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Cozinha Regional Brasileira Chef Paulo Verissimo Região Nordeste Recôncavo Baiano O colorido da Bahia lembra a África, até mesmo na raça, pois é aí que vive o maior número de afro descendentes do Brasil. A mulata e a morena jambo são seu símbolo. E o poder feminino tem como ícone a figura matriarcal da baiana, que comanda a cozinha e é “a guardiã da memória, das receitas e do jeito de fazer, oferecer e de apreciar a alegria de quem come, repete e fica imaginando, querendo mais...”, segundo Gregório de Matos. O Recôncavo Baiano desenvolveu uma identidade própria e ímpar, incluindo a rica culinária. A região ao redor da baía de Todos os Santos foi um grande centro de cultivo de tabaco e cana-de-açúcar no período colonial. É onde estão Cachoeira e Santo Amaro, onde há festas e comidas típicas muito particulares e de forte sincretismo religioso. O Recôncavo baiano é a região geográfica localizada em torno da Baía de Todos os Santos, abrangendo a Região Metropolitana de Salvador. As cidades que compõem o Recôncavo Baiano são Conceição do Almeida, Sapeaçu, Cruz das Almas, Santo Antônio de Jesus, Salinas da Margarida, Muniz Ferreira, Nazaré, São Felipe, Dom Macedo Costa, Governador Mangabeira, Muritiba, Cachoeira, São Félix, Maragojipe, Santo Amaro, Saubara, Conceição do Jacuípe, Terra Nova, Amélia Rodrigues, Laje,Teodoro Sampaio, Candeias, Simões Filho, Salvador, São Francisco do Conde e São Sebastião do Passé. Recôncavo baiano Dos negros iorubas e bantos veio o uso do dendezeiro, do feijão- guando, do leite de coco, de galinha d’angola. O acaçá veio da Nigéria e do Daomé (atual Benin). Os coqueirais e os dendezeiros foram trazidos da África e se incorporaram tanto à paisagem quanto à cultura. Coco, dendê e pimenta-malagueta formam o trio de temperos básicos dessa culinária e o diferencial entre outras cozinhas nordestinas. Desde o século 16, chegavam à Bahia levas de escravos de diversas regiões da África. Uma vez vendidas nos pregões que aconteciam na área onde hoje é o Mercado Modelo, as negras eram levadas até a cozinha da casa grande, onde conheciam o açúcar, o sal, alho, limão, arroz, as carnes de boi e galinha, apreciadas pelas senhoras, além do milho e do feijão, já consumido pelos índios. Em contrapartida, apresentavam ao paladar lusitano o gengibre, o inhame e receitas que aproveitavam ingredientes como amendoim e banana. Vivendo na cozinha, elas começaram a adaptar as comidas de Orixá ao gosto dos patrões e a misturar os ingredientes disponíveis. A baiana do acarajé (ou simplesmente baiana) é como são chamadas as mulheres que se dedicam à profissão de vendedora de acarajé e outras iguarias da culinária baiana. Mulheres batalhadoras que com muita luta conseguiram a regularização da profissão junto aos poderes públicos. Inclusive, a padronização de indumentária e tabuleiro, zelando principalmente pela higiene na preparação e manuseio do alimento. Amendoim: O amendoim é uma planta originária da América do Sul (Brasil e países fronteiriços: Paraguai, Bolívia e norte da Argentina). De herança portuguesa, está presente em muitos pratos doces ou salgados da região. Azeite-de-dendê: Ou azeite-de-dendém ou óleo de palma é um azeite popular nas culinárias brasileira e angolana e, também, no candomblé. É produzido a partir do fruto da palmeira conhecida como Dendezeiro. Em Angola, é usado na preparação da moamba de galinha. Foi introduzido no continente americano a partir do século XVI, coincidindo com o início do tráfico de escravos entre a África e o Brasil. Cacau: Originário da America Central e do Brasil, encontrou na Bahia solo e clima favoráveis. Onde concentram-se 80% da produção nacional. Das sementes é feito o chocolate e da polpa suco e vinagre. Castanha de caju: O caju é fruto brasileiro, sua castanha é usada em receitas doces e salgadas. Malagueta: Os primeiros europeus a ter contato com esta pimenta foram os membros da tripulação de Colombo quando