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UNIDADE 3 – PSICANÁLISE: TEORIA E 
TÉCNICA 
A TEORIA PSICANALÍTICA – CONTRIBUIÇÕES 
 
1 Contribuições de Jacques Lacan: o inconsciente como linguagem 
 
Lacan trouxe muitas contribuições à psicanálise, pois contava com recursos da 
linguística em seus estudos. Usando ferramentas de linguistas como Saussure e 
Jakobson, aprofundou a teoria psicanalítica e o estudo do inconsciente como linguagem. 
Freud já dava importância à formação do inconsciente, ao sonho, aos atos falhos, aos 
chistes e aos sintomas neuróticos, observando que eram formas de articulação que 
tinham significado. Os sonhos transmitem uma linguagem que se interrelaciona com a 
realidade. 
 
1.1 Um pouco da história de Lacan 
 
Jacques-Marie Émile Lacan nasceu em Paris, em 13 de abril de 1901, vindo de uma 
família religiosa. Foi psiquiatra e psicanalista na França, e passou a integrar a 
Sociedade Psicanalítica de Paris em 1934. É conhecido pelo seu retorno aos textos de 
Freud, utilizando-se de autores importantes da linguística como Sausssure e Jakobson, 
da mesma forma que utilizou pensadores estruturalistas como Lévi-Strauss. 
 
Ficou conhecido também pelos seus famosos seminários, onde discutia os escritos de 
Freud de forma quinzenal, nos anos de 1953. Lacan fundou a EFP (École Freudienne 
de Paris), em 1963. Sofreu de distúrbios cerebrais e de uma afasia parcial, e morreu 
em 9 de setembro de 1981, após a retirada de um tumor maligno no cólon. 
 
 
Nas sessões psicanalíticas de Jacques Lacan, o tempo ocupa um papel fundamental. As 
sessões não têm tempo de duração fixo, como comumente ocorre de ser em torno de 50 
a 60 minutos. No processo de análise lacaniano, quem determina o tempo da sessão é o 
analista. O tempo não é o tempo cronológico e sim o tempo lógico, ou seja, o analista 
poderá determinar qual o momento ideal para se interromper a sessão, e não o relógio. 
 
 
Suas principais atividades têm como foco o que ele dizia que era o retorno a Freud que, 
segundo ele, estaria sendo deixado de lado pelos psicanalistas, sendo elas: 
 
 o resgate do processo de interpretação, 
 a intenção simbólica da análise, 
 e a retomada de conceitos freudianos para serem ressignificados. 
 
No entanto, ele desenvolve seus estudos afastando-se do ponto de vista biológico e 
aproximando-se da linguística e do modelo antropológico-cultural, das relações do 
indivíduo com o outro e sua ligação pela linguagem. A questão cultural e sua influência 
no ser humano e nas suas relações lança uma nova luz para a psicanálise e para a 
compreensão desse ser, que se relaciona e constrói sua história a partir de sua conexão 
com o outro. 
 
1.2 Principais conceitos lacanianos 
 
Para Lacan, a ideia de inconsciente não fica restrita aos instintos, ele é estruturado 
pelo que é simbólico, e é uma linguagem. O inconsciente estrutura-se numa 
linguagem. De acordo com Castro (2009), Lacan afirma que “É toda a estrutura da 
linguagem que a experiência psicanalítica descobre no inconsciente”. E Castro (2009) 
prossegue: “A inflexão lacaniana no seio do movimento psicanalítico se dá na onda do 
estruturalismo, quando os recursos da lingüística passam a ser aplicados em diferentes 
áreas do conhecimento.” 
 
Ele propõe a compreensão do sujeito de acordo com um esquema escalonado em 
estruturas, que compreendem: O CONSCIENTE, O PRÉ-CONSCIENTE E O 
INCONSCIENTE. 
 
A estrutura do inconsciente é igual à da linguagem. 
 
Como sabemos que, para a psicanálise, os conteúdos que foram reprimidos voltam à 
consciência de forma disfarçada, observamos que no inconsciente está esse conteúdo. 
Conforme aponta Castro (2009): 
 
Nas formações do inconsciente, ou formações de compromisso, há um compromisso 
entre o desejo e a censura: um significante reprimido encontra meios de vir à tona 
associando-se de forma cifrada a outros significantes. Os sonhos, os lapsos e os chistes 
funcionam desse modo – via processos de linguagem. 
 
Afirma Lacan, em seus seminários, que em todo lapso há uma finalidade 
significante, com palavras e fonemas que são articulados entre si de acordo com 
mecanismos próprios, não seguindo as regras gramaticais e a lógica do pensamento que 
temos no consciente. Assim, os sonhos seriam uma forma de linguagem particular, 
diferenciada da linguagem que observamos no consciente e transmite conteúdos que 
podem ser interpretados pelo analista. 
 
O processo de elaboração dos sonhos traz um texto que deve ser traduzido através de 
dois mecanismos de defesa: o deslocamento e a condensação; que, para Lacan, 
correspondem à metonímia e à metáfora. 
 
Veja como Castro (2009) apresenta essa questão: 
 
(...) a elaboração onírica envolve uma transferência ou deslocamento de intensidade 
psíquica de alguns pontos para outros. O deslocamento serve fundamentalmente à 
finalidade de contornar a censura onírica, deformando e camuflando os pensamentos 
oníricos para tornar possível sua expressão pelo sonho. 
 
Os pensamentos abstratos e incoerentes dos sonhos (deslocados) são transformados em 
imagens e palavras resultantes da elaboração. O deslocamento funciona para Lacan 
como se fosse uma metonímia, na qual o sentido se desloca. 
A condensação aparece no sonho com imagens, criando figuras coletivas ou compostas, 
com palavras e nomes, como uma poesia. 
 
