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DEFINIÇÃO Apresentação dos ciclos históricos e desenvolvimento do rádio no Brasil, responsabilidade social e importância do veículo sonoro na sociedade brasileira; a relação entre o rádio e a indústria fonográfica ao longo da história. PROPÓSITO Analisar a história do rádio no Brasil, seu papel como veículo de comunicação resiliente e sua importância na sociedade brasileira. OBJETIVOS MÓDULO 1 Distinguir os ciclos históricos de desenvolvimento do rádio no Brasil MÓDULO 2 Reconhecer a responsabilidade social do rádio MÓDULO 3 Analisar a importância do veículo sonoro na sociedade brasileira INTRODUÇÃO RÁDIO COMO VEÍCULO DE COMUNICAÇÃO Neste tema, estudaremos sobre o rádio em três módulos. No primeiro, conheceremos sua história, seus ciclos de reestruturações e seu poder de resiliência. Seguiremos um modelo que se divide em quatro fases: implementação; difusão; segmentação; convergência. Entender seus ciclos é primordial para reflexões históricas e atuais. No segundo módulo, apresentaremos as características do veículo, seu potencial democrático e de prestação de serviço. Ressaltaremos a responsabilidade social do “primo pobre” que, principalmente em momentos difíceis, mostra sua riqueza e grandiosidade com seu poder de alcançar públicos mais diversos. Figura 1. No terceiro módulo, em uma relação entre a indústria radiofônica e a indústria fonográfica, será possível observar as diversas etapas e como elas influenciam na vida social, fortalecendo uma cultura nacional e, ao mesmo tempo, resguardando as culturas locais. POR FAVOR, ACERTE A SINTONIA, CONCENTRE SUA ATENÇÃO E APROVEITE O NOSSO PROGRAMA! MÓDULO 1 Distinguir os ciclos históricos de desenvolvimento do rádio no Brasil A história não é um discurso de verdade, mas de investigação. A história do Brasil não é apenas um relato de nossa política, economia ou cultura, mas de tudo isso de forma relacionada. O rádio é um fenômeno cultural de forma inegável, mas também um fenômeno político, econômico, entre muitos outros aspectos. Começaremos, agora, a conhecer as versões, leituras e apresentar a longa jornada do rádio no Brasil. Como nossa história está sempre em movimento, o rádio também mudou e continua mudando. Aqui você distinguirá as fases diversas do veículo. Vamos lá! Figura 2. Auditório da Rádio Nacional Ainda em sua primeira fase histórica, o rádio já mostra o poder de se reinventar a partir de pressões externas como a política, a economia, as questões sociais, empresariais, de mercado e da audiência. Apesar de ter surgido como um modelo de sociedade, a entrada da publicidade no rádio abriu um leque de possibilidades, permitindo um modelo empresarial lucrativo. É importante destacar, porém, a existência de estações sem fins lucrativos como as rádios estatais e públicas, comunitárias, educativas. FASE DA IMPLEMENTAÇÃO O rádio chegou ao Brasil por forças econômicas após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), quando a indústria de eletroeletrônicos buscava ampliar seus lucros −vale destacar que as tecnologias usadas no conflito armado acabaram sendo impulsionadoras de novas tecnologias em geral. Mas, para entendermos a história do rádio no Brasil, é necessário analisarmos, também, tudo o que aconteceu antes. Figura 3. Trincheiras da Primeira Guerra Mundial PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL Conflito mundial marcante entre os anos de 1914 e 1918 em que as grandes potências imperialistas – principalmente europeias – vivenciaram um grande conflito armado. As tecnologias de guerra acabaram por ser impulsionadoras de novas tecnologias. SAIBA MAIS O BRASIL NAS PRIMEIRAS DÉCADAS DO SÉCULO XX O Brasil tornou-se uma República em 1889, momento em que o mundo vivia uma corrida pela modernização e tecnologia. As feiras mundiais eram eventos científicos aos quais dom Pedro II comparecia, trazendo as inovações para o país. Entre 1900 e 1930, o Brasil vivia um cenário de modernização urbana e o Rio de Janeiro, então capital federal, passou por grandes obras. As grandes cidades seguiam as tendências da capital, criando automóveis clubes e estradas. Imagine as mudanças para a população: eletricidade, bondes, fábricas. Nesse contexto, vemos a chegada do rádio. Figura 4. Padre Landell de Moura Um personagem importante que deve ter destaque na história é o Padre gaúcho Landell de Moura, que ficou popularmente conhecido como “padre louco” ou “bruxo”. Ele transmitiu som através de ondas eletromagnéticas em 1893 e 1894, ou seja, quase uma década antes da transmissão reconhecida como a primeira oficial. Há relatos de que o padre chegou a fazer transmissões em locais públicos, e as pessoas, com medo, saíam correndo. Muitos achavam que o religioso estava envolvido com bruxaria ou seres de outra dimensão. Landell tem algumas patentes importantes, e uma delas é a da transmissão do som através de feixes de luz, ou seja, uma primeira tecnologia que, depois, aprimorada, deu origem à TV. Devemos citar, também, que existem relatos de experimentos como as da Fundação da Rádio Clube de Pernambuco, em Recife, em 1919. Essas transmissões foram feitas sem regularidade e de forma experimental. Nesse período, os radioamadores já utilizavam a comunicação sem fio, comunicavam-se entre si em uma troca de papéis entre ser receptor e emissor. Também há registros de transmissão de som, sem fio, antes de 1900, na Europa e em países da América Latina, como a Argentina, e nos Estados Unidos. De acordo com Ferraretto (2010), entre 1900 e 1920 o rádio vive sua fase inicial, a qual chama de implementação. Segundo o autor, a comunicação que envolvia transmissão de mensagens através de aparelhos sem fio era subdividida em três ramos: Figura 5. Radiotelégrafo RADIOTELEGRAFIA Transmissão de mensagens em código Morse entre pontos específicos; Figura 6. Aparelhos radiofônicos RADIOTELEFONIA Comunicação sem fio entre dois pontos predefinidos; Figura 7. RADIODIFUSÃO Emissão de som a partir de um ponto, com recepção em diversos pontos não determinados. Vejamos, agora, a linha do tempo dos acontecimentos oficiais no Brasil: 7 DE SETEMBRO DE 1922 O episódio mais citado como a primeira transmissão radiofônica oficial no Brasil, quando a Westinghouse – indústria de eletroeletrônicos − aproveitou as comemorações do centenário da independência para fazer uma demonstração pública da tecnologia na Praia Vermelha, no Rio de Janeiro. Vale lembrar que a cidade foi a capital do Brasil de 1763 a 1960, quando foi transferida para Brasília. Esse episódio não foi o primeiro experimento de transmissão sonora no país, porém é considerada, em muitas referências, como a primeira transmissão oficial. Na ocasião, a Westinghouse distribuiu 80 aparelhos receptores a autoridades civis e militares, e os aparelhos foram instalados em locais como o Palácio do Catete e em prédios públicos. Os presentes no evento e nos locais onde se encontravam os aparelhos receptores ouviram um discurso do então presidente da República, Epitácio Pessoa, e trechos da Orquestra Sinfônica tocando, ao vivo, O Guarani, de Carlos Gomes. A apresentação aconteceu no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, e pôde ser ouvida, segundo relatos da imprensa da época, em locais distantes como Niterói, Petrópolis e São Paulo. 23 DE ABRIL DE 1923 Empolgado com a tecnologia apresentada na transmissão, Roquette-Pinto inaugura, nesta data, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, em uma reunião na sede da Academia Brasileira de Letras. Aqui começa então, de forma oficial, o funcionamento da primeira emissora de rádio no Brasil. COMEÇO DA DÉCADA DE 1930 Até aqui, o modelo predominante eram os rádios clubes e as rádio sociedades, em que os seus sócios pagavam mensalidade ou anuidade. Havia ainda o custo para obtenção de licença de escuta e aquisição dos aparelhos, que eram caros. Portanto, apenas uma pequena parcela da população, com poder aquisitivo alto, tinha acesso às informações. Com o tempo, porém, interesses econômicos impulsionaram a popularização dos aparelhos receptores, que eram grandes, pesados e o destaque das salas privilegiadas. VOCÊ SABIA? Preencher o silêncio da programaçãoera uma tarefa difícil. No início, as transmissões eram irregulares, geralmente à noite, com leituras de textos literários, transmissão de peças de teatro, orquestras e óperas. O próprio Roquette-Pinto, considerado por muitos como o “pai do rádio”, lia no ar notícias de jornais exatamente como estavam escritas no impresso. Ele usava uma técnica que atualmente chamamos de “Gillete Press”, em que notícias do jornal impresso eram grifadas e depois lidas no ar sem nenhuma adaptação de linguagem. Muitas vezes os preparativos da apresentação da orquestra eram transmitidos, pois ainda não havia o recurso de colocar no ar uma programação gravada. Era comum, portanto, ouvir a afinação dos instrumentos da orquestra ou banda antes das apresentações. Como a estrutura também não permitia uma programação ao vivo por horas seguidas, os sócios emprestavam discos – muitos importados − ao “Clube”, que era a diversão da elite. Aqui, não existiam profissionais do rádio, mas sim técnicos, músicos, escritores, educadores etc. que se aventuravam a trabalhar no rádio. FASE DA DIFUSÃO A fase da difusão tem como marco histórico as estratégias empresariais dominantes em um período em que o rádio concorria apenas com o próprio rádio. É na década de 1930, com a regulamentação da publicidade, que o veículo se estrutura como modelo de negócio lucrativo. Fica definido então que o rádio é um serviço público (precisa de concessão do Governo Federal para funcionar) com possibilidade de, através da publicidade, explorar seu potencial comercial. Aqui o rádio deixa de ser exclusividade da elite e passa a ser um veículo de massa. DÉCADA DE 1930 Em 1930, chega ao fim a Primeira República, golpeada por grupos que eram contrários ao domínio político de São Paulo – estado mais rico da federação –, e inicia-se um longo governo de Getúlio Dornelles Vargas. Sua primeira fase governamental é conhecida como governo revolucionário, seguido de um governo constitucional – marcado por um forte conflito com São Paulo – e, alegando a ameaça comunista em meio ao contexto da II Guerra Mundial, inicia-se o Estado Novo. Logo, Vargas governa o Brasil entre 1930 e 1945. Nesse momento, o rádio se torna um dos maiores instrumentos de difusão da identidade nacional. Muito dinheiro é investido nas infraestruturas das emissoras e contratação de