desembarcaram pela primeira vez na região das Caraíbas. Além de ser muito apreciada pelos antigos habitantes das Américas, era também utilizada como corante natural e, sobretudo, como medicamento. Coentro: As folhas são usadas frescas em inúmeros pratos, principalmente nas moquecas, em que é ingrediente indispensável. É originário do Oriente Médio e do sul da Europa. Coco: Originário da Índia, de polpa branca é feito o leite de coco e também doces típicos, como a cocada e o quindim. Feijão-fradinho: Sua origem é obscura, ainda que se acredite que seja originária da África Tropical, de onde se dispersou para outras regiões com clima semelhante, como a Índia. Chegou ao Brasil junto com os escravos, pois já era utilizado no preparo da comida de alguns orixás. Quiabo: De origem africana e trazido para o Brasil juntamente com os escravos. Sua presença compõe pratos típicos regionais, como o Caruru - quiabo cozido com camarão seco - ou mesmo na culinária mineira, com o Frango com Quiabo e o Refogado de Carne com Quiabo. Siri mole: Muito comum na região. É capturado na fase de “muda” da carapaça. Tem sabor acentuado. http://colunistas.ig.com.br/comidinhas/files/2009/04/siri.jpg http://colunistas.ig.com.br/comidinhas/files/2009/04/siri.jpg Lambreta: Marisco típico local, pode ser consumido inteiro ou preparado em caldo. Dizem ser afrodisíaco. Galinha d’angola: Galinha-do-mato ou pintada é uma ave originária da África e introduzida no Brasil pelos colonizadores portugueses, que a trouxeram da África Ocidental. No Brasil, é conhecida por vários nomes dependendo da região, sendo chamada de cocá, tô fraco, capote ou angolista, ou ainda, erroneamente, de galinhola. Biribiri: originário da Ásia, foi introduzido no Brasil pela Amazônia. Também é conhecido por Limão-de-caiena e Azedinha. Pode ser usada no preparo de suco, temperar carne, peixe, frutos do mar ou frango. Bacuri: Árvore nativa do Brasil, muito encontrada no litoral nordestino. Possui muito fósforo, ferro e vitamina C. Do bacuri é feito refrescos, doces e cremes. As sementes fornecem óleo que é utilizado como remédio caseiro no tratamento de doenças de pele. Vida Cotidiana O baiano come pelo menos uma vez por semana pratos típicos e fortes como o caruru, o vatapá e o sarapatel. CAFÉ DA MANHÃ É hábito tomar um copo de mingau e café com leite. ALMOÇO No dia-a-dia é comum o consumo de arroz, feijão, farinha de mandioca e algumas hortaliças. Uma vez por semana, pelo menos, não pode faltar a feijoada. No interior do estado, entre as população de baixa renda, vemos o consumo angu de farinha com pimenta, mingau de carimã e de milho, batata-doce, aipim e milho cozido. De sobremesa é comum o consumo de quindim, de doce de laranja-da-terra, de doce de banana na palha ou de cocada branca. A QUALQUER HORA DO DIA O acarajé, servido em barracas. Em Salvador, é bastante comum as pessoas sentarem-se em banquinhos ao redor das barracas de acarajé no final do dia, como em um “happy hour”. JANTAR É comum o consumo das sobras dos mesmos pratos servidos no almoço. Sertão “Desertão”... “sertão”. Uma possível origem para a palavra sertão é que, em alusão ao clima quente e seco do interior do Nordeste, passou-se chamar o lugar de “desertão” e com o tempo, ficou apenas “sertão”. O interior nordestino divide-se em agreste (área de transição entre o sertão e a mata úmida) e sertão. A faixa litorânea corresponde a Zona da mata. BODE Atualmente 94% do rebanho nacional de caprinos está na região Nordeste, onde prevalecem condições edafo-climáticas desfavoráveis. Nessa situação os caprinos assumem uma grande importância social, pois chegam a ser a única fonte de renda em determinadas circunstâncias e deles depende a sobrevivência de muitos nordestinos. Porém, talvez até mesmo associado a esse papel, mesmo no Nordeste raras vezes a caprinocultura é vista como uma atividade empresarial e é frequentemente considerada uma atividade marginal, e nãouma atividade pecuária de grande potencial