Dessa forma, a linguagem simbólica do inconsciente se utiliza da condensação, na 
qual reúne vários significados numa mesma imagem; e o deslocamento, na qual as 
imagens expressam significados, como se fossem uma parte representando o todo. 
 
As produções do inconsciente se afastam de suas características biológicas para fazerem 
parte da cultura, no contato do indivíduo com o outro, estando o inconsciente 
exatamente no espaço da relação entre o eu e o outro. As expressões do inconsciente 
seriam dirigidas ao outro. Essa foi uma das contribuições inovadoras da teoria lacaniana 
para a psicanálise. 
 
Outro conceito bastante importante na teoria lacaniana é o que ele chamou de estádio 
do espelho. Lacan aponta que, no desenvolvimento infantil (lembra-se das fases de 
desenvolvimento infantil de Freud?), existe o estádio do espelho onde se dá 
o nascimento do Eu, e isso ocorre no espelhamento, ou seja, quando a criança 
consegue se diferenciar da mãe, a se perceber como sendo um ser separado dela. Esse 
período se inicia por volta dos seis meses e vai até os dezoito meses de idade. 
 
Através do olhar da mãe (ou da pessoa que cuida), é que a criança terá as primeiras 
percepções sobre ela. No início, o bebê não se distingue sozinho, as imagens são 
geradas pelo olhar da mãe. Como esse olhar é resultado dos desejos dela projetados na 
criança, os desejos da mãe serão reconhecidos pela criança como seus próprios desejos. 
Assim, a criança se vê no outro e não em si mesma. 
 
No nascimento, o bebê não tem interesse por sua imagem refletida no espelho, não se 
reconhecendo ali. Paulatinamente, ele vai modificando suas reações diante do espelho, 
fica observando o que vê, demonstrando curiosidade, mas mesmo assim não se vendo 
ali. Com o passar do tempo, procura olhar atrás do espelho para ver a outra pessoa que 
está ali refletida, vendo uma imagem mas não sabendo que ela o representa. Ao final do 
período do primeiro ano de vida, a criança é capaz de se reconhecer. 
 
Assim, temos que, no início, há uma indiferenciação do bebê em relação ao exterior, 
ele não consegue se separar dos outros objetos que estão ao seu redor. 
 
Quando ela consegue perceber a mudança, isso representa uma fase de diferenciação, 
onde ela separa o Eu do Outro, não de forma clara e compreensível para ela. Ao final 
dessa etapa, quando ela sairá dessa fase do espelhamento, daí poderá distinguir o Eu do 
Outro. 
 
Nessa relação surge também a figura do pai, que rompe a relação de simbiose que é 
estabelecida com a mãe. É quando a criança percebe que ela não está sozinha nessa 
relação com a mãe. Forma-se um triângulo em que a mãe representa o desejo, o filho é 
o desejante, e o pai é a lei, a interdição. Essa função nãoé exercida somente pelo pai 
biológico, inclusive ele não precisa existir fisicamente, funciona como um símbolo. Ele 
é um nome e não necessariamente uma pessoa concreta. É o que Lacan chama de “Em 
nome do pai”, observando que o papel de pai funciona mais como forma de determinar 
leis e regras do que a sua presença física e de suas ações. Como exemplo, podemos citar 
aquelas afirmações que são feitas às crianças para evitar que elas façam coisas que a 
mãe não quer: “seu pai não vai gostar” ou “seu pai não vai deixar”. O pai aparece aqui 
como uma linguagem e não como uma pessoa de carne e osso. 
 
Aos poucos, a criança se diferencia da mãe e encontra o lugar que é dela, 
principalmente com a ajuda desse terceiro elemento que é o pai. Para Lacan, é dessa 
forma que o indivíduo é inserido na cultura e nas relações sociais, fazendo a distinção 
entre o Eu e o Outro. Os lugares são construídos e se movimentam ao longo da vida. 
 
Dessa forma, entende-se o ser humano não como um ser isolado e, assim, 
o inconsciente não é produzido pelo indivíduo solitário e sim pelas suas relações com 
os outros. Daí a importância da linguagem para a teoria lacaniana, na qual surge o 
sujeito, imerso nas suas relações, estruturado na linguagem, na comunicação, no 
diálogo, no discurso. 
 
Assista aí 
 
O Eu se dá pela diferenciação do sujeito em relação ao mundo, e tem as qualidades da 
consciência, memória, controle motor, pensamento, percepção, e é responsável pela 
mediação das relações entre o superego e o id. E o Outro é o que funciona como o 
espelho para reconhecimento e diferenciação, ele pode ser a cultura, a sociedade e seus 
símbolos. 
 
Dessa forma, pode-se compreender que, na teoria lacaniana, o inconsciente é como 
uma língua e o ser humano se torna um sujeito, quando ele consegue se comunicar com 
o outro, no mundo social. 
 
1.3 Neurose e psicose 
 
Para Lacan, o ser humano pode ser considerado normal, neurótico ou psicótico. Sendo 
que: 
 
 Normal: 
tem uma economia equilibrada entre o real, o imaginário e o simbólico. 
 Neurótico: 
tem uma perturbação do metabolismo dos três registros. 
 Psicótico: 
possui a experiência deformada. 
 
Na neurose, há a perda da referência simbólica dos significantes, ocorrendo o recalque e 
estabelecimento da vivência imaginária no real. Para que se estabeleça a cura, no caso 
da neurose, é necessário que se faça o acesso da verdade do inconsciente, onde se 
pode dizer o que antes só poderia ser dito de forma deformada. 
 
