Prévia do material em texto
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA A TENTATIVA DE SUICÍDIO E O SERIDÓ POTIGUAR: UM ESTUDO À LUZ DA FENOMENOLOGIA HERMENÊUTICA HEIDEGGERIANA Ianny Felinto Medeiros de Azevêdo Natal-RN 2020 i IANNY FELINTO MEDEIROS DE AZEVÊDO A TENTATIVA DE SUICÍDIO E O SERIDÓ POTIGUAR: UM ESTUDO À LUZ DA FENOMENOLOGIA HERMENÊUTICA HEIDEGGERIANA Tese elaborada sob a orientação da Prof.ª Drª. Elza Maria do Socorro Dutra e apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte como requisito parcial à obtenção do Título de Doutor em Psicologia. Natal-RN 2020 ii Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN Sistema de Bibliotecas - SISBI Catalogação de Publicação na Fonte. UFRN - Biblioteca Setorial do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes - CCHLA Azevedo, Ianny Felinto Medeiros de. A tentativa de suicídio e o Seridó potiguar: um estudo à luz da fenomenologia hermenêutica heideggeriana / Ianny Felinto Medeiros de Azevedo. - Natal, 2020. 242f.: il. color. Tese (doutorado) - Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes, Programa de Pós-Graduação em Psicologia, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, 2020. Orientadora: Profa. Dra. Elza Maria do Socorro Dutra. 1. Tentativa de suicídio - Tese. 2. Fenomenologia Hermenêutica Heideggeriana - Tese. 3. Seridó Norte-rio- grandense - Tese. 4. Pesquisa Fenomenológica - Tese. I. Dutra, Elza Maria do Socorro. II. Título. Elaborado por Heverton Thiago Luiz da Silva - CRB-15/710 iii Esta vida é uma estranha hospedaria, De onde se parte quase sempre às tontas, Pois nunca as nossas malas estão prontas, E a nossa conta nunca está em dia. Mario Quintana https://www.pensador.com/autor/mario_quintana/ iv Agradecimentos A Deus pelo dom da vida, por me ensinar a amar, por ser sustento e fortaleza. Aos meus pais, Edinaldo e Maria, pela disposição em amar, cuidar e orientar. Obrigada pelo amor incondicional. A minha irmã, Euclenes, pela cumplicidade em todas as horas, pela escuta atenta e pelos inúmeros conselhos. Ao meu esposo, Saulo, meu amor, meu amigo, meu parceiro. Sua presença me dá a força e a serenidade que eu preciso para alçar os meus voos. A minha filha, Maria Isabel, por despertar sempre o melhor em mim. Por me ensinar o real sentido do amor: a entrega total de si. À Comunidade Católica Shalom, por ser apoio e família em todos os momentos. A minha orientadora, professora Elza Dutra, por acreditar em mim desde o início do doutorado. Obrigada por acolher essa parceria, pelos inúmeros ensinamentos acadêmicos e para a vida. Nenhuma palavra é suficiente para expressar a minha admiração e gratidão por tudo o que aprendi. Aos professores e colegas do GESDH, Grupo de Estudos Subjetividade e Desenvolvimento Humano, obrigada pela troca de ideias e afetos. Às professoras Drª Symone Melo e Drª Ana Andréia, pelo carinho que me acompanha desde o início da minha formação. À professora Drª Ana Karina, pela disponibilidade em tantos momentos e por ser inspiração nessa caminhada. À banca, pelas contribuições e dedicação a esse estudo. A todos os colaboradores do estudo, obrigada pela solicitude, disponibilidade e interesse. À Universidade Federal do Rio Grande do Norte, especialmente ao Programa de Pós-Graduação em Psicologia (PPGPsi), lugar em que trilhei minha trajetória enquanto aluna de pós-graduação. v Sumário Lista de Figuras ...................................................................................................................... vii Lista de Tabelas ..................................................................................................................... viii RESUMO .................................................................................................................................. ix ABSTRACT .............................................................................................................................. x 1. Introdução ........................................................................................................................... 10 1.1. Justificativa .................................................................................................................... 15 1.2. Objetivos ........................................................................................................................ 18 2. Capítulo I – Os sentidos do suicídio ao longo da história e seus aspectos epidemiológicos .................................................................................................................................................. 21 2.1. A história do suicídio contada a partir de cada época ................................................... 22 2.2. Alguns apontamentos sobre os aspectos epidemiológicos do suicídio.......................... 28 3. Capítulo II – Uma visita ao sertão do Seridó: sua história, cultura e desafios ............. 35 3.1. Caracterização da Região do Seridó .............................................................................. 36 3.1.1. Aspectos geográficos e naturais da região .............................................................. 36 3.1.2. O homem e o sertão: processo de formação histórica e econômica da região do Seridó ................................................................................................................................ 40 3.2. O Seridó e o fenômeno do suicídio ............................................................................... 51 4. Capítulo III – Compreendendo o ser à luz da Fenomenologia Hermenêutica Heideggeriana ......................................................................................................................... 57 4.1. A ontologia heideggeriana como caminho para a compreensão do suicídio. ................ 58 vi 5. Capítulo IV – Caminhando através dos passos metodológicos ...................................... 86 5.1 Pesquisa qualitativa e o método fenomenológico........................................................... 87 5.2. Procedimentos metodológicos ....................................................................................... 92 5.2.1. Local da pesquisa.................................................................................................... 92 5.2.2. Os participantes da pesquisa ................................................................................... 93 5.2.3. Aspectos éticos ....................................................................................................... 94 5.2.4. As entrevistas narrativas ......................................................................................... 94 5.2.5. O diário de afetações .............................................................................................. 96 5.2.6. As interpretações das narrativas ............................................................................. 96 6 Capítulo V – A experiência a partir de quem a vivenciou: interpretação das narrativas .................................................................................................................................................. 99 6.1. As narrativas de Maria ................................................................................................. 106 6.2. As narrativas de Amélia .............................................................................................. 149 6.3. As narrativas de José ................................................................................................... 165 6.4. As narrativas de Francisco ...........................................................................................179 6.5. As narrativas de Teresa ............................................................................................... 200 7. Considerações ................................................................................................................... 214 Referências ............................................................................................................................ 221 Apêndice A ............................................................................................................................ 232 Apêndice B ............................................................................................................................ 240 vii Lista de Figuras Figura 1. Coeficientes de mortalidade por suicídio (por 100.000 habitantes). ......................... 29 Figura 2. Mapa do Estado do Rio Grande do Norte ................................................................. 38 Figura 3. Vegetação seridoense. ............................................................................................... 39 Figura 4. O nascimento de Caicó. ............................................................................................ 48 Figura 5. Foto histórica da Festa de Sant’Ana. ........................................................................ 49 Figura 6. Festa de Sant’Ana 2007 ............................................................................................ 50 Figura 7. Coeficiente de mortalidade por suicídio no Seridó-RN: número de suicídio por 100 mil habitantes (2006 a 2016). ................................................................................................... 54 Figura 8. Número absoluto de óbitos por suicídio no município de Caicó e no Seridó-RN (2006- 2016). ........................................................................................................................................ 55 viii Lista de Tabelas Tabela 1. Comparativo dos coeficientes de mortalidade por suicídio em diferentes localidades. .................................................................................................................................................. 54 ix RESUMO O fenômeno do suicídio perpassa a história da humanidade e muitos foram os autores que se dedicaram a estudá-lo. Pensando esse fenômeno no território norte-rio-grandense, observamos altos índices no município de Caicó, Região Seridó do Estado. Tal região compõe o semiárido nordestino, região desgastada pela exploração dos recursos naturais e pela seca. Apesar de tais características, desponta um dos melhores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do Estado, evidenciando as lutas históricas da população por melhores condições de vida. O Seridó traz ainda em sua história e cultura características marcantes de religiosidade e lutas políticas. Este trabalho tem como objetivo compreender a experiência da tentativa de suicídio na região do Seridó potiguar. Tal estudo configura-se como uma pesquisa fenomenológico-hermenêutica, inspirada na ontologia heideggeriana. Foram entrevistados cinco sobreviventes da tentativa de suicídio, residentes no município de Caicó-RN. A análise do material compreendeu as narrativas dos colaboradores e as afetações da pesquisadora, por meio da interpretação fenomenológico-hermenêutica. Os resultados do estudo apresentaram os sentidos da experiência de desistir de viver em meio ao semiárido nordestino. Percebemos a presença da historicidade construindo sentidos para as pessoas que residem na região do Seridó potiguar. As interpretações das narrativas apresentaram relatos de sentimentos de falta de sentido, medo de julgamentos sociais, conflitos amorosos, culpa e tristeza, dentre outros. Refletimos sobre aspectos da cultura da região que se encontram presentes nas falas dos colaboradores, bem como a constante luta em permanecer vivo diante de um intenso desejo de não viver. Espera-se que a aproximação existencial da condição ontológica vivida por essas pessoas, quando de suas tentativas suicidas, contribua com um novo olhar sobre o fenômeno do suicídio. Palavras-chave: Tentativa de suicídio; Fenomenologia Hermenêutica Heideggeriana; Seridó Norte-rio-grandense; Pesquisa Fenomenológica. x ABSTRACT The phenomenon of suicide runs through the history of humanity and many authors have dedicated themselves to studying it. Thinking about this phenomenon in the territory of Rio Grande do Norte, we observed high rates in the municipality of Caicó, Seridó Region of the State. This region makes up the northeastern semiarid, a region that has been eroded by the exploitation of natural resources and drought. Despite these characteristics, one of the best Human Development Indexes (HDI) of the State emerges, showing the historical struggles of the population for better living conditions. Seridó also has in its history and culture remarkable characteristics of religiosity and political struggles. This work aims to understand the experience of the suicide attempt in the region of Seridó in Rio Grande do Norte. Such a study is configured as phenomenological-hermeneutic research, inspired by Heidegger's ontology. Five survivors of the suicide attempt, living in the municipality of Caicó-RN, were interviewed. The analysis of the material included the collaborators' narratives and the researcher's affectation, through the phenomenological-hermeneutic interpretation. The results of the study showed the meanings of the experience of giving up living in the Northeastern semiarid region. We realize the presence of historicity building meanings for the people residing in the Seridó. The interpretations of the narratives presented reports of feelings of meaninglessness, fear of social judgments, love conflicts, guilt and sadness feelings, among others. We reflected on aspects of the region's culture that are interspersed in the collaborator's speeches, as well as the constant struggle to stay alive in the face of an intense desire to not live. We hope that the existential approach to the ontological condition experienced by these people, during their suicide attempts, will contribute to a new look at the phenomenon of suicide. Keywords: Suicide attempt; Heideggerian Hermeneutic Phenomenology; Seridó Norte-rio- grandense; Phenomenological Research. 10 1. Introdução “Mais uma jovem comete suicídio em menos de 24h no Seridó Potiguar.” “Nesta quarta-feira, foi registrado mais um caso de suicídio na região do Seridó do Rio Grande do Norte. A jovem, de 21 anos, cometeu suicídio em sua própria residência. A Polícia Militar foi acionada juntamente com a Polícia Civil e uma equipe do ITEP. Ainda não se sabem os motivos que levaram a jovem cometer o ato extremo.” Fonte: sertaoemdestaque.com, publicado em 04 de outubro de 2017. Muitos jornais têm estampado notícias como a exposta acima, comunicando o suicídio de pessoas de diferentes idades e buscando encontrar justificativas ou motivos para tal ato. O fenômeno do suicídio perpassa a história da humanidade e muitos foram os autores que se dedicaram a estudá-lo. Tal interesse deve-se aos muitos e diversos sentimentos evocados pela temática, sejam eles: embaraço, tristeza, dúvidas, entre outros. O que levaria uma pessoa a pôr fim à própria vida? O suicídio está associado a alguma doença? De quem é a culpa? Quais os motivos e como evitar um suicídio? Várias são as perguntas que costumam ficar sem respostas, ou que recebem respostas incompletas para aqueles que vivenciam a experiência da tentativa de suicídio ou mesmo o luto pela perda de um ente querido. O suicídio é um tabu e sua compreensão será sempre na perspectiva multidimensional, sem jamais se esvair o seu conteúdo (Botega, 2015).Trata-se de uma temática aberta a diferentes perspectivas e diferentes ciências, devido a sua natureza complexa, dilemática e multidimensional. Não é possível enquadrar o fenômeno do suicídio em uma única abordagem ou um único modo de pensá-lo, posto que se trata de um fenômeno que atravessa questões complexas da própria existência. Como profissional da área da psicologia clínica, constantemente defrontava-me com pessoas que ora por iniciativa própria, ora por encaminhamento de profissionais, amigos e familiares, encontravam-se em meu consultório a relatar seu sofrimento diante da “dor do 11 existir”. Também enquanto docente, era procurada por alunos que compartilhavam suas angústias perante a vida, angústias essas que os faziam questionar “se a vida vale a pena ser vivida”. A escuta clínica desses sujeitos, acrescida das notícias, cada vez mais frequentes, de casos de suicídio na Região do Seridó Potiguar, instigou-me a adentrar mais fundo nesse fenômeno para compreendê-lo sob o olhar da fenomenologia hermenêutica heideggeriana. A escolha pelo Seridó diz respeito aos laços que estabeleci com a região ao longo dos anos em que lá morei. Em minha adolescência fui acolhida pelas pessoas seridoenses e hoje me sinto privilegiada em poder contribuir de alguma forma através desse estudo. O apreço que tenho pela Região do Seridó tornou-me sensível aos altos índices de suicídio que lá ocorrem, apontados por Dutra (1997) e que fazem parte da história e convivência dos seridoenses. Esta pesquisa surge, portanto, como um convite a adentrar na temática do suicídio, sob a perspectiva de quem vivenciou a experiência da tentativa de suicídio. Sobre o percurso escolhido, é importante ressaltar que variadas são as formas de interpretar o suicídio, ao considerarmos diferentes áreas do conhecimento; são muitas e elas quase sempre divergem sobre o modo de compreender o ato. Sob o viés científico, prevalece uma visão objetivista, através da qual se procura encontrar causas explicativas para o fato de alguém não mais querer viver. Todavia, embrenhar-se nesse difícil, porém, instigante estudo significa, para a pesquisadora, ir por caminhos inversos à patologização, aos preconceitos e significados que permeiam esse fenômeno. Constitui-se em um percurso que interroga sobre os sentidos existenciais desse ato, considerando-se a condição de ser-no-mundo dos sujeitos. Escolher percorrer esse caminho, inspirada pela ontologia hedeggeriana, emerge como uma grande responsabilidade e ao mesmo tempo como um inspirador desafio. Primeiramente, é necessário, conforme afirma Dutra (2012a), partir do entendimento do ser humano como um Dasein, tal como o faz Martin Heidegger em sua Ontologia Fundamental. Dasein, ser-aí, ser- 12 no-mundo, dizem da indeterminação de um ente que pensa, existe e se desvela como possibilidade de Ser no mundo que se abre diante dele enquanto pre-sença. A ontologia heideggeriana vem nos oferecer a possibilidade de compreender o fenômeno, sob o olhar da experiência do outro, como algo que se desvela em um contexto específico, a partir do seu horizonte histórico, compartilhando aquilo que se apresenta a partir da compreensão e das afetações dos que estão ali, vivenciando o fenômeno. Heidegger abre-nos para a questão do sentido do ser, fazendo emergir importantes reflexões acerca da existência humana. Homem e mundo não são mais vistos como uma dicotomia, pois o homem constitui-se como ser-no-mundo. A morte aparece, em Heidegger, como a possibilidade mais própria, insuperável do homem enquanto projeto. Somos, assim, ser- para-a-morte desde o nosso nascimento. A morte é, para o filósofo, o dado temporal mais significativo da existência, pois revela a finitude da existência humana, apresentando ao homem que ele morre e que sua existência acaba (Heidegger, 1927/2012). A morte apresenta-se ao homem como uma limitação da unidade fundamental do ser- aí, significando que a sua transcendência, o poder-ser, contém uma possibilidade de não-ser. Conforme afirma o autor, "o 'fim' do ser-no-mundo é a morte. Esse fim, que pertence ao poder- ser, isto é, à existência, limita e determina a totalidade cada vez possível do Dasein" (Heidegger, 1927/2012, p. 695). A morte não é uma possibilidade como outra qualquer, a ocorrência da morte é uma certeza. Contudo, o suicídio mostra ao homem que antecipar a própria morte é, sim, uma possibilidade. De acordo com Roehe e Dutra (2017), no suicídio, o fato de não saber quando se vai morrer, permite que, por iniciativa pessoal, o homem decida quando será este momento. O ato de suicidar-se significa recusar-se ao que Heidegger (1927/2012) chama de peso ou carga do ser diante da inospitalidade do mundo. 13 O aspecto da inospitalidade do mundo, pensado por Heidegger, desperta atenção quando tratamos do fenômeno do suicídio, tendo em vista as particularidades e modos de ser do tempo no qual vivemos. Estamos inseridos na contemporaneidade que pode ser entendida como um contexto que emerge a partir de diversas crises, principalmente as de cunho social, político, tecnológico e econômico, ocorridas desde a década de 70 do século XX, e que influenciaram as estruturas de organização da sociedade e também as dimensões subjetivas (Moraes, 2011). A contemporaneidade enseja diversas transformações que repercutem globalmente, ocasionando implicações nos modos de ser do homem no mundo. Essas mudanças geram um contexto marcado pela transitoriedade e descontinuidade, próprias de um tempo histórico caracterizado por uma relação contraditória entre o moderno e o pós-moderno, pois, de acordo com Santos (2001), não se trata de uma ruptura total entre estes dois momentos históricos e nem de uma continuidade linear. Há momentos de ruptura e também de continuidade, sendo, portanto, uma situação de transição. Encontramo-nos imersos no tempo da exacerbação do individualismo, do hedonismo e do consumismo, que já eram presentes na Modernidade. Autores como Lipovetsky (1983), arriscam afirmar que vivemos, hoje, uma Hipermodernidade, pois estamos diante de uma Modernidade que passou para uma velocidade superior em que tudo é levado ao excesso: hipercapitalismo, hiperterrorismo, hiperpotência. Vivemos numa sociedade do espetáculo, na qual os sujeitos são marcados pelo excesso da centralidade em si, dificultando o reconhecimento da alteridade; portanto, a diferença e a singularidade presentes no outro tornam-se cada vez mais difusas (Debord, 1997). Também Bauman (2001) vai nos falar dessa sociedade, denominada por ele de “líquida”, “fluida”, como metáforas para o momento presente. De acordo com o autor, a crise das ideologias sólidas vividas na Modernidade produziu um período fluido, líquido, tendo como característica a incerteza e a rapidez; tudo flui rapidamente. 14 Podemos perceber uma aproximação entre a sociedade contemporânea, denominada por Bauman (2001), de sociedade líquida, com o que Heidegger nomeia de era da técnica. É a sociedade na qual reina o imediatismo, a pressa, a eficiência e o consumo. Sendo assim, a sociedade que tanto favorece a descoberta da cura de doenças, com os avanços na medicina, é a mesma que fabrica outros fenômenos, tais como a violência, a síndrome do pânico, as depressões, o suicídio (Dutra, 2012a). É nesse contexto de coisificação do ser humano que se encontra o homem de hoje. Desse modo, o fenômeno do suicídio precisa ser compreendido a partir da história e cultura da época e lugar. Nesse contexto social no qual tudo se esvai, como um líquido que escorre entre as mãos, precisamos pensar a história a partir do “mundo hermenêutico”, no qual o fundamento da história é a temporalidade. O próprio ser, como horizonte último do pensar, não se situa no plano do imutável e eterno, mas implica uma historicidade constitutiva. Tal horizonte histórico dita normas, valores emodos de ser no mundo, influenciando nossos comportamentos. O fenômeno do suicídio aparece, portanto, inserido nessa historicidade de nossa sociedade, marcada por uma busca pela felicidade, pelo culto ao corpo e à juventude, pelo sucesso profissional a todo custo e pela busca da cura e interdição da morte. Ademais, a perspectiva heideggeriana nos ajuda a pensar no tempo sem cairmos na concepção natural de que o mesmo estaria desde sempre no mundo, sem a existência humana e no qual a história, depois de uma longa datação, também entraria. De acordo com Heidegger (1927/2012, p. 67): “A análise da historicidade do Dasein procura mostrar que esse ente não é ‘temporal’ por ‘estar na história’, mas, ao contrário, só existe e pode existir historicamente porque é temporal no fundo do seu ser”. É só a partir do existir humano que acontece a história, assim como a história envolve uma noção de mundo, uma vez que o acontecimento de tempo 15 implica originariamente a abertura do mundo como horizonte estrutural da temporalização (Casanova, 2017). Entendendo o suicídio como esse cessar da existência, imerso na temporalidade e historicidade, construímos o presente estudo, cuja importância e objetivos seguem abaixo. 1.1. Justificativa Muitos são os estudos epidemiológicos empreendidos acerca do suicídio, além daqueles de natureza sociológica, psiquiátrica e psicológica. Tais estudos dedicaram-se ao levantamento dos aspectos sociodemográficos da população estudada, confirmando algumas tendências e características presentes na população mundial (Dutra, 2012b). O Brasil tem mostrado, desde 1960, uma transição epidemiológica, na qual os óbitos por doenças infecciosas e parasitárias estão sendo substituídas pelas mortes por causas externas. O crescimento nas taxas de suicídio tem contribuído com tal tendência, sendo essa a terceira causa de óbito por fatores externos identificados junto ao homicídio e aos óbitos relacionados ao trânsito (Reichenheim et al., 2011). No que diz respeito às regiões do Brasil, apesar da Região Sul apresentar a maior incidência de mortalidade por suicídio, o Nordeste é a região com o maior crescimento percentual na taxa de suicídio durante os últimos anos. Assim, enquanto as taxas de suicídio do Nordeste aumentam, as taxas das regiões Sul e Centro-Oeste estão diminuindo (Machado & Santos, 2015). No Nordeste, houve um aumento de 44,9% no número de óbitos por suicídio, entre 2000 a 2014 (Brasil, 2015b). Todavia, nessa região, poucos estudos têm sido desenvolvidos sobre o fenômeno do suicídio. Entre eles, encontra-se o de Dutra (1997) 16 apontando que, entre os anos de 1985 a 1996, foram registradas 567 ocorrências de suicídios no Rio Grande do Norte. Outro estudo a ser destacado é o de Santos e Barbosa (2017) observando que as variações regionais de suicídio acompanham mudanças nos aspectos socioeconômicos e demográficos, sendo necessário compreender o contexto social do Nordeste do Brasil para o entendimento da ocorrência do fenômeno. Segundo as autoras, a região Nordeste merece destaque pela alta desigualdade de renda. Sobre esse aspecto explicam que as opiniões dos estudiosos são divergentes. Por um lado, algumas análises apontam para a realidade de que quanto maior a renda, maior o consumismo, gerando um elevado grau de satisfação pessoal e um menor o risco de suicídio. Em contrapartida, autores refutam essa ideia ao contestar que o aumento na renda favorece a taxa de suicídio, uma vez que aumenta a independência pessoal e, consequentemente, a degeneração familiar (Santos & Barbosa, 2017). No estado potiguar, chama atenção o coeficiente de óbitos por suicídio do município de Caicó, localizado na Região do Seridó do estado, que ocupou o terceiro lugar entre as 20 cidades brasileiras, com pelo menos 50.000 habitantes, com maiores coeficientes de suicídio entre os anos de 2005 a 2007 (15,8/ 100 mil habitantes) (Minghetti & Kanan, 2011). O coeficiente de mortalidade por suicídio de Caicó tem crescido com o passar dos anos, influenciando diretamente nas expectativas de óbitos por suicídio na região do Seridó. Tal coeficiente é calculado considerando o número de óbitos por suicídio a cada 100 mil habitantes, no ano considerado. Nessa perspectiva, ao considerarmos apenas o ano de 2016 esse valor foi de 50,44, sendo considerado muito elevado quando comparado ao índice global de 11,4. A região do Seridó compõe o Semiárido Nordestino, marcado pela degradação ambiental, pela seca e por uma população rural muito presente. É um território reconhecido por sua cultura gastronômica e artesanal, bem como por uma identidade religiosa tradicionalista. Compreender o suicídio nesse cenário, significa mergulhar nas condições de vida da região, 17 permitindo que se pense, em leitura psicológica, em um não-querer-ser-no-mundo. As características históricas, geográficas e culturais da região do Seridó, especialmente no município de Caicó, estimulam a necessidade de aprofundar o conhecimento relativo a esse fato por nos interrogarmos sobre a importância que essas condições teriam no desencadeamento do fenômeno do suicídio. Diante dessa problemática, alguns questionamentos emergem: até que ponto a cultura, a geografia, a seca e a religiosidade do Seridó são fatores restritivos do poder-ser desse homem? Como uma cidade (Caicó) tão amada por seus moradores e elogiada pelos visitantes é escolhida para se matar? Quais os sentidos dessas existências e dessas mortes? Como a cultura da região influencia o sentido da vida dessas pessoas? No intuito de compreendermos essas questões, seguiremos inspirados na fenomenologia hermenêutica heideggeriana, buscando compreender a experiência suicida a partir do horizonte histórico da Região do Seridó norte-rio-grandense, no qual os colaboradores encontram-se inseridos. Somente através do olhar dessas pessoas, poderemos adentrar em aspectos existenciais dessa experiência e de alguma forma contribuir na construção do cuidado para com os mesmos e para com as outras pessoas que de alguma forma são afetadas pelo fenômeno. Um estudo sobre o suicídio que tem como alicerce a analítica da existência, nos proporciona entender o fenômeno como sofrimento, desespero, dor existencial, indigência existencial e abandono. A tentativa de suicídio revela que acabaram todas as possibilidades de ser. Trata-se, portanto, de olhar o fenômeno através da existência, indissociado do mundo, em sua trama de sentidos. Vale ainda salientar que sentimos falta de mais estudos que buscassem compreender a experiência do suicídio utilizando a fenomenologia hermenêutica heideggeriana como orientação metodológica. Também poucos são os estudos dedicados à compreensão do suicídio a partir de quem o tentou, levando em consideração não apenas os dados epidemiológicos, mas 18 os aspectos que compõem os modos de ser dos sujeitos estudados, como os aspectos culturais, geográficos e dos sentidos do suicídio. Estudos como esse, abertos à experiência dos colaboradores e cujas temáticas são consideradas de forte impacto, apesar de serem escassos, têm emergido no Rio Grande do Norte através do Grupo de Estudos Subjetividade e Desenvolvimento Humano (GESDH). O GESDH tem apresentado, com dedicação e competência, potentes trabalhos de base fenomenológica hermenêutica heideggeriana. Compondo esse grupo, este estudo poderá gerar contribuições para a comunidade acadêmica, os profissionais de saúde, bem como auxiliar a própria região do Seridó a desenvolver ações de prevenção dos casos de suicídio. 1.2. Objetivos O objetivo geral do presente estudo é compreender a experiência da tentativa de suicídio, na região do Seridó potiguar. Como objetivos específicos pretendemos: a) conhecer os modos de ser dessas pessoas relacionados ao seu contexto, b) apreender sentidos e significados de seus cotidianos. Paraque o nosso percurso, diante dessa temática tão inquietante, não seja feito sozinho, cada capítulo será introduzido por versos de cordel. Cordel é um tipo de literatura popular em verso, escrito frequentemente na forma rimada e que representa muito bem a cultura e tradição do “povo seridoense”. Dessa forma, cada verso dos cordéis poderá nos proporcionar um novo fôlego, que a arte é capaz de nos dar, diante dos sentimentos que esse tema poderá gerar. A partir do exposto, serão contemplados os capítulos da tese, os quais foram organizados da seguinte forma: 19 Capítulo I – Os sentidos do suicídio ao longo da história e seus aspectos epidemiológicos Neste capítulo será discutida a história do suicídio, fazendo um resgate de seu percurso em contextos históricos específicos. A finalidade desse resgate histórico é conhecer a construção dos significados do suicídio para auxiliar no entendimento de como esse fenômeno é compreendido na atualidade. Também serão expostos os aspectos epidemiológicos e levantamentos estatísticos do suicídio nacionalmente e mundialmente. Iniciaremos o capítulo com a união de versos do repentista e cordelista Francisco Fernandes da Motta, conhecido por Chico Motta. De naturalidade paraibana, ele fez morada em Caicó, e lá tornou-se conhecido por seu desempenho como repentista de viola e poeta popular. Em 2011, Chico Motta cometeu suicídio, surpreendendo a região. Capítulo II – Uma visita ao sertão do Seridó: sua história, cultura e desafios O capítulo abordará a caracterização do Seridó, perpassando desde sua colonização, principais características da região e dados epidemiológicos do suicídio na região. A abertura do capítulo dar-se-á pela apreciação do trabalho do cordelista potiguar José Saldanha Menezes Sobrinho, conhecido por Zé Saldanha. Capítulo III – Compreendendo o ser à luz da Fenomenologia Hermenêutica Heideggeriana Este capítulo é dedicado à discussão de alguns existenciais da ontologia de Martin Heidegger que auxiliam o olhar lançado ao fenômeno do suicídio. Iniciaremos o capítulo com a obra do cordelista Gecílio Souza. 20 Capítulo IV – Caminhando através dos passos metodológicos Este capítulo é dedicado à fenomenologia hermenêutica, enquanto inspiração para compreender o suicídio. O método aparece como um caminho que nos conduz a uma aproximação do fenômeno, buscando conhecê-lo para além das aparências, evidenciando os sentidos que lhe são atribuídos. Estão descritos no capítulo os procedimentos metodológicos empregados, e o modo como serão analisados os resultados. Para dar início à leitura do capítulo, novamente faremos um pequeno momento de reflexão acompanhado pelo cordelista Gecílio Souza, do Distrito Federal. Capítulo V – As narrativas dos participantes: desvelando os sentidos da tentativa de suicídio O capítulo apresentará o desvelamento dos sentidos do suicídio, manifestos por meio da linguagem dos colaboradores. Este capítulo será dedicado a eles que nos introduzirão, através das narrativas, na compressão do fenômeno. Abriremos o capítulo com os versos do cordelista pernambucano Diosmam Avelino. Capítulo VI – Considerações finais Trataremos neste capítulo de fazer alguns apontamentos, pensando caminhos e possibilidades desvelados por esse estudo. O capítulo será aberto pela poetisa e trovadora caicoense Mara Melinni que escreveu seus versos especialmente para nós, nos proporcionando, através de sua sensibilidade, adentrar de uma maneira diferenciada na temática do suicídio. 21 2. Capítulo I – Os sentidos do suicídio ao longo da história e seus aspectos epidemiológicos Epitáfio Com seriedade eu fiz o que pude Deus me concedeu uma longa vida Deu-me uma prole bastante crescida Que considero ser minha virtude. Mas, como a morte é inevitável Jamais poderei ser inseparável Daquelas pessoas por quem tenho afeto. Já que eu não posso ficar entre os meus Breve deixarei o meu último adeus A genros e noras, a filhos e netos. No meu túmulo quero apenas Inscrição da minha idade E em lugar de verbenas Um poema de saudade Chico Motta 22 2.1. A história do suicídio contada a partir de cada época O suicídio está cada vez mais presente no universo de significados das pessoas e nos contextos por onde elas circulam. Ele é entendido como o ato de causar a cessação da própria vida, enquanto a tentativa de suicídio seria o ato de tentar cessar a própria vida, mas, sem consumação (Brasil, 2009). Esse fenômeno possui diferentes significados e definições, partindo de entendimentos diferentes. Se partirmos da origem etimológica da palavra suicídio, veremos que ela deriva do latim, sui (si mesmo) e caederes (ação de matar), sendo utilizada pela primeira vez em 1700 pelo abade Desfointaines. Só posteriormente, no século XIX, essa palavra foi incorporada pela comunidade científica, buscando-se explicações psiquiátricas e sociológicas para o tema (Moron, 1987). Desse modo, a palavra suicídio é conhecida desde o século XVII e embora possua diferentes concepções, uma ideia central permanece: o ato de pôr fim à própria vida (Botega, 2015). Passeando pela história da humanidade, é possível observar que algumas culturas primitivas tinham o suicídio como um evento constituinte dos costumes tribais. O medo desses mortos retornarem, para causar mal aos vivos, produziu um intrincado complexo de tabus e rituais, como forma de proteção contra o retorno de espíritos inquietos. Nessas sociedades, o suicídio de idosos, por exemplo, ocorria como um ritual de coerção social velada. O idoso cometia suicídio em um ato de suprema honra, no intuito de não se transformar em um peso para o povo (Botega, 2015). Na Grécia Antiga ele era considerado um direito pessoal. Denominado de morte voluntária; se a pessoa tivesse uma razão para executá-lo, os antigos gregos estabeleciam uma atitude de moderação e nobreza de espírito (Botega, 2015). Caso o indivíduo desejasse se matar, deveria pedir autorização ao Senado, apresentando os motivos pelos quais acreditava serem 23 suficientes para defender sua causa e, se o pedido fosse aceito, o suicídio era considerado um ato legítimo (Durkheim, 2000; Palhares & Bahls, 2003). A discussão filosófica acerca da temática era equilibrada e desapaixonada em casos nos quais não fossem considerados afrontas aos deuses (Botega, 2015). Na Roma Antiga, os pensamentos não eram unânimes. Coexistiam a rejeição e a admiração pela coragem de manifestar a liberdade e determinar a própria morte (Minayo, 2005). Nesse período, as condenações por morte voluntária consideravam questões políticas e interesses econômicos. Quando os casos não causavam prejuízo à economia local, não havia punição, desde que existissem motivos considerados cabíveis como: tédio à vida, vergonha, desonra, doença ou loucura (Oliveira, 1994). Entretanto, os suicídios de soldados e escravos eram entendidos como injustificáveis devido aos interesses econômicos e políticos, pois resultavam em perdas para os proprietários e para o Estado (Palhares & Bahls, 2003). Na cultura greco-romana, quando o suicídio “não tinha motivo justificado” ou em casos considerados desrespeito aos deuses, os corpos dos suicidas eram expostos à humilhação, não tinham direito a uma sepultura regular, e suas mãos eram enterradas separadamente (Kovács,1992). Também na literatura da Antiguidade clássica é possível observar que os suicídios eram relatados de forma natural, por vezes heroicos, movidos por motivos patrióticos ou para evitar a desonra. O próprio Sócrates faz emergir questões éticas sobre a morte quando por um lado repudiou o suicídio, mas por outro fez a morte parecer algo desejável e tomou a cicuta com entusiasmo afirmando: “Já era tempo, para mim, de morrer e livrar-me detrabalhos”. Já para Platão, o suicídio poderia ocorrer quando as situações externas fossem consideradas intoleráveis, enquanto para Aristóteles era uma ofensa ao Estado e uma irresponsabilidade social (Alvarez,1999; Venco & Barreto, 2010). 24 Na Idade Média o ato suicida era considerado consequência da instigação demoníaca. Na Europa cristã esse fenômeno vinculava-se às condenações praticadas pelo Estado e pelas religiões, que puniam o suicida pós-morte, pregando o impedimento da ascensão ao paraíso e transformando a vida dos seus familiares em vergonha pública à medida que suas propriedades passavam ao poder dos reis. Deste modo, tanto os reis como a igreja usufruíram do suicídio (Brown, 2002). De acordo com Minois (1998), o cadáver do suicida deveria sair pela janela da casa e não pela porta, podendo também ser aberto um buraco na parede para a sua passagem. Seu corpo era lançado no rio dentro de um barril ou arrastado por um cavalo até uma forca, na qual seria pendurado de cabeça para baixo. O enterro não poderia ser no cemitério, mas em uma estrada ou encruzilhada. Na Europa do século XVII, o suicida era considerado um criminoso e, se a tentativa de suicídio falhasse, o sobrevivente poderia ser encarcerado (Venco & Barreto, 2010). Na Inglaterra deste mesmo século, o corpo do suicida era atravessado por uma estaca e colocado numa encruzilhada, com uma pedra sobre a cabeça para que não pudesse retornar e assombrar os vivos (Dutra, 2002). Apesar das punições para com os suicidas manterem-se nesse período, o suicídio passou a ser concebido como um dilema humano. Também foi nesse período que o termo suicídio surgiu no latim para substituir “homicídio de si próprio”. Tais mudanças devem- se, em parte, ao papel das artes que com Hamlet: príncipe da Dinamarca e outras peças, estamparam a abertura do novo século com o suicídio apreciado nos palcos da Europa. As interdições em torno da morte voluntária começaram a ser questionadas (Botega, 2015). O século XIX, por sua vez, faz emergir profunda transformação social através da Revolução Industrial. É nesse contexto que surge a obra O suicídio (1897) de Emile Durkheim, na qual o ato de tirar a própria vida passou a ser considerado em seu aspecto social. O sociólogo francês definiu o suicídio como “todo caso de morte que resulte direta ou indiretamente de um 25 ato positivo ou negativo, praticado pela própria vítima, sabedora de que devia produzir esse resultado” (Durkheim, 2000, p. 16). Em seus escritos, Durkheim divide o suicídio em três classificações: egoísta, altruísta e anômico. O suicídio egoísta seria provocado pela desintegração social e teria como causas a depressão, a melancolia e a sensação de desamparo moral. O segundo tipo de suicídio, denominado de altruísta, estaria mais presente nas sociedades primitivas, e seria entendido como um dever que, se não fosse cumprido, o indivíduo seria punido por desonra e por castigos religiosos. Normalmente ocorreria entre as pessoas que chegassem à velhice ou vivenciassem algum adoecimento, bem como no caso de mulheres viúvas ou entre serviçais com a morte dos seus chefes. Era considerado como uma obrigação que a sociedade impõe implicitamente ao indivíduo (Durkheim, 2000; Toro, Nucci, Toledo, Oliveira & Prebianchi, 2013). O terceiro tipo de suicídio foi denominado de anômico e ocorreria por causa de um desregramento social, através do qual as normas não existem ou perderam o valor. Ocorreria quando houvesse um estado de anomia, em que falta uma direção, falta uma moral; as relações são precárias e as regras tornaram-se indefinidas (Durkheim, 2000; Toro et al., 2013). Durkheim, em sua obra, trouxe ponderações sobre a grande influência que a sociedade exerce nos sujeitos, mesmo quando o tema discutido se refere a uma questão individual, que é a escolha ou não pelo fim da vida. Outros escritores da Filosofia também enveredaram-se pela temática, indagando e refletindo sobre o tema. Entre estes escritores encontramos: Camus, Nieztche, Schopenhauer, entre outros. Albert Camus, em O mito de Sísifo (1942, p. 99), afirma que: “Só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio”, demonstrando a relevância do tema (Camus, 1942; Toro et al., 2013). Apesar do pensamento do sociólogo Durkheim ter surgido no século XIX, na Inglaterra de 1870, as leis do confisco às propriedades do suicida permaneciam vigentes. E até 1961, o 26 suicídio frustrado poderia culminar em cárcere para o sobrevivente. Já na França o suicida era amarrado pelos pés e arrastado pelas ruas. Seu corpo era queimado e atirado ao lixo localizado em via pública (Venco & Barreto, 2010). Outro aspecto interessante a considerar-se é que segundo Retterstol (1993), ao longo da história também há registros de motivações para o suicídio em casos de desonra, fuga da escravidão, perdas de entes queridos, idades avançadas ou vingança. No caso da vingança, acreditava-se que essa teria a capacidade mágica de culminar na destruição de um inimigo. Sociedades guerreiras apresentavam o suicídio como uma morte violenta capaz de fomentar na população um espírito combativo, como ocorria entre os vikings, sociedade na qual a morte em batalha representava a primeira das honras e o suicídio seria a segunda (Alvarez, 1999). No Brasil, as condições extremas de escravidão proporcionavam um aumento nos casos de suicídio com formas passivas de manifestação. Os escravos recusavam a alimentar-se e acreditavam que com a própria morte o espírito voltaria à África. Em muitos casos, porém, a morte manifestava-se de forma ativa com o enforcamento ou envenenamento (Botega, 2015). Conforme Botega (2015), nos casos citados, o mecanismo psíquico de autopreservação invertia- se para pôr fim à dor de uma nação inteira. No século XX efetivou-se ainda mais a associação entre o suicídio e os transtornos mentais, embasando sua prevenção e inserção na saúde pública. A pós-modernidade, respaldada pelos aportes científicos, passou a ver o ato suicida a partir de um conjunto complexo de influências, tornando o suicida, antes pecador, agora vítima. Nos tempos atuais continuamos com essa visão do suicídio mais voltado ao campo dos transtornos mentais, discutido junto às psicopatologias, procurando investigar causas e prevenção (Venco & Barreto, 2010). 27 É relevante destacar que o reducionismo do suicídio à dimensão biológica, psicológica e psiquiátrica tem desencadeado em uma medicalização excessiva e uma patologização da vida cotidiana com a justificativa de se evitar o suicídio. Todavia, o sofrimento psíquico que pode desencadear o ato suicida, não possui o mesmo significado que o transtorno mental. Conforme Berenchtein Netto, “o sofrimento psíquico é algo da ordem da vivência, algo da ordem da existência, todos nós mais hora ou menos hora, em maior ou em menor intensidade, desenvolvemos sofrimentos psíquicos, o que não é exatamente a mesma coisa no que se refere aos transtornos psiquiátricos” (2013, p. 19). Ainda sobre esta perspectiva, nos afirma Berenchtein Netto: Mantém-se, a qualquer custo, as pessoas vivas e para que possam suportar aquela existência degradante à qual estão submetidas cotidianamente, é oferecida como solução a utilização de psicofármacos, que em absoluto transformam a realidade adoecedora em que vivemos, mas que, ao atuar em nossa química orgânica, dá-nos uma percepção distinta dessa realidade, que permanece a mesma, aquela, que até então nos fazia desejar a morte. Não se trata aqui de uma apologia contra a utilização de medicamentos, esses, quando corretamente administrados, cumprem um papel importante em nossa sociedade, contudo, esse uso “ideologizante” do medicamento apenas encobre os sintomas que se manifestam nos indivíduos, sem tocar em suas profundas raízes sociais. Atua-se nas pessoas individualmente, quando se trata de um problema social (2013,p.22). Observando os aspectos históricos do suicídio também é possível perceber que as discussões sobre a aceitação do ato do suicídio são recorrentes em diferentes períodos e sociedades, e estão diretamente interligadas à cultura, à visão moral, o que dificulta um consenso geral. A história do suicídio ganha vozes múltiplas e diversas explicações de ordem psicológica, sociológica, filosófica e/ou biológica; multiplicidade que confere ao fenômeno a devida complexidade (Toro et al., 2013). Dutra (2012a) vai nos trazer que muitos mitos, sentimentos e atitudes que envolveram esse fenômeno ao longo da história da existência humana permanecem até hoje no imaginário 28 social, tais como vergonha e culpa, próprios do estigma do suicídio e do pecado, como se uma marca de loucura, desatino ou mesmo dissimulação identificasse essas pessoas perante o mundo. Dessa forma, torna-se ainda mais desafiante lidar com o suicídio que ocorre de uma forma próxima a nós, pois ele gera medo de punição e sentimento de culpa. Certamente, a história traz explicações para atitudes e valores que as sociedades conservam (Dutra, 2012a). Botega (2015) corrobora com Dutra ao afirmar que o caráter deliberado e ritualístico dos suicídios registrados em sociedades de tempos tão remotos não se apagou na mente do homem civilizado, também não se apagou a idealização sobre o efeito que este tipo de morte tem nas pessoas próximas ou na comunidade em que se vive. 2.2. Alguns apontamentos sobre os aspectos epidemiológicos do suicídio O fenômeno do suicídio é multifatorial e constitui um dos tipos de causas externas de morbimortalidade que engloba o capítulo X da Classificação Internacional de Doenças, em sua 10ª revisão (CID-10) (Brasil, 2015b). Ele aparece como um grave problema de saúde pública mundialmente, em especial por seu crescimento, cada vez maior, entre a população mais jovem. A cada 45 segundos uma pessoa morre por suicídio em algum lugar do planeta. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS) (2014b), as mortes por suicídio aumentaram 60% nos últimos 50 anos, cuja taxa mundial situa-se em torno de 11,4 óbitos por 100 mil habitantes. Existe uma tendência de aumento nesses números, projetando-se que mais de 1,5 milhão de pessoas cometam suicídio em 2020 (OMS, 2000). Esses valores não incluem as tentativas de suicídio que são de 10 a 20 vezes mais frequentes que o suicídio em si (OMS, 2014b). Ainda sobre os resultados de estudos epidemiológicos, aproximadamente 1.920 pessoas põem fim à vida diariamente no mundo, superando, ao final de um ano, a soma de todas as 29 mortes causadas por homicídios, acidentes automobilísticos, guerras e conflitos civis. O coeficiente de mortalidade por suicídio representa o número de suicídio para cada 100.000 habitantes em um ano (WHO, 2014a). OMS (2014) nos aponta que os coeficientes mais altos se encontram em países da Europa Oriental e os mais baixos, em países da América Central e América do Sul. Já os coeficientes nos Estados Unidos, Austrália, Japão e países da Europa Central estão numa faixa intermediária (Figura 1). Figura 1. Coeficientes de mortalidade por suicídio (por 100.000 habitantes). Fonte: OMS, 2014a. A taxa de suicídio por 100 mil habitantes, na maioria dos países situados na América do Sul, é abaixo de 6,5. Estados Unidos, Canadá, Portugal, Espanha, Alemanha, Índia e Austrália exibem taxas de 6,5 a 13. Na França, Suécia, Rússia, China e Japão, as taxas estão estimadas acima de 13. Os países bálticos detêm taxas entre 32 e 42, a exemplo da Lituânia (41,9), Estônia (40,1), Rússia (37,6), Letônia (33,9), Hungria (32,9) e (Guiana, 44,20), são destacados como os primeiros colocados em média de suicídio por 100 mil habitantes, enquanto que Guatemala, Filipinas e Albânia estão do lado inverso, com as menores taxas, oscilando entre 0,5 e 2 (Ribeiro, Mascarenhas & Araújo, 2018). Desse modo, observamos que os suicídios ocorrem 30 em todas as regiões do mundo e ao longo da vida. Também segundo a OMS (2014a), o suicídio tende a afetar as populações mais vulneráveis e é altamente prevalente em grupos de sociedade já marginalizados e discriminados. Sobre as tentativas de suicídio e o comportamento suicida é importante ressaltar que eles são atos intencionais de autoagressão que não resultam em morte, podendo envolver atos para os quais são necessárias hospitalizações. Algumas autoagressões podem, contudo, não necessitar de atendimento médico, dificultando a realização de estudos acerca das tentativas de suicídio (Bahls & Botega, 2007). Outra informação relevante é que cerca de 15 a 25% das vítimas que tentam suicídio conseguem concluir o ato nos próximos 10 anos (OMS, 2014b). Desse modo, os estudos sobre as tentativas de suicídio tornam-se extremamente importantes para as práticas de prevenção. No que se refere aos dados no Brasil, a taxa geral de suicídio tem crescido cada vez mais, embora seja considerada baixa quando confrontada com outros países (71º lugar); contudo, ocupa o nono lugar na classificação de países líderes em termos absolutos de óbitos por suicídio (Ribeiro et al., 2018). Entre 2011 a 2016, foram notificados no Sinan 1.173.418 casos de violências interpessoais ou autoprovocadas. Dentre eles, 176.226 (15,0%) foram relativos à prática de lesão autoprovocada, sendo 116.113 (65,9%) casos em mulheres e 60.098 (34,1%) casos em homens. Considerando-se somente a ocorrência de lesão autoprovocada, identificaram-se 48.204 (27,4%) casos de tentativa de suicídio, sendo 33.269 (69,0%) em mulheres e 14.931 (31,0%) em homens (Brasil, 2017). No que concerne à faixa etária brasileira, o ministério da saúde aponta que o Brasil apresenta um nível médio de taxa de mortalidade por suicídio (entre 5 e 15/100 mil hab) no sexo masculino. Nesse grupo, as maiores taxas foram percebidas na população idosa a partir de 70 anos; em pessoas com baixa escolaridade; solteiros (as), viúvos (as) ou divorciados (as); e 31 que usaram o enforcamento como principal meio para cometer o suicídio (Brasil, 2017). O suicídio ainda é a 15ª causa de mortalidade na população geral; entre os jovens de 15 a 29 anos, é a segunda principal causa de morte (Brasil, 2017). Apesar dos índices de suicídio encontrados no país, a qualidade dos dados referentes aos óbitos é fator limitante das pesquisas, tanto no Brasil, quanto em outros países. Ocorrem subnotificações dos casos devido a motivações religiosas, sociais, culturais, entre outras (Brasil, 2005a). As distorções dos dados provêm, de acordo com alguns autores, do estigma social a respeito do óbito, razões jurídicas, aspectos religiosos e, ainda, a relutância ou preenchimento inadequado pelo profissional médico ao registrar o óbito como “morte acidental” ou “causa indeterminada” (Volpe, Corrêa & Barrero, 2006). No que concerne ao gênero, no Brasil, os homens cometeram suicídio de 3 a 4 vezes mais que as mulheres. Entre eles, a taxa de suicídio aumentou 40% (de 4,6, em 1980, para 6,4 óbitos por 100 mil habitantes, em 2000), enquanto entre as mulheres houve uma redução de 20% (de 2 para 1,6 óbitos por 100 mil habitantes no mesmo período) (Lovisi, Santos, Legay, Abelha & Valencia, 2009). De modo geral, observa-se que os homens cometem mais suicídio e utilizam métodos mais letais, como enforcamento, uso de arma de fogo e precipitação de lugares elevados. As mulheres, por sua vez, apresentam maior número de tentativas de suicídio e o método mais usado é a ingestão de medicamentos e outras substâncias tóxicas (Meleiro & Teng, 2004; Nicolato, Perez & Correa, 2006; Prieto & Tavares, 2005). É importante lembrar que um coeficiente nacional de mortalidade por suicídio esconde importantes variações regionais. Estudos epidemiológicos realizados nas duas últimas décadas mostram taxas mais elevadas nas regiões Sul e Centro-Oeste brasileiras, em cidadesde pequeno e de médio porte populacional, e entre homens, idosos e indígenas (Marín-León et al., 2012). Em 2000, o Ministério da Saúde concluiu um estudo que revelou diferenças regionais nas taxas 32 de suicídio no país. Os resultados revelaram que a Região Sul, e mais especificamente o estado do Rio Grande do Sul (RS), detiveram os maiores coeficientes de mortalidade por suicídio no Brasil, chegando a 11/100.000 habitantes nesse estado (D‘Oliveira, 2005). Contradizendo o senso comum que vincula o suicídio ao fenômeno da urbanização, as maiores taxas de suicídio brasileiras vão aparecer nas cidades de pequeno porte ou médio porte populacional. Se considerarmos o número absoluto de morte por suicídio, de fato nos deparamos com mais mortes em grandes cidades, contudo, em termos de coeficientes, ocorre o contrário (Botega, 2015). Na região Nordeste, as notificações de suicídio aparecem de forma preocupante e óbitos por essa causa passaram de 1.049 para 2.109, entre 2003 a 2013, ou seja: mais que duplicaram no período, atingindo o percentual de 109%. Nessa região, três Estados, Paraíba, Piauí e Sergipe, mais que triplicam seus quantitativos. Bahia, Ceará, Maranhão e Rio Grande do Norte mais que duplicam. Nesse cenário, o Piauí ocupa a quinta posição em números de suicídios do Brasil, de acordo com dados divulgados pelo Ministério da Saúde, em janeiro de 2018. Em Teresina, a cada 100 mil habitantes, 6,8 cometem suicídio todos os anos (Ribeiro et al., 2018). Ainda no que diz respeito à Região Nordeste, poucos são os estudos desenvolvidos sobre o suicídio. Entre eles, encontram-se o de Dutra (1997) e Dutra e Roehe (2013) que observaram as taxas de suicídio entre 1985 e 1996 no Rio Grande do Norte, evidenciando-se 567 ocorrências registradas nesses 11 anos. Dutra (1997) verificou que 16,2% dos suicídios ocorridos nesse período foram cometidos por agricultores do interior do Estado. Tal apontamento realça a necessidade de aprofundamento do conhecimento relativo a esse fato, perpassando as características sociais e geográficas da região Nordeste e interrogando sobre a importância que essas condições teriam no desencadeamento do fenômeno (Dutra, 2010). 33 De acordo com o coeficiente de mortalidade por suicídio, o Rio Grande do Norte apresenta 5,5 mortes por suicídio a cada 100 mil habitantes. A capital do estado, Natal, apresenta coeficiente 3,3 (Brasil, 2014). Dutra (1997) aponta, através de seus estudos, que há uma tendência de aumento significativo das taxas de suicídio no Rio Grande do Norte. Durante o ano de 1985 somente foram registradas 18 ocorrências de suicídio, já em 1996 foi possível observar 79 casos. Esses dados indicam a importância da temática para o estado, bem como para o Brasil, corroborando a necessidade de novos estudos por tratar-se de um fenômeno que acompanha a evolução da humanidade e de natureza extremamente complexa (Dutra, 1997). Também evidencia a importância de políticas públicas com ações preventivas e assistenciais relacionadas ao suicídio. Ainda no estado do Rio Grande do Norte nos deparamos com os altos índices de suicídio na Região Seridó. Diversos jornais e sites locais têm noticiado os casos de suicídio da região, enfatizando a necessidade de iniciativas das autoridades locais e população em geral para minimizar tais acontecimentos. Há uma preocupação em compreender as causas e modos de prevenção, especialmente no município de Caicó, local onde ocorrem o maior número de casos. Os dados epidemiológicos do suicídio na Região do Seridó serão abordados no próximo capítulo. Resta ainda afirmar que apesar dos números e das estatísticas nos auxiliarem a visualizar o fenômeno do suicídio, também é importante compreendê-lo com o cuidado de não tentar ver relações de causalidade entre os fatos, a fim de não corremos o risco de chegar a conclusões equivocadas. Azevedo (2013) afirma que ao invés disso, devemos tentar compreender cada caso como particular, único, e só podendo ser entendido a partir da história de vida do sujeito, do seu contexto de vida, dos aspectos culturais com os quais ele está envolvido. Desse modo, pesquisar o fenômeno do suicídio sob olhar da fenomenologia significa lançar luz sobre facetas 34 do fenômeno que podem nos ajudar a avançar em sua compreensão. Sobre esses aspectos também refletiremos mais abaixo. 35 3. Capítulo II – Uma visita ao sertão do Seridó: sua história, cultura e desafios Sertão Florido Ergue-te sertão florido, Com tua gleba risonha, Teu horizonte dourado, Com que o poeta sonha. Sertão, amado sertão, Eu te amo loucamente, Tua terra primorosa, Teu panorama excelente. Sertão dos dias bonitos, Noites mais enluaradas. Sertão do homem forte, Da mulher mais animada. Sertão das manhãs rosadas, Das tardes mais sorridentes. Sertão das noites de farra, Das sertanejas contentes. Adeus sertão dos meus sonhos, Meu sertão das vaquejadas; Das gorduchas sertanejas, Faceiras, lindas e coradas. Zé Saldanha 36 O poeta popular Zé Saldanha, ao descrever o sertão dos seus sonhos, o descreve com adjetivos que o enaltecem através de suas belezas naturais e cultura expressiva. Ele escreve em tom de saudade, pedindo que se erga o sertão que conheceu. Talvez porque lá gostaria de ficar ou porque não mais o reconheceu. É sobre esse sertão, belo em suas paisagens, rico em suas crenças que esse capítulo vai tratar, porém, também é sobre o mesmo sertão das lutas, da pobreza, da seca e de outros sofrimentos que vamos dissertar. Começaremos, então, pela localização geográfica a fim de que o leitor desse estudo viaje conosco até lá. 3.1. Caracterização da Região do Seridó 3.1.1. Aspectos geográficos e naturais da região A região do Semiárido Nordestino brasileiro passou por uma degradação ambiental proveniente do uso intenso dos recursos naturais pelas atividades humanas, o que tem modificado consideravelmente o perfil de sua paisagem, resultando em áreas com solos compactados, excesso de desmatamento, erosão, assoreamento dos rios e perda da biodiversidade (Júnior, 2011). A vegetação da caatinga foi muito alterada pela ação do homem e sobraram apenas alguns exemplares de suas diferentes formações vegetais. Esse tipo de vegetação foi um dos primeiros biomas brasileiros a sofrer o intenso processo de antropização trazido pela colonização, tendo seus recursos naturais explorados de forma não-sustentável (Júnior, 2011). No sertão nordestino, a atividade econômica está fortemente vinculada à exploração dos recursos naturais, sejam eles por meio do extrativismo, o superpastejo de áreas nativas ou a exploração mineral e agrícola. Essas atividades de acordo com Silva (2008a) são desenvolvidas 37 com base na eficiência produtiva do capitalismo como possibilidade de ampliação da riqueza e da conquista do bem-estar, desse modo não há a preocupação com a conservação. O Semiárido Brasileiro, segundo dados do Ministério da Integração Nacional (Brasil, 2005b), é composto por nove estados: Alagoas, Bahia, Ceará, Minas Gerais, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe. Ele ocupa 86% da região nordeste do Brasil. É uma região marcada pela irregularidade das chuvas, clima quente e bioma da caatinga. De acordo com Malvezzi (2007), apesar dessa falta de acesso à rede de abastecimento geral, o semiárido brasileiro, quando comparado com outros sertões, é considerado o mais chuvoso do mundo, apresentando déficits hídricos devido ao elevado índice de evaporação desse recurso (aproximadamente três vezes maior que o índice de chuvas). É neste contexto, como afirma Júnior (2011), que se encontra a região do Seridó, no Estado do Rio Grande do Norte, que é conhecida por uma configuração espacial marcada pelo processo histórico vinculadoàs atividades econômicas que degradam os recursos naturais dos seus municípios. Seu território é composto por 25 municípios: Acari, Bodó, Caicó, Carnaúba dos Dantas, Cerro Corá, Cruzeta, Currais Novos, Equador, Florânia, Ipueira, Jardim de Piranhas, Jardim do Seridó, Jucurutu, Lagoa Nova, Ouro Branco, Parelhas, Santana do Matos, Santana do Seridó, São Fernando, São João do Sabugi, São José do Seridó, São Vicente, Serra Negra do Norte, Tenente Laurentino Cruz e Timbaúba dos Batistas (Brasil, 2015a) (Figura 2). 38 Figura 2. Mapa do Estado do Rio Grande do Norte Apesar do processo de urbanização, a região apresenta uma população rural ainda muito presente, correspondendo a 23,89% da população total. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da região desponta como um dos melhores índices do Rio Grande do Norte. O município de Caicó destaca-se pelo IDH mais elevado da região (IBGE, 2010). E, no território seridoense, concentram-se 14 municípios (43,75%) dos 32 que obtiveram maior IDH no estado. É importante ressaltar a instigante situação do Seridó, considerando-se a situação socioeconômica e ambiental em que se encontra. A região não se coloca entre os focos dinâmicos recentes da economia estadual e figura no mapa de ocorrência da desertificação como uma área de degradação muito grave e intensa. Parece um paradoxo uma região de condições naturais tão adversas obter índices de desenvolvimento tão altos. Contudo, o aparente paradoxo se desfaz logo que se busca a historicidade da região para desvendar o seu estágio atual em que se observam as estratégias sócio-políticas e culturais de décadas passadas, revitalizadas no presente. Criando, inovando e reinventando o saber-fazer regional, a sociedade vem construindo cenários de resistência e a 39 atuação de sua representação política tem sido fundamental para a melhoria dos indicadores sociais, como educação e saúde (Morais, 2005). Com relação ao clima, Duque (1973) descreve o Seridó norte-rio-grandense com chuvas variáveis de 127 a 916 mm por ano, com a média anual de 497 mm. A insolação é de 2.988 horas por ano, e a média das máximas da temperatura é de 33 ºC e das mínimas de 22 ºC. A vegetação da região é baixa, composta de cactos espinhentos e arbustos espaçados, com capins de permeio e manchas desnudas. O relevo apresenta terra muito erodida e áspera; os seixos rolados existem por toda a parte e as massas de granito redondo sobressaem através dos séculos (Duque, 1973) (Figura 3). A vegetação é composta, na estação chuvosa, de capins e ervas anuais, com arbustos e árvores de pequeno porte, espaçadas em largos intervalos. O terreno, muito erodido, ondulado e pedregoso, não permite o adensamento da vegetação (Duque, 1973). Ainda em meados da década de 1950, Duque (1953) afirmou ser o Seridó a região “mais erodida do Nordeste”; de modo a já não mais existir solo nas colinas e as árvores e os arbustos se localizam muito distanciados pela dificuldade de enraizamento. Figura 3. Vegetação seridoense. Fonte: Neto, 2016. 40 3.1.2. O homem e o sertão: processo de formação histórica e econômica da região do Seridó Os primeiros habitantes do Sertão do Seridó foram os índios Tapuia que viviam da caça, pesca e agricultura. A expansão da atividade pastoril do Rio Grande do Norte, que iniciou no litoral e seguiu em direção ao interior, fez emergir muitos conflitos entre as forças militares coloniais e os índios do sertão. Após o fim das batalhas, nos últimos anos do século XVII, foi retomada com mais afinco a doação de sesmarias para a ocupação do território por meio da pastorícia. De acordo com Melo e Pontes (2005), devido à impossibilidade da criação de gado na região litorânea, em virtude das plantações de cana-de-açúcar, os rebanhos foram empurrados para o interior. O Seridó apresentava condições essenciais para o desenvolvimento da pecuária, que além de contribuir para a formação dos povoados, foi considerada a principal atividade econômica até meados do século XIX. Porém, essa atividade não teve muito êxito, em virtude dos constantes períodos de estiagem. Nesse período, delinearam-se, a partir da doação de terras, os contornos da Ribeira do Seridó, região banhada pelo rio de mesmo nome, localizada na porção centro-meridional da Capitania do Rio Grande, onde foram criadas duas freguesias: a do Seridó, com invocação a Santa Ana (1748) e a do Acari, com invocação a Nossa Senhora da Guia (1835), desmembrada da primeira (Macedo, 2013). Os sesmeiros foram fixando-se no Seridó lentamente, trazendo suas famílias através de licença episcopal para construírem capelas. Ainda hoje a região é marcada pela religiosidade, muito voltada à religião católica, muito embora existam hoje diversas igrejas evangélicas. A identidade religiosa é um aspecto muito forte dos seridoenses, em especial a devoção aos santos católicos e a explicação de muitos aspectos da vida por meio da espiritualidade. De acordo com Luís da Câmara Cascudo (1984), “O século XVII é a época do povoamento do interior norte-rio-grandense”. Com essa afirmação o historiador sintetiza esse 41 período em que o sertão, após o extermínio de parte dos nativos, passou a ser verdadeiramente ocupado pela população de colonos brancos, pelos negros e mestiços, impulsionada pela pecuária. Junto aos colonos, aos currais e ao gado, a fé e a religiosidade também imprimiam seus sentidos nos caminhos de penetração da pastorícia no sertão, demarcando territórios através da edificação de templos cristãos com oratórios dedicados à Virgem Maria ou aos Santos (Macedo, 2013). Na segunda metade do século XVII, o sertão estava cheio de currais de gado que tomaram o que antes era lugar dos índios. As praças que hoje são centrais nas cidades do Seridó, antes eram pátios de fazenda onde a figura do vaqueiro aboiava o gado. Até meados do século XIX o Rio Grande do Norte era o principal fornecedor de gado de tração e corte para a Paraíba e Pernambuco (Diniz, 2008). A partir de 1760 os aldeamentos norte-rio-grandenses foram elevados à condição de vila, sendo Caicó a primeira vila do Seridó. Tal vila era denominada de Cidade do Príncipe, posteriormente chamada de Seridó, até 1890 quando o governador do estado, Joaquim Xavier da Silveira Júnior, a denominou de Caicó (Morais, 2005). Para Morais (2005, p. 68), no período de ocupação inicial, o “sertão parecia inóspito, o calor torrencial, a espinhenta caatinga, os solos pedregosos e a água nem sempre farta eram obstáculos que se interpunham à defesa do gado e da própria vida ante os ataques dos índios”. A ocupação exigia, antes de tudo, coragem e ousadia. As pessoas que ali se instalaram e passaram a habitar essa área de caatinga foram descobrindo alternativas econômicas e desenvolvendo, no transcorrer da história, estruturas de poder e políticas capazes de expressar territorialmente as especificidades institucionais baseadas na relação entre o ser humano e o meio (Sá, 2013). Outra expressiva característica da região seridoense diz respeito à veia política proporcionada pela história da formação territorial. Um período de forte disputa econômica e 42 política foi a época do coronelismo. No período da Primeira República (1889-1930), fase da história política do Brasil de maior florescimento do "coronelismo", o Rio Grande do Norte era considerado um estado pobre e atrasado, pois era dominado política e economicamente por duas oligarquias, primeiramente pelos Albuquerque Maranhão, os “coronéis do açúcar" e posteriormente pelos Medeiros do Seridó, os "coronéis do algodão" (Ferreira, 2003). De acordo com Ferreira (2003), a cultura potiguar, nessa época, oscilava entre a canavieira e a do algodão, contribuindo ainda mais para que o coronelismo se desenvolvesse no Estado, principalmente na Região Seridó, onde as oligarquias dominaram economicamente e politicamente grupossociais do nosso estado. A produção de açúcar no estado começou a decair e junto com elas decaíram também os “coronéis do açúcar”, oligarquia que se manteve por 25 anos quando cedeu para os Medeiros, legítimos representantes da cultura algodoeira do Seridó potiguar. Nesse período, Ferreira Chaves (1914-1919) realizou obras no intuito de facilitar o escoamento da produção algodoeira do Seridó, construindo estradas. Durante alguns anos, as oligarquias seridoenses dominaram o cenário político do Estado por terem poder sobre o “ouro branco” do estado que era o algodão. Assim sendo, iniciou-se o ciclo de governadores do Rio Grande do Norte, representantes dos “coronéis” seridoenses José Augusto Bezerra de Medeiros (1924-1928) e Juvenal Lamartine (1928-1930). Muitos outros personagens seridoenses marcaram a política de nosso estado, como: Antônio Fernandes Dantas (Interventor Federal- governador do RN entre 1943-1945), Mons. Walfredo Gurgel (educador e governador do RN entre 1966-1970), Dinarte Mariz (governador do RN entre 1956 e 1961), entre outros (Ferreira, 2003). Outra característica histórica seridoense, também comum em outras cidades do país, é que existe uma nítida correlação entre o ato de nomear logradouros públicos e tributos e o de homenagear pessoas ocupantes de postos do governo civil, militares e lideranças políticas 43 locais. Também é interessante saber, considerando nosso estudo, que uma praça da cidade de Caicó foi lugar de homenagem a um membro de família tradicional que ocupava lugar na política e que cometeu suicídio. Assim, a Praça Rui Mariz se constituiu em uma homenagem ao irmão de Dinarte Mariz, Rui Mariz, prefeito eleito em Caicó no ano de 1952 e que se suicidou dois anos depois (Araújo, 2013a). Podemos assim perceber que, no Rio Grande do Norte, a denominação Seridó tornou- se referencial de uma identidade espacial com forte conteúdo histórico-cultural (Morais, 2005). Assim, a região conforma uma certa personalidade, tecida no enredo de sua trajetória de formação, estruturação e reestruturação. De acordo com Morais (2005), a configuração do Seridó como região procede do processo de construção/reconstrução espacial implementada pela sociedade a partir das relações intra e extra-regionalmente estabelecidas. Outro aspecto relevante a mencionar é que o papel do algodão saiu de cena nos anos 80 devido aos custos de produção gerados pela disseminação da praga do bico, a entrada de tecidos sintéticos no mercado e a concorrência com algodão mais barato. E com a crise do algodão o mundo urbano cresceu e as principais alternativas de emprego eram a prestação de serviços, comércio, turismo de eventos e, em menor escala, a indústria. No Seridó, as ações empreendedoras da indústria têxtil ganharam força, com a produção de bonés, bordados, redes, panos de prato, confecções em geral e a indústria de alimentos regionais, como os derivados de leite, biscoitos, carne de sol e outros produtos típicos regionais. Até hoje esses são itens de grande aceitação, principalmente pela qualidade dos alimentos produzidos no Seridó (Sá, 2013). É possível afirmar que o Seridó norte-rio-grandense vive hoje um processo de reestruturação das diversas atividades econômicas como: a cajucultura, a agroindústria, cerâmica, a bonelaria, o artesanato e, especialmente, o turismo que nos últimos anos tem investido nos aspectos culturais e religiosos (Alves, 2007). 44 É importante destacarmos o lugar que os bordados ocupam na região do Seridó potiguar, especialmente no município de Caicó, enquanto tema pertinente ao contexto e no desejo de compreender o horizonte de sentido da região. A dinâmica do trabalho com o bordado, a questão do feminino e a transmissão intergeracional são aspectos instigantes na região. Como bem nos afirma Brito (2013), a Caicó de Sant’Ana, do gado e do algodão é também a “terra do bordado”. Nos afirma a autora que: Complementarmente ao trabalho com a lavoura e com a pecuária – ofícios tipicamente masculinos-, as mulheres da região bordaram e seguem bordando e, por meio destes bordados, reinterpretam e reinventam narrativas, sejam elas sobre o bordado e as suas bordadeiras, sobre o espaço doméstico (louvando a família pelos cuidados e pelos ornamentos da casa) e sobre a região por meio de perspectivas peculiares. Assim como as narrativas dos mitos revelam uma expressão simbólica, existem objetos construídos por representações estéticas que permitem vias de acesso para os sistemas simbólicos. A cultura do bordado, tão amplamente difundida em Caicó, aponta para esta possibilidade. Uma vez entendida como sistemas simbólicos, resultado visível de técnicas e de práticas sociais, é possível observar possibilidades de comunicação com padrões e perspectivas mais amplas, e que estão em constante circulação (Brito, 2013, p. 127). Para a autora, os bordados oferecem uma narrativa sobre os papeis sociais e o território, explicitando leituras sobre o Seridó através da estética e dos tecidos, “no qual emerge uma narrativa que apazigua a terra árida, a geografia difícil, o trabalho árduo, a luta entre o selvagem e o processo de colonização” (Brito, 2013, p. 127). Ainda sobre a região do Seridó, não há como deixar de mencionar seca como um aspecto negativo do morador seridoense ainda nos dias atuais. Mesmo com os avanços tecnológicos, o morador do Seridó continua muito vulnerável às intempéries do clima. A grande seca de 1877 alcançou até mesmo a elite da região, marcando, como afirmam Morais e Dantas (2006, p. 119), “um ponto de partida de um ciclo diferente”. De acordo com Sá (2013), a seca foi, durante a história do Seridó, um ataque violento à autoestima da população, pois tinha como principal efeito a destruição da produção. Os processos de desertificação na região contribuíram para a 45 incidência da pobreza que afetou a população rural em maior proporção que a urbana (Silva, 2010a). A saída da população da zona rural para a urbana, por causa da seca, foi um período marcado por dificuldades. Muitos animais foram mortos, as plantações destruídas e um surto de doença alastrou-se na região devido a presença de mosquitos e de moscas que eram atraídos pelos cadáveres dos animais. A população rural, consciente desses problemas, buscou uma realidade diferente para seus filhos; “as transformações no setor educacional resultaram numa aceleração da migração do meio rural para o urbano” (Morais, 1999, p. 44). Com o crescimento do sistema de ensino no município de Caicó, muitas famílias, prejudicadas pela seca, passaram a vislumbrar na formação escolar uma possibilidade de um futuro melhor para seus filhos. É uma característica da região o forte incentivo ao estudo e à boa formação profissional. É comum observarmos os pais colocarem os filhos nas melhores escolas no intuito de posteriormente ingressarem nas instituições públicas de ensino superior. Muitos jovens saem de suas cidades para cursarem graduações na capital, retornando às suas cidades para visitar os familiares, geralmente nas festas dos padroeiros ou outras festividades ao longo do ano. Sá (2013), ao entrevistar o povo seridoense, elencou algumas categorias que buscam explicar a cultura da Região Seridó, evidenciando entre elas a gastronomia, as festas religiosas e características do povo seridoense. Através de sua pesquisa foi possível observar que a identidade cultural do seridoense deu-se através dos já mencionados ciclos produtivos do gado e do algodão, da religião, que se expressa nas festas dos santos padroeiros, da presença sentida até hoje dos judeus e holandeses protestantes, que ali encontraram refúgio, do índio e do negro que ajudaram a compor esse cenário. As festividades seridoenses aparecem como um grande fator de identidade cultural, sendo que as festas religiosas são aquelas que se destacam, podendo-se observar, nesse período46 festivo, o retorno de muitas pessoas que saíram para outras cidades (Sá, 2013). “Nos meses que antecedem a festa, são feitas reformas nas casas, a igreja é pintada e todos os preparativos são feitos para as festividades (...) São feitos bailes, jantares, leilões, bingos e rifas” (Sá, 2013, p 7). Em sua pesquisa, Sá (2013) interrogou os entrevistados a respeito das características positivas e negativas do povo seridoense. Com relação aos aspectos positivos, os entrevistados responderam que se tratava de um povo cuidadoso, corajoso, autônomo e lutador, evidenciando a necessidade de enfrentar as dificuldades da região para conseguir “vencer na vida”. As características negativas elencadas foram: ser fechado ao novo, interiorano e bairrista, demonstrando a dificuldade do seridoense em se adequar à modernidade e à globalização, bem como a necessidade de preservar a cultura local. Essa perspectiva da autora trata-se de uma das leituras possíveis acerca das características da região. Nos chama atenção em sua pesquisa essa característica de “povo lutador” quando observamos o fenômeno do suicídio. Alguns questionamentos podem ser levantados diante de tal característica: o que faz um povo reconhecido pela luta, pela força diante das adversidades, escolher o suicídio como possibilidade? Será que o povo seridoense tem encontrado espaço em sua sociedade para lidar com as suas fraquezas e limites? O que significa ser forte/lutador nessa cultura e quais as possibilidades de ser nesse lugar? Ainda sobre a religiosidade popular, podemos afirmar que ela, especialmente na cidade de Caicó, é marcada por ultrapassar as fronteiras oficiais. Tal religiosidade possibilita aos seridoenses a invenção dos seus próprios intercessores consoante às dificuldades que ameaçam o seu cotidiano (Alves, 2007). Ainda hoje o turismo religioso é muito presente na região, trazendo implicações socioeconômicas relacionadas ao potencial turístico dos municípios, enquanto um produto mercadológico. 47 Nas suas tradicionais festas religiosas, os peregrinos, os turistas e os moradores locais se tornam produtos e produtores de um evento de grande importância socioeconômica e cultural para a região do Seridó. O turismo religioso seridoense traz em cena a figura do peregrino, como aquele que viaja visando cumprir estritamente suas promessas ou votos feitos ao santo protetor (Alves, 2007). Para compreendermos ainda mais o cenário deste estudo, é importante destacarmos que Caicó é o maior município do Seridó e que a sua povoação começou na Fazenda Penedo, em 1735. A cidade está localizada na região centro-sul do estado, fica distante cerca 269 km da capital e possui cerca de 68.222 habitantes. A Festa de Sant’Ana de Caicó, por sua vez, aparece como um bem cultural da mais alta importância para a vida dos sertanejos do Rio Grande do Norte, e para pessoas que, vindas das mais diversas partes do Brasil e do mundo, acorrem para o Seridó Potiguar no período da Festa (IPHAN, 2010). Ainda sobre a religiosidade no município de Caicó, Araújo (2013b) vai nos afirmar que o relato do povoamento do colonizador dessa cidade está ligado a lendas sobre a sua origem e não somente aos fatos históricos. Existem diferentes versões lendárias para o surgimento da região, mas o conteúdo central é bem explicitado pela lenda do vaqueiro transcrita abaixo e retirada na íntegra do trabalho de Medeiros (2012, p.36): O povo antigo dizia que há muito tempo, em épocas imemoriáveis, existia no Sertão uma lendária tribo indígena que se denominava Caiacó. Povo forte e corajoso que, dizem, se considerava invencível, pois tinham a vantagem de poder contar com o auxílio de seu Deus supremo, Tupã (o trovão). Certa vez o Deus nativo, gerado dentro do seio da terra que lhe era própria, se encontrava encarnado no corpo de um touro indômito que habitava um grande mofumbal de certo rincão. Naquela época não existiam por aquelas terras os currais, sendo, nesse sentido, necessários indivíduos rústicos e de coragem para pastorear o gado vacum. Foi quando, desavisadamente e alheio ao risco que corria, um vaqueiro se aproximou. Não se sabe ao certo o porquê, mas o ocorrido foi que uma novilha assustada havia se desgarrado do rebanho e, como de costume, estes valentes homens sertanejos nunca deixavam uma de suas criações para traz, ao menos não sem uma boa luta de “pega”. Ao se aproximar do refúgio da divindade, ouviu o vaqueiro o badalar do chocalho da novilha, sinalizando sua presença. Sem pestanejar, na ânsia de encontrar a cria perdida, o homem adentrou no mofumbal – lugar sombrio, assustador. Esgueirando-se pelos cipós secos, perseguia o rastro do animal. 48 Surpreendido, percebeu que o que rastreava não era a novilha, mas sim a perigosa besta possessa pelo espírito indígena. Fera que, enraivecida pela incômoda presença, não tarda em atacá-lo ferozmente. Percebendo que não tinha recursos para lutar nem fugir, o vaqueiro, como último expediente, prostra-se em genuflexão e apela pelo auxílio de sua santa de devoção, Sant’Ana, prometendo-lhe construir um templo sagrado em sua homenagem se esta o salvasse do iminente perigo. Ouvindo as preces do devoto, de súbito a santa aparece e atende-lhe o pedido. Eis que o espírito de Tupã é expulso do touro, transformando-se em uma serpente gigante que logo se refugiou em um poço próximo dali, que passou a ser conhecido como “Poço de Sant’Ana” – reservatório que, segundo a tradição, nunca mais secou. Mas, mesmo derrotado, o Deus bravio não se entregou sem que antes lançasse uma terrível maldição sobre a localidade. Disse ele que, caso o poço secasse ou mesmo se o rio transbordasse ao ponto de suas águas atingirem o altarmor da igreja matriz, retornaria para se vingar, destruindo tudo – o poço, o povo devoto da região, a matriz e tudo que se encontrasse em volta dela, ou seja, a cidade descendente da peleja (Medeiros, 2012, p.36). Figura 4. O nascimento de Caicó. Fonte: IPHAN, 2010. A capela, assim, teria sido construída em 1695 em um local próximo à Casa Forte do Cuó. A proteção de Sant’Ana teria iniciado no episódio descrito, o que justificaria sua escolha como a padroeira do município. Por isso, conforme Araújo (2013b), todos os anos é organizada uma festa em sua homenagem e agradecimento pelas graças alcançadas. As festas a Sant’Ana, desde o século XVIII constituem-se por “repiques de sinos, missas, recitações de orações, procissão conduzindo um andor com a imagem da santa, seguido por um cortejo formado por 49 sacerdotes, agricultores, vaqueiros e criadores das regiões vizinhas à atual Matriz de Sant’Ana” (Araújo, 2013b, p. 3). De acordo com o Dossiê do Instituto do patrimônio histórico e artístico nacional (IPHAN) que descreve a Festa de Sant’Ana de Caicó, ela é reconhecida no estado por sua grandiosidade, bem como por atrair fazendeiros e seus familiares vindos das cidades próximas e negociantes de Pernambuco, Ceará e Paraíba (IPHAN, 2010). A festa oferece à população da cidade e aos visitantes espetáculos diversos, como queima de fogos, apresentações teatrais, de poetas e cantores. Em tempos longínquos, havia também a obrigação de que os proprietários de imóveis na cidade fizessem a pintura de suas casas, reparos nas calçadas, e o poder público realizasse a limpeza das ruas e o reforço na iluminação. Dando assim um novo aspecto à paisagem urbana da cidade em dias de festejo, causando uma transformação do ritmo de vida da localidade (Araújo, 2013b; IPHAN, 2010). Figura 5. Foto histórica da Festa de Sant’Ana. Fonte: IPHAN, 2010. 50 Figura 6. Festa de Sant’Ana 2007 Fonte: IPHAN, 2010. Como pudemos perceber nessas poucas linhas, a Festa de Sant’Ana, historicamente, tem uma grande relevância na vida cultural da cidade de Caicó e da região Seridó como um todo. Nos meses de julho, diversos são os eventos,sociais e religiosos, que compõem o festejo, feito por contribuições diversas como de divertimentos e de experiência com o sagrado, que formam na Festa de Sant’Ana uma ocasião única para a sociabilização (Araújo, 2013b). Para Araújo (2013b), o povo caicoense é apresentado em várias reportagens como muito crente no poder miraculoso de Sant’Ana, capaz de unir passado e presente, relevante por fazer parte da história daquela comunidade local. Devoção intensa o bastante para driblar a distância imposta pela realidade de vida de alguns caicoenses, que necessitam sair de sua cidade natal para conseguirem melhores oportunidades de vida em outros lugares. Sendo os dias de festa capazes de conquistar o retorno do caicoense distante, para fortalecer sua devoção, rever sua cidade e para confraternizar com familiares e amigos. A ideia do caicoense enquanto “filho de Sant’Ana” é muito forte nas reportagens, levando- nos a pensar que é praticamente impensável conceber que exista algum caicoense que não tenha se rendido ao poder da avó de Jesus Cristo. Cada reportagem reforça esta ótica de veiculação identitária do caicoense à Sant’Ana, e, por extensão, ao catolicismo. Trata-se de afirmar um compromisso com a ideia de um povo religioso, de filhos de Sant’Ana. Como 51 era de se esperar, em nenhum momento é relatado qualquer prática religiosa não católica nas páginas do jornal – quando não se escreve sobre Sant’Ana, o texto recai sobre Nossa Senhora do Rosário dos Pretos (Araújo, 2013b, p 6). Tal devoção a Sant’Ana é tão presente na região que neste ano assolado pela pandemia, foram encontradas maneiras diferentes de vivenciar a festa, visto que o contato físico não foi possível. Foram celebradas novenas virtualmente, bem como leilões e atrações culturais que também fizeram suas apresentações desse modo. A procissão de Sant’Ana, considerada o cume da festa, não foi possível de ser concretizada. Ao invés da procissão, a imagem da santa sobrevoou a cidade em uma aeronave, como que a abençoar a população e trazer esperança em tempos de pandemia. Destarte, é nítida a importância das lendas e histórias que povoam o imaginário popular enquanto patrimônio cultural do povo caicoense. De acordo com Alves (2007), a religiosidade se expressa na fé aos santos protetores, contribuindo de forma decisiva para um forte sentimento de identificação e de pertencimento à região, fazendo com que as festas religiosas se tornem verdadeiros espetáculos de fé e devoção. Não sabemos, contudo, como se sentem as pessoas que não se identificam com essa religiosidade tão expressiva, bem como as consequências desse modo de ser cultural. 3.2. O Seridó e o fenômeno do suicídio Neste momento, adentraremos com mais afinco em um dos desafios que a população seridoense tem enfrentado: o fenômeno do suicídio. É comum para o seridoense, em especial os caicoenses, escutarem notícias de que os números de suicídio na região estão aumentando. Jornais e blogs da região têm escrito sobre a preocupação com a frequência com que esse fenômeno tem ocorrido. Desse modo, no intuito de conhecer os aspectos epidemiológicos do 52 suicídio no Seridó potiguar, realizamos uma pesquisa documental junto aos laudos cadavéricos do Instituto Técnico-Científico de Polícia de Caicó (ITEP), situado no município de Caicó. Tal estudo verificou as taxas de mortalidade por suicídio na região do Seridó-RN, no período de 2006 a 2016, analisou a distribuição temporal e local dos coeficientes de mortalidade por suicídio no mesmo período e descreveu as características epidemiológicas dos suicídios, de acordo com as seguintes variáveis: sexo, idade, estado civil, escolaridade e método utilizado. O ITEP-Caicó é responsável por dados estatísticos sobre perícias de todas as cidades da região seridoense. Através da pesquisa realizada, foi observado que nos 24 municípios que constituem a Região do Seridó ocorreram 388 óbitos por suicídio no período de 2006 a 2016. As mortes de indivíduos do sexo masculino corresponderam a 82,55%, enquanto o total de mortes do sexo feminino foi de 17,45% do total de suicídios. Entre os homens, o maior percentual de óbitos ocorreu no grupo etário de 30−39 anos, com 53 das mortes (19%), seguido pelos indivíduos na faixa etária de 40-49 anos com 18,64% dos óbitos. Entre as mulheres a faixa etária mais atingida foi a de 50-59 anos com 12 (20,34%) óbitos, seguido pelos indivíduos das faixas etárias de 30- 39 (15,25%) e 60-69 (15,25%). Em relação à idade, no presente estudo, a média de idade de suicídios dos homens e mulheres foi aproximadamente 47,10 anos. Ainda observamos que tanto para os homens quanto para as mulheres os óbitos predominaram nas pessoas solteiras (47,34%), seguidos dos casados (37,28%). O local de ocorrência mais comum foi a própria residência do sujeito, registrando 287 dos casos (84,91%). Outro dado que desperta atenção é o de que 7,40% dos suicídios foram cometidos em zona rural, mesmo os sujeitos sendo residentes de zona urbana. Tal informação nos faz pensar no vínculo que os moradores teriam com a zona rural ou mesmo uma forma de afastar-se da 53 população urbana. Como vislumbrado na história da região, a zona rural exerceu e ainda exerce influências na vida da população. O método mais empregado para consumar o suicídio foi o enforcamento, responsável por 88,76% das mortes, seguido por arma de fogo com 5,33% das mortes. Entre os homens, o enforcamento foi o método empregado em 87,46% na execução do suicídio, seguido por uso de arma de fogo (6,45%). Também entre as mulheres, as mortes por enforcamento alcançaram altos valores com 94,92% das mortes, seguidos por envenenamento, afogamento e arma branca, todos com 1,69% das mortes. Observando os coeficientes de suicídio ao longo dos anos de 2006 a 2016, na Região do Seridó verificamos os coeficientes no que condiz ao sexo feminino e masculino. Através dos dados ficou evidente o crescente número de óbitos por suicídio no Seridó ao longo dos últimos 11 anos, saindo de 9,35 em 2006 para 17,74 em 2016; o coeficiente de mortalidade por suicídio quase dobrou. No que concerne ao sexo, houve um crescimento do coeficiente, tanto em homens quanto em mulheres, havendo uma suave queda entre 2015 e 2016 no sexo masculino. O coeficiente atual do Seridó ultrapassa o coeficiente global que corresponde a 11,4 a cada 100 mil habitantes. 54 Figura 7. Coeficiente de mortalidade por suicídio no Seridó-RN: número de suicídio por 100 mil habitantes (2006 a 2016). Na Tabela 1 encontramos os coeficientes de mortalidade por suicídio em diferentes localidades, possibilitando o estabelecimento de comparativos. O coeficiente do município de Caicó entre 2006 e 2016 foi de 16,46, porém, ao considerarmos o ano de 2016 esse valor cresce significativamente, alcançando o índice de 50,44. Tal coeficiente pode ser considerado muito elevado, quando comparado a outros índices como o do Nordeste (4,30), o do Brasil em 2015 (5,70) e mesmo o global (11,4). O valor atribuído ao coeficiente de suicídio de Caicó ultrapassa o coeficiente da Guiana em 2012, considerado o maior coeficiente do mundo (OMS, 2014). Tabela 1. Comparativo dos coeficientes de mortalidade por suicídio em diferentes localidades. Local Coeficiente Caicó (Ano-2016) 50,44 Caicó (2006-2016) 16,46 Brasil (Ano-2015)1 5,70 Nordeste (Ano-2011)2 4,30 Guiana (Ano-2012)² 44,20 Fonte: 1- Brasil, 2015b; 2- OMS, 2014a 55 O número absoluto de óbitos por suicídio no município de Caicó, quando comparados ao do Seridó-RN, entre 2006-2016 (ver Figura 8), demonstra que o município de Caicó influencia diretamente nas expectativas de óbitos por suicídio na região. Figura 8. Número absoluto de óbitos por suicídio no município de Caicó e no Seridó-RN (2006- 2016). Averiguamos que 48,22% dos laudos não continham o instrumentoutilizado para o suicídio. Entre o total de laudos, a corda foi utilizada como instrumento por 36,39% dos óbitos, seguido de arma de fogo. Tanto as mulheres (44,07%) quanto os homens (34,77%) escolheram como instrumento a corda; apenas os homens optaram pela arma de fogo como instrumento em 6,45% dos casos. A causa de morte descrita pelos médicos legistas encontrada em 82,25% dos laudos foi a asfixia mecânica que estão relacionadas aos altos números de enforcamentos na região. Ainda a respeito da caracterização da amostra, os laudos apontaram que 80,77% dos sujeitos residiam em zona urbana e 19,23% em zona rural. As ocupações mais encontradas foram: agricultor (27,51%), aposentado (20,71%), estudante (8,28%) e pedreiro (7,10%). É importante ressaltar que estudos sobre a mortalidade por suicídio no Rio Grande do Norte ainda são escassos. Quando existem, estão restritos a populações mais específicas e se tornam mais raros aqueles que utilizem metodologias de tendências e análises espaciais. Sem o 56 entendimento de como o fenômeno se apresenta no espaço, as ações de saúde tornam-se ineficientes, uma vez que não há um direcionamento para grupos e regiões vulneráveis. Um estudo que merece destaque é o de Santos, Barbosa e Severo (2018) que realizou uma análise espaço-temporal dos suicídios no Rio Grande do Norte. Os resultados desse estudo apontaram para diferenças na distribuição da mortalidade nas regiões do RN, sendo as mais desenvolvidas as que apresentam maiores taxas. A partir desse dado, é possível inferir que o suicídio está associado às melhores condições de vida. Entretanto, a literatura mostra-se escassa com estudos que abordem os possíveis determinantes que expliquem as elevadas taxas na região do Seridó. As autoras também observaram que o setor agropecuário se apresenta fortemente enraizado na cultura e economia do Seridó. Além disso, chamam a atenção para as altas taxas de suicídio e altas taxas de envelhecimento da Região do Seridó, estabelecendo relação entre esses dois fenômenos. Dado que pode ser explicado pela mudança na transição demográfica, conceituada como a passagem de um elevado padrão de natalidade e mortalidade, para uma realidade de baixos valores dessas taxas. Desse modo, um dos efeitos analisados nesse processo é o envelhecimento populacional, claramente observado com o aumento no número de idosos. Os achados desse estudo fortalecem a necessidade de se buscarem explicações para as diferenças dos índices de suicídio em seu contexto local, apontando a importância da organização da vigilância epidemiológica e a pesquisa focada para os municípios de maior ocorrência, de forma a favorecer uma compreensão desse agravo na saúde pública, bem como melhorar as possibilidades de prevenção (Santos, Barbosa & Severo, 2018). 57 4. Capítulo III – Compreendendo o ser à luz da Fenomenologia Hermenêutica Heideggeriana A grande viagem A existência humana É comparável a um trevo São caminhos que se cruzam Em baixo e alto relevo Trilhá-los todos não posso Ficar parado não devo Desistir é morrer por perto Vou longe se me atrevo Os solavancos da vida Abastecem o meu acervo Sou metamorfose ambulante Razão pura e puro nervo Quando não consigo andar Me concedo descansar E algum poema escrevo Enquanto sigo viagem Ideias povoam a mente Perguntas desconcertantes Me faço frequentemente Dilemas existenciais Me deixam impaciente E se eu tivesse viajando Por estrada diferente? Estaria eu mais feliz? Ou nem tanto descontente? Na ausência de respostas A esta dúvida persistente Chego à conclusão sozinho Que a gente segue o caminho E o caminho escolhe a gente. Gecílio Souza 58 4.1. A ontologia heideggeriana como caminho para a compreensão do suicídio. O filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976) ficou conhecido após a publicação de sua obra intitulada Ser e Tempo, em 1927. Contudo, anos antes dessa publicação, o filósofo ministrou diversos cursos nos quais a sua genialidade filosófica já despertava a atenção dos intelectuais e surgia o germe de elementos essenciais que constituiriam sua obra posterior. A reflexão de Heidegger em Ser e Tempo, que é a sua "ontologia fundamental", tornou-se um marco do pensamento filosófico do século XX e continua a repercutir nos dias atuais. Movido pela atitude fenomenológica, Heidegger começa a abrir-se às novas indagações que irão culminar na busca pela questão do ser, construindo assim seu caminho de pensamento enquanto filósofo. É em Ser e Tempo que a proposta de uma analítica da existência manifesta- se, assumindo a questão do sentido do ser (Seinsfrage) enquanto tempo (Escórcio, 2016). Diferentemente da metafísica tradicional, a investigação fenomenológica de Heidegger é de caráter ontológico, ou seja, procura as determinações essenciais do ser dos entes. Assim, tem a pretensão de situar-se aquém do plano empírico ou ôntico (dos entes) e de constituir-se na qualidade de possibilidade do mesmo (Barbosa, 1998). Desse modo, as estruturas ontológicas explicitadas na análise do Dasein (como ocupação, disposição, compreensão, discurso) não devem ser confundidas com aqueles que seriam os seus correlatos ônticos ou empíricos (afeto, desejo, conhecimento, linguagem) - na verdade, tais estruturas são a fundamentação existencial dos mesmos (Barbosa, 1998; Heidegger, 1927/2012). Para Heidegger, o ôntico está dado no mundo, e é referente ao ente (objetos inanimados, plantas e animais; como também o próprio homem). O ontológico, por sua vez, é relativo ao ser, remetendo-se aos aspectos constituintes do ser, como, por exemplo, os que são denominados por Heidegger de existenciais (o cuidado, a linguagem, entre outros). 