consegui-lo por meio da mobilização de recursos no sen�do de reduzir a incerteza – efe�va- mente uma ação de equilíbrio. A Figura 1.3 ilustra esse processo de aumento da mobilização de recursos que resulta na redução da incerteza. Vista dessa forma, conclui-se que a inovação incremental, ainda que arriscada, é uma estratégia gerencial de grande potencial, porque inicia a par�r de algo conhecido, que vamos aprimorar. Entretanto, à medida que avançamos para opções mais radicais, a incerteza tende a aumentar até o ponto em que não temos a menor idéia sobre o que estamos desenvolvendo ou em vias de desenvolver! Isso mostra por que a inovação descon�nua é tão di�cil de ser contro- lada. Uma contribuição importante para a compreensão dessa idéia encontra-se no trabalho de Henderson e Clark, que avaliaram cuidadosamente os �pos de conhecimentos envolvidos em diferentes �pos de inovações.33 Eles afirmam que a inovação dificilmente está associada a apenas uma tecnologia ou mercado, e sim a uma gama de conhecimentos que são arranjados em uma dada configuração. O êxito na gestão da inovação depende, segundo eles, da capaci- dade de mobilizar e u�lizar o conhecimento sobre componentes, mas também sobre como podem ser combinados – o que denominaram arquitetura de uma inovação. Podemos verificar essa idéia mais claramente com um exemplo. A mudança de compo- nentes na construção de uma aeronave pode envolver mudança no serviço de metalurgia ou na composição de materiais para a fabricação de asas, ou no uso de controles remotos em vez de controles hidráulicos. Mas o conhecimento implícito sobre como combinar as 35Capítulo 1 Fatores Fundamentais na Gestão da I novação 36 Parte I Gestão para a Inovação formas de aerofólio, os sistemas de controle e de propulsão etc., no nível do sistema, fica inalterado – e ser bem-sucedido em ambos requer um conjunto de competências diferente e mais elaborado. Uma das dificuldades desse aspecto é que os fluxos de conhecimento da inovação – bem como as estruturas que surgem para sustentá-los – tendem a refle�r a natureza da mesma. Se ela ocorre no nível dos componentes, as pessoas relevantes com conhecimento e capaci- tação sobre os mesmos irão se comunicar entre si – de forma que, quando a mudança ocorrer, poderão integrar um novo conhecimento. Mas quando a mudança ocorre no nível do sistema mais complexo – o que Henderson e Clark denominam “inovação arquitetônica” – os canais e os fluxos existentes podem não ser adequados ou suficientes para atender à inovação, de forma que a empresa precisará desenvolver outros. Essa é mais uma razão por que quem se propõe a fazer isso normalmente falha quando uma mudança mais complexa ocorre – porque enfrenta a dificuldade dobrada de aprender e configurar um novo sistema de conhecimento e, ao mesmo tempo, “desaprender” outro velho e já cristalizado. Uma variação nesse tema é encontrada no campo da “fusão tecnológica”, em que dife-rentes correntes tecnológicas convergem, de forma que produtos que costumavam ter uma iden�dade discreta passam a integrar novas arquiteturas. Um bom exemplo disso é o setor de automação domés�ca, no qual a fusão de tecnologias – tais como computação, telecomuni- ca-ções, controle industrial e robó�ca elementar – está criando uma nova geração de sistemas de uso domés�co que possibilitam comunicação, controle ambiental (clima�zação, iluminação etc.) e entretenimento totalmente integrados.³ ³54 TEMPO AU M EN TO D E CO M PR O M ET IM EN TO CO M R EC U RS O S Baixo Alto Incerteza (tecnológica, mercadológica etc.) Comprome�mento e “dependência” FIGURA 1.3 Inovação, incer teza e comprome�mento com recursos. No setor de serviços, uma nova adição ao rol dos serviços financeiros pode, de forma semelhante, representar um componente de inovação de produto, mas seus impactos tendem a ter menor alcance (e os riscos de sua introdução, menores) do que teria uma mudança com- pleta na natureza do pacote de serviços – por exemplo, a mudança para um sistema de linha direta, em lugar da oferta de serviços financeiros através de agentes intermediários. A Figura 1.4 enfa�za os fatores-chave para a gestão da inovação. Na Zona 1, as regras do jogo são muito claras – consistem no incremento estável de produtos ou processos e no uso de conhecimento acumulado acerca de componentes centrais. Na Zona 2, há mudança significa�va em um elemento, mas a arquitetura geral perman- ece a mesma. Aqui, há necessidade de aprendizagem de um novo conhecimento, mas dentro de um quadro de fontes e usuários claro e bem-definido – por exemplo, evolução para injeção eletrônica ou direta para o motor de par�da de um veículo, o uso de novos materiais na fabri- cação de componentes para a indústria aérea, o uso de sistemas informa�zados no processa- mento de dados no setor financeiro ou de seguros etc. Nenhum desses exemplos envolve mudanças ou deslocamentos muito radicais. Na Zona 3, visualizamos a inovação descon�nuada, em que nem o produto final nem os meios pelos quais pode ser ob�do são plenamente conhecidos – basicamente todo o conjunto de regras do jogo é alterado e abre-se espaço para novos entrantes. Na Zona 4, temos as condições em que novas combinações – arquiteturas – surgem, possivelmente como resposta a necessidades de grupos diferentes de usuários (como no caso da inovação de ruptura). Nesse caso, o desafio consiste em remodelar as fontes de conheci- 37Capítulo 1 Fatores Fundamentais na Gestão da I novação RELAÇÕES ENTRE ELEMENTOS DE CONHECIMENTO ZONA 2 ZONA 3 ZONA 4ZONA 1 CONCEITOS CENTRAIS SOBRE INOVAÇ ÃO Destruídos Reforçados Não-alterados Alterados – inovação incremental – inovação de arquitetura – inovação descon�nua – inovação modular 38 Parte I Gestão para a Inovação mento e as configurações. Pode-se lançar mão de conhecimento já existente e recombiná-lo de diferentes formas, ou combinar o novo e o velho. Seus exemplos são as linhas aéreas de baixo custo, a compra de seguros pela modalidade de linha direta, e outros. 1.5 O desafio da inovação descon�nua Na maioria das vezes, a inovação ocorre dentro de um conjunto de regras de jogo que são clara- mente entendidas e que envolvem jogadores tentando inovar na busca pela melhoria daquilo que já vêm fazendo (produto, processo, posição etc.). Alguns a alcançam mais efe�vamente do que outros, mas as “regras do jogo” estão definidas e não mudam.²¹ No entanto, às vezes, algo acontece que desloca esse padrão e altera as regras do jogo. Por definição, não são eventos corriqueiros, mas possuem a capacidade de redefinir as condições de espaço e limites – abrem novas oportunidades, mas também desafiam os jogadores existentes a remodelarem o que estão fazendo à luz de novas condições.¹ ¹ ²² Esse é um tema central na teoria original de Schumpeter sobre a inovação, que ele acreditava envolver um processo de “destruição cria�va”.² ³ ³ O que parece ocorrer é que, para um dado conjunto de condições tecnológicas e merca- dológicas, há um longo período de rela�va estabilidade, durante o qual um fluxo con�nuo de variações em torno de uma inovação básica ocorre. Essencialmente, há uma melhoria de produto/serviço dentro dos parâmetros da idéia de “fazer o que sabemos, mas melhor”. Por exemplo, a caneta esferográfica Bic foi originalmente desenvolvida em 1957, mas ainda nos dias de hoje permanece sendo um produto forte, com vendas diárias de 14 milhões de unidades em todo o mundo. Ainda que aparentemente seja a mesma, uma inspeção mais cuidadosa revela uma série de mudanças incrementais em termos de materiais, �ntas, tecnologia de esfera, disposi�vos de segurança etc. Contudo, tais condições estáveis de inovação são pontuadas por descon�nuidades ocasionais – e quando estas ocorrem, uma ou mais condições (tecnologia, mercados, relações sociais, reguladores etc.) mudam drama�camente. Nesse processo, as “regras do jogo” funda- mentais mudam e um novo espaço de oportunidade se abre. Surgem condições do �po “faça algo diferente”, por exemplo, quando uma mudança radical ocorre no limite da fronteira tecnológica, ou quando mercados totalmente novos emergem. Um exemplo emergente disso poderia ser a subs�tuição da lâmpada incandescente, originalmente desenvolvida no final do século XIX por Edison e Swan (entre outros). Ela pode ser subs�tuída pela lâmpada de luz haló- gena por diodo emissor, patenteada pela Nichia Chemical. Essa tecnologia gera energia 85% mais eficiente, tem vida ú�l 16 vezes maior que a da lâmpada convencional, é mais brilhante, mais flexível na u�lização e provavelmente sofrerá as economias de escala associadas à produção de componentes eletrônicos (ver Quadro 1.2, na página 40, para uma discussão mais aprofundada do assunto). Em seu trabalho pioneiro sobre o tema, Aber nathy e U�erback desenvolveram um modelo descrevendo o padrão em termos de três fases dis�ntas. Inicialmente, sob condições 60 7 98 descon�nuas, há o que eles chamaram de “fase fluida”, durante a qual ocorre grande incerteza no tocante a duas dimensões: • O alvo – como será a nova configuração e quem irá desejá-la? • A técnica – como manipular a nova tecnologia para criá-la e distribuí-la? Ninguém sabe como será a configuração “certa” de necessidades de meios tecnológicos e mercados, de forma que há uma experimentação intensa (acompanhada de muitos fracassos) e um aprendizado acelerado por parte de uma variedade de par�cipantes, incluindo-se muitos novos empreendimentos. Grada�vamente, essas experiências começam a convergir em torno do que se chama uma “forma dominante” – algo que começa a estabelecer as regras do jogo. Ela representa a convergência em torno da solução mais popular (não necessariamente a mais sofis�cada ou elegante, em termos tecnológicos) para uma configuração em desenvolvimento. Nesse estágio, o trem começa a andar, e as opções de inovação tor nam-se mais canalizadas em torno de um conjunto de possibilidades – que Dosi chama de “trajetória tecnológica”.³ Torna-se mais di�cil a exploração fora desse território, pois o interesse empresarial e os recursos por ele mobiliza- dos concentram-se cada vez mais em possibilidades dentro do estreito corredor do desenho dominante. Isso pode ser aplicado a produtos e processos; em ambos os casos, as caracterís�cas essenciais tornam-se estabilizadas e a experimentação concentra-se na eliminação de incon- venientes e no refinamento do desenho dominante. Por exemplo, a indústria química do século XIX evoluiu a fabricação de carbonato de sódio (um ingrediente essencial na produção de sabão, vidro e uma série de outros produtos) dos primórdios, quando era produzido a par�r da queima de matéria vegetal, para uma reação química sofis�cada realizada em larga escala (o processo Leblanc), um dos norteadores da Revolução Industrial. Esse processo dominou por cerca de um século, mas foi, por sua vez, subs�tuído por uma nova geração de processos con�nuos que usavam técnicas eletrolí�cas e que se originaram na Bélgica, onde foram desen- volvidos pelos irmãos Solvay. A evolução para o processo Leblanc ou para o Solvay não ocorreu da noite para o dia; consumiu décadas de trabalho para refinar e melhorar cada um dos proces- sos, bem como para dominar completamente a técnicas de química e engenharia necessárias à obtenção de rendimento e qualidade consistentes. O mesmo padrão pode ser visto em relação a produtos. Por exemplo, o desenho original de uma câmera é algo que remonta ao início do século XIX e – como uma visita a qualquer museu mostrará – envolvia toda sorte de soluções engenhosas. O desenho dominante grada�- vamente evoluiu para uma arquitetura facilmente iden�ficável – combinação de obturador e lentes, princípios de foco, lâminas anteriores para filmes ou chapas etc. Mas esse desenho foi então modificado ainda mais – tais como lentes diferentes, controles motorizados, tecnologia de flash – e, no caso do trabalho de George Eastman, para criar um modelo de câmera simples e rela�vamente “à prova de idiotas” (a máquina Box Brownie), que disponibilizou a fotografia para o mercado de massas. O aprimoramento mais recente gerou uma fase fluida, com o adven- to dos disposi�vos de imagem digital. 39Capítulo 1 Fatores Fundamentais na Gestão da I novação 40 Parte I Gestão para a Inovação QUADRO 1.2 VIVENDO COM A MUDANÇA DESCONTÍNUA Quando as condições de descon�nuidade aparecem, desafiam as “regras do jogo” – e tanto oferecem ameaça a jogadores existentes quanto oferecem oportunidades para aqueles que são rápidos o bastante para �rar vantagem dessas novas condições. Um bom exemplo disso pode ser visto no mundo editorial. Por um lado, temos um setor que foi, até recentemente, baseado em tecnologias essencialmente �sicas e em uma complexa rede de fornecedores especializados, que contribuíam fazendo sua parte específica no complexo quebra-cabeça das publicações. Cópias – textos ou figuras – eram geradas por um jornalista especializado ou fotógrafo, por exemplo. Eles então as passariam para vários editores que as avaliariam, decidiriam sobre design e leiaute etc. O próximo passo seria a montagem de �pos, no qual materiais �sicos para a impressão seriam confeccio- nados – metal aquecido seria moldado na forma de letras e agrupado em blocos para formar palavras e frases dentro de molduras especiais. Figuras e outros itens eram trans- feridos para placas de impressão. As molduras de �pos ou placas de impressão eram então fixadas às prensas, que eram banhadas em �nta e passavam por alguns testes ou provas de impressão. Finalmente, a versão impressa aparecia e era repassada a um terceiro que a publicava e distribuía. Tal método ainda hoje seria reconhecido pelos senhores Caxton e Gutenberg – os pioneiros da indústria gráfica. Mas é provável que eles não �vessem a menor idéia sobre como o setor opera na atualidade, cuja ênfase reside na tecnologia de informação. Hoje, o processo mudou de tal forma que uma única pessoa poderia realizar todo o conjunto de operações: criar o texto em um processador de textos, formatá-lo e diagramá-lo em um processador de imagens, integrar texto e imagem e, quando es�vesse sa�sfeito, imprimir o material em meio �sico ou divulgá-lo – como é cada vez mais comum – por meio eletrônico em rede mundial. Há diversos exemplos de empresas que experimentaram esse processo ou opor- tunidades semelhantes. A Adplates, por exemplo, é, ou era até pouco tempo atrás, uma empresa pequena no norte de Londres, especializada na produção de placas de impressão para a indústria de propaganda (daí o nome). Costumava ser um pequeno elo em uma vasta cadeia que se iniciava com um cliente e uma agência de propaganda contratando um serviço de divulgação. A foto e o texto seriam confeccionados e, even- tualmente, o material seria enviado à Adplates, que se encarregaria da tarefa de preparar a placa de impressão, que então repassariam para ser impressa – ou seja, era um peque- no elo de uma longa corrente. Mas a tecnologia mudou tudo. A empresa começou a desafiar os limites da oper- ação da qual fazia parte – por que, por exemplo, não poderia cortar cami- 41Capítulo 1 Fatores Fundamentais na Gestão da I novação nho, ascendendo na cadeia e negociando diretamente com o cliente? É claro que isso exigiria novas habilidades e tecnologia em áreas como design e imagem e preparação de texto – mas tudo isso estava disponível em qualquer computador pessoal. Da mesma forma, poderia inves�r em habilidades e equipamentos para percorrer a mesma cadeia no sen�do descendente, já que o processo de impressão havia mudado da moldagem de metal aquecido para a digitalização de todo o processo. E por que razão deixaria para o editor a disseminação de todo o material, quando o mercado e a tecnologia nessa ponta do setor estavam mudando tão rapidamente e abrindo tantas novas oportunidades? Atualmente, Adplates oferece um rol de ser viços completo a seus clientes, desde a concepção da idéia inicial até a impressão, e possui até seu próprio catálogo de revistas e uma próspera operação de publicação digital na Internet. Há tanto ganhadores quanto perdedores nesse jogo. Há pessoas que ainda pensam na Enciclopédia Britânica como um item domés�co, depositário de todo o conhecimento ú�l que pode ser consultado. É um produto muito bem estabelecido – na realidade, a idéia foi concebida por três editores escoceses em 1768! A marca é ó�ma, mas o negócio sofreu mudanças dramá�cas e ainda está sob ameaça. De um pico de vendas, em 1990, de cerca de 650 milhões de dólares, suas vendas caíram em 80%, por exemplo, nos Estados Unidos. O problema não é o produto, mas a forma como se apre- senta – todas as enciclopédias encadernadas �veram o mesmo des�no nas mãos de versões para CD-ROM, como a Encarta (que é muitas vezes parte integrante do pacote na compra de um PC). Poderíamos ir mais além na indústria da publicação, mas o ponto é óbvio: quando a tecnologia muda dras�camente, abre novas oportunidades, mas também impõe grandes ameaças aos par�cipantes do setor e àqueles que nele querem entrar. Sob tais condições, simplesmente ser um par�cipante – mesmo com uma marca estabelecida há séculos e um ó�mo produto – não é o bastante. Portanto, conforme empresas como a Amazon.com provam, atualmente, vir de fora e começar do zero pode oferecer vantagens significa�vas. O que está acontecendo é que esses casos não se adaptam ao modelo estável, do �po “grande é bonito”, nem à ênfase historicamente importante sobre a competência nuclear. As bases de um negócio como o de publicação e edição estão sendo abaladas, e muitos dos nomes famosos somem, enquanto outros desconhecidos emergentes tornam-se grandes par�cipantes no setor – em alguns casos, do dia para a noite! (Em dada ocasião, a Amazon.com valia mais do que o dobro do valor de mercado de certos negócios estabelecidos, como o da Bri�sh Airways, por exemplo). Uma turbulência desse nível desafia os modelos de gestão convencionais – a necessidade de mudança não apenas se torna urgente, como os próprios modelos de mudança de gestão, em que muitos par�cipantes tradicionais confiam tornam-se insuficientes ou já não são adequa- dos. 42 Parte I Gestão para a Inovação No modelo de Abernathy e U�erback, o período em que o desenho dominante surge e a ênfase muda para a imitação e o desenvolvimento em torno dele é denominado “fase de tran- sição”. As a�vidades são então deslocadas do desenvolvimento conceitual radical para esforços mais concentrados direcionados à diferenciação do produto e à comercialização do mesmo de forma confiável, mais em conta, com maior qualidade, funcionalidade estendida etc. À medida que o conceito amadurece, a inovação incremental torna-se cada vez mais significa�va, e a ênfase muda para fatores como custo – o que significa que os esforços dentro dos setores que crescem em torno desse produto tendem a se concentrar mais em ra- cionalização, em economias de escala e em processos de inovação para reduzir custos e aumen- tar a produ�vidade. A inovação de produto está mais voltada para a diferenciação por meio de customização, a fim de atender a necessidades específicas de determinados consumidores. Abernathy e U�erback denominam isso de “fase específica”.