Prévia do material em texto
1 SUMÁRIO 1 A RELAÇÃO DA PSICOLOGIA COM A EDUCAÇÃO ................................ 3 1.1 A psicologia como área do conhecimento ............................................ 3 1.2 Psicologia e ciência .............................................................................. 4 1.3 Psicologia e senso comum ................................................................... 6 1.4 As grandes polêmicas da psicologia .................................................... 7 1.5 Psicologia e Educação ....................................................................... 12 2 A PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO E DA APRENDIZAGEM. ..... 14 2.1 A relação entre desenvolvimento e aprendizagem ............................. 14 2.2 Diferentes concepções de desenvolvimento e de aprendizagem ....... 15 3 A NOÇÃO DE ESTAGIO EM PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO .. 19 4 A PSICANÁLISE DE FREUD .................................................................... 21 5 A TEORIA DE PIAGET ............................................................................. 23 6 A TEORIA DE WALLON ........................................................................... 24 6.1 Período da vida intrauterina ............................................................... 25 6.2 Estágio impulsivo ............................................................................... 25 6.3 Estágio emocional .............................................................................. 26 6.4 Estágio sensório-motor ....................................................................... 27 6.5 Período do personalismo .................................................................... 27 6.6 Período da puberdade e adolescência ............................................... 28 6.7 Período da fase adulta ....................................................................... 28 6.8 Papel do educador na formação da personalidade do aluno ............. 29 6.9 A formação pessoal do educador ....................................................... 32 7 CONTEXTO SOCIAL ................................................................................ 35 7.1 Papel da mídia na escola ................................................................... 35 2 7.2 Educação inclusiva ............................................................................. 38 7.3 Relações interpessoais e gestão democrática ................................... 42 8 PSICOLOGIA APLICADA À SAÚDE ........................................................ 45 8.1 História Da Psicologia ........................................................................ 45 9 PRIMEIRAS ESCOLAS DA PSICOLOGIA ............................................... 47 10 PRIMEIRAS TEORIAS DO SÉCULO 20 ............................................... 47 11 PSICOLOGIA DO SENSO COMUM ...................................................... 49 12 RELAÇÃO DA PSICOLOGIA COM A ENFERMAGEM. ........................ 51 13 APARELHO PSÍQUICO ......................................................................... 52 14 A DESCOBERTA DA SEXUALIDADE INFANTIL .................................. 54 15 ESTÁGIOS DO DESENVOLVIMENTO DA PERSONALIDADE ............ 54 16 TEMPERAMENTO, CARÁTER E PERSONALIDADE ........................... 56 17 A PSICOLOGIA E A ESCOLA ............................................................... 58 18 POSSIBILIDADES DE ATUAÇÃO DA(O) PSICÓLOGA(O) NA EDUCAÇÃO BÁSICA ................................................................................................ 67 18.1 A(o) psicóloga(o) e o projeto político-pedagógico ........................... 69 18.2 A intervenção da (o) psicóloga (o) no processo de ensino aprendizagem ........................................................................................................ 70 18.3 O trabalho na formação de Educadores ......................................... 71 18.4 O trabalho da (o) psicóloga (o) e a educação inclusiva .................. 72 18.5 O trabalho da (o) psicóloga (o) com grupos de alunos ................... 75 BIBLIOGRAFIA ............................................................................................... 81 3 1 A RELAÇÃO DA PSICOLOGIA COM A EDUCAÇÃO 1.1 A psicologia como área do conhecimento Com certeza você já ouviu o termo psicologia em diversas situações. Todas as pessoas em geral utilizam “uma psicologia” no seu cotidiano. Na educação dos filhos, em uma conversa com um amigo, quando queremos convencer alguém de alguma coisa. Enfim, todos nós utilizamos o conhecimento acumulado pela psicologia que passou a ser chamado de senso comum. Esse conhecimento é muito importante, entretanto nesta unidade serão apresentadas algumas questões da psicologia estudada pelos psicólogos: sua história, seus problemas, seus desafios e suas contribuições principalmente para nós educadores. A psicologia passou a ser considerada como ciência em 1879. Costuma-se atribuir essa data como o seu início, pois foi quando se começou a desenvolver os primeiros laboratórios experimentais de pesquisa em psicologia na Europa, principalmente na Alemanha. Assim, encontramos nos livros de psicologia essa data como referência ao surgimento dessa ciência. Isso não significa que antes não houvesse estudos de psicologia. Até então, ela era considerada um ramo da filosofia. Isto é, o conhecimento sobre o psiquismo humano era construído por meio das ideias de alguns pensadores. No entanto, as descobertas revolucionárias daquela época, sob a influência do pensamento científico e o surgimento de outras ciências como a sociologia, a antropologia e a fisiologia, criaram a necessidade de se pensar a mente humana de outra forma. A forma experimental a partir do método científico. Vamos pensar um pouco sobre o conhecimento humano. Mesmo sem ter estudado psicologia, com certeza você já deu respostas para muitas questões formuladas para entender e explicar o que se passa ao seu redor e com você mesmo. Vários são os caminhos e tentativas para as indagações acerca do começo do mundo, da nossa origem, de onde viemos e para onde vamos. 4 Quando estou em sala de aula com meus alunos, costumo perguntar o que eles entendem por psicologia e as respostas que aparecem são as mais diversas. As mais frequentes são: • Estudo da mente; • Análise do comportamento; • Guia para o autoconhecimento humano; • Tratamento de enfermidades psicológicas; • Estudo da alma; • Estudo do homem; • Trabalho profundo com pessoas. Poderia ainda citar muitas outras e com certeza você pode ter pensado em muitas coisas ou mesmo ter concordado com algumas dessas respostas. Compare suas respostas. Não é fácil definir o que é psicologia. Alguns autores preferem falar em psicologias, no plural, dada as diferentes concepções de mundo e do homem. O importante antes de apresentarmos uma definição é refletir um pouco sobre a história dessa ciência e entender como ela influencia o nosso dia-a-dia. O processo histórico da construção do conhecimento acontece ao mesmo tempo em que as novas formas de organização da sociedade vão se concretizando. Se olharmos, por exemplo, o surgimento da escravatura, com homens se apropriando de outros, podemos verificar também que em relação ao conhecimento acontece a mesma divisão de papéis na sociedade. Enquanto temos homens e mulheres que se dedicam exclusivamente a trabalhar manualmente, criam-se condições para que outro grupo de homens (e nem sempre de mulheres) possa só trabalhar pensando. 1.2 Psicologia e ciência A ciência como é entendida por muitos, e eu concordo com eles, é um produto social e cultural, e a psicologia, assim como a ciência, se constitui sob a influência dos momentos históricos. Portanto, a psicologia também foi influenciada por todo o processo de mudanças da sociedade. 5 Em cada época da nossa história, cadasociedade enfrentou seus problemas com novas ideias em busca de respostas, a partir dos seus próprios recursos e de seu modo próprio de ver as coisas. Houve um tempo em que tudo podia ser explicado pelos deuses que conviviam com homens: o deus do fogo era o fogo; o deus do milho era o milho. Fenômenos naturais, o sol, a lua eram adorados como deuses, e porque a proximidade homem- natureza era total, as explicações eram naturais. Com a criação de novos instrumentos e da tecnologia, os deuses foram perdendo a função de explicar o mundo e surgiram as explicações ditas científicas, que buscavam as verdades em experimentos que podiam ser verificados a partir da manipulação de variáveis. Para o filósofo Sócrates, por exemplo, as perguntas estavam centradas no valor que as coisas tinham, se eram boas ou más. Já com o aparecimento do cristianismo as interpretações de doutrinas e de mandamentos fizeram-se cada vez mais urgentes e surge a adoração a um único Deus, situado fora deste mundo. Por muito tempo as respostas às diferentes indagações do homem foram dadas por meio de mitos. Depois, podemos dizer que a religião e a filosofia se encarregaram de responder a essas perguntas. Com a construção de novos conhecimentos surge uma nova maneira de se dar soluções para os diferentes problemas enfrentados pelos homens. Aparece a ideia da separação de toda realidade em experiência interna e externa. Com essa ideia constrói-se um novo pensamento de forma bastante ativa e dominante, a ciência, e dela surge a tecnologia. E assim, temos a ciência moderna que é considerada advinda dos fatos vistos como algo que todos nós podemos observar, identificar e ter em comum. É a busca de uma verdade absoluta, não mais em um Deus, mas em uma verdade que seja única, universal, inquestionável e neutra. Assim, a ciência professa olhar exclusivamente para o mundo visível. Acreditava-se que o mundo era um sistema mecânico possível de ser descrito objetivamente, sem menção alguma ao observador humano. Com o passar dos tempos a ciência cria sua própria ideologia, apresentando várias características de uma “nova religião”. Muitas vezes, hoje, mesmo nas 6 universidades, ela é ensinada de forma dogmática, como uma verdade revelada, possuindo uma linguagem própria, incompreensível e inatingível. No entanto, muitos são os críticos dessa visão de ciência. Concordo com eles e acredito que o mito dessa verdade absoluta somente será contestado quando houver a conscientização de que a realidade não é uma natureza virgem em que o homem é o desbravador, mas sim que ela é um produto da história dos homens. A ciência constitui-se e afirma-se de uma prática social, ideologicamente marcada. 1.3 Psicologia e senso comum O senso comum, ao lado do saber religioso, da arte e do saber científico, participa da construção da nossa concepção do mundo. São saberes diferentes, mas são todos construídos em um determinado tempo, em uma determinada cultura. Nesse contexto, a psicologia também procurou o modelo de cientificidade criado nas ciências como a matemática e a física. O homem passou a ser visto como um fenômeno igual a 20 outro qualquer, sem ser levada em consideração a cultura na qual está inserido. Os cientistas da época estavam muito preocupados em medir e quantificar. A psicologia teve inicialmente como objeto de estudo os problemas relacionados à sensação e à percepção que podiam ser medidos e quantificados. Ao mesmo tempo em que a psicologia se desenvolvia na Alemanha, em outros países como a Inglaterra e a França também eram realizados estudos com interesse pela medida, principalmente em relação às diferenças individuais. Esse interesse fazia parte de um projeto de melhor adaptar os mais capazes às necessidades da nova sociedade. A psicologia nasce, portanto, com uma demanda de prover conceitos e instrumentos “científicos” de medida, que possibilitassem a adaptação dos indivíduos às novas condições de trabalho geradas pela sociedade industrial capitalista. É nesse contexto que surgem os primeiros estudos com finalidade de orientação e seleção escolar e profissional, por meio da medida das faculdades mentais. 7 Uma das principais atividades dos psicólogos no início do século passado era exatamente a utilização da escala métrica para classificar indivíduos. A mais conhecida foi criada na França para medir a inteligência infantil e é conhecida como Teste de QI. Nas escolas, portanto, a primeira função desempenhada pelos psicólogos foi a mensuração das habilidades e a classificação das crianças quanto à capacidade de aprender e de progredir nos estudos. O que podemos concluir é que a psicologia, muitas vezes por pretender tornar- se uma ciência, praticamente deixa de ser humana. E palavras como subjetividade, inconsciente, emoção e afeto são recusadas pela psicologia científica que diz ser apenas o comportamento observável o seu objeto de estudo. A concepção de homem que o teórico traz consigo influencia na sua definição do objeto de estudo da psicologia. A partir de vários estudiosos da psicologia, quero propor a seguinte definição: a psicologia é a ciência que estuda o ser humano concreto em todas as suas expressões como comportamento e sentimentos construídos a partir das relações sociais, das vivências individuais e da constituição biológica. Entendemos que a concepção do que é o ser humano não é dado desde o nascimento, ou seja, não é inato ao indivíduo. Ele constrói o seu ser aos poucos, apropriando-se do material do mundo social e cultural, ao mesmo tempo em que atua sobre este mundo, ou seja, é ativo na sua construção e modificação. 1.4 As grandes polêmicas da psicologia Podemos dizer que uma das grandes polêmicas da psicologia é tentar defini- la. A forma de abordar o objeto da psicologia depende da concepção de homem adotada por cada estudioso da psicologia. Podemos dizer também que atualmente existem diferentes escolas psicológicas que acabam formulando um conhecimento fragmentado de uma única e mesma totalidade que é o ser humano. Isso ocorre tanto no que diz respeito aos seus aspectos internos, como aos sentimentos e desejos, quanto às suas manifestações comportamentais. 8 A superação desse problema da fragmentação está na busca de uma visão crítica de ciência que leve a uma psicologia que conceba o homem como ser concreto e multideterminado. Algumas dessas escolas consideram a psicologia pertencente ao campo das ciências do comportamento, outras das ciências sociais e, ainda, outras das ciências biológicas. Essas diferenças entre as escolas nos remetem ao problema da relação entre o biológico e o social no ser humano, que é um reflexo da concepção dualista do homem. O homem é visto na sua formação puramente biológica ou na sua formação social. A dificuldade está em concebermos as coisas na sua unidade. Existe uma lógica que nos é ensinada de que as coisas são ou não são. Mas existe uma outra maneira de entendermos o mundo que é vendo-o como sendo e não sendo ao mesmo tempo. Essa outra forma de entender o mundo é chamada de dialética, a qual permite a construção de um conhecimento que dê conta da realidade em toda a sua complexidade, com seus elementos contraditórios e em suas permanentes transformações. Sendo assim, o mundo é visto sempre em movimento e em constante mudança. O que também é válido para entendermos o homem que é visto como um ser ao mesmo tempo, biológico e social; um ser ao mesmo tempo individual e cultural; um ser ao mesmo tempo racional e emocional. E deve ser entendido em suas condições concretas, que são, ao mesmo tempo, subjetivas e objetivas. Quando separamos, dividimos o homem, chega-se, em muitos casos, a tentativas de interpretações biológicas de fenômenos sociais, sem levar em consideração que esses fenômenos têm uma história antiga e pode-se chegar a conclusõessociais e políticas de caráter reacionário. O organismo humano nasce, forma-se e desenvolve-se segundo leis biológicas socialmente modificadas. Portanto, o homem deve ser estudado de forma mais abrangente tendo-se em vista todos os campos do conhecimento, por exemplo: a história, a antropologia, a economia, etc. Devemos, então, ficar atentos aos diferentes saberes para podermos entender nosso objeto de estudo, o homem, que como toda realidade está em permanente 9 movimento e em transformação. E sempre novas perguntas surgirão a cada dia, colocando novos desafios para a psicologia. E como diz o ditado: “mente é como paraquedas: melhor aberta”. Desde seu nascimento como ciência, a psicologia sofre a influência de diferentes campos do conhecimento. As três mais importantes tendências teóricas consideradas por muitos autores, na psicologia, são: o Behaviorismo (comportamentalismo), às vezes conhecida como a psicologia “dos ratinhos” por causa dos estudos feitos em laboratórios com esses animais; a Gestalt que nasce com a preocupação de se compreender o homem como uma totalidade; e a Psicanálise, talvez a mais difundida no senso comum por causa das ideias de Sigmund Freud, principalmente às relacionadas à teoria da sexualidade infantil. Essas são as teorias mais reconhecidas no Ocidente. Mas nos anos de 1920, sob o regime da ex-União Soviética, nos países do leste europeu, nascia também uma psicologia que buscava compreender o homem na sua totalidade que ficou conhecida como teoria sócio histórica. Essa teoria, fundamentada no marxismo, só ganhou importância no Ocidente nos anos 1970 e no Brasil apenas nos anos 1980. Marxismo é o conjunto das ideias filosóficas, econômicas, políticas e sociais que Karl Marx e Friedrich Engels elaboraram, que interpreta a vida social conforme a dinâmica da luta de classes e prevê a transformação das sociedades de acordo com as leis do desenvolvimento histórico de seu sistema produtivo. O principal representante dessa teoria foi o russo Lev Vygotsky que buscou estudar o homem e seu mundo psíquico como uma construção histórica e social da humanidade. 10 Lev Vygotsky Lev Vygotsky (1896-1934) cursou medicina e também se formou em direito, história e filosofia. Seu principal interesse na psicologia foi o estudo das funções psicológicas, ditas superiores que surgem, no homem, a partir da linguagem. Suas obras influenciaram vários teóricos de áreas como a educação, a neurociência, a linguística, entre outras. Para ele, o mundo psíquico que temos hoje não foi nem será sempre assim, pois sua caracterização está diretamente ligada ao mundo material e às formas de vida que os homens vão construindo no decorrer da história da humanidade. Além de Vygotsky, outros psicólogos também se valeram das ideias de Marx para pensar a psicologia. Um deles foi o francês Henri Wallon que por defender essas mesmas ideias foi pouco difundido aqui no Brasil. 11 Henri Wallon Henri Wallon (1879- 1962) nasceu e viveu em Paris. Teve uma formação em filosofia, medicina e psiquiatria, antes de se voltar para os estudos de psicologia. Sua grande contribuição para a psicologia é a sua concepção da emoção como sendo o motor inicial do desenvolvimento da pessoa. Sua preocupação com a educação está presente em todas as suas obras e defendia a interligação da psicologia com a pedagogia. Nesse curso, iremos trabalhar principalmente com as teorias de Vygotsky e de Wallon por considerarmos os mais importantes entre os que marcaram as origens da psicologia moderna. A grande contribuição deles está no fato de terem fundado uma psicologia científica, assegurando uma conexão com outras disciplinas, em um contexto de interdisciplinaridade. Suas teorias permitem que o homem moderno possa compreender a si mesmo, a partir da imagem de sua própria infância, pois suas concepções teóricas levam ao conhecimento da criança e do adulto, sendo o conhecimento do segundo adquirido por meio do conhecimento da criança. Com essas teorias podemos concluir que: • As relações entre o homem e o meio em que ele vive estão sempre se enriquecendo pelo fato de o meio não ser constante. 12 • Ao transformar suas condições de vida, o homem transforma-se a si próprio. • A saída para o impasse da dualidade entre o ser biológico e o social é o método materialista dialético. • O homem é um ser biológico, psicológico e social que se desenvolve na natureza. • A dialética dá à psicologia o seu equilíbrio e a sua significação ao mostrar simultaneamente ser uma ciência da natureza e uma ciência do homem. 1.5 Psicologia e Educação Depois de todas essas considerações, vamos falar agora da relação da psicologia com a educação. A psicologia é solicitada a intervir na solução de problemas bastante variados. Mesmo que esteja sempre encontrando resistências e oposições, ela tem contribuído em diferentes domínios, sendo o da educação um deles. Voltamos a destacar a importância da escola. É preciso entendê-la como um meio transformador e questionador da sociedade e reconhecer sua dimensão progressista. E também é fundamental vê-la como sendo um meio constituidor para o aluno onde todo o seu cotidiano gira em função dela. Sendo assim, devemos destacar a responsabilidade da escola para com o aluno, ressaltando a necessidade do interesse que o educador deve ter pela vida do aluno como um todo, fazendo com que a escola passe a ter sentido na vida dele. Desenvolvimento e educação são complementares e a atividade exercida por todos educadores é de extrema importância. A escola tem de se dirigir ao aluno de maneira que possa atingir toda sua personalidade, respeitando e estimulando sua espontaneidade total de ação e de assimilação. Para tal, é necessário ter uma formação também psicológica, a fim de melhor compreender a natureza e o desenvolvimento dos alunos de suas escolas e poder agir verdadeiramente como educador. 