pessoal exclusivo. A chamada “Era de Ouro do Rádio” nasce com a expansão dos programas de auditório, shows musicais com grandes artistas da época, radioteatro, radionovela e shows de humor. A primeira emissora a ter essa estrutura é a Rádio Record de São Paulo, em 1931, com César Ladeira. Figura 8. Auditório da Rádio Nacional Em 1933, Ladeira vai para a Mayrink Veiga, do Rio de Janeiro, e investe em artistas como: Carmem Miranda, a pequena notável; Carlos Galhardo, o cantor que dispensa adjetivos; Silvio Caldas, o sertanejo incorrigível. SAIBA MAIS GRANDES NOMES DA ERA DE OURO DO RÁDIO A busca do governo Vargas em criar uma identidade nacional, algo ainda muito irregular naquele momento, passa a valorizar ícones e ritmos como nacionais. Esses nomes marcam e passam a ser conhecidos por meio do rádio por todo o Brasil. Ainda que os aparelhos fossem caros, para uma grande parte da população brasileira, com a criação de rádios nacionais e o investimento do governo para que chegassem a locais diferentes, passamos a notar a escuta pública do rádio. Ainda no início da década de 1930, entra em cena Adhemar Casé, um ex-vendedor de aparelhos receptores que deixa Pernambuco para fazer história no Rio de Janeiro. Em 14 de fevereiro de 1932, entra no ar o primeiro programa de música popular brasileira na Rádio Philips do Brasil, PRAX, o Programa Casé. Uma das grandes ideias de Casé foi a inserção de jingles – comerciais cantados. O primeiro jingle do rádio foi o da padaria Bragança, em ritmo de fado para agradar o cliente português. Como na época os jingles não eram conhecidos, a propaganda foi sugerida gratuitamente para o Português da Padaria e foi um sucesso. O primeiro programa montado, idealizado por Henrique Foréis Domingues − conhecido como Almirante –, foi ao ar em abril de 1938, na Rádio Nacional: Curiosidades Musicais. O programa passa a ser pensado e estruturado a partir de um roteiro, e antes da transmissão ao vivo há longos ensaios com todos os envolvidos: Atores, músicos, técnicos. A verba publicitária é investida em grandes produções, com equipes enormes e cachês bem pagos aos artistas. Figura 9. Linda Batista Desde 1936, os concursos da Rainha do Rádio faziam sucesso e eram uma atração de destaque. Linda Batista foi a primeira vencedora e reinou por uma década, até a coroa ser transferida para sua irmã, Dircinha Batista. Em 1949, uma marca de refrigerantes começa a patrocinar a cantora Marlene, que ganha o concurso com 529.982 votos. No dia seguinte, aparecem cartazes espalhados com a foto da cantora bebendo o Guaraná Champagne Antártica. Ao falarmos em Marlene, não há como deixar de citar a inesquecível batalha entre esta e Emilinha Borba, que venceu o concurso de Rainha do Rádio em 1953. Muitas emissoras fizeram sucesso nesse período. Sem desmerecer nenhuma, destacamos: Rádio Farroupilha, de Porto Alegre; Rádios Tupi de São Paulo e do Rio de Janeiro (pertencentes a Assis Chateaubriand); o grupo Emissoras Unidas, que inclui Bandeirantes, Excelsior, Panamericana, São Paulo e Rádio Record (de Paulo Machado de Carvalho); e Mayrink Veiga, do Rio de Janeiro (de Antenor Mayrink Veiga). Os donos das grandes emissoras, os “Capitães da indústria”, tinham em seus negócios importantes acordos políticos e, em algum grau, influência na indústria cultural. SAMBA-CANÇÃO E A INDÚSTRIA CULTURAL NO BRASIL É interessante notar o valor que o samba-canção – juntando estilos, mas bebendo em tradições populares brasileiras − se transforma em um fenômeno nacional, ainda hoje reconhecido como A Música Nacional. O VEÍCULO SONORO, COM SEU POTENCIAL COMERCIAL SENDO EXPLORADO, ERA CAPAZ DE DITAR MODA COM A ASSOCIAÇÃO DE SUAS CANTORAS E SEUS CANTORES CONSAGRADOS NO CINEMA E NA FONOGRAFIA. OS ARTISTAS MAIS FAMOSOS E COM MAIORES CACHÊS ERAM CONTRATADOS COM EXCLUSIVIDADE; JORNAIS E REVISTAS TRAZIAM EM SUAS PÁGINAS, COMO DESTAQUE, FOTOS E INFORMAÇÕES DOS ARTISTAS DE SUCESSO NOS PALCOS DO RÁDIO. MUITOS IMPRESSOS TAMBÉM TRAZIAM A PROGRAMAÇÃO DAS EMISSORAS E SEUS DESTAQUES. VOCÊ SABIA? RÁDIO ESPETÁCULO Para ter uma ideia da grandiosidade do Rádio Espetáculo, os programas podiam ser vistos pelo público que lotavam os auditórios das emissoras, que transmitiam tudo ao vivo para o público presente e para o dial. Em meados dos anos 1950, a Rádio Nacional do Rio de Janeiro, tinha 6 grandes estúdios, um deles com capacidade para 496 pessoas no auditório. A emissora tinha em sua lista enorme de profissionais contratados: 10 maestros, 33 locutores, 44 cantoras, 52 cantores, 55 radioatores, 39 radioatrizes, 124 músicos, 18 produtores, 13 repórteres, 24 redatores, 4 secretários de redação e aproximadamente 240 funcionários administrativos. Figura 10. Página 42 da reportagem sobre a inauguração da rádio Nacional, no Rio de Janeiro, da revista Carioca, edição número 48, de setembro de 1936. FASE DA SEGMENTAÇÃO: PARTE 1 − A DEMOCRACIA Na fase da segmentação, os aparelhos diminuem de tamanho, há o barateamento do custo, e a possibilidade do crédito ao consumidor, facilitando a aquisição dos novos receptores individualizados. No entanto, surge a TV e, com ela, chega a necessidade de encontrar novas formas de linguagem para concorrer com as imagens. Estrutura-se a segmentação, e o surgimento das figuras do comunicador, do locutor e do DJ. As novidades tecnológicas permitem também a formação de redes via satélite e, em paralelo aos modelos comerciais, o número de emissoras que não visam ao lucro ganham espaço. Figura 11. Antigo Rádio de Válvulas Os programas de auditório são um sucesso e o mercado radiofônico é lucrativo na década de 1950, quando surge timidamente a TV, ainda em preto e branco. Em 20 de janeiro de 1951, entra no ar a TV Tupi, do Rio de Janeiro, aindacom algumas dificuldades comerciais e técnicas. Em 1955, Juscelino Kubitschek é eleito com o slogan “Cinquenta anos em cinco”, com a promessa de expansão do país pela industrialização em um período de crescente êxodo rural, aumentando as concentrações urbanas. Na segunda metade da década de 1950, os artistas de rádio migram para a TV, que tem forte apelo por causa da imagem, e há uma crise com as perdas publicitárias. As emissoras sonoras precisam se reinventar, diminuir o custo de produção e passam a dedicar o espaço que antes era dos shows para a transmissão de música gravada, jornalismo, transmissões esportivas e a prestação de serviço. SAIBA MAIS O RÁDIO COMO PALCO DA POLÍTICA O governo de Vargas chega ao fim em 1945, mas sua presença e o peso do rádio não diminuíram. Era o campo fundamental de nossos embates políticos. Durante os anos de 1950 e 1960, o rádio se tornou mais múltiplo, tal como nosso breve momento democrático. Entre os anos de 1945 e 1964 tivemos uma experiência democrática que reuniu eleições – ainda que controversas – que levaram Dutra, retorno de Vargas, Juscelino e Jânio Quadros ao poder. Dois vices ainda governaram, um pela morte de Vargas – Café Filho – e outro pela renúncia de Jânio Quadros – João Goulart. Entre certa euforia do pós-guerra e a preocupação da Guerra Fria, o mundo vê novas tecnologias surgirem. A televisão é um dos meios mais marcantes, com imagens em preto e branco começando lentamente a reunir pessoas. Mas, ainda assim, o rádio era poderoso. Foi o meio utilizado, por exemplo, por Carlos Lacerda para denunciar Getúlio Vargas, gerando uma pressão que o levaria a morte. Foi pela rádio também que chegou a busca de um novo estilo – Bossa Nova –, tentando pensar um Brasil mais sofisticado, tão segmentado quando a própria rede se apresentava. Além da TV, outra novidade tecnológica surge e ganha força nesse período: O transistor. Ele foi inventado nos Estados Unidos, em 1947, e já era produzido em larga escala em 1954. Os aparelhos receptores de válvulas eletrônicas eram pesados, pois precisavam de grandes baterias para abastecer de energia os tubos. Com a tecnologia do transistor há possibilidade da troca dos aparelhos enormes – e de escuta coletiva –, que ficavam em destaque nas salas privilegiadas, por aparelhos individuais, pequenos e leves que poderiam ser transportados para qualquer lugar, pois funcionavam na energia elétrica ou com pilhas. Na década de 1960, o Brasil já produzia o rádio transistor, que se popularizou com a transmissão dos jogos de futebol. Figura 12. Modelo de rádio transistorizado de 1958 BRASIL 1X2 URUGUAI COPA 1950 - ARQUIVO NACIONAL A TRANSMISSÃO DOS JOGOS DE FUTEBOL O futebol é um capítulo à parte na história do rádio. Popular desde os anos 1930, Vargas fez chegar ao Brasil inteiro os jogos narrados do Rio de Janeiro, que fazia sucesso nas transmissões públicas. Com o transistor e o rádio de pilha, chegamos a uma nova fase. Apaixonados ouviam partidas de seu time e os estádios estavam cada vez mais cheios. A seleção brasileira, transformada em ícone de brasilidade, nos causou sofrimento em 1950, mas fez o Brasil inteiro acompanhar os jogos transmitidos da Suécia e gerou uma comemoração “quase” em tempo real depois da vitória nacional na Copa do Mundo de 1958. Fenômenos decorrentes desse processo fazem, por exemplo, que clubes do Rio de Janeiro − que tem população menor do que capitais como São Paulo e Belo Horizonte − tornem-se os mais populares do país. Outro segmento eram os primeiros programas de prestação de serviço, uma espécie de achados e perdidos. Aos poucos, os conteúdos informativos vão ganhando forma e o radiojornalismo moderno ganha impulso na Emissora Continental, do Rio de Janeiro, com esforços do locutor esportivo Gagliano Netto e do radialista Afonso Gomes, que trazem o formato que atualmente conhecemos como “música-esporte-notícia”. O slogan da emissora ilustra seus objetivos “Continental, a serviço do povo por toda a parte”. Nesse modelo, a fala ocupa a maior parte do tempo da grade de programação, apesar de haver horários em que a música está presente. EMISSORA CONTINENTAL A Continental é um case bem interessante pelo número de abordagens diversas. Podemos exemplificar: No esporte, o futebol ganha destaque com grandes coberturas − afinal, a seleção brasileira estava em alta, tendo conquistado 3 títulos em 4 copas do mundo (1958, 1962 e 1970) e com jogadores como Garrincha, Pelé e Vavá. A emissora também se dedicava a informações e coberturas do vôlei e do basquete. Outro marco da Continental eram as coberturas do carnaval, que contavam com uma enorme estrutura para seus repórteres na rua, que podiam falar de mais de 40 pontos diferentes. Os equipamentos de externa eram enormes e eram necessários vários homens para deslocar