* Finalmente, o cenário está pronto para mudanças. O espaço para inovação torna-se cada vez menor, enquanto lá fora – nos laboratórios e na imaginação dos pesquisadores e cien- �stas, por exemplo – novas possibilidades estão surgindo. Uma nova tecnologia, que tem o potencial de desafiar todas as regras até então estabelecidas, emerge eventualmente – e o jogo está desfeito. No caso da câmera, por exemplo, isso está acontecendo com o advento da foto- grafia digital, que está provocando um impacto direto não só nas câmeras, como também no pacote inteiro de serviços em torno de como �ramos, guardamos e disponibilizamos nossas fotografias. No caso do setor químico, isso está acontecendo com a biotecnologia e com o surgi- mento da possibilidade de não mais precisarmos de gigantescas fábricas de químicos, usando, em vez disso, operações em pequena escala com organismos vivos gene�camente modificados para produzir o que necessitamos. A Tabela 1.2 apresenta os principais elementos desse modelo. Embora tenha sido origi- nalmente desenvolvido para produtos manufaturados, o modelo também funciona para serviços – os primórdios do atendimento bancário pela Internet foram caracterizados por uma �pica fase fluida, com muitas opções e modelos sendo oferecidos, que gradualmente mudaram para uma fase de transição, com a definição do desenho consensual dominante de pacote de serviços em oferta, os níveis e a natureza do suporte de segurança e privacidade, a intera�vi- dade do site etc. O setor está atualmente maduro, com a maior parte da compe�ção deslocan- do-se para itens periféricos, tais como taxas de juros rela�vas. Tal padrão pode ser visto em muitos estudos, e suas implicações para a gestão da ino-vação são importantes. Ajuda-nos, sobretudo, a compreender por que organizações sólidas normalmente acham di�cil lidar com a mudança descon�nua. As organizações constroem capacidades em torno de uma trajetória par�cular, e aquelas que podem ser fortes em uma fase (específica) posterior de uma trajetória estabelecida encontram, em geral, dificuldades em par�r para a próxima. (O exemplo de empresas que exploraram, com sucesso, o transistor * Um bom exemplo disso pode ser visto no caso das bicicletas, que passaram por um longo período de fluidez quanto às muitas opções de modelo antes que o design dominante de estrutura de diamante, que caracterizaria o setor durante o século passado, surgisse. 43Capítulo 1 Fatores Fundamentais na Gestão da I novação TABEL A 1.2 Estágios no ciclo de vida da inovação no início dos anos 50 é um bom caso a apontar: muitas eram novas, criadas por entusiastas em suas garagens; entretanto, conseguiram desafiar par�cipantes de peso do setor de ele-troe- letrônicos, como a Raytheon.³ ) Isso é conseqüência, em parte, de custos já inves�dos e com- prome�mentos com tecnologias e mercados existentes, e, em parte, devido a barreiras psicológicas e ins�tucionais. As empresas podem reagir, mas de forma lenta – e correm o risco de atribuir a responsabilidade do novo desenvolvimento àquelas organizações cujas a�vidades, no presente, seriam ameaçadas pela mudança. Essencialmente, a fase “fluida” ou de “fermentação” é caracterizada pela coexistência en-tre tecnologias velhas e novas e pela rápida melhoria de ambas. (É nesse ponto que o cha-mado efeito “veleiro” pode normalmente ser observado – quando uma tecnologia já madura se acelera em sua taxa de melhoria, em resposta a uma nova alterna�va compe��va – como foi o caso do desenvolvimento de veleiros em compe�ção com a recém-descoberta tecn- ologia da energia a vapor. ) Embora algumas pesquisas indiquem que os par�cipantes existentes reajam mal, precisamos ser cuidadosos nesse ponto. Nem todos os par�cipantes existentes sucumbem. Muitos deles conseguem se organizar sobre a nova trajetória e desenvolver conhecimento acumulado, redes, habilidade e a�vos financeiros para aumentar sua competência através da nova oportunidade. Da mesma forma que é verdade que novos entrantes – em geral, A Microso�, por exemplo, foi capaz de gerenciar a mudança para ser viços baseados em sites e para sistemas de comunicação de telefones celulares por meio da expansão de seu sistema operacional e do aproveitamento de seu potencial de marke�ng. 9 40 41 41 42 43 44 42+ + 45 Característica da inovação Padrão de fluidez Fase de transição Fase específica Ênfase compe�- �va orientada para… Inovação es�mulada por… Tipo predomi- nante de inovação Linha de produ- to Processos de produção Desempenho funcional do produto Informação sobre necessidades do consumidor, potencial técnico Freqüentes mudanças significa�vas de produ- tos Diversificada, normal- mente incluindo modelos personaliza- dos Flexível e ineficiente – o obje�vo é experi- mentar e operar mudanças freqüentes Oportunidades cr iadas pela expansão da capaci- dade técnica interna Inovações de processo significa�vas resultantes de aumento de volume Inclui pelo menos um modelo estável ou dominante Torna-se mais rígida e definida Pressão para reduzir custos, aumentar quali- dade etc. Incremento de produto e inovação de processo Em sua maioria, produ- tos-padrão não-diferen- ciados Eficiente, normalmente de capital intensivo e rela�vamente rígida Variação de produto Redução de custo 44 Parte I Gestão para a Inovação empresas pequenas – desempenham um papel importante nessa fase inicial, não devemos nos esquecer que apenas enxergamos os par�cipantes bem-sucedidos. Precisamos lembrar que há forte pressão ecológica sobre os novos entrantes, o que significa que apenas os mais fortes e preparados sobrevivem. É importante salientar que existe algo nas formas pelas quais a inovação é gerenciada sob essas condições que apresenta problemas. A prá�ca bem-sucedida do �po “condição estável” antes descrita é proveitosa na fase madura ulterior, mas pode militar a�vamente contra a entrada e o sucesso na fase fluida de uma nova tecnologia.46 Como as empresas detectam sinais de mudanças quando as mesmas ocorrem em áreas em que elas normalmente não pesquisam? Como compreendem as necessidades de um mercado que ainda não existe, mas que está para moldar o pacote final que se tornará o modelo dominante? Se falarem com seus clientes habituais, a tendência é que os mesmos peçam mais daquilo que já obtém normalmente; então, que novos usuários devem tais empresas abordar – e como achá-los? O desafio parece consis�r em desenvolver formas de gestão da inovação não apenas durante a fase estável, mas também sob condições de alta incerteza e velocidade de mudança, que resultam de um deslocamento ou descon�nuidade. Os �pos de comportamentos organi-zacionais necessários em tal situação incluem fatores como agilidade, flexibilidade, habi- lidade para aprendizagem rápida, ausência de preconceitos sobre a forma como as coisas podem vir a evoluir etc. – fatores esses que quase sempre estão associados a novas empresas de pequeno porte. Há situações em que encontramos esses mesmos comportamentos em empresas já estabelecidas de grande porte, mas a verdade é que são normalmente conflitantes com suas formas habituais de agir e pensar. Estudos aprofundados demonstraram o poder de mudança de limites tecnológicos na criação e transformação de estruturas de indústria – por exemplo, no caso da máquina de escrever, do computador e do automóvel. Tais transformações são rela�vamente freqüentes – nenhum setor está imune (ver Quadro 1.3 para exemplo). De forma preocupante, a fonte de tecnologia que normalmente desestabiliza um setor lhe é externa; de modo que até mesmo as empresas de porte – que costumam gastar tempo e recursos em pesquisa, com a finalidade de estarem à frente dos desenvolvimentos em sua área de atuação – podem descobrir que estão no caminho errado com a entrada de algo que tenha sido desenvolvido em um campo diferente. As amplas mudanças no setor de serviços financei- ros e de seguros que caracterizaram a troca para a oferta online e por telefone foram larga- mente desenvolvidas por profissionais de TI que freqüentemente trabalhavam fora de seu campo original de atuação.6 Em casos mais extremos, encontramos o efeito normalmente denominado “não inventado aqui” quando uma empresa desenvolve uma tecnologia, mas decide não u�lizá-la, porque não é adequada à sua percepção do setor ou ao direcionamento de seu desenvolvimento tecnológico. Exemplos famosos desse efeito são as rejeições do processo Polaroid pela Kodak, e do telefone de Bell pela Western Union. Em um famoso memo- rando datado de 1876, o conselho menciona que “esse ‘telefone’ tem muitas falhas para ser seriamente considerado como um meio de comunicação. O disposi�vo é, por natureza, sem valor para nós”. 45Capítulo 1 Fatores Fundamentais na Gestão da I novação QUADRO 1.3 O ESCURECIMENTO DA L ÂMPADA ELÉTRICA No princípio... Deus disse “faça-se a luz”. E, por um longo tempo, ela nos chegou a par�r de um método bem primi�vo, mas surpreendentemente eficiente – o lampião. Desde os tempos imemo- riais em que se colocavam simples pavios na gordura congelada de animais, desde velas até lâmpadas a óleo mais sofis�cadas, as pessoas têm usado esse �po de iluminação. Os arqueólogos informam que isso já ocorria há 40 mil anos, de forma que houve muito espaço para inovação na melhoria da idéia básica! Certamente, à época dos romanos, a iluminação domés�ca – embora com velas – era um aspecto bem desenvolvido da socie- dade civilizada. Não houve grandes mudanças até o final do século XVIII, quando a expansão da indústria de extração de minério levou a experimentos com o uso de gás de carvão – que se mostrou uma fonte alterna�va de iluminação. Um dos pesquisadores pioneiros na indústria do car vão – Humphrey Davy – inventou a lâmpada de arco de carbono e intro- duziu uma nova era de segurança dentro das minas – mas também abriu a porta para formas alterna�vas de iluminação domés�ca, e a era da iluminação a gás teve início. Mas não foi antes de meados do século seguinte que os pesquisadores começar- am a explorar as possibilidades de uso de uma nova fonte de energia e seus novos efeitos �sicos. Experiências feitas por Joseph Swann, na Inglaterra, e por Farmer, nos Estados Unidos (entre outros), levaram ao desenvolvimento de um disposi�vo no qual um peque- no filamento de metal fechado dentro de um invólucro de vidro era aquecido até a incan- descência por uma corrente elétrica. Estava criada a primeira lâmpada elétrica – que ainda mantém mais do que mera semelhança com o produto facilmente encontrado suspenso no teto de milhões de residências em todo o mundo. Em 1879, tornou-se evidente que havia significa�vo potencial comercial para tal lâmpada – não apenas para uso domés�co. Dois eventos ocorreram durante aquele ano que teriam efeitos duradouros na emergência de tal indústria. O pri-meiro foi que, na cidade de Cleveland – embora se u�lizasse uma tecnologia de lâmpada diferente (arco de carbono) – foi introduzido o primeiro sistema público de iluminação de ruas. E o segundo foi que foram registradas patentes para a lâm-pada de filamento incandescente por Joseph Swann, na Inglaterra, e por um certo Thomas Edison, nos Estados Unidos. (continua) 46 Parte I Gestão para a Inovação QUADRO 1.3 (con�nuação) É desnecessário dizer que as empresas fornecedoras e distribuidoras de gás e a indústria de iluminação a gás não ignoraram a ameaça da lâmpada elétrica e respon- deram com uma série de inovações incrementais que ajudaram a manter a popularidade da iluminação a gás por pra�camente toda a segunda metade do século XIX. Muito do que aconteceu nos 30 anos seguintes é um bom exemplo do que, às vezes, é chamado de “efeito veleiro”. Ou seja, no mundo da navegação, a energia a vapor não causou o desapa- recimento instantâneo de barcos a vela, mas, em vez disso, provocou uma série de melhorias naquele setor; da mesma forma, a indústria da iluminação a gás consolidou sua posição por meio de inovações incrementais de produtos e processos. Mas a iluminação elétrica também se desenvolveu, e o período compreendido entre os anos de 1886 e 1920 sofreu muitos avanços importantes e um considerável número de pequenos incrementos de desempenho. Em um famoso e detalhado estudo conduzido por um pesquisador adequadamente denominado Bright (“brilhante”), há evidências de que pequenas melhorias no design da lâmpada elétrica e no processo de fabricação da mesma provocaram a redução de seu preço em cerca de 80% entre 1880 e 1896.46 Exemplos de tais inovações incluem o uso de gás em vez de vácuo dentro do tubo (1913, Langmuir) e o uso do filamento de tungstênio. A teoria da inovação ensina que, depois de uma invenção, há um período em que todas as formas de design e idéias são experimentadas, antes que finalmente o modelo dominante se estabeleça e a indústria comece a amadurecer. Isso se deu com a lâmpada elétrica; na década de 1920, a configuração básica do produto – um filamento de tungstê- nio dentro de um invólucro de vidro cheio de gás – ficou definida, e a indústria começou a se consolidar. É nesse ponto que os principais par�cipantes com os quais associamos o negócio – Philips, General Electric (GE), Wes�nghouse – se estabeleceram. Alternativas tecnológicas Embora o negócio tenha então adentrado um período de estabilidade no mercado, ainda havia considerável a�vidade no âmbito da tecnologia. Voltando ao século XIX, Henri Becquerel inventou uma lâmpada fluorescente e, em 1911, Claude inventou a lâmpada de gás néon – ambas as invenções teriam grande repercussão em termos de indústria e sua segmentação em diferentes mercados. A lâmpada de néon iniciou-se com a idéia de se fabricar tubos de vidro em difer- entes formatos para sinalização e enchê-los com uma variedade de gases com proprie- dades similares às do néon, mas que �vessem cores diferentes. 