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CAMPOS CONCEITUAIS O CAMPO CONCEITUAL DAS ESTRUTURAS ADITIVAS Quando se propõe um trabalho com a Teoria dos Campos Conceituais no ambiente em que se ensina, são dois os importantes campos conceituais que devem ser considerados, sendo eles o campo conceitual das estruturas aditivas e o campo conceitual das estruturas multiplicativas. Porém, conforme aquilo que foi colocado na introdução da presente dissertação, ao se demonstrar interesse pela análise das estratégias de resolução empregadas pelas crianças quando essas são colocadas diante da resolução de problemas correspondentes às operações de adição e de subtração e às relações que podem ser estabelecidas entre elas, dá-se ênfase, no texto que segue, somente ao primeiro campo conceitual citado. O estudo acerca do campo conceitual das estruturas multiplicativas é deixado para estudos posteriores. Desse modo, antes de iniciar o estudo que aqui se pretende fazer acerca do campo conceitual das estruturas aditivas, é importante que fique claro que “[...] embora as operações de soma e subtração sejam distintas, elas estão relacionadas a uma mesma estrutura de raciocínio [...]” (NUNES et. al., 2009, p. 50) a qual se denomina “raciocínio aditivo”. De modo geral, ao se referenciar o estudo do campo conceitual das estruturas aditivas proposto pela teoria do professor e pesquisador francês Gérard Vergnaud, quando as crianças são colocadas diante da resolução de problemas que envolvem as operações de adição e de subtração ou que envolvem uma combinação dessas duas operações, além de o campo conceitual ser construído por elas durante o processo de resolução de cada um dos problemas propostos, muitos outros são os conceitos matemáticos que podem ser desenvolvidos no decorrer das atividades. Porém, além do fato de a teoria dos campos conceituais abranger inúmeras significações e relações com outros conteúdos matemáticos, é fundamental considerar que “[...] as crianças normalmente constroem um campo conceitual pela experiência na vida diária e na escola.” (MAGINA et. al., 2008, p. 22). Isto significa que, ao propor problemas relacionados ao campo conceitual aditivo, faz-se necessário considerar também aquilo que a criança já sabe, ou seja, é preciso dar importância à bagagem de conhecimento que ela já tem e que é levada à escola. Assim, ao trabalhar com o campo conceitual das estruturas aditivas proposto por Vergnaud, possibilita-se à criança aprender noções até então desconhecidas e compreender melhor as noções que já possui, desenvolvendo competências e habilidades matemáticas e, também, novas concepções e entendimentos sobre aquilo que está sendo estudado. Além disso, para que se consiga trabalhar com esse campo conceitual no espaço de ensino, faz-se imprescindível, primeiramente, entender o que são problemas aditivos e, também, o que são as estruturas aditivas. Por “problemas de tipo aditivo”, estamos entendendo todos aqueles cuja solução exige tão somente adições ou subtrações, do mesmo modo pelo qual entendemos por “estruturas aditivas” as estruturas em que as relações em jogo são formadas exclusivamente por adições ou subtrações. (VERGNAUD, 2014, p 197). Magina et. al. (2008) colocam que os problemas de tipo aditivo abrangem diversos conceitos distintos que correspondem ao campo conceitual das estruturas aditivas, a saber: o conceito de medidas, o conceito de adição, o conceito de subtração, o conceito de transformação de tempo, as relações de comparação e a composição de quantidades. Assim, tem-se que, “Para dominar as estruturas aditivas, o aluno precisa ser capaz de resolver diversos tipos de situações-problema.” (ibid., p. 19). Ou seja, para que o aluno, ao final do trabalho com problemas de tipo aditivo, consiga ter domínio do campo conceitual, é necessário que esse aluno entenda todos os conceitos que se apresentam por trás desse campo, uma vez que é importante que consiga aplicá-los nos mais variados tipos de problemas. Além disso, antes de iniciar o trabalho com cada um dos tipos de problemas aditivos existentes, é importante que as definições do conceito denominado de cálculo numérico e, também, do conceito que se conhece por cálculo relacional sejam apresentadas, visto que estes são os recursos utilizados de modo a possibilitar a resolução das situações aditivas. Assim, tem-se que os chamados cálculos numéricos se referem às operações habituais de adição e subtração. Por outro lado, o cálculo relacional corresponde às operações do pensamento, ou seja, são as ações fundamentais que devem ser executadas de modo que se consiga manusear todas as relações que se apresentam durante a resolução de cada uma das situações (MAGINA et. al., 2008). Logo, de modo que fique claro ao leitor cada um dos conceitos definidos no parágrafo acima, elaborou-se como exemplo um quadro em que é apresentado um problema aditivo com sua respectiva resolução e em que são distinguidos o cálculo relacional e o cálculo numérico referente a ele. Quadro 1 – Cálculo Numérico x Cálculo Relacional Problema Diagrama e cálculo relacional Cálculo numérico Fabíola tinha dois reais em seu cofrinho e ganhou de sua mãe oito reais. Quanto ela tem agora dentro do cofre? 