59 Heidegger denomina de existenciais as estruturas ontológicas que constituem o ser-aí. Os existenciais não são "estruturas" através das quais se compõem todo o ser ou sua essência, analiticamente falando. Ao contrário, para o filósofo, todo o ser-aí pode e deve ser apreendido em cada existencial. Existenciais são, assim, os elementos, os índices do modo de ser do ente denominado ser-aí, cuja constituição fundamental é ser-no-mundo (Kirchner, 2016). De acordo com Vasconcelos (2018), outro aspecto que desperta atenção na ontologia heideggeriana é a utilização dos hifens com o intuito de unir palavras para assumirem um novo significado. Heidegger tinha o objetivo, de acordo com a autora, de atribuir uma nova forma de compreensão das palavras, desvinculando-as do significado que elas têm no senso comum. Ser no mundo pode ser entendido como um ser que está no mundo, ou dentro do mundo; ser-no- mundo expresso dessa forma, por sua vez, revela uma ligação indissociável, uma relação diferente de estar contido no outro, mas como unidade separada; passando a significar, não ser compreendido sem o outro, de maneira isolada. Criando sua terminologia própria, o filósofo também denomina o modo de ser do homem como Dasein, significando ser-aí. Esse termo procura colocar em realce o modo como a questão do ser aparece para esse ente que nós mesmos somos: o ser reside na dimensão ontológica, em nossa experiência de tornar-se, vir a ser o que se é, em uma relação íntima com o ser mesmo (Heidegger, 1927/2012; Braga & Farinha, 2017). Heidegger retoma a questão do Ser partindo da compreensão da existência no cotidiano do homem. É na busca deste sentido do ser que ele desenvolve uma analítica existencial. O modo de ser original do ser-aí é o fato de ser-no-mundo e, existindo no mundo, o ser sempre se abre para o Dasein, justamente por ele possuir o caráter de abertura (Azevedo, 2013). Nesta perspectiva, Heidegger apresenta existenciais que se mostram relevantes para pensar o suicídio. No intuito de aprofundarmos essa compreensão da ontologia heideggeriana 60 que inspira o nosso estudo, seguiremosabaixo com a explanação de alguns existenciais que iluminam nossa compreensão sobre o fenômeno do suicídio. A escolha dos existenciais explanados deve-se à temática e ao objetivo do estudo. Estudar o suicídio nos faz refletir sobre a pessoalidade e impessoalidade do Dasein, a facticidade do Ser, o Cuidado e o ser-para-a- morte. Também observamos a importância de pensar sobre a temporalidade e historicidade que atravessam a existência humana no ato suicida e que nos convocam a pensar os modos de existir no Seridó e a possibilidade de compreensão do fenômeno da morte nesse espaço. Pelo tipo de pesquisa escolhida também reservamos um momento para pensar a linguagem e a compreensão em Heidegger. Primeiramente, é importante entender que é a partir do modo de se relacionar consigo mesmo, com os outros e com as coisas que o ser humano se constitui como ser-no-mundo, sendo a impessoalidade seu modo-de-ser cotidiano. Para Heidegger, o homem habita o mundo de maneira muito diferente dos demais entes (não humanos) porque ele é o único dotado do privilégio de compreender a si mesmo a partir da sua própria existência (Maux, 2014). Assim, o ser humano seria o único cujo próprio ser encontra-se em questão existindo aí o grande peso de ter que ser. Questionar o próprio ser corresponde, pois, ao plano ontológico, também sendo chamado de existencial por considerar o sujeito como esse ser-no-mundo, relacionando-se com as pessoas do seu mundo social, entes que Heidegger denomina Dasein, e também com as coisas, denominadas entes simplesmente dados (Braga & Farinha, 2017). Enquanto os outros entes estão no mundo, o ser humano não está no mundo, mas habita o mundo: Ora, se o homem tem mundo e se ele ultrapassa as fronteiras geográficas, dizendo respeito, justamente, à abertura de sentido, cada homem tem o seu mundo, aquele mais próximo, familiar, em que, de fato, ele vive em relação com as coisas e com os outros homens que lhe são mais próximos. O mundo no qual o homem se compreende. Esta compreensão contém, numa abertura prévia, numa familiaridade com o mundo, o contexto em que se movem suas referências. O mundo, reafirmamos, não é só geográfico, mas social, histórico e cultural, no 61 qual foi lançado ao nascer e no qual existe e se constitui enquanto homem. Tal característica do Dasein, de somente poder ser compreendido a partir da sua vinculação ao tempo, Heidegger denomina de temporalidade (Zeitlichkeit) (Maux, 2014, p. 68). Dasein e mundo fazem parte de uma mesma realidade por Heidegger denominada ser- no-mundo. Utilizando essa expressão, ele quer referir-se a ser e mundo como um “fenômeno unitário” (Heidegger, 1927/2012), isto é, não redutível a uma soma de partes que se juntam. Enquanto ser-no-mundo, o Dasein existe lançado no mundo, como ser-em, junto ao ente e com outro Dasein. O ser-em, como um dos momentos da estrutura ser-no-mundo, diz respeito à facticidade do Dasein, isto é, à sua existência fática no mundo, onde cotidianamente ele se relaciona com os entes (Braga & Farinha, 2017). É no relacionamento com os entes em suas ocupações que o Dasein vai estabelecendo relações sejam elas de proximidade, distanciamento e direcionamento junto aos entes que lhe vêm ao encontro, de acordo com os seus interesses e afazeres. Ao nascer encontramo-nos inseridos em um mundo que não escolhemos e que possui culturas, regras e valores próprios. Nascemos inseridos em modos de pensar socialmente estabelecidos, em uma determinada época histórica. Nascer em determinada cultura e época não foi uma escolha nossa. É a essa característica que Heidegger chama de facticidade. Diante dessa facticidade do homem é possível pensar em quais condições factuais encontram-se e percebem-se as pessoas que tentam suicídio, pois é na facticidade que o homem se põe frente a frente com suas adversidades, tensões e afetos. Como lidam com a condição limitante de ser-no-mundo? Como estão inseridos em suas culturas, regras e valores? Como eles experienciam essa facticidade? Porque apesar da facticidade caracterizar-se pela maneira como o ser se põe diante das coisas, o modo do experienciar mesmo não está incluído nessa experiência fática. O acesso ao “como” do experienciar só é possível através da hermenêutica, que faz com que a facticidade se realize no seu “como”. 62 É nesse contexto da facticidade que o Dasein irá então projetar-se segundo as possibilidades, mas sempre limitado (Heidegger, 1927/2012). Desse modo, “fático chama-se algo que ‘é’ articulando-se por si mesmo sobre um caráter ontológico, o qual é ‘desse modo’” (Heidegger, 1927/2012). O autor de Ser e Tempo mostra que o ser que apreendemos é o ser que se apresenta a nós em sua ocasionalidade, em seu “encobrir-se e velar-se” (Heidegger, 1927/2012), a partir de um horizonte de sentido que norteia o mundo e está circunscrito no tempo. Conforme mencionado anteriormente, ele propõe que a apreensão mais adequada do ser se dá pela hermenêutica e que essa se configura como “determinada unidade na realização (…) do comunicar, ou seja, da interpretação da facticidade que conduz ao encontro, visão, maneira e conceito de facticidade” (Heidegger, 1927/2012). Cabe lembrar, contudo, que a hermenêutica não consiste em um método de estudo do ser, mas é, antes de mais nada, um modo de compreender o ser que, por seu caráter interpretativo e comunicativo, corresponde à facticidade da estrutura ontológica. Cardinalli (2015) vai nos dizer que quando Heidegger escreve sobre o ser-aí no modo como ele se mostra em sua cotidianidade, ressalta que o ser-aí se expõe em um movimento de obscurecimento de si próprio. Na cotidianidade, essa maneira de existir, denomina-se como impessoalidade, pois não pertence a alguém específico e sim, a todo mundo ou “a gente”, aludindo-se aos modos de ser com os outros, nos quais um não se diferencia do outro. Ao mesmo tempo em que promove o distanciamento, a uniformidade e o nivelamento de todas as possibilidades de ser por meio do caráter social da interpretação do mundo e do ser-no-mundo, a impessoalidade vai retirar a responsabilidade de cada ser-aí, posto que prescreve todo julgamento e decisão, assim, “todo mundo é outro e ninguém é si próprio” (Heidegger, 1927/2012, p. 83; Cardinalli, 2015). 63 Dessa maneira, para Heidegger, na maioria das vezes, o modo cotidiano em que os outros se apresentam para mim e em que eu estou com os outros é o modo da impessoalidade. Nesse sentido, procuramos desenvolver uma socialidade impessoal da existência, ressaltando o caráter positivo e originário da estrutura da impessoalidade. Aquele que atua diariamente não é propriamente meu, é uma espécie de coletivo impessoal (Tonin, 2015a). Os outros não se apresentam como sujeitos em suas individualidades, pelo contrário, eles se encontram na relação cotidiana, submetidos e absorvidos uns com os outros. Na maioria das vezes, o estar em relação com outros na cotidianidade é destituído de individualidade própria, a presença dos demais e a minha presença frente a outros não ocorrem na forma da individualidade singular e individual, mas, justamente sem identidade própria e pessoal, sendo o que o filósofo chama de impessoalidade (Heidegger, 1927/2012). De acordo com Tonin (2015a), trata-se de uma espécie de desresponsabilização, estar disperso em meio aos outros e retirar de si o peso das decisões. “Em outras palavras, não é preciso julgar e avaliar de forma pessoal, pois, essas decisões já estão tomadas e publicamente niveladas. As avaliações já estão feitas, como se houvessem critérios públicos de avaliações dos quais nos valemos” (Tonin, 2015a, p. 67). A impessoalidade tem uma cátedra de estabilização das significações, é isso que constitui dizer que não é indispensável a cada instante tomar decisões sobre como se trabalha ou se relaciona com os entes. O caráter impessoal desempenhaum papel primordial na analítica da existência, contudo, devemos ter atenção perante os possíveis equívocos. Não devemos pensar a impessoalidade como um estado de não ser um “eu mesmo”, como se Heidegger estivesse falando que na maioria das vezes, eu estou distraído em relação a mim mesmo. Ao contrário, é exatamente no meu “eu mais próprio” que me encontro desresponsabilizado. Nada evita que o 64 indivíduo possa responder por si mesmo e que aconteça a modificação existencial do singular, aquilo que o filósofo denomina de ser autêntico (Tonin, 2015a). Nessa perspectiva, pensando no suicídio como um modo de se lidar com a angústia, que é constitutiva do Dasein, eliminando-a; podemos refletir se a impessoalidade, embora necessária, pode aparecer como uma fuga à ideação suicida. A impessoalidade, o mundo das ocupações poderiam tornar-se modos de lidar com o desejo pela própria morte? Posto que, conforme afirma Barcellos (2014), a impessoalidade cotidiana compreende a morte tomando-a por base como algo de natureza ontológica diversa da do Dasein, ou seja, como algo de uma natureza que não se adequa ao seu modo de ser. Assim sendo, no movimento da pessoalidade e a angústia pode viabilizar a crise do projeto do impessoal, abrindo espaço para que a singularização se dê. “Na angústia, há um repetido esvaziamento do sentido que sustenta o movimento existencial cotidiano, e tudo, então, se mostra como possibilidade” (Feijoo, 2010, p 171). O suicídio, nessa perspectiva, pode ser pensado como uma manifestação de desassossego, um tormento que tem levado muitas pessoas à morte voluntária e que acontece num mundo que tem favorecido o vazio existencial. A sociedade e o mundo seguem criando modos de ser e viver que nos distanciam de uma existência singularizada na qual viver faça sentido (Dutra, 2018). E nessa sociedade, regida pela técnica do mundo moderno, o homem segue não questionando o sentido das coisas que nos demandam. Assim, para Heidegger (1959, p. 12), “o homem atual está em fuga de pensamento”. Quando mencionamos a angústia ser constitutiva do Dasein, entendemos a mesma, em Heidegger, como disposição afetiva que aparece, em sua relação ontológica com a compreensão e que lança o Dasein em sua espacialidade. A disposição afetiva proporciona ao Dasein sentir o mundo, fazendo com que a compreensão em relação às coisas seja vivenciada sempre na perspectiva dos estados de humor. A disposição, assim, proporciona ao Dasein um estado de 65 sintonia com o que se apresenta. Para Heidegger (2012/1927) a disposição afetiva é uma estrutura ontológica que constitui a nossa abertura para o mundo e os estados de humores específicos serão, por sua vez, concretizações ônticas da disposição afetiva originária. Neste sentido, o Dasein vivencia, enquanto existência, um caráter de constante abertura. Isso deve-se ao fato do homem ser entendido, na perspectiva heideggeriana, como ser- para-fora, é sempre ser-no-mundo, tendo sempre os outros entes referenciados. O Ser é abertura que se compreende, clareira que possibilita a manifestação dos outros entes num horizonte histórico. O aí do termo Ser-aí (Dasein) indica este caráter de abertura. Heidegger estabelece três existenciais através dos quais ocorre essa abertura do Ser: a disposição afetiva, a compreensão e a linguagem. A abertura do Dasein para o mundo dar-se-á por meio da disposição afetiva (Befindlickeit) que desperta o interesse do ser, como um estado de ânimo que o move. Estar no mundo é ser afetado por diferentes humores como o tédio, indiferença, entre outros estados de ânimo. Assim, pensar o Dasein como abertura é pensá-lo sempre com uma disposição afetiva, humor ou afinação. A disposição afetiva acaba conduzindo o modo como o homem relaciona- se com os que lhe vêm ao encontro, atribuindo-lhes sentido. Do ponto de vista ontológico, ela é o modo fundamental do Dasein no qual ele é a abertura original. O humor diz do modo como o Dasein se encontra em sua facticidade e como segue em seu projeto de ser. Sobre o tédio, Heidegger (1930/2011), em Os Conceitos Fundamentais da Metafísica, diferencia esta disposição afetiva através de três modos de aparecimentos diferentes: o tédio por alguma coisa, que se refere à entediar-se de modo superficial em situações que nos colocam sob uma expectativa de que aquilo passe; o tédio sem uma causa aparente, que aparece como um desconforto ao período presente, sem estar dependente de um fator positivo; e como tédio 66 profundo, no qual há um abandono do ser-aí, cuja recusa do ente em responder coloca o ser em uma posição de ingerência da situação em que se encontra, e, portanto, em seu próprio vazio. O tédio profundo se distingue por ser uma potência adoecedora e por ser um desdobramento da época atual, que não dá resposta que valide a familiaridade com as coisas. Conforme Heidegger (1930/2011, p 120), “o passatempo pertinente enquanto tal é tanto mais irreconhecível [...] Talvez esta falta do passatempo seja para ele uma marca distintiva.” Nesta classificação do tédio, o fracasso em poder-ser emerge da ideia de não conseguir preencher de si o próprio cotidiano, e assim permanece subtraindo a familiaridade na opressão da obrigatoriedade de continuar vivendo no dia-a-dia, cumprindo seus afazeres que tornam-se muito indiferentes (por nunca serem concluídos em sua totalidade) que o ser-aí passa a experenciar tudo com uma radical insignificância. Desse modo, a própria existência acaba subordinada à fixação neste tempo em que as coisas não nos dizem mais nada, não obstante sermos compelidos a ouvi-las (Rodriguez et al., 2019). A pessoa torna-se desinteressante para si mesma, e isto gera repulsa perante as próprias vivências. Feijóo (2010, p. 148), analisando um caso real, descreve: Se ele estivesse no tédio profundo, o tempo desapareceria e com ele o ritmo do existir. Frente a solicitação do ter de trabalhar, ele não diria “não tenho vontade”, diria “prefiro não ir, prefiro não fazer”. Antes de ter ou não ter vontade estaria o não faço, não quero, não sou. Heidegger (1930/2011) ainda questiona como nos evadiremos do tédio, respondendo que isso ocorrerá através do fato de estarmos todo o tempo consciente ou inconscientemente, empenhados em passar o tempo, acolhendo as ocupações mais importantes e essenciais, mesmo que somente para que elas preencham o nosso tempo. Para o filósofo, nenhum passatempo, por mais eficaz que seja, é capaz de “nadificar” o tédio. E mesmo que ele não nos aparente estar presente, nós sabemos que ele pode retornar a qualquer momento. Portanto, ele já está aí. 67 Nós o afugentamos. Nós o adormecemos. Não queremos saber dele. Isto não significa, contudo, de modo algum, que não queremos ter nenhuma consciência dele, mas sim que não queremos deixa-lo despertar. Ele, que já está por fim desperto, e de olhos abertos- mesmo que totalmente à distância-, insere o olhar em nosso ser aí, e, com esse olhar já nos transpassa e corta afinadoramente (Heidegger, 1930/2011, p. 95). Este tédio profundo é a tonalidade afetiva fundamental. E a fim de nos tornarmos senhores sobre ele, matamos o tempo e este ganha extensão no interior do tédio, nos dando a sensação de que o tempo se torna longo para nós. Segundo os usos linguísticos alemães, o tédio significa ter o tempo longo (die Langeweile). Assim, o tédio e as perguntas sobre ele nos conduzem até o problema do tempo. O tédio perfaz uma relação temporal excepcional no interior do ser aí (Heidegger, 1930/2011). Dessa maneira, esse humor abriga o estar no mundo como um todo. “Um mal” que se desponta de diferentes maneiras, sem causas ou determinações delimitadas. O tédio perfaz uma relação temporal excepcional no interior do ser-aí, porém ainda velada. “O despertar desta tonalidade afetiva fundamental não significa primeiramente acordá-la, mas deixa-la estaracordada, protegê-la frente ao adormecimento” (Heidegger, 1930/2011, p. 95). Tal declaração aponta que a tonalidade afetiva já está presente e ao mesmo tempo não está, ou seja, “o que dorme está ausente de uma maneira característica, e, contudo, está aí. Quando despertamos uma tonalidade afetiva, um tal despertar indica que ela já estava aí”. (Heidegger, 1930/2011, p.73). Assim, despertar uma tonalidade afetiva significa simplesmente deixar ela ser. Outro existencial apresentado por Heidegger é a compreensão, tratando-se de uma característica fundamental da existência humana, do poder-ser. Heidegger (1987, p. 200) entende a compreensão como: “o ser existencial do próprio poder-ser da pre-sença de tal maneira que, em si mesmo, esse ser abre e mostra a quantas anda seu próprio ser”. A interpretação, por sua vez, aparece em Heidegger como a elaboração do projeto da compreensão. Entretanto, interpretação e compreensão não são entendidas como etapas 68 separadas, mas como intrínsecas ao entender humano. A compreensão revela a abertura para as possibilidades que ganham forma por meio da interpretação. Existir significar abrir um campo compreensivo. Existência é, portanto, compreensão. Nem tudo é possível ao ser, só é possível o que para nosso campo compreensível aparece como passível de interpretação existenciária. Compreensão é, pois, a concretização de possibilidades abertas existencialmente. A compreensão abre um campo possível, e no interior desse campo certas possibilidades se mostram passíveis de atualização. Para Heidegger, interpretação é a apropriação do compreensível. Interpretar é se apropriar do que previamente se compreendeu. É atualizar possibilidades que se apresentam no horizonte compreensivo do existir do ser. Esse horizonte compreensivo dialoga com a facticidade, porque a existência abre um campo de possibilidades demarcado de acordo com o que no meu mundo facto aparece como possível. Essa é uma interface entre o projeto de sentido que demarca um campo constituindo orientação e foco, e o horizonte facto no qual o horizonte fenomenológico se constitui. A disposição aparece, em sua relação ontológica com a compreensão, para lançar o Dasein em sua espacialidade. Como a corporeidade encontra-se relacionada à espacialidade do Dasein, podemos dizer que a disposição também se encontra correlacionada à corporeidade (Costa, 2017a). A espacialização do Dasein se dá em suas ocupações com o mundo. Ela é sempre afinada em um humor que também diz respeito ao existencial da disposição, responsável pela abertura do Dasein enquanto ente que afeta e é afetado pelo mundo, conforme mencionado anteriormente. A relação dos entes no mundo se orienta a partir das ocupações do Dasein. Isto não significa que Heidegger negue a consciência com suas vivências, nem tampouco as experiências conscientes. Ele se opõe à consciência como constitutiva primeira da experiência, como instância fundante da significância do mundo e do Dasein. É a abertura para o ser que constitui 69 o Dasein e caracteriza os existenciais do compreender e da disposição já explicados. Assim, não se trata de uma consciência que primeiro constitui o mundo e lhe dá sentido, ao contrário, é porque em sua existência o Dasein é afetado por um mundo que pode existir algo assim como a consciência do mundo. Como ser-no-mundo, toda orientação do Dasein se dá a partir do mundo e se estrutura em seu caráter ontológico espacial como corporeidade (Costa, 2017a). Casanova (2006), por sua vez, afirma que a compreensão não se refere a processos cognitivos que permitem saber de si ou do mundo, mas se apresenta como poder-ser, um desdobramento de possibilidades de ser em cada contexto de referência. Ao mesmo tempo, a abertura da compreensão da existência humana encontra-se sempre em um modo possível de disposição, que remete, por sua vez, às tonalidades afetivas que afinam radicalmente o espaço existencial da abertura e perpassam a própria convivência entre os seres-aí em geral. Para Heidegger (1927/2012), na compreensão, o ser-aí projeta seu ser para possibilidades e a interpretação permite elaborar as possibilidades projetadas na compreensão. Ao mesmo tempo, a compreensão se baseia em um referencial prévio, pois o sentido é a perspectiva em função da qual se estrutura o projeto pela posição prévia, visão prévia e concepção prévia. É a partir dela que algo se torna compreensível como algo. O sentido sustenta, portanto, a compreensibilidade de alguma coisa, articulando a interpretação e o discurso (Cardinalli, 2015). É importante destacar também que, para Heidegger (1927/2012, p. 219), “o fundamento ontológico-existencial da linguagem é o discurso”. No que concerne à linguagem, no início da obra A caminho da Linguagem, Heidegger diz: O homem fala. Falamos quando acordados e em sonho. Falamos continuamente. Falamos mesmo quando não deixamos soar nenhuma palavra. Falamos quando ouvimos e lemos. Falamos igualmente quando não ouvimos e não lemos e, ao invés, realizamos um trabalho ou ficamos à toa. Falamos sempre de um jeito ou de outro (Heidegger, 2003, p7). 70 Essa citação ajuda-nos a ter o entendimento mais abrangente acerca da linguagem humana e entendermos o quanto o ser humano é próximo da linguagem. É na linguagem que Heidegger vai encontrar a forma de interpretar o homem enquanto integrante deste mundo. “A linguagem é a casa do ser. É nessa morada que habita o homem” (Heiddeger, 2003, p7). De acordo com Castro (2014), a teoria da linguagem de Heidegger consiste numa desconstrução da ideia de Sujeito, por meio da revelação de que a trajetória do pensamento ocidental, com um ápice que se apresenta na modernidade cartesiana e que se reproduz abundantemente até nossos tempos, esqueceu tanto a questão sobre a linguagem como, meramente, a própria linguagem. Conforme sugere Heidegger, percebemos que é o Ser que está na linguagem, que habita um mundo já tomado pela linguagem. E isso acontece porque esse Ser reflexivo que somos é, verdadeiramente um inter-sujeito, um ser-aí, um ser-no-mundo, um ser-com-outros (Castro, 2014). A linguagem não é, portanto, preexistente ao falar, não é qualquer coisa que está no mundo e que será usada, como um aparelho do qual a pessoa vai se servir. A linguagem não irá anteceder ao seu uso. É devido a isso que o discurso, o falar, tal como entendido por Heidegger, assinala não um comportamento linguístico, mas a condição ontológica de possibilidade de todo comportamento linguístico (Romano, 2008; Castro, 2014). O falar, desse modo, é cooriginário com a afetação e com a compreensão, porém, no seu desenvolvimento, também assegura que a linguagem se situa após a compreensão e a explicitação. O que isso quer dizer? Na verdade, se trata de uma sequência óbvia da primeira ideia: a ação de compreender leva, naturalmente, à ação de explicitar o compreendido; trata-se de um caminho natural na formação do sentido, compreendendo-se sentido por algo que é estruturado pelo processo comum, de encontrar-se diante de algo (facticidade), compreender, explicitá-lo e dizê-lo, em pensamento, discurso e ação (Castro, 2014, p. 88). 71 Resumidamente, versa a diferença entre pensar o homem como o ente que possui a linguagem, no sentido de ser ele retentor da capacidade de falar, e a concepção ontológica que reflete o homem como "sendo" por meio da linguagem, compreensão que permite entender a linguagem não apenas como meio de transmissão de informações, mas como o modo no qual o próprio existir humano se manifesta (Duarte, 2005). Além disso, conforme Duarte (2005), a linguagem ontologicamente compreendida é pensada sempre a partir da consideração da abertura, seja a abertura propiciada pela apropriação silenciosa de si-mesmo, seja a abertura pensada como clareira do ser. Assim, não é a linguagem que pertence ao homem, mas, antes, é opróprio homem, concebido ontologicamente como o ser-para-a-morte resoluto (primeiro Heidegger) ou como o mortal que corresponde à solicitação silenciosa do ser (Heidegger tardio), que pertence à linguagem (Duarte, 2005). A linguagem é também constituição temporal dos fenômenos, junto à compreensão e à disposição. Nesse sentido, é relevante apontar a definição de historicidade como tempo histórico, em uma unidade denominada temporalidade, sendo que o tempo histórico é o que dá referências (memória, expectativas e vivência) a essa unidade. O homem projeta-se para fora de si mesmo, mas jamais pode sair das fronteiras do mundo em que se encontra. Assim, existir significa habitar um fluxo temporal (presente) projetando-se para o futuro. Transcendência é esta capacidade de projetar-se sempre para algo além de si mesmo. Existindo enquanto abertura o homem tem a responsabilidade de ser e assumir o desafio de encontrar sentido para a sua existência (Heidegger 1927/2012; Maux, 2014). A transcendência é, portanto, a forma como cada indivíduo se apropria das coisas do mundo. Existir significa antecipar as possibilidades, projetando-se para fora de si, sem perder o contato com o mundo no qual está inserido, do qual o ser é inseparável (Heidegger 1927/2012). 72 Dasein é ser-no-mundo-com-o-outro, assim sendo, ele se constitui no mundo a partir de uma trama de significados, na sua historicidade. Heidegger escreve que a historicidade indica a constituição ontológica do ‘acontecer’ próprio do Dasein como tal (Heidegger, 1927/2012). No lugar de um sujeito puro kantiano, coloca-se um ser-aí concretamente definido e historicamente situado. Neste sentido, a historicidade do Dasein é por essência a historicidade do mundo. É a relação de reciprocidade que constitui esse ente como ser-no-mundo e entregue a uma historicidade. Conforme já mencionado, o Dasein encontra-se, faticamente, lançado nesse horizonte temporal no modo da impessoalidade. A historicidade própria caracteriza o modo como o Dasein, em seu acontecer, retira-se da dispersão cotidiana e apropria-se de sua temporalidade, quando ele escolhe a si mesmo, ao considerar sua finitude no estar lançado no mundo. Para Heidegger (1927/2012), a historicidade tem sua raiz no futuro, já que é somente no adiantar-se à possibilidade da morte que o ser revela sua “precedência no histórico”. Assim, “O ser-para- a-morte próprio, isto é, a finitude da temporalidade, é o fundamento oculto da historicidade do Dasein” (Heidegger, 1927/2012). Nessa perspectiva, de acordo com Tonin (2015b, p. 49): a temporalidade é compreendida como o âmbito de possibilidade do poder-ser do Dasein, ou seja, o horizonte no qual pode -se alcançar as possibilidades existenciais. O tempo revela- se não como uma sucessão linear, porém, como um horizonte circular e simultâneo, denominado como horizonte extático do tempo. As êxtases são: o porvir [Zukuft], como caráter de futuro do Dasein, o ser-do-sido [Gewesenheit], que apresenta a característica de já sempre ser lançado no mundo, e o presente [Gegenwart], para pensar o modo como o Dasein se apropria dos entes no interior do mundo. A temporalidade originária é o horizonte que torna possível o gestar-se do Dasein, ou seja, a própria temporalização da temporalidade. Ainda nos remetendo a Heidegger, existiriam dois tipos de historicidades segundo o pensador: a imprópria, também mais corrente, e a própria, emancipatória do Ser. Na historicidade imprópria, o Ser se imagina no tempo, numa situação que desvia a consciência da historicidade como um elemento na constituição interna do Ser (Heidegger, 1927/2012, p183). 73 De acordo com Silveira (2016), a historicidade própria é o módulo que temporaliza a temporalidade, significando que a historicidade dá medida e referência à temporalidade a partir da vivência humana. Assim, a historicidade própria é a temporalização da fluidez das experiências passadas e das expectativas do futuro efetivadas no acontecer ou fenômeno histórico, constituindo a percepção temporal humana da temporalidade (Silveira, 2016). Pois, para Heidegger, a temporalidade em si não é o tempo físico, mas o processo interno da presença no mundo, o sentido de estar no tempo: A análise da historicidade da pre-sença busca mostrar que esse ente não é “temporal” porque “se encontra na história”, mas, ao contrário, que ele só existe e só pode existir historicamente porque, no fundo de seu ser é temporal. Todavia, a pre-sença deve ser chamada de “temporal” também no sentido de ser e estar no tempo. Mesmo sem uma construção historiográfica dos fatos, a pre-sença, de fato, precisa e se vale de calendário e relógio. Ela faz a experiência do que “com ela” acontece, como acontecendo “no tempo” (Heidegger 1927/2012, p. 181). Isto é, a qualidade “temporal” do Ser seria determinada pela percepção ou consciência do tempo próprio do Ser. Nossa sincronização com o tempo natural por meio de calendários e relógios nos conduziria à sensação de que esses tempos se equivalem (Silveira, 2016). A percepção de temporalização do Ser é um processo interno, mas imerso na historicidade e em sua relação com o mundo. Assim, temos em Heidegger uma definição de historicidade como tempo histórico, a partir da constituição temporal do fenômeno (compreensão, disposição, decaída e linguagem) em uma unidade denominada temporalidade, sendo que o tempo histórico é o que dá referencias (memória, expectativas e vivência) a essa unidade. Ao refletir sobre a historicidade e o presente estudo, estamos pensando nos modos de existir no Seridó potiguar e sua relação com a morte por suicídio. Entender a tentativa de suicídio na região do Seridó é compreender as existências dos seridoenses a partir do horizonte histórico dos mesmos, considerando sua cultura, crenças, valores e tradições. É necessário 74 pensar a tentativa de suicídio no contexto no qual ela ocorre, pois os modos de ser do homem dizem do contexto ao qual eles pertencem, dizem dessa historicidade. O homem nasce e cresce em uma sociedade que o define, o rotula, dita como deverá ser. Pensar o suicídio nessa região é refletir sobre os sujeitos que estão imersos na contemporaneidade, bem como no contexto do semiárido nordestino, em uma cultura de religiosidade tradicional, de pouco espaço para o sofrimento psíquico, cidade de seca, cidade onde as pessoas conhecem a vida uns dos outros, entre outras características de cidade interiorana. Desse modo, conforme Maux (2014), por mais que compreendamos que não há uma subjetividade única, estando cada ser humano em constante processo de construção do que deseja ser, precisamos considerar o peso da historicidade na constituição dos diversos modos de ser. Sobre os aspectos sociais, podemos afirmar que nomear o homem como ser-no-mundo seria análogo à afirmação de que ele é essencialmente um ser social, intersubjetivamente constituído. Dutra (2008) vai nos dizer que o social, como é possível entender, a partir de uma interpretação ontológica, hermenêutica, traduz-se no sentido de ser-no-mundo. Tal ideia confirma, de um horizonte ontológico, a condição “social” do homem no mundo. De acordo com a autora, os conceitos de ser-aí e Dasein, bastariam para justificar a condição ontológica e fundante do ser social do homem. Nessa perspectiva, não é possível pensar o homem fora de um contexto social, geográfico, cultural e historicamente constituídos; significando pensar o homem como um ser de relação, sem que essa posição signifique uma maneira de objetivar o homem e o mundo (Dutra, 2008). O que de fato faz parte da existência humana só podemos apreciar na história, na forma de ser em que prevalece seu percurso temporal no mundo, naquilo que diz respeito a sua natureza (Oliveira & Carraro, 2011). Nesta compreensão, também o movimento constante do cuidado como ato (sentido ôntico) se manifestana temporalidade e historicidade, na prática 75 diária com todas as normas e rotinas constituídas. Porém, não se encerra aí; o cuidado também ocupa um lugar de abertura para possibilidades, como algo que ainda pode ser desvelado (Oliveira & Carraro, 2011). Sobre o cuidado, em Ser e Tempo (1927/2012), Heidegger parte da análise da existência do Dasein para chegar ao sentido existencial do humano como Cuidado. O termo cuidado (Sorge) aparece em sua obra como o articulador dos existenciais até então explicitados por ele e se dão em cooriginareidade na existência humana. O cuidado é uma forma de ser com o outro e inerente à condição do Dasein, podendo ocorrer de duas formas: pela ocupação (Besorgen) e pela preocupação (Fürsorge). O ponto para tal tensão entre as duas definições de um mesmo conceito remete à autenticidade e inautenticidade, que modificam o cuidado em próprio e impróprio. A autenticidade, o ser-si-mesmo autêntico é, portanto, uma maneira de existir (Heidegger, 1927/2012). A autenticidade é a possibilidade para o Dasein de ser o que ele é, ou seja, um ser- no-mundo que, enquanto clarão ou clareira do ser, é o lugar do ser. Contudo, se o Dasein pode existir na forma da autenticidade, ele também pode existir na forma privativa da fuga e da inautenticidade. Neste último caso, o Dasein foge de si-mesmo enquanto ser-aí, enquanto abertura ao ser. A inautenticidade, na verdade, para Heidegger, está intimamente ligada à decadência do Dasein, em outras palavras, à sua imersão no mundo da preocupação e à sua queda sob a dominação dos outros (Cabestan & Lamelo, 2010). Sobre o cuidado enquanto ocupação-solicitude, este ocorre através do manuseio de objetos e a preocupação nas relações com outros Daseins. Já o modo de preocupação pode ser entendido como substitutivo ou antepositivo. O modo substitutivo é caracterizado pelas situações nas quais o cuidador toma as decisões pela pessoa que está sendo cuidada, não se tratando de um cuidado no sentido “popular” de “cuidar das pessoas”, mas sim uma forma de 76 estar com o outro. É um modo de cuidado que embora necessário no cotidiano do Dasein, não resgata a liberdade do ser que é a sua condição de escolher entre as várias possibilidades que vem ao seu encontro. Trata-se de uma forma de cuidar “colocando o outro no colo”, fazendo tudo por ele, não permitindo que ele tenha autonomia pela sua existência e pelas suas decisões. O modo antepositivo, por sua vez, devolve ao ser a sua responsabilidade de ser-no- mundo, auxiliando nos seus processos de escolha. É aquele que se "antepõe" ao outro não para substituí-lo, mas para pô-lo diante de suas próprias possibilidades existenciárias de ser. Essa preocupação que, em sua essência, diz respeito ao cuidado propriamente dito, ou seja, à existência do outro e não a uma coisa de que se ocupa, ajuda o outro a tornar-se, em seu cuidado, transparente a si mesmo e livre para ele (Heidegger 1927/ 2012, p 207). É interessante pensar o Cuidado em Heidegger perante uma sociedade onde cada vez mais as ações e relações humanas estão impregnadas pela razão, onde a natureza não mais se harmoniza com o homem, onde o cuidado humano vem ao encontro de uma realidade de vida acelerada, complexa e transitória. O mundo moderno vivencia uma espécie de efemeridade moderna na qual as coisas são organizadas de maneira apressada de modo que só existam de maneira indiferente. E mais tarde isso vai ocasionar no que se chama de esquecimento-do-ser (Oliveira & Carraro, 2011). Logo, vivemos numa atmosfera de desconforto com os imediatismos da vida moderna que nos remetem à falta de compromisso com o outro, o determinismo pela tecnologia e pela técnica e ainda às relações líquidas de cuidado. Nesse sentido, o fenômeno do suicídio encontra- se imerso em formas de cuidado tantas vezes substitutivas, impossibilitando relações autênticas. Por outro lado, as relações de cuidado tornam-se frágeis e complexas na sociedade da pressa, na qual as pessoas não se percebem umas às outras (Oliveira & Carraro, 2011). 77 A questão do habitar é outro aspecto da ontologia heideggeriana importante para esse estudo. Já em Ser e Tempo o filósofo escreve sobre o habitar quando discorre sobre a angústia, ao afirmar: “o não se sentir em casa deve ser compreendido, existencial e ontologicamente, como o fenômeno mais originário” (Heidegger, 1927/2012, p. 254). Ao refletir sobre o habitar, Heidegger (1927/2012) aponta alguns aspectos relevantes para sua compreensão: primeiro, evidencia o caráter essencial dessa questão no contexto de seus pensamentos; para ele a palavra habitar diz respeito a um fenômeno bem mais originário, ontologicamente determinante e anterior a qualquer consideração sobre as diferentes formas de abrigo criadas pelo homem. E, por último, expõe de maneira incisiva uma tensão intrínseca ao habitar: o homem habita mergulhado na estranheza, de tal maneira que qualquer forma de familiaridade, ou do “sentir- se em casa” são apenas modos de encobrimento desta arraigada e inescapável condição. Ainda em Ser e Tempo, ao apresentar o ser-no-mundo em sua constituição ontológica como ser-em ele resgata o sentido deste “em” reconduzindo-o ao seu contexto original na língua alemã, afirmando que o ser-no-mundo existe e se determina como aquele que habita. O habitar assume, assim, um sentido primordialmente temporal, de deter-se junto ou de acostumar-se a algo, ou ainda um sentido de cultivar; trata-se de uma forma de proximidade que se define antes de tudo pela permanência junto aos entes em geral, permanência esta que concede ao ser-no- mundo uma espécie de amparo, uma certa familiaridade calcada no conforto do que é sempre o mesmo. O hábito, o habitual e o habitar não se separam, porém, de seu outro: o não familiar, o inabitual, o inabitável, o “em parte alguma” que angustia e que irrompe no seio do que se imaginava conhecer (Heidegger, 2012). Na conferência intitulada Construir, habitar, pensar, pronunciada por Heidegger no ano de 1951, o filósofo pensando o ser a partir da linguagem (casa do ser), estabelece a relação entre habitar e construir, afirmando que só é possível habitar o que se constrói. Segundo ele, habitar 78 seria, em qualquer circunstância, o fim que se impõe a todo construir, assim, construir já é em si mesmo habitar. A palavra do alemão usada para dizer construir, buan, significa habitar, permanecer, morar (Heidegger, 2012). Desse modo, o homem é à medida que habita. A palavra buan, enquanto construir, significa cuidar do crescimento que, por si mesmo, dá tempo aos seus frutos. Nessa perspectiva, Heidegger questiona: “Mas em que consiste o vigor essencial do habitar?” (Heidegger, 2012, p. 128). “Habitar, ser trazido à paz de um abrigo, diz: permanecer pacificado na liberdade de um pertencimento, resguardar cada coisa em sua essência. O traço fundamental do habitar é esse resguardo”. O filósofo segue afirmando que ser homem consiste em habitar, isto no sentido de um de-morar-se dos mortais sobre essa terra. E, “sobre essa terra” já diz “sob o céu”, o que supõe conjuntamente “permanecer diante dos deuses”, e isto “em pertencendo à comunidade dos homens”. Terra e céu, os divinos e os mortais – uma quadratura – pertencem um ao outro numa unidade originária (Heidegger, 2012). De acordo com Saramago (2011), talvez seja mais preciso afirmar que o homem existe como aquele que habita, e este seu habitar não se traduz como a segurança de um abrigo, mas como um caminhar na dor do corte, entre a terra e o céu ou entre deuses e coisas, num permanente estar a caminho. Sem pertencer propriamente a nenhum destes âmbitos, ele traz em si o traço da estranheza, e mesmo da errância. Heidegger também esclarece que, mais do que o habitar, era preciso pensar o seu oposto, o “não se sentir em casa” pelo ser-no-mundo. Sobre este aspecto, Young (2000) afirmaque o habitar significa em Heidegger uma “segurança ontológica”, na qual “ser, pois, autêntico, não é, entretanto, um voltar para casa. Não é uma ‘solução’ para, ou um superar a ausência de morada. É, antes, um viver com ausência de morada. 79 E ainda buscando compreender o fenômeno do suicídio à luz da fenomenologia heideggeriana, é imprescindível falar sobre o ser-para-a-morte, pois a primeira condição fundamental do Dasein é que ele é o único ente que se sabe finito, sabe que um dia irá morrer. Assinala Nunes (2002, p. 22): “desde o princípio o Dasein está predeterminado pelo seu fim”. O homem sabe que virá o dia em que ele não mais “será” ou “existirá”. Faz parte da vida do homem pensar que a morte é uma certeza, pois seguimos acompanhando notícias das mortes de tantas pessoas distantes ou mesmo próximas a nós, conhecidas ou até desconhecidas, mas que morreram numas circunstâncias terríveis, desastres, guerras, assassinatos etc. Quiçá já estivemos na circunstância em que sentimos a morte de perto. Pensamos saber, então, o que é a morte, como é a morte. Desse modo, empiricamente, compreendemos que todos os nascidos já começam a envelhecer no seguinte momento em que nasceram, e um dia morrerão. Ser homem constitui ser-para-a-morte. Trata-se, portanto, de uma constatação de fatos (Harada, 2015). Entretanto, tudo isso é vislumbrado sob a ótica da morte dos outros. E apesar dessa compreensão ser uma constatação de fatos, como não se refere a nós diretamente, mas aos outros, não é, portanto, uma experiência concreta, vivenciada no corpo por mim mesmo. Ficamos assim a nos questionar: como é possível entender não a morte dos outros, mas a minha própria morte? De acordo com Harada (2015), entrementes, sempre de novo, podemos estar compreendendo a própria morte, de alguma forma. A morte é algo que eu descubro e sigo vivenciando durante toda a minha vida. Por pior que seja a experiência da morte, essa experiência ainda não é morte, pois se for morte, eu já não sou. “Essa modalidade da impossibilidade absoluta de ser, é o nada nadificante, nós a experienciamos em vida” (Harada, 2015, p. 56). O ser-para-a-morte é o sumo de outros existenciais, que nos apontam em que consiste o ser do Dasein. O Dasein, enquanto ser-no-mundo e liberdade, é o ter que ser, assim, é todo ele 80 ser-para-a-morte. E a morte não é para Heidegger o deixar de viver, mas tem na sua base uma problemática ontológica (Harada, 2015). A interpretação existencial da morte precede toda biologia ou ontologia da vida. É ela que fundamenta qualquer investigação histórico-biográfica e psico-etnológica da morte. Uma “tipologia” do “morrer”, entendida como caracterização dos estados e dos modos em que se “vivencia” esse deixar de viver, já pressupõe o conceito de morte. Ademais, uma psicologia do “morrer” acaba fornecendo mais soluções sobre a “vida” “dos que morrem” do que propriamente sobre o morrer. Isso apenas reflete que a pre-sença não morre simplesmente ou até propriamente numa vivência do fato de deixar de viver. De igual modo, as apreensões acerca da morte junto aos primitivos e de seus comportamentos diante dela na magia e no culto esclarecem, primeiramente, a compreensão da pre-sença, cuja interpretação já reclama uma analítica existencial e um conceito correspondente da morte (Heidegger, 1927/2012, p 229). Desse modo, a morte é uma possibilidade ontológica que o próprio Dasein sempre tem de assumir. Com a morte, o próprio Dasein está perante o seu poder-ser mais próprio. E nessa possibilidade, o que está em jogo para o Dasein é pura e simplesmente seu ser-no-mundo. Sua morte é a possibilidade de poder não mais ser aí. Se, enquanto essa possibilidade, o Dasein é, para si mesmo, impendente, é porque depende plenamente de seu poder ser mais próprio (Heidegger, 1927/2012). Essa possibilidade mais própria e irremissível, é, ao mesmo tempo, a extrema. Enquanto poder ser, o Dasein não é capaz de superar a possibilidade da morte. A morte é, em última instância, a possibilidade da impossibilidade pura e simples de ser aí. Desse modo, a morte desvela-se como a possibilidade mais própria, irremissível e insuperável. Contudo, segundo Araújo (2007), desse fenômeno o Dasein normalmente não tem nenhum conhecimento propriamente dito. Isto é, do fato que se encontra entregue à sua morte e que a morte é intrínseca ao ser no mundo, o Dasein, de início e na maioria das vezes, não tem um saber explícito ou, ainda menos, teórico. Essa questão ultrapassa toda a existência do homem, marcando de um modo distinto o seu modo de ser-no-mundo, pois só ele conhece o 81 “seu-ser-para-a-morte”. Desta condição ontológica, nascem dois sentimentos primordiais inerentes ao Dasein: a angústia e a culpa (Heidegger, 1927/2012). No que concerne à Culpa, podemos falar que ela é uma falta em relação a outrem. Contudo, essa falta não é estranha à nossa condição. O déficit ou débito fica a cargo do não-ser que já somos e através do qual responde à liberdade fundada na transcendência. A própria finitude por si mesma é capaz de causar a culpa em nós. E essa mesma culpa nos chama para a finitude. É então que, entendendo-nos livres, ouvimos a intimação desse poder-ser. Tal chamado convoca-nos à nossa liberdade, a um “querer ter consciência”, que é o que escolhemos angustiadamente (Nunes, 2002). Com efeito, a ideia de culpa no sentido ontológico dado por Heidegger deve estar desvinculado de qualquer referência a um dever ou a uma lei, por cuja violação incorreria culpa. Trata-se muito mais dessa falta, uma ausência, cuja origem está no próprio Dasein. Em seu sentido ôntico, a culpa pode ser superada e o Dasein pode deixar de ser culpado. Ontologicamente, entretanto, a culpa é condição da existência humana. Nesta perspectiva, não cabe ao Dasein tentar superar a culpa ontológica, mas reconhecê-la e assumir a responsabilidade sobre seu ser. Reconhecer-se culpado, no entanto, requer do Dasein uma postura autêntica, e o movimento que o retira da inautenticidade exige uma resposta ao que Heidegger definiu como o apelo da consciência. E isso para o qual a consciência chama, e que faz parte do ser do Dasein, capaz de torná-lo responsável pelo seu próprio ser, é o que Heidegger denomina culpa. Não se trata, porém, de um sentimento por alguma ação praticada, mas de uma culpa em um sentido ontológico, originário, que faz parte do próprio ser do Dasein (Silva, 2010b). O Dasein precisa, assim, lidar com esse clamor da consciência. A saber, a consciência que adverte, fala da possibilidade de um débito para com outrem. A consciência remete ao débito e causa 82 inquietação porque, quase sempre, não somos quem podemos e quem devemos ser. Daí o Dasein compreender o clamor no sentido de ser e estar em débito. Heidegger analisa o sentido factual da culpa com o objetivo de alcançar a possibilidade existencial do débito. O clamor convoca o Dasein para o seu ser-mais-próprio. E ao conclamar isso, ele aponta para um débito que é próprio do ser. Esse débito se expressa pelo fato de que o clamor clama pelo limite de escolher algumas possibilidades e abrir mão de outras. Na impessoalidade, é esse débito ontológico que é nomeado como culpa (Azevedo, 2013). Sobre o sentimento de culpa, Heidegger (1927/2012) afirma que esta seria a forma cotidiana ou impessoal de sentir o débito existencial. Segundo esse autor, o débito é um chamamento, uma abertura para escolher o seu poder-ser-próprio. Diante das possibilidades demandadas ao Dasein, em sua abertura no mundo, fica em débito, pois não poderá realizar todas. E apesar de “estar em débito” ser uma condição de sua existência, o que acontece é que no cotidiano ele é vivenciado como culpa, sendo este um sentimento pesado e difícil de carregar (Rebouças & Dutra, 2011). Desse modo, podemos dizer que a culpa presente na vivência de uma tentativade suicídio pode ser sentida como uma dívida para com os valores morais e religiosos. As pessoas que sobrevivem a uma tentativa de suicídio podem sentir que agiram contra a sua própria natureza e contra o que é colocado socialmente. Considerando o contexto moral e religioso foco desse estudo, o Seridó, é possível observar que a culpabilização atravessa de forma ímpar as experiências de nossos colaboradores devido à carga social presente no ato suicida. Contudo, reforçamos que Heidegger (1927/2012) afirma que a culpa não é moral, não sendo produto de uma causa exterior; enquanto débito ela é existencial, portanto, inerente à condição de ser-no- mundo (Rebouças & Dutra, 2011). 