todo o aparato tecnológico das transmissões. A TV VAI GANHANDO ESPAÇO E LEVA PARA AS TELAS O PAPEL DO ENTRETENIMENTO, QUE ANTES ERA DO RÁDIO. OS GRANDES ARTISTAS TROCAM SEUS CONTRATOS COM AS EMISSORAS SONORAS PARA APARECEREM, AINDA EM PRETO E BRANCO, NA TELINHA DA TV E SEUS FESTIVAIS. O RÁDIO SENTE, ENTÃO, A NECESSIDADE DE SE APROXIMAR DO OUVINTE E CRIA UMA ESTRATÉGIA DE BATE-PAPO, CONVERSA COM CARACTERÍSTICAS ADAPTADAS AO TIPO DE OUVINTE QUE INTERESSA, DE ACORDO COM A SEGMENTAÇÃO ESCOLHIDA. SAIBA MAIS AM E FM Comparado com o AM (amplitude modulada), o FM (frequência modulada) tem menor alcance, porém melhor qualidade do som, o que permite novos formatos de locução com vozes menos impostas e melhor escuta das músicas. Em certa medida, a partir das diferenças na qualidade do som e capacidade de cobertura das emissoras, as AMs dão prioridade às vozes masculinas, mais potentes, são mais faladas, dão ênfase às informações e à prestação de serviço. Já as FMs dão atenção especial à segmentação da audiência, exploram a programação musical e se aventuram nos diferentes tipos de formatos. A rádio AM Clique no ícone para ouvir. A rádio FM Clique no ícone para ouvir. FASE DA SEGMENTAÇÃO: PARTE 2 − A DITADURA CIVIL-MILITAR O Brasil vivia um momento político tenso com a Ditadura Civil-Militar, sob o comando de sucessivos governos militares, que exerciam censura de conteúdos contra o governo e limitavam diversas iniciativas e expressões culturais, de abril de 1964 até março de 1985. Figura 13. Tanques de guerra ocupam o Congresso Nacional Em 1964, diante de um quadro de instabilidade política, o presidente João Goulart sofria o golpe, e uma junta militar escolhe Castelo Branco como presidente. Assim permaneceríamos até 1985, quando Tancredo Neves é eleito por eleições indiretas. A rádio, apesar do crescimento da televisão de maneira incontestável, ganhava novos públicos e espaços, fosse pela manifestação popular com as FM, trazendo novas influências, ou como forma de difusão e controle do sistema. Programas educativos e propagandas governamentais são usadas para valorizar a identidade nacional. A Ditadura não pode ser compreendida como um momento somente militar, uma vez que a atuação de civis no executivo era constante. No entanto, os princípios de nacionalismo e educação nacionalizante percorreu todo o período, desde a implementação (1964-1968), maior repressão (1969-1978) ou reabertura (1979-1985). Ao longo da segunda metade da década de 1980, três emissoras se destacam investindo esforços no segmento do jornalismo 24h: A Rádio Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro; a Rádio Gaúcha, do Rio Grande do Sul; o Sistema Globo de Rádio, inspirado na última e que, em 1991, passa a operar com a CBN (Central Brasileira de Notícias). EM MAIO DE 1983, É LANÇADO OFICIALMENTE O SISTEMA NACIONAL DE RADIODIFUSÃO EDUCATIVO, SOB COORDENAÇÃO DA FUNDAÇÃO ROQUETTE-PINTO (FRP), ÓRGÃO VINCULADO À SECRETARIA DE COMUNICAÇÃO SOCIAL DA PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. AQUI HÁ UM MOVIMENTO DE INTEGRAÇÃO ENTRE EMISSORAS DE TV E RÁDIO. Ainda durante o período da Ditadura Civil-militar, em seu momento de reabertura, cresce nas FM a programação “jovem”, repleta de músicas, narradores com estilos diversos e ampliando no Brasil a presença demovimentos como rock, punk, com a criação na década de 1980 de rádios alternativas. FASE DA CONVERGÊNCIA Com a redemocratização em curso, há a abertura a novas tecnologias e ao intercâmbio com a cultura mundial. Lentamente, durante o fim dos anos 1980 e após a eleição de Fernando Collor de Mello, ocorrem a derrubada da política protecionista e o aumento da difusão de informação. A internet chega lentamente em 1990, e a televisão já é móvel e utensílio básico – grande número de famílias tem em casa como um eletrodoméstico cotidiano. A TV está na sala, a informação é cada vez mais fácil, mais corriqueira. De 1998 em diante, um novo fenômeno se populariza: a internet e a troca de dados. Sistemas de comunicação vívidos, trocas de dados na abertura do sistema da telefonia, banda larga − a possibilidade de acesso se modifica completamente nas últimas três décadas. Figura 14. Ex-presidente Fernando Collor de Melo após a cerimônia de posse Figura 15. Na fase da convergência, o rádio precisa novamente se reinventar e se mostra o veículo mais adaptável à chegada das chamadas novas tecnologias digitais. Surgem possibilidades antes nunca pensadas nos modos de fazer e de escuta. O aparelho celular também influencia a relação com a mídia sonora, a produção de conteúdo e os modos de recepção e interação. São tantas novidades que o conceito de rádio precisa ser atualizado, há a reconfiguração do mercado da radiodifusão, a possível quebra hegemônica, necessidade de novos marcos regulatórios e, de forma urgente, adquirir e hibridar saberes. A internet chega ao Brasil no final da década de 1980 e início de 1990, de forma ainda tímida, com uso experimental e exclusivo das universidades e organizações não governamentais. Era praticamente uma ferramenta de correio eletrônico e conferências para troca de mensagens. Em 1995, a internet passa a ser também uma possibilidade, ainda muito restrita, para a população, abrindo assim novas formas de comunicação interpessoal, organizacional e dos meios de comunicação, incluindo o rádio. Em 1996, já era possível observar o uso da web para divulgação de produtos artísticos e musicais. O cantor e compositor Gilberto Gil, por exemplo, lançou uma versão acústica, ao vivo, e conversou com os internautas sobre a nova tecnologia. O LEQUE DE POSSIBILIDADES QUE CHEGOU JUNTO COM A INTERNET FEZ AS EMPRESAS DE RADIODIFUSÃO PENSAREM EM DIVERSIFICAR AS FORMAS DE CONSUMO DE SEUS CONTEÚDOS, OU SEJA, POSSIBILITAR NOVOS CANAIS DE ACESSO À INFORMAÇÃO, SEM PERDER O FOCO NA AUDIÊNCIA. ENTENDE-SE AQUI QUE O IMPORTANTE É CHEGAR ATÉ O PÚBLICO, INDEPENDENTEMENTE DO SUPORTE TÉCNICO UTILIZADO PARA ISSO ACONTECER. Algumas iniciativas merecem destaque nessa fase da convergência, como a CBN (Central Brasileira de Notícias), emissora especializada em notícias 24h, que em 1996 replica seu sinal de ondas médias também na frequência modulada (FM). Treze anos mais tarde, a Rádio Gaúcha AM, de Porto Alegre, também oferece seu conteúdo simultaneamente em ondas curtas e em FM. Já a Super Rádio Tupi, do Rio de Janeiro, emissora popular do estilo “musica-esporte-notícia”, quebra o tabu de que o lugar do rádio popular é no AM e começa a transmitir de forma simultânea no AM e no FM, em junho de 2009. Em seguida, a Rádio Globo do Rio de Janeiro, também do segmento popular AM, faz o mesmo e começa a ser ouvida no AM e no FM simultaneamente. Há o crescimento das emissoras exclusivamente web, que não precisam de outorga para funcionar, e do podcasting. Emissoras com cunho comunitário, educativo e até comercial, com interesse em nichos cada vez mais específicos, visando a segmentação dentro da segmentação, optam por funcionar apenas na web. Percebemos ainda a hibridação de linguagens e formatos. A internet passa a ser acessada no computador, no tablet, no notebook e, especialmente, no celular. Figura 16. Surge aqui uma série de questões para serem resolvidas que envolvem, entre elas: regulamentação questões jurídicas direitos autorais novos influenciadores novas formas de pensar um conteúdo multimídia e multiplataforma novas formas de escuta interatividade Atenção! Para visualização completa da tabela utilize a rolagem horizontal O termo multimídia Indica que uma mídia pode e deve explorar vários formatos, por exemplo: O áudio e, nos espaços digitais, os textos, as fotos, os gráficos, os memes. Até mesmo um autorrádio pode trazer no template o nome da música, nome do cantor e informações do noticiário. O termo multiplataforma Refere-se à possibilidade de estar em várias plataformas ao mesmo tempo, por exemplo: Pelo aparelho de rádio moderno ou de pilhas, na TV a cabo, no autorrádio, no computador, no tablet, no celular. Atualmente, há um consenso sobre a necessidade de atualização para o conceito de rádio. Esse percurso foi intenso, com reflexões, diálogos em congressos e grupos de pesquisas e, em certo grau, no início, com resistência de algumas linhas da comunidade acadêmica. Somente em 2010 é apresentado um novo conceito aprovado pela comunidade acadêmica e grupos de estudos de mídia sonora, rádio e radiodifusão: MEIO DE COMUNICAÇÃO QUE TRANSMITE, NA FORMA DE SONS, CONTEÚDOS JORNALÍSTICOS, DE SERVIÇO, DE ENTRETENIMENTO, MUSICAIS, EDUCATIVOS E PUBLICITÁRIOS. SUA ORIGEM, NO INÍCIO DO SÉCULO XX, CONFUNDE-SE COM A DE, PELO MENOS, OUTRAS DUAS FORMAS DE COMUNICAÇÃO BASEADAS NO USO DE ONDAS ELETROMAGNÉTICAS, PARA TRANSMISSÃO DA VOZ HUMANA A DISTÂNCIA, SEM A UTILIZAÇÃO DE UMA CONEXÃO MATERIAL: A RADIOTELEFONIA, SUCESSORA DA TELEFONIA COM FIOS, E A RADIOCOMUNICAÇÃO, ESSENCIAL PARA A TROCA DE INFORMAÇÕES, DE INÍCIO, ENTRE NAVIOS E DESTES COM ESTAÇÕES EM TERRA OU, NO CASO DE FORÇAS MILITARES, NO CAMPO DE BATALHA. [...] DE INÍCIO, SUPORTES NÃO HERTZIANOS COMO WEB RÁDIOS OU O PODCASTING NÃO FORAM ACEITOS COMO RADIOFÔNICOS [...]