13 Não quero dizer que sabendo psicologia vamos entender e resolver tudo em nossa volta. Mas, pode ajudar a compreender melhor algumas atitudes dos alunos ou mesmo de um colega de trabalho. Com certeza, você já entendeu o porquê de uma briga entre dois alunos na fila para pegar a merenda. E outras vezes, talvez, achou que os empurrões no recreio são por falta de educação. As relações entre a psicologia e a educação, apesar de parecerem óbvias, são complexas e envolvem vários aspectos, tanto concordantes como de oposição. Tendo como alvo comum a criança, a psicologia e a educação têm discutido desde há muito tempo os processos de desenvolvimento e os de aprendizagem. Assim, a influência da psicologia sobre a educação é reconhecida. No entanto, a posição da psicologia na relação com a pedagogia tem sido muitas vezes de autoridade, ultrapassando os limites da competência. Por outro lado, percebe-se a grande procura de respostas, por parte da educação, em diversas áreas, para dar conta da complexidade do fenômeno educativo. Por exemplo, em relação ao comportamento dos alunos em sala de aula, os sérios problemas relacionados à violência e à falta de motivação. Não é função da psicologia ditar normas para a educação, como também não é a educação uma aplicação da psicologia. O que se faz necessário, no entanto, é um maior conhecimento do desenvolvimento da pessoa do aluno na instituição escolar. O importante é considerar a relação entre a psicologia e a educação como sendo de complementaridade, de construção, para avançar no entendimento desses dois campos do conhecimento. Com isso, podemos buscar soluções mais produtivas para essas questões e tantas outras, que você conhece tão bem no seu contato diário com os alunos no ambiente escolar. O objetivo é proporcionar a você uma visão do desenvolvimento da pessoa a partir de algumas concepções teóricas, e que você possalevar em conta tudo isso quando estiver no seu trabalho. Procure ler muitas outras fontes além do que se propõe neste curso. Uma revista em quadrinhos, um romance, um livro infantil, uma poesia ou apreciar um livro de pinturas ou contemplar a natureza. Tudo isso enriquece nosso conhecimento e 14 desenvolve a nossa sensibilidade. Você pode verificar na biblioteca da sua escola quais os livros do seu interesse. Um educador com diferentes conhecimentos sente- se mais preparado e seguro na sua tarefa de educar os alunos. 2 A PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO E DA APRENDIZAGEM. 2.1 A relação entre desenvolvimento e aprendizagem Ao desenvolver um trabalho com 68 professoras do ensino fundamental, perguntei como elas viam a relação entre desenvolvimento e aprendizagem. Obtive muitas respostas diferentes e interessantes e vou fazer a mesma pergunta a você. Veja o que aquelas professoras responderam e compare com suas respostas. O próximo passo é descobrir o que os teóricos da psicologia dizem. Para a maioria, a relação entre desenvolvimento e aprendizagem é de dependência, as duas caminham juntas; é uma relação de reciprocidade; o aluno só se desenvolve quando aprende. Algumas professoras apresentaram a opinião de que o desenvolvimento ocorre primeiro, sendo condição necessária para que haja aprendizado. Ou seja, primeiro a pessoa se desenvolve para depois aprender. Outras professoras responderam dizendo que as crianças “têm muito a aprender e a ensinar, e a relação deve ser de cumplicidade, ajuda e humildade”. Também apareceram respostas que diziam “que é por meio da aprendizagem que o ser humano desenvolve suas aptidões”. Outras duas respostas remeteram à ação do professor: “se dá principalmente por meio de experiências e das oportunidades que o professor procura apresentar aos alunos e vice-versa; a valorização das experiências da professora e principalmente dos alunos”. 15 2.2 Diferentes concepções de desenvolvimento e de aprendizagem Na psicologia vamos encontrar diferentes concepções sobre a relação entre desenvolvimento e aprendizagem. Vygotsky nos apresenta as concepções mais importantes agrupadas em três grandes posições teóricas. A primeira postula que os processos de desenvolvimento da criança são independentes do aprendizado. Isto porque o aprendizado é visto como um processo externo que segue o caminho do desenvolvimento, ou seja, o aprendizado se vale dos avanços do desenvolvimento sem fornecer um impulso para modificá-lo. Só pode haver aprendizado quando o desenvolvimento chega ao ponto mínimo, o qual torna possível o aprendizado, isto é, o desenvolvimento precede o aprendizado. Em outras palavras, para aprender alguma coisa, a pessoa tem de ter desenvolvido algumas condições anteriormente. A segunda posição parte do princípio de que aprendizado é desenvolvimento. O processo de aprendizado é reduzido à formação de hábitos, identificando-o com o do desenvolvimento. O princípio fundamental é a simultaneidade entre os dois processos, ou seja, desenvolver é aprender novos comportamentos, isto é, aprender é aumentar o repertório comportamental. A terceira concepção teórica apresentada por Vygotsky é a que tenta superar os extremos das outras duas a partir da combinação dos seus pontos de vista. Embora os dois processos sejam vistos como relacionados, eles são diferentes e cada um influencia o outro. Podemos representar essa concepção dizendo que o desenvolvimento é sempre um conjunto maior que o aprendizado, não havendo, portanto, coincidência entre os dois conceitos. Vygotsky rejeita essas três concepções teóricas e propõe uma outra solução para essa relação. Para ele, aprendizado e desenvolvimento estão inter-relacionados desde o primeiro dia de vida da criança, portanto, muito antes de ela frequentar a escola. O aprendizado escolar, no entanto, produz algo fundamentalmente novo no desenvolvimento da criança. Ele propõe que se veja o desenvolvimento em dois níveis diferentes. 16 O primeiro é o nível de desenvolvimento real, ou seja, o que a pessoa já é capaz de realizar sozinha e o segundo é o nível de desenvolvimento potencial que é determinado pela realização de qualquer tarefa com a ajuda de uma outra pessoa. A distância entre o nível de desenvolvimento real e o nível de desenvolvimento potencial foi chamada por Vygotsky como sendo Zona de desenvolvimento proximal. Com certeza vou criar uma situação difícil para você. Pois é isso mesmo. A nossa criança de oito meses ainda não anda sozinha, mas com ajuda ela anda. E mais ainda, ela já pode ficar em pé sozinha ou com apoio. Ficar em pé com apoio é, neste caso, o nível de desenvolvimento real. Andar com ajuda é o nível de desenvolvimento potencial. Isso acontece também com a gente, os adultos, pois estamos sempre em desenvolvimento porque aprendemos constantemente. O que Vygotsky propõe, então, é que vejamos o desenvolvimento como um potencial e que a ajuda de um outro, leva ao desenvolvimento da pessoa. Ou seja, o aprendizado desperta vários processos internos de desenvolvimento que operam quando a pessoa interage com outras pessoas do seu ambiente e com a ajuda de seus companheiros. Nessa posição teórica, aprendizado não é desenvolvimento. O desenvolvimento vem de forma mais lenta, após o aprendizado. Podemos dizer, então, que é o aprendizado que puxa o desenvolvimento. O que achou dessas posições teóricas? E agora, como você acha que se dá realmente o desenvolvimento e a aprendizagem? Não se esqueça de anotar suas respostas no memorial. Você percebeu que há na psicologia diferentes maneiras de entender esses processos de desenvolvimento e aprendizagem. Particularmente, considero que a visão de Vygotsky explicita de forma mais completa e complexa os processos de desenvolvimento e de aprendizagem, de constituição do indivíduo e da construção do conhecimento. Sua grande contribuição é mostrar que aprendemos e nós desenvolvemos sempre em relação com as pessoas em nossa volta. Daí a importância do educador interagir sempre com o outro, ou seja, para ensinar alguma coisa é preciso estar junto com o outro, ajudando-o. 17 O que Vygotsky propõe, então, é que o educador busque atuar na zona proximal do desenvolvimento, ou seja, a educação tem de partir daquilo que o aluno já atingiu (o desenvolvimento real) buscando concretizar aquilo que ele apresenta como potencial (o desenvolvimento potencial). Muitas vezes, o que fazemos é ensinar aquilo que o aluno já sabe ou ainda está longe de poder aprender. É sempre bom lembrar de anotar no seu memorial, pois é importante fazer o registro das informações que pensamos e depois, ao ler novamente, podemos resignificá-las. Discussões na psicologia do desenvolvimento: • Corpo/Mente • Inato/Aprendido • Indivíduo/Social A psicologia do desenvolvimento estuda diferentes aspectos da evolução do ser humano. Os psicólogos do desenvolvimento interessam-se pelo crescimento da estrutura física, do comportamento e do funcionamento da mente. Influenciados pela busca da medida, os psicólogos consideram o crescimento do corpo e da mente muitas vezes apenas como um contínuo progresso puramente quantitativo. Ou seja, da mesma forma que a criança adiciona centímetros na sua altura, ela também adiciona quantidade equivalente de inteligência. Daí se fala em idade intelectual. Provavelmente você já ouviu alguém dizer que uma criança de dez anos tem “problemas mentais” porque a idade intelectual dela é de cinco, por exemplo. Essa visão parte do princípio de que o desenvolvimento é um processo contínuo e ordenado. Dessa forma, o ser humano se desenvolve segundo uma sequência regular e constante, de maneira que a etapa que vem antes influencia a que vem depois sem possibilidade de mudanças nessa sequência. E mesmo admitindo-se que cada indivíduo tenha seu próprioritmo de desenvolvimento, esse ritmo é concebido como sendo constante. Ou seja, com essa concepção é negada ao indivíduo a possibilidade de mudança na maneira de ser. O que estamos propondo neste curso é uma visão do desenvolvimento que parte do princípio de que o desenvolvimento é um processo descontínuo, 18 desordenado e acontece em saltos. Isso significa que o indivíduo não está programado desde a sua concepção para ser de uma determinada maneira. Além das diferenças de cada um, é preciso entender que o que consideramos hoje como infância, adolescência e velhice são “invenções” socioculturais relativamente recentes. Durante séculos, as crianças foram consideradas como adultos em miniaturas. Na Idade Média, a partir dos sete anos as crianças começavam a aprender um ofício sob a tutela de um adulto, passando a ter responsabilidades próximas às dos adultos. Além das responsabilidades, elas participavam de todas as atividades do adulto como, trabalho, lazer, festas etc. Tempos depois, movimentos culturais e religiosos deram lugar ao descobrimento da infância como uma etapa diferente da idade adulta e o tratamento tornou-se diferenciado. Isso significou que a criança deixou de ser vista como um adulto incompleto guardando em si tudo aquilo que ela seria na fase adulta. Deixa de ser vista como um adulto em miniatura. A partir do século XIX começa a luta pela liberação das crianças da realização de trabalhos pesados. Existem descrições dramáticas das condições de vida das crianças inglesas, nos anos de 1800, que tinham jornadas de trabalho de doze horas, realizando duros trabalhos em fábricas e minas. E por aqui no Brasil, século XXI, como estão nossas crianças? Será que elas estão liberadas dos trabalhos pesados? Você conhece alguma criança que tenha de trabalhar e não possa ir à escola ou brincar? Em relação ao conceito de adolescência, esse só aparece no século XX quando a criança não passa a ser um adulto de forma direta. A passagem à condição de adulto vai acontecendo progressivamente e o nascimento da adolescência surge como uma época diferenciada tanto da infância como da idade adulta. Resumindo, podemos dizer que: • Os processos de desenvolvimento e de 35 aprendizagem estão relacionados; • A relação entre esses processos é explicada de forma diferente pelas teorias psicológicas; 19 • A definição de desenvolvimento que enfatizamos aqui é a de que o desenvolvimento é um processo descontínuo, marcado por rupturas, retrocessos e reviravoltas. 3 A NOÇÃO DE ESTAGIO EM PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO Ciclo da vida: infância, adolescência, adultos e velhice como construções culturais. O conceito de estágio ou etapa tem as suas origens nas noções de idade, de era, de época, de período que são usadas pela humanidade há muitos anos e se conservam até hoje. Encontramos essas divisões quando falamos da formação do universo ou simplesmente quando dividimos o tempo em dias, meses, estações do ano, anos, séculos, etc., ou mesmo quando nos referimos ao tempo de plantio, de colheita. Todas essas classificações são criadas pela constância observada nas mudanças e na evolução dos seres e das coisas. Só bem mais tarde é que aparece a aplicação da noção de idade aos diferentes momentos da vida de um indivíduo e está ligada aos domínios da educação, da transmissão das técnicas e da cultura social para as novas gerações. É fácil constatarmos que cada homem nasce, se desenvolve durante um certo tempo, estabiliza e depois declina e morre. Da mesma maneira, verificamos isso no nascimento e na morte de outros seres vivos e sobre todo tipo de transformações na natureza, por exemplo, as plantas. No entanto, esse ciclo de vida no homem, como visto anteriormente, não se dá numa mesma forma linear e contínua. A divisão em etapas diferentes está certamente ligada às necessidades educativas daquilo que devemos aprender para melhor nos adaptarmos à vida. Também encontramos divisões de etapas na história, na geologia e na sociologia, por exemplo. Temos com Karl Marx a descrição dos estágios da evolução da sociedade, cujas formas sucessivas são caracterizadas cada uma por um modo específico de produção: modo antigo, modo escravagista, modo feudal, modo capitalista e modo socialista. 20 A noção de estágio ou de etapa apresenta uma utilização muito ampla, aplicando-se a domínios numerosos e diferentes. O que da Sociologia. Existe de comum entre eles é que todos representam os fenômenos que mudam, que se transformam e que se desenvolvem. A noção de estágio está ligada à do “devir”, ou seja, ao que vai vir a ser. A psicologia da criança, que se desenvolveu sob a influência das ideias da evolução, não escapou dos debates entre a continuidade ou descontinuidade do desenvolvimento e também divide esse desenvolvimento em estágios como vamos ver mais adiante. Como vimos anteriormente, a aprendizagem é um processo que está interligado com o de desenvolvimento da pessoa. Sendo assim, a educação na escola deve proporcionar ao aluno experiências pessoais que promovam o seu desenvolvimento intelectual. A tarefa do educador é, pois, de orientar, de regular e de organizar o meio social educativo, ou seja, ele deve atuar em todos os ambientes da escola como um facilitador da sua própria interação com os alunos e das relações que se estabelecem entre eles. Com certeza você já faz isso no seu dia-a-dia quando busca conhecer um aluno e o ajuda no espaço da escola. Após conversar com os dois, e cada um dizia que era culpa do outro, D. Joana, tranquilamente apenas disse que não queria saber de quem era a culpa. Se os dois estavam brigando, então os dois tinham de parar. Os meninos pararam e cada um foi para o seu lado. Vamos pensar um pouco sobre o que aconteceu. O que D. Joana fez foi criar um espaço de conversa, tranquilo sem provocar mais ainda o conflito entre os meninos de modo que eles pudessem se acalmar e ver que os dois tinham de parar de brigar, sem culpar nenhum dos dois. Talvez você já tenha passado muitas vezes por uma situação como essa e resolveu a situação mesmo sem ter tido antes nenhum conhecimento de alguma teoria de psicologia. Poderíamos dizer que D. Joana fez o que algumas teorias propõem que é resolver os conflitos a partir do diálogo, nesse caso, mesmo sem conhecer a teoria. 21 O importante é poder contar com um conhecimento a mais para refletirmos a nossa prática e buscar fazer dessa prática uma ação que seja educativa, que leve o outro, no caso o aluno, ao seu desenvolvimento intelectual e pessoal. Muito tem sido exigido dos educadores e poucos têm sido os recursos fornecidos para que possam, efetivamente, desenvolver tudo que é pedido. Muitas vezes, espera-se que os funcionários cumpram com todos os seus serviços da melhor maneira possível sem serem dadas as condições necessárias para tal. Sendo assim, espero que o que estamos dizendo aqui, possa, entre outras coisas, possibilitar um conhecimento sobre como se dá o processo de desenvolvimento humano para que você possa se relacionar melhor com os alunos e com os colegas de trabalho. Como vimos antes, existem várias teorias do desenvolvimento na psicologia. Possivelmente, você já ouviu falar de Freud e Piaget. Esses, sem dúvida, são os teóricos mais conhecidos da psicologia do desenvolvimento. 4 A PSICANÁLISE DE FREUD Sigmund Freud é mais conhecido pela sua teoria do desenvolvimento da sexualidade. Muitas são as pessoas que dizem que para ele tudo “é sexo”. Mas, não é isso. A sua grande contribuição é mostrar que o homem tem um desenvolvimento sexual ao longo da sua vida que é determinado pela cultura em que está inserido. Para Freud, a sexualidade no homem não é apenas dada pelo desenvolvimento biológico, mas é formada, principalmente, por uma energia que ele chamou de libido, que é motor de busca desatisfação de nossos desejos. 22 Sigmund Freud Sigmund Freud (18561939) nasceu na Áustria. Formou-se em medicina em Viena e logo depois foi para Paris para estudar neurologia. Mais tarde, Freud criou seu método, chamado Psicanálise que é composto de três técnicas: associação livre, análise dos sonhos e análise dos atos falhos. Freud pedia a seus pacientes que, durante a análise, se deitassem num divã e relaxassem e falassem tudo que passasse na cabeça. Enquanto o paciente falava, ele permanecia sentado atrás do divã, em silêncio, fazendo anotações de modo a deixar o paciente livre para expor seus pensamentos. A sua tarefa, e a dos psicanalistas hoje, era ajudar o paciente a compreender quantos fatores do passado têm estado regulando seu comportamento presente. Os escritos de Freud demonstraram a importância dos impulsos sexual e agressivo. Sua teoria difundiu-se por todo o mundo, mesmo antes de sua morte em Londres, onde havia se refugiado por causa da invasão dos nazistas na Áustria. A influência de Freud tem sido notável, não só na medicina e na psicologia, mas também na educação e em outros setores da atividade humana. O que foi bastante revolucionário na sua teoria, foi o fato de ter mostrado que o impulso sexual já se manifesta no bebê e tende a uma definição de escolha da atividade sexual no adulto. Em um dos seus escritos mais importante, Três ensaios sobre a sexualidade (1905), Freud descreveu a sequência típica das manifestações do impulso sexual, distinguindo cinco fases do seu desenvolvimento: oral, anal, fálica, latência e genital. Poderíamos apontar muitas outras contribuições da psicanálise, mas talvez o que nos interessa no momento é sabermos que não temos conhecimento total da 23 nossa consciência, pois ela se encontra dividida em: consciente, pré-consciente e inconsciente. Isso significa que todos nossos atos, mesmo aqueles aparentemente praticados por acaso, estão relacionados a uma série de causas, das quais nem sempre temos consciência. Foi Freud que tentou explicar porque dizemos coisas que não queríamos dizer. 5 A TEORIA DE PIAGET Jean Piaget é outro dos teóricos de muita relevância no cenário da psicologia do desenvolvimento. Seus trabalhos são reconhecidos no mundo todo e sua contribuição para educação é considerada como essencial. Jean Piaget (1896-1980) nasceu na suíça, formou-se em ciências naturais e tinha muito conhecimento em sociologia, religião e filosofia. Interessou-se pelo estudo de como o conhecimento é obtido (epistemologia) e depois entrou no campo da psicologia. Trabalhou em Paris no laboratório de Binet que foi quem desenvolveu os primeiros testes de inteligência. Publicou vários livros e artigos sobre o desenvolvimento cognitivo da criança. Para Piaget, a habilidade de pensar resulta de uma base fisiológica e da interação com o meio social. A ação do sujeito na busca da adaptação, ou seja, na busca de solucionar desafios, possibilitam a construção do conhecimento e o desenvolvimento mental. 24 Embora não tenha deixado um método pedagógico, a teoria de Piaget tem sido referência para a prática didática dos educadores, principalmente na elaboração dos conteúdos programáticos A partir dos estudos com crianças, principalmente observando sistematicamente o comportamento dos seus filhos, ele elaborou uma teoria que revolucionou a compreensão do desenvolvimento intelectual. Sua teoria explica o desenvolvimento mental do ser humano no campo do pensamento, da linguagem e da afetividade. Na sua proposta teórica, o desenvolvimento cognitivo é explicado numa sucessão dos seguintes estágios: sensório motor (0 a 2 anos); pré-operacional (2 a 6 anos); operações concretas (7 a 11 anos); operações formais (12 anos em diante). Essas idades atribuídas aos estágios não são rígidas, podendo haver grande variação individual. Piaget também contribuiu com uma sistematização do desenvolvimento da moral e sua busca pelo entendimento do porque as pessoas davam respostas “aparentemente erradas”, levou-o a questionar os testes de inteligência que eram aplicados na época. A partir desses questionamentos concluiu que as crianças não pensam de modo algum como os adultos. Seu método de investigação era a entrevista em forma de perguntas do tipo: Por que chove? O que faz o sol brilhar? Quando alguém chuta uma bola, a bola sente dor? Depois, ele analisava as respostas das crianças, não para avaliar se estavam certas, mas para entender como elas encontravam soluções para as perguntas. 