Na psicose, Lacan denomina como mecanismo de defesa, a foraclusão. Conforme 
assinala Barbosa (2019): 
 
A foraclusão é uma hipótese criada por Lacan para explicar a ausência do significante 
Nome-do-Pai na cadeia significante e no lugar do Outro. Essa hipótese, que estaria na 
base da estrutura psicótica, indica seu mecanismo de defesa. Nesse caso, a psicose seria 
definida pela não inscrição desse significante que é o responsável pela possibilidade de 
significação. 
 
A foraclusão é o oposto do recalque, este é a interdição de certos conteúdos de vir à 
tona, ocultando-os, enquanto que a foraclusão anula o conteúdo ou o barra. Assim, o 
psicótico não tem a condição de passar pelo processo de simbolização de seus 
conteúdos. Ele não consegue usar o recalque, não conseguindo se identificar com o real 
e com o substituto dele, a imagem inconsciente criada para simbolizá-lo. 
 
2 Contribuições de Donald D. Winnicott: o jogo do brincar e outras 
contribuições 
 
A partir da morte de Freud, vários estudiosos deram continuidade a seu trabalho, como 
Anna Freud, a sua filha, que se dedicou aos estudos do ego e dos mecanismos de defesa 
e ao desenvolvimento infantil. Lacan, que como vimos, fundou sua própria corrente 
dentro da Psicanálise que tinha como foco a linguagem e a interação cultural do sujeito. 
Quando você estudou sobre as correntes da Psicanálise que se consolidaram a partir de 
Freud, você conheceu os estudos de Melanie Klein e seus conceitos sobre o 
desenvolvimento infantil e a psicanálise com crianças. 
 
Agora, vamos conhecer Donald D. Winnicott, que elaborou vários conceitos 
importantes para a Psicanálise infantil, a partir da escola kleiniana. 
 
2.1 Um pouco da história de Winnicott 
 
Donald D. Winnicott foi um médico e psicanalista inglês que viveu no período de 1896 
a 1951. Dedicou-se primordialmente ao trabalho com crianças, aprofundando-se no 
ambiente infantil, a partir do nascimento da criança e suas relações com a mãe. 
 
Winnicott tem um papel importante nos diálogos entre as várias escolas de psicanálise e 
conforme aponta seu discípulo Masud Khan (apud SVARTMAN, 2000): 
 
Não conheci nenhum outro analista mais inevitavelmente ele mesmo. Foi esta qualidade 
de ser inviolavelmente “eu-mesmo” que lhe permitiu ser tantas pessoas diferentes para 
criaturas tão diversas. Cada um de nós que o conheceu tem seu próprio Winnicott e ele 
jamais desrespeitou a versão que o outro tinha dele, afirmando seu próprio estilo de ser. 
E, contudo, permaneceu sempre e inexoravelmente Winnicott. 
 
Para ele, não deveria haver a visão dos vários ramos da psicanálise como seitas e, por 
isso,procurou sempre manter a relação com todas elas. 
 
2.2 Principais conceitos de Winnicott 
 
Um dos principais conceitos desse psicanalista é o que fala na capacidade de estar só. 
Referindo-se à criança em seu desenvolvimento, logo no início de sua vida, antes da 
relação do bebê e sua mãe e depois com o pai, haveria um estágio unipessoal, 
individual, onde o bebê teria a capacidade de estar só, mesmo em presença de seu 
cuidador (a mãe ou substituto). Essa capacidade de estar só, no entanto, tem relação 
com um outro sujeito, ficar só mesmo estando com outra pessoa, como afirma Svartman 
(2000): 
O que é, portanto, básico, na colocação winnicottiana, é a afirmação de que a 
capacidade de estar só de um sujeito, depende de um outro sujeito, que permitiu-lhe 
permanecer só, na sua presença. Trata-se, assim, de uma relação entre duas pessoas em 
que a presença de uma delas é importante para a outra, mas uma delas, ou mesmo as 
duas, estão sós, sem conexão, mas ligadas. 
 
Winnicott dá ênfase à função materna e cria o conceito de mãe suficientemente boa. 
Aquela que: 
 
está atenta às necessidades do bebê, supre as suas necessidades, e deixa oportunidade de 
crescimento, com as suas falhas, para que o bebê possa se desenvolver. 
 
Há um investimento por parte da mãe ou do cuidador de doação, atenção e preocupação. 
A preocupação materna primária é a capacidade de estar disponível mesmo estando 
exausta. Ao contrário, aquela mãe que não está atenta ao bebê não é suficientemente 
boa. Uma característica dessa mãe é não proporcionar uma rotina, apesar de que as 
falhas de uma mãe suficientemente boa podem ser saudáveis, como no caso da mãe 
diminuir a atenção porque precisa trabalhar. 
 
Clique para abrir a imagem no tamanho original 
Figura 1 - Ícone mãe-bebêFonte: icone-mae-bebe, fabrico, 2020. 
 
#PraCegoVer: A imagem mostra um círculo azul, com o desenho de uma mãe 
segurando um bebê no colo. 
 
Observa-se também que não é só a mãe que tem que se apresentar suficientemente boa, 
mas tem que se observar também o potencial do bebê para adquirir o que lhe é 
transmitido, e a capacidade de adaptação ao ambiente. Daí a importância que Winnicott 
frisa no fato de poder estar sozinho mesmo que acompanhado da mãe. 
 
As fases do desenvolvimento infantil apontadas por esse autor são: a dependência 
absoluta (de 0 a 6 meses), e a dependência relativa (de 6 meses a 2 anos). 
 
Na dependência absoluta, é onde o bebê está muito ligado à mãe, como se ele fosse 
uma unidade, como se não existisse bebê sem o cuidado materno. Na dependência 
relativa, a criança começa a se separar da mãe ou do cuidador, se relaciona com outros 
objetos, tendo autonomia. É essa fase que se parece com a fase depressiva de Klein, 
onde acontece o desmame e o Complexo de Édipo se inicia. 
 