83 Sobre a angústia, o fenômeno de se encontrar lançado na morte desde seu nascimento só se desvela adequadamente, de maneira originária e penetrante ao Dasein na angústia. Deste modo, a angústia desvela o fato que o Dasein, em seu encontrar-se lançado, existe para o seu fim. Nela torna-se claro o conceito existencial do morrer como encontrar-se lançado no poder ser mais próprio, irremissível e insuperável; conceito existencial que difere de um mero desaparecer, de um puro findar ou ainda de uma simples experiência vivida do deixar de viver. Assim, a angústia diante do nada se identifica com a angústia diante da morte. Dutra (2011) vai nos afirmar que a angústia ao ser desvelada, e diante da dor que importuna, faz emergir o imperativo de nomeá-la, de fazê-la compreensível, a fim de abrandar o desespero de não se saber. E o que se segue, é o que geralmente se observa acontecer em um momento como esse: Não raro se aponta um motivo, um acontecimento ou se atribui ao outro a razão do ato, além de este outro ser considerado o elemento causador e responsável pelo acontecimento. Na verdade, é a angústia que não é encarada, e da qual o Dasein não se apropria, como parte da sua existência (Dutra, 2011, p. 154). A autora ainda afirma que é justamente no período da crise que a angústia pode ser auxiliadora de uma mudança nos sentidos da existência. Como disse Heidegger (1927/2012), nessa situação duas possibilidades se colocam diante do ser: continuar na ruína, ou seja, absorvido pela cotidianidade e permanecer na impessoalidade ou se apropriar do si mesmo, ao buscar uma existência mais autêntica. Nessa perspectiva, Dutra (2011) afirma que é possível questionar se o suicídio poderia ser pensado como a falta de sentido de si mesmo e um modo impessoal de se lidar com a angústia, eliminando-a. Constituiria o desespero por não suportar a finitude da existência? Quando não se abre à angústia, parte-se para localizar no mundo concreto, no outro, e não em si mesmo, uma explicação para a dor. O mundo é responsável pela angústia vivida. É preciso conhecer, classificar e catalogar o sofrimento. Este, decorrente da angústia, necessita ser nomeado e compreendido (Dutra, 2011, p. 154). 84 Para Dutra (2011), as interrogações concebem um esforço no sentido de refletir o suicídio a partir de um olhar que contemple a dimensão existencial que caracteriza o Dasein em sua busca de sentido como ser-no-mundo. Ainda sobre a angústia, Feijoo nos inspira (2000, p. 109): “Na angústia frente à constatação do ser-para-a-morte, o ser-lançado surge para a pre-sença de modo mais próprio. Antecipando a morte como possibilidade insuperável e certa, a pre-sença assume todas as suas possibilidades, inclusive a de existir na totalidade do seu poder-ser.” A morte é entendida, então, como uma experiência existencial que ao mesmo tempo expressa o limite humano da finitude e o abre para as possibilidades em seu campo existenciário. A angústia que emerge frente à constatação da finitude não pode ser confundida com o medo direcionado a um determinado objeto. Ela é uma abertura para o nada, para o fim das possibilidades, que se dá com a morte. E, no meio das ocupações do mundo, o homem se exime de viver esta experiência que o incomoda. Para Heidegger (1927/ 2012, p. 36), “A fuga perante a morte não é mais do que a fuga perante o próprio Dasein (...) A angústia da morte é a angústia perante o poder ser mais próprio, absoluto e inultrapassável”. Assim, pensar a própria finitude pode possibilitar a apropriação de si mesmo, ao contrapor a fuga absorvente no cotidiano (Cardinalli, 2015). Cardinalli (2015) nos diz que a angústia, ao acercar-se da sensação de estranheza e de inospitalidade, do não se sentir em casa, pode propiciar ao ser-aí a assimilação de suas possibilidades, constituindo-se mais livre para assumir a si mesmo. Desse modo, abre a oportunidade para o ser-aí de compreender a si mesmo a partir do mundo e da interpretação pública, aproximando-se de si e de suas possibilidades mais próprias. Boss (1975, p. 26) explica essa inter-relação da angústia com a possibilidade da morte, quando assinala que o “do quê de cada angústia é sempre um ataque lesivo à possibilidade do 85 estar-aí humano. O pelo quê da angústia humana é por isto o próprio estar-aí” . Então, podemos ver nas variadas situações de angústia, o medo da destruição de sua situação humana já conhecida, pois, Heidegger (1927/2012, p. 251) remete o ser-aí “para aquilo pelo que a angústia se angustia, para o seu próprio poder-ser-no-mundo”. A angústia revela ao homem que ele é o responsável por si e vivenciar a angústia significa refletir sobre as escolhas e realizá-las de forma mais própria. Como se pode ver nos atos de suicídio, a escolha tem sido a morte, como vivência da última possibilidade do Dasein, o morrer. Nessa perspectiva, perguntamos: Como pessoas do Seridó estão vivenciando a sua existência após a tentativa de suicídio? Como é para eles a experiência de ter tentado suicídio? Vamos, então, à nossa pesquisa. 86 5. Capítulo IV – Caminhando através dos passos metodológicos A caminhada Estou partindo de viagem Andar é uma obrigação Vou seguindo pela margem Para não chamar atenção Me ungindo da coragem De atravessar o sertão Construindo a minha rodagem Caminhar é construção Refletindo sobre a mensagem Que faz cessar a ilusão Desistindo da bobagem De renunciar à paixão Curtindo certa dosagem Do paladar da emoção Corrigindo uma postagem Que pude rasurar à mão Vou conduzindo na bagagem Só o pulsar de um coração Se diluindo em imagem A se desenhar no meu chão ´ Gecílio Souza 87 5.1 Pesquisa qualitativa e o método fenomenológico A definição do método é uma etapa fundamental do processo de pesquisa. De acordo com Minayo (2013), a metodologia abrange as concepções teóricas da abordagem, articulando- se com a teoria, com os pensamentos sobre a realidade e com a própria realidade empírica. Compreender a experiência da tentativa de suicídio no Seridó potiguar, na perspectiva heideggeriana, se ampara em metodologias qualitativas de pesquisa. A pesquisa qualitativa preocupa-se com um nível de realidade que não pode ser quantificado. Ela trabalha com o universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes, o que corresponde a um espaço mais profundo das relações, dos processos e dos fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis (Minayo, 2013). Fazer pesquisa é, nesse contexto, um trabalho que exige do pesquisador uma motivação para com o fenômeno que pesquisa, pelas exigências cotidianas e próprias do campo. Na pesquisa, o pesquisador é instigado a responder sobre um determinado fenômeno, dedicando- se a investigá-lo. Conforme aponta Critelli (1996, p. 25), “investigar é sempre colocar em andamento uma interrogação”. Em nosso estudo, o olhar sobre o fenômeno, busca compreender o homem em sua existência, em constante relação com o mundo, com os outros e consigo mesmo. Escolhemos o método fenomenológico como o caminho para compreender o fenômeno,partindo das ideias que já possuímos sobre o mesmo, mas lançando-nos sobre ele abertos à experiência do outro que se manifesta no encontro, através da linguagem. A fenomenologia, como afirma Critelli (1996), não nasceu como um método, tal qual como as ciências e técnicas modernas o supõem, mas surge como um questionamento da dissolução da filosofia no modo científico de pensar; da lógica inerente às ciências modernas, 88 “como crítica da metodologia de conhecimento científico que rejeita, do âmbito do real e do próprio conhecimento, tudo aquilo que não possa estar submetido à estrita noção de verdade [enquanto verificável por um método], de sujeito cognoscente e de objeto cognoscível” (Critelli, 1996, p 21). O interesse da fenomenologia está na experiência de cada sujeito, vivenciada em seu mundo. A fenomenologia trouxe, como inspiração para o conhecimento científico, um modo de estudar os fenômenos da existência humana, não visando encontrar a essência pura, mas o desvelamento, o aparecer do fenômeno que se dá através dos sentidos que se desvelam no encontro entre pesquisador e colaborador. Uma pesquisa que se intitule fenomenológica não tem a pretensão de encontrar verdades absolutas, mas compreender o ser humano, aceitando a provisoriedade da verdade e a insegurança do existir (Maux, 2014). É justamente pelas características de fluidez, mutabilidade e inospitalidade do mundo que a experiência humana se caracteriza, confirmando que a segurança não pode ser encontrada em parte alguma: “e isto não é uma deficiência do existir como homens, mas sua condição quase como sua natureza” (Critelli, 1996, p. 21). No que concerne à fenomenologia fundamentada nas ideias de Heidegger (1927/ 2012), ela busca entender o ser humano enquanto ser-aí, o Dasein, capaz de pôr em questão o seu próprio ser e consciente de sua finitude. Compreender o homem em Heidegger significa compreendê-lo a partir de sua relação com o mundo, sempre aberto às possibilidades de vir-a- ser, na sua relação com os outros e com as coisas simplesmente dadas. Trata-se de um homem envolto em modos de ser, sentidos e significados construídos em sua temporalidade e historicidade. Heidegger (1927/2012) vai enfatizar que esse ser é compreensão e possui a linguagem como aquela através da qual os sentidos chamam pelas palavras. 89 Assim, pensar um método de inspiração heideggeriana significa valorizar a relação entre pesquisador e participante, onde ambos participam dessa experiência, visto que o ser humano é sempre ser em relação, ser-no-mundo-com-os-outros. De acordo com Dutra (2002, p. 377): A escolha de um método de inspiração fenomenológica parece o mais adequado quando se pretende investigar e conhecer a experiência do outro, uma vez que o ato do sujeito de contar a sua experiência não se restringe somente a dar a conhecer os fatos e acontecimentos da sua vida. Mas significa, além de tudo, uma forma de existir com-o-outro; significa compartilhar o seu ser-com-o-outro. Neste contexto da pesquisa fenomenológica, o compartilhamento de experiências do colaborador com o pesquisador se configura como um momento no qual compreensões e afetos se dão neste encontro. E a afetação do pesquisador é fundamental para lançar luz aos relatos compartilhados. Entretanto, conforme Critelli (1996, p. 66), há uma impossibilidade de apreensão dos fenômenos em sua totalidade, posto que “coisa alguma pode mostrar-se na sua totalidade, na sua inteireza, na sua potência definitiva. Isto, também, porque a coisa se mostra, sempre, para certo olhar”. Olhar algo que se mostra é já habitar em uma pré-compreensão do algo que se abre, o que o guiará para uma interpretação. Heidegger (1987) entende a compreensão como o ser existencial do próprio poder-ser da pre-sença de tal maneira que, em si mesmo, esse ser abre e mostra a quantas anda seu próprio ser. A interpretação, por sua vez, aparece em Heidegger como a elaboração do projeto da compreensão. Entretanto, interpretação e compreensão não são entendidas como etapas separadas, mas como intrínsecas ao entender humano. A compreensão revela a abertura para as possibilidades que ganham forma por meio da interpretação. Assim, existir significar abrir um campo compreensivo. Existência é, portanto, compreensão e interpretar é apropriar-se do que previamente se compreendeu. É atualizar possibilidades que se apresentam no horizonte compreensivo do existir do ser. Nesta 90 perspectiva, nos afirmam Azevedo e Dutra (2015) que interpretar seria elaborar as possibilidades projetadas na compreensão, assim, compreender sempre será interpretar. Partindo dessa compreensão, Heidegger (1927/2012) pensa a interpretação imersa numa circularidade. Para ele há uma circularidade interpretativa e uma diferença ontológica já sempre em operação e que não podem ser superadas por teorias do conhecimento, mas devem ser autenticamente assumidas para que o conhecimento seja compreendido no seu ser (Seibt, 2016). Estamos sempre nessa circularidade hermenêutica interminável (Azevedo & Dutra, 2015). E embora Heidegger não tenha pensado o círculo hermenêutico enquanto método de pesquisa, ele propõe pensar a compreensão hermeneuticamente em congruência com a ideia de circularidade. Tal círculo hermenêutico compreende três estados não-lineares, indissociáveis: a posição prévia, a visão prévia e a concepção prévia. Trata-se, assim, da hermenêutica enquanto um tipo de interpretação tomada como o ato primário da compreensão por meio de uma ontologia fundamental. Significa compreender a vida pela experiência da própria vida, em sua facticidade e historicidade, e de permitir o desvelamento do ser supondo, sempre, a estrutura existencial do ser-lançado e do projeto, do passado e do futuro (Stefani & Cruz, 2019). A compreensão, mesmo antes de ter seu sentido conferido a partir do interesse de cunho teórico ou pragmático, tem seu sentido original atribuído a seu caráter ontológico, próprio da vida humana (Heidegger, 1927/2012). A compreensão é estrutura existencial do Dasein, que se encontra jogado no mundo, entregue a sua própria existência (Stefani & Cruz, 2019). Desse modo, o conhecimento humano é visto como finito, bem como o é o próprio ser humano e, assim, não tem lugar fora do tempo o qual possa ser ancorado e fixado. Nesse sentido e no contexto de pesquisa, entendemos por posição prévia o conjunto de ideias iniciais da 91 pesquisadora sobre o fenômeno. O conhecimento anterior do pesquisador (leituras sobre o tema, sentidos que despertaram seu interesse na pesquisa, pessoas que influenciaram no processo e demais informações anteriores ao encontro com os participantes). Dessa forma, a entrevista não será uma escuta neutra. Na visão prévia nos deparamos com possibilidades de compreensão diante do que foi ouvido do participante. É um recorte feito pelo pesquisador a partir de uma abertura, uma disposição afetiva para a escuta do outro, delineadas na posição prévia para proceder à interpretação dos dados. A concepção prévia, por sua vez, trata-se da apreensão deste conjunto de posição e visão prévias. São os sentidos possibilitados pela interpretação. Desse modo, as estruturas prévias da interpretação são processo contínuo que ocorrem na compreensão, em seu caráter de desvelamento e velamento dos fenômenos. Cabe aqui mencionar que tal questão versa sobre o modo de compreender a existência própria dos participantes da pesquisa. Heidegger (1927/2012, p. 219) explicita que “a compreensibilidade do ser-no-mundo se pronuncia como discurso”. E nesse sentido, as falas das pessoas envolvidas no contexto deste estudo são utilizadas como vias de acesso às experiências vividas. Heidegger (1927/2012) considera o discurso como existencial da linguagem, articulador da compreensão e disposição no mundo. Segundo ele: Chamamos de sentido o que pode serarticulado na interpretação e, por conseguinte, mais originariamente, ainda, já no discurso. Chamamos de totalidade significativa aquilo que, como tal, se estrutura na articulação do discurso. Este pode desmembrar-se em significações (Heidegger, 1927/2012, p. 219). Através do discurso podemos apreender os significados presentes nas vidas das pessoas já que a linguagem nos abre a própria existência. Reconhecendo a relevância da linguagem e 92 do discurso para o conhecimento da experiência vivida, escolhemos utilizar das entrevistas narrativas como forma de acesso ao fenômeno. A escolha pela entrevista narrativa ocorreu por ela permitir o acesso ao fenômeno, à história contada pelo narrador a partir de sua própria compreensão. Através da narrativa, o participante relata o que considera relevante para a sua trajetória vivencial, contada por meio de fatos, acontecimentos e afetos (Dutra, 2002). Nesse processo, a comunicação entre pesquisadora e participante implica numa relação de afetação. O encontro viabilizado pela entrevista narrativa traz a perspectiva da afetação da pesquisadora e dos participantes, o que pode ser compreendido como um modo de ser-no-mundo-com-os-outros. Ainda de acordo com Dutra (2002, p. 373), “a narrativa contempla a experiência contada pelo narrador e ouvida pelo outro, o ouvinte. Este, por sua vez, ao contar aquilo que ouviu, transforma-se ele mesmo em narrador, por já ter amalgamado à sua experiência a história ouvida”. O narrador é aquele que ouve a história de alguém e a transmite aos demais, partindo de sua compreensão sobre o que lhe foi relatado. A narrativa estampa a marca do narrador no sentido de que não é o “puro em si” que é expresso, mas o fato a partir das impressões do narrador, de sua afetação (Maux, 2014). Não existe a busca pela verdade universal dos fatos, e sim uma compreensão do fenômeno para a pessoa que o vivenciou. 5.2. Procedimentos metodológicos 5.2.1. Local da pesquisa O local da realização da pesquisa foi a cidade de Caicó, localizada na região do Seridó potiguar, interior do Rio Grande do Norte. Segundo os dados do IBGE (2010), trata-se de uma cidade com dimensão territorial de 1.228,583 km² e população de 68.222 habitantes, destacando-se como centro político e econômico da região do Seridó. A escolha do local, como 93 mencionado anteriormente, também se deve às altas taxas de suicídio, destacando-se das demais cidades da região. As entrevistas foram realizadas em dia e local de melhor conveniência para os colaboradores com a condição de ser um lugar sem ruídos ou interferências. 5.2.2. Os participantes da pesquisa Fizeram parte da pesquisa pessoas que sobreviveram à tentativa de suicídio no município de Caicó. Chegamos a esses participantes por meio da indicação de um psicólogo, de uma servidora pública e de pessoas da população em geral que ao tomarem conhecimento dessa pesquisa, se dispuseram a colaborar. Foram realizadas 5 entrevistas, com 2 homens e 3 mulheres. À medida em que as pessoas eram indicadas, a pesquisadora estabelecia um primeiro contato por telefone e em seguida presencial. - Critérios de inclusão e exclusão: a) Ter nascido na região do Seridó e ainda ser residente, tendo em vista estar inserido há mais tempo na cultura da região; b) Ter sobrevivido à tentativa de suicídio; c) Disponibilidade em participar do estudo; d) Estar em condições de decidir sobre sua participação e de assinar o termo de consentimento e o termo de gravação de voz; e) ter idade acima de 18 anos; idade a qual consideramos ter, supostamente, condições de concordar com a pesquisa visto que se trata de uma temática mobilizadora. -Instrumentos e procedimentos da pesquisa: a) Entrevista Narrativa 94 b) Diário de afetações; c) Gravador de voz; d) Termo de Autorização para Gravação da Voz e Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) 5.2.3. Aspectos éticos O presente estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (CAAE: 03986118.7.0000.5537). Antes do início de cada entrevista foi apresentado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) para os participantes. Neste termo constam os riscos e benefícios envolvidos na participação da pesquisa. Nos casos de concordância na participação, também foi solicitada a assinatura do Termo de Autorização para Gravação de Voz. Foi evidenciado aos participantes o cuidado com a preservação do sigilo quanto à identidade dos mesmos. Foi colocado à disposição do colaborador o acompanhamento psicológico, caso o mesmo reconhecesse tal necessidade proveniente de algum desconforto que a entrevista pudesse causar, ou se a pesquisadora percebesse tal necessidade. O acompanhamento ficou disponível por parte da pesquisadora e de outros dois profissionais da psicologia residentes em Caicó que se dispuseram a colaborar. 5.2.4. As entrevistas narrativas 95 Foram realizadas entrevistas narrativas, gravadas com o auxílio de um gravador portátil e posteriormente, transcritas. A compreensão das narrativas teve por fundamento os sentidos que emergiram das falas dos participantes, bem como os momentos que afetaram a pesquisadora. Essas afetações foram escritas no diário de afetações da pesquisadora e utilizados no processo de interpretação. Em todas as entrevistas, as falas ultrapassaram a gravação. Percebemos que a retirada do gravador possibilitou falas ainda mais espontâneas por parte dos colaboradores, os quais pareciam sentir-se mais livres para expressar suas experiências. Tal fato foi constatado pela pesquisadora devido à fluidez das falas, à entonação e à espontaneidade dos conteúdos ao ser encerrada a entrevista. Com o gravador, os colaboradores davam a entender que não tinham nada mais a acrescentar, após ser desligado o gravador, traziam em suas falas outras lembranças e colocações relevantes sobre a temática do estudo. Também foram feitas narrativas importantes antes de iniciar a gravação, no momento inicial dos encontros. Apesar de perceber a fluidez das falas sem o gravador, optei por sua permanência no intuito de poder escutar novamente as falas dos colaboradores no processo de interpretação, bem como por tratar-se de um instrumento de pesquisa que mantém a formalidade científica. As falas que ultrapassaram as gravações foram registradas no diário de afetações. No contato com os colaboradores da pesquisa, buscamos criar um espaço no qual eles pudessem se sentir acolhidos. A entrevista foi semiaberta, pautada em uma escuta fenomenológica, proporcionando à pesquisadora pontuar questões pertinentes que puderam aparecer ao longo da entrevista e serem esclarecidas e aprofundadas ao longo da relação estabelecida no encontro com os entrevistados. Esse tipo de entrevista possibilita ao pesquisador ter uma postura ativa no processo, cabendo a ele as possibilidades de ver novas perguntas e respostas, dependendo da condução da própria entrevista. Esta abertura e postura 96 ativa do pesquisador possibilita que o mesmo acesse o fenômeno, buscando a compreensão da experiência do outro (Vasconcelos, 2018). Desse modo, iniciamos a gravação pedindo aos colaboradores que nos contassem sobre a experiência da tentativa de suicídio. 5.2.5. O diário de afetações O diário de afetações correspondeu ao material escrito, fruto do registro desenvolvido após cada encontro com os colaboradores da pesquisa. Ao finalizar cada encontro, parei para escrever as principais afetações decorrentes do mesmo. Esse material foi utilizado em posterior leitura, dando continuidade à interpretação das entrevistas. 5.2.6. As interpretações das narrativas Considerando que na perspectiva heideggeriana, a pesquisadora é afetada pelos relatos e que a compreensão do fenômeno se abre a partir do encontro pesquisador e colaborador; as interpretaçõesdas narrativas já iniciam a partir da própria entrevista. Podemos considerar que os registros no diário de afetações, reflexões e impressões que a pesquisadora teve através do contato com o campo e com os colaboradores, podem ser considerados como início do procedimento interpretativo. A compreensão do fenômeno já se inicia antes mesmo da ida ao campo, já que a visão prévia da pesquisadora compõe o movimento interpretativo, parte do círculo hermenêutico (Heidegger, 1927/2012). Desse modo, o primeiro degrau para a realização da interpretação das entrevistas foi o de elucidar a visão prévia da pesquisadora. Após a efetivação das viagens para a realização das entrevistas, foram retomadas as anotações do diário de afetações, bem como as gravações das entrevistas que foram transcritas. 97 O próprio momento de transcrição das entrevistas é potente momento interpretativo das narrativas. Após as transcrições, foram realizadas leituras e releituras dessas entrevistas e do diário de afetações. Em seguida, foram destacadas as falas mais relevantes e que mais afetaram a pesquisadora. Cada contato com as narrativas e com o diário de afetações, possibilitavam novas compreensões, desvelando novos sentidos e significados da experiência narrada, guiados pela hermenêutica heideggeriana. Também foi retomada a literatura estudada para a composição do texto interpretativo. Dessarte, a interpretação do fenômeno foi realizada em harmonia com a circularidade hermenêutica (Heidegger, 1927/ 2012) e teve as suas etapas inspiradas nas propostas de Dutra (2002), Azevedo (2013) e Maux (2014). Sendo elas assim sintetizadas: a) Registro das afetações do pesquisador durante a entrevista. Após a entrevista o pesquisador descreve aspectos relevantes para o mesmo no diário de afetações, as afetações e até reflexões e questionamentos tendo por base a visão prévia e a posição prévia; b) Transcrição da entrevista e posterior releitura do pesquisador; c) Identificação de temas que emergem das narrativas, como um desvelamento das tramas da existência de cada participante que possibilitarão um novo encontro com as afetações registradas no diário de afetações. Os temas retratam aspectos significativos para os participantes que são contemplados ao longo das narrativas e que afetaram o pesquisador/ narrador; d) Interpretação do fenômeno com base na concepção prévia em que os conhecimentos anteriores são refletidos junto às entrevistas transcritas. Nesta etapa, o todo da pesquisa é apresentado diante da reflexão do pesquisador para a estruturação da compreensão do fenômeno; 98 e) Diálogo com os autores. Sob essa perspectiva, a interpretação das entrevistas é aqui apresentada como texto narrativo compreensivo. Este texto se configura como uma narrativa compreensiva dos colaboradores escritos pela pesquisadora através dos sentidos e significados provenientes dos encontros com os colaboradores, em seu próprio local de manifestação, o sertão do Seridó. 99 6 Capítulo V – A experiência a partir de quem a vivenciou: interpretação das narrativas Sentindo falta de mim Hoje eu acordei assim Sem receber um bom dia Caí no fundo do poço Tá morta a minha alegria Pois só me resta agora O estado de poesia Me toca a brisa macia Penetra em meu coração Meus olhos mostram com força A força da emoção Aos poucos eu sinto falta Da minha respiração Pisando leve no chão Vou seguindo o meu caminho Tirando da minha alma Cada ponta de espinho Sentindo a forte dor Do que é andar sozinho Eu sigo no desalinho Sentindo falta de mim As vezes me perguntando Por quê tem que ser assim Não era para morrer As flores do meu jardim As vezes damos um fim Matando flores por flores Sem notar a gente apaga O brilho que tem nas cores Deixando tudo cinzento Promovendo nossas dores. Diosmam Avelino 100 A fim de contextualizar as falas dos colaboradores que contribuíram com esse estudo, apresento uma breve história de cada um deles. São as falas desses protagonistas que embasaram a reflexão e interpretação sobre a temática do estudo. Foram cinco colaboradores que revelaram suas experiências, cada um em sua singularidade. Eu nominei cada um deles com um nome fictício, com o objetivo de preservar as suas identidades. A escolha de cada nome deu-se por eles próprios ou por mim, quando eles assim preferiram. Desse modo, tive por colaboradores: Maria, José, Francisco, Teresa e Amélia. O contato com os eles deu-se no intuito de compreender a experiência da tentativa de suicídio na Região do Seridó potiguar. Apesar de ter ciência dos numerosos casos de tentativa de suicídio na região, havia dúvidas da minha parte quanto à disponibilidade de colaboradores, tendo em vista a complexidade da temática. Contudo, deparei-me com a abertura e disposição dos moradores do município de Caicó em colaborar com a pesquisa, tanto na indicação de pessoas quanto no desejo de falar sobre a própria experiência. Observei, nesse momento inicial, que as pessoas encontravam na pesquisa a possibilidade de falar sobre seus sofrimentos. Por tratar-se da minha experiência de ouvir as narrativas, enquanto pesquisadora, a escrita do texto seguirá em primeira pessoa. - Maria Maria é uma mulher de 32 anos, foi casada durante 5 anos com um homem que muito amou e com o qual teve uma filha que hoje tem 11 anos. Relatou ser ateia e vem de uma família de 3 filhos, sendo ela a filha mais velha. O contato foi estabelecido com ela por indicação de conhecidos meus. A escolha do nome Maria partiu dela mesma que justificou ser um nome popular, bem como o nome da avó. Ao entrar em contato com Maria e relatar sobre do que se tratava a pesquisa, ela prontamente quis colaborar. Marcamos nosso encontro em sua casa, por escolha da própria colaboradora. 101 Tive dois encontros com Maria em uma mesma semana. Algumas das falas foram registradas pelo gravador de voz e outras, que ultrapassaram a gravação, foram registradas por mim no diário de afetações. As falas gravadas foram parte do primeiro encontro, pois antes mesmo de ligar o gravador, já estávamos, eu e ela, a dialogar sobre a temática desse estudo. Contudo, no intuito de sentir-me mais segura em não perder conteúdos importantes das falas, segui com a proposta da gravação. Ao concluir a gravação, Maria retomou alguns conteúdos da temática. Nesse momento, propus um segundo encontro no qual não utilizei o gravador por perceber que isso a deixava mais tranquila para falar. Ela mostrou-se muito disponível, embora tímida e ansiosa ao início do nosso primeiro encontro. Também eu me encontrava ansiosa diante do que poderia aparecer naquele momento. O segundo encontro foi mais curto e mais tranquilo para ambas. Maria relatou em sua fala que tentou suicídio três vezes, mas que a família só soube de uma delas. A última tentativa ocorreu há aproximadamente cinco anos. Todas as tentativas envolveram a ingestão de comprimidos psicotrópicos. - José José tem 45 anos, é casado e pai de uma criança de 6 anos. É católico e relata ser um homem dedicado à família. Tentou suicídio uma vez, durante a adolescência. O contato com José deu-se por indicação de um familiar meu. José encontrou-se com meu parente em seu trabalho e apesar de não o conhecer, ao longo de uma conversa, mencionou que havia tentado suicídio quando adolescente. Meu familiar falou da pesquisa e perguntou se ele aceitaria participar e José deu o número do celular comunicando que teria interesse em colaborar. Perguntei, por telefone, a José, qual lugar ficaria melhor para ele falar sobre sua experiência. Ele escolheu um salão de eventos religiosos localizado em um dos principais 102 bairros da cidade. Apesar de não se considerar um homem religioso, mas “temente à Deus”, seu discurso é atravessadopelo viés religioso. Ele mostrou-se disponível e tranquilo ao falar da tentativa de suicídio. Mencionou várias vezes que hoje não faria novamente e que a família que construiu é o seu maior tesouro. José tentou suicídio aos 15 anos, quando utilizou uma corda tentando enforcar-se. Foi socorrido pelo irmão que arrombou a porta do quarto no qual ele estava. A escolha do nome deu-se por parte dele que não quis justificar a sua escolha, afirmando ser um nome fácil e o primeiro que veio à sua mente. - Francisco Francisco é um jovem de 34 anos, solteiro, católico e reside com seus familiares. Entrei em contato com Francisco por indicação de pessoas conhecidas. Atualmente Francisco encontra-se desempregado e trabalha como artesão para se sustentar. Ele não quis escolher um nome fictício, deixando essa tarefa para mim. Eu escolhi o nome Francisco por ser um nome popular, simples e que segue esse tom de religiosidade muito presente na pesquisa. Entrei em contato com ele por telefone, expliquei a pesquisa e prontamente ele se dispôs a colaborar. Ofereci algumas possibilidades de lugares para o encontro com Francisco, entre eles, um consultório, a sua casa, ou outro lugar que ele desejasse. Francisco pediu que a entrevista fosse realizada longe de seu ambiente familiar. Mencionou que sua família não poderia estar por perto, pois não teria maturidade para ouvir a nossa conversa. Desse modo, por escolha de Francisco, nosso encontro ocorreu na casa dos meus familiares, visto que o ambiente estava tranquilo e sem nenhuma perturbação ou ruído. A escolha de Francisco pela casa dos meus familiares gerou em mim certa inquietação, enquanto pesquisadora, por querer proporcionar a escuta em um lugar “neutro”. Contudo, também me trouxe questionamentos sobre o significado que teria para Francisco esta escolha. Talvez ele 103 quisesse que a entrevista fosse como que uma conversa típica de visita de interior, sem muitas cordialidades. Lembro-me de percebê-lo com essa postura ao longo de toda a entrevista. Falava livremente e entusiasmado ao narrar a sua história. Outra questão que perpassou meus pensamentos foi a de que, para Francisco, havia um certo “bem-estar” em afirmar conhecer a família da pesquisadora. De todo modo inquietou-me a naturalidade com a qual pediu para que fosse esse o lugar da escuta, principalmente pelo meu papel de pesquisadora, ainda assim não relutei em aceitar sua proposta, visto que, no momento, me pareceu mais sábio priorizar a sua escolha. Vale salientar que apesar de me soar estranha essa possibilidade, em nenhum momento percebi que essa escolha afetou a minha escuta e o nosso encontro negativamente. Francisco relatou, ao longo da entrevista, ter tentado suicídio 5 vezes, sendo a primeira vez aos 15 anos e a última há aproximadamente 2 anos. As tentativas deram-se de diferentes formas: com a ingestão de comprimidos, ingestão de seringa com medicação estética no abdômen e enforcamento. Menciona em suas falas que a ideação suicida é ainda presente, embora “saiba lidar com mais maturidade” com os seus impulsos. Fala sobre um constante conflito que vivenciou ao descobrir-se homossexual e não se aceitar por questões religiosas, tendo sido esse um dos motivos que o levou a pensar em pôr fim à própria vida. - Teresa Teresa é uma jovem de 22 anos, estudante de graduação, solteira e mora com os pais. Relata ser “católica de nome” por não frequentar a igreja e seu núcleo familiar ser católico, mas frequentar o espiritismo. Meu contato com Teresa deu-se por indicação de um psicólogo de uma Instituição de Ensino Superior na qual ela estuda. De acordo com Teresa, ele divulgou a 104 pesquisa e ela falou ter interesse em participar, repassando o contato para o mesmo. O nome Teresa foi uma escolha da pesquisadora pelos mesmos motivos da escolha atribuída a Francisco. Desde o primeiro contato com Teresa, assim como com os demais colaboradores, ela mostrou-se disponível. Mencionou no telefone que tem o costume de se cortar, especialmente cortes nos pulsos e que sente uma tristeza profunda. Percebi um real interesse em nos falar sobre sua dor e marcamos com ela na universidade, mais especificamente na sala do psicólogo que prontamente nos cedeu o seu espaço. A entrevista foi longa e nela confirmamos o desejo de Teresa em relatar sua experiência. Ela aparentou estar um pouco ansiosa no início, mas logo falou com tranquilidade, emocionando-se em alguns momentos. O desejo de parar de sofrer e pensar no suicídio como uma possibilidade estão muito presentes na vida de Teresa. Ela relata ter muita dificuldade em contar para as pessoas sobre o que sente e que apenas três pessoas, além de mim, sabem o que se passa com ela: um amigo, o noivo e o psicólogo que a atende. - Amélia Amélia tem 65 anos, é casada, católica, mãe de 3 filhos e avó de dois netos. Atualmente mora com o esposo e uma das filhas que é deficiente mental. Ela está aposentada e foi servidora pública a vida toda. Dedica-se aos cuidados da filha deficiente e à casa. Meu contato aconteceu por intermédio de uma servidora da mesma Instituição de Ensino Superior onde estuda Teresa, que ao saber da pesquisa, se prontificou em ajudar. A servidora me passou o contato de Amélia e informou que já havia conversado com a filha dela e dito que eu entraria em contato. Liguei para o celular de Amélia, expliquei o motivo de meu contato e ela disse que não teria problema em falar sobre o ocorrido, mas que não se lembrava de muita coisa, como se sua memória tivesse sido “apagada”. 105 Apesar de não lembrar bem dos fatos, mostrou-se muito aberta a conversar. Pediu que a entrevista fosse a sua casa e disse que não teria nenhuma dificuldade em falar sobre a tentativa de suicídio, pois toda a família estava ciente do que ela havia vivenciado. Fui muito bem recebida na casa de Amélia. Ela tentou suicídio há 10 anos por enforcamento, sendo socorrida pelo esposo. Relatou que após a tentativa, o suicídio deixou de ser uma possibilidade para ela, tamanho o sofrimento vivenciado. A escolha do nome deu-se por parte dela que mencionou ser esse o nome de uma rosa que ela gosta muito. 106 6.1. As narrativas de Maria Em 2019, um conhecido meu de Caicó mencionou ser amigo de uma pessoa que havia tentado suicídio e acreditava que ela aceitaria participar da pesquisa. Essa pessoa é Maria. O que eu soube de antemão sobre sua história foi que ela havia tentado suicídio ingerindo medicações psicotrópicas e que havia sido internada. Conforme relatado anteriormente, meu contato inicial foi por telefone para que eu pudesse marcar um encontro com Maria e pegar a estrada para Caicó. Seria a minha primeira entrevista da pesquisa; desse modo, eu estava ansiosa para saber qual seria a resposta da possível colaboradora. Como soaria para ela esse convite? Como seria para mim escutá-la? Quem seria Maria? Essas e tantas outras perguntas ocorreram em minha mente antes da ligação. Liguei, então, para ela identificando-me, explicando o motivo de minha ligação e perguntei sobre a sua disponibilidade em colaborar. Maria estava tímida ao telefone, respondendo-me com poucas palavras, contudo, confirmou que aceitaria realizar a entrevista e pediu que a mesma ocorresse em sua casa. Contou-me que no dia escolhido por ela estaria sozinha e não “teria ninguém para atrapalhar”. Viajei para Caicó para encontrar-me com Maria. A primeira de algumas viagens para a pesquisa. Na estrada, observando a vegetação seca da caatinga, ia refletindo sobre como seria o nosso encontro e em como poderia proporcionar a ela o acolhimento necessário para falar sobre uma temática tão tabu em uma cidade de interior. Chegando à casa de Maria, fui recepcionada por ela; era uma casa pequena e simples por ela alugada. Ela mencionou que a filha estava na casa do avô e perguntouse eu queria algo como água ou um café. Apresentou- me a casa, cômodo por cômodo. Nesse momento, fui percebendo que ela ia abrindo-se para me contar sua história à medida em que ia abrindo a sua casa. Era necessário que emergisse um certo tom de 107 “intimidade” para que Maria conseguisse falar da sua experiência para mim. Esse momento inicial aconteceu para que eu fosse descobrindo quem era ela e ela também pudesse sentir quem eu era. Pela minha experiência, é comum em cidade do interior esse movimento de apresentar a casa e oferecer comida às visitas. Fomos, então, à cozinha, bebemos um pouco de água que diante do calor da cidade ajudou a nos refrescar. Sentindo-se mais segura, Maria sugeriu que ficássemos na sala para realizar a entrevista, pois tratava-se do lugar mais ventilado da casa. Chamou-me a atenção o fato dela ter deixado a janela que dava para a rua aberta. Era uma janela grande e vizinhos ficavam passando o tempo todo nas calçadas. Fiquei interrogando-me se seria pela ventilação, por não me conhecer ainda tão bem ou se queria, de alguma forma, que as pessoas ouvissem algo. Certamente, quem passasse por aquela calçada poderia nos escutar. Perguntei para ela se esse seria o melhor lugar, ela respondeu-me que sim. Guardei para mim tal questionamento, afinal, estávamos ainda nos conhecendo. Conversamos sobre algumas coisas antes de iniciar a entrevista formalmente. Ela me relatava que existiam muitos casos de suicídio em Caicó e que duas amigas dela já haviam tentado e uma teria morrido. Através das falas de Maria, ficava claro para mim que ela queria falar sobre o ocorrido e que achava interessante alguém estar estudando o suicídio na cidade, apesar de relatar que estava um pouco nervosa. A intensidade com que ela relatava os suicídios na região me trazia a sensação de que saber que pessoas próximas e “conterrâneas” escolhiam morrer, tornava o suicídio muito mais próximo e possível diante do sofrimento. Parecia-me que tomar o conhecimento de que pessoas conhecidas escolheram a morte como possibilidade, também a aproximava desta mesma possibilidade frente à angústia que sentia. Nossas conversas foram escritas posteriormente no diário de afetações. Expliquei a Maria sobre a assinatura do TCLE e do termo de gravação de 108 voz, os quais ela assinou. Então eu pedi a Maria que me falasse sobre como foi para ela vivenciar a experiência de ter tentado suicídio. Ela começou relatando que a experiência de uma tentativa de suicídio deixa sérias consequências em quem a vivencia. Para Maria, a pessoa não conseguirá continuar a viver a vida da mesma forma que antes, estando a recordar o episódio ao longo da vida e passando a sempre considerar o suicídio como possibilidade diante dos sofrimentos que venham a aparecer. Contou-me: Eu acho que essa experiência deixa muitas consequências, mesmo que as pessoas não vejam. Eu tenho trauma até hoje. Por exemplo, hoje eu tenho medo de remédio para dormir e eu tenho medo do hospital, sempre associo ao que se passou. Quando eu vejo um remédio para dormir, me dá uma ânsia de vômito e fico com agonia. Eu fico pensando que vou tomar, vou adormecer e não mais acordar. E quando chego na frente de um hospital me dá um mal-estar. É como se eu estivesse adoecendo das mesmas coisas, eu saio de lá agoniada e eu fico achando o tempo todo que eu vou morrer. Ainda sobre esse aspecto, Maria diz: Parece que algo fica dentro da pessoa. Às vezes eu acho que eu vou me matar sem querer, porque eu acho que o meu fim é esse. Eu acho que a pessoa por mais que lute tem um dia que a pessoa acaba fazendo. Um dia acaba se matando! Pareceu-me, neste momento, que Maria tem medo de enlouquecer e de, “em um momento de loucura”, cometer suicídio. Ela relatou diversas vezes que vivencia momentos de angústias tão intensas que a vida perde completamente o sentido e que tem medo do que é capaz de fazer consigo nesses momentos. Parece-me que Maria não encontrou outro modo de ser que dê sentido a sua existência, dessa forma, o suicídio continua sendo para ela a possibilidade mais próxima. Há em Maria uma ambivalência entre desejo e temor. O que teme? Tentar e não 109 conseguir, não conseguir sustentar a vida, causar sofrimento ao outro. Expressa uma solidão insuportável. Os reveses da vida e o que não sai conforme o prescrito a desalojam. Nesse momento da entrevista, recordei-me da indulgência existencial na qual o ser humano pode viver. As falas de Maria me fazem perceber que o sentido se esvazia e o nada aparece em sua vida, quando ela vivencia a angústia e se percebe sem enraizamento diante do mundo, sem um habitar no sentido de ethos. Assim, a angústia se anuncia para ela nos rompimentos cotidianos, que a retiram das ocupações da cotidianidade. E A sensação que eu tinha ao escutar esse relato era de desespero, abandono, ausência de sentido, vazio existencial. Eu seguia a entrevista levantando alguns questionamentos e ela continuava a afirmar que o suicídio acabará por ser o seu fim e que ela acredita que as pessoas que sobreviveram à tentativa fogem do suicídio, mas que o mesmo é sempre a possibilidade mais próxima para essas pessoas. Diz: Acho que a pessoa um dia vai tentar, mesmo sem planejar. Quando eu estou muito agoniada com algum problema, eu me deito. Aí pronto! Já começa a vir tudo de novo na minha cabeça. Toda vez que eu me estresso com algo da minha vida, vem de novo na minha cabeça o suicídio. Se eu olhar para um torno de rede, eu já penso: devia colocar uma corda e me matar. Só que eu saio já de perto. É como se tudo fizesse eu voltar para aquela experiência lá de trás. Dá vontade de fazer de tudo, mas dá medo também. Em momentos como esse a sensação era que o suicídio a chamava com frequência, convocava ela e ao mesmo tempo a cercava. O suicídio está para ela o tempo todo como possibilidade. E se pela razão ela não se considera capaz de cometer suicídio, a “desrazão” justificaria tal tipo de morte. Recordo-me do modo como ela falou do suicídio da amiga, pois havia um ar de entusiasmo em sua fala. Tal entusiasmo pareceu-me mais que a dor da perda. 110 Era como se a amiga tivesse a coragem que ela não teve para cometer o suicídio, gerando em Maria uma admiração. Com relação ao medo do suicídio, Maria relatou-me que ele está relacionado às consequências da tentativa, tanto para ela quanto para os seus familiares. Também observei que ela se preocupa em como ficarão seus familiares, caso venha a falecer. Por vezes, ao longo da entrevista, ela me afirmou que a tentativa de suicídio a fez perceber a importância de sua família e que busca “manter-se viva” por eles e não por ela. Relatou que se a sua morte não afetasse seus familiares, ela certamente escolheria morrer. Maria tem medo de tentar morrer novamente e de não conseguir. Ela não quer viver e vai procurando meios de manter-se viva. Ela tem medo de tentar suicídio novamente e se frustrar por não conseguir de novo. Repetiu a expressão “de novo” várias vezes. Como um cansaço em não conseguir alcançar a morte. Dá um medo de fazer de novo, mas às vezes eu tenho vontade de fazer. Principalmente quando eu estou muito estressada. Eu fico pensando que eu devia tentar, só que aí eu penso que vou tentar de novo e não vou conseguir de novo. Aí vai ser todo aquele aperreio de novo. Então eu desisto. E eu penso mais nos outros agora. Eu fico pensando... Eu sei o que é a pessoa sofrer por perder alguém. Se eu fizer isso, vou fazer mal para quem está perto de mim, não a mim. Eu vou achar é bom morrer, mas eu fico pensando nos outros e aí eu busco fazer outras coisas para esquecer. Por várias vezes, ao longo da entrevista, Maria menciona o “estresse” como disparador da ideação suicida. Perguntei como seria isso, qual a sensação ela teria nesses momentos. Todas as vezes ela me respondeu com muita dificuldade. Disseque não sabe explicar com palavras, mas que seria uma espécie de “agonia”. Pareceu-me se tratar da angústia. Ela se refere a essa 111 dor insuportável como uma “agonia no juízo” que a deixa muito agitada e que a paralisa diante da vida. Contou-me que nos dias “de agonia” não consegue fazer nada direito, então muitas vezes só quer dormir. Diante dessa “agonia”, Maria pensa a morte como essa possibilidade próxima e possível de ser antecipada por meio do suicídio. Entretanto, suicidar-se aparece como a recusa ao que Heidegger (1927/2012) chama de peso ou carga do ser, uma vez que o homem é ser-lançado no mundo, em condições que não escolheu e tem diante de si possibilidades de vir a ser algo, na medida em que "carregue" seu próprio ser noutra direção (Roehe & Dutra, 2017). Nesse sentido, ficou-me claro que Maria tenta encontrar nas atividades de sua rotina uma forma de continuar a carregar a carga do ser, contudo, por muitas vezes, reflete se vale a pena carregar tal peso. E assim, ela escolhe dormir, ficar deitada como uma recusa a carregar a carga do ser. Tal carga pode ser pensada por via do fardo de ter que existir, de ter que dar respostas às solicitações da condição de estar lançada no mundo. Nas palavras de Loparic (2003), o ter-que-ser não nos seria prescrito por uma lei moral, mas nos seria imposto pelo nosso ser ele mesmo. Trata-se de uma urgência que incide sobre nós como o peso de um enigma, sem razão suficiente. Somos lançados no mundo com essa carga, sem explicação possível. O fardo de existir é um existencial, e, assim, um constituinte da estrutura ontológica do Dasein descrito de várias maneiras. A mesma abertura que funda o poder-ser do Dasein também se lhe apresenta como um fardo que é o fardo de sua liberdade. De alguma forma essa liberdade lhe pesa, encontra-se entregue à sua própria responsabilidade de ser. O Dasein toma a si mesmo este fardo por se encontrar na contingência de continuamente dar resposta às solicitações que vêm de sua condição existencial de ser lançado ao mundo (Nogueira, 2008). 