econômico. Também 53% do rebanho nacional de ovinos se concentra na região Nordeste. Raças: Boer (leite/corte), Saanem (leite), Anglo-Nubiana (leite/corte), Santa Inês (leite/corte), Azul (leite) e Murciana (leite). CABRITO MAMÃO O cabrito-mamão, uma carne nobre que está sendo muito explorada atualmente pelos produtores nordestinos vem de um animal com abate precoce. O Cabrito é abatido quando alcança o peso vivo mínimo de 7 kg, e está entre 35 e 40 dias de idade (ainda em amamentação), resultando numa produção de carne mais tenra, menos gorda e mais digestiva. A carne de animais jovens, ovinos e caprinos possui larga aceitação, principalmente nos grandes centros urbanos, apesar de o consumo anual per capita ser ainda baixo. Estudos feitos pelo SEBRAE, na cidade de Fortaleza, mostrou um consumo per capita de carne ovina e caprina em torno de 0,590 kg/ano e 0,375 kg/ano, respectivamente, enquanto a de carne bovina, na área pesquisada é de 19 kg/ano. CARNE SECA Surgida da necessidade de conservação, numa época onde não havia geladeira, a carne seca caiu no gosto regional. Há pelo menos 3 tipos, todas feitas de carne bovina, salgada e maturada, diferindo apenas no preparo. Carne-de-sol: Depois de cortada, é ligeiramente salgada e deixada em locais cobertos e bem ventilados. Como exige um clima muito seco, o preparo da carne de sol só é possível nas regiões semiáridas do Nordeste. A secagem é rápida, formando uma espécie de casca protetora que conserva a parte de dentro da carne úmida e macia. Jabá: Do tupi “yaba”, que significa fugir, esconder-se. Também conhecida como carne-de-vento, carne-do-sertão, carne-do-ceará, carne-do-Sul, é esfregada com mais sal e empilhada em lugares secos. As "mantas" de carne são constantemente mudadas de posição, para facilitar a evaporação. Em seguida elas são estendidas em varais, ao sol, até completar a desidratação. Charque: Típico da região Sul do Brasil (o nome vem do dialeto quíchua “xarqui”), é preparado de modo similar ao da carne seca. O diferencial está na maior quantidade de sal e de exposição ao sol ao qual o charque é submetido, o que lhe garante uma maior durabilidade. Carne-de-sol Jabá (carne seca) Charque Umidade 64 – 70% 40 – 55% 44 – 45% Teor de sal 5 – 6% 8 – 10% 12 – 15% Carne (cortes) Bovina ou Caprina (traseiro) Bovina (dianteiro e traseiro) Bovina (ponta de agulha) MANTEIGA DE GARRAFA A nata do leite de vaca é batida numa bacia com colher de pau até transformar-se numa massa homogênea, levada ao fogo brando em banho-maria até soltar a manteiga, que pronta, fica em estado líquido. São necessários 50 litros de leite para cada litro de manteiga de garrafa. QUEIJOS No Brasil, os queijos têm uma história tão recente quanto a da própria colonização. Em meados do século 18, a receita do queijo Serra foi trazida para o Brasil por portugueses que vieram da região da Serra da Estrela, em Portugal. Foram várias as tentativas de reproduzir queijos europeus, porém todas frustradas, obtendo sucesso apenas nos anos 20. Queijo de coalho: Figura entre as iguarias típicas da culinária nordestina e seu processo de fabricação é baseado na simples coagulação do leite e na prensagem da massa. Sua utilização é um tanto quanto variada, podendo ser consumido fresco, assado ou como ingrediente em diversos pratos regionais. Para produzir 15 queijos, são necessários 200 litros de leite. Queijo manteiga: Queijo fundido, feito de gordura do leite passado por processo de cozimento, recebe coalho no final e requer 3 dias de maturação. Rapadura: Doce de origem açoriana ou canária. É o suprimento energético de todas as horas para o nordestino. Vem do “mel de engenho”, que endurece nos tachos e se solidifica em formas de madeira retangulares, ganhando, depois de pronta, formato de tijolo. Preá e Mocó: Encontrados desde o sertão do nordeste, até o norte de Minas Gerais. Principalmente no sertão do Piauí são muito consumidos, como fonte principal de