Após esse período, começa o período de maior independência,a criança pode sair de 
perto da mãe e pode voltar. A família permite que a criança vivencie a independência. 
As funções maternas principais são as seguintes: 
 
 Holding 
é o apoio, o sustento físico que proporciona os cuidados adequados. A falta dele produz 
na criança um desequilíbrio, uma instabilidade. Ao contrário, sentindo-se integrado, ele 
pode iniciar o desenvolvimento de sua personalidade. 
 Handling 
são os cuidados físicos, trocar a roupa, dar o banho e as diversas experiências sensoriais 
que são proporcionadas. Permite a função de formação denominada de personalização, 
que permite a noção de imagem corporal. 
 Apresentação dos objetos do mundo 
é feita pela mãe ao oferecer o seio, como objeto de satisfação. Além disso, há o sorriso, 
a interação interpessoal. Outras pessoas são vistas também como objetos de 
relacionamento. 
 O ambiente 
 
serve para o desenvolvimento da criança, onde ela pode criar a sua autonomia, para se 
reconhecer como um indivíduo diferente do outro. O ambiente é composto pelos seus 
cuidadores e os estímulos que recebe. 
 
Assista aí 
 
Na neurose encontra-se uma falha do ambiente que é suportável, enquanto que na 
psicose a falha é grave e a criança não consegue se integrar, se personalizar. 
 
O papel da família representa o ambiente, a cultura e as regras sociais. A origem do 
indivíduo está nesses primeiros períodos de vida. 
 
2.3 A análise 
 
Quando há uma falha ambiental, a personalidade se forma através de um falso self, não 
representa o que o indivíduo é, e sim é proveniente do outro. Isso causa um problema, 
pois o indivíduo não consegue se integrar como sendo ele próprio. Um dos objetivos da 
análise é a busca do verdadeiro self, na qual ele pode descobrir quais são as suas 
necessidades, distinguindo-as das do outro. É necessário que se faça a regressão, para que 
se verifique onde ocorreu a falha, em que fase, para que ocorra a correção dessas falhas na 
análise. 
 
Assim, o analista representa o papel de mãe suficientemente boa, para oferecer 
o holding durante a análise. Ele traz à tona a função materna. 
 
A maternagem é importante para proporcionar a continuidade do ser com o suporte 
oferecido pelo holding, handling e apresentação do objeto, que oferece a formação do 
verdadeiro self. Caso contrário, surge o falso self. 
 
Um conceito desenvolvido por Winnicott que teve grande repercussão é o de objeto 
transicional. Esse conceito está contido no conceito de fenômeno transicional que 
indica um instrumento que oferece apoio à criança, quando tem que experimentar a 
angústia da separação da mãe. 
 
No período de transição, entre a dependência absoluta para a dependência relativa, a 
criança lida com a separação da mãe, o que lhe causa angústia e, para enfrentar isso, 
ela se apoia num objeto transicional, que pode ser um urso, um cobertorzinho, um 
brinquedo ou qualquer outra coisa que é escolhida pela criança. Além disso, ela pode 
adotar um comportamento como chupar o dedo, segurar o cabelo, e, assim, seria 
denominado de fenômeno transicional. 
A separação pode ser por desmame, mudança de casa, ir para a escola, etc. E pode 
acontecer na vida adulta, quando se escolhe uma música, um vício, que oferece 
segurança. O objeto transicional não é sempre utilizado, e vai perdendo sua necessidade 
quando não precisamos mais dessa segurança. 
 
Na prática da psicanálise, observa-se a falha no ambiente, nos cuidados maternos, no 
período onde o suporte é necessário. O bebê sente uma sensação de angústia quando não 
tem suas necessidades atendidas e fica com medo de ser destruído. No adulto, aparece 
um sentimento de vazio, de inutilidade. 
 
Quando há uma falha ambiental grave, tem-se a psicose, delinquência, conduta anti-
social. O terapeuta pode agir nesses casos para recuperar essa falha e supri-la. O manejo 
surge como forma de comportamento nesses casos. Na transferência, essas falhas virão 
à tona, e o analista deve estar atento para que possa oferecer o ambiente adequado. 
 
Assista aí 
 
O autoconhecimento do analista é fundamental nesses casos para que ele possa ter 
empatia e capacidade de proporcionar experiência de sentimentos de raiva e ódio, ao 
invés de sentimentos de inutilidade ou vazio, no setting terapêutico. O manejo é como 
Winnicott chama essa capacidade do analista. 
 
De acordo com Winnicott, temos pacientes com dificuldade de relacionamento 
interpessoal, outros têm dificuldade de integração do ego e, por último, são aqueles que 
têm necessidade de manejo nos estágios iniciais de desenvolvimento. 
 
2.4 O Brincar 
 
Para Winnicott, o brincar é fundamental para a saúde e o desenvolvimento 
emocional do ser humano. Para esse desenvolvimento, é essencial que haja a 
continuidade do ser e isso já está presente desde antes do nascimento, conforme afirma 
Winnicott (apud SEKKEL, 2016): 
 
no momento do nascimento a termo já existe um ser humano no útero, capaz de ter 
experiências e acumular memórias corporais e até mesmo organizar defesas contra 
possíveis traumas (como a interrupção da continuidade do ser pela reação contra 
intrusões do ambiente, na medida em que este falha em sua missão de se adaptar). 
Winnicott enfatiza a importância do brincar, prática na qual se pode pôr para fora 
sentimentos de fantasia e sonho, bem como manipular o ambiente exterior. No seu 
entendimento, o ser humano é voltado para o amadurecimento, busca isso como uma 
tendência inata a ele e, por isso, possui uma criatividade primária, potencial. Dessa 
forma, é possível desenvolver a capacidade de brincar. 
 