112 E tentando carregar esse fardo de existir, Maria me explica que sua escolha hoje é sobreviver, pois pensar sobre o sentido da vida traria tamanho sofrimento que a faria tentar tirar a própria vida novamente. Viver uma vida automática seria não pensar a própria existência, ter uma vida anestesiada. Desse modo, ela relata que busca ter uma rotina bem cheia de atividades a fim de não pensar nem na vida, nem na morte. Viver as atividades do cotidiano é seu modo de sobreviver e não pensar nas suas questões existenciais. Pensar na própria existência parece ser para Maria um grande sofrimento, pois não encontra mais sentido de ser, de existir, muito embora mencione que a família tem se tornado o motivo para manter-se viva. Não encontrando mais sentido no seu poder-ser, não querer pensar parece sinônimo de não ter em que pensar em termos de projeções futuras, a não ser a morte. Ainda sobre esses aspectos, ela diz: Eu acho que é porque eu não tenho muita vontade de viver. Eu não vivo, eu sobrevivo! Eu vou sobrevivendo... Eu tenho minhas metas, aí toda vez eu vou fazer isso e aquilo. Só que quando qualquer coisa que sai do meu caminho que eu estou traçando, eu já fico mal. Eu não tenho vontade de fazer as coisas, aí eu vou no automático! Quando uma coisa dá errado eu já me desespero. Maria busca a obrigatoriedade dos seus afazeres para continuar a vida, e os acontecimentos inesperados, nos quais ela tem a sensação de perda de controle, são motivos de grandes sofrimentos para ela, fazendo-a questionar novamente a própria existência. Ela diz que as férias do trabalho são um momento de grande dificuldade, pois a tira da rotina e a deixa com mais tempo livre, o que para ela significa momentos de questionamentos existenciais. Afirma: Tudo o que eu faço é nessa rotina. Quando sai dessa rotina, eu fico agoniada. Tudo o que eu vivo é planejado. Quando eu estou trabalhando ainda vejo gente, mas quando eu estou 113 de férias eu fico trancada. E aí o que acontece... dá uma vontade de ir (de morrer)! Minha rotina me ajuda a sobreviver. As falas de Maria exemplificam a impessoalidade, quando ela menciona “viver no automático”. Podemos também falar em um cuidado de ocupação que a distancia do seu ser mais próprio. Assim, sobre essa necessidade de manter-se ocupada e de não pensar na própria existência, lembramos do que Heidegger denomina de autenticidade e inautenticidade, já explanadas no capítulo teórico. Durante a sua vida o Dasein deixa-se envolver com as ocupações do mundo, o que Heidegger (1927/2012) denomina de existência inautêntica. A reflexão sobre a sua finitude leva o homem a uma existência autêntica, ao pensar sobre o sentido do seu ser, dos seus projetos, ou no caso de Maria, poderia ser a ausência de sentido. Contudo, a existência é na maior parte das vezes existência inautêntica, ou seja, o homem no cotidiano se mantém numa situação de encobrimento de seu ser, possui uma interpretação errônea de sua própria existência, que se mantém para ele encoberta (Werle, 2003). Nessa perspectiva, fiquei interrogando-me se Maria estaria buscando na inautenticidade, no “não-ser”, a fuga de seus questionamentos existenciais que a conduziriam à angústia da sua finitude, visto que para a mesma tais reflexões possibilitariam o ato de pôr fim a própria vida. Maria evita pensar, ao logo dos dias, sobre sua maneira de conduzir a existência, permitindo perder-se na impessoalidade. A vivência cotidiana mantém o encobrimento do seu ser, imerso na vida social. E essa vida em sociedade, segundo Heidegger (1927/2012), é regida por uma noção de convivência na qual não há espaço para a emergência de sujeitos, de singularidades. Nessa convivência domina o impessoal (Maux, 2014). Todavia, é importante ressaltar que o fato de pertencer ao mundo do impessoal não é apenas um limite negativo, bem como não é algo que se possa evitar por meio de uma decisão 114 deliberada, conforme encontramos em Ser e Tempo (Heidegger, 1927/2012, p. 233): “A presença nunca consegue subtrair-se a essa interpretação cotidiana em que ela cresce. Todo compreender, interpretar e comunicar autênticos, toda redescoberta e nova apropriação cumprem-se nela, a partir dela e contra ela”. A existência é sempre originariamente inautêntica, sendo, antes de tudo, um estar- lançado em um mundo da cotidianidade. É neste sentido, que o estar-lançado está vinculado ao que Heidegger chama de condição de queda ou decadência constitutiva do Dasein. Decadência significa que o Dasein, em primeiro lugar e dentro de certos limites, sempre está lançado à interpretação do cotidiano impessoal numa primeira aproximação e na maior parte das vezes, a presença está junto e no “mundo” das ocupações (Magliano, 2013). E é diante da angústia que Maria escolhe não refletir, mas a todo instante essa mesma angústia a convoca e ela já se percebe refletindo sobre seu vazio existencial. Tal vazio é desvelado muitas vezes nas falas de Maria, e o motivo de sua angústia não está em lugar algum. Heidegger (1927/2012) afirma que aquilo com que a angústia se angustia é o ‘nada’ que não se revela em parte alguma. Contudo, esse nada não tem o sentido de ausência de mundo, mas de indeterminação, de possibilidade, de abertura. A angústia é um acontecer no ser-aí em que se realiza a experiência do ser como nada. O nada é exatamente a própria abertura do ser-aí, a sua incompletude, o espaço vazio que o ser- aí é em sua essência. Assim, tal como na angústia, a condição de impessoalidade e de vazio existencial coloca Maria diante da possibilidade de buscar uma existência mais própria ou permanecer no desinteresse de viver, essa última parece ser a escolha dela. Ainda sobre esse aspecto, de acordo com Warschauer (2011), para que se possa compreender melhor os males do mundo atual,é necessário previamente investigar o “vazio de 115 sentido” que permeia o pensar e o agir humano. Assim, o nada conduz o Dasein para o vazio, o que se dá por meio daquele sentimento da angústia. E conforme Dutra (2011), a angústia ao ser desvelada, e diante da dor que provoca, faz surgir a necessidade de fazê-la compreensível, a fim de aliviar o desespero de não se saber. Nesse sentido, procura-se um motivo ou se atribui ao outro a razão do ato, quando na verdade, é a angústia que não é encarada, e da qual o Dasein não se apropria, como parte da sua existência. “É a revelação do ser e também do não ser. Porque é nessa dimensão de velamento e desvelamento que se dá a pre-sença, ou seja, a existência” (Dutra, 2011, p. 154). Na angústia o Dasein se vê desligado de toda a relação com o ente. “O nada é a possibilidade da revelação do ente enquanto tal para o Dasein.” (Heidegger, 1927/2012, p. 239). Para Heidegger, o homem não intui diretamente o nada. Ele toma consciência do nada por meio da angústia, que é um tipo de temor que não tem um objeto. É um ter-medo do vazio. E mesmo diante desse medo do vazio, Maria relata que quando pensa nas tentativas de suicídio, por vezes julga que de alguma forma elas a fortaleceram enquanto pessoa, fazendo-a lutar para sobreviver pelos outros. Ela busca em seu relacionamento com a família motivos para sustentar sua existência, procurando um novo modo de ser. Falando sobre o fortalecimento do seu vínculo com a família após as tentativas de suicídio, Maria afirma: É como que depois de tentar suicídio, eu comecei a pensar mais nas pessoas. Agora parece que eu criei um laço mais forte com painho. Eu vi que ele ficou muito agoniado na época que tentei suicídio e aí hoje tudo que eu faço, eu faço pensando nele e na minha filha. Antes eu dizia que ninguém gostava de mim e hoje eu vejo que ele gosta, porque eu vi o quanto ele ficou aperreado. Assim, eu não sei explicar direito, mas parece que depois disso eu criei mais força, fiquei mais forte. Antes eu me considerava mais vulnerável, mas hoje em dia eu 116 consigo reagir mais. Por mais que eu tenha aqueles dias de recaída, hoje eu volto com mais força. Maria relata que se empenha em viver, apesar do constante pensamento de morte: Hoje eu tenho mais coragem, hoje eu consigo, hoje eu não me entrego como antes. Quando eu vejo qualquer coisa que me deixa triste aí eu já vou tentando fazer alguma coisa que eu não conseguia fazer antes. Por mais que eu não goste, eu vou fazer algumas coisas que eu sei que vão me ajudar. Eu faço isso pensando neles, por eles. Não há clareza para ela se ser corajoso é lutar para permanecer vivo, ou desistir de viver e cometer suicídio; pareceu-me que os casos de suicídio lhe causavam mais admiração. Ainda assim, nesse momento da entrevista, ela se emociona ao falar sobre seu pai e também sobre a filha. Os laços afetivos dão a ela ânimo para enfrentar as adversidades da vida. Pareceu-me que a relação de ocupação com as coisas em sua rotina, preenche sua mente e faz com que ela não pense na morte. Mas é na relação com os familiares que Maria encontra, mesmo que momentaneamente, um sentido para viver. Reflito sobre essa possibilidade de interpretação pelas palavras e também pelo semblante de Maria ao falar do significado que essas pessoas têm para ela; seu semblante é de esperança e serenidade, poucas vezes percebido ao longo da entrevista. Outro aspecto que emerge na fala de Maria é o cuidado. Ela relata sua preocupação em cuidar da filha e mesmo do pai. Sobre esse aspecto, nos diz Heidegger que a dimensão temporal de ser-para-a-morte aponta para o sentido ontológico do cuidado. Heidegger (1927/2012) utiliza o termo alemão Sorge com o significado de cura, que também pode ser definido como cuidado. O cuidado é a própria abertura que constitui o Dasein. “Porque, em sua essência, o ser-no- mundo é cura; o ser junto ao manual como ocupação e o ser como co-presença dos outros nos encontros dentro do mundo como preocupação”. (Heidegger, 1927/2012, p. 260). 117 O discurso de Maria coloca em ênfase o cuidado de preocupação nas suas formas antepositiva e substitutiva, falando de cuidar da saúde do pai e ao mesmo tempo de ensinar a filha a enfrentar a vida, ensinando-a os valores. O fenômeno do cuidado remete Maria ao “ser e estar junto” dos familiares, isto é, à manutenção de um constante relacionamento desencobridor. Em um determinado momento da entrevista vi que precisávamos retornar aos dias das tentativas de suicídio que fazem parte do objetivo de nossa pesquisa. Desse modo, pedi novamente a Maria que nos falasse um pouco mais sobre os dias das tentativas de suicídio e de como foi para ela vivenciá-los. Segue parte do seu relato sobre a experiência: Aconteceu mais de uma tentativa. Um das vezes eu tomei os meus sedativos, só que até hoje ninguém sabe. Eu acho que já era quase meia-noite quando eu tomei e eu me levantei no outro dia de cinco horas da tarde. Percebi que a casa estava bagunçada e minhas sandálias estavam em cima do armário. Eu acho que eu fiquei andando sozinha dentro de casa. Eu tentei três vezes; uma vez de manhã que me levaram para o hospital; uma vez de madrugada e mais outra vez. A última foi a que teve mais consequências. Foi a que eu nem conseguia me acordar e meu pai estava lá. Quando narra a sua primeira tentativa, Maria relata que ela foi precedida pela vivência de um grande sofrimento: o término do relacionamento amoroso que significou o fim inesperado de um projeto de vida. Tratou-se de algo que a surpreendeu, pois aconteceu sem conversas prévias, inserindo Maria em um conflito no qual, mais uma vez, a perda de controle apareceu. Foi perceptível que a falta de controle sobre a própria existência é algo que faz emergir a possibilidade do suicídio para ela. A maneira que eu me divorciei contribuiu para o que aconteceu, porque eu não esperava me divorciar, foi uma surpresa. Quando vão acontecendo as coisas você não se 118 assusta tanto, mas o meu foi de vez. Marcou tanto porque foi na véspera do meu aniversário, aí eu passei o meu aniversário fazendo a mudança. Pela fala de Maria, eu fui percebendo que o fim do relacionamento significou para ela uma grande perda, não só do companheiro, mas também de todas as outras coisas que compunham o cenário de sua vida: casa, objetos, o afeto da filha, o status de mulher casada, entre outros. Eu tinha minha casa desde que casei. Eu só me mudei para minha casa quando eu tinha tudo, porque eu queria tudo pronto. Eu passei um ano na casa de mainha e ele na casa da mãe dele para eu poder comprar nossas coisas. Era casa de pobre, mas tinha tudo. E quando eu me divorciei, que eu fui lá para mainha, eu não tinha mais canto para mim. Na casa da minha mãe eu dormia no colchão no chão. No dia do meu aniversário arrumei a minha roupa, minha maquiagem, tudo dentro de uma sacola, tudo que eu tinha para guardar. Eu tinha o meu canto, minhas coisas e lá em mainha eu não tinha lugar. Minha sapateira ficou na área com todas as minhas roupas. Para Maria, se não havia tudo, não era bom o bastante. Maria fala da importância de sua relação com os objetos e com a sua casa. O sofrimento da separação traz consigo um luto em relação ao projeto de ter sua casa, seu espaço. Não se tratava de uma relação apenas objetiva e material com as coisas, mas tudo isso constituía a sua morada no sentido de habitar. Maria tinha como projeto de felicidade ter um espaço para chamar de seu e ter sua família. A separação rompe abruptamente com esse projeto. Não ter mais canto para morar significou para ela não mais habitar, morar, pertencer, no sentido de ethos. Ela precisa encontrar um novo habitar, um novo modo de ser mulher, diferente do modelo de esposa/mulher casada que, até então, fazia sentido e direcionava sua existência. Esse “habitar” não se refere a ter umaresidência, mas ao 119 existir. Trata-se de um habitar enquanto abertura de sentido, conforme Heidegger explicita: “habitar é bem mais um demorar-se junto às coisas” (Heidegger 1927/2012, p .131). Em Ensaios e Conferências (2012), Heidegger estabelece a relação entre as etimologias das palavras habitar e construir explicitando a conexão entre os sentidos de tais termos. Ele expressa que a antiga palavra bauen (construir) diz que o homem é à medida que habita. A palavra bauen significa ao mesmo tempo: proteger e cultivar, como cultivar o campo, cultivar a vinha. Construir significa, assim, cuidar do crescimento que, por si mesmo, dá tempo aos seus frutos. Assim, no sentido de habitar, ou seja, no sentido de ser e estar sobre a terra, construir permanece, para a experiência cotidiana do homem, aquilo que desde sempre é, como a linguagem diz de forma tão bela, "habitual". Para o filósofo, a experiência de habitar constitui o ser do homem, e em sentido pleno, habitar é o traço fundamental do ser-homem. Nesta perspectiva, também a sensação que o homem tem de não se sentir em casa deve ser compreendido, existencialmente, como o fenômeno mais originário, ontologicamente determinante e anterior a qualquer consideração sobre as diferentes formas de abrigo criadas pelo homem. O ser-no-mundo existe e se determina como aquele que habita. O habitar assume, neste momento, um deter-se junto ou acostumar-se a algo, ou ainda o sentido de cultivar; trata- se de uma forma de proximidade que se define antes de tudo pela permanência junto aos entes em geral, permanência esta que concede ao ser-no-mundo uma espécie de amparo, uma certa familiaridade calcada no conforto do que é sempre o mesmo (Haar, 1993). E como nos afirma Heidegger (2012), habitar é ser trazido à paz de um abrigo; permanecer pacificado na liberdade de um pertencimento, resguardar cada coisa em sua essência. Habitar significa, assim, pertencer, sentir-se parte, retornar ao próprio vigor da essência. A referência do homem aos lugares e através dos lugares aos espaços repousa no 120 habitar. A relação entre homem e espaço nada mais é do que um habitar pensado de maneira essencial. O hábito, o habitual e o habitar não se separam, porém, de seu outro: o não familiar, o inabitual, o inabitável, o “em parte alguma” que angustia e que irrompe no seio do que se imaginava conhecer. A tensão que aqui se revela no âmago do habitar humano diz respeito fundamentalmente à condição do ser-no-mundo como aquele que, em habitando, não se sente em casa, permanecendo atravessado por um sentimento de exílio, e, principalmente, de sua própria finitude (Heidegger, 2012). É interessante refletir também que não foi em qualquer dia que Maria retornou à casa da mãe, foi no dia de seu aniversário. Um dia que deveria ser celebrada a sua existência, tornou- se para ela um dia de luto. E no caso de Maria, além do sofrimento da separação, ela descobriu que foi traída. Aí em sequência, logo em sequência eu descobri que eu tinha sido traída. Quando eu me separei foi que eu descobri. Eu não sabia que eu estava sendo traída. Quando me separei foi que eu descobri e a amante me perturbou muito, me fez muito mal, fez muita besteira perto de mim. Dutra (2000) e Azevedo e Dutra (2012), pensam que a questão amorosa, representada pela perda ou separação do outro amado, poderia ser um dos motivos presentes na tentativa e/ou no suicídio. O fim de um relacionamento amoroso, o desprezo do ser amado ou até mesmo a ameaça de abandono por parte deste são vistos como motivos para a tentativa de suicídio. Para Dias (1991), o indivíduo pode atribuir a responsabilidade da tentativa de suicídio ao parceiro ou mesmo dedicar o autoextermínio a esse outro ser. Ela considera que aquele que tenta suicídio em situação de abandono se mata ansiando matar o outro dentro de si mesmo. 121 Dutra (2002) observou entre os jovens que tentaram suicídio, que eles trazem em si uma falta de amor e busca de um outro, bem como a necessidade de ser amado e de se sentir aceito, percebidos nos relatos em suas pesquisas. Azevedo e Dutra (2012, p. 23) em seu estudo com adolescentes que tentaram suicídio, também afirmam: Tais estudos e ideias nos levam a pensar na tentativa de suicídio, na escolha por não mais viver, como um (des) amor a si, uma falta de amor a seus projetos de vida, seus sonhos, uma falta de amor ao que se é e à própria vida. Um amor que, na relação amorosa, se expressa num reconhecimento de si através do outro, e que propicia ao jovem se perceber como pessoa existente e um ser de potencialidades. Ao perder o outro, ou na ameaça de perda desse outro no qual ele se reconhece, o adolescente perde um pouco de si, do que é, e como foi dito anteriormente, é lançado na solidão que lhe é inerente, lançado num mundo em que é responsável pelo que é, pela sua vida e seu destino. Outro aspecto interessante que percebi nesse momento da entrevista, foi que para Maria divorciar-se significava não só ter que lidar com a solidão, mas também carregar socialmente o rótulo de “mulher divorciada”. Pareceu-me, mais uma vez, que o aspecto cultural tem grande peso sobre a forma como ela se percebe e sente-se. Segundo Maria, “as pessoas falam. Olham para você e falam”. E existe um modo de ser mulher considerado moral e culturalmente aceito atravessado na historicidade. Tratando-se da historicidade de ser mulher divorciada no município de Caicó, Maria relata perceber comentários preconceituosos vindos da sociedade. Essa é a possibilidade de compreensão que vem de Maria, mas também me chama a atenção o que a interpretação de Maria encobre. Para quem precisa de tudo correto, divorciar-se é complexo. Então, o que há dela e o que há do outro na forma como ela se sente? Não estaria Maria também a cobrar-se por preencher os papéis que ela considera ou tomou para si como verdades instituídas? 122 Maria traz que para a sociedade ela não seria mais a mulher casada, mas a divorciada, abandonada ao rótulo de mulher imatura por supostamente “sofrer por causa de homem”. Maria parece buscar direcionar a “culpa” à sociedade e retirar dela mesma, embora sinta-se sempre culpada. Apresenta-se como vítima de uma sociedade preconceituosa, que julga. Mas ela também julga e também é construtora dessa sociedade. Tal percepção explicita a necessidade de uma atenção maior sobre o que acontece no entre. Ela também me sensibilizou ao afirmar que não encontrou lugar para poder sofrer. Não encontrou a paz de um abrigo. Por vezes, ela menciona que não podia sofrer, não podia chorar. E quando eu fui lá para mainha eu não podia chorar, porque as pessoas ficavam dizendo que eu estava chorando por causa de homem. Então eu só chorava quando eu ia para dentro do banheiro. Eu chorava escondido, porque ninguém podia me ver chorar. Eu tinha que chorar com o chuveiro ligado para ninguém saber que eu estava chorando. Hoje eu sei dizer que eu não podia sofrer e eles não aceitavam que pudesse sofrer. Porque sempre que alguém vê alguém sofrendo ou chorando, quer chamar logo a pessoa para sair por aí mandando andar, passear. As pessoas pensam que a pessoa vai andar e as coisas vão melhorar. Ainda sobre esse assunto, relata: É muito difícil ter que esconder. Foi muito difícil ter que esconder o tempo todo. A pessoa tem que toda vida mostrar que é forte para as pessoas, tem que aparentar coisas que a pessoa não é. As falas de Maria nos levam a refletir que vivemos na era do “não-sofrimento” que é a era da produtividade, do consumismo, do relativismo e do prazer. Em nossa sociedade há cada vez menos espaço para o sofrimento. Tais aspectos remetem-nos a era da técnica, na qual, de acordo com Heidegger (2012), o próprio ser humano é jogado para dentro de uma iniciativa 123 técnico-maquinadora de controle e domínio das coisas para ter a máxima eficiência.A expansão da técnica constitui dimensão planetária da razão calculadora e conduz ao perigo do esquecimento do ser. De acordo com ele, o mundo humano transformou-se em um universo técnico, no qual estamos presos. Heidegger (2012), no manuscrito A questão da técnica, mostra como o ser se dá nos moldes da técnica moderna, e quais armadilhas este modo de conceber nos torna capazes de nos manter cegos à sua essência. Nesse âmbito, Sá (2014) vai nos dizer que as próprias ciências, inclusive a psicologia, nascem e desenvolvem-se em meio ao positivismo, buscando dar explicações para os fenômenos metodologicamente isolados e calculados. Pretende-se, via técnica, fornecer mais bens e melhores serviços à sociedade, aliviar os fardos de nossa existência, reduzir o sofrimento, aumentar o bem-estar e expandir os horizontes da vida humana. Assim, sob a perspectiva da cotidianidade, os cuidados técnicos dirigidos ao homem e ao mundo visam realizar desejos e afastar temores, assegurando o mundo das ocupações cotidianas (Sá, 2014). Contudo, conforme nos afirma Sá (2014), o sofrimento humano nunca é objetivável e não existe parâmetro algum de comparação com a disfunção de um sistema determinístico causal, seja de natureza orgânica ou mecânica. Para o autor, há uma diferença ontológica radical entre o fenômeno da dor fisiológica, tal como objetivada pela biologia, e a experiência humana de sofrimento. O sofrimento não tem uma determinação causal como a dor física objetivada, ele possui uma motivação, um sentido, que emerge de uma experiência de si e do mundo, na maioria das vezes de modo irrefletido. O sofrimento psíquico, em particular, deve ser compreendido a partir do modo de abertura do ser-aí, isto é, a partir dos sentidos daquilo que lhe aparece e se lhe demanda no âmbito dessa abertura. É própria ao ser-aí humano a dificuldade de suportar o aberto da existência e a tendência para se desviar de si mesmo, deixando-se absorver irrefletidamente nas ocupações do mundo. Essa dificuldade e esse desvio implicam a presença tácita do anseio, do medo e, portanto, do sofrimento como aspectos constitutivos da vida comum cotidiana (Sá, 2014, p. 20). O autor ainda nos traz que a condição ontológica de possibilidade do sofrimento é a liberdade, mas o sofrimento implica o esquecimento dessa condição. Se o sofrimento é um 124 fenômeno imanente à experiência vivida e irredutível às objetivações científicas ou do senso comum, que buscam explicá-lo através de causas naturais transcendentes a essa experiência, podemos, por exemplo, compreender a aproximação histórica, ocorrida a partir de meados do século passado entre a clínica psicoterapêutica e a filosofia fenomenológica. No caso de Maria, estando em profundo sofrimento e não encontrando acolhimento na casa dos pais, unido à necessidade de ter um espaço, fez com que ela saísse da casa dos mesmos. Contudo, ela deparou-se com a solidão, o que acabou por lhe causar ainda mais sofrimento. Por várias vezes ela fala da dificuldade em lidar com a solidão. Entendo que vivenciar a solidão já é uma temática de grande complexidade, porém penso ser ela ainda mais desafiante quando vivenciada em cidades interioranas, nas quais o contato entre as pessoas é teoricamente mais fácil e cotidiano. As pessoas tendem a se conhecer e a compartilhar as etapas da vida com mais intensidade; também costumam serem criadas mais próximas à família extensa, “amigos da rua”, vizinhos, entre outros. Mesmo imersa nesse mundo de coletividade, a solidão faz parte da existência humana e sensibiliza Maria. Eu quis morar só. Eu quis morar só porque eu queria era o meu canto. Eu saía para andar com as amigas, aí quando chegava de madrugada em casa é que eu me sentia sozinha, mesmo porque não tinha minha filha comigo. Antes de me separar eu saía com ele (o marido) e voltava com ele, mas quando eu chegava em casa solteira, eu chegava sozinha. Daí comecei a ver que queria parar de sair, porque antes tinha graça, hoje não tem graça, mas porque eu saía e chegava só. Então começava a ser pior chegar sozinha e perceber que eu estou sozinha. Sobre essa temática, Sá, Mattar e Rodrigues (2006) vão nos dizer que a solidão é entendida hoje como um mal que precisa ser evitado a todo custo. E o relacionamento amoroso nos padrões românticos é almejado como o grande bem, a finalidade de felicidade que ofusca todas as outras, ou, o oposto, rejeitado, porque é percebido como fórmula de sofrimento, o que 125 se explica em condutas que passamos a denominar de insegurança, medo de envolvimento emocional, medo de comprometer-se com o outro, ou de ser rejeitado. Para Heidegger, o Dasein, ainda que esteja no isolamento, é “ser-com”, é co-presença. Somente o ente cujo modo de ser é originariamente “ser-no-mundo-com-o-outro”, tem a possibilidade de ser solitário. É nesse “ser-no-mundo-com-os-outros” que emerge o sentido como desvelamento dos entes que lhe vêm ao encontro (Sá et al., 2006). Sobre isso, Sá et al (2006) dizem: O sentido que se dá hoje à solidão e aos relacionamentos afetivos é desvelado, ao nosso ver, segundo este modo histórico explicitado por Heidegger. Desta forma, na tentativa de aplacar a solidão e obter segurança, ora no apego ao outro que se busca controlar, ora no repúdio a qualquer comprometimento, o homem desvela a si próprio e ao outro como “fundo de reserva” disponível ao uso. Remete assim à determinação instrumental da técnica, ao desvelar-se e ao outro como meios para um fim. Da mesma forma, o desencobrir-se como uma subjetividade inacessível e fechada em si mesma, irremediavelmente apartada do mundo e do outro, são modos de resposta do homem ao desencobrimento que o desafia na era da técnica. Ao mesmo tempo, reconhecer e refletir acerca deste desencobrimento, possibilita conjurar seu maior perigo, o qual, segundo Heidegger (2002), se apresenta não nas máquinas e equipamentos técnicos, mas sim no fato de estar encoberto (Sá et al, 2006, p.117). Medard Boss (1975), psiquiatra que propôs vinculações entre o pensamento de Heidegger e a clínica, contesta o senso comum ao assegurar que solidão e comunidade não são excludentes. Delibera a solidão como uma forma de comunidade, pois ser sozinho só é possível tendo como menção a comunidade. Desse modo, a ausência de alguém não constitui um vazio, mas um modo de sua presença, na qual pode estar bem mais perto do que se estivesse corporalmente presente (Sá et al., 2006). Um dos modos de ser-com é a solidão, porque só pode estar sozinho quem conhece seus semelhantes, quem os percebe próximos ou distantes, ou seja, o homem. A pedra, como exemplifica Boss (1975), nunca estará só, jamais poderá experienciar a solidão (Sá et al., 2006). 126 Boss (1975) ainda diferencia afastamento e proximidade existencial da distância mensurável. O espaço geográfico deriva da espacialidade primordial da existência, ou seja, dos significados espaciais que damos aos que amamos, proximidade; ou do que nos é indiferente, o afastamento. Acabamos por atrelar estes significados, que pertencem à espacialidade existencial, à distância ou proximidade métrica, geográfica, reduzindo assim os significados espaciais a uma representação mensurável (Sá et al, 2006). Desse modo, sobre a busca por pertencimento que Maria revela ao procurar um novo lar, ela desvela a procura por habitar um novo modo de ser. O novo lar simboliza o local onde é possível sentir-se em casa no modo da familiaridade, iluminando a abertura humana de mundo numa estreita relação que o ser-em tem com o existencial da disposição. Ainda sobre o fim do relacionamento, percebemos que Maria trouxe para si a culpa do seu fim e também a culpa do sofrimento da filha devido à separação. E o que mais me aperreava era quando a minha filha ia no fim de semana para a casa dele (do ex-marido) e quando ela chegava no domingo de noitede volta, ela sempre chegava doente com dor de barriga atrás do pai. Eu ficava me culpando porque minha filha não tinha pai. Toda vez que ela falava perto de mim, dizia... ‘mamãe quando a gente morava na outra casa...’ Tudo ela lembrava da outra casa e eu me sentia infeliz porque eu pensava que a culpa era toda minha. Toda vez que ela falava, aquilo me doía e eu ia sempre guardando e não dizia nada. Eu fui juntando porque eu vi o sofrimento da menina. Sobre essa culpa Maria remete-se a ela diversas vezes durante os nossos dois encontros. Sente-se culpada pelo fim do relacionamento, por a filha não ter “um pai dentro de casa” e mesmo pelos adoecimentos da filha. Ao que parece a filha de Maria tinha pai e até convivia com ele, mas não tinha um pai dentro de casa. Então, para Maria, significava que não tinha pai. Novamente, se não há tudo, não há nada. Coloquei para Maria que me parece difícil conviver 127 com essa culpa no dia-a-dia. Ela relatou que é como um peso que se carrega nas costas e não se sabe como tirar. Sobre esse aspecto da existência, ao escrever sobre a culpa, Heidegger (1927/2012) vai nos explicar que ela e a angústia determinam ontologicamente o homem como ser-no-mundo. A culpa é a determinação ontológica do existencial da facticidade, nesse sentido ela é um modo de ser do ser-aí fático e diz respeito ao fato de o homem estar-lançado no mundo e misturado com ele. Ao afirmar em Ser e Tempo que o modo essencial do ser-culpado é condição existencial para a possibilidade da moralidade em geral, Heidegger identifica no conceito existencial de culpa uma relação entre ontologia e moralidade cuja origem se encontra na estrutura ontológica do próprio Dasein. Desse modo, sendo condição ontológica, Maria assume-se como ser-culpado no que concerne à moralidade. Ao tratar da culpa em Ser e Tempo, Heidegger (1927/2012, p.140) define: Esse modo essencial de ser-culpado é cooriginariamente a condição essencial de possibilidade do “moralmente” bom e mau, ou seja, da moralidade em geral e da maneira como ela se expressa faticamente. O ser-culpado originário não pode determinar-se pela moralidade, porque esta já o pressupõe para si mesma. Com efeito, a ideia de culpa no sentido ontológico dado por Heidegger deve estar desvinculada de qualquer referência a um dever ou a uma lei, por cuja violação incorreria culpa. Trata-se muito mais de uma falta, uma deficiência, cuja origem está no próprio Dasein. Em seu sentido ôntico, a culpa pode ser superada e o Dasein pode deixar de ser culpado. Ontologicamente, no entanto, a culpa é condição da existência humana. Nesta perspectiva, não cabe ao Dasein tentar superar a culpa ontológica, mas reconhecê-la e assumir a responsabilidade sobre seu ser. Outro aspecto relevante percebido na entrevista foi a sequência de lutos vivenciados por Maria que não foram refletidos, nem ressignificados por meio da fala. Maria hoje consegue 128 perceber que foi sofrendo as perdas e que não tinha coragem de pedir ajuda. Ela nos fala sobre isso quando narra como foi a primeira tentativa. Nesse mesmo ano meu avô adoeceu e depois morreu no dia do aniversário da minha filha, uma semana após eu me divorciar. Aí depois meu tio também faleceu, aí foram acontecendo várias e várias coisas que parece que foram juntando. Daí um dia de manhã eu explodi por uma besteira! Eu tinha saído de noite com minha filha no parque e o pai dela foi junto também. Quando chegou lá as amigas ficaram me apontando e eu fiquei me sentindo como se eu fosse a outra (a amante), porque eu estava andando com ele e com a menina. Aquilo me fez mal, porque eu era a mulher casada e as pessoas da cidade estava me apontando como se eu fosse a amante dele. Aí quando eu cheguei em casa eu peguei uma briga com ele dizendo que não dava mais certo ele andar comigo. Foi quando a gente parou de andar junto e tal. No outro dia a menina ficava chorando me culpando por tudo, porque ele não ia vir, porque eu mandei ele embora. Ela começou a me culpar e aí não sei o que foi... Eu estava dormindo e eu já tinha ido para o médico pegar os remédios porque fazia muitas noites que eu não dormia. Eu fui ao médico e ele passou o remédio para dormir. Eu não conseguia dormir porque estava me sentindo cansada, cansada, estressada. Eu fui e tomei todos os remédios que eu podia. Eu estava sozinha. Maria sentia-se culpada, cansada, julgada pela sociedade e solitária. Escolheu tomar os remédios como forma de aliviar a dor que sentia diante da vida, da existência. Fala da tentativa de suicídio como uma vontade de dormir e não acordar mais. Eu estava cansada de tudo, da vida. A minha intenção era dormir. Minha intenção era tomar a caixa toda. Eu tomei a caixa toda, mas minha vontade era simplesmente dormir. Só que era um dormir diferente, era um dormir e não mais acordar. Eu pensava: eu vou dormir e não vou mais acordar! Pronto! Era o que eu pensava. 129 Quem percebeu que Maria não estava bem foi uma colega de trabalho, ajudando-a após a primeira tentativa e levando-a ao hospital. Nesse dia eu nem dormi muito não, porque uma amiga minha do trabalho me ligou para eu ir trabalhar. Ela que é uma pessoa muito amiga percebeu minha voz estranha quando ligou para mim. Ela perguntou o que é que eu tinha feito, aí eu disse que tinha tomado os remédios para dormir. Ela veio para a minha casa com um menino que trabalha comigo, aí quando ela chegou lá em casa já me levou direto ao hospital. Eu não me lembro de quase nada. Eu só lembro que lá no hospital que eles me colocaram numa cadeira de rodas, porque eu não andava. E aí eles tiraram os comprimidos pelo meu nariz, eles fizeram lavagem pelo meu nariz. Colocaram um negócio no meu nariz e puxaram. O que eu senti foi o negócio doendo e descendo pelo meu nariz. Aí eu fiz a lavagem, mas eu não fiquei internada. Eu vim para casa. Meu pai foi me buscar no hospital. Sobre a segunda tentativa de suicídio, Maria relata sua dificuldade em lidar com a internação e novamente com os julgamentos das pessoas. No hospital eu não dormi nada na madrugada. Fiquei acordada. A pessoa está lá e parece que está todo mundo olhando para você. Todo mundo achando que você é louca. Eu preferia que ninguém me perguntasse do porquê que eu estava lá. Eu tenho muita vergonha e também muita gente não ia nem lá olhar a pessoa. Ninguém ia lá me visitar porque achava que eu estava lá por frescura. É interessante perceber a complexidade que é para Maria as suas relações com as pessoas da sua cidade. Imersa nos julgamentos dos outros como a “amante do marido”, “a louca”; ainda assim ela escolhe relacionar-se com o outro que a julga, que condena, mas também que acolhe (amigos). 130 Sobre a terceira tentativa, Maria a descreve com as seguintes palavras: A terceira vez que eu tentei eu estava muito agoniada, tomei os sedativos e dormi muito. Era quase meia-noite. Eu tomei a caixa toda de uma vez. E se tivesse três caixas, eu tomava as três. Eu até me lembro que a médica e a enfermeira do hospital disseram que eu tinha organismo muito forte. Lembro demais disso! Eu estava sozinha também nesse dia. Aí quando eu tomei os sedativos, com três minutos eu comecei a ficar tonta, aí parece que fui desmaiando. Eu adormeci mesmo sem perceber. Não pensei em dizer isso para ninguém, porque se eu dissesse para alguém que tinha acontecido isso, eles iriam querer me levar para o hospital para tirar os comprimidos. O que eu ia sentir ia ser muito pior, aí no caso eu fiquei calada. Eu não ficava pensando no que tinha acontecido. Eu não pensava se ninguém ia ligar, eu só tinha vontade de ir embora! Eu não pensava em ninguém, não queria saber de ninguém. Eu nem queria pensar em nada, só não tinha vontade de viver. Eu só queria ir embora, eu só queria esconder das pessoas e ir embora. Eu só tenho vontade de ir embora. Tenho vontade de sumir.”Maria buscava esconder que estava triste ou sofrendo, pois as pessoas não deveriam preocupar-se com ela. Apesar de ser uma pessoa disponível para ajudar os outros, ela parece ter dificuldade em permitir que as pessoas cuidem dela. Ela fundamenta seus motivos na sociedade, que não dá espaço para o sofrimento, mas, apesar de ter essa clareza, também é prisioneira dessa mesma concepção de mundo. Não, eu não disse para ninguém! Eu não deixava ninguém nem suspeitar. Acho que eles só suspeitavam porque eu sou de falar com todo mundo. Aí quando eu estou assim o povo percebe logo e já começa a perguntar o que é que eu tenho e porque eu não estou rindo. O povo diz que eu sou assim, muito simpática, gosto muito de falar com o povo. Aí percebem que eu estou muito calada. 131 A dificuldade de Maria em falar sobre sua experiência também está envolta no seu horizonte histórico, tanto em seu aspecto global da contemporaneidade quanto nas características próprias da cidade na qual habita. Maria afirmou que a cultura local é preconceituosa no que concerne ao adoecimento psicológico, vinculando qualquer comportamento diferente do culturalmente imposto como anormal, como loucura e necessitando de medicalização. O estereótipo do louco perpassa o sofrimento psíquico, normatizando os comportamentos sociais e exigindo dos residentes do município um semblante de felicidade e o ocultamento do sofrimento. São características evidenciadas na contemporaneidade e que tem atravessado e adoecido a sociedade. Parece que não há espaço para o sofrimento e muito menos para se falar sobre ele, gerando toda uma comunidade que vive na impessoalidade. Estas características me remetem a Han (2015), quando explicita a sociedade do cansaço, enquanto uma sociedade ativa, que se desdobra lentamente numa sociedade do doping, cuja expressão negativa é logo substituída por “neuro-enhancement” (melhoramento cognitivo). O autor critica o excesso de positividade, afirmando que o excesso da elevação do desempenho leva a um infarto da alma. A sociedade do desempenho e a sociedade ativa geram um cansaço e esgotamento excessivos. Esses estados psíquicos são característicos de um mundo que se tornou pobre em negatividade e que é dominado por um excesso de positividade. O cansaço da sociedade do desempenho é um cansaço solitário, que atua individualizando e isolando. Sobre o adoecimento psíquico, o autor diz que as doenças neuronais como a depressão, transtorno de déficit de atenção com síndrome de hiperatividade (Tdah), Transtorno de personalidade limítrofe (TPL) ou a Síndrome de Burnout (SB) determinam a paisagem 132 patológica do começo do século XXI. São estados patológicos devidos a um exagero de positividade. Nesse contexto, a depressão torna-se uma das patologias da passagem da sociedade disciplinar para a sociedade de desempenho e os adoecimentos psíquicos da sociedade de desempenho são precisamente as manifestações patológicas de uma liberdade paradoxal. Tais aspectos sociais também recordam Bauman (1999) quando o mesmo afirma que o problema da condição contemporânea de nossa civilização moderna é que ela parou de indagar- se. O preço do silêncio é pago na dura moeda corrente do sofrimento humano. Bauman ainda nos diz que precisamos (1999, p. 92): “ensinar os homens a viver na incerteza, não a se acalmar, mas a perturbar. Em toda parte e a cada passo, em cada oportunidade, com ou sem razão, é necessário ridicularizar da maneira mais firme os juízos aceitos e afirmar os paradoxos”. Sobre a importância desse olhar sobre a historicidade, nos diz Heidegger (2001, p. 129): Quem se dedica hoje em dia à profissão de ajudar as pessoas psiquicamente enfermas, deve saber o que acontece; deve saber onde está historicamente; precisa esclarecer-se diariamente que aqui está operando um destino antigo do homem europeu; ele precisa pensar de maneira histórica e abandonar a absolutização incondicional do progresso em cujo rastro o ser- homem do homem ocidental ameaça sucumbir. Sobre a forma como a sociedade vivencia a experiência de Maria, ela nos afirma: Na primeira tentativa mainha que ficava dizendo o tempo todo que era frescura. Minha mãe sempre me diz que isso é coisa de gente que tem besteira, que isso é frescura. Minha mãe vive dizendo que isso é por causa de homem. Frescura por causa de homem! Só quem vivencia é quem realmente sente. As pessoas olham para a pessoa e pensam que é besteira. Por isso eu não digo nada a ninguém. Se você falar para alguém o povo fica dizendo que é safadeza, né? Que é frescura! Então eu precisava ficar calada. A sociedade vai nos calando. E também se a pessoa diz que tá com alguma coisa eles fazem o contrário: eles ficam todos em cima de você! 133 Isso te deixa ainda mais agoniada. Não adianta ficar em cima da pessoa e deixar a pessoa ainda mais agoniada. As falas de Maria ainda são atravessadas da preocupação com o julgamento das pessoas que não parecem compreender o suicídio em sua concepção humana, existencial. O suicida é visto como o estereótipo de louco que precisa ser hospitalizado e medicalizado. Sobre esses aspectos nos falam Rocha, Boris e Moreira (2012) quando dizem que no contexto das relações sociais, a família assume um papel importante no processo de tomada de decisão da tentativa de suicídio, seja pelo completo desconhecimento do que se passa com o familiar que pensa em tentar, seja por atitudes que denotam desconsideração pela condição em que ele se encontra. Geralmente os familiares não sabem como acompanhar um parente que se encontra em tal situação. E as primeiras formas de lidar com o fenômeno do suicídio são o refúgio na prática religiosa e o apoio do hospital psiquiátrico. É comum que a família tente reduzir a tentativa de suicídio a um ato de loucura, inexplicável e sem motivo algum que possa justificá-la. Ainda de acordo com os autores, a reação da família costuma ser insistir que o parente enlouqueceu e procurarem apoio psiquiátrico (Rocha et al., 2012). Outro modo de concepção da tentativa está associado à fraqueza, frescura, principalmente no caso de Maria cujo julgamento encontra-se envolto na complexidade do fim de um relacionamento. Nesse contexto, um dia Maria procura o hospital pedindo para ser internada, pois tem medo de cometer suicídio em casa. Mas aí eu fui para o hospital, eu fui para me internar para poder ver se melhorava. Lá eu fui atendida pelo psiquiatra. Ele me internou, aí quando eu ia sair de lá fui para um canto que eu não gostei muito. Me colocaram num canto lá que tem gente muito mais doida do que eu. Me mandaram para o CAPS. Me disseram que o médico de lá não poderia me dar alta, só um psiquiatra. Então eu tive que ir para o CAPS para receber alta. Aí eu cheguei lá e ficava 134 pensando... Ah! Eu acho que eu tô doida também, me vendo no meio daquele povo, olhando para o povo e pensando ‘eu tô doida mesmo’. No CAPS eu via aquele doido de ficar ali bulindo nas pessoas, aí eu comecei a achar que eu estava também como eles. E o povo da cidade dizia mesmo que eu tava doida, né? O pessoal ficava dizendo: ela tá doida! Então eu pensei que eu também estava doida como eles. As pessoas diziam lá no hospital que eu estava doida. Quando eu dizia que eu estava internada porque eu tinha tomado comprimidos, as pessoas até que me conheciam desde pequena, saíam espalhando na cidade que eu estava doida. Um dia uma mulher me viu no meio da rua e perguntou: você melhorou? Eu disse: melhorei de que? A mulher disse: lá no hospital, disseram que tinham visto você e que você estava meio doida. Eu fiquei morta de vergonha! Eu tentei explicar para ela que eu tive uma crise nervosa. Até hoje as pessoas ficam dizendo que eu sou doida, até hoje as pessoas acham que sou doida. Essas falas de Maria me fizeram refletir sobre o peso social do adoecimento psíquico. Interessante percebera relação entre o suicídio e a loucura. Como Maria mesma nos relatou: pensar em suicídio em Caicó, ou seria frescura, ou loucura, não havendo abertura para pensar o fenômeno como desespero ou sofrimento. Sabemos, contudo, que tal compreensão não está presente apenas em Caicó e tem sua origem na concepção tecno-científica, além de outros campos como o campo moral. Sobre esses aspectos nos afirma Laing (1989) que, numa perspectiva epistemológica da patologia, o adoecimento mental ainda está muito vinculado à psiquiatria tradicional que não questiona nem a essência, nem as condições de possibilidades dos fenômenos psicopatológicos. Essa visão desconstitui o sujeito e o desqualifica enquanto experiência, pois a doença ou é o corpo ou é a mente. O autor também faz uma crítica aos modos centrados na hospitalização e na farmacoterapia. Tudo isso teria como consequência a psiquiatrização social, fazendo com 135 que todos os aspectos da vida humana passem a ser “psiquiatrizáveis”. Desse modo, a ideia de sofrimento psíquico irá se contrapor a tudo isso (Puchivailo, Silva, & Holanda, 2013). De acordo com Puchivailo, Silva e Holanda (2013), uma das principais posturas preconizadas na compreensão fenomenológica no campo do adoecimento psicológico, é escutar o sujeito sem pressuposições e representações a respeito de possíveis patologias, na expectativa de superar pré-julgamentos tradicionais e os estigmas derivados de suas representações. Significa, então, “ir contra a maré” da patologização produzidas pelos discursos médicos tradicionais que aparecem mesmo que sutilmente e que ignoram o uso da razão no ato suicida. De acordo com Costa (2017b), os indícios do uso da razão são quase sempre ignorados no ato suicida, como se não foi possível habitar na mesma pessoa a livre e espontânea vontade de cometer suicídio e a sanidade mental. Em parte do seu estudo, a autora observou os discursos sobre o suicídio na região do Seridó. Percebeu que muitas vezes os modos de expor o ato são feitos de forma errada, nomeando as pessoas de desesperadas, portadoras de doenças psiquiátricas e efetuadoras de atos insanos. Nesse sentido, é interessante pensarmos que mesmo após a recuperação da tentativa de suicídio, Maria continua a ter essa como possibilidade. Ao pensar no suicídio, Maria estaria a todo instante sem sanidade mental? Ainda sobre esse aspecto Maria afirma que em nenhum momento ninguém perguntou porque ela tinha tentado suicídio ou o que ela estava sentindo, ou mesmo como ela estava. E a resposta que Maria encontrou dos profissionais de saúde diante de seu sofrimento, foi a medicalização. Não encontrou espaço para a fala, mas foi orientada a ir ao psiquiatra. Eu fui para o psiquiatra depois e eu fiquei afastada do trabalho quatro meses pelo INSS, porque o médico me afastou. Eu fiquei tomando remédio do psiquiatra, ele me passou um monte de remédio e foi muito pior. O remédio me deixou muito pior. Eu fiquei meio lesada, eu fiquei 136 sei lá...E quando eu fui voltar a trabalhar, o psiquiatra quis dar mais dias sem trabalhar. Só que eu pedi para voltar, eu quem quis voltar a trabalhar, porque eu só vivia dopada. Sobre esse aspecto da patologização e medicalização da vida ainda podemos afirmar que estamos nos deparando cada dia mais com expressões do pensamento calculante nos processos de medicalização da sociedade. O pensamento calculante categoriza diretamente e determina previamente quem o sujeito diagnosticado é e pode ser, bem como a conduta a ser adotada a partir dessa definição, retirando dele a possibilidade de reinventar suas experiências e modos de ser. Assim, o pensamento calculante desconsidera a necessidade de significarmos nossas vivências com o outro, objetificando-as. Criando relações coisificadas com o próprio homem, o pensamento calculante nos distancia do mundo vivenciado. Esse aspecto da patologização também é fruto da cientificidade fundamentada na concepção tecno-científica, uma das principais características das sociedades contemporâneas. Essa concepção, juntamente com o consumo formam as bases das sociedades globalizadas e o sustentáculo dos modos de vida em todo o mundo. Heidegger (2012), em seu texto A questão da técnica, discute o poder que a técnica tem de provocar um enorme desencobrimento das riquezas do planeta, constituindo o que podemos chamar de verdade exploradora. Seria então a realidade técnico-científica a única verdade? Considerando que os cálculos e projetos de humanidade transformam tudo em coisas, passamos a analisar este universo coisificado como a única verdade (Heidegger, 2012). Confrontando esse pensamento calculante, para Heidegger não há ruptura entre enfermidade e normalidade. Comportamentos diagnosticados pela psicopatologia devem ser compreendidos no horizonte histórico do moderno mundo da técnica. Nesse sentido, os sofrimentos de Maria não são estranhos à vida comum ou às possibilidades de ser que só dizem respeito aos estados patológicos, ao contrário, é a sua existência em sua essência própria que 137 demanda cuidado, pois aquilo mesmo que permite sua realização como liberdade e serenidade, também a expõe sempre ao risco do desvio, do esquecimento e da absorção no mundo. É ainda um mundo que apresenta modos de ser enraizados, que como no caso dos relacionamentos amorosos, determinam o amor romântico e o casamento como acontecimentos naturais da vida. E no caso de Maria, com o fim do relacionamento, tudo parece ter-lhe-sido tirado. Diante do pensamento calculante, há também em nossa sociedade uma busca por um motivo ou causa para o suicídio e para as tentativas de suicídio. Contudo, Dutra (2011) vai nos trazer que tais motivos se formam ao longo da sua história e se revelam nos sentidos e modos de ser que constituem a sua existência. Desse modo, esse fenômeno não escolhe idade, classe social, gênero ou nacionalidade. De acordo com a autora, o suicídio significa, antes de tudo, sofrimento e desespero; ou, como disse Camus (1942), consiste mais numa questão filosófica, uma vez que interroga sobre o sentido da vida. Dutra (2011) explicita por meio de seus estudos, através da experiência narrada, que a tentativa de suicídio ocorre relacionada a momentos de vida e fatos que conduziram a pessoa àquele ato de desespero. Há sempre um motivo ou motivos que são apontados como geradores da crise e que sinalizam para o suicídio como uma saída para o sofrimento. Não há, contudo, um único motivo ou causa para tal ato. Há, sim, a necessidade de pôr fim a uma grande dor, ao sofrimento. Quando falam que eu tenho depressão, as pessoas dizem: você tem um emprego, você faz faculdade, não sei o que, você tem filha, você tem família, você tem o seu canto e ficam lá citando tudo que você tem. Só fazem dizer você tem emprego que todo mundo queria ter, que é concursada. 