2 Aplicar uma transformação positiva direta ao estado inicial ADIÇÃO 2 + 8 = 10 Fonte: elaborado pela autora (2015) Além disso, para que seja possível trabalhar com os problemas de tipo aditivo de maneira efetiva, faz-se imprescindível, ainda, destacar alguns códigos elaborados por Vergnaud em sua teoria. Esses códigos, também utilizados no presente trabalho, representam os esquemas empregados nos cálculos relacionais correspondentes a cada uma das categorias de problemas existentes dentro do campo conceitual das estruturas aditivas. Ou seja, são os esquemas que condizem à resolução dos diferentes tipos de problemas aditivos, sendo estes abordados na sequência. +8 Quadro 2 – Códigos utilizados nos diversos esquemas o retângulo representa um número natural, o círculo representa um número relativo, a chave vertical representa a composição de elementos de mesma natureza a chave horizontal representa a composição de elementos de mesma natureza a flecha horizontal representa uma transformação ou uma relação, quer dizer, a composição de elementos de natureza diferente a flecha vertical representa uma transformação ou uma relação, quer dizer, a composição de elementos de natureza diferente Fonte: Vergnaud (2014, p. 201) Assim, com relação aos tipos de problemas existentes, no momento em que o trabalho com o campo conceitual das estruturas aditivas é proposto, são três os grupos de problemas que precisam ser considerados. Estes problemas, classificados de acordo com suas características, são denominados de problemas de composição, problemas de transformação e problemas de comparação. Logo, como primeiro grupo de problemas têm-se as situações nomeadas de composição, correspondentes àqueles problemas que envolvem as relações estabelecidas entre a parte e o todo. Ou seja, “a classe de problemas de composição compreende as situações que envolvem [...] juntar uma parte com outra parte para obter o todo, ou subtrair uma parte do todo para obter a outra parte.” (MAGINA et. al., 2008, p. 25, grifo das autoras). Assim, tem- se que, de acordo com as autoras, a ideia central que se encontra por trás dos problemas de composição é a de juntar partes, sendo que os valores de cada uma das partes com as quais se vão operar já estão determinados (ibid.). Para demonstrar isso, de modo que fique claro ao leitor o tipo de problema com o qual se está trabalhando, abaixo é apresentado um protótipo de diagrama, correspondente ao cálculo relacional, que pode ser empregado na resolução de problemas de composição. Figura 2 – Modelo de Cálculo Relacional para Problemas de Composição Fonte: elaborado pela autora (2015) Com relação ao segundo grupo de problemas do tipo aditivo, referenciandoo que é abordado por Magina et. al. (2008), pode-se colocar que “a classe dos problemas de transformação é aquela que [...] no estado inicial tem-se uma quantidade que se transforma (com perda/ganho; acréscimo/decréscimo; etc.), chegando ao estado final com outra quantidade.” (ibid., p. 26, grifo das autoras), ou seja, situações que envolvem uma transformação tratam-se “[...] de situações em que a ideia temporal está sempre envolvida [...]” (ibid., p. 26). Assim, no que segue, apresenta-se o diagrama que pode ser utilizado na resolução de problemas de transformação. Figura 3 – Modelo de Cálculo Relacional para Problemas de Transformação Fonte: elaborado pela autora (2015) Por fim, concluindo a apresentação de cada um dos três grupos de problemas de tipo aditivo, têm-se aqueles que são denominados de problemas de comparação que, como o próprio nome destaca, tratam de situações em que se realiza uma comparação entre duas quantidades, sendo estas denominadas de referente e referido (MAGINA et. al., 2008), e que possuem, como possibilidade de resolução, o cálculo relacional apresentado pelo diagrama abaixo. Todo Parte Parte Estado inicial Estado final Operação Figura 4 – Modelo de Cálculo Relacional para Problemas de Comparação Fonte: elaborado pela autora (2015) Além disso, considerando que as relações aditivas são relações ternárias, uma vez que são definidas por Vegnaud (2014) como relações que estabelecem ligações de três elementos entre si que podem ser articuladas de maneiras distintas gerando, como resultado, uma ampla diversidade de estruturas aditivas, o autor estabelece ainda a existência de seis grandes categorias de relações aditivas. Essas relações, também consideradas seis esquemas ternários fundamentais para o estudo do campo conceitual das estruturas aditivas, referem-se a diferentes níveis de dificuldade, imprescindíveis para a criação de habilidades e competências matemáticas. Desse modo, baseando- se no que foi colocado no início deste parágrafo, destacam-se, no que segue, as seis categorias de relações aditivas existentes. Primeira categoria: tomando-se dois elementos eles se compõem fornecendo, ao final, como resultado, um terceiro elemento. Além disso, nesta primeira categoria de relação aditiva, dois são os casos possíveis de problemas que devem ser considerados. 