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Welma Maia • Livres Rocha • Ernani Pimentel • Márcio Wesley • Luzia Pimenta Edgard Antônio Lemos Alves • Gustavo Alves • Wagner Miranda • Marcus Palomo Fabrício Sarmanho • Eduardo Muniz Machado Cavalcanti • Saulo Fontana • Raquel Mendes de Sá Ferreira • Marcelo Andrade • Samantha Pozzer Kühleis 2018 Direitos Humanos • Língua Portuguesa • Noções de Criminologia • Noções de Direito Administrativo • Noções de Direito Civil • Noções de Direito Constitucional • Noções de Direito Penal • Noções de Direito Processual Penal • Noções de Informática Noções de Medicina Legal . © 2018 Vestcon Editora Ltda. Todos os direitos autorais desta obra são reservados e protegidos pela Lei nº 9.610, de 19/2/1998. Proibida a reprodução de qualquer parte deste material, sem autorização prévia expressa por escrito do autor e da editora, por quaisquer meios empregados, sejam eletrônicos, mecânicos, videográficos, fonográficos, reprográficos, microfílmicos, fotográficos, gráficos ou outros. Essas proibições aplicam-se também à editoração da obra, bem como às suas características gráficas. Título da obra: Polícia Civil de Minas Gerais - PC-MG Escrivão de Polícia I – Nível Superior Atualizada até 6-2018 (AP589) (De acordo com o Edital nº 02/2018, de 05 de julho de 2018 – Fumarc) Direitos Humanos • Língua Portuguesa • Noções de Criminologia • Noções de Direito Administrativo Noções de Direito Civil • Noções de Direito Constitucional • Noções de Direito Penal Noções de Direito Processual Penal • Noções de Informática • Noções de Medicina Legal Autores: Welma Maia • Livres Rocha • Ernani Pimentel • Márcio Wesley Luzia Pimenta • Edgard Antônio Lemos Alves • Gustavo Alves • Wagner Miranda Marcus Palomo • Fabrício Sarmanho • Eduardo Muniz Machado Cavalcanti • Saulo Fontana Raquel Mendes de Sá Ferreira • Marcelo Andrade • Samantha Pozzer Kühleis GESTÃO DE CONTEÚDOS Tatiani Carvalho PRODUÇÃO EDITORIAL Érida Cassiano REVISÃO Tamires Campos Ylka Ramos EDITORAÇÃO ELETRÔNICA Adenilton da Silva Cabral Marcos Aurélio Pereira www.vestcon.com.br . PARABÉNS. VOCÊ ACABA DE ADQUIRIR UM PRODUTO QUE SERÁ DECISIVO NA SUA APROVAÇÃO. Com as apostilas da Vestcon Editora, você tem acesso ao conteúdo mais atual e à metodologia mais eficiente. Entenda por que nossas apostilas são líderes de preferência entre os consumidores: • Todos os nossos conteúdos são preparados de acordo com o edital de cada concurso, ou seja, você recebe um conteúdo customizado, direcionado para os seus estudos. • Na folha de rosto, você pode conferir os nomes dos nossos autores. Dessa forma, comprovamos que os textos usados em nossas apostilas são escritos exclusivamente para nós. Qualquer reprodução não autorizada desses textos é considerada cópia ilegal. • O projeto gráfico foi elaborado tendo como objetivo a leitura confortável e a rápida localização dos temas tratados. 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A Constituição Brasileira de 1988 ........................................................................................................................................ 45 Noções gerais sobre direitos humanos ................................................................................................................................. 3 Gerações de direitos humanos .............................................................................................................................................. 8 A Constituição Brasileira de 1988 e os Tratados Internacionais de Proteção dos Direitos Humanos ...............................38 O Sistema Internacional de Proteção dos Direitos Humanos ............................................................................................. 11 O Sistema Internacional de Proteção dos Direitos Humanos e a Redefinição da Cidadania no Brasil ..............................26 A Constituição Brasileira de 1988: Dos princípios fundamentais. A Constituição Brasileira de 1988: Dos Direitos e Garantias Fundamentais. Dos direitos e deveres individuais e coletivos. Dos direitos sociais. Da nacionalidade. Dos direitos políticos. Dos partidos políticos ..............................................................................................................................................................* Direitos humanos das minorias e grupos vulneráveis ........................................................................................................ 86 Política nacional de direitos humanos ................................................................................................................................ 46 * Este conteúdo encontra-se na matéria Noções de Direito Constitucional, nesta apostila. SUMÁRIO Direitos Humanos PC-MG . . 3 D IR eI TO S H U M A N O S Direitos Humanos Welma Maia / Livres Rocha Welma Maia TeORIA GeRAL DOS DIReITOS HUMANOS Conceito Atualmente, a definição consagrada na doutrina é a de Antônio Peres Luño1, que compatibilizando a evolução his‑ tórica dos direitos humanos com a necessidade de definição de seu conteúdo, considera direitos humanos. o conjunto de faculdades e instituições que, em cada momento histórico, concretizam as exigências de dignidade, liberdade e igualdade humanas, as quais devem ser reconhecidas positivamente pelos orde‑ namentos jurídicos em nível nacional e internacional. Para o autor, há três tipos de definições sobre o que são os direitos humanos. O primeiro tipo seria a definição dita tautológica, ou seja, a que não aporta nenhum elemento novo que permite caracterizar tais direitos. Assim, seria um exemplo desse tipo de definição a conceituação dos direitos humanos como sendo aqueles que correspondem ao homem pelo fato de ser homem.2 Todavia, como se sabe, todos os direitos são titularizados pelo homem ou por suas emanações (as pessoas jurídicas), de modo que a definição acima citada encerra uma certa petição de princípio. Um segundo tipo de definição seria aquela dita formal, que, ao não especificar o conteúdo dos direitos humanos, limita-se a alguma indicação sobre o seu regime jurídico especial. Esse tipo de definição consiste em estabelecer que os direitos humanos são aqueles que pertencem ou devem pertencer a todos os homens e que não podem ser deles privados, em virtude de seu regime indisponível e sui generis. Por fim, há ainda a definição finalística ou teleológica, na qual se utiliza objetivo ou fim para definir o conjunto de direitos humanos, como, por exemplo, na definição que estabelece que os direitos humanos são aqueles essenciais para o desenvolvimento digno da pessoa humana. Para Dallari 3 os direitos humanos representam “uma forma abreviada de mencionar os direitos fundamentais da pessoa humana. Esses direitos são considerados fundamentais por‑ que sem eles a pessoa humana não consegue existir ou não é capaz de se desenvolver e de participar plenamente da vida”. Também é relevante a definição já tradicional de Peces‑ -Barba4, para quem os direitos humanos são faculdades que o Direito atribui a pessoas e aos grupos sociais, expressão de suas necessidades relativas à vida,liberdade, igualdade, participação política, ou social ou a qualquer outro aspecto fundamental que afete o desenvolvimento integral das pessoas em uma comunidade de homens livres, exigindo o respeito ou a atuação dos demais homens, dos grupos sociais e do Estado, e com garantia dos poderes públicos para restabelecer seu exercício em caso de violação ou para realizar sua prestação. 1 PERES LUÑO, Antônio. Derechos humanos, Estado de derecho y Constitución. 5. ed. Madrid: Tecnos, 1995, p. 48. 2 TRUYOL Y SERRA, Antônio. Los derechos humanos. Madrid: Tecnos, 1994, p. 11. 3 DALLARI, Dalmo de Abreu. Direitos humanos e cidadania. São Paulo: Moderna, 1998. 4 PECES-BARBA MARTÍNEZ, Gregorio et al. Derecho positivo de los derechos humanos. Madrid: Debate, 1987, p. 14-15. Terminologia Quanto à terminologia, vários são as expressões uti‑ lizadas: “direitos naturais”, “direitos humanos”, “direitos fundamentais”, “liberdades públicas”, “direitos do cidadão”, “direitos da pessoa humana”, “direitos do homem”, “direitos civis”, “direitos individuais”, “direitos fundamentais”, “direitos públicos subjetivos”. A que mais se disseminou, todavia, é Direitos Humanos”. Canotilho5 envidou esforços para distinguir várias dessas expressões, examinando-as aos pares e chegando, entre outras, às seguintes conclusões: • Direitos do homem e Direitos do Cidadão – distinção presente na ‘Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão’ de 1789, editada como corolário da Revolução Francesa, segundo a qual os Direitos do Homem são direitos individuais, pertencendo-lhe “enquanto tal”, ou seja, são inerentes à condição humana, ao passo que os Direitos do Cidadão são direitos políticos, que pertencem ao homem “enquanto ser social, isto é, como indivíduo vivendo em sociedade” e perante o Estado; • Direitos Naturais e Direitos Civis – distinção próxima da anterior, encontrada no Título I da Constituição France‑ sa de 1791, consoante a qual os Direitos Naturais são inerentes ao indivíduo e os Direitos Civis são os que lhe cabem enquanto cidadão, encontrando- se proclamados nas constituições e leis infraconstitucionais; • Direitos Políticos e Direitos Individuais – entre os Direitos Civis destacam-se de um lado, os Direitos Polí‑ ticos, correspondentes a uma parcela atribuída apenas a determinados grupos de indivíduos, dotando-os de aptidão para “tomar parte ativa na formação dos po‑ deres públicos”; o que remanesce, naquela categoria, depois de apartados dela os Direitos Políticos, são os Direitos Individuais; • Direitos e Liberdades Públicas – os Direitos Civis admi‑ tem, ainda, um outro tipo de categorização, que coloca, de um lado, as Liberdades Públicas, consistentes em direitos dos indivíduos contra a intervenção do Estado (e são conhecidos como ‘direitos negativos ou direitos de negação), e de outro, simplesmente os Direitos (ou “direitos positivos’), que conferem ao indivíduo status ativo frente ao Estado, quer porque tenha a prerrogativa de participar ativamente na vida política (direito de votar e a ser votado), que porque goze da possibilidade de exigir as ‘prestações ao desenvolvimento pleno da exis‑ tência individual (denominados ‘direitos à prestação’). Seguindo a tendência das provas de concurso, nesse estudo adota-se a designação Direitos Humanos (em sentido lato), ao direitos inerentes à condição humana e, que por este motivo, independem de norma positiva; direitos internacio‑ nais, ou direitos humanos em sentido estrito, os direitos hu‑ manos contemplados em tratados internacionais; e direitos humanos fundamentais, ou direitos fundamentais, àqueles assegurados, dentro do ordenamento jurídico interno, pelas autoridades político-legislativas de cada Estado-nação. 5 CANOTILHO, J.J. Gomes. Direito constitucional e teoria da constituição. 7. Ed. Coimbra: Almeidina, 2003. p. 393-398. . 4 D IR eI TO S H U M A N O S Para memorizar: Direitos Humanos (em Sentido Lato) Direitos Humanos Internacionais ou Direitos Humanos em sentido estrito Direitos Humanos Fundamentais ou Direitos Fundamentais A estrutura das Normas de Direitos Humanos Os direitos humanos apresentam uma característica peculiar: têm, frequentemente, uma formulação normativa aberta. De fato, as normas com textura aberta de direitos humanos são comuns, sendo raras as formulações estritas.6 Segundo Alexy7, em construção já muito conhecida, a estrutura do ordenamento jurídico é dividida entre regras e princípios. As regras correspondem a enunciados jurídicos tradicionais, nos quais consta um pressuposto de fato e uma consequência jurídica. “Aquele que matar outrem deve ser preso” é um exemplo básico de regra. Os princípios são, por seu turno, mandamentos de otimização de um determinado valor ou bem jurídico, ordenando que esse valor ou bem jurídico seja realizado na maior medida do possível. Assim, a norma “todos têm direito a processo com dura‑ ção razoável e a um juízo imparcial, sujeito ao duplo grau de jurisdição” possui uma estrutura de princípio. Não há aqui um pressuposto de fato, pois não há uma definição suficien‑ temente precisa de um tipo de situação na qual podem se achar pessoas ou coisas e tampouco há uma consequência jurídica clara. Além das diferenças de enunciados, as regras distinguem‑ -se dos princípios também no momento da aplicação. Com efeito, as regras são aplicadas a partir da técnica da subsun‑ ção, que consiste em determinar se o caso concreto ajusta-se ou não ao pressuposto fático do enunciado jurídico. Caso a resposta seja positiva (não que tal operação seja simples, podem existir dúvidas quanto à autoria do homicídio do exemplo visto acima etc.), aplica-se à consequência jurídica. Por outro lado, os princípios são aplicados mediante a técnica da ponderação, que não acata a lógica do “tudo ou nada” das regras (ou o caso concreto se subsume ou não), mas sim responde à lógica do “mais ou menos”, que consiste na busca da maior otimização do valor ou bem jurídico nele contido, na medida das possibilidades do caso concreto. As vaguezas e a indeterminabilidade dos enunciados contidos nos princípios também excluem a possibilidade de uso da técnica de subsunção. Também cabe lembrar que a estrutura dos direitos humanos é majoritariamente formada por princípios, mas há regras de direitos humanos, como, por exemplo, a regra de exigência de ordem judicial ou flagrante delito para que alguém seja preso. A diferenciação das normas de direitos humanos em princípios e regras, como ensina Alexy, é essencial para a compreensão do papel dos direitos humanos em um orde‑ 6 DIEZ-PICAZO, Luis Maria. Sistema de derechos fundamentales. Madrid: Thomson-Civitas, 2003, p. 39. 7 RAMOS, André de Carvalho. Teoria geral dos direitos humanos na ordem inter‑ nacional. 2. ed. — São Paulo: Saraiva, 2012, p. 29 apud ALEXY, Robert. Teoría de los derechos fundamentales. Centro de Estudios Constitucionales, Madrid, 1997, e também, em especial, a análise complementar do próprio Alexy à sua teoria em ALEXY, Robert. “Epílogo a la Teoría de los Derechos Fundamentales”, 66 Revista Española de Derecho Constitucional (2002), p. 43-6. namento, bem como é peça chave na análise da limitação e na colisão dos direitos humanos. A estrutura principiológica das normas de direitos humanos exige o estudo da concre‑ tização judicial e de seus instrumentos (como o princípio da proporcionalidade e a ponderação de interesses), para auxiliar o intérprete na solução dos casos concretos.8 Fundamentação dos Direitos Humanos A despeito da diversidade terminológica, os diferentes pontos de vista convergem em apresentar, como eixo central dos direitos humanos, a dignidade da pessoa humana. Para a doutrina este tema é complexo e abstrato, envol‑ vendo conceitos históricos e discussões filosóficas. Bobbio sustenta ser impossível a fundamentação (justi‑ ficativa) absoluta dos direitos humanos por diversas razões. Para o citado jurista italiano, o problema básico em relação aos direitos do homemnão é sua fundamentação, mas sim sua efetivação. O problema fundamental em relação aos direitos do homem, hoje, não é tanto o de justificá-los, mas o de protegê-los. Trata-se de um problema não filosófico, mas político.9 Bobbio afirma que os direitos humanos constituem uma classe de direitos variável, conforme nos mostra a evolução de seu rol. O rol de direitos humanos modificou-se e é lícito afirmar que alguns direitos que sequer são defendidos hoje podem, amanhã, ser considerados como integrantes da ca‑ tegoria de “direitos humanos”, ou mesmo que haja exclusões dessa categoria. Logo, seria impossível fundamentar de modo unívoco os direitos humanos, pois cada contexto histórico possuiria sua própria “fundamentação”. Os direitos humanos constituem-se também em uma categoria heterogênea, contendo pretensões muitas vezes conflitantes, a exigir a ponderação de interesses no caso concreto. Diante de tais conflitos, identificar um fundamento único, absoluto, poderia, na visão de Bobbio, até servir de pretexto para impedir a evolução do rol dos direitos humanos. Em breve síntese, veremos as principais correntes que buscam fundamentar os direitos humanos. Os Jusnaturalistas Visão Jusnaturalista Religiosa Com antecedentes na Idade Antiga, mas desenvolvida na Idade Média por São Tomás de Aquino, a visão jusnaturalista 8 RAMOS, André de Carvalho. Teoria geral dos direitos humanos na ordem internacional. 2. ed. — São Paulo: Saraiva, 2012, p. 29. 9 BOBBIO, Norberto. A era dos direitos (trad. Carlos Nelson Coutinho) São Paulo: Campus, 1992, p. 24), apud, Ramos, André de Carvalho. Teoria geral dos direitos humanos na ordem internacional - 2. ed. -São Paulo: Saraiva, 2012. . 5 D IR eI TO S H U M A N O S de cunho religioso prega que a lei humana só detém validade se conforme a lei divina, a qual salvaguarda interesses básicos ligados à existência humana, os quais por sua vez, vigoram e prevalecem sobre eventuais normas positivadas pelo homem e consigo desconformes. Visão Jusnaturalista Racional ou Contratualista Adotada já na Idade Moderna, com Hugo Grotius, precursor do Direto Internacional, e nos séculos seguintes, desenvolvida de pelos iluministas contratualistas (tais como Locke e Rousseau), a visão jusnaturalista racional apresenta uma versão laica do fundamento dos direitos humanos, desatrelando-o das leis divinas e vinculando-o à razão huma‑ nam entendida como o traço da natureza do Homem (não mais como dom de Deus) que o distingue dos demais seres vivos; assim, é inerente à condição humana a vigência de direitos apreensíveis pela razão, decorrentes do pressuposto Contrato Social (pactuação coletiva que dá poderes limitados de organização ao Estado, em nome do em comum) e tidos por naturais porque independem da positivação pelos ho‑ mens, cuja validade se perquire em face do direito natural. Os Positivistas Ao contrário das concepções jusnaturalistas, a visão positivista nega a ideia de pré-existentes ao direito positivo, fazendo prevalecer a compreensão segundo a qual direito válido é aquele reconhecido pelo Estado como tal. Para a Escola positivista, o fundamento dos direitos humanos consiste na existência da lei positiva (também conhecida como direto posto), cujo pressuposto de valida‑ de está em sua edição conforme as regras estabelecidas na Constituição. Assim, os direitos humanos justificam-se graças a sua validade formal. O problema é quando a lei for omissa ou mesmo contrária à dignidade da pessoa humana, caso em que a proteção dos direitos humanos restará prejudicada. Para Fábio Konder Comparato, “é justamente aí que se põe, de forma aguda, a questão do fundamento dos direitos humanos, pois a sua validade deve assentar-se em algo mais profundo e permanente que a ordenação estatal, ainda que esta se baseie numa Constituição”.10 Hart, com concisão, assinala que a divergência entre os jusnaturalistas e os positivistas não reside no reconheci‑ mento ou não da existência de certos princípios de moral e justiça passíveis de revelação pela razão humana (mesmo que tenham origem divina). A divergência entre as duas Escolas jurídicas reside, sim, na defesa, pela Escola Jusnaturalista, da superioridade dos princípios de moral e justiça em face de leis incompatíveis. Para os positivistas, esses princípios de justiça não pertencem ao ordenamento jurídico, inexistindo qualquer choque ou antagonismo entre a lei posta e a Moral. Para Hart, a Moral pode sim influenciar a formação do Direito no momento da produção legislativa e também no momento do desempenho da atividade judicial.11 10 COMPARATO, Fábio Konder. “Fundamentos dos direitos humanos”, Revista Consulex, v. 48, dez. 2000, p. 43 11 Hart denomina essas regras de determinação do direito de regras de reco‑ nhecimento, de acordo com as quais o ordenamento jurídico é formado por normas primárias e por normas secundárias, sendo as primeiras as que contêm direitos e obrigações, e as segundas aquelas que contêm os procedimentos para produzir ou concretizar as normas primárias, o que inclui as normas procedimentais pelas quais os julgadores determinam o direito aplicável ao caso concreto (HART, Herbert L. A. O conceito de direito. 2. ed. (trad. A. Ribeiro Mendes). Lisboa: Fundação C. Gulbenkian, 1994, p. 104 e 142). A Fundamentação Moral O conceito de direitos morais, aprofundado por Dworkin12, consiste no conjunto de direitos subjetivos ori‑ ginados diretamente de valores (contidos em princípios), independentemente da existência de prévias regras postas. Utilizando tal conceito, podemos ver que os direitos humanos podem ser considerados direitos morais que, por definição, não aferem sua validade por normas positivadas, mas diretamente de valores morais da coletividade humana. Para o citado autor, a moralidade integra o ordenamento jurídico por meio de princípios mesmo que não positivados. Princípios são, segundo esse autor, exigências de justiça, de equidade ou de qualquer outra dimensão da moral. Dworkin demonstra que, nos chamados casos-limite ou hard cases, quando os intérpretes debatem e decidem em termos de direitos e obrigações jurídicas, são utilizados padrões que não funcionam como regras, mas trabalham com princípios. Quando se afirma que os intérpretes empregam princí‑ pios e não regras, está a se admitir que são duas as espécies de normas, cuja diferença é de caráter lógico. Um princípio não determina as condições que tornam sua aplicação ne‑ cessária. Ao revés, estabelece uma razão (fundamento) que impele o intérprete numa direção, mas que não reclama uma decisão específica, única. Daí acontecer que um princípio, numa determinada situação, e frente a outro princípio, pode não prevalecer – o que não quer significar que ele perca a sua condição de princípio. Assim, as normas de condutas são originadas de reflexões morais contidas nos princípios de qualquer ordenamento jurídico. Os direitos morais são mais do que exigências éti‑ cas oriundas do jusnaturalismo. São títulos, na acepção de pretensão, que permitem exercer direitos. Nino13, por sua vez, sustenta que é na aplicação do direito que os princípios de justiça e moralidade são invocados pelo julgador. A diferença entre o jusnaturalismo clássico e esse novo positivismo é que se determina o Direito não somente pelas fontes formais, mas também em sua aplicação.Com isso, os direitos humanos definem-se como direitos morais, ou seja, como exigências éticas, que compõem os princípios do ordenamento.14 Há assim uma fundamentação ética dos direitos hu‑ manos, que consiste no reconhecimento de condições im‑ prescindíveis para uma vida digna e que se entroniza como princípio vetor do ordenamento jurídico. Assim, as necessidades humanas são razões justificatórias e argumentativas para que se possa incidir o regramento jurídico especial do conjunto de direitos humanos. Ou, no dizer de Añon Roig, são argumentos que apoiam uma res‑ posta jurídico-normativa às demandas queexigem algo, que pode ser tanto o estabelecimento de um direito positivado ou uma nova técnica positiva de proteção.15 Assim, a fundamentação dos direitos humanos como direitos morais busca a conciliação entre os direitos humanos entendidos como exigências éticas ou valores e os direitos humanos entendidos como direitos positivados. 12 DWORKIN, Ronald. Uma questão de princípio. São Paulo: Martins Fontes, 2000, p. 90. 13 RAMOS, André de Carvalho. Teoria geral dos direitos humanos na ordem internacional. 2. ed. — São Paulo: Saraiva, 2012, p. 35 apud Carlos Santiago Nino (NINO, Carlos Santiago. Ética y derechos humanos: un ensayo de funda‑ mentación. Barcelona: Ariel, 1989, p. 16-21). 14 RAMOS, André de Carvalho. Teoria geral dos direitos humanos na ordem inter‑ nacional. 2. ed. — São Paulo: Saraiva, 2012, apud, Carlos Santiago Nino (NINO, Carlos Santiago. Ética y derechos humanos: un ensayo de fundamentación. Barcelona: Ariel, 1989, p. 16-21. 15 ANÕN ROIG, Maria José. “Fundamentación de los Derechos Humanos y Nece‑ sidades Básicas”, in BALLESTEROS, Jesús. Derechos humanos. Madrid: Tecnos, 1992, p. 100-115, em especial p. 113. . 6 D IR eI TO S H U M A N O S Os Negacionistas Há ainda quem negue a possibilidade de se identificar, com exatidão, qual seria ou quais seriam os fundamentos dos direitos humanos. Baseados na assertiva que tais direitos são consagrados a partir de juízos de valor, ou seja, de opções morais as quais, por definição, não podem ser comprovadas ou justi‑ ficadas, mas aceitas por convicção pessoal, há aquelesque negam a existência de fundamentação racional dos direitos humanos.16 Devemos ainda citar, como mais um exemplo de corrente “negacionista”, aqueles que defendem a ideia de que os direitos humanos são apreendidos pelos sentimentos mo‑ rais. Assim, o juízo valorativo da superioridade dos direitos humanos sobre todo ordenamento jurídico não pode ser justificado ou fundamentado, pois é juízo de persuasão, tradução de emoção daquele que defende tal posição.17 Contudo, a busca do fundamento para o reconhecimento dos direitos humanos é de importância capital quando é motivada pela existência de dúvidas ou contestações. É o que ocorre com os direitos humanos. De fato, a proteção dos direitos humanos foi conquista histórica, que, como tal, necessitou de fundamentação teórica para sua afirmação frente ao absolutismo e outras formas de governo autoritárias. Mas a necessidade de fundamentação não perdeu a razão de ser nos dias atuais, em especial quando a violação de di‑ reitos humanos é patrocinada pelo Estado, por seus agentes ou por suas leis. Como expõe Jorge Miranda, renunciar à fundamentação dos direitos humanos pode consistir, para muitos, na resignação perante as leis positivas vigentes ou perante as contingências de sua aplicação.18 Os exemplos históricos mostram os riscos desse positi‑ vismo exacerbado. Assim, a fundamentação dos direitos humanos é im‑ portante na chamada relação “direitos humanos – direito posto”. Se os direitos humanos são aqueles declarados e reconhecidos pelo Estado, o que fazer quando não existe esse prévio reconhecimento pelo Estado? Como protegê-los com efetividade, então? A resposta está no referencial ético que justifica terem os direitos humanos posição superior no ordenamento jurí‑ dico, capaz inclusive de se sobrepor a eventual ausência de reconhecimento explícito por parte do Estado. Assim, urge o estudo da fundamentação dos direitos humanos. Universalismo e Relativismo Ainda com relação aos fundamentos dos direitos huma‑ nos é importante conhecer dois pensamentos (divergentes também) acerca do assunto: o Universalismo e o Relati- vismo. Irrompe essa diferença na possibilidade de implantação generalizada ou não de tais direitos, levando-se em conta os fatores socioculturais de cada Estado. A corrente relativista alega que os meios culturais e mo‑ rais de uma sociedade devem ser respeitados, ainda que em 16 Peres Luño denomina tal corrente de pensamento jurídico de “não cognitivista”. Entre eles, Felix Oppenheim (OPPENHEIM, F. Ética y filosofia política. Cidade do México: Fondo de Cultura Economica, 1976; e em PERES LUÑO, Antônio. Derechos humanos, estado de derecho y Constitución. 5. ed. Madrid: Tecnos, 1995. 17 RAMOS, André de Carvalho. Teoria geral dos direitos humanos na ordem internacional. 2. ed. — São Paulo: Saraiva, 2012, apud, Alf Ross (ROSS, Alf. On law and justice. Londres: Stevens & Sons, 1976. 18 MIRANDA, Jorge. Manual de direito constitucional. v. IV, 2. ed. Coimbra: Coimbra Editora, 1993, p. 43. prejuízo dos direitos humanos dessa mesma comunidade. O relativismo pode ser forte (vê a cultura como fonte princi‑ pal de validade das normas morais ou jurídicas) ou fraco (vê a cultura como forma auxiliar de validade das normas morais ou jurídicas). Destaque importante para o relativismo se dá no sentido de se entender que o universalismo acarreta uma ocidentalização de costumes, destruindo as diferenças cultu‑ rais e, propiciando, inclusive e lamentavelmente, a eclosão de atentados terroristas. A corrente universalista defende a implantação global dos direitos humanos. Afirma Valério de Oliveira Mazzuoli que “após um quarto de século da realização da primeira Conferência Mundial de Direitos Humanos, ocorrida em Teerã, a segunda Conferência realizada em Viena em 1993 consagrou os direitos humanos como global, reafirmando sua universalidade, e consagrando sua indivisibilidade, in‑ terdependência, e inter-relacionalidade”. Prevaleceu o entendimento da tese universalista quando da Declaração Universal da ONU (1948), pois o relativismo cultural não pode ser invocado para justificar violações de direitos humanos. A Conferência de Viena (1993) endossou o conteúdo da Declaração Universal da ONU de 1948, reafirmando o universalismo dos direitos humanos e introduzindo novos princípios, quais sejam: a indivisibilidade19, a interdepen‑ dência20 e a inter-relacionalidade21. Características dos Direitos Humanos Objetivando destacar o papel central dos direitos huma‑ nos no ordenamento jurídico vigente, a doutrina costuma apontar certas características desses direitos, não o fazendo, todavia, de maneira uniforme. O estudo dessas características é importante por duas razões básicas: em primeiro lugar, permite a compreensão do atual estágio de desenvolvimento da proteção dos direitos humanos na esfera internacional. Em segundo lugar, permite ao operador do Direito brasi‑ leiro o uso dessas características no âmbito interno, uma vez que o Brasil, além de ser signatário de dezenas de tratados de direitos humanos, já reconheceu a jurisdição obrigatória da Corte Interamericana de Direito Humanos, cujas decisões serviram para formar o quadro das principais características dos direitos humanos na esfera internacional. Historicidade Os direitos humanos apresentam natureza histórica, advindo do Cristianismo, superando diversas revoluções até a chegada aos dias atuais. Universalidade Os direitos humanos são universais na medida em que abrangem todo e qualquer ser humano, sem distinção. Claro que determinados direitos humanos incidem sobre comu‑ nidade específica, como os direitos trabalhistas, os direitos dos migrantes e os direitos das pessoas com deficiência, entre outros. A universalidade é característica que decorre da proteção da igualdade (formal e material) como dimensão essencial da dignidade da pessoa humana. Não obstante, ser universal não significa ser absoluto. 19 Os direitos humanos não se sucedem em gerações, mas se acumulam em dimensões. 20 Os direitos políticos e sociais devem reforçar-se mutuamente. 21 Interatividade entre direitos humanos e os sistemas internacionais de proteção. . 7 D IR eI TO S H U M A N O S Irrenunciabilidade Não cabe ao titular do direito humano renunciá-lo. Fundamenta-se esta característica na impossibilidade de o homem despir-se de sua dignidade. Essa característicaé alvo de intensas críticas, na perspectiva do campo fático, haja vista não serem poucas as circunstâncias em que se admite que o titular de gozar parte ou mesmo a integralidade de determinado direito humano. Inalienabilidade e Indisponibilidade Outrossim, os direitos humanos são inalienáveis e ina‑ fastáveis, não podem ser transferidos para outrem, ainda que com a anuência de seu titular. Não é permitida a sua transmissão, disponibilização ou transigência, tanto a título gratuito quanto oneroso. Indivisibilidade Os direitos humanos são indivisíveis, ou seja, pela sua natureza não podem ser decompostos. Como possuem uma composição uniforme, que não permite distinguir seus componentes, formando um todo homogêneo, sua eventual dissociação acabaria por desconfigurá-los. Não obstante as disposições sejam autônomas, o conjunto de normas é uno, incindível. efetividade Os direitos humanos são efetivos. Não basta o singelo reconhecimento abstrato de sua existência pelos Estados. O Poder Público deve responsabilizar-se pela sua aplicação de maneira incontestável, não podendo tais direitos existirem apenas no âmbito da subjetividade humana. essencialidade Os direitos humanos são essenciais, na medida de cons‑ tituir preceitos excepcionais e inerentes ao homem, que protegem interesses fundamentais e indispensáveis para a sua sobrevivência. São direitos revestidos de imprescindibilidade, cuja tutela é vital para a própria existência da pessoa humana Relatividade Admite-se a relatividade dos direitos humanos como saída teórica para uma insustentável (do ponto de vista prático) concepção intransigente acerca das características da universalidade e da irrenunciabilidade. Nesta linha, não se nega que diretos humanos colidem entre si e podem sofre restrições por ato estatal ou do próprio titular, O pró‑ prio Poder Constituinte Originário tratou, na Constituição Federal brasileira de promover de saída, algumas restrições a direitos fundamentais, do que são exemplos a vedação da associação par fins paramilitares, a pena de morte em caso de guerra, a prisão em flagrante delito (dispensada a autorização judicial), a garantia do direito de propriedade condicionado à observância de sua função social e o não cabimento de habeas corpus em relação a punições disci‑ plinares de natureza militar. Imprescritibilidade Enquanto instituto aplicável, na essência, a direitos patrimoniais, a prescrição não se aplica aos direitos hu‑ manos, ante sua natureza personalíssima e seu escopo de salvaguarda da dignidade da pessoa humana. Sendo assim, a prevenção, a repressão ou a reparação de violação a qual‑ quer direito humano jamais poderá deixar de ser levada a efeito por decurso de prazo. Concorrência, Complementariedade ou Interdependência Os direitos humanos são passiveis de exercício conco‑ mitante, como ocorre com a liberdade de expressão e a liberdade de religião, quando dos discursos proferidos em ce‑ rimonias e cultos, e com a liberdade de reunião e o direito de greve, no caso das assembleias grevistas. Esta característica, inclusive intrínseca a certos direitos humanos, nos casos em que deriva do outro ou nele encontra suporte (complemen‑ tariedade ou interdependência), como por exemplo, direito à vida/direito à saúde; direito à educação/direito à cultura; liberdade de ir e vir/habeas corpus; direito à privacidade/ sigilo das comunicações; liberdade de associação/direito à representação por sindicato, etc. Constitucionalização No plano doméstico sob a ótica da consolidação da sua qualificada força normativa, os direitos humanos são pre‑ vistos nas Constituições com vistas a obter proteção e cen‑ tralidade, auferidas por estarem enunciados no documento que direciona e vincula as demais normas do ordenamento jurídico, assim como pela experimentação dos efeitos da rigidez constitucional, sobretudo verificados a partir dos institutos da clausula pétrea e do controle de constitucio‑ nalidade (no Brasil, vigentes os sistemas concentrados e difuso desse controle). Supremacia Decorrência da sua constitucionalização, os direitos humanos alcançam força normativa destacada, dentro do ordenamento jurídico, a ponto de direcionar, vincular, limitar os poderes públicos constituídos. Subordinam-se aos direitos fundamentais os Poderes Legislativo, Executivo e Judiciário (incluindo aqueles que agem por sua delegação), os quais devem zelar, cada qual em seu campo de atuação, pelo res‑ peito, proteção e promoção desses direitos. A supremacia dos direitos fundamentais é material e formal. Material, na medida em que nenhum ato ou norma dos poderes consti‑ tuídos pode, em seu conteúdo, afrontar os direitos funda‑ mentais; e formal, porquanto o ordenamento jurídico não autoriza a supressão de direitos fundamentais por ato dos constituído, incluindo o legislador ordinário. Como conse‑ quência prática desta supremacia material e formal, tem-se: a inconstitucionalidade de normas incompatíveis com os direitos fundamentais; a não-recepção de normas anterio‑ res e não-conformes à Constituição; e por fim, a exigência de aplicação das normas jurídicas infraconstitucionais com adoção de sentido compatível com os direitos fundamentais e que melhor os otimize. Aplicabilidade Imediata Esta característica está inserta no §1º do art. 5º da Cons‑ tituição Federal, que estabelece que as ‘normas definidoras dos direitos e garantias fundamentais tem aplicação imedia- ta’. Tal disposição na perspectiva do ordenamento jurídico nacional tem por finalidade marcar posição no sentido de que as normas de direitos humanos não são meramente programáticas ou simplesmente matrizes de outras normas, . 8 D IR eI TO S H U M A N O S mas têm aptidão para regular ações estatais e particulares (força normativa), de modo direito, ou seja, sem demandar a intermediação de outra norma que a regulamente. A apli‑ cabilidade imediata é característica que serve, sobretudo à proteção dos direitos humanos frente ao Poder Judiciário, que neles encontra aptidão para a solução de casos concretos e não simples diretrizes ou inspiração. As arroladas características dos direitos humanos eleva-os à condição de normas nucleares do ordenamento jurídico brasileiro, de modo que sua supressão significa a implosão do próprio ordenamento. Não foi por outro moti‑ vo que o Poder Constituinte Originário tratou de colocar os direitos fundamentais sob o manto das cláusulas pétreas. Congenialidade Os direitos humanos são congênitos, pois pertencem ao indivíduo antes mesmo de seu nascimento, manifestam‑se espontaneamente e têm origem na própria condição hu‑ mana. São qualidades particulares ao homem, indepen‑ dentemente da existência do Estado. Assim sendo, não se condensam ao ordenamento jurídico interno, apesar da relevância do seu conteúdo. Inexauribilidade Os direitos humanos nunca se esgotam, pois são inexaurí‑ veis. Como estão conexos a valores, a todo momento podem ser somados novos direitos, sem que estes mais recentes desconfigurem os anteriores, mas ao contrário: o acréscimo reforça a concretização deles. Proibição do Retrocesso Os Estados estão expressamente proibidos de diminuir sua proteção aos direitos humanos em relação ao estágio em que se encontram. Tanto a norma interna quanto os Tratados Internacionais estão impossibilitados de estabelecer quaisquer condicionantes que reduzam ou eliminem direitos pregressamente determinados. Teoria das Gerações ou Dimensões de Direitos Humanos Sem maiores pretensões, a partir de uma relação mera‑ mente didática entre as etapas de reconhecimento dos direi‑ tos humanos e as cores da bandeira da França, associadas ao lema da Revolução Francesa, “liberdade, Igualdade, Fraterni‑ dade” atribuída ao jurista tcheco, naturalizado francês, Karel Vasak, surgiu a Teoria das Gerações de Direitos Humanos. A primeira geração: os direitos individuais A primeira das gerações compreende os chamados di‑ reitos individuais. Foi a partir dos direitosindividuais que os direitos humanos se expandiram. Os direitos individuais podem ser vistos como direitos subjetivos oponíveis ao Estado. A titularidade desses diretos é do indivíduo (singular) enquanto que no polo passivo estão todos os demais e, principalmente, o Estado. Alguns direitos individuais, todavia, podem ser exercidos de forma coletiva, como é o caso da liberdade de associação. A segunda geração: os direitos econômicos, sociais e culturais Após a Primeira Guerra Mundial, veio com a Constituição Alemã de 1919 (Constituição de Weimar) uma nova gama de direitos humanos, contidos na Parte II da Carta Maior do País. Além dos direitos individuais, a Carta Maior trouxe em seu corpo seções dedicadas à vida social, à religião, à instrução e aos estabelecimentos de ensino, e por último à vida econômica. A Segunda Geração teve forte ligação com a igualdade e com os anseios da classe operária que começaram a se manifestar contra o sistema capitalista vigente. Percebe-se que o conteúdo dos direitos humanos cresce à medida em que as pessoas tem seus direitos declarados e, mais ainda quando eles são satisfeitos, o que faz surgir abertura para o surgimento de novas necessidades e, por conta disso, para a descoberta de novos direitos. A terceira geração: os direitos de solidariedade Como as necessidades humanas aumentam com o desen‑ volvimento da sociedade e, principalmente, com a satisfação das necessidades anteriores, a evolução dos direitos huma‑ nos, ou melhor, o implemento do conteúdo do objeto de estudo dos direitos humanos não cessou com o surgimento dos direitos sociais. Essa nova etapa na evolução dos direitos humanos ficou conhecida como direitos de solidariedade ou de fraternidade. Os direitos de solidariedade contemplam o direito à paz, ao desenvolvimento, ao meio ambiente sadio e ao patrimô‑ nio comum da humanidade. Esses direitos têm titularidade coletiva e o sujeito passivo, é em regra o Estado. Podem ser colocados também como titulares desses direitos os Estados que tiveram a sua paz turbada por atitudes de outros sujeitos de direito interna‑ cional público. Há doutrinadores que já entendem existentes a quarta e a quinta geração de direitos. A quarta geração seriam os direitos à democracia, à informação e o direito ao pluralismo. 22 Já a quinta geração de direitos fundamentais seria o direito à paz. A teoria das gerações vem sendo criticada por suposta‑ mente atentar contra a universalidade, a indivisibilidade e a interdependência, características dos direitos humanos, essenciais para a sua efetividade, como explicitado na Decla‑ ração e Programa de Ação de Viena de 1993 (ONU). Por este motivo, há uma predileção atual em substituir-se o termo “gerações ”pelo termo “dimensões”. AFIRMAÇÃO HISTÓRICA DOS DIReITOS HUMANOS Imagina-se que os direitos humanos foram fruto da Se‑ gunda Guerra Mundial, no entanto, a evolução desse ramo do Direito começou muito tempo antes do massacre étnico que se deu sob os domínios da Alemanha Nazista. Antiguidade Já na Antiguidade, é possível encontrar instrumentos que podem ser equiparados às normas de proteção aos direitos humanos, como é o caso do Código de Hamurábi e da Lei de Talião. O Código de Hamurábi foi criado no Século XVIII a.C. e se constitui como um antiquíssimo conjunto de normas da Mesopotâmia, elaborado pelo Rei Hamurábi, filho de Sinmuballit. Ele foi o sexto rei da primeira dinastia babilônica, denominada amoritas. 22 BONAVIDES, Paulo. Curso de Direito Constitucional. 7ª Ed. São Paulo: Malheiros; 1998, p.525. . 9 D IR eI TO S H U M A N O S O Código de Hamurábi é um monumento de estrutura geológica, constituído por única e maciça rocha magmática de diorito, na qual o rei é retratado recebendo a insígnia do reinado e sobre o qual se dispõem 21 colunas de escrita cuneiforme assírio-babilônia desenvolvida pelos sumérios (afro-asiáticos), com 282 dispositivos em 3.600 linhas, que regulavam a conduta das pessoas na sociedade. Havia regra para três classes diferentes: 1) Awelum: homens livres e de classe mais alta, que era merecedora de maiores compensações por injúrias, mas que arcava com multas maiores em face da prá‑ tica de ofensas; 2) Mushkenum: cidadão livre, mas de classe inferior e com obrigações mais suaves; e 3) Wardum: escravo marcado que, apesar disso, poderia possuir propriedade. Aplicavam-se penas de morte (afogamento, fogueira, forca, empalação) mutilações corporais (cortar a língua, seio, orelha, arrancar olhos, dentes) e outras penas infamantes. O Código de Hamurábi tinha por objetivo a implantação da justiça na Terra, com a destruição do mal e a prevenção da opressão do fraco pelo forte, propiciando o bem-estar do povo e a iluminação do mundo. Seus dispositivos não diferenciavam prescrições civis, religiosas e morais. Já a Lei das XII Tábuas, também denominada Lex Duo – Decim Tabularum ou simplesmente Duodecim Tabulae, em latim, constituía uma antiga legislação que se encontra na formação do direito romano. A Lei das XII Tábuas foi promulgada entre os anos de 451 e 450 a.C., tendo sido escrita em 12 tabletes de madeira, que foram afixados no fórum romano de forma que todas as pessoas pudessem lê-los e conhecer o seu conteúdo. Originou-se para estabelecer a igualdade de direitos entre as diversas classes sociais, sendo vedada a beligerância privada. Idade Média A Idade Média (476 a 1453) teve como marco inicial a tomada do Império Romano do Ocidente pelos povos bárbaros e como termo a tomada de Constantinopla pelos turco-otomanos, e por mais incrível que possa parecer, trouxe maior proteção ao ser humano. Na Alta Idade Média, também chamada Idade Média Antiga ou Antiguidade Tardia (Séculos V ao X), não houve evento que se destacasse a proteção dos direitos humanos. Já na Baixa Idade Média (Séculos XI ao XV), houve a elabora‑ ção do mais importante diploma sobre o tema até então: a Magna Carta, do Rei João Sem Terra (Lackland), como assim ficou conhecido. Isso porque não recebeu terras em herança, ao contrário de seu irmão mais velho. A Magna Carta foi um instrumento elaborado em 15 de junho de 1215 que restringiu o poder do Rei João da Inglater‑ ra, que a assinou, bem como de seus sucessores, obstando o exercício de um poder pleno. A Magna Carta foi criada em face de desinteligências entre o Rei João, o Papa Inocêncio e os barões ingleses sobre as prerrogativas do distinto monarca. Em consonância com os termos da Magna Carta, João deveria abjurar determinados direitos, obedecer a certos procedimentos legais e admitir como verdade que a vontade do imperador estaria submissa à lei. Idade Moderna A Idade Moderna (1453 a 1789), que se iniciou com a tomada de Constantinopla pelos turco-otomanos e terminou com a Revolução Francesa, caracterizou-se pela conquista da proteção aos direitos humanos. Face a estes acontecimentos, decorrentes do processo de maturação da sociedade e do desenvolvimento social e histórico surgiram várias declarações de direitos. Tratado de Westfália (Alemanha, 1648) Com o advento da Idade Moderna, mais precisamente no século XVII, no ano de 1648, foram assinados os Tratados de Westfália, que levaram a termo a penosa e grave Guerra dos Trinta Anos (1618 a 1648) entre os católicos e protes‑ tantes. Os países protestantes foram reconhecidos (Tratado de Osnabruck) e os católicos obtiveram sua independência da Igreja (Tratado de Munster). Conforme ensina Malheiro, estes Tratados foram os pri‑ meiros documentos a trazer uma configuração dos “Estados” bastante similar à que conhecemos hoje e a estabelecer entre eles uma concepção de equilíbrio, conhecida como “Princípio da igualdade formal”. Os Estados, então, renunciaram sua consideração a uma hesitante hierarquia internacional fundamentada na religião e não mais conceberam nenhum outro poder superior por si sós, o que foi denominado soberania. Bill Of Rights (Inglaterra, 1689) O Bill of Rights foi criado na Inglaterra,em 13 de fevereiro de 1689, reprisou as normas da Magna Carta e destacou a independência do Parlamento, sendo considerado a gênese do princípio da separação dos poderes. Com ele, a população teria as liberdades de expressão e política, além da tolerân‑ cia – e não liberdade – religiosa. Declaração de Direitos da Virgínia (eUA, 1776) A Declaração de Direitos da Virgínia, de concepção ilumi‑ nista, foi elaborada em Willinasburg (EUA), em 12 de junho de 1776, insere-se no contexto da Alfétena pela insubmissão americana e precede a Declaração de Independência dos Estados Unidos da América. Declaração de Independência dos estados Unidos da América A Declaração de Independência dos Estados Unidos da América, foi ratificada em 4 de julho de 1776 e representou o ato inaugural da democracia moderna. Estabeleceu a separação entre as 13 colônias da América do Norte e o Reino Unido. Em seu texto, determinou a repre‑ sentação do povo com a restrição dos poderes do governo e a inalienabilidade dos direitos humanos. Constituição dos estados Unidos da América Entre 25 de maio e 17 de setembro de 1787, foram reali‑ zadas as discussões e houve a aprovação da primeira e única Constituição dos Estados Unidos da América, pela Convenção Constitucional da Filadélfia, na Pensilvânia. Os autores da Constituição americana foram influenciados pelo pacifismo e contrários ao uso político-econômico das guerras. Cuida-se da segunda Constituição mais antiga do mundo, que ainda está em vigor, pois a primeira é a de San Marino, . 