138 Na fala acima, percebemos mais uma vez determinantes que socialmente justificam “um lugar” e, novamente, dizem sobre como as pessoas devem se portar. No caso de Maria, já que ela tem tudo isso, não justificaria não ser feliz e não querer viver. Parece que ser alegre e feliz são determinantes sociais. Ainda sobre sua dor existencial e a impossibilidade de demonstrá-la, Maria relata: Eu não chegava a planejar. Eu ficava com aquela agonia. Eu só pensava: eu vou logo embora acabar com esse sofrimento. Eu tentava sumir de vez. Um tempo curto parece um tempo longo demais e que não passa. As pessoas dizem que a dor passa... Mas a gente pensa: não, não passa, então é melhor morrer logo que acaba logo com esse moído. E quando eu queria tomar o remédio, eu aparentava para as pessoas que eu estava boa e dizia que ia andar. Dizia que ia passear porque se painho ou minha mãe percebessem que eu estava desse jeito, eles ficavam em cima de mim. Meus pais tinham medo de eu fazer. Aí eles percebiam que eu estava alegre, queeu aparentava que eu estava alegre porque eu ia andar. Aí quando eu ia fazer essas coisas de noite, eu dormia só e eu já sabia que eu ia inventar que eu estava andando para poder ficar só. As pessoas tinham que achar que eu estava andando, que eu estava bem para poder eu fazer isso. Eu não sei se eu considero isso um plano, por que se você fica triste o pessoal fica em cima de você. Aí é melhor a pessoa demonstrar que a pessoa tá bem, tá alegre para as pessoas deixarem você. Maria também tenta descrever quais seriam para ela os motivos das tentativas de suicídio. Fala de fazer coisas para agradar as pessoas, trazendo-me novamente a reflexão sobre a pessoalidade e a impessoalidade à medida em que Maria ora escolhe a si e ora escolhe corresponder aos outros, à coletividade. Agradar aos outros parece-me significar manter-se nesse social que aprisiona, mas que precisa ser correspondido, manter-se escondida, aceita, mesmo que não acolhida. 139 O desejo de sumir é o motivo para querer morrer, dormir e não acordar mais. É um desejo de não viver e a pessoa fica rodando com coisas que não quer fazer, que não quer saber. Você fica fazendo as coisas que não gosta só para poder agradar os outros, para poder se manter vivo e tem hora que não dá vontade de fazer mais. Eu só acho que com todo mundo é a mesma coisa. Sempre a mesma coisa! É isso o que eu escuto das pessoas e também o que dizem nas palestras de suicídio... Eu acho que você vai escutar a mesma coisa em todas as entrevistas, porque eu vou para todas aquelas palestras de suicídio e sempre parece que é comigo tudo que eles falam. Parece que foi para mim. Em determinado momento da entrevista, Maria se sensibiliza ao falar da escolha do instrumento com o qual iria pôr fim a própria vida. Relata que pensou em todas as possibilidades que sua mente foi capaz de criar, pois de alguma forma aquela dor precisaria cessar e a escolha do instrumento garantiria ou não o fim da mesma. É interessante pensar que o medo de tentar de novo e não conseguir morrer pode estar relacionado ao medo de amalgamar ainda mais a visão das pessoas de que ela seria, de fato, louca, caso viesse a sobreviver. Eu tentava sair de casa para ficar só em outro lugar. Aí eu ficava pensando quando eu estava só como seria o jeito... Porque toda vida eu tive medo de furo. Eu tenho medo de furo, tenho medo de rasgo, morro de medo. Então, nunca tive coragem de me matar dessas coisas. O nó, por exemplo, eu já tentei colocar, mas eu não sei se foi Deus ou é porque eu sou burra. Mas eu não sei dar não (o nó), então, eu dava um nó e ele soltava. E como eu disse, com faca ou essas coisas eu não tinha coragem, então a coragem que eu tinha era de tomar remédio, porque eu achava mais fácil. Porque eu pensava que eu ia dormir e não acordaria. Já tive vontade de vir na moto... Eu ficava imaginando eu vir na moto bem ligeiro e jogar minha moto lá de cima na ponte, mas ao mesmo tempo eu pensava que eu ia ficar era aleijada, com muita dor no corpo e ficar com mais sofrimento. Eu tinha coragem com revólver! Revólver eu teria 140 coragem, mas eu não tinha o revólver. Então, teve um dia que eu saí lá no bairro João XXIII (um bairro considerado como perigoso, onde existem tráficos de drogas e de armas) atrás de um revólver. Como se as pessoas fossem me vender uma arma assim do nada. Eu ainda fui atrás de um conhecido meu que tinha virado traficante, aí ele foi e disse que não me dava o revólver. Em sua busca por um revólver, Maria procurou acolhimento em um mosteiro, vivenciando o conflito de querer falar sobre si e ter medo dos julgamentos diante de uma exposição. Por vezes ela menciona que tudo o que precisava era de alguém que a escutasse sem fazer qualquer julgamento moral. Ela enfatiza o valor da fala, da escuta e que se tivesse os encontrado, muito sofrimento poderia ter sido evitado. Essa disposição para a escuta e pessoas como Maria procurando falar sobre a própria existência no mosteiro, me faz pensar sobre a necessidade de mais espaços de escuta na região. Faz-me refletir o valor das conversas nas calçadas tão características de cidade de interior, mas que hoje têm se tornado escassas em Caicó. Fato é que existem pessoas procurando serem ouvidas e o mosteiro, como outros lugares religiosos, têm aparecido como possibilidade para elas. É interessante observar que Maria, mesmo sendo ateia procura acolhimento nas freiras, por considerar que essas pessoas poderiam acolher seu sofrimento. Percebemos esses aspectos em falas como esta: No dia que procurei o revólver e não consegui, eu fui para o mosteiro das freiras. Eu fui só até a entrada, aí me informaram que as freiras estavam rezando e que eu ficasse esperando elas terminarem de rezar para falar comigo. Aí eu também desisti, eu peguei e fui embora. Eu procurei as freiras porque eu pensei: elas vão estar ali. Elas não vão dizer nada 141 para ninguém, elas vão só me ouvir. Elas não vão dizer nada. Eu podia dizer para elas as coisas que elas não iriam comentar com ninguém. Ninguém ia ficar me perturbando depois. Maria relata que o seu único desejo era ser ouvida, sem ter que corresponder a expectativas ou sem ter medo de que outras pessoas soubessem o que se passava com ela. Eu só queria isso. Queria ir para um canto que ninguém me achasse, que eu ficasse só e que eu falasse. Um lugar que eu pudesse falar e que ninguém ali me julgasse. Ninguém olhasse torto, só me escutasse. Ninguém ficasse ali dizendo as coisas comigo. Não dissessem que eu estava morrendo por causa de homem, porque as pessoas costumavam dizer que eu estava morrendo por causa de homem, mas as freiras não iriam dizer isso de mim. A verdade é que as pessoas não entendem que aquele homem era o pai da minha filha e era o meu marido. A entrevista favoreceu o surgimento de algumas reflexões por parte de Maria e esses foram os momentos nos quais ela mais se emocionou. Maria refletiu que ela pode sofrer e que não precisa aparentar para as pessoas que está sempre bem e sem nenhum problema. É... Realmente eu posso sofrer. Naquele tempo eu podia sofrer, porque ele era o pai da minha filha e era o meu marido. Mas naquela época eu não entendia que eu podia sofrer e aí naquela época eu queria mostrar para as pessoas que eu não sofria. Eu queria mostrar para as pessoas que eu não estava sofrendo e que eu não podia sofrer, porque era isso que as pessoas me diziam (choro). Conforme já mencionado, também observamos que Maria relacionava as tentativas de suicídio a uma possível depressão. Ao longo da entrevista ela foi dando-se conta de que ela recebeu o estereótipo de depressiva, mesmo sem concordar e de que também ela estava com a mesma concepção patologizante da sociedade. 142 É como se a culpa fosse da pessoa, mas ninguém quer ter uma doença. A culpa não é nossa. A gente não quer ter uma doença. Eu digo até às meninas, eu digo direto que eu desejo a pessoa ter um câncer, mas não ter uma depressão. Porque um câncer você sabe o que pode curar e o que não pode e você sabe o que é o remédio para aquilo. Já a depressão que mexe com a cabeça, mexe com tudo, porque a gente adoece de tudo, a gente vive com a doença o tempo todo. Eu vivia com a depressão e adoecendo de tudo, tudo. Através da reflexão feita ao longo da entrevista, Maria diz: Acho que não foi a depressão que me fez tentar suicídio, porque eu tive primeiro a tentativa para poder ter depressão. Na verdade, me disseram que eu tinha depressão. O psiquiatra disse que tinha depressão depois da tentativa, né? Então eu acho que não foi a depressão. Eu nem sabia que eu tinha depressão. Eles me disseram que eu tinha depressão. O que é depressão né? Toda vez que alguém chora já dizem que é depressão e quando eu entrava no consultório só fazia chorar né? No INSS era logo aprovada na perícia, por que eu entrava lá e eu só fazia chorar.Entrava, chorava antes de entrar e chorava ao sair. Sobre esse não encontrar espaço para falar, Maria relata que nem mesmo com a hospitalização, ninguém perguntou como ela estava e nem o que havia acontecido. Tal fato nos remete à compreensão do suicídio como um tabu em nossa sociedade. Ele é um fenômeno velado porque traz a morte como uma possibilidade diante da existência. E como nos afirma Dutra (2012a), os preconceitos e significados que permeiam esse fenômeno, como por exemplo, valores religiosos e morais, muitas vezes impedem que um ato dessa natureza seja identificado como tal. E nesse contexto de velamento, ainda existe a busca por uma causa objetiva para o suicídio. Contudo, de acordo com Dutra (2011), o único consenso existente entre os 143 suicidologistas é o de que esse ato é multideterminado, acontecendo quando um conjunto de fatores ambientais se une a determinados modos de ser. Como nos coloca a autora: “não é possível, portanto, traçar um perfil do suicida, como sugerem alguns mitos construídos em torno desse fenômeno” (Dutra, 2011, p. 153). Outro aspecto que me chamou a atenção foi a postura dos profissionais de saúde frente à tentativa de suicídio. Os profissionais parecem ter realizado um cuidado substitutivo, contudo, não abriram espaço para o acolhimento autêntico, não se dispuseram a escutar Maria, não deram a ela a possibilidade de ressignificar sua dor. Na entrevista também observamos que Maria considera que a cultura da cidade favorece a percepção do suicídio como um tabu. Também explica que a sociedade local “vive de aparências”, de status. Eu acho que é da cultura daqui, a cultura que eles foram criados. Essa cultura de achar que tudo é frescura. É como eu digo as minhas amigas: ‘quem não vive e não tem contato com quem tem essas coisas, a pessoa acha que é uma besteira’. A pessoa pensa: ah! Esse povo tem tudo e fica com essas besteiras, porque é isso que as pessoas dizem de mim. As pessoas dizem: ela tem tudo e ela fica com essas besteiras. Todo mundo diz isso. Sobre essa fala de Maria, recordamos que historicamente o imaginário cultural traz a figura do seridoense como povo forte, moldado pelas secas e demais circunstâncias difíceis da região. De acordo com Costa (2017b), trata-se um povo de caráter rígido, de solidez na palavra empenhada e que tem orgulho da constância de seus costumes. Tais características são as que também compõem o imaginário do sertanejo nordestino. É interessante observar o quanto esse imaginário tem repercussões atuais quanto ao fenômeno do suicídio e o sofrimento psíquico. Pude perceber que em Caicó existe uma cultura que exige das pessoas “serem fortes” diante das adversidades. Assim sendo, tudo o que mostra fraqueza é considerado “frescura” 144 porque socialmente é exigida a resistência. Parece ser uma cultura que não tem facilidade em aceitar a fraqueza, pois diante das várias adversidades que a região faz emergir, o sofrimento psicológico não encontra lugar. Não encontrando lugar para sofrer, a dor é guardada e não se fala sobre ela, pois outras dores trazidas pela vida parecem ser maiores e mais importantes. Outro aspecto que nos desperta a atenção é que Maria tem medo de tentar suicídio novamente e busca manter-se viva apesar das adversidades e de seus questionamentos existenciais. Sempre tenta esclarecer que seu desejo não é de morrer, mas de acabar com o seu sofrimento. Eu ainda tenho medo de tentar quando eu fico muito mal, porque como eu já comentei com você... às vezes dá vontade de sumir. Não é que eu fique atrás de me matar Me dá vontade de sumir, de sair de perto dos meus problemas, de sair de perto das pessoas e sair de perto de tudo. Quando a pessoa quer fazer as coisas, ela quer morrer porque morrer significa acabar tudo, significa acabar os seus problemas, acabar tudo! Morrer significa isso! Maria reflete ao longo da entrevista sobre o que a mantém viva hoje, o que daria sentido a sua vida. E pensar na sua vida, sempre a remete a sua morte. Hoje eu penso em morrer, mas não quero fazer o povo pagar pelos meus erros. Tipo, eu me mato e o povo é que vai ter que resolver. Sei lá! Quando eu penso que as pessoas vão ficar falando as coisas de mim: a filha de fulano se matou! Quando eu penso nos meus pais, em deixar eles sós, em fazer com que eles sofram.. Pensar na minha filha se um dia ela adoecer. Quem é que vai cuidar dela, né? E aí eu penso neles. Minha filha agora que tá ficando grande e preciso orientar ela. E aí eu penso o que é que vai ser dela. Eu penso que se eu não estiver aqui vai ser pior, porque ela ainda me escuta. Então, como é que ela vai ficar sem mim? 145 O suicídio de uma amiga de Maria deixou marcas e ela relata tal morte durante a entrevista: Às vezes eu penso em casos de pessoas que tentaram suicídio. Penso no caso das minhas colegas. Eu tinha uma amiga que todo mundo dizia era alegre.(Momento de silêncio) Engraçado... Todo mundo quer descobrir porque você fez as coisas. O povo fica dizendo: ‘aquela menina vive andando, ela é alegre, por que que ela fez isso?’ Mas as pessoas pensam nesses detalhes. Pensam que porque você sorri, você é feliz! Eu fiquei pensando: será que vai ser como ela? Ela ficou guardando, né? Aí foi do nada, disseram que estava boazinha, passou o domingo todinho bem e no outro dia se matou. Às vezes eu tenho medo disso! Relata que tem medo das aparências e de uma possível “melhora súbita” que as pessoas que tentam suicídio vivenciam. As pessoas do nada melhoram e de repente amanhecem assim. Eu tenho medo de fazer como ela fez. A coisa de repente acontecer. O pessoal às vezes fica com medo o tempo todo achando que eu vou tentar. Hoje eu tenho medo, tenho medo, por exemplo dela, de como ela morreu. Às vezes eu sonho com ela. Às vezes fico vendo ela no sonho me chamando, me pedindo para eu me matar, por isso que às vezes eu prefiro não saber das coisas. Peço que as pessoas não me contem com quem aconteceu coisa de suicídio. Não gosto que as pessoas me contem detalhes, não gosto porque as pessoas vêm me contar logo os detalhes. Dizem: fulaninho de tal se matou. Essa minha amiga subiu num monte de cadeiras, pulou e morreu enforcada, porque ela queria mesmo morrer. A filha dela saiu para comprar um negócio para lanchar e ela subiu nessas cadeiras e pulou pendurada numa corda. Aí assim, eu fico agoniada, eu não gosto não. Não gosto de saber. Eu acho que eu fico agoniada pensando e parece que me dá uma coragem quando eu penso. 146 Para Maria, falar em como as pessoas cometeram suicídio mobilizaria pessoas em sofrimento a tentarem também. Essa fala de Maria nos recorda o Efeito copycat, que é um efeito de modelagem, de contágio (Dapieve, 2006). Tal efeito ocorre quando há relatos de casos que foram desencadeados a partir de casos já divulgados (Viola, 2016). Também é denominado de "Efeito Werther", fazendo alusão ao suicídio do protagonista em romance de Goethe (1774), que suscitou uma onda de suicídios na Europa na época. Me encoraja! Não sei explicar. Eu sentia muito na época dela, era como se fosse alguma coisa empurrando a pessoa fazer. Eu não dormia, passei várias noites sem dormir, porque quando era de noite eu sonhava ela olhando para mim dizendo assim Maria, se mate logo! Deixa de besteira! Você não sabe que você vai acabar fazendo isso! Aí eu sempre ficava com isso na cabeça. Eu ficava com medo de me levantar e me matar sem querer. Na hora como que dá um negócio de vez. Do nada é como que tivesse lhe empurrando. Pronto! Nessa época dela eu ficava doidinha com medo de ficar só. Parece que fica um negócio na sua cabeça, fica assim lembrando. Como que pensando que eu vou fazer assim, vou fazer uma coisa sem pensar, sem querer. E na época dela eu fiquei com muito medo. Perguntamos, ao final da entrevista, se Maria gostaria de dizer mais alguma coisa: Eu acho que não temremédio no mundo, nem o psiquiatra, nem psicólogo, nem nada que consiga fazer a pessoa ficar boa se a pessoa não quiser. A pessoa tem que ir tentando achar um canto, achar um novo caminho, e isso é muito difícil. Eu estou todos esses anos tentando e ainda não encontrei o meu caminho. E quanto mais o pessoal diz que é besteira, mais dá vontade de fazer, porque a pessoa sofre mais. E tem que ter cuidado quando a pessoa fica alegre do nada, porque nem sempre você fica triste quando vai tentar. É o tipo da pessoa que tá ruim, que vai morrer e dá uma melhorada antes da morte. Você pode até estar triste, mas você diz para as pessoas que está bem que é para enganar o povo, que é para o povo 147 deixar você quieta e você tentar (suicídio) quieta. Então você tem essa sensação antes de tentar. Eu era assim: eu dizendo que estava bem, o povo me deixava quieta e eu fazia. E uma menina me falou disso sobre o pai dela, porque ela disse que o pai dela estava doente e de repente ele disse que estava bom só porque dava umas voltas de bicicleta... Aí ela disse que achava que ele tinha melhorado porque ele tinha saído. Ele foi com a bicicleta lá para a ponte, pulou da ponte e morreu aqui também em Caicó. Ele disse que estava melhor e que ia dar uma volta. E quando saiu ele foi e pulou da ponte. Maria faz, então, seu último relato a ser capturado pelo gravador. Nele fala mais uma vez sobre um novo habitar, habitar novos caminhos. Encontra-se, assim, em um conflito: pensar no suicídio como o seu fim e tentar encontrar um novo caminho para viver. Há esperança em meio ao desespero de Maria, mas ainda parece-me predominar um grande medo, medo de “não resistir” ao apelo da morte. Maria compadece-se das pessoas que sentem dor semelhante à dela e gostaria que o contexto social de acolhimento fosse diferente. Acolhimento esse que não significa “mandar andar, passear”, cobrar pseudo-sorrisos estampados na face. Tais atitudes apenas tornam a vida da pessoa em sofrimento ainda mais exigente. E, pelo observado nas falas de Maria, conduzem as pessoas a aparentarem ser o que não são, fazer o que não querem, sentir o que não sentem. E de aparência em aparência, vão contribuindo para o suicídio. Maria anuncia a silenciosa dor daqueles que tentam suicídio, em especial, daqueles que sobrevivem a esse gesto da existência. É um sofrimento sem lugar, sem acolhida e sem guarida. Um relato em que o poder-morrer permanece quase como destino, ainda lançado enquanto possibilidade para ela. A narrativa de Maria nos faz pensar que poder escolher morrer significa contestar a morte compreendida enquanto processo natural da vida, opondo-se à ideia da morte como o inimigo a ser combatido a todo custo. Só uma definição de morte não esclarece mais 148 este assunto; é preciso entrar no mérito existencial, isto é, o que significa fim da vida e por que se quer antecipá-lo. 149 6.2. As narrativas de Amélia O contato com Amélia deu-se por indicação de uma servidora de Instituição de Ensino Superior que soube de nossa pesquisa e desejou colaborar. Entrou em contato comigo por telefone informando que conhecia uma jovem cuja mãe havia tentado suicídio. Falou que já havia comunicado à jovem que eu entraria em contato. Liguei, então, para o celular de Amélia e a filha atendeu. Expliquei quem eu era e o objetivo da pesquisa. Ela explicou-me que talvez a mãe não pudesse contribuir muito, pois havia como que “deletado” de sua memória o momento do suicídio, mas sugeriu-me que eu mesma falasse com ela. Passou, então, o telefone para Amélia que carinhosamente disse-me que poderia contribuir, mas que não recordava de muitas coisas. Ao perguntar qual ela gostaria que fosse o local de nosso encontro, rapidamente ela disse que poderia ser em sua casa. Retornei à Caicó, a vegetação estava um pouco mais verde como que animando-me para o nosso encontro. Viajei ao lado de um casal caicoense que ao “puxar conversa” comigo, descobriu o motivo da minha viagem. Ficavam perguntando-me a qual família eu pertencia, o que eu fazia da vida e quem eram os conhecidos que tínhamos em comum. Eles me relataram que achavam muito interessante o tema da pesquisa, pois eles mesmos conheciam muitos casos de pessoas que tentaram suicídio na cidade. Tal contato deixou-me ainda mais desejosa em escutar Amélia e aproximar-me novamente do fenômeno através da sua narrativa. Fui à casa de Amélia. Casa simples e muito organizada. Na cozinha o cheiro do café que preparou pensando em nosso encontro, sinal de que estava me esperando, não de qualquer modo, mas como quem se prepara para uma boa troca de conversas. Amélia traz o café, pergunta se eu gostaria de comer algo, afinal, receber com comida uma visita em Caicó é a prova da hospitalidade. Levou-me para conhecer um dos quartos no qual encontrava-se a filha deficiente. 150 Amélia fez questão de que eu conhecesse todos os aposentos de sua residência e foi falando um pouco sobre a sua vida. Relatou-me que ninguém atrapalharia nossa conversa porque só estaríamos nós três (eu, ela e a filha) em casa. Contou-me que está aposentada e que sua vida hoje é dedicar-se à igreja e à filha que é deficiente mental. Sua filha tem 30 anos e teve um problema durante o parto, deixando-a com sequelas cerebrais. Atualmente depende de Dona Amélia para comer, tomar banho, se vestir, entre outras atividades. Amélia é casada e tem outros dois filhos que a visitam com frequência. Mostrou-me com muito afeto os porta-retratos na sala com as fotos dos filhos ainda crianças e também dos netos. Referia-se a eles constantemente quando relatava o dia da tentativa dizendo: se eu tivesse morrido, não estaria com eles e não teria conhecido os meus netos. Sentamos no sofá da sala, ela assinou o TCLE e o termo de gravação de voz. Então, assim como realizado nas outras entrevistas, eu falei que estava interessada em saber como foi a experiência da tentativa de suicídio e perguntei se ela poderia me falar sobre isso. Descrevendo sua experiência, Amélia fala várias vezes que não recorda de muita coisa do que aconteceu no dia da tentativa de suicídio. Mas, mesmo assim, esforçou-se em descrever como foi o seu dia e os sentimentos que fizeram parte desse cenário. Foi uma experiência tão difícil que eu não consigo nem lembrar muito bem o que aconteceu. Eu lembro que tomei banho, tomei café, ajeitei os meninos para irem para a escola e eu ia sair as 9h para trabalhar. Nesse dia, uma moto bateu no carro do meu marido. Então, ele veio em casa e se deparou com o que estava acontecendo no pé da porta. Eu usei uma corda. Eu pendurei a corda num torno de rede. Quando ele chegou eu já estava pendurada pela corda. Amélia relata não lembrar do que aconteceu tamanha a dor que sentiu ao ponto de ficar desacordada. Diante de sua narrativa percebi que o não lembrar significava muito mais um não 151 poder falar em profundidade sobre aquele dia, posto que até o momento da nossa entrevista suas falas limitaram-se a explicações superficiais do fato. A tentativa de suicídio de Amélia se desvela como um momento de intenso sofrimento. Ela refere um vazio e uma voz como algo externo a ela. Porém, para ela, a tentativa implica em uma ruptura que a leva a outros caminhos. Porém, ela fala sobre si, mas não possibilita uma aproximação maior. Parece proteger-se na superfície. Há um “não sei”, uma voz externa que leva à tentativa e uma família e um Deus que a curam. Sobre a escolha do instrumento ela nos diz: Eu pensava: pular da ponte eu não tenho coragem, dar um tiro no ouvido eu não tenho coragem, nada eu tinha coragem. Quando eu pensava na corda, também não tinha coragem, mas nesse dia eu tive coragem. Amélia foi me falando sobre as várias vezes que pensou em cometer suicídio, antes de tentar o enforcamento. Falou-me que ficavapensando em um modo de acabar com a sua tristeza que, segundo ela, vinha de repente, “do nada”. Perguntei como era essa tristeza e o que ela pensava e sentia nesses momentos de dor. Eu não sei explicar muito bem. Eu sentia uma tristeza grande, nada fazia sentido para mim. E em alguns momentos me vinha uma agonia junto a essa tristeza, uma inquietação. Algo mandava que eu me matasse, que não teria outra saída. A tristeza de Amélia passava a ser acompanhada de uma “agonia” perante a vida, e o suicídio, nesses momentos, aparecia como a única possibilidade de acabar com a dor. Parecia- me um sentimento de desespero diante da tristeza por não saber o que fazer e não encontrar um outro caminho a seguir. Dentro de Amélia havia um vazio que fazia com que nada que estivesse ao seu redor desse sentido a sua existência. 152 Eu tinha tudo. Eu tinha uma família linda, eu tinha minha fé, um emprego bom. Não sei porque eu fiz aquilo. Nesse momento nós refletimos um pouco sobre o que significa ter uma vida repleta de pessoas que a amam, ter emprego, moradia e que ainda assim escolher morrer. Esse aspecto repetiu-se nas entrevistas. Amélia queria encontrar um motivo para a sua tentativa, mas não encontrava e repetia várias vezes que não sabe porque fez “aquilo”. Acredito que esse discurso de Amélia estaria relacionado ao discurso social sobre a sua tentativa. As pessoas, no intuito de ajudá-la, ficavam dizendo que ela “tinha tudo” e assim não teria motivos para querer morrer. Ela trouxe para si esse discurso como uma experiência sua, própria do seu sentir, dos seus motivos, não se permitindo pensar o fenômeno do suicídio de uma forma mais ampla. Assim, a impessoalidade aparece nessa fala como um modo cotidiano em que Amélia precisa apresentar-se, submetida e absorvida com as outras pessoas. É a forma de desenvolver a socialidade impessoal da existência. Nessa forma de relação Amélia é destituída de individualidade própria, mantendo-se sem refletir sobre o poder-morrer e mantendo-se no modo público aceito (Heidegger,1927/ 2012). Sobre esse aspecto, o filósofo Camus (1942) vai falar a respeito de uma compreensão do suicídio a partir da individualidade. Sua proposta é discutir o pensamento individual, pois, de acordo com ele, sempre se tratou o suicídio apenas como um fenômeno social. “Um gesto desses se prepara no silêncio do coração, da mesma maneira que uma grande obra” (Camus, 1942, p. 18). Para esse autor, o tormento do viver surge no coração do homem e é ali que precisa ser procurado. Geralmente, dentre os diversos motivos para se morrer, costuma-se buscar pelos mais aparentes, mas não se busca pelo cerne da questão: o questionamento se a vida vale a pena ser 153 vivida. Camus (1942, p. 21) vai nos trazer que viver não é fácil, porém continuamos reproduzindo, por muitos motivos “os gestos que a existência nos impõe”, sendo que o primeiro desses motivos é justamente o costume. “Cultivamos o hábito de viver antes de adquirir o de pensar”. Desse modo, “morrer por vontade própria supõe que se reconheceu, mesmo institivamente, o caráter insensato da agitação cotidiana e a inutilidade do sofrimento” (Camus, 1942, p. 19). Ainda de acordo com o autor, no ato suicida, o homem traz consigo uma incapacidade de reconhecer o mundo como familiar, sentindo-se um estrangeiro, o que o leva a aspirar o nada, aproximando-o do suicídio. Tal aspecto mencionado por Camus nos recorda novamente o que Heidegger traz enquanto habitar. Para Heidegger (2012), o habitar teria o sentido de pertencimento, de permanência, moradia e construção. Nessa perspectiva, o ato suicida poderia corresponder a um vagar à margem dessa sensação de pertencimento, não encontrando lugar para ser, como um incapaz de se familiarizar com o mundo. Por várias vezes, ao longo da entrevista, Amélia relata com espanto como ficou após o enforcamento. Quando meu marido chegou e me tirou da corda, eu já não estava mais em mim, estava inconsciente. Ele me deitou no sofá e eu vi que eu estava toda urinada. Eu fiquei toda urinada. Ele ligou para minha irmã para pedir ajuda. Na hora eu fiquei calma, não falava nada. Ele disse para a minha irmã: ‘venha para cá urgentemente. Venha para cá agora’. Chegou minha irmã e chegaram mais duas colegas de trabalho também. Então eu fui para o banheiro tomar um banho.Eu acho que eu fui e voltei; morri e voltei. Porque até me urinar eu me urinei. A dor da morte fez eu me urinar. Mas Deus me sustentou e eu voltei. Por um tempo fiquei com a marca da corda no pescoço. Aí já me levaram para o hospital. Meus olhos eram cor de sangue, mas não ficou sequela. Fiquei um dia no hospital. 154 Sobre a marca da corda no pescoço, ela relata que tal marca evidenciava para a sociedade que ela havia tentado suicídio por enforcamento. Ela havia ficado “marcada” pela escolha que tinha feito. Diz também que não pensava muito sobre o que tinha acontecido, nem sobre o que as pessoas falavam. Não pensar sobre essas questões, significava para Amélia não sofrer. Ela remetia-se ao dia da tentativa como quem estava em um “estado de choque” por não acreditar que havia concretizado o ato e não entendia bem o que estava acontecendo. Sobre a marca no pescoço ela referiu-se à mesma com grande dor, porque apesar de as pessoas não comentarem em sua frente, ela sabia que a olhavam de modo diferente. Percebi que Amélia foi convidada a silenciar diante da tentativa de suicídio e diante da marca no pescoço. Guardou a própria dor para que a sociedade caicoense soubesse o mínimo possível sobre o que acontecera. Como seria andar pelas ruas da cidade com uma marca de corda no pescoço? Como foi para ela esconder dos vizinhos, colegas de trabalho e amigos tal fato? Perguntas como essa iam dando seguimento a nossa conversa. As pessoas olhavam para o meu pescoço, mas não diziam nada. Acredito que é porque eles têm muito respeito a mim. Nem na minha rua também ninguém falava. Só quem me perguntava algo era a minha família. Minha família perguntava por que eu tinha feito aquilo e eu dizia que nem eu sabia. Ninguém perguntava, mas olhavam diferente pra mim. E eu sabia por que estavam olhando. Mas eu estava tão desnorteada que preferia nem pensar muito sobre isso. Apesar de Amélia relatar que as pessoas não perguntavam nada por respeito, pareceu- me ser outro o motivo: o silêncio que emana do suicídio. As pessoas falam do suicídio com entusiasmo, divulgam fotos e vídeos, mas não sabem escutar/lidar com o fenômeno enquanto experiência. Se por um lado se fala, por um outro, se cala. 155 Sobre a religiosidade de Amélia, essa perpassa toda a entrevista. Por vezes ela menciona que o município é de uma forte cultura religiosa, antes muito católica, mas hoje composta por outras religiões, como a evangélica e a espírita. Eu sou muito católica e todas as vezes que eu pensava em fazer uma besteira, eu dizia: ‘Meu Deus, tire isso da minha cabeça! Não deixe que nada de mal me aconteça.’ E realmente funcionava. Eu rezava e o pensamento ruim ia embora. Muitas pessoas me perguntam: mulher, como é que pôde acontecer isso com você!?! Eu dizia: Deus não me deixou ir porque eu tinha missões a cumprir. A espiritualidade faz parte do horizonte histórico de Amélia, e parece dar a ela um sentido para continuar vivendo. Ela relata que encontra nos grupos religiosos que frequenta a força para cuidar de sua filha e da família como um todo. Também relata que nunca pensou em suicídio após essa tentativa, tamanha a dor que causou. A religião católica é de grande importância para Amélia, pois alimenta sua fé e a faz estar com outras pessoas, reestabelecendo os vínculos sociais. Ela relata que por meio do grupo que frequenta na igreja e das orações que faz, ela ocupa a mente e interage com os membros do grupo; mas também diz que Deus é o sentido de sua vida. Observando suas falas, fico a pensarse tais atividades a conduzem à impessoalidade ou dão sentido a sua existência. Se eu não fosse católica eu não teria sobrevivido, porque nesse momento minha fé foi maior que tudo. Eu quando eu penso que nesse dia meu marido voltou e me salvou por causa de uma batida... Ele não costumava passar em casa. Só penso que foi Deus. E sou muito agradecida a Deus. Conforme mencionado em outros momentos desse estudo, a religiosidade é algo muito forte na cultura do povo seridoense, principalmente a religião católica com a devoção aos 156 santos. Ela mencionou algumas vezes a sua devoção a Maria, mãe de Jesus, afirmando ser de um grupo religioso dedicado à mesma. A visão de mundo de Amélia é atravessada pela sua fé e, desse modo, as explicações para os acontecimentos também vivem esse atravessamento. Pensando um pouco sobre essa dimensão da existência humana, para Heidegger (2010), a religião se encontra dentro do conceito de tempo e isso permite uma construção de sentido no mundo dado do Dasein. Em uma interpretação fenomenológica, é interessante pensar a religiosidade tão presente na Região do Seridó. Tal aspecto é pertinente tendo em vista o fenômeno da pós-modernidade, que, paradoxalmente, reflete o antropocentrismo e cientificismo, indicando um redimensionamento da religiosidade, e não sua negação. A religião continua como um fenômeno experimentado pelo homem pós-moderno em suas diversas culturas e deve ser observado em suas condições transcendentais. Heidegger busca escrever e apreender o fenômeno religioso a partir de sua experiência originária dada na facticidade. A realidade factual é o fenômeno histórico. Para Heidegger, tanto a filosofia quanto a religião são fenômenos históricos. O histórico, tal como Heidegger o pensa, remete ao tempo próprio da vivência, da vida. A experiência da vida fática abarca a experiência da temporalidade de tal modo que qualquer explicação teórica objetiva do histórico cairia no “esvaziamento teórico-científico do fenômeno da vida” (Heidegger, 2010, p. 33), isto é, levando à perda de seu sentido originário. Para Alves (2007), a religiosidade faz parte da identidade do seridoense, e as modernas transformações culturais vão impactando a maneira como os fiéis manifestam e vivem a religião, mesmo que a opção seja viver os costumes e a tradição. Ainda assim, as vivências e manifestações de fé na região sobrevivem às mudanças espaço-temporais. Tais tradições religiosas provêm da história da colonização, da história do sertanejo e sua relação com a seca, entre outros. 157 Ainda é muito próprio da região a devoção aos santos em busca de chuva em meio à seca. É uma religiosidade muito embasada nas festas de padroeiros, como a Festa de Sant’Ana. A religiosidade aqui entendida, diz respeito à adesão a um conjunto de símbolos, comportamentos e valores pré-estabelecidos por certa cultura religiosa, enquanto a espiritualidade abrange um conjunto de valores éticos concebidos através de uma busca relativamente autônoma do sujeito (Silva, 2016). Outro aspecto percebido nas falas de Amélia é a entrega e dedicação à maternidade de sua filha deficiente. O modo de ser como cuidado de preocupação a mantém focada em sua missão. Estrutura ontológica apriorístico-existencial do ser humano, o cuidado é o modo próprio do ser humano. Isto significa que tal estrutura é parte da fundamentação existencial. Trata-se de afirmar que o cuidado, como existencial, assim como o ser no mundo, é um a priori existencial, que não é "apriorístico" no sentido de ser anterior à experiência. Dessa forma, a vida de Amélia é ser-com-os-outros-no-mundo e este ser-com-os-outros compele ao cuidado dos outros, esses outros com quem se vive no mundo como seus familiares. Para cumprir esta condição de ser pessoa Amélia age cuidando dos outros. Tenho essa filha deficiente aí que depende de mim para tudo, inclusive para se arrumar. Ajudo ela em tudo o que faz, do banho ao comer. Fico pensando o que seria dela se eu tivesse morrido. Ela não consegue fazer nada sozinha. Por minha família e por Deus eu nunca mais pensei em morrer. Só até aquele dia. Hoje vejo que a vida é boa. Se eu tivesse morrido nem teria conhecido os meus netos. Ela seguiu falando das inúmeras ocupações que tem em casa hoje como aposentada. Novamente me falou da importância da família e dos cuidados que exerce na vida de cada um dos filhos, inclusive com os que não residem mais na casa dela. Elogiou o esposo afirmando ser um excelente pai e marido. E que sua maior dedicação hoje é com relação a ele e à filha. 158 Esses relatos de Amélia desvelam esse modo de preocupação com os outros quando conta sobre as suas responsabilidades e sobre os projetos que trazem benefícios para todos. Essa possibilidade de cuidado existe para todo ser humano, uma vez que o ser-com versa sobre a constituição ontológica humana. E esse modo de ser humano acontece de diferentes maneiras, uma vez que as possibilidades humanas existenciais são incontáveis e ocultam-se nas ocupações cotidianas. É na família, na religião e nas atividades domésticas que Amélia encontra novo modo de ser que a sustente no mundo. Cuidar significa para ela encontrar um sentido para viver. Pedi a Amélia que me relatasse como foi a chegada ao hospital e o processo de hospitalização. Ela afirma que estava apática, sem reação alguma e que não procurava pensar em nada, pois não conseguia entender o que estava acontecendo com ela, nem mesmo o que seria do seu futuro. Mais uma vez Amélia evitava pensar no que havia ocorrido para evitar ainda mais sofrimentos e também para não ter que explicar às pessoas o que se passava. Ela foi socorrida com o balão de oxigênio e logo foi internada. Durante a internação, repórteres começaram a chegar ao hospital interessados em divulgar o caso. Aqui vale salientar que percebi ser comum, na região do Seridó, pessoas “entusiasmarem-se” com o suicídio, divulgando fotos, escrevendo em blogs sobre a temática, as vezes de modo sensacionalista. Tal percepção nos traz o questionamento e a tematização de quais acontecimentos da vida são realmente de âmbito público ou privado. A minha vista estava embaçada devido ao derrame que eu tive. Eu só escutava as vozes. Lembro demais de minha filha gritando no hospital dizendo para um dos repórteres: ‘não, você não vai entrar’! Eles queriam me entrevistar e entrevistar minha família, talvez tirar fotos, mas minha família não deixou. Depois foram outros repórteres na minha rua para me entrevistar, mas eu nunca falei sobre isso. Eu mudei de casa por causa disso. Troquei de casa com a minha irmã. Isso aconteceu há mais de 10 anos. 159 Tal atitude dos repórteres me faz refletir que o fenômeno do suicídio tem sido tratado como um espetáculo, principalmente nas mídias e redes sociais. E que, segundo os relatos de Amélia, muitas vezes as pessoas divulgam de forma errada os atos suicidas no município. Próximo a este modo de pensar encontra-se Debord (1997), ao afirmar que vivemos na sociedade do espetáculo. Já não é suficiente rompermos um relacionamento; agora, o importante é a sua publicização, de preferência, nas redes sociais. Como diz Heidegger (1981, p.26), somos “todos nós... ninguém”. E a máxima dos tempos atuais parece ser esta: “apareço, logo, existo” (Dutra, 2012). De acordo com Debord (1997), a problemática está, na verdade, na apropriação e espetacularização do suicídio pela imprensa. A oportunidade de colocar a discussão sobre o suicídio e sua prevenção em pauta se distancia do propósito de conscientizar e passa a fazer com que os que possuam predisposição ao suicídio, se enxerguem em cena e, por vezes, possam ser influenciados a consumar o ato. Essa ótica está em voga porque o que vem sendo exibido nos meios de comunicação em massa online e offline é uma representação teatralizada do suicídio (Debord, 1997). Énesse aspecto que Amélia, assim como os outros nossos colaboradores relatam sua preocupação sobre a divulgação dos suicídios na região seridoense. Todos eles em algum momento da entrevista citam ao menos um caso de suicídio de alguém conhecido e o método utilizado. Parece-me que falar do suicídio em Caicó traz sentimentos ambivalentes aos moradores, por um lado um certo medo por ser um tema tabu e por outro como que uma necessidade de evidenciar o “espetáculo” que ocorre na cidade. Nesse momento, recordo de Maria que em um segundo encontro nosso me perguntou se eu estava sabendo das duas últimas tentativas de suicídio que ocorreram naquele dia. Eu relatei que não e ela me disse que naquele dia duas mulheres tentaram se matar, uma queimada e outra, 160 amiga dela, havia pulado da ponte pela segunda vez. Pegou o celular e quis me mostrar as fotos das mulheres no hospital e me contar os detalhes. Ficou ainda mais evidente para mim esse aspecto de espetáculo, posto que segundo Maria, em Caicó as pessoas se conhecem e correm para as ruas para ver as tragédias que acontecem na cidade. Assim como ocorre no mundo de maneira geral, é bem presente em Caicó essa espetacularização do suicídio, na qual as pessoas divulgam, compartilham, de forma muitas vezes errônea as notícias dos casos. Falar em uma morte por suicídio na cidade é um despertar da curiosidade dos moradores que querem saber detalhes sobre o ato, como o método empregado, os motivos e como ficou a família. Muitas vezes em que ocorre um caso na cidade, as pessoas saem de suas casas para olhar. Vão até a casa do suicida, tiram fotos e compartilham nas redes sociais. Amélia corrobora com essas afirmações em sua entrevista, relatando que as pessoas queriam divulgar tudo sobre o seu caso. Ela também relata que as pessoas de sua família perguntaram o porquê da tentativa de suicídio, mas não queriam realmente ouvi-la. Ficavam buscando os motivos para justificar o seu ato. Precisavam de alguma segurança, de algo no qual pudessem se apoiar para mantê-la viva. E nesse intuito, começaram a esconder os utensílios que consideravam perigosos, bem como passaram a vigiá-la. Ficaram todos com medo, escondendo as facas e tudo o que tinha dentro de casa. Esconderam tudo e eu dizia que não ia fazer nada. Foi um sufoco. Não me deixavam sozinha nenhum minuto. E não me deixavam fazer nada. Até que eu voltei a trabalhar, mas lá no trabalho ninguém tocava no assunto nem perguntava nada. E com o tempo eles foram me deixando mais à vontade em casa, porque viram que eu não ia fazer nada. 161 A família de Amélia ficou muito apreensiva com o que havia acontecido e tinham medo de perdê-la. E com isso acabam por exercer sobre a sua vida um cuidado do tipo substitutivo, um modo de "preocupação" que "substitui" o outro assumindo suas "ocupações", para liberá-lo delas ou devolvê-las posteriormente como algo já pronto. "Nessa preocupação, o outro pode tornar-se dependente e dominado mesmo que esse domínio seja silencioso e permaneça encoberto para o dominado" (Heidegger, 1927/2012, p. 174). Fiquei a me questionar se esse tipo de cuidado não seria realmente necessário após a tentativa de suicídio de Amélia. Apesar de a mesma relatar que não faria nada novamente, diante da fragilidade vivenciada por ela e pela família no momento, foi a saída temporária que eles encontraram para exercer o cuidado. Outro aspecto que as suas falas nos fazem refletir é sobre a dor dos familiares. Com o aumento dos números de suicídio, cresce também o quantitativo de enlutados que precisam ter seu cuidado ampliado, pois a morte auto-infligida produz sofrimento nas pessoas que ficaram e vivenciaram suas repercussões (Fukumitsu & Kovacs, 2017). Pensar as consequências do suicídio no grupo familiar é tentar compreender a intensidade e magnitude desse ato na vida das pessoas, sendo o grupo que mais sofre os efeitos nas diversas dimensões, os quais podem se perpetuar por toda a vida (Pampanelli & Teng, 2015). Além do mais, o suicídio também produz, muitas vezes, desestruturação e rupturas no contexto familiar. Observando a literatura, encontramos estudos que nos iluminam quanto ao luto diante do suicídio, mas pouco se fala sobre a dor de quem sobreviveu ao luto ou à dor de seus familiares. É interessante escutar Amélia falar de seus familiares e do quanto eles sofreram e tentaram reestabelecer a vida após a tentativa de suicídio da mãe. Os modos de cuidado exercidos por parte da família de Amélia foram do tipo substitutivo desde o primeiro contato ao telefone quando sua filha mencionou que talvez sua mãe não quisesse aceitar o convite para 162 participar da pesquisa. Acredito que mais estudos precisam ser desenvolvidos sob essa perspectiva da vida após a tentativa. Em um determinado momento da entrevista Amélia tenta atribuir um motivo para a tentativa, recorrendo à patologia da depressão. Mas ao mesmo tempo em que fala da depressão, diz que não foi só por causa dela, que nem ela mesma entende porque tentou se enforcar. Relata que começou com uma falta de ânimo em fazer as coisas, já não encontrava sentido. E em seguida relata que havia como que uma voz dizendo para ela se matar. Eu era muito calada, tinha depressão e estava medicada. Eu dormia demais. Só queria dormir. Eu tinha depressão e falta de coragem de fazer as coisas. Fui acompanhada por um psiquiatra e um neurologista. Passei um bom tempo tomando remédio. Amélia passa um tempo da entrevista me falando sobre a sua peregrinação por um tratamento eficaz para a sua depressão. Relatou que consultou vários médicos, modificava as medicações, mas não resolvia o seu problema. Fico pensando nesse aspecto do sofrimento: a busca pela cura, pelo retorno à normalidade da vida, a busca pelo alívio da tristeza. Quando se tem uma doença física, buscamos o remédio para aliviar os sintomas, mas quando nossa dor é da alma (psique); quando nossa dor é existencial, fica difícil encontrar na farmacologia um resultado objetivo. Tentei vários médicos daqui e de Natal também. Fui para médicos considerados muito bons, mas eu continuava sem vontade de fazer nada. E continuava triste. Parecia que a procura não adiantava de nada. Amélia relata que o cuidado com a família e sua fé foram o auxílio para conseguir lidar com a tristeza e a vontade de não fazer nada. Ela ainda fala sobre o suicídio na sociedade 163 quando, em sua simplicidade relata que os jovens têm tentado demasiadamente pôr fim a própria vida. Eu acho que os jovens daqui tentam muito morrer e acho que é mais por causa de namoros que terminam, outros também tentam por conflitos com os pais que não aceitam o homossexual. As pessoas tentam porque é difícil lidar sozinho com algumas questões. Eu não tinha vontade de morrer quando eu tentei. Algo dentro de mim me pedia para eu tentar. Porque eu estava muito triste para viver. Ainda sobre o modo como a família de Amélia enfrentou o ocorrido, ela afirmou que eles se recusaram a continuar na mesma casa na qual ela tentou suicídio. Ela relata a sua dor em ter que sair de sua casa, pois não era desejo dela. Aqui novamente nos deparamos com o cuidado substitutivo, pois mesmo sem o consentimento de Amélia, a família tomou a decisão de sair, pedindo para trocar de casa com a irmã dela. Uma das filhas de Amélia disse para ela que não teria condições de ficar na casa e olhar para o pé da porta e pensar que poderia ter perdido a mãe. Eu não queria sair da minha casa. As minhas filhas quiseram que eu trocasse. Elas disseram que não iam continuar lá. Que não conseguiriam ficar lembrando do que aconteceu porque era muito difícil para elas. Eu achei muito ruim na época, me incomodou muito. Mas hoje eu gosto dessa casa. Me acostumei. Sobre esse aspecto familiar, não é possível medir a intensidade de uma tentativa de suicídio ou mesmo de um suicídio em uma família.