1. Conhecendo-se dois elementos, correspondentes às partes do problema, encontrar a composição, correspondente ao todo. Figura 5 – Cálculo relacional referente ao primeiro caso da primeira categoria Fonte: elaborado pela autora (2015) Operação Referido Referente Relação X Y ? Esse primeiro caso da primeira categoria de relação aditiva, conhecido por aquilo que se denomina de juntar as partes para achar o todo, pode ser nomeado também, de acordo com aquilo que é posto por Magina et. al. (2008), de protótipo 1 de adição pelo fato de a situação abordada estar “[...] relacionada com as primeiras experiências da criança com a operação de adição, as quais acontecem dentro do seu cotidiano e bem antes de ela iniciar a 1ª série do Ensino Fundamental.” (ibid., p. 30). 2. Conhecendo-se um dos elementos, correspondente a uma das partes, e a composição, correspondente ao todo, encontrar o outro elemento, correspondente à outra parte. Figura 6 – Cálculo relacional referente ao segundo caso da primeira categoria Fonte: elaborado pela autora (2015) Assim, finalizando a descrição da primeira categoria de relação aditiva, referenciando as palavras de Magina et. al. (2008), tem-se que o segundo caso, acima destacado, pode ser denominado, também, de problema de 1ª extensão da composição. Segunda categoria: conhecendo-se um dos elementos, este é submetido a uma transformação gerando, ao final, como resultado, outro elemento. Figura 7 – Cálculo reacional referente à segunda categoria Fonte: elaborado pela autora (2015) Nesta segunda categoria de relação aditiva, são três os possíveis casos de problemas que devem ser considerados. ? Z X ? Z Y X Y Z 1. Conhecendo-se os dois elementos do problema com o qual se está trabalhando, correspondentes, respectivamente, aos estados inicial e final, determinar a transformação, podendo ser esta positiva ou negativa; 2. Conhecendo-se o primeiro elemento, correspondente ao estado inicial do problema com o qual se está trabalhando, e a transformação, determinar o segundo elemento, correspondente ao estado final; 3. Conhecendo-se o segundo elemento, correspondente ao estado final do problema com o qual se está trabalhando, e a transformação, determinar o primeiro elemento, correspondente ao estado inicial. Analisando os três casos possíveis de problemas anteriormente citados, ao trabalhar, mais especificamente com o primeiro caso de problemas dessa segunda categoria de relação aditiva, tem-se que este caso, segundo Magina et. al. (2008), pode ser denominado de problemas de 1ª extensão da transformação. Além disso, ainda no que se refere a esse primeiro tipo de problema, as autoras enfatizam também que no momento em que os professores os propõem aos seus alunos é importante que eles tenham cuidado para, na elaboração dos seus enunciados, não apresentar nenhuma palavra que indique ao aluno qual a operação que ele deve efetuar para que os problemas sejam resolvidos. Ou seja, é imprescindível que as “dicas” nos enunciados sejam evitadas uma vez que “[...] as dicas podem tanto facilitar quanto dificultar a resolução do problema.” (MAGINA et. al., 2008, p. 35). Por outro lado, os problemas abordados no segundo caso da segunda categoria de relação aditiva são denominados de problemas protótipos. Além disso, de acordo com Magina et. al. (2008), é importante destacar que nesses tipos de problemas as transformações empregadas podem ser tanto positivas, quando estiverem relacionadas a ganhos, quanto negativas, quando estiverem relacionadas a perdas. Isto é, “[...] a associação de “ganho” com a operação de adição e de “perda” com a de subtração, além da situação de juntar partes, constituem as primeiras representações que as crianças formam sobre essas operações. São, portanto, protótipos para elas [...]” (MAGINA et. al., 2008, p. 32). Por fim, os problemas correspondentes ao terceiro caso citado anteriormente são denominados pelas autoras de problemas de 4ª extensão da transformação. Terceira categoria: têm-se dois elementos que se apresentam associados a partir do estabelecimento de uma relação. Figura 8 – Cálculo relacional referente à terceira categoria Fonte: elaborado pela autora (2015) No que se refere a esta terceira categoria de relação aditiva, as autoras Magina et. al. (2008) destacam a existência, dentro desta, de três tipos de problemas. Uma vez que a terceira categoria é nomeada pelas autoras de problemas de comparação, tem-se que os problemas correspondentes a ela são nomeados de problemas de 2ª extensão da comparação, problemas de 3ª extensão da comparação e, por último, problemas de 4ª extensão da comparação. Desse modo, a partir da denominação dos elementos X e Y destacados no diagrama acima de “referente” e “referido”, respectivamente, descreve-se cada um dos tipos de problemas citados como: 1. Problemas de 2ª extensão da comparação: problemas em que, conhecendo-se o referente e a relação estabelecida entre os elementos, pede-se que o referido seja determinado; 2. Problemas de 3ª extensão da comparação: problemas em que se conhecem o referente e o referido e se desconhece a relação estabelecida entre eles; 3. Problemas de 4ª extensão da comparação: problemas que, conhecendo-se a relação estabelecida entre os elementos e o referido, solicitam que o referente seja determinado. Quarta categoria: têm-se duas transformações que se compõem fornecendo, ao final, como resultado, uma terceira transformação. Figura 9 – Cálculo relacional referente à quarta categoria Fonte: elaborado pela autora (2015) X Y ?X Y Nesta quarta categoria de relação aditiva, dois são os possíveis casos de problemas que devem ser destacados. 