proteína. http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/c/c6/Wildmeerschweinchen-06.jpg http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/c/c6/Wildmeerschweinchen-06.jpg Calango: É a designação comum a vários répteis lacertílios, principalmente os de pequeno porte. Muito comuns no sertão, também é muito consumido em áreas onde não há disponibilidade grande de ingredientes para uma alimentação balanceada. Maxixe: é uma hortaliça tradicional no Nordeste, ainda pouco conhecida no Centro-Sul do país. É um fruto originário da África, introduzido no Brasil pelos escravos. Jerimum: Originária da América, era parte substancial da base da alimentação das civilização indígenas nativas. Além disso os portugueses trouxeram da Guiné, na primeira metade do século XVI, as chamadas “abóboras de Quaresma”. Feijão-de-corda: Conhecido também como feijão–verde. Muito usado no sertão e uma das principais leguminosas do país, estando presente em praticamente todas as pequenas roças. Usado em inúmeros pratos da cozinha nordestina do sertão. Cará: Podem ser cultivados o cará subterrâneo, algumas vezes confundido com o inhame, e o cará aéreo, comum em algumas regiões do interior do Brasil, mas dificilmente encontrado no mercado das grandes cidades. Junto com a mandioca, o milho, o amendoim e a batata-doce completava a roça do índio. http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/e/e0/Iikozen_cara.jpg http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/e/e0/Iikozen_cara.jpg Inhame: Chegou ao Brasil junto com os escravos. Existe uma pequena confusão, quanto aos nomes populares, a nível de sudeste e nordeste. No sudeste é comumente chamada de cará; Farinha de mandioca: O gosto pela farinha de mandioca une o Norte ao Nordeste. Usa-se tanto farinha seca quanto a farinha d’água como acompanhamento para a feijoada, base para o pirão e os mingaus, complemento indispensável dos pescados. Macaxeira: Consumida cozida, assada, frita é usada também na massa de diversos bolos. Vida Cotidiana CAFÉ DA MANHÃ Um dos itens mais frequentes no café da manhã nordestino é o cuscuz, derivado do encontro da cozinha portuguesa com influências mouras do norte africano e os recursos locais. É hábito consumi-lo no café da manhã acompanhado de leite (de vaca ou de coco). Servem de acompanhamento o queijo de coalho e o jabá, além da tapioquinha recheada ou ensopada no leite de coco. Para completar o desjejum, há pão de macaxeira ou então a macaxeira, a canjica e o inhame cozido. Não podemos esquecer a xícara de café puro ou com leite. ALMOÇO São básicos os pratos à base de bode e de carne-seca (jabá ou carne-de-sol), acompanhados de macaxeira cozida ou frita e de jerimum cozido. Também há o consumo de paneladas (cozido de vísceras e mocotó de boi) e de serrabulho (picadinho de vísceras e sangue talhado de porco), além de inhame e do cará cozidos em água e sal. E do baião-de-dois. Para consumo durante viagem ou não, a paçoca de carne (carne-seca torrada e pisada no pilão com farinha e cebola) também é muito apreciada. Acompanham pirão de farinha de mandioca ou arroz-de-leite ou pirão de leite. Regados com manteiga de garrafa. A QUALQUER HORA DO DIA A rapadura, “para dar sustança”, pura ou com farinha de mandioca e o queijo de coalho. A tapioquinha “mata a fome” e a “marvada” cachaça arremata tudo. JANTAR Inhame, macaxeira e/ou jerimum cozidos e cuscuz, todos regados a manteiga de garrafa. E, claro, as sobras do almoço. Bibliografia Bueno, Ana; Diegues, Antonio Carlos & D’Alessio Vito. Culinária Caiçara. Ed. Dialeto. 2006. Cascudo, Luís da Câmara. História da Alimentação no Brasil. Ed. Global. 2004. Chaves, Guta & Dolores Freixa. Larousse da Cozinha Brasileira. Larousse do Brasil. 2007. Fernandes, Caloca. Viagem Gastronômica Através do Brasil. Ed. SENAC, 2008. Freyre, Gilberto. Açúcar. 3ª ed. Ed. Massangana, 1987. Neto, Nelusko Linguanotto . Dicionário Gastronômico –Pimentas. 1ª ed. Gaia Editora. 2007. Silva, Paula Pinto e. Farinha, Feijão e Carne-seca. Ed. SENAC, 2008.