É como se a família de Amélia precisasse elaborar um certo luto do que havia acontecido com a mãe e mudar de casa significava um recomeço. Significava romper com o passado, bem como evitar a curiosidade da sociedade que sabia que naquela casa tinha uma pessoa que havia tentado suicídio. Pareceu-me uma tentativa 164 de retirar da própria família a marca do suicídio, evitando possíveis interrogatórios ou comentários. Ao perguntar se Amélia teria algo mais a acrescentar, ela disse que não. Apenas gostaria de desejar às pessoas que pensam em suicídio que tenham esperança de que as coisas podem mudar e que tenham fé. Eu gostaria que essas pessoas soubessem que é possível a dor passar e que tenham fé em Deus e esperança. Que a família nessas horas é muito importante. A minha é meu tudo. Ajudaram-me muito e Deus também. E para as pessoas que estão de fora, gostaria que entendessem melhor essas pessoas, que não julgassem, porque as vezes nem sabemos o que se passa com a gente. E pensem nos jovens, eles estão sofrendo muito, é o que eu escuto falar. Amélia deseja para as pessoas em sofrimento o que ela desejava para si na época: acolhimento sem julgamentos. Encerramos assim a gravação. Mas ainda ficamos conversando por um bom tempo, na insistência para que eu tomasse aquele “cafezinho” da hora de minha chegada. Falamos sobre a vida, sobre outros aspectos da cidade e sobre os conhecidos que nem sabíamos que tínhamos em comum. 165 6.3. As narrativas de José Em 2018, um parente meu estava em um restaurante de Caicó quando começou a conversar cordialmente com um homem. Esse homem era José. Em um determinado momento a conversa começou a tornar-se mais profunda, dialogando sobre assuntos da existência; e nesse momento José compartilhou que havia tentado suicídio na adolescência. Prontamente, meu parente sabendo do estudo, perguntou a ele se haveria disponibilidade para falar sobre o assunto. José imediatamente se disponibilizou e passou o contato de seu telefone para ele me entregar. Foi possível perceber que os contatos no interior se dão desse modo casual a partir disto o contato com a pesquisadora foi possível. Recordo-me de ficar instigada ao saber do ocorrido. Fiquei a pensar na abertura de José em falar sobre a tentativa de suicídio para uma pessoa que conheceu há pouco tempo (meu parente). Para mim ele havia quebrado as regras sociais de esconder a temática do suicídio, tamanha a liberdade que teve na conversa. Por que ele agiu diferente do comum? Por que ele falou com essa naturalidade relatada pelo meu parente? Será que ele conta sua história para muitas pessoas? Quem é José? Perguntas que só um encontro com ele me responderia. Ao mesmo tempo, aquela disponibilidade em falar me apontava o desejo em relatar o ocorrido. Conforme mencionei em outro momento, não tive dificuldades em encontrar pessoas que se dispusessem a falar sobre a experiência da tentativa, seja pela facilidade de obter indicações, seja pelo desejo dessas pessoas em falar sobre o assunto. Cada fala dessas pessoas soava para mim como a quebra do silêncio do suicídio. Ao receber o número de telefone, liguei para José, identificando-me. Ele disse que seria um prazer me ajudar com sua fala e elogiou meu parente, dizendo ser uma boa pessoa. Fiz a 166 proposta de lugares onde poderia ser o nosso encontro e ele pediu para ser em um espaço de eventos religiosos que durante a semana é de pouco movimento. Imaginei imediatamente que José seria uma pessoa religiosa. Viajei para Caicó e encontrei-me com ele no local combinado e imediatamente o percebi muito simpático e disponível em colaborar. Antes mesmo de entrarmos em uma sala do local para a entrevista, começou a falar que Caicó tem muitos casos de suicídio. E que as autoridades locais deveriam estar mais atentas em como colaborar com esse aspecto da sociedade. Continuou citando alguns casos que ele conhecia ou ouviu falar. José voltou a elogiar meu parente dizendo que no mundo há poucas pessoas como ele, preocupadas com os outros e que se dediquem a ajudar as pessoas. Falou que se sentiu livre para conversar com ele porque viu nele abertura e já o conhecia de vista ajudando idosos e outras pessoas doentes da cidade. Senti nesse momento, um tom de indignação com a sociedade; posteriormente ele voltou a falar sobre isso. Explicou que escolheu o local de eventos religiosos, pois para ele era um lugar familiar e que lhe trazia paz, bem como era um local central. Expliquei o uso do gravador, apresentei o termo de gravação de voz e o TCLE; ele os assinou. Pedi, então, que me relatasse como foi sua experiência de ter tentado suicídio. É uma experiência muito ruim. Começou por briga familiar. Sempre fui um pouco rejeitado. Eu comecei a trabalhar logo cedo e lá fiquei apaixonado por uma adolescente que era minha vizinha. Ficamos juntos por 3 anos. Eu tinha 15 e ela 14 anos. Ela terminou o namoro e eu passei 2 anos deprimido após o término. Havia briga entre as duas famílias que não aceitavam o nosso namoro. Eu tentava dar uma vida boa para ela e a família dela não queria porque dizia que eu era vagabundo. A menina me deixou e eu caí na tentação. 167 José relata algo que aconteceu na adolescência, mas que deixou marcas nele e até hoje o faz voltar ao passado. Recorda o amor vivido e proibido, recorda como as pessoas o rotulavam e como tais aspectos o levaram ao suicídio. Retomo aqui a importância do estudo de Dutra (2012) quando trata do suicídio em adolescentes e jovens universitários. A autora nos fala que há a estimativa de que uma perda interpessoal, um grande conflito com um parente, ou namorado(a), está presente em 70% dos casos de tentativas de suicídio e de suicídio. “Essa compreensão, aliada a um senso de responsabilidade, tornam o adolescente e o adulto jovem mais suscetível ao estresse associado à escola, estudos ou problemas sociais” (Dutra, 2012, p 929). Segundo a autora, nessa fase de desenvolvimento, eles podem antecipar o impacto do seu comportamento todo o tempo, o que faz com que as questões possam ser percebidas como uma possível causa de estresse e problemas futuros e assim precipitar atos autodestrutivos na população adolescente. Entretanto, Dutra (2012) nos remete à necessidade de retomarmos os aspectos existenciais do fenômeno. Sem eliminar os aspectos mencionados, entendendo-os como motivos, e não, causas. É necessário refletir o contexto de mundo e ser-no-mundo do Dasein e como o suicídio poderia ser interpretado à luz de um pensamento que compreende o homem na sua condição de indeterminação e poder-ser. José segue me contando como foi o dia da tentativa de suicídio. Eu estava em casa e me vi muito angustiado com tudo o que estava acontecendo. As pessoas me chamavam de vagabundo, as famílias brigando e a garota que eu achava que era a mulher da minha vida tinha me deixado. Eu não via mais sentido de estar ali. Foi meio que um momento de desespero. Eu vi a corda e peguei. Eu coloquei a corda no pescoço e quando eu pulei, só lembro que vi meu irmão chegar, e ao mesmo tempo vi pássaros pretos arrodeando 168 minha cabeça. Foi uma sensação horrível. Não desejo isso a ninguém. Eu jamais faria isso de novo. José fala da angústia que sentia diante da vida, não estava sabendo lidar com os problemas que enfrentava. Ser rotulado pelas pessoas como “vagabundo” era algo muito doloroso para ele, pois segundo ele, havia esforço de sua parte em trabalhar. Tão jovem já sonhava em ter uma família com a namorada e trabalhava nessa perspectiva. O rompimento do namoro deixou-o sem saber para onde caminhar, pôs fim aos projetos já construídos. José fala na perda de sentido, de rumo, que o conduz ao desespero; e o desespero, por sua vez, o conduz ao suicídio. O suicídio aparece para José como o modo de lidar com a angústia, que é constitutivado Dasein, buscando eliminá-la. A angústia permite a José se colocar diante da possibilidade de ser-si-próprio, isto é, de singularização, e nela ele escolhe a finitude, o ser-para-a-morte. Feijoo (2010) relembra a angústia como tonalidade afetiva fundamental que viabiliza a crise do projeto do impessoal, abrindo espaço para que a singularização se dê. Na angústia, há um repetido esvaziamento do sentido que sustenta o movimento existencial cotidiano, e tudo, então, se mostra como possibilidade, inclusive a morte como é o caso de José. Imediatamente após falar da escolha pela morte e da falta de sentido que viveu na adolescência, José relata o que hoje dá sentido à sua vida. Fala sobre a família e sobre a fé. Por vários momentos ele retoma que jamais faria isso novamente e que fica pensando que não teria essa família, caso não tivesse sobrevivido à tentativa. Também revela que ter uma família e ter fé são para ele um valor, uma conquista. Suas falas remeteram-me aos valores caicoenses de família enquanto núcleo familiar e à vivência religiosa, também encontradas nas falas de Maria. A estrutura familiar tradicional é 169 um valor para a cidade e consequentemente para José, bem como a fé vinculada às práticas religiosas. Trata-se assim do processo de individualização no qual a forma cultural hegemônica prevalece e implica em um posicionamento social, cultural e político (Vasconcelos, 1999). Contudo, apesar de tais valores serem o sentido da vida de algumas pessoas, como o caso de José; é preciso estar atento às pessoas que não se enquadram nessa realidade e desse modo, podem sentir-se excluídas da sociedade, ou mesmo rotuladas, como é o caso de Maria. Hoje eu tenho uma família linda, uma esposa que me ama. A vida que eu tinha, hoje eu nem gosto de lembrar, era horrorosa. Eu não tinha fé em Deus, Deus era o mesmo que um pedaço de papel sem valor. Eu ficava debochando de Deus. Hoje eu tenho fé e tenha minha família. José relata que pediu à família que não comentasse com ninguém que ele havia tentado suicídio, pois tinha muita vergonha de como as pessoas o olhariam. Pedi a minha família para não divulgar nada na época. Eu tinha vergonha de que as pessoas soubessem que eu tinha feito aquilo. Não queria que ficassem pensando nada sobre mim. O que eu fiz foi uma coisa horrorosa. Acho que as pessoas ficariam pensando que eu fiz aquilo só por causa da minha ex-namorada. Eu ia sair de casa e o povo ia dizer: olha o rapaz que tentou se matar por causa da mulher. Eu nunca fiz nada contra ela, só contra mim, eu que ficava mal. José tem medo de ter que carregar o peso social que o suicídio traz. Fala da vergonha que sente em ter tentado e que as pessoas ficariam procurando encontrar uma causa para o ocorrido. É o mesmo pensamento de Maria: medo de ser tachado como alguém que tentou morrer por causa de outra pessoa. O social liberta e limita as possibilidades de ser de José. O social, como é possível entender, a partir de uma interpretação ontológica, hermenêutica, 170 traduz-se no sentido de ser-no-mundo. Como ser-no-mundo, José é afetado pelas situações e pelas imposições do social, numa existência à qual ele atribui sentidos tendo em vista que todo horizonte histórico de sentidos é social. Assim, José vive a partir das possibilidades que o estar- no-mundo-com-outros lhe apresenta e no qual ele é lançado na sua facticidade. É nesse horizonte social que José descreve sua experiência de tentativa de suicídio. Acho que a maioria dos suicídios daqui são por causa de fim de relacionamento. As pessoas não sabem lidar com isso. Isso faz 12 anos e eu ainda lembro constantemente. Por mim eu pularia essa data do calendário. Foi numa noite de São João. Eu sempre lembro. Eu tentei depois de uma semana que ela terminou o relacionamento. Eu cheguei em casa e as pessoas ficavam falando: você é um vagabundo, você não vai conseguir nada na vida, por isso ela não te quer. Eu comecei a acreditar no que os outros diziam sobre mim. Eu olhava para as famílias formadas, bem estruturadas e pensava que eu queria isso para a minha vida. Quando eu acabei com ela, eu pensei que não ia mais ter essa família. Conforme nos afirma Dutra (2008), não é possível pensar o humano fora de um contexto social, de um mundo geográfico, social e historicamente constituídos; o que significa, antes de tudo, pensar o homem como um ser de relação, sem que tal posição signifique um modo de objetivar o homem e o mundo. É nas relações com esse social que impõe, que aponta e que indica caminhos que José vai estabelecendo modos de ser-com-os-outros. Submete-se ao que as pessoas pensam sobre ele e ao mesmo tempo vai criando seu próprio projeto de felicidade que também é social. Eu acho que o que faz uma pessoa tentar suicídio também é a ansiedade. Você olha para as pessoas que têm tudo e que você não tem e que você não é capaz. As pessoas que têm 171 tudo e você não tem. Eu só estudei até a quinta série, mas sou ansioso para trabalhar e poder comprar as coisas. Nesse momento da entrevista, percebi José bastante intrigado com o aspecto social, demonstrando um certo ar de revolta que foi perceptível pela entonação de sua voz e pelas falas. As pessoas não pensam mais nas outras. Não existe demônio não, demônio somos nós quando não pensamos nos outros. Julgamos as pessoas. Tem pessoas aqui que tem 5 casas, mas vê o vizinho passar necessidade e não ajuda, até ri da pessoa. Os animais hoje são melhores que os seres humanos, já as pessoas matam umas às outras. Aqui a pessoa morre e a família só quer saber de herança. Aqui tem rico querendo ser ainda mais rico à custa do pobre e pobre fingindo ser rico. Aqui rico não gosta de pobre. Os aspectos sociais e de uma sociedade capitalista que valoriza o consumo, são muito latentes nas entrevistas, mais que outros aspectos como os psicopatológicos que inicialmente eu pensei poderem aparecer como motivos para os colaboradores. No caso de José, sua indignação com o social é tão grande que ele chega a comparar os seres humanos aos animais e demônios. Para todos os entrevistados, o social teve um grande peso, se não o maior, quando falaram sobre as tentativas de suicídio. José questiona a lógica capitalista e como ela interfere nas relações humanas de forma negativa. Fala dos ricos e dos pobres, das discórdias entre as classes sociais e da falta de humanização nas relações. Contudo, também se vê preso nessa mesma lógica quando afirma que vê as pessoas comprando e trabalha para poder comprar também, como se o possuir fosse assegurar o “ser alguém na vida”, frase que o marcou desde a sua adolescência. Essa fala de José remete-me a Bauman (2005) quando, em Vidas desperdiçadas, ele nos faz refletir a respeito da existência de pessoas que teriam socialmente o status de lixo na modernidade 172 líquida. Para o autor, existe uma descartabilidade característica dos seres humanos e das relações quando a máxima da sociedade é o consumir. Para Bauman (2005), o homem da modernidade líquida se constitui por inúmeros mal- estares, sentimentos de aflição, insegurança, depressão, ansiedade, devido à constante ameaça de tornar-se supérfluo, ou seja, um “lixo”, como denominado pelo autor. Desse modo, seguiríamos a vida procurando algum tipo de segurança e fugindo da possibilidade de sermos “um lixo humano”; os próximos a serem jogados no aterro, tendo a vida desperdiçada. Tais reflexões dizem dos modos de ser na contemporaneidade, no capitalismo e na globalização. Como nos aponta Silva e Barreto (2015), a contemporaneidade tem aparecido de forma ambígua. Se por um lado ela nos apresenta juramentos de felicidade, beleza e liberdade vinculadas às conquistas da ciência e da tecnologia, por outro lado nos apresenta um temor em relação ao futuro marcado pelo controle da vida em sociedade, pelas guerras, pela violência cotidianae destruição da natureza. De acordo com Duarte (2010) vivemos superficialmente o nosso próprio tempo e estamos imersos na dinâmica da valorização da vida que ao mesmo tempo é acompanhada por uma atitude de depreciação e descarte da mesma. Seguindo esse caminho, Giacoia (2013) nos convoca a pensar com Heidegger visando a interrogar o delírio de onipotência da contemporaneidade, bem como a escalada compulsiva da técnica instrumental, que pode nos arrastar para uma expansão planetária da tecnologia em um tempo histórico arriscado à existência do humano (Silva & Barreto, 2015). Ainda segundo Silva e Barreto (2015, p. 291-292): A posição sustentada por uma longa tradição afirma que determinada pessoa é contemporânea quando está adequada às pretensões e ideais do tempo no qual foi dada a viver. Continuando nessa linha de pensamento, contemporâneo se refere ao homem que mantém fixo o olhar no seu tempo, para nele perceber a obscuridade e não as luzes. O escuro 173 não se refere apenas a simples ausência de luminosidade; equivale a neutralizar as luzes provenientes da época para descobrir as íntimas trevas, as quais são inseparáveis daquelas luzes. Para Agamben (2009) a moda é um exemplo esclarecedor desta temática. De acordo com o autor, a temporalidade da moda é inapreensível: quando proferimos que estamos na moda, quase que de imediato, o estilista concebe o traço definitivo do “agora” e do “ultrapassado” das vestimentas. Esse aspecto conjetura a dimensão episódica e fragmentada da existência atual. Nessa perspectiva, os estilos e preferências podem ser adotados e, logo, descartados como uma mudança de costume. Essa reflexão do autor me faz refletir sobre as falas de José que também mencionam as festas de Caicó, nas quais vemos pessoas investirem grandes quantidades de dinheiro para estarem “bem-vestidas”. É um período de grandes vendas no comércio, em todos os setores, mas especialmente no de vestimentas. Ele nos diz: Aqui as pessoas gastam muito dinheiro para andarem com roupa de luxo. Às vezes nem têm dinheiro, se endividam, mas estão com roupa da moda. É mais nas épocas de festas, mas não é só nelas não. Andam com carros que não podem ter, mas não ajudam os outros. Tem gente que ajuda, mas são poucos. As falas de José me fazem refletir sobre o que nos escreve Silva e Barreto (2015) quando dizem que trazendo esse tipo de reflexão para o campo da existência humana, “encontra-se a compreensão laica de contemporaneidade marcada pelo privilégio da individualidade em detrimento das relações de alteridade” (Silva e Barreto, 2015, p. 292). Nesse modo de viver, os relacionamentos buscam a lógica do prazer contínuo e da diversão, sendo o outro rejeitado, ao aparecer qualquer impasse ou ameaça de sofrimento. Estão marcados pelo tempo da vivência, enquanto tempo do presente a solicitar uma reação, conduzindo o homem de uma experiência a outra, não se permitindo adentrar nos acontecimentos, vivenciando-os apenas superficialmente (Silva e Barreto, 2015; Benjamin, 1984). 174 Também fico a pensar na relação histórica e cultural do Seridó que atravessa as falas de José. Historicamente, em meio às crises econômicas, os seridoenses sempre buscaram formas de reconstrução do território, redefinindo sua estrutura socioeconômica de um perfil rural/agrário para urbano/terciário, fazendo uso de um conjunto de estratégias que envolve a produção cultural e simbólica regional. De acordo com Morais e Dantas (2006), a reestruturação regional foi implementada entrelaçando os fios da tradição e da modernização, conectando dispositivos de preservação e reinvenção, rebuscando e ressignificando símbolos, práticas, discursos e vivências. Nesse aspecto, cultura, economia e política são aspectos muito importantes na região. A região é fruto de muitas disputas políticas para manter seu espaço e poder no estado. Famílias elitizadas dominaram a política local e mesmo estadual. Fico a pensar se não há ainda hoje essa busca por status social, mesmo em condições financeiras desfavoráveis. Ainda nas falas José menciona que não havia planejado o suicídio e que ficou surpreso com a própria atitude. Não sei se eu tinha depressão na época, mas pensamentos de morte só existem se você não está bem. Todo mundo que tenta morrer, já não vem bem. Mas o dia da tentativa nem sempre é planejado. Chega o dia que você faz, sem ter hora ou local. Eu não pensava em como seria, não pensava em me matar. Foi na hora, por causa da mágoa por não conseguir ser e ter o que eu queria. Não foi planejado. As pessoas que tentam se matar elas querem se isolar e quanto mais se isolam, pior e mais perigoso é. José me traz que já não estava bem emocionalmente e a falta de apoio das pessoas apareceu como a gota d’água para a tentativa de suicídio. Ele fala que não planejava morrer, 175 mas ver a corda ali diante do sofrimento que estava vivenciando, apareceu para ele como uma possibilidade de pôr fim a essa dor. Eu estava mal, vi a corda ali. Nem pensei direito, só pensei que ia parar de sofrer. E a corda é o mais fácil. Era o único meio perto de mim. Se você quiser se enforcar você se enforca até com as próprias mãos. Quando eu fiz o laço eu queria morrer porque a vida não tinha mais valor. Na hora só pensei na minha mãe e que ela sofreria. Quando eu estava quase morrendo, eu vi pássaros voando e uma nuvem negra em cima da minha cabeça. E quando acordei já estava nos braços do meu irmão. Pendurei a corda no teto e pulei da cama. Meu irmão arrombou a porta. Acordei e estava meu pai, mãe e meu irmão. Eles não suspeitavam de nada. Sempre guardei tudo para mim, nunca dizia nada para ninguém. Assim que acordei, minha mãe me perguntou: O que está faltando para meu filho? Falta alguma coisa? Eu respondi que não. Nesse dia fui dormir e acordei muito arrependido. Pedi perdão a Deus porque me deixei levar naqueles segundos. Eu me sentia abandonado, eu não tinha nada. Até roupa era difícil eu ganhar. Queria comprar uma coisa e não podia. Mas, não quis dizer nada a ninguém. Pelo relato de José, a mãe abriu para ele a possibilidade de falar como estava se sentindo, porém ele não conseguia e guardava seus pensamentos para si. Foi muito interessante perceber o quanto os bens materiais eram importantes para ele na época e ainda o são atualmente. As falas são atravessadas pela necessidade de consumo. A cultura atual é causa dessas mortes, porque afastaram as pessoas. É uma sociedade que só pensa em dinheiro, em bens materiais, em vida boa. Sobre esse aspecto, Silva (2008b) vai nos dizer que há de continuarmos reféns do materialismo-objetivista, ou melhor, da lógica dos objetos, caso indaguemos novamente aos objetos e não sua “lógica-de-fundação”. Assim, precisamos escolher questionar a sociedade de 176 consumo sob esse prisma. A autora faz uma reflexão interessante quando diz que a discussão acerca do consumo dos objetos faz, na verdade, um questionar acerca do amontoamento e abundância que os objetos nos reclamam desde sua estruturação em nosso cotidiano. Estamos, dessa forma, plenamente focados no consumo enquanto organização total da vida quotidiana, enquanto homogeneização total onde tudo está ultrapassado na facilidade; enquanto translucidez de uma felicidade abstrata, definida pela simples resolução da tensão originada pela nossa finitude (Silva, 2008b). Pensar a relação com os objetos a partir de Heidegger é entender que antes de tomarmos as coisas como dadas, na cotidianidade, nossa existência usa as coisas enquanto instrumentos. Heidegger denomina esse fenômeno próprio ao Dasein como a “manualidade-do-mundo” (Heidegger,1927/2012, p. 78). A manualidade do mundo se constitui como o significado das coisas em relação a nossa vida. Nossa experiência da realidade se apresenta, originariamente, a partir dessas referências práticas as quais nossa existência jásempre tem como horizonte. Importante esclarecer que, de forma alguma esse significado se acrescenta à “objetividade” da coisa utilizada, vez que quando o significado objetivo da coisa é – o significado prático já foi, ou, nos termos da analítica existencial, “já se velou”. Deve se considerar, assim, visando a elaboração de um conceito de realidade mais preciso, o modo originário do “dar-se” das coisas, ou seja, sua essencial instrumentalidade. Esse modo de apreensão da realidade pelo Dasein caracteriza-se por não haver separação entre o Dasein e as coisas. Ora, as coisas constituem-se como instrumentos sempre tendo em vista algum Dasein (Silva, 2008b, p 37). Ainda nos afirma Silva (2008b) que é importante também elucidar esse vínculo entre a essência instrumental das coisas e a essência existencial do homem. A “objetividade” das coisas, além de se revelar insuficiente como referência para uma análise do ser do homem, revela-se apenas parcialmente satisfatória, também, no que tange ao ser das coisas diferentes do homem. Antes das coisas manifestarem-se como simples-presença (objeto), ou seja, antes de sua manifestação “em-si” – estão em relação com o homem enquanto instrumento. O ser das 177 coisas, portanto, está fundamental e constitutivamente em relação com o “ser-projeto” do Dasein. Esse é um ganho importante à recolocação do problema do ser (Silva, 2008b). Além da relação entre o homem e a sociedade de consumo, José menciona o comportamento de pessoas que pensam em cometer suicídio e cita um caso que conheceu. Quando uma pessoa que pensa em se matar e está aparentemente muito alegre, saindo muito do nada... pode ficar atento, ela não está bem. Elas saem para andar na cidade como se fossem ficar boas, mas é só para calar uma tristeza que não vai passar. Agora na virada de ano, o rapaz se matou aqui em Caicó. Ele tinha passado a noite na festa de virada de ano, chegou em casa e se matou. Ele morava no meu bairro. Essa mesma percepção Maria relatou em sua entrevista, afirmando que as pessoas saem para andar, passear e ir às festas. No caso de Maria, ela ainda mencionou uma aparente melhora súbita antes da tentativa de suicídio, a fim de que as pessoas se afastem pensando estar tudo bem. José também relata que, para ele, divulgar os casos de suicídio estimulam novos casos. E ainda fala da tentativa como um momento de fraqueza. Aqui quando se divulga um caso, logo depois acontece outro. Eu sugeriria não divulgar não. Porque a pessoa quando está mal, a tendência dele é querer morrer. E qualquer pessoa pode ter um dia desses de tristeza. É um momento de fraqueza. São pessoas fracas. No meu caso, eu não soube de ninguém, mas eu não divulgaria. No meu caso foi solidão mesmo e a forma como eu vivia. Então você imagine o que passa em nossas cabeças se soubermos de um caso desse se você já não tá bem. Fraqueza, solidão, tristeza e morrer são palavras que saltam aos meus olhos ao transcrever sua fala. Pois, todos somos fracos, vivemos a solidão como parte de nossa existência, sentimos tristeza e morreremos. Todos esses aspectos observados a partir da 178 analítica da existência nos permitem uma visão diferenciada do ser humano. Para pensar o suicídio sob esta ótica é preciso adentrar o humano em sua existência, naquilo que ele é constitutivamente. É pensar que esse homem é inseparável dessas condições, pois todas elas são existenciais e o homem contemporâneo insiste em afastar-se daquilo que é. Por fim, José encerra a sua fala evidenciando mais uma vez aquilo que para ele é mais valioso, sua família. A tão sonhada família, projeto do José adolescente. A felicidade vem do apoio da família. Hoje as famílias não estão bem, e as pessoas não ficam bem. Faltava para mim carinho em casa. Eu queria uma pessoa para estar do meu lado. A solidão é triste. Minha família não gostava de mim porque eu era muito rebelde. Hoje sou feliz porque tenho minha família comigo. Não penso mais em morrer. 179 6.4. As narrativas de Francisco Dois conhecidos meus relataram-me que conheciam Francisco e que ele poderia colaborar com a pesquisa. Entrei em contato com ele por telefone, expliquei o motivo do contato e ele se dispôs a colaborar. Falou ao telefone que já estava acostumado a dar o depoimento dele em vários lugares como nas ações do Setembro Amarelo, porque acreditava ser importante para as pessoas que pensam em suicídio escutar alguém que tentou. Quando fui combinar o local de nosso encontro, Francisco disse-me que não gostaria que fosse em sua casa, porque a família dele não teria condições de escutar o que ele teria a dizer. Mesmo não estando entre as possibilidades que eu dei, ele me pediu que nos encontrássemos na casa dos meus parentes, afirmando que os conhecia e que se sentiria à vontade. Tal escolha já foi mencionada anteriormente e apesar de me deixar um pouco inquieta a princípio, não interferiu na escuta. Francisco chegou à casa de meus parentes, dessa vez era eu quem esperava um colaborador para uma entrevista e apesar de não ser a minha casa, segui a tradicional acolhida dos caicoenses. Francisco foi acolhido com muita comida à mesa, preparada pelos meus familiares. Adentrou a casa cumprimentando-nos, muito expressivo e comunicativo. Parecia estar em sua própria casa, ou melhor, deveria sentir-se até melhor do que em sua própria casa visto a alegria expressa em sua face. Ofereci-lhe comida, água, um suco. Ele prontamente aceitou e ficou a conversar conosco sobre assuntos da cidade e da sua vida. Seguimos para o escritório para termos privacidade em nossa conversa. Francisco não demonstrou importar-se com o gravador. Afirmou que não tem dificuldade em falar sobre o 180 ocorrido. Pedi que me falasse sobre a sua experiência da tentativa de suicídio. Ele começou a relatar dizendo: Bem, eu tenho 34 anos, então minha primeira experiência eu tinha 14 anos. Foi assim que eu entrei na igreja e tive uma experiência com Deus e escutava falar da homossexualidade. Até os 14 anos eu não entendia que eu era homossexual, que eu gostava de homens. Eu não entendia nem a palavra atração. Aos 14 anos me despertei para ser homossexual e ao mesmo tempo foi a minha primeira experiência com Deus. E quem estava pregando ali me apresentou Deus de uma forma muito ditando o que eu deveria ser. Por eu não entender o que se passava em mim, eu tomei todos os medicamentos da minha avó e depois vomitei todos eles, nem precisei ir ao hospital. Eu queria morrer, minha intenção era morrer. Eu queria morrer porque eu não aceitava quem eu era. Eu tinha descoberto que eu tinha atração por homens e eu tinha experiências homossexuais, mas eu só entendi naquele momento que era errado. Eu entendi que eu não ia mudar e aquilo para mim era insuportável. Só contei para uma amiga da igreja. Para a família eu só disse com 21 anos. Eu só escutei a palavra homossexual aos 14 anos e até então não tinha consciência do que era pecado. Francisco, aos 14 anos, é apresentado ao grande conflito de sua vida que se perpetuaria ainda por muitos anos: ser homossexual e viver uma experiência religiosa. A relação com Deus foi apresentada a ele condicionada a modos de ser; ser homossexual não aparecia como possibilidade no campo da religiosidade. Assim, ao mesmo tempo em que se descobria homossexual, inquietava-se por acreditar ser incompatível com um relacionamento com Deus, pois seria um pecado. Ao escutá-lo eu ia tendo a compreensão de que, na época, para Francisco só existiam duas possibilidades: ser homossexual e viver sua religião ou não viver. A primeira opção foi apresentada para ele como incompatível, desse modo, ele escolheu pôr fim a própria vida. 181 Perguntei a ele quem o levou a essa experiência na igreja, para saber se teria sido algo imposto ou escolha dele. Foi depois da primeira Eucaristia.Em seguida eu fui para um grupo mariano e depois para um outro movimento católico. Nesse último eu entrei no conflito de agradar e desagradar a Deus. Esse conflito de ser ou não de Deus me motivava a perceber que eu não ia mudar. E a única saída para mim era morrer. Na minha cabeça a morte era o fim para as minhas preocupações e as pessoas não iam mais olhar para mim pensando o que eu era ou fazia. Embora na igreja eu tenha encontrado boas pessoas que me diziam Deus te ama e te aceita como você é. E outras que me diziam: fique em paz com Deus. Mas, dentro de mim a saída que mais brilhava era a morte, era o suicídio. Francisco fez questão de me dizer algumas vezes ao longo da entrevista que percebia algumas pessoas buscando acolhê-lo na igreja, mas para ele esse acolhimento não era o suficiente diante da problemática que vivenciava dentro de si. Ele também evidencia que seu desejo era realmente morrer por não conseguir lidar com tal questão. O suicídio significava que tinha vencido o diabo, digamos assim. Eu rezava uma oração de São Domingos Sávio que dizia: antes morrer do que pecar! E aí eu dizia para mim: eu morro, mas não pratico a homossexualidade. Só que eu não tinha consciência de que tirar a própria vida também não agradava a Deus, muito mais do que ser homossexual. Eu nunca levantei bandeira: sou gay! Mas a minha sexualidade foi quem me levou para o suicídio. Primeiro por não aceitar, depois por outros motivos. Considero a entrevista com Francisco de grande riqueza, por ter me permitido adentrar na tentativa de suicídio de uma pessoa homossexual em cultura de tanta religiosidade, sendo eu também uma pessoa religiosa. Para Francisco, a religião apareceu como fator limitante de 182 possibilidades. Assim, Francisco habita um não lugar, desalojado de si na ambivalência que a religião é para ele e de quem ele mesmo é, além do desalojamento pelo desejo de aceitação dele por sua família. Assim, Francisco segue diante da indagação de onde é a sua morada. De acordo com Mott (1996), é difícil para um adolescente assumir-se homossexual devido à rejeição e à discriminação existentes no meio social e na família. Por isso, muitos homossexuais não se expõem e se isolam, tentando se defender da violência. As questões da identidade homossexual têm sido consideradas em alguns estudos como um fator de risco que podem explicar as taxas de suicídio entre adolescentes homossexuais, superiores às taxas de suicídio de jovens não homossexuais (Pereira, Leal & Maroco, 2009). Um dos motivos é a tensão social que varia de uma atitude negativa generalizada à rejeição de família e amigos (Rodrigues, 2010). E no caso de Francisco, significava a rejeição do próprio Deus e de si mesmo. De acordo com Silva (2016), uma série de vulnerabilidades são vivenciadas socialmente pelos homossexuais, podendo causar doenças emocionais como depressão e risco de suicídio, entre outros tipos de sofrimento. O autor problematiza em seu estudo o papel ocupado pela religiosidade na vida das pessoas, ora sendo geradora de saúde, ora como agente desencadeador de sofrimento emocional. Afirma que a homossexualidade, mesmo em contexto laico, passa a ser tema que produz sentidos para o próprio movimento da religião na modernidade. Ainda sobre esse aspecto da homossexualidade e religião, Francisco vai nos trazer um momento importante de descoberta para ele que foi um divisor de águas. Em 2004 eu descobri, conversando com um padre, que minha primeira experiência com o sexo foi aos meus 6 anos, com o meu padrasto. Procurei o padre para me confessar e quando contei minha história para ele, afirmando que meu padrasto me colocava para tocar o pênis 183 dele, o padre me disse: ‘ele abusou você’! Na minha cabeça eu não entendia que aquilo era abuso e foi um choque para mim. Acho que eu era ingênuo demais e não entedia as coisas. Quando o padre me explicou que existiam vários tipos de abuso e que eu tinha sido abusado, eu fiquei desnorteado. Então, com 19 anos eu descobri que eu tinha sido abusado e aquilo ali me gerou uma revolta interior que me fez sair da igreja. Foi uma revolução interior. Foi como um grito que despertou o desejo de voltar a tocar o outro. Me distanciei da igreja e disse: agora vou viver quem eu sou. Eu pensei que a igreja não era meu lugar. Eu me senti bobo e envergonhado porque aquele padre sabia uma coisa da minha vida que eu não tinha entendido. Saber que o padre tinha compreendido algo tão importante de sua vida que ele mesmo não compreendia, fez Francisco sentir vergonha. O apontamento do padre parece ter aberto para ele novas possibilidades que antes não existiam. O tom de Francisco ao me contar esse fato era de raiva, como se tal revelação de alguma forma tivesse roubado sua inocência diante da vida. Ele relata que antes era como se uma venda fechasse os seus olhos, sua compreensão sobre a própria vida. O abuso sofrido significava que alguém já o havia maculado, e assim o lançava para um mundo que antes ele via como distante e de pecado; tal mundo passou a não ser mais distante e sim próximo e desejoso em ser vivenciado. Contudo, Francisco segue esse novo caminho carregando a culpa como sua companheira e não sabendo lidar com a mesma, o que o conduziu por caminhos de autodestruição. A culpa pelo abuso que sofreu estava ligada à inocência diante da aproximação do padrasto. Compreendi que ele acreditava ser dele a responsabilidade de não ter percebido as atitudes do padrasto como nocivas e que era muito difícil ter que conviver com o fato de, mesmo sendo criança na época, não ter enfrentado esse padrasto. Após essa descoberta, ele relata que começou a enfrentar o padrasto dentro de casa, causando muitas brigas entre sua família, muito embora só tenha relatado o ocorrido anos depois. 184 Quando Francisco falava sobre a sua culpa, eu ia recordando-me de quando Heidegger analisa o sentido factual da culpa com o objetivo de alcançar a possibilidade existencial do débito. Neste sentido, ele examina as interpretações corriqueiras de ser ou estar em débito com outrem: devemos-lhe algo, ou mesmo sentimo-nos responsáveis por causarmos, ocasionarmos algum dano ao outro. Em tais interpretações: dever algo ou ser responsável por, revela-se como culpa. Daí o conceito formal de débito soa como: “ser-fundamento da falta no Dasein de um outro, de tal maneira que esse próprio ser-fundamento determina-se como ‘faltoso’ a partir de seu para quê” (Heidegger, 1927/2012, p. 69). Tratando-se de Francisco, é como se ele estivesse em débito consigo mesmo pelo fato de não ter percebido e revidado o abuso sofrido. É o clamor da consciência que nos recorda de que somos devedores, estamos em dívida, e evoca-nos a culpa. Para Heidegger o Dasein é, antes de tudo, culpado. Ele está sempre em falta. Essa culpa, porém, é totalmente estranha ao conceito teológico de pecado. Trata-se de uma culpa ou um débito ontológico. Quer dizer, a culpa vulgar pertence ao âmbito das ocupações factuais do Dasein em seu ser-com-os-outros (Silva, 2010b). Diante desse contexto de culpabilização, Francisco relata o que considerou ser a sua segunda tentativa: Eu procurei morrer a segunda vez aos 19 anos. Não sei bem se foi uma tentativa, mas eu acho que foi. Eu saí de madrugada de casa, andando pelas ruas de Caicó. Eu pensava que se eu provocasse alguém na rua e essa pessoa me matasse, tudo seria resolvido. Eu saia de casa de 00h, 01h da manhã e ficava procurando alguém que pudesse se relacionar comigo, mas ao mesmo tempo eu procurava uma oportunidade de que alguém me matasse. Nesse momento de sua fala fiquei a pensar que Francisco procurava alguém para se relacionar, como se quisesse acabar com a solidão, mas ao mesmo tempo em que procurava esse alguém, procurava a morte, como se ter um homem ao seu lado significasse morrer de algum modo. Aparecia para ele como o suicídio,porque atrair alguém a essa hora da noite em 185 um contato homossexual, significava colocar-se em risco. Foi um modo de viver a sexualidade de forma destrutiva, de se penalizar, se castigar. Antes, a religião era incompatível com a homossexualidade e agora, a homossexualidade e a morte eram inseparáveis. Eu queria achar na rua alguém para me relacionar, mas ao mesmo tempo eu queria que aquela pessoa me matasse. Sempre ouvia dizer de alguém que morria nessa região durante as madrugadas. Era uma carência tão grande que eu me perdia no que eu sentia. Eu era tão inconstante que eu nem me conhecia. Francisco relatou que era comum para ele ouvir casos de pessoas que morriam de madrugada pelas ruas de Caicó. As mortes ocorriam por brigas em bares, acertos de contas ou mesmo homofobia. Segundo ele, sair de casa nesse horário significava poder relacionar-se com outros homens e ao mesmo tempo encontrar alguém que o machucasse e o matasse, acabando assim com a sua dor. Uma vez eu apanhei na rua. Eu cheguei para um homem e me ofereci para ele, sendo que ele era um homem totalmente avesso. Ele me deu um chute no rosto com muita força. Quando eu levei esse chute, eu não me movi, porque eu vi aquilo como uma oportunidade. Parecia que eu precisava sentir alguma dor. Era uma forma de eu me punir. Porque eu ainda não aceitava ser gay. Embora eu buscasse aquele prazer, no fundo eu não queria, porque eu queria mais Deus. E eu não entedia que eu podia ter os dois. Eu não entendia que eu podia me formar, ter uma profissão, uma vida. Para Francisco, só existia um modo de ser homossexual: não se relacionando com Deus, tendo uma vida considerada moralmente promíscua e sem metas para o futuro. Escutar Francisco relatar que procurava alguém que o machucasse e que apanhou nas ruas de Caicó só me fazia compreender que sua dor era insuportável demais e que seu corpo precisava senti-la. 186 Fez-me pensar nos castigos e padecimentos corporais que os fiéis religiosos viviam, principalmente na Idade Média, como que castigando o próprio corpo quando cometiam pecados. Ainda indaguei Francisco sobre essa minha percepção e prontamente ele confirmou o meu pensamento ao afirmar que “era sim como se eu precisasse padecer pelo fato de ser gay, como padecesse por causa de um pecado”. Após esse acontecimento, ele relatou que voltou a participar de grupos da igreja novamente. Depois aconteceu que eu comecei a ter uma nova experiência com Deus. Foi quando eu comecei a falar com meus amigos da igreja sobre o fato de eu ser gay. Passei 2 anos bem tranquilos, porque eu percebi que eu poderia ser homossexual, aceitar isso, mas sem ter que praticar a homossexualidade. Ali eu comecei a buscar viver a castidade, a abstinência. Eu comecei a rezar mais, fiquei à frente de grupos de oração, viver melhor minha fé. Eu não sentia mais vontade de morrer, eu nem lembrava mais do suicídio. Francisco relata esse período de “abstinência” sexual como algo momentaneamente bom para ele. Era como se tivesse dado um passo na aceitação de quem era ao afirmar para os amigos e para a igreja que ele era homossexual, contudo, essa aceitação estava para ele condicionada ao fato de não se envolver sexualmente com nenhum homem. Para ele, manter-se perto de Deus passou a significar não esconder a sua sexualidade, mas também a não praticar. Um novo dilema apareceu para ele: será possível não ter relações com homens? Por quanto tempo ele conseguiria sustentar essa escolha? Nesse sentido, ele afirmou que essa “tranquilidade” durou apenas dois anos, pois apaixonou-se por um rapaz que namorou por um tempo e cujo rompimento o fez retornar aos pensamentos de morte. 187 A terceira vez que tentei suicídio foi quando eu namorei. Eu tinha 22 anos. Nesse momento eu contei para a minha família. Meu namorado foi me deixar em casa e eu disse que ele era meu namorado. Eu gostava tanto dele que tive coragem de contar para minha família. E minha mãe disse: pois a partir desse momento você fique sabendo que você não tem mais mãe. Só que quando passava na tv esses pais que aceitavam filhos que eram gays, minha mãe dizia que aquilo era besteira e que aceitaria tranquilamente. Mas quando foi com ela, foi totalmente diferente. Além de enfrentar os conflitos que envolvem religiosidade e homossexualidade, Francisco teve que enfrentar os conflitos sociais, mais especificamente os conflitos familiares. Minha mãe tinha mais preocupação com o que a família iria pensar do que com o que ela mesma pensava. Ela não queria ter que ouvir o que o povo tinha a falar. As pessoas da cidade iam dizer que ela tinha um filho homossexual. E quando ela me disse que não era mais a minha mãe, acho que ela acreditava que aquilo me faria voltar atrás. Sobre esse aspecto, Santos (2004) vai nos dizer que por volta dos treze anos, quando os adolescentes já compreendem sua afetividade e sexualidade, as pessoas homossexuais já começam a ser rejeitadas por seus familiares e grupos de amigos, através da desqualificação moral e física sofrida por eles. Muitos movidos pela dificuldade em lidar com esses conflitos, escondem ou negam os seus desejos. Dar-se conta que casar e constituir uma família poderá não acontecer e que será necessário renunciar a um projeto de vida longamente preparado, é um processo extremamente lento e doloroso. Trata-se de uma perda importante (Castañeda, 2007). Francisco ainda relata que após ter sofrido toda a rejeição por parte da mãe, precisou encarar o rompimento do seu relacionamento. 