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Abdome Agudo I Hipótese Diagnóstica: Úlcera perfurada - Para chegar a um diagnóstico é necessário descrever a dor abdominal (início, localização, tipo, intensidade, evolução, migração, sintomas associados...) e exame físico detalhado. Hipótese Diagnóstica: Apendicite - Paciente com uma evolução mais longa do que o 1º caso. Exame físico simples, mas bem feito. Giovanna Lopes Hipótese Diagnóstica: Gravidez Ectópica ou Cisto Ovariano Hemorrágico - A dor já começou na FID (não migrou pra lá) e irradiou para toda a pelve. Evolução mais curta e história de choque. - Apenas dizer que tem dor abdominal e vômito não quer dizer nada. É necessário ter mais características clínicas para fechar um diagnóstico. - A caracterização da dor abdominal, a cronologia e sintomas associados + exame físico adequado é importante para fechar o diagnóstico. - O diagnóstico de Abdome Agudo é clínico na maioria dos casos, mas isso só será possível com uma história adequada e um exame físico adequado. Definição: - Abdome Agudo é uma síndrome abdominal dolorosa aguda não traumática (a dor começou sozinha), de intensidade variável (leve, moderada e intensa), que leva o doente a procurar assistência médica de urgência (o paciente já fez de tudo e a dor não melhorou), e requer avaliação e tratamento imediato, seja clínico ou cirúrgico, do contrário evolui para piora dos sintomas e progressiva deterioração do estado geral, podendo culminar com o óbito. - É basicamente uma dor de barriga bem forte. - O tratamento imediato pode ser clínico (ITU) ou cirúrgico (apendicite), mas a avaliação dele deve ser imediata. Mesmo se for cirúrgico, o paciente primeiro passa no clínico geral (que deve atender e encaminhar corretamente para o cirurgião). Noções básicas: - O AA é um problema diário no pronto atendimento (todo mundo que for trabalhar na urgência vai ter sempre contato com AA, independente da especialidade). - História e exame físico (ambos bem feitos e detalhados) correspondem a 80% dos diagnósticos. - Os 20% que restam de dúvida no diagnóstico, será necessário lançar mão de exames complementares (hemograma, PCR, radiografia, USG, EAS...). Esses recursos diagnósticos são amplamente disponíveis. - Alto índice de suspeição sempre fazer múltiplos diagnósticos diferenciais. Por exemplo, um paciente com dor abdominal de início súbito, muito intensa, devemos pensar que pode ser uma cólica nefrética, uma úlcera perfurada, uma pancreatite aguda, um aneurisma roto de aorta... Quanto maior o número de diagnóstico diferencial, maior a probabilidade de fechar o diagnóstico do paciente. - Nem sempre será possível fechar o diagnóstico 100%. Muitas vezes só será possível fechar o diagnóstico com internação e observação clínica ou com laparotomia exploradora. Tudo isso para saber se o paciente tem uma dor de tratamento clínico ou de tratamento cirúrgico. Por exemplo, um paciente tem uma dor com irritação peritoneal difusa, mas o paciente não sabe informar de forma adequada; não se sabe o que ele tem, mas ele está agravando, provavelmente é cirúrgico, faz-se uma laparotomia exploradora e dá o diagnóstico durante a cirurgia. - Lembrar que o abdome é uma caixinha de surpresas. Muitas vezes, o cirurgião vai operar achando que é uma coisa, e quando ele abre o paciente, é outra coisa. Com isso, a abordagem clínica do abdome agudo é de extrema importância. Quanto mais detalhado for a história clínica e o exame físico do paciente, maior a probabilidade de se acertar o diagnóstico. Que patologias podem evoluir com dor abdominal?: - O abdome é uma região com vários órgãos, então existe uma infinidade de patologias possíveis que podem evoluir com dor abdominal. - Trato Gastrointestinal: Apendicite, obstrução intestinal, perfurações, hérnias internas, diverticulite, doenças inflamatórias intestinais (Retocolite ulcerativa inflamatória, Doença de Crohn), intussuscepção, gastroenterocolite aguda, adenite mesentérica, abscessos, volvo sigmoide... - Fígado e vias biliares: Colecistite, colangite, abscessos, ruptura de tumor hepático, cólica biliar, hepatite... - Pâncreas: Pancreatite aguda. - Trato urinário: cólica ureteral e renal, pielonefrite, cistite. - Ginecológicas: Gravidez tubária rota, cisto ovariano roto, torção de ovário, salpingite, DIP (normalmente são secundárias a ISTs. Por exemplo, a mulher tem contato com a bactéria da gonorreia, inicialmente faz uma vaginite, a infecção ascende pelo trato genital interno, faz uma endometrite, depois faz uma salpingite, pode evoluir com um abscesso de tuba uterina, o pus começa a vazar para a cavidade abdominal, evoluindo com uma peritonite. Muitas vezes o tratamento é clínico, mas quando já tem peritonite, o tratamento passa a ser cirúrgico), endometriose... - Vasculares: Ruptura de aneurisma de aorta abdominal, colite isquêmica, trombose/isquemia mesentérica. - Outros: Peritonites, psoíte (inflamação ou abscessos), iatrogenias (por exemplo, uma perfuração intestinal por conta de uma colonoscopia), diabetes descompensada, insuficiência renal crônica, uremia, herpes zoster, hematoma de reto abdominal, anemia falciforme, tuberculose na coluna vertebral, intoxicação por chumbo, mordedura de animal peçonhento, pneumonia em crianças principalmente (igual apendicite)... - Ao invés de aprender milhões de diagnósticos, é mais fácil classificar nas síndromes de AA. Abdome Agudo Inflamatório (qualquer doença que evolua com processo inflamatório ou infeccioso). Possui dor abdominal geralmente em cólica, gradativa, evolução arrastada, acompanha febre, pode ter irritação peritoneal ou não, Diagnóstico: DIP (a paciente é mulher, tem febre, tem leucorreia amrelada, tem dispaurenia com, no mínimo, uma vaginite, tem disúria – muito comum da DIP, é uma dor gradativa, dura poucos dias...). - Dor que começa leve e piora aos poucos. - Tudo quanto é dor abdominal faz náuseas e vômitos (pior ainda quando é criança) – muito inespecífico. - Evolução mais arrastada (2 dias). - Dor à palpação profunda. Principalmente no início do quadro é uma dor que consegue ser bem localizada no órgão acometido. - Esse tipo de AA pode ter irritação peritoneal ou não. - Exemplos de AAI: Apendicite aguda, gastroenterocolite aguda (infecção intestinal), diverticulite aguda, pancreatite aguda, infecção urinária, DIP e salpingite, colecistite aguda, adenite mesentérica (linfadenite. É comum em doenças virais sistêmicas em crianças, principalmente. Por exemplo, uma virose sazonal em crianças, faz uma infecção viral sistêmica, pode evoluir com linfadenite em várias partes do corpo – linfonodo doloroso e palpável na região cervical, inguinal, axilar e intrabdominal. Boa parte desses linfonodos se localizam próximos ao quadrante inferior direito. Com isso, a adenite mesentérica faz diagnóstico diferencial com apendicite aguda em crianças), abscessos e coleções intrabdominais. Salpingite numa menina de 12 anos de idade. Trompa direita aumentada de volume e com sinais fluogísticos. Foi pra cirurgia com diagnóstico de apendicite aguda e quando abriram o apêndice estava normal. Havia pus dentro da trompa -> abscesso de tuba uterina (distúrbio ovariano secundário à DIP, provavelmente gonorreia). Abdome Agudo Obstrutivo (É qualquer obstrução intestinal mecância. Dor tipo cólica – peristalse intestinal mais aumentada, ausência de eliminação de gases e fezes, abdome distendido, RHA aumentados (nos primeiros dias), vômitos fecaloides... Com a obstrução, o intestino aumenta a peristalse antes do local obstruído para tentar vencer a obstrução – peristalse de luta. Posteriormente, os RHA podem diminuir) Diagnóstico: Obstrução Intestinal (investigar a causa da obstrução). - Não é uma dor localizada, é uma dor difusa pelo abdome. - Evolução mais longa (5 dias). - RHA aumentados em qualquer área do abdome, às vezes nem precisa de estetoscópiopara escutar. - Principais causas do AAO: Obstrução por bridas e aderências (sempre analisar se houve cirurgias prévias), hérnias internas, hérnias encarceradas (por exemplo, uma hérnia inguinal com obstrução de uma alça intestinal), intussuscepção (é quando o intestino entra dentro dele mesmo. Normalmente acontece quando o íleo entra por dentro do cólon ascendente. Também pode ser observado em bebês de 2 a 4 meses de idade), neoplasias (pacientes mais idosos), bolo de áscaris (principalmente em crianças), volvo intestinal, ingesta de corpos estranhos. Intestino distendido, cheio de líquido e gás. Muitas vezes o paciente chega com obstrução intestinal muito grande e quando abre o abdome o intestino vem todo pra fora. Imagem de videolaparoscopia mostrando o que são essas bridas e aderências. São típicos de pós-operatório. Muitas vezes, essas bridas e aderências com a parede abdominal podem acotovelar e gerar a obstrução intestinal. Abdome Agudo Vascular (É uma isquemia de órgãos abdominais de origem vascular. É uma dor insuportável e não melhora com tratamento farmacológico). Diagnóstico: Isquemia Mesentérica (é como se fosse um “infarto mesentérico”. É uma oclusão vascular da artéria mesentérica superior. Também chamado de “Trombose Mesentérica”) - Pouco tempo de evolução (6h). A dor não passou com nenhum remédio. Não deu nem tempo de ter sintomas associados de tão rápido que ele chegou no PS. Não tem inflamação, pois não deu tempo. - Se fosse o paciente com o mesmo quadro clínico, mas com a dor no precórdio, já pensaríamos em IAM (obstrução das coronárias causando necrose no local onde irrigam). O raciocínio é o mesmo: é uma dor intensa e rápida, só que no abdome, com oclusão vascular da artéria mesentérica superior que irriga todo o intestino delgado e o começo do cólon, tudo acaba entrando em isquemia, evoluindo com necrose no caso de demora do tratamento. - Quando é aneurisma, existe uma massa pulsátil e palpável. - Causas do AAV: Isquemia Mesentérica e torção de ovário. O paciente tinha um divertículo de Meckel. O intestino herniou por baixo desse divertículo e fez isquemia. Ovário de uma paciente que tinha um cisto muito grande. Geralmente, os ovários torcem porque pesam em razão de haver um cisto muito volumoso ou tumor. Muito comum em adolescentes e mulheres jovens. Abdome Agudo Perfurativo (Qualquer perfuração de víscera oca. Evolução muito rápida com uma dor abdominal muito intensa, abdome rígido e impalpável, com irritação peritoneal). Diagnóstico: Úlcera Péptica Perfurada (dor em queimação – estômago, foi ácido clorídrico para todo o abdome. - A dor é tão intensa que o paciente chega no PS com poucas horas de evolução. - A diferença para o Abdome Agudo Vascular é que no AAV não há irritação peritoneal. Já no Abdome Agudo Perfurativo há irritação em todo o abdome em poucas horas de evolução. - Principais exemplos de AAP: Úlcera péptica perfurada, perfuração por corpo estranho, perfuração intestinal, iatrogenias (principalmente secundárias a exames endoscópicos). Abdome Agudo Hemorrágico (Qualquer doença que evolua com sangramento intra-cavitário = hemorragia interna. A paciente tem uma hemorragia não traumática e espontânea) Diagnóstico: Gravidez Ectópica, Cisto Ovariano roto... - A paciente não esperou muito tempo para ir ao PS. Evolução curta (12h). - Deveria ter sido perguntado a história menstrual dela (paciente feminino, jovem, com dor pélvica). - A paciente tem sinais de choque (provavelmente choque hemorrágico por conta da palidez). O que levou a paciente ao PS não foi a dor, pois a dor é moderada, mas sim os sinais do choque. - Há uma irritação peritoneal, mas de fraca intensidade. Isso causa muita dúvida se o Blumberg dela é positivo ou não. A irritação peritoneal é duvidosa nesses casos porque o sangue não é um bom irritante do peritônio (diferente do ácido clorídrico no AAP). - Principais causas do AAH: Gravidez tubária rota (o ovo fecundado nida na tuba uterina, cresce e rompe a tuba com cerca de 8 a 10 semanas de gravidez, evoluindo com hemorragia intra-abdominal), cisto ovariano hemorrágico, ruptura de tumor hepático. Dicas Gerais: - O diagnóstico é iminentemente clínico (história + exame físico). - O sintoma guia é a dor, então é necessário esmiuçar as características dessa dor (quando começou, como começou, localização, tipo, migração, evolução e intensidade). - O diagnóstico exato nem sempre é necessário (muita das vezes não sabemos o que o paciente tem, mas existem alterações no exame físico que dizem que aquela dor provavelmente é de tratamento cirúrgico ou clínico. Por exemplo, se o paciente tem irritação peritoneal, o paciente provavelmente terá tratamento cirúrgico; mas se o paciente não tem irritação peritoneal, pode ser tratamento cirúrgico ou clínico). - Análise minuciosa da história. - No exame físico, a coisa principal que vamos procurar é a localização dessa dor e se tem irritação peritoneal ou não. - Primeiramente fazer um diagnóstico sindrômico e depois partir para um diagnóstico etiológico.