6 A TEORIA DE WALLON Além de Freud e Piaget, Wallon apresenta uma visão do desenvolvimento que é muito importante para a compreensão do ser humano. Nós vamos estudá-la mais detalhadamente para entendermos o processo de formação da pessoa por achar que ele nos proporciona uma visão do ser humano mais completa, que abrange os aspectos cognitivos, afetivos e sócio históricos da constituição do indivíduo. 25 Segundo Wallon, a criança e o adulto formam uma unidade indissolúvel. Isso porque o desenvolvimento da criança se dá em direção à vida adulta. É preciso ver a pessoa em uma perspectiva que contemple o passado, o presente e o futuro. O que somos é uma unidade do que fomos que se atualiza a cada momento, delineando o que vamos ser. É quase dizer que o futuro é hoje, pois ele está sempre sendo e deixando de ser. Pode parecer jogo de palavras, mas não é. O problema é que nos acostumamos a pensar as coisas como se elas fossem pré-determinadas e que não mudassem. “Pau que nasce torto, morre torto”. Se aceitarmos esse dito, não deveríamos nem falar em educação, pois não levaria a nada educar alguém. Não é mesmo? Eu acredito na possibilidade da mudança mesmo que ela seja muito difícil de conquistar. Wallon nos mostra a necessidade de concebermos o desenvolvimento como um processo de evolução dinâmica, sempre em movimento e sofrendo mudanças não só quantitativas, mas, qualitativas a partir de uma base material, ou seja, do orgânico. Esse desenvolvimento se dá em etapas cada qual com suas características específicas. 6.1 Período da vida intrauterina Wallon começa a descrever as etapas do desenvolvimento mostrando a importância do período da vida intrauterina. Nesse período, a criança encontra-se em uma total dependência biológica do organismo materno, mas já se faz presente no meio social por meio dos seus movimentos. Você que já teve neném, que já acompanhou a gravidez de alguém, com certeza já curtiu sentir “as mexidas” da barriga da mulher grávida. 6.2 Estágio impulsivo E o que ocorre depois do nascimento? Com o nascimento, surge uma nova fase, na qual a criança já depende de si própria em relação à respiração e à capacidade de auto regulação da temperatura do seu organismo. No restante, sua dependência com o meio, especialmente com a mãe, é de total exigência de atenção. 26 A importância dessa atenção se refere tanto ao desenvolvimento psíquico como físico. A sua falta pode acarretar danos às funções orgânicas, podendo mesmo chegar a definhar fisicamente. O bebê humano necessita de um outro até para mudar de posição. Às vezes, ele chora porque está muito tempo em uma mesma posição, podendo ter câimbra. É por isso que Wallon diz que o ser humano é desde sempre social, pois sem um outro que o alimente e o embale, ele não sobrevive. É o período das necessidades alimentares e posturais, da mudança de posição e de ser transportada ou embalada. Muitas vezes a criança precisa apenas de estar no colo para sentir a presença do outro e se acalmar. Nessa fase, a satisfação das suas necessidades não é automática, o que faz com que a criança comece a conhecer os sofrimentos da espera ou da privação, levando-a a ter reações de espasmos e gritos, com gestos explosivos de simples descargas musculares. As reações do recém-nascido geram interpretações dosadultos, na tentativa de decifrar suas necessidades expressas em cada tipo de grito. Os primeiros gestos são manifestações da emoção e constituem-se na primeira linguagem do homem. O adulto à sua volta tenta decifrar as expressões do bebê e estabelece uma comunicação que permite o início nos significados do adulto. É só lembrar de uma criança com fome. Ela grita e esperneia sem que ninguém consiga fazê-la parar de berrar. 6.3 Estágio emocional Por volta dos seis meses, a criança já é capaz de manifestar uma grande quantidade de expressões emocionais, tais como a raiva, a dor, a tristeza e a alegria. Durante esses dois estágios, a criança depende muito dos outros em sua volta. Não apenas para alimentá-la, mas para desenvolvê-la emocionalmente. Daí a importância de começar desde o nascimento a conversar com a criança, pois é por meio da linguagem que ela vai se apropriando da cultura em que está inserida. 27 6.4 Estágio sensório-motor Do primeiro ano de vida ao começo do segundo, a criança procura explorar o mundo a seu redor. Agora as atividades dominantes são a marcha e a fala, que libertam a criança de numerosas dependências ou limitações. A partir daí começam os conflitos entre os adultos e as crianças. Elas não têm ideia dos perigos, mas precisam explorar e conhecer o que está em sua volta. É o princípio da aprendizagem e do desenvolvimento das capacidades intelectuais. É preciso permitir à criança que ela vá descobrindo por ela mesma as coisas ao seu redor. 6.5 Período do personalismo Por volta dos três anos, surge a etapa em que a criança passa a ser o foco principal. É como se ela se voltasse para o seu interior e começasse a tomar consciência de si mesma. A criança demonstra a necessidade de se afirmar, de conquistar a autonomia, o que leva ao surgimento de muitos conflitos com ela mesma e com os adultos que cuidam dela. Ela se confronta e se opõe às pessoas sem motivo aparente, mas com o propósito de provar sua independência e existência. É o famoso período em que a criança diz “não” para tudo, mudando de opinião sem explicação. É um período difícil que é sucedido por um outro mais positivo, de encanto. É a idade da graça, mas também de muita timidez e inibição; é quando a criança tem prazer em se exibir diante dos adultos, mas é tomada repentinamente por uma vergonha que a imobiliza. O conflito às vezes acaba por imobilizar a criança, então o único recurso que resta é chorar. Por fim, apresenta-se um novo confronto com as outras pessoas, com uma nova forma de participação e de oposição. Já não se trata apenas de reivindicação de ser diferente, mas sim de um esforço de substituição pessoal por imitação de um papel, de uma personagem, ou de alguém preferido ou invejado. A imitação permite a identificação de um modelo e não significa que a criança já esteja fazendo escolhas para sua vida adulta. É importante que o adulto possibilite 28 essa identificação que muitas vezes aparece como um jogo simbólico. É quando a criança se veste com uma fantasia de super-herói e se acha o mais valente de todos. Parece até que a brincadeira preferida é a de “agora eu sou...” em que tudo é possível! Mesmo lutando pela sua independência, a criança continua ainda nesse período, numa profunda dependência do seu meio familiar, mantendo-se assim até a idade de entrar na escola, no ensino fundamental. 6.6 Período da puberdade e adolescência Neste período que vai dos seis aos doze anos, a criança se volta outra vez para as coisas em volta dela. A escola, nesse período, desempenha um importante papel na vida psíquica da criança, alargando suas relações pessoais e sua capacidade intelectual. No entanto, isso se dá de forma lenta e difícil. Diante de tarefas propostas pelo professor, na maioria dos casos, impostas, sem utilidade aparente, a criança reage chegando às vezes a uma “verdadeira sonolência intelectual” demonstrando um falso desinteresse pelas coisas. Por isso é importante o adulto tentar conhecer como a criança pensa e que relações ela faz ao pensar em determinado assunto, para fazer com que ela se interesse pela tarefa da escola. O equilíbrio é rompido nessa fase de maneira mais ou menos repentina e violenta, a pessoa encontra-se em uma crise que pode ser comparada à dos três anos. A diferença é que, nesse momento, as outras pessoas são menos importantes para o adolescente e as exigências de sua personalidade, agora em primeiro plano, entram em conflito com os costumes, hábitos de vida e relações da sociedade. O retorno da atenção sobre ele próprio causa, no adolescente, as mesmas alternâncias de graça e de embaraço dos três anos. 6.7 Período da fase adulta Finalmente surge a fase adulta em que aparentemente a pessoa atinge um equilíbrio entre as alternâncias de se voltar para o seu interior e o interesse pelo 29 intelectual. Nesse momento, o adulto continua se desenvolvendo emocional e intelectualmente. Veja a seguir os estágios de desenvolvimento Período da vida intrauterina – total dependência fisiológica, marcada por reações motoras. Período impulsivo e emocional – depois do nascimento. Abrange o primeiro ano de vida; as emoções prevalecem e permitem as primeiras interações da criança com seu meio. Período sensório-motor – por volta dos dois anos. Predomínio da exploração do mundo físico e caracterizado pela aquisição da marcha e da palavra. Período do personalismo – entre três e cinco anos. Período dos confrontos e de formação da autonomia. Período da puberdade e da adolescência – antes da idade adulta. Crise comparada à dos três anos com o retorno da atenção sobre sua própria pessoa. Período da fase adulta – a pessoa atinge um certo equilíbrio entre o desenvolvimento emocional e o intelectual. 6.8 Papel do educador na formação da personalidade do aluno A idade de entrada na escola, em quase todos os países, é dos seis a sete anos, quando a criança, de acordo com as etapas do desenvolvimento, torna-se capaz de reconhecer uma letra que combinando com outras, pode formar sílabas e palavras. Da mesma forma, também é capaz de compreender operações da matemática. Em termos sociais, ela agora deixa de ser função unicamente do grupo familiar e passa a ser uma unidade em condições de entrar em diferentes grupos. Essa fase é, portanto de extrema importância para o desenvolvimento intelectual e social, mas é preciso ressaltar a ligação existente desses aspectos, com o desenvolvimento da personalidade. Assim, podemos dizer que o aprendizado escolar da criança poderia ser favorecido se todos os educadores envolvidos no processo desenvolvessem, ao mesmo tempo o intelectual e as aptidões sociais. A escola passa a se constituir como um grande grupo que abriga diversos grupos menores. 30 O grupo é indispensável à criança não só para a sua aprendizagem social, mas para o desenvolvimento da sua personalidade. (Wallon). Sendo o grupo tão fundamental para o desenvolvimento da criança, é preciso que você, como educador e participante do grupo, possa intervir favorecendo essa forma de socialização, incentivando a cooperação, o espírito de solidariedade e de mútua interação, em lugar de desenvolver o espírito de concorrência e de conflito coletivo. A convivência com o grupo é, pois, muito importante para o desenvolvimento da personalidade. Então, estamos falando em desenvolvimento da personalidade. Mas e você, o que acha disso? O aluno quando chega à escola já tem uma personalidade formada? O que você pensa sobre personalidade? Aprender alguma coisa na escola contribui para a formação da personalidade? Não se esqueça de anotar no seu memorial as respostas que você vai encontrando ao ler essas perguntas. Anote sempre o que vier de imediato a sua cabeça, depois releia e se for o caso escreva de novo. Algumas teorias na psicologia entendemque ao aprender os conteúdos formais das disciplinas, a pessoa vai se constituindo na sua personalidade também. Para essas teorias, a personalidade significa a maneira habitual ou constante de reagir, de cada indivíduo que se constrói progressivamente segundo um ciclo de alternância de duas funções principais: a afetiva e a inteligência. A personalidade representa a integração de um componente afetivo, o caráter, e de um componente cognitivo, a inteligência. A cada etapa do seu desenvolvimento, a pessoa reage às situações de acordo com suas condições emocionais e suas possibilidades intelectuais. A aprendizagem de coisas diferentes faz surgir nos alunos necessidades novas e outras atitudes. Sendo assim, é importante reconhecermos no aluno a possibilidade de mudança da sua maneira de ser, a partir do seu aprendizado escolar. Portanto, a escola é vista, por essas teorias, como sendo um espaço de construção da personalidade: 31 O desenvolvimento da inteligência está ligado ao desenvolvimento de sua personalidade. (Wallon) Podemos fazer uma reflexão sobre isso se pensarmos, por exemplo, como agíamos de modo diferente quando éramos pequenos e passamos a ver as coisas de outra maneira ao aprendermos como os fatos acontecem. Antes de aprender a falar, a comunicação se dá pelo choro ou pelo riso. Depois que aprendemos a usar a linguagem, passamos a comunicar sentimentos, desejos e a transmitir informações por meio da fala. Quando somos pequenos temos alguns medos que nos imobilizam. À medida que adquirimos conhecimento, passamos a entender o porquê de alguns acontecimentos e deixamos de ter medo. Às vezes, utilizamos histórias de “bicho papão” para amedrontar as crianças e depois quando elas aprendem que os “bichos papões” são nossas invenções, elas riem dessas histórias. Na escola, muitas vezes, os educadores querem impor o respeito pelo medo. Isso pode funcionar com as crianças pequenas, mas à medida que elas crescem e aprendem a relacionar-se de outra maneira, isso não funciona mais. É justamente por isso que é preciso que nós educadores utilizemos o espaço da escola para a formação da personalidade dos nossos alunos. Para tal, é preciso que as relações entre todos sejam de diálogo e que permitam o entendimento da necessidade de haver respeito e façam sentido no dia-a-dia de todos os envolvidos. A relação entre o educador e o aluno deve ser de interação. O educador não deve estar ausente do processo de desenvolvimento do aluno, nem se impor de forma autoritária. Ele é o responsável pela organização da relação com os educandos, cuidando para preservar sua espontaneidade. A ele compete ajudar o aluno a se livrar da dispersão que o contato com as coisas provoca em seus interesses ou em sua atividade. Uma das dificuldades da escola é fazer que o aluno tenha interesse nas atividades propostas pelos professores, pois que, muitas vezes, elas não fazem sentido de imediato. Pedir atenção dos alunos para as tarefas da escola é exigir um esforço abstrato que os fatiga excessivamente. 32 Os educadores, portanto, devem procurar descobrir atividades e situações que toquem de perto o aluno, promovendo seu interesse, que é a grande força da atenção. Um outro aspecto de controvérsia em relação ao ensino e aos interesses, às curiosidades e às iniciativas dos alunos, diz respeito à disciplina. Tradicionalmente, disciplina significa obter a tranquilidade, o silêncio e a passividade dos alunos, para que eles não se distraiam dos exercícios e das regras propostos pela escola. Mais adiante trataremos especificamente dessa questão. 6.9 A formação pessoal do educador Nosso objetivo nesta seção é refletir a formação do educador no que diz respeito à sua pessoa. Então vamos conversar um pouco antes de começarmos. Você certamente irá concordar comigo que o que você é hoje, com a sua idade e tudo que faz é bem diferente de quando tinha mais ou menos dois anos de idade, certo? Naturalmente que você se desenvolveu e aprendeu muito nos anos que passaram, até os dias de hoje. Você mudou, não é mesmo? Pois bem, todos nós somos o que fomos e o que ainda vamos ser, sabendo o que somos agora. Se concordarmos com isso, podemos acreditar que somos seres em constante processo de mudança. Às vezes não é fácil admitirmos que estamos sempre mudando, mas se fizermos um esforço e pensarmos no que éramos há uns cinco anos, poderemos ver que algo em nós mudou. O importante e bonito do mundo é isso: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas, mas que elas vão sempre mudando. (Guimarães Rosa). Este curso tem exatamente como meta permitir a formação de um novo educador, portanto provocar mudanças. Estamos pensando a pessoa do educador em processo de formação, pois entendemos que além das exigências de conhecimento da psicologia, é importante uma formação psicológica no que se refere à pessoa do educador. Isso significa a necessidade de discutirmos como se dá esse processo, principalmente em relação ao desenvolvimento da sua personalidade. A natureza do homem não existe “pronta e definida”. Ela consiste na sua atividade vital, no seu trabalho. A natureza psicológica da pessoa é o conjunto das 33 relações sociais que se tornam funções da personalidade e das formas da sua estrutura criadas no coletivo. A personalidade é algo mutável e deve ser considerada no seu devir e no seu desenvolvimento, como um processo de transformações. A personalidade é uma categoria que, como muitas outras, revela as contradições dentro do campo da psicologia. A ideia de pessoa, de um “eu”, para a história da humanidade é considerada recente. Na antiguidade, por exemplo, os escravos não tinham direitos, pois eram vistos como seres que não tinham personalidade, nem corpo, nem antepassados, nem nome, nem bens próprios. Os livros de psicologia sobre personalidade trazem diferentes abordagens sobre o tema e mostram não haver uma definição de consenso entre todos os psicólogos. Há cerca de cinquenta definições de personalidade. Às vezes, ela é definida pela sua importância social e em outras pela impressão positiva ou negativa que o indivíduo causa em outras pessoas: personalidade agressiva, passiva, tímida, etc. Nas duas apresentações, encontramos um elemento de valoração da personalidade como boa ou má. Diz-se até que uma pessoa tem ou não personalidade. Em algumas ocasiões, chegamos a dizer que um aluno apresenta problemas de personalidade, indicando com isso que ele não consegue manter relações satisfatórias com seus colegas e professores. A maioria das teorias atribui uma importância muito grande aos fatores hereditários. Daí, o famoso dito: “Filho de peixe, peixinho 53 é”. O biológico predomina nas teorias e a ênfase é dada aos fatores ocorridos nas fases da infância do desenvolvimento. O desenvolvimento da personalidade do adulto não foi destaque na psicologia por várias décadas. A concepção dominante, nas teorias e no senso comum, é a de que após o período de turbulência da adolescência, nada de novo acontece no desenvolvimento do adulto. Com o fim da escolarização, com a entrada no mercado de trabalho e a constituição de uma nova família, só resta ao adulto esperar o inevitável fim da vida com a morte. 34 A ideia aqui apresentada de personalidade leva em consideração um sujeito ativo em suas ações que se apoia em sua personalidade para exercer essas ações, ao mesmo tempo em que a partir da própria ação transforma sua personalidade. A personalidade é vista como um processo que se constitui e se desenvolve ao longo de toda a vida do homem. Não se reduz, portanto, à infância e nem à adolescência. O indivíduo se desenvolve constantemente na medida em que acumula experiência individual e coletiva. O grande desafio é o de conceber o adulto em processo de desenvolvimento e de mudança. Assim,o educador em sua formação, como profissional de educação, deve passar por experiências que faça sentido e que aumente seus recursos de personalidade para exercer suas funções, comprometendo-se a desenvolver características de personalidade para o desempenho da profissão. As relações interpessoais na escola são bastante complexas e muitas vezes a rotina das tarefas ali executadas não permitem uma reflexão das nossas ações. Sendo assim, em várias ocasiões não aproveitamos os recursos que temos para educarmos os nossos alunos e agimos de maneira impensada, cansando mais do que o necessário. O que é preciso para a prática de uma educação com respeito mútuo entre todos os envolvidos no espaço escolar? Acreditamos que uma condição básica para isso é a de que o educador tenha conhecimento de suas próprias formas de pensar e agir, nas diferentes situações em que se encontra. É preciso levar em consideração o desenvolvimento da sensibilidade frente aos educandos para poder compreender a complexidade das relações estabelecidas e, portanto, entender que não são passíveis de total controle. Assim, é importante que o educador esteja seguro da sua prática e de si mesmo, como profissional e adultos, para que, ao se sentir ameaçado, não ameace. Só assim, poderá ser respeitado naquilo que faz e ser reconhecido pelos outros. Acreditamos que devemos estar prontos para aprender sempre e poder ser ouvidos em relação as nossas dificuldades, desejos e expectativas no nosso cotidiano, para que a aprendizagem contínua constitua-se como instrumento constante de inovação e de melhoria da situação pessoal e coletiva dos educadores. 