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Geovana Sanches, TXXIV HEMORRAGIA DIGESTIVA BAIXA (HDB) INTRODUÇÃO A hemorragia digestiva baixa (HDB) comtempla os sangramentos que ocorrem distal ao ângulo de Treitz. Elas correspondem de 15 a 20% de todas as hemorragias gastrointestinais, com mortalidade variando entre 2 e 4%. Fonte da hemorragia • Cólon (95 a 97%) • Intestino delgado (3 a 5%) Principais causas • Diverticulose o 40 a 55% das hemorragias o Entre 4 e 7% dos pacientes portadores de divertículos irão apresentar ao menos um quadro de HDB • Angiodisplasia Avaliação inicial • Endoscopia digestiva alta (EDA) o É obrigatória para pacientes com instabilidade hemodinâmica o 10 a 15% das HDA podem ser confundidas com HDB • Hematoquezia: fezes sanguinolentas, sangue ou coágulos pelo reto • Melena: sangramento mais lento (HDA?) • 80 a 85% dos casos de HDB cessam espontaneamente • Complicações o Diminuição de hemoglobina e instabilidade hemodinâmica (50%) o Hipotensão ortostática (30%) o Choque (19%) o Síncope (10%) DOENÇA DIVERTICULAR DO CÓLON A diverticulose é a principal etiologia da Hemorragia Digestiva Baixa, mas o mecanismo de sangramento envolvido é desconhecido. Trata-se de uma condição que acompanha a idade, com grande incidência na população idosa. Fisiopatologia No local dos orifícios vásculo-nervosos (entrada da irrigação do cólon) há pontos de enfraquecimento por diversas causas, desde relacionadas ao tecido colágeno (alteração potencialmente genética) até fatores ambientais, como o tabagismo. Nesses pontos enfraquecimos ocorre a formação dos divertículos, os quais consistem em uma protusão da mucosa através de um orifício. Isso é acompanhado por um adelgaçadamento da camada média da vasa recta, a qual, quando sofre traumas por fecálitos, cursa com ruptura intraluminal. Complicações do divertículo • Diverticulite o É a mais frequente o Normalmente se relacionam com microperfurações do divertículo • Sangramento (HDB) o Risco de novo sangramento § 25% após primeiro episódio § 50% após segundo episódio • Perfuração o Pneumoperitônio o Peritonite estercoral (devido a contaminação por conteúdo fecal) o Tratamento cirúrgico Tratamento Em geral, ao evidenciarmos um divertículo sangrando, realiza-se a hemostasia a partir de procedimentos endoscópicos (hemoclipe). Na maioria dos casos, isso é suficiente para cessar o sangramento. Indicação cirúrgica • Persistência do sangramento • Impossibilidade de tratamento endoscópico ou arteriografia • Recidiva no mesmo segmento intestinal • Doente instável e com comorbidades • Colectomia segmentar com anastomose primária ANGIODISPLASIA A angiodisplasia consiste em malformações arteriovenosas, as quais podem ser Geovana Sanches, TXXIV congênitas ou adquiridas (raras antes dos 60 anos). Caracterizam-se por pequenos vasos ectasiados na submucosa, especialmente no cólon direito. Características • Origem de 3 a 20% das hemorragias (mais da metade no cólon direito) • 1 a 2% são achados de necropsia • Origem mais comum de sangramento do intestino delgado (> 50 anos) o Quando no intestino delgado é de fácil visualização. Faz-se um procedimento endovascular com arteriografia, localizando o ponto sangrante e embolizando-o. É ideal que o procedimento ocorra em hospitais tercirários, tendo em vista que é necessário hemodinâmica e a presença de um cirurgião vascular. Diagnóstico • Colonoscopia o Blush hemorrágico (aparência de samambaia) • Arteriografia o Padrão ouro o Fase arterial: enchimento venoso precoce o Técnica de Seldinger: punção da artéria femoral à artéria ilíaca à aorta à artéria mesentérica superior à cateterização à injeção de constraste nessa artéria à embolização do vaso Tratamento • Embolização ou vasopressina • Cauterização com plasma de argônio, laser, termocautério • Agentes químicos: adrenalina, álcool absoluto, etanolamina • Agente mecânico: hemoclip NEOPLASIAS Incluindo pólipos, são responsáveis por originar entre 4 e 14% dos casos de HDB. Nesses casos, geralmente o sangramento é lento, o paciente apresenta anemia e sangue oculto nas fezes. Sinais e sintomas • Sangue oculto • Anemia (cólon direito) • Hematoquezia (cólon distal e reto) • Erosão da superfície da lesão Pólipo intestinal • 5 a 11% (> 1 cm) • É benigno, mas tem crescimento rápido – eventualmente há déficit relativo de perfusão, evoluindo com necrose e sangramento; este também pode ser decorrente de traumas mecânicos, como por fecalitos. • Atenção com os pólipos adenomatosos (adenomas), pois estes podem ter transformação neoplásica. CONDIÇÕES INFLAMATÓRIAS São responsáveis por até 20% das hemorragias, mas normalmente cessam espontaneamente. O resangramento é frequente, ocorrendo em até 35% dos casos. • Colite ulcerativa (15%) o Em 6 a 10% dos casos é necessário colectomia de emergência • Doença de Crohn (1%) CAUSAS INFECCIOSAS As colites infecciosas ocorrem principalmente em pacientes imunossuprimidos e pós radioterapia. Caracteriza-se por diarreia com sangramento autolimitada, geralmente com ingesta de alimento suspeito. Sempre devemos considerar a