1. Conhecendo-se os valores correspondentes às duas transformações que fazem parte do problema, encontrar o valor da composição. Além disso, considerando aquilo que é posto por Magina et. al. (2008), a quarta categoria de problemas de relação aditiva pode ser denominada também de composição de transformação. Desse modo, tem-se que os problemas abordados por esta categoria são do tipo problemas mistos os quais serão novamente mencionados nos parágrafos finais da presente seção. Quinta categoria: tem-se um estado relativo (uma relação) que, quando submetido a uma transformação, fornece, ao final, como resultado, um novo estado relativo. Figura 10 – Cálculo relacional referente à quinta categoria Fonte: elaborado pela autora (2015) Sexta categoria: têm-se dois estados relativos (relações) que, ao se comporem, geram, ao final, como resultado, um terceiro estado relativo. Figura 11 – Cálculo relacional referente à sexta categoria Fonte: elaborado pela autora (2015) Assim, considerando tudo o que foi destacado até o momento com relação às seis categorias de problemas de relação aditiva propostas por Vergnaud (2014), é importante que se comente também que as duas últimas categorias de problemas acima mencionadas não são estudadas por Magina et. al. (2008). Logo, de modo a concluir a discussão acerca da Teoria dos Campos Conceituais e considerando a perspectiva abordada por Magina et. al. (2008), apresenta-se, no que segue, um quadro que fornece o resumo de cada um dos cálculos relacionais correspondentes a cada um dos tipos de situações-problemas anteriormente elencados e com os quais as autoras trabalham. X Z ? X Y ? Adiç ão Subtr aç ão Por fim, conforme o que foi posto ao final da descrição da quarta categoria de problemas de relação aditiva, faz-se imprescindível mencionar que existem também os chamados problemas mistos. Tomando-se como referência o que é colocado por Magina et. al. (2008, p. 52), chamam-se problemas mistos aqueles problemas que “[...] estarão envolvendo mais de um raciocínio aditivo numa mesma situação.”. Ou seja, diferentemente dos problemas em que se trabalha com um único raciocínio aditivo, os denominados problemas mistos são problemas em que se aplicam dois raciocínios aditivos simultaneamente. Além disso, esses problemas, classificados pelas autoras como problemas de composição de transformações (problemas que condizem à quarta categoria de relações aditivas de Vergnaud (2014), descrita nos parágrafos acima), problemas de transformação de composição e problemas de comparação com composição de transformação, exigem conhecimentos matemáticos de maior complexidade e operações de pensamento e cálculos relacionais mais elaborados. Desse modo, tem-se que na pesquisa aqui delineada não se deu ênfase a nenhuma das três classificações de problemas mistos, uma vez que os conhecimentos matemáticos que se encontram por trás destes são desenvolvidos somente em anos posteriores aos cinco anos iniciais do Ensino Fundamental. Assim, destaca-se que na presente pesquisa se trabalhou somente com os problemas de composição, deixando-se a abordagem dos chamados problemas mistos, bem como dos problemas de transformação e dos problemas de comparação como sugestão de tema para uma nova pesquisa em que estes sejam objetos dessa investigação futura. PRENDIZAGEM MATEMÁTICA: CONTRIBUIÇÕES DE RAYMOND DUVAL 2.3.1 Estrutura Multiplicativa sob a ótica de Gérard Vergnaud 2.3.1.2 Campo Conceitual das Estruturas Multiplicativas Conforme já mencionado (seção 2.1), o raciocínio proporcional e o conceito de proporcionalidade fazem parte do campo conceitual das estruturas multiplicativas. Em outras palavras, a natureza deste raciocínio e deste conceito é multiplicativa. Vergnaud (1993, p. 10) define o campo conceitual das estruturas multiplicativas ou apenas campo das estruturas multiplicativas como sendo, ao mesmo tempo, [...] o conjunto das situações cujo tratamento implica uma ou várias multiplicações ou divisões, e o conjunto dos conceitos e teoremas que permitem analisar essas situações: proporção simples e proporção múltipla, função linear e n-linear, razão escalar direta e inversa, quociente e produto de dimensões, combinação linear e aplicação linear, fração, razão, número racional, múltiplo e divisor, etc. A formação dos conceitos e o desenvolvimento dos raciocínios pertencentes ao campo das estrutura multiplicativa exigem a transição das estruturas aditivas47 para as multiplicativas e esta passagem nem sempre é natural para os estudantes (GITIRANA et al., 2014; LAMON, 2007, 2008; NEHRING, 1996; OLIVEIRA, 2000, 2009a, SILVESTRE, 2012; VERGNAUD, 1993, 1996, 2009a). Por isso, é preciso propor situações que permitam explicitar não só as filiações, mas as rupturas que existem entre essas duas estruturas. Conforme Gitirana et al. (2014), entre as operações de multiplicação e adição há uma continuidade em termos de estrutura, mas no que se refere aos significados existe uma descontinuidade. Trabalhar a multiplicação como a soma de parcelas iguais pode