47Capítulo 1 Fatores Fundamentais na Gestão da I novação A lâmpada fluorescente foi comercialmente fabricada pela primeira vez pela empresa Sylvania, nos Estados Unidos, em 1938, após intenso trabalho desenvolvido tanto pela GE, quanto pela Wes�nghouse. Sua tecnologia possuía uma série de aspectos impor- tantes, incluindo baixo consumo de energia e durabilidade – fatores que levaram à sua disseminação no âmbito profissional e comercial, embora menos difundida no âmbito domés�co. Nos anos 1990, esse produto havia evoluído juntamente com a lâmpada de filamento tradicional, e uma série de aplicações compactas já estava disponível nas maiores lojas de luminárias. Enquanto isso, em outra parte do globo... Enquanto o néon e a lâmpada fluorescente foram variações do mesmo tema básico de lâmpadas, um novo desenvolvimento iniciou-se em um setor completamente novo nos anos 1960. Em 1962, estudos na emergente área de eletrônica de estados sólidos levou à descoberta de um diodo de emissão de luz: o LED, um disposi�vo que brilhava nas cores verde ou vermelha sempre que uma corrente o atravessasse. Essas luzes eram brilhantes e consumiam pouca energia; também faziam parte de uma nova tendência em direção à miniaturização. Rapidamente, tornaram-se elementos-padrão em disposi�vos eletrôni- cos, e hoje existem, na maioria dos aparelhos domés�cos, centenas de LEDs nas cores laranja, verde ou vermelha para indicar se disposi�vos como televisores, telefones celu- lares ou escovas de dentes elétricas estão ou não ligados e funcionando. O desenvolvimento e o refinamento de LEDs ocorreram em um setor diferente para cada mercado diferente, e, par�cularmente, uma linha de trabalho foi desenvolvida por uma pequena indústria química japonesa que fornecia LEDs para grandes fabri- cantes, como a Sony. A Nichia Chemical iniciou um programa de trabalho relacionado com um �po de LED que emi�ria luz azul – algo muito di�cil de ser a�ngido e que exigia complexidade química e cuidado-so controle de processo. No final, foram bem-sucedi- dos, e em 1993 fabricaram um LED azul baseado na tecnologia de arseneto de gálio. A empresa fez então um grande inves�mento para desenvolver tanto a tecnologia de produto quanto a de processo, acumulando cerca de 300 patentes durante o processo. Suas pesquisas culminaram com o desenvolvimento, em 1995, de um LED de cor branca – u�lizando o princípio de que a luz branca é ob�da a par�r da mistura da vermelha, da verde e da azul. E então? A importância da invenção de Shuji Nakamura pode não ser imediata- mente evidente – e até o momento os únicos produtos que podem ser comprados u�lizando-a são pequenas tochas de alto poder de iluminação. Mas pense sobre a importância dessa descoberta. LEDs brancos oferecem as seguintes vantagens: (continua) 48 Parte I Gestão para a Inovação QUADRO 1.3 (con�nuação) • 85% menos consumo de energia; • 16 vezes mais brilhantes do que as luzes elétricas normais; • Tamanho miniaturizado; • Longa duração – os testes mostram que a vida ú�l de um LED poderia chegar a 100.000 horas – cerca de 11 anos; • Podem ser acondicionados em diferentes formatos, tamanhos e composições; • Seguirão a mesma economia de escala na fabricação que levou à con�nua queda de preços dos componentes eletrônicos, tor nando-se muito rapidamente muito baratos. Se oferecermos às pessoas luz branca de baixo custo, alta potência e de fonte acessível, é provável que a adotem – e por essa razão a indústria de iluminação já está se sen�ndo um pouco ameaçada. A probabilidade é de que a indústria, como a conhecemos hoje, seja drama�camente mudada pela emergência dessa nova fonte de luz – e, enquan- to os nomes permanecerem os mesmos, um alto preço pelo licenciamento da tecnologia terá de ser pago. Pode-se tentar a obtenção de patentes – mas com 300 já registradas e a experiência com química e processamento complexos que fazem parte da fabricação de LEDs, a Nichia já detém a dianteira. Quando o Dr. Nakamura deixou a Nichia por uma vaga na Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara, as vendas de LEDs azuis e lasers rever- �am para a empresa mais de 200 milhões de dólares anuais, e es�ma-se que a tecnologia tenha rendido cerca de 2 bilhões de dólares. As coisas já começam a acontecer. Muitas grandes metrópoles estão adotando semáforos que usam a tecnologia básica do LED para obter luzes verdes e vermelhas brilhantes, uma vez que possuem vida ú�l muito mais longa do que as lâmpadas conven- cionais. Uma empresa norte-americana, a Traffic Technology Inc., chegou a propor a doação de lâmpadas em troca de par�cipação na economia com energia elétrica que as autoridades locais obteriam! Produtos ao consumidor, como tochas, estão ocupando seu lugar de mercado em lojas e catálogos online, enquanto a indústria automobilís�ca está avaliando a u�lização do LED de luz branca para a iluminação interior de veículos. Grandes fabricantes, tais como GE, estão entrando no mercado e centrando-se em mer- cados de massa, como iluminação pública e aplicações domés�cas, um mercado es�ma- do em cerca de 12 bilhões de dólares somente nos Estados Unidos. 49Capítulo 1 Fatores Fundamentais na Gestão da I novação QUADRO 1.4 EXCELÊNCIA TECNOLÓGICA PODE NÃO SER SUFI- CIENTE... Nos anos 1970, a Xerox era o par�cipante dominante no ramo de copiadoras, ten-do construído o setor desde seus primórdios, quando foi fundada a par�r da tec-nologia pioneira e radical de Chester Carlsen e do Ba�elle Ins�tute. Mas, apesar de sua destreza nas tecnologias fundamentais e de inves�mento con�nuo para manter a dianteira, a empresa foi seriamente ameaçada por uma nova geração de copiado-ras compactas desenvolvidas por novos entrantes, muitos deles japoneses. Apesar do fato da Xerox possuir enorme experiência no setor e grande domínio da tecno-logia básica, foram necessários quase oito anos de falhas e de falsos inícios para conseguir introduzir um produto compe��vo. Nesse período, a Xerox perdeu cerca de metade de seu mercado e passou por sérios problemas financeiros. Conforme avaliaram Henderson e Clark, ao descreverem o caso, “mudanças aparentemente pequenas na tecnologia existente... causam conseqüências dramá�cas”.³³ De maneira semelhante, nos anos 1950, a RCA, a gigante dos eletrônicos, desen- volveu um protó�po de rádio portá�l à base de transistores, u�lizando tec-nologia que dominava com vantagem. Entretanto, não viu necessidade de pro-mover essa tecnologia aparentemente tão inferior e con�nuou a desenvolver e fabricar seus aparelhos de longo alcance. Ao contrário, a Sony u�lizou-a para ganhar acesso ao mercado consumidor e para construir toda uma geração de dis-posi�vos portáteis ao mercado consumidor – e, no processo, adquiriu experiência tecnológica considerável, a ponto de torná-la capaz de compe�r com vantagem em mercados de maior valor e complexidade. 1.6 A teoria da inovação de ruptura de Christensen Embora grandes avanços ou rupturas ao longo da fronteira tecnológica possam quebrar as regras do jogo, eles não se cons�tuem como único mecanismo. O Quadro 1.4, por exemplo, mostra alguns exemplos em que líderes tecnológicos em um dado setor encontram-se em sérias dificuldades como resultado de mudanças na forma como o conhecimento tecnológico existente era usado. O influente estudo de Clayton Christensen chamou a atenção para casos em que o mer- cado foi o verdadeiro ga�lho. Ele estudou com profundidade certo número de setores, e deteve-se especificamente no setor de discos rígidos porque representava uma indústria na qual um número de gerações de modelos dominantes poderia ser encontrado dentro de um cenário histórico rela�vamente curto. 40 47 50 Parte I Gestão para a Inovação Sua observação perspicaz era de que, a cada nova geração, quase todos os jogadores até então bem-sucedidos naquele que era um mercado mul�milionário falhavam ao fazer a tran-sição, e normalmente eram expulsos do mercado ou faliam (ver Tabela 1.3). Em 1976, havia dezessete grandes empresas no setor; em 1995, somente a IBM permanecia do referido grupo. Durante aquele período, 129 empresas entraram no negócio, mas 109 saíram. Entretan- to não eram empresas não-inovadoras – bem pelo contrário. Eram exemplos textuais de boa prá�-ca, inves�ndo boa soma de suas vendas em P&D, observando de perto os melhores clientes para compreender suas necessidades e desenvolver inovações de produto que os atendessem, fornecendo um fluxo con�nuo de inovações de processo e produto e sistema�ca- mente explo-rando ao máximo o espaço para inovação definido pelo mercado. Então, o que explicaria por que tais empresas aparentemente tão eficientes falharam? A resposta não era sua incapacidade de lidar com os avanços da fronteira tecnológica – na verdade, todas as tecnologias que foram envolvidas nos novos modelos dominantes para cada geração eram bem estabelecidas, e muitas delas surgiram em laboratórios de empresas então existentes (e mais tarde falidas). O que estava mudando era o surgimento de novos mer- cados com necessidades e expecta�vas muito diferentes. Geralmente, tal cenário envolvia par�cipantes que procuravam por algo mais simples e barato para atender a um conjunto muito variado de necessidades – normalmente fora ou à margem do usual. Os pioneiros do computador de uso pessoal, ou PC (Apple, Atari, Commodore etc.), por exemplo, em meados dos anos 1970, estavam tentando criar uma máquina para o mercado domés�co e de entretenimento – mas por uma fração do preço e com menor funcionalidade do que possuíam os minicomputadores existentes no mercado, para os quais discos de alta capaci- dade e velocidade de acesso se faziam necessários. Os senhores Jobs, Wozniak e seus colegas já ficariam sa�sfeitos com algo bem menos impressionante do ponto de vista técnico, mas capaz de sa�sfazer o público de baixa renda dedicado a passatempos para o qual TABEL A 1.3 A forma cambiante da indústria norte-americana de unidades de disco(extraído de Christensen )47 Período de tempo 1970 19801975 19901984 Tamanho dominante, em polegadas Principais aplica-ções de mercado Principais fabricantes IBM Fabricantes compa�veis com a Plug CDC Shugart Priam Quantum Micropoli Ampex Seagate Computer Memories Interna�onal Memories Rodime Conner Peripherals Seagat Quantum Western Digital Mainframes Minicomputa- dores Desktops Laptops Laptops avançados 2,53,55,25814 51Capítulo 1 Fatores Fundamentais na Gestão da I novação seu produto era inicialmente dirigido. Seu problema era que não eram levados a sério como uma perspec�va de mercado alterna�vo pelos fornecedores de discos estabelecidos. Por natureza, os par�cipantes existentes estavam tão acostumados a trabalhar com seus clientes habituais que não conseguiam perceber o potencial de longo prazo no novo mer- cado que surgia. Seus sistemas de avaliação de necessidades de seus usuários e de aplicabili- dade desses dados no processo de desenvolvimento de produto estavam orientados para um mer-cado de máquinas de alta sofis�cação de engenharia e aplica�vos financeiros, e seu suces- so em atender a essas necessidades permi�u que seu negócio crescesse concomitantemente com esse setor. Não deveríamos nos surpreender com isso – novos mercados não surgem em toda sua plenitude ou com necessidades claramente iden�ficadas, mas iniciam-se em meio ao caos, à incerteza e ao risco, em pequena escala e com perspec�va de crescimento duvidoso. Esse cenário dificilmente representava um mercado alter na�vo para as mul�bilionárias empre- sas de fornecedores para os usuais fabricantes de minicomputadores. Assim Steve Jobs descreveu suas tenta�vas de chamar a atenção: “Veja, temos essa coisa maravilhosa, até construída com alguns de seus componentes, e o que me diz de nos patrocinar? Ou podemos dá-la a você. Só queremos fabricá-la. Pague nosso salário e trabalharemos para você.” E eles respondiam: “Não”. Então fomos até a Hewle�-Packard e eles disseram: “Não precisamos de vocês. Vocês ainda nem concluíram a faculdade”. Mas enquanto esses mercados pareciam irrelevantes para os par�cipantes usuais, suas exigências definiram o que se tornaria o novo modelo dominante, baseado em uma configu- ração bastante diferente em termos de preço e desempenho. À medida que o novo mercado crescia, a tecnologia de fornecimento do modelo dominante amadurecia e tornava-se mais confiável e competente – como seria previsível se aplicássemos o modelo de Abernathy e U�er- back. No final, a nova tecnologia foi capaz de atender às demandas não somente do mercado emergente, como também daquele já estabelecido – mas com grande vantagem de preço e desempenho. Nesse momento, os fabricantes de minicomputadores passaram a ver significa- �vos bene�cios em u�lizarem discos de um modelo dominante diferente, mas que ainda lhes proporcionaria a funcionalidade por eles requerida – mas por muito menos. É nesse ponto que a ruptura surge – o que se iniciou como um negócio marginal, no final tornou-se o usual e mudou as regras em que o usual operava. Quando os fornecedores de discos usuais já estabelecidos no setor se deram conta do que estava acontecendo, o melhor que puderam fazer foi imitar, mas de uma posição bem aquém na curva de aprendizagem. Não é surpresa que alguns deles tenham falhado em fazê-lo e desis�ram ou faliram. Os novos par�cipantes que reescreveram o livro de regras para toda uma geração, por sua vez, viram seus mercados se romperem quando uma nova geração de par�cipantes passou a fazer o mesmo que eles. Isso enfa�za o ponto de que não são empresas incapazes que sofrem esse �po de ruptura – mas que a receita para o sucesso em se buscar um novo modelo domi- nante é aquela que configura os sinais percebidos pelas empresas sobre futuras oportunidades e as formas como mobilizam recursos para as mesmas. Ater-se a uma música específica torna a empresa vulnerável em sua habilidade de “dançar” de acordo com a próxima, quando esta começa a tocar. 48 52 Parte I Gestão para a Inovação O padrão de inovação de ruptura pode ser visto em uma variedade de setores – são exemplos disso as miniusinas rompendo o mercado de siderurgia integrada em larga escala ou os fabricantes de escavadeiras mecânicas vendo seu mundo desafiado por uma nova forma de equipamentos hidráulicos menores e mais simples. Em um estudo posterior, Christensen e Raynor aprofundaram essa potente análise de relação de mercado para lidar com duas dimensões de descon�nuidade – em que a ruptura ocorre devido a um novo conjunto de parâmetros de desempenho compe�ndo contra os mercados existentes e em que compete contra a própria ausência de consumo. Efe�vamente, o úl�mo caso trata da criação de merca- dos completamente novos. O maior desafio com que as empresas encontram dificuldade de lidar nesses casos não está no avanço tecnológico em si, mas na mudança de configuração tecnologia/necessidade para os mercados usuais e novos. O “dilema do inovador” a que alude o �tulo do primeiro livro de Christensen refere-se às dificuldades que os jogadores já estabelecidos encontram em administrar simultaneamente aspectos estáveis (sustentáveis) e descon�nuos (desconstru- tores). No seu âmago, essa importante teoria é um desafio às formas com que abordamos a gestão da inovação. As condições de sustentabilidade exigem inovação, mas no curso de caminhos muito diferentes – e envolvendo redes muito diferentes – para as condições de ruptu- ra. O registro de par�cipantes que tenham cavalgado os dois cavalos é diminuto, mas todos enfrentam a necessidade de lidar com esse dilema do inovador. Ou cedem terreno para novos entrantes ou lançam-se em novas aventuras e tornam-se, eles próprios, novos entrantes. Uma terceira opção envolvendo o equilíbrio entre as duas situações – uma capacidade ambidestra – é um grande desafio que propomos ao longo do livro. 1.7 Outras fontes de descon�nuidade Esse problema – o de gerenciamento concomitante de estados de descon�nuidade e de estabi- lidade – surge com freqüência e pode ser desencadeado não apenas pela tecnologia mais radi- cal ou pela mudança de mercado significa�va. Pode advir, por exemplo, de avanços tecnológi- cos importantes ou pelo uso inteligente de tecnologia já existente para atender a um mercado recém-surgido. Pode resultar da reconfiguração de um modelo de negócio – como o que acon- teceu com a “reinvenção” do setor de viagens aéreas em torno de modelos de baixo custo. Ou pode ainda ocorrer como resultado de um choque externo que força a mudança em um dado setor ou indústria – como acontece durante os períodos de guerra. A Tabela 1.4 traz alguns exemplos de tais ga�lhos de descon�nuidade. Comum a todos eles, do ponto de vista da gestão da inovação, é a necessidade de reconhecer-se que, em condições de descon�nuidade (que, ainda bem, não ocorrem todos os dias), precisamos de diferentes abordagens para organizar e gerenciar a inovação. Se tentarmos usar modelos conhecidos que funcionam sob condições estáveis, descobriremos – como muitos já relataram – que ficaremos cada vez mais obsoletos e arriscando sermos subs�tuídos por par�cipantes mais novos e ágeis. 