35 7 CONTEXTO SOCIAL 7.1 Papel da mídia na escola Nesta unidade, vamos conversar sobre o contexto social em que estamos inseridos, nós e a escola. Sendo assim, quero propor uma reflexão sobre alguns pontos muito presentes no nosso dia-a-dia que se relacionam diretamente com o cotidiano escolar. Um deles é o papel da mídia nas nossas vidas. Você pode estar se perguntando: mas, afinal o que o papel da mídia na escola tem a ver com o nosso curso? Eu responderia que tem muito a ver, pois acho importante abordar a questão da mídia na escola por entender que todos os meios de comunicação exercem influência marcante na nossa formação de educadores e na formação dos educandos também. Defendemos neste curso que o espaço educativo vai além da sala de aula, e a mídia (rádio, televisão, jornal e cinema) exerce um papel de fundamental importância na educação escolar. Vale ressaltar que a aprendizagem de vida se dá em diferentes contextos como o trabalho, a igreja, o grupo de amigos, os locais de diversão e a própria escola. Isso tudo mostra a necessidade de estarmos abrindo o espaço escolar a outros espaços e sempre considerarmos o aprendizado que temos na “vida” como importante. Vamos falar da televisão. Esse veículo de comunicação que é um dos produtos da indústria cultural que mais provoca discussões sobre suas consequências na vida dos cidadãos, seja de informação ou de alienação, vai ser tratado aqui sob a perspectiva de educadores. Independente das nossas opiniões sobre a televisão, o fato é que ela faz parte da escola porque somos todos, educadores e educandos, telespectadores. Portanto, escola e televisão cruzam-se e sobrepõem-se nos sujeitos sócio históricos que compõem o grupo escolar. Somos, então, telespectadores de muitas horas diárias e os alunos, com certeza dedicam mais horas em frente à TV do que às tarefas da escola. Dessa maneira, proponho pensarmos o papel do meio de comunicação como espaço de 36 discussão crítica-construtiva no processo de ensino-aprendizagem. Você conhece alguém que não assista a algum programa de televisão? Eu conheci muitas famílias que não tinham geladeira, mas tinham televisão em casa. Proponho pensarmos o papel desse meio de comunicação como um espaço de discussão crítica construtiva no processo de ensino aprendizagem. Uma primeira consideração sobre esse tema diz respeito ao fato de que hoje em dia nós somos mais ligados aos programas de televisão do que aos outros meios de comunicação como a rádio e o jornal. Há mesmo aqueles que temem que a televisão venha a suprimir estes outros veículos de comunicação. Eu acho que cada um tem seu valor e sua importância. No entanto, o que acontece é que a televisão tem atingindo muito mais a população como um todo. Devemos, portanto, destacar sua importância e podemos verificar que, como concorrente da escola, a televisão está em vantagem pelo uso de alta tecnologia para alcançar o interesse de entretenimento das pessoas. No entanto, ela não está apenas a serviço do entretenimento, ela também ensina. E é aí que leva vantagem sobre a escola, pois aparentemente não pretende ensinar, mas ensina. Enquanto que a escola, aparentemente pretendendo ensinar, muitas vezes não atinge seu objetivo. Com a TV aprendemos modos de falar, padrões de comportamento, modos de julgamento, informações sobre diversos assuntos, etc. Na escola, podemos dizer que aprendemos o mesmo. A diferença principal é que na escola a linguagem escrita é a privilegiada, enquanto na TV a linguagem privilegiada é a oral. Esse é um ponto importante que devemos pensar, a linguagem na escola está muitas vezes destituída de significado para aqueles aos quais se destinam e o resultado pode ser observado no imenso número de desistência da escola. Vamos pensar um pouco sobre tudo isso? Qual o papel da mídia nas nossas vidas? Dentre televisão, rádio e jornal, qual o meio de comunicação que você faz mais uso? Escreva suas respostas no seu memorial. Pela divulgação de várias pesquisas, sabemos que a televisão é o meio de comunicação mais utilizado na nossa sociedade e se inseriu entre nós de maneira tão definitiva que pode ser considerada um padrão universal de nossa cultura. Por que 37 será? Acho que a TV, além de seduzir o telespectador e por seu fácil acesso, possibilita uma cobertura de informações sobre os diferentes acontecimentos da nossa sociedade assim como de outras que, só temos contato via “telinha”. A TV é organizada e planejada segundo um modelo industrial de produção que difunde e produz conhecimentos divertindo os telespectadores. A influência televisiva é muito marcante em toda a população. As novelas, por exemplo, ditam a moda desde o corte do cabelo até o jeito de se vestir e de falar. Mas não são apenas as novelas que influenciam. A estrutura comercial da TV, por meio de uma propaganda elevada à categoria de espetáculo, lança apelos, os mais diversos, no sentido de fazer de nós telespectadores eficientes e assíduos consumidores. Além de roupas, de alimentos e de cigarros, consumimos, consequentemente, modos de vida, concepção política e visão mundo. Podemos facilmente observar como as crianças desde muito cedo dançam ao som dos ritmos modernos mais tocados nos programas da TV. Portanto, acredito ser de extrema importância pensar o seu papel na escola como possibilidade de instrumento que possa contribuir para uma consciência crítica do processo educativo. A imagem deve ser utilizada como forma de desenvolver o diálogo e o questionamento para desenvolver a consciência do aluno. O uso da imagem, além do caráter didático nos aproxima do mundo de imagens utilizadas no nosso cotidiano a partir das propagandas, dos cartazes fixados nos meios de transporte coletivos, etc. Mas nem tudo na televisão é bom. As mensagens são transmitidas de maneira fragmentada ou segmentada. Às vezes dificultando o entendimento do telespectador. Muitas informações são apresentadas como soltas no espaço, sem conexo com antecedentes, nem consequentes. Um noticiário de um dia pode não ter nenhuma ligação com o do outro dia. Você já deve ter reparado que uma notícia, por exemplo, de um crime é dada em um dia e depois não ficamossabendo o que aconteceu em seguida. A fragmentação das informações na TV extrai a lógica dos acontecimentos, as causalidades e as consequências. 38 A escola deve admitir que a TV está em vantagem sobre ela. Assim, o desafio passa a ser como explorar o seu uso em benefício da aprendizagem. Deve aproveitar a colaboração que os serviços prestados pela TV trazem à população. Várias lições podem ser tiradas da TV, por exemplo, o prazer na aprendizagem e a forma de lazer que pode ser esse processo. Por se tratar de uma linguagem tão presente na nossa cultura, não é mais possível ignorar a televisão e os demais meios de comunicação na escola. Principalmente se a escola pretende atender um projeto democrático de sociedade, que almejamos construir, devemos adotar os meios de comunicação como objeto das atividades escolares. Isso não implica, de forma alguma, menosprezar o trabalho com o texto escrito ou com outros conhecimentos sistematizados utilizados na escola. 7.2 Educação inclusiva “Educação para todos” A constituição federal assegura o direito a todos os cidadãos à educação básica. No entanto, se falamos em educação inclusiva parece que nem todos estão realmente garantidos nesse direito. Você concorda que a educação deve realmente ser para todos? Eu acredito que sim. Por educação inclusiva se entende o processo de inclusão dos alunos com necessidades educacionais especiais ou com distúrbios de aprendizagem na rede comum de ensino, em todos os seus graus de escolaridade. A noção de escola inclusiva surge a partir da reunião da UNESCO em Salamanca, na Espanha, em 1994. Desde então, as discussões sobre a inclusão ganham espaço em todos os países. No Brasil, essa discussão toma uma dimensão que vai além da inserção dos alunos com deficiências, pois eles não são os únicos excluídos do processo educacional. O sistema regular de ensino tem demonstrado uma deficiência no que diz respeito à educação inclusiva. A escola consegue incluir apenas aqueles que se adaptam a um sistema que atende o aluno com bom desenvolvimento psicolinguístico, 39 motivado, sem problemas de aprendizagem e oriundo de um ambiente sócio familiar que lhe proporciona estimulação adequada. Além disso, há um número cada vez maior de alunos que, por motivos diversos, como problemas sociais, culturais, psicológicos e/ou de aprendizagem, fracassam na escola. Como vimos anteriormente, a ciência, em particular as teorias de desenvolvimento e aprendizagem, estabelece um padrão de normalidade em que as teorias pedagógicas se apoiam estabelecendo uma metodologia de ensino “universal”, comum a todas as épocas e a todas as culturas. Assim, acreditou-se por muito tempo que havia um processo de ensino- aprendizagem “normal” e “saudável” para todos os sujeitos. Em consequência, aqueles que por ventura apresentassem algum tipo de dificuldade, distúrbio ou deficiência eram considerados “anormais” e denominados de “alunos especiais” e portanto excluídos do sistema regular de ensino. A partir dessa concepção de normalidade, passou-se a ter dois tipos de processos de ensino-aprendizagem: o “normal” e o “especial”. Para o primeiro caso, os educadores seriam formados para lidarem com os alunos “normais” que seguem o padrão de aprendizagem para o qual eles foram preparados durante o seu curso de formação. No segundo caso, os alunos com dificuldades ou distúrbios de aprendizagem, que precisariam de um processo de ensino aprendizagem diferenciado, não têm educadores que sejam preparados devidamente. Ou seja, a descriminação se inicia no fato de não haver uma discussão em relação ao conhecimento dos diferentes processos de ensino-aprendizagem na formação dos educadores. Muitas vezes os professores são capazes de diagnosticar um problema do aluno a partir de características gerais de determinadas deficiências, como por exemplo, deficiências visuais, auditivas ou motoras. No entanto, não são capazes de reconhecer as potencialidades do sujeito que tem uma dessas deficiências. É como se o sujeito desaparecesse e ficasse apenas frente ao educador a deficiência. Com isso o aluno deixa de ser sujeito que continua a se desenvolver e a aprender. 40 Além disso, o diagnóstico tem servido apenas para dizer o que o aluno não pode fazer. Mas isso não é muito difícil. Uma pessoa que tem dificuldade de enxergar com certeza não vai conseguir ler o que está escrito no quadro ou nos livros. O desafio para o professor é saber como ensinar a essa pessoa que exige uma fórmula diferenciada do aluno sem dificuldades. O diagnóstico, portanto, serve apenas para limitar a vida do aluno na escola. Também é observado esse fato no ensino regular quando o professor não consegue reinterpretar as dificuldades e as necessidades do aluno no contexto escolar. Muitas vezes, o professor envia o aluno com dificuldade de aprendizagem para o ensino especial, onde é mantido anos a fio sem que consiga obter resultados significativos. O educador, no contexto de uma educação inclusiva, precisa ser preparado para lidar com as diferenças, com a singularidade e com a diversidade de todas as crianças e não com um modelo de pensamento comum a todas elas. Cabe a ele observar criteriosamente as necessidades de todos. Essa observação deve ser feita a partir do diálogo com o aluno. Só podemos conhecer bem o outro se estivermos o mais próximo dele para perceber a melhor maneira de intervir. Muitas vezes ao querer ajudar, acabamos por decidir qual a sua necessidade e o que é melhor para ele. Mas nem sempre acertamos. Sendo assim, é importante ajustar, junto com o aluno, os processos de aprendizagem de modo a lhe proporcionar um ganho significativo do ponto de vista educacional, afetivo e sociocultural. Trabalho em escolas inclusivas e me solidarizo com a angústia dos educadores frente ao seu despreparo para lidar com os alunos com necessidades especiais. Muitos educadores ficam imobilizados em relação a esses alunos por pena da situação em que eles se encontram. Mas ter pena não ajuda muito, não é mesmo? Outros acham que esses alunos já têm tantas dificuldades que o melhor seria eles ficarem em casa ou em qualquer outro lugar que não exigisse muito esforço deles. E você, o que acha disso tudo? Escreva sua opinião no seu memorial. Sabemos que a segregação social e a marginalização dos indivíduos com deficiências têm raízes históricas. Há muito tempo atrás, quem se ocupava desses indivíduos eram as instituições religiosas com fins de caridade. Tempos depois é que 41 o Estado toma para si a responsabilidade da saúde pública. Mas, foi só depois de muita discussão que a questão da inclusão tornou-se problema da escolarização. Com isso, temos de entender que a inclusão não é apenas um problema de políticas públicas. Deve-se envolver toda a sociedade principalmente nas representações que ela tem sobre o aluno com deficiência e como elas determinam o tipo de relação que se estabelece com o aluno. É por meio da inclusão que devolveremos um trabalho de equiparação de oportunidades. Isso significa preparar a sociedade para adaptar-se aos diferentes e permitir aos sujeitos com necessidades especiais de preparar-se para assumir seus papéis na sociedade. Podemos concluir ressaltando a necessidade de uma formação adequada a todos os educadores para se obter sucesso na inclusão. É preciso adotar um processo de inserção progressiva para que educadores e alunos com necessidades especiais encontrem a melhor maneira de superar obstáculos. As soluções para os desafios da inclusão só vão ser encontradas se nos depararmos com os problemas e buscar resolvê-los. É interessante pensarmos que foi uma pessoa com deficiência visual que criou o sistema de escrita Braille ou que foi um deficiente auditivo que inventou a linguagem de sinais. A inclusão não consiste apenas colocaralunos com necessidades especiais junto aos demais alunos, nem na negação dos serviços especializados. A inclusão implica uma reorganização do sistema educacional, o que acarreta uma mudança de formação dos educadores e uma revisão de antigas concepções de educação. Tudo isso pode possibilitar o desenvolvimento cognitivo, cultural e social dos alunos respeitando diferenças e atendendo às suas necessidades especiais. A educação inclusiva, apesar de encontrar, ainda, sérias resistências (legítimas ou preconceituosas) por parte de muitos educadores, constitui, sem dúvida, uma proposta que busca resgatar valores sociais fundamentais, condizentes com a igualdade de direitos e de oportunidades para todos. (GLAT; NOGUEIRA, 2002). 42 7.3 Relações interpessoais e gestão democrática Chegamos à última seção do nosso módulo. Nela vamos conversar sobre as relações interpessoais na escola visando à construção de uma gestão democrática. Nossa conversa estará pautada pelas contribuições de tudo que discutimos anteriormente sobre as relações entre a psicologia e a educação e as relações entre todas as pessoas que fazem parte do cenário da escola. Vamos repensar essas relações refletindo sobre as possíveis transformações na escola. A gestão democrática parte da ideia de uma escola para todos, onde realmente sejam possíveis o acesso e a permanência do aluno, assim como garantir a qualidade na educação. Para tal, é preciso a elaboração de um projeto político-pedagógico que vise à superação das contradições existentes em nossa sociedade e que promova o desenvolvimento de uma nova consciência social e de novas relações entre os homens, numa perspectiva mais humanista. Uma proposta como essa precisa da participação de todos que fazem parte do contexto escolar. Então, você, funcionária ou funcionário da escola pública, tem um compromisso que vai além da sua qualificação nas áreas propostas nesse curso, você tem também o compromisso de participar das mudanças sociais para garantir uma gestão democrática na escola. Também temos de contar com a participação de toda a comunidade para que se envolva conscientemente nessa construção de uma escola democrática, admitindo que essa proposta só será viável com o empenho de cada um envolvido no processo educacional, em especial o educador. Para isso é necessário dar uma atenção especial à sua formação para que você possa realmente se envolver com as mudanças necessárias para a implantação da gestão democrática. Quando falamos da comunidade, estamos inserindo principalmente a família dos alunos no contexto escolar. Então vamos pensar! Você acha que os pais dos alunos da sua escola estão satisfeitos com a articulação atualmente existente entre a escola e eles? 43 Para responder a essa questão, gostaria de propor que você fizesse um levantamento sobre a participação das famílias na sua escola. Procure saber qual o interesse dos pais em relação 81 ao que acontece no cotidiano escolar do seu filho. Como eles acham que poderiam participar do dia-a-dia da escola? E você, o que acha da participação dos pais na escola? O que fazer para ajudar a melhorar essa articulação? Pense em alguma estratégia para isso. Não se esqueça de fazer suas anotações no seu memorial! Em relação à psicologia, penso que ela só pode contribuir com essa proposta, se tiver o compromisso social voltado para a transformação da sociedade. Isso porque o que queremos é uma sociedade justa e igualitária, na qual todos tenham acesso à riqueza da produção humana, material e espiritual e onde todos possam viver com dignidade. A psicologia que queremos deve ser capaz de responder às demandas sociais com esse critério de transformação social e que represente uma possibilidade para todos de emancipação e de superação da desigualdade. O que realmente deve alterar nessa nova proposta de gestão democrática é o modo de legitimação do poder político, superando-se a distância existente entre planejamento e execução das políticas educacionais. É necessário desenvolver no contexto escolar relações interpessoais que permitam uma integração das diversas áreas do conhecimento e das diferentes funções de cada membro da escola, reconhecendo a necessidade de superação da fragmentação do saber e dos fazeres, característica da escola tradicional. A construção de uma proposta pedagógica transformadora somente será possível a partir do questionamento da realidade existente e não apenas de sua negação. É preciso questionar essa realidade para apontar mecanismos de superá-la estimulando a pluralidade de experiências e de concepções pedagógicas. O currículo, nessa visão, deve ser concebido a partir da compreensão de educação como prática social transformadora, baseado na visão de um ser humano ativo, cujo pensamento é construído em um ambiente histórico e social. Para tal, faz se necessária a participação de todos na formulação dos objetivos desse currículo. Nessa elaboração de um novo currículo, surge uma nova perspectiva de avaliação de todas as ações, que deve ser a mais abrangente possível, levando-se 44 em consideração o conhecimento do comportamento e atitudes dos alunos também fora da sala de aula. Nessa elaboração de um novo currículo, surge uma nova perspectiva de avaliação de todas as ações, que deve ser a mais abrangente possível, levando-se em consideração o conhecimento do comportamento e atitudes dos alunos também fora da sala de aula. É aí que surge a necessidade de se reconhecer a todos na escola como educadores. Muitas vezes, o secretário, a porteira ou a merendeira conhece melhor as motivações e as dificuldades dos alunos do que os professores. Observe os seguintes comentários de educadores da escola: Uma secretária da escola, certa vez, disse o seguinte: o aluno quer que a gente saiba o nome dele. Tem professor que não sabe nome de aluno. Quando o professor está distante do aluno, ele fica apático. A aproximação é fundamental. Em outra escola, a assistente de direção comentou: quando o professor considera a realidade do aluno e considera ele como ‘pessoa’, com suas particularidades, o aluno passa a ter respeito pelo profissional e a confiar nele para ajudá-lo no seu aprendizado. O porteiro de uma escola disse que: os alunos me procuram de vez em quando para conversar sobre seus problemas pessoais e físicos. Acho que é porque a gente ‘é de igual para igual’. Eu coloco limites para os alunos porque ‘eles precisam, pedem limites’. Uma porteira contou o seguinte: eu me dou muito bem com os alunos, eles me chamam de tia. Acho que o meu exemplo de vir trabalhar todo dia incentiva os meninos a fazerem a mesma coisa. Eu acho errado um funcionário tratar mal um aluno e não ter paciência com ele. O que você achou desses relatos? Escreva um pequeno comentário sobre o exposto no seu memorial. Uma proposta de gestão democrática tem de levar em consideração todas essas vivências, ela passa a ser revolucionária e não reformista na medida em que realmente possibilitar a contribuição de todos e será dessa maneira que poderá levar as transformações para a sociedade como um todo. 45 A intenção é construir uma escola mais humanizada, onde alunos, professores, funcionários e direção, cientes de suas capacidades e criatividade, sintam-se participantes e responsáveis pela coisa pública e pela construção de uma nova sociedade. Para tal, é preciso trabalhar com o coletivo. Nessa proposta, as atividades valorizadas são as de cooperação em vez da competição. A busca está sempre em criar espaços de debate, de diálogo fundado na reflexão coletiva. O projeto político-pedagógico deve ter como objetivo a organização do trabalho educacional na sua globalidade. Isso significa resgatar a escola como espaço público, como lugar de debate, de diálogo fundado na reflexão crítica coletiva. Uma luta pelaparticipação de todos frente aos desafios das mais diversas ordens sociais, políticas e econômicas, preconizando um futuro que, ao invés de pré-concebido, pré-determinado, está sempre em construção. Como dissemos anteriormente, a participação da comunidade deve acontecer de forma efetiva, por meio de atividades que levem pais, alunos, professores e funcionários a perceberem que podem vir à escola para falar, expressar, opinar e não apenas para ouvir e perguntar. Assim sua participação fica cada vez maior e mais expressiva na comunidade em relação ao projeto da escola. Também é importante que se dê espaço para as atividades lúdicas, já que a brincadeira é uma atividade que faz parte do ser humano. 