. NO ENTANTO, NA ATUALIDADE, A TENDÊNCIA É ACEITAR O RÁDIO COMO UMA LINGUAGEM COMUNICACIONAL ESPECÍFICA, QUE USA A VOZ (EM ESPECIAL, NA FORMA DA FALA), A MÚSICA, OS EFEITOS SONOROS E O SILÊNCIO, INDEPENDENTEMENTE DO SUPORTE TECNOLÓGICO AO QUAL ESTÁ VINCULADA. (KISCHINHEVSKY, 2010, p. 1.009-1.010) O surgimento de emissoras exclusivamente online, que funcionam sem outorga, leva a crer que há a possível chance – ou a sensação – de quebra hegemônica dos grandes conglomerados de comunicação. Surge a possibilidade de produção de conteúdo cada vez mais segmentado, com nicho e subnicho bem específicos, como, por exemplo: Uma rádio web para mulheres que são mães solteiras e trabalham fora, são de origem nordestina, mas moram na capital de São Paulo. São nichos que no mercado tradicional talvez não fossem lucrativos ou tivessem tamanho que justificasse tal esforço. Outro ponto importante é a não obrigatoriedade de ser um profissional de comunicação para atuação e possível destaque. Na web, os mais jovens, pessoas sem experiência no dial, representantes de grupos excluídos ou especialistas em um tema específico podem produzir conteúdo de qualidade com liberdade para criar novos estilos de locução, gêneros e formatos, e até misturar um pouco de tudo criando novidades híbridas. Uma comunidade carente, por exemplo, pode ter uma emissora online que mostra seus artistas, suas dificuldades e oferece prestação de serviço direcionada. Um médico pode ter um canal de podcasting e produzir conteúdo sobre saúde para a população em geral, ou direcionado para outros médicos. MUDOU A FORMA DE SE COMUNICAR COM O OUVINTE. ANTES ESSA CONVERSA ENTRE EMISSORA E OUVINTE ERA FEITA POR CARTAS E DEPOIS POR TELEFONE, ATÉ A CHEGADA DO E-MAIL. ATUALMENTE, ESSA COMUNICAÇÃO É MAIS RÁPIDA PELAS REDES SOCIAIS E HÁ UMA CONVERSA PARALELA ENTRE OS OUVINTES NAS POSTAGENS E NOS GRUPOS DE INTERESSE. ALÉM DAS REDES SOCIAIS OFICIAIS DAS EMISSORAS, OS PROFISSIONAIS DE RÁDIO TAMBÉM SE RELACIONAM ATRAVÉS DOS SEUS PERFIS PESSOAIS. ALGUNS RADIALISTAS RELATAM, INCLUSIVE, QUE SÃO MAIS RECONHECIDOS NAS RUAS, POIS O OUVINTE O RECONHECE DE FOTOS E VÍDEOS NA INTERNET. Nos tempos de internet, além da necessidade de rever o conceito de rádio é indispensávelobservar novos caminhos, abrindo a mente para se reinventar em questões comerciais, mercadológicas, jurídicas, de representatividade, de acesso à informação, reconfigurações do papel do locutor/comunicador/DJ, novas formas de produção, consumo, entender as novas demandas da audiência, alcance, métricas, fluxo de informação, interatividade, coparticipação e profissionalização. Essa fase ainda está em mutação e, provavelmente, muitas possibilidades surgirão. A seguir, o Professor Rodrigo Rainha e o Radialista David Rangel comentam o conteúdo do módulo. Clique no ícone para ouvir. VERIFICANDO O APRENDIZADO MÓDULO 2 Reconhecer a responsabilidade social do rádio Para discutir o papel social do rádio no decorrer dos anos é preciso, primeiro, definir o que é papel social. Podemos dizer que trata-se de um conceito sociológico visto de formas diversas, mas compreenderemos aqui como a função que um indivíduo assume na sociedade. O PERSONAGEM “RÁDIO” COMUNICAÇÃO DEMOCRÁTICA O rádio fala para todos de forma democrática, não importando se você tem ou não estudo, diploma, condição financeira, sua localização, se é homem, mulher, novo, velho. Não há a necessidade de saber ler ou escrever − para se comunicar pelo microfone é preciso apenas falar e, para ouvir, basta ter capacidade auditiva para tal. Por mais estranho que pareça, é comum existirem locutores e comunicadores com pouca capacidade de escrita ou mesmo analfabetos. Figura 17. O rádio fala com o presidiário, com os doentes nos leitos de hospitais, com quem está isolado em uma ilha ou em alto-mar. Com quem está em áreas de floresta ou zona rural, com os grandes centros urbanos e as periferias. Fala com os médicos, advogados, com a dona de casa, o pedreiro, o desempregado, o morador de rua, o analfabeto. Fala com as crianças, os centenários e os jovens. Figura 18. BAIXO CUSTO Quanto custa um radinho de pilhas, um aparelho de TV e a assinatura mensal de um jornal? Qual é o meio de acesso à informação mais barato? O rádio. O investimento é apenas no aparelho receptor, que pode ser bem simples e barato. Além disso, a quantidade de emissoras radiofônicas de sinal aberto é muito maior do que a da TV aberta. Levando em conta o investimento para aquisição do aparelho e o número de emissoras disponíveis no dial, o rádio tem o melhor custo benefício de acesso à informação. A produção radiofônica também é mais barata. Imagine, por exemplo, um comercial de TV de um calçado esportivo em que o jogador de futebol famoso entra em campo, o estádio está lotado e, de repente, surge um disco voador trazendo a tal “chuteira de outro mundo”. Como seria produzir essa cena na TV? Locação, figurantes, efeitos especiais, equipe técnica de gravação, edição etc. Isso custaria muito dinheiro. Agora imagine como fazer esse mesmo comercial no rádio. Uma única pessoa poderia narrar e, com muita imaginação, editar os efeitos sonoros. Um microfone, uma pequena mesinha de áudio e um computador são suficientes para essa “superprodução”. ABRANGÊNCIA As ondas curtas, tropicais e médias possuem abrangência quase ilimitada, e sua restrição está apenas na potência dos transmissores e na legislação. As antigas AMs (amplitude modulada) tinham abrangência de sinal muito similar às da TV. O rádio conta ainda com a frequência modulada (FM) com alcance de curta distância, que permite a produção e cobertura local. REGIONALIDADE A produção da TV é centralizada no eixo Rio-São Paulo. Isso não quer dizer que outros locais não produzam conteúdo, mas grande parte do que é veiculado vem desses dois estados da região sudeste. As emissoras de rádio, por sua vez, possuem maior diversidade de produção de conteúdo. Pequenas FMs podem cobrir alguns bairros ou pequenas cidades, e o número dessas emissoras espalhadas pelo Brasil é bem significativo. Em contrapartida, emissoras de longo alcance levam informação dos grandes centros para as regiões mais distantes. Figura 19. O anúncio da Radio Club de Pernambuco, publicado na revista O Malho, na edição de maio de 1939. Figura 20. Roquette-Pinto IDEALIZAÇÃO DO RÁDIO POR ROQUETTE-PINTO Ao inaugurar a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, em 20 de abril de 1923, Roquette-Pinto pensava na responsabilidade social e educativa do veículo. Seu idealismo é facilmente identificado no slogan “Trabalhar pela cultura dos que vivem em nossa terra e pelo progresso do Brasil”. O RÁDIO É O JORNAL DE QUEM NÃO SABE LER; É O MESTRE DE QUEM NÃO PODE IR À ESCOLA, É O DIVERTIMENTO GRATUITO DO POBRE; É O ANIMADOR DE NOVAS ESPERANÇAS; O CONSOLADOR DO ENFERMO; O GUIA DOS SÃOS, DESDE QUE O REALIZEM COM ESPÍRITO ALTRUÍSTA E ELEVADO. (TAVARES. 1997, p.8) Na época das Rádios Clubes, o acesso era apenas da elite, mas percebeu-se a importância e o poder que essa tecnologia trazia. O Rio de Janeiro era a capital federal, com forte movimento cultural e, levando em conta o contexto da época, Roquette-Pinto viu no rádio um instrumento de transformação educativa. Conferências, música erudita, leitura de jornais, análise de fatos políticos e econômicos − não havia radialistas profissionais e quem falava ao microfone eram cientistas, professores e intelectuais. A REGULAMENTAÇÃO DA PUBLICIDADE, EM 1932, ABRIU PORTAS PARA OS IDEAIS EDUCATIVOS-CULTURAIS DE ROQUETTE-PINTO. O NÚMERO DE ANALFABETOS NO BRASIL NO PERÍODO AINDA ERA GRANDE, INCLUSIVE NA CAPITAL, E O RÁDIO PASSOU A SER O ÚNICO MEIO DE AQUISIÇÃO DE INFORMAÇÃO E ENTRETENIMENTO. Na década de 1930, o rádio passou a ser visto como um instrumento ideológico. Na lógica dos revolucionários, ele servia para auxiliar na consolidação de uma Unidade Nacional, importante ao período de modernizações, e na interação entre as diferentes classes sociais. PAPÉIS SOCIAIS DO RÁDIO O conceito de papel social também pode ser analisado pela ideia de “máscaras sociais” − cada sujeito é múltiplo e assume papéis e funções diferentes dependendo do meio social em que esteja imerso, ainda que seja efetivamente o mesmo sujeito. O rádio, teoricamente, é sempre o mesmo, mas assume papéis sociais diferentes dependendo das demandas de seu entorno. Com isso, ao longo da história foi assumindo máscaras e representações diversas. Assim, passamos a relatar dois dos papéis sociais que o rádio assume, vinculado à sua responsabilização. Figura 21. EDUCAÇÃO Em todas as fases do rádio, podemos observar ações com interesse educativo e movimentos com forte responsabilidade social. Para parte considerável da população, o rádio ainda é o principal meio de comunicação. Nosso Brasil de muitos “Brasis” ainda tem deficiências no fornecimento de energia elétrica, de acesso à educação e capacidade de deslocamento. O poder de persuasão e penetração do rádio é tão forte que Igrejas e políticos têm interesse na aquisição de concessão ou de fatias da programação. DESSA FORMA, PROGRAMAS GOVERNAMENTAIS ENTENDERAM A FUNÇÃO EDUCACIONAL QUE O RÁDIO PODE ASSUMIR. É IMPORTANTE SINALIZAR, PORÉM, QUE O PAPEL DEMOCRÁTICO DO VEÍCULO É DECORRENTE DAS PRÁTICAS. QUANDO FALAMOS EM POLÍTICA NACIONAL DE CONCESSÕES, O RÁDIO NUNCA ESTEVE LIVRE DAS RELAÇÕES POLÍTICAS. ASSIM, SUA DINÂMICA E SUAS RELAÇÕES COM O GOVERNO, ASSIM COMO A PRESSÃO EXERCIDA POR ESTES, SEMPRE FORAM CLARAS. Até 1988, por exemplo, a concessão de um espaço formal no “dial” dependia quase exclusivamente do interesse do presidente. Devemos ter cuidado, portanto, com o uso educacional do rádio. Debates, mesas-redondas e entrevistas são uma coisa, mas sua função formal para atuação na educação − seja por uso de horários em rádios diversas ou ainda com programações oficiais como a Rádio MEC − atende e dialoga com interesses do Estado e principalmente de quem o governa. PROJETO MINERVA RÁDIO MEC IDENTIDADE O rádio é um espaço para debates, mesas-redondas, entrevistas com especialistas. Em algumas emissoras, essas entrevistas e esses debates são longos, com mais de uma hora de duração, permitindo aprofundar o tema e levar, em certa medida, uma possibilidade de reflexão aos ouvintes. Nas rádios mais populares a prestação de serviço é mais atuante e, em algunscasos, beira o assistencialismo. Existe, em certo grau, espaço para ser – ou parecer ser − porta-voz da população. O papel dos comunicadores é essencial e há um forte vínculo por parte dos ouvintes. É comum, por exemplo, o ouvinte dizer que escuta “tal comunicador” e não “tal emissora”. Para o ouvinte, o comunicador passa a ser amigo íntimo. Ele exercita a empatia e sabe dos problemas daquela audiência, fala como um deles e, de certa forma, representa aquela audiência. Abre espaço para críticas ao sistema público, chama atenção para a rua sem asfalto, locais sem rede de esgoto, hospitais que não atendem. Ele é o amigo que conta histórias tristes de familiares que se maltratam e de pessoas que passam necessidade, dá gargalhadas, se emociona, conta “causos” engraçados. Essa proximidade alimenta o “superpoder” da credibilidade ao rádio quando comparado aos demais meios de comunicação. Figura 22. A RÁDIO CRIADA PARA TER “RESPONSABILIDADE SOCIAL” Vamos sair do campo da teoria e passar a um exemplo real: Machado de Assis, ao escrever sobre o momento em que o Brasil se torna uma República, brinca com o fato de que o país demorou a descobrir que teve mudança tão dramática. A dúvida sobre o que aquilo representava e a ausência de informações gerava a sensação de que a integração nacional era reduzida. No entanto, pelo rádio, em poucas horas o Brasil inteiro sabia que Getúlio Vargas decretara a Guerra ao Eixo e entrara na Segunda Guerra Mundial. O suicídio de Getúlio e a comoção produzida também foram imediatos, gerando revoltas e manifestações em todo o país. O COMPROMISSO DO RÁDIO É COM A PRECISÃO DA NOTÍCIA – UMA