40 53 Capítulo 1 Fatores Fundam entais na Gestão da I novação TABEL A 1.4 Fontes de descon�nuidade Es�mulos/fontes de descon�nuidade Explicação Problemas enfrentados Exemplos (de boas e más experiências) Surgimento de novo mercado Surgimento de nova tecnologia A maioria dos mercados evolui a par�r de um processo de crescimento, segmentação etc. Mas, em determina- dos momentos, surgem mercados com- pletamente novos que não podem ser analisados ou previstos com ante- cedência ou explorados por meio de técnicas convencionais de pesquisa ou análise de mercado. Mudança de incremento ocorre em tecnologia de produto ou processo – pode resultar da convergência e ama- durecimento de várias correntes (como é o caso da automação industrial, da telefonia celular) ou em conseqüência de uma única ruptura (como é o caso do LED como fonte de luz branca). Não é vista porque se situa além dos limites periféricos do cenário de pesquisa tecnológica.Não é uma extensão de áreas já exploradas, mas um campo ou abordagem absoluta- mente novos.O ponto máximo pode não ser um avanço isolado, mas a convergência e o amadurecimento de fluxos tecnológicos estabelecidos, cujo efeito combinatório é subes�ma- do.Nenhum efeito é inventado aqui – a nova tecnologia representa uma base diferente para a criação de valor – por exemplo, o telefone versus o telégrafo. Da coleta de gelo para o armazenamen- to refrigerado. Da válvula para os com- ponentes eletrônicos em estado sólido. De fotos para imagens digitais. Par�cipantes tradicionais não o consideram, porque estão concentra- dos em seus mercados existentes. Podem desconsiderá-lo por ser muito pequeno ou por não representar seu mercado-alvo preferido – descar te periférico.Criadores de produto novo podem não ver o potencial de novos mercados e podem ignorá-los, como é o caso da mensagem de texto. As unidades de disco, as escavadeiras, as minimills .Telefone celular/SMS (Short Messaging Ser vi-ces), onde o mercado que realmente surgiu não foi o esperado ou previsto pelos seus inventores. (con�nua) 49 39 47 54 Parte I Gestão para a Inovação TABEL A 1.4 Fontes de descon�nuidade Es�mulos/fontes de descon�nuidade Explicação Problemas enfrentados Exemplos (de boas e más experiências) Surgimento de novas regras polí�- cas Situação sem perspec�vas Mudança de maré no comportamen- to/sensibilidade de mercado Condições polí�cas que orientam as regras sociais e econômicas podem mudar drama�camente. A queda do comunismo, por exemplo, resultou em um modelo alterna�vo – capitalista e compe��vo – em oposição ao planeja- mento centralizado – e muitas das an�- gas empresas estatais não conseguiram adaptar suas mentalidades. Empresas em setores já maduros podem precisar escapar das restrições da redução de espaço para inovação de produto e processo e do crescente aumento de compe�ção das estruturas industriais, saindo do negócio ou reori- entando-o radicalmente. A opinião pública e os comportamentos mudam lentamente e então evoluem para novos modelos; a indústria da música, por exemplo, está no meio de uma revolução ocasionada pela evolução tecnológica quanto a sistemas de entrega do produto, indo da compra de discos, CDs e fitas ao download direto de faixas escolhidas em MP3 e outros formatos similares. Não levá-la em consideração ou persis�r em explicações alterna�vas – dissonância cogni�va – até que seja tarde demais. Apple, Napster, Dell, Microso� versus indústria tradicional de música. O sistema atual está construído em torno de uma trajetória específica e fundamentado em um conjunto de ro�nas de inovação estáveis que militam contra experiências de amplo espectro ou condições de risco. Medproducts Kodak Enciclopédia Britânica Preussag Mannesmann An�gas estruturas mentais sobre gestão de negócios, regras do jogo etc. são desafiadas, e empresas estabeleci- das fracassam em compreender ou aprender novas regras. De economias de planejamento centralizado para economias de merca- do (por exemplo, a an�ga União Sovié�ca).Da África do Sul do apar theid para a do pós-apartheid – de uma sociedade fechada e voltada para o interno para relações com o exter- no.50Livre comércio e globalização provocam desmantelamento de tarifas de proteção e outras barreiras, e uma nova base compe��va surge. 52 50, 51 19 53 54 55 Capítulo 1 Fatores Fundam entais na Gestão da I novação (con�nua) Desregulamen- ta-ção/Mudanças nos regimes regu- la-tórios Fraturas ao longo de “linhas falhas” Eventos impre-vistos Inovação de modelo de negócio Pressões polí�cas ou de mercado levam a mudanças na estrutura reguladora e permitem o surgimento de um novo conjunto de regras – por exemplo, liberalização, priva�zação ou desregu- lamentação. An�gos mo�vos de preocupação de uma minoria se impõem (algumas vezes como resultado de pressão de alguns grupos) e re-pen�namente o sistema muda – por exemplo, compor- tamentos sociais em relação ao fumo ou preocupações com a saúde relacion- ada a níveis de obesidade e consumo de fast food. Situação impensável e, por isso, meio não preparado para acontecimentos que – algumas vezes, literalmente – mudam o mundo e estabelecem novas regras para o jogo comercial. Modelos de negócios estabelecidos são de -safiados por uma remodelagem, geralmente imposta por um novo entrante que redefine/remodela o problema e as conseqüentes “re-gras do jogo”. Novas regras podem enfraquecer jogadores existentes ou tornar com- petências desnecessárias. Novos entrantes consideram a opor- tunidade de oferecer produto/ser viço através de um novo modelo de negócio e reescrevem as regras – par�cipantes existentes devem, na melhor das hipó- teses, ser rápidos seguidores. 11 de Setembro Amazon.com; Charles Schwab; Southwest e demais empresas aéreas de bai-xo custo As regras do jogo mudam repen�na- mente, e os jogadores existentes são pegos de surpresa ainda trabalhando com velhos padrões. Outros par�ci- pantes que estejam trabalhando à margem no desenvolvimento de alter- na�vas paralelas podem subitamente passar à liderança, na medida em que as novas condições os favoreçam. McDonald’s e obesidade.Fabricantes de cigarros e a proibição do fumo em locais públicos.Petróleo e formas de energia assemelhadas e o aquecimen- to global.Oportunidades para novas fontes de energia, como a eólica – predominante na Dinamarca, por exemplo. Novas regras para o jogo, mas velhos modelos mentais persistem com par�c- ipantes incapazes de se mover suficien- temente rápido ou enxergar novas oportunidades. Velhas posições de monopólio em áreas como telecomunicações e energia foram desmanteladas, e novos jogadores/combi- nações de empresas surgiram. Áreas como energia e banda larga, em par�cular, são cada vez mais encaradas como mercadori- as. As inovações incluem habilidades de negociação e distribuição – um fator subja- cente ao considerável sucesso da Enron no final dos anos 1990, quando surgiu a par�r de uma pequena distribuidora de combus- �veis e se tornou uma grande empresa da área de energia – e um sem número de oportunidades devem ser consideradas. 55 22 22, 54, 56 56 Parte I Gestão para a Inovação TABEL A 1.4 Fontes de descon�nuidade Es�mulos/fontes de descon�nuidade Explicação Problemas enfrentados Exemplos (de boas e más experiências) Alterações no “paradigma tecno-econômico” – mudanças sistemá�cas que impactam setores inteiros ou mesmo sociedades inteiras Inovação de arquitetura A mudança ocorre no nível do sistema, trazendo alterações de tecnologia e mercado. Envolve a convergência de uma sér ie de tendências que resulta em uma “mudança de paradigma” em que a velha ordem é subs�tuída Mudanças no nível da arquitetura de sistema reescrevem as regras do jogo para aqueles envolvidos no nível dos componentes. Par�cipantes estabelecidos desen- volvem formas específicas de con- sideração e moldam suas interações – por exemplo, aqueles que convencem a adquirir e usar conhecimento para criar inovação – de acordo com as mes- mas.As alterações de arquitetura podem envolver remodelagem, mas, no nível dos componentes, é di�cil detectar a necessidade de realizá-la – e, portanto, novos par�cipantes mais aptos a lidar com novas arquiteturas podem surgir. Fotolitografia na fabricação de chips Di�cil de perceber quando um novo paradigma começa até que as regras se estabeleçam. Os par�cipantes existentes tendem a reforçar seu com- prome�mento com o velho modelo, mo�-vados pelo chamado “efeito velei- ro”. Revolução Industrial Produção de massa 38, 57, 58 33, 59 57Capítulo 1 Fatores Fundamentais na Gestão da I novação 1.8 A inovação não é fácil... Embora a inovação seja cada vez mais vista como uma importante maneira de assegurar vantagem compe��va e uma maneira mais segura de defender posições estratégicas, o sucesso não é sempre garan�do. A história da inovação de processos e produtos está cheia de exemplos de idéias aparentemente boas que falharam – em alguns casos com conseqüências catastrófi- cas. Por exemplo: • Em 1952, os engenheiros da Ford começaram a trabalhar em um novo carro para bater os modelos de médio porte oferecidos pela GM e pela Chrysler: o carro “E”. Depois de uma pesquisa exaus�va por um nome que envolveu mais de vinte mil sugestões, o carro foi finalmente ba�zado de Edsel Ford, o nome do único filho de Henry Ford. Não foi um sucesso; quando os primeiros Edsels finalmente saíram da linha de montagem, a Ford precisou gastar cerca de dez mil dólares por carro (quase o dobro do custo do veículo) para torná-lo vendável. O plano publicitário era mandar 75 Edsels no mesmo dia para concessionárias locais; durante o evento, a empresa só conseguiu mandar 68 deles, e em um espaço televisivo ao vivo o carro não deu a par�da. Esses foram apenas os problemas iniciais; em 1958, a indiferença do consu- midor pelo modelo e a preocupação por sua reputação levou a empresa abandonar o carro – a um custo de 450 milhões de dólares e 110.847 Edsels. • Durante a segunda parte da Segunda Grande Guerra, tornava-se cada vez mais claro que haveria um grande mercado para empresas aéreas de longas distâncias, especialmente na rota transatlân�ca. Um compe�dor britânico era o Bristol Brabazon, baseado em um modelo de bombardeiro de longo alcance que foi aprovado pelo Ministério da Aeronáu�ca para desen- volvimento em 1943. A orientação da BOAC, o maior cliente da nova linha aérea, era associar-se à imagem do bombardeiro e seu equipamento, mas sem qualquer comentário sobre questões como tamanho, alcance e capacidade! O orçamento rapidamente escoou-se com a construção de novas edificações para acomodar uma aeronave tão grande, e, em um dado momento, até mesmo com a demolição de um vilarejo inteiro, com a finalidade de aumentar a pista, em Filton, perto de Bristol. O controle de projeto era deficiente e muitos detalhes desnecessários foram acrescentados. A maquete, por exemplo, trazia “a mais refinada sala de maquiagem com espelhos emoldurados em madeira pintada em alumínio e até equipado com diversos apara- dores para os diversos �pos de loções usadas pelas jovens senhoras mais modernas”. O protó�po levou seis anos e meio para ser construído e envolveu grandes crises técnicas com a modelagem das asas e do motor; embora tenha voado bem nos testes, a natureza do mercado aéreo do pós-guerra era muito diferente da prevista pelos técnicos. Conseqüentemente, em 1952, depois de voar menos de mil milhas, o projeto foi abandonado após consideráveis custos ao contribuinte. A comparação com o projeto do Concorde – desenvolvido pelo mesmo fabri- cante, no mesmo local, uma década mais tarde – é di�cil de evitar. 60 61 58 Parte I Gestão para a Inovação • Durante o final da década de 1990, mudanças revolucionárias que envolviam •muitas inovações de sucesso estavam acontecendo na comunicação por telefone celular – mas até mesmo jogadores experientes podem acabar com os dedos chamuscados. A Motorola lançou um empreendimento ambicioso que pretendia oferecer comunicação por sinal em pra�ca- mente qualquer lugar do planeta – abrangendo o meio do deserto do Saara e o topo do Monte Everest! A execução do projeto envolvia um inves�mento de 7 bilhões de dólares para pôr em órbita 88 satélites; mas, além dos custos, o Iridium, como era conhecido o empreendimen-to, recebeu fundos de inves�mentos da maioria dos interessados e a rede estava estabelecida. O problema era que, uma vez que a novidade se tornou comum, as pessoas deram-se conta que não precisavam fazer tantas ligações para lugares como o Pólo Norte e ilhas remotas, e que suas necessidades eram facilmente supridas por redes menos exó�cas estruturadas ao redor de grandes centros populacionais. E, além disso, os aparelhos Iridium eram grandes e incômodos – devido aos complexos componentes eletrônicos sem fio que precisavam conter – e o custo desse “�jolos” de alta tecnologia era o absurdo de 3 mil dólares! Os custos de telefonia eram igualmente altos. Apesar do incrível avanço tecnológico que representava, a “decolagem” do sistema nunca aconteceu, de forma que em 1999 a empresa entrou com pedido de concordata. Mas seus problemas não haviam terminado: o custo para manter os satélites em órbita de forma segura montava em torno de 2 milhões de dólares por mês. A Motorola, que teve de assumir tal ônus, esperava que outras empresas de telecomunicações viessem a aproveitar os satélites, mas depois que nenhum interesse foi demonstrado, teve de arcar com um prejuízo de mais 50 milhões de dólares para �rá-los de órbita e destruí-los com segurança. Mesmo então seus planos de permi�r que caíssem e queimassem na reentrada da atmosfera terrestre foram duramente cri�cados pela NASA, pelo risco de virem a causar uma guerra nuclear, uma vez que qualquer peça que ca-ísse no solo seria grande o suficiente para a�var os mecanismos de defesa russos, já que poderiam ser iden�ficados não como sucata de satélite, mas como mísseis direcionados a Moscou! • Uma pesquisa feita pelo Departamento de Indústria e Comércio do Reino Unido junto a 14 mil empresas consumidoras de programas para computadores mostrou que entre 80% a 90% dos projetos falharam em a�ngirem seus obje�vos de desempenho; cerca de 80% foram entregues com atraso e acima do orçamento previsto; cerca de 40% falharam e foram aban- donados; e apenas de 10% a 20% a�ngiram totalmente o critério de sucesso pretendido. • Embora a Internet tenha sido encarada como a sementeira de um enorme número de novos empreendimentos, a experiência das empresas “pontocom” não foi exatamente um mar de rosas. Algumas empresas, como a Amazon e a Yahoo!, viram suas ações subir na flutuação inicial – mas, para elas e muitas outras, a bolha estourou. Novos par�cipantes mostraram-se mal-aparelhados para sobreviver, e apenas uma pequena porção das entrantes originais permanecem – mas até mesmo atores 59Capítulo 1 Fatores Fundamentais na Gestão da I novação grandes e estabelecidos foram duramente a�ngidos. O gigante das telecomunicações BT, por exemplo, perdeu 60% de seu valor de mercado, enquanto a Marconi acabou fechando. É claro que nem todos os fracassos são tão dramá�cos e completos como esses; para a maioria das organizações, o padrão é de sucesso parcial com problemas. Estudos sobre inovação de produto, por exemplo, apontam com segurança para um alto índice de “fracasso” entre idéia inicial e concre�zação de lançamento de um produto de sucesso no mercado. Números atualizados variam de 30% até 95%; uma média aceitável gira em torno de 38%.62 Mas esses números não devem surpreender – afinal de contas, a inovação é um negócio arriscado por natureza, e, como as omeletes, o sucesso sempre envolve alguns ovos quebrados. Precisamos ter em mente que há sempre um grande índice de incerteza na inovação, composto de fatores técnicos, mercadológicos, sociais, polí�cos e outros, resultando que as probabili- dades não são muito boas para o sucesso, a menos que o processo seja cuidadosamente geren- ciado. Até as empresas mais bem geridas ainda cometem erros. A história de sucesso do Post-it da 3M é, de fato, um relato em que a inovação poderia ter fracassado em vários pontos.63,64 E, como Perez salienta, o padrão de se empolgar com bolhas de tecnologia que, no final, estou- ram, com conseqüências catastróficas, não é novidade. O ponto central é assegurar-se de que os experimentos sejam bem concebidos e contro- lados, de forma a minimizar a incidência de falhas e a fim de garan�r, caso isso ocorra, que lições sejam aprendidas para evitar no futuro a queda na mesma armadilha. 