possibilidade de parasitoses intestinais. Principais etiologias • CMV (25%) • Tuberculose (12%) • Linfoma (12%) • Shigelose • Salmonelose CAUSAS VASCULARES As principais causas vasculares são as vasculites e a colite isquêmica (9 a 21%), a qual consiste em um diagnóstico de abdome agudo que Geovana Sanches, TXXIV ocorre tipicamente em pacientes idosos com doença cardiovascular e aterosclerose. Colite isquêmica • Etiologia: redução do fluxo sanguíneo → hipofluxo ou oclusão mesentérica (flexura esplênica ou junção retossigmóide) à dor, distensão e má absorção de alimentos • Quadro clínico o Dor abdominal súbita e febre o Diarreia sanguinolenta o Sangramento autolimitado • Conduta: colonoscopia o Mucosa hiperperfurada à sinal de obstrução arterial à investigar junto com o cirurgião vascular – solicitação de angiorresonância e colocação de stent na obstrução DOENÇAS ANORRETAIS As doenças anorretais são responsáveis por 4 a 11% dos casos de HDB. No exame inicial deve-se realizar anuscopia visando encontrar sangramentos menores. Etiologias • Doença hemorroidária (10%) o Sangramento autolimitado o Há dor apenas caso ela esteja trombosada, condição na qual há prolapso, prurido e sangramento • Fissura anal o Dor intensa e sangramento o Geralmente é percebida durante a higiene • Varizes retais na hipertensão portal o Hemorragia aguda copiosa • Retite actínica o Pós-radioterapia o Perda crônica de sangue PÓS-POLIPECTOMIA A HDB relacionada a pós-polipectomia ocorre em 2 a 8% dos casos, até 14 dias após o procedimento. Dá-se principalmente quando o pólipo removido era grande (> 2 cm), de base larga ou localizado no cólon direito. • Pólipos: identificados por colonoscopia à polipectomia (geralmente com alça de polipectomia, às vezes por ressecção) • Divertículo de Meckel o Intestino médio o Resto biológico do ducto vitelino (estrutura embrionária) OUTRAS CAUSAS • Pós radioterapia • Imunossuprimidos DIAGNÓSTICO DAS HEMORRAGIAS DIGESTIVAS BAIXAS • Anamnese • Exame físico e proctológico • 80 a 85% dos casos cessam espontaneamente e o diagnóstico se torna presuntivo • Colonoscopia o Principal exame o Especialmente para hemorragias moderadas ou que cessaram espontaneamente o Maior probabilidade de diagnóstico se realizado nas primeiras 24h • Angiografia visceral seletiva o Arteriografia mesentérica o Diagnostica 45 a 75% dos casos com sangramento ativo o Risco de complicações: 10% • Cintilografia com hemácias marcadas o Principalmente no sangramento ativo, com precisão de 40 a 60% o Há acúmulo de contraste na região do sangramento •Sempre considerar possibilidade de afecções proctológicas • Métodos endoscópicos o Anuscopia: identifica doenças orificiais Geovana Sanches, TXXIV o Retossigmoidoscopia: avalia o segmento distal Exames de imagem • Cintilografia o Identifica a topografia do sangramento o Até 0,1 ml/min: alta sensibilidade e baixa especificidade • Angiografia seletiva o Identifica o vaso sangrante o Até 0,5 ml/min: baixa sensibilidade e alta especificidade o Permite diagnóstico e tratamento • Tomografia multislice o Até 0,3 ml/min: alta sensibilidade e especificidade TRATAMENTO • Endoscópico o Colonoscopia • Angiográfico o Risco de infarto colônico • Operatório o Hemorragia progressiva ou recorrente o Colectomia baseada em cintilografia (recorrência em até 35%) o Colectomia total “as cegas” (mortalidade até 25%) FLUXOGRAMA CASO CLÍNICO Homem, 58 anos, comerciante, vem com queixa de sangramento ao evacuar há e dias. Ø HPMA: Relatava sangramento anal intermitente, constante há 3 dias, com presença de sangue vivo, em quantidade que permita sua identificação na água do vaso sanitário, não associada à diarreia ou dor. Negava constipação habitual ou diarreia crônica. Ø AP: Hipertensão leve, tabagismo (10 cigarros/dia), etilismo social nos finais de semana, relatava histórico familiar de tumor de cólon Ø Exame proctológico: mamilos hemorroidários com sinais de sangramento, hipertrofia de papila, prolapso de mamilo Conduta • 58 anos + HF de câncer de cólon → colonoscopia o Resultado: adenoma túbulo viloso do cólon ascendente • Tratamento o Ressecção do adenoma, proctyl, ultraproct, banho de assento, calor local e dieta adequada HEMORRAGIA DE ORIGEM OBSCURA – INTESTINO MÉDIO (HIM) As hemorragias de origem obscura são as hemorragias gastrointestinais menos frequentes, correspondendo entre 1 e 5% dos sangramentos que ocorrem no intestino delgado. Causas • Angiodisplasia o 50% dos casos • Tumores de intestino delgado • Divertículo de Meckel o Sangramento em pacientes jovens o Conduta: cintilografia Investigação A Endoscopia e a colonoscopia não são capazes de identificar sangramentos no intestino médio, tendo em vista que não avaliam essa porção. Assim, a investigação pode ser realizada a partir de: • Cápsula endoscópica o Para sangramento intermitente o Problema: a depender da intensidade do sangramento, ela pode “ser perder” • Enteroscopia • Endoscopia intra-operatória o Identifica até 70% dos sangramentos Tratamento • Tratamento operatório o Enterectomia segmentar • Tratamento endovascular o Padrão-ouro