8 PSICOLOGIA APLICADA À SAÚDE 8.1 História Da Psicologia Toda e qualquer produção humana — uma cadeira, uma religião, um computador, uma obra de arte, uma teoria científica — tem por trás de si a contribuição de inúmeros homens, que, num tempo anterior ao presente, fizeram indagações, realizaram descobertas, inventaram técnicas e desenvolveram ideias, isto é, por trás de qualquer produção material ou espiritual, existe a História. A história da psicologia está ligada, em cada momento histórico, às exigências de conhecimento da humanidade, às demais áreas do conhecimento humano e aos 46 novos desafios colocados pela realidade econômica e social e pela insaciável necessidade do homem de compreender a si mesmo. Os Gregos eram os povos mais evoluídos na época da antiguidade. Construíram cidades, acumularem riquezas, conquistaram territórios e com isso, crescimento populacional. Desse modo, surgir à necessidade de soluções práticas para a arquitetura, agricultura e organização social. Dando origem aos estudos da geografia, física e políticas. Tais avanços permitiram que o cidadão se ocupasse das coisas do espírito, como a Filosofia e a arte. A primeira ciência que se conhece desde as épocas mais remotas é a filosofia. Esta ciência tem por objetivo a reflexão, o questionamento, a crítica, a fim de obter da inteligência a sabedoria. A psicologia é uma ciência comprovada que tem suas origens na filosofia. No século XIX, com o desenvolvimento do capitalismo, destaca-se o papel da ciência, e seu avanço torna-se necessário para dar respostas e soluções práticas no campo da técnica industrial. O sol passou a ser visto como sendo o centro do universo. O homem deixou de ser o centro do universo, passando a ser livre e construir do seu futuro. O conhecimento torna-se independente da fé, a racionalidade do homem aparece. A noção da verdade passa a contar com o aval da ciência. Os problemas e temas da psicologia passam a serem investigados pela fisiologia e neurofisiologia, pois era necessário compreender o funcionamento da máquina de pensar humana: o cérebro. A partir daí, a psicologia passa a definir seus objetos de estudo, delimitar seu campo, formular métodos e teorias. Seu status de ciência é obtido à medida que se “liberta” da Filosofia, que marcou sua história até aqui, e atrai novos estudiosos e pesquisadores. Embora a Psicologia científica tenha nascido na Alemanha, é nos Estados Unidos que ela encontra campo para um rápido crescimento, resultado do grande avanço econômico que colocou os Estados Unidos na vanguarda do sistema capitalista. É ali que surgem as primeiras abordagens ou escolas em Psicologia, as quais deram origem às inúmeras teorias que existem atualmente. 47 O próprio termo PSICOLOGIA vem do grego psyché, que significa alma, e de logos, que significa razão. Portanto, etimologicamente, psicologia significa “estudo da mente e da alma”. Hoje, a psicologia é geralmente definida como a ciência que se concentra no comportamento e nos processos mentais – de todos os animais. 9 PRIMEIRAS ESCOLAS DA PSICOLOGIA Fundamentalismo - William James (1842-1910): procura compreender como funciona a consciência através do seu modo de adaptar-se ao meio. Importa responder “o que fazem os homens” e “por que o fazem”. Estruturalismo - Edward Titchner (1867-1927): procura entender a consciência através do sistema nervoso central. Os conhecimentos psicológicos produzidos são eminentemente experimentais, isto é, produzidos a partir do laboratórios. Associacionismo - Edward L. Thorndike (1874-1949): O termo associacionismo origina-se da concepção de que a aprendizagem se dá por um processo de associação das ideias — das mais simples às mais complexas. Formulou a Lei do Efeito, que seria de grande utilidade para a Psicologia Comportamentalista. De acordo com essa lei, todo comportamento de um organismo vivo (um homem, um pombo, um rato etc.) tende a se repetir, se nós recompensarmos (efeito) o organismo assim que este emitir o comportamento. Por outro lado, o comportamento tenderá a não acontecer, se o organismo for castigado (efeito) após sua ocorrência. 10 PRIMEIRAS TEORIAS DO SÉCULO 20 Behaviorismo: dedica-se ao estudo das interações entre o indivíduo e o ambiente, entre as ações do indivíduo (suas respostas) e o ambiente (as estimulações). Afirma que a única fonte de dados sobre o ser humano era o seu comportamento, o que as pessoas faziam e o que diziam. 48 O comportamento deveria ser estudado como função de certas variáveis do meio. Certos estímulos levam o organismo a dar determinadas respostas e isso ocorre porque os organismos se ajustam aos seus ambientes por meio de equipamentos hereditários e pela formação de hábitos. Uma área de aplicação dos conceitos apresentados tem sido a Educação. São conhecidos os métodos de ensino programado, o controle e a organização das situações de aprendizagem, bem como a elaboração de uma tecnologia de ensino. Entretanto, outras áreas também têm recebido a contribuição das técnicas e conceitos desenvolvidos pelo Behaviorismo, como a de treinamento de empresas, a clínica psicológica, o trabalho educativo de crianças excepcionais, a publicidade e outras mais. No Brasil, talvez a área clínica seja, hoje, a que mais utiliza os conhecimentos do Behaviorismo. Gestalt: Eles iniciaram seus estudos pela percepção e sensação do movimento. Os gestaltistas estavam preocupados em compreender quais os processos psicológicos envolvidos na ilusão de ótica, quando o estímulo físico é percebido pelo sujeito como uma forma diferente da que ele tem na realidade. A percepção é o ponto de partida e também um dos temas centrais dessa teoria. Entre o estímulo que o meio fornece e a resposta do indivíduo, encontra-se o processo de percepção. O que o indivíduo percebe e como percebe são dados importantes para a compreensão do comportamento humano. Na visão dos gestaltistas, o comportamento deveria ser estudado nos seus aspectos mais globais, levando em consideração as condições que alteram a percepção do estímulo. Para justificar essa postura, eles se baseavam na teoria do isomorfismo, que supunha uma unidade no universo, onde a parte está sempre relacionada ao todo. Quando eu vejo uma parte de um objeto, ocorre uma tendência à restauração do equilíbrio da forma, garantindo o entendimento do que estou percebendo. Esse fenômeno da percepção é norteado pela busca de fechamento, simetria e regularidade dos pontos que compõem uma figura (objeto). Psicanálise: É a linha mais conhecida pelo público. Fundada pelo médico Sigmund Freud (1881) era especialista no tratamento de problemas do sistema nervoso e tinha interesse especial nas chamadas desordens neuróticas. Seu principal 49 instrumento de trabalho na eliminação dos sintomas dos distúrbios nervosos passou a ser a sugestão hipnótica. Com o tempo acabou percebendo que esse método era insatisfatório, pois nem todos os pacientes atingiam um estado de transe, e a hipnose resultava em curas apenas temporárias. Daí surgir um novo método, a associação livre, os pacientes relaxaram em um divã e eramestimulados a dizer qualquer coisa que viesse a mente. O médico realizava a análise do material adquirido, a procura de desejos, medos, conflitos, impulsos e memórias que estavam além da consciência do paciente. A teoria psicanalítica revolucionou a concepção e o tratamento de problemas emocionais. Além disso, despertou interesse em áreas anteriormente negligenciadas: motivação inconsciente, personalidade, comportamento anormal e desenvolvimento infantil. Esta abordagem explicou o comportamento humano de forma radicalmente diversa das demais. Pela ausência de experimentação, costumam ser rejeitadas pelos cientistas de laboratório, mas o clinico tende a apoiá-la. Humanismo: É um movimento mais recente em psicologia. Enfatiza a necessidade de estudar o homem e não os animais, os indivíduos normais psicologicamente e não os perturbados. Está relacionada com os diferentes fatores de natureza política, social, cultural e científica, pois para compreender o ser humano é necessário conhecer o meio em que ele está inserido, sua problemática, valores, tradições e história. Não devemos esquecer o fato de que o ser humano está em permanente movimento e transformação. A psicologia está inserida nas mais diferentes áreas do saber como a médica, a educacional, a social, lazer, segurança, trabalho, justiça, comunidade, comunicação, ambiente, etc. têm por objetivo conhecer o ser humano individualmente e em grupo visando encontrar meios para ele viver de forma equilibrada nas mais diversas situações, desenvolver seus potenciais, prevenir possíveis problemas e auxiliando o relacionamento humano. 11 PSICOLOGIA DO SENSO COMUM Quantas vezes, no nosso dia-a-dia, ouvimos o termo psicologia? 50 Qualquer um entende um pouco dela. Usamos o termo psicologia, no nosso cotidiano, com vários sentidos. Será essa a psicologia dos psicólogos? Certamente não. Essa psicologia, usada no cotidiano pelas pessoas em geral, é denominada de psicologia do senso comum. Mas nem por isso deixa de ser uma psicologia. O que estamos querendo dizer é que as pessoas, normalmente, têm um domínio, mesmo que pequeno e superficial, do conhecimento acumulado pela Psicologia científica, o que lhes permite sentidos explicar ou compreender seus problemas cotidianos de um ponto de vista psicológico. Existe um domínio da vida que pode ser entendido como vida por excelência: é a vida do cotidiano. É no cotidiano que tudo flui, que as coisas acontecem, que nos sentimos vivos, que sentimos a realidade. O fato é que quando alguém em casa reclama de dores no fígado, ela faz um chá de boldo, que é uma planta medicinal já usada pelos avós de nossos avós, sem, no entanto, conhecer o princípio ativo de suas folhas nas doenças hepáticas e sem nenhum estudo farmacológico. O que estamos querendo mostrar a você é que o senso comum integra, de um modo precário (mas é esse o seu modo), o conhecimento humano. É claro que isto não ocorre muito rapidamente. Leva um certo tempo para que o conhecimento mais sofisticado e especializado seja absorvido pelo senso comum, e nunca o é totalmente. Quando utilizamos termos como “rapaz complexado”, “menina histérica”, “ficar neurótico”, estamos usando termos definidos pela Psicologia científica. Não nos preocupamos em definir as palavras usadas e nem por isso deixamos de ser entendidos pelo outro. Podemos até estar muito próximos do conceito científico mas, na maioria das vezes, nem o sabemos. Esses são exemplos da apropriação que o senso comum faz da ciência. As pessoas de alguma forma utilizam a psicologia em seu cotidiano, ou seja, é uma disciplina que pertence a humanidade, portanto denomina-se psicologia do senso comum, que é o conhecimento acumulado em nosso dia-a-dia. Ex. o poder de persuasão do vendedor, a jovem que usa seu poder de sedução para atrair o rapaz, quando procuramos aquele amigo que está sempre disposto a nos orientar. Esta pessoa tem o conhecimento acumulado que lhes permite explicar e entender 51 problema ou nos ouvir de um ponto de vista psicológico. Contudo, o conhecimento herdado, tradicional não é científico nem filosófico, nem possui rigor cientifico. 12 RELAÇÃO DA PSICOLOGIA COM A ENFERMAGEM. Há muito tempo a enfermagem traz a marca da psicologia, pelo fato de ser uma área que visa essencialmente o cuidado, do ser humano, em condições mais frágeis de sua vida. A simples execução de técnicas como: banho, curativos, alimentação, trocar, entre outras ações não teriam o mesmo resultado se não houvesse o tocar, ouvir, sorrir, aconselhar, orientar e esclarecer quanto necessário, entre outros. Os profissionais da saúde, principalmente o técnico em enfermagem, deveram ter uma relação de respeito e confiança, o que facilitará o seu trabalho e, consequentemente, produzirá uma recuperação mais satisfatória para o doente. Poderemos então afirmar que o bom técnico em enfermagem é aquele que sabe cultiva o relacionamento com o paciente por meio de troca de experiência, humor, amizade e confiança. Uma pessoa não pode ou não deve perder sua dignidade e direito como pessoa porque está doente. É preciso considerar a pessoa e seu ambiente como uma unidade composta de fatores interdependentes; é preciso compreender a maneira de pensar, sentir e fazer que o próprio homem desenvolveu como parte de seu ambiente e ainda ter consciência de que p bem-estar sé é alcançado quando as necessidades estão sendo supridas satisfatoriamente. A base da profissão de um profissional da saúde deve ser a crença no valor da pessoa através do respeito ao atendimento das necessidades básicas do paciente e, para tanto, é imprescindível identificar seus problemas tendo amplas e atualizados conhecimentos fisiopatológicos e psicossociais, sem os quais sua atuação será desnecessária e muitas vezes, prejudicada. Há duas correntes na área da saúde que se deve conhecer: a primeira que trata o doente como um paciente passivo e vê a doença como um fator único que pode ser retirada com medicamentos e procedimentos e a segunda corrente que percebe que além de apresentar sintomas da doença, o paciente possui problemas sociais, econômicos, pessoais, psicológicos que se influenciam e que contribui para o 52 surgimento de novas doenças. Para melhor compreender a forma de agir, pensar e sentir humano o aparelho psíquico foi dividido por Freud em sistemas e o conteúdo mental em níveis de consciência, assim como procurou entender o papel dos sonhos em nossas vidas. 13 APARELHO PSÍQUICO Primeira Estrutura Do Aparelho Psíquico Em 1900, Freud apresenta a primeira concepção sobre a estrutura e o funcionamento da personalidade. Essa teoria refere-se à existência de três sistemas ou instâncias psíquicas: inconsciente, pré-consciente e consciente. Inconsciente exprime o “conjunto dos conteúdos não presentes no campo atual da consciência”. É constituído por conteúdos reprimidos, que não têm acesso aos sistemas pré-consciente/consciente, pela ação de censuras internas. Estes conteúdos podem ter sido conscientes, em algum momento, e ter sido reprimidos, isto é, “foram” para o inconsciente, ou podem ser genuinamente inconscientes. Será inacessíveis a consciência e que podem vir à tona num sonho, num ato falho. O tempo não altera tudo o que está guardado no inconsciente. Pré-consciência (Ou Subconsciente): se constitui nas memórias que podem se tornar acessíveis a qualquer momento para o perfeito funcionamento da mente. É aquilo que não está na consciência, neste momento, e no momento seguinte pode estar. Consciente: é o sistema do aparelho psíquico que recebe ao mesmo tempo as informações do mundo exterior e as do mundo interior. Na consciência, destaca-se o fenômeno da percepção, principalmente a percepção do mundo exterior, a atenção, o raciocínio. Diz respeito à capacidade de ter percepção dos sentimentos, pensamentos,lembranças e fantasias do momento; Segunda Teoria Do Aparelho Psíquico 53 Em 1920 a 1923, Freud remodela a teoria do aparelho psíquico e introduz os conceitos de id, ego e superego para referir-se aos três sistemas da personalidade. ID – É de origem orgânica e hereditária. Apresenta a forma de instintos inconscientes que impulsionam o organismo. Há duas formas de instintos: o da vida, tais como fome, sede, sexo, etc.; e os da morte, que representam a forma de agressão. Regido pelo princípio do prazer, o id exige satisfação imediata desses impulsos, sem levar em conta a possibilidade de consequências indesejáveis. EGO – O ego opera pelo princípio da realidade, isto é pelo que a nossa realidade considera correta. Para satisfazer o id, o ego pensa, percebe, planeja, decidi. É um regulador, na medida em que altera o princípio do prazer para buscar a satisfação considerando as condições objetivas da realidade. Neste sentido, a busca do prazer pode ser substituída por evitar o desprazer. Desejos inadequados não são satisfeitos, mas reprimidos. SUPEREGO: origina-se com o complexo de Édipo, a partir da internalização das proibições, dos limites e da autoridade. A moral e os ideais são funções do superego. O conteúdo do superego refere-se a exigências sociais e culturais. Para compreender a constituição desta instância — o superego — é necessário introduzir a ideia de sentimento de culpa. Neste estado, o indivíduo sente-se culpado por alguma coisa errada que fez — o que parece óbvio — ou que não fez e desejou ter feito, alguma coisa considerada má pelo ego mas não, necessariamente, perigosa ou prejudicial; pode, pelo contrário, ter sido muito desejada. Por que, então, é considerada má? Porque alguém importante para ele, como o pai, por exemplo, pode puni-lo por isso. E a principal punição é a perda do amor e do cuidado desta figura de autoridade. Portanto, por medo dessa perda, deve-se evitar fazer ou desejar fazer a coisa má; mas, o desejo continua e, por isso, existe a culpa. Uma mudança importante acontece quando esta autoridade externa é internalizada pelo indivíduo. Ninguém mais precisa lhe dizer “não”. É como se ele “ouvisse” esta proibição dentro de si. 54 Agora, não importa mais a ação para sentir-se culpado: o pensamento, o desejo de fazer algo mau se encarregam disso. E não há como esconder de si mesmo esse desejo pelo proibido. Com isso, o mal-estar instala-se definitivamente no interior do indivíduo. A função de autoridade sobre o indivíduo será realizada permanentemente pelo superego. É importante lembrar aqui que, para a Psicanálise, o sentimento de culpa origina-se na passagem pelo Complexo de Édipo. 14 A DESCOBERTA DA SEXUALIDADE INFANTIL Freud, em suas investigações na prática clínica sobre as causas e o funcionamento das neuroses, descobriu que a maioria de pensamentos e desejos reprimidos referiam-se a conflitos de ordem sexual, localizados nos primeiros anos de vida dos indivíduos, isto é, que na vida infantil estavam as experiências de caráter traumático, reprimidas, que se configuravam como origem dos sintomas atuais, e confirmava-se, desta forma, que as ocorrências deste período da vida deixam marcas profundas na estruturação da pessoa. As descobertas colocam a sexualidade no centro da vida psíquica, e é postulada a existência da sexualidade infantil. Os principais aspectos destas descobertas são: • A função sexual existe desde o princípio da vida, logo após o nascimento, e não só a partir da puberdade como afirmavam as ideias dominantes. • O período de desenvolvimento da sexualidade é longo e complexo até chegar à sexualidade adulta, onde as funções de reprodução e de obtenção do prazer podem estar associadas, tanto no homem como na mulher. Esta afirmação contrariava as ideias predominantes de que o sexo estava associado, exclusivamente, à reprodução. • A libido, nas palavras de Freud, é “a energia dos instintos sexuais e só deles” 15 ESTÁGIOS DO DESENVOLVIMENTO DA PERSONALIDADE 1º estágio oral: vai desde o nascimento aos 12/18 meses de idade e as fontes de prazer são os lábios, a boca e a língua. Estas se manifestam ao mamar, comer e morder. 55 2º estágio anal: Quanto ao estádio anal, podemos dizer que este vai dos 12/18 meses aos 3 anos de idade. As fontes de prazer são o ânus, no que diz respeito a reter ou expulsar, a controlar e constata-se no asseio. Neste estádio o conflito pode ser no treino e consequentemente provoca na personalidade a avareza, a obstinação, a ordem compulsiva e a meticulosidade, isto no caso do retentivo anal, visto que, se verificar expulsivo-anal, constata-se a crueldade, a destruição, a desordem e a desarrumação. 3º estágio falido: No que diz respeito ao estádio fálico, que vai dos 3 aos 5/6 anos de idade, podemos referir que é muito importante, sendo que é neste estádio que se forma o superego. As suas fontes de prazer são os órgãos genitais, sendo que a criança explora o próprio corpo e o dos outros, tocando-os. 4º período de latência: vai dos 5/6 anos aos 12/13 anos de idade, caracteriza- se por uma diminuição das atividades sexuais, isto é, há um “intervalo” na evolução da sexualidade. Processam a ausência de interesses sexuais, presentes no estádio anterior, passando a verificarem-se a curiosidade intelectual e o relacionamento social da criança. Neste estádio, as características da personalidade consistem na aprendizagem social e no desenvolvimento da consciência moral. 5º estágio genital: verifica-se depois da puberdade, podemos referir que começam a existir contatos sexuais com outras pessoas, não existindo conflito, como também acontece no estádio anterior. Objeto de erotização ou de desejo não está mais no próprio corpo, mas era um objeto externo ao indivíduo — o outro. O complexo de Édipo acontece entre 3 e 5 anos, durante a fase fálica. No complexo de Édipo, a mãe é o objeto de desejo do menino, e o pai é o rival que impede seu acesso ao objeto desejado. Ele procura então ser o pai para “ter” a mãe, escolhendo-o como modelo de comportamento, passando a internalizar as regras e as normas sociais representadas e impostas pela autoridade paterna. Posteriormente, por medo da perda do amor do pai, “desiste” da mãe, isto é, a mãe é “trocada” pela riqueza do mundo social e cultural, e o garoto pode, então, participar do mundo social, pois tem suas regras básicas internalizadas através da identificação com o pai. Este 56 processo também ocorre cora as meninas, sendo invertidas as figuras de desejo e de identificação. Freud fala em Édipo feminino. Estes complexos são muito importantes na formação da personalidade, visto que, da resolução dos mesmos, que se baseia na independência por parte dos rapazes e das raparigas em relação aos pais; poderão advir o orgulho ou a humildade, a sedução ou a timidez, a castidade ou a promiscuidade. 