10 D IR eI TO S H U M A N O S que vigora desde 1600. A Constituição americana prega uma autonomia política para os Estados integrantes da federação e um poder central forte. O diploma prevê um sistema de modificações, mediante emendas que, atualmente, são 27. As dez primeiras emendas são designadas por Carta de Direitos dos Estados Unidos (Bill of Rights – 1791), pois contém os direitos do cidadão perante o poder do Estado. Não houve consenso para a sua inserção no texto original da Constituição. Idade Contemporânea Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (França, 1789) A Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão foi inspirada na Revolução Estadunidense, ocorrida em 1776, e nos ideais filosóficos iluministas. No dia 26 de agosto de 1789, a Assembleia Nacional Constituinte da França apro‑ vou-a, tendo sido votada definitivamente em 2 de outubro do mesmo ano. Com 17 artigos e um preâmbulo de ideais libertários e liberais, proclamou as liberdades e dos direitos fundamentais do homem. O seu objetivo foi universalizar os princípios de liberdade, igualdade e fraternidade; prega um Estado laico, o direito de associação política, o princípio da reserva legal, da anterioridade e do estado de inocência, além da livre manifestação do pensamento. Igualmente, prevê em seu texto, que a finalidade de toda associação política é a conservação dos direitos naturais e imprescritíveis do homem. Esses direitos são a liberdade, a propriedade, a segurança e a resistência à opressão. De acordo com o diploma, ninguém pode ser acusado, preso ou detido senão nos casos determinados pela lei e de acordo com as formas por ela prescritas. Aqueles que solicitarem, expedirem, executarem ou mandarem executar ordens arbitrárias deverão ser punidos; mas qualquer cida‑ dão convocado ou detido em virtude da lei deve obedecer imediatamente, sob pena de ser culpado de resistência. Em conformidade com a Declaração, a sociedade tem o direito de pedir contas a todo agente público pela sua administração. Constituição Mexicana (México, 1917) A atual Constituição Mexicana remonta o ano de 1917 e foi promulgada em 5 de fevereiro daquele ano, tendo sofrido diversas alterações desde então. A repercussão mundial e mesmo na América Latina foi mínima. No entanto, as regras relacionadas ao trabalho e à proteção social foram bastante revolucionárias para a época. A Carta Suprema do México caracteriza-se pelo anticlerica‑ lismo, agrarismo, sensibilidade social e nacionalismo. Ela traz um elenco de direitos do trabalhador e demostra certa hostilidade em relação ao poder econômico. Constituição Alemã (de Weimar, Alemanha 1919) Tendo assinado o Tratado de Versalhes, em 28 de junho de 1919, a Alemanha precisava elaborar uma nova Cons‑ tituição, principalmente para romper com o seu passado e também para o estabelecimento de novos direitos que colocassem em destaque a proteção do ser humano. O Tratado produziu um choque e grande humilhação à população, já que a Alemanha foi obrigada a reconhecer a independência da Áustria, além de perder todas as suas colônias arquipelágicas, assim como aquelas localizadas no continente africano. Teve também que admitir uma restrição ao tamanho de seus exércitos e se obrigar a ressarcir todos os Estados vencedores da Primeira Guerra Mundial. Nesse contexto, nasceu a Constituição Alemã, assinada em 11 de agosto de 1919. A estrutura da Constituição de Weimar é claramente dualista: a primeira parte teve por objetivo a organização do Estado, enquanto a segunda parte apresentava a decla‑ ração dos direitos e deveres fundamentais, acrescentando às clássicas liberdades individuais os novos direitos de conteúdo social. Direitos Humanos e a Segunda Guerra Mundial A Segunda Guerra Mundial teve início com a invasão da Polônia, em 1º de setembro de 1939, e findou em 2 de setembro de 1945, com a assinatura da rendição formal do Japão, a bordo do encouraçado Missouri, na baía de Tóquio. Na verdade, a Segunda Guerra Mundial começou muito antes, pois menos de um mês, após a promulgação da Constituição Alemã, fundou-se, em setembro do mesmo ano, numa cervejaria em Munique, o Partido Operário Alemão. Encontrava‑se entre os indivíduos que se reuniram para a sua criação um jovem cabo austríaco chamado Adolf Hitler. O Partido transformou-se, em 1920, no Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães e sob essa denomina‑ ção foi mal preparado um golpe de Estado, em 1923. Tendo fracassado na Baviera, Adolf Hitler foi condenado à prisão, cumprindo apenas oito meses da pena de cinco anos que tinha sido aplicada. Uma vez em liberdade, Hitler reorganizou seu partido, determinou o seu programa de ação e criou uma força armada para apoiar as reivindicações políticas. Em 1930, o seu partido já possuía 107 Deputados no Poder, e em 30 de janeiro de 1933, ele foi nomeado chan‑ celer pelo então Presidente alemão, Paul von Hindenburg. Com a morte do Presidente, em 2 de agosto de 1934, Hitler ascende ao Poder. Vale destacar, que em 14 de outubro de 1933, a Ale‑ manha se retirou da Conferência Geral do Desarmamento, em Genebra. Uma semana depois, recolheu-se da Liga das Nações. O serviço militar foi restabelecido em março de 1935 e um exército de mais de 500 mil homens foi criado. Em 12 de março de 1938, as tropas alemãs penetraram na Áustria, e em 10 de abril do mesmo ano, realiza-se um plebiscito em que 99,7% dos austríacos aprovam a união com a Alemanha. Os que se opuseram foram encaminhados ao cárcere. Na madrugada de 1º de setembro de 1939, a Alemanha atravessou a fronteira polonesa sem aviso prévio e, sem que se desse conta, Adolf Hitler desencadeou a Segunda Guerra Mundial. Inúmeros acontecimentos entre 1º de setembro de 1939 e 2 de setembro de 1945 (fim da Segunda grande Guerra) destroçaram a proteção aos direitos humanos no cenário das relações exteriores. É inegável que com o advento da conflagração global e dos massacres perpetrados, os direitos humanos entraram em colapso severo. No entanto, com o término dos conflitos, houve um desenvolvimento sem precedentes em sua histó‑ ria com o surgimento de inúmeros tratados internacionais cuidando do tema. Tanto a Primeira Guerra Mundial (agosto de 1914 a novembro de 1918), cujo triste epílogo trouxe consigo o legado da perda de mais de oito milhões de pessoas, quanto a Segunda Guerra Mundial (1939 a 1945), com todos os seus atos cruéis, desumanos, atrozese mais de 45 milhões de mortos, serviram para apresentar ao mundo a necessidade inquietante e imediata de proteção dos direitos humanos na dimensão internacional. A primeira manifestação dessa proteção, mostrou a sua face com a Declaração Universal dos Direitos Humanos, em 1948, que foi a base de outros diplomas internacionais, . 11 D IR eI TO S H U M A N O S como o Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos e o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, ambos em 1966. Na verdade, o que se buscou foi a reconstrução da dou‑ trina de direitos humanos. Nesse aspecto, cumpre ressaltar a diferença doutrinária entre as proficientes expressões direi- tos do homem, direitos humanos e direitos fundamentais. Direito do homem é a expressão que se refere aos di‑ reitos naturais ainda não positivados, capazes de proteger o ser humano na esfera mundial. Direitos humanos são aqueles consignados em tratados e convenções internacionais. Já os direitos fundamentais estão relacionados àqueles que visam à proteção do homem e que estão registrados nas Constituições dos Estados. O SISTeMA INTeRNACIONAL De PROTeÇÃO e PROMOÇÃO DOS DIReITOS HUMANOS: ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕeS UNIDAS (ONU) A preocupação com a questão dos direitos humanos é antiga, embora sua positivação internacional seja fenômeno recente, fruto de um processo que se inicia no pós-Segunda Guerra Mundial. Os principais instrumentos internacionais de proteção desses direitos surgem inicialmente como uma tentativa de se evitar a repetição das violações cometidas por sistemas totalitários, como o fascismo e o nazismo. A partir daí o tema dos direitos humanos passou a possuir status obrigatório na agenda internacional. Em virtude desse processo, proliferam-se convenções de âmbito internacional estabelecendo garantias mínimas ao bem-estar da pessoa humana, cujo instrumento mais conhecido é a Declaração Universal dos Direitos do Homem, assinada em 10 de dezembro de 1948 no âmbito da Assem‑ bleia-Geral das Nações Unidas. A partir da assinatura dessa Declaração, a proteção dos direitos humanos passaria a ser considerada não mais como assunto interno de cada Estado, mas como foco do interesse comum de toda a humanidade. Esse processo de universalização dos direitos humanos, por sua vez, acarretou a formação de sistemas de proteção vol‑ tados à garantia desses direitos como o Sistema Global ou Universal de Proteção, que se formou nas Nações Unidas, e os Sistemas de Regionais de Proteção: Europeu, Americano e Africano. Desenvolve-se, assim, o que se denominou Direito Internacional dos Direitos Humanos. Sistema Global ou Universal O Sistema Global ou Universal de proteção é comandado pela Organização das Nações Unidas – ONU. A Organização das Nações Unidas, também conhecida pela sigla ONU, é uma organização internacional formada por países que se reuniram voluntariamente para trabalhar pela paz e o desenvolvimento mundial. O preâmbulo da Carta das Nações Unidas – documento de fundação da Organização – expressa os ideais e os pro‑ pósitos dos povos cujos governos se uniram para constituir as Nações Unidas. História da ONU Depois da II Guerra Mundial, que devastou dezenas de países e tomou a vida de milhões de seres humanos, existia na comunidade internacional um sentimento generalizado de que era necessário encontrar uma forma de manter a paz entre os países. Porém, a ideia de criar a ONU não surgiu de uma hora para outra. Foram necessários anos de planejamento e dezenas de horas de discussões antes do surgimento da Organização. O nome “Nações Unidas” foi concebido pelo presidente norte-americano Franklin Roosevelt e utilizado pela primeira vez na Declaração das Nações Unidas, de 1º de janeiro de 1942, quando os representantes de 26 países assumiram o compromisso de que seus governos continuariam lutando contra as potências do Eixo. A Carta das Nações Unidas foi elaborada pelos represen‑ tantes de 50 países presentes à Conferência sobre Organiza‑ ção Internacional, que se reuniu em São Francisco de 25 de abril a 26 de junho de 1945. As Nações Unidas, entretanto, começaram a existir ofi‑ cialmente em 24 de outubro de 1945, após a ratificação da Carta por China, Estados Unidos, França, Reino Unido e a ex-União Soviética, bem como pela maioria dos signatários. O dia 24 de outubro é comemorado em todo o mundo como o “Dia das Nações Unidas”. O Brasil ratificou a Carta em 22 de outubro de 1945 (Decreto nº 19.841). O Estatuto da Corte Internacional de Justiça faz parte integrante da Carta. Sede da ONU Durante a primeira reunião da Assembleia Geral, que aconteceu na capital do Reino Unido, Londres, em 1946, ficou decidido que a sede permanente da Organização seria nos Estados Unidos. Em dezembro de 1946, John D. Rockefeller Jr. ofereceu cerca de oito milhões de dólares para a compra de parte dos terrenos na margem do East River, na ilha de Manhattan, em Nova York. A cidade de NY ofereceu o restante dos terrenos para possibilitar a construção da sede da Organização. Hoje em dia, a estrutura central da ONU fica em Nova York, com sedes também em Genebra (Suíça), Viena (Áustria), Nairóbi (Quênia), Addis Abeba (Etiópia), Bangkok (Tailândia), Beirute (Líbano) e Santiago (Chile), além de escritórios espa‑ lhados em grande parte do mundo. Propósitos da ONU • Manter a paz e a segurança internacionais. • Desenvolver relações amistosas entre as nações. • Realizar a cooperação internacional para resolver os problemas mundiais de caráter econômico, social, cultural e humanitário, promovendo o respeito aos direitos humanos e às liberdades fundamentais. • Ser um centro destinado a harmonizar a ação dos povos para a consecução desses objetivos comuns. Princípios da ONU As Nações Unidas agem de acordo com os seguintes princípios: • todos os membros se obrigam a cumprir de boa-fé os compromissos da Carta; • todos deverão resolver suas controvérsias internacio‑ nais por meios pacíficos, de modo que não sejam ame‑ açadas a paz, a segurança e a justiça internacionais; • todos deverão abster-se em suas relações internacio‑ nais de recorrer à ameaça ou ao emprego da força contra outros Estados; • Todos deverão dar assistência às Nações Unidas em qualquer medida que a Organização tomar em con‑ formidade com os preceitos da Carta, abstendo-se de prestar auxílio a qualquer Estado contra o qual as Na‑ ções Unidas agirem de modo preventivo ou coercitivo; . 12 D IR eI TO S H U M A N O S • cabe às Nações Unidas fazer com que os Estado, que não são membros da Organização, ajam de acordo com esses princípios em tudo quanto for necessário à manutenção da paz e da segurança internacionais; • nenhum preceito da Carta autoriza as Nações Unidas a intervir em assuntos que são essencialmente da alçada nacional de cada país. estrutura da ONU De acordo com a Carta, a ONU, para que pudesse aten‑ der seus múltiplos mandatos, teria seis órgãos principais, a Assembleia Geral, o Conselho de Segurança, o Conselho econômico e Social, o Conselho de Tutela, a Corte Interna- cional de Justiça e o Secretariado. A Assembleia Geral A Assembleia Geral da ONU é o principal órgão delibera‑ tivo da ONU. É lá que todos os Estados-Membros da Orga‑ nização (193 países23) se reúnem para discutir os assuntos que afetam a vida de todos os habitantes do planeta. Na Assembleia Geral, todos os países têm direito a um voto, ou seja, existe total igualdade entre todos seus membros. Atenção! O Brasil participa dos processos de tomada de decisão e do trabalho das Nações Unidas principalmente por meio de quatro representações permanentes – nas cidades de Nova York (Estados Unidos), Genebra (Suíça), Roma (Itália) e Paris (França). A função das representações é acompanhar de perto a agenda da ONU, ter informações mais específicas sobre os trabalhos e ampliar a participação do País no Sistema. As des‑ pesas destas representações são inteiramente custeadas pelo Ministériodas Relações Exteriores do Brasil. Assuntos em pauta na Assembleia Geral: paz e seguran‑ ça, aprovação de novos membros, questões de orçamento, desarmamento, cooperação internacional em todas as áreas, direitos humanos etc. As resoluções – votadas e aprovadas – da Assembleia Geral funcionam como recomendações e não são obrigatórias. Principais Funções da Assembleia Geral da ONU • Discutir e fazer recomendações sobre todos os assun‑ tos em pauta na ONU. • Discutir questões ligadas a conflitos militares – com exceção daqueles na pauta do Conselho de Segurança. • Discutir formas e meios para melhorar as condições de vida das crianças, dos jovens e das mulheres. • Discutir assuntos ligados ao desenvolvimento susten‑ tável, meio ambiente e direitos humanos. • Decidir as contribuições dos Estados-Membros e como estas contribuições devem ser gastas. • Eleger os novos Secretários-Gerais da Organização. 23 A ONU possui hoje 193 Países-membros, dos quais 51 são membros fundadores, e o Brasil é um deles. Chamam-se Membros-Fundadores das Nações Unidas os países que assinaram a Declaração das Nações Unidas de 1º de janeiro de 1942 ou que tomaram parte da Conferência de São Francisco, tendo assinado e ratificado a Carta. Outros países podem ingressar nas Nações Unidas por deci‑ são da Assembleia-Geral mediante recomendação do Conselho de Segurança. Por outro lado, também é possível a suspensão ou expulsão de um membro. A suspensão pode ocorrer quando o Conselho de Segurança tomar medidas preventivas ou coercitivas contra um Estado-Membro, cabendo a expulsão sempre que houver uma violação persistente dos preceitos da Carta. Conselho de Segurança O Conselho de Segurança é o órgão da ONU responsá‑ vel pela paz e segurança internacionais. Ele é formado por 15 membros: cinco permanentes, que possuem o direito a veto – Estados Unidos, Rússia, Grã-Bretanha, França e China – e dez membros não-permanentes, eleitos pela Assembleia-Geral por dois anos. Vale destacar, que o Conselho de Segurança é o único órgão da ONU que tem poder decisório, isto é, todos os membros das Nações Unidas devem aceitar e cumprir as decisões do Conselho. Principais Funções • Manter a paz e a segurança internacional. • Determinar a criação, continuação e encerramento das Missões de Paz, de acordo com os Capítulos VI, VII e VIII da Carta. • Investigar toda situação que possa vir a se transformar em um conflito internacional. • Recomendar métodos de diálogo entre os países. • Elaborar planos de regulamentação de armamentos. • Determinar se existe uma ameaça para a paz. • Solicitar aos países que apliquem sanções econômicas e outras medidas para impedir ou deter alguma agres‑ são. • Recomendar o ingresso de novos membros na ONU. • Recomendar para a Assembleia Geral a eleição de um novo Secretário-Geral. Conselho econômico e Social O Conselho Econômico e Social (ECOSOC), composto por 54 (cinquenta e quatro) membros é o órgão coordenador do trabalho econômico e social da ONU, das Agências Especia‑ lizadas e das demais instituições integrantes do Sistema das Nações Unidas. O Conselho formula recomendações e inicia atividades relacionadas com o desenvolvimento, comércio internacio‑ nal, industrialização, recursos naturais, direitos humanos, condição da mulher, população, ciência e tecnologia, pre‑ venção do crime, bem-estar social e muitas outras questões econômicas e sociais. Principais Funções • Coordenar o trabalho econômico e social da ONU e das instituições e organismos especializados do Sistema. • Colaborar com os programas da ONU. • Desenvolver pesquisas e relatórios sobre questões econômicas e sociais. • Promover o respeito aos direitos humanos e as liber‑ dades fundamentais. Conselho de Tutela Segundo a Carta, cabia ao Conselho de Tutela a su‑ pervisão da administração dos territórios sob regime de tutela internacional. As principais metas desse regime de tutela consistiam em promover o progresso dos habitantes dos territórios e desenvolver condições para a progressiva independência e estabelecimento de um governo próprio. Os objetivos do Conselho de Tutela foram tão ampla‑ mente atingidos que os territórios, inicialmente sob esse regime – em sua maioria países da África – alcançaram, ao longo dos últimos anos, sua independência. Tanto assim, . 13 D IR eI TO S H U M A N O S que em 19 de novembro de 1994, o Conselho de Tutela sus‑ pendeu suas atividades, após quase meio século de luta em favor da autodeterminação dos povos. A decisão foi tomada após o encerramento do acordo de tutela sobre o território de Palau, no Pacífico. Palau, último território do mundo que ainda era tutelado pela ONU, tornou-se então um Estado soberano, membro das Nações Unidas. Corte Internacional de Justiça A Corte Internacional de Justiça, com sede em Haia (Holanda), é o principal órgão judiciário das Nações Unidas. Todos os países que fazem parte do Estatuto da Corte – que é parte da Carta das Nações Unidas – podem recorrer a ela. Somente países, nunca indivíduos, podem pedir pareceres à Corte Internacional de Justiça. Além disso, a Assembleia Geral e o Conselho de Segu‑ rança podem solicitar à Corte pareceres sobre quaisquer questões jurídicas, assim como os outros órgãos das Nações Unidas. A Corte Internacional de Justiça se compõe de quinze juízes chamados “membros” da Corte. São eleitos pela As‑ sembleia Geral e pelo Conselho de Segurança em escrutínios separados. Secretariado O Secretariado presta serviço a outros órgãos das Nações Unidas e administra os programas e políticas que elabo‑ ram. Seu chefe é o secretário-geral, que é nomeado pela Assembleia Geral, seguindo recomendação do Conselho de Segurança. Principais Funções • Administrar as forças de paz. • Analisar problemas econômicos e sociais. • Preparar relatórios sobre meio ambiente ou direitos humanos. • Sensibilizar a opinião pública internacional sobre o trabalho da ONU. • Organizar conferências internacionais. • Traduzir todos os documentos oficiais da ONU nas seis línguas oficiais da Organização. DeCReTO Nº 19.841, De 22 De OUTUBRO De 1945 Promulga a Carta das Nações Unidas, da qual faz parte inte- grante o anexo Estatuto da Corte Internacional de Justiça, assinada em São Francisco, a 26 de junho de 1945, por ocasião da Conferência de Organização Internacional das Nações Unidas. O PReSIDeNTe DA RePÚBLICA, tendo em vista que foi aprovada a 4 de setembro e ratifica a 12 de setembro de 1945. Pelo governo brasileiro a Carta das nações Unidas, da qual faz parte integrante o anexo Estatuto da Corte In‑ ternacional de Justiça, assinada em São Francisco, a 26 de junho de 1945, por ocasião da Conferencia de Organização Internacional da Nações Unidas; e Havendo sido o referido instrumento de ratificação depositado nos arquivos do Governo do Estados Unidos da América a 21 de setembro de 1945 e usando da atribuição que lhe confere o atr. 74, letra a da Constituição, DeCReTA: Art. 1º fica promulgada a Carta da Nações Unidas apensa por cópia ao presente decreto, da qual faz parte integrante o anexo Estatuto da Corte Internacional de Justiça, assinada em São Francisco, a 26 de junho de 1945. Art. 2º Este decreto entrará em vigor na data de sua publicação. Rio de Janeiro, 22 de outubro de 1945, 124º da Indepen‑ dência e 57º da República. GETÚLIO VARGAS P. Leão Velloso Faço saber, aos que a presente Carta de ratificação vie‑ rem, que, entre a República dos Estados Unidos e os países representados na Conferência das Nações Unidas sobre Organização Internacional, foi concluída e assinada, pelos respectivos Plenipotenciários, em São Francisco, a 26 de junho de 1945, a Carta das Nações Unidas, da qual faz parte integrante o anexo Estatuto da Corte Internacional de Justiça, tudo do teor seguinte: CARTA DAS NAÇÕeS UNIDAS NÓS, OS POVOS DAS NAÇÕES UNIDAS, RESOLVIDOS a preservar as gerações vindouras do flagelo da guerra, que por duas vezes, no espaço da nossa vida, trouxe so‑ frimentosindizíveis à humanidade, e a reafirmar a fé nos direitos fundamentais do homem, na dignidade e no valor do ser humano, na igualdade de direito dos homens e das mulheres, assim como das nações grandes e pequenas, e a estabelecer condições sob as quais a justiça e o respeito às obrigações decorrentes de tratados e de outras fontes do direito internacional possam ser mantidos, e a promover o progresso social e melhores condições de vida dentro de uma liberdade ampla. E para tais fins praticar a tolerância e viver em paz, uns com os outros, como bons vizinhos, e unir as nossas forças para manter a paz e a segurança internacionais, e a garantir, pela aceitação de princípios e a instituição dos métodos, que a força armada não será usada a não ser no interesse comum, a empregar um mecanismo internacional para promover o progresso econômico e social de todos os povos. Resolvemos conjugar nossos esforços para a consecução desses objetivos. Em vista disso, nossos respectivos Governos, por intermé‑ dio de representantes reunidos na cidade de São Francisco, depois de exibirem seus plenos poderes, que foram achados em boa e devida forma, concordaram com a presente Carta das Nações Unidas e estabelecem, por meio dela, uma or‑ ganização internacional que será conhecida pelo nome de Nações Unidas. CAPÍTULO I Propósitos e Princípios Artigo 1º Os propósitos das Nações unidas são: 1. Manter a paz e a segurança internacionais e, para esse fim: tomar, coletivamente, medidas efetivas para evitar ame‑ aças à paz e reprimir os atos de agressão ou outra qualquer ruptura da paz e chegar, por meios pacíficos e de conformi‑ dade com os princípios da justiça e do direito internacional, a um ajuste ou solução das controvérsias ou situações que possam levar a uma perturbação da paz; . 14 D IR eI TO S H U M A N O S 2. Desenvolver relações amistosas entre as nações, baseadas no respeito ao princípio de igualdade de direitos e de autodeterminação dos povos, e tomar outras medidas apropriadas ao fortalecimento da paz universal; 3. Conseguir uma cooperação internacional para resolver os problemas internacionais de caráter econômico, social, cultural ou humanitário, e para promover e estimular o respeito aos direitos humanos e às liberdades fundamentais para todos, sem distinção de raça, sexo, língua ou religião; e 4. Ser um centro destinado a harmonizar a ação das nações para a consecução desses objetivos comuns. Artigo 2º A Organização e seus Membros, para a reali‑ zação dos propósitos mencionados no Artigo 1, agirão de acordo com os seguintes Princípios: 1. A Organização é baseada no princípio da igualdade de todos os seus Membros. 2. Todos os Membros, a fim de assegurarem para todos em geral os direitos e vantagens resultantes de sua qualidade de Membros, deverão cumprir de boa fé as obrigações por eles assumidas de acordo com a presente Carta. 3. Todos os Membros deverão resolver suas controvérsias internacionais por meios pacíficos, de modo que não sejam ameaçadas a paz, a segurança e a justiça internacionais. 4. Todos os Membros deverão evitar em suas relações internacionais a ameaça ou o uso da força contra a integrida‑ de territorial ou a dependência política de qualquer Estado, ou qualquer outra ação incompatível com os Propósitos das Nações Unidas. 5. Todos os Membros darão às Nações toda assistência em qualquer ação a que elas recorrerem de acordo com a presente Carta e se absterão de dar auxílio a qual Estado contra o qual as Nações Unidas agirem de modo preventivo ou coercitivo. 6. A Organização fará com que os Estados que não são Membros das Nações Unidas ajam de acordo com esses Princípios em tudo quanto for necessário à manutenção da paz e da segurança internacionais. 7. Nenhum dispositivo da presente Carta autorizará as Nações Unidas a intervirem em assuntos que dependam essencialmente da jurisdição de qualquer Estado ou obrigará os Membros a submeterem tais assuntos a uma solução, nos termos da presente Carta; este princípio, porém, não prejudicará a aplicação das medidas coercitivas constantes do Capitulo VII. CAPÍTULO II Dos Membros Artigo 3º Os Membros originais das Nações Unidas serão os Estados que, tendo participado da Conferência das Nações Unidas sobre a Organização Internacional, realizada em São Francisco, ou, tendo assinado previamente a Declaração das Nações Unidas, de 1 de janeiro de 1942, assinarem a presente Carta, e a ratificarem, de acordo com o Artigo 110. Artigo 4º 1. A admissão como Membro das Nações Unidas fica aberta a todos os Estados amantes da paz que aceitarem as obrigações contidas na presente Carta e que, a juízo da Organização, estiverem aptos e dispostos a cumprir tais obrigações. 2. A admissão de qualquer desses Estados como Mem‑ bros das Nações Unidas será efetuada por decisão da As‑ sembleia Geral, mediante recomendação do Conselho de Segurança. Artigo 5º O Membro das Nações Unidas, contra o qual for levada a efeito ação preventiva ou coercitiva por parte do Conselho de Segurança, poderá ser suspenso do exercício dos direitos e privilégios de Membro pela Assembleia Geral, mediante recomendação do Conselho de Segurança. O exer‑ cício desses direitos e privilégios poderá ser restabelecido pelo conselho de Segurança. Artigo 6º O Membro das Nações Unidas que houver violado persistentemente os Princípios contidos na presente Carta, poderá ser expulso da Organização pela Assembleia Geral mediante recomendação do Conselho de Segurança. CAPÍTULO III Órgãos Artigo 7º 1. Ficam estabelecidos como órgãos principais das Nações Unidas: uma Assembleia Geral, um Conselho de Segurança, um Conselho Econômico e Social, um conselho de Tutela, uma Corte Internacional de Justiça e um Secretariado. 2. Serão estabelecidos, de acordo com a presente Carta, os órgãos subsidiários considerados de necessidade. Artigo 8º As Nações Unidas não farão restrições quanto à elegibilidade de homens e mulheres destinados a participar em qualquer caráter e em condições de igualdade em seus órgãos principais e subsidiários. CAPÍTULO IV Assembleia Geral Composição Artigo 9º 1. A Assembleia Geral será constituída por todos os Membros das Nações Unidas. 2. Cada Membro não deverá ter mais de cinco represen‑ tantes na Assembleia Geral. Funções e atribuições Artigo 10. A Assembleia Geral poderá discutir quaisquer questões ou assuntos que estiverem dentro das finalidades da presente Carta ou que se relacionarem com as atribuições e funções de qualquer dos órgãos nela previstos e, com exce‑ ção do estipulado no Artigo 12, poderá fazer recomendações aos Membros das Nações Unidas ou ao Conselho de Segu‑ rança ou a este e àqueles, conjuntamente, com referência a qualquer daquelas questões ou assuntos. Artigo 11. 1. A Assembleia Geral poderá considerar os princípios gerais de cooperação na manutenção da paz e da segurança internacionais, inclusive os princípios que disponham sobre o desarmamento e a regulamentação dos armamentos, e poderá fazer recomendações relativas a tais princípios aos Membros ou ao Conselho de Segurança, ou a este e àqueles conjuntamente. 2. A Assembleia Geral poderá discutir quaisquer questões relativas à manutenção da paz e da segurança internacio‑ nais, que a ela forem submetidas por qualquer Membro das Nações Unidas, ou pelo Conselho de Segurança, ou por um Estado que não seja Membro das Nações unidas, de acordo com o Artigo 35, parágrafo 2, e, com exceção do que fica estipulado no Artigo 12, poderá fazer recomendações relativas a quaisquer destas questões ao Estado ou Estados interessados, ou ao Conselho de Segurança ou a ambos. Qualquer destas questões, para cuja solução for necessária uma ação, será submetida ao Conselho de Segurança pela Assembleia Geral, antes ou depois da discussão. 3. A Assembleia Geral poderá solicitar a atenção do Conselho de Segurança para situações que possam constituir ameaça à paz e à segurança internacionais. 4. As atribuições da AssembleiaGeral enumeradas neste Artigo não limitarão a finalidade geral do Artigo 10. Artigo 12. 1. Enquanto o Conselho de Segurança estiver exercendo, em relação a qualquer controvérsia ou situação, as funções que lhe são atribuídas na presente Carta, a As‑ sembleia Geral não fará nenhuma recomendação a respeito . 15 D IR eI TO S H U M A N O S dessa controvérsia ou situação, a menos que o Conselho de Segurança a solicite. 2. O Secretário-Geral, com o consentimento do Con‑ selho de Segurança, comunicará à Assembleia Geral, em cada sessão, quaisquer assuntos relativos à manutenção da paz e da segurança internacionais que estiverem sendo tratados pelo Conselho de Segurança, e da mesma maneira dará conhecimento de tais assuntos à Assembleia Geral, ou aos Membros das Nações Unidas se a Assembleia Geral não estiver em sessão, logo que o Conselho de Segurança terminar o exame dos referidos assuntos. Artigo 13. 1. A Assembleia Geral iniciará estudos e fará recomendações, destinados a: a) promover cooperação internacional no terreno polí‑ tico e incentivar o desenvolvimento progressivo do direito internacional e a sua codificação; b) promover cooperação internacional nos terrenos econômico, social, cultural, educacional e sanitário e favo‑ recer o pleno gozo dos direitos humanos e das liberdades fundamentais, por parte de todos os povos, sem distinção de raça, sexo, língua ou religião. 2. As demais responsabilidades, funções e atribuições da Assembleia Geral, em relação aos assuntos mencionados no parágrafo 1(b) acima, estão enumeradas nos Capítulos IX e X. Artigo 14. A Assembleia Geral, sujeita aos dispositivos do Artigo 12, poderá recomendar medidas para a solução pacífica de qualquer situação, qualquer que seja sua origem, que lhe pareça prejudicial ao bem-estar geral ou às relações amistosas entre as nações, inclusive em situações que re‑ sultem da violação dos dispositivos da presente Carta que estabelecem os Propósitos e Princípios das Nações Unidas. Artigo 15. 1. A Assembleia Geral receberá e examinará os relatórios anuais e especiais do Conselho de Segurança. Esses relatórios incluirão uma relação das medidas que o Conselho de Segurança tenha adotado ou aplicado a fim de manter a paz e a segurança internacionais. 2. A Assembleia Geral receberá e examinará os relatórios dos outros órgãos das Nações Unidas. Artigo 16. A Assembleia Geral desempenhará, com relação ao sistema internacional de tutela, as funções a ela atribuídas nos Capítulos XII e XIII, inclusive a aprovação de acordos de tutela referentes às zonas não designadas como estratégias. Artigo 17. 1. A Assembleia Geral considerará e aprovará o orçamento da organização. 2. As despesas da Organização serão custeadas pelos Membros, segundo cotas fixadas pela Assembleia Geral. 3. A Assembleia Geral considerará e aprovará quaisquer ajustes financeiros e orçamentários com as entidades espe‑ cializadas, a que se refere o Artigo 57 e examinará os orça‑ mentos administrativos de tais instituições especializadas com o fim de lhes fazer recomendações. Votação Artigo 18. 1. Cada Membro da Assembleia Geral terá um voto. 2. As decisões da Assembleia Geral, em questões im‑ portantes, serão tomadas por maioria de dois terços dos Membros presentes e votantes. Essas questões compreen‑ derão: recomendações relativas à manutenção da paz e da segurança internacionais; à eleição dos Membros não per‑ manentes do Conselho de Segurança; à eleição dos Membros do Conselho Econômico e Social; à eleição dos Membros do Conselho de Tutela, de acordo como parágrafo 1 (c) do Artigo 86; à admissão de novos Membros das Nações Unidas; à sus‑ pensão dos direitos e privilégios de Membros; à expulsão dos Membros; questões referentes o funcionamento do sistema de tutela e questões orçamentárias. 3. As decisões sobre outras questões, inclusive a determi‑ nação de categoria adicionais de assuntos a serem debatidos por uma maioria dos membros presentes e que votem. Artigo 19. O Membro das Nações Unidas que estiver em atraso no pagamento de sua contribuição financeira à Organização não terá voto na Assembleia Geral, se o total de suas contribuições atrasadas igualar ou exceder a soma das contribuições correspondentes aos dois anos anteriores completos. A Assembleia Geral poderá entretanto, permitir que o referido Membro vote, se ficar provado que a falta de pagamento é devida a condições independentes de sua vontade. Processo Artigo 20. A Assembleia Geral reunir-se-á em sessões anuais regulares e em sessões especiais exigidas pelas circunstâncias. As sessões especiais serão convocadas pelo Secretário-Geral, a pedido do Conselho de Segurança ou da maioria dos Membros das Nações Unidas. Artigo 21. A Assembleia Geral adotará suas regras de processo e elegerá seu presidente para cada sessão. Artigo 22. A Assembleia Geral poderá estabelecer os órgãos subsidiários que julgar necessários ao desempenho de suas funções. CAPÍTULO V Conselho de Segurança Composição Artigo 23. 1. O Conselho de Segurança será composto de quinze Membros das Nações Unidas. A República da China, a França, a União das Repúblicas Socialistas Soviéti‑ cas, o Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte e os Estados unidos da América serão membros permanentes do Conselho de Segurança. A Assembleia Geral elegerá dez outros Membros das Nações Unidas para Membros não per‑ manentes do Conselho de Segurança, tendo especialmente em vista, em primeiro lugar, a contribuição dos Membros das Nações Unidas para a manutenção da paz e da segurança internacionais e para os outros propósitos da Organização e também a distribuição geográfica equitativa. 2. Os membros não permanentes do Conselho de Segu‑ rança serão eleitos por um período de dois anos. Na primeira eleição dos Membros não permanentes do Conselho de Segurança, que se celebre depois de haver-se aumentado de onze para quinze o número de membros do Conselho de Segurança, dois dos quatro membros novos serão eleitos por um período de um ano. Nenhum membro que termine seu mandato poderá ser reeleito para o período imediato. 3. Cada Membro do Conselho de Segurança terá um representante. Funções e Atribuições Artigo 24. 1. A fim de assegurar pronta e eficaz ação por parte das Nações Unidas, seus Membros conferem ao Conselho de Segurança a principal responsabilidade na ma‑ nutenção da paz e da segurança internacionais e concordam em que no cumprimento dos deveres impostos por essa res‑ ponsabilidade o Conselho de Segurança aja em nome deles. 2. No cumprimento desses deveres, o Conselho de Segurança agirá de acordo com os Propósitos e Princípios das Nações Unidas. As atribuições específicas do Conselho de Segurança para o cumprimento desses deveres estão enumeradas nos Capítulos VI, VII, VIII e XII. 3. O Conselho de Segurança submeterá relatórios anuais e, quando necessário, especiais à Assembleia Geral para sua consideração. . 16 D IR eI TO S H U M A N O S Artigo 25. Os Membros das Nações Unidas concordam em aceitar e executar as decisões do Conselho de Segurança, de acordo com a presente Carta. Artigo 26. A fim de promover o estabelecimento e a ma‑ nutenção da paz e da segurança internacionais, desviando para armamentos o menos possível dos recursos humanos e econômicos do mundo, o Conselho de Segurança terá o encargo de formular, com a assistência da Comissão de Estado Maior, a que se refere o Artigo 47, os planos a se‑ rem submetidos aos Membros das Nações Unidas, para o estabelecimento de um sistema de regulamentação dos armamentos. Votação Artigo 27. 1. Cada membro do Conselho de Segurança terá um voto. 2. As decisões do conselho de Segurança, em questões processuais, serão tomadas pelo voto afirmativo de nove Membros. 3. As decisões do Conselho de Segurança, em todos os outros assuntos, serão tomadas pelo voto afirmativo de nove membros, inclusive os votos afirmativos de todos os mem‑ bros permanentes, ficando estabelecido que, nas decisõesprevistas no Capítulo VI e no parágrafo 3 do Artigo 52, aquele que for parte em uma controvérsia se absterá de votar. Artigo 28. 1. O Conselho de Segurança será organizado de maneira que possa funcionar continuamente. Cada membro do Conselho de Segurança será, para tal fim, em todos os momentos, representado na sede da Organização. 2. O Conselho de Segurança terá reuniões periódicas, nas quais cada um de seus membros poderá, se assim o desejar, ser representado por um membro do governo ou por outro representante especialmente designado. 3. O Conselho de Segurança poderá reunir-se em outros lugares, fora da sede da Organização, e que, a seu juízo, possam facilitar o seu trabalho. Artigo 29. O Conselho de Segurança poderá estabelecer órgãos subsidiários que julgar necessários para o desempe‑ nho de suas funções. Artigo 30. O Conselho de Segurança adotará seu próprio regulamento interno, que incluirá o método de escolha de seu Presidente. Artigo 31. Qualquer membro das Nações Unidas, que não for membro do Conselho de Segurança, poderá participar, sem direito a voto, na discussão de qualquer questão subme‑ tida ao Conselho de Segurança, sempre que este considere que os interesses do referido Membro estão especialmente em jogo. Artigo 32. Qualquer Membro das Nações Unidas que não for Membro do Conselho de Segurança, ou qualquer Estado que não for Membro das Nações Unidas será convidado, desde que seja parte em uma controvérsia submetida ao Conselho de Segurança, a participar, sem voto, na discussão dessa controvérsia. O Conselho de Segurança determinará as condições que lhe parecerem justas para a participação de um Estado que não for Membro das Nações Unidas. CAPÍTULO VI Solução Pacífica de Controvérsias Artigo 33. 1. As partes em uma controvérsia, que possa vir a constituir uma ameaça à paz e à segurança internacio‑ nais, procurarão, antes de tudo, chegar a uma solução por negociação, inquérito, mediação, conciliação, arbitragem, solução judicial, recurso a entidades ou acordos regionais, ou a qualquer outro meio pacífico à sua escolha. 2. O Conselho de Segurança convidará, quando julgar necessário, as referidas partes a resolver, por tais meios, suas controvérsias. Artigo 34. O Conselho de Segurança poderá investigar so‑ bre qualquer controvérsia ou situação suscetível de provocar atritos entre as Nações ou dar origem a uma controvérsia, a fim de determinar se a continuação de tal controvérsia ou situação pode constituir ameaça à manutenção da paz e da segurança internacionais. Artigo 35. 1. Qualquer Membro das Nações Unidas poderá solicitar a atenção do Conselho de Segurança ou da Assembleia Geral para qualquer controvérsia, ou qualquer si‑ tuação, da natureza das que se acham previstas no Artigo 34. 2. Um Estado que não for Membro das Nações Unidas poderá solicitar a atenção do Conselho de Segurança ou da Assembleia Geral para qualquer controvérsia em que seja parte, uma vez que aceite, previamente, em relação a essa controvérsia, as obrigações de solução pacífica previstas na presente Carta. 3. Os atos da Assembleia Geral, a respeito dos assuntos submetidos à sua atenção, de acordo com este Artigo, serão sujeitos aos dispositivos dos Artigos 11 e 12. Artigo 36. 1. O conselho de Segurança poderá, em qual‑ quer fase de uma controvérsia da natureza a que se refere o Artigo 33, ou de uma situação de natureza semelhante, reco‑ mendar procedimentos ou métodos de solução apropriados. 2. O Conselho de Segurança deverá tomar em consi‑ deração quaisquer procedimentos para a solução de uma controvérsia que já tenham sido adotados pelas partes. 3. Ao fazer recomendações, de acordo com este Artigo, o Conselho de Segurança deverá tomar em consideração que as controvérsias de caráter jurídico devem, em regra geral, ser submetidas pelas partes à Corte Internacional de Justiça, de acordo com os dispositivos do Estatuto da Corte. Artigo 37. 1. No caso em que as partes em controvérsia da natureza a que se refere o Artigo 33 não conseguirem resolve-la pelos meios indicados no mesmo Artigo, deverão submete-la ao Conselho de Segurança. 2. O Conselho de Segurança, caso julgue que a continu‑ ação dessa controvérsia poderá realmente constituir uma ameaça à manutenção da paz e da segurança internacio‑ nais, decidirá sobre a conveniência de agir de acordo com o Artigo 36 ou recomendar as condições que lhe parecerem apropriadas à sua solução. Artigo 38. Sem prejuízo dos dispositivos dos Artigos 33 a 37, o Conselho de Segurança poderá, se todas as partes em uma controvérsia assim o solicitarem, fazer recomen‑ dações às partes, tendo em vista uma solução pacífica da controvérsia. CAPÍTULO VII Ação Relativa a Ameaças à Paz, Ruptura da Paz e Atos de Agressão Artigo 39. O Conselho de Segurança determinará a exis‑ tência de qualquer ameaça à paz, ruptura da paz ou ato de agressão, e fará recomendações ou decidirá que medidas deverão ser tomadas de acordo com os Artigos 41 e 42, a fim de manter ou restabelecer a paz e a segurança internacionais. Artigo 40. A fim de evitar que a situação se agrave, o Con‑ selho de Segurança poderá, antes de fazer as recomendações ou decidir a respeito das medidas previstas no Artigo 39, convidar as partes interessadas a que aceitem as medidas provisórias que lhe pareçam necessárias ou aconselháveis. Tais medidas provisórias não prejudicarão os direitos ou pretensões, nem a situação das partes interessadas. O Con‑ selho de Segurança tomará devida nota do não cumprimento dessas medidas. . 17 D IR eI TO S H U M A N O S Artigo 41. O Conselho de Segurança decidirá sobre as medidas que, sem envolver o emprego de forças armadas, deverão ser tomadas para tornar efetivas suas decisões e poderá convidar os Membros das Nações Unidas a aplicarem tais medidas. Estas poderão incluir a interrupção completa ou parcial das relações econômicas, dos meios de comuni‑ cação ferroviários, marítimos, aéreos, postais, telegráficos, radiofônicos, ou de outra qualquer espécie e o rompimento das relações diplomáticas. Artigo 42. No caso de o Conselho de Segurança con‑ siderar que as medidas previstas no Artigo 41 seriam ou demonstraram que são inadequadas, poderá levar a efeito, por meio de forças aéreas, navais ou terrestres, a ação que julgar necessária para manter ou restabelecer a paz e a segurança internacionais. Tal ação poderá compreender demonstrações, bloqueios e outras operações, por parte das forças aéreas, navais ou terrestres dos Membros das Nações Unidas. Artigo 43. 1. Todos os Membros das Nações Unidas, a fim de contribuir para a manutenção da paz e da segurança inter‑ nacionais, se comprometem a proporcionar ao Conselho de Segurança, a seu pedido e de conformidade com o acordo ou acordos especiais, forças armadas, assistência e facilidades, inclusive direitos de passagem, necessários à manutenção da paz e da segurança internacionais. 2. Tal acordo ou tais acordos determinarão o número e tipo das forças, seu grau de preparação e sua localização geral, bem como a natureza das facilidades e da assistência a serem proporcionadas. 3. O acordo ou acordos serão negociados o mais cedo possível, por iniciativa do Conselho de Segurança. Serão concluídos entre o Conselho de Segurança e Membros da Organização ou entre o Conselho de Segurança e grupos de Membros e submetidos à ratificação, pelos Estados sig‑ natários, de conformidade com seus respectivos processos constitucionais. Artigo 44. Quando o Conselho de Segurança decidir o emprego de força, deverá, antes de solicitar a um Membro nele não representado o fornecimento de forças armadas em cumprimento das obrigações assumidas em virtude do Artigo 43, convidar o referido Membro, se este assim o desejar, a participar das decisões do Conselho de Segurança relativas ao emprego de contingentes das forças armadas do dito Membro. Artigo 45. A fim de habilitar as Nações Unidas a tomarem medidas militares urgentes, os Membros das Nações Unidasdeverão manter, imediatamente utilizáveis, contingentes das forças aéreas nacionais para a execução combinada de uma ação coercitiva internacional. A potência e o grau de preparação desses contingentes, como os planos de ação combinada, serão determinados pelo Conselho de Segurança com a assistência da Comissão de Estado Maior, dentro dos limites estabelecidos no acordo ou acordos especiais a que se refere o Artigo 43. Artigo 46. O Conselho de Segurança, com a assistência da Comissão de Estado Maior, fará planos para a aplicação das forças armadas. Artigo 47. 1. Será estabelecia uma Comissão de Estado Maior destinada a orientar e assistir o Conselho de Seguran‑ ça, em todas as questões relativas às exigências militares do mesmo Conselho, para manutenção da paz e da segurança internacionais, utilização e comando das forças colocadas à sua disposição, regulamentação de armamentos e possível desarmamento. 2. A Comissão de Estado Maior será composta dos Chefes de Estado Maior dos Membros Permanentes do Conselho de Segurança ou de seus representantes. Todo Membro das Na‑ ções Unidas que não estiver permanentemente representado na Comissão será por esta convidado a tomar parte nos seus trabalhos, sempre que a sua participação for necessária ao eficiente cumprimento das responsabilidades da Comissão. 3. A Comissão de Estado Maior será responsável, sob a autoridade do Conselho de Segurança, pela direção estraté‑ gica de todas as forças armadas postas à disposição do dito Conselho. As questões relativas ao comando dessas forças serão resolvidas ulteriormente. 4. A Comissão de Estado Maior, com autorização do Conselho de Segurança e depois de consultar os organismos regionais adequados, poderá estabelecer sob-comissões regionais. Artigo 48. 1. A ação necessária ao cumprimento das decisões do Conselho de Segurança para manutenção da paz e da segurança internacionais será levada a efeito por todos os Membros das Nações Unidas ou por alguns deles, conforme seja determinado pelo Conselho de Segurança. 2. Essas decisões serão executas pelos Membros das Nações Unidas diretamente e, por seu intermédio, nos organismos internacionais apropriados de que façam parte. Artigo 49. Os Membros das Nações Unidas prestar-se-ão assistência mútua para a execução das medidas determina‑ das pelo Conselho de Segurança. Artigo 50. No caso de serem tomadas medidas preventi‑ vas ou coercitivas contra um Estado pelo Conselho de Segu‑ rança, qualquer outro Estado, Membro ou não das Nações unidas, que se sinta em presença de problemas especiais de natureza econômica, resultantes da execução daquelas medidas, terá o direito de consultar o Conselho de Segurança a respeito da solução de tais problemas. Artigo 51. Nada na presente Carta prejudicará o direito inerente de legítima defesa individual ou coletiva no caso de ocorrer um ataque armado contra um Membro das Nações Unidas, até que o Conselho de Segurança tenha tomado as medidas necessárias para a manutenção da paz e da segu‑ rança internacionais. As medidas tomadas pelos Membros no exercício desse direito de legítima defesa serão comunicadas imediatamente ao Conselho de Segurança e não deverão, de modo algum, atingir a autoridade e a responsabilidade que a presente Carta atribui ao Conselho para levar a efeito, em qualquer tempo, a ação que julgar necessária à manutenção ou ao restabelecimento da paz e da segurança internacionais. CAPÍTULO VIII Acordos Regionais Artigo 52. 1. Nada na presente Carta impede a existência de acordos ou de entidades regionais, destinadas a tratar dos assuntos relativos à manutenção da paz e da segurança internacionais que forem suscetíveis de uma ação regional, desde que tais acordos ou entidades regionais e suas ativi‑ dades sejam compatíveis com os Propósitos e Princípios das Nações Unidas. 2. Os Membros das Nações Unidas, que forem parte em tais acordos ou que constituírem tais entidades, empregarão todo os esforços para chegar a uma solução pacífica das controvérsias locais por meio desses acordos e entidades regionais, antes de as submeter ao Conselho de Segurança. 3. O Conselho de Segurança estimulará o desenvolvimen‑ to da solução pacífica de controvérsias locais mediante os referidos acordos ou entidades regionais, por iniciativa dos Estados interessados ou a instância do próprio conselho de Segurança. 4. Este Artigo não prejudica, de modo algum, a aplicação dos Artigos 34 e 35. Artigo 53. 