 
O brincar surge não só nos estudos de Winnicott, mas também em Freud e Klein. Para 
Winnicott, funciona como uma forma de experiência criativa, que facilita o crescimento 
e os relacionamentos em grupo. O prazer na brincadeira garante a saúde e o bem estar. 
O brincar está situado num espaço de transição entre a realidade externa e o interior de 
cada um. Tanto Klein como Winnicott e Freud dão extrema importância ao brincar 
como forma de representação dos conteúdos que perturbam as crianças, e como espaço 
onde podem elaborar traumas em curso no seu desenvolvimento. 
O brincar surge num espaço localizado de forma intermediária entre a realidade interna 
e a externa, e é nesse espaço que pode surgir a elaboração e experimentação de 
construção do ser humano. 
 
Funcionando de maneira a integrar aspectos dissociados internos e possibilitando a 
experiência de vivenciar o verdadeiro self, com a espontaneidade e a capacidade criativa 
como ferramentas, o ser humano pode usufruir de sua personalidade verdadeira, 
integrando os aspectos dissociados. 
 
Na análise, inclusive de adultos, o brincar também se aplica, não da mesma forma com 
brincadeiras infantis mas na forma de senso de humor, no uso das palavras, na voz, etc. 
 
 
Clique para abrir a imagem no tamanho original 
Figura 2 - O BrincarFonte: Gladskikh Tatiana, Shutterstock, 2020. 
#PraCegoVer: A imagem mostra duas crianças brincando de examinar a boneca com 
um estetoscópio, rodeadas de brinquedos. 
 
3 A Psicanálise nos dias de hoje e a crítica das Neurociências 
 
Vamos agora refletir sobre como está a psicanálise hoje, ela se atualizou, expandiu seus 
horizontes e se alastrou pelo mundo afora? O que será que ela está fazendo para se 
reinventar e se modernizar? E o futuro? Como ela está se organizando para sobreviver 
diante de tantas correntes psicológicas e diante do homem atual? Todas essas questões 
atingiram a psicanálise e fizeram com que ela procurasse se transformar. Vamos ver o 
que foi feito. 
 
3.1 A psicanálise hoje 
 
A psicanálise já se mostrou como revolucionária desde a sua origem, quando Freud 
iniciou seus estudos e apresentou seus primeiros trabalhos, tratando do aparelho 
psíquico, detalhando sua estrutura, o inconsciente, os mecanismos de defesa e a 
sexualidade infantil. 
 
A psicanálise demonstra que não somos os proprietários de nossas mentes, que não 
temos o domínio de nossos pensamentos e ações, pois temos os processosmentais 
inconscientes que nos dirigem. Assim, desejos, conflitos, medos e fantasias foram 
revelados pela ciência psicanalítica. 
 
 
Para se ter uma noção do avanço que a psicanálise trouxe para a ciência, o próprio 
Freud aponta as três feridas narcísicas sofridas pela humanidade. A primeira ferida foi 
quando Copérnico mostrou que a terra não era o centro do universo, depois veio Darwin 
e apontou o desenvolvimento das espécies e, a terceira marca a descoberta de que a 
consciência não é o centro da mente e que há o inconsciente que ainda tem um conteúdo 
a ser desvendado. 
Os conhecimentos da psicanálise trouxeram uma ampliação aos horizontes do ser 
humano, para que ele pudesse melhor se conhecer. A compreensão de como funciona a 
mente humana aumentou, ao verificarmos a existência do id, ego e superego, as 
instâncias psíquicas da mente, a importância da infância no desenvolvimento humano, 
os impulsos e as defesas existentes, além do tratamento das patologias associadas ao 
desequilíbrio do ser humano. 
 
Nesse período, desde a descoberta da psicanálise como teoria e método, muitos 
caminhos foram abertos, e a expansão dos conhecimentos trouxe luz para a 
interpretação do mundo psíquico e da realidade em que o ser humano está inserido. 
Resta agora poder pensar o que está reservado à psicanálise em seu caminho, desde que 
seu fundador iniciou sua marcha. 
 
Freud lutou bastante para que sua descoberta fosse reconhecida como ciência e, através 
de seu trabalho, muitas correntes de pensamento foram criadas, como as de Alfred 
Adler, Carl Jung e Wilhelm Reich. Seguindo a corrente freudiana, tem-se os trabalhos 
de Anna Freud, sobre o ego e os mecanismos de defesa; Melanie Klein, com os jogos na 
terapia e a teoria das relações objetais; John Bowlby, com a teoria do apego; e Erik 
Eriksson, com os estágios do eu. Além de Winnicott e a importância do objeto 
transicional e do brincar para o desenvolvimento humano. 
 
Wilhelm Bion também revolucionou a psicanálise, com a introdução de seus trabalhos 
sobre dinâmicas de grupo. 
 
Após a primeira guerra mundial, foi criada a Clinica Tavistock, em Londres, para 
tratamento de pessoas vítimas de traumas e nela trabalharam Bowlby, Bion, Winnicott, 
entre outros, tendo Freud e Jung sido vice presidentes. 
 
O surgimento da terapia psicodinâmica breve, de Ferenczi e Rank, foi uma inovação 
na história da psicanálise, numa atitude mais diretiva e ativa do analista. 
 
Além disso, temos Jacob Moreno e a criação do psicodrama, e Jacques Lacan que 
inseriu a linguagem como ponto de referência para a compreensão do conteúdo 
analítico, e construiu a escola francesa. 
 
A partir da virada do século XX, a psicanálise foi crescendo e se espalhando pelo 
mundo. Conforme afirma Sampaio (1996): 
 
(...) a Psicanálise foi se impondo paulatinamente, com prestígio crescente, adquirindo 
um reconhecimento nos campos da medicina, da psiquiatria e das ciências humanas em 
geral, com importantes interações com a filosofia e significativas repercussões sobre as 
artes, inscrevendo-se na história deste século com tal ênfase que ele, merecidamente, 
tem sido denominado o "Século da Psicanálise". 
Nos Estados Unidos, ela não teve a mesma aceitação e abrangência da Inglaterra e da 
França, pois recebeu muitas críticas. Foi nos anos 1920 que houve um maior 
deslocamento da psicanálise para a América. A psicologia do ego é uma das correntes 
que cresce no campo psicanalítico nos Estados Unidos, de acordo com Baratto (2007): 
Trata-se de uma particular versão da psicanálise, esta que surge em torno dos anos de 
1920 na América do Norte. Ernest Kris, David Rapaport, Merton Gill, Rudolph M. 
Loewesntein, Franz Alexander figuram como seus principais expoentes, ao lado de 
Heinz Hartmann, apontado por unanimidade como membro de maior destaque pelo fato 
de que seus conceitos estabeleceram a base a partir da qual a doutrina se assentou. Além 
de por longo tempo ter tomado a cargo a disseminação da psicanálise, esta concepção 
teórica e técnica da psicanálise constitui de fato o modelo mais bem acabado dos 
desvios a que esteve submetida a psicanálise nas mãos de teóricos afeitos a ecletismos. 
A Escola da Psicologia do Self, representada por Heinz Kohut, também teve papel 
importante na psicanálise norte-americana. Kohut e seus contemporâneos foram 
herdeiros da psicanálise clássica e sofreram influência de Klein e Anna Freud. 
No Brasil, a psicanálise vem também por volta dos anos 1914, através de Juliano 
Moreira, no Rio de Janeiro, um dos fundadores da psiquiatria moderna no país. Em São 
Paulo, ela aparece em anos 1920, com Franco da Rocha. Porém, sua difusão dá-se 
mais nos meios intelectuais e artísticos do que no campo da medicina, como entre os 
modernistas da Semana de Arte Moderna de 1922 (OLIVEIRA, 2002). 
 
A partir do anos 1950, tem-se a psicanálise consolidada cada vez mais, através das 
correntes acima citadas, e a construção do modelo de técnicas psicanalíticas para a 
clínica, inclusive tendo sido uma efervescência nos meios intelectuais. 
 
Rocha (2008) afirma que a psicanálise freudiana dominou o cenário nos anos 1950 
a 1970, sendo considerada moda ou modismo: 
 
O tempo da moda da psicanálise, como o de toda moda ou modismo, passou. Rápido foi 
seu ocaso. As neurociências, a biologia, a genética e a psicologia cognitiva estão sendo, 
hoje, apontadas nos meios científicos norte-americanos e europeus como alternativas 
mais sérias do que a psicanálise para o tratamento dos distúrbios psíquicos 
A clínica psicanalítica passa por um período de crise no final do século XX, tendo que 
se reinventar. A demanda pelos serviços de psicanálise diminui, o preço das sessões 
afasta muitas pessoas por ser muito oneroso, além de ser um tratamento muito longo. 
 
Cada vez mais, com as exigências da sociedade por algo mais rápido, ágil e de fácil 
acesso, a psicanálise vai perdendo espaço na sociedade. E confirma Rocha (2008): 
 
Em um mundo, como o nosso, no qual predomina o espírito tecnológico da 
produtividade para atender às demandas do consumo do modo mais rápido possível; em 
um mundo em que as distâncias são cada vez mais reduzidas e no qual a velocidade e a 
rapidez vão se tornando critérios de valor e de escolha, não resta muita chance para uma 
terapia, cujo pressuposto básico é a não-preocupação com o tempo cronológico, 
porquanto sua eficácia é marcada pelo ritmo de uma outra modalidade de tempo, que é 
totalmente diferente do tempo cronológico; em um mundo no qual o saber técnico está 
desumanizando a ciência e onde predomina a ética do lucro, não há muita chance para 
uma terapia, cuja finalidade é modificar estruturalmente as pessoas, a fim de que elas 
possam assumir seus desejos e a construção de seu destino. Pois bem, em um mundo 
assim, não é de admirar que a psicanálise esteja perdendo o seu prestígio. 
Surgem assim os desafios para a sobrevivência da psicanálise nas últimas décadas do 
século XX, com as mudanças na forma de viver e as dificuldades de um novo mundo 
que está nascendo, com o aparecimento das novas ferramentas de tecnologia e a 
expansão das comunicações e interconexões. 
A busca por uma qualidade de vida de forma plena, do ponto de vista não só 
biológico mas também psicológico e social, fez com que a psicanálise fosse se 
reinventando para auxiliar na solução dos sofrimentos emocionais, cada vez mais 
crescentes nessa sociedade em mudança. Albuquerque (2010) assim expõe sobre o 
momento atual: 
 
Concordo com Marília Eisenstein, em artigo publicado no último número 
da RBP (2009), quando ela diz que agora a ação terapêutica deve ser compreendida 
como um "movimento para o crescimento do campo psíquico", que permite muito mais 
que o alívio de sintomas. Isso fala de uma ampliação dos objetivos do tratamento 
analítico, mas também se refere à "profunda revisão do objeto" da psicanálise. Ela cita 
alguns fios condutores teóricos que todos conhecemos e que precisam continuar nos 
guiando: o reconhecimento das forçasinconscientes, da dualidade das pulsões de vida e 
de morte e do conflito psíquico entre desejo e defesa, além da confiança na eficácia 
terapêutica da psicanálise. 
André Green é um dos psicanalistas mais famosos da nova geração, juntamente com J.-
B. Pontalis, Piera Aulagnier, Conrad Stein, Jean Laplanche, Joyce McDougall e Claude 
Le Guen, tendo auxiliado no desenvolvimento da psicanálise contemporânea, 
nas mudanças teóricas, clínicas e institucionais sofridas pela psicanálise nos últimos 
anos. Ele faz um trabalho que revisita não só Freud, mas une também Winnicott, Bion e 
Lacan, numa articulação entre a dimensão pulsional/representacional e a dimensão 
relacional/objetal (CANDI, 2009). 
 
A psicanálise contemporânea acaba se reconstruindo quando modifica sua forma de 
análise, tentando se ajustar à nova realidade das pessoas, nesse mundo contemporâneo, 
ser mais produtiva, assertiva e acessível. Seu enfoque passa a ser mais abrangente, 
levando em consideração a influência da cultura no âmbito familiar, com reflexões que 
levam em consideração a violência física e sexual, pobreza e carência de infraestrutura 
social e educação. 
 
As novas formas de comunicação e interação à distância também são de importância 
fundamental para a análise de como estão sendo utilizadas essas ferramentas. Temos a 
deturpação da realidade, através das redes sociais e da publicidade cada vez mais 
abrangente em nosso cotidiano, que não passa despercebida na análise de suas 
influências na constituição do psiquismo moderno. 
 
O campo psicanalítico passa por um processo de democratização dos conhecimentos. 
Ele tem se tornado cada vez mais acessível para a população, se desvinculando de 
tradições ortodoxas que não permitiam que pudesse se aproximar do cotidiano da rua. 
Assim é que se veem agora iniciativas voltadas para atendimento da clínica para a 
população de baixa renda, em locais públicos e em centros de saúde. 
 
3.2 O amanhã 
 
Como é que a Psicanálise pode superar os desafios impostos pela modernidade, para 
que se consolide como instrumento fundamental para a interpretação do novo homem 
do século XXI? Que desafios ela tem pela frente? Vamos ver a seguir. 
No novo milênio, cada vez mais observa-se que a tecnologia vem ocupando um espaço 
imenso em nosso cotidiano, e cada vez mais vai avançar para novas conquistas e novos 
estilo de vida adaptados a esse novo universo. 
Abandonam-se velhos costumes e surgem novos hábitos que dão origem a uma forma 
inovadora de se pensar e se relacionar com o outro. O ser humano é um ser social e as 
novas formas de comunicação estão aproximando cada vez mais os indivíduos. Isso faz 
com que, em tempo real, possamos ter acesso à informação e contato com a grande 
quantidade de conhecimento produzido pela humanidade e com pessoas que estão muito 
distantes de nós. 
 
As redes sociais, os aplicativos, as novas tecnologias são desafios que se nos 
apresentam na construção de nosso psiquismo e reformulam a nossa forma de interação 
social. A psicanálise, bem como as diversas ciências psicológicas, tem que dar conta 
desse novo ser humano que surge, de suas novas relações e formas de adaptação. Rocha 
(2008) expõe acerca da psicanálise que: 
 
Os grandes desafios são aqueles que surgem da própria situação socioeconômica desse 
amanhã, que, ao que tudo indica, será muito mais ainda marcado pela globalização da 
economia e da política, que, salvo melhor juízo, parece favorecer os mais privilegiados 
e castigar os menos abastados. O mundo que nos espera é um mundo em que os ricos 
serão cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. O primeiro grande desafio 
será esse: nesse mundo quem irá beneficiar-se com a experiência da análise? A 
psicanálise assumir-se-á definitivamente como uma experiência terapêutica da elite, 
privilégio de alguns felizardos da sorte ou das injustiças sociais? 
E continua seu questionamento indagando como poderá se portar a psicanálise diante 
da sexualidade discutida amplamente nos dias de hoje, e que apresenta muitas 
mudanças como a emancipação da homossexualidade, as várias propostas de 
orientação sexual que estão surgindo, as mudanças no formato da família e nas 
imagens paterna e materna. 
 
Desponta uma nova forma de pensar diante das novas patologias do mundo 
contemporâneo, da forma de escutar e repensar a sociedade e seu indivíduo. 
 
3.3 Psicanálise e Neurociências 
 
Nos debates atuais, e com as conquistas da neurobiologia, aparecem discussões 
interessantes para a psicanálise, que a aproximam da neurociência. São pesquisas 
relacionadas à consciência, percepção, processos mentais inconscientes, desejo, 
sexualidade, etc., que promovem um diálogo entre essas duas áreas da ciência, que 
prometem embasar as teorias psicanalíticas. 
 
Freud sempre acreditou e atuou para que sua teoria fosse consagrada como ciência, 
tendo apresentado um trabalho no qual tentava construir um modelo da mente 
humana, com base em aspectos neurobiológicos. 
 
Na ciência atual, ainda nos defrontamos com o paradigma da fragmentação, mas 
observa-se que essa visão fragmentada não permite a integração do corpo com a mente, 
para análise do ser humano em sua totalidade. Entretanto, sabemos que cada vez mais 
existe a necessidade de se observar sob essa ótica integrativa. 
 
Com a neurociência, estuda-se a plasticidade cerebral, os circuitos neurais de bebês e 
comprovam-se que métodos psicológicos podem promover modificações no cérebro, 
conforme aponta Lima (2010): 
Recentes avanços no estudo interdisciplinar da emoção também indicam possibilidades 
de uma aproximação bem-sucedida entre a psicanálise e a neurociência. O 
conhecimento atual dos mecanismos psicobiológicos, por meio dos quais, por exemplo, 
o hemisfério direito processa informações sociais e emocionais em níveis 
subconscientes e mediante os quais o córtex orbitofrontal regula o afeto e a motivação, 
permite uma compreensão mais profunda da "Estrutura Psíquica" formulada por Freud. 
Pela neurociência, já se sabe hoje que o modo fundamental de processamento das 
funções cerebrais é de ordem inconsciente. Segundo Lima (2010), “Partes do 
processamento simbólico-declarativo e do processamento de funções emocionais do 
cérebro são permanentemente inconscientes”. Da mesma forma que partes desses 
processos têm características conscientes, ”Esses dados corroboram a teoria de Freud, 
segundo a qual o inconsciente domina a maior parte dos processos psicofisiológicos” 
(LIMA, 2010). 
 