16 TEMPERAMENTO, CARÁTER E PERSONALIDADE Temperamento, personalidade e caráter, são palavras utilizadas com frequência desde a antiguidade. Porém, seus significados quase sempre são confusos e/ou utilizados de forma errônea. Temperamento Há cerca de 2500 anos, Hipócrates, considerado o pai da Medicina, classificou o temperamento da espécie humana em quatro tipos básicos: • Sanguíneo, típico de pessoas de humor variado; • Melancólico, característico de pessoas tristes e sonhadoras; • Colérico, peculiar de pessoas cujo humor se caracteriza por um desejo forte e sentimentos impulsivos, com predominância da bile; • Fleumático, encontrado em pessoas lentas e apáticas, de sangue frio. A palavra temperamento tem sua origem do latim. Representa a peculiaridade e intensidade individual dos afetos psíquicos e da estrutura dominante de humor e motivação. Atualmente, o que mais se aceita a respeito do temperamento é que certas características são decorrentesde processos fisiológicos do sistema linfático, bem como a ação endócrina de certos hormônios. Assim, pode-se explicar a genética e a interferência do meio sobre o temperamento de cada pessoa. Então, poderíamos definir temperamento como sendo uma disposição inata e particular de cada pessoa, pronta a reagir aos estímulos ambientais; é a maneira de ser e agir da pessoa, geneticamente determinada; é o aspecto somático da personalidade. O temperamento pode ser transmitido de pais para filhos, porém, não é aprendido, nem pode ser 57 educado; apenas pode ser abrandado em sua maneira de ser, o que é feito pelo caráter. Caráter De acordo com Reich (1995), o caráter é o conjunto de reações e hábitos de comportamento que vão sendo adquiridos ao longo da vida e que especificam o modo individual de cada pessoa. Portanto, o caráter é composto das atitudes habituais de uma pessoa e de seu padrão consistente de respostas para várias situações. Incluem aqui as atitudes e valores conscientes, o estilo de comportamento (timidez, agressividade e assim por diante) e as atitudes físicas (postura, hábitos de manutenção e movimentação do corpo). É a forma com que a pessoa se mostra ao mundo, com seu temperamento e sua personalidade. É por meio do caráter que a personalidade do indivíduo se manifesta. Portanto, conhecer o caráter de uma pessoa significa conhecer os traços essenciais que determinam o conjunto de seus atos. Desde o momento da fecundação, todas as informações genéticas do pai e da mãe passam ao novo bebê, constituindo o seu temperamento. Ainda na gestação, o bebê apreende todos os estímulos provindos do meio. Sente e sofre com qualquer alteração sofrida pela mãe durante a gestação e gradativamente, vai incorporando esses estímulos e organizando-os em seu mundo interno, que já estão contribuindo para a formação de sua personalidade. Os possíveis comprometimentos que por ventura irá ter ao longo das etapas de desenvolvimento, irão determinar as suas forma de agir e reagir perante a vida, constituindo assim, o seu caráter. Então, cada pessoa assumirá uma forma definida de funcionamento, padrão típico de agir frente às mais inusitadas situações. Personalidade Refere-se a padrões relativamente consistentes e duradouros de percepção, pensamento, sentimentos e comportamento que dão identidade distinta às pessoas. A personalidade é formada durante as etapas do desenvolvimento psico-afetivo pelas quais passa a criança desde a gestação. Para a sua formação incluem tanto os elementos geneticamente herdados (temperamento) como também o adquirido do meio ambiente no qual a criança está inserido. 58 Compreender os aspectos e a dinâmica da personalidade humana também não é tarefa simples, visto à complexidade e variedade de elementos que a circunda, gerados por diversos fatores biológicos, psicológicos e sociais. Com relação aos aspectos sociais, quanto mais complexas e diferenciadas for à cultura e a organização social em que a pessoa estiver inserida, mais complexa e diferenciada ela será. Do ponto de vista biológico, a pessoa já traz consigo, em seus genes, diferentes tendências, interesses e aptidões que também são formados pela combinação dinâmica entre diversos fatores hereditários e uma infinidade de influências sócio psicológicas que ela recebe do meio ambiente. Então, podemos dizer que a personalidade é formada por dois fatores básicos: Hereditários: são os fatores que estão determinados desde a concepção do bebê. É a estatura, cor dos olhos, da pele, temperamento, reflexos musculares e vários outros. É aquilo que o bebê recebe de herança genética de seus pais. Ambientais: São aqueles que também exercem uma grande influência porque dizem respeito à cultura, hábitos familiares, grupos sociais, escola, responsabilidade, moral e ética, etc. São experiências vividas pela criança que irão lhe dar suporte e contribuir para a formação de sua personalidade. Mesmo que alguns traços possam ser parecidos com os de outra pessoa, a personalidade é única. Ela se apoia em uma estrutura biopsicossocial, é dinâmica, adaptável e mutável. 17 A PSICOLOGIA E A ESCOLA O cotidiano da escola se apresenta à (o) psicóloga (o) povoado de fatos a serem explicados e contradições que permeiam o ensinar e aprender, interferindo na forma como o profissional executa seu trabalho. Quase sempre escutamos que as(os) psicólogas (os) vêm se deparando com muitos impedimentos para desenvolver ações nas escolas, principalmente, quando se trata da rede pública de ensino por sua amplitude e complexidade. Frente à demanda de resolução imediata de questões, qualquer proposição de pensar o que se passa nas salas de aula, nos conselhos de classe, nas reuniões com professores e familiares, nas atividades rotineiras 59 implicadas com a formação, pode gerar um olhar de descrédito, o que vem fomentando nas (os) psicólogas (os) a percepção da escola como uma instituição fechada a mudanças. Como acessar a dimensão de complexidade da escola, a qual não se constitui somente em um edifício, mas sim em um território existencial em que a diversidade de vínculos e de ações faz diferença facultando múltiplas possibilidades? Como analisar as contradições presentes em uma escola que se propõe a ensinar ao mesmo tempo que, objetivamente, nem sempre tem condições para cumprir tal tarefa? No período contemporâneo, as instituições sofrem mudanças e entram em crise e a escola não está longe das tensões sociais que apontam para um mundo de fluidez, instantaneidade e consumo. Qual a importância da escola em meio a tantas tecnologias de informação e de comunicação? A criança quer estar na escola? Apostamos que sim, porém é importante criar indagações que nos remetam às polêmicas e conflitos de nossa sociedade presentes na escola. Não é muito difícil encontrarmos certo saudosismo em relação às escolas de meados do século passado, quer em relação à formação moral, quer à qualidade do ensino de conteúdo, pois nelas a inquietação com o aprendizado, as mudanças aceleradas e a indisciplina pareciam não ser alvo de grandes preocupações. Com efeito, podemos abordar as principais questões da escola por meio da articulação de vários aspectos, mas que trazem como eixo comum a sua contextualização, ou seja, a escola não está isolada do momento histórico, político, social e cultural de uma sociedade. O primeiro aspecto a destacar é o de moralização das instituições sociais até a década de 1960 e a militarização do cotidiano nos anos subsequentes que deram suporte às práticas de disciplinamento de forma generalizada, não produzindo muitas discussões no interior das escolas. Um segundo aspecto é que, nessa etapa de nossa sociedade, encontramos ainda uma pequena heterogeneidade na população escolar, considerando que a expansão quantitativa do ensino é bem recente entre nós, o que veio facultar a coexistência de uma população bastante diferenciada em termos de experiências socioculturais e o surgimento de modos mais sutis de exclusão. Finalmente, a sociedade conta hoje com uma juventude menos temerosa de punições, sentimento por intermédio do qual a disciplina se impunha nos momentos precedentes 60 e com instituições sociais mais fragilizadas frente às rápidas transformações que a educação não consegue acompanhar, acrescendo-se, há certo descrédito nos meios formais, como no caso da escola, para a ascensão social. A escola, hoje, como um sistema aberto, se constitui em um mercado de serviços, projetos e produtos para seus usuários. Na escola “mercado” se multiplicam as práticas de avaliação dos produtos para o controle de qualidade e otimização dos processos, incluindo as avaliações diagnósticas, consideradas práticas de “segurança” que identificam os indivíduos e definem as ações do momento seguinte. Frente a todas as incertezas produtorasde medos, indecisão e agitação, a medicalização tem sido um procedimento generalizado funcionando como mantenedor da ordem. A escola é um modo de organizar a formação, de pensá-la e de fazê-la, é uma organização possível entre outras ainda não pensadas e não realizadas. Ela se apresenta como estrutura, previsibilidade, organograma que estabelece como deve ser o processo de ensino. Porém, quando falamos de escola, falamos de padrões, de hábitos e de papéis a desempenhar que não são neutros, são escolhas que, mesmo não sendo discutidas e selecionadas com clareza reverberam as tradições e os interesses políticos de controle, os quais se naturalizaram em uma representação e em uma rotina institucional. Uma organização é atravessada por instituições, por práticas e valores que servem de referência aos atos que a atualizam diariamente. Uma escola, quando organiza seu cotidiano de trabalho, afirma referenciais de normalidade, de certo e errado, de “quem sabe” e de “quem não sabe e deve aprender”, de “como se deve se comportar”. Consolida valores, modos, tempos e marca lugares, classifica e impõe certa ordem ao mesmo tempo que cria o que escapa a esse padrão, o que é avesso, o que é desordem, seguindo preceitos de uma ideologia proposta pelo capital. Quase nunca problematizamos isso na escola, dificilmente se dá visibilidade às instituições que estão em jogo nas relações escolares. As equipes da educação trabalham cada vez mais de forma acelerada, vivendo os efeitos das práticas coletivas que tecem as tramas, que sistematizam e naturalizam formas de agir, sem conseguir entender o que se passa e como criar alternativas às impotências cada vez maiores para muitos professores, estudantes, familiares e psicólogas (os). 61 Então, quando dizemos que a (o) psicóloga (o) quer trabalhar a favor da saúde mental, da formação e da melhoria de condições de trabalho, isso diz respeito ao acolhimento das imprevisibilidades, às tentativas de colocar em análise coletiva o que é produzido no cotidiano da sala de aula, da escola, favorecendo a experimentação de outro tempo menos acelerado, mas talvez mais inventivo, para dar conta do que não conhecemos, do que suscita problemas porque foge às expectativas e à ordem vigente. Se os rituais da escola se constroem a partir de modelos do bom estudante, do ritmo adequado para a aprendizagem, do comportamento disciplinado, quando nos deparamos com a diversidade de vidas, de modos de inserção das famílias e de seus arranjos para sobreviver, da composição das turmas, dos diferentes estágios em que os estudantes chegam e de seus modos de compreensão das matérias, o que fazer? Quem é o especialista que vai fazer a mágica de transformar o diverso em homogêneo? O múltiplo em um? De estabelecer as normas disciplinares? Caminho contrário aos das práticas democráticas. Este é o lugar que nos aguarda quando chegamos ao mercado de trabalho, instituições que preservam tradições verticais, mesmo quando a legislação é mais favorecedora de processos menos centralizados. O desafio é produzir um deslocamento do encargo médico-assistencial que circunscreve as práticas da (o) psicóloga (o), lugar que podemos considerar impossível de habitar, uma vez que, sem mover padrões institucionais não há como mudar relações na formação. A perspectiva, então, é a de deslocar as demandas existentes, ou seja, de trabalhar no sentido da produção de novas demandas, criar novos espaços de discussão e compreensão da realidade que povoa o espaço interescolar. Como favorecer a multiplicidade de narrativas do/no cotidiano para a produção de outras maneiras de entender, sentir e agir na formação escolar? “Não basta dar a palavra” diz Félix Guattari, sendo necessário criar condições para que o exercício do pensar as práticas se instale (LOURAU, 2004). A luta da (o) psicóloga (o) é a de sustentar um campo de indagações que dê tempo para que os educadores possam se deslocar também dos seus lugares marcados na dicotomia ensinar X aprender, na sensação de impotência frente às condições, na desistência de transformações do cotidiano. Para isso é fundamental contribuir para a produção de novas perguntas que problematizem as relações que 62 focam as explicações no indivíduo, considerado causas “em si” das questões geradoras de sofrimento, em que não há nada a fazer. Logo, perguntar sobre as situações, as circunstâncias, os valores, as condições histórico socais, as práticas que constroem o dia a dia é o que movimenta o trabalho, potencializando uma rede partilhada de ações/ reflexões. Nesse movimento, profissionais de várias áreas, com diversos conhecimentos das ciências produzidas pelos homens são convidados a participar dessa reflexão e elaborar medidas que contribuam para o enfrentamento das questões postas no cotidiano da escola. A chegada das (os) psicólogas (os) e demais especialistas na escola se dá por uma estrutura institucional hierarquizada que distribui responsabilidades e confina cada um num determinado lugar. Especialistas e professores nem sempre têm conseguido produzir uma rede potente para pensar as práticas escolares, indagar sobre a singularidade de um cotidiano nas suas ações para mudar a vida no que ela os desafia. Professores sofrem e especialistas também, ambos encurralados na estrutura rígida das formações bancárias, como dizia Paulo Freire (1983) na década de 1960, e não é só na organização das escolas ou do sistema educacional que a cristalização se dá, senão dentro de cada um, exigindo eficiência, performance e agilidade no desempenho das prescrições de seu papel. Nessa tradição hegemônica, o que sobra a tais parâmetros enrijecidos em nós e entre nós? Sobra o conhecimento dito informal e impróprio para um exercício profissional competente, sobra um “jeitinho” que o professor dá para ir em frente, construindo arranjos entre programas oficiais e circunstâncias existenciais que não têm visibilidade e nem consistência frente à dita “incapacidade” em fazer cumprir regras no tempo e no espaço especificados. São esses fatores traduzidos em faltas - falta de formação do professor, falta de interesse da família, falta de atenção do estudante, falta de uma infraestrutura que ofereça condições para o desenvolvimento de práticas que promovam a apropriação do conhecimento -, transformados em dados e escores, que servem para contabilizar o fracasso escolar, ora centrado na criança, ora na equipe educadora, incluindo os especialistas. No entanto, o que possibilita a(o) psicóloga (o) estar na porta de uma escola para trabalhar com os educadores não é a quantidade de respostas bem sucedidas que ele tem para resolver problemas, mas sim o que pode contribuir para manter em 63 exercício redes de atenção à vida, redes que foquem as potencialidades dos indivíduos. Uma luta permanente para escapar do lugar de saber hierarquizante em relação aos professores e destes com os estudantes e familiares, que ao invés de proporcionar conhecimento, conduzem a um descompasso entre aquele que quer ensinar e aquele que quer aprender. Não há respostas de uma vez por todas, percurso pronto para o outro executar, a questão é o que convida a equipe a pensar o trabalho realizado no cotidiano. Entrar em interlocução com aqueles com quem vamos trabalhar é um desafio a novos arranjos, sejam eles com especialistas e professores, sejam com as crianças e familiares, que possam movimentar a escola no sentido de promover o desenvolvimento de todos os envolvidos no trabalho pedagógico. Se nos aproximamos de uma escola para dar solução aos problemas, se aceitamos tal lugar, entramos na trama que amarra o cotidiano nas questões postas. Reduzimos a atenção, a sensibilidade e os ensaios para a criação de um campo argumentativo, território de experimentação de outros possíveis e circulamos no estabelecido que levouà constituição dos impasses. Se queremos uma inserção para mudanças, é importante nos deslocarmos do lugar da eficiência das soluções para problematizar, potencializando outras perguntas e uma formação que deixa de ser da criança para ser de todos, inclusive da (o) psicóloga (o). O trabalho é coletivo e toda escola tem que ser envolvida nesta busca de alternativas, o professor tem que ser valorizado, os pais necessitam ser ouvidos porque têm muito o que falar sobre a escola e a educação, e a equipe pedagógica se constitui em um alicerce para uma prática pedagógica que prime pelo desenvolvimento das potencialidades. Certamente não faremos isso se não ampliarmos nossa cultura educacional, se não procurarmos nos inteirar das polêmicas da formação, se ficarmos parados num certo “enquadre clínico”, que considera o “humano” como essência. As práticas coletivas de produção de subjetividade se apresentam para nós como estratégia de interferência no processo educativo, levando em conta que os sujeitos, quando mobilizados, são capazes de transformar realidades, transformando-se a si próprios nesse mesmo processo. Do mesmo modo, podemos dimensionar o conceito de democracia entendendo-o como política pública, ou seja, de interferência coletiva, de ação de 64 todos exercida nos movimentos sociais, nas organizações de representação de classes e também no cotidiano de vida e no trabalho, nas instituições sociais, possíveis campos de fermentação das lutas, como é o caso das escolas. Rocha (2001) evidencia que a demanda por psicólogas (os) para o atendimento ou encaminhamento massivo das crianças na escola só se dá quando prepondera a luta por mecanismos de controle: O especialista só entra em cena quando a escola se cristaliza em uma pluralidade de leis e abandona o enfrentamento do coletivo nas suas divergências, enfraquecendo a capacidade de negociação e os vínculos que tecem a rede social. É importante perceber que tensões e conflitos estão sempre presentes e representam o investimento dos sujeitos na vida daquela coletividade, obrigando a lidar com as turbulências que se produzem a cada momento. É do difícil convívio com as inquietações e com as diferenças que a solidariedade se engendra enquanto sentido e ação comum que rompem com o isolamento (p. 213). Assim, evitando os riscos de reducionismos quando se trata das discussões que atravessam as políticas públicas, consideramos que a formação e o exercício profissional da (o) psicóloga (o) escolar e educacional que trabalhe a favor de uma participação democrática junto à comunidade escolar, implicam a polêmica da questão da diferença. E, no que tange às dimensões de análise e de luta, Veiga-Neto (2005) introduz importantes relações: [...] diferença não é antônimo de igualdade. Nós queremos a igualdade, mas ao mesmo tempo nós queremos manter as diferenças. O contrário de diferença é a mesmice, o contrário de igualdade é a desigualdade. Isso pode ser fácil de compreender; mas não é uma coisa simples de executar (VEIGA- NETO, 2005; p.58). Os discursos e as ações que tendem à homogeneização vinculadas às políticas públicas caminham no sentido de equalização do diverso, ou seja, de dar instrumentos para que ele se aproxime do padrão, da norma, deixando as práticas e circunstâncias escolares fora das análises. Veiga-Neto ressalta que qualidade, nessa perspectiva, será entendida e avaliada como o esforço ou o interesse “do diferente” em atingir os escores considerados “normais”, reafirmando o modelo. Mas o que seria “o diferente”? A princípio podemos dizer que é “o esquisito”, “o aluno especial”, “o que foge muito ao padrão estabelecido”. Nesse caso, denominar o estudante de “o diferente”, dando essência a um corpo, significa que ele escapa às expectativas. Todavia, divergindo desse olhar instituído, podemos, ao invés de falar 65 “do esquisito”, falar de esquisitices, e aí estaríamos falando de cada um de nós, de todos nós. Quando a escola é um lugar para qualquer um? Quando a (o) psicóloga (o) pode contribuir para a intensificação da luta diária para acolher nossas esquisitices? Quando pode compreender a luta de classes presente na sociedade capitalista? Fazer diferença na rotina? Tais perguntas não podem sair de cena, pois elas nos auxiliam a sustentar polêmicas e análises sobre a prática pedagógica e também sobre as condições sócio-histórico-institucionais que a circunscreve. A sociedade contemporânea sofreu um encolhimento da organização pública, passando a ser vivida na ampliação do mundo privado. Em muitas escolas, a sala de professores virou um corredor de passagem ou mais uma sala de aula, o tempo do recreio diminuiu, o que significa que os locais e tempos de encontro “fora de controle” estão sendo suprimidos em função da quantidade de estudantes e de aulas, e isso traz efeitos que não podem estar fora de foco. O trabalho nas instituições implica atenção e cuidados, não prioritariamente aos indivíduos, mas às redes interna e externa que os tencionam. Isso, para as (os) psicólogas (os), implica conhecer mais sobre educação, sobre os ciclos, sobre as histórias das lutas por mudanças e sobre os modos como essas mudanças ganham forma de leis, as quais, muitas vezes, não são identificadas pelos educadores como resultado de seus movimentos e reivindicações. Compreender e atuar na complexidade do cotidiano escolar não tem sido tarefa fácil se a criança e o jovem são vistos isoladamente, considerados na qualidade de portadores de diferentes carências e patologias, o que se acentua, nos casos das classes populares, com as questões sobre violência e riscos. Tem-se clareza que nem todos os indivíduos têm acesso aos bens materiais e culturais de forma igualitária em uma sociedade capitalista. Se vivemos mal o espaço público, as misturas, as diferenças, como trabalhar com coletivos, acentuando o caráter público das ações? Público não é ser espectador, mas refere-se à abertura de espaço polêmico para as práticas, o que implica outro tempo. É tornar público o que se faz, são as trocas que fazem circular ideias e potencializam outras práticas. Isso é uma questão para todos os implicados com a formação. Diferenças não são características, mas efeitos de diferenciação, envolvendo, portanto, outro modo de pensar e de fazer formação, que fale de 66 movimento, do que vai se modificando no percurso em nós e nas relações a partir de nós (ROCHA, 2008). Se iniciamos um trabalho atentos às pistas de escape e aos chamados do poder paralisante, temos chances de que as lutas por aproximação e entendimento atualizem uma formação “desejante”: uma corda bamba cujo equilíbrio requer prudência, movimento, composição. É diferente se entramos para ensinar, para fazer críticas, para esperar que o outro se modifique em função de um planejamento dado. Se uma primeira questão aponta para a desconstrução dos dualismos que aprisionam, a segunda está na criação permanente de dispositivos para um campo de experimentação, algo que afete, que nos afete, que implique a formação de um comum que se dá por contágio. (PELBART, 2008) Como seria um conselho de classe vivido como uma oficina-dispositivo, um laboratório que avalia os encontros das turmas no bimestre anterior dando as condições para o próximo bimestre? Que circunstâncias locais são necessárias para que isso aconteça? Essa é uma boa pergunta que nos dá o que pensar (ROCHA, 2006). O cotidiano de trabalho envolve certo uso do tempo, o currículo, as relações e histórias que aproximam e distanciam escola e comunidade. A construção de narrativas abre espaço para a produção de conhecimento, aprofundamento teórico metodológico sobre o que se vive a partir do que se faz. As narrativas podem tomar força, deslocando dos casos problemas às histórias de vida. Porém, é a lógica médica que nos atravessa vem delimitando papéis e funçõesna efetivação de medidas para as velhas urgências e, que bloqueiam o pensamento, pois requer outro tempo de ação. O que vemos no campo de trabalho na atualidade é que, diante das urgências e da falta de tempo para conversar, as cenas se repetem e a rotina tem sido passar o problema adiante (encaminhamento), culpabilizar (a si próprio, às crianças, aos familiares, ao sistema), lamentar-se (sofrer, adoecer, licenciar-se). Quando a potência de interferir é fragilizada traz como efeito a perda do sentido das práticas e a pouca implicação com o processo de trabalho. Os desafios se apresentam como algo da ordem do inusitado, constituído entre saberes e experiências que emergem no curso da ação. A rotina dá lugar à imprevisibilidade, acolhendo o que não está em nossas expectativas. Sem polêmica não temos como tencionar as instituições em jogo. Somos diversos e vivemos 67 situações de forma singular. E o desafio de outro uso do tempo e do espaço que não o da competência entendida como performance, aceleração, produtividade é um arejamento, porque esgarça os limites dos determinismos nos situando em um campo de experimentação entre ensinar e aprender, território fértil para a invenção de novas ideias, de outros mundos. Os fundamentos teóricos elaborados na Psicologia, ferramenta de trabalho do profissional, juntamente com o conhecimento da rotina da escola, da prática exercida, entre outros fatores, servirão de base para pensar formas de superar determinismos sociais que impedem o entendimento da complexidade que envolve as relações estabelecidas na escola na busca de sua função, a de levar os alunos a se apropriarem dos conhecimentos produzidos pelos homens. Formar não é moldar o informe, é criar um território favorável à cooperação, à curiosidade, à indagação, à provisoriedade e à permanente produção de sentidos e apropriação de significados sociais. O que é permanente é a luta pela produção de sentidos que nos faz coletivo e que nos ampara para suportar o provisório, as mudanças necessárias para acolher nossas esquisitices. Desse modo, pensar em mudar a formação não é só trazer mais um recurso tecnológico, é possibilitar a produção de políticas públicas que ponham atenção sobre os efeitos de diferenciação. A participação da Psicologia na discussão das contradições, conflitos e paradoxos do sistema escolar hoje vigente é, portanto, vital no momento em que se encontra a escola brasileira, sob o risco de continuarmos formando gerações de excluídos, de crianças e jovens que, por não se apropriarem ativamente do conhecimento socialmente produzido, estarão à mercê do processo de produção capitalista. (NENEVE & SOUZA, 2006). Esses são somente alguns pontos para refletirmos sobre o cotidiano da escola e no próximo item proporemos algumas possibilidades de intervenção. 18 POSSIBILIDADES DE ATUAÇÃO DA(O) PSICÓLOGA(O) NA EDUCAÇÃO BÁSICA Na direção de contribuir para a melhoria da qualidade da educação em todos os níveis, nossas ações devem pautar-se em tornar disponível um saber específico da Psicologia para questões da Educação que envolvam prioritariamente o 68 fortalecimento de uma gestão educacional democrática que considere todos os agentes que participam da comunidade escolar, e de formas efetivas de acompanhamento do processo de escolarização. Esse saber fundamenta-se no entendimento da dimensão subjetiva do processo ensino-aprendizagem. Temáticas como: desenvolvimento, relações afetivas, prazeres e sofrimentos, comportamentos, ideias e sentimentos, motivação e interesse, aprendizagem, socialização, significados, sentidos e identificações contribuem para valorizar os sujeitos envolvidos nas relações escolares. Para uma intervenção na área, uma das primeiras questões que se põe ao profissional é: qual a função social da escola? Entendemos que o ser humano é constituído pela realidade histórico-social que vem sendo produzida de geração em geração. O homem não nasce sabendo ser homem e para aprender a pensar, para ter sentimentos, agir, avaliar, é preciso aprender, o que compete ao trabalho educativo (SAVIANI, 2003). Nesses termos, é fundamental que a educação atue no processo de humanização, contribuindo para a apropriação dos conhecimentos produzidos na sociedade. A educação, por si só, não transforma diretamente a estrutura social. Para que isso aconteça é imprescindível a transformação das consciências dos que passam pela escola. Para transformar essas consciências é necessário buscar uma metodologia e uma lógica que deem conta de apreender o movimento do real com todas as contradições presentes. A escola tem como objetivo socializar os conteúdos e também os instrumentos necessários para o acesso ao saber. Sua função é socializar conhecimentos e experiências produzidos pelos homens, independentemente de classe, cultura, religião e etnia. Dessa forma, a (o) psicóloga (o) entende que sua ação pode se encaminhar para a transformação ou para a manutenção da sociedade, tal como está organizada. A (o) psicóloga (o), no contexto educativo, ao conhecer as múltiplas determinações da atividade educacional, pode focar mais adequadamente determinadas áreas de intervenção e desenvolver um trabalho envolvendo toda a comunidade escolar - professores, pais, funcionários, estudantes. Qualquer trabalho 69 realizado com um desses segmentos deve ter como princípio a coletividade, visando o bem de todos e todas. A seguir, elencamos algumas possibilidades de intervenção. 18.1 A(o) psicóloga(o) e o projeto político-pedagógico As escolas desenvolvem sua prática a partir de um projeto político-pedagógico. A dimensão política do projeto pedagógico refere-se a valores e metas que permeiam o conjunto de práticas na escola. É função da (o) psicóloga (o) participar do trabalho de elaboração, avaliação e reformulação do projeto, destacando a dimensão psicológica ou subjetiva da realidade escolar. Isso permite sua inserção no conjunto das ações desenvolvidas pelos profissionais da escola e reafirma seu compromisso com o trabalho interdisciplinar. Ao se deparar com o contexto escolar para elaborar planos de intervenção, levando em conta o projeto político pedagógico, é necessário compreender e conhecer dados objetivos relativos à organização escolar. Entre eles destacamos: o número de estudantes, de turmas, de professores, serviços prestados à comunidade, reuniões que estão planejadas; índice de aprovação, reprovação e evasão; membros das equipes pedagógicas, administrativas e de prestação de serviços gerais; o perfil socioeconômico da comunidade escolar; informações sobre características do território em que a escola está localizada, bem como sua história. É importante ainda conhecer o corpo docente e equipe pedagógica, considerando sua formação acadêmico-profissional, salários e condições de trabalho, carga horária; informações sobre o trabalho pedagógico, enfocando como ocorre a prática pedagógica incluindo a metodologia, recursos, conteúdos. Entendemos que a (o) psicóloga (o), ao participar do cotidiano do processo educativo, estará junto às equipes colaborando para que conhecimentos e práticas possam resultar em experiências enriquecedoras para a formação do coletivo, no qual ele está incluído. Esse processo permitirá o planejamento, desenvolvimento e avaliação de diferentes possibilidades de intervenção. 70 18.2 A intervenção da (o) psicóloga (o) no processo de ensino aprendizagem O conhecimento da psicologia na compreensão dos processos de ensino e aprendizagem se constitui, historicamente, desde concepções higienistas até àquelas que analisam esse processo como síntese de múltiplas determinações: pedagógicas, institucionais, relacionais, políticas, culturais e econômicas. As práticas de intervenção, portanto, decorrem dessas concepções. O resultado do processo ensinoe aprendizagem, em uma perspectiva crítica, é entendido como decorrente das práticas sociais e escolares que o produzem. Nessa perspectiva, a (o) psicóloga (o) avança na compreensão desse processo quando o analisa a partir de condições histórico-sociais determinadas. Sua superação depende de ação que envolva os diferentes aspectos do processo de escolarização: relações familiares, grupos de amigos, práticas institucionais e contexto social. A complexidade do processo de escolarização, numa sociedade marcada pela desigualdade, é refletida nas condições de acesso e permanência nas escolas. Portanto, essa desigualdade precisa ser considerada, não como elemento acessório da subjetividade humana, mas sim como a base social de sua constituição (SOUZA, 2002). Dessa forma, a análise das práticas escolares centra-se nas relações institucionais, considerando o contexto social e histórico em que é produzido o processo de escolarização. No trabalho com estudantes, é fundamental resgatar a função do conhecimento científico como instrumento que possibilita a compreensão e transformação da realidade (VYGOTSKY, 2000). A (ao) psicóloga (o) cabe uma prática que conduza a criança e o jovem a descobrir o seu potencial de aprendizagem, auxiliando na utilização de mediadores culturais (música, teatro, desenho, dança, literatura, cinema, grafite, e tantas outras formas de expressão artísticas) que possibilitam expressões da subjetividade. No caso da avaliação das dificuldades no processo de escolarização, é fundamental avaliar o aluno prospectivamente, naquilo que ele pode se desenvolver, e não se restringir àquilo que o aluno não consegue realizar, ou mesmo centrar-se somente no aluno, sem refletir sobre a produção social do fracasso escolar. 71 Com pais, familiares ou responsáveis, a (o) psicóloga (o) pode refletir sobre o papel social da escola e da família, assim como sobre as problemáticas que atravessam a vida de pais e filhos. Frente a possíveis dificuldades escolares, a discussão coletiva pode facultar novas ideias e ações favorecedoras de uma prática compartilhada que contribua para a qualidade do processo ensino e aprendizagem. No diálogo com os educadores, as (os) psicólogas (os) podem desenvolver ações que contribuam para uma compreensão dos elementos constituintes do processo ensino e aprendizagem em suas dimensões subjetivas e objetivas, coletivas e singulares. As (os) psicólogas (os) podem desenvolver ações que busquem o enfrentamento de situações naturalizadas no contexto escolar, superando explicações que culpabilizam ora estudantes, ora familiares, ora professores. Poderá contribuir, portanto, como mediador fortalecendo o papel do professor como agente principal do processo de ensino e aprendizagem (FACCI, 2004). O importante é estabelecer parcerias com os professores, valorizando o trabalho docente. 18.3 O trabalho na formação de Educadores Nem sempre educadores e psicólogas (os) têm clareza da visão de homem e educação que permeia a sua prática profissional. A forma como a escola se organiza, nos dias de hoje, está atrelada a circunstâncias históricas que produziram tendências pedagógicas que ora privilegiavam o professor e o conteúdo, como era o caso da Pedagogia Tradicional; ora privilegiavam o estudante, como é o caso da Escola Nova e do Construtivismo, por exemplo, ou ora privilegiavam a técnica, como é o caso da Pedagogia Tecnicista. Cada tendência pedagógica carrega uma visão acerca da atuação dos educadores que permeará todo o trabalho pedagógico e que influenciará a prática desenvolvida pela (o) psicóloga (o) na escola (FACCI, 2004). De acordo com os pressupostos de uma teoria crítica da educação, cada profissional – educador e psicóloga (o) - assumirá o compromisso de contribuir, com seus conhecimentos e práticas, para a compreensão das questões que envolvem a política educacional e suas implicações no trabalho docente. Esse propósito se constitui no que entendemos seja um processo de formação continuada. Assim, os profissionais buscarão formas que, efetivamente, propiciem o processo de 72 apropriação do conhecimento e as transformações nas relações sociais. Soma-se a isso, a possibilidade da (o) psicóloga (o) trabalhar conteúdos sobre o desenvolvimento e aprendizagem, assim como questões sobre relações interpessoais que permeiam o processo educativo. A (o) psicóloga (o) em contextos educativos tem muito a contribuir em busca de uma prática pedagógica voltada à humanização. Para tanto, é necessário que enfatize a dimensão subjetiva das experiências educacionais. Dar visibilidade à presença do sujeito como uma totalidade, destacando a subjetividade que acompanha e caracteriza o processo educativo é tarefa específica das (os) psicólogas (os). Com essas noções e conhecimentos as (os) psicólogas (os) podem contribuir significativamente na formação de professores. O professor, no processo ensino-aprendizagem, tem o papel de fazer a mediação entre os conteúdos produzidos pela humanidade e o aluno. Essa mediação é realizada a partir de ações intencionais, conscientes, dirigidas para um fim específico que permita, ao estudante conhecer, de forma crítica, a realidade social, como destaca Facci (2004). A (o) psicóloga (o) pode atuar junto aos professores por meio de formação continuada (FACCI, 2009), trabalhando conteúdos relacionados ao desenvolvimento e aprendizagem, tendo como norte fornecer subsídios que contribuam para o entendimento de como o aluno aprende. O objetivo é contribuir para o aprofundamento teórico a fim de compreender as relações existentes entre a subjetividade humana, a formação do psiquismo e o processo educacional, formados nas relações sociais. 18.4 O trabalho da (o) psicóloga (o) e a educação inclusiva O trabalho da (o) psicóloga (o) em contextos educativos, geralmente, abrange a atenção ao estudante com deficiência, que, até a década de 1990, era excluído do ensino regular e encaminhado para classes e escolas especiais. Diante dessa situação questionamos: como analisar o processo de escolarização das pessoas com deficiência que, historicamente, eram atendidas em instituições especiais com a (o) psicóloga (o) inserida na equipe clínica, responsável pela triagem e diagnóstico da deficiência? Como a (o) psicóloga (o) pode auxiliar no processo de inclusão escolar 73 rompendo com as práticas excludentes? Como a (o) psicóloga (o) pode orientar os professores para desenvolverem ações planejadas que promovam a apropriação do saber escolar e o desenvolvimento cognitivo dos estudantes? Como enfrentar o preconceito com relação àqueles com deficiência? Um dos maiores entraves para uma atuação crítica da (o) psicóloga (o) em contextos educacionais inclusivos ocorre em virtude de sua formação inicial que aborda superficialmente a temática da deficiência e da inclusão escolar, além da ênfase clínica nas disciplinas da Psicologia Escolar. A pouca informação sobre esses assuntos faz com que a (o) psicóloga (o) encontre dificuldades para intervir no processo de inclusão escolar de estudantes com deficiências (TADA, 2009). Dessa forma, a prática psicológica continua a mesma de quando crianças e jovens com deficiência eram encaminhados para as escolas especiais, consistindo na realização de anamnese com os responsáveis e a avaliação do nível intelectual e emocional. A partir dessas avaliações, laudos psicológicos são elaborados dizendo apenas aquilo que as crianças e jovens não possuem em função de suas deficiências, não constando informações que possam auxiliar os professores em sua prática pedagógica. Dessa forma, ajudam o preconceito a se perpetuar nas relações estabelecidas entre professores, estudantes, equipe técnica, endossando práticas de exclusão. Relações fundamentadas no preconceito fazem com que a pessoa com deficiência sinta-se desvalorizadasocialmente, considerando que “A deficiência em si não decide o destino da personalidade e, sim, as consequências sociais e sua realização sócio psicológica.” (VYGOTSKI,1997, p. 30). Nesse sentido, é importante que a (o) psicóloga (o) inserida em contextos educativos desenvolva grupos de trabalhos com professores, estudantes, familiares, equipe técnica, gestores e funcionários possibilitando que a temática do preconceito seja abordada, promovendo a reflexão coletiva sobre barreiras atitudinais e arquitetônicas presentes no cotidiano escolar e suas formas de enfrentamento. É importante considerar que na intervenção na escola é preciso que a(o) psicóloga (o) identifique, primeiramente, concepções “de sociedade, de educação, de grupo, de indivíduo, de coletividade” dos professores, estudantes e familiares, assim como as suas próprias concepções. É preciso compreender a constituição histórica 74 do psiquismo humano e resgatar propostas de ações societárias e coletivas para uma atuação crítica da (o) psicóloga (o) em contextos educativos buscando romper com práticas excludentes na escola. (BARROCO, 2007, p. 179) Destaca-se, assim, o papel primordial das relações sociais para o desenvolvimento do psiquismo que, segundo Vygotsky (1995), ocorre a princípio em um nível Inter psicológico para depois se tornar interno – intra psicológico, em que as normas de comportamento, a ética, os ideais, as convicções e os interesses são apropriados pelo indivíduo por meio do processo de mediação com o outro. Por isso, a necessidade da (o) psicóloga (o) compreender como se constituem as relações sociais no contexto educativo e identificar qual o lugar que ocupa a deficiência do estudante nessa relação. O trabalho da (o) psicóloga (o) com a temática do preconceito e a promoção de discussões coletivas a respeito do processo de inclusão escolar, em que seja garantido o direito de pertencimento do estudante com deficiência à escola regular, pode promover condições para que a relação social entre o estudante com deficiência e o ambiente escolar promovam situações desafiadoras que “empurram a criança para a via da compensação” no sentido de desenvolver potencialidades que auxiliem na superação da deficiência, conforme anuncia Vygotsky (1997, p.106). Dessa forma, em seu trabalho, a (o) psicóloga (o) focalizará a força que esse estudante possui para criar condições para o enfrentamento de sua deficiência e expansão de seus limites, que tem como objetivo buscar uma posição social mais valorizada pela sua comunidade. Promovendo uma discussão sobre a inclusão e o respeito à diversidade humana, pode-se ter uma compreensão histórico social do significado da deficiência, do preconceito, das práticas excludentes, superando intervenções focadas na atuação clínica, individual. A intervenção focada no grupo, na instituição, certamente colaborará para a inclusão daqueles que estão alijados do processo de escolarização, estudantes com ou sem deficiências. Além do exposto, é importante destacar que o profissional pode desenvolver ações como: acompanhamento do aluno de inclusão no contexto escolar; participação na articulação de serviços para o atendimento do estudante com deficiência, na busca da garantia de atendimentos em outras áreas; mobilização de encontros e 75 participação em reuniões com os profissionais que atendem esse aluno, auxiliando assim também a compreensão dos professores acerca das necessidades especiais; reflexão e adequação do processo de avaliação psicopedagógico; inserção de discussão e possibilidades de atuação nos Projetos Políticos Pedagógicos, contribuindo com a construção do plano da escola e desenvolvendo programas e outras situações para promover a apropriação do conhecimento por todos alunos. 