VEZ QUE PRECISA DESCREVER – DE FOMENTAR SERVIÇOS PÚBLICOS, INFORMAR SOBRE GOVERNOS E A POLÍTICA E, EM ESPECIAL, SER O PARCEIRO PRINCIPAL NOS MOMENTOS MAIS CRÍTICOS. DIARIAMENTE, NOS CARROS, MILHARES DE MOTORISTAS ESPERAM QUE O RÁDIO LHES INFORME DE MANEIRA VELOZ SOBRE QUALQUER FATO RELEVANTE, SEJA O PROBLEMA DO TRÂNSITO OU UMA MUDANÇA NA POLÍTICA. A CONFIANÇA DO DISCURSO RADIOFÔNICO REPRESENTA UM PROCESSO DE CREDIBILIDADE FUNDAMENTAL. Essa noção dada por exemplares históricos do rádio inaugura sua função de responsabilidade social. Muitas vezes, a rádio foi pensada e construída para esse fim. A seguir, relataremos alguns programas que apontam para esse processo. Já imaginou, por exemplo, aulas de português, matemática, medicina, ciências e até ginástica pelo rádio? Sim, muitas aulas foram ministradas nas ondas sonoras, inclusive de ginástica. A Hora da Ginástica foi o programa que ficou mais tempo no ar: 51 anos, sendo 40 ao vivo. O saudoso professor de educação física Oswaldo Diniz Magalhães (1904-1998) iniciou o programa de atividade física em 1932, na Rádio Educadora Paulista. O sucesso veio quando ele passou a falar nos microfones da Rádio Nacional do Rio de Janeiro. RESPONSABILIDADE SOCIAL Uma vez constituída uma sociedade, as instituições tornam-se responsáveis pelo bom funcionamento social, melhorando a estrutura para os coletivos de seus cidadãos. OSWALDO DINIZ MAGALHÃES O professor Oswaldo Diniz Magalhães precisou se formar no exterior porque, na época, não existia faculdade de educação física no Brasil. Durante seus estudos, ele observou que os brasileiros eram sedentários e que várias doenças poderiam ser evitadas com um pouco de exercício na rotina. Até a década de 1980, não existiam academias por toda parte como vemos atualmente. Preocupado com a saúde dos brasileiros, o professor Oswaldo Diniz dedicou seus dias a tentar conscientizar sobre a importância da atividade física. Com um painel de fotos dos movimentos (eram encontrados nas revistas especializadas sobre o rádio) e um simples bastão (que poderia ser um cabo de vassoura), ele ensinava às famílias brasileiras a importância da atividade física e seus benefícios. O ouvinte fazia ginástica e tinha acesso a informações sobre higiene, saúde, dicas práticas para o dia a dia e como viver em harmonia com a família e no trabalho. O professor ainda respondia perguntas e fazia homenagens durante os exercícios. Figura 23. Série de exercícios físicos publicada na Revista Boa Nova, edição de setembro de 1939. Figura 24. Série de exercícios físicos publicada na Revista Boa Nova, edição de setembro de 1939. Durante o Estado Novo, nos anos 1930, existia uma preocupação com o civismo e o esporte. De forma preconceituosa, o corpo branco e forte era visto como superior, e existiam clubes e associações atléticas entre grupos de imigrantes. Com o passar dos anos, o esporte foi ganhando espaço entre a população e, na década de 1960, tivemos a explosão do futebol profissional, impulsionada pela excelente temporada da seleção brasileira nas copas do mundo. O esporte passou a ser mais democrático com a presença de atletas negros em destaque, como o Pelé. Depois de uma temporada na Rádio Nacional do Rio de Janeiro, as aulas de ginástica foram para a Rádio MEC, onde permaneceram até 1981. Em 1985, o programa retornou ao ar, conduzido pelo radialista Wagner Gomes, também na Rádio MEC, e depois foi para a Rádio Globo, quando saiu do ar. Segundo Ferraretto (2007), outro demonstrativo do papel social do rádio foi o episódio da década de 1950 envolvendo um avião da força aérea brasileira com 14 pessoas a bordo. A aeronave atravessou a Amazônia e estava tentando pousar no aeroporto de Campo Grande − no então estado do Mato Grosso (atualmente Mato Grosso do Sul) −, com sérios problemas, pois o aeroporto estava sem energia elétrica e o piloto não conseguia visualizar a pista de pouso. O piloto, então, entrou em contato com os aeroportos da região, e a informação chegou rapidamente à Base Aérea de Santa Cruz, no Rio de Janeiro, que entrou imediatamente em contato com a Rádio Nacional. Minutos depois, o locutor de plantão abriu o microfone e transmitiu a mensagem, chamando atenção ao povo mato-grossense: ATENÇÃO, CAMPO GRANDE! ATENÇÃO, CAMPO GRANDE, EM MATO GROSSO! UMA FORTALEZA VOADORA DA FAB PRECISA ATERRISSAR, MAS O CAMPO DE POUSO ESTÁ ÀS ESCURAS. OS MORADORES DA CIDADE DEVEM IR COM SEUS AUTOMÓVEIS PARA O AEROPORTO A FIM DE ILUMINAREM AS PISTAS DE POUSO COM SEUS FARÓIS. (GOLDFEDER, 1980, p. 40). Meia hora depois, a pista estava totalmente iluminada e o avião pousou sem mais problemas. Um acontecimento como esse deixa claro o poder de penetração do rádio e sua função social no território brasileiro, de dimensões continentais. RÁDIO: DEMOCRÁTICO E INFORMATIVO Com os meios de comunicação cada vez mais focados nos interesses comerciais, o rádio passou a ser chamado de “primo pobre”, por ser uma mídia barata. Mas, apesar dos altos e baixos da história, ele sempre foi visto com forte potencial democrático e informativo, mesmo no século XXI, com a internet ocupando espaço e reconfigurando seus modos de fazer e de escuta. No mundo, a comunicação por ondas sonoras ainda é o meio mais acessado e o principal entre as classes menos favorecidas. Em muitos episódios ele salvou vidas, incluindo em períodos de guerra, apagões, catástrofes naturais e locais em situação de extrema pobreza. PREFIXO - RÁDIO DIFUSORA 1170 KHZ - MOSSORÓ - RN (VERSÃO CANTADA) A ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA A EDUCAÇÃO, A CIÊNCIA E A CULTURA (UNESCO) MILITA E ATUA PELO DIREITO DO CIDADÃO À COMUNICAÇÃO E À INFORMAÇÃO, E SE REFERE AO VEÍCULO COMO FUNDAMENTAL POR SER BARATO, DEMOCRÁTICO E TER POTENCIAL DE DISTRIBUIÇÃO E DE PENETRAÇÃO NA POPULAÇÃO. Na região amazônica, por exemplo, o rádio é o único meio de comunicação existente. É através dele que populações ribeirinhas e índios têm informação sobre o que acontece no Brasil e no mundo. É também no rádio que esses grupos excluídos expressam e preservam sua música, seu modo de falar, sua cultura, sua arte, suas reivindicações e seus apelos. Existem programas nessa região – e outras de difícil acesso – que são de recados, uma espécie de classificados, em que a população recebe e manda notícias. Nesses programas, é comum o comunicado de nascimento e de falecimento, por exemplo. A seguir, vamos imaginar a locução ilustrativa dos programas de recadosque, para muitos brasileiros, é a única forma de se comunicar com parentes e amigos e de receber informação: DONA MARIA DAS DORES, DA COMUNIDADE DE RIBEIRINHA, SUA FILHA APARECIDA DAS DORES, QUE MORA HÁ SEIS ANOS EM SÃO PAULO, AVISA QUE ESTÁ PARA CHEGAR NO DIA 7 DE ABRIL. ELA DISSE QUE VAI TRAZER SEU NETINHO, O IGOR, PARA CONHECER A AVÓ. “É COM PESAR QUE INFORMO O FALECIMENTO DE (...). QUE DEUS CONFORTE O CORAÇÃO DOS FAMILIARES E AMIGOS”. “ATENÇÃO PARA AS CORRESPONDÊNCIAS QUE CHEGARAM NO POSTO DOS CORREIOS DO RIACHO DOCE: DONA IRACEMA MARIA, DO LOTE 4. SENHOR JUAREZ TUPINAMBÁ, DA PEIXARIA DO RIACHO FUNDO. APARECIDA MARIA DE LOURDES, DA FAZENDA SÃO GABRIEL...” “CALENDÁRIO DE ATENDIMENTO DO POSTO DE SAÚDE DE RIO VERDE: SEGUNDA E QUARTA-FEIRA TEM CLÍNICA GERAL E GINECOLOGIA. TERÇA E SEXTA-FEIRA É DIA DE PEDIATRIA E VACINAÇÃO DAS CRIANÇAS. LEVE A CARTEIRINHA DE VACINAÇÃO!” QUANDO TODOS OS MEIOS PARAM, QUANDO TUDO PARECE COMPLICADO, O RÁDIO SE MOSTRA PRESENTE E EFICIENTE. NOS DESASTRES, O VEÍCULO SEMPRE FOI UMA ARMA PODEROSA DE AUXÍLIO. Uma das ocasiões em que o rádio mostrou sua potência e responsabilidade social foi nas enchentes de fevereiro de 2003, que afetaram principalmente o sul e o norte fluminense, além da região serrana, no Rio de Janeiro, deixando mais de 800 desabrigados. Depois, em janeiro de 2010, uma chuva torrencial causou novamente danos inimagináveis na região serrana, deixando mais de mil mortos. Nova Friburgo, por exemplo, estava isolada, sem energia elétrica, sem abastecimento de água, ruas haviam desaparecido e os carros ficaram submersos na lama vermelha. Muitas comunidades estavam isoladas por causa de quedas de pontes e estradas. O trabalho era difícil até para as equipes de resgate e não havia abastecimento de comida e água potável. Por alguns dias, o único meio de comunicação a fornecer informação e prestação de serviço, inclusive aos vilarejos isolados, era o rádio, que foi fundamental até para auxiliar os órgãos públicos. Dez dias depois do ocorrido, ainda havia locais sem energia elétrica e água e vilarejos isolados. Foram plantões de muito trabalho e dedicação total à utilidade pública e prestação de serviço. Sem energia elétrica, não havia televisão nem internet. Em situações de guerra, calamidade, apagão e desastres naturais, o rádio mostra sua potência e grandiosidade com seu jeito falante de ser, democrático, veloz, informativo, de fácil distribuição, forte penetração e baixo custo. A seguir, o Professor Rodrigo Rainha e o Radialista David Rangel comentam o conteúdo do módulo. Clique no ícone para ouvir. VERIFICANDO O APRENDIZADO MÓDULO 3 Objetivo: Analisar a importância do veículo sonoro na sociedade brasileira Alguns fatores influenciam diretamente na produção de cultura e identidade de uma sociedade, como os períodos histórico, político, econômico, tecnológico, esportivo, da indústria fonográfica e do entretenimento. Há, ainda, uma forte relação entre o rádio e o mercado fonográfico, e aqui você vai ver que eles caminham de forma paralela e muito próximas. Pode parecer antagônico, mas o rádio tem seu papel fundamental na criação da identidade nacional brasileira e na preservação das culturas locais. A história do Brasil é marcada pela chegada de imigrantes de diversas partes do mundo. Tanto os colonizadores como os índios e escravos passaram por um processo de miscigenação que deu origem ao povo brasileiro, uma mistura racial interessante: Índios, portugueses, espanhóis, italianos, holandeses, alemães, africanos, árabes, japoneses etc. Foram muitos os povos que chegaram aqui trazidos à força ou à procura de uma nova vida. PRIMEIROS PASSOS DA RELAÇÃO DO RÁDIO COM A CULTURA E A IDENTIDADE BRASILEIRA O rádio que surge na década de 1920 começa de forma elitista, tocando óperas, peças de teatro, textos científicos e literários, notícias de jornal. Ao microfone falavam apenas os intelectuais, médicos, especialistas e as pessoas ligadas à alta sociedade. Os aparelhos receptores importados e caros eram exclusividade de uma pequena parte da população que ainda acreditava na