1. O conselho de Segurança utilizará, quando for o caso, tais acordos e entidades regionais para uma ação coercitiva sob a sua própria autoridade. Nenhuma ação coer‑ . 18 D IR eI TO S H U M A N O S citiva será, no entanto, levada a efeito de conformidade com acordos ou entidades regionais sem autorização do Conselho de Segurança, com exceção das medidas contra um Estado inimigo como está definido no parágrafo 2 deste Artigo, que forem determinadas em consequência do Artigo 107 ou em acordos regionais destinados a impedir a renovação de uma política agressiva por parte de qualquer desses Estados, até o momento em que a Organização possa, a pedido dos Governos interessados, ser incumbida de impedir toda nova agressão por parte de tal Estado. 2. O termo Estado inimigo, usado no parágrafo 1 deste Artigo, aplica-se a qualquer Estado que, durante a Segunda Guerra Mundial, foi inimigo de qualquer signatário da pre‑ sente Carta. Artigo 54. O Conselho de Segurança será sempre informa‑ do de toda ação empreendida ou projetada de conformidade com os acordos ou entidades regionais para manutenção da paz e da segurança internacionais. CAPÍTULO IX Cooperação econômica e Social Internacional Artigo 55. Com o fim de criar condições de estabilidade e bem estar, necessárias às relações pacíficas e amistosas entre as Nações, baseadas no respeito ao princípio da igualdade de direitos e da autodeterminação dos povos, as Nações Unidas favorecerão: a) níveis mais altos de vida, trabalho efetivo e condições de progresso e desenvolvimento econômico e social; b) a solução dos problemas internacionais econômicos, sociais, sanitários e conexos; a cooperação internacional, de caráter cultural e educacional; e c) o respeito universal e efetivo dos direitos humanos e das liberdades fundamentais para todos, sem distinção de raça, sexo, língua ou religião. Artigo 56. Para a realização dos propósitos enumerados no Artigo 55, todos os Membros da Organização se com‑ prometem a agir em cooperação com esta, em conjunto ou separadamente. Artigo 57.1. As várias entidades especializadas, criadas por acordos intergovernamentais e com amplas responsa‑ bilidades internacionais, definidas em seus instrumentos básicos, nos campos econômico, social, cultural, educacional, sanitário e conexos, serão vinculadas às Nações Unidas, de conformidade com as disposições do Artigo 63. 2. Tais entidades assim vinculadas às Nações Unidas serão designadas, daqui por diante, como entidades especializadas. Artigo 58. A Organização fará recomendação para coordenação dos programas e atividades das entidades especializadas. Artigo 59. A Organização, quando julgar conveniente, iniciará negociações entre os Estados interessados para a criação de novas entidades especializadas que forem ne‑ cessárias ao cumprimento dos propósitos enumerados no Artigo 55. Artigo 60. A Assembleia Geral e, sob sua autoridade, o Conselho Econômico e Social, que dispões, para esse efei‑ to, da competência que lhe é atribuída no Capítulo X, são incumbidos de exercer as funções da Organização estipuladas no presente Capítulo. CAPÍTULO X Conselho econômico e Social Composição Artigo 61. 1. O Conselho Econômico e Social será com‑ posto de cinquenta e quatro Membros das Nações Unidas eleitos pela Assembleia Geral. 2 De acordo com os dispositivos do parágrafo 3, dezoito Membros do Conselho Econômico e Social serão eleitos cada ano para um período de três anos, podendo, ao terminar esse prazo, ser reeleitos para o períodoseguinte. 3. Na primeira eleição a realizar-se depois de elevado de vinte e sete para cinquenta e quatro o número de Membros do Conselho Econômico e Social, além dos Membros que forem eleitos para substituir os nove Membros, cujo mandato expira no fim desse ano, serão eleitos outros vinte e sete Membros. O mandato de nove destes vinte e sete Membros suplementares assim eleitos expirará no fim de um ano e o de nove outros no fim de dois anos, de acordo com o que for determinado pela Assembleia Geral. 4. Cada Membro do Conselho Econômico e social terá nele um representante. Funções e Atribuições Artigo 62. 1. O Conselho Econômico e Social fará ou inicia‑ rá estudos e relatórios a respeito de assuntos internacionais de caráter econômico, social, cultural, educacional, sanitário e conexos e poderá fazer recomendações a respeito de tais assuntos à Assembleia Geral, aos Membros das Nações Uni‑ das e às entidades especializadas interessadas. 2. Poderá, igualmente, fazer recomendações destinadas a promover o respeito e a observância dos direitos humanos e das liberdades fundamentais para todos. 3. Poderá preparar projetos de convenções a serem submetidos à Assembleia Geral, sobre assuntos de sua competência. 4. Poderá convocar, de acordo com as regras estipuladas pelas Nações Unidas, conferências internacionais sobre assuntos de sua competência. Artigo 63. 1. O conselho Econômico e Social poderá estabelecer acordos com qualquer das entidades a que se refere o Artigo 57, a fim de determinar as condições em que a entidade interessada será vinculada às Nações Unidas. Tais acordos serão submetidos à aprovação da Assembleia Geral. 2. Poderá coordenar as atividades das entidades especia‑ lizadas, por meio de consultas e recomendações às mesmas e de recomendações à Assembleia Geral e aos Membros das Nações Unidas. Artigo 64. 1. O Conselho Econômico e Social poderá tomar as medidas adequadas a fim de obter relatórios regulares das entidades especializadas. Poderá entrar em entendimentos com os Membros das Nações Unidas e com as entidades especializadas, a fim de obter relatórios sobre as medidas tomadas para cumprimento de suas próprias recomendações e das que forem feitas pelas Assembleia Geral sobre assuntos da competência do Conselho. 2. Poderá comunicar à Assembleia Geral suas observa‑ ções a respeito desses relatórios. Artigo 65. O Conselho Econômico e Social poderá for‑ necer informações ao Conselho de Segurança e, a pedido deste, prestar-lhe assistência. Artigo 66. 1. O Conselho Econômico e Social desempe‑ nhará as funções que forem de sua competência em relação ao cumprimento das recomendações da Assembleia Geral. 2. Poderá mediante aprovação da Assembleia Geral, prestar os serviços que lhe forem solicitados pelos Membros das Nações unidas e pelas entidades especializadas. 3. Desempenhará as demais funções específicas em outras partes da presente Carta ou as que forem atribuídas pela Assembleia Geral. Votação Artigo 67. 1. Cada Membro do Conselho Econômico e Social terá um voto. . 19 D IR eI TO S H U M A N O S 2. As decisões do Conselho Econômico e Social serão tomadas por maioria dos membros presentes e votantes. Processo Artigo 68. O Conselho Econômico e Social criará comis‑ sões para os assuntos econômicos e sociais e a proteção dos direitos humanos assim como outras comissões que forem necessárias para o desempenho de suas funções. Artigo 69. O Conselho Econômico e Social poderá con‑ vidar qualquer Membro das Nações Unidas a tomar parte, sem voto, em suas deliberações sobre qualquer assunto que interesse particularmente a esse Membro. Artigo 70. O Conselho Econômico e Social poderá entrar em entendimentos para que representantes das entidades especializadas tomem parte, sem voto, em suas deliberações e nas das comissões por ele criadas, e para que os seus próprios representantes tomem parte nas deliberações das entidades especializadas. Artigo 71. O Conselho Econômico e Social poderá entrar nos entendimentos convenientes para a consulta com or‑ ganizações não governamentais, encarregadas de questões que estiverem dentro da sua própria competência. Tais entendimentos poderão ser feitos com organizações inter‑ nacionais e, quando for o caso, com organizações nacionais, depois de efetuadas consultas com o Membro das Nações Unidas no caso. Artigo 72. 1. O Conselho Econômico e Social adotará seu próprio regulamento, que incluirá o método de escolha de seu Presidente. 2. O Conselho Econômico e Social reunir-se-á quando for necessário, de acordo com o seu regulamento, o qual deverá incluir disposições referentes à convocação de reuniões a pedido da maioria dos Membros. CAPÍTULO XI Declaração Relativa a Territórios Sem Governo Próprio Artigo 73. Os Membros das Nações Unidas, que assu‑ miram ou assumam responsabilidades pela administração de territórios cujos povos não tenham atingido a plena capacidade de se governarem a si mesmos, reconhecem o princípio de que os interesses dos habitantes desses territó‑ rios são da mais alta importância, e aceitam, como missão sagrada, a obrigação de promover no mais alto grau, dentro do sistema de paz e segurança internacionais estabelecido na presente Carta, o bem-estar dos habitantes desses territórios e, para tal fim, se obrigam a: a) assegurar, com o devido respeito à cultura dos povos interessados, o seu progresso político, econômico, social e educacional, o seu tratamento equitativo e a sua proteção contra todo abuso; b) desenvolver sua capacidade de governo próprio, tomar devida nota das aspirações políticas dos povos e auxiliá-los no desenvolvimento progressivo de suas instituições po‑ líticas livres, de acordo com as circunstâncias peculiares a cada território e seus habitantes e os diferentes graus de seu adiantamento; c) consolidar a paz e a segurança internacionais; d) promover medidas construtivas de desenvolvimento, estimular pesquisas, cooperar uns com os outros e, quando for o caso, com entidades internacionais especializadas, com vistas à realização prática dos propósitos de ordem social, econômica ou científica enumerados neste Artigo; e e) transmitir regularmente ao Secretário-Geral, para fins de informação, sujeitas às reservas impostas por considera‑ ções de segurança e de ordem constitucional, informações estatísticas ou de outro caráter técnico, relativas às condições econômicas, sociais e educacionais dos territórios pelos quais são respectivamente responsáveis e que não estejam compreendidos entre aqueles a que se referem os Capítulos XII e XIII da Carta. Artigo 74. Os Membros das Nações Unidas concordam também em que a sua política com relação aos territórios a que se aplica o presente Capítulo deve ser baseada, do mesmo modo que a política seguida nos respectivos terri‑ tórios metropolitanos, no princípio geral de boa vizinhança, tendo na devida conta os interesses e o bem-estar do resto do mundo no que se refere às questões sociais, econômicas e comerciais. CAPÍTULO XII Sistema Internacional de Tutela Artigo 75. As nações Unidas estabelecerão sob sua autori‑ dade um sistema internacional de tutela para a administração e fiscalização dos territórios que possam ser colocados sob tal sistema em consequência de futuros acordos individuais. Esses territórios serão, daqui em diante, mencionados como territórios tutelados. Artigo 76. Os objetivos básicos do sistema de tutela, de acordo com os Propósitos das Nações Unidas enumerados no Artigo 1 da presente Carta serão: a) favorecer a paz e a segurança internacionais; b) fomentar o progresso político, econômico, social e educacional dos habitantes dos territórios tutelados e o seu desenvolvimento progressivo para alcançar governo próprio ou independência, como mais convenha às circunstâncias particulares de cada território e de seus habitantes e aos desejos livremente expressos dos povos interessados e como for previsto nos termos de cada acordo de tutela; c) estimularo respeito aos direitos humanos e às liber‑ dades fundamentais para todos, sem distinção de raça, sexo língua ou religião e favorecer o reconhecimento da interde‑ pendência de todos os povos; e d) assegurar igualdade de tratamento nos domínios social, econômico e comercial para todos os Membros das nações Unidas e seus nacionais e, para estes últimos, igual tratamento na administração da justiça, sem prejuízo dos objetivos acima expostos e sob reserva das disposições do Artigo 80. Artigo 77. 1. O sistema de tutela será aplicado aos terri‑ tórios das categorias seguintes, que venham a ser colocados sob tal sistema por meio de acordos de tutela: a) territórios atualmente sob mandato; b) territórios que possam ser separados de Estados inimigos em consequência da Segunda Guerra Mundial; e c) territórios voluntariamente colocados sob tal sistema por Estados responsáveis pela sua administração. 2. Será objeto de acordo ulterior a determinação dos ter‑ ritórios das categorias acima mencionadas a serem colocados sob o sistema de tutela e das condições em que o serão. Artigo 78. O sistema de tutela não será aplicado a terri‑ tórios que se tenham tornado Membros das Nações Unidas, cujas relações mútuas deverão basear-se no respeito ao princípio da igualdade soberana. Artigo 79. As condições de tutela em que cada território será colocado sob este sistema, bem como qualquer altera‑ ção ou emenda, serão determinadas por acordo entre os Estados diretamente interessados, inclusive a potência man‑ datária no caso de território sob mandato de um Membro das Nações Unidas e serão aprovadas de conformidade com as disposições dos Artigos 83 e 85. Artigo 80. 1. Salvo o que for estabelecido em acordos individuais de tutela, feitos de conformidade com os Artigos 77, 79 e 81, pelos quais se coloque cada território sob este . 20 D IR eI TO S H U M A N O S sistema e até que tais acordos tenham sido concluídos, nada neste Capítulo será interpretado como alteração de qualquer espécie nos direitos de qualquer Estado ou povo ou dos termos dos atos internacionais vigentes em que os Membros das Nações Unidas forem partes. 2. O parágrafo 1 deste Artigo não será interpretado como motivo para demora ou adiamento da negociação e conclusão de acordos destinados a colocar territórios dentro do sistema de tutela, conforme as disposições do Artigo 77. Artigo 81. O acordo de tutela deverá, em cada caso, incluir as condições sob as quais o território tutelado será administrado e designar a autoridade que exercerá essa administração. Tal autoridade, daqui por diante chamada a autoridade administradora, poderá ser um ou mais Estados ou a própria Organização. Artigo 82. Poderão designar-se, em qualquer acordo de tutela, uma ou várias zonas estratégicas, que compreendam parte ou a totalidade do território tutelado a que o mesmo se aplique, sem prejuízo de qualquer acordo ou acordos especiais feitos de conformidade com o Artigo 43. Artigo 83. 1. Todas as funções atribuídas às Nações Unidas relativamente às zonas estratégicas, inclusive a apro‑ vação das condições dos acordos de tutela, assim como de sua alteração ou emendas, serão exercidas pelo Conselho de Segurança. 2. Os objetivos básicos enumerados no Artigo 76 serão aplicáveis aos habitantes de cada zona estratégica. 3. O Conselho de Segurança, ressalvadas as disposições dos acordos de tutela e sem prejuízo das exigências de segurança, poderá valer-se da assistência do Conselho de Tutela para desempenhar as funções que cabem às Nações Unidas pelo sistema de tutela, relativamente a matérias políticas, econômicas, sociais ou educacionais dentro das zonas estratégicas. Artigo 84. A autoridade administradora terá o dever de assegurar que o território tutelado preste sua colaboração à manutenção da paz e da segurança internacionais. Para tal fim, a autoridade administradora poderá fazer uso de forças voluntárias, de facilidades e da ajuda do território tutelado para o desempenho das obrigações por ele assumidas a este respeito perante o Conselho de Segurança, assim como para a defesa local e para a manutenção da lei e da ordem dentro do território tutelado. Artigo 85. 1. As funções das Nações Unidas relativas a acordos de tutela para todas as zonas não designadas como estratégias, inclusive a aprovação das condições dos acordos de tutela e de sua alteração ou emenda, serão exercidas pela Assembleia Geral. 2. O Conselho de Tutela, que funcionará sob a autoridade da Assembleia Geral, auxiliará esta no desempenho dessas atribuições. CAPÍTULO XIII Conselho de Tutela Composição Artigo 86. 1. O Conselho de Tutela será composto dos seguintes Membros das Nações Unidas: a) os Membros que administrem territórios tutelados; b) aqueles dentre os Membros mencionados nomi‑ nalmente no Artigo 23, que não estiverem administrando territórios tutelados; e c) quantos outros Membros eleitos por um período de três anos, pela Assembleia Geral, sejam necessários para assegurar que o número total de Membros do Conselho de Tutela fique igualmente dividido entre os Membros das Na‑ ções Unidas que administrem territórios tutelados e aqueles que o não fazem. 2. Cada Membro do Conselho de Tutela designará uma pessoa especialmente qualificada para representá-lo perante o Conselho. Artigo 87. A Assembleia Geral e, sob a sua autoridade, o Conselho de Tutela, no desempenho de suas funções, poderão: a) examinar os relatórios que lhes tenham sido subme‑ tidos pela autoridade administradora; b) aceitar petições e examiná-las, em consulta com a autoridade administradora; c) providenciar sobre visitas periódicas aos territórios tutelados em épocas ficadas de acordo com a autoridade administradora; e d) tomar estas e outras medidas de conformidade com os termos dos acordos de tutela. Artigo 88. O Conselho de Tutela formulará um questio‑ nário sobre o adiantamento político, econômico, social e educacional dos habitantes de cada território tutelado e a autoridade administradora de cada um destes territórios, dentro da competência da Assembleia Geral, fará um rela‑ tório anual à Assembleia, baseado no referido questionário. Votação Artigo 89. 1. Cada Membro do Conselho de Tutela terá um voto. 2. As decisões do Conselho de Tutela serão tomadas por uma maioria dos membros presentes e votantes. Processo Artigo 90. 1. O Conselho de Tutela adotará seu próprio regulamento que incluirá o método de escolha de seu Pre‑ sidente. 2. O Conselho de Tutela reunir-se-á quando for neces‑ sário, de acordo com o seu regulamento, que incluirá uma disposição referente à convocação de reuniões a pedido da maioria dos seus membros. Artigo 91. O Conselho de Tutela valer-se-á, quando for necessário, da colaboração do Conselho Econômico e Social e das entidades especializadas, a respeito das matérias em que estas e aquele sejam respectivamente interessados. CAPÍTULO XIV A Corte Internacional de Justiça Artigo 92. A Corte Internacional de Justiça será o principal órgão judiciário das Nações Unidas. Funcionará de acordo com o Estatuto anexo, que é baseado no Estatuto da Corte Permanente de Justiça Internacional e faz parte integrante da presente Carta. Artigo 93. 1. Todos os Membros das Nações Unidas são ipso facto partes do Estatuto da Corte Internacional de Justiça. 2. Um Estado que não for Membro das Nações Unidas poderá tornar-se parte no Estatuto da Corte Internacional de Justiça, em condições que serão determinadas, em cada caso, pela Assembleia Geral, mediante recomendação do Conselho de Segurança. Artigo 94. 1. Cada Membro das Nações Unidas se com‑ promete a conformar-se com a decisão da Corte Internacio‑ nal de Justiça em qualquer caso em que for parte. 2. Se uma das partes num caso deixar de cumprir as obri‑ gações que lhe incumbem em virtude de sentença proferida pela Corte, a outra terá direito de recorrer ao Conselho de Segurança que poderá, se julgar necessário, fazer recomen‑ dações ou decidir sobre medidas a seremtomadas para o cumprimento da sentença. Artigo 95. Nada na presente Carta impedirá os Membros das Nações Unidas de confiarem a solução de suas divergên‑ cias a outros tribunais, em virtude de acordos já vigentes ou que possam ser concluídos no futuro. . 21 D IR eI TO S H U M A N O S Artigo 96. 1. A Assembleia Geral ou o Conselho de Segu‑ rança poderá solicitar parecer consultivo da Corte Interna‑ cional de Justiça, sobre qualquer questão de ordem jurídica. 2. Outros órgãos das Nações Unidas e entidades es‑ pecializadas, que forem em qualquer época devidamente autorizados pela Assembleia Geral, poderão também solici‑ tar pareceres consultivos da Corte sobre questões jurídicas surgidas dentro da esfera de suas atividades. CAPÍTULO XV O Secretariado Artigo 97. O Secretariado será composto de um Secre‑ tário-Geral e do pessoal exigido pela Organização. O Secre‑ tário-Geral será indicado pela Assembleia Geral mediante a recomendação do Conselho de Segurança. Será o principal funcionário administrativo da Organização. Artigo 98. O Secretário-Geral atuará neste caráter em todas as reuniões da Assembleia Geral, do Conselho de Segurança, do Conselho Econômico e Social e do Conselho de Tutela e desempenhará outras funções que lhe forem atri‑ buídas por estes órgãos. O Secretário-Geral fará um relatório anual à Assembleia Geral sobre os trabalhos da Organização. Artigo 99. O Secretário-Geral poderá chamar a atenção do Conselho de Segurança para qualquer assunto que em sua opinião possa ameaçar a manutenção da paz e da segurança internacionais. Artigo 100. 1. No desempenho de seus deveres, o Secre‑ tário-Geral e o pessoal do Secretariado não solicitarão nem receberão instruções de qualquer governo ou de qualquer autoridade estranha à organização. Abster-se-ão de qualquer ação que seja incompatível com a sua posição de funcionários internacionais responsáveis somente perante a Organização. 2. Cada Membro das Nações Unidas se compromete a respeitar o caráter exclusivamente internacional das atri‑ buições do Secretário-Geral e do pessoal do Secretariado e não procurará exercer qualquer influência sobre eles, no desempenho de suas funções. Artigo 101. 1. O pessoal do Secretariado será nomeado pelo Secretário Geral, de acordo com regras estabelecidas pela Assembleia Geral. 2. Será também nomeado, em caráter permanente, o pessoal adequado para o Conselho Econômico e Social, o conselho de Tutela e, quando for necessário, para outros órgãos das Nações Unidas. Esses funcionários farão parte do Secretariado. 3. A consideração principal que prevalecerá na escolha do pessoal e na determinação das condições de serviço será a da necessidade de assegurar o mais alto grau de eficiência, competência e integridade. Deverá ser levada na devida conta a importância de ser a escolha do pessoal feita dentro do mais amplo critério geográfico possível. CAPÍTULO XVI Disposições Diversas Artigo 102. 1. Todo tratado e todo acordo internacional, concluídos por qualquer Membro das Nações Unidas depois da entrada em vigor da presente Carta, deverão, dentro do mais breve prazo possível, ser registrados e publicados pelo Secretariado. 2. Nenhuma parte em qualquer tratado ou acordo in‑ ternacional que não tenha sido registrado de conformidade com as disposições do parágrafo 1 deste Artigo poderá invocar tal tratado ou acordo perante qualquer órgão das Nações Unidas. Artigo 103. No caso de conflito entre as obrigações dos Membros das Nações Unidas, em virtude da presente Carta e as obrigações resultantes de qualquer outro acordo inter‑ nacional, prevalecerão as obrigações assumidas em virtude da presente Carta. Artigo 104. A Organização gozará, no território de cada um de seus Membros, da capacidade jurídica necessária ao exercício de suas funções e à realização de seus propósitos. Artigo 105. 1. A Organização gozará, no território de cada um de seus Membros, dos privilégios e imunidades necessários à realização de seus propósitos. 2. Os representantes dos Membros das Nações Unidas e os funcionários da Organização gozarão, igualmente, dos pri‑ vilégios e imunidades necessários ao exercício independente de sus funções relacionadas com a Organização. 3. A Assembleia Geral poderá fazer recomendações com o fim de determinar os pormenores da aplicação dos pará‑ grafos 1 e 2 deste Artigo ou poderá propor aos Membros das Nações Unidas convenções nesse sentido. CAPÍTULO XVII Disposições Transitórias Sobre Segurança Artigo 106. Antes da entrada em vigor dos acordos es‑ peciais a que se refere o Artigo 43, que, a juízo do Conselho de Segurança, o habilitem ao exercício de suas funções previstas no Artigo 42, as partes na Declaração das Quatro Nações, assinada em Moscou, a 30 de outubro de 1943, e a França, deverão, de acordo com as disposições do parágrafo 5 daquela Declaração, consultar-se entre si e, sempre que a ocasião o exija, com outros Membros das Nações Unidas a fim de ser levada a efeito, em nome da Organização, qualquer ação conjunta que se torne necessária à manutenção da paz e da segurança internacionais. Artigo 107. Nada na presente Carta invalidará ou im‑ pedirá qualquer ação que, em relação a um Estado inimigo de qualquer dos signatários da presente Carta durante a Segunda Guerra Mundial, for levada a efeito ou autorizada em consequência da dita guerra, pelos governos responsá‑ veis por tal ação. CAPÍTULO XVIII emendas Artigo 108. As emendas à presente Carta entrarão em vigor para todos os Membros das Nações Unidas, quando forem adotadas pelos votos de dois terços dos membros da Assembleia Geral e ratificada de acordo com os seus respec‑ tivos métodos constitucionais por dois terços dos Membros das Nações Unidas, inclusive todos os membros permanentes do Conselho de Segurança. Artigo 109. 1. Uma Conferência Geral dos Membros das Nações Unidas, destinada a rever a presente Carta, poderá reunir-se em data e lugar a serem fixados pelo voto de dois terços dos membros da Assembleia Geral e de nove membros quaisquer do Conselho de Segurança. Cada Membro das Nações Unidas terá voto nessa Conferência. 2. Qualquer modificação à presente Carta, que for re‑ comendada por dois terços dos votos da Conferência, terá efeito depois de ratificada, de acordo com os respectivos métodos constitucionais, por dois terços dos Membros das Nações Unidas, inclusive todos os membros permanentes do Conselho de Segurança. 3. Se essa Conferência não for celebrada antes da décima sessão anual da Assembleia Geral que se seguir à entrada em vigor da presente Carta, a proposta de sua convocação deverá figurar na agenda da referida sessão da Assembleia Geral, e a Conferência será realizada, se assim for decidido por maioria de votos dos membros da Assembleia Geral, e pelo voto de sete membros quaisquer do Conselho de Segurança. . 22 D IR eI TO S H U M A N O S CAPÍTULO XIX Ratificação e Assinatura Artigo 110. 1. A presente Carta deverá ser ratificada pelos Estados signatários, de acordo com os respectivos métodos constitucionais. 2. As ratificações serão depositadas junto ao Governo dos Estados Unidos da América, que notificará de cada depósito todos os Estados signatários, assim como o Secretário-Geral da Organização depois que este for escolhido. 3. A presente Carta entrará em vigor depois do depósito de ratificações pela República da China, França, união das Re‑ públicas Socialistas Soviéticas, Reino Unido da Grã Bretanha e Irlanda do Norte e Estados Unidos da América e ela maioria dos outros Estados signatários. O Governo dos Estados Uni‑ dos da América organizará, em seguida, um protocolo das ratificações depositadas, o qual será comunicado, por meio de cópias, aos Estados signatários. 4. Os Estados signatários da presente Carta, que a ratifi‑ carem depois de sua entrada em vigor tornar-se-ão membros fundadores das Nações Unidas, na data do depósito de suas respectivas ratificações. Artigo 111. A presente Carta, cujos textos emchinês, francês, russo, inglês, e espanhol fazem igualmente fé, ficará depositada nos arquivos do Governo dos Estados Unidos da América. Cópias da mesma, devidamente autenticadas, serão transmitidas por este último Governo aos dos outros Estados signatários. Em fé do que, os representantes dos Governos das Na‑ ções Unidas assinaram a presente Carta. Feita na cidade de São Francisco, aos vinte e seis dias do mês de junho de mil novecentos e quarenta e cinco. eSTATUTO DA CORTe INTeRNACIONAL De JUSTIÇA Artigo 1º A Corte Internacional de Justiça, estabelecida pela Carta das Nações Unidas como o principal órgão ju‑ diciário das Nações Unidas, será constituída e funcionará de acordo com as disposições do presente Estatuto. CAPÍTULO I Organização da Corte Artigo 2º A Corte será composta de um corpo de juízes independentes, eleitos sem atenção à sua nacionalida‑ de, entre pessoas que gozem de alta consideração moral e possuam as condições exigidas em seus respectivos paí‑ ses para o desempenho das mais altas funções judiciárias, ou que sejam jurisconsultos de reconhecida competência em direito internacional. Artigo 3º 1. A Corte será composta de quinze membros, não podendo configurar entre eles dois nacionais do mesmo Estado. 2. A pessoa que possa ser considerada nacional de mais de um Estado será, para efeito de sua inclusão como membro da Corte, considerada nacional do Estado em que exercer ordinariamente seus direitos civis e políticos. Artigo 4º 1. Os membros da Corte serão eleitos pela Assembleia Geral e pelo Conselho de Segurança de uma lista de pessoas apresentadas pelos grupos nacionais da Corte Permanente de Arbitragem, de acordo com as disposições seguintes. 2. Quando se tratar de Membros das Nações Unidas não representados na corte Permanente de Arbitragem, os can‑ didatos serão apresentados por grupos nacionais designados para esse fim pelos seus Governos, nas mesmas condições que as estipuladas para os membros da Corte Permanen‑ te de Arbitragem pelo art. 44 da Convenção de Haia, de 1907, referente à solução pacífica das controvérsias internacionais. 3. As condições pelas quais um Estado, que é parte no presente Estatuto, sem ser Membro das Nações Unidas, poderá participar na eleição dos membros da Corte, serão, na falta de acordo especial, determinadas pela Assembleia Geral mediante recomendação do Conselho de Segurança. Artigo 5º 1. Três meses, pelo menos antes da data da eleição, o Secretário Geral das Nações Unidas convidará, por escrito, os membros da Corte Permanente de Arbitra‑ gem pertencentes a Estados que sejam partes no presente Estatuto, e os membros dos grupos nacionais designados de conformidade com o art. 5, parágrafo 2, para que indiquem, por grupos nacionais, dentro de um prazo estabelecido, os nomes das pessoas em condições de desempenhar as funções de membro da Corte. 2. Nenhum grupo deverá indicar mais de quatro pessoas, das quais no máximo, duas poderão ser de sua nacionalidade. Em nenhum caso o número dos candidatos indicados por um grupo poderá ser maior do que o dobro dos lugares a serem preenchidos. Artigo 6º Recomenda-se que, antes de fazer estas indi‑ cações, cada grupo nacional consulte sua mais alta corte de justiça, suas faculdades e escolas de direito, suas academias nacionais e as seções nacionais de academias internacio‑ nais dedicada ao estudo de direito. Artigo 7º 1. O Secretário Geral preparará uma lista, por ordem alfabética, de todas as pessoas assim indicadas. Salvo o caso previsto no art. 12, parágrafo 2, serão elas as únicas pessoas elegíveis. 2. O Secretário Geral submeterá essa lista à Assembleia Geral e ao Conselho de Segurança. Artigo 8º A Assembleia Geral e o Conselho de Segurança procederão, independentemente um do outro, à eleição dos membros da Corte. Artigo 9º Em cada eleição, os eleitores devem ter presen‑ te não só que as pessoas a serem eleitas possuam individual‑ mente as condições exigidas, mas também que, no conjunto desse órgão judiciário, seja assegurada a representação das mais altas formas da civilização e dos principais sistemas jurídicos do mundo. Artigo 10. 1. 0s candidatos que obtiverem maioria absolu‑ ta de votos na Assembleia Geral e no Conselho de Segurança serão considerados eleitos. 2. Nas votações do Conselho de Segurança, quer para a eleição, dos juízes, quer para a nomeação dos mem‑ bros da comissão prevista no artigo 12, não haverá qualquer distinção entre membros permanentes e não permanen‑ tes do Conselho de Segurança. 3. No caso em que a maioria absoluta de votos, tanto da Assembleia Geral quanto do Conselho de Segurança, contemple mais de um nacional do mesmo Estado, o mais velho dos dois será considerado eleito. Artigo 11. Se, depois da primeira reunião convocada para fins de eleição, um ou mais lugares continuarem vagos, deverá ser realizada uma segunda e, se for necessário, uma terceira reunião. Artigo 12. 1. Se, depois da terceira reunião, um ou mais lugares ainda continuarem vagos, uma comissão, compos‑ ta de seis membros, três indicados pela Assembleia Geral e três pelo Conselho de Segurança, poderá ser formada em qualquer momento, por solicitação da Assembleia ou do Conselho de Segurança, com o fim de escolher, por maioria absoluta de votos, um nome para cada lugar ainda vago, o qual será submetido à Assembleia Geral e ao Conselho de Segurança para sua respectiva aceitação. . 23 D IR eI TO S H U M A N O S 2. A Comissão Mista, caso concorde unanimente com a escolha de uma pessoa que preencha as condições exigidas, poderá incluí-la em sua lista, ainda que a mesma não tenha figurado na lista de indicações a que se refere o artigo 7. 3. Se a Comissão Mista chegar à convicção de que não logrará resultados com uma eleição, os membros já eleitos da Corte deverão, dentro de um prazo a ser fixado pelo Con‑ selho de Segurança, preencher os lugares vagos, e o farão por escolha de entre os candidatos que tenham obtido votos na Assembleia Geral ou no Conselho de Segurança. 4. No caso de um empate na votação dos juízes, o mais velho deles terá voto decisivo. Artigo 13. 1. Os membros da Corte serão eleitos por nove anos e poderão ser reeleitos; fica estabelecido, entretanto, que, dos juízes eleitos na primeira eleição, cinco terminarão suas funções no fim de um período de três anos, e outros cinco no fim de um período de seis anos. 2. Os juízes cujas funções deverão terminar no fim dos referidos períodos iniciais de três e seis anos serão escolhidos por sorteio, que será efetuado pelo Secretário Geral imedia‑ tamente depois de terminada a primeira eleição. 3. Os membros da Corte continuarão no desempenho de suas funções até que suas vagas tenham sido preenchidas. Ainda depois de substituídos, deverão terminar qualquer questão cujo estudo tenham começado. 4. No caso de renúncia de um membro da Corte, o pedido de demissão deverá ser dirigido ao Presidente da Corte que o transmitirá ao Secretário Geral. Esta última notificação significará a abertura da vaga. Artigo 14. As vagas serão preenchidas pelo método esta‑ belecido para a primeira eleição, de acordo com a seguinte disposição: o Secretário Geral, dentro de um mês a contar da abertura da vaga, expedirá os convites a que se refere o art. 5, e a data da eleição será fixada pelo Conselho de Segurança. Artigo 15. O membro da Corte eleito na vaga de um membro que não terminou seu mandato, completará o período do mandato do seu predecessor. Artigo 16. 1. Nenhum membro da Corte poderá exercer qualquer função política ou administrativa, ou dedicar-se a outra ocupação de natureza profissional. 2. Qualquer dúvida a esse respeito será resolvida por decisão da Corte. Artigo 17. 1. Nenhum membro da Corte poderá servir como agente, consultor ou advogado em qualquer questão. 2. Nenhum membro poderá participar da decisão de qualquer questão na qual anteriormente tenha intervindo como agente, consultor ou, advogado de uma das partes, como membro de um tribunalnacional ou internacional, ou de uma comissão de inquérito, ou em qualquer outro caráter. 3. Qualquer dúvida a esse respeito será resolvida por decisão da Corte. Artigo 18. 1. Nenhum membro da Corte poderá ser demitido, a menos· que, na opinião unânime dos outros membros, tenha deixado de preencher as condições exigidas. 2. O Secretário Geral será disso notificado, oficialmente, pelo Escrivão da Corte. 3. Essa notificação significará a abertura da vaga. Artigo 19. Os membros da Corte, quando no exercício de suas funções, gozarão dos privilégios e imunidades di‑ plomáticas. Artigo 20. Todo membro da Corte, antes de assumir as suas funções, fará, em sessão pública, a declaração solene de que exercerá as suas atribuições imparcial e conscien‑ ciosamente. Artigo 21. 1. A Corte elegerá, pelo período de três anos, seu Presidente e seu Vice-Presidente, que poderão ser reeleitos. 2. A Corte nomeará seu Escrivão e providenciará sobre a nomeação de outros funcionários que sejam necessários. Artigo 22. 1. A sede da Corte será a cidade de Haia. Isto, entretanto, não impedirá que até aqui a Corte se reúna e exerça suas funções em qualquer outro lugar que considere conveniente. 2. O Presidente e o Escrivão residirão na sede da Corte. Artigo 23. 1. A Corte funcionará permanentemente, ex‑ ceto durante as férias judiciárias, cuja data e duração serão por ela fixadas. 2. Os Membros da Corte gozarão de licenças periódicas, cujas datas e duração serão fixadas pela Corte, sendo toma‑ das em consideração a distância entre a Haia e o domicílio de cada Juiz. 3. Os membros da Corte serão obrigados a ficar perma‑ nentemente à disposição da Corte, a menos que estejam em licença ou impedidos de comparecer por motivo de doença ou outra séria razão, devidamente justificada perante o Presidente. Artigo 24. 1. Se, por qualquer razão especial, o membro da Corte considerar que não deve tomar parte no Julga‑ mento de uma determinada questão, deverá informar disto o Presidente. 2. Se o Presidente considerar que, por uma razão espe‑ cial, um dos membros da Corte não deve funcionar numa determinada questão, deverá informá-lo disto. 3. Se, em qualquer desses casos, o membro da Corte e o Presidente não estiverem de acordo, o assunto será resolvido por decisão da Corte. Artigo 25. A Corte funcionará em sessão plenária, exceto nos casos previstos em contrário no presente capítulo. 2. O regulamento da Corte poderá permitir que um ou mais juízes, de acordo com as circunstâncias e rotativamente, sejam dispensados das sessões, contanto que o número de juízes disponíveis para constituir a Corte não seja reduzido a menos de onze. 3. O quorum de nove juízes será suficiente para constituir a Corte. Artigo 26. 1. A Corte poderá periodicamente formar uma ou mais Câmaras, compostas de três ou mais juízes, confor‑ me ela mesma determinar, a fim de tratar de questões de caráter especial, como, por exemplo, questões trabalhistas e assuntos referentes a trânsito e comunicações. 2. A Corte poderá, em qualquer tempo, formar uma Câ‑ mara para tratar de uma determinada questão. O número de juízes que constituirão essa Câmara será determinado pela Corte, com a aprovação das partes. 3. As questões serão consideradas e resolvidas pelas Câmaras a que se refere o presente artigo, se as partes assim o solicitarem. Artigo 27. Uma sentença proferida por qualquer das câ‑ maras, a que se referem os artigos 26 e 29, será considerada como sentença emanada da Corte. Artigo 28. As Câmaras, a que se referem os artigos 26 e 29, poderão, com o consentimento das partes, reunir-se e exercer suas funções fora da cidade de Haia. Artigo 29. Com o fim de apressar a solução dos assuntos, a Corte formará anualmente uma Câmara, composta de cinco juízes; a qual, a pedido das partes, poderá considerar e resolver sumariamente as questões. Além dos cinco juízes, serão escolhidos outros dois, que atuarão como substitutos, no impedimento de um daqueles. Artigo 30. 1. A Corte estabelecera regras para o desem‑ penho de suas funções; especialmente as que se refiram aos métodos processuais. 2. O Regulamento da Corte disporá sobre a nomeação de assessores para a Corte ou para qualquer de suas Câmaras, os quais não terão direito a voto. . 24 D IR eI TO S H U M A N O S Artigo 31. 1. Os juízes da mesma nacionalidade de qual‑ quer das partes conservam o direito de funcionar numa questão julgada pela Corte. 2. Se a Corte incluir entre os seus membros um juiz de nacionalidade de uma das partes, qualquer outra parte poderá escolher uma pessoa para funcionar como juiz. Essa pessoa deverá, de preferência, ser escolhida entre os que figuraram entre os candidatos a que se referem os arts. 4 e 5. 3. Se a Corte não incluir entre os seus membros nenhum juiz de nacionalidade das partes, cada uma destas poderá proceder à escolha de um juiz, de conformidade com o pa‑ rágrafo 2 deste artigo. 4. As disposições deste artigo serão aplicadas aos casos previstos nos artigos 26 e 29. Em tais casos, o presidente solicitará a um ou, se necessário a dois dos membros da Corte integrantes da Câmara, que cedam seu lugar aos membros da Corte de nacionalidade das partes interessadas, e, na falta ou impedimento destes, aos juízes especialmente escolhidos pelas partes. 5. No caso de haver diversas partes interessadas na mesma questão, elas serão, para os fins das disposições precedentes, consideradas como uma só parte. Qualquer dúvida sobre este ponto será resolvida por decisão da Corte. 6. Os juízes escolhidos de conformidade com os pará‑ grafos 2, 3 e 4 deste artigo deverão preencher as condições exigidas pelos artigos 2, 17 (parágrafo 2), 20 e 24, do pre‑ sente Estatuto. Tomarão parte nas decisões em condições de completa igualdade com seus colegas. Artigo 32. 1. Os membros da Corte perceberão venci‑ mentos anuais. 2. O Presidente receberá, por ano, um subsídio especial. 3. O Vice-Presidente recebera um subsídio especial, cor‑ respondente a cada dia em que funcionar como Presidente. 4. Os juízes escolhidos de conformidade com o art. 31, que não sejam membros da Corte, receberão uma remunera‑ ção correspondente a cada dia em que exerçam suas funções. 5. Esses vencimentos, subsídios e remunerações serão fixados pela Assembleia Geral e não poderão ser diminuídos enquanto durarem os mandatos. 6. Os vencimentos de Escrivão serão fixados pela Assem‑ bleia Geral, por proposta da Corte. 7. O Regulamento elaborado pela Assembleia Geral fi‑ xará as condições pelas quais serão concedidas pensões aos membros da Corte e ao Escrivão, e as condições pelas quais os membros da Corte e o Escrivão serão reembolsados de suas despesas de viagem. 8. Os vencimentos, subsídios e remuneração, acima mencionados, estarão livres de qualquer imposto. Artigo 33. As despesas da Corte serão custeadas pe‑ las Nações Unidas da maneira que for decidida pela Assem‑ bleia Geral. CAPÍTULO II Competência da Corte Artigo 34. 1. Só os Estados poderão ser partes em ques‑ tões perante a Corte. 2. Sobre as questões que lhe forem submetidas, a Corte, nas condições prescritas por seu Regulamento, poderá so‑ licitar Informação, de organizações públicas internacionais, e receberá as informações que lhe forem prestadas, por iniciativa própria, pelas referidas organizações. 3. Sempre que, no Julgamento de uma questão perante a Corte, for discutida a interpretação de instrumento consti‑ tutivo de uma organização pública internacional ou de uma convenção internacional adotada em virtude do mesmo, o Escrivão dará conhecimento disso à organização pública internacional interessada e lhe encaminhará cópias de todo o expediente escrito. Artigo 35. 1. A Corte estará aberta aos Estados que são parte no presente Estatuto. 2. As condições pelas quais a Corte estará aberta a outros Estados serão determinadas, pelo Conselho de Segurança, ressalvadas as disposições especiais dos tratados vigentes; em nenhum caso, porém, tais condições colocarão as partes em posiçãode desigualdade perante a Corte. 3. Quando um Estado que não é Membro das Nações Unidas for parte numa questão, a Corte fixará a importância com que ele deverá, contribuir para as despesas da Corte. Esta disposição não será aplicada, se tal Estado já contribuir para as referidas despesas. Artigo 36. 1. A competência da Corte abrange todas as questões que as partes lhe submetam, bem como todos os assuntos especialmente previstos na Carta das Nações Unidas ou em tratados e convenções em vigor. 2. Os Estados partes no presente Estatuto pode‑ rão, em qualquer momento, declarar que reconhecem como obrigatória, ipso facto e sem acordo especial, em relação a qualquer outro Estado que aceite a mesma obrigação, a jurisdição da Corte em todas as controvérsias de ordem jurídica que tenham por objeto: a) a interpretação de um tratado; b) qualquer ponto de direito internacional; c) a existência de qualquer fato que, se verificado, cons‑ tituiria a violação de um compromisso internacional; d) a natureza ou a extensão da reparação devida pela ruptura de um compromisso internacional. 3. As declarações acima mencionadas poderão ser feitas pura e simplesmente ou sob condição de reciprocidade da parte de vários ou de certos Estados, ou por -prazo deter‑ minado. 4. Tais declarações serão depositadas junto ao Secretá‑ rio Geral das Nações Unidas, que as transmitirá, por cópia, às partes contratantes do presente Estatuto e ao Escrivão da Corte. 5. Nas relações entre as partes contratantes do presente Estatuto, as declarações feitas de acordo com o artigo 36 do Estatuto da Corte Permanente de Justiça Internacional e que ainda estejam em vigor serão consideradas como importando na aceitação da jurisdição obrigatória da Corte Internacional de Justiça pelo período em que ainda devem vigorar e de conformidade com os seus termos. 6. Qualquer controvérsia sobre a jurisdição da Corte será resolvida por decisão da própria Corte. Artigo 37. Sempre que um tratado ou convenção em vigor disponha que um assunto deve ser submetido a uma jurisdição a ser instituída pela Liga das Nações, ou à Cor‑ te Permanente de Justiça Internacional, o assunto deverá, no que respeita às partes contratantes do presente Estatuto, ser submetido à Corte Internacional de Justiça. Artigo 38. 1. A Corte, cuja função é decidir de acor‑ do com o direito internacional as controvérsias que lhe forem submetidas, aplicará: a) as convenções internacionais, quer gerais, quer espe‑ ciais que estabeleçam regras expressamente reconhecidas pelos Estados litigantes; b) o costume internacional, como prova de uma prática geral aceita como sendo o direito; c) os princípios gerais de direito reconhecidos pelas Nações civilizadas; d) sob ressalva da disposição do art. 59, as decisões judiciárias e a doutrina dos publicistas mais qualificados das diferentes Nações, como meio auxiliar para a determinação das regras de direito. . 25 D IR eI TO S H U M A N O S 2. A presente disposição não prejudicará a faculdade da Corte de decidir uma questão ex aeque et bano, se as partes com isto concordarem. CAPÍTULO III Processo Artigo 39. 1. As línguas oficiais da Corte serão o francês e o inglês. Se as partes concordarem em que todo o processo se efetue em francês, a sentença será proferida em francês. Se as partes concordarem em que todo o processo se efetue em inglês, a sentença será proferida em inglês. 2. Na ausência de acordo a respeito da língua que deverá ser empregada; cada parte poderá, em suas alegações, usar a língua que preferir; a sentença da Corte será proferida em francês e em inglês. Neste caso, a Corte determinará ao mesmo tempo qual dos dois textos fará fé. 3. A pedido de uma das partes, a Corte poderá autorizá-la a usar uma língua que não seja o francês ou o inglês. Artigo 40. 1. As questões serão submetidas à Corte, con‑ forme o caso, por notificação do acordo especial ou por uma petição escrita dirigida ao Escrivão. Em qualquer dos casos, o objeto da controvérsia e as partes deverão ser indicados. 2. O Escrivão comunicará imediatamente a petição a todos os interessados. 3. Notificará também os Membros das Nações Unidas por intermédio do Secretário Geral e quaisquer outros Estados com direito a comparecer perante a Corte. Artigo 41. 1. A Corte terá a faculdade de indicar, se julgar que as circunstâncias o exigem, quaisquer medidas provisó‑ rias que devem ser tomadas para preservar os direitos de cada parte. 2. Antes que a sentença seja proferida, as partes e o Con‑ selho de Segurança deverão ser informados imediatamente das medidas sugeridas. Artigo 42. 1. As partes serão representadas por agentes. 2. Estes terão a assistência de consultores ou advogados, perante a Corte. 3. Os agentes, os consultores e os advogados das partes perante a Corte gozarão dos privilégios e imunidades neces‑ sários ao livre exercício de suas atribuições. Artigo 43. 1. O processo constará de duas fases: uma escrita e outra oral. 2. O processo escrito compreenderá a comunicação, à Corte e, às partes de memórias, contra memórias e, se necessário, réplicas, assim como quaisquer peças e docu‑ mentos em apoio das mesmas. 3. Essas comunicações serão feitas por intermédio do Escrivão, na ordem e dentro do prazo fixados pela Corte. 4. Uma cópia autenticada de cada documento apresen‑ tado por uma das partes será comunicada à outra parte. 5. O processo oral consistirá na audiência, pela Corte, de testemunhas, peritos, agentes, consultores e advogados. Artigo 44. 1 Para citação de outras pessoas que não sejam os agentes, os consultores ou advogados, a Cor‑ te dirigir-se-á-diretamente ao Governo do Estado em cujo território deve ser feita a citação. 2. O mesmo processo será usado sempre que for neces‑ sário providenciar para obter quaisquer meios de prova no lugar do fato. Artigo 45. Os debates serão dirigidos pelo Presidente ou, no impedimento deste, pelo vice-presidente; se ambos estiverem impossibilitados de presidir, o mais antigo dos Juízes presentes ocupará a presidência. Artigo 46. As audiências da Corte serão públicas, a me‑ nos que a Corte decida de outra maneira em que as partes solicitem a não admissão de público. Artigo 47. 1. Será lavrada ata de cada audiência, assinada pelo Escrivão e pelo Presidente. 