18.5 O trabalho da (o) psicóloga (o) com grupos de alunos Uma outra possibilidade de atuação refere-se ao acompanhamento dos alunos em conselhos de classe, no cotidiano da escola, nas dificuldades que surgem no processo de escolarização. Um trabalho que geralmente obtém bons resultados é aquele que envolve as turmas de alunos trabalhando no sentido de promover orientação em relação a temáticas que circunscrevem o espaço escolar. Nesse sentido, o trabalho com orientação profissional, constitui-se em um espaço muito rico de intervenção. Bock (2003) ressalta a necessidade da compreensão da relação entre educação e trabalho em um contexto neoliberal. Dessa forma, a discussão travada acerca da orientação profissional pode trazer informações sobre o mundo do trabalho, o processo de alienação, informações sobre as várias profissões existentes, sobre instituições que oferecem cursos em nível de graduação ou mesmo cursos técnicos e outros aspectos relativos a essa temática. Mais uma vez, ressalta-se a necessidade de considerar que as escolhas são estabelecidas sócio culturalmente. Propostas de trabalho abordando temas como adolescência, sexualidade, valorização da escola, transição dos alunos do 5º. para o 6º. ano do Ensino Fundamental, disciplina e indisciplina, violência na escola, questões de gênero, raça, etnia, desigualdade social, direitos humanos, preconceito e discriminação, dentre outras temáticas a serem desenvolvidas. O fundamental é realizar ações que caminhem em colaboração com a finalidade da escola, ou seja, a socialização do conhecimento. Grupos de apoio psicopedagógicos com alunos que apresentam dificuldades no processo de escolarização também pode ser uma outra atividade desenvolvida. A (o) psicóloga (o), nesse sentido, poderá trabalhar, em parceria com pais, professores 76 e equipe pedagógicas, com atividades que colaborem para o desenvolvimento das funções psicológicas superiores, enfocando a relação entre cognição e afeto. Apresentamos aqui algumas possibilidades de intervenção da (o) psicóloga (o) na escola, mas gostaríamos de enfatizar a necessidade deste profissional tomar consciência da visão de sociedade, educação, homem e processo ensino aprendizagem que está guiando sua prática. O enriquecimento com fundamentos teóricos consistentes de sua prática deve alimentar a elaboração de novas formas de atuação. As ferramentas são os conhecimentos de Psicologia e de Educação que podem ser socializados nas escolas, além de uma grande disposição de mudança com a perspectiva de criação de espaços comuns de reflexões, que conduzam à apropriação coletiva do conhecimento. Podemos afirmar que é prioritária uma vinculação entre a Psicologia e a Educação, pois a (o) psicóloga (o) quando desenvolve sua prática na escola ultrapassa o nível da técnica, no sentido de apenas aplicar determinados procedimentos; sua intervenção vai além e relaciona-se com encaminhamentos de questões implicadas com a Psicologia e a Educação, pautando-se em uma análise crítica dessa relação e dos conhecimentos produzidos nesses âmbitos. Entendemos que o caminho em busca da construção de uma Psicologia crítica, em contextos educativos, embora iniciado, ainda é bastante extenso, pois, na escola, são várias as situações que exigem conhecimentos, tanto da educação em relação à sociedade, como conhecimentos que nos levam a compreender o desenvolvimento das subjetividades produzidas na escola entre professores, pais, estudantes e funcionários (FACCI, 1998), Professores e psicólogas (os) possuem histórias de vida, singularizações produzidas nas relações com os demais e circunscritas nas instituições político- histórica, e estão socialmente em luta pela sobrevivência frente às adversidades cotidianas, dessa forma, cabe a nós, psicólogas (os) [...] compreendermos como se constitui a subjetividade e trabalhar em prol do desenvolvimento da humanidade de cada indivíduo. Esta compreensão também demanda muito esforço, muito aprofundamento teórico e muita sensibilidade, assim como solidariedade para se colocar no lugar do outro,e contribuir para que ele consiga enxergar outras facetas da sua vida, de forma que possa tomar consciência do seu lugar, nesta sociedade dividida em classes, e possa ter o desejo e condições de transformar essa sociedade. (FACCI, 1998, p. 235). 77 Como podemos ver, as possibilidades constituem um desafio para a atuação, aspecto que discutiremos no Eixo 4 - Desafios para a prática da (o) psicóloga (o). A Psicologia no Brasil Brozek e Massimi (1998) consideram a historiografia da Psicologia brasileira recente, pois alguns dos estudos mais antigos têm cerca de 60 anos de existência. Nas produções sobre história da Psicologia brasileira (Pessoti, 1988; Antunes, 2007) observamos que o estabelecimento e desenvolvimento da Psicologia como ciência autônoma no Brasil deram-se, principalmente, a partir do século XIX, na área educacional e da saúde. Entretanto, a profissão foi regulamentada apenas na segunda metade do século XX, assim como a formação de psicólogo (Lei 4119/1962). Pessotti (1988) divide a história da Psicologia brasileira nos períodos: 1) Pré- institucional (até 1833), 2) Institucional (1833-1934), 3) Universitário (1934-1962) e 4) Profissional (a partir de 1962). O primeiro período corresponde aos escritos sobre o Brasil colônia até a criação das primeiras escolas de medicina no Rio de Janeiro e na Bahia, em 1833. O Período Universitário inicia, de acordo com Pessotti (1988), a partir de 1934, quando a disciplina Psicologia passou a ser obrigatória nos cursos de Filosofia, Ciências Sociais, Pedagogia, Licenciatura e opcional na Psiquiatria e Neurologia. Em 1962 a profissão foi regulamentada, iniciando o Período Profissional. No Período Pré-institucional, religiosos e políticos, especialmente, escreveram sobre assuntos do saber psicológico. Entre os séculos XVII e início do século XIX, a política cultural da metrópole proibiu a criação de universidades no Brasil colônia. Dessa forma, jovens de famílias ricas iam estudar na Europa, especialmente em Portugal e na França. A influência europeia no Brasil foi grande e esses jovens não tinham, de acordo com Pessotti (1988), a intenção de melhorar a colônia com suas obras, as quais foram publicadas principalmente na Europa. Ribeiro (1964) cita um dos primeiros escritos sobre medicina em português, datado de 1677 e produzido por um português que morava desde 1671 em Pernambuco. Essa obra continha um capítulo dedicado ao delírio e outro à mania. Religiosos da Igreja Católica estiveram presentes na colonização brasileira, especialmente jesuítas, beneditinos e franciscanos. Nesse contexto, segundo Massimi (1990), é revelado nas obras de jesuítas do século XVII e XVIII o interesse pelos assuntos psicológicos nas perspectivas da Pedagogia, da catequese e da 78 Teologia Moral. Os jesuítas trouxeram ideias da Europa, onde estudaram. Eles preocupavam-se com o conhecimento de si, com a compreensão da dinâmica interior e resgataram ideias de Aristóteles (384 – 322 a. C.) e de São Tomás de Aquino (1225 – 1274), pois acreditavam que conhecer a si mesmo era fundamental para a conversão religiosa e para o comportamento virtuoso (Massimi, 2005). Os religiosos buscaram também auxilio nas teorias psicológicas para conhecerem os índios que habitavam o Brasil. Massimi (2005, p. 79) diz que “a demonstração da “humanidade” do índio é feita a partir do conhecimento de suas características psicológicas” e cita o trabalho de Nóbrega (1517 – 1570), que defendeu, com base nas “potências” atribuídas à alma (entendimento, memória e vontade), que o índio possui alma. Vemos, portanto, que a Psicologia utilizada nessa época faz parte da Psicologia filosófica. As diferenças culturais dos índios parecem ter estimulado a reflexão dos padres, que organizaram escolas de formação para crianças indígenas. Foram produzidos estudos sobre os índios com temas diversos como: a criança na sociedade indígena, sociabilidade, relação entre pais e filhos, a mulher na sociedade indígena e maternidade. Pessotti (1988, p. 18) cita outros temas da Psicologia na colônia: “métodos de ensino, controle das emoções, causas da loucura, diferenças de comportamento entre sexos e raças, controle político, formação da juventude, persuasão dos selvagens, condições do conhecimento, percepção, etc.” As escolas dos jesuítas para as crianças foram fundamentais na colonização do Brasil e geraram tratados pedagógicos advindos dessas experiências. Os jesuítas desenvolveram um conceito de infância, com uma visão determinista e forte crença na educação. Massimi (1990) relata que, para os padres, a evolução da personalidade infantil e a educação são complementares, sendo mais fácil estimular a razão no primeiro ano de vida. As ideias de que o homem pode ser moldado através da educação eram advindas do Humanismo e do Renascimento, de acordo com Massimi (2005). Os jesuítas defendiam a educação para as meninas, a importância do brincar e eram contra a repetição exagerada do conteúdo escolar. Isso para que, além da memória, o raciocínio fosse usado. Essas concepções de ensino eram diferentes do que se via na Europa. Podemos observar, assim, que não ocorreu uma simples repetição das ideias educativas de fora do país, pois as particularidades revelam um 79 ensino contextualizado e construído pelos educadores religiosos no contexto brasileiro. Ao educador cabia o sucesso e o fracasso da educação. Os religiosos da Companhia de Jesus ganharam tanto prestígio que foram expulsos da colônia, em 1759, pela Coroa Portuguesa, que temeu o poder dos jesuítas. Bock (1999) também adotou a divisão proposta por Pessotti (1988) e demonstra que, no Período Institucional da Psicologia brasileira, a concepção evolucionista e ideias progressistas foram defendidas. A independência política proclamada em 1822 propiciou a criação de instituições para promoverem o desenvolvimento cultural e “nessas instituições e em escolas de formação do magistério que se inicia a formação de um saber psicológico brasileiro em moldes acadêmicos” (Pessotti, 1988, p. 21). Pelo que consta, a Psicologia já estava presente no país, mas, sua aplicação era diferente do se fazia na fase anterior. A Independência do Brasil fez com que a saúde, a educação, a religião e a moral passassem a ser gerenciadas pelo Estado e escolas e faculdades foram criadas pelo país com inspiração europeia, especialmente seguindo o modelo francês. A Igreja Católica diminuiu seu poder especialmente por perder o controle de escolas. A criação de escolas e faculdades influenciou no desenvolvimento e a constituição da Psicologia como ciência, que fez parte de disciplinas em diferentes áreas do saber: Filosofia, Direito, Medicina (higiene, medicina forense e psiquiatria), Pedagogia, Teologia Moral. A Psicologia esteve presente ainda na Arquitetura e também no movimento cultural do Barroco, que concebia o homem como movimento, transformação, questionando a ideia de verdade e defendendo a instabilidade da vida (Massimi, 1999). As teorias psicológicas forneceram pressupostos da jurisprudência, da ética natural e justificavam políticas públicas. A Psicologia respondeu a uma funcionalidade no âmbito do projeto de formação de cidadãos e indivíduos bem adaptados e atuantes. Segundo Massimi (1990), houve quatro tipos de discursos psicológicos presentes no século XIX: Psicologia filosófica, Psicologia médica, Psicologia pedagógica e Psicologia no âmbito da Teologia Moral. Consideramos que ocorreram combinações entre esses discursos, com fortes intercâmbios nas ações pedagógicas propostas pela medicina, por exemplo. Como o estudo realizado focaliza o ensino de Psicologia na Enfermagem, trataremos mais especificamente da Psicologia médica, 80 que forneceu grande influência na relação que foi estabelecida entre a Psicologia e a Enfermagem. Massimi (1990, p. 49)atesta que “o saber sobre a subjetividade estrutura-se, na cultura e na sociedade do período, como parte da higiene – área da medicina que mais claramente assume a função de prevenção e controle do bem-estar social e individual.” Os médicos tinham função reguladora, inclusive da moral social, e grande interesse pelo fenômeno da loucura. Os médicos se interessaram principalmente pelo estudo do amor, da sexualidade, do ciúme, da tristeza, da melancolia e da educação, com valorização da Psicologia Científica em detrimento da Psicologia Filosófica. O Período Universitário iniciou-se, de acordo com Pessotti (1988), a partir de 1934, quando a disciplina Psicologia passou a ser obrigatória nos cursos de Filosofia, Ciências Sociais, Pedagogia, Licenciatura e opcional na Psiquiatria e Neurologia. Vemos aí a Psicologia como ciência complementar a essas áreas do conhecimento. Para Bock (1999), o movimento escolanovista influenciou as concepções de Psicologia ensinadas na Educação, com objetivo de adaptar o indivíduo à sociedade. Em 1945 criou-se a Sociedade de Psicologia de São Paulo e em 1954 a Associação Brasileira de Psicólogos. Nesse ano foi proposto um projeto de Lei sobre o ensino obrigatório de Psicologia nos cursos de Medicina. Além disso, o Arquivo Brasileiro de Psicotécnica publicou um anteprojeto de Lei sobre formação e regulamentação da profissão de psicólogo (Pessotti, 1975). A formação e profissão foram regulamentadas quase dez anos depois, em 27 de agosto de 1962, pela Lei 4119. Nessa data foi instituído o dia do Psicólogo e iniciou-se o Período Profissional da Psicologia. Esta dissertação não contempla o período posterior a 1962. Com o panorama sobre a história da Enfermagem e história da Psicologia neste capítulo buscamos tecer o cenário do que será exposto nos próximos capítulos. 81 BIBLIOGRAFIA ABADE, Flávia Lemos. Orientação profissional no Brasil: uma revisão histórica da produção científica. Rev. bras. orientac. Prof, jun. 2005, vol.6, no.1, p.15-24. Disponível em: <http://scielo.bvs- psi.org.br/scielo.php?pid=S167933902005000100003&script=sci_arttext> Acesso em 14 de jan. de 2010. ALMEIDA, M.C.P. de. Os determinantes dos modelos assistenciais e a qualificação da força de trabalho em enfermagem. In: ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ENFERMAGEM. Anais. 48º Congresso Brasileiro de Enfermagem. São Paulo, p.142- 149, 1997. ANTUNES, Mitsuko Aparecida Makino (2004). A Psicologia no Brasil no século XX: desenvolvimento científico e profissional. In: Massimi, Marina; Guedes, Maria do Carmo (organizadoras). História da Psicologia no Brasil – novos estudos. São Paulo, Educ, Editora Cortez, 2005. p. 109 a 152. ANTUNES, Mitsuko Aparecida Makino (2007). A Psicologia no Brasil: leitura histórica sobre sua constituição. São Paulo: Marco Editora e EDUC. 5a edição. (original de 1998). 134p. AQUINO, J.G. Indisciplina na escola: alternativas teóricas e práticas. São Paulo: Summus Editorial, 1996. ASSUNÇÃO, Maria Madalena Silva. A Psicologia da Educação e a construção da subjetividade feminina (Minas Gerais – 1920-1960). Tese de doutorado. Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte, 2002. Disponível em: <Http://www.fae.ufmg.br/portalmineiro/portal/conteudo/hiseduminas/index_teses.ht m> Acesso em 07 Nov de 2009. BARROS, José D ‟Assunção (2007). Justificativa e objetivos. In O projeto de pesquisa em história: da escolha do tema ao quadro teórico. Capítulo 4. p 67 a 78. 3ª edição. Petrópolis, Rio de Janeiro. Vozes. 82 BASILE, Marcelo Otavio. In: Historia Geral do Brasil. Linhares (org.). Cap. 6 O Império Brasileiro: panorama político. 9a. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 1990. 16ª impressão. BLOCH, Marc Leopold Benjamin (2001). Apologia da história: ou o ofício de BOARINI, Maria Lúcia. O Higienismo na Educação Escolar. Anais do VI Congresso Luso-Brasileiro de História da Educação em 2006. Disponível em http://www.faced.ufu.br/colubhe06/anais/arquivos/589maria_lucia_boarini.pdf. BOCK, A.M.B.; Furtado, O.; Teixeira, M. L.T. Psicologias: uma introdução ao estudo de psicologia. São Paulo: Saraiva, 1999. BOCK, Ana Mercês Bahia. A Psicologia no Brasil tem história. In Aventuras do Barão de Munchhausen na Psicologia. São Paulo. Educ Cortez editora, 1999. 207 p. BOCK, Ana Mercês Bahia; Furtado, Odair; Teixeira, Maria De Lourdes Trassi. Psicologias: Uma introdução ao estudo de psicologia. 13a edição reformulada e ampliada— 1999 3ª tiragem — 2001. Editora Saraiva. Barra funda – SP. BOSCHI, Maria de Fátima Lobo. A Psicologia na formação do professor: a Psicologia nos programas dos cursos normais em Belo Horizonte (1930-1940). 2000. Dissertação (Mestrado em Psicologia) - Departamento de Psicologia, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, MG, 2000. BRASIL. Congresso Nacional. Decreto n. 17.805 de 23 de maio de 1927. Aprova o regulamento para execução dos serviços da Assistência a Psychopathas no Districto Federal. Disponível em: <Http://www2.camara.gov.br/internet/legislacao/legin.html/visualizarNorma.html?id eNorma=499073&PalavrasDestaque=>. Acesso em: 17 jun. 2009. BRASIL. Congresso Nacional. Decreto n. 20.109 de 15 de junho de 1931. Regula o exercício da Enfermagem no Brasil e fixa, as condições para a equiparação das escolas de Enfermagem. Disponível em: <Http://www2.camara.gov.br/internet/legislacao/legin.html/visualizarNorma.html?id eNorma=544273&PalavrasDestaque=>. Acesso em: 17 jun. 2009. 83 BRASIL. Congresso Nacional. Decreto n. 791 de 27 de setembro de 1890. Crêa no Hospício Nacional de Alienados uma escola profissional de enfermeiros e enfermeiras. Disponível em: < http://www2.camara.gov.br/internet/legislacao/legin.html/visualizarNorma.html?ide Norma=503459&PalavrasDestaque=>. Acesso em: 17 jun. 2009. BRASIL. Congresso Nacional. Decreto n. 82 de 18 de junho de 1841. Fundando um Hospital destinado privativamente para tratamento de Alienados, com a denominação de Hospício de Pedro Segundo. Disponível em: <Http://www2.camara.gov.br/internet/legislacao/legin.html/visualizarNorma.html?id eNorma=561222&PalavrasDestaque=>. Acesso em: 17 jun. 2009. BRASIL. Congresso Nacional. Decreto nº 27.426/49, de 14 de novembro de 1949. Aprova do Regulamento Básico para os cursos de Enfermagem e de Auxiliar de Enfermagem. Disponível em: acervo de documentos da Escola de Enfermagem Alfredo Pinto da Universidade do Rio de Janeiro. BRASIL. Congresso Nacional. Lei 775 de 06 de agosto de 1949. Dispõe sobre ensino de Enfermagem no País e dá outras providências. Disponível em: <Http://www2.camara.gov.br/internet/legislacao/legin.html/visualizarNorma.html?id eNorma=363891&PalavrasDestaque=>. Acesso em: 17 jun. 2009. BRASIL. Congresso Nacional. Lei n. 2.040 de 28 de setembro de 1871. Lei do Ventre Livre. Declara de condição livre os filhos de mulher escrava que nascerem desde a data desta lei, libertos os escravos da Nação e outros, e providencia sobre a criação e tratamento daqueles filhos menores e sobre a libertação anual de escravos. Disponível em: <Http://www2.camara.gov.br/internet/legislacao/legin.html/visualizarNorma.html?id eNorma=538828&PalavrasDestaque=>. Acesso em: 17 jun. 2009. BRASIL. Congresso Nacional. Lei n. 3.353 de 13 de maio de 1888. Lei Áurea. Declara extinta a escravidão no Brasil. Disponível em: <Http://www2.camara.gov.br/internet/legislacao/legin.html/visualizarNorma.html?id eNorma=533138&PalavrasDestaque=>. Acesso em: 17 jun. 2009. 84 BRASIL. Congresso Nacional. Lei n. 4.119 de 27 de agosto de 1962. Dispõe sobre os cursos de formação em Psicologia e regulamenta a profissão de psicólogo. Disponível em: <Http://www2.camara.gov.br/internet/legislacao/legin.html/visualizarNorma.html?id eNorma=353841&PalavrasDestaque=>. Acesso em: 17 jun. 2009. BRASIL. CongressoNacional. Senado Federal. Decreto-lei n. 4.725 de 22 setembro de 1942. Reorganiza a Escola Profissional de Enfermeiros criada pelo decreto n. 791, de 27 de setembro de 1890, e dá outras providências. Disponível em: <http://www6.senado.gov.br/legislacao/ListaTextoIntegral.action?id=11810>. Acesso em: 17 jun. 2009. BROZEK, Josef e MASSIMI, Marina (org) Historiografia da Psicologia Moderna, Edições Loyola, São Paulo, 1998. CARRAHER, T.N.; Schliemann, A.D. Na vida dez, na escola zero: os contextos culturais do fracasso escolar – uma questão social. Cadernos de Pesquisa. n. 45, p. 3-19, 1982. CHAUÍ, M. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 1994. COLE, M.; Cole, S. O desenvolvimento da criança e do adolescente. Porto Alegre: Artmed, 2003. COLL, C. Palácios, J.; Marchesi, A. (orgs.). Desenvolvimento psicológico e Educação: Psicologia da Educação. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996. v. 2. DAVIDOFF, Linda L. Introdução à psicologia: terceira edição. Tradução: Lenke Perez; revista técnica: José Fernando Bittencourt Lômaco. São Paulo: Makron Books, 2001. FREIRE, P. Ação cultural para a liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976. FREIRE, P. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1970. FREIRE, P. Pedagogia dos sonhos possíveis. São Paulo: Unesp, 2001. GROSSI, E.P.; Bordin, J. Construtivismo pós-piagetiano. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 1993. 85 Historiador. Tradução de André Telles. Título original: Apologie pour l´histoire, ou, Métier d´historien, publicado em 1949. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. PEDROZA, R.L.S. A psicologia na formação do professor: uma pesquisa sobre o desenvolvimento pessoal de professores do ensino fundamental. Tese de doutorado. Universidade de Brasília, 2003. PEDROZA, R.L.S. Freud e Wallon: contribuições da psicanálise e da psicologia para a educação. Dissertação de mestrado. Universidade de Brasília, 1993. PIAGET, J. Seis estudos de psicologia. São Paulo: Forense, 2003. TUNES, E.; Rangel, R.B.; Souza, J. Sobre a deficiência mental. Revista Integração. MEC/Brasília, Ano 4, n. 10, p. 10-12, 1992. VYGOTSKY, L.S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1998. WALLON, H. Objectivos e métodos da psicologia. Lisboa: Estampa, 1975. WALLON, H. Psicologia e educação da criança. Lisboa: Estampa, 1979