superioridade da cultura chamada “da elite”. Muitos questionamentos surgiram, de pessoas que acreditavam não fazer sentido ouvir uma ópera ou orquestra sinfônica pelo rádio, pois a arte deveria ser “sentida”, ao vivo, no teatro. A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE NACIONAL NAS ONDAS DO RÁDIO Entre 1937 e 1945, durante o Estado Novo, o rádio passa a ser utilizado como veículo de construção/conscientização da Identidade Nacional Brasileira. Criava-se uma espécie de resistência ou negação à manifestação de outras identidades que não fossem a brasileira: Proibição do idioma alemão durante a Segunda Guerra Mundial, extinção de escudos ou símbolos regionais e até partidos políticos. A necessidade da formação dessa Cultura Nacional foi uma das propostas do governo de Getúlio Vargas, e a “queima das bandeiras” – quando as bandeiras dos estados foram queimadas dando destaque à bandeira nacional – trouxe à tona esse movimento político de priorizar a nação brasileira, não determinado estado ou região. Como essa era uma tarefa complexa em um país de dimensões continentais, o governo viu, de forma inteligente, o rádio como um aliado nesse processo, incluindo a unificação da língua portuguesa. Figura 25. O então presidente Getúlio Vargas, aos microfones de diversas emissoras de rádio em discursos realizado no mês de dezembro de 1938, em reportagem da Revista Pranove, edição No 8. Vargas incentivou o crescimento do número de emissoras e aconselhou aos estados e municípios que instalassem aparelhos receptores com alto-falantes em locais públicos. A “ordem” da presidência da república era que todas as pessoas tivessem acesso ao conteúdo radiofônico, pois era fonte de informações de interesse da nação. Havia um movimento forte também nas reformas educativas e participações cívicas. ATENÇÃO É importante destacar que, mesmo com todos os esforços e dedicação do governo para conduzir a formação da identidade nacional, radialistas, artistas e empresários também tiveram seu papel nesse discurso, tanto para reforçar como para dar vida própria a ele. Uma importante emissora da época era a Rádio Nacional do Rio de Janeiro, que contava com verbas do governo e campanhas comerciais para se estruturar e contratar artistas, técnicos e radialistas. Ela cresceu de forma rápida e se transformou em uma referência da cultura, influenciando o cotidiano dos brasileiros através da música, do humor, das radionovelas, dos artistas e da moda. Nesse contexto, três gravadoras marcavam território: Odeon, RCA Victor e a Columbia. A indústria fonográfica e o rádio fizeram o samba circular pela classe média. Noel Rosa cantava Com que roupa, Feitiço da Vila, Palpite infeliz e revelava a boemia do subúrbio carioca, em Vila Isabel. Figura 26. Ary Barroso se apresenta na Rádio Nacional Ary Barroso encantou com a composição Aquarela do Brasil, que foi gravada por Carmem Miranda e é tocada até hoje no mundo todo, como símbolo da música brasileira. Em 1988, a escola de samba União da Ilha do Governador levou para a avenida o enredo Aquarylha do Brasil prestando homenagem ao compositor e suas obras. Sílvio Caldas, com seu timbre único, também era um sucesso na época, cantando Faceira (de Ary Barroso), As pastorinhas (João de Barro e Noel Rosa), Chão de estrelas (Orestes Barbosa) e muitos outros sucessos. Henrique Foréis Domingues, mais conhecido como “Almirante” ou “A mais alta patente do rádio”, popularizou canções como: Na Pavuna, O orvalho vem caindo, Yes, nós temos banana e Hino do carnaval brasileiro. Segundo Vianna (1995), o samba dos guetos e dos pobres foi aos poucos ressignificado de seu “símbolo étnico” em “símbolo nacional”. AMERICAN WAY OF LIFE Na gestão de Vargas, o Brasil rompeu relações diplomáticas com a Itália e a Alemanha. O Repórter Esso não noticiava informações da Europa, da Ásia ou da África se estes não estivessem relacionados com algum interesse norte-americano. O sonho do American way of life foi transferido para a América Latina, e agênciasnorte-americanas atuavam com força na publicidade. Figura 27. Propaganda do Repórter Esso dos anos 50 O programa Um milhão de melodias, que ia ao ar na Rádio Nacional do Rio de Janeiro, foi um exemplo claro dessa americanização. A orquestra, regida pelo maestro Radamés Gnatalli, tocava um repertório que mesclava músicas nacionais e americanas, mas, para dar uma identidade "abrasileirada" às músicas, a orquestra tinha instrumentos como acordeão, pandeiro, caixeta e cavaquinho. Todos os arranjos eram adaptados especialmente para ressaltar a essência brasileira, inclusive nas canções internacionais. Empresas de refrigerante, lâmina de barbear, produtos de higiene e limpeza patrocinavam os programas radiofônicos, afinal, o rádio era o principal veículo de comunicação e era eficiente na relação com a audiência massiva. O FUTEBOL E O ORGULHO DE SER BRASILEIRO Na década de 1950, chega a TV, ainda sem força para brigar com o rádio. Somente na década de 1960, quando intensifica seus ajustes para a migração dos artistas para as telas, é que ela passa a ser a queridinha da elite. Assim como foi com o rádio, ter um aparelho de TV em casa torna-se símbolo de status. As ondas sonoras, então, apostam no jornalismo e na cobertura esportiva para atraírem os ouvintes. Figura 28. Imagem do Estádio do Maracanã durante jogo da Copa do Mundo de 1950 Nesse período, a seleção brasileira masculina de futebol ganhou destaque. O Brasil foi sede da copa de 1950, mas perdeu no Maracanã para o Uruguai. Durante a Segunda Guerra Mundial, houve uma paralisação temporária das competições e essa edição foi a primeira no pós-guerra. Em 1954, na copa da Suíça, perdemos para a Hungria, mas vencemos as duas edições seguintes, 1958 e 1962, com Pelé, Vavá e Garrincha. Em 1966, porém, a Seleção Canarinho fez uma péssima participação. É importante lembrar que em 1964 começou a Ditadura Civil-Militar, que durou até 1985. Na década de 1960, surge o transistor, que modifica a relação do ouvinte com o modo de escutar. Com o passar dos anos, os aparelhos ficam mais baratos, menores e portáteis. Surge o rádio de pilhas. Na Copa seguinte, em 1970, a camisa verde e amarela entra em campo com garra e determinada a trazer a taça. Sob o comando de João Saldanha, vence os adversários sem nenhuma derrota pelo caminho. Mesmo sob o domínio dos militares, o Brasil estava orgulhoso das cores verde e amarela. AS COBERTURAS ESPORTIVAS IMPACTAVAM A ROTINA DAS CIDADES, QUE ACOMPANHAM O VAI E VEM DA BOLA COM OUVIDOS COLADOS NO RADINHO. A TV AINDA ERA UM ELETROELETRÔNICO DA ELITE, MAS O RÁDIO ERA UM VEÍCULO DE MASSA, ESTRUTURADO E COM IMENSO PODER DE PENETRAÇÃO E DISTRIBUIÇÃO. O FUTEBOL PASSA A SER SÍMBOLO DA IDENTIDADE NACIONAL, UM LUGAR DE FALA DOS POBRES, NEGROS, PESSOAS DA PERIFERIA. O BRASIL É REPRESENTADO POR UM REI NEGRO E DE ORIGEM POBRE: PELÉ. O MODELO POPULISTA DE FORMAÇÃO DA CULTURA DE MASSA Os auditórios das rádios ficavam lotados e viraram lugar de entretenimento para a população do subúrbio, que queria ver de perto os artistas e músicos, entre 1950 e 1960. Para animar a plateia, eram promovidos sorteios de brindes e concursos − como o Rainha do Rádio, que criava uma espécie de rivalidade entre as candidatas, cada uma com seus fãs. Em muitos momentos, a euforia da plateia beirava a histeria. A Rádio Nacional vivia um dilema: “Agradar as massas e controlá-las concomitantemente, sem perder a capacidade de penetração e legitimidade.” (GOLDFELDER, 1980, p. 178). A classe média se incomodava com o comportamento dos fãs que faziam filas na porta das emissoras, chegando a sugerir o pagamento de ingressos para elitizar a frequência dos auditórios. Mas a indústria fonográfica e o rádio investem em gêneros populares como o tango, a música sertaneja, o baião e marchinhas de carnaval. Surgem, nessa época, estrelas como Emilinha Borba, Marlene, Dalva de Oliveira, Luiz Gonzaga, Castainha e Inhana, Nelson Gonçalves, Cauby Peixoto e Ângela Maria. Para a boemia intelectualizada, Dick Farney faz sucesso cantando Copacabana, de João Ribeiro e Alberto Ribeiro. As casas noturnas da zona sul carioca recebem os cantores e compositores que deram origem à Bossa Nova, entre eles: Lúcio Alves, Nora Ney, Antônio Maria, Tito Madi e Dóris Monteiro. Em 1964, cresce a Bossa Nova e suas letras de protesto, com Nara Leão, Paulo Sérgio Valle, Carlos Lyra e Geraldo Vandré. Figura 29. Nara Leão Com a chegada da cultura americana, a música sofre a influência do rock and roll após 1955, marcando espaço entre os mais jovens. O primeiro rock de composição brasileira foi composto por Miguel Gustavo e interpretado por Cauby Peixoto: Rock and roll em Copacabana. Surge uma sequência de adaptações das canções americanas na voz de Ronnie Cord, Celly Campelo e Demétrius. Em sequência, Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderleia dão início à Jovem Guarda, que é criticada pela falta de cunho político e por trazer elementos da cultura americana. Figura 30. Caetano Veloso se apresenta no 3o Festival de Música Popular Brasileira O Tropicalismo surge no Festival da Música Popular Brasileira (TV Record), em 1967, quando Gilberto Gil e Os Mutantes misturam o pop e o rock e cantam Domingo no parque. A plateia ficou dividida em relação ao novo estilo musical e, ao final da apresentação, surgiram aplausos e vaias. O público se emocionou com canções como Alegria, Alegria (Caetano Veloso e Beat Boys), Menina moça (Jamelão), Samba de Maria (Jair Rodrigues), Ventania (Geraldo Vandré) e Uma dúzia de rosas (Ronnie Von). Mas Ponteiro, composição de Edu Lobo e Capinam, interpretada por Edu Lobo e Marília Medalha, vence o festival. De acordo com Ortiz (1988), de 1969 a 1980, com novidades e rivalidades, o rádio e a indústria fonográfica se encontram em um contexto de um mercado de bens simbólicos e consolidação da indústria cultural. FMS MUSICAIS Figura 31. Nos anos 1970 e 1980, a Frequência Modulada (FM), de excelente qualidade sonora e pequeno alcance, propicia um crescimento do número de emissoras. Os locutores e DJs arriscam novas formas de se relacionar com o ouvinte, que passa a ter um perfil específico, segmentado e escuta individualizada. O aumento do número de emissoras também faz crescer o consumo da música e da indústria fonográfica, com surgimento de gravadoras independentes e de novos artistas. O PAPEL INTEGRADOR DO RÁDIO CONTINUA FORTE E, AO MESMO TEMPO, ELE ABRE PORTAS INTERESSANTES PARA A CULTURA LOCAL E REGIONAL COM SUAS MANIFESTAÇÕES ARTÍSTICAS. SURGE TAMBÉM O INTERESSE DE OUTORGA