2. Só essa ata fará fé. Artigo 48. A Corte proferirá decisões sobre o andamento do processo, a forma e o tempo em que cada parte terminará suas alegações, e tomará todas as medidas relacionadas com a apresentação das provas. Artigo 49. A Corte poderá, ainda antes do início da audiência, intimar os agentes a apresentarem qualquer do‑ cumento ou a fornecerem quaisquer explicações. Qualquer recusa deverá constar da ata. Artigo 50. A Corte poderá, em qualquer momento, con‑ fiar a qualquer indivíduo, corporação, repartição, comissão ou outra organização, à sua escolha, a tarefa de proceder a um inquérito ou a uma perícia. Artigo 51. Durante os debates, todas as perguntas de interesse serão feitas às testemunhas e peritos de con‑ formidade com as condições determinadas pela Corte no Regulamento a que se refere o artigo 30. Artigo 52. Depois de receber as provas e depoimentos dentro do prazo fixado para esse fim, a Corte poderá recu‑ sar-se a aceitar qualquer novo depoimento oral ou escrito que uma das partes deseje apresentar, a menos que as outras partes com isso concordem. Artigo 53. 1. Se uma das partes deixar de comparecer perante a Corte ou de apresentar a sua defesa, a outra parte poderá solicitar à Corte que decida a favor de sua pretensão. 2. A Corte, antes de decidir nesse sentido, deve certifi‑ car-se não só de que o assunto é de sua competência, de conformidade com os arts. 36 e 37, mas também de que a pretensão é bem fundada, de fato e de direito. Artigo 54. 1. Quando os agentes, consultores e advoga‑ dos tiverem concluído, sob a fiscalização da Corte, a apre‑ sentação de sua causa, o Presidente declarará encerrados os debates. 2. A Corte retirar-se-á paradeliberar. 3. As deliberações da Corte serão tomadas privadamente e permanecerão secretas. Artigo 55. 1. Todas as questões serão decididas por maioria dos juízes presentes. 2. No caso de empate na votação, o Presidente ou o juiz que funcionar em seu lugar decidirá com o seu voto. Artigo 56. 1. A sentença deverá declarar as razões em que se funda. 2. Deverá mencionar os nomes dos juízes que tomaram parte na decisão. Artigo 57. Se a sentença não representar no todo ou em parte a opinião unânime dos juízes, qualquer deles terá direito de lhe juntar a exposição de sua opinião individual. Artigo 58. A sentença será assinada pelo Presidente e pelo Escrivão. Deverá ser lida em sessão pública, depois de notificados, devidamente, os agentes. Artigo 59. A decisão da Corte só será obrigatória para as partes litigantes e a respeito do caso em questão. Artigo 60. A sentença é definitiva e inapelável. Em caso de controvérsia quanto ao sentido e ao alcance da sentença, caberá à Corte interpretá-la a pedido de qualquer das partes. Artigo 61. 1. O pedido de revisão de uma sentença só poderá ser feito em razão do descobrimento de algum fato suscetível de exercer influência decisiva, o qual, na ocasião de ser proferida a sentença, era desconhecido da Corte e também da parte que solicita a revisão, contanto que tal desconhecimento não tenha sido devido à negligência. 2. O processo de revisão será aberto por uma sentença da Corte, na qual se consignará expressamente a existência do fato novo, com o reconhecimento do caráter que deter‑ mina a abertura da revisão e a declaração de que é cabível a solicitação nesse sentido. . 26 D IR eI TO S H U M A N O S 3. A Corte poderá subordinar a abertura do processo de revisão à prévia execução da sentença. 4. O pedido de revisão deverá ser feito no prazo máximo de seis meses a partir do descobrimento do fato novo. 5. Nenhum pedido de revisão poderá ser feito depois de transcorridos 10 anos da data da sentença. Artigo 62. 1. Quando um Estado entender que a decisão de uma causa é suscetível de comprometer um interesse seu de ordem jurídica, esse Estado poderá solicitar à Corte permissão para intervir em tal causa. 2. A Corte decidirá sobre esse pedido. Artigo 63. 1. Quando se tratar da interpretação de uma convenção, da qual forem partes outros Estados, além dos litigantes, o Escrivão notificará imediatamente todos os Estados interessados. 2. Cada Estado assim notificado terá o direito de intervir no processo; mas, se usar deste direito, a interpretação dada pela sentença será igualmente obrigatória para ele. Artigo 64. A menos que seja decidido em contrário pela Corte, cada parte pagará suas próprias custas no processo. CAPÍTULO IV Pareceres Consultivos Artigo 65. 1. A Corte poderá dar parecer consultivo sobre qualquer questão jurídica a pedido do órgão que, de acordo com a Carta das Nações Unidas ou por ela autorizado, estiver em condições de fazer tal pedido. 2. As questões sobre as quais for pedido o parecer con‑ sultivo da Corte serão submetidas a ela por meio de petição escrita que deverá conter uma exposição do assunto sobre o qual é solicitado o parecer e será acompanhada de todos os documentos que possam elucidar a questão. Artigo 66. 1. O Escrivão notificará imediatamente todos os Estados com direito a comparecer perante a Corte, do pedido de parecer consultivo. 2. Além disto, a todo Estado admitido a comparecer perante a Corte e a qualquer organização internacional, que, a juízo da Corte ou de seu Presidente, se a Corte não estiver reunida, forem suscetíveis de fornecer informações sobre a questão – o Escrivão fará saber, por comunicação especial e direta, que a Corte estará disposta a receber expo‑ sições escritas, dentro num prazo a ser fixado pelo Presidente, ou ouvir exposições orais durante uma audiência pública realizada para tal fim. 3. Se qualquer Estado com direito a comparecer perante a Corte deixar de receber a comunicação especial a que se refere o parágrafo 2 deste artigo, tal Estado poderá mani‑ festar o desejo de submeter a ela uma exposição escrita ou oral. A Corte decidirá. 4. Os Estados e organizações que tenham apresentado exposição escrita ou oral, ou ambas, terão a faculdade de discutir as exposições feitas por outros Estados ou organi‑ zações, na forma, extensão ou limite de tempo que a Corte, ou, se ela não estiver reunida, o seu Presidente determinar, em cada caso particular. Para esse efeito, o Escrivão devera, no devido tempo, comunicar qualquer dessas exposições escritas aos Estados e organizações que submeterem expo‑ sições semelhantes. Artigo 67. A Corte dará seus pareceres consultivos em sessão pública, depois de terem sido notificados o Secretário Geral, os representantes dos Membros das Nações Unidas, bem como de outros Estados e das organizações internacio‑ nais diretamente interessadas. Artigo 68. No exercício de suas funções consultivas, a Cor‑ te deverá guiar-se, além disso, pelas disposições do presente Estatuto, que se aplicam em casos contenciosos, na medida em que, na sua opinião, tais disposições forem aplicáveis. CAPÍTULO V emendas Artigo 69. As emendas ao presente Estatuto serão efetuadas pelo mesmo processo estabelecido pela Carta das Nações Unidas para emendas à Carta, ressalvadas, entretanto, quaisquer disposições que a Assembleia Geral, por determinação do Conselho de Segurança, possa adotar a respeito da participação de Estados que, tendo aceito o presente Estatuto, não são Membros das Nações Unidas. Artigo 70. A Corte terá a faculdade de propor por escrito ao Secretário Geral quaisquer emendas ao presente Estatuto, que julgar necessárias, a fim de que as mesmas sejam con‑ sideradas de conformidade com as disposições do art. 69. E, havendo o Governo do Brasil aprovado a mesma Carta nos termos acima transcritos, pela presente a dou por firme e valiosa para produzir os seus devidos efeitos, prometendo que será cumprida inviolavelmente. Em firmeza do que, mandei passar esta Carta que assino e é selada cem o selo das armas da República e subscrita pelo Ministro de Estado das Relações Exteriores. Dada no Palácio da Presidência, no Rio de Janeiro, aos doze dias do mês de setembro, de mil novecentos e quarenta e cinco, 124º da Independência e 57º da República. GETÚLIO VARGAS Pedro Leão Velloso SISTeMA ReGIONAL INTeRAMeRICANO De PROTeÇÃO AOS DIReITOS HUMANOS Ao lado Sistema Global, conforme visto anteriormente, existem os seguintes Sistemas Regionais de Proteção: • Sistema Europeu (formado no âmbito do Conselho da Europa); • Sistema Interamericano (formado no âmbito da OEA); e • Sistema Africano (formado no âmbito da União Afri‑ cana). Trataremos especificamente sobre o Sistema Interame‑ ricano, o qual o Brasil faz parte. No contexto do continente americano, as tendências in‑ ternacionais de proteção aos direitos humanos resultaram na proposição pela Organização dos Estados Americanos – OEA, em 1948, da Carta da Organização dos Estados Americanos, que culminou na aprovação da Declaração Americana de Direitos e Deveres do Homem. Essa Declaração, aprovada 10 meses antes daquela firmada na Assembleia das Nações Unidas, foi de fato o primeiro instrumento de relevo no campo da proteção internacional dos direitos humanos. Em seguida, em 1959, foi criada a Comissão Interame‑ ricana dos Direitos Humanos, órgão que passou a receber e examinar reclamações de indivíduos contra violações a direitos humanos ocorridas nos Estados-Membros. Em 22 de novembro de 1969, ultrapassados os debates sobre a conveniência política de criar-se um arcabouço ins‑ titucional destinado a supervisão dos direitos humanos no continente, foi finalmente adotada a Convenção Americana sobre Direitos Humanos, também conhecida como Pacto de São José da Costa Rica. Nesse instrumento, que disciplina em detalhes os deveres dos Estados membros da organização e estrutura de forma definitiva o Sistema Interamericano de Proteção dos DireitosHumanos, previa-se a criação de uma Corte para julgar as violações ocorridas na região. A convenção entrou em vigor em 1978, após alcançar o mínimo de onze ratificações, e, no ano seguinte, na mesma cidade de São José da Costa Rica, foi fundada a Corte Interamericana de Direitos Humanos. . 27 D IR eI TO S H U M A N O S O Sistema Interamericano de Direitos Humanos é, portan‑ to, bifásico, contando com dois órgãos distintos: a Comissão Interamericana de Direitos Humanos e a Corte Interamerica‑ na de Direitos Humanos. Vale lembrar, que tanto a Comissão quanto a Corte Interamericana não são órgãos permanentes, reunindo‑se, portanto, em períodos pré‑determinados de sessões ao longo do ano. O procedimento para consideração de casos de violação de direitos humanos, no âmbito do Sistema Interamericano, é relativamente simples. Qualquer pessoa, grupo de pessoas ou entidade não governamental legalmente constituída em um ou mais Estados membros da Organização pode apre‑ sentar à Comissão Interamericana petições que contenham denúncias de violação de qualquer dos direitos e garantias tu‑ telados pela Convenção Americana sobre Direitos Humanos. Para que uma petição seja admitida, deverá o reclamante descrever os fatos, as violações alegadas e as respectivas vítimas, indicando o Estado responsável pela violação e as gestões que levaram ao esgotamento dos recursos de jurisdi‑ ção interna antes de ser acionado o Sistema Interamericano. Comissão Interamericana de Direitos Humanos A Comissão consistiu no primeiro organismo efetivo de proteção dos direitos humanos, cuja competência alcança todos os Estados Partes da Convenção Americana, em relação aos direitos lá consagrados. Sediada em Washington, Estados Unidos, sua principal função é promover a observância e a proteção dos direitos humanos na América. Criada em 1959, teve papel ampliado no decorrer do tem‑ po. Entre as atribuições que lhe foram designadas podemos citar: a competência para fazer recomendações aos Estados Partes, prevendo a adoção de medidas necessárias para a efetiva tutela dos direitos garantidos convencionalmente, preparar estudos e relatórios sobre situações específicas de violação aos direitos humanos e solicitar aos governos informações sobre as medidas por eles adotadas no assun‑ to. A Comissão é composta por sete membros, eleitos pela Assembleia Geral para mandatos de quatro anos, permitida uma reeleição. Os eleitos são representantes não de seus próprios países, mas de todos os Estados membros da OEA, e se reúnem na sede da Comissão, em Washington, em pelo menos duas sessões ao ano. Além disso, os Comissionados podem realizar visitas in loco aos Estados, a fim de averiguar aspectos referentes a casos específicos em trâmite ou para elaborar relatórios sobre a situação geral dos direitos huma‑ nos nos países visitados. Uma das características mais importantes da Comissão Interamericana é a possibilidade de postulação atribuída a qualquer pessoa, grupo de pessoas ou entidade não governa‑ mental. Alguém que sofra, presencie ou tome conhecimento de uma violação de direitos humanos pode efetuar denúncia diretamente ao órgão da OEA. Ao receber uma denúncia de violação de direitos huma‑ nos, a Comissão Interamericana deverá observar se estão presentes alguns requisitos essenciais. Entre tais exigências, está aquele que é o princípio basilar dos órgãos jurisdicionais internacionais: o prévio esgotamento dos recursos internos. De acordo com esse preceito, um Estado não pode ser acio‑ nado perante a jurisdição internacional sem que lhe seja permitido resolver a questão internamente. Isso porque, um órgão judicial internacional não pode substituir o Judiciário estatal, em respeito à soberania dos Estados. Apenas se esgotados todos os remédios disponí‑ veis no âmbito interno, ou caso ocorra uma das exceções ao esgotamento, como demora injustificada ou ineficácia do recurso, é que a questão pode ultrapassar os limites do Estado e ser levada ao foro internacional. Outro requisito relevante é a ausência de litispendência internacional. Ou seja, um mesmo caso não pode ser levado simultaneamente ao Sistema Interamericano de Proteção dos Direitos Humanos e ao Sistema Universal da Organização das Nações Unidas. Deve-se optar por um dos mecanismos. Presentes todos os requisitos, a petição será encaminha‑ da ao Estado supostamente violador, para que este se ma‑ nifeste sobre os requisitos de admissibilidade da denúncia. Após, a Comissão chamará mais uma vez as partes para que estas apresentem observações adicionais, e então decidirá se admite ou não a petição. Caso positivo, há a abertura formal de um caso, e é franqueada nova oportunidade para que os litigantes firmem seus posicionamentos, desta vez sobre o mérito da questão. Nesse momento, surge, e é incentivada pela Comissão, a possibilidade de negociação para se atingir uma solução amistosa. Politicamente pode ser desgastante para o Estado ser reconhecido pelo Sistema Interamericano como violador de direitos humanos. É claro que os Estados estão sujeitos, em vários casos, às amarras de seu direito interno, que frequentemente impedem ou dificultam a realização de acordos nesses litígios. Contudo, este é um instrumento de bastante valia para o sistema, e certamente é um de seus mais eficazes mecanismos. Via de regra, há a intermediação de um árbitro indicado pela Comissão, mas as negociações para a solução amistosa podem ocorrer até mesmo no âm‑ bito interno dos Estados. Superada a fase da solução amistosa, sem que esta te‑ nha um desfecho positivo, a Comissão Interamericana tem duas possibilidades: ou decide que não houve violação, ou manifesta-se pela ocorrência de violação a um ou mais dis‑ positivos protegidos por instrumento internacional. Nesse último caso, a Comissão apresenta relatório preliminar de recomendações, o qual é transmitido ao Estado. Esse Estado, que no momento já é considerado um vio‑ lador de direitos humanos para todos os efeitos, terá um prazo para se manifestar sobre o cumprimento das reco‑ mendações. Caso silencie ou não justifique o porquê do não atendimento às medidas consignadas, receberá um Segundo Informe da Comissão, reiterando as recomendações. Na hipótese de o país não atender às recomendações da Comissão, o caso pode ser levado à Corte Interamericana de Direitos Humanos, com a anuência dos peticionários. Corte Interamericana de Direitos Humanos A Corte Interamericana de Direitos Humanos, sediada em São José da Costa Rica, é um órgão judicial internacio‑ nal autônomo do sistema da OEA, criado pela Convenção Americana dos Direitos do Homem, que tem competência de caráter contencioso e consultivo. Trata-se de tribunal composto por sete juízes nacionais dos Estados membros da OEA, eleitos a título pessoal dentre juristas da mais alta autoridade moral, de reconhecida competência em matéria de direitos humanos, que reúnam as condições requeridas para o exercício das mais elevadas funções judiciais, de acordo com a lei do Estado do qual sejam nacionais (art. 52 da Convenção Interamericana). A Corte Interamericana de Direitos Humanos tem com‑ petência para conhecer de qualquer caso relativo à interpre‑ tação e aplicação das disposições da Convenção Americana sobre Direitos humanos, desde que os Estados-Partes no caso, tenham reconhecido a sua competência. Somente a Comissão Interamericana e os Estados Partes da Convenção Americana sobre Direitos Humanos podem submeter um caso à decisão desse Tribunal. No exercício de sua competência consultiva, a Corte Inte‑ ramericana tem desenvolvido análises elucidativas a respeito do alcance e do impacto dos dispositivos da Convenção Ame‑ . 28 D IR eI TO S H U M A N O S ricana, emitindo opiniões que têm facilitado a compreensão de aspectos substanciais da Convenção, contribuindo para a construção e evolução do Direito Internacional dos Direitos Humanos no âmbito da América Latina. No plano contencioso, suacompetência para o julga‑ mento de casos, limitada aos Estados Partes da Convenção que tenham expressamente reconhecido sua jurisdição, consiste na apreciação de questões envolvendo denúncia de violação, por qualquer Estado Parte, de direito protegido pela Convenção. Caso reconheça que efetivamente ocorreu a violação à Convenção, determinará a adoção de medidas que se façam necessárias à restauração do direito então violado, podendo condenar o Estado, inclusive, ao paga‑ mento de uma justa compensação à vítima. Note-se que, diversamente do sistema europeu, não é reconhecido o direito postulatório das supostas vítimas, seus familiares ou organizações não-governamentais diante da Corte Interame‑ ricana. Somente a Comissão e os Estados-parte da OEA têm legitimidade para a apresentação de demandas ante à Corte. Desse modo, qualquer indivíduo que pretenda submeter denúncia à apreciação da Corte, deve, necessariamente, apresentá-la à Comissão Interamericana. A partir do ano de 1996, todavia, inovação trazida pelo III Regulamento da Corte Interamericana de Direitos Humanos, ampliou-se a possibilidade de participação do indivíduo no processo, autorizando que os representantes ou familiares das vítimas apresentassem, de forma autônoma, suas pró‑ prias alegações e provas durante a etapa de discussão sobre as reparações devidas. Além disso, hoje, com as alterações trazidas pelo IV Regu‑ lamento, também é possível que as vítimas, seus represen‑ tantes e familiares não só ofereçam suas próprias peças de argumentação e provas em todas as etapas do procedimento, como também façam uso da palavra durante as audiências públicas celebradas, ostentando, assim, a condição de ver‑ dadeiras partes no processo. A Atuação do Brasil perante o Sistema Interamericano de Direitos Humanos Na década de 80, com o fim do governo militar e o arrefe‑ cimento da Guerra Fria, o Brasil intensificou seu comprome‑ timento com a proteção dos direitos humanos, abrindo-se à atuação de mecanismos internacionais de supervisão, como o Sistema Interamericano de Direitos Humanos. O pontapé inicial das discussões foi dado em 1985, mas o efeito con‑ creto – a ratificação da Convenção Americana – só ocorreu em 1992, após a consolidação do processo de redemocra‑ tização e a promulgação da chamada Constituição cidadã, que elevava os direitos humanos à condição de prevalência na política externa pátria (Art. 4º da CF). Também foi na década de 80, que o Brasil aderiu a alguns dos principais tratados de proteção aos direitos humanos: os dois Pactos das Nações Unidas sobre direitos humanos, a Convenção contra a Tortura, a Convenção sobre os Direitos da Criança e a Convenção Interamericana para Prevenir e Punir a Tortura. Em 10 de dezembro de 1998, data símbolo do cinquentenário da Declaração Universal dos Direitos Hu‑ manos, o Brasil passava a reconhecer a jurisdição obrigatória da Corte Interamericana de Direitos Humanos. Dentre os foros multilaterais dos quais o Brasil faz parte, certamente o Sistema Interamericano de Direitos Humanos é dos que se mais destaca, nos anos mais recentes. A defesa estatal perante a Comissão e a Corte Interamericana de Di‑ reitos Humanos, teve que se profissionalizar em decorrência do adensamento jurisdicional ocorrido em todo o sistema. O aumento significativo do número de casos brasileiros perante a Comissão, aliado à estruturação das organizações não-governamentais pátrias e ao início da admissão de ca‑ sos brasileiros à fase de mérito, assim como a elevação dos primeiros casos do Brasil à esfera da Corte Interamericana foram decisivos na mudança da atuação do Estado. Inexistem regras que disciplinem, no plano interno, de que forma deverá ser conduzida a defesa do Estado brasileiro perante o Sistema Interamericano. O certo é que as matérias levadas a esse foro serão sempre complexas e delicadas, envolvendo aspectos políticos, jurídicos e diplomáticos, do interesse de diversos atores. Por isso, fez-se necessário que os órgãos da Adminis‑ tração Pública, notadamente a Advocacia-Geral da União, o Ministério das Relações Exteriores e a Secretaria Especial dos Direitos Humanos, que seriam os mais diretamente en‑ volvidos nas questões levadas ao Sistema Interamericano, passassem a atuar conjuntamente, cada qual dentro de suas esferas de competência, na condução da defesa do Estado brasileiro que será apresentada perante a Comissão e a Corte Interamericana de Direitos Humanos. A unificação do discurso e a atuação em coordenação no plano interno foram determinantes para que a defesa estatal se tornasse uníssona e coerente na esfera internacional, além de garantir a adequação da política nacional aos princípios norteadores dos direitos humanos. DeCReTO Nº 678, De 6 De NOVeMBRO De 1992 Promulga a Convenção Ame- ricana sobre Direitos Humanos (Pacto de São José da Costa Rica), de 22 de novembro de 1969. O VICe-PReSIDeNTe DA RePÚBLICA, no exercício do cargo de PReSIDeNTe DA RePÚBLICA , no uso da atribuição que lhe confere o art. 84, inciso VIII, da Constituição, e Considerando que a Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Pacto de São José da Costa Rica), adotada no âmbito da Organi‑ zação dos Estados Americanos, em São José da Costa Rica, em 22 de novembro de 1969, entrou em vigor internacional em 18 de julho de 1978, na forma do segundo parágrafo de seu art. 74; Considerando que o Governo brasileiro depositou a carta de adesão a essa convenção em 25 de setembro de 1992; Considerando que a Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Pacto de São José da Costa Rica) entrou em vigor, para o Brasil, em 25 de setembro de 1992, de conformidade com o disposto no segundo parágrafo de seu art. 74; DeCReTA: Art. 1º A Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Pacto de São José da Costa Rica), celebrada em São José da Costa Rica, em 22 de novembro de 1969, apensa por cópia ao presente decreto, deverá ser cumprida tão inteiramente como nela se contém. Art. 2º Ao depositar a carta de adesão a esse ato inter‑ nacional, em 25 de setembro de 1992, o Governo brasileiro fez a seguinte declaração interpretativa: “O Governo do Brasil entende que os arts. 43 e 48, alínea d, não incluem o direito automático de visitas e inspeções in loco da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, as quais dependerão da anuência expressa do Estado”. Art. 3º O presente decreto entra em vigor na data de sua publicação. Brasília, 6 de novembro de 1992; 171º da Independência e 104º da República. ITAMAR FRANCO Fernando Henrique Cardoso . 29 D IR eI TO S H U M A N O S ANeXO AO DeCReTO QUe PROMULGA A CONVeNÇÃO AMeRICANA SOBRe DIReITOS HUMANOS (PACTO De SÃO JOSe DA COSTA RICA) – MRe CONVeNÇÃO AMeRICANA SOBRe DIReITOS HUMANOS PReÂMBULO Os Estados americanos signatários da presente Con‑ venção, Reafirmando seu propósito de consolidar neste Conti‑ nente, dentro do quadro das instituições democráticas, um regime de liberdade pessoal e de justiça social, fundado no respeito dos direitos essenciais do homem; Reconhecendo que os direitos essenciais do homem não deviam do fato de ser ele nacional de determinado Estado, mas sim do fato de ter como fundamento os atributos da pessoa humana, razão por que justificam uma proteção internacional, de natureza convencional, coadjuvante ou complementar da que oferece o direito interno dos Estados americanos; Considerando que esses princípios foram consagrados na Carta da Organização dos Estados Americanos, na Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem e na Declaração Universal dos Direitos do Homem e que foram reafirmados e desenvolvidos em outros instrumentos internacionais, tanto de âmbito mundial como regional; Reiterando que, de acordo com a Declaração Universal dos Direitos do Homem, só pode ser realizado o ideal do ser humano livre, isento do temor e da miséria, se forem criadas condições que permitam a cada pessoa gozar dos seus direitos econômicos, sociais e culturais, bemcomo dos seus direitos civis e políticos; e Considerando que a Terceira Conferência Interamericana Extraordinária (Buenos Aires, 1967) aprovou a incorporação à próprias sociais e educacionais e resolveu que uma conven‑ ção interamericana sobre direitos humanos determinasse a estrutura, competência e processo dos órgãos encarregados dessa matéria, Convieram no seguinte: PARTe I Deveres dos estados e Direitos Protegidos CAPÍTULO I enumeração de Deveres ARTIGO 1 Obrigação de Respeitar os Direitos 1. Os Estados-Partes nesta Convenção comprometem-se a respeitar os direitos e liberdades nela reconhecidos e a garantir seu livre e pleno exercício a toda pessoa que esteja sujeita à sua jurisdição, sem discriminação alguma por motivo de raça, cor, sexo, idioma, religião, opiniões políticas ou de qualquer outra natureza, origem nacional ou social, posição econômica, nascimento ou qualquer outra condição social. 2. Para os efeitos desta Convenção, pessoa é todo ser humano. ARTIGO 2 Dever de Adotar Disposições de Direito Interno Se o exercício dos direitos e liberdades mencionados no artigo no artigo 1 ainda não estiver garantido por dispo‑ sições legislativas ou de outra natureza, os Estados-Partes comprometem‑se a adotar, de acordo com as suas normas constitucionais e com as disposições desta Convenção, as me‑ didas legislativas ou de outra natureza que forem necessárias para tornar efetivos tais direitos e liberdades. CAPÍTULO II Direitos Civis e Políticos ARTIGO 3 Direitos ao Reconhecimento da Personalidade Jurídica Toda pessoa tem direito ao reconhecimento de sua personalidade jurídica. ARTIGO 4 Direito à Vida 1. Toda pessoa tem o direito de que se respeite sua vida. Esse direito deve ser protegido pela lei e, em geral, desde o momento da concepção. Ninguém pode ser privado da vida arbitrariamente. 2. Nos países que não houverem abolido a pena de mor‑ te, esta só poderá ser imposta pelos delitos mais graves, em cumprimento de sentença final de tribunal competente e em conformidade com lei que estabeleça tal pena, promul‑ gada antes de haver o delito sido cometido. Tampouco se estenderá sua aplicação a delitos aos quais não se aplique atualmente. 3. Não se pode restabelecer a pena de morte nos Estados que a hajam abolido. 4. Em nenhum caso pode a pena de morte ser aplicada por delitos políticos, nem por delidos comuns conexos com delitos políticos. 5. Não se deve impor a pena de morte à pessoa que, no momento da perpetração do delito, for menor de dezoito anos, ou maior de setenta, nem aplicá-la a mulher em estado de gravidez. 6. Toda pessoa condenada à morte tem direito a solicitar anistia, indulto ou comutação da pena, os quais podem ser concedidos em todos os casos. Não se pode executar a pena de morte enquanto o pedido estiver pendente de decisão ante a autoridade competente. ARTIGO 5 Direito à Integridade Pessoal 1. Toda pessoa tem o direito de que se respeito sua integridade física, psíquica e moral. 2. Ninguém deve ser submetido a torturas, nem a penas ou tratos cruéis, desumanos ou degradantes. Toda pessoa privada da liberdade deve ser tratada com o respeito devido à dignidade inerente ao ser humano. 3. A pena não pode passar da pessoa do delinquente. 4. Os processados devem ficar separados dos condena‑ dos, salvo em circunstâncias excepcionais, a ser submetidos a tratamento adequado à sua condição de pessoal não condenadas. 5. Os menores, quando puderem ser processados, devem ser separados dos adultos e conduzidos a tribunal especia‑ lizado, com a maior rapidez possível, para seu tratamento. 6. As penas privativas da liberdade devem ter por finalidade essencial a reforma e a readaptação social dos condenados. ARTIGO 6 Proibição da escravidão e da Servidão 1. Ninguém pode ser submetido à escravidão ou a servi‑ dão, e tanto estas como o tráfico de escravos e o tráfico de mulheres são proibidos em todas as formas. . 30 D IR eI TO S H U M A N O S 2. Ninguém deve ser constrangido a executar trabalho forçado ou obrigatório. Nos países em que se prescreve, para certos delitos, pena privativa da liberdade acompanhada de trabalhos forçados, esta disposição não pode ser inter‑ pretada no sentido de que proíbe o cumprimento da dita pena, importa por juiz ou tribunal competente. O trabalho forçado não deve afetar a dignidade nem a capacidade física e intelectual do recluso. 3. Não constituem trabalhos forçados ou obrigatórios para os efeitos deste artigo: a) os trabalhos ou serviços normalmente exigidos de pessoal reclusa em cumprimento de sentença ou resolução formal expedida pela autoridade judiciária competente. Tais trabalhos ou serviços de devem ser executados sob a vigilân‑ cia e controle das autoridades públicas, e os indivíduos que os executarem não devem ser postos à disposição de parti‑ culares, companhias ou pessoas jurídicas de caráter privado: b) o serviço militar e, nos países onde se admite a isenção por motivos de consciências, o serviço nacional que a lei estabelecer em lugar daquele; c) o serviço imposto em casos de perigo ou calamidade que ameace a existência ou o bem-estar da comunidade; e d) o trabalho ou serviço que faça parte das obrigações cívicas normais. ARTIGO 7 Direito à Liberdade Pessoal 1. Toda pessoa tem direito à liberdade e à segurança pessoais. 2. Ninguém pode ser privado de sua liberdade física, salvo pelas causas e nas condições previamente fixadas pelas constituições políticas dos Estados-Partes ou pelas leis de acordo com elas promulgadas. 3. Ninguém pode ser submetido a detenção ou encarce‑ ramento arbitrários. 4. Toda pessoa detida ou retida deve ser informada das razões da sua detenção e notificada, sem demora, da acu‑ sação ou acusações formuladas contra ela. 5. Toda pessoa detida ou retida deve ser conduzida, sem demora, à presença de um juiz ou outra autoridade autorizada pela lei a exercer funções judiciais e tem direito a ser julgada dentro de um prazo razoável ou a ser posta em liberdade, sem prejuízo de que prossiga o processo. Sua liberdade pode ser condiciona a garantias que assegurem o seu comparecimento em juízo. 6. Toda pessoa privada da liberdade tem direito a recorrer a um juiz ou tribunal competente, a fim de que este decida, sem demora, sobre ou tribunal competente, a fim de que este decida, sem demora, sobre a legalidade de sua prisão ou detenção e ordene sua soltura se a prisão ou a detenção forem ilegais. Nos Estados-Partes cujas leis preveem que toda pessoa que se vir ameaçada de ser privada de sua liberdade tem direito a recorrer a um juiz ou tribunal competente a fim de que este decida sobre a legalidade de tal ameaça, tal recurso não pode ser restringido nem abolido. O recurso pode ser interposto pela própria pessoa ou por outra pessoa. 7. Ninguém deve ser detido por dívida. Este princípio não limita os mandados de autoridade judiciária competente expedidos em virtude de inadimplemento de obrigação alimentar. ARTIGO 8 Garantias Judiciais 1. Toda pessoa tem direito a ser ouvida, com as devidas garantias e dentro de um prazo razoável, por um juiz ou tri‑ bunal competente, independente e imparcial, estabelecido anteriormente por lei, na apuração de qualquer acusação penal formulada contra ela, ou para que se determinem seus direitos ou obrigações de natureza civil, trabalhista, fiscal ou de qualquer outra natureza. 2. Toda pessoa acusada de delito tem direito a que se pre‑ suma sua inocência enquanto não se comprove legalmente sua culpa. Durante o processo, toda pessoa tem direito, em plena igualdade, às seguintes garantias mínimas: a) direito do acusado de ser assistido gratuitamente por tradutor ou intérprete, se não compreender ou não falar o idioma do juízo ou tribunal; b) comunicação prévia e pormenorizada ao acusado da acusação formulada; c) concessão ao acusado do tempo e dos meios adequa‑ dos para a preparação de sua defesa; d) direito do acusado de defender-se pessoalmente ou de ser assistido por um defensorde sua escolha e de comunicar-se, livremente e em particular, com seu defensor; e) direito irrenunciável de ser assistido por um defensor proporcionado pelo Estado, remunerado ou não, segundo a legislação interna, se o acusado não se defender ele próprio nem nomear defensor dentro do prazo estabelecido pela lei; f) direito da defesa de inquirir as testemunhas presente no tribunal e de obter o comparecimento, como testemu‑ nhas ou peritos, de outras pessoas que possam lançar luz sobre os fatos. g) direito de não ser obrigado a depor contra si mesma, nem a declarar-se culpada; e h) direito de recorrer da sentença para juiz ou tribunal superior. 3. A confissão do acusado só é válida se feita sem coação de nenhuma natureza. 4. O acusado absolvido por sentença passada em julgado não poderá se submetido a novo processo pelos mesmos fatos. 5. O processo penal deve ser público, salvo no que for necessário para preservar os interesses da justiça. ARTIGO 9 Princípio da Legalidade e da Retroatividade Ninguém pode ser condenado por ações ou omissões que, no momento em que forem cometidas, não sejam delituosas, de acordo com o direito aplicável. Tampouco se pode impor pena mais grave que a aplicável no momento da perpetração do delito. Se depois da perpetração do delito a lei dispuser a imposição de pena mais leve, o delinquente será por isso beneficiado. ARTIGO 10 Direito a Indenização Toda pessoa tem direito de ser indenizada conforme a lei, no caso de haver sido condenada em sentença passada em julgado, por erro judiciário. ARTIGO 11 Proteção da Honra e da Dignidade 1. Toda pessoa tem direito ao respeito de sua honra e ao reconhecimento de sua dignidade. 2. Ninguém pode ser objeto de ingerências arbitrárias ou abusivas em sua vida privada, na de sua família, em seu domicílio ou em sua correspondência, nem de ofensas ilegais à sua honra ou reputação. 3. Toda pessoa tem direito à proteção da lei contra tais ingerências ou tais ofensas. . 31 D IR eI TO S H U M A N O S ARTIGO 12 Liberdade de Consciência e de Religião 1. Toda pessoa tem direito à liberdade de consciência e de religião. Esse direito implica a liberdade de conservar sua religião ou suas crenças, ou de mudar de religião ou de crenças, bem como a liberdade de professar e divulgar sua religião ou suas crenças, individual ou coletivamente, tanto em público como em privado. 2. Ninguém pode ser objeto de medidas restritivas que possam limitar sua liberdade de conservar sua religião ou suas crenças, ou de mudar de religião ou de crenças. 3. A liberdade de manifestar a própria religião e as pró‑ prias crenças está sujeita unicamente às limitações prescritas pelas leis e que sejam necessárias para proteger a segurança, a ordem, a saúde ou moral pública ou os direitos ou liberda‑ des das demais pessoas. 4. Os pais, e quando for o caso os tutores, têm direito a que seus filhos ou pupilos recebam a educação religiosa e moral que esteja acorde com suas próprias convicções. ARTIGO 13 Liberdade de Pensamento e de expressão 1. Toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento e de expressão. Esse direito compreende a liberdade de buscar, receber e difundir informações e ideias de toda natureza, sem consideração de fronteiras, verbalmente ou por escrito, ou em forma impressa ou artística, ou por qualquer outro processo de sua escolha. O exercício do direito previsto no inciso precedente não pode estar sujeito à censura prévia, mas a responsabilidades ulteriores, que devem ser expressamente fixadas pela lei a ser necessária para assegurar: a) o respeito aos direitos ou à reputação das demais pessoas; ou b) a proteção da segurança nacional, da ordem pública, ou da saúde ou da moral pública. 3. Não se pode restringir o direito de expressão por vias ou meios indiretos, tais como o abuso de controles oficiais ou particulares de papel de imprensa, de frequências radio‑ elétricas ou de equipamentos e aparelhos usados na difusão de informação, nem por quaisquer outros meios destinados a obstar a comunicação e a circulação de ideias e opiniões. 4. A lei pode submeter os espetáculos públicos à censura prévia, com o objetivo exclusivo de regular o acesso a eles, para proteção moral da infância e da adolescência, sem prejuízo do disposto no inciso 2º. 5. A lei deve proibir toda propaganda a favor da guerra, bem como toda apologia ao ódio nacional, racial ou religio‑ so que constitua incitação à discriminação, à hostilidade, ao crime ou à violência. ARTIGO 14 Direito de Retificação ou Resposta 1. Toda pessoa atingida por informações inexatas ou ofensivas emitidas em seus prejuízos por meios de difusão legalmente regulamentados e que se dirijam ao público em geral, tem direito a fazer, pelo mesmo órgão de difusão, sua retificação ou resposta, nas condições que estabeleça a Lei nº 2. Em nenhum caso a retificação ou a resposta eximirá das outras responsabilidades legais em que se houver incorrido. 3. Para a efetiva proteção da honra e da reputação, toda publicação ou empresa jornalística, cinematográfica, de rádio ou televisão, deve ter uma pessoa responsável que não seja protegida por imunidades nem goze de foro especial. ARTIGO 15 Direito de Reunião É reconhecido o direito de reunião pacífica e sem armas. O exercício de tal direito só pode estar sujeito às restrições previstas pela lei e que sejam necessárias, uma sociedade de‑ mocrática, no interesse da segurança nacional, da segurança ou da ordem públicas, ou para proteger a saúde ou a moral públicas ou os direitos e liberdades das demais pessoas. ARTIGO 16 Liberdade de Associação 1. Todas as pessoas têm o direito de associar-se livremen‑ te com fins ideológicos, religiosos, políticos, econômicos, trabalhistas, sociais, culturais, desportivos, ou de qualquer outra natureza. 2. O exercício de tal direito só pode estar sujeito às restrições previstas pela lei que sejam necessárias, numa sociedade democrática, no interesse da segurança nacio‑ nal, da segurança ou da ordem públicas, ou para proteger a saúde ou a moral públicas ou os direitos e liberdades das demais pessoas. 3. O disposto neste artigo não impede a imposição de restrições legais, e mesmo a privação do exercício do direito de associação, aos membros das forças armadas e da polícia. ARTIGO 17 Proteção da Família 1. A família é o elemento natural e fundamental da so‑ ciedade e deve ser protegida pela sociedade e pelo Estado. 2. É reconhecido o direito do homem e da mulher de contraírem casamento e de fundarem uma família, se tiverem à idade e as condições para isso exigidas pelas leis internas, na medida em que não afetem estas o princípio da não dis‑ criminação estabelecido nesta Convenção. 3. O casamento não pode ser celebrado sem o livre e pleno consentimento dos contraentes. 4. Os Estados-Partes devem tomar medidas apropriadas no sentido de assegurar a igualdade de direitos e a adequada equivalência de responsabilidades dos cônjuges quanto ao casamento, durante o casamento e em caso de dissolução do mesmo. Em caso de dissolução, serão adotadas disposições que assegurem a proteção necessária aos filhos, com base unicamente no interesse e conveniência dos mesmos. 5. A lei deve reconhecer iguais direitos tanto aos filhos nascidos fora do casamento como aos nascidos dentro do casamento. ARTIGO 18 Direito ao Nome Toda pessoa tem direito a um prenome e aos nomes de seus pais ou ao de um destes. A lei deve regular a forma de assegurar a todos esses direitos, mediante nomes fictícios, se for necessário. ARTIGO 19 Direitos da Criança Toda criança tem direito às medidas de proteção que a sua condição de menor requer por parte da sua família, da sociedade e do Estado. ARTIGO 20 Direito à Nacionalidade 1. Toda pessoa tem direito a uma nacionalidade. . 32 D IR eI TO S H U M A N O S 2. Toda pessoa tem direito à nacionalidade do Estado em cujo território houver nascido, se não tiver direito à outra. 3. A ninguém se deve privar arbitrariamentede sua nacionalidade nem do direito de mudá-la. ARTIGO 21 Direito à Propriedade Privada 1. Toda pessoa tem direito ao uso e gozo dos seus bens. A lei pode subordinar esse uso e gozo ao interesse social. 2. Nenhuma pessoa pode ser privada de seus bens, salvo mediante o pagamento de indenização justa, por motivo de utilidade pública ou de interesse social e nos casos e na forma estabelecidos pela Lei nº 3. Tanto a usura como qualquer outra forma de exploração do homem pelo homem devem ser reprimidas pela lei. ARTIGO 22 Direito de Circulação e de Residência 1. Toda pessoa que se ache legalmente no território de um Estado tem direito de circular nele e de nele residir conformidade com as disposições legais. 2. toda pessoa tem o direito de sair livremente de qual‑ quer país, inclusive do próprio. 3. O exercício dos direitos acima mencionados não pode ser restringido senão em virtude de lei, na medida indispen‑ sável, numa sociedade democrática, para prevenir infrações penais ou para proteger a segurança nacional, a segurança ou a ordem públicas, a moral ou a saúde públicas, ou os direitos e liberdades das demais pessoas. 4. O exercício dos direitos reconhecidos no inciso 1 pode também ser restringido pela lei, em zonas determinadas, por motivos de interesse público. 5. Ninguém pode ser expulso do território do Estado do qual for nacional, nem ser privado do direito de nele entrar. 6. O estrangeiro que se ache legalmente no território de uma Estado-Parte nesta Convenção só poderá dele ser expulso em cumprimento de decisão adotada de acordo com a Lei nº 7. Toda pessoa tem o direito de buscar e receber asilo em território estrangeiro, em caso de perseguição por delitos políticos ou comuns conexos com delitos políticos e de acordo com a legislação de cada estado e com os convê‑ nios internacionais. 8. Em nenhum caso o estrangeiro pode ser expulso ou entregue a outro país, seja ou não de origem, onde seu di‑ reito à vida ou liberdade pessoal esteja em risco de violação por causa da sua raça, nacionalidade, religião, condição social ou de suas opiniões políticas. 9. É proibida a expulsão coletiva de estrangeiros. ARTIGO 23 Direitos Políticos 1. Todos os cidadãos devem gozar dos seguintes direitos e oportunidades: a) de participar da direção dos assuntos públicos, dire‑ tamente ou por meio de representantes livremente eleitos; b) de votar e se eleitos em eleições periódicas autênticas, realizadas por sufrágio universal e igual e por voto secreto que garanta a livre expressão da vontade dos eleitores; e c) de ter acesso, em condições gerais de igualdade, às funções públicas de seu país. 2. A lei pode regular o exercício dos direitos e oportu‑ nidades e a que se refere o inciso anterior, exclusivamente por motivos de idade, nacionalidade, residência, idioma, instrução, capacidade civil ou mental, ou condenação, por juiz competente, em processo penal. ARTIGO 24 Igualdade Perante a Lei Todas as pessoas são iguais perante a lei. Por conseguin‑ te, têm direito, sem discriminação, a igual proteção da lei. ARTIGO 25 Proteção Judicial 1. Toda pessoa tem direito a um recurso simples e rápido ou a qualquer outro recurso efetivo, perante os juízos ou tribunais competentes, que a proteja contra atos que violem seus direitos fundamentais reconhecidos pela constituição, pela lei ou pela presente Convenção, mesmo quando tal violação seja cometida por pessoas que estejam atuando no exercício de suas funções oficiais. 2. Os Estados-Partes comprometem-se: a) a assegurar que a autoridade competente prevista pelo sistema legal do Estado decida sobre os direitos de toda pessoa que interpuser tal recurso; b) a desenvolver as possibilidades de recurso judicial; e c) a assegurar o cumprimento, pelas autoridades com‑ petente, de toda decisão em que se tenha considerado procedente o recurso. CAPÍTULO III Direitos econômicos, Sociais e Culturais ARTIGO 26 Desenvolvimento Progressivo Os Estados-Partes comprometem-se a adotar providên‑ cia, tanto no âmbito interno como mediante cooperação internacional, especialmente econômica e técnica, a fim de conseguir progressivamente a plena efetividade dos direitos que decorrem das normas econômicas, sociais e sobre educa‑ ção, ciência e cultura, constantes da Carta da Organização dos Estados Americanos, reformada pelo Protocolo de Buenos Aires, na medida dos recursos disponíveis, por via legislativa ou por outros meios apropriados. CAPÍTULO IV Suspensão de Garantias, Interpretação e Aplicação ARTIGO 27 Suspensão de Garantias 1. Em caso de guerra, de perigo público, ou de outra emergência que ameace a independência ou segurança do Estado-Parte, este poderá adotar disposições que, na medida e pelo tempo estritamente limitados às exigências da situação, suspendam as obrigações contraídas em virtu‑ de desta Convenção, desde que tais disposições não sejam incompatíveis com as demais obrigações que lhe impõe o Direito Internacional e não encerrem discriminação alguma fundada em motivos de raça, cor, sexo, idioma, religião ou origem social. 2. A disposição precedente não autoriza a suspensão dos direitos determinados nos seguintes artigos: 3 (Direito ao Re‑ conhecimento da Personalidade Jurídica), 4 (Direito à vida), 5 (Direito à Integridade Pessoal), 6 (Proibição da Escravidão e Servidão), 9 (Princípio da Legalidade e da Retroatividade), 12 (Liberdade de Consciência e de Religião), 17 (Proteção da Família), 18 (Direito ao Nome), 18 (Direitos da Criança), . 33 D IR eI TO S H U M A N O S 20 (Direito à Nacionalidade) e 23 (Direitos Políticos), nem das garantias indispensáveis para a proteção de tais direitos. 3. Todo Estado-Parte que fizer uso do direito de suspen‑ são deverá informar imediatamente os outros Estados-Partes na presente Convenção, por intermédio do Secretário-Geral da Organização dos Estados Americanos, das disposições cuja aplicação haja suspendido, dos motivos determinantes da suspensão e da data em que haja dado por terminado tal suspensão. ARTIGO 28 Cláusula Federal 1. Quando se tratar de um Estado-Parte constituído como Estado federal, o governo nacional do aludido Estado-Parte cumprirá todas as disposições da presente Convenção, rela‑ cionadas com as matérias sobre as quais exerce competência legislativa e judicial. 2. No tocante às disposições relativas às matérias que correspondem à competência das entidades componentes da federação, o governo nacional deve tomar imediatamente as medidas pertinentes, em conformidade com sua constituição e suas leis, a fim de que as autoridades competentes das referidas entidades possam adotar as disposições cabíveis para o cumprimento desta Convenção. 3. Quando dois ou mais Estados‑Partes decidiram cons‑ tituir entre eles uma federação ou outro tipo de associação, diligenciarão no sentido de que o pacto comunitário respec‑ tivo contenha as disposições necessárias para que continuem sendo efetivas no novo Estado assim organizado as normas da presente Convenção. ARTIGO 29 Normas de Interpretação Nenhuma disposição desta Convenção pode ser inter‑ pretada no sentido de: a) permitir a qualquer dos Estados-Partes, grupo ou pessoa, suprimir o gozo e exercício dos direitos e liberdades reconhecidos na Convenção ou limitá-los em maior medida do que a nela prevista; b) limitar o gozo e exercício de qualquer direito ou liber‑ dade que possam ser reconhecidos de acordo com as leis de qualquer dos Estados-Partes ou de acordo com outra convenção em que seja parte um dos referidos Estados; c) excluir outros direitos e garantias que são inerentes ao ser humano ou que decorrem da forma democrática representativa de governo; e d) excluir ou limitar o efeito que possam produzir a Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem e outros atos internacionais da mesma natureza. ARTIGO 30 Alcance das Restrições As restrições permitidas, de acordo com esta Convenção, ao gozo e exercício dos direitos e liberdades nela reconheci‑ dos, não podemser aplicadas senão de acordo com leis que forem promulgadas por motivo de interesse geral e com o propósito para o qual houverem sido estabelecidas. ARTIGO 31 Reconhecimento de Outros Direitos Poderão ser incluídos no regime de proteção desta Con‑ venção outros direitos e liberdades que forem reconhecidos de acordo com os processos estabelecidos nos artigos 69 e 70. CAPÍTULO V Deveres das Pessoas ARTIGO 32 Correlação entre Deveres e Direitos 1. Toda pessoa tem deveres para com a família, a comu‑ nidade e a humanidade. 