Clique para abrir a imagem no tamanho original 
Figura 3 - Estudos sobre a menteFonte: 3Dstock, Shutterstock, 2020. 
PraCegoVer: A imagem mostra um boneco com uma fechadura e uma chave no alto da 
cabeça. 
 
A neurociência apresenta as estruturas cerebrais como não sendo funcionais durante os 
dois primeiros anos de vida, o que Freud chamou de amnésia infantil. Demonstra 
também que o conteúdo das memórias de infância, não podendo vir à consciência, estão 
inscritos em nós e afetam: NOSSOS SENTIMENTOS, PENSAMENTOS E 
COMPORTAMENTOS. 
 
Foi comprovado que as experiências da primeira infância, na relação mãe e bebê, têm 
influência no padrão das conexões cerebrais (LIMA, 2010). 
Lima (2010) afirma ainda que, em relação aos sonhos, tema que foi considerado 
essencial para Freud: 
 
A hipótese de que o sistema dopaminérgico mesolímbico-mesocortical, relacionado aos 
estados motivacionais, é essencial para a formação dos sonhos também oferece algum 
respaldo à teoria freudiana. Assim, as emoções parecem exercer um papel fundamental 
na formação dos sonhos. 
 
E são inúmeros os estudos que aproximam a psicanálise da neurociência, sendo esta 
última complementar e fundamental para a comprovação das teorias psicanalíticas. Até 
mecanismos como o recalque puderam ser demonstrados por sistemas neurológicos, 
participantes do bloqueio da evocação de situações desagradáveis (LIMA, 2010). 
 
Dessa forma, criam-se possibilidades de avaliar os estudos da psicanálise ao aproximá-
la da neurociência, que lhe ofereceum novo caminho de estudos e análises para 
a melhor compreensão do funcionamento da mente humana. 
 
Freud sempre se preocupou em apresentar um estudo científico e, por isso, se 
aproximou da Biologia para tentar compreender os fenômenos psíquicos. No dizer de 
Pinheiro (2017), ao avaliar as críticas recebidas pela psicanálise na atualidade, temos 
que: 
Acreditamos que Freud, se vivo fosse, provavelmente gostaria das neurociências. Não 
só por ver concretizada sua esperança de encontrar marcadores biológicos para 
processos psíquicos, mas por poder constatar o quão muito do que escreveu ainda é 
atual. O cérebro nos mostra estados de ânimo, mas a definição biológica não basta para 
destrinchar a natureza da experiência do sujeito, que depende da linguagem para ser 
razoavelmente compreendida. Ao postular um funcionamento psíquico dinâmico, a 
psicanálise trata de um corpo físico que se debate com sua história e seu entorno, e que 
pode recriar-se em seus atos e suas ideias de mundo. Permanece, então, atenta àquele 
ponto de opacidade da vida sem respostas universais, onde estão o desamparo e o 
imprevisível, e com o qual cada um de nós deve se deparar. Um ponto que o enquadre 
científico não esgota e que exige uma saída singular. 
 
Surge inclusive uma tendência de criação da neuropsicanálise, a partir das ideias de Eric 
Kandel, um neurocientista que aponta sugestões para a psicanálise no século XXI, tais 
como a aproximação entre psicanálise e neurociência, com o objetivo de desenvolver 
novas pesquisas e teorias em psicanálise. Foi ele quem introduziu o conceito 
de plasticidade neural, o que lhe rendeu o prêmio Nobel de medicina no ano 2000. 
Outros nomes importantes para essa ligação entre a neurociência e a psicanálise são: 
Antônio Damásio, Oliver Sacks, Gerald Edelman, V.S. Ramachandran, entre outros; 
além de psicanalistas famosos, como Charles Brenner e André Green (LYRA, 2007). 
 
A Neurociência trouxe vários impactos para que se pudesse entender o funcionamento 
do cérebro. Assim, temos no momento presente, por um lado, essa associação entre 
duas ciências que podem expandir os fundamentos da teoria psicanalítica e consolidar o 
estudo da mente humana; e, por outro, críticas que dizem que cada uma das disciplinas 
deve manter seus limites e limitações em seu campo de reflexão, sem necessidade de 
que se unam, pois não se pode colocar ênfase demasiada ao cérebro como se tivesse 
funções subjetivas que pudessem explicar todo o funcionamento, organização e 
desenvolvimento do ser humano. 
 
Estamos em terreno fértil de pesquisas e descobertas que podem levar ao reducionismo 
biológico ou a ampliação do entendimento nos aspectos social, psicológico, biológico e 
espiritual do sujeito. Podemos acreditar que o novo milênio trará muitas inovações e 
avanços para a ciência. 
É ISSO AÍ! 
Nesta unidade, você teve a oportunidade de: 
 conhecer os principais conceitos desenvolvidos por Jacques Lacan; 
 aprender sobre o que significa o retorno a freud proposto por Lacan; 
 compreender os principais conceitos da escola lacaniana de psicanálise; 
 conhecer as teoria de Winnicott sobre o desenvolvimento infantil e a importância 
do fenômeno transicional e do brincar; 
 estudar a história da psicanálise contemporânea conhecendo seus principais 
desafios e suas aproximações com a neurociência. 
REFERÊNCIAS

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