188 Foi uma decepção para mim... Assim que eu assumi o namoro, ele acabou o relacionamento. E foi nesse momento que eu tentei a terceira vez o suicídio. Essa terceira tentativa, não foi por causa da família, foi pelo fim do relacionamento. Eu pensava: eu assumi que era gay por causa dele, porque ele quis. A mãe dele me acolhia, eu queria que com minha família também fosse desse jeito. Eu injetei uma seringa com uma substância na minha barriga. Era um líquido para tratamento estético que poderia causar intoxicação, pois tinha ácido, era para tratamento de pele. Eu pensava que pela intoxicação eu não iria sobreviver. Até hoje eu tenho na barriga um caroço que de vez em quando cria uma massa e eu espremo. Já procurei tratamento, mas me disseram que não tem cura. Eu sinto muita dor até hoje. Eu acho que eu já fiz tanta coisa comigo que eu não vou mais precisar me matar, vai ter alguma consequência, já deve estar tendo alguma consequência que vai me fazer morrer. No dia seguinte eu senti muita dor, os médicos passaram exames, mas eu não disse que tinha sido uma tentativa. Você é a terceira pessoa que está sabendo, o médico, o padre e você. Fiz questão de deixar a fala acima sem recortes, pois foi um momento da entrevista que eu apenas silenciava para escutá-lo. Francisco seguia seu relato com toda fluidez e sinceridade, em uma narrativa que me fazia adentrar significativamente em seu mundo, em sua dor e em suas lutas. Nesse momento, eu só pensava na dor do existir e na inospitalidade do mundo. Francisco quer morrer! Sim, Francisco continua a pensar sempre na morte. Ele sofre as consequências das tentativas, sejam elas psicológicas ou mesmo físicas. O mesmo corpo caído no chão das ruas de Caicó narrado na segunda tentativa, é o mesmo que hoje colhe os efeitos da terceira tentativa. Já que o suicídio não é “permitido”, Francisco vai encontrando outros modos de morrer. Aqui faço uma breve reflexão problemática, pois envolve aspectos éticos, morais e religiosos. Ouvir pessoas que tentaram suicídio e que sofrem pelo simples fato de ter que existir, 189 me fez pensar sobre o processo de escolha. Em meio a esse processo que sempre será para mim de aprendizado, deparei-me com a leitura do ensaio teórico de Morh (2018) no qual ele nos questiona: Por que, diabos, não podemos nos suicidar? O autorvai nos trazer que a primeira resposta que encontramos para tal indagação é: “Por que é um pecado” (Morh, 2018, p 36). E é a primeira argumentação, não por convicções religiosas, mas porque dentre as considerações filosóficas ela foi, desde sempre, a inauguradora. É Sócrates que no derradeiro momento de sua vida convoca a heresia como adjetivo para o suicídio. Não por acreditar piamente nos deuses (pergunta sempre colocável), mas por entender que nós, seres imperfeitos, porque humanos, não somos donos de nossa vida (Morh, 2018). Para o autor, a vida é um momento na história do universo onde um conjunto de matéria se iludiu ser, tendo como consequência um sofrimento gigantesco pelo reconhecimento de sua finitude e que calcula, a cada passo, se esse sofrimento que nomeamos vida vale a pena ser vivenciado (Morh, 2018). “Insistimos em viver apesar do sofrimento de nossas existências individuais, até mesmo porque nós somos resistentes, somos seres de catástrofe. A dor, o sofrimento, o vazio, isso tudo nos move” (Morh, 2018, p 36). Nesse sentido, me reporto a Heidegger e o ser-para-a-morte que nos inspira a pensar o suicídio como uma negação à carga do ser já explanados anteriormente. De forma alguma há em meu discurso uma espécie de “apologia ao suicídio”, visto que isso jamais corresponderia ao meu modo de compreender a existência enquanto profissional e pesquisadora. Há, contudo, a necessidade de se refletir com mais profundidade que carregar ou não carregar a carga de existir é algo complexo e as opiniões sobre essa questão costumam estar enviesadas por valores éticos e morais aprendidos. 190 Sobre a questão amorosa, além da narrativa de Francisco, ela também aparece nas falas de Maria e de José. Amélia, por sua vez, já anunciava as dificuldades encontradas pelos homossexuais e m serem aceitos socialmente, quando falava das causas para o suicídio na cidade. Ainda sobre o período do relacionamento, Francisco também vai nos dizer que o namoro foi um momento em que ele se afastou da igreja e explica os motivos: Nessa época do namoro foi a época que eu mais me afastei da igreja. Foi nesse momento que eu senti mais vontade de ficar longe da igreja, porque eu achava que a igreja era o que mais me prejudicava. Porque dentro da igreja eu conhecia pessoas que tinham a mesma realidade homossexual que eu. Eu achava que a igreja exagerava nas pregações. Eu pensava que eu não precisava mudar. Eu não precisava sair de Deus para viver minha homossexualidade. Mas, mesmo sacerdotes e mesmo bispos me acolhendo como eu era, conversando comigo, aquilo era incoerente na minha cabeça. Era como água e azeite para mim. Ou era 100% de Deus, ou 100% homossexual. Na época eu parei de cantar na igreja porque para mim eu seria incoerente. Então, decidi só ser homossexual sem ser da igreja. Francisco continuava a pensar ser incompatível uma vida na igreja com a homossexualidade, mesmo relatando ter encontrado acolhimento de padres e bispos. Escolhe, nesse momento, viver a sua sexualidade e deixar a religiosidade de lado. Fiquei dois anos afastado da igreja, coloquei pince, comecei a ir para lugares só para gays em Caicó. Nesses lugares eu saía e beijava à vontade. Eu me sentia livre porque eu estava em lugares com pessoas como eu. Mas essa felicidade não durou muito tempo não. Logo depois eu tive meu primeiro emprego numa lanchonete. As pessoas vinham e me paqueravam. Trabalhei em outro lugar e me apaixonei por um colega de trabalho, uma paixão platônica e eu ficava chorando por essa pessoa. Mas ele era noivo e faleceu de uma doença rara. Aí fiquei 191 desempregado. Tinha uma afetividade de altos e baixos. Não estava bem e decidi voltar para a igreja. Ainda sobre esse retorno, ele relata: Voltei para a igreja e tive que falar de tudo o que eu tinha vivido como homossexual. E me mandaram fazer coisas de homem como futebol, jogar bola, porque eu era muito delicado. Na época eu trabalhava num salão limpando o salão e lavando cabelo. Eu estava construindo uma profissão. E essa pessoa da igreja me pediu para eu sair desse emprego. E eu fiz o que ele pediu. Tudo o que me mandavam fazer eu fazia. Com 3 meses sem conseguir trabalhar, eu saí da igreja novamente. E consegui um emprego em uma escola. Esse período da escola foi muito bom, porque eu achava muito bom ter um salário. É muito interessante o quanto Francisco não consegue desvincular-se de sua religião. Entre idas e vindas, ele vai revelando como uma necessidade em se manter na igreja. Perguntei o porquê dessa procura e desses retornos, já que encontrava tantos conflitos nessa vivência. Ele me afirma que na igreja teve uma experiência forte com Deus e que essa experiência movia o seu retorno, bem como não sabia mais o que era viver longe. É como se não encontrasse outro modo de ser; e aqui penso nas possibilidades de ser do Dasein. Francisco não consegue, em seu campo de possibilidades, encontrar outro modo de ser que aconteça longe da igreja, e quando assim o faz, logo essa possibilidade torna-se limitada. Fico a pensar o que o move ainda hoje a procurar a igreja. Talvez seja a lembrança da experiência que teve com a fé ainda na adolescência, pois parece-me que para ele, aquele foi um dos poucos momentos de tranquilidade em sua vida, em que ele se sentiu feliz. Sobre a quarta tentativa de suicídio, ele diz: 192 A quarta tentativa foi com remédio, há três anos. Eu não tinha voltado para a igreja ainda. Final de 2016 eu voltei para a igreja. Passei a coordenar um grupo de oração com mais de 100 pessoas. Comecei também a fazer faculdade. Tive um problema de vista sério, a retina estava rasgando. Eu precisava usar 2 óculos de 11 graus (o de grau e o de sol), que me custariam 4 mil reais. Minha bolsa da universidade na época era de 400 reais. Assim, eu fiz uma campanha nas redes sociais para conseguir os óculos. A quarta tentativa não foi por homossexualidade! Fiz a campanha e só apurei 700 reais. A dona de uma loja me presentou com os óculos! E as pessoas começaram a espalhar que eu ganhei os óculos e estava luxando com o dinheiro que eu tinha conseguido, mas eu tinha tentado devolver o dinheiro e o povo não quis. E eu não consegui lidar com o que as pessoas estavam falando. Eu não sabia como provar que eu fui devolver o dinheiro e que as pessoas não quiseram de volta. Eu não consegui lidar com as pessoas. Eu tomei 50 comprimidos de Rivotril. Eu já vivia melhor a minha sexualidade na faculdade e na igreja. Mas eu não sabia lidar com a sociedade. Fiquei inconsciente por 2 dias. Quem me socorreu foi a dona da ótica. Ela estava falando comigo no telefone e percebeu que eu estava com a fala estranha. Eu tomei querendo morrer. Mandei um áudio para ela dizendo que era melhor eu morrer mesmo. Ela foi lá em casa e eu já estava inconsciente. Ninguém na minha casa percebeu. Ela abriu a porta do meu quarto e explicou para minha mãe que eu não estava bem. Mais uma vez aparece o social em sua fala, enquanto essa falta de contato com a própria experiência de ser, a impessoalidade, a necessidade de ser-com-o-outro; aparecem como disparador do suicídio. E mais uma vez esse social está vinculado aos julgamentos que atravessam a vida dos colaboradores. Francisco vê-se julgado e não sabe lidar com o que as pessoas estão falando e pensando sobre ele. Percebi que um dos agravantes foi a questão virtual, tendo em vista a repercussão das acusações. Outro aspecto que me chamou a atenção foi o fato 193 de nas tentativas, Francisco não mencionar nada para a família. Percebi-o em um total desamparo. E ao mesmo tempo em que ele é ajudado pelas pessoas a conseguir os óculos, ele também é acusado de enganar as mesmas. Tal sofrimento vivenciado por Francisco me faz recordar a teoria da vulnerabilidade existencial de Fuchs (2018) que nos auxilia na compreensão do sofrimento psíquico ao qual estávulnerável toda pessoa, mas que é vivenciado de maneiras diferentes. O autor nos explica que existem situações-limite aparentemente sutis, mas que podem causar grandes danos às pessoas com predisposições para virem a ser mentalmente enfermas e que carregam consigo uma “vulnerabilidade existencial”. Essas pessoas teriam uma sensibilidade ou disposição que lhes permite experimentar eventos aparentemente insignificantes como situações-limite (Fuchs, 2018). Trata-se de uma sensibilidade particular para conflitos e contradições fundamentais da existência humana que os torna suscetíveis para determinadas situações, nas quais essas contradições se tornam inevitáveis e levam à descompensação, e, por fim, ao adoecimento. Em tais situações, uma condição existencial básica, que é mantida velada em outros casos, torna- se, para eles, inegável. A confrontação com as situações básicas da existência é insuportável para aqueles afetados e leva à manifestação de enfermidades mentais caso a situação não seja superada por outros meios (Fuchs, 2018). Entretanto, a vulnerabilidade não carece ser compreendida, de maneira alguma, só como uma variável objetiva (genética, constitutiva, ou fisiológica) da personalidade; antes, ela também é subjetivamente experimentada como uma incerteza e uma confusão fundacional, “ontológica”. Então, pessoas existencialmente vulneráveis arraigam-se em uma habitação de estratégias de defesa, de precauções e de salvaguardas a fim de escapar da confrontação com situações-limite juntamente com as suas implicações ontológicas (o isolamento, a culpa, a 194 finitude e a morte). Infelizmente, os muros da habitação são estreitos: os pacientes permanecem hipersensitivos ou vulneráveis com relação às implicações existenciais de determinadas situações de vida durante as quais, por assim dizer, rupturas na habitação são abertas e atrás das quais os fatos básicos da existência são reconhecíveis (Fuchs, 2018). Penso ser possível refletir sobre Francisco e tais aspectos de vulnerabilidade, tendo em vista o fato narrado que o levou a novamente pensar no suicídio, bem como as outras situações- limite que aparecem como disparadoras da ideação suicida. Dando continuidade à nossa conversa, eu perguntei sobre sua família e porque nunca havia comentado sobre as tentativas com nenhum deles. Ele me respondeu: Porque eu acho que eles nunca se importaram com o que eu pensava ou sentia. Eles nunca tiveram esse interesse de serem próximos a mim. Me trataram de uma forma que eles consideravam desnecessário tocar no assunto. Minha mãe uma vez me disse que ela não sabia nem o que me dizer. Disse que sofria calada porque não entendia porque eu não queria viver. Ela ficava dizendo que não entendia já que eu era amado, todo mundo gostava de mim, que eu era elogiado em tudo o que fazia. Sobre as consequências dessa tentativa de suicídio, Francisco ainda me diz: Eu perdi a memória dos 2 dias, fiquei com tremor, com dificuldade em memorizar, com pressão alta. Muitas coisas da minha saúde são consequências. Quando vi que tinha sobrevivido mais uma vez à tentativa de suicídio, eu perguntei para Deus o que Ele queria e porque era tão difícil morrer. E foi quando eu comecei a planejar que eu faria algo mais forte da próxima vez. Apesar de continuar seguindo suas atividades de rotina após a tentativa, Francisco segue com uma certeza de que aquela não seria a última vez e segue com as cicatrizes da existência 195 no corpo. Relata que conseguiu concluir a faculdade com muita ajuda dos professores, colegas e gestão. E após concluir a graduação, a sombra do abuso que sofrera voltou a atormentar seus pensamentos. A quinta tentativa foi quando eu tinha terminado de me formar, mas eu já tinha falado para a diretora do Campus sobre o abuso. Escrevendo a monografia eu pensei em dizer a minha família que eu tinha sofrido abuso. A assistente social disse que me apoiaria se eu quisesse contar. Aí teve um dia que eu não aguentava mais. Em 2018, eu tinha pensado em contar, mas eu não conseguia contar. Aí tomei 10 rivotril e fiquei muito sonolento. Sofri uma queda no banheiro e caí por cima da pia e cortei as minhas costas. Tenho uma cicatriz enorme até hoje. Quando eu acordei, depois de uma dia, senti uma forte dor nas costas e quando eu olhei no espelho tinha uma ferida horrível nas minhas costas. Eu perguntei o que tinha acontecido e minha mãe disse: você tentou suicídio de novo. Você estava tentando se enforcar! Mas eu não lembro de nada do que eu fiz. Eu caí antes de colocar a corda no pescoço. Meu irmão arrombou a porta do quarto. Meu irmão disse que eu ficava falando que eu queria me enforcar. No outro dia minha tia chegou lá em casa e disse que eu tinha escrito na parede do meu quarto: EU FUI ABUSADO QUANDO ERA CRIANÇA PELO MEU PADRASTO! Eles disseram que eu só chorava e apontava para a parede. Francisco acaba revelando o abuso que sofreu da pior forma possível, em meio a uma tentativa de suicídio. Compreendi que de alguma forma ele vinculava tudo o que estava vivendo de sofrimento, no que concerne à homossexualidade, ao abuso que sofreu e em um momento de desespero coloca para fora o ocorrido, escrevendo na parede. Compreendi que ele escreveu porque não conseguiria falar em palavras. Tentou o enforcamento, porque como ele mesmo havia dito, da próxima vez tentaria de uma maneira mais forte. A partir daquele momento a 196 família toda, nuclear e extensa, tomou consciência do ocorrido, mas não acreditaram nele. Eu o vi novamente desamparado. Ninguém acreditou. A minha tia que me dizia que me amava tanto levou meu padrasto para a casa dela. Eu fiquei com ódio dela. Fiquei com muita raiva da minha mãe porque ela disse que ia continuar com ele, porque eu não tinha como sustentar ela. Meus avós não entendiam o que era aquilo. Meus tios diziam que eu estava desequilibrado e querendo culpar alguém. Nesse momento eu me fechei e vim morar em Natal com a família do meu pai, mas não fui acolhido. Voltei para Caicó e passava o tempo todo trancado dentro do quarto. Ficou muito esquisito. Eu tive muito apoio de fora, mas não de dentro. Francisco deparou-se mais uma vez com a rejeição e não acreditaram no que ele havia revelado, taxando-o de desequilibrado. Acredito que Francisco esperava que sua família ficasse ao seu lado, colocando o padrasto para longe dele como poderia ter acontecido na infância, mas o que se seguiu foi justamente o contrário. Desse modo, não havia mais lugar para ele em sua casa. Em seu sentimento de abandono, ele procura morar com o pai em Natal, mas ali também não encontra lugar para ser. Retorna para Caicó e o quarto aparece-me como uma prisão ou um esconderijo. Assim, na primeira oportunidade, Francisco sai de casa em busca de um lugar em que pudesse existir livremente. Seis meses depois consegui um bom emprego e saí de casa, com o auxílio dos meus amigos. Era tão bom ter o meu lugar. Eu tinha minhas coisas, meu espaço, me sentia muito livre na casa que era minha. Pessoas boas e amigas me ajudaram a montar a minha casa. Cada um me dava uma coisa. Um me deu os pratos, outros as panelas. Era bem simples, mas eu me sentia muito bem. Mas minha mãe adoeceu e eu tive que voltar para cuidar dela e de minha avó. 197 Francisco procura um lugar no qual possa habitar em autenticidade. E mesmo que a casa que ele mobiliou com a ajuda dos amigos seja apenas uma forma de familiaridade, um “sentir- se em casa” como modo de encobrimento da condição inescapável e originário do homem de “não sentir-se em casa”; esse parece ter sido um dos poucos momentos de tranquilidade. Conforme nos afirma Saramago (2011), o ser-no-mundo existe e se determina como aquele que habita, que pertence. O habitar assume, neste momento, um sentido primordialmente temporal, de deter-se junto ou de acostumar-se a algo, ou ainda um sentido de cultivar;trata-se de uma forma de proximidade que se define antes de tudo pela permanência junto aos entes em geral, permanência esta que concede ao ser-no-mundo uma espécie de amparo, uma certa familiaridade calcada no conforto do que é sempre o mesmo (Saramago, 2011). Esse sentido de cultivar do habitar descreve bem a sensação que tive quando Francisco descrevia-me com satisfação a sua casa e os detalhes dela. Contudo, esse conforto não durou muito tempo, pois a doença de sua mãe o lançou como cuidador da mesma, fazendo-o retornar para sua antiga casa. De alguma forma o relato de Francisco me angustiou, pois o via deixar de lado algo que estava fazendo-lhe tão bem para retornar à casa das pessoas que o rejeitaram. Para lidar com esse retorno, Francisco procura a religião novamente, mas agora em outra igreja. Quando eu estava pensando em tentar suicídio novamente, uma amiga minha me convidou para uma igreja evangélica e fiquei nessa igreja por 6 meses. Tive uma experiência de perdão com os meus tios. Voltei até a falar com meu padrasto. Voltei a querer viver. Comecei a experimentar o perdão. Mas não consegui continuar na igreja evangélica porque eles não aceitavam pessoas com barba e porque um dia um pastor pregou contra a homossexualidade. Eu vi que eu não precisava da religião, aí saí. 198 Observei que Francisco nega-se hoje a enquadrar-se em maneiras pré-determinadas de ser. E essa decisão é fruto de todas as experiências de vida já mencionadas. Francisco não cabe em único modo de ser, pois começa a perceber que o mundo é repleto de possibilidades, embora arrependa-se de algumas decisões do passado. Contudo, em meio a essas várias possibilidades de ser, a morte continua a saltar aos olhos. Às vezes eu penso no que não deu certo, no tempo que eu perdi, no que eu não consegui realizar. Às vezes eu penso que teria sido melhor morrer. Eu não vou dizer pra você que acabou não. Eu não consigo mais pensar numa maneira de morrer. Eu não penso nisso. Mas às vezes eu sou acometido por uma tristeza tão grande que eu não sei como resolver. Às vezes eu choro. Eu aprendi a chorar! Hoje eu choro. Hoje eu escrevo, hoje eu não fico mais calado quando me maltratam, eu sei me defender. Eu aprendi a não levar desaforo para casa. Eu me considero mais espontâneo. Não me preocupo tanto se estou agradando, eu digo o que eu penso. Hoje eu magoo, mais do que sou magoado. Francisco vai “inventando” novos modos de ser. Mas, me fala novamente sobre a morte e o lugar que ela ocupa em sua vida esse tempo. E ela ainda está ali como possibilidade próxima diante dos projetos não realizados, do sentimento que o débito traz e por não conseguir fazer novos projetos. Perguntei a Francisco se o suicídio ainda é uma possibilidade para ele. Ele me respondeu assim: Ainda existe um desejo lá dentro, sabe. Embora já façam 2 anos que eu tentei. Mas, me acho uma pessoa triste. Eu gosto de ser triste, gosto de estar só. Não gosto de estar com muita gente. Gosto de estar com poucas pessoas. Eu mudei de quarto porque eu achava que o outro quarto me traria essas lembranças. E hoje me vejo com 34 anos e sem emprego. Hoje faço velas artesanais, mas o dinheiro é muito pouco. Eu saí do emprego para cuidar da minha mãe, mas não tenho apoio financeiro de ninguém da família. Eles continuam indiferentes. Hoje eu 199 não sei mais me planejar quanto ao futuro, porque para isso eu estaria desejando a morte da minha avó. Eu sei que só vou poder viver minha vida quando ela morrer e eu não sei quando minha avó vai morrer. Estar em casa é uma frustação. Eu não tenho projetos, eu tenho sonhos. Por isso me bate uma tristeza. Ontem mandei uma mensagem para um amigo dizendo que o melhor era que eu tivesse morrido. Hoje eu vou para a igreja, a música da igreja me ajuda muito. Deus me deu o dom de cantar para eu ficar bem. Hoje eu me acalmo com músicas, eu canto muito. A diocese de Caicó pagou para mim um tempo de terapia, mas eu preciso continuar sempre e não tive dinheiro para continuar, porque aqui é muito caro. Então, eu acho que um dia eu vou acabar morrendo dessa forma ou por consequência disso. Em fevereiro eu tive um pré-infarto, tenho pressão alta, acho que a morte já deve estar perto. Na história de Francisco, a religião é protagonista, em contínuo conflito entre ser homossexual e ser religioso. Em constante débito, pela impossibilidade de cumprir o que considera os deveres de sua Igreja, aproxima-se e afasta-se da religião. Novamente aparece o tudo ou nada. Ou vive a religião sem questioná-la ou não a vive. Ele é pecado. Mas há um clamor pelo ser-mais-próprio que contradiz a religião e ele se confunde. O castigar-se surge como possibilidade na interseção da homossexualidade com a religião. Tenta fazer convergir os sentidos ao assumir-se gay, mas abster-se sexualmente. Mas, inevitavelmente, confronta-se com o seu desejo. O suicídio surge como possibilidade, mas também provoca conflito com a religião. A religião parece dar um lugar legítimo a ele no mundo. Ele hoje vive um presente sem perspectivas quanto ao futuro e o suicídio permanece como possível solução frente ao sofrimento. 200 6.5. As narrativas de Teresa Meu contato com Teresa foi indicação de um psicólogo de uma Instituição de Ensino Superior em Caicó, que divulgou a pesquisa em alguns grupos das suas redes sociais. Ao ver sua publicação, Teresa procurou-o se dispondo a colaborar e ele me passou o seu contato. Liguei para Teresa apresentando-me e ela relatou que gostaria de participar da pesquisa revelando-me, ao telefone, que se cortava constantemente com a intenção de morrer. Confesso que questões de classificação psicopatológica perpassaram meus pensamentos na hora, mas fui salva pela sabedoria da minha orientadora. Marcamos uma data para nosso encontro e novamente encarei a estrada para Caicó. O lugar escolhido para a entrevista foi a sala do psicólogo, na própria universidade, visto que a família de Teresa não sabe sobre o que se passa com ela. Cheguei ao lugar e fiquei aguardando-a, numa certa ansiedade em conhecê-la. Teresa entrou na sala, tímida, cabelos longos quase a cobrir os olhos como escondendo-se de mim e do mundo. Convidei-a a sentar- se e por perceber que ela estava bem nervosa com a minha presença, fui tentando estabelecer algum vínculo, conversando sobre outros assuntos do cotidiano. Falamos sobre seu curso de graduação, sobre seu estágio, sobre a própria universidade. Percebi, então, que ela já estava bem mais tranquila e interroguei se ela estava bem para conversarmos sobre o tema da pesquisa. Ela me confirmou que sim. Falei sobre o gravador, TCLE e termo de gravação; ela respondeu que não teria problemas com a gravação da voz e que entendia a importância. Pedi, assim, que me contasse sobre a sua experiência de ter sobrevivido à tentativa de suicídio. Ela iniciou relatando-me que se corta desde a adolescência e que sempre há uma intenção de se matar nesse ato. Fiquei novamente questionando-me se seria uma automutilação 201 e/ou um ato suicida ao mesmo tempo; percebi que nesse momento o meu pensamento estava impregnado da visão positivista, pois por um instante o meu foco teria como que saído da experiência de Teresa e voltado-se para a classificação psicopatológica do caso. Escolhi deixar de lado tal questionamento e passei novamente a focar na história de Teresa. Ela seguiu o seu relato dizendo: Acontece desde o Ensino Médio. Comecei a pensar em morrer e me cortar desde o início do ensino médio. Eu comecei a me sentir mal em relação a mim. Primeiro eu me punia cortando o meu cabelo. Eu jogava para frente e cortava muito. Meus cabelos eram bem grandes e eu cortei bem curtinho. Eu tinha 15 anos. Nessa primeira fala de Teresa percebi que havia uma relação conflituosa consigo mesma e que precisava ser vivenciada no corpo, assim como no caso de Francisco.Que havia começado com o cortar dos cabelos, mas que hoje as proporções são maiores. Tal experiência me fez retornar ao que Heidegger nos traz sobre a corporeidade. Heidegger explicita essa questão em Ser e Tempo quando faz referência à corporeidade do Dasein em algumas passagens, como, por exemplo, nos parágrafos sobre a espacialidade. Mas, esta temática é mais incisivamente desenvolvida nos Seminários de Zollikon (1959- 1969). A corporeidade é um existencial que acompanha Heidegger em Ser e Tempo, na essência da verdade, em sobre o humanismo; além de atravessar toda ontologia. Sobre esse aspecto Heidegger vai nos dizer que “O corporar co-pertence sempre ao ser- no-mundo. Ele co-determina sempre o ser-no-mundo, o ser-aberto, o ter de mundo” (Heidegger, 1927/ 2012, p. 123). Entendemos que as bases para a elucidação da corporeidade encontram-se na analítica existencial, dessa maneira, para examinarmos a corporeidade do Dasein buscamos pensá-la numa correlação com a existência, com o ser-no-mundo (Costa, 2018). 202 Como compreensão de ser, o Dasein é o único ente que se relaciona com o seu corpo como sendo seu, ou melhor, como sendo ele mesmo. Na concepção heideggeriana o “nosso” corpo (Leib), nunca é simplesmente um corpo material (Körper), é sempre o corpo de um Dasein e diz respeito a ele mesmo (Costa, 2018). O corpo é, em cada caso, meu corpo. Isto faz parte do fenômeno do corpo. O “meu” é relacionado a mim mesmo. Com “meu”, quero dizer “eu”. O corpo está no “eu” ou “eu” estou no corpo? Em todo caso o corpo (Leib) não é alguma coisa, algum corpo material (Körper), mas sim todo corpo, isto é, o corpo como corpo é o meu corpo em cada caso (Heidegger, 2001, p. 114). Ele está se referindo a ele mesmo como “eu”, enquanto Dasein que é, isto significa que o corpo se encontra implicado no seu ser, se dá como corporeidade, apresenta um caráter ontológico. Segundo Costa (2018), podemos dizer então que o corpo do Dasein é um modo de ser que copertence aos demais modos de seu ser-no-mundo, isto é, o modo da corporeidade. o termo “corporeidade”, refere-se à sua co-pertença aos modos de abertura do Dasein enquanto existência e, portanto, à sua constituição ser-no-mundo. Em Seminários de Zollikon, Heidegger coloca a seguinte questão: Onde está o meu corpo quando eu estou ‘de corpo e alma’ no tema do debate? Por outro lado, como está o tema do debate no espaço? Estou no tema, ouvindo. ‘Sou todo ouvidos’. O ouvir é, portanto, o modo do corporar, a participação do corporar na conversa. [...] Tenho, pois, justamente, de ficar sentado na cadeira corporalmente para poder ser todo ouvidos. Se estivesse correndo pela sala não poderia fazer isso ou, pelo menos, não poderia fazê-lo tão bem (Heidegger, 2001, p. 123). No caso exemplificado por Heidegger, enquanto corporeidade, é efetivamente o Dasein quem está sentado na cadeira. Não se diz, por exemplo, cotidianamente, algo como: meu corpo está sentado na cadeira. Diz-se sempre: eu estou sentado na cadeira. Dessa maneira, é preciso que o Dasein esteja sentado na cadeira para poder estar atento a uma palestra, uma aula, ou uma conversa, corporando. Por sua vez, trazendo para a realidade de Teresa, é a sua existência que em seu modo de ser corporeidade, corta os cabelos, parte de seu próprio corpo. Tal atitude 203 esclarece que Teresa encontra-se em conflito que é expresso no próprio corpo, não como coisificação do corpo, mas como parte inseparável do Dasein. Logo em seguida, quando terminou de falar sobre o cortar dos cabelos, Teresa referiu- se aos suicídios de Caicó. Percebi que ela estabeleceu uma vinculação entre cortar o cabelo e o suicídio. Ela me faz entender que aproximar-se de casos de suicídio levou-a a pensar mais na morte e a questionar o valor da própria existência. Eu cresci ouvindo histórias de pessoas que se suicidaram em Caicó, inclusive pessoas próximas a mim. Uma prima minha que cresceu comigo e uma amiga dessa mesma prima que também era conhecida minha, porque cresceu também comigo, cometeram suicídio. Essa amiga já tinha tentado outras vezes antes de conseguir. Foi a primeira vez que alguém perto de mim se matou. Teresa vivencia muito cedo a morte de duas pessoas próximas por suicídio. Percebi que tais mortes a inseriram em questionamentos sobre a vida e a morte; parecem ter aberto para ela a possibilidade de pensar também em sua finitude. Se sua prima escolheu morrer, essa também poderia ser uma opção para ela diante de seus sofrimentos cotidianos. Havia nas falas de Teresa um certo fascínio pela morte, ela me falava com um certo encantamento. Lembrei-me nesse momento de Maria que me contava os casos com tanta empolgação. Havia, contudo, uma diferença entre Maria e Teresa: Teresa não demonstrou medo de morrer. Ela retoma em suas falas o cabelo cortado: Quando eu cortei meu cabelo, eu escondi porque meu pai não me deixava cortar meu cabelo, ele gostava de meu cabelo grande. Eu deixava ele preso, mas me angustiou saber que ninguém percebeu. Aí eu disse aos meus pais. De vez em quando eu quero fazer isso novamente. Quando eu corto meu cabelo, tem um sentido diferente para mim. É como se eu finalizasse a 204 antiga pessoa que eu não aceito e desse espaço para uma nova pessoa. Eu penso que eu mudei o meu externo, então vou conseguir mudar o que eu sinto. Teresa angustiou-se porque ninguém percebeu o corte de seu cabelo, visto que era um cabelo grande e ela cortou bastante. Sentiu-se sozinha, pois seus parentes não tinham atenção para com ela. Cortar o cabelo apareceu para mim como um ritual, pois até hoje perpetua-se em sua vida. Entendi que todas as vezes que Teresa não está bem emocionalmente, ela corta o seu cabelo imaginando que os próximos dias de sua vida serão melhores. É um recomeço! Um constante recomeçar. Mudar o externo na esperança de que o interior também se modifique. Depois de cortar o cabelo, de estaquear ele... Porque eu chegava a estaquear mesmo, eu o destruía. Passou a não ser mais o suficiente para o que eu sentia. Aí eu comecei a me machucar, a me cortar. Me cortava com qualquer coisa. Até hoje ninguém nunca percebeu na minha casa. Só contei a um amigo meu e ao psicólogo. Eu tinha a necessidade de conversar com alguém. Eu contei para esse amigo porque eu sabia que ele não ia ficar me julgando. E me ajudou a ter alguém para conversar. Porque eu não me sinto à vontade para contar para outras pessoas. E ninguém percebeu na escola também. Cortar os cabelos não dava conta da dor que Teresa sentia. Assim, ela começa a machucar o próprio corpo não mais como uma tentativa de recomeço, mas parece-me ser uma forma de punição. O corpo precisa sentir a dor que a existência carrega. Não é o suficiente sentir a dor da existência, é preciso que essa dor esteja revelada e concretizada no seu corpo. O corpo de Teresa não é apenas uma entidade substancializada, é um corpo que experiencia o mundo. Percebi que existe em Teresa um misto de sentimentos: ora quer esconder os cortes, ora necessita que as pessoas percebam. Ela tenta esconder os cortes das pessoas por meio das roupas, mas ao mesmo tempo sensibiliza-se ao relatar que ninguém os percebeu. É como se as 205 pessoas não a percebessem, como se ela não tivesse valor para as pessoas, ou para ela mesma. Nesse movimento de sentir-se invisível, ela procura um amigo que será seu confidente. Esse amigo aparece como uma figura de acolhimento, que não a coloca sob julgamentos morais ou de outra origem. E para ninguém perceber, eu usava roupas de manga o tempo todo, inclusive em casa. Minha irmã uma vez viu os cortes e perguntou o que era, mas eu mudei de assunto e fiquei mais atenta para ninguém notar. Em 2015 eu entrei na faculdade aí diminuí a frequência. Comecei a namorar em 2017 e meu namorado percebeu e perguntou o que era. Assim que ele me conheceu, já percebeu. Eu tivevontade de nunca mais falar com ele para não ter que explicar. Mas acabei dizendo que eu queria morrer e me cortava por isso. Fiquei pensando em Teresa usando o tempo todo roupas de manga longa para esconder os pulsos, principalmente por Caicó ser uma cidade de um clima com temperaturas muito altas. A novidade do início da universidade diminuiu a frequência dos cortes, mas não por muito tempo. E foi muito difícil para ela começar a namorar, porque precisou compartilhar seus pensamentos de morte que era para ela o seu grande segredo. Eu compreendi que Teresa não tem claro para si os sentimentos que compõem o ato de machucar-se. Ora ela relata que é para sentir-se melhor, ora que é para pôr fim aos sentimentos, procurando a morte. Ao se mutilar, Teresa relata sentir alívio seguido de culpa, já que momentaneamente, a dor da alma fora suplantada pela dor física, servindo a automutilação como “válvula de escape” para a livre expressão do vivido. Ano passado eu aumentei a frequência dos cortes, porque eu passei por um período de estresse maior. Um médico disse que eu tinha ansiedade, mas meu pai nunca me deixou tomar o remédio, porque ele disse que eu ia ficar viciada no remédio. Mas eu tive crises de falta de 206 ar, dor no peito, tudo com características de ansiedade. Eu tive várias doenças ano passado, mas os exames não apresentavam nada. Essas crises de ansiedade não me fizeram bem. Por essas crises de ansiedade eu comecei a ir para o psicólogo da universidade. Eu estava sobrecarregada de atividades e acho que isso fez eu piorar. Tenho me sentido mais medrosa, mais ansiosa, sempre penso que algo ruim vai acontecer comigo. As questões emocionais de Teresa tornavam-se mais intensas e o seu corpo vai sendo ainda mais agredido como a acompanhar o sofrimento de sua mente. Entendi o sofrimento de Teresa ao querer cuidar de si e encontrar na figura de seu pai a barreira para seu tratamento. Ainda assim, Teresa consegue ser atendida na universidade, embora escondido de sua família. Teresa passou um longo tempo conversando sobre a resistência de sua família em ela ter “algum problema psicológico”. Percebi que para ela, seus pais têm medo da loucura, muito embora aparentem trazer questões psicológicas que também merecem atenção. Em relação à morte, há em Teresa um movimento de ter medo do inesperado e ao mesmo tempo um desejo de que ele aconteça. E ao mesmo tempo em que eu penso que algo ruim vai acontecer, eu penso que se acontecer eu não vou achar ruim, eu não vou sentir nada. Às vezes eu penso que eu não sou nem daqui, eu tô só aqui por um tempo, é como se minha vida fosse começar quando eu morresse. (Choro) Às vezes eu fico só deitada, querendo dormir. A sensação que tive ao escutar essas palavras foi de estranheza diante do mundo. Teresa não se sente parte do mundo, da sociedade. É como se nada a preenchesse, ela não cabe no mundo, não se encaixa. Pareceu-me uma apatia diante da vida que também me causou estranheza. Pedi a Teresa que me ajudasse a adentrar melhor essa sua experiência diante da vida. Ela me explica: 207 É como se nada aqui existisse. Quando eu saio e estou com as pessoas é como se fosse falso. É como se eu fosse alheia a tudo o que acontecesse. É como se a vida não tivesse sentido. Um dia desse um amigo meu falou de suicídio e eu disse: qual o problema? A vida continua. A pessoa só vai morrer. Uma vez uma pessoa disse para mim que suicídio era um ato de fraqueza. Eu disse: não! Pelo contrário. A pessoa tem que ter muita coragem para fazer isso. Você sabe que tem muitas pessoas que te amam e que vão ficar mal, mas eu penso que se eu morrer é como se em um outro mundo eu pudesse ser feliz. É como se essa vida fosse só um teste para começar uma vida boa e feliz de verdade. Teresa acredita que existe uma outra vida melhor após sua morte, mas não por questões religiosas. Tal pensamento parece estar vinculado ao fato de não encontrar sentido em sua existência. A vida em sociedade parece ser uma vida só de aparências que não a preenchem. A morte não aparece como inimiga, mas como um auxílio para o fim do vazio. Aqui é relevante retomar a temática da angústia e do vazio existencial, pois percebo ter relação com a fala de Teresa. Sobre essa dimensão Heidegger nos afirma: Experimentamos a angústia quando nos sentimos farto das coisas, tudo se torna igual, tudo perde sentido. O que caracteriza essa experiência é “a fuga do ente em sua totalidade”. O ente nos escapa. Quando o ente foge, nesse instante, apreendemos o nada. É uma experiência de vazio, nos sentimos estranhos. Todas as coisas e nós mesmos afundamos numa indiferença. A angústia “emudece”, nos “corta a palavra”, pois não há nada em que nos apoiar. O ente não mais está lá. Só nos resta o vazio que sentimos (Heidegger, 1996, p 57). Tais palavras de Heidegger descrevem bem a sensação que as falas de Teresa me causaram. Teresa encontra-se diante do nada. O nada é o véu do ser. Ele se manifesta em nossa existência mostrando que tudo se aniquila diante do nada. Mostra-nos que somos um ser para a morte. A existência não tem um sentido, não tem um valor, não tem uma finalidade. A angústia constitui esse momento em que a condição de impessoalidade e de vazio existencial do Dasein se desvela na tonalidade afetiva do tédio profundo, colocando o Dasein 208 diante da possibilidade de buscar uma existência mais própria ou permanecer no desinteresse de viver, na impessoalidade e no vazio da existência (Dutra, 2012). Nesse sentido, fico a pensar que Teresa encontra-se a vivenciar o humor fundamental do tédio. Para Heidegger, o tédio não é mero sentimento ou estado. Ele é, sobretudo, Stimmung (tonalidade afetiva, ânimo ou humor). Vivenciamos sempre algum humor, por mais indiferente que possa ser. De acordo com Silva (2012), o tédio estaria sempre presente em nossas vidas, porém nós fugimos dele através de subterfúgios, ocupações com as quais preenchemos o tempo. Como se mostra pelo termo alemão Langeweile, literalmente “tempo longo”, há uma relação do tédio com o tempo – nós procuramos passar o tempo para evitar o tédio, ocultá-lo. Esse constante ocultamento do tédio, ou melhor, adormecimento, que realizamos de modo consciente ou mesmo inconsciente, significa, segundo Heidegger, que sabemos, com um “estranho saber”, que ele pode reaparecer a qualquer momento. Então, na realidade, esse não- saber não significa não querer ter consciência do tédio, mas não querer despertá-lo. Todavia, o tédio está aí, sempre pronto para se despertar. Nós, entretanto, procuramos adormecê-lo. (Silva, 2012). Segundo Pinheiro (2007), raiz das angústias do homem moderno, o tédio exala o tempo vagaroso que nos arrasta para um mundo desprovido de significações e esvaziado de sentidos. Em contrapartida, esse mesmo mundo moderno está repleto de novidades e estímulos talvez tão entediantes quanto a perda de sentido humano experimentada como fragilização das vivências subjetivas. É nessa perspectiva que Teresa segue relatando essa sensação diante da vida: Eu só sinto isso. Porque como eu não me sinto parte disso aqui, só pode existir um lugar em que eu me sinta quando eu morrer. É difícil explicar o que eu sinto; é como se eu não sentisse. E essa vida parece que não passa, que não acaba. Assim, morrer acho que aparece como acabar com essa espera. Uma pessoa que eu contei o que eu penso foi a esse meu amigo. 209 Eu sempre conversava sobre isso. Ele falava comigo a madrugada toda porque sabia que era a hora que eu estava mais sensível e eu só queria chorar. Chorar me ajuda a dormir. As falas de Teresa apresentam uma grande indiferença presente no tédio. Eu compreendi que morrer significa para ela acabar com esse tédio, acabar com essa demora em não sentir a vida, em não se sentir parte da existência. Nesse momento do relato Teresa também me trouxeo fato de não conseguir enquadrar-se na sociedade, como se “destoasse” do padrão estabelecido. Eu não sou daqui. Pra mim tudo aqui é falso. As pessoas vivem de aparências, só pode. Você sai e ri, e aparentemente está feliz e se divertindo. Mas, não é real. Eu chego em casa e percebo que não estou feliz. Eu fingi que estava feliz. E entro em meus questionamentos novamente. Eu acho interessante que as pessoas aqui vivem como se esse lugar fosse perfeito, como se esse lugar bastasse para elas. Já eu, não me enquadro. É como se elas não tivessem necessidade de ir para outros lugares, conhecerem outras coisas. Teresa revela em sua fala um desenraizamento, não há fixidez em seu existir, nada lhe suficientes. A questão do habitar é central em sua narrativa, pois há uma sensação de constante desalojamento. Ela não se enquadra. Parece apontar que precisa expandir seu mundo, mas não há um movimento nesse sentido. Há uma sensação de não-pertencimento que me remeteu ao habitar encontrado nas falas de outras entrevistas. E se o habitar traduz-se em uma morada junto às coisas, ou seja, existir é estar lançado, projetado nas possibilidades de ser que compõem o mundo no qual nos encontramos; Teresa não tem encontrado o seu habitar no mundo, ela não se sente habitar, pertencer o mundo. Ela não se entrega ao processo de irrupção do mundo, pois a morada junto às coisas não encontra significado nenhum de um pertencimento no qual o existir possa se revelar. E nesse caminho de angústia, o suicídio das pessoas próximas parece trazer às claras para ela a necessidade da morte 210 Quando essa menina que eu conheço faleceu eu passei a pensar em fazer o mesmo que ela e que daria certo, mas meu medo era o das pessoas ficarem mal com minha morte. E sigo pensando que o sentido da morte depende de como eu esteja me sentindo. É algo natural quando morre alguém idoso, mas para quem se suicida não é natural, porque parece que ela foi eliminada do jogo antes do tempo. Meu psicólogo ficava me perguntando o que fazia com que eu me sentisse mal para fazer isso comigo e eu antes não sabia. Achava que era só a tensão da vida. Descobri que eu só sinto raiva de mim. Perguntei a Teresa como é sentir raiva de si mesma. Ela respondeu-me: Não tem nada em mim que eu goste. Principalmente fisicamente. Meu noivo fala que vivo no mundo da lua. Eu fico imaginando como seria se eu tivesse outra vida, fantasiando eu morando em uma casa que eu goste, com meu quarto decorado. Fico imaginando uma vida que não é essa, uma vida na qual eu fosse feliz. Às vezes tenho vontade de morar em um lugar isolado ou no topo de um prédio para contemplar a imensidão. Eu gosto de perceber que eu sou um nada. Eu gosto de saber que eu sou insignificante e que se eu morrer isso não será um problema. Cheguei a esse momento da pesquisa adentrando ainda mais na compreensão do nada. Teresa não sente prazer em nada, nada dá sentido a ela, nada é sentido por ela, nada na sua vida a agrada e nada nela mesmo a agrada. É de uma apatia diante da vida que chega a me mergulhar por um instante na sua sensação de tédio. É o tédio, mas é também a tristeza e uma forte sensação de solidão. Senti o seu desamparo e sua culpabilização através das falas e de suas expressões. É muito interessante contemplar a feição de alguém que se encontra diante do vazio. Essa experiência eu não conseguirei expressar em palavras. Só posso dizer que de alguma forma eu me envolvia e me inquietava com a sua dor. 211 Teresa não faz planos de como irá morrer, mas a todo instante pensa que quer morrer. Sobre os momentos em que se corta ela me diz: E eu não entendo porque eu sou assim. Meu noivo pergunta porque eu faço isso e eu nunca sei responder. São momentos que eu fico apática e nada vai me impedir de alcançar meus objetivos. Ele fica dizendo que eu posso controlar isso, mas eu não consigo controlar. Antes de me machucar eu não sinto nada, só um vazio. Viver o vazio faz eu me submeter a qualquer coisa. E quando termino, eu fico mal porque fiz aquilo e ao mesmo tempo porque não fui mais longe e não me matei. Eu sou muito confusa. Mas, eu não planejo, eu só começo a pensar. Acontece de eu estar deitada, olhar para a janela e ver que lá cabe uma corda ou o cabo do computador. Eu fico pensando em como fazer se um dia eu precisar. Teresa também me revela que finge estar bem nos momentos em que está pensando em morrer para que as pessoas não percebam que ela está mal e assim não a procurem. É para ela uma forma de que as pessoas se distanciem dela. Essa fala me fez retornar imediatamente às falas de José e de Maria que também relatam essa mesma experiência. Às vezes eu finjo que estou bem para todos. Assim ninguém sofre por minha causa. Eu não quero incomodar ninguém com o que eu sinto. Não quero que ninguém saiba e a melhor maneira é fingir que estou bem. Quando estou pensando muito em morrer, evito os olhares das pessoas sobre mim. Quem me vê não sabe o que se passa em mim. Sigo fingindo que estou bem. A última vez que eu cortei meu pulso, meu noivo disse que se eu fizesse de novo ele terminava o noivado. Então eu parei de falar para ele. As poucas pessoas que sabem me dizem: explique porque você fez isso agora. E eu não consigo explicar, eu só me sinto mal. Teresa vai inserindo-se na impessoalidade, no que as pessoas esperam dela e seu desejo é mesmo perder-se na coletividade para não ser percebida. Na verdade, ela tenta inserir-se na 212 impessoalidade, mas suas questões existenciais e sua existência perante o vazio brilham mais intensamente para ela e ofuscam as outras possibilidades de ser. Já ao final da entrevista, Teresa me revela sua dificuldade de auxílio profissional para lidar com suas questões. Relata com inquietação as formas de cuidado que tem encontrado em Caicó. Eu procurei ajuda. Eu fui para um médico uma vez e contei o que aconteceu e ele disse que eu não precisava de medicação porque era só problema de convivência com o meu noivo. Mas eu fui para outro depois e ele me disse que era ansiedade e talvez depressão. Falou de TOC, e me deu vários outros diagnósticos. Hoje eu tomo medicação faz umas duas semanas. Eu percebo que ajudou. Eu devia dizer a minha mãe: ‘ninguém diz que uma pessoa ficou doente de câncer porque é falta de Deus, mas quando é doença psicológica as pessoas pensam que é frescura’. Eu escuto as pessoas dizerem que a pessoa é doida, que toma remédio controlado. Por isso que eu não digo nada a ninguém sobre eu tomar medicações. Minha sogra me levou para o centro espírita forçada, porque ela disse que eu ia ficar boa. Mas na segunda vez que eu fui eu passei mal lá, fiquei apavorada. Lá eles diziam as coisas que eu tinha que fazer. Os espíritas dizem que meu pai é médium e vai para o centro espírita porque eles dizem que lá ele vai desenvolver. Meu pai toma medicação e não me deixa tomar. O diagnóstico parece não dar conta do sofrimento vivido por Teresa. Apareceu em sua fala a questão da religião como cura para seu sofrimento, bem como o adoecimento como frescura ou loucura. Ambos são modos de interpretar o sofrimento psíquico na cidade e na sociedade, de forma geral, que vem impossibilitando tratamentos eficazes na área da saúde mental e que precisam de intervenção. As falas se repetem em consonância com outras narrativas. O sofrimento psíquico é pouco compreendido em Caicó e precisa ganhar mais evidência, principalmente no aspecto de que é possível sofrer, é possível adoecer. Percebi que 213 a sociedade caicoense, de algum modo, precisa reconciliar-se com a figura do homem que é sofrimento, solidão e dor em sua origem; e deixar mais distante a figura do nordestino forte e valente que não pode cometer erros. Trata-se, ao meu ver, não de um niilismo diante da vida, mas de uma aceitação daquilo que somos originariamente, ontologicamente e existencialmente.