2. Os direitos de cada pessoa são limitados pelos direitos dos demais, pela segurança de todos e pelas justas exigências do bem comum, numa sociedade democrática. PARTe II Meios da Proteção CAPÍTULO VI Órgãos Competentes ARTIGO 33 São competentes para conhecer dos assuntos relaciona‑ dos com o cumprimento dos compromissos assumidos pelos Estados-Partes nesta Convenção: a) a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, doravante denominada a Comissão; e b) a Corte Interamericana de Direitos Humanos, dora‑ vante denominada a Corte. CAPÍTULO VII Comissão Interamericana de Direitos Humanos Seção 1 Organização ARTIGO 34 A Comissão Interamericana de Direitos Humanos com‑ por-se-á de sete membros, que deverão ser pessoas de alta autoridade moral e de reconhecimento saber em matéria de direitos humanos. ARTIGO 35 A Comissão representa todos os Membros da Organiza‑ ção dos Estados Americanos. ARTIGO 36 1. Os membros da Comissão, serão eleitos a título pes‑ soal, pela Assembleia-Geral da organização, de uma lista de candidatos propostos pelos governos dos Estados-Membros. 2. Cada um dos referidos governos pode propor até três candidatos, nacionais do Estado que os propuser ou de qualquer outro Estado-Membro da organização dos Estados Americanos. Quando for proposta uma lista de três candi‑ datos, pelo menos um deles deverá ser nacional de Estado diferente do proponente. ARTIGO 37 1. Os membros da Comissão serão eleitos por quatro anos e só poderão ser reeleitos uma vez, porém o mandato de três dos membros designados na primeira eleição expirará ao cabo de dois anos. Logo depois da referida eleição, serão determinados por sorteio, na Assembleia-Geral, os nomes desses três membros. 2. Não pode fazer parte da Comissão mais de um nacional de um mesmo Estado. . 34 D IR eI TO S H U M A N O S ARTIGO 38 As vagas que ocorrerem na Comissão, que não se devam à expiração normal do mandado, serão preenchidas pelo Conselho Permanente da Organização, de acordo com o que dispuser o Estatuto da Comissão. ARTIGO 39 A Comissão elaborará seu estatuto e submetê-lo-á à aprovação da Assembleia-Geral e expedirá seu próprio regulamento. ARTIGO 40 Os serviços de secretaria da Comissão devem ser de‑ sempenhados pela unidade funcional especializada que faz parte da Secretaria-Geral da Organização e deve dispor dos recursos necessários para cumprir as tarefas que lhe forem confiadas pela Comissão. Seção 2 Funções ARTIGO 41 A Comissão tem a função principal de promover a obser‑ vância e a defesa dos direitos humanos e, no exercício do seu mandato, tem as seguintes funções e atribuições: a) estimular a consciência dos direitos humanos nos povos da América; b) formular recomendações aos governos dos Esta‑ dos-Membros, quando o considerar conveniente, no sentido de que adotem medidas progressivas em prol dos direitos humanos no âmbito de suas leis internas e seus preceitos constitucionais, bem como disposições apropriadas para promover o devido respeito a esses direitos; c) preparar os estudos ou relatórios que considerar con‑ venientes o desempenho de suas funções; d) solicitar aos governos dos Estados-Membros que lhe proporcionem informações sobre as medidas que adotarem em matéria de direitos humanos; e) atender às consultas que, por meio da Secretaria-Geral da Organização dos Estados Americanos, lhe formularem os Estados-Membros sobre questões relacionadas com os direi‑ tos humanos e, dentro de suas possibilidades, prestar-lhes o assessoramento que eles lhe solicitarem; f) atuar com respeito às petições e outras comunicações, no exercício de sua autoridade, de conformidade com o disposto nos artigos 44 a 51 desta Convenção; e g) apresentar um relatório anual a Assembleia-Geral da Organização dos Estados Americanos. ARTIGO 42 Os Estados-Partes devem remeter à Comissão cópia dos relatórios e estudos que, em seus respectivos campos, submetem anualmente às Comissões Executivas do Conselho Interamericano Econômico e Social e do Conselho Interame‑ ricano de Educação, Ciência e Cultura, a fim de que aquela vele por que se promovem os direitos decorrentes das nor‑ mas econômicas, sociais e sobre educação, ciência e cultura constantes da Carta da Organização dos Estados Americanos, reformada pelo Protocolo de Buenos Aires. ARTIGO 43 Os Estados-Partes obrigam-se a proporcionar à Comissão as informações que esta lhes solicitar sobre a maneira pela qual o seu direito interno assegura a aplicação efetiva de quaisquer disposições desta Convenção. Seção 3 Competência ARTIGO 44 Qualquer pessoa ou grupo de pessoas, ou entidade não governamental legalmente reconhecida em um ou mais Estados-Membros da Organização, pode apresentar à Co‑ missão petições que contenham denúncias ou queixas de violação desta Convenção por um Estado-Parte. ARTIGO 45 1. Todo Estado‑Parte pode, no momento do depósito do seu instrumento de ratificação desta Convenção ou de adesão a ela, ou em qualquer momento posterior, declarar que reconhece a competência da Comissão para receber e examinar as comunicações em que um Estado-Parte alegue haver outro Estado-Parte incorrido em violações direitos humanos estabelecidos nesta Convenção. 2. As comunicações feitas em virtude deste artigo só podem ser admitidos e examinadas se forem apresentadas por um Estado-Parte que haja feito uma declaração pela qual reconheça a referida competência da Comissão. A Comissão não admitirá nenhuma comunicação contra um Estado-Parte que não haja feito tal declaração. 3. As declarações sobre reconhecimento de competência podem ser feitas para que esta vigore por tempo indefinido, por período determinado ou para casos específicos. 4. As declarações serão depositadas na Secretaria-Geral da Organização dos Estados Americanos, a qual encami‑ nhará cópia das mesmas aos Estados-Membros da referida Organização. ARTIGO 46 1. Para que uma petição ou comunicação apresentada de acordo com os artigos 44 ou 45 seja admitida pela Comissão, será necessário: a) que hajam sido interpostos e esgotados os recursos da jurisdição interna, de acordo com os princípios de direito internacional geralmente reconhecidos; b) que seja apresentada dentro do prazo de seis meses, a partir da data em que o presumido prejudicado em seus direitos tenha sido notificado da decisão definitiva; c) que a matéria da petição ou comunicação não esteja pendente de outro processo de solução internacional; e d) que, no caso do artigo 44, a petição contenha o nome, a nacionalidade, a profissão, o domicílio e a assinatura da pessoa ou pessoas ou do representante legal da entidade que submeter a petição. 2. as disposições das alíneas a e b do inciso 1º deste artigo não se aplicarão quando: a) não existir, na legislação interna do Estado de que se tratar, o devido processo legal para a proteção do direito ou direitos que se alegue tenha sido violados; b) não se houver permitido ao presumido prejudicado em seus direitos o acesso aos recursos da jurisdição interna, ou houver sido ele impedido de esgotá-los; e c) houver demora injustificada na decisão sobre os men‑ cionados recursos. ARTIGO 47 A Comissão declarará inadmissível toda petição ou comuni‑ cação apresentada de acordo com os artigos 44 ou 45 quando: . 35 D IR eI TO S H U M A N O S a) não preencher algum dos requisitos estabelecidos no artigo 46; b) não expuser fatos que caracterizem violação dos di‑ reitos garantidos por esta Convenção;c) pela exposição do próprio peticionário ou do Estado, for manifestamente infundada a petição ou comunicação ou for evidente sua total improcedência; ou d) for substancialmente reprodução de petição ou comu‑ nicação anterior, já examinada pela Comissão ou por outro organismo internacional. Seção 4 Processo ARTIGO 48 1. A Comissão, ao receber uma petição ou comunicação na qual se alegue violação de qualquer dos direitos consa‑ grados nesta Convenção, procederá da seguinte maneira: a) se reconhecer a admissibilidade da petição ou co‑ municação, solicitará informações ao Governo do Estado ao qual pertença a autoridade apontada como responsável pela violação alegada e transcreverá as partes pertinentes da petição ou comunicação. As referidas informações devem ser enviadas dentro de um prazo razoável, fixado pela Comissão ao considerar as circunstâncias de cada caso; b) recebidas às informações, ou transcorrido o prazo fixado sem que sejam elas recebidas, verificará se existem ou subsis‑ tem os motivos da petição ou comunicação. No caso de não existirem ou não subsistirem, mandará arquivar o expediente; c) poderá também declarar a inadmissibilidade ou a impro‑ cedência da petição ou comunicação, com base em informação ou prova superveniente; d) se o expediente não houver sido arquivado, e com o fim de comprovar os fatos, a Comissão procederá, com conheci‑ mento das partes a um exame do assunto exposto na petição ou comunicação. Se for necessário e conveniente, a Comissão procederá a uma investigação para cuja eficaz realização soli‑ citará, e os Estado interessados lhe proporcionarão, todas as facilidades necessárias; e) poderá pedir aos Estados interessados qualquer infor‑ mação pertinente e receberá, se isso lhe for solicitado, as expo‑ sições verbais ou escritas que apresentarem os interessados; e f) por-se-á à disposição das partes interessadas, a fim de chegar a uma solução amistosa do assunto, fundada no res‑ peito aos direitos humanos reconhecidos nesta Convenção. 2. Entretanto, em casos graves e urgentes, pode ser realizada uma investigação, mediante prévio consentimento do Estado em cujo território de alegue haver sido cometido à violação, tão somente com a apresentação de uma petição ou comunicação que reúna todos os requisitos formais de admissibilidade. ARTIGO 49 Se houver chegado a uma solução amistosa de acordo com as disposições do inciso 1, f, do artigo 48, a Comissão redigirá um relatório que será encaminhado ao peticionário e aos Estados-Partes nesta Convenção e, posteriormente, transmitido, para sua publicação, ao Secretário-Geral da Organização dos Estados Americanos. O referido relatório conterá uma breve exposição dos fatos e da solução alcan‑ çada. Se qualquer das partes no caso o solicitar, ser-lhe-á proporcionada a mais ampla informação possível. ARTIGO 50 1. Se não se chegar a uma solução, e dentro do prazo que for fixado pelo Estatuto da Comissão, esta redigirá um relatório no qual exporá os fatos e suas conclusões. Se o relatório não representar, no todo ou em parte, o acordo unânime dos membros da Comissão, qualquer deles poderá agregar ao referido relatório seu voto em separado. Também se agregarão ao relatório às exposições verbais ou escritas que houverem sido feitas pelos interessados em virtudes do inciso 1º, e, do artigo 48. 2. O relatório será encaminhado aos Estados interessa‑ dos, aos quais não será facultado publicá-lo. 3. Ao encaminhar o relatório, a Comissão pode formular as proposições e recomendações que julgar adequada. ARTIGO 51 1. Se no prazo de três meses, a partir da remessa aos Estados interessados do relatório da Comissão, o assunto não houver sido solucionado ou submetido a submetido à decisão da Corte pela Comissão ou pelo Estado interessado, aceitando sua competência, a Comissão poderá emitir, pelo voto da maioria absoluta dos seus membros, sua opinião e conclusões sobre a questão submetida à sua consideração. 2. A comissão fará as recomendações pertinentes e fixará um prazo dentro do qual o Estado deve tomar as medidas que lhe competirem para remediar a situação examinada. 3. Transcorrido o prazo fixado, a Comissão decidira, pelo voto da maioria absoluta dos seus membros, se o Estado tomou ou não medidas adequadas e se publica ou não seu relatório. CAPÍTULO VIII Corte Interamericana de Direitos Humanos Seção 1 Organização ARTIGO 52 1. A Corte compor-se-á de sete juízes, nacionais dos Estados Membros da Organização, eleitos a títulos pessoal dentre juristas da mais alta autoridade moral, de reconhecida competência em matéria de direitos humanos, que reúnam as condições requeridas para o exercício das mais elevadas funções judiciais, de acordo com a lei do Estado do qual sejam nacionais, ou do Estado que os propuser como candidatos. 2. Não deve haver dois juízes da mesma nacionalidade. ARTIGO 53 1. Os juízes da Corte serão eleitos, em votação secreta e pelo voto da maioria absoluta dos Estados-Partes na Con‑ venção, na Assembleia-Geral da Organização, de uma lista de candidatos propostos pelos mesmos Estados. 2. Cada um dos Estados-Partes pode propor até três candidatos, nacionais do Estado que os propuser ou de qualquer outro Estado-Membro da Organização dos Estados Americanos. Quando se propuser uma lista de três candi‑ datos, pelo menos um deles deverá ser nacional de Estado diferente do proponente. ARTIGO 54 1. Os juízes da Corte serão eleitos por um período de seis anos e só poderão ser reeleitos uma vez. O mandato de três dos juízes designados na primeira eleição expirará ao cabo de três anos. Imediatamente depois da referida eleição, determinar-se-ão por sorteio, na Assembleia-Geral, os nomes desses três juízes. . 36 D IR eI TO S H U M A N O S 2. O juiz eleito para substituir outro cujo mandato não haja expirado, completará o período deste. 3. Os juízes permanecerão em suas funções até o término dos seus mandatos. Entretanto, continuarão funcionando nos casos de que já houverem tomado conhecimento e que se encontrem em fase de sentença e, para tais efeitos, não serão substituídos pelos novos juízes eleitos. ARTIGO 55 1. O juiz que for nacional de algum dos Estados-Partes no caso submetido à Corte conservará o seu direito de co‑ nhecer o mesmo. 2. Se um dos juízes chamados a conhecer do caso for de nacionalidade de um dos Estados-Partes, outro Estado-Partes no caso poderá designar uma pessoa de sua escolha para integrar a Corte na qualidade de juiz ad hoc. 3. Se, dentre os juízos chamados a conhecer do caso, nenhuma for da nacionalidade dos Estados partes, cada um destes poderá designar um juiz ad hoc. 4. O juiz ad hoc deve reunir os requisitos indicados no artigo 52. 5. Se vários Estados-Partes na Convenção tiverem o mesmo interesse no caso, serão considerados como uma só parte, para os fins das disposições anteriores. Em caso de dúvida, a Corte decidirá. ARTIGO 56 O quorum para as deliberações da Corte é constituído por cinco juízes. ARTIGO 57 A Comissão comparecerá em todos os casos perante a Corte. ARTIGO 58 1. A Corte terá sua sede no lugar que for determinado, na Assembleia-Geral da Organização, pelos Estados-Partes na Convenção, mas poderá realizar reuniões no território de qualquer Estado-Membro da Organização dos Estrados Americanos em que o considerar conveniente pela maioria dos seus membros e mediante prévia aquiescência do Esta‑ do respectivo. Os Estados-Partes na Convenção podem, na Assembleia-Geral, por dois terços dos seus votos, mudar a sede da Corte. 2. A Corte designará seu Secretário. 3. O Secretário residirá na sede da Corte e deverá assistir às reuniões que ela realizar fora da mesma. ARTIGO 59 A Secretaria da Corte será por esta estabelecida e funcio‑ nará sob a direção do Secretário da Corte, de acordo com as normas administrativas da Secretaria-Geral da Organização em tudo o que não for incompatível com a independência da Corte. Seus funcionários serão nomeados pelo Secretário-Ge‑ ral da Organização,em consulta com o Secretário da Corte. ARTIGO 60 A Corte elaborará seu estatuto e submetê-lo-á à aprova‑ ção da Assembleia-Geral e expedirá seu regimento. Seção 2 Competência e Funções ARTIGO 61 1. Somente os Estados-Partes e a Comissão têm direito de submeter caso à decisão da Corte. 2. Para que a Corte possa conhecer de qualquer caso, é necessário que sejam esgotados os processos previstos nos artigos 48 a 50. ARTIGO 62 1. Toda Estado‑Parte, pode, no momento do depósito do seu instrumento de ratificação desta Convenção ou de adesão a ela, ou em qualquer momento posterior, declarar que reconhece como obrigatória, de pleno direito e sem convenção especial, a competência da Corte em todos os casos relativos à interpretação ou aplicação desta Convenção. 2. A declaração pode ser feita incondicionalmente, ou sob condição de reciprocidade, por prazo determina‑ do ou para casos específicos. Deverá ser apresentada ao Secretário-Geral da Organização, que encaminhará cópias da mesma aos outros Estados-Membros da Organização e ao Secretário da Corte. 3. A Corte tem competência para conhecer de qualquer caso relativo à interpretação e aplicação das disposições desta Convenção que lhe seja submetido, desde que os Estados-Partes no caso tenham reconhecido ou reconheçam a referida competência, seja por declaração especial, como preveem os incisos anteriores, seja por convenção especial. ARTIGO 63 1. Quando decidir que houve violação de um direito ou liberdade protegido nesta Convenção, a Corte determinará que se assegure ao prejudicado o gozo do seu direito ou liberdade violados. Determinará também, se isso for pro‑ cedente, que sejam reparadas as consequências da medida ou situação que haja configurado a violação desses direitos, bem como o pagamento de indenização justa à parte lesada. 2. Em casos de extrema gravidade e urgência, e quando se fizer necessário evitar danos irreparáveis às pessoas, a Corte, nos assuntos de que estiver conhecendo, poderá tomar as medidas provisórias que considerar pertinente. Se tratar de assuntos que ainda não estiverem submetidos ao seu conhecimento, poderá atuar a pedido da Comissão. ARTIGO 64 1. Os Estados-Partes da Organização poderão consultar a Corte sobre a interpretação desta Convenção ou de outros tratados concernentes à proteção dos direitos humanos nos Estados americanos. Também poderão consultá-la, no que lhes compete, os órgãos enumerados no capítulo X da Carta da Organização dos Estados Americanos, reformada pelo Protocolo da Buenos Aires. 2. A Corte, a pedido de um Estado-Membro da Organiza‑ ção, poderá emitir pareceres sobre a compatibilidade entre qualquer de suas leis internas e os mencionados instrumen‑ tos internacionais. ARTIGO 65 A Corte submeterá à consideração da Assembleia-Geral da Organização, em cada período ordinário de sessões, um relatório sobre suas atividades no ano anterior. De maneira . 37 D IR eI TO S H U M A N O S especial, e com as recomendações pertinentes, indicará os casos em que um Estado não tenha dado cumprimento a suas sentenças. Seção 3 Processo ARTIGO 66 1. A sentença da Corte deve ser fundamentada. 2. Se a sentença não expressar no todo ou em parte a opinião unânime dos juízes, qualquer deles terá direito a que se agregue à sentença o seu voto dissidente ou individual. ARTIGO 67 A sentença da Corte será definitiva e inapelável. Em caso de divergência sobre o sentido ou alcance da sentença, a Cor‑ te interpretá-la-á, a pedido de qualquer das partes, desde que o pedido seja apresentando dentro de noventa dias a partir da data da notificação da sentença. ARTIGO 68 1. Os Estados-Partes na Convenção comprometem-se a cumprir a decisão da Corte em todo caso em que forem partes. 2. A parte da sentença que determinar indenização compensatória poderá ser executada no país respectivo pelo processo interno vigente para a execução de sentença contra o Estado. ARTIGO 69 A sentença da Corte deve ser notificada às partes no caso e transmitida aos Estados-Partes na Convenção. CAPÍTULO IX Disposições Comuns ARTIGO 70 1. Os juízes da Corte e os membros da Comissão gozam, desde o momento de sua eleição e enquanto durar o seu mandato, das imunidades reconhecidas aos agentes diplo‑ máticos pelo Direito Internacional. Durante o exercício dos seus cargos gozam, além disso, dos privilégios diplomáticos necessários para o desempenho de suas funções. 2. Não se poderá exigir responsabilidade em tempo algum dos juízes da Corte, nem dos membros da Comissão, por votos e opiniões emitidos no exercício de suas funções. ARTIGO 71 Os cargos de juiz da Corte ou de membro da Comissão são incompatíveis com outras atividades que possam afetar sua independência ou imparcialidade conforme o que for determinado nos respectivos estatutos. ARTIGO 72 Os juízes da Corte e os membros da Comissão perceberão honorários e despesas de viagem na forma e nas condições que determinarem os seus estatutos, levando em conta a im‑ portância e independência de suas funções. Tais honorários e despesas de viagem serão fixados no orçamento-programa da organização dos Estados Americanos, no qual devem ser incluídas, além disso, as despesas da Corte e da sua Secretaria. Para tais efeitos, a Corte elaborará o seu pró‑ prio projeto de orçamento e submetê-lo-á aprovação da Assembleia-Geral, por intermédio da Secretaria-Geral. Esta última não poderá nele introduzir modificações. ARTIGO 73 Somente por solicitação d a Comissão ou da Corte, conforme o caso, cabe à Assembleia-Geral da Organiza‑ ção resolver sobre as sanções aplicáveis aos membros da Comissão ou aos juízes da Corte que incorrerem nos casos previstos nos respectivos estatutos. Para expedir uma reso‑ lução, será necessária maioria de dois terços dos votos dos Estados-Membros da Organização, no caso dos membros da Comissão; e, além disso, de dois terços dos votos dos Estados-Partes na Convenção, se tratar dos juízes da Corte. PARTe III Disposições Gerais e Transitórias CAPÍTULO X Assinatura, Ratificação, Reserva, emenda, Protocolo e Denúncia ARTIGO 74 1. Esta Convenção fica aberta à assinatura e à ratificação ou adesão de todos os estados-Membros da Organização dos Estados Americanos. 2. A ratificação desta Convenção ou a adesão a ela efetuar-se-á mediante depósito de um instrumento de rati‑ ficação ou de adesão na Secretaria-Geral da Organização dos Estados Americanos. Esta Convenção entrará em vigor logo que onze Estados houverem depositado os seus respectivos instrumentos de ratificação ou de adesão. Com referência a qualquer outro Estado que a ratificar ou que a ela aderir ulteriormente, a Convenção entrará em vigor na data do depósito do seu instrumento de ratificação ou de adesão. 3. O Secretário-geral informará todos os Estados Mem‑ bros da Organização sobre a entrada em vigor da Convenção. ARTIGO 75 Esta Convenção só pode ser objeto de reservas em conformidade com as disposições da Convenção de Viena sobre Direito dos Tratados assinados em 23 de maio de 1969. ARTIGO 76 1. Qualquer Estado-Parte, diretamente, e a Comissão ou a Corte, por intermédio do Secretário-Geral, podem subme‑ ter a Assembleia-Geral, para o que julgarem conveniente, proposta de emenda a esta Convenção. 2. As emendas entrarão em vigor para os Estados que ra‑ tificarem as mesmas na data em que houver sido depositado o respectivo instrumento de ratificação que corresponda ao número de dois terços dos Estados-Partes nesta Convenção. Quando aos outros Estados-partes, entrarão em vigor na data em que depositarem eles os seus respectivos instrumentos de ratificação. ARTIGO 77 1. De acordo com a faculdade estabelecida no artigo 31, qualquer Estado-Parte e a Comissão podem submeter à consideração dos Estados-Partes reunidos por ocasião da Assembleia-Geral, projetos de protocolos a esta Convenção, . 38 D IR eI TO S H U M A N O S com a finalidade de incluir progressivamente no regime de proteção da mesma outros direitose liberdades. 2. Cada protocolo deve estabelecer as modalidades de sua entrada em vigor e será aplicado semente entre os Estados‑Partes no mesmo. ARTIGO 78 1. Os Estados-Partes poderão denunciar esta Convenção depois de expirado um prazo de cinco anos, a partir da data de entrada em vigor da mesma e mediante aviso prévio de um ano, notificando o Secretário-Geral da Organização, o qual deve informar as outras Partes. 2. Tal denúncia não terá o efeito de desligar o Estado-Par‑ te interessado das obrigações contidas nesta Convenção, no que diz respeito a qualquer ato que, podendo constituir violação dessas obrigações, houver sido cometido por ele anteriormente à data na qual a denúncia produzir efeito. CAPÍTULO XI Disposições Transitórias Seção 1 Comissão Interamericana de Direitos Humanos ARTIGO 79 Ao entrar em vigor esta Convenção, o Secretário-Geral pedirá por escrito a cada Estado-Membro da Organização que apresente, dentro de um prazo de noventa dias, seus can‑ didatos a membro da Comissão Interamericana de Direitos Humanos. O Secretário-Geral preparará uma lista por ordem alfabética dos candidatos apresentados e a encaminhará aos Estados-Membros da Organização pelo menos trinta dias antes da Assembleia-Geral seguinte. ARTIGO 80 A eleição dos membros da Comissão far-se-á dentre os candidatos que figurem na lista a que se refere o artigo 79, por votação secreta da Assembleia-Geral, e serão declara‑ dos eleitos os candidatos que obtiverem maior número de votos e a maioria absoluta dos votos dos representantes dos Estados-Membros. Se, para eleger todos os membros da Comissão, for necessário realizar várias votações, serão eliminados sucessivamente, na forma que for determinada pela Assembleia-Geral, os candidatos que receberem menor número de votos. Seção 2 Corte Interamericana de Direitos humanos ARTIGO 81 Ao entrar em vigor esta Convenção, o Secretário-Geral so‑ licitará por escrito a cada Estado-Parte que apresente, dentro de um prazo de noventa dias, seus candidatos a juiz da Corte Interamericana de Direitos Humanos. O Secretário-Geral prepara uma lista por ordem alfabética dos candidatos apre‑ sentados e a encaminhará aos Estados-Partes pelo menos trinta dias antes da Assembleia-Geral seguinte. ARTIGO 82 A eleição dos juízes da Corte far-se-á dentre os candi‑ datos que figurem na lista a que se refere o artigo 81, por votação secreta dos Estados-Partes, na Assembleia-Geral, e serão declarados eleitos os candidatos que obtiverem maior número de votos e a maioria absoluta dos votos dos representantes dos Estados-Partes. Se para eleger todos os juízes da Corte, for necessário realizar várias votações, serão eliminados sucessivamente, na forma que for determinada pelos Estados-Partes, os candidatos que receberem menor número de votos. Declaração e Reservas Declaração do Chile A Delegação do Chile apõe sua assinatura a esta Con‑ venção, sujeita á sua posterior aprovação parlamentar e ratificação, em conformidade com as normas constitucionais vigentes. Declaração do equador A Declaração do Equador tem a honra de assinar a Convenção Americana sobre Direitos Humanos. Não crê necessários especificar reserva alguma, deixando a salvo tão-somente a faculdade geral constante da mesma Con‑ venção, que deixa aos governos a liberdade de ratificá-la. Reserva do Uruguai O artigo 80, parágrafo 2, da Constituição da República Oriental do Uruguai, estabelece que se suspende a cidadania “pela condição de legalmente processado em causa criminal de que possa resultar pena de penitenciária”. Essa limitação ao exercício dos direitos reconhecidos no artigo 23 da Con‑ venção não está prevista entre as circunstâncias que a tal respeito prevê o parágrafo 2 do referido artigo 23, motivo por que a Delegação do Uruguai forma a reserva pertinente. Em fé do que, os plenipotenciários abaixo-assinados, cujos plenos poderes foram encontrados em boa e devida forma, assinam esta Convenção, que se denominará “Pacto de São Jose da Costa Rica”, na cidade de São Jose, Costa Rica, em vinte e dois de novembro de mil novecentos e sessenta e nove. Declaração Interpretativa do Brasil Ao depositar a Carta de Adesão à Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Pacto de São José da Costa Rica), em 25 de setembro de 1992. O Governo brasileiro fez a seguinte declaração interpretativa sobre os artigos 43 e 48, alínea d: O Governo do Brasil entende que os artigos 43 e 48, alínea Comissão Interamericana de Direitos Huma‑ nos, as quais dependerão da anuência expressa do Estado. A CONSTITUIÇÃO BRASILeIRA e OS TRATADOS INTeRNACIONAIS De DIReITOS HUMANOS Antes de iniciar a disciplina constitucional conferida aos tratados internacionais de direitos humanos, faz-se neces‑ sário abordar, ainda que brevemente, o significado jurídico dos tratados internacionais – seu conceito, seu processo de formação e seus efeitos. Tais considerações auxiliarão não apenas a análise a respeito da Constituição de 1988 e dos tratados internacionais de direitos humanos, mas em espe‑ cial o estudo do impacto jurídico desses tratados no Direito interno brasileiro. . 39 D IR eI TO S H U M A N O S Piovesan esclarece que os tratados internacionais, en‑ quanto acordos internacionais juridicamente obrigatórios e vinculantes (pacta sunt servanda), constituem hoje a principal fonte de obrigação do Direito Internacional. Foi com o crescente positivismo internacional que os tratados se tornaram a fonte maior de obrigação no plano interna‑ cional, papel até então reservado ao costume internacional. Tal como no âmbito interno, em virtude do movimento do Pós-Positivismo, os princípios gerais de direito passam a ganhar cada vez maior relevância como fonte do Direito Internacional na ordem contemporânea. “O termo ‘tratado’ é geralmente usado para se referir aos acordos obrigatórios celebrados entre sujeitos de Direito Internacional, que são regulados pelo Direito Internacional. Além do termo ‘tratado’, diversas outras denominações são usadas para se referir aos acordos internacionais. As mais comuns são Convenção, Pacto, Protocolo, Carta, Convênio, como também, Tratado ou Acordo Internacional. Alguns ter‑ mos são usados para denotar solenidade (por exemplo, Pacto ou Carta) ou a natureza suplementar do acordo (Protocolo)”. Não necessariamente os tratados internacionais con‑ sagram novas regras de Direito Internacional. Por vezes, acabam por codificar regras preexistentes, consolidadas pelo costume internacional, ou, ainda, optam por modificá-las. A necessidade de disciplinar e regular o processo de formação dos tratados internacionais resultou na elaboração da Convenção de Viena, concluída em 1969, que teve por finalidade servir como a Lei dos Tratados. Contudo, limitou-se aos tratados celebrados entre os Estados, não envolvendo aqueles dos quais participam organizações internacionais. Se assim é, a primeira regra a ser fixada é a de que os tratados internacionais só se aplicam aos Estados-partes, ou seja, aos Estados que expressamente consentiram em sua adoção. Os tratados não podem criar obrigações para os Estados que neles não consentiram, ao menos que pre‑ ceitos constantes do tratado tenham sido incorporados pelo costume internacional. Como dispõe a Convenção de Viena: “Todo tratado em vigor é obrigatório em relação às partes e deve ser cumprido por elas de boa-fé”. Acrescenta o art. 27 da Convenção: “Uma parte não pode invocar disposições de seu direito interno como justificativa para o não cumprimento do tratado”. Consagra-se, assim, o princípio da boa-fé, pelo qual cabe ao Estado conferir plena observância ao tratado de que é parte, na medida em que, no livre exercício de sua soberania, o Estado contraiu obrigações jurídicas no plano internacional. Enfatize-se que os tratados são, por excelência, expressão de consenso. Apenas pela via do consenso podem os trata‑ dos criar obrigações legais, uma vez que Estados soberanos, ao aceitá-los, comprometem-sea respeitá-los. A exigência de consenso é prevista pelo art. 52 da Convenção de Viena, quando dispõe que o tratado será nulo se a sua aprovação for obtida mediante ameaça ou pelo uso da força, em vio‑ lação aos princípios de Direito Internacional consagrados pela Carta da ONU. Em geral, os tratados permitem sejam formuladas reser‑ vas, o que pode contribuir para a adesão de maior número de Estados. Nos termos da Convenção de Viena, as reservas constituem “uma declaração unilateral feita pelo Estado, quando da assinatura, ratificação, acessão, adesão ou apro‑ vação de um tratado, com o propósito de excluir ou modificar o efeito jurídico de certas previsões do tratado, quando de sua aplicação naquele Estado”. Entretanto, são inadmissíveis as reservas que se mostrem incompatíveis com o objeto e propósito do tratado, nos termos do art. 19 da Convenção. O Processo de Formação dos Tratados Internacionais A sistemática concernente ao exercício do poder de celebrar tratados é deixada a critério de cada Estado. Por isso, as exigências constitucionais relativas ao processo de formação dos tratados variam significativamente. Em geral, o processo de formação dos tratados tem início com os atos de negociação, conclusão e assinatura do trata‑ do, que são da competência do órgão do Poder Executivo. A assinatura do tratado, por si só, traduz um aceite precário e provisório, não irradiando efeitos jurídicos vinculantes. Trata-se da mera aquiescência do Estado em relação à forma e ao conteúdo final do tratado. A assinatura do tratado, via de re‑ gra, indica tão somente que o tratado é autêntico e definitivo. Após a assinatura do tratado pelo Poder Executivo, o segundo passo é a sua apreciação e aprovação pelo Poder Legislativo. Em sequência, aprovado o tratado pelo Legislativo, há o seu ato de ratificação pelo Poder Executivo. A ratificação significa a subsequente confirmação formal por um Estado de que está obrigado ao tratado. Significa, pois, o aceite definitivo, pelo qual o Estado se obriga pelo tratado no plano internacional. A ratificação é ato jurídico que irradia necessariamente efeitos no plano internacional. A respeito, a Convenção de Viena estabelece, em linhas gerais: “O consentimento do Estado em obrigar-se por um tratado pode ser expresso mediante a assinatura, troca de instrumentos constituintes do tratado, ratificação, aceitação, aprovação ou adesão, ou através de qualquer outro meio acordado” (arts. 11 a 17 da Convenção). Por sua vez, o art. 12 da Convenção fixa as hipóteses em que a ratificação é ne‑ cessária, em adição à assinatura, no sentido de estabelecer a aceitação do Estado no que toca à obrigatoriedade do tratado. Vale dizer, não obstante a assinatura pelo órgão do Poder Executivo, a efetividade do tratado fica, via de regra, condicionada à sua aprovação pelo órgão legislativo e poste‑ rior ratificação pela autoridade do órgão executivo – matéria disciplinada pelo Direito interno. A ratificação é, pois, ato necessário para que o tratado passe a ter obrigatoriedade no âmbito internacional e inter‑ no. Como etapa final, o instrumento de ratificação há de ser depositado em um órgão que assuma a custódia do instru‑ mento – por exemplo, na hipótese de um tratado das Nações Unidas, o instrumento de ratificação deve ser depositado na própria ONU; se o instrumento for do âmbito regional interamericano, deve ser depositado na OEA. No caso brasileiro, a Constituição de 1988, em seu art. 84, VIII, determina que é da competência privativa do Presidente da República celebrar tratados, convenções e atos internacio‑ nais, sujeitos a referendo do Congresso Nacional. Por sua vez, o art. 49, I, da mesma Carta prevê ser da competência exclu‑ siva do Congresso Nacional resolver definitivamente sobre tratados, acordos ou atos internacionais. Consagra-se, assim, a colaboração entre Executivo e Legislativo na conclusão de tratados internacionais, que não se aperfeiçoa enquanto a vontade do Poder Executivo, manifestada pelo Presidente da República, não se somar à vontade do Congresso Nacional. Logo, os tratados internacionais demandam, para seu aper‑ feiçoamento, um ato complexo no qual se integram a vontade do Presidente da República, que os celebra, e a do Congresso Nacional, que os aprova, mediante decreto legislativo. Considerando o histórico das Constituições anteriores, constata-se que, no Direito brasileiro, a conjugação de von‑ tades entre Executivo e Legislativo sempre se fez necessária para a conclusão de tratados internacionais. Não gera efeitos a simples assinatura de um tratado se não for referendado . 40 D IR eI TO S H U M A N O S pelo Congresso Nacional, já que o Poder Executivo só pode promover a ratificação depois de aprovado o tratado pelo Congresso Nacional. Há, portanto, dois atos completamente distintos: a aprovação do tratado pelo Congresso Nacional, por meio de um decreto legislativo, e a ratificação pelo Presidente da República, seguida da troca ou depósito do instrumento de ratificação. Assim, celebrado por represen‑ tante do Poder Executivo, aprovado pelo Congresso Nacional e, por fim, ratificado pelo Presidente da República, passa o tratado a produzir efeitos jurídicos. Contudo, cabe observar que a Constituição brasileira de 1988, ao estabelecer apenas esses dois dispositivos supracitados (os arts. 49, I, e 84, VIII), traz uma sistemática lacunosa, falha e imperfeita: não prevê, por exemplo, prazo para que o Presidente da República encaminhe ao Con‑ gresso Nacional o tratado por ele assinado. Não há ainda previsão de prazo para que o Congresso Nacional aprecie o tratado assinado, tampouco previsão de prazo para que o Presidente da República ratifique o tratado, se aprovado pelo Congresso. Essa sistemática constitucional, ao manter ampla discricionariedade aos Poderes Executivo e Legislativo no processo de formação dos tratados, acaba por contribuir para a afronta ao princípio da boa-fé vigente no Direito Internacional. A respeito, cabe mencionar o emblemático caso da Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados, assinada pelo Estado brasileiro em 1969 e encaminhada à apreciação do Congresso Nacional apenas em 1992, tendo sido aprovada pelo Decreto Legislativo nº 496, em 17 de julho de 2009 – dezessete anos após. Em 25 de setembro de 2009, o Estado brasileiro finalmente efetuou o depósito do instrumento de ratificação. De todo modo, considerando o processo de formação dos tratados e reiterando a concepção de que apresentam força jurídica obrigatória e vinculante, resta frisar que a violação de um tratado implica a violação de obrigações assumidas no âmbito internacional. O descumprimento de tais deveres implica, portanto, responsabilização internacional do Estado violador. A Hierarquia dos Tratados Internacionais de Direitos Humanos A Carta de 1988 consagra de forma inédita, ao fim da ex‑ tensa Declaração de Direitos por ela prevista, que os direitos e garantias expressos na Constituição “não excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados, ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte” (art. 5º, § 2º). Ao efetuar a incorporação, a Carta atribui aos direitos in‑ ternacionais uma natureza especial e diferenciada, qual seja, a natureza de norma constitucional. Os direitos enunciados nos tratados de direitos humanos de que o Brasil é parte in‑ tegram, portanto, o elenco dos direitos constitucionalmente consagrados. Essa conclusão advém ainda de interpretação sistemática e teleológica do Texto, especialmente em face da força expansiva dos valores da dignidade humana e dos direitos fundamentais, como parâmetros axiológicos a orien‑ tar a compreensão do fenômeno constitucional. Acredita-se, todavia, que essa classificação peca ao equiparar os direitos decorrentes dos tratados internacionais aos decorrentes do regime e dos princípios adotados pela Constituição. Se estes últimos “não são nem explícita nemimplicitamente enumerados, mas provêm ou podem vir a prover do regime adotado”, sendo direitos de “difícil caracterização a priori”, o mesmo não pode ser afirmado quanto aos direitos constan‑ tes dos tratados internacionais dos quais o Brasil seja parte. Esses direitos internacionais são expressos, enumerados e claramente elencados, não podendo ser considerados de “difícil caracterização a priori”. Há que enfatizar ainda que, enquanto os demais tratados internacionais têm força hierárquica infraconstitucional, os direitos enunciados em tratados internacionais de pro‑ teção dos direitos humanos apresentam valor de norma constitucional. Observe-se que a hierarquia infraconsti‑ tucional dos demais tratados internacionais é extraída do art. 102, III, b, da Constituição Federal de 1988, que confere ao Supremo Tribunal Federal a competência para julgar, me‑ diante recurso extraordinário, “as causas decididas em única ou última instância, quando a decisão recorrida declarar a inconstitucionalidade de tratado ou lei federal”. Sustenta-se, assim, que os tratados tradicionais têm hierarquia infraconstitucional, mas supralegal. Esse posicio‑ namento se coaduna com o princípio da boa-fé, vigente no direito internacional (o pacta sunt servanda), e que tem como reflexo o art. 27 da Convenção de Viena, segundo o qual não cabe ao Estado invocar disposições de seu Direito interno como justificativa para o não cumprimento de tratado. À luz do mencionado dispositivo constitucional, uma ten‑ dência da doutrina brasileira, contudo, passou a acolher a concepção de que os tratados internacionais e as leis federais apresentavam a mesma hierarquia jurídica, sendo, portanto, aplicável o princípio “lei posterior revoga lei anterior que seja com ela incompatível”. Essa concepção não apenas compromete o princípio da boa-fé, mas constitui afronta à Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados. No sentido de responder à polêmica doutrinária e jurisprudencial concernente à hierarquia dos tratados in‑ ternacionais de proteção dos direitos humanos, a Emenda Constitucional nº 45, de 8 de dezembro de 2004, introduziu o § 3º no art. 5º, dispondo: “Os tratados e convenções in‑ ternacionais sobre direitos humanos que forem aprovados, em cada Casa do Congresso Nacional, em dois turnos, por três quintos dos votos dos respectivos membros, serão equivalentes às emendas à Constituição”. Em face de todo o exposto, sustenta-se que a hierarquia constitucional já se extrai de interpretação conferida ao pró‑ prio art. 5º, § 2º, da Constituição de 1988. Vale dizer, seria mais adequado que a redação do aludido § 3º do art. 5º endossasse a hierarquia formalmente constitucional de todos os tratados internacionais de proteção dos direitos humanos ratificados, afirmando que os tratados internacionais de pro‑ teção de direitos humanos ratificados pelo Estado brasileiro têm hierarquia constitucional. No entanto, estabelece o § 3º do art. 5º que os tratados internacionais de direitos humanos aprovados, em cada Casa do Congresso Nacional, em dois turnos, por três quintos dos votos dos respectivos membros, serão equivalentes às emendas à Constituição. Desde logo, há que afastar o entendimento segundo o qual, em face do § 3º do art. 5º, todos os tratados de direi‑ tos humanos já ratificados seriam recepcionados como lei federal, pois não teriam obtido o quórum qualificado de três quintos, demandado pelo aludido parágrafo. Vale dizer, com o advento do § 3º do art. 5º surgem duas categorias de tratados internacionais de proteção de direitos humanos: a) os materialmente constitucionais; e b) os material e formalmente constitucionais. Frise-se: todos os tratados internacionais de direitos humanos são mate‑ rialmente constitucionais, por força do § 2º do art. 5º. Para além de serem materialmente constitucionais, poderão, a partir do § 3º do mesmo dispositivo, acrescer a qualidade de formalmente constitucionais, equiparando-se às emendas à Constituição, no âmbito formal. . 41 D IR eI TO S H U M A N O S Ainda que todos os tratados de direitos humanos sejam recepcionados em grau constitucional, por veicularem ma‑ téria e conteúdo essencialmente constitucional, importa realçar a diversidade de regimes jurídicos que se aplica aos tratados apenas materialmente constitucionais e aos trata‑ dos que, além de materialmente constitucionais, também são formalmente constitucionais. E a diversidade de regimes jurídicos atém-se à denúncia, que é o ato unilateral pelo qual um Estado se retira de um tratado. Enquanto os tratados materialmente constitucionais podem ser suscetíveis de de‑ núncia, os tratados material e formalmente constitucionais, por sua vez, não podem ser denunciados. Ao se admitir a natureza constitucional de todos os tra‑ tados de direitos humanos, há que ressaltar que os direitos constantes nos tratados internacionais, como os demais di‑ reitos e garantias individuais consagrados pela Constituição, constituem cláusula pétrea e não podem ser abolidos por meio de emenda à Constituição, nos termos do art. 60, § 4º. Atente-se que as cláusulas pétreas resguardam o núcleo ma‑ terial da Constituição, que compõe os valores fundamentais da ordem constitucional. Nesse sentido, os valores da sepa‑ ração dos Poderes e da federação – valores que asseguram a descentralização orgânica e espacial do poder político – , o valor do voto direto, universal e periódico e dos direitos e garantias individuais – valores que asseguram o princípio democrático – , compõem a tônica do constitucionalismo inaugurado com a transição democrática. Os direitos enun‑ ciados em tratados internacionais em que o Brasil seja parte ficam resguardados pela cláusula pétrea “direitos e garantias individuais”, prevista no art. 60, § 4º, IV, da Carta. Entretanto, embora os direitos internacionais sejam alcançados pelo art. 60, § 4º, e não possam ser eliminados via emenda constitucional, os tratados internacionais de direitos humanos materialmente constitucionais são suscetí‑ veis de denúncia por parte do Estado signatário. Com efeito, os tratados internacionais de direitos humanos estabelecem regras específicas concernentes à possibilidade de denúncia por parte do Estado signatário. Os direitos internacionais po‑ derão ser subtraídos pelo mesmo Estado que os incorporou, em face das peculiaridades do regime de direito internacio‑ nal público. Vale dizer, cabe ao Estado-parte tanto o ato de ratificação do tratado como o de denúncia, ou seja, o ato de retirada do mesmo tratado. Os direitos internacionais apresentam, assim, natureza constitucional diferenciada. Cabe considerar, todavia, que seria mais coerente aplicar ao ato da denúncia o mesmo procedimento aplicável ao ato de ratificação. Isto é, se para a ratificação é necessário um ato complexo, fruto da conjugação de vontades do Executivo e Legislativo, para o ato de denúncia também este deveria ser o procedimento. Propõe-se aqui a necessidade do requisito de prévia autorização pelo Legislativo de ato de denúncia de determinado tratado internacional pelo Executivo, o que de‑ mocratizaria o processo, como assinala o Direito comparado. Entretanto, no Direito brasileiro, a denúncia continua a cons‑ tituir ato privativo do Executivo, que não requer qualquer participação do Legislativo. Defende-se a posição de Celso D. de Albuquerque Mello: “A revisão a nosso ver deve ser no sentido de se restringir a autonomia do Executivo para condução da política externa. Ela deve ser feita no sentido de se exigir a aprovação do Legislativo para a denúncia de tratados relativos aos direitos do homem, às convenções internacionais do trabalho, os que criam organizações in‑ ternacionais e às convenções de direito humanitário. (...) O controle pelo Legislativo é o meio de se democratizar a política externa e de ela vir a atender os anseios da nação”. Diversamente dos tratados materialmente constitucio‑ nais, os tratados material e formalmente constitucionaisnão podem ser objeto de denúncia. Isto porque os direitos neles enunciados receberam assento no Texto Constitucional, não apenas pela matéria que veiculam, mas pelo grau de legi‑ timidade popular contemplado pelo especial e dificultoso processo de sua aprovação, concernente à maioria de três quintos dos votos dos membros, em cada Casa do Congresso Nacional, em dois turnos de votação. Ora, se tais direitos internacionais passaram a compor o quadro constitucional, não só no campo material, mas também no formal, não há como admitir que um ato isolado e solitário do Poder Exe‑ cutivo subtraia tais direitos do patrimônio popular – ainda que a possibilidade de denúncia esteja prevista nos próprios tratados de direitos humanos ratificados, como já apontado. É como se o Estado houvesse renunciado a essa prerrogativa de denúncia, em virtude da “constitucionalização formal” do tratado no âmbito jurídico interno. Em suma: os tratados de direitos humanos materialmen‑ te constitucionais são suscetíveis de denúncia, em virtude das peculiaridades do regime de Direito Internacional público, sendo de rigor a democratização do processo de denúncia, com a necessária participação do Legislativo. Já os tratados de direitos humanos material e formalmente constitucionais são insuscetíveis de denúncia. A Incorporação dos Tratados Internacionais de Direitos Humanos Anteriormente apontou‑se para o inédito princípio da aplicabilidade imediata dos direitos e garantias funda‑ mentais, assegurado pelo art. 5º, § 1º, da Constituição de 1988. Ora, se as normas definidoras dos direitos e garantias fundamentais demandam aplicação imediata e se, por sua vez, os tratados internacionais de direitos humanos têm por objeto justamente a definição de direitos e garantias, conclui-se que tais normas merecem aplicação imediata. Portanto, como pontua Antônio Augusto Cançado Trinda‑ de, “se para os tratados internacionais em geral, se tem exi‑ gido a intermediação pelo Poder Legislativo de ato com força de lei de modo a outorgar às suas disposições vigência ou obrigatoriedade no plano do ordenamento jurídico interno, distintamente no caso dos tratados de proteção internacional dos direitos humanos em que o Brasil é parte, os direitos fundamentais neles garantidos, consoante os arts. 5º (2) e 5º (1) da Constituição brasileira de 1988, passam a integrar o elenco dos direitos constitucionalmente consagrados e direta e imediatamente exigíveis no plano do ordenamento jurídico interno”.24 Em outras palavras, não será mais possível a sustenta‑ ção da tese segundo a qual, com a ratificação, os tratados obrigam diretamente aos Estados, mas não geram direitos subjetivos para os particulares, enquanto não advém a re‑ ferida intermediação legislativa. Vale dizer, torna-se possível a invocação imediata de tratados e convenções de direitos humanos, dos quais o Brasil seja signatário, sem a necessi‑ dade de edição de ato com força de lei, voltado à outorga de vigência interna aos acordos internacionais. A incorporação automática do Direito Internacional dos Direitos Humanos pelo direito brasileiro – sem que se faça ne‑ cessário um ato jurídico complementar para sua exigibilidade e implementação – traduz relevantes consequências no plano jurídico. De um lado, permite ao particular a invocação direta dos direitos e liberdades internacionalmente assegurados, e, por outro, proíbe condutas e atos violadores a esses mes‑ mos direitos, sob pena de invalidação. Consequentemente, 24 Antônio Augusto Cançado Trindade. A interação entre o direito internacional e o direito interno, p. 30-31. . 42 D IR eI TO S H U M A N O S a partir da entrada em vigor do tratado internacional, toda norma preexistente que seja com ele incompatível perde automaticamente a vigência. Ademais, passa a ser recor‑ rível qualquer decisão judicial que violar as prescrições do tratado – eis aqui uma das sanções aplicáveis na hipótese de inobservância dos tratados. Nesse sentido, a Carta de 1988 atribui ao Superior Tribunal de Justiça a competência para julgar, mediante recurso especial, as causas decididas pelos Tribunais Regionais Federais ou pelos Tribunais dos Estados, “quando a decisão recorrida contrariar tratado ou lei federal, ou negar-lhes vigência”, nos termos do art. 105, III, a. Isto é, cabe ao Poder Judiciário declarar inválida e antijurídica conduta violadora de tratado internacional. Eventualmen‑ te, a depender do caso, cabe a esse Poder a imposição de sanções pecuniárias em favor da vítima que sofreu violação em seu direito internacionalmente assegurado. Importa esclarecer que, ao lado da sistemática da “in‑ corporação automática” do Direito Internacional, existe a sistemática da “incorporação legislativa” do Direito Inter‑ nacional. Isto é, se, em face da incorporação automática, os tratados internacionais incorporam‑se de imediato ao Direito nacional em virtude do ato da ratificação, no caso da incorporação legislativa os enunciados dos tratados ratifica‑ dos não são incorporados de plano pelo Direito nacional; ao contrário, dependem necessariamente de legislação que os implemente. Essa legislação, reitere-se, é ato inteiramente distinto do ato da ratificação do tratado. Em suma, em face da sistemática da incorporação auto‑ mática, o Estado reconhece a plena vigência do Direito Inter‑ nacional na ordem interna, mediante uma cláusula geral de recepção automática plena. Com o ato da ratificação, a regra internacional passa a vigorar de imediato tanto na ordem jurídica internacional como na interna, sem necessidade de uma norma de direito nacional que a integre ao sistema jurídico. Essa sistemática da incorporação automática reflete a concepção monista, pela qual o Direito Internacional e o direito interno compõem uma mesma unidade, uma única ordem jurídica, inexistindo qualquer limite entre a ordem jurídica internacional e a ordem interna. Por sua vez, na sistemática da incorporação legislativa, o Estado recusa a vigência imediata do Direito Internacional na ordem interna. Por isso, para que o conteúdo de uma norma internacional vigore na ordem interna, faz-se ne‑ cessária sua reprodução ou transformação por uma fonte interna. Nesse sistema, o Direito Internacional e o Direito interno são duas ordens jurídicas distintas, pelo que aquele só vigorará na ordem interna, se, e na medida em que cada norma internacional for transformada em Direito Interno. A sistemática de incorporação não automática reflete a con‑ cepção dualista, pela qual há duas ordens jurídicas diversas, independentes e autônomas: a ordem jurídica nacional e a ordem internacional, que não apresentam contato nem qualquer interferência. Diante dessas duas sistemáticas diversas, conclui-se que o Direito brasileiro faz opção por um sistema misto, no qual, aos tratados internacionais de proteção dos direitos huma‑ nos – por força do art. 5º, § 1º – , aplica-se a sistemática de incorporação automática, enquanto aos demais tratados internacionais se aplica a sistemática de incorporação legis‑ lativa, na medida em que se tem exigido a intermediação de um ato normativo para tornar o tratado obrigatório na ordem interna. Com efeito, salvo na hipótese de tratados de direitos humanos, no Texto Constitucional não há dispositivo cons‑ titucional que enfrente a questão da relação entre o Direito Internacional e o interno. Isto é, não há menção expressa a qualquer das correntes, seja à monista, seja à dualista. Por isso, a doutrina predominante tem entendido que, em face do silêncio constitucional, o Brasil adota a corrente dualista, pela qual há duas ordens jurídicas diversas (a ordem inter‑ na e a ordem internacional). Para que o tratado ratificado produza efeitos no ordenamento jurídico interno, faz-se necessária a edição de um ato normativo nacional — no caso brasileiro, esse ato tem sido um decreto de execução, expedido pelo Presidente da República, com a finalidade de conferir execução e cumprimentoao tratado ratificado no âmbito interno. Embora seja essa a doutrina predominante, este trabalho sustenta que tal interpretação não se aplica aos tratados de direitos humanos, que, por força do art. 5º, § 1º, têm aplicação imediata. Isto é, diante do princípio da aplicabilidade imediata das normas definidoras de direitos e garantias fundamentais, os tratados de direitos humanos, as‑ sim que ratificados, devem irradiar efeitos na ordem jurídica internacional e interna, dispensando a edição de decreto de execução. Já no caso dos tratados tradicionais, há a exigência do aludido decreto, tendo em vista o silêncio constitucional acerca da matéria. Logo, defende-se que a Constituição adota um sistema jurídico misto, já que, para os tratados de direitos humanos, acolhe a sistemática da incorporação automática, enquanto para os tratados tradicionais acolhe a sistemática da incorporação não automática. O § 3º do art. 5º tão somente veio a fortalecer o enten‑ dimento em prol da incorporação automática dos tratados de direitos humanos. Isto é, não parece razoável, a título ilustrativo, que, após todo o processo solene e especial de aprovação do tratado de direitos humanos (com a observân‑ cia do quorum exigido pelo art. 60, § 2º), fique a sua incor‑ poração no âmbito interno condicionada a um decreto do Presidente da República. Note-se, todavia, que a expedição de tal decreto tem sido exigida pela jurisprudência do STF, como um “momento culminante” no processo de incor‑ poração dos tratados, sendo uma “manifestação essencial e insuprimível”, por assegurar a promulgação do tratado internamente, garantir o princípio da publicidade e conferir executoriedade ao texto do tratado ratificado, que passa, somente então, a vincular e a obrigar no plano do direito positivo interno. Ao tratar do sistema misto, afirmam André Gonçalves Pereira e Fausto de Quadros: No sistema misto o Estado não reconhece a vigência automática de todo o Direito Internacional, mas reconhece-o só sobre certas matérias. As normas internacionais respeitantes a essas matérias vigoram, portanto, na ordem interna independentemente de transformação; ao contrário, todas as outras vigoram apenas mediante transformação. Este sistema é co‑ nhecido por sistema da cláusula geral da recepção semiplena. Este sistema resulta da adoção cumulativa de concepções monistas e dualistas quanto às rela‑ ções entre o Direito Internacional e o Direito Interno. Em síntese, relativamente aos tratados internacionais de proteção dos direitos humanos, a Constituição brasileira de 1988, em seu art. 5º, § 1º, acolhe a sistemática da incor‑ poração automática dos tratados, o que reflete a adoção da concepção monista. Ademais, como apreciado no tópico anterior, a Carta de 1988 confere aos tratados de direitos humanos o status de norma constitucional, por força do art. 5º, §§ 2º e 3º. O regime jurídico diferenciado conferido aos tratados de direitos humanos não é, todavia, aplicável . 43 D IR eI TO S H U M A N O S aos demais tratados, isto é, aos tradicionais. No que tange a estes, adota-se a sistemática da incorporação legislativa, exigindo que, após a ratificação, um ato com força de lei (no caso brasileiro esse ato é um decreto expedido pelo Executi‑ vo) confira execução e cumprimento aos tratados no plano interno. Desse modo, no que se refere aos tratados em geral, acolhe-se a sistemática da incorporação não automática, o que reflete a adoção da concepção dualista. Ainda no que tange a esses tratados tradicionais e nos termos do art. 102, III, b, da Carta Maior, o Texto lhes atribui natureza de norma infraconstitucional. Eis o sistema misto propugnado pela Constituição brasi‑ leira de 1988, que combina regimes jurídicos diversos – um aplicável aos tratados internacionais de proteção dos direi‑ tos humanos e o outro aos tratados em geral. Enquanto os tratados internacionais de proteção dos direitos humanos apresentam status constitucional e aplicação imediata (por força do art. 5º, §§ 1º e 2º, da Carta de 1988), os tratados tradicionais apresentam status infraconstitucional e aplica‑ ção não imediata (por força do art. 102, III, b, da Carta de 1988 e da inexistência de dispositivo constitucional que lhes assegure aplicação imediata). Resta, por fim, avaliar qual o impacto jurídico do Direito Internacional dos Direitos Humanos no Direito brasileiro. Esta análise remete a toda e qualquer possível consequência ju‑ rídica decorrente da incorporação de normas internacionais de direitos humanos pelo ordenamento brasileiro. Em relação ao impacto jurídico dos tratados interna‑ cionais de direitos humanos no direito brasileiro, e consi‑ derando a hierarquia constitucional desses tratados, três hipóteses poderão ocorrer. O direito enunciado no tratado internacional poderá: a) coincidir com o direito assegura‑ do pela Constituição (neste caso a Constituição reproduz preceitos do Direito Internacional dos Direitos Humanos); b) integrar, complementar e ampliar o universo de direitos constitucionalmente previstos; ou c) contrariar preceito do Direito interno. Com efeito, no ângulo estritamente jurídico, um primei‑ ro impacto observado se atém ao fato de o Direito interno brasileiro, e em particular a Constituição de 1988, conter inúmeros dispositivos que reproduzem fielmente enunciados constantes dos tratados internacionais de direitos humanos. A título de exemplo, merece referência o disposto no art. 5º, III, da Constituição, que, ao prever que “ninguém será sub‑ metido a tortura nem a tratamento cruel, desumano ou degradante”, é reprodução literal do art. V da Declaração Universal de 1948, do art. 7º do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos e ainda do art. 5º (2) da Convenção Americana. Também o princípio de que “todos são iguais perante a lei”, consagrado no art. 5º, caput, da Carta bra‑ sileira, reflete cláusula internacional no mesmo sentido, de acordo com o art. VII da Declaração Universal, o art. 26 do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos e o art. 24 da Convenção Americana. Por sua vez, o princípio da inocên‑ cia presumida, ineditamente previsto pela Constituição de 1988 em seu art. 5º, LVII, também é resultado de inspiração no Direito Internacional dos Direitos Humanos, nos termos do art. XI da Declaração Universal, do art. 14 (3) do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos e do art. 8º (2) da Convenção Americana. Cabe ainda menção ao inciso LXXVIII do art. 5º da Constituição de 1988, introduzido pela Emen‑ da Constitucional nº 45, de 8 de dezembro de 2004, que, ao assegurar a todos, no âmbito judicial e administrativo, o direito à razoável duração do processo, é reflexo do art. 7º (5) da Convenção Americana de Direitos Humanos. Esses são apenas alguns exemplos que buscam comprovar quanto o Direito interno brasileiro tem como inspiração, paradigma e referência o Direito Internacional dos Direitos Humanos. A reprodução de disposições de tratados internacionais de direitos humanos na ordem jurídica brasileira não apenas reflete o fato de o legislador nacional buscar orientação e inspiração nesse instrumental, mas ainda revela a preocupa‑ ção do legislador em equacionar o Direito interno, de modo a ajustá-lo, com harmonia e consonância, às obrigações internacionalmente assumidas pelo Estado brasileiro. Nesse caso, os tratados internacionais de direitos humanos estarão a reforçar o valor jurídico de direitos constitucionalmente assegurados, de forma que eventual violação do direito importará em responsabilização não apenas nacional, mas também internacional. Um segundo impacto jurídico decorrente da incorpo‑ ração do Direito Internacional dos Direitos Humanos pelo Direito interno resulta no alargamento do universo de direitos nacionalmente garantidos. Com efeito, os tratados internacionais de direitos humanos reforçam a Carta de direi‑ tos prevista constitucionalmente, inovando-a, integrando-a e completando-a com a inclusãode novos direitos. A partir dos instrumentos internacionais ratificados pelo Estado brasileiro, é possível elencar inúmeros direitos que, embora não previstos no âmbito nacional, encontram-se enunciados nesses tratados e, assim, passam a se incorpo‑ rar ao Direito brasileiro. A título de ilustração, cabe mencionar os seguintes di‑ reitos: a) direito de toda pessoa a um nível de vida adequado para si próprio e sua família, inclusive à alimentação, vesti‑ menta e moradia, nos termos do art. 11 do Pacto Internacio‑ nal dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais; b) proibição de qualquer propaganda em favor da guerra e de qualquer apologia ao ódio nacional, racial ou religioso, que constitua incitamento à discriminação, à hostilidade ou à violência, em conformidade com o art. 20 do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos e o art. 13 (5) da Convenção Americana; c) direito das minorias étnicas, religiosas ou linguísticas a ter sua própria vida cultural, professar e praticar sua própria religião e usar sua própria língua, nos termos do art. 27 do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos e do art. 30 da Convenção sobre os Direitos da Criança; d) direito de não ser submetido a experiências médicas ou científicas sem consentimento do próprio indivíduo, de acordo com o art. 7º, 2ª parte, do Pacto dos Direitos Civis e Políticos; e) proibição do restabelecimento da pena de morte nos Estados que a hajam abolido, de acordo com o art. 4º (3) da Convenção Americana; f) direito da criança que não tenha completado quinze anos a não ser recrutada pelas Forças Armadas para partici‑ par diretamente de conflitos armados, nos termos do art. 38 da Convenção sobre os Direitos da Criança; g) possibilidade de adoção pelos Estados de medidas, no âmbito social, econômico e cultural, que assegurem a ade‑ quada proteção de certos grupos raciais, no sentido de que a eles seja garantido o pleno exercício dos direitos humanos e liberdades fundamentais, em conformidade com o art. 1º (4) da Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial; h) possibilidade de adoção pelos Estados de medidas temporárias e especiais que objetivem acelerar a igualdade de fato entre homens e mulheres, nos termos do art. 4º da . 44 D IR eI TO S H U M A N O S Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discri‑ minação contra as Mulheres; i) vedação da utilização de meios destinados a obstar a comunicação e a circulação de ideias e opiniões, nos termos do art. 13 da Convenção Americana; j) direito ao duplo grau de jurisdição como garantia judicial mínima, nos termos dos arts. 8º, h, e 25 (1) da Con‑ venção Americana; k) direito do acusado a ser ouvido, nos termos do art. 8º (1) da Convenção Americana; l) direito de toda pessoa detida ou retida a ser julgada em prazo razoável ou ser posta em liberdade, sem prejuízo de que prossiga o processo, nos termos do art. 7º (5) da Convenção Americana; m) proibição da extradição ou expulsão de pessoa a outro Estado quando houver fundadas razões de que poderá ser submetida a tortura ou a outro tratamento cruel, desumano ou degradante, nos termos do art. 3º da Convenção contra a Tortura e do art. 22, VIII, da Convenção Americana. Esse elenco de direitos enunciados em tratados inter‑ nacionais de que o Brasil é parte inova e amplia o universo de direitos nacionalmente assegurados, na medida em que não se encontram previstos no Direito interno. Observe-se que o elenco não é exaustivo: tem por finalidade apenas apontar, exemplificativamente, direitos consagrados nos instrumentos internacionais ratificados pelo Brasil e que se incorporaram à ordem jurídica interna brasileira. Desse modo, percebe-se como o Direito Internacional dos Direitos Humanos inova, estende e amplia o universo dos direitos constitucionalmente assegurados. Como reconhece Ministro Ricardo Lewandowski, os tratados internacionais de direitos humanos constituem o ‘bloco de constitucionalidade’, am‑ pliando o núcleo mínimo de direitos e o próprio parâmetro de controle de constitucionalidade.25 O Direito Internacional dos Direitos Humanos ainda permite, em determinadas hipóteses, o preenchimento de lacunas apresentadas pelo Direito brasileiro. Em síntese, o Direito Internacional dos Direitos Humanos pode reforçar a imperatividade de direitos constitucional‑ mente garantidos – quando os instrumentos internacionais complementam dispositivos nacionais, ou quando estes reproduzem preceitos enunciados da ordem internacional – ou ainda estender o elenco dos direitos constitucionalmente garantidos – quando os instrumentos internacionais adicio‑ nam direitos não previstos pela ordem jurídica interna. Con‑ tudo, ainda se faz possível uma terceira hipótese no campo jurídico: eventual conflito entre o Direito Internacional dos Direitos Humanos e o Direito interno. Esta terceira hipótese é a que encerra maior problemática, suscitando a seguinte indagação: como solucionar eventual conflito entre a Cons‑ tituição e determinado tratado internacional de proteção dos direitos humanos? Poder-se-ia imaginar, como primeira alternativa, a adoção do critério “lei posterior revoga lei anterior com ela incompatível”, considerando a natureza constitucional dos tratados internacionais de direitos humanos. Contudo, exame mais cauteloso da matéria aponta para um critério de solução diferenciado, absolutamente peculiar ao conflito em tela, que se situa no plano dos direitos fundamentais. E o critério a ser adotado se orienta pela escolha da norma mais favorável à vítima. Vale dizer, prevalece a norma mais benéfica ao indivíduo, titular do direito. O critério ou prin‑ 25 RE 597.285, Rel. Min. Ricardo Lewandowski, j. 14/5/2010, DJe, 18/5/2010 cípio da aplicação do dispositivo mais favorável à vítima não é apenas consagrado pelos próprios tratados internacionais de proteção dos direitos humanos, mas também encontra apoio na prática ou jurisprudência dos órgãos de supervisão internacionais. Na lição lapidar de Antônio Augusto Cançado Trindade, “desvencilhamo-nos das amarras da velha e ociosa polêmica entre monistas e dualistas; neste campo de prote‑ ção, não se trata de primazia do Direito Internacional ou do Direito interno, aqui em constante interação: a primazia é, no presente domínio, da norma que melhor proteja, em cada caso, os direitos consagrados da pessoa humana, seja ela uma norma de Direito Internacional ou de Direito interno”.26 Isto é, no plano de proteção dos direitos humanos interagem o Direito Internacional e o Direito interno movidos pelas mes‑ mas necessidades de proteção, prevalecendo as normas que melhor protejam o ser humano, tendo em vista que a primazia é da pessoa humana. Os direitos internacionais constantes dos tratados de direitos humanos apenas vêm a aprimorar e fortalecer, nunca a restringir ou debilitar, o grau de proteção dos direitos consagrados no plano normativo constitucional. Logo, na hipótese de eventual conflito entre o Direito Internacional dos Direitos Humanos e o Direito interno, adota-se o critério da prevalência da norma mais favorável à vítima. Em outras palavras, a primazia é da norma que me‑ lhor proteja, em cada caso, os direitos da pessoa humana. A respeito, elucidativo é o art. 29 da Convenção Americana de Direitos Humanos, que, ao estabelecer regras interpretativas, determina que “nenhuma disposição da Convenção pode ser interpretada no sentido de limitar o gozo e exercício de qualquer direito ou liberdade que possam ser reconhecidos em virtude de leis de qualquer dos Estados-partes ou em virtude de Convenções em que seja parte um dos referidos Estados”. Consagra-se, assim, o princípio da norma mais favorável, seja ela do Direito Internacional, seja do Direito interno. Ressalte-se que o Direito Internacional dos Direitos Humanos apenas vem aprimorar e fortalecer o grau de pro‑ teção dos direitos consagrados no plano normativo interno. A escolha da norma mais benéficaao indivíduo é tarefa que caberá fundamentalmente aos Tribunais nacionais e a outros órgãos aplicadores do Direito, no sentido de assegurar a melhor proteção possível ao ser humano. Cláusulas de abertura constitucional e o princípio pró ser humano inspirador dos tratados de direitos humanos compõem os dois vértices — nacional e internacional — a fomentar o diálogo em matéria de direitos humanos. Um exemplo de conflito entre Direito internacionalmente garantido e dispositivo constitucional atém-se ao caso da liberdade sindical. Nos termos do art. 22 do Pacto Interna‑ cional dos Direitos Civis e Políticos, fica estabelecido o direito de toda pessoa de fundar, com outras, sindicatos e de filiar-se ao sindicato de sua escolha, sujeitando-se unicamente às restrições previstas em lei e que sejam necessárias, em uma sociedade democrática, ao interesse da segurança nacional ou da ordem pública, ou para proteger os direitos e as liber‑ dades alheias. Idêntico preceito encontra-se previsto no art. 8º do Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, bem como no art. 16 da Convenção Americana de Direitos Humanos. A Constituição brasileira de 1988, por sua vez, consagra o princípio da unicidade sindical, nos termos de seu art. 8º, II. Esse dispositivo prevê que “é vedada a criação de mais de uma organização sindical, em qualquer grau, representativa 26 Antônio Augusto Cançado Trindade, A proteção dos direitos humanos nos planos nacional e internacional: perspectivas brasileiras, p. 317-318. . 45 D IR eI TO S H U M A N O S de categoria profissional ou econômica, na mesma base territorial”. Ora, ainda que internacionalmente a ampla liberdade de fundação de sindicatos esteja sujeita a restrições “previstas em lei e que sejam necessárias, em uma sociedade demo‑ crática, ao interesse da segurança nacional ou da ordem pública, ou para proteger os direitos e as liberdades alheias”, sustenta-se que no caso brasileiro não se verifica qualquer dessas hipóteses. Isto é, a unicidade sindical não parece constituir necessidade de uma sociedade democrática, e nem mesmo parece responder ao interesse da segurança nacional ou da ordem pública, ou ainda à proteção de direitos e de li‑ berdades alheias. Trata-se, portanto, de restrição injustificada à ampla liberdade de associação, que pressupõe a liberdade de fundar sindicatos. Acolhendo o princípio da prevalência da norma mais favorável ao indivíduo e considerando que os direitos pre‑ vistos em tratados internacionais de que o Brasil é parte são incorporados pela Constituição, que lhes atribui natureza de norma constitucional e aplicação imediata, conclui-se que a ampla liberdade de criar sindicatos merece prevalecer sobre a restrição da unicidade sindical. Acrescente-se ainda que o Brasil, ao ratificar os Pactos Internacionais e a Convenção Americana em 1992, não for‑ mulou qualquer reserva em relação à matéria. Logo, aceitou o princípio da ampla liberdade de criação de sindicatos. Outro caso a merecer enfoque refere-se à previsão do art. 11 do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos: “Ninguém poderá ser preso apenas por não poder cumprir com uma obrigação contratual”. Enunciado semelhante é pre‑ visto pelo art. 7º (7) da Convenção Americana, que estabelece que ninguém deve ser detido por dívida, acrescentando que tal princípio não limita os mandados judiciais expedidos em virtude de inadimplemento de obrigação alimentar. Novamente, há que lembrar que o Brasil ratificou ambos os instrumentos internacionais em 1992, sem efetuar qual‑ quer reserva sobre a matéria. Ora, a Carta Constitucional de 1988, no art. 5º, LXVII, determina que “não haverá prisão civil por dívida, salvo a do responsável pelo inadimplemento voluntário e inescusável de obrigação alimentícia e a do depositário infiel”. Logo, a Constituição brasileira consagra o princípio da proibição da prisão civil por dívida, admitindo, todavia, duas exceções: a hipótese do inadimplemento de obrigação alimentícia e a do depositário infiel. Observe-se que, enquanto o Pacto dos Direitos Civis e Políticos não prevê exceção ao princípio da proibição da prisão civil por dívida, a Convenção Americana excepciona o caso de inadimplemento de obrigação alimentar. Ora, se o Brasil ratificou esses instrumentos sem qualquer reserva no que tange à matéria, é de questionar a possibilidade jurídica da prisão civil do depositário infiel. Mais uma vez, atendo-se ao critério da prevalência da norma mais favorável à vítima no plano da proteção dos direitos humanos, conclui-se que merece ser afastado o cabimento da possibilidade de prisão do depositário infiel, conferindo-se prevalência à norma do tratado. Observe-se que, se a situação fosse inversa – se a norma constitucional fosse mais benéfica que a normatividade internacional – , aplicar-se-ia a norma constitucional, muito embora os aludi‑ dos tratados tivessem hierarquia constitucional e houvessem sido ratificados após o advento da Constituição. Vale dizer, as próprias regras interpretativas dos tratados internacionais de proteção aos direitos humanos apontam nessa direção quando afirmam que os tratados internacionais só se aplicam se ampliarem e estenderem o alcance da proteção nacional dos direitos humanos. Em síntese, estas considerações têm o fito de revelar quão intenso é o impacto jurídico do Direito Internacional dos Direitos Humanos no ordenamento interno. Considerando a natureza constitucional dos direitos enunciados nos trata‑ dos internacionais de proteção dos direitos humanos, três hipóteses poderão ocorrer. O direito enunciado no tratado internacional poderá: a) reproduzir direito assegurado pela Constituição; b) inovar o universo de direitos constitucio‑ nalmente previstos; e c) contrariar preceito constitucional. Na primeira hipótese, os tratados internacionais de direitos humanos estarão a reforçar o valor jurídico de direitos constitucionalmente assegurados. Na segunda, esses tra‑ tados estarão a ampliar e estender o elenco dos direitos constitucionais, complementando e integrando a declaração constitucional de direitos. Por fim, quanto à terceira hipótese, prevalecerá a norma mais favorável à proteção da vítima. Vale dizer, os tratados internacionais de direitos humanos inovam significativamente o universo dos direitos nacionalmente consagrados – ora reforçando sua imperatividade jurídica, ora adicionando novos direitos, ora suspendendo preceitos que sejam menos favoráveis à proteção dos direitos humanos. Em todas as três hipóteses, os direitos internacionais constantes dos tratados de direitos humanos apenas vêm aprimorar e fortalecer, nunca restringir ou debilitar, o grau de proteção dos direitos consagrados no plano normativo interno. DIReITOS HUMANOS NA CONSTITUIÇÃO FeDeRAL Conforme já visto, a expressão direitos humanos abrange várias concepções. Para o estudo dos direitos humanos na Constituição Federal, adotaremos o conceito de direitos humanos fundamentais ou direitos fundamentais, visto que compreendem àqueles direitos assegurados dentro do ordenamento jurídico interno, pelas autoridades político‑ -legislativas. Em clara e indubitável resposta ao período da ditadura militar, o ordenamento jurídico brasileiro definitivamente aderiu ao protagonismo dos direitos humanos como escudo face às arbitrariedades estatais, tendo pela primeira vez na história das Constituições do Brasil, antecedido o conteúdo dos direitos humanos fundamentais às normas de organi‑ zação estatal (divisão dos entes federativos, distribuição de competências, divisão dos Poderes, etc.). Tal cenário apresenta-se como necessário desdobramento da elevação da dignidade da pessoa humana como um dos fundamentos da República Federativa do Brasil (art. 1º, III). Este mesmo anseio de promoção dos direitos huma‑ nos fundamentais traduz-se em números: são 78 incisos constantes na declaração de direitos individuais e coletivos (Art.5º), maisque o dobro, em comparação com todas as constituições anteriores. A Constituição Federal, inovou, igualmente, quando inseriu os direitos sociais dentro do mesmo título dos di‑ reitos individuais, políticos e de nacionalidade, denotando seu compromisso com a preservação das liberdades do indivíduo, bem como suas condições de subsistência e de desenvolvimento. A declaração de direitos humanos fundamentais está assim organizada no Carta de 1988: . 46 D IR eI TO S H U M A N O S Título II Dos Direitos e Garantias Fundamentais Capítulo I Dos Direitos e Deveres Individuais e Coletivos (art. 5º) Capítulo II Dos Direitos econômicos, Sociais e Culturais (art. 6º ao 11 / arts. 194 a 232) Capítulo IIII Da Nacionalidade (art. 12 e 13) Capítulo IV Dos Direitos Políticos (arts. 14 e 16) Capítulo V Dos Partidos Políticos (art. 17) Direitos e Deveres Individuais e Coletivos O art. 5º da Constituição Federal contempla extensa lista de direitos fundamentais do indivíduo e de garantias fundamentais, destinadas, principalmente, à proteção contra o abuso do poder estatal. Direitos econômicos, Sociais e Culturais Os direitos econômicos, sociais e culturais integram o rol dos direitos fundamentais, essencialmente destinados à busca da igualdade material. Importante destacar que diversos dos direitos previstos no art. 6º da Constituição Federal são retomados mais adiante, para além do Capítulo II, Título II, mais especificamente no Título VIII que trata “Da Ordem Social’ (por exemplo, a Seguridade Social (arts. 194 e 195, da CF); a Saúde (arts. 196 a 200); a Previdência Social (art. 201 e 202); a Assistência Social (arts. 203 e 204); a Educação (arts. 205 a 214); a Cultura (arts. 215 a 216-A); o Desporto (art. 217); a Ciência e Tecnologia (arts. 218 e 219); a Comunicação Social (arts. 220 a 224); o Meio ambiente (art. 225); a Família, a criança, o adolescente, o jovem e o idoso (arts. 226 a 230); e os índios (arts. 231 e 232). Além do art. 6º, o Capítulo II dedicado ao Direitos Sociais também protegeu, nos arts. 7º a 11 os direitos trabalhistas mais importantes. Vale destacar que os direitos econômicos, sociais e culturais, são protegidos, inclusive, internacionalmente pelo Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais cujo Brasil é signatário desde 1992 (Decreto nº 591, de 6 de julho) Direitos da Nacionalidade Por ser elementar à pessoa a condição de sujeito de direitos, a nacionalidade, em si, também é um direito fun‑ damental, previsto nos arts. 12 e 13 da Constituição Federal. Direitos Políticos e Partidos Políticos Os direitos políticos, previstos no art. 14 a 16 da Cons‑ tituição são direitos fundamentais que visam preservar a essência dos direitos humanos contra o abuso do poder estatal pela via da salvaguarda da intransigente soberania popular, traduzida no brocardo “todo poder emana do povo” (Princípio Democrático). No que diz respeito aos partidos políticos, a Constituição Federal estabelece a liberdade de sua criação, fusão, incor‑ poração e extinção, subordinadas ao resguardo da soberania nacional, do regime democrático, do pluripartidarismo e dos direitos fundamentais da pessoa humana, e atreladas à observância dos seguintes preceitos: caráter nacional; proi‑ bição de recebimento de recursos financeiros de entidade ou governo estrangeiro ou de subordinação a estes; prestação de contas à Justiça Eleitoral; e funcionamento parlamentar de acordo com a Lei (art. 17). Para aprofundamento da declaração de direitos huma‑ nos fundamentais recomendamos o estudo do assunto na matéria de Direito Constitucional. eFICÁCIA DOS DIReITOS HUMANOS eficácia Vertical Consiste na aplicação dos direitos fundamentais às relações entre Estado e indivíduo. Nesta relação Estado-in‑ divíduo, diz-se que há uma eficácia vertical dos direitos fundamentais, pois nesta relação há um poder “superior” (o Estado) e um “inferior” (o indivíduo), certo que não estão em posições iguais, sendo evidente a proeminência de força do Estado. Quando os direitos fundamentais foram criados, eles eram aplicados somente a essa relação, para proteger os particulares do arbítrio do Estado. eficácia Horizontal Posteriormente, surgiu a eficácia horizontal, também denominada de Eficácia Externa. Consiste na aplicação dos di‑ reitos fundamentais às relações entre os próprios particulares. A doutrina aponta duas correntes sobre o modo com que os direitos fundamentais incidem nas relações privadas. Para a primeira corrente, os direitos fundamentais se aplicam de forma imediata, sem necessidade de determinação legal. Esta é a denominada Teoria da Aplicação Imediata. Para a segunda corrente, seria necessária essa intermediação legis‑ lativa. É chamada de Teoria da Aplicação Mediata ou Indireta. eficácia Diagonal É uma relação entre particulares, mas onde não há uma igualdade fática. Consiste na aplicação dos direitos fundamentais. É a incidência dos direitos fundamentais em relações privadas marcadas pela desigualdade entre os par‑ ticulares, especialmente onde se verifique um contraponto entre o poder econômico e a vulnerabilidade (jurídica ou econômica). Exemplo: as relações trabalhistas. A Organiza‑ ção Internacional do Trabalho tem várias convenções que regulam a incidência dos direitos humanos trabalhistas nas relações privadas, de forma que se pode demonstrar a efi‑ cácia diagonal dos direitos humanos no plano internacional. POLÍTICA NACIONAL De DIReITOS HUMANOS Atualmente, a política de promoção e proteção dos Di‑ reitos Humanos é desenvolvida no âmbito do Ministério dos Direitos Humanos, criado em 2017, pelo Presidente Michel Temer. . 47 D IR eI TO S H U M A N O S De acordo com o art. 35, da Lei nº 13.502, de 1º de no‑ vembro de 2017, constitui área de competência do Ministério dos Direitos Humanos: • formulação, coordenação e execução de políticas e diretrizes voltadas à promoção dos direitos humanos, incluídos: a) direitos da cidadania; b) direitos da criança e do adolescente; c) direitos da pessoa idosa; d) direitos da pessoa com deficiência; e e) direitos das minorias; • articulação de iniciativas e apoio a projetos de proteção e promoção dos direitos humanos; • promoção da integração social das pessoas com defi‑ ciência; • exercício da função de ouvidoria nacional em assuntos relativos aos direitos humanos, da cidadania, da crian‑ ça e do adolescente, da pessoa idosa, da pessoa com deficiência e das minorias; • formulação, coordenação, definição de diretrizes e ar‑ ticulação de políticas para a promoção da igualdade racial, com ênfase na população negra, afetada por discriminação racial e demais formas de intolerância; • combate à discriminação racial e étnica; e • coordenação da Política Nacional da Pessoa Idosa, prevista na Lei no 8.842, de 4 de janeiro de 1994. O Conselho Nacional dos Direitos Humanos (CNDH) é o órgão responsável pela promoção e defesa dos direitos humanos, mediante ações preventivas, protetivas, repara‑ doras e sancionadoras das condutas e situações de ameaça ou violação desses direitos (art. 2º da Lei nº 12.986, de 2 de junho de 2014). O CNDH é o órgão incumbido de velar pelo efetivo res‑ peito aos direitos humanos por parte dos poderes públi‑ cos, dos serviços de relevância pública e dos particulares, competindo-lhe: • promover medidas necessárias à prevenção, repressão, sanção e reparação de condutas e situações contrárias aos direitos humanos, inclusive os previstos em trata‑ dos e atos internacionais ratificados no País, e apurar as respectivas responsabilidades; • fiscalizar a política nacional de direitos humanos, po‑ dendo sugerir e recomendar diretrizes para a sua efe‑ tivação; • receber representações ou denúncias de condutas ou situações contrárias aos direitos humanos e apurar as respectivas responsabilidades; • expedir recomendações a entidades públicas e priva‑ das envolvidas com a proteção dos direitos humanos, fixando prazo razoável para o seu atendimentoou para justificar a impossibilidade de fazê-lo; • articular-se com órgãos federais, estaduais, do Distrito Federal e municipais encarregados da proteção e de‑ fesa dos direitos humanos; • manter intercâmbio e cooperação com entidades pú‑ blicas ou privadas, nacionais ou internacionais, com o objetivo de dar proteção aos direitos humanos e demais finalidades previstas neste artigo; • acompanhar o desempenho das obrigações relativas à defesa dos direitos humanos resultantes de acordos internacionais, produzindo relatórios e prestando a colaboração que for necessária ao Ministério das Re‑ lações Exteriores; • opinar sobre atos normativos, administrativos e legisla‑ tivos de interesse da política nacional de direitos huma‑ nos e elaborar propostas legislativas e atos normativos relacionados com matéria de sua competência; • realizar estudos e pesquisas sobre direitos humanos e promover ações visando à divulgação da importância do respeito a esses direitos; • recomendar a inclusão de matéria específica de direi‑ tos humanos nos currículos escolares, especialmente nos cursos de formação das polícias e dos órgãos de defesa do Estado e das instituições democráticas; • dar especial atenção às áreas de maior ocorrência de violações de direitos humanos, podendo nelas pro‑ mover a instalação de representações do CNDH pelo tempo que for necessário; • representar: – à autoridade competente para a instauração de inquérito policial ou procedimento administrativo, visando à apuração da responsabilidade por viola‑ ções aos direitos humanos ou por descumprimento de sua promoção, inclusive o estabelecido no inciso XI, e aplicação das respectivas penalidades; – ao Ministério Público para, no exercício de suas atribuições, promover medidas relacionadas com a defesa de direitos humanos ameaçados ou violados; – ao Procurador-Geral da República para fins de inter‑ venção federal, na situação prevista na alínea b do inciso VII do art. 34 da Constituição Federal; – ao Congresso Nacional, visando a tornar efetivo o exercício das competências de suas Casas e Comis‑ sões sobre matéria relativa a direitos humanos; • realizar procedimentos apuratórios de condutas e situações contrárias aos direitos humanos e aplicar sanções de sua competência; • pronunciar-se, por deliberação expressa da maio‑ ria absoluta de seus conselheiros, sobre crimes que devam ser considerados, por suas características e repercussão, como violações a direitos humanos de excepcional gravidade, para fins de acompanhamento das providências necessárias a sua apuração, processo e julgamento. Para a realização de procedimentos apuratórios de situ‑ ações ou condutas contrárias aos direitos humanos, o CNDH goza das seguintes prerrogativas: • requisitar informações, documentos e provas neces‑ sárias às suas atividades; • requisitar o auxílio da Polícia Federal ou de força policial, quando necessário ao exercício de suas atribuições; • requerer aos órgãos públicos os serviços necessários ao cumprimento de diligências ou à realização de vis‑ torias, exames ou inspeções e ter acesso a bancos de dados de caráter público ou relativo a serviços de re‑ levância pública. Vale destacar que todas as ações relacionadas com a formulação e fortalecimento de ações que convergem para uma Política Nacional de Direitos Humanos devem ser exer‑ cidas respeitando-se as diretrizes do Programa Nacional de Direitos Humanos. PROGRAMA NACIONAL De DIReITOS HUMANOS (DeCReTO Nº 7.037/2009) Introdução Aprovado pelo Decreto nº 7.037, de 21 de dezembro de 2009, a terceira versão do Programa Nacional de Direitos . 48 D IR eI TO S H U M A N O S Humanos (PNDH-3) dá continuidade ao processo histórico de consolidação das orientações para concretizar a promoção e defesa dos Direitos Humanos no Brasil. Avançou incor‑ porando a transversalidade nas diretrizes e nos objetivos estratégicos propostos, na perspectiva da universalidade, indivisibilidade e interdependência dos Direitos Humanos. Em 2008 deu-se início a uma cuidadosa atualização e revisão do Programa Nacional de Direitos Humanos I e II, tendo como instrumento fundamental a realização da 11ª Conferência Nacional dos Direitos Humanos – 11ª CNDH. Foram realizados, em todos os Estados e no Distrito Fe‑ deral, 137 encontros prévios às etapas estadual e distrital. Esses encontros envolveram aproximadamente 14 mil par‑ ticipantes, representando a sociedade civil organizada e o poder público, garantindo força institucional ao Programa. Portanto, a realização da 11ª CNDH e a elaboração do PNDH-3 são ações compartilhadas entre governo e sociedade civil, e por isso capazes de gerar as bases para a formulação e fortalecimento de ações que convergem para uma Política Nacional de Direitos Humanos como política de Estado. Fique sabendo! Em 2016, o Governo Federal convocou a 12ª Conferência Nacional de Direitos Humanos para os dias 27, 28 e 29 de abril. Com o tema “Direitos Humanos para Todas e Todos: Democracia, Justiça e Igualdade”, o Conselho Nacional dos Direitos Humanos (CNDH) convidou as participantes e os par‑ ticipantes da 12ª Conferência Nacional de Direitos Humanos a se reunirem nos dias 27 a 29 de abril de 2016 para discutir e deliberar sobre a situação dos direitos humanos no Brasil, identificar caminhos a serem percorridos na elaboração de políticas públicas para a efetivação deste conjunto de garan‑ tias, e reafirmar o compromisso de Estado e sociedade com os direitos fundamentais – alicerce fundamental da institu‑ cionalidade democrática no Brasil. Nesta edição, a etapa nacional da Conferência teve lugar depois da realização conjunta das seguintes Conferências Te‑ máticas, que aconteceram concomitantemente entre os dias 25 e 27 de abril no mesmo espaço físico: a 10ª Conferência Na‑ cional dos Direitos da Criança e do Adolescente; 4ª Conferência Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa; 3ª Conferência Nacional de Políticas Públicas de Direitos Humanos de Lésbicas, Gays, Travestis e Transsexuais - LGBT e 4ª Conferência Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência. A transversalidade passa a ser o eixo condutor dessas atividades. Ao trazer a transversalidade para um lugar de destaque no debate, a 12ª Conferência Nacional de Direitos Humanos convida todas e todos a refletir sobre o tema da efetivação real dos direitos humanos. Como construir e implementar políticas públicas que contemplem os diversos segmentos de maneira integrada, sempre sob a orientação do princípio da dignidade humana? Quais mecanismos devemos por em prática para integrar os diversos temas, atrizes e atores, demandas específicas? Como traduzimos o universo plural da diversidade para a linguagem de políticas eficientes, que reflitam a centralidade do projeto de direitos humanos como núcleo indivisível da institucionalidade democrática no Brasil? Se na última Conferência Nacional foram dadas as bases para a construção do terceiro Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3), nesta nova edição as atenções se volta‑ ram menos ao processo criativo, e mais à tarefa de dar-lhe efetividade. Adentra-se à seara dos meios institucionais e dos compromissos de Estado e da sociedade para reafirmá-lo, efetivá-lo, aprofundar as ações por meio dos quais o conceito de transversalidade possa ganhar concretude e o ideário dos direitos humanos, consolidar-se como projeto. O PNDH-3 está estruturado em seis eixos orientadores, subdivididos em 25 diretrizes, 82 objetivos estratégicos que incorporam ou refletem os 7 eixos, as 36 diretrizes e as 700 resoluções da 11ª CNDH. O Programa tem ainda, como alicer‑ ce de sua construção, as resoluções das Conferências Nacio‑ nais temáticas, os Planos e Programas do governo federal, os Tratados internacionais ratificado pelo Estado brasileiro e as Recomendações dos Comitês de Monitoramento de Tratados da ONU e dos Relatores especiais. evolução Histórica dos Programas Nacionais de Direitos Humanos Toda pessoa tem direitos inerentes à sua naturezahumana, sendo respeitada sua dignidade e garantida à oportunidade de desenvolver seu potencial de forma livre, autônoma e plena. Os princípios históricos dos Direitos Humanos são orien‑ tados pela afirmação do respeito ao outro e pela busca per‑ manente da paz. Paz que, em qualquer contexto, sempre tem seus fundamentos na justiça, na igualdade e na liberdade. Os brasileiros – especialmente os setores populares or‑ ganizados – encontraram na agenda dos Direitos Humanos um conteúdo fundamental de suas lutas em diferentes ce‑ nários. Antes, na resistência à ditadura. Hoje, para exigir a efetivação de relações sociais igualitárias e justas. É sob o impulso dinâmico desses movimentos que os Direitos Humanos se fortalecem, erguendo como bandei‑ ra a democratização permanente do Estado e da própria sociedade. É deles, também, que o Estado vem colhendo crescentemente demandas e exigências para incorporá-las a sua ação programática nas diferentes políticas públicas. O reconhecimento e a incorporação dos Direitos Humanos no ordenamento social, político e jurídico brasileiro resultam de um processo de conquistas históricas, que se materiali‑ zaram na Constituição de 1988. Desde então, avanços ins‑ titucionais vão se acumulando e começa a nascer um Brasil melhor, ao mesmo tempo em que o cotidiano nacional ainda é atravessado por violações rotineiras desses mesmos direitos. A Declaração Universal dos Direitos Humanos, lançada em 10 de dezembro de 1948, fundou os alicerces de uma nova convivência humana, tentando sepultar o ódio e os horrores do nazismo, do holocausto, do gigantesco morticínio que custou 50 milhões de vidas humanas em seis anos de guerra. Os diversos pactos, tratados e convenções interna‑ cionais que a ela sucederam construíram, passo a passo, um arcabouço mundial para proteção dos Direitos Humanos. Em 1993, a comunidade internacional atualizou a com‑ preensão sobre os elementos básicos desses instrumentos na Conferência de Viena, da ONU, fortalecendo os postulados da universalidade, indivisibilidade e interdependência. A Universalidade estabelece que a condição de existir como ser humano é requisito único para a titularidade desses direitos. Indivisibilidade indica que os direitos econômicos, sociais e culturais são condição para a observância dos di‑ reitos civis e políticos, e vice-versa. O conjunto dos Direitos Humanos perfaz uma unidade indivisível, interdependente e inter-relacionada. Sempre que um direito é violado, rompe-se a unidade e todos os demais direitos são comprometidos. A Conferência de Viena também firmou acordo sobre a importância de que os Direitos Humanos passassem a ser conteúdo programático da ação dos Estados nacionais. Por isso, recomendou que os países formulassem e implemen‑ tassem Programas e Planos Nacionais de Direitos Humanos. Redemocratizado, o Estado brasileiro ratificou os prin‑ cipais instrumentos internacionais de Direitos Humanos, tornando-os parte do ordenamento nacional. Isso significa . 49 D IR eI TO S H U M A N O S que, em termos jurídico-políticos, eles se constituem em exigência de respeito a suas determinações pelo país. A Carta Constitucional inclui entre os fundamentos do Estado brasileiro a cidadania e a dignidade da pessoa huma‑ na, estabelecendo como objetivo primordial a construção de uma sociedade livre, justa e solidária, além de compro‑ meter-se com o desenvolvimento nacional, a erradicação da pobreza, redução das desigualdades sociais e regionais e a promoção do bem-estar de todos, sem preconceitos ou dis‑ criminação de qualquer tipo. E obriga o país a reger suas re‑ lações internacionais pela prevalência dos Direitos Humanos. As diretrizes nacionais que orientam a atuação do poder público no âmbito dos Direitos Humanos foram desenvolvi‑ das a partir de 1996, ano de lançamento do primeiro Progra‑ ma Nacional de Direitos Humanos (PNDH I). Passados mais de dez anos do fim da ditadura, as demandas sociais da época se cristalizaram com maior ênfase na garantia dos direitos civis e políticos. O Programa foi revisado e atualizado em 2002, sendo ampliado com a incorporação dos direitos econômicos, sociais e culturais, o que resultou na publicação do segundo Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH II). A terceira versão do Programa Nacional de Direitos Huma‑ nos (PNDH-3) representa mais um passo largo nesse processo histórico de consolidação das orientações para concretizar a promoção dos Direitos Humanos no Brasil. Entre seus avanços mais robustos, destaca-se a transversalidade e interministeria‑ lidade de suas diretrizes, de seus objetivos estratégicos e de suas ações programáticas, na perspectiva da universalidade, indivisibilidade e interdependência dos direitos. O debate público, em escala nacional, para elaboração do PNDH-3 coincidiu com os 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos e com a realização da 11ª Conferência Nacional dos Direitos Humanos (11ª CNDH). Convocada por decreto presidencial em abril de 2008, a 11ª Conferência contou com um Grupo de Trabalho Nacional instituído pela Portaria nº 344 da SEDH/PR, cuja tarefa era coordenar as atividades preparatórias, formular propostas e orientar as conferências estaduais e distrital. Sua composição incluiu representantes de entidades nacionais e movimen‑ tos de Direitos Humanos, bem como membros dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, do Ministério Público e da Defensoria Pública. A Executiva Nacional da Conferência foi integrada pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República, pela Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados e pelo Fórum de Entidades Nacionais de Direitos Humanos. Essa composição tripartite garantiu interação entre diferentes segmentos atuantes na luta pela afirmação dos Direitos Humanos no país, num difícil, mas responsável exercício de diálogo democrático onde não fal‑ taram tensões, divergências e disputas. Com o lema “Democracia, Desenvolvimento e Direitos Humanos: superando as desigualdades”, a 11ª Conferência teve como objetivo principal constituir um espaço de parti‑ cipação democrática para revisar e atualizar o PNDH, com o desafio de tratar de forma integrada as múltiplas dimensões dos Direitos Humanos. Para tanto, optou-se pela metodolo‑ gia de guiar as discussões em torno de eixos orientadores, o que gerou um claro diferencial em relação aos programas anteriores, organizados em temas específicos. Pautados pela transversalidade temática, pela metodo‑ logia integradora e pela articulação entre os poderes públicos e as organizações da sociedade civil, os 26 estados e o Distrito Federal convocaram e realizaram oficialmente suas conferên‑ cias, garantindo força institucional ao debate. Realizaram-se 137 encontros prévios às etapas estaduais e distrital, denomi‑ nados Conferências Livres, Regionais, Territoriais, Municipais ou Pré-Conferências. Participaram ativamente do processo cerca de 14 mil pessoas, reunindo membros dos poderes pú‑ blicos e representantes dos movimentos de mulheres, defen‑ sores dos direitos da criança e do adolescente, pessoas com deficiência, negros e quilombolas, militantes da diversidade sexual, pessoas idosas, ambientalistas, sem-terra, sem-teto, indígenas, comunidades de terreiro, ciganos, populações ribeirinhas, entre outros. A iniciativa, compartilhada entre sociedade civil e poderes republicanos, mostrou-se capaz de gerar as bases para formulação de uma Política Nacional de Direitos Humanos como verdadeira política de Estado. O PNDH-3 está estruturado em seis eixos orientadores, subdivididos em 25 diretrizes, 82 objetivos estratégicos e 521 ações programáticas, que incorporam ou refletem os 7 eixos, 36 diretrizes e 700 resoluções aprovadas na 11ª Con‑ ferência Nacional de Direitos Humanos, realizada em Brasília entre 15 e 18 de dezembro de 2008, como coroamento do processo desenvolvido no âmbito local, regional e estadual. O Programa também inclui,como alicerce de sua construção, propostas aprovadas em cerca de 50 conferências nacionais temáticas realizadas desde 2003 sobre igualdade racial, direi‑ tos da mulher, segurança alimentar, cidades, meio ambiente, saúde, educação, juventude, cultura etc. No âmbito da SEDH/PR, cumpre destacar a realização de duas Conferências Nacionais das Pessoas com Deficiência; duas Conferências Nacionais dos Direitos da Pessoa Idosa; quatro Conferências Nacionais dos Direitos da Criança e do Adolescente; do 3º Congresso Mundial de Enfrentamento da Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes; da 1ª Con‑ ferência Nacional de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais. Merece destaque, também, as diretrizes aprovadas na 1ª Conferência Nacional de Segurança Pública, do Ministério da Justiça, que formulou uma nova perspectiva de fortaleci‑ mento da segurança pública, entendida como direito huma‑ no fundamental, rompendo com o passado de identificação entre ação policial e violação de direitos. Os compromissos de promoção e proteção dos Direitos Humanos expressos no PNDH-3 estendem-se para além da atual administração e devem ser levados em consideração independentemente da orientação política das futuras ges‑ tões. A agenda de promoção e proteção dos Direitos Huma‑ nos deve transformar-se numa agenda do Estado brasileiro, tendo como fundamentos os compromissos internacionais assumidos pelo país. A observância do pacto federativo – que sinaliza as res‑ ponsabilidades dos três Poderes, do Ministério Público e da Defensoria Pública, bem como os compromissos das três esferas administrativas do Estado – é uma exigência central para que os objetivos do PNDH-3 sejam alcançados e efetivados como política de Estado. A responsabilidade do Estado brasileiro frente aos tratados internacionais deve ser assumida pelos três po‑ deres, nos diferentes níveis da federação, cabendo ao Execu‑ tivo Federal a atribuição de responder pelo seu cumprimento. Justificam-se, assim, no PNDH-3, as recomendações feitas aos outros entes federados e demais poderes republicanos. O PNDH-3 é estruturado nos seguintes eixos orientado‑ res: Interação Democrática entre Estado e Sociedade Civil; Desenvolvimento e Direitos Humanos; Universalizar Direitos em um Contexto de Desigualdades; Segurança Pública, Aces‑ so à Justiça e Combate à Violência; Educação e Cultura em Direitos Humanos; Direito à Memória e à Verdade. Compreendendo que todos os agentes públicos e todos os cidadãos são responsáveis pela efetivação dos Direitos Humanos no país, o tema da Interação Democrática entre Estado e Sociedade Civil abre o Programa. O compromisso compartilhado e a participação social na construção e moni‑ toramento das distintas políticas públicas são essenciais para que a consolidação dos Direitos Humanos seja substantiva e portadora de forte legitimidade democrática. . 50 D IR eI TO S H U M A N O S O PNDH-3 propõe a integração e o aprimoramento dos fóruns de participação existentes, bem como a criação de novos espaços e mecanismos institucionais de interação e acompanhamento. A estratégia relativa ao tema Desenvolvimento e Direitos Humanos é centrada na inclusão social e em garantir o exer‑ cício amplo da cidadania, garantindo espaços consistentes às estratégias de desenvolvimento local e territorial, agricultura familiar, pequenos empreendimentos, cooperativismo e eco‑ nomia solidária. O direito humano ao meio ambiente e às cidades sustentáveis, bem como o fomento a pesquisas de tecnologias socialmente inclusivas constituem pilares para um modelo de crescimento sustentável, capaz de assegurar os direitos fundamentais das gerações presentes e futuras. O tema Universalizar Direitos em um Contexto de De‑ sigualdades complementa os anteriores e dialoga com as intervenções desenvolvidas no Brasil para reduzir a pobreza e garantir geração de renda aos segmentos sociais mais po‑ bres, contribuindo de maneira decisiva para a erradicação da fome e da miséria. As conquistas recentes das políticas sociais ainda requerem eliminação de barreiras estruturais para sua efetivação plena. O PNDH-3 reconhece essa reali‑ dade e propõe diretrizes indispensáveis para a construção de instrumentos capazes de assegurar a observância dos Direitos Humanos e para garantir sua universalização. As arraigadas estruturas de poder e subordinação pre‑ sentes na sociedade e na hierarquia das instituições policiais têm sido historicamente marcadas pela violência, gerando um círculo vicioso de insegurança, ineficiência, arbitrariedades, tor‑ turas e impunidade. O eixo Segurança Pública, Acesso à Justiça e Combate à Violência aborda, em suas diretrizes e objetivos estratégicos, metas para a diminuição da violência, redução da discriminação e da violência sexual, erradicação do tráfico de pessoas e da tortura. Propõe reformular o sistema de Justiça e Segurança Pública, avançando propostas de garantia do acesso universal à Justiça, com disponibilização de informações à po‑ pulação, fortalecimento dos modelos alternativos de solução de conflitos e modernização da gestão do sistema judiciário. O eixo prioritário e estratégico da Educação e Cultura em Direitos Humanos se traduz em uma experiência individual e coletiva que atua na formação de uma consciência cen‑ trada no respeito ao outro, na tolerância, na solidariedade e no compromisso contra todas as formas de discriminação, opressão e violência. É esse o caminho para formar pessoas capazes de construir novos valores, fundados no respeito integral à dignidade humana, bem como no reconhecimento das diferenças como elemento de construção da justiça. O desenvolvimento de processos educativos permanentes visa a consolidar uma nova cultura dos Direitos Humanos e da paz. O capítulo que trata do Direito à Memória e à Verdade encerra os temas transversais do PNDH-3. A memória histó‑ rica é componente fundamental na construção da identidade social e cultural de um povo e na formulação de pactos que assegurem a não repetição de violações de Direitos Humanos, rotineiras em todas as ditaduras, de qualquer lugar do planeta. Nesse sentido, afirmar a importância da memória e da verdade como princípios históricos dos Direitos Humanos é o conte‑ údo central da proposta. Jogar luz sobre a repressão política do ciclo ditatorial, refletir com maturidade sobre as violações de Direitos Humanos e promover as necessárias reparações ocorridas durante aquele período são imperativos de um país que vem comprovando sua opção definitiva pela democracia. O PNDH-3 apresenta as bases de uma Política de Estado para os Direitos Humanos. Estabelece diretrizes, objetivos estratégicos e ações programáticas a serem trilhados nos pró‑ ximos anos. A definição operacional de sua implementação, com estabelecimento de prazos, será garantida por meio de Planos de Ação a serem construídos a cada dois anos, sendo fixados os recursos orçamentários, as medidas concretas e os órgãos responsáveis por sua execução. O texto final deste Programa é fruto de um longo e meticuloso processo de diálogo entre poderes públicos e sociedade civil. Representada por diversas organizações e movimentos sociais, esta teve participação novamente deci‑ siva em todas as etapas de sua construção. A base inicial do documento foi constituída pelas resoluções aprovadas na 11ª Conferência Nacional dos Direitos Humanos, que compuse‑ ram um primeiro esqueleto do terceiro PNDH. Conteúdos an‑ gulares das 50 conferências nacionais já mencionadas foram incorporados ao texto. O portal da SEDH/PR expôs durante meses uma redação inicial, para suscitar aperfeiçoamentos e novas sugestões. Seguiram-se outros meses de delicada negociação interna entre diferentes áreas de governo até se chegar ao documento definitivo. Por fim, merece destaque o fato inédito e promissor de que 31 ministérios assinam a exposição de motivos reque‑ rendo ao Presidente da República a publicação do decreto que estabelece este terceiroPrograma Nacional de Direitos Humanos. Nas palavras do Excelentíssimo Ministro da Se‑ cretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República, Senhor Paulo Vannuchi, à época de sua publicação “O desafio agora é concretizá-lo.” Decreto nº 7.037, de 21 de Dezembro de 2009 Aprova o Programa Nacional de Direitos Humanos – PNDH-3 e dá outras providências. O PReSIDeNTe DA RePÚBLICA, no uso da atribuição que lhe confere o art. 84, inciso VI, alínea “a”, da Constituição, decreta: Art. 1º Fica aprovado o Programa Nacional de Direitos Humanos – PNDH-3, em consonância com as diretrizes, ob‑ jetivos estratégicos e ações programáticas estabelecidos, na forma do Anexo deste Decreto. Art. 2º O PNDH-3 será implementado de acordo com os seguintes eixos orientadores e suas respectivas diretrizes: I – Eixo Orientador I: Interação democrática entre Estado e sociedade civil: a) Diretriz 1: Interação democrática entre Estado e so‑ ciedade civil como instrumento de fortalecimento da demo‑ cracia participativa; b) Diretriz 2: Fortalecimento dos Direitos Humanos como instrumento transversal das políticas públicas e de interação democrática; e c) Diretriz 3: Integração e ampliação dos sistemas de informações em Direitos Humanos e construção de meca‑ nismos de avaliação e monitoramento de sua efetivação; II – Eixo Orientador II: Desenvolvimento e Direitos Hu‑ manos: a) Diretriz 4: Efetivação de modelo de desenvolvimento sustentável, com inclusão social e econômica, ambientalmen‑ te equilibrado e tecnologicamente responsável, cultural e regionalmente diverso, participativo e não discriminatório; b) Diretriz 5: Valorização da pessoa humana como sujeito central do processo de desenvolvimento; e c) Diretriz 6: Promover e proteger os direitos ambientais como Direitos Humanos, incluindo as gerações futuras como sujeitos de direitos; III – Eixo Orientador III: Universalizar direitos em um contexto de desigualdades: a) Diretriz 7: Garantia dos Direitos Humanos de forma universal, indivisível e interdependente, assegurando a ci‑ dadania plena; b) Diretriz 8: Promoção dos direitos de crianças e ado‑ lescentes para o seu desenvolvimento integral, de forma não discriminatória, assegurando seu direito de opinião e participação; c) Diretriz 9: Combate às desigualdades estruturais; e . 51 D IR eI TO S H U M A N O S d) Diretriz 10: Garantia da igualdade na diversidade; IV – Eixo Orientador IV: Segurança Pública, Acesso à Justiça e Combate à Violência: a) Diretriz 11: Democratização e modernização do sis‑ tema de segurança pública; b) Diretriz 12: Transparência e participação popular no sistema de segurança pública e justiça criminal; c) Diretriz 13: Prevenção da violência e da criminalidade e profissionalização da investigação de atos criminosos; d) Diretriz 14: Combate à violência institucional, com ênfase na erradicação da tortura e na redução da letalidade policial e carcerária; e) Diretriz 15: Garantia dos direitos das vítimas de crimes e de proteção das pessoas ameaçadas; f) Diretriz 16: Modernização da política de execução pe‑ nal, priorizando a aplicação de penas e medidas alternativas à privação de liberdade e melhoria do sistema penitenciário; e g) Diretriz 17: Promoção de sistema de justiça mais acessível, ágil e efetivo, para o conhecimento, a garantia e a defesa de direitos; V – Eixo Orientador V: Educação e Cultura em Direitos Humanos: a) Diretriz 18: Efetivação das diretrizes e dos princípios da política nacional de educação em Direitos Humanos para fortalecer uma cultura de direitos; b) Diretriz 19: Fortalecimento dos princípios da demo‑ cracia e dos Direitos Humanos nos sistemas de educação básica, nas instituições de ensino superior e nas instituições formadoras; c) Diretriz 20: Reconhecimento da educação não formal como espaço de defesa e promoção dos Direitos Humanos; d) Diretriz 21: Promoção da Educação em Direitos Hu‑ manos no serviço público; e e) Diretriz 22: Garantia do direito à comunicação demo‑ crática e ao acesso à informação para consolidação de uma cultura em Direitos Humanos; e VI – Eixo Orientador VI: Direito à Memória e à Verdade: a) Diretriz 23: Reconhecimento da memória e da verdade como Direito Humano da cidadania e dever do Estado; b) Diretriz 24: Preservação da memória histórica e cons‑ trução pública da verdade; e c) Diretriz 25: Modernização da legislação relacionada com promoção do direito à memória e à verdade, fortale‑ cendo a democracia. Parágrafo único. A implementação do PNDH-3, além dos responsáveis nele indicados, envolve parcerias com outros órgãos federais relacionados com os temas tratados nos eixos orientadores e suas diretrizes. Art. 3º As metas, prazos e recursos necessários para a implementação do PNDH-3 serão definidos e aprovados em Planos de Ação de Direitos Humanos bianuais. Art. 4º Fica instituído o Comitê de Acompanhamento e Monitoramento do PNDH-3, com a finalidade de: I – promover a articulação entre os órgãos e entidades envolvidos na implementação das suas ações programáticas; II – elaborar os Planos de Ação dos Direitos Humanos; III – estabelecer indicadores para o acompanhamento, monitoramento e avaliação dos Planos de Ação dos Direitos Humanos; IV – acompanhar a implementação das ações e reco‑ mendações; e V – elaborar e aprovar seu regimento interno. § 1º O Comitê de Acompanhamento e Monitoramento do PNDH-3 será integrado por um representante e respectivo suplente de cada órgão a seguir descrito, indicados pelos respectivos titulares: I – Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República, que o coordenará; II – Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres da Presidência da República; III – Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República; IV – Secretaria Geral da Presidência da República; V – Ministério da Cultura; VI – Ministério da Educação; VII – Ministério da Justiça; VIII – Ministério da Pesca e Aquicultura; IX – Ministério da Previdência Social; X – Ministério da Saúde; XI – Ministério das Cidades; XII – Ministério das Comunicações; XIII – Ministério das Relações Exteriores; XIV – Ministério do Desenvolvimento Agrário; XV – Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome; XVI – Ministério do Esporte; XVII – Ministério do Meio Ambiente; XVIII – Ministério do Trabalho e Emprego; XIX – Ministério do Turismo; XX – Ministério da Ciência e Tecnologia; e XXI – Ministério de Minas e Energia. § 2º O Secretário Especial dos Direitos Humanos da Pre‑ sidência da República designará os representantes do Comitê de Acompanhamento e Monitoramento do PNDH-3. § 3º O Comitê de Acompanhamento e Monitoramento do PNDH-3 poderá constituir subcomitês temáticos para a execu‑ ção de suas atividades, que poderão contar com a participação de representantes de outros órgãos do Governo Federal. § 4º O Comitê convidará representantes dos demais Poderes, da sociedade civil e dos entes federados para par‑ ticiparem de suas reuniões e atividades. Art. 5º Os Estados, o Distrito Federal, os Municípios e os órgãos do Poder Legislativo, do Poder Judiciário e do Minis‑ tério Público, serão convidados a aderir ao PNDH-3. Art. 6º Este Decreto entra em vigor na data de sua pu‑ blicação. Art. 7º Fica revogado o Decreto nº 4.229, de 13 de maio de 2002. Brasília, 21 de dezembro de 2009; 188º da Independên‑ cia e 121º da República. LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA Tarso Genro Celso Luiz Nunes Amorim Guido Mantega Alfredo Nascimento José Geraldo Fontelles Fernando Haddad André Peixoto Figueiredo Lima José Gomes Temporão Miguel Jorge Edison Lobão Paulo Bernardo Silva Hélio Costa José Pimentel Patrus Ananias João Luiz Silva Ferreira Sérgio Machado Rezende Carlos Minc Orlando Silva de Jesus Junior Luiz Eduardo Pereira Barretto Filho Geddel Vieira Lima Guilherme Cassel Márcio Fortes de Almeida Altemir Gregolin Dilma Rousseff Luiz Soares Dulci Alexandre Rocha Santos Padilha Samuel Pinheiro Guimarães Neto EdsonSantos . 52 D IR eI TO S H U M A N O S ANeXO eIXO ORIeNTADOR I: • Interação democrática entre estado e sociedade civil A partir da metade dos anos 1970, começam a ressurgir no Brasil iniciativas de rearticulação dos movimentos sociais, a despeito da repressão política e da ausência de canais de‑ mocráticos de participação. Fortes protestos e a luta pela democracia marcaram esse período. Paralelamente, surgiram iniciativas populares nos bairros reivindicando direitos bási‑ cos como saúde, transporte, moradia e controle do custo de vida. Em um primeiro momento, eram iniciativas atomizadas, buscando conquistas parciais, mas que ao longo dos anos fo‑ ram se caracterizando como movimentos sociais organizados. Com o avanço da democratização do País, os movimen‑ tos sociais multiplicaram-se. Alguns deles institucionaliza‑ ram-se e passaram a ter expressão política. Os movimentos populares e sindicatos foram, no caso brasileiro, os principais promotores da mudança e da ruptura política em diversas épocas e contextos históricos. Com efeito, durante a etapa de elaboração da Constituição Cidadã de 1988, esses segmentos atuaram de forma especialmente articulada, afirmando-se como um dos pilares da democracia e influenciando direta‑ mente os rumos do País. Nos anos que se seguiram, os movimentos passaram a se consolidar por meio de redes com abrangência regional ou nacional, firmando-se como sujeitos na formulação e monitoramento das políticas públicas. Nos anos 1990, de‑ sempenharam papel fundamental na resistência a todas as orientações do neoliberalismo de flexibilização dos direitos sociais, privatizações, dogmatismo do mercado e enfraque‑ cimento do Estado. Nesse mesmo período, multiplicaram-se pelo País experiências de gestão estadual e municipal em que lideranças desses movimentos, em larga escala, passaram a desempenhar funções de gestores públicos. Com as eleições de 2002, alguns dos setores mais or‑ ganizados da sociedade trouxeram reivindicações históricas acumuladas, passando a influenciar diretamente a atuação do governo e vivendo de perto suas contradições internas. Nesse novo cenário, o diálogo entre Estado e sociedade civil assumiu especial relevo, com a compreensão e a pre‑ servação do distinto papel de cada um dos segmentos no processo de gestão. A interação é desenhada por acordos e dissensos, debates de ideias e pela deliberação em torno de propostas. Esses requisitos são imprescindíveis ao pleno exercício da democracia, cabendo à sociedade civil exigir, pressionar, cobrar, criticar, propor e fiscalizar as ações do Estado. Essa concepção de interação democrática construída en‑ tre os diversos órgãos do Estado e a sociedade civil trouxe consigo resultados práticos em termos de políticas públicas e avanços na interlocução de setores do poder público com toda a diversidade social, cultural, étnica e regional que ca‑ racteriza os movimentos sociais em nosso País. Avançou-se fundamentalmente na compreensão de que os Direitos Hu‑ manos constituem condição para a prevalência da dignidade humana, e que devem ser promovidos e protegidos por meio do esforço conjunto do Estado e da sociedade civil. Uma das finalidades do PNDH-3 é dar continuidade à integração e ao aprimoramento dos mecanismos de parti‑ cipação existentes, bem como criar novos meios de constru‑ ção e monitoramento das políticas públicas sobre Direitos Humanos no Brasil. No âmbito institucional, o PNDH-3 amplia as conquistas na área dos direitos e garantias fundamentais, pois internaliza a diretriz segundo a qual a primazia dos Direitos Humanos constitui princípio transversal a ser considerado em todas as políticas públicas. As diretrizes deste capítulo discorrem sobre a impor‑ tância de fortalecer a garantia e os instrumentos de partici‑ pação social, o caráter transversal dos Direitos Humanos e a construção de mecanismos de avaliação e monitoramento de sua efetivação. Isso inclui a construção de sistema de in‑ dicadores de Direitos Humanos e a articulação das políticas e instrumentos de monitoramento existentes. O Poder Executivo tem papel protagonista na coorde‑ nação e implementação do PNDH-3, mas faz-se necessária a definição de responsabilidades compartilhadas entre a União, Estados, Municípios e do Distrito Federal na execução de políticas públicas, tanto quanto a criação de espaços de participação e controle social nos Poderes Judiciário e Legis‑ lativo, no Ministério Público e nas Defensorias, em ambiente de respeito, proteção e efetivação dos Direitos Humanos. O conjunto dos órgãos do Estado – não apenas no âmbito do Executivo Federal – deve estar comprometido com a imple‑ mentação e monitoramento do PNDH-3. Aperfeiçoar a interlocução entre Estado e sociedade civil depende da implementação de medidas que garantam à sociedade maior participação no acompanhamento e mo‑ nitoramento das políticas públicas em Direitos Humanos, num diálogo plural e transversal entre os vários atores so‑ ciais e deles com o Estado. Ampliar o controle externo dos órgãos públicos por meio de ouvidorias, monitorar os com‑ promissos internacionais assumidos pelo Estado brasileiro, realizar conferências periódicas sobre a temática, fortalecer e apoiar a criação de conselhos nacional, distrital, estaduais e municipais de Direitos Humanos, garantindo-lhes eficiên‑ cia, autonomia e independência são algumas das formas de assegurar o aperfeiçoamento das políticas públicas por meio de diálogo, de mecanismos de controle e das ações contínuas da sociedade civil. Fortalecer as informações em Direitos Humanos com produção e seleção de indicadores para mensurar demandas, monitorar, avaliar, reformular e propor ações efetivas, garante e consolida o controle social e a transparência das ações governamentais. A adoção de tais medidas fortalecerá a democracia par‑ ticipativa, na qual o Estado atua como instância republicana da promoção e defesa dos Direitos Humanos e a sociedade civil como agente ativo – propositivo e reativo – de sua im‑ plementação. Diretriz 1: Interação democrática entre estado e socie- dade civil como instrumento de fortalecimento da demo- cracia participativa. Objetivo estratégico I: Garantia da participação e do controle social das po- líticas públicas em Direitos Humanos, em diálogo plural e transversal entre os vários atores sociais. Ações programáticas: a) Apoiar, junto ao Poder Legislativo, a instituição do Conselho Nacional dos Direitos Humanos, dotado de recursos humanos, materiais e orçamentários para o seu pleno funcio‑ namento, e efetuar seu credenciamento junto ao Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos como “Instituição Nacional Brasileira”, como pri‑ meiro passo rumo à adoção plena dos “Princípios de Paris”. Responsáveis: Secretaria Especial dos Direitos Huma‑ nos da Presidência da República; Ministério das Relações Exteriores. b) Fomentar a criação e o fortalecimento dos conselhos de Direitos Humanos em todos os Estados e Municípios e no Distrito Federal, bem como a criação de programas estaduais de Direitos Humanos. Responsável: Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. . 53 D IR eI TO S H U M A N O S c) Criar mecanismos que permitam ação coordenada entre os diversos conselhos de direitos, nas três esferas da Federação, visando a criação de agenda comum para a im‑ plementação de políticas públicas de Direitos Humanos. Responsáveis: Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República, Secretaria Geral da Presidência da República. d) Criar base de dados dos conselhos nacionais, estadu‑ ais, distrital e municipais, garantindo seu acesso ao público em geral. Responsáveis: Secretaria Geral da Presidência da Re‑ pública; Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presi‑ dência da República. e) Apoiar fóruns, redes e ações da sociedade civil que fazem acompanhamento, controle social e monitoramento das políticas públicas de DireitosHumanos. Responsáveis: Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República; Secretaria Geral da Presidência da República. f) Estimular o debate sobre a regulamentação e efeti‑ vidade dos instrumentos de participação social e consulta popular, tais como lei de iniciativa popular, referendo, veto popular e plebiscito. Responsáveis: Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República; Secretaria Geral da Presidência da República. g) Assegurar a realização periódica de conferências de Direitos Humanos, fortalecendo a interação entre a socie‑ dade civil e o poder público. Responsável: Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. Objetivo estratégico II: Ampliação do controle externo dos órgãos públicos. Ações programáticas: a) Ampliar a divulgação dos serviços públicos voltados para a efetivação dos Direitos Humanos, em especial nos canais de transparência. Responsável: Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. b) Propor a instituição da Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos, em substituição à Ouvidoria Geral da Cidadania, com independência e autonomia política, com mandato e indicação pelo Conselho Nacional dos Direitos Humanos, as‑ segurando recursos humanos, materiais e financeiros para seu pleno funcionamento. Responsável: Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. c) Fortalecer a estrutura da Ouvidoria Agrária Nacional. Responsável: Ministério do Desenvolvimento Agrário. Diretriz 2: Fortalecimento dos Direitos Humanos como instrumento transversal das políticas públicas e de interação democrática. Objetivo estratégico I: Promoção dos Direitos Humanos como princípios orien- tadores das políticas públicas e das relações internacionais. Ações programáticas: a) Considerar as diretrizes e objetivos estratégicos do PNDH-3 nos instrumentos de planejamento do Estado, em especial no Plano Plurianual, na Lei de Diretrizes Orçamen‑ tárias e na Lei Orçamentária Anual. Responsáveis: Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República; Secretaria Geral da Presidên‑ cia da República; Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. b) Propor e articular o reconhecimento do status consti‑ tucional de instrumentos internacionais de Direitos Humanos novos ou já existentes ainda não ratificados. Responsáveis: Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República; Ministério da Justiça; Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República. c) Construir e aprofundar agenda de cooperação mul‑ tilateral em Direitos Humanos que contemple prioritaria‑ mente o Haiti, os países lusófonos do continente africano e o Timor-Leste. Responsáveis: Secretaria Especial dos Direitos Huma‑ nos da Presidência da República; Ministério das Relações Exteriores. d) Aprofundar a agenda Sul-Sul de cooperação bilate‑ ral em Direitos Humanos que contemple prioritariamente os países lusófonos do continente africano, o Timor-Leste, Caribe e a América Latina. Responsáveis: Secretaria Especial dos Direitos Huma‑ nos da Presidência da República; Ministério das Relações Exteriores. Objetivo estratégico II: Fortalecimento dos instrumentos de interação demo- crática para a promoção dos Direitos Humanos. Ações programáticas: a) Criar o Observatório Nacional dos Direitos Humanos para subsidiar, com dados e informações, o trabalho de mo‑ nitoramento das políticas públicas e de gestão governamen‑ tal e sistematizar a documentação e legislação, nacionais e internacionais, sobre Direitos Humanos. Responsável: Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. b) Estimular e reconhecer pessoas e entidades com des‑ taque na luta pelos Direitos Humanos na sociedade brasileira e internacional, com a concessão de premiação, bolsas e outros incentivos, na forma da legislação aplicável. Responsáveis: Secretaria Especial dos Direitos Huma‑ nos da Presidência da República; Ministério das Relações Exteriores. c) Criar selo nacional “Direitos Humanos”, a ser concedi‑ do às entidades públicas e privadas que comprovem atuação destacada na defesa e promoção dos direitos fundamentais. Responsáveis: Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República; Ministério da Justiça. Diretriz 3: Integração e ampliação dos sistemas de infor- mação em Direitos Humanos e construção de mecanismos de avaliação e monitoramento de sua efetivação. Objetivo estratégico I: Desenvolvimento de mecanismos de controle social das políticas públicas de Direitos Humanos, garantindo o mo- nitoramento e a transparência das ações governamentais. Ações programáticas: a) Instituir e manter sistema nacional de indicadores em Direitos Humanos, de forma articulada com os órgãos públicos e a sociedade civil. Responsável: Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. b) Integrar os sistemas nacionais de informações para elaboração de quadro geral sobre a implementação de po‑ líticas públicas e violações aos Direitos Humanos. Responsável: Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. c) Articular a criação de base de dados com temas rela‑ cionados aos Direitos Humanos. . 54 D IR eI TO S H U M A N O S Responsável: Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República d) Utilizar indicadores em Direitos Humanos para mensu‑ rar demandas, monitorar, avaliar, reformular e propor ações efetivas. Responsáveis: Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República; Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres da Presidência da República; Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República; Ministério da Saúde; Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome; Ministério da Justiça; Ministério das Cidades; Ministério do Meio Ambien‑ te; Ministério da Cultura; Ministério do Turismo; Ministério do Esporte; Ministério do Desenvolvimento Agrário. e) Propor estudos visando a criação de linha de finan‑ ciamento para a implementação de institutos de pesquisa e produção de estatísticas em Direitos Humanos nos Estados. Responsável: Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. Objetivo estratégico II: Monitoramento dos compromissos internacionais assumidos pelo estado brasileiro em matéria de Direitos Humanos. Ações programáticas: a) Elaborar relatório anual sobre a situação dos Direitos Humanos no Brasil, em diálogo participativo com a socie‑ dade civil. Responsáveis: Secretaria Especial dos Direitos Huma‑ nos da Presidência da República; Ministério das Relações Exteriores. b) Elaborar relatórios periódicos para os órgãos de trata‑ dos da ONU, no prazo por eles estabelecidos, com base em fluxo de informações com órgãos do governo federal e com unidades da Federação. Responsáveis: Secretaria Especial dos Direitos Huma‑ nos da Presidência da República; Ministério das Relações Exteriores. c) Elaborar relatório de acompanhamento das relações entre o Brasil e o sistema ONU que contenha, entre outras, as seguintes informações: • Recomendações advindas de relatores especiais do Conselho de Direitos Humanos da ONU. • Recomendações advindas dos comitês de tratados do Mecanismo de Revisão Periódica. Responsáveis: Secretaria Especial dos Direitos Huma‑ nos da Presidência da República; Ministério das Relações Exteriores. d) Definir e institucionalizar fluxo de informações, com responsáveis em cada órgão do governo federal e unidades da Federação, referentes aos relatórios internacionais de Di‑ reitos Humanos e às recomendações dos relatores especiais do Conselho de Direitos Humanos da ONU e dos comitês de tratados. Responsáveis: Secretaria Especial dos Direitos Huma‑ nos da Presidência da República; Ministério das Relações Exteriores. e) Definir e institucionalizar fluxo de informações, com responsáveis em cada órgão do governo federal, referentes aos relatóriosda Comissão Interamericana de Direitos Humanos e às decisões da Corte Interamericana de Direitos Humanos. Responsáveis: Secretaria Especial dos Direitos Huma‑ nos da Presidência da República; Ministério das Relações Exteriores. f) Criar banco de dados público sobre todas as recomen‑ dações dos sistemas ONU e OEA feitas ao Brasil, contendo as medidas adotadas pelos diversos órgãos públicos para seu cumprimento. Responsáveis: Secretaria Especial dos Direitos Huma‑ nos da Presidência da República; Ministério das Relações Exteriores. eIXO ORIeNTADOR II: Desenvolvimento e Direitos Humanos O tema “desenvolvimento” tem sido amplamente de‑ batido por ser um conceito complexo e multidisciplinar. Não existe modelo único e preestabelecido de desenvolvimento, porém, pressupõe-se que ele deva garantir a livre determi‑ nação dos povos, o reconhecimento de soberania sobre seus recursos e riquezas naturais, respeito pleno à sua identidade cultural e a busca de equidade na distribuição das riquezas. Durante muitos anos, o crescimento econômico, medido pela variação anual do Produto Interno Bruto (PIB), foi usado como indicador relevante para medir o avanço de um país. Acreditava-se que, uma vez garantido o aumento de bens e serviços, sua distribuição ocorreria de forma a satisfazer as necessidades de todas as pessoas. Constatou‑se, porém, que, embora importante, o crescimento do PIB não é suficiente para causar, automaticamente, melhoria do bem estar para todas as camadas sociais. Por isso, o conceito de desenvol‑ vimento foi adotado por ser mais abrangente e refletir, de fato, melhorias nas condições de vida dos indivíduos. A teoria predominante de desenvolvimento econômico o define como um processo que faz aumentar as possibili‑ dades de acesso das pessoas a bens e serviços, propiciadas pela expansão da capacidade e do âmbito das atividades econômicas. O desenvolvimento seria a medida qualitativa do progresso da economia de um país, refletindo transições de estágios mais baixos para estágios mais altos, por meio da adoção de novas tecnologias que permitem e favorecem essa transição. Cresce nos últimos anos a assimilação das ideias desenvolvidas por Amartya Sem, que abordam o desenvolvi‑ mento como liberdade e seus resultados centrados no bem estar social e, por conseguinte, nos direitos do ser humano. São essenciais para o desenvolvimento as liberdades e os direitos básicos como alimentação, saúde e educação. As privações das liberdades não são apenas resultantes da es‑ cassez de recursos, mas sim das desigualdades inerentes aos mecanismos de distribuição, da ausência de serviços públicos e de assistência do Estado para a expansão das escolhas in‑ dividuais. Este conceito de desenvolvimento reconhece seu caráter pluralista e a tese de que a expansão das liberdades não representa somente um fim, mas também o meio para seu alcance. Em consequência, a sociedade deve pactuar as políticas sociais e os direitos coletivos de acesso e uso dos recursos. A partir daí, a medição de um índice de desenvol‑ vimento humano veio substituir a medição de aumento do PIB, uma vez que o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) combina a riqueza per capita indicada pelo PIB aos aspectos de educação e expectativa de vida, permitindo, pela primeira vez, uma avaliação de aspectos sociais não mensurados pelos padrões econométricos. No caso do Brasil, por muitos anos o crescimento eco‑ nômico não levou à distribuição justa de renda e riqueza, mantendo-se elevados índices de desigualdade. As ações de Estado voltadas para a conquista da igualdade socioe‑ conômica requerem ainda políticas permanentes, de longa duração, para que se verifique a plena proteção e promoção dos Direitos Humanos. É necessário que o modelo de desen‑ volvimento econômico tenha a preocupação de aperfeiçoar os mecanismos de distribuição de renda e de oportunidades para todos os brasileiros, bem como incorpore os valores de preservação ambiental. Os debates sobre as mudanças climáticas e o aquecimento global, gerados pela preocupa‑ ção com a maneira com que os países vêm explorando os recursos naturais e direcionando o progresso civilizatório, . 55 D IR eI TO S H U M A N O S está na agenda do dia. Esta discussão coloca em questão os investimentos em infraestrutura e modelos de desen‑ volvimento econômico na área rural, baseados, em grande parte, no agronegócio, sem a preocupação com a potencial violação dos direitos de pequenos e médios agricultores e das populações tradicionais. O desenvolvimento pode ser garantido se as pessoas forem protagonistas do processo, pressupondo a garantia de acesso de todos os indivíduos aos direitos econômicos, sociais, culturais e ambientais, e incorporando a preocupação com a preservação e a sustentabilidade como eixos estru‑ turantes de proposta renovada de progresso. Esses direitos têm como foco a distribuição da riqueza, dos bens e serviços. Todo esse debate traz desafios para a conceituação sobre os Direitos Humanos no sentido de incorporar o de‑ senvolvimento como exigência fundamental. A perspectiva dos Direitos Humanos contribui para redimensionar o desen‑ volvimento. Motiva a passar da consideração de problemas individuais a questões de interesse comum, de bem-estar coletivo, o que alude novamente o Estado e o chama à cor‑ responsabilidade social e à solidariedade. Ressaltamos que a noção de desenvolvimento está sendo amadurecida como parte de um debate em curso na sociedade e no governo, incorporando a relação entre os direitos econômicos, sociais, culturais e ambientais, buscan‑ do a garantia do acesso ao trabalho, à saúde, à educação, à alimentação, à vida cultural, à moradia adequada, à previdên‑ cia, à assistência social e a um meio ambiente sustentável. A inclusão do tema Desenvolvimento e Direitos Humanos na 11ª Conferência Nacional reforçou as estratégias governa‑ mentais em sua proposta de desenvolvimento. Assim, este capítulo do PNDH-3 propõe instrumentos de avanço e reforça propostas para políticas públicas de redução das desigualdades sociais concretizadas por meio de ações de transferência de renda, incentivo à economia solidária e ao cooperativismo, à expansão da reforma agrária, ao fomento da aquicultura, da pesca e do extrativismo e da promoção do turismo sustentável. O PNDH-3 inova ao incorporar o meio ambiente saudável e as cidades sustentáveis como Direitos Humanos, propõe a inclusão do item “direitos ambientais” nos relatórios de monitoramento sobre Direitos Humanos e do item “Direitos Humanos” nos relatórios ambientais, assim como fomenta pesquisas de tecnologias socialmente inclusivas. Nos projetos e empreendimentos com grande impacto socioambiental, o PNDH-3 garante a participação efetiva das populações atingidas, assim como prevê ações mitigatórias e compensatórias. Considera fundamental fiscalizar o respei‑ to aos Direitos Humanos nos projetos implementados pelas empresas transnacionais, bem como seus impactos na ma‑ nipulação das políticas de desenvolvimento. Nesse sentido, avalia como importante mensurar o impacto da biotecnologia aplicada aos alimentos, da nanotecnologia, dos poluentes orgânicos persistentes, metais pesados e outros poluentes inorgânicos em relação aos Direitos Humanos. Alcançar o desenvolvimento com Direitos Humanos é ca‑ pacitar as pessoas e as comunidades a exercerem a cidadania, com direitos e responsabilidades. É incorporar, nos projetos, a própria população brasileira, por meio de participação ativa nas decisões que afetam diretamente suas vidas. É assegurar a transparência dos grandes projetos de desenvolvimento econômico e mecanismos de compensação para a garantia dos Direitos Humanos das populações diretamente atingidas. Por fim, este PNDH-3 reforça o papel da equidade no Plano Plurianual, como instrumento de garantia de priori‑ zação orçamentária de programas sociais. Diretriz 4: efetivação de modelo de desenvolvimento sustentável, com inclusãosocial e econômica, ambiental- mente equilibrado e tecnologicamente responsável, cultural e regionalmente diverso, participativo e não discrimina- tório. Objetivo estratégico I: Implementação de políticas públicas de desenvolvi- mento com inclusão social. Ações programáticas: a) Ampliar e fortalecer as políticas de desenvolvimento social e de combate à fome, visando a inclusão e a promoção da cidadania, garantindo a segurança alimentar e nutricional, renda mínima e assistência integral às famílias. Responsável: Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. b) Expandir políticas públicas de geração e transferência de renda para erradicação da extrema pobreza e redução da pobreza. Responsável: Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. c) Apoiar projetos de desenvolvimento sustentável local para redução das desigualdades inter e intrarregionais e o aumento da autonomia e sustentabilidade de espaços sub‑ -regionais. Responsáveis: Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República; Ministério do Desenvolvimento Agrário. d) Avançar na implantação da reforma agrária, como forma de inclusão social e acesso aos direitos básicos, de forma articulada com as políticas de saúde, educação, meio ambiente e fomento à produção alimentar. Responsável: Ministério do Desenvolvimento Agrário. e) Incentivar as políticas públicas de economia solidária, de cooperativismo e associativismo e de fomento a pequenas e micro empresas. Responsáveis: Ministério do Trabalho e Emprego; Minis‑ tério do Desenvolvimento Agrário; Ministério das Cidades; Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. f) Fortalecer políticas públicas de apoio ao extrativismo e ao manejo florestal comunitário ambientalmente susten‑ táveis. Responsáveis: Ministério do Meio Ambiente; Ministério do Desenvolvimento Agrário; Ministério do Desenvolvimen‑ to, Indústria e Comércio Exterior. g) Fomentar o debate sobre a expansão de plantios de monoculturas que geram impacto no meio ambiente e na cultura dos povos e comunidades tradicionais, tais como eu‑ calipto, cana-de-açúcar, soja, e sobre o manejo florestal, a grande pecuária, mineração, turismo e pesca. Responsável: Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. h) Erradicar o trabalho infantil, bem como todas as for‑ mas de violência e exploração sexual de crianças e adolescen‑ tes nas cadeias produtivas, com base em códigos de conduta e no Estatuto da Criança e do Adolescente. Responsáveis: Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República; Ministério do Turismo. i) Garantir que os grandes empreendimentos e projetos de infraestrutura resguardem os direitos dos povos indíge‑ nas e de comunidades quilombolas e tradicionais, confor‑ me previsto na Constituição e nos tratados e convenções internacionais. Responsáveis: Ministério da Justiça; Ministério dos Transportes; Ministério da Integração Nacional; Ministério de Minas e Energia; Secretaria Especial de Políticas de Pro‑ moção da Igualdade Racial da Presidência da República; Mi‑ nistério do Meio Ambiente; Ministério do Desenvolvimento . 