gerar problemas, por exemplo, na compreensão da propriedade comutativa da multiplicação. Nunes (2010)48 afirma que o raciocínio aditivo e o multiplicativo tem origens diferentes. O raciocínio aditivo envolve as ações de juntar, separar e colocar em correspondência um a um. Já o raciocínio multiplicativo envolve as ações de distribuir, dividir e colocar em correspondência um a muitos. Assim, o raciocínio da criança nas situações multiplicativas não é de uma ação repetida. O conceito de multiplicação também não é de adição repetida, o cálculo pode ser feito por adição repetida de parcelas, mas o conceito é caracterizado por duas variáveis numa relação fixa, uma com a outra. Ao abordar o campo das estruturas multiplicativas, Vergnaud (2009) sublinha que podem ser distinguidas duas categorias de relações, a saber: ternárias e quaternárias. A mais importante é a relação quaternária, pois “forma o tecido da grande maioria dos problemas multiplicativos” (p.239) e não a relação ternária. Contudo, no ensino, geralmente, se trabalha todos os problemas do campo das estruturas multiplicativas como se envolvesse uma relação ternária, o que torna problemático o desenvolvimento do raciocínio proporcional, visto que este depende da compreensão e da capacidade de utilização destas estruturas. É relevante conceituar essas duas relações que comportam uma multiplicação e/ou divisão. De acordo com Vergnaud (2009a, p. 71) as relações quaternárias possuem a seguinte forma: “‘𝑎 está para 𝑏 assim como 𝑐 está para 𝑑’, [reafirmando] que a relação entre 𝑎 e 𝑏 é a mesma que a relação entre 𝑐 e 𝑑”. Em relação as relações ternárias, estas conectam três variáveis entre si, ou seja, 𝑎 × 𝑏 = 𝑐, estas são variáveis de mesma espécie. Os problemas do campo das estruturas multiplicativas, pertencem a três grupos: i) isomorfismo de medidas; ii) produto de medidas; e iii) proporções múltiplas. O isomorfismo de medidas refere-se a relação quaternária entre quatro quantidades, de naturezas distintas duas as duas. O eixo produto de medidas ou comparação múltipla trata da composição cartesiana de duas quantidades de mesma natureza para determinar uma terceira, o que requer uma relação terciária. Já o eixo proporções múltiplas, também, refere-se a relações quaternárias, em que há mais de duas quantidades relacionadas duas a duas. (VERGNAUD, 2009a). Diante desse contexto, para aprofundar os entendimentos acerca do campo das estruturas multiplicativas, recorre- se ao esquema (Figura 13) elaborado pelos pesquisadores Magina, Merlini e Santos (2011), fundamentados nas ideias de Vergnaud (2009a) e Nunes et al. (2009). Entende-se que esse modelo sintetiza os diferentes conjuntos de situações desse campo,bem como, contribui para as pesquisas no que tange a categorização das situações e para as escolhas didáticas dos professores. No esquema, verifica-se as duas relações que abrangem as situações multiplicativas, destacadas por Vergnaud (2009a): quaternárias e terciárias. As relações quaternárias são constituídas por dois eixos: proporção simples e proporção múltipla e nas terciárias destaca-se os eixos: comparação multiplicativa e produto de medidas. Como o foco desta pesquisa é o raciocínio proporcional e a proporcionalidade descreve- se com maiores detalhes as relações quaternárias, evidenciando seus dois eixos (proporção simples e múltipla). Quanto as relações terciárias49, destaca-se apenas o eixo comparação multiplicativa, pois esta envolve o conceito de razão, essencial para o desenvolvimento do raciocínio proporcional. Figura 13: Esquema do Campo Conceitual Multiplicativo Fonte: Organizado com base em Magina, Merlini, Santos (2011, p. 6) O eixo proporção simples envolve uma relação entre quatro quantidades, de naturezas distintas duas a duas. Este eixo pode ser subdividido em duas classes de situações: um para muitos e muitos para muitos. E, estas classes de situações podem envolver variáveis discretas ou contínuas. Na classe um para muitos, pode-se ter três situações que requerem níveis de complexidade diferentes, a saber: multiplicação, divisão partitiva e divisão quotitiva. (MAGINA; MERLINI; SANTOS; 2011; SILVESTRE, 2012). O formato das situações da classe um para muitos é apresentado no Quadro 2. Quadro 2: Situações da Classe Um para Muitos Nas situações de multiplicação, a quantidade que se relaciona à unidade é dada (1 → 𝑎) e busca-se determinar o valor correspondente a segunda variável de mesma espécie (𝑏 → 𝑥). Estas situações e as demais do eixo proporção simples podem ser resolvidas, conforme Vergnaud (2009a), por meio de duas estratégias de análise: escalar e funcional. A análise escalar centra-se “na noção de operador-escalar (sem dimensão), ela permite passar à outra em uma mesma categoria de medidas” (VERGNAUD, 2009a, p. 247). A análise funcional envolve “a noção 𝑓 de operador-função que permite passar de uma categoria à outra” (VERGNAUD, 2009a, p. 251). Para ilustrar as situações de multiplicação, apresenta-se o seguinte exemplo: Uma embalagem contém 5 figuras. José possui 4 embalagens, quantas figuras ele possui? Pode-se resolver esta situação por meio da adição repetida (5 + 5 + 5 + 5 = 20), um esquema do campo das estruturas aditivas. Destaca-se que, se o intuito é abordar conceitos das estruturas multiplicativas, torna-se importante propor situações que permitam estabelecer rupturas com as estruturas aditivas, visto que o raciocínio multiplicativo é diferente, mais amplo e complexo que o aditivo (NUNES, 2010). Considerando que essa situação pertence ao campo das estruturas multiplicativas, pode- se mobilizar a análise escalar ou a funcional. Se a escolha for pela análise escalar (Figura 14), verifica-se que 1 e 4 são números que designam a mesma medida (quantidade de embalagens), 5 e 𝑥 (na figura representada pelo símbolo ?) são números que, também, representam a mesma medida (quantidade de figuras). Os operadores verticais × 4 não tem dimensões (escalares), pois as quantidades são implicadas conforme a grandeza que representa, neste caso, (embalagens/embalagens ou figuras/figuras), permitindo passar de uma linha a outra na mesma categoria de medidas. Figura 14: Exemplo situações um para muitos – multiplicação – Análise Escalar Fonte: Elaborada pela autora com base em Vergnaud (2009a) Caso a análise funcional seja escolhida (Figura 15), realiza-se a passagem de uma categoria de medida à outra, ou seja, o número de figuras é igual a taxa (5 - número de figuras por embalagens) multiplicado pelo número de embalagens. Em outras palavras, utilizar a análise funcional significa identificar a relação entre as variáveis de naturezas diferentes (constante de proporcionalidade), utilizando a relação de proporcionalidade (𝑓(𝑥) = 𝑘𝑥 em que 𝑘 é uma constante ou taxa). Figura 15: Exemplo situações um para muitos – multiplicação – Análise Funcional Fonte: Elaborada pela autora com base em Vergnaud (2009a) A Figura 16 expõe a representação auxiliar de transição, sugerida por Duval (2011, 2012) para a resolução de problemas multiplicativos. Para a situação, apresentada acima, a representação tabular permite colocar os dados da situação em correspondência um para muitos e verificar a relação fixa entre as duas variáveis (embalagens e figurinhas). Contudo, essas análises (escalar e funcional) e representações auxiliares de transição, geralmente, não são utilizadas por estudantes da Educação Básica (DUVAL, 2011; GITIRANA et al., 2014; SANTOS, 2012; SILVESTRE, 2012; VERGNAUD, 2009a). Talvez por não serem incentivadas e/ou abordadas nos materiais curriculares ou porque ainda há uma ênfase para o entendimento da multiplicação como a soma de parcelas iguais. Figura 16: Representação Auxiliar de Transição Fonte: Elaborada pela autora com base em Vergnaud (2009a) As situações de divisão são classificadas em dois modelos, a saber: partitiva (partilha equitativa) e quotitiva (medida). A divisão partitiva refere-se ao ato de dividir quantidades de naturezas diferentes. Nestas situações, o intuito é determinar o valor unitário 𝑓(1). Estas situações são, geralmente, exploradas com maior ênfase na escola do que as envolvendo divisão quotitiva (GITIRANA et al., 2014). Exemplificando as situações de divisão partitiva: Quatro embalagens iguais contêm 20 figuras. Quantas figuras há em cada embalagem? Se a estratégia escolhida for a análise escalar, constata-se que para passar de uma linha a outra (Figura 17) na mesma categoria de medida é preciso dividir por 4, neste caso, o número 4 não tem mais dimensão (operador-escalar). Figura 17: Exemplo situações um para muitos – divisão partitiva – Análise Escalar Fonte: Elaborada pela autora com base em Vergnaud (2009a) Se for utilizada a estratégia funcional (Figura 18), verifica-se que o número de figuras por embalagem é 5 (taxa). Na representação algébrica a situação é dada por: 𝑓(𝑥) = 5𝑥, em que 𝑓(𝑥) representa o número total de figuras e 𝑥 a quantidade de embalagens (𝑓: ℕ → ℕ). Figura 18: Exemplo situações um para muitos – divisão partitiva – Análise Funcional Fonte: Elaborada pela autora com base em Vergnaud (2009a) Correa e Spinillo (2004, p. 110) chamam a atenção para as situações envolvendo divisão partitiva (distribuição) porque a resolução pode ser feita recorrendo a um [...] raciocínio aditivo em que vai acrescentando mais um elemento a cada rodada até que não haja mais elementos para uma nova distribuição. No entanto, dividir, como uma operação multiplicativa, implica que a criança possa também prestar atenção às relações entre as quantidades em jogo. Implica, em outras palavras, poder estabelecer relações de covariação entre os termos envolvidos na operação. Verifica-se na citação acima que é importante pensar sobre as relações de covariação, variação entre medidas do mesmo espaço, bem como sobre a invariância, variação entre medidas de espaços diferentes, para compreender a divisão como operação multiplicativa. Em outros termos, tem-se duas variáveis e uma relação fixa. Em relação à divisão quotitiva, esta refere-se ao processo de dividir quantidades de mesma natureza. Em tais situações, o objetivo é determinar o valor de 𝑥, conhecendo 𝑓(𝑥) e 𝑓(1). Por exemplo, “Uma embalagem contém 15 figuras. Quantas embalagens acondicionam 75 figuras?”. A figura 19 mostra resolução por meio da estratégia escalar. Figura 19: Exemplo situações um para muitos – divisão quotitiva – Análise Escalar Fonte: Elaborada pela autora com base em Vergnaud (2009a) Segundo Gitirana et al. (2014, p. 62), nas situações de divisão quotitiva os estudantes não entendem, por exemplo, comodividir 75 figuras por 15 figuras, resulta em 5 embalagens. O número de embalagens é compreendido pelo estudante como uma nova grandeza, principalmente, quando a resolução evidencia o cálculo numérico. Neste sentido, “o uso da razão já não é mais tão simples, pois ela terá que ser identificada pelos estudantes sem o valor da unidade”. Talvez, a identificação da relação entre as variáveis de naturezas diferentes (análise funcional) seja a estratégia que melhor justifique a variável embalagens na solução da situação (Figura 20), pois são: 75 𝑓𝑖𝑔𝑢𝑟𝑎𝑠 ÷ 15 ( 𝑓𝑖𝑔𝑢𝑟𝑎𝑠 Figura 20: Exemplo situações um para muitos – divisão quotitiva – Análise Funcional Fonte: Elaborada pela autora com base em Vergnaud (2009a) Assim, ao utilizar as análises escalar ou funcional para resolver situações da classe um para muitos pode-se identificar dois teoremas-em-ato essenciais à compreensão da proporcionalidade: preservação da razão – se o número de figuras quadriplica o número de embalagens também (a razão é sempre mantida), cujo teorema matemático é dado por: 𝑓(𝑛𝑥) = 𝑛𝑓(𝑥), ∀ 𝑛, 𝑥 𝜖 ℝ ; taxa – o número de figuras é igual a taxa (número de figuras por embalagem) multiplicado pelo número de embalagens (propriedade linear da proporcionalidade), cujo teorema matemático é dado por: 𝑓(𝑥) = 𝑘𝑥, em que 𝑘 é a taxa. Essas análises permitem evidenciar o raciocínio proporcional envolvido na resolução das situações um para muitos, assim como a proporcionalidade como função. Na classe muitos para muitos (quarta proporcional - Figura 21) tem-se os problemas que na escola, geralmente, são resolvidos somente pela “regra de três”. Nestas situações, o valor da unidade é desconhecido, ou seja, o valor correspondente a taxa está implícito. Figura 21: Situações da Classe Muitos para Muitos Fonte: Elaborada pela autora com base em Silvestre (2012) O exemplo (Figura 22) mostra uma situação da classe muitos para muitos e resolução pelas análises escalar e funcional. Na resolução apresentada a esquerda há um operador escalar que transforma as quantidades do mesmo tipo. Já a resolução a direita utiliza a relação linear funcional entre os elementos correspondentes dos espaços de medidas. Figura 22: Exemplo situações muitos para muitos 3 novelos de lã pesam 200 gramas. São necessários 8 para fazer um pulôver. Qual vai ser o peso do pulôver? Fonte: Adaptado de Vergnaud (2009a, p. 240) Para resolver essa situação por meio da análise escalar o estudante pode buscar o valor correspondente a unidade (se 3 novelos correspondem a 200 g, então 1 novelo corresponde a 𝑥 g) e assim trabalharia com um escalar inteiro ou determinaria o número racional que permite solucionar a situação (que é a aplicação sucessiva de dois operadores ÷ 3 e × 8). Na análise funcional o operador 𝑓 desta situação é dado por 200 𝑔 3 𝑛𝑜𝑣𝑒𝑙𝑜𝑠. Segundo Vergnaud (2009a, p. 252) a “análise dessa correspondência em termos de função é, [...], muito mais delicada porque implica não somente a noção de relação numérica, mas também aquela de quociente de dimensões (no caso, gramas/novelos)”. Acredita-se que as dificuldades sublinhadas por Vergnaud (2009a) na utilização da análise funcional estão relacionadas, em especial, a identificação das estruturas centrais do conceito de função, a saber: variável, correspondência, dependência, regularidade e generalização (CARAÇA, 2003), imprescindíveis ao conceito de proporcionalidade, visto que este está presente no pensamento multiplicativo implícita ou explicitamente e faz parte do campo conceitual das funções. Para Pavan (2010) o conceito de multiplicação se constrói e ao mesmo tempo serve de apoio ao desenvolvimento das ideias básicas do conceito de função. Compreende-se que as concepções de Pavan (2010) são relevantes mas, para tanto, o pensamento funcional deveria ser abordado desde os Anos Iniciais do Ensino Fundamental e as situações propostas estariam voltadas para o tipo de variação e dependência das variáveis envolvidas, principalmente, nas situações proporcionais. Além disso, o trabalho com as representações auxiliares de transição, evidenciado por Duval (2011, 2012), por exemplo, tabular precisa ser intensificado, visto a importância destas representações para a compreensão dos enunciados dos problemas multiplicativos. A operação cognitiva, colocar em correspondência, indicada por Duval (2011, 2012) como uma das atividades mais importantes da Matemática, também é destacada por Correa e Spinillo (2009) como fundamental para solucionar problemas de natureza multiplicativa porque está relacionada as estratégias intuitivas utilizadas pelos sujeitos aprendizes na resolução das situações. Ressalta-se que na maioria das vezes as situações da classe muitos para muitos são trabalhadas apenas a partir do 7º ano. Contudo, pesquisadores (MERLINI, 2012; NUNES, 2010; OLIVEIRA, 2000, 2009; SANTOS, 2012) mostraram que estudantes de anos inferiores conseguem resolver, com sucesso, estes problemas sem recorrer a algoritmos. No que tange ao desempenho dos estudantes ao resolverem situações da classe muitos para muitos, Gitirana et al. (2014) realizaram um teste diagnóstico com 504 estudantes do Ensino Fundamental (2º ao 9º ano) das escolas públicas de São Paulo (SP), corroborando com os pesquisadores citados acima, mas mostrando que os melhores resultados são dos estudantes do 7º ano (65% de acertos). Infere-se que este resultado esteja relacionado a ênfase dada, neste ano, para as questões relacionadas a proporcionalidade. As situações que pertencem ao eixo comparação multiplicativa envolvem duas variáveis de mesma natureza que “são comparadas de forma multiplicativa por um escalar (razão ou relação) - sendo uma o referente e outra o referido” (GITIRANA et al., 2014, p. 45). Estas situações são propostas desde o início da escolarização quando os conceitos de dobro, metade, entre outros são trabalhados, principalmente, na introdução de número racional. As atividades requerem que o estudantes determinem, por exemplo, quanto é 1/3 de 24 balões. Nesta situação, a interpretação do número racional mobilizada é de operador multiplicativo (na subseção 2.3.2 há mais detalhes acerca desta interpretação do número racional). No eixo comparação multiplicativa há duas classes: referido desconhecido e relação desconhecida. Exemplificando: José tem o quádruplo da idade de seu filho, que tem 10 anos. Qual é a idade de José? Nesta situação (Figura 23), a idade do filho é o referente (informação necessária para se fazer a comparação), a idade de José é o referido (informação que é comparada) e o quádruplo representa a razão de comparação. Figura 23: Exemplo situações comparação multiplicativa Fonte: Elaborada pela autora com base em Vergnaud (2009a) A atividade (Figura 24) exemplifica uma situação relação/razão desconhecida. Nesta atividade, na letra 𝑎 é dado o referente (número de robôs - 6) e o referido (número de computadores - 2), é preciso determinar a relação/razão (quantas vezes o número de robôs é maior que o número de computadores). Já na letra 𝑏 é dado o referente (número de espaçonaves - 4) e o referido (número de computadores - 2), é preciso determinar a relação/razão (quantas vezes o número de espaçonaves é maior que o número de computadores). Figura 24: Exemplo de atividade envolvendo comparação multiplicativa – relação desconhecida Fonte: Livro didático do 2º ano Anos Iniciais (DANTE, 2011, p. 204) Outro aspecto, proposto por Vergnaud (2009a) para o ensino e aprendizagem de conceitos matemáticos acerca do campo das estruturas multiplicativas, que merece destaque é a noção de relação e de cálculo relacional. “A noção de relação é uma noção absolutamente geral. O conhecimento consiste, em grande parte, em estabelecer relações e organizá-las em sistemas”. (VERGNAUD, 2009a, p. 23). Para o pesquisador, a noção de cálculo relacional possibilita esclarecer e explicitara noção, “muito vaga”, de raciocínio, pois este tipo de cálculo envolve mais que operações usuais da matemática (cálculo numérico). Em outros termos, envolve também as operações de pensamento fundamentais para que a manipulação das relações envolvidas na situação seja possível (GITIRANA et al., 2014). Assim, ao escolher as situações o professor pode e deve levar em conta a classe de problemas, pois abordar a mesma classe, na maioria das vezes, prejudica o estudante na ampliação do seu conhecimento em relação ao cálculo relacional. Ao tratar de raciocínio, em específico, o raciocínio matemático, recorre-se as ideias de Oliveira (2009, p. 55, tradução nossa) que entende este como “uma atividade que permite as pessoas organizarem seu conhecimento, numa sequência lógica que lhes permite atingir uma conclusão, e, assim, produzir novos conhecimentos50”. Há diferentes tipos de raciocínios matemáticos mobilizados no fazer matemática, a saber: intuitivo (presente na produção da matemática, na formulação de novas conjecturas a serem testadas e validadas posteriormente); lógico-dedutivo (próprio da Álgebra e Geometria, baseado em suposições explícitas, está relacionado às provas de propriedades em todos os campos da Matemática); visão geométrico- espacial (relacionada ao entendimento da geometria e de suas aplicações); e, não-determinístico (ligado a estatística e a probabilidade) (BRASIL, 2014). Neste sentido, compreende-se que a materialização do cálculo relacional (raciocínio matemático) nas situações do campo das estruturas multiplicativas pode se dar por meio da representação auxiliar de transição, representação tabular. Esta representação auxiliar contribui na conversão dos demais registros (numérico, algébrico, gráfico), discriminando as unidades de sentido do conteúdo das representações, proporcionando a aquisição do conceito de proporcionalidade e o desenvolvimento do raciocínio proporcional. Entende-se que as discussões já mencionadas sobre aprendizagem matemática, na perspectiva de Duval (2004, 2011, 2012), e as problematizações da natureza multiplicativa do raciocínio proporcional e da proporcionalidade, sob a ótica de Vergnaud (1993, 1996, 2009a), ainda, exigem aproximações e, principalmente, diferenças no que tange a gama de conceitos matemáticos a eles relacionados, principalmente, relações com os números racionais. Assim, na próxima seção apresenta-se as ideias de Lamon (2007, 2008) para o desenvolvimentos do raciocínio proporcional e aquisição do conceito de proporcionalidade.