POR POLÍTICOS, IGREJAS E EMISSORAS COMUNITÁRIAS. No decorrer dos anos 1970, um hibridismo de gêneros vem à tona com os Mutantes, Secos e Molhados, Terço e 14 Bis. Ao longo da década de 1980, com o fim da Ditadura Civil-militar, os jovens mostram sua rebeldia cantando o “Rock Brasil” de Legião Urbana, Blitz, Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho, Ultraje a Rigor etc. A música retrata um movimento urbano de mobilização social e, em certo grau, engajamento com as eleições diretas. Em 1985, um megaevento musical marca um momento interessante para o fortalecimento do rock nacional e, ao mesmo tempo, não resistência às influências internacionais que ganham espaço principalmente nas FMs jovens: O Rock in Rio. Mais do que um evento cultural ou um lugar para apreciar shows dos grandes nomes da música da época, o festival é também um lugar de expressão cultural e de liberdade de expressão. Entre o final dos anos 1980 e 1990, as rádios populares começam a cantar e a romantizar a vida cotidiana dos sertões e do homem do campo. No topo da lista das paradas musicais temos Roberta Miranda, Sergio Reis, Chitãozinho e Chororó, Zezé di Camargo e Luciano, Leandro e Leonardo. Quando o sertanejo começa a apresentar sinais de saturação, em meados de 1990, o pagode ganha força, trazendo a representatividade do negro e do pobre das periferias urbanas com Raça Negra e Negritude Junior. As gafieiras e a Black Music se misturam em um novo gênero trazido por Tim Maia e Jorge Ben Jor, e a música baiana ajuda a esquentar o ritmo dos verões comÉ o tchan. A partir desse momento, fica cada vez mais difícil categorizar os gêneros, e surgem as variações da música sertaneja, do pagode, do rock e até da música baiana, que ganha destaque pela possibilidade de pequenas gravadoras mostrarem a música regional, com adaptações e hibridações, para todo Brasil. A cultura mescla elementos da cultura local e regional, com os nacionais e as tendências internacionais. Se até aqui as pequenas gravadoras ganhavam espaço e traziam artistas regionais para o mercado nacional, com a chegada da internet os artistas independentes também ganham a oportunidade de mostrar seu trabalho. Há a queda no mercado de CDs, porém isso não é proporcional ao consumo de música. O que acontece agora é a reformulação das formas de distribuição e consumo, que afetam tanto o mercado fonográfico como o mercado radiofônico. PODE-SE FALAR EM UMA MUNDIALIZAÇÃO DA CULTURA (HALL, 1995), ONDE NÃO HÁ MAIS AS RESTRIÇÕES GEOGRÁFICAS TERRITORIAIS. UMA PESSOA AQUI NO BRASIL PODE FACILMENTE SER FÃ E TER ACESSO À PRODUÇÃO MUSICAL DE UM ARTISTA INDEPENDENTE DE QUALQUER LUGAR DO PLANETA. ESSES ESTÍMULOS, JUNTO COM A FACILIDADE DE EDIÇÃO E MANIPULAÇÃO DO CONTEÚDO NO AMBIENTE DIGITAL, TRAZEM UMA NOVA REFLEXÃO SOBRE PRODUÇÃO, DISTRIBUIÇÃO, ENGAJAMENTO, REPRESENTATIVIDADE, INOVAÇÃO, TRADIÇÃO, DIREITOS AUTORAIS, MERCADO DA MÚSICA, MERCADO RADIOFÔNICO ETC. MIGRAÇÃO DO AM PARA O FM A rádio AM foi a primeira frequência a atender a população de massa, cobrindo o Brasil de dimensões continentais ainda no século XX. As mudanças tecnológicas, a força da internet e os consumos de informação em dispositivos móveis influenciam as tomadas de decisões no rumo da comunicação, incluindo da radiodifusão. É FUNDAMENTAL ENTENDER QUE O RÁDIO POPULAR POSSUI ESPECIFICIDADES NO DESAFIO ATUAL PELA SOBREVIVÊNCIA NO MERCADO RADIOFÔNICO EM RAZÃO DE ESTAR SAINDO DO AM, COM DATA MARCADA PARA ACABAR, E LUTANDO, POSSIVELMENTE, POR ESPAÇO NA FREQUÊNCIA MODULADA TRADICIONALMENTE MUSICAL E SEGMENTADA. ESSE DESLOCAMENTO SOFRE E GERA INQUIETAÇÕES IMPORTANTES, EM DIVERSAS ESFERAS, UMA VEZ QUE OBSERVAMOS O DISCURSO POPULAR COMO UM LUGAR DE MEDIAÇÕES CULTURAIS. (MARTÍN-BARBERO, 2005). Sendo assim, é possível olhar para o fenômeno levando em conta os desafios tecnológicos desse rádio expandido, que não se limita ao dial, e as questões técnicas e políticas que geram a necessidade da migração. O olhar, porém, vai além e inclui os modos de relação das pessoas com o meio e a produção de sentido do discurso hegemônico na briga por nova audiência na frequência FM. Em certa medida, existe um avanço do mercado que exige domínio tecnológico e ações estratégicas que afetam os modos de fazer, a estética e a linguagem. A seguir, o Professor Rodrigo Rainha e o Radialista David Rangel comentam o conteúdo do módulo. Clique no ícone para ouvir. VERIFICANDO O APRENDIZADO CONCLUSÃO CONSIDERAÇÕES FINAIS O conteúdo deste tema não esgota a história do rádio no Brasil, seu reconhecimento e sua responsabilidade social ou sua importância como veículo de comunicação sonoro na sociedade brasileira. O percurso é longo e repleto de detalhes e possíveis associações. Os princípios organizativos aqui apresentados são uma das possibilidades de descrever os acontecimentos, sem a pretensão de ser melhor ou mais importante. Existem diversas formas de olhar para a história do rádio e suas entrelinhas, além do seu papel histórico, político, social, cultural, interacional, informacional etc. É importante salientar que este ainda é um processo em andamento, com algumas dificuldades de registros oficiais em seus primórdios, ao longo dos anos e atualmente. O poder de resiliência do rádio continua com a internet, que por sua vez quebra barreiras inimagináveis, segmentando subnichos cada vez mais específicos, sem limitação geográfica e necessidade de outorga. Aqui, o rádio incorpora outros elementos e vive uma nova adaptação, agregando texto, imagem, gráficos e vídeos, sem perder as características da linguagem sonora. Entender a história do rádio, reconhecer sua responsabilidade social e a importância do veículo na sociedade são requisitos importantes para estudantes e profissionais da comunicação social. Afinal, comunicação é poder, e poder exige responsabilidade. PODCAST AVALIAÇÃO DO TEMA: REFERÊNCIAS ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. A indústria cultural: Iluminismo como mistificação das massas. In: LIMA, Luiz Costa (Org.). Teoria da cultura de massas. 3. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982. ENCICLOPÉDIA INTERCOM DE COMUNICAÇÃO. São Paulo: Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação. v. 1 (Dicionário brasileiro do conhecimento comunicacional). CD-ROM. 2010. FERRARETTO, Luiz Artur. Rádio: O veículo, a história e a técnica. 3. ed. Porto Alegre: Doravante, 2007. FERRARETTO, Luiz Artur; KISCHINHEVSKY, Marcelo. Rádio e convergência: Uma abordagem pela economia política da comunicação. Revista Famecos, Porto Alegre: Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, v. 17, n. 3, p. 172-180, set.-dez. 2010. _______. Uma proposta de periodização para a história do rádio no Brasil. Revista de Economia e Política de las Tecnologias de la Información y de la Comunicación, v. XIV, n. 2, 2012. GOLDFEDER, Miriam. Por trás das ondas da Rádio Nacional. Rio de Janeiro: Paz e terra, 1980. MARTÍN-BARBERO, Jesús et al. América Latina, otras visiones desde la cultura: ciudadanías, juventud, convivencia, migraciones, pueblos originarios, mediaciones tecnológicas. Convenio Andrés Bello, 2005. MOREIRA, Sonia Virgínia. O rádio no Brasil. Rio de Janeiro: Rio Fundo, 1991. ORTIZ, Renato. Moderna tradição brasileira. São Paulo: Brasiliense, 1988. ORTRIWANO, Gisela Swetlana. A informação no rádio: Os grupos de poder e a determinação dos conteúdos. 3. ed. São Paulo: Summus, 1985. (Novas Buscas em Comunicação, 3). PRATA, Nair; BIANCO, Nélia R. Del (Org.). Migração do Rádio AM para o FM: Avaliação de impactos e desafios frente à convergência tecnológica. Florianópolis: Insular, 2018. RABAÇA, Carlos Alberto; BARBOSA, Gustavo. Dicionário da Comunicação. São Paulo: Ática, 1987. SANTOS, Suzy dos. Convergência. In: MARCONDES FILHO, Ciro (Org.). Dicionário da Comunicação. São Paulo: Paulus, 2009. p. 79-80. EXPLORE+ · Leia o texto de Andreia Verdélio para a Agência Brasil: Governo vai reabrir prazo para emissoras de rádio AM pedirem migração para FM. · Assista ao documentário Padre Landell: Fé na Ciência, da TV Senado. Este documentário, que integra as comemorações dos 150 anos de nascimento do padre e inventor gaúcho Roberto Landell de Moura, resgata as experiências do primeiro cientista do mundo a transmitir voz humana sem fio por meio de ondas luminosas. · Para saber sobre o surgimento dos jingles no Brasil, escute: Nássara foi o criador do primeiro jingle brasileiro: Padaria Bragança, da Rádio Cultura. · Conheça Os dez jingles mais representativos da história, de Victória Navarro para o Meio & Mensagem. · Para conhecer a história de personagens importantes e entender como eram as locuções, os shows nos teatros e outras curiosidades, acesse Dalva de Oliveira: Cem anos da Rainha da Voz. · Assista aos vídeos Rádio 90 anos: Especial da primeira transmissão radiofônica em 1922, da TV Brasil, e Rádio: 90 anos, do Observatório da Imprensa. · Confira o programa Revista Brasil, da Rádio Nacional de Brasília, em que o apresentador Valter Lima entrevista o coordenador do Setor de Comunicação e Informação da Unesco no Brasil, Adamo Cândido Soares. · Escute a homenagem que o programa Todas as Vozes, na EBC, faz ao professor de educação física Oswaldo Diniz Magalhães: Relembre o pai da Ginástica no Rádio. Confira o programa Revista Brasil, da Rádio Nacional de Brasília, em que o apresentador Valter Lima entrevista o coordenador do Setor de Comunicação e Informação da Unesco no Brasil, Adamo Cândido Soares: Qual a importância do rádio para transformação social? · Assista ao episódio Emilinha Borba X Marlene acertam as contas, do programa Jovens Tardes, para entender a famosa briga entre as cantoras.