56 D IR eI TO S H U M A N O S Social e Combate à Fome; Ministério da Pesca e Aquicultura; Secretaria Especial de Portos da Presidência da República. j) Integrar políticas de geração de emprego e renda e po‑ líticas sociais para o combate à pobreza rural dos agricultores familiares, assentados da reforma agrária, quilombolas, in‑ dígenas, famílias de pescadores e comunidades tradicionais. Responsáveis: Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome; Ministério da Integração Nacional; Minis‑ tério do Desenvolvimento Agrário; Ministério do Trabalho e Emprego; Ministério da Justiça; Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República; Ministério da Cultura; Ministério da Pesca e Aquicultura. k) Integrar políticas sociais e de geração de emprego e renda para o combate à pobreza urbana, em especial de catadores de materiais recicláveis e população em situação de rua. Responsáveis: Ministério do Trabalho e Emprego; Mi‑ nistério do Meio Ambiente; Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome; Ministério das Cidades; Secretaria dos Direitos Humanos da Presidência da República. l) Fortalecer políticas públicas de fomento à aquicultura e à pesca sustentáveis, com foco nos povos e comunidades tradicionais de baixa renda, contribuindo para a segurança alimentar e a inclusão social, mediante a criação e geração de trabalho e renda alternativos e inserção no mercado de trabalho. Responsáveis: Ministério da Pesca e Aquicultura; Minis‑ tério do Trabalho e Emprego; Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. m) Promover o turismo sustentável com geração de tra‑ balho e renda, respeito à cultura local, participação e inclusão dos povos e das comunidades nos benefícios advindos da atividade turística. Responsáveis: Ministério do Turismo; Ministério do De‑ senvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Objetivo estratégico II: Fortalecimento de modelos de agricultura familiar e agroecológica. Ações programáticas: a) Garantir que nos projetos de reforma agrária e agri‑ cultura familiar sejam incentivados os modelos de produção agroecológica e a inserção produtiva nos mercados formais. Responsáveis: Ministério do Desenvolvimento Agrário; Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exte‑ rior. b) Fortalecer a agricultura familiar camponesa e a pesca artesanal, com ampliação do crédito, do seguro, da assis‑ tência técnica, extensão rural e da infraestrutura para co‑ mercialização. Responsáveis: Ministério do Desenvolvimento Agrário; Ministério da Pesca e Aquicultura. c)Garantir pesquisa e programas voltados à agricultu‑ ra familiar e pesca artesanal, com base nos princípios da agroecologia. Responsáveis: Ministério do Desenvolvimento Agrário; Ministério do Meio Ambiente; Ministério da Agricultura, Pe‑ cuária e Abastecimento; Ministério da Pesca e Aquicultura; Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. d) Fortalecer a legislação e a fiscalização para evitar a contaminação dos alimentos e danos à saúde e ao meio am‑ biente causados pelos agrotóxicos. Responsáveis: Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento; Ministério do Meio Ambiente; Ministério da Saúde; Ministério do Desenvolvimento Agrário. e) Promover o debate com as instituições de ensino su‑ perior e a sociedade civil para a implementação de cursos e realização de pesquisas tecnológicas voltados a temática socioambiental, agroecologia e produção orgânica, respei‑ tando as especificidades de cada região. Responsáveis: Ministério da Educação; Ministério do Desenvolvimento Agrário. Objetivo estratégico III: Fomento à pesquisa e à implementação de políticas para o desenvolvimento de tecnologias socialmente inclu- sivas, emancipatórias e ambientalmente sustentáveis. Ações programáticas: a) Adotar tecnologias sociais de baixo custo e fácil apli‑ cabilidade nas políticas e ações públicas para a geração de renda e para a solução de problemas socioambientais e de saúde pública. Responsáveis: Ministério do Trabalho e Emprego; Mi‑ nistério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome; Mi‑ nistério do Meio Ambiente; Ministério do Desenvolvimento Agrário; Ministério da Saúde. b) Garantir a aplicação do princípio da precaução na proteção da agrobiodiversidade e da saúde, realizando pes‑ quisas que avaliem os impactos dos transgênicos no meio ambiente e na saúde. Responsáveis: Ministério da Saúde; Ministério do Meio Ambiente; Ministério de Ciência e Tecnologia. c) Fomentar tecnologias alternativas para substituir o uso de substâncias danosas à saúde e ao meio ambiente, como poluentes orgânicos persistentes, metais pesados e outros poluentes inorgânicos. Responsáveis: Ministério de Ciência e Tecnologia; Mi‑ nistério do Meio Ambiente; Ministério da Saúde; Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento;Ministério do De‑ senvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. d) Fomentar tecnologias de gerenciamento de resíduos sólidos e emissões atmosféricas para minimizar impactos à saúde e ao meio ambiente. Responsáveis: Ministério de Ciência e Tecnologia; Mi‑ nistério do Meio Ambiente; Ministério da Saúde; Ministério das Cidades. e) Desenvolver e divulgar pesquisas públicas para diag‑ nosticar os impactos da biotecnologia e da nanotecnologia em temas de Direitos Humanos. Responsáveis: Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República; Ministério da Saúde; Ministé‑ rio do Meio Ambiente; Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento; Ministério de Ciência e Tecnologia. f) Produzir, sistematizar e divulgar pesquisas econômi‑ cas e metodologias de cálculo de custos socioambientais de projetos de infraestrutura, de energia e de mineração que sirvam como parâmetro para o controle dos impactos de grandes projetos. Responsáveis: Ministério da Ciência e Tecnologia; Mi‑ nistério de Minas e Energia; Ministério do Meio Ambiente; Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da Repú‑ blica; Ministério da Integração Nacional. Objetivo estratégico IV: Garantia do direito a cidades inclusivas e sustentáveis. Ações programáticas: a) Apoiar ações que tenham como princípio o direito a cidades inclusivas e acessíveis como elemento fundamental da implementação de políticas urbanas. . 57 D IR eI TO S H U M A N O S Responsáveis: Ministério das Cidades; Secretaria Espe‑ cial dos Direitos Humanos da Presidência da República; Mi‑ nistério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. b) Fortalecer espaços institucionais democráticos, par‑ ticipativos e de apoio aos Municípios para a implementação de planos diretores que atendam aos preceitos da política urbana estabelecidos no Estatuto da Cidade. Responsável: Ministério das Cidades. c) Fomentar políticas públicas de apoio aos Estados, Distrito Federal e Municípios em ações sustentáveis de ur‑ banização e regularização fundiária dos assentamentos de população de baixa renda, comunidades pesqueiras e de provisão habitacional de interesse social, materializando a função social da propriedade. Responsáveis: Ministério das Cidades; Ministério do Meio Ambiente; Ministério da Pesca e Aquicultura. d) Fortalecer a articulação entre os órgãos de governo e os consórcios municipais para atuar na política de saneamen‑ to ambiental, com participação da sociedade civil. Responsáveis: Ministério das Cidades; Ministério do Meio Ambiente; Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República. e) Fortalecer a política de coleta, reaproveitamento, tria‑ gem, reciclagem e a destinação seletiva de resíduos sólidos e líquidos, com a organização de cooperativas de reciclagem, que beneficiem as famílias dos catadores. Responsáveis: Ministério das Cidades; Ministério do Trabalho e Emprego; Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome; Ministério do Meio Ambiente. f) Fomentar políticas e ações públicas voltadas à mobi‑ lidade urbana sustentável. Responsável: Ministério das Cidades. g) Considerar na elaboração de políticas públicas de de‑ senvolvimento urbano os impactos na saúde pública. Responsáveis: Ministério da Saúde; Ministério das Ci‑ dades. h) Fomentar políticas públicas de apoio às organizações de catadores de materiais recicláveis, visando à disponibiliza‑ ção de áreas e prédios desocupados pertencentes à União, a fim de serem transformados em infraestrutura produtiva para essas organizações. Responsáveis: Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão; Ministério das Cidades; Ministério do Trabalho e Emprego; Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. i) Estimular a produção de alimentos de forma comu‑ nitária, com uso de tecnologias de bases agroecológicas, em espaços urbanos e periurbanos ociosos e fomentar a mobilização comunitária para a implementação de hortas, viveiros, pomares, canteiros de ervas medicinais, criação de pequenos animais, unidades de processamento e beneficia‑ mento agroalimentar, feiras e mercados públicos populares. Responsáveis: Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome; Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Diretriz 5: Valorização da pessoa humana como sujeito central do processo de desenvolvimento. Objetivo estratégico I: Garantia da participação e do controle social nas po- líticas públicas de desenvolvimento com grande impacto socioambiental. Ações programáticas: a) Fortalecer ações que valorizem a pessoa humana como sujeito central do desenvolvimento, enfrentando o quadro atual de injustiça ambiental que atinge principal‑ mente as populações mais pobres. Responsáveis: Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República; Ministério do Meio Ambiente. b) Assegurar participação efetiva da população na ela‑ boração dos instrumentos de gestão territorial e na análise e controle dos processos de licenciamento urbanístico e ambiental de empreendimentos de impacto, especialmen‑ te na definição das ações mitigadoras e compensatórias por impactos sociais e ambientais. Responsáveis: Ministério do Meio Ambiente; Ministério das Cidades. c) Fomentar a elaboração do Zoneamento Ecológico Econômico (ZEE), incorporando o sócio e etnozoneamento. Responsáveis: Ministério das Cidades; Ministério do Meio Ambiente. d) Assegurar a transparência dos projetos realizados, em todas as suas etapas, e dos recursos utilizados nos grandes projetos econômicos, para viabilizar o controle social. Responsáveis: Ministério dos Transportes; Ministério da Integração Nacional; Ministério de Minas e Energia; Se‑ cretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. e) Garantir a exigência de capacitação qualificada e participativa das comunidades afetadas nos projetos bási‑ cos de obras e empreendimentos com impactos sociais e ambientais. Responsáveis: Ministério da Integração Nacional; Mi‑ nistério de Minas e Energia; Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. f) Definir mecanismos para a garantia dos Direitos Hu‑ manos das populações diretamente atingidas e vizinhas aos empreendimentos de impactos sociais e ambientais. Responsável: Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. g) Apoiar a incorporação dos sindicatos de trabalhadores e centrais sindicais nos processos de licenciamento ambien‑ tal de empresas, de forma a garantir o direito à saúde do trabalhador. Responsáveis: Ministério do Meio Ambiente; Ministério do Trabalho e Emprego; Ministério da Saúde. h) Promover e fortalecer ações de proteção às popula‑ ções mais pobres da convivência com áreas contaminadas, resguardando-as contra essa ameaça e assegurando-lhes seus direitos fundamentais. Responsáveis: Ministério do Meio Ambiente; Ministério das Cidades; Ministério do Desenvolvimento Social e Com‑ bate à Fome; Ministério da Saúde. Objetivo estratégico II: Afirmação dos princípios da dignidade humana e da equidade como fundamentos do processo de desenvolvi- mento nacional. Ações programáticas: a) Reforçar o papel do Plano Plurianual como instru‑ mento de consolidação dos Direitos Humanos e de enfren‑ tamento da concentração de renda e riqueza e de promoção da inclusão da população de baixa renda. Responsável: Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. b) Reforçar os critérios da equidade e da prevalência dos Direitos Humanos como prioritários na avaliação da pro‑ gramação orçamentária de ação ou autorização de gastos. Responsável: Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. . 58 D IR eI TO S H U M A N O S c) Instituir código de conduta em Direitos Humanos para ser considerado no âmbito do poder público como critério para a contratação e financiamento de empresas. Responsável: Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. d) Regulamentar a taxação do imposto sobre grandes fortunas previsto na Constituição.Responsáveis: Ministério da Fazenda; Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. e) Ampliar a adesão de empresas ao compromisso de responsabilidade social e Direitos Humanos. Responsáveis: Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República; Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Objetivo estratégico III: Fortalecimento dos direitos econômicos por meio de políticas públicas de defesa da concorrência e de proteção do consumidor. Ações programáticas: a) Garantir o acesso universal a serviços públicos essen‑ ciais de qualidade. Responsáveis: Ministério da Saúde; Ministério da Educa‑ ção; Ministério de Minas e Energia; Ministério do Desenvol‑ vimento Social e Combate à Fome; Ministério das Cidades. b) Fortalecer o sistema brasileiro de defesa da concor‑ rência para coibir condutas anticompetitivas e concentra‑ doras de renda. Responsáveis: Ministério da Justiça; Ministério da Fa‑ zenda. c) Garantir o direito à informação do consumidor, forta‑ lecendo as ações de acompanhamento de mercado, inclusive a rotulagem dos transgênicos. Responsáveis: Ministério da Justiça; Ministério do De‑ senvolvimento, Indústria e Comércio Exterior; Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. d) Fortalecer o combate à fraude e a avaliação da con‑ formidade dos produtos e serviços no mercado. Responsáveis: Ministério da Justiça; Ministério do De‑ senvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Diretriz 6: Promover e proteger os direitos ambientais como Direitos Humanos, incluindo as gerações futuras como sujeitos de direitos. Objetivo estratégico I: Afirmação dos direitos ambientais como Direitos Hu- manos. Ações programáticas: a) Incluir o item Direito Ambiental nos relatórios de mo‑ nitoramento dos Direitos Humanos. Responsáveis: Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República; Ministério do Meio Ambiente. b) Incluir o tema dos Direitos Humanos nos instrumentos e relatórios dos órgãos ambientais. Responsáveis: Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República; Ministério do Meio Ambiente. c) Assegurar a proteção dos direitos ambientais e dos Direitos Humanos no Código Florestal. Responsável: Ministério do Meio Ambiente. d) Implementar e ampliar políticas públicas voltadas para a recuperação de áreas degradadas e áreas de desmatamen‑ to nas zonas urbanas e rurais. Responsáveis: Ministério do Meio Ambiente; Ministério das Cidades. e) Fortalecer ações que estabilizem a concentração de gases de efeito estufa em nível que permita a adaptação natural dos ecossistemas à mudança do clima, controlando a interferência das atividades humanas (antrópicas) no sis‑ tema climático. Responsável: Ministério do Meio Ambiente. f) Garantir o efetivo acesso a informação sobre a degra‑ dação e os riscos ambientais, e ampliar e articular as bases de informações dos entes federados e produzir informativos em linguagem acessível. Responsável: Ministério do Meio Ambiente. g) Integrar os atores envolvidos no combate ao trabalho escravo nas operações correntes de fiscalização ao desma‑ tamento e ao corte ilegal de madeira. Responsáveis: Secretaria Especial dos Direitos Huma‑ nos da Presidência da República; Ministério do Trabalho e Emprego; Ministério do Meio Ambiente. eIXO ORIeNTADOR III: Universalizar direitos em um contexto de desigualdades A Declaração Universal dos Direitos Humanos afirma em seu preâmbulo que o “reconhecimento da dignidade ineren‑ te a todos os membros da família humana e de seus direitos iguais e inalienáveis é o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo”. No entanto, nas vicissitudes ocorridas no cumprimento da Declaração pelos Estados signatários, identificou-se a necessidade de reconhecer as diversidades e diferenças para concretização do princípio da igualdade. No Brasil, ao longo das últimas décadas, os Direitos Humanos passaram a ocupar uma posição de destaque no ordenamento jurídico. O País avançou decisivamente na pro‑ teção e promoção do direito às diferenças. Porém, o peso negativo do passado continua a projetar no presente uma situação de profunda iniquidade social. O acesso aos direitos fundamentais continua enfrentan‑ do barreiras estruturais, resquícios de um processo histórico, até secular, marcado pelo genocídio indígena, pela escravidão e por períodos ditatoriais, práticas que continuam a ecoar em comportamentos, leis e na realidade social. O PNDH-3 assimila os grandes avanços conquistados ao longo destes últimos anos, tanto nas políticas de erradicação da miséria e da fome, quanto na preocupação com a mora‑ dia e saúde, e aponta para a continuidade e ampliação do acesso a tais políticas, fundamentais para garantir o respeito à dignidade humana. Os objetivos estratégicos direcionados à promoção da cidadania plena preconizam a universalidade, indivisibilidade e interdependência dos Direitos Humanos, condições para sua efetivação integral e igualitária. O acesso aos direitos de registro civil, alimentação adequada, terra e moradia, traba‑ lho decente, educação, participação política, cultura, lazer, esporte e saúde, deve considerar a pessoa humana em suas múltiplas dimensões de ator social e sujeito de cidadania. À luz da história dos movimentos sociais e de programas de governo, o PNDH-3 orienta-se pela transversalidade, para que a implementação dos direitos civis e políticos transitem pelas diversas dimensões dos direitos econômicos, sociais, culturais e ambientais. Caso contrário, grupos sociais afeta‑ dos pela pobreza, pelo racismo estrutural e pela discrimina‑ ção dificilmente terão acesso a tais direitos. As ações programáticas formuladas visam enfrentar o desafio de eliminar as desigualdades, levando em conta as dimensões de gênero e raça nas políticas públicas, desde o planejamento até a sua concretização e avaliação. Há, neste sentido, propostas de criação de indicadores que possam mensurar a efetivação progressiva dos direitos. . 59 D IR eI TO S H U M A N O S Às desigualdades soma-se a persistência da discrimina‑ ção, que muitas vezes se manifesta sob a forma de violência contra sujeitos que são histórica e estruturalmente vulne‑ rabilizados. O combate à discriminação mostra-se necessário, mas insuficiente enquanto medida isolada. Os pactos e conven‑ ções que integram o sistema regional e internacional de pro‑ teção dos Direitos Humanos apontam para a necessidade de combinar estas medidas com políticas compensatórias que acelerem a construção da igualdade, como forma ca‑ paz de estimular a inclusão de grupos socialmente vulnerá‑ veis. Além disso, as ações afirmativas constituem medidas especiais e temporárias que buscam remediar um passado discriminatório. No rol de movimentos e grupos sociais que demandam políticas de inclusão social encontram-se crian‑ ças, adolescentes, mulheres, pessoas idosas, lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, pessoas com deficiência, pessoas moradoras de rua, povos indígenas, populações negras e quilombolas, ciganos, ribeirinhos, varzanteiros e pescadores, entre outros. Definem-se, neste capítulo, medidas e políticas que de‑ vem ser efetivadas para reconhecer e proteger os indivíduos como iguais na diferença, ou seja, para valorizar a diversidade presente na população brasileira para estabelecer acesso igualitário aos direitos fundamentais. Trata-se de reforçar os programas de governo e as resoluções pactuadas nas di‑ versas conferências nacionais temáticas, sempre sob o foco dos Direitos Humanos, com a preocupação de assegurar o respeito às diferenças e o combate às desigualdades, para o efetivo acesso aos direitos. Por fim, em respeito à primazia constitucional de prote‑ ção e promoção da infância, do adolescente e da juventude, o capítulo aponta suas diretrizes para o respeito e a garantia das gerações futuras. Como sujeitos de direitos, as crianças, os adolescentes e os jovens são frequentemente subestima‑ dasem sua participação política e em sua capacidade deci‑ sória. Preconiza-se o dever de assegurar-lhes, desde cedo, o direito de opinião e participação. Marcadas pelas diferenças e por sua fragilidade tempo‑ ral, as crianças, os adolescentes e os jovens estão sujeitos a discriminações e violências. As ações programáticas promo‑ vem a garantia de espaços e investimentos que assegurem proteção contra qualquer forma de violência e discriminação, bem como a promoção da articulação entre família, socie‑ dade e Estado para fortalecer a rede social de proteção que garante a efetividade de seus direitos. Diretriz 7: Garantia dos Direitos Humanos de forma universal, indivisível e interdependente, assegurando a cidadania plena. Objetivo estratégico I: Universalização do registro civil de nascimento e am- pliação do acesso à documentação básica. Ações programáticas: a) Ampliar e reestruturar a rede de atendimento para a emissão do registro civil de nascimento visando a sua uni‑ versalização. • Interligar maternidades e unidades de saúde aos car‑ tórios, por meio de sistema manual ou informatizado, para emissão de registro civil de nascimento logo após o parto, garantindo ao recém-nascido a certidão de nascimento antes da alta médica. • Fortalecer a Declaração de Nascido Vivo (DNV), emitida pelo Sistema Único de Saúde, como mecanismo de acesso ao registro civil de nascimento, contemplando a diversidade na emissão pelos estabelecimentos de saúde e pelas parteiras. • Realizar orientação sobre a importância do registro civil de nascimento para a cidadania por meio da rede de atendimento (saúde, educação e assistência social) e pelo sistema de Justiça e de segurança pública. • Aperfeiçoar as normas e o serviço público notarial e de registro, em articulação com o Conselho Nacional de Justiça, para garantia da gratuidade e da cobertura do serviço de registro civil em âmbito nacional. Responsáveis: Ministério da Saúde; Ministério do De‑ senvolvimento Social e Combate à Fome; Ministério da Pre‑ vidência Social; Ministério da Justiça; Ministério do Planeja‑ mento, Orçamento e Gestão; Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. b) Promover a mobilização nacional com intuito de re‑ duzir o número de pessoas sem registro civil de nascimento e documentação básica. • Instituir comitês gestores estaduais, distrital e muni‑ cipais com o objetivo de articular as instituições públicas e as entidades da sociedade civil para a implantação de ações que visem à ampliação do acesso à documentação básica. • Realizar campanhas para orientação e conscientização da população e dos agentes responsáveis pela articulação e pela garantia do acesso aos serviços de emissão de registro civil de nascimento e de documentação básica. • Realizar mutirões para emissão de registro civil de nascimento e documentação básica, com foco nas regiões de difícil acesso e no atendimento às populações específicas como os povos indígenas, quilombolas, ciganos, pessoas em situação de rua, institucionalizadas e às trabalhadoras rurais. Responsáveis: Ministério da Saúde; Ministério do De‑ senvolvimento Social e Combate à Fome; Ministério da Defe‑ sa; Ministério da Fazenda; Ministério do Trabalho e Emprego; Ministério da Justiça; Secretaria Especial dos Direitos Huma‑ nos da Presidência da República. c) Criar bases normativas e gerenciais para garantia da universalização do acesso ao registro civil de nascimento e à documentação básica. • Implantar sistema nacional de registro civil para inter‑ ligação das informações de estimativas de nascimentos, de nascidos vivos e do registro civil, a fim de viabilizar a busca ativa dos nascidos não registrados e aperfeiçoar os indica‑ dores para subsidiar políticas públicas. • Desenvolver estudo e revisão da legislação para garan‑ tir o acesso do cidadão ao registro civil de nascimento em todo o território nacional. • Realizar estudo de sustentabilidade do serviço notarial e de registro no País. • Desenvolver a padronização do registro civil (certi‑ dão de nascimento, de casamento e de óbito) em território nacional. • Garantir a emissão gratuita de Registro Geral e Cadas‑ tro de Pessoa Física aos reconhecidamente pobres. • Desenvolver estudo sobre a política nacional de do‑ cumentação civil básica. Responsáveis: Ministério da Saúde; Ministério do De‑ senvolvimento Social e Combate à Fome; Ministério do Pla‑ nejamento, Orçamento e Gestão; Ministério da Fazenda; Ministério da Justiça; Ministério do Trabalho e Emprego; Ministério da Previdência Social; Secretaria Especial dos Di‑ reitos Humanos da Presidência da República. d) Incluir no questionário do censo demográfico per‑ guntas para identificar a ausência de documentos civis na população. Responsável: Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. . 60 D IR eI TO S H U M A N O S Objetivo estratégico II: Acesso à alimentação adequada por meio de políticas estruturantes. Ações programáticas: a) Ampliar o acesso aos alimentos por meio de progra‑ mas e ações de geração e transferência de renda, com ênfase na participação das mulheres como potenciais beneficiárias. Responsáveis: Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome; Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres da Presidência da República. b) Vincular programas de transferência de renda à ga‑ rantia da segurança alimentar da criança, por meio do acom‑ panhamento da saúde e nutrição e do estímulo de hábitos alimentares saudáveis, com o objetivo de erradicar a des‑ nutrição infantil. Responsáveis: Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome; Ministério da Educação; Ministério da Saúde. c) Fortalecer a agricultura familiar e camponesa no de‑ senvolvimento de ações específicas que promovam a geração de renda no campo e o aumento da produção de alimentos agroecológicos para o autoconsumo e para o mercado local. Responsáveis: Ministério do Desenvolvimento Agrário; Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. d) Ampliar o abastecimento alimentar, com maior au‑ tonomia e fortalecimento da economia local, associado a programas de informação, de educação alimentar, de capa‑ citação, de geração de ocupações produtivas, de agricultura familiar camponesa e de agricultura urbana. Responsáveis: Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome; Ministério da Agricultura, Pecuária e Abas‑ tecimento; Ministério do Desenvolvimento Agrário. e) Promover a implantação de equipamentos públicos de segurança alimentar e nutricional, com vistas a ampliar o acesso à alimentação saudável de baixo custo, valorizar as culturas alimentares regionais, estimular o aproveitamento integral dos alimentos, evitar o desperdício e contribuir para a recuperação social e de saúde da sociedade. Responsável: Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. f) Garantir que os hábitos e contextos regionais sejam incorporados nos modelos de segurança alimentar como fatores da produção sustentável de alimentos. Responsável: Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. g) Realizar pesquisas científicas que promovam ganhos de produtividade na agricultura familiar e assegurar estoques reguladores. Responsáveis: Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome; Ministério do Desenvolvimento Agrário; Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Objetivo estratégico III: Garantia do acesso à terra e à moradia para a população de baixa renda e grupos sociais vulnerabilizados. Ações programáticas: a) Fortalecer a reforma agrária com prioridade à imple‑ mentação e recuperação de assentamentos, à regularização do crédito fundiário e à assistência técnica aos assentados, atualização dos índices Grau de Utilização da Terra (GUT) e Grau de Eficiência na Exploração (GEE), conforme padrões atuais e regulamentação da desapropriação de áreas pelo descumprimento da função social plena. Responsável: Ministério do Desenvolvimento Agrário;Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. b) Integrar as ações de mapeamento das terras públicas da União. Responsável: Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. c) Estimular o saneamento dos serviços notariais de registros imobiliários, possibilitando o bloqueio ou o can‑ celamento administrativo dos títulos das terras e registros irregulares. Responsáveis: Ministério da Justiça; Ministério do De‑ senvolvimento Agrário. d) Garantir demarcação, homologação, regularização e desintrusão das terras indígenas, em harmonia com os projetos de futuro de cada povo indígena, assegurando seu etnodesenvolvimento e sua autonomia produtiva. Responsável: Ministério da Justiça. e) Assegurar às comunidades quilombolas a posse dos seus territórios, acelerando a identificação, o reconhecimen‑ to, a demarcação e a titulação desses territórios, respeitando e preservando os sítios de valor simbólico e histórico. Responsáveis: Secretaria Especial de Políticas de Pro‑ moção da Igualdade Racial da Presidência da República; Mi‑ nistério da Cultura; Ministério do Desenvolvimento Agrário. f) Garantir o acesso a terra às populações ribeirinhas, varzanteiras e pescadoras, assegurando acesso aos recursos naturais que tradicionalmente utilizam para sua reprodução física, cultural e econômica. Responsáveis: Ministério do Desenvolvimento Agrário; Ministério do Meio Ambiente. g) Garantir que nos programas habitacionais do governo sejam priorizadas as populações de baixa renda, a população em situação de rua e grupos sociais em situação de vulnera‑ bilidade no espaço urbano e rural, considerando os princípios da moradia digna, do desenho universal e os critérios de acessibilidade nos projetos. Responsáveis: Ministério das Cidades; Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. h) Promover a destinação das glebas e edifícios vazios ou subutilizados pertencentes à União, para a população de baixa renda, reduzindo o déficit habitacional. Responsáveis: Ministério das Cidades; Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. i) Estabelecer que a garantia da qualidade de abrigos e albergues, bem como seu caráter inclusivo e de resgate da cidadania à população em situação de rua, estejam entre os critérios de concessão de recursos para novas construções e manutenção dos existentes. Responsáveis: Ministério das Cidades; Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. j) Apoiar o monitoramento de políticas de habitação de interesse social pelos conselhos municipais de habitação, ga‑ rantindo às cooperativas e associações habitacionais acesso às informações. Responsável: Ministério das Cidades. k) Garantir as condições para a realização de acampa‑ mentos ciganos em todo o território nacional, visando a pre‑ servação de suas tradições, práticas e patrimônio cultural. Responsáveis: Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República; Ministério das Cidades. Objetivo estratégico IV: Ampliação do acesso universal a sistema de saúde de qualidade. Ações programáticas: a) Expandir e consolidar programas de serviços básicos de saúde e de atendimento domiciliar para a população de baixa renda, com enfoque na prevenção e diagnóstico pré‑ . 61 D IR eI TO S H U M A N O S vio de doenças e deficiências, com apoio diferenciado às pessoas idosas, indígenas, negros e comunidades quilom‑ bolas, pessoas com deficiência, pessoas em situação de rua, lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, crianças e adolescentes, mulheres, pescadores artesanais e população de baixa renda. Responsáveis: Ministério da Saúde; Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República; Secretaria Especial de Políticas para as Mu‑ lheres da Presidência da República; Ministério da Pesca e Aquicultura. b) Criar programas de pesquisa e divulgação sobre tra‑ tamentos alternativos à medicina tradicional no sistema de saúde. Responsável: Ministério da Saúde. c) Reformular o marco regulatório dos planos de saúde, de modo a diminuir os custos para a pessoa idosa e fortalecer o pacto intergeracional, estimulando a adoção de medidas de capitalização para gastos futuros pelos planos de saúde. Responsável: Ministério da Saúde. d) Reconhecer as parteiras como agentes comunitárias de saúde. Responsáveis: Ministério da Saúde; Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres da Presidência da República. e) Aperfeiçoar o programa de saúde para adolescentes, especificamente quanto à saúde de gênero, à educação se‑ xual e reprodutiva e à saúde mental. Responsáveis: Ministério da Saúde; Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres da Presidência da República; Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. f) Criar campanhas e material técnico, instrucional e educativo sobre planejamento reprodutivo que respeite os direitos sexuais e reprodutivos, contemplando a elaboração de materiais específicos para a população jovem e adoles‑ cente e para pessoas com deficiência. Responsáveis: Ministério da Saúde; Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres da Presidência da República; Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. g) Estimular programas de atenção integral à saúde das mulheres, considerando suas especificidades étnico-raciais, geracionais, regionais, de orientação sexual, de pessoa com deficiência, priorizando as moradoras do campo, da floresta e em situação de rua. Responsáveis: Ministério da Saúde; Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres da Presidência da República; Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República; Ministério do Desenvol‑ vimento Social e Combate à Fome. h) Ampliar e disseminar políticas de saúde pré e neo‑ natal, com inclusão de campanhas educacionais de esclare‑ cimento, visando à prevenção do surgimento ou do agrava‑ mento de deficiências. Responsáveis: Ministério da Saúde; Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres da Presidência da República; Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. i) Expandir a assistência pré-natal e pós-natal por meio de programas de visitas domiciliares para acompanhamento das crianças na primeira infância. Responsável: Ministério da Saúde. j) Apoiar e financiar a realização de pesquisas e interven‑ ções sobre a mortalidade materna, contemplando o recorte étnico-racial e regional. Responsáveis: Ministério da Saúde; Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres da Presidência da República. k) Assegurar o acesso a laqueaduras e vasectomias ou reversão desses procedimentos no sistema público de saú‑ de, com garantia de acesso a informações sobre as escolhas individuais. Responsáveis: Ministério da Saúde; Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres da Presidência da República. l) Ampliar a oferta de medicamentos de uso contínuo, especiais e excepcionais, para a pessoa idosa. Responsável: Ministério da Saúde. m) Realizar campanhas de diagnóstico precoce e trata‑ mento adequado às pessoas que vivem com HIV/AIDS para evitar o estágio grave da doença e prevenir sua expansão e disseminação. Responsável: Ministério da Saúde. n) Proporcionar às pessoas que vivem com HIV/AIDS pro‑ gramas de atenção no âmbito da saúde sexual e reprodutiva. Responsáveis: Ministério da Saúde; Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres da Presidência da República. o) Capacitar os agentes comunitários de saúde que reali‑ zam a triagem e a captação nas hemorredes para praticarem abordagens sem preconceito e sem discriminação. Responsáveis: Ministério da Saúde; Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. p) Garantir o acompanhamento multiprofissional a pes‑ soas transexuais que fazem parte do processo transexualiza‑ dor no Sistema Único de Saúde e de suas famílias. Responsáveis: Ministério da Saúde; Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. q) Apoiaro acesso a programas de saúde preventiva e de proteção à saúde para profissionais do sexo. Responsáveis: Ministério da Saúde; Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres da Presidência da República. r) Apoiar a implementação de espaços essenciais para higiene pessoal e centros de referência para a população em situação de rua. Responsáveis: Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República; Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. s) Investir na política de reforma psiquiátrica fomentan‑ do programas de tratamentos substitutivos à internação, que garantam às pessoas com transtorno mental a possibilidade de escolha autônoma de tratamento, com convivência fa‑ miliar e acesso aos recursos psiquiátricos e farmacológicos. Responsáveis: Ministério da Saúde; Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República; Minis‑ tério da Cultura. t) Implementar medidas destinadas a desburocratizar os serviços do Instituto Nacional de Seguro Social para a concessão de aposentadorias e benefícios. Responsável: Ministério da Previdência Social. u) Estimular a incorporação do trabalhador urbano e rural ao regime geral da previdência social. Responsável: Ministério da Previdência Social. v) Assegurar a inserção social das pessoas atingidas pela hanseníase isoladas e internadas em hospitais-colônias. Responsáveis: Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República; Ministério da Saúde. w) Reconhecer, pelo Estado brasileiro, as violações de direitos às pessoas atingidas pela hanseníase no período da internação e do isolamento compulsórios, apoiando inicia‑ tivas para agilizar as reparações com a concessão de pensão especial prevista na Lei nº 11.520/2007. Responsável: Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. x) Proporcionar as condições necessárias para conclusão do trabalho da Comissão Interministerial de Avaliação para análise dos requerimentos de pensão especial das pessoas . 62 D IR eI TO S H U M A N O S atingidas pela hanseníase, que foram internadas e isoladas compulsoriamente em hospitais-colônia até 31 de dezembro de 1986. Responsável: Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. Objetivo estratégico V: Acesso à educação de qualidade e garantia de perma- nência na escola. Ações programáticas: a) Ampliar o acesso a educação básica, a permanência na escola e a universalização do ensino no atendimento à educação infantil. Responsável: Ministério da Educação. b) Assegurar a qualidade do ensino formal público com seu monitoramento contínuo e atualização curricular. Responsáveis: Ministério da Educação; Secretaria Es‑ pecial dos Direitos Humanos da Presidência da República. c) Desenvolver programas para a reestruturação das es‑ colas como polos de integração de políticas educacionais, culturais e de esporte e lazer. Responsáveis: Ministério da Educação; Ministério da Cultura; Ministério do Esporte. d) Apoiar projetos e experiências de integração da escola com a comunidade que utilizem sistema de alternância. Responsável: Ministério da Educação. e) Adequar o currículo escolar, inserindo conteúdos que valorizem as diversidades, as práticas artísticas, a necessi‑ dade de alimentação adequada e saudável e as atividades físicas e esportivas. Responsáveis: Ministério da Educação; Ministério da Cultura; Ministério do Esporte; Ministério da Saúde. f) Integrar os programas de alfabetização de jovens e adultos aos programas de qualificação profissional e educa‑ ção cidadã, apoiando e incentivando a utilização de meto‑ dologias adequadas às realidades dos povos e comunidades tradicionais. Responsáveis: Ministério da Educação; Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome; Ministério do Trabalho e Emprego; Ministério da Pesca e Aquicultura. g) Estimular e financiar programas de extensão universi‑ tária como forma de integrar o estudante à realidade social. Responsável: Ministério da Educação. h) Fomentar as ações afirmativas para o ingresso das po‑ pulações negra, indígena e de baixa renda no ensino superior. Responsáveis: Ministério da Educação; Secretaria Espe‑ cial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presi‑ dência da República; Ministério da Justiça. i) Ampliar o ensino superior público de qualidade por meio da criação permanente de universidades federais, cur‑ sos e vagas para docentes e discentes. Responsável: Ministério da Educação. j) Fortalecer as iniciativas de educação popular por meio da valorização da arte e da cultura, apoiando a realização de festivais nas comunidades tradicionais e valorizando as diversas expressões artísticas nas escolas e nas comunidades. Responsáveis: Ministério da Educação; Ministério da Cultura; Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Pre‑ sidência da República. k) Ampliar o acesso a programas de inclusão digital para populações de baixa renda em espaços públicos, especial‑ mente escolas, bibliotecas e centros comunitários. Responsáveis: Ministério da Educação; Ministério da Cultura; Ministério da Ciência e Tecnologia; Ministério da Pesca e Aquicultura. l) Fortalecer programas de educação no campo e nas comunidades pesqueiras que estimulem a permanência dos estudantes na comunidade e que sejam adequados às res‑ pectivas culturas e identidades. Responsáveis: Ministério da Educação; Ministério do Desenvolvimento Agrário; Ministério da Pesca e Aquicultura. Objetivo estratégico VI: Garantia do trabalho decente, adequadamente remu- nerado, exercido em condições de equidade e segurança. Ações programáticas: a) Apoiar a agenda nacional de trabalho decente por meio do fortalecimento do seu comitê executivo e da efeti‑ vação de suas ações. Responsável: Ministério do Trabalho e Emprego. b) Fortalecer programas de geração de emprego, am‑ pliando progressivamente o nível de ocupação e priorizando a população de baixa renda e os Estados com elevados índices de emigração. Responsável: Ministério do Trabalho e Emprego. c) Ampliar programas de economia solidária, mediante políticas integradas, como alternativa de geração de traba‑ lho e renda, e de inclusão social, priorizando os jovens das famílias beneficiárias do Programa Bolsa Família. Responsáveis: Ministério do Trabalho e Emprego; Minis‑ tério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. d) Criar programas de formação, qualificação e inserção profissional e de geração de emprego e renda para jovens, população em situação de rua e população de baixa renda. Responsáveis: Ministério do Trabalho e Emprego; Mi‑ nistério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome; Mi‑ nistério da Educação. e) Integrar as ações de qualificação profissional às ativi‑ dades produtivas executadas com recursos públicos, como forma de garantir a inserção no mercado de trabalho. Responsáveis: Ministério do Trabalho e Emprego; Minis‑ tério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. f) Criar programas de formação e qualificação profis‑ sional para pescadores artesanais, industriais e aquicultores familiares. Responsáveis: Ministério do Trabalho e Emprego; Mi‑ nistério da Pesca e Aquicultura. g) Combater as desigualdades salariais baseadas em di‑ ferenças de gênero, raça, etnia e das pessoas com deficiência. Responsáveis: Ministério do Trabalho e Emprego; Se‑ cretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. h) Acompanhar a implementação do Programa Nacional de Ações Afirmativas, instituído pelo Decreto nº 4.228/2002, no âmbito da administração pública federal, direta e indireta, com vistas à realização de metas percentuais da ocupação de cargos comissionados pelas mulheres, população negra e pessoas com deficiência. Responsável: Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. i) Realizar campanhas envolvendo a sociedade civil or‑ ganizada sobre paternidade responsável, bem como ampliar a licença-paternidade, como forma de contribuir para a cor‑ responsabilidade e para o combateao preconceito quanto à inserção das mulheres no mercado de trabalho. Responsáveis: Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres da Presidência da República; Ministério do Tra‑ balho e Emprego. j) Elaborar diagnósticos com base em ações judiciais que envolvam atos de assédio moral, sexual e psicológico, com apuração de denúncias de desrespeito aos direitos das . 63 D IR eI TO S H U M A N O S trabalhadoras e trabalhadores, visando orientar ações de combate à discriminação e abuso nas relações de trabalho. Responsáveis: Ministério do Trabalho e Emprego; Secre‑ taria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República; Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres da Presidência da República; Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. k) Garantir a igualdade de direitos das trabalhadoras e trabalhadores domésticos com os dos demais trabalhadores. Responsáveis: Ministério do Trabalho e Emprego; Secre‑ taria Especial de Políticas para as Mulheres da Presidência da República; Ministério da Previdência Social. l) Promover incentivos a empresas para que empreguem os egressos do sistema penitenciário. Responsáveis: Ministério da Fazenda; Ministério do Tra‑ balho e Emprego; Ministério da Justiça. m) Criar cadastro nacional e relatório periódico de em‑ pregabilidade de egressos do sistema penitenciário. Responsável: Ministério da Justiça. n) Garantir os direitos trabalhistas e previdenciários de profissionais do sexo por meio da regulamentação de sua profissão. Responsáveis: Ministério do Trabalho e Emprego; Secre‑ taria Especial de Políticas para as Mulheres da Presidência da República. Objetivo estratégico VII: Combate e prevenção ao trabalho escravo. Ações programáticas: a) Promover a efetivação do Plano Nacional para Erra‑ dicação do Trabalho Escravo. Responsáveis: Ministério do Trabalho e Emprego; Se‑ cretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. b) Apoiar a coordenação e implementação de planos estaduais, distrital e municipais para erradicação do trabalho escravo. Responsável: Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. c) Monitorar e articular o trabalho das comissões esta‑ duais, distrital e municipais para a erradicação do trabalho escravo. Responsáveis: Ministério do Trabalho e Emprego; Se‑ cretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. d) Apoiar a alteração da Constituição para prever a ex‑ propriação dos imóveis rurais e urbanos nos quais forem encontrados trabalhadores reduzidos à condição análoga a de escravos. Responsáveis: Ministério do Trabalho e Emprego; Secre‑ taria de Relações Institucionais da Presidência da República; Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. e) Identificar periodicamente as atividades produtivas em que há ocorrência de trabalho escravo adulto e infantil. Responsáveis: Ministério do Trabalho e Emprego; Se‑ cretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. f) Propor marco legal e ações repressivas para erradicar a intermediação ilegal de mão de obra. Responsáveis: Ministério do Trabalho e Emprego; Se‑ cretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República; Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. g) Promover a destinação de recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) para capacitação técnica e profissionalizante de trabalhadores rurais e de povos e comunidades tradicionais, como medida preventiva ao trabalho escravo, assim como para implementação de po‑ lítica de reinserção social dos libertados da condição de trabalho escravo. Responsáveis: Ministério do Trabalho e Emprego; Se‑ cretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. h) Atualizar e divulgar semestralmente o cadastro de empregadores que utilizaram mão-de-obra escrava. Responsáveis: Ministério do Trabalho e Emprego; Se‑ cretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. Objetivo estratégico VIII: Promoção do direito à cultura, lazer e esporte como elementos formadores de cidadania. Ações programáticas: a) Ampliar programas de cultura que tenham por fi‑ nalidade planejar e implementar políticas públicas para a proteção e promoção da diversidade cultural brasileira, em formatos acessíveis. Responsáveis: Ministério da Cultura; Ministério do Es‑ porte. b) Elaborar programas e ações de cultura que conside‑ rem os formatos acessíveis, as demandas e as características específicas das diferentes faixas etárias e dos grupos sociais. Responsável: Ministério da Cultura. c) Fomentar políticas públicas de esporte e lazer, consi‑ derando as diversidades locais, de forma a atender a todas as faixas etárias e aos grupos sociais. Responsável: Ministério do Esporte. d) Elaborar inventário das línguas faladas no Brasil. Responsável: Ministério da Cultura. e) Ampliar e desconcentrar os polos culturais e pontos de cultura para garantir o acesso das populações de regiões periféricas e de baixa renda. Responsável: Ministério da Cultura. f) Fomentar políticas públicas de formação em esporte e lazer, com foco na intersetorialidade, na ação comunitária na intergeracionalidade e na diversidade cultural. Responsável: Ministério do Esporte. g) Ampliar o desenvolvimento de programas de produ‑ ção audiovisual, musical e artesanal dos povos indígenas. Responsáveis: Ministério da Cultura; Ministério da Jus‑ tiça. h) Assegurar o direito das pessoas com deficiência e em sofrimento mental de participarem da vida cultural em igualdade de oportunidade com as demais, e de desenvolver e utilizar o seu potencial criativo, artístico e intelectual. Responsáveis: Ministério do Esporte; Ministério da Cul‑ tura; Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. i) Fortalecer e ampliar programas que contemplem par‑ ticipação dos idosos nas atividades de esporte e lazer. Responsáveis: Ministério do Esporte; Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. j) Potencializar ações de incentivo ao turismo para pes‑ soas idosas. Responsáveis: Ministério do Turismo; Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. Objetivo estratégico IX: Garantia da participação igualitária e acessível na vida política. . 64 D IR eI TO S H U M A N O S Ações programáticas: a) Apoiar campanhas para promover a ampla divulgação do direito ao voto e participação política de homens e mu‑ lheres, por meio de campanhas informativas que garantam a escolha livre e consciente. Responsáveis: Ministério da Justiça; Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres da Presidência da República. b) Apoiar o combate ao crime de captação ilícita de su‑ frágio, inclusive com campanhas de esclarecimento e cons‑ cientização dos eleitores. Responsável: Ministério da Justiça. c) Apoiar os projetos legislativos para o financiamento público de campanhas eleitorais. Responsável: Ministério da Justiça. d) Garantir acesso irrestrito às zonas eleitorais por meio de transporte público e acessível e apoiar a criação de zonas eleitorais em áreas de difícil acesso. Responsáveis: Ministério da Justiça; Ministério das Ci‑ dades. e) Promover junto aos povos indígenas ações de educa‑ ção e capacitação sobre o sistema político brasileiro. Responsável: Ministério da Justiça. f) Apoiar ações de formação política das mulheres em sua diversidade étnico-racial, estimulando candidaturas e votos de mulheres em todos os níveis. Responsável: Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres da Presidência da República. g) Garantir e estimular a plena participação das pesso‑ as com deficiência no ato do sufrágio, seja como eleitor ou candidato, assegurando os mecanismos de acessibilidade necessários, inclusive a modalidade do voto assistido. Responsável: Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. Diretriz 8: Promoção dos direitos de crianças