1.9 ... mas é imprescindível Confrontadas com o que é sempre um processo arriscado e incerto, muitas empresas po-deri- am ser perdoadas por decidirem não inovar, mesmo quando as possíveis recompensas parecem atra�vas. Entretanto essa abordagem – a da ina�vidade – é raramente uma opção, especial- mente em setores de economia turbulentos e de mudanças bruscas. Em essência, a menos que as organizações estejam preparadas para renovar seus produtos e processos de maneira con�nua, suas chances de sobrevivência estarão seriamente ameaçadas. Em meados dos anos 1980, um estudo da Shell indicava que o índice médio de sobre-vivência de uma empresa de grande porte era de apenas metade do tempo de vida de um ser humano. Desde então, as pressões sobre as empresas têm crescido consideravelmente de todos os lados – com o resultado inevitável de que a expecta�va de vida é ainda mais redu- zi-da. Muitos estudos procuram pela mudança na composição de fatores essenciais e chamam a atenção para o legado do que antes eram empresas grandes e, em sua época, inovadoras. Foster e Kaplan, por exemplo, afirmam que, das 500 empresas originalmente compondo a lista das pequenas e médias em 1857, apenas 74 permaneceram na lista até 1997.18 Das 12 empre- sas que compunham o topo da lista do índice Dow Jones em 1900, apenas uma – a General Elec- tric – sobrevive até os dias de hoje. Até mesmo gigantes aparentemente robustos 58 60 Parte I Gestão para a Inovação como IBM, GM ou Kodak podem, subitamente, apresentar sinais de mortalidade, enquanto que para as empresas menores o cenário é ainda pior, uma vez que lhes falta a proteção de uma base de recursos maior. Algumas empresas precisaram mudar dras�camente para sobreviver no negócio. Uma empresa fundada no início do século XIX, por exemplo, que �nha botas Wellington e papel higiênico em seu rol de produtos é hoje uma das maiores e mais bem-sucedidas no mundo no campo das telecomunicações. A Nokia iniciou suas a�vidades como uma madeireira e serraria, fabricando equipamentos para o corte de árvores na Finlândia. Passou a explorar a indústria do papel e a par�r dela a�ngiu o “escritório sem papel” da TI – e nesse ponto chegou aos telefones celulares. Outro fabricante de telefones celulares – a Vodafone Airtouch – cresceu em proporções gigantescas com a fusão com uma empresa chamada Mannesman, que, desde sua fundação em meados de 1870, tem sido mais comumente associada com a invenção e produção de tubos de aço! Tui é atualmente a empresa que possui a Thomson, a agência de viagens do Reino Unido que é atualmente a maior agência de turismo européia. Suas origens, entretanto, estão nas minas da velha Prússia, onde era estabelecida como uma estatal de exploração de chumbo e fundição. Esse problema não afeta apenas as empresas individualmente; conforme indica o estudo de U�etback, setores inteiros podem ser destruídos e desaparecer como resultado de inovação radical que reescreve as regras técnicas e econômicas do jogo. Duas conclusões perturbadoras surgem desse estudo: primeira, muitas inovações que destroem a ordem existente originam-se de novos entrantes e par�cipantes externos vindos de outros setores; segunda, um número significa�vo de par�cipantes iniciais sobrevive a tais transformações. Dessa forma, a questão não está restrita à decisão de inovar ou não, mas como fazê-lo com êxito. Que lições se podem aprender a par�r da pesquisa e da experiência sobre sucesso e fracasso, e que padrões a elas relacionados podem ser usados para orientar ações futuras? Em um processo tão incerto e complexo como a inovação, a sorte desempenha seu papel. Há casos em que o sucesso chega por acidente – e às vezes os bene�cios resultantes de um golpe de sorte são suficientes para cobrir uma série de falhas subseqüentes. Mas o sucesso real reside na capacidade de repe�r o truque – gerenciar o processo consistentemente de forma que o sucesso, mesmo que sem garan�as, seja mais provável. E isso depende da com- preensão e gerenciamento do processo de forma que pouco seja deixado ao acaso. A pesquisa sugere que o sucesso é baseado na habilidade de aprender e repe�r esses comportamentos; é semelhante ao comentário do jogador de golfe Gary Player: “Quanto mais treino, mais sorte tenho...”. Então, o que temos que gerenciar? Acreditamos que a inovação é um processo essen-cial, preocupado em renovar o que a empresa oferece (seus produtos e/ou serviços) e com as formas em que são fabricados e vendidos. Seja a empresa envolvida com �jolos, pães, transa-ções bancárias ou cuidados do bebê, o desafio principal ainda é o mesmo. Como obter uma vantagem compe��va através da inovação – e por meio dela sobreviver e crescer? (Esse é um desafio ainda maior para as empresas sem fins lucra�vos – na a�vidade policial, em saúde e 53 49 61Capítulo 1 Fatores Fundamentais na Gestão da I novação educação, a compe�ção ainda está presente, e o papel da inovação ainda é a melhor vantagem para lidar com problemas como o crime, a doença ou o analfabe�smo.) Nesse nível mais genérico, acreditamos que as organizações têm de gerenciar quatro fases quanto à concre�zação do processo de inovação. Precisam: • Esquadrinhar e pesquisar seus cenários (interno e externo) para iden�ficar e pro- cessar sinais potenciais de inovação. Podem ser necessidades de vários �pos, ou oportunidades surgidas de a�vidades de pesquisa em algum lugar, ou pressões para se ajustar a alguma legis- lação, ou o próprio comportamento dos concorrentes – mas representam o conjunto de es�mulos aos quais a empresa deve responder. • Selecionar estrategicamente, dentre esse conjunto de ga�lhos potenciais para ino- vação, aquelas coisas que a organização mobilizará recursos para alcançar. Até a empresa mais bem aparelhada em pesquisa não pode explorar tudo; então, o desa-fio consiste em selecionar o que oferece a melhor chance de desenvolver vantagem compe��va. • Fornecer recursos para opção – produzir os recursos de conhecimento necessários para explorá-la (seja criando-os por meio de P&D ou adquirindo-os através de transferência de tecnologia). Isso pode residir na simples questão de comprar na prateleira, ou explorar resulta- dos de uma pesquisa já concluída – ou pode exigir uma busca intensa para encontrar as fontes certas. Não é só uma questão de mobilizar o conhecimento aplicado, mas sim o conhecimento periférico – normalmente implícito – que é necessário para fazer a tecnologia funcionar. • Implementar a inovação, amadurecendo-a desde a simples idéia, através de vários estágios de desenvolvimento, até o produto final – como um novo produto ou serviço no mer- cado externo ou um novo processo ou método dentro da empresa. • Refle�r – numa quinta fase, opcional – sobre as anteriores e revisar experiências de sucesso e fracasso, a fim de aprender como melhor gerenciar o processo e captar conhecimen- to relevante a par�r da experiência. É claro que há inúmeras variações sobre esse tema básico em termos de como as empresas realmente operam. E muito depende de seu ponto de par�da – suas con�ngências específicas. Empresas grandes, por exemplo, podem estruturar o processo de forma mais abrangente do que as pequenas, que trabalham de maneira informal. Empresas em setores de conhecimento intensivo, como o setor farmacêu�co, concentrarão mais esforços em P&D formal – normalmente empregando grandes quan�dades de sua receita nessa a�vidade – enquanto outras, como a indústria do vestuário, buscarão vínculos mais ín�mos com seus clientes como uma fonte de inovação. Organizações sem fins lucra�vos podem estar mais concentradas na redução de custos e na melhoria de qualidade, enquanto o setor privado se preocupará com a fa�a de mercado. Redes de empresas podem ter de operar em complexos arranjos coordenados para garan�r a conclusão bem-sucedida de um processo conjunto – e para planejar esquemas legais bem concebidos, de forma a assegurar que os direitos de propriedade intelectual sejam respeitados 62 Parte I Gestão para a Inovação Mas, em seu âmago, o processo é a mesma seqüência básica de a�vidade. A gestão da inovação consiste em aprender a encontrar a solução mais apropriada para o problema de gerenciar o processo de maneira eficaz, e fazê-lo pelos meios mais indicados, dadas as circun- stâncias em que a empresa se encontra. Em conseqüência disso, soluções par�culares para o problema geral de gerenciar esse processo fundamental serão específicas para cada empresa. (Analisaremos essa visão do processo de inovação com maior detalhamento no próximo capítu- lo.) Sugerimos três questões fundamentais para a gestão da inovação, que formam a base deste livro: 1. Como estruturar o processo de inovação adequadamente? 2. Como desenvolver padrões de comportamento eficazes (ro�nas) que definam como se opera diariamente? 3. Como adaptar ou desenvolver processos paralelos para lidar com os diferentes desa-fios de inovação descon�nua ou de “condição estável”? A maioria das pesquisas acerca da gestão da inovação tem tentado iden�ficar alguma forma de “melhor prá�ca”, mas esses estudos em geral tem se concentrado na experiência observada de contextos específicos. Os modelos dominantes de gestão de tecnologia, por exemplo, são derivados da experiência de empresas norte-americanas de alta tecnologia, em que a maioria das “regras” para desenvolvimento de produto baseia-se em pesquisa sobre a prá�ca de fabricantes japoneses de bens duráveis. Entretanto é improvável que se encontre “uma melhor forma” de gerenciar a inovação, já que as indústrias diferem em termos de opor- tunidades tecnológicas e mercadológicas, e as especificidades de cada empresa restringem as opções gerenciais. Por essa razão, rejeitamos, neste livro, uma escola de administração que prega “uma melhor forma” e procuramos, em vez disso, explorar as correspondências entre estruturas, processos e cultura de uma organização, a oportunidade para e as caracterís�cas de inovação tecnológica, bem como o cenário compe��vo e mercadológico em que a empresa opera. 1.10 Novos desafios, velhas respostas? “Revolução constante de produção, distúrbios ininterruptos em todas as condições sociais, incerteza interminável... todas as indústrias nacionais estabelecidas de longa data foram ou estão sendo diariamente destruídas. São desalojadas por novas indústrias... cujos produtos são consumidos não apenas em âmbito doméstico, mas em qualquer recanto do globo. No lugar de velhas necessidades, satisfeitas pela produção do país, encontramos novas necessidades... a criatividade intelectual das nações individuais torna-se propriedade comum.” (K. Marx e F. Engels, Manifesto Comunista, 1848) 63Capítulo 1 Fatores Fundamentais na Gestão da I novação A citação demonstra que incerteza, globalização e inovação não são novidades, e que a única certeza sobre o cenário do amanhã é que será tão incerto quanto o de hoje. Esse lampejo do óbvio ululante lembra-nos de uma das maiores dificuldades na gestão da inovação – o fato de que estamos lidando com um cenário que muda constantemente. E está claro que algumas tendências do cenário atual estão convergindo para criar condições que muitos vêem como uma reescritura de regras do jogo compe��vo. Certamente, há grandes mudanças ocorrendo no cenário em que temos de nos exer- citar e gerenciar a inovação, e, nesta seção final do capítulo, veremos rapidamente algumas das maiores forças que cons�tuem a base de tais mudanças. Nossa opinião, entretanto, é de que, uma vez que não há lugar para complacência, também não deveríamos nos apressar em descar- tar os princípios básicos nos quais esse livro está baseado – eles certamente precisarão de adaptação e conformação a circunstâncias drama�camente novas, mas sob o quebra-cabeças da gestão da inovação está o que sempre houve: o desafio de acumular e explorar fontes de conhecimento de modo estrategicamente eficaz. Já consideramos o desafio que é cons�tuir a inovação descon�nua, por exemplo. A História indica que, embora mudanças tecnológicas e mercadológicas sejam dramá�cas, os fatores básicos da gestão da inovação permanecem. De modo par�cular, as empresas precisam pesquisar a�va e extensivamente; o desenvolvimento de uma antena sensi�va e de uma orien- tação futura consistente são a�vidades de suma importância. Assim, é cada vez mais óbvio que, nos casos atuais de condições compe��vas, em muitos setores a vantagem advém com maior freqüência do conhecimento – porque aquilo que as empresas sabem e possuem é di�cil de copiar e exige que os outros passem por um processo de aprendizagem similar.65-67 Mas em um cenário de tamanha turbulência, é inevitável que alguns conjuntos de conhecimentos se tornem redundantes, e outros precisem ser adquiridos rapidamente. Essa ocorrência enfa�za o gerenciamento estratégico da base de conhecimento. No úl�mo caso, é provável que a geração de conhecimento relevante passe a ocorrer fora da empresa, o que exigirá competências para garan�r que a transferência de tecnologia possa ser absorvida e explorada rápida e efe�vamente. As dificuldades de uma empresa como a Kodak ilustram o problema. Fundada há cerca de cem anos, a base de seu negócio consis�a na produção e processamento de filme e em vendas de serviços associados ao mercado fotográfico de massa. Ainda que esse úl�mo conjun- to de competências seja altamente relevante (mesmo depois que a tecnologia em câmeras sofreu tantas mudanças), o abandono da revelação química molhada na câmara escura (encharcando emulsões em filme e papel) em favor da imagem digital representa uma mudança profunda para a empresa. Ela precisa – em uma operação global com uma força de trabalho de milhares de pessoas – abandonar velhas competências que provavelmente não serão necessárias no futuro, enquanto adquire e absor ve, ao mesmo tempo, novas tecnologias de ponta no campo da eletrônica e das comunicações. Embora esteja fazendo esforços tremendos para fazer a transição de fabricantes de filmes a par�cipante central da indústria da imagem digital, a resposta do mercado de ações indica certo ce�cismo quanto à capacidade de consegui-lo. 64 Parte I Gestão para a Inovação O conceito de inovação de componente e de arquitetura é relevante, nesse caso – as empresas precisam desenvolver habilidades para avaliar que partes de sua a�vidade são direta- mente afetadas pela mudança tecnológica e reagir de acordo.³³ Em alguns casos, mudanças no nível dos componentes abrem novas oportunidades – novos materiais ou sistemas propulsores, como células de combus�vel, por exemplo, podem proporcionar novas opções de mecânica para veículos, mas não afetarão necessariamente suas funções primordiais. Mas a mudança para o sistema de baixar músicas em rede de pessoa para pessoa (Quadro 1.5) como um modo alterna�vo de criar e distribuir música pela Internet impõe mudanças a todo o sistema de produção musical e publicação, e pode exigir uma reação mais drás�ca. Em outras palavras, mesmo sob condições de muita incerteza e aparente reescritura de regras, os temas básicos sobre os quais este livro está estruturado permanecem constantes. A inovação eficaz depende da capacidade de olhar com amplitude e antecipação e desenvolver abordagens estratégicas baseadas na compreensão dos aspectos de conhecimento. Nas páginas que se seguem, veremos rapidamente algumas das forças mais marcantes que influenciam o cenário compe��vo e que invariavelmente reescrevem as regras do jogo. São elas: • a globalização de mercados e o fornecimento de tecnologia; • o surgimento de tecnologias que permitem o modo “virtual” de trabalho; • o crescimento da preocupação com sustentabilidade; • o aumento da a�vidade em rede como modelo de negócio. A inovação no cenário global Um grande desafio no cenário atual é que o estágio no qual o jogo da inovação é jogado expan- diu-se de forma assustadora. Enquanto que o desenvolvimento tecnológico ficou concentrado em uns poucos países no início do século XX, mais recentemente expandiu-se de modo a ser produzido e u�lizado em proporções globais – em que os desafios são aqueles inerentes a par�cipantes globais. Esse sempre foi o tema da inovação estratégica em corporações mul�na- cionais, mas atualmente tornou-se central mesmo para empresas de pequeno porte. Até mesmo uma empresa de atuação local não está mais isolada; cada vez mais as grandes empre- sas estão buscando obter componentes de fontes, administrar processos administra�vos e gerenciar a distribuição em nível global. Na indústria automo�va, por exemplo, componentes para um carro fabricado na Alemanha podem ser ob�dos em lugares tão distantes como o Brasil ou a África do Sul, enquanto no setor de aviação civil a maior parte do processamento de infor- mações necessário para administrar reservas e cobranças é fabricada no Oriente. O desenvolvi- mento de programas para o Ci�group é de responsabilidade de uma “fábrica de programação” em Bangalore, na Índia. Esse cenário exige uma reavaliação de posicionamento em termos econômicos globais, seja para as empresas individuais dentro de cadeias de valor global69, seja no nível econômico nacional. Um relatório recente escrito por Michael Porter e seus colegas para o governo britânico, por exemplo, conclui que 65Capítulo 1 Fatores Fundamentais na Gestão da I novação QUADRO 1.5 A NATUREZA INOVADORA DA INDÚSTRIA MUSICAL Um dos aspectos menos visíveis, mas mais desafiadores, da Internet é o impacto que teve – e con�nua tendo – no setor de entretenimento. Isso é par�cularmente verdadeiro no caso da música. Em determinado nível, seu impacto pode ser entendido como restrito à oferta de novos canais de varejo online, por meio dos quais você pode obter o úl�mo CD de seu ar�sta preferido – por exemplo, da Amazon.com, da CD-Now ou de outros 100 sites. Essas inovações aumentam a escolha e as formas de apresentação do serviço de venda de música e demonstram algumas das mudanças econômicas em termos de “riqueza/alcance” do novo jogo comercial da Internet. Mas, debaixo dessa atualização de uma transação que é essencialmente a mesma, reside uma mudança mais fundamental – tanto no modo como a música é criada e distribuída quanto no modelo de negócio sobre o qual toda a indústria da música está hoje embasada. O modelo an�go envolvia, basicamente, uma rede complexa, em que letristas e ar�stas dependiam de ar�stas e repertórios para escolher algumas peças, uma equipe de produção gravava em estúdios complexos e caros, outra equipe de produção tratava da manufatura de discos, fitas e CDs, e ainda uma outra equipe de marke�ng e distribuição assegurava que o produto seria divulgado e disseminado num mercado global em franco crescimento. Muitas mudanças fundamentais comprometeram essa estrutura e trouxeram alterações significa�vas à indústria. Velhas competências passam a não ser mais rele- vantes, enquanto a aquisição de novas torna-se uma questão de necessidade. Mesmo nomes bem conhecidos, como Sony, encontram dificuldades em se manter à frente do mercado, enquanto novos entrantes se mostram capazes de explorar as economias da Internet. O ponto central da mudança está no potencial de criação, armazenagem e distribuição de música em formato digital – um problema sobre o qual pesquisadores trabalham já há algum tempo. Uma solução, desenvolvida por um dos Fraunhofer Ins�- tutes, na Alemanha, é um modelo padrão baseado no protocolo de nível 3 do Mo�on Picture Experts Group (MPEG) – MP3. O MP3 for nece um algoritmo eficaz para o gerenci- amento de um dos grandes problemas da transmissão de arquivos de música: o da com- pressão. Arquivos de áudio normais cobrem uma ampla série de freqüências e são, portanto, muito grandes e pouco adequados para transferência rápida através da Inter- net – especialmente para uma população que pode estar usando modems rela�vamente lentos. Com o MP3, uma compressão eficaz é alcançada através da eliminação de freqüências que o ouvido humano não consegue detectar – resultando que os arquivos a serem transferidos tor nam-se bem menores. (con�nua) 66 Parte I Gestão para a Inovação QUADRO 1.5 (con�nuação) Em conseqüência disso, os arquivos em MP3 podem ser rapidamente disponibi- lizados através da Internet e amplamente compar�lhados. Existem vários programas para conversão de arquivos de áudio normais – como os CDs – para MP3, e vice-versa. O que isso significa para a indústria da música? Em uma primeira instância, músi- cos aspirantes não precisam mais depender de serem descobertos por caçatalentos de grandes gravadoras que podem arcar com os custos de gravação e produção de um CD �sico. Em vez disso, podem usar um programa de gravação caseiro e produzir seus própri- os CDs, ou irem direto ao MP3 – e então distribuir seu produto globalmente através de newsgroups, salas de bate-papo virtuais etc. Nesse processo, eles efe�vamente criam uma indústria de música paralela e muito mais direta, que deixa os par�cipantes e ar�s- tas existentes à margem. Tais mudanças não são necessariamente ameaçadoras. Para muitas pessoas, a diminuição de barreiras de entrada abriu a possibilidade de par�cipar da indústria – por exemplo, ao fazerem e compar�lharem música sem as complexidades e custos de um contrato formal de gravação e os recursos de uma grande gravadora. Há também opor- tunidades de inovação na periferia, como é o caso do setor de publicações de música, em que par�turas e letras se tornam susce�veis de diminuição de barreiras através da aplicação de tecnologia digital. O jornalismo e as a�vidades correlatas tornam-se cada vez mais abertas – atualmente, a crí�ca musical e outras formas de comentários são possíveis através de grupos especializados de usuários e canais na Internet, quando, anteriormente, só eram objeto de um número limitado de publicações. A compilação de quadros de popularidade e a respec�va publicidade também se tornaram mais acessíveis, na medida em que o meio foi alterado de CDs e fitas cassetes �sicos, distribuí- dos e vendidos através de canais convencionais, para novos meios como o MP3, distribuí- do via Internet. E, como se não fosse suficiente, a indústria é também desafiada por outra fonte – a do compar�lhamento de música entre usuários conectados via rede de computadores. Embora seja tecnicamente ilegal, essa prá�ca de compar�lhar música entre pessoas que têm coleções de discos sempre aconteceu – mas jamais na escala em que a Internet ameaça disponibilizar. A maior parte da indústria formal de música está bastante preocu- pada com os aspectos legais – como proteger os direitos autorais e como se assegurar de que os royal�es serão pagos na verdadeira proporção àqueles que par�cipam da produção e distribuição. Mas, quando as pessoas podem compar�lhar música em forma- to MP3 e distribuí-la em âmbito global, o potencial para policiar o sistema e arrecadar os royal�es tor na-se extremamente di�cil de ser sustentado. Essa situação foi ainda mais agravada com a introdução de outra inovação tecnológica – a do P2P, ou compar�lhamento de arquivos. Sean Fanning, um 67Capítulo 1 Fatores Fundamentais na Gestão da I novação jovem estudante de 18 anos de idade, de apelido “Napster”, ficou intrigado com o desafio de compar�lhar com seus amigos o acesso às suas coleções pessoais de álbuns gravados. Concluiu que, caso os transformasse em formato MP3, seria possível criar um programa como uma espécie de central de troca que facilitaria seu compar�lhamento. O resultado – o site Napster.com – ofereceu um �po de programa sofis�cado que permi�a transações do �po P2P. Na realidade, o servidor Napster não hospe-dava nenhu- ma música em seus arquivos – mas, diariamente, milhões de trocas eram feitas por pessoas de todo o mundo que compar�lhavam suas músicas. É desnecessário dizer que isso cons�tuiu uma grande ameaça para a indústria for-mal de música, já que não envol- via qualquer pagamento de royal�es. Um grande número de ações de grande visibilidade foi impetrado; entretanto, mesmo com a restrição das a�vidades do Napster, o problema não foi totalmente sanado. Atual-mente, existem muitos outros sites similares imitando, e até ampliando, o que o Napster começou – sites como o Gnutella levam a idéia do P2P mais além e permitem a troca de arquivos de muitos formatos diferentes: texto, vídeo etc. No caso específico do Napster, o excepcionalmente bem-sucedido site fechou um contrato com a empresa gigante do ramo de entretenimento, Bertelsman, que abriu caminho para serviços por assinatura, gerando certo fluxo de receita para lidar com a questão do royalty. As expecta�vas de que a proteção legal limitaria o impacto dessa revolução foram frustradas por uma decisão da Corte de Apelação norte-americana, que rejeitou a acusação de que o P2P violava os direitos autorais. Seu julgamento dizia: “A História tem mostrado que o tempo e as forças de mercado normalmente produzem equilíbrio, balanceando interesses, seja a nova tecnologia uma pianola, uma copiadora, um grava- dor, um videocassete, um PC, um karaokê ou um tocador de MP3”. Significa�vamente, as novas oportunidades surgidas a par�r dessa inovação não foram aproveitadas pela indústria da música, e sim pelos fabricantes de computadores, em especial a Apple. Paralelamente ao lançamento de seu famoso tocador pessoal de MP3, o i-Pod, ela criou um site conhecido como i-tunes, que disponibilizou aos usuários uma escolha de milhares de músicas para download a 99 centavos de dólar cada. Em suas primeiras semanas de operação, teve um milhão de acessos e tornou-se líder de mercado em uma área em crescimento, a�ngindo a marca de 50 milhões de downloads desde de seu lançamento, em meados de 2003. 68 A Grã-Bretanha enfrenta atualmente uma transição para um novo desenvolvimento econômico. Verificamos que a agenda de compe��vidade com a qual os líderes britânicos se deparam no governo e nos negócios reflete os desafios de mudar de uma locação que compete com baixo custo operacional na realização de negócios para outra de valor e inovação sem precedentes. Essa transição exige inves�mentos em elementos diferentes do cenário comercial, atualização de estratégias da empresa e criação e ampliação de novos �pos de ins�tuições. 70 68 Parte I Gestão para a Inovação Um dos facilitadores fundamentais dessa distribuição é a tecnologia de informação e da comu- nicação (TIC) que, conforme vimos anteriormente, muda dras�camente a própria distribuição de riqueza e se faz presente em todos os �pos de negócios baseados em informação. No caso do design, por exemplo, uma empresa como a IBM pode hoje trabalhar 24 horas por dia, mobi- lizando equipes de projeto no Reino Unido, nos Estados Unidos e no Japão, com cada equipe passando seu “turno” para a de outro fuso horário, em que o trabalho terá prosseguimento. Essa situação produz dois efeitos: primeiro, reduz radicalmente o tempo no qual o desenvolvi- mento de novos componentes ou equipamentos ocorre; segundo, propicia a aproximação de conhecimentos diferentes e complementares. Entretanto, para garan�r que esse sistema funcione, é necessária uma nova forma de gerenciamento em rede global que contemple algu- mas das caracterís�cas culturais nacionais implícitas, bem como aquelas departamentais ou funcionais. A geração de conhecimento tornou-se mais globalizada – embora P&D ainda seja um fator de inves�mento considerável na maioria dos países industrializados, verifica-se uma acel- eração em todo o mundo recém-industrializado. Dessa forma, o número de cien�stas e engen- heiros está aumentando rapidamente na Ásia, mais do que em qualquer outra parte do mundo, o que deve impulsionar ainda mais o crescimento de inovação naquela região. O número de diplomas de engenharia, por exemplo, expedidos em 1998 na Europa foi 159.000; nos Estados Unidos, 62.000; e na Ásia, em torno de 280.000. Dessa forma, o maior desafio da gestão da inovação é o de gerenciar os mesmos princí- pios básicos, mas em escala muito maior. Com a liberalização do comércio e a abertura de mer- cados, surgiu uma grande demanda em todas as a�vidades e um aumento do número de par�c- ipantes do jogo. (Es�ma-se, por exemplo, que todo o volume de negócios feitos no ano de 1950 é atualmente feito em um único dia!) A concorrência intensificou-se e grande parte dela é nort- eada pela inovação de produtos, serviços e processos. A resposta de empresas eficazes envolve, cada vez mais, alguma medida de parceria e operação em rede. A inovação no mundo virtual Um dos símbolos representa�vos do cenário da inovação do início do século XXI é a Internet. Surgida a par�r de trocas informais e do desejo de alguns cien�stas de interagirem e colaborar- em de forma mais eficaz, tornou-se o modelo de mudança que se equipara ao advento da ferro- via no século XIX.72 Ela alavancou – e foi alavancada pelo – aumento de alcance e versa�lidade da Tecnologia de Informação e Comunicação (TIC), que gerou uma rede de usuários gigantesca – as es�ma�vas variam, mas em números que giram em torno de 35 milhões de usuários no final dos anos 1990, e que hoje somam provavelmente algo em torno de 1 bilhão de pessoas com acesso à Internet em todo o mundo. Os telefones celulares fornecem um exemplo semelhante de crescimento e penetração abrangentes. Hoje há cerca de 600 milhões de aparelhos vendidos anualmente e mercados em países desenvolvidos perto da saturação. Mesmo em países em desenvolvimento, há um índice de acesso bem alto – em Bangladesh, por exemplo, há o serviço das “operadoras de 40 41 71 69Capítulo 1 Fatores Fundamentais na Gestão da I novação telefone” (telefone ladies), mulheres que ganham um aparelho celular em povoados onde não há telefone, a quem se paga uma quan�a por minuto para u�lizá-lo, de forma que até os cidadãos mais pobres têm acesso. Tais avanços – bem como suas versões similares e complementares dentro das organizações, ao longo de redes privadas e usando meios diversos (sem fio, cabo, satélite etc.) – criam uma revolução na comunicação e na par�cipação que, como seria de se esperar, possui todas as caracterís�cas de uma mudança descon�nua no cenário de inovação. Ainda assim, se analisarmos esse cenário, veremos em ação as mesmas forças para inovação que estavam operando séculos atrás. Do ponto de vista do “impulso tecnológico”, o espaço de oportunidade criado pelos desenvolvimentos em TIC é enorme – tornou-se uma “solução à procura de proble- mas”. Mas caracterís�cas similares estavam presentes quando a energia a vapor tornou-se segura e disseminada. E – como a mul�dão de entrantes fracassadas da Internet demonstra – apenas possuir os meios tecnológicos não é garan�a de sucesso nos negócios – a inovação, como sempre, é uma questão de combinar necessidades e meios dentro de um plano estratégi- co. De forma semelhante, no lado da demanda, há forças atuando para tornar as inovações bem-sucedidas e para moldar e dirigir o passo e a natureza da mudança. Não é sem razão que muito do impacto recaiu sobre áreas que são essencialmente ricas em informação em termos de conteúdo e apresentação – serviços bancários e apólices de seguros, por exemplo, têm sido grandemente a�ngidos por novos incrementos. Dois conceitos úteis nessa conexão são os de “excelência” e “alcance” – termos cunhados pelo Boston Consul�ng Group para ajudar a com- preender onde os impactos da “e-revolução” são passíveis de serem sen�dos. Excelência refere-se ao conteúdo de um ser viço de informação – o quão customizado e abrangente ele é – enquanto alcance refere-se à extensão em que pode ser oferecido a uma determinada popu- lação. Normalmente há um conflito de interesses – você pode ter serviços excelentes, mas eles tendem a ser caros e alcançar apenas uma pequena parcela da população em meios e acesso – como seria um banco personalizado ou um pacote de viagem montado por um consultor pessoal, por exemplo. Por outro lado, serviços de baixo custo e alto alcance tendem a se carac- terizar pela mentalidade do “tamanho único que serve a todos” e a compe�r em termos de preço. O que a revolução da Tecnologia de Informação e Comunicação faz é alterar o equilíbrio entre esses dois conceitos, de forma que serviços de alto grau de excelência tornam-se disponíveis, mas em alcance global – e uma nova economia surge. Esse é um argumento sedutor, e com certeza há bons exemplos em que indústrias ou setores inteiros foram transformados pelo novo equilíbrio de excelência e alcance – além de serviços bancários e de apólices de seguros, podemos pensar em turismo (last-minute.com), livros (Amazon), varejo (QXL, e-Bay) e muitos outros. Mas há limites claros à extensão na qual até mesmo mudanças revolucionárias em opções de oferta de serviço acabarão levando à descon�nuidade. Nem todos os setores passam pela informação, e os consumidores consomem produtos tanto quanto serviços. Para a maioria dos varejistas da era da “e-rev- olução”, existe o problema do “úl�mo quilômetro”: fazer seus produtos �sicos chegar aos lares dos consumidores. Esses produtos precisam ser manufaturados e, embora a coordenação e o 73 19, 74 70 Parte I Gestão para a Inovação controle possam se tornar cada vez mais objeto de inovação em TIC, ainda será necessário armazenar e mover produtos �sicos de um lugar para outro. E, em hospitais, a medicina automa�zada ainda não consegue atender às sempre crescentes demandas, especialmente entre a população cada vez maior de idosos.Em outras palavras, o quadro da gestão da inovação permanece surpreendentemente constante. É certo que haverá diferenças – é preciso considerar, por exemplo: • interações de alta velocidade; • grande variedade de conec�vidade potencial envolvendo par�cipantes muito difer- entes; • orientação global, em que distâncias se tornam irrelevantes. Mas o problema subjacente con�nua sendo detectar – e entender – os sinais dos impulsos de inovação, para então gerenciar o processo de mudança de maneira eficaz. Inovação e sustentabilidade A preocupação com a questão da sustentabilidade é cada vez maior na agenda da inovação. Deve-se a vários fatores, entre os quais: • aquecimento global e ameaças impostas pelas mudanças climá�cas; •poluição ambiental e pressão por produtos e ser viços “ecologicamente orientados”; •aumento e distribuição da população, com os problemas acessórios do aumento da concentração urbana; • diminuição de fontes de energia esgotáveis e urgência em descobrir fontes alterna�- vas e renováveis; • saúde e fatores relacionados ao acesso a padrões básicos de atendimento, água trata- da, medidas sanitárias etc. Tais preocupações não são novas – havia, por exemplo, um debate intenso, durante os anos 1970, em torno de “limites de crescimento”, em que uma variedade de cenários “apocalíp�cos” era prevista. Embora de grande relevância, a resolução de tais problemas dependia em muito de um processo de inovação subjacente, que ajudou a lidar com alguns dos problemas mais urgentes e abriu novas possibilidades de amenizar outros. Da mesma forma, o plano de sustentabilidade atual impõe desafios, mas também oportuniza a inovação. Essa reali- dade pode ser verificada em nosso rol de �pos de inovação, envolvendo, por exemplo: • produtos e serviços novos ou mais sustentáveis, tais como células de combus�vel, sistemas de energia solar, resíduos biodegradáveis, sistemas de transporte de baixo impacto ambiental etc; 75, 76 71Capítulo 1 Fatores Fundamentais na Gestão da I novação • processos novos ou mais sustentáveis, tais como processamento de baixa energia, operações de mineração de impacto mínimo, operações de processamento eletrônico em lugar de �sico etc; • mercados novos ou expandidos a par�r da exploração da preocupação com fatores de sustentabilidade – como alimentos orgânicos, mobiliário fabricado com cer�ficação pelo Forestry Stewardship Council (FSC), ecoturismo etc; • novos modelos de negócios que remodelam padrões existentes, visando acentuar a sustentabilidade – por exemplo, serviços de inves�mento é�co, ações varejistas ecologica- mente responsáveis (B&Q, IKEA, Body Shop), promoções comerciais socialmente responsáveis (tais como Co-op e seu apoio ao comércio solidário – fair-trade products) etc. Além dessas novas oportunidades, há um segundo norteador importante de inovação em torno da sustentabilidade – seu potencial para criar condições de descon�nuidade. Como foi visto no início deste capítulo, há períodos em que as “regras do jogo” mudam, e isso freqüentemente ameaça os par�cipantes existentes e cria novas oportunidades para novos entrantes em setores específicos. Negócios como os acima listados podem se sustentar por algum tempo e subitamente estremecerem quando as a�tudes sociais se tornarem mais rígidas ou novas informações surgirem. A mudança de percepção do fumo, de item de recreação para de prejuízo à saúde, e a preocupação com a fast food como fator decisivo em altos níveis de obesidade são exemplos disso e �veram grande impacto no índice e padrão de inovação desses ramos de negócios. Os fatores de sustentabilidade são normalmente ligados a regulamentações, e tais legis- lações podem impor força adicional às mudanças de regras do jogo. Os con�nuos efeitos das regulamentações contra poluição ambiental têm efeitos cumula�vos enormes em setores envolvendo a indústria química, o processamento de materiais, mineração e meios de trans- porte, em termos de produtos e processos. Orientações atuais, tais como as da União Européia em torno de dejetos e processos de reciclagem, indicam que os fabricantes estão tendo de levar cada vez mais a sério o uso a longo prazo e o descarte de seus produtos, bem como seu proces- so de fabricação e vendas – toda essa preocupação está forçando a inovação em produtos, processos e modelos administra�vos (como o custo de vida total). As descon�nuidades criam novas oportunidades, mas também desafiam as já existentes. O outro lado da moeda da sustentabilidade é seu potencial para o surgimento de novos mercados em, por exemplo, fontes de energia alter na�va, produtos e serviços ecologica- mente concebidos e novos sistemas de construção e transporte. A inovação conectada a fatores de sustentabilidade comumente possui maiores impli- cações sistêmicas e enfa�za a necessidade de gerenciamento integrado. Tais inovações surgem de preocupações em – e devem ser compa�veis com – contextos sociais, polí�cos e culturais complexos e oferecem alto risco de fracasso se esses elementos da demanda forem negligen- ciados. A indústria de geração de energia eólica, por exemplo, é bem an�ga, tendo suas origens na tecnologia dos moinhos do período medieval. Ela expandiu-se bastante durante o 77 72 Parte I Gestão para a Inovação período de povoamento dos Estados Unidos e da Austrália, resultando em significa�va aceler- ação de inovação em vários aspectos do design de produto. Embora atualmente haja outra onda de inovação tecnológica e crescimento de mercado associada com a exploração de ener- gia eólica em larga escala, os líderes deixaram de ser os Estados Unidos (apesar de seu grande inves�mento em P&D), concentrando-se na Dinamarca, em que o desenvolvimento se deu como resultado de uma abordagem simples e em pequena escala, voltada ao atendimento de necessidades energé�cas de pequenas comunidades locais. Conforme salienta Douthwaite, essa configuração permi�u que a indústria dinamarquesa desenvolvesse competência significa- �va por meio de interação com a crescente base de usuários e de construção de sofis�cação tecnológica desde seus fundamentos. De maneira semelhante, o desenvolvimento de “tecnologias apropriadas” envolve basi- camente o atendimento a condições locais da demanda por meio da criação de soluções especí- ficas, normalmente envolvendo tecnologias existentes. Exemplos disso incluem o rádio-relógio, bombas de tecnologia intermediária, tratores e máquinas em geral e serviços bancários de microcrédito. Nenhuma empresa é uma ilha – o desafio de trabalhar em rede A inovação já não é vista como a província de uns poucos heróis individuais que foram pioneiros ao transformar idéias em realidade – e com certeza muitos dos grandes nomes do século XIX confirmam esse estereó�po. É óbvio que, mesmo naquele tempo, a inovação era resultado de um sistema integrado de fontes – financeiras, de marke�ng etc. – que faziam parte do quebra-cabeça. Mas o século XX, como observou Freeman, foi essencialmente a era da P&D organizada e da consolidação da empresa como unidade de inovação. Podemos citar nomes e inovações específicos nesse contexto: Bell Labs, 3M, Pilkington, Ford, Hewle�-Packard. Nesses casos, o papel do herói ainda é importante, mas o palco em que atua é essencialmente definido pela empresa. No entanto, no século XXI, o jogo novamente avançou, e hoje, muito claramente, conta com a par�cipação de muitos jogadores. A inovação agora consiste em lidar com uma fronteira cien�fica móvel e em desenvolvimento, mercados fragmentados espalhados por todo o planeta, incertezas polí�cas, regulamentações instáveis, bem como uma série de concorrentes que surgem cada vez mais de direções inesperadas. A reação deve ser a de expandir a rede ao máximo e tentar iden�ficar e u�lizar um amplo conjunto de sinalizadores de conhecimento, ou seja, aprender a gerenciar a inovação em rede. Isso foi o que Roy Rothwell previu em seu estudo pioneiro sobre modelos de inovação, com um deslocamento gradual do pensamento (e organização) de um processo linear movido pelo es�mulo cien�fico-tecnológico ou pela exigência da demanda, para outro que previa cres- cente intera�vidade – primeiramente dentro da empresa com equipes funcionais integradas e outras a�vidades limítrofes, e então cada vez mais para fora da empresa em seus contatos com outras firmas. Sua visão da “quinta geração” de inovação é, em essência, aquela com que temos de lidar atualmente – repleta de interações em rede diversificadas, aceleradas e o�mizadas por um fluxo intenso de tecnologias de informação e comunicação. 55 79 78 73Capítulo 1 Fatores Fundamentais na Gestão da I novação Um direcionador-chave desse processo é o efeito da divisão de trabalho pelo qual as empresas ques�onam cada vez mais seus obje�vos e competências principais e a par�r do qual configuram sua rede. Por exemplo, uma das empresas mais bem-sucedidas do século XX, a Gen- eral Electric, reconfigurou seu negócio com motores de aeronaves ao u�lizar a idéia de vender “poder na hora certa”, conseqüentemente saindo de a�vidades manufaturei-ras específicas – como o afiamento de hélices de turbinas – para a terceirização dessas áreas de competência. Aos poucos, a empresa tornou-se coordenadora do processo e passou a explorar como poderia prover financiamento e outros serviços de apoio necessários – hoje, é uma grande prestadora de serviços capaz de oferecer serviços essenciais a empresas de aviação, que, por sua vez, vêem atendidas suas necessidades, comprando a manutenção de suas aeronaves, em vez de irem atrás de motores a jato. Outros exemplos disso são encontrados na empresa fabricante de tênis de corrida Nike, que desenvolveu sua competência em design e marke�ng, em vez de fabricação; e na Dell, que construiu seu negócio em cima da configuração de computadores a necessidades individuais, mas que usa amplamente a terceirização e o gerenciamento de redes complementares. Até os maiores e mais bem-estabelecidos inovadores reconhecem essa mudança. A Procter & Gamble gasta cerca de 2 bilhões de dólares todos os anos com o que chamava de P&D – mas atualmente emprega a expressão “Conectar e Desenvolver”, impondo-se o ambicioso obje�vo de buscar na terceirização o máximo possível da produção de seu negócio. Conforme Nabil Sakkab, vice-presidente sênior de Pesquisa e Desenvolvimento, recentemente comentou, “o futuro do P&D é o C&D – redes colabora�vas que estão em contato com os 99% da pesquisa que não fazemos pessoalmente; P&G planeja manter a liderança de inovação, e essa estratégia é fundamental para nosso crescimento futuro”. Histórias semelhantes podem ser contadas sobre a IBM, a Cisco e a Intel – todas são exemplos do que Henry Chesborough chama de movi- mento em direção à “inovação aberta”, em que vínculos e conexões se tornam tão importantes quanto a própria produção e propriedade de conhecimento. Reconhece-se que as redes podem não ser simplesmente um extremo de espectro tradicional entre fazer tudo em casa (integração ver�cal) e terceirizar tudo a for necedores (com os custos transacionais conseqüentes de gerenciá-los).81 É possível argumentar que há um terceiro formato que se constrói sobre a teoria de sistemas, e que as redes possuem proprie-dades emergentes – o todo é maior que a soma das partes. Isso não significa que os bene�cios fluam sem esforço – pelo contrário, a menos que os par�cipantes de uma rede possam resol-ver problemas de coordenação e gerenciamento, arriscam-se à ineficiência. Mas há evidência crescente de bene�cios do trabalho em rede como modalidade de operação na inovação.82-84 Trataremos desse tema com maior profundidade no Capítulo 8. Por exemplo, a par�cipação em redes de inovação pode ajudar empresas a ter novas idéias e fazer combinações cria�vas – até mesmo em ramos de negócios mais amadurecidos. Estudos sobre cria�vidade reconhecem que o processo envolve fazer associações – e, algumas vezes, a conjunção inesperada de diferentes perspec�vas pode levar a resultados surpreen- dentes. E o mesmo pode ser dito quanto à organização inter na; estudos sobre redes indicam que esse �po de associação pode propiciar a abertura de novos territórios 80 74 Parte I Gestão para a Inovação produ�vos. Progressos recentes no uso de componentes de �tânio em motores de Fórmula 1 foram alcançados através da troca de experiências sobre o processo de moldagem de um fabri- cante de tacos de golfe. Outra maneira em que o trabalho em rede pode promover a inovação é quando permite o compar�lhamento do saber. A maior parte dos processos de inovação consiste em configurar e adaptar o que já foi desenvolvido e aplicá-lo – como é o caso do esforço feito por muitas empresas no sen�do de adotar uma prá�ca de manufatura (e, cada vez mais, de serviço) de classe mundial. Embora seja possível seguir sozinhas nesse o processo, cada vez mais empresas reconhecem o valor da u�lização do trabalho em rede para lhes dar um empurrão extra no processo de aprendizagem. Esses princípios também promovem um crescente número de inicia�vas estratégicas des�nadas a incen�var empresas a trabalhar conjuntamente na aprendizagem voltada à inovação. Por exemplo, a britânica Society of Motor Manufacturers and Traders organizou o bem-sucedido Industry Forum por muitos anos, ajudando várias empresas a adotar e imple- mentar o processo de inovação centrado na manufatura de classe mundial. Esse modelo tem sido difundido (com a ajuda do governo) a setores tão diferentes quanto os de cerâmica, aviação, têx�l e turismo. Muitos Departamentos de Desenvolvimento Regional atualmente usam e experimentam redes e parcerias como uma ferramenta vital para ajudar e es�mular o crescimento econômico por meio da inovação. E os mesmos princípios podem ser usados para difundir prá�cas inovadoras através de cadeias de fornecimento; empresas, como a IBM e a BAe Systems, empreenderam grandes esforços para tor nar o “aprendizado em cadeia de forne- cimento” o próximo impulso central em seus programas de desenvolvimento de fornecedores. A importância desse trabalho em rede não fica restrita à relação empresa/empresa – é também uma questão de criar vínculos valiosos dentro do sistema nacional de inovação. As polí�cas governamentais para fomentar a inovação estão cada vez mais preocupadas em facili- tar as conexões entre elementos – ou seja, entre as muitas empresas de pequeno porte com necessidades tecnológicas e os principais ins�tutos de pesquisa e tecnologia, universidades etc., que podem sa�sfazer essas necessidades. A inovação envolve assumir riscos e explorar recursos normalmente escassos em proje- tos que podem muito bem fracassar. Assim sendo, outra maneira pela qual o trabalho em rede pode contribuir é ajudando a disseminar o risco e, nesse processo, alargar a série de situações que poderiam ser experimentadas. Esse procedimento é extremamente ú�l no caso de empre- sas pequenas, em que os recursos são escassos – e cons�tui-se num fator de suma importância por trás do sucesso de muitos conglomerados industriais. É o caso da indústria de móveis italia- na, em que um forte desempenho em exportação foi a�ngido por empresas cujo tamanho médio era de menos de 20 empregados. Manter sua posição de ponta em termos de desem- penho ocorreu através de inovação con�nua em design e qualidade – favorecida por uma abor- dagem baseada em trabalho em rede. Esse não é um caso isolado; um dos mais reputados ins�- tutos de pesquisa do mundo para produtos têxteis é o CITER, situado em Emilia Romagna. Difer- entemente de diversas ins�tuições de classe mundial, ele não foi criado de cima para baixo, mas surgiu de preocupações de inovação compar�lhadas por um pequeno 85 79 86 87 75Capítulo 1 Fatores Fundamentais na Gestão da I novação grupo de fabricantes de produtos têxteis que construiu um modelo de rede para dividir fontes e riscos. Os problemas iniciais com �ntura e design computadorizado os ajudaram a ganhar a dianteira em termos de inovação em seus processos, e desde sua fundação, em 1980, o ins�tu- to contribuiu para que suas 500 afiliadas (em sua maioria pequenas empresas) desenvolvessem uma forte capacidade inovadora. Redes de inovação duradouras podem criar a capacidade de sobreviver a grandes ondas de mudança no cenário econômico e tecnológico. O relato fascinante de Michael Best das for-mas pelas quais a economia de Massachuse�s conseguiu reinventar a si mesma diversas vezes posiciona a inovação em rede em seu ponto central. As implicações para a gestão da inovação são, mais uma vez, de que as mesmas questões subjacentes permanecem – como iden�ficar es�mulos e desenvolver a�tudes estratégicas coerentes; a diferença é que a unidade a ser gerenciada atualmente é uma feder- ação coopera�va de par�cipantes. Os alavancadores precisam ser diferentes e as ro�nas podem precisar evoluir – um grande desafio, mas com retornos potencialmente garan�dos. 1.11 Organização do livro A organização do livro é a seguinte: o Capítulo 2 trata do processo básico de inovação e das várias formas em que diferentes organizações operam em resposta a diferentes con�ngências. Também aprecia a questão de como as organizações gerenciam a operação desse processo – e os padrões de comportamento (ro�nas) que aprendem e desenvolvem para fazê-lo de forma eficaz. Baseado em pesquisa sobre sucesso e fracasso em inovação, o capítulo oferece um quadro para a categorização desses padrões de comportamentos em cinco grupos de ro�nas de capacitação: • Fornecimento de um quadro estratégico de apoio (de suporte). • Desenvolvimento de relações proa�vas. • Criação de mecanismos facilitadores efe�vos para a operacionalidade do processo de inovação. • Construção de um contexto organizacional inovador. • Desenvolvimento de aprendizagem e capacitação para a gestão da inovação. A Parte II explora o primeiro desses grupos – a criação de um contexto estratégico para a inovação. O Capítulo 3 considera a importância da estratégia de inovação em condições de complexidade, mudança con�nua e conseqüente incerteza; também contrasta as abordagens racional e incremental. Desenvolve os três elementos de estratégia de inovação propostos por David Teece e Gary Pisano: posições mercadológicas e nacionais, opções tecnológicas e proces- sos organizacionais. No Capítulo 4, abordamos a questão de como o cenário nacional e de mer- cado da empresa afeta sua estratégia inovadora, principalmente os efeitos do país de origem, competências, norteadores econômicos e ins�tuições. No Ca- 88 76 Parte I Gestão para a Inovação pítulo 5, mostramos que as diferenças de mercado entre setores são também essenciais às decisões empresariais sobre trajetórias tecnológicas, competências específicas da empresa e estratégias de inovação, e iden�ficamos cinco trajetórias tecnológicas genéricas que as empre- sas podem seguir, cada uma apresentando implicações dis�ntas para as tarefas de estratégia de inovação. Também iden�ficamos três tecnologias essenciais (biotecnologia, materiais e tecno- logia de informação) em que avanços rápidos levam a grandes mudanças nas trajetórias tecnológicas, e onde é cada vez mais importante dis�nguir entre a revolução microeletrônica (fabricação e u�lização de chips eletrônicos) e a revolução da informação, bem mais importante (fabricação e u�lização de programas). A Parte III está centrada em ro�nas de capacitação para a construção de parcerias efe�- vas fora da empresa. A inovação não ocorre no vácuo, e a pesquisa já provou que empresas bem-sucedidas entendem e trabalham com diferentes agentes em seu cenário. O Capítulo 7 focaliza especificamente as relações de mercado, avaliando como o mercado é definido, explo- rado e percebido, e como esse conhecimento é comunicado e atualizado na empresa. Também analisa como a percepção do comportamento do consumidor pode ser usada para propiciar o lançamento de inovações – para o mercado exter no (lançando um novo produto ao consumi- dor) ou para o mercado inter no (gerenciando o processo de mudança associado com a intro- dução de novos equipamentos ou sistemas). O Capítulo 8 detalha relações de outra natureza, associadas com o desenvolvimento de parcerias, redes e alianças estratégicas. A Parte IV trata das ro�nas e mecanismos de viabilização e implementação de inovação. Isso inclui as estruturas específicas para a tomada de decisão no curso de vida ú�l de um proje- to de inovação, os acertos para monitoramento e gestão de projetos e os mecanismos através dos quais a mudança é planejada e introduzida na empresa. Toda empresa precisa adotar essas ações como parte da gestão da inovação; pesquisas indicam que algumas o fazem melhor do que outras. O Capítulo 9 explora as diferentes formas nas quais as empresas operacionalizam esses aspectos de inovação. O Capítulo 10 contempla o caso específico de abertura de nova ação inovadora, baseando-se na crescente base de dados de pesquisa dessa área. Enfa�za as formas pelas quais as empresas podem ultrapassar seu acervo atual de tecnologias, produtos e processos, e os processos de aprendizagem envolvidos para fazê-lo de forma eficaz. Esse capítu- lo focaliza principalmente as inicia�vas organizacionais internas e o estabelecimento de novas empresas de base tecnológica. Na Parte V, a ênfase muda para a exploração do contexto organizacional em que a inovação ocorre. Muito é escrito sobre a necessidade de se criar organizações dotadas de mobi- lidade, organicidade e flexibilidade – �pificada pelo conceito de Tom Peter de “progresso em meio ao caos” – que ofereçam bastante liberdade individual para a inovação. Mas é necessário equilibrar esses modelos com algum elemento de formalidade e controle, bem como assegurar um claro sen�do de direção estratégica. O Capítulo 11 considera os diferentes elementos que influenciam a forma em que a inovação ocorre, e as escolhas dis-poníveis para gerenciamento sob as mais diversas condições. Os itens explorados incluem estruturas organizacionais, trabalho em equipe, par�cipação, treinamento, mo�vação e o desenvolvimento de uma atmos- fera cria�va dentro da empresa. O capítulo também aborda 85 77Capítulo 1 Fatores Fundamentais na Gestão da I novação rapidamente como esses diferentes elementos podem contribuir para algum �po de processo de aprendizagem corpora�vo que ajude a desenvolver e acumular competência – a “empresa aprendiz”. Um tema central nesse capítulo é que não existe o “melhor modelo” para organizar a inovação; a tarefa principal é achar o ajuste mais adequado para um conjunto específico de con�ngências. O Capítulo 12 examina o caso especial da construção de uma nova organização para a inovação, levando-se em consideração o exemplo de empresas inovadoras de pequeno porte. O livro conclui com a apresentação conjunta de temas essenciais. Basicamente, acreditamos que o sucesso na gestão da inovação não é uma questão de se fazer uma ou duas coisas excepcionalmente bem, e sim de se alcançar um bom desempenho em todas as áreas mencionadas anteriormente. Entretanto, não há soluções simplistas ou padronizadas para se fazer isso; as empresas são como pessoas, que se apresentam de muitas e variadas formas, tamanhos e personalidades. Conforme mostramos no decorrer do livro, é preciso que cada organização procure suas próprias respostas para o quebra-cabeça genérico da gestão da inovação. Há amplas receitas disponíveis que podem ser adaptadas, e a discussão no corpo deste livro indica como isso pode e tem sido feito de forma vantajosa. A inovação diz respeito especialmente a aprendizagem, tanto no sen�do de aquisição quanto de exploração de conhecimento de modo estratégico, e também de aquisição e reforço de padrões de comportamento que permitem que essa aprendizagem de construção de com- petência ocorra. A gestão da inovação está estreitamente relacionada à iden�ficação e capaci- tação de desenvolvimento de padrões de comportamento – ro�nas – que tornam esse �po de aprendizagem possível. Um aspecto importante da aprendizagem é a reflexão estruturada sobre a posição presente da empresa como uma força propulsora em direção a seu próximo desenvolvimento estratégico. A auditoria pode ser um importante aliado do desenvolvimento organizacional, e o capítulo final examina formas nas quais o que sabemos sobre gestão da inovação pode ser inte- grado em um estrutura auditada. No decorrer do livro, também tentaremos refle�r sobre a influência de dois desafios importantes no modo em que pensamos a gestão da inovação: ao lidar com ele sob condições de descon�nuidade (“além da condição estável”) e como um acontecimento interorganiza- cional, em rede (“além das fronteiras”). 1.12 Resumo e leitura sugerida Poucos textos cobrem os aspectos tecnológicos, mercadológicos e organizacionais da ino-vação de forma integrada. O livro de Peter Drucker, Innova�on and Entrepreneurship , pro-porciona uma introdução mais acessível sobre o assunto, mas talvez esteja mais baseado na intuição e na experiência do que na pesquisa empírica. Desde que publicamos a primeira edição, em 1997, inúmeros outros textos interessantes foram publicados. O de Paul Tro�, Innova�on Manage- ment and New Product Development (atualmente em sua segunda edição), 89 78 Parte I Gestão para a Inovação focaliza basicamente o gerenciamento de desenvolvimento de produto ; livros como os de Be�na von Stamm e Margaret Bruce dão grande ênfase ao design, e o livro de Tim Jones é especialmente dirigido a profissionais liberais7. Brockhoff et al. e Sundbo e Fugelsang apre- sentam pontos de vista �picamente europeus, enquanto John E�lie, em seu Managing Techno- logical Innova�on , se baseia na experiência de empresas norte-americanas, principalmente do setor manufatureiro, assim como Mascitelli e Schilling . Alguns textos exploram implicações em um contexto mais amplo de país em desenvolvimento, como é o caso do de Forbes e Wield. Outros avaliam as implicações de polí�cas públicas. O livro de Mark Dodgson, The Manage- ment of Technological Innova�on100, possui uma acentuada perspec�va histórica e inter- nacional. Há várias compilações e manuais sobre o assunto, dentre os quais o mais conhecido é o Strategic Management of Technology and Innova�on, atualmente em sua quarta edição e contendo uma grande variedade de estudos importantes e estudos de caso, embora todos sob forte influência norte-americana. Um tom mais internacional está presente em Dodgson e Rothwell e em Shavinina. O trabalho oriundo de Minnesota Innova�on Project também proporciona uma boa visão panorâmica da área e de temas de pesquisa centrais relacionados. Estudos de caso sobre inovação cons�tuem-se em uma grande fonte para a com- preensão dos desdobramentos do processo em contextos específicos. Entre as boas compi- lações, encontramos a de Baden-Fuller e Pi�, a de Nayak e Ke�eringham e a de Von Stamm , enquanto outros livros associam teoria e exemplos de casos – como o de Tidd e Hull , com seu foco em inovação de serviços. Muitos livros apresentam a experiência de empresas específicas, incluindo 3M, Corning, DuPont e outras. A inovação relacionada à Internet é bastante discu�da em vários livros voltados principalmente a profissionais liberais, como o de Evans e Wurster , o de Loudon , o de Oram , o de Alderman e o de Po�ruck e Pearce . A maioria dos outros textos tende a contemplar apenas uma única dimensão da gestão da inovação. No texto “The nature of the innova�ve process”, Giovanni Dosi adota uma perspec�va econômica em processo e iden�fica os principais fatores na gestão da inovação tecnológica. Sobre o tema da inovação organizacional, Jay Galbraith e E. Lawler resumem o pensamento atual sobre estruturas e processos organizacionais, embora uma avaliação mais crí�ca seja disponibilizada por Wolfe (1994) em seu “Organiza�onal innova�on: review, cri�que and suggested research”, Jour nal of Management Studies, 31 (3), 405-432. Para uma revisão dos principais elementos e da pesquisa mais recente no campo da mudança e da aprendizagem organizacionais, ver M. D. Cohen e L. S. Sproull (orgs.), Organiza�onal Learning (Sage: London, 1996). A maioria dos textos sobre marke�ng fracassa em abordar os fatores específicos relacio-nados a serviços e produtos inovadores, embora haja um pequeno número de textos espe-cializados que examinem o problema mais específico de marke�ng conhecido como produtos “de alta tecnologia”, como é o caso do texto de Jolly e Moore. Uma cobertura ú�l sobre os temas centrais pode ser encontrada no capítulo “Securing the future” do livro de Gary Hamel e C. K. Prahalad, Compe�ng for the Future (Harvard Business School Press, 1994), e no 90 91 92 93 94 24 95 96 97 98, 99 45 16 101 102 6 103 104 105 109 111110 64, 106-108 7419 112 113 114-115 23 Garcia, R. & R. Calantone (2002) ‘A cri�cal look at technological innova�on typology and innova�veness terminology: A literature review’, Journal of Product Innova�on Management, 19, 110-132. 24 E�lie, J. (1999) Managing Innova�on. John Wiley & Sons, lnc., New York. 25 Hollander, S. (1965) The Sources of Increased Efficiency: A study of Dupont rayon plants. MIT Press, Cambridge, Mass. 26 Tremblay, P. (1994) ‘Compara�ve Analysis of Technological Capability and Produc�vity Growth in the Pulp and Paper Industry in Industrialised and lndustrialising Countries’, Tese de Doutora- do, University of Sussex. 27 Enos, J. (1962) Petroleum Progress and Profits: A history of process innova�on. MIT Press, Cam bridge, Mass. 28 Figueiredo, P. (2002) ‘Does technological lear ning pay off? Inter-firm differences in techno- logical capability-accumula�on paths and opera�onal performance improvement’, Research Policy, 31, 73-94. 29 Bessant, J. (2003) High Involvement Innova�on. John Wiley and Sons, Ltd, Chichester. 30 Bell, RM. & D. Sco�-Kemmis (1990) The Mythology of Learning-by-doing in World War 2 Airframe and Ship Produc�on. Science Policy Research Unit, University of Sussex. 31 Rothwell, R & P. Gardiner (1985) ‘Inven�on, Innova�on and Re-innova�on and the role of the user’, Technova�on, 3, 176-186. 32 Nonaka, I., S. Keigo & M. Ahmed (2003) Con�nuous Innova�on: The power of tacit knowl edge, in Shavinina, L. (org.), Interna�onal Handbook of Innova�on. Elsevier, New York. 33 Henderson, R. & K. Clark (1990) ‘Architectural innova�on: the reconfigura�on of exis�ng product technologies and the failure of established firms’, Administra�ve Science Quar terly, 35, 9-30. 34 Tidd, J. (1994) Home Automa�on: Market and technology networks. Whurr Publishers, London. 35 Kodama, F. (1992) Technology fusion and the new R&D’, Harvard Business Review, jul.- aug. 36 Abernathy, W. & K. Clark (1985) ‘Mapping the winds of crea�ve destruc�on’, Research Policy, 14, 3-22. 37 Boisot, M. (1995) ‘Is your firm a crea�ve destroyer? Compe��ve lear ning and knowledge flows in the technological strategies of firms’, Research Policy, 24, 489-506. 38 Dosi, G. (1982) Technological paradigms and technological trajectories’, Research Policy, 11, 147-162. 39 Braun, E. & S. Macdonald (1980) Revolu�on in Miniature. Cambridge University Press, Cam- bridge. 40 Christensen, C. & M. Raynor (2003) The Innovator’s Solu�on: Crea�ng and sustaining suc cessful growth. Harvard Business School Press, Boston, Mass. 41 Foster, R. (1986) Innova�on – the a�acker’s advantage. Pan Books, London. 42 Tushman, M. & P. Anderson (1987) ‘Technological discon�nui�es and organiza�onal envi-ronments’, Administra�ve Science Quarterly, 31 (3), 439-465. 43 Gilfillan, S. (1935) Inven�ng the Ship. Folle�, Chicago 44 Cooper, A. & D. Schendel (1988) ‘Strategic responses to technological threats’, in Tushman, M. & Moore, W. (orgs.), Readings in the Management of Innova�on. HarperCollins, London. 45 Burgelman, R., C. Christensen & S. Wheelwright (orgs.) (2004) Strategic Management of Technol-ogy and Innova�on, 4.ed. McGraw Hill Irwin, Boston, Mass. 46 Bright, A. (1949) The Electric Lamp Industry: Technological change and economic develop- ment from 1800 to 1947. Macmillan, New York. 47 Christensen, C. (1997) The Innovator’s Dilemma. Harvard Business School Press, Cambridge, Mass. 48 Citado em h�p://web.mit.edu/randy/www/words.html 49 U�erback, J. (1994) Mastering the Dynamics of Innova�on. Harvard Business School Press, Boston, Mass., 256. 79Capítulo 1 Fatores Fundamentais na Gestão da I novação capítulo “Learning from the market” do livro de Dorothy Leonard, Wellsprings of Knowledge (Harvard Business Scholl Press, 1995). Há também uma série de reflexões sobre comportamen- to adotado extraídas de um número expressivo de estudos coletados por Evere� Rogers e seus colegas. Temas específicos sobre inovação são tratados em muitos livros e edições especiais de periódicos; por exemplo, serviços , redes e parcerias , sustentabilidade e inovação descon�nua. Referências 1 www.broens.com.au. 2 De Jager, B. et al. 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(1994) ‘Compara�ve Analysis of Technological Capability and Produc�vity Growth in the Pulp and Paper Industry in Industrialised and lndustrialising Countries’, Tese de Doutora- do, University of Sussex. 27 Enos, J. (1962) Petroleum Progress and Profits: A history of process innova�on. MIT Press, Cam bridge, Mass. 28 Figueiredo, P. (2002) ‘Does technological lear ning pay off? Inter-firm differences in techno- logical capability-accumula�on paths and opera�onal performance improvement’, Research Policy, 31, 73-94. 29 Bessant, J. (2003) High Involvement Innova�on. John Wiley and Sons, Ltd, Chichester. 30 Bell, RM. & D. Sco�-Kemmis (1990) The Mythology of Learning-by-doing in World War 2 Airframe and Ship Produc�on. Science Policy Research Unit, University of Sussex. 31 Rothwell, R & P. Gardiner (1985) ‘Inven�on, Innova�on and Re-innova�on and the role of the user’, Technova�on, 3, 176-186. 32 Nonaka, I., S. Keigo & M. Ahmed (2003) Con�nuous Innova�on: The power of tacit knowl edge, in Shavinina, L. (org.), Interna�onal Handbook of Innova�on. Elsevier, New York. 33 Henderson, R. & K. Clark (1990) ‘Architectural innova�on: the reconfigura�on of exis�ng product technologies and the failure of established firms’, Administra�ve Science Quar terly, 35, 9-30. 34 Tidd, J. (1994) Home Automa�on: Market and technology networks. Whurr Publishers, London. 35 Kodama, F. (1992) Technology fusion and the new R&D’, Harvard Business Review, jul.- aug. 36 Abernathy, W. & K. Clark (1985) ‘Mapping the winds of crea�ve destruc�on’, Research Policy, 14, 3-22. 37 Boisot, M. (1995) ‘Is your firm a crea�ve destroyer? Compe��ve lear ning and knowledge flows in the technological strategies of firms’, Research Policy, 24, 489-506. 38 Dosi, G. (1982) Technological paradigms and technological trajectories’, Research Policy, 11, 147-162. 39 Braun, E. & S. Macdonald (1980) Revolu�on in Miniature. Cambridge University Press, Cam- bridge. 40 Christensen, C. & M. Raynor (2003) The Innovator’s Solu�on: Crea�ng and sustaining suc cessful growth. Harvard Business School Press, Boston, Mass. 41 Foster, R. (1986) Innova�on – the a�acker’s advantage. Pan Books, London. 42 Tushman, M. & P. Anderson (1987) ‘Technological discon�nui�es and organiza�onal envi-ronments’, Administra�ve Science Quarterly, 31 (3), 439-465. 43 Gilfillan, S. (1935) Inven�ng the Ship. Folle�, Chicago 44 Cooper, A. & D. Schendel (1988) ‘Strategic responses to technological threats’, in Tushman, M. & Moore, W. (orgs.), Readings in the Management of Innova�on. HarperCollins, London. 45 Burgelman, R., C. Christensen & S. Wheelwright (orgs.) (2004) Strategic Management of Technol-ogy and Innova�on, 4.ed. McGraw Hill Irwin, Boston, Mass. 46 Bright, A. (1949) The Electric Lamp Industry: Technological change and economic develop- ment from 1800 to 1947. Macmillan, New York. 47 Christensen, C. (1997) The Innovator’s Dilemma. Harvard Business School Press, Cambridge, Mass. 48 Citado em h�p://web.mit.edu/randy/www/words.html 49 U�erback, J. (1994) Mastering the Dynamics of Innova�on. Harvard Business School Press, Boston, Mass., 256. 81Capítulo 1 Fatores Fundamentais na Gestão da I novação 50 Barnes, J. et al. (2001) ‘Developing manufacturing compe��veness in South Africa’. Techno- va�on, 21 (5). 51 Kaplinsky, R., M. Morris & J. Readman (2003) ‘The globalisa�on of product markets and im-miserising growth: lessons from the South African fur niture industry’, World Development, 30 (7), 1159-1178. 52 Bessant, J. & D. Francis (2004) ‘Developing parallel rou�nes for product innova�on’, in 11th PDMA Product Development Conference, Dublin, Ireland. EIASM, Brussels. 53 Francis, D., J. Bessant & M. Hobday (2003) ‘Managing radical organisa�onal transforma�on’, Management Decision, 41 (1), 18-3l. 54 Prahalad, C. 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