· Assista à matéria Morre, aos 90 anos, a cantora Marlene, da EBC. · Confira a edição especial do quadro O Rádio faz história, do Programa Todas as Vozes, da EBC: Relembre a história do Repórter Esso! na Nacional. CONTEUDISTA Renata Guimarães Victor de Oliveira CURRÍCULO LATTES NOTICIA E REPORTAGEM NA RÁDIO DEFINIÇÃO Radiojornalismo. Características do rádio. Notícia no rádio. Elaboração de conteúdos para rádio. Edição no radiojornalismo. PROPÓSITO Proporcionar a identificação das características dos produtos jornalísticos radiofônicos, indicando as formas de construção e o exercício da profissão. Vamos compreender as características do veículo e usar as ferramentas técnicas e teóricas para melhorar o produto que será oferecido ao ouvinte. PREPARAÇÃO Procure na internet e faça o download de um software gratuito de edição digital de áudio. OBJETIVOS MÓDULO 1 Identificar a linguagem das notícias do rádio MÓDULO 2 Reconhecer as demandas para realização da cobertura radiofônica MÓDULO 3 Descrever a formulação de documentários e programas especiais para o rádio MÓDULO 4 Estabelecer as formas de realizar edição em rádio INTRODUÇÃO Fonte: Shutterstock O rádio é um meio “cego” que estimula a imaginação do ouvinte. O público pode, por meio da voz do locutor, visualizar a mensagem. Que imagens são essas? Pode ser a de mulheres reunidas esperando notícias dos maridos que estavam num barco desaparecido. Pode ser a de um pai exultante depois que o filho passou no vestibular. Fonte: Wikipedia Se, na televisão, as imagens são limitadas pelo tamanho da tela, no rádio, elas são do tamanho que o ouvinte desejar. Efeitos sonoros podem facilmente levar ouvintes a batalhas espaciais, com muito menos recursos do que em um programa televisivo. Orson Welles, importante produtor da comunicação norte-americana, levou ao ar uma versão de Guerra dos mundos em 1938 e fez com que vários americanos tivessem certeza de que a terra estava sendo invadida por marcianos. Neste tema, veremos que a responsabilidade do repórter de rádio é imensa. Ele deve ser os olhos e ouvidos de alguém que não está vivendo uma situação. Ele jamais pode mentir; deve ser preciso ao passar as informações. Ao escrever um texto para o rádio, o profissional precisa escolher palavras que facilitem o entendimento do ouvinte. Seus relatos serão subjetivos, pois ele sempre passará uma interpretação do acontecimento. Porém, essa subjetivação não pode ser confundida com distorção. MÓDULO 1 Identificar a linguagem das notícias do rádio O PÚBLICO E SUAS CARACTERÍSTICAS O rádio, como veículo de comunicação de massa, começou a ser pensado a partir de 1916. David Sarnoff, cientista russo radicado nos Estados Unidos, viu a possibilidade da criação de um novo veículo de comunicação. A massificação do rádio é um processo que se inicia, na década de 1920, nos Estados Unidos. Na Primeira Guerra Mundial, o rádio foi usado como um equipamento militar para a comunicação entre as tropas. Durante o conflito, começaram as transmissões para poucos e privilegiados ouvintes privados. Rádio em 1916 Rádio na Primeira Guerra Mundial O termo radiodifusão indica que o conteúdo produzido pode ser difundido para milhões de pessoas. A audiência do rádio é medida pelo Instituto Kantar/Ibope nos principais municípios brasileiros com o cruzamento de duas métricas importantes: alcance e tempo médio. Com o cruzamento desses dois números, calcula-se o índice de audiência das emissoras. ALCANCE Número de pessoas que dizem ter ouvido a emissora. TEMPO MÉDIO Média do tempo que os ouvintes passam sintonizados em determinada rádio. No rádio, é importante conseguir a fidelização dos ouvintes. É do maior interesse que os ouvintes permaneçam ligados o máximo de tempo possível, pois, quanto maior a audiência, no sistema de medição indicado, mais fácil será conseguir anunciantes que financiem o funcionamento da rádio. O modelo de concessão de rádios brasileiras favorece as emissoras comerciais, cuja forma de gerar receita é a venda de anúncios. Uma rádio tem públicos diversos e, por isso, a construção de seus conteúdos devem dialogar fortemente com o público. Essa caracterização foi sendo construída ao longo do tempo. Atualmente, há rádios voltadas a públicos singulares, que podem variar entre uma programação praticamente só de música, outras mistas e, ainda, algumas especializadas no modelo talk and news. TALK AND NEWS Modelo que se apoia na divulgação de notícias em constante atualização. No Brasil, as duas principais rádios desse modelo são a Bandnews e a CBN. HISTÓRIA DO PÚBLICO E DA LINGUAGEM DO RÁDIO BRASILEIRO 1922 O rádio chegou ao Brasil em 1922. A primeira transmissão aconteceu em 7 de setembro daquele ano, durante a Exposição Internacional do Rio de Janeiro, que comemorava o centenário da independência. No ano seguinte, foi inaugurada a primeira emissora: a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro. Seu fundador foi o presidente da Academia Brasileira de Ciências, Edgard Roquette-Pinto. EDGARD ROQUETTE-PINTO Edgard Roquette-Pinto (1884-1954) Médico legista, professor, antropólogo, etnólogo e ensaísta, famoso por pensar e discutir a rádio difusão, buscando, inclusive, sons do Brasil em aldeias indígenas. O rádio foi o primeiro veículo de mídia eletrônica a entrar nos lares brasileiros. Com grande vantagem sobre os jornais, pois não era necessário ser alfabetizado para poder assimilar o que era transmitido. Quando a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro foi inaugurada, Roquette-Pinto criou o primeiro noticiário radiofônico brasileiro: o Jornal da Manhã. O programa apresentava características próximas do que hoje poderia ser chamado de revista radiofônica. Roquette-Pinto lia as manchetes e as notícias, depois dava a interpretação desses fatos. FATOS CURIOSIDADE: Além do Jornal da Manhã, havia outros programas noticiosos de rádio no Brasil. É importante pontuar que eles não tinham a forma que hoje se convencionou chamar de linguagem radiofônica, até porque essa linguagem estava sendo criada. Com o tempo, convencionou-se recortar as notícias e colá-las em laudas para facilitar o trabalho do locutor. Pejorativamente, esse processo foi apelidado de gillette-press. 1941 Porém, a grande reviravolta no radiojornalismo brasileiro ocorreu em 1941, com a chegada do Repórter Esso. O noticiário era patrocinado pela petrolífera americana Standard Oil, com informações da agência de notícias americana United Press e redigido pela agência de publicidade americana McCann-Erickson. O Repórter Esso é importante também ao introduzir no Brasil uma linguagem específica para os noticiários de rádio. Um texto com lead, sublead, frases curtas, pontualidade e aparente objetividade MOBILIDADE, BAIXO CUSTO, IMEDIATISMO E INSTANTANEIDADE A tecnologia eletrônica foi aliada do rádio em vários aspectos na luta pela sobrevivência após a chegada da televisão. Além do transistor, os gravadores magnéticos e as unidades móveis de transmissão quebraram as paredes do estúdio. O veículo, já liberto das tomadas, ganhou as ruas a bordo dos carros, que passaram a ter receptores. Nesse cenário de novas descobertas da indústria eletroeletrônica, um novo elemento chegou ao rádio brasileiro: a reportagem. Se antes o rádio apresentava uma audiência massiva e coletiva, a chegada da televisão transformou seu público em uma audiência individualizada. O rádio teve de se transformar também por conta da diminuição das verbas publicitárias aportadas no veículo. Com a saída desse dinheiro, as emissoras passaram a reinventar a forma de fazer suas transmissões. Em vez de orquestras, voltaram a tocar músicas mecânicas. No lugar de muitas radionovelas, programas prestadores de serviço. SAIBA MAIS A partir de meados dos anos 1950, os programas com público presente começaram a sofrer com a concorrência dos horários de disc-jockeys e seus hit parades – estava surgindo a era do rock´n’ roll. O próprio acúmulo de nomes estrangeiros mostrava que uma nova realidade estava se impondo: o rádio passava pouco a pouco de teatro do povo para veículo sonoro de ascensãosocial de novas camadas de classe média emergente, mais ligadas às subliminares mensagens econômico-culturais da nova era da integração no universo do consumo internacional do que na pobre realidade brasileira (TINHORÃO, 1981, p. 86-87). O ouvinte passou a procurar o rádio para saber a previsão do tempo, as informações do trânsito e datas de pagamentos de impostos, por exemplo. Isso se deve à velocidade do veículo. O rádio é tecnicamente simples e funciona muito bem numa situação imediata, “ao vivo”. Diferentemente da televisão, que, mesmo com toda tecnologia disponível, ainda requer uma cadeia de profissionais envolvidos, com o melhor som, a luz certa e o cenário retratado. Já o rádio necessita de uma pessoa para falar e um aparelho de telefone. Esse telefone pode atender às necessidades de um correspondente internacional, de um repórter nos subúrbios de uma grande cidade e também pode colocar um ouvinte no ar ou trazer as informações que antecedem à decisão do campeonato de futebol. Com isso, o rádio acelera a disseminação da informação. Essa estrutura simples barateia muito o custo de operação do rádio, quando comparado a outros meios de comunicação. A principal dificuldade é arrumar uma frequência para transmitir uma emissora, mas até nisso a tecnologia vem revolucionando a forma de fazer rádio, pois é possível montar rádios-web e fazer uma transmissão. Rádio é a informação em tempo real. Você deve ter em mente que o rádio tem certa natureza efêmera. O ouvinte só tem as palavras dispersas no ar para se interessar. As transmissões em broadcast, ou seja, em tempo real, não dão ao ouvinte a oportunidade de voltar ao ponto que se perdeu. Isso o faz abandonar a emissora. Quando ele deixa a emissora por falta de clareza na comunicação, dificilmente dará outra chance. Programas jornalísticos baseados no factual, depois de um tempo, são perecíveis. Então, mesmo que o ouvinte tenha a oportunidade de recorrer ao site da emissora para ouvir novamente uma entrevista, ele o fará posteriormente. A audiência do rádio é transitória, e o repórter deve estar atento a isso enquanto produz seu material, quando estiver ao vivo ou quando deixar matérias gravadas para entrar no ar algumas vezes depois. LINGUAGEM RADIOFÔNICA A chegada da televisão transformou de forma profunda todos os aspectos do rádio, inclusive a linguagem do veículo. Ao sair do altar da sala e passar a circular pelos cômodos, a audiência ficou individualizada. Os locutores que atuavam nesta época tiveram de se adaptar, pois, na chamada “Era de Ouro”, falava-se para plateias. ERA DE OURO O termo Era de Ouro faz referência ao período em que os programas de auditório – em especial, os cantores e as músicas – acabavam por gerar um auge de investimentos e reconhecimento. Um bom exemplo foi a repercussão da morte de um grande cantor do rádio – Francisco Alves – em um acidente de carro, que acabou gerando uma comoção registrada por rádios e jornais no Rio de Janeiro. Sai de cena, então, o “vocês” e ganha relevância o “você”. O apresentador deixa de falar para uma plateia e passa a falar para um amigo, ao pé do ouvido; fala mais baixo, pausadamente. O veículo torna-se mais íntimo. Com a naturalização da fala, o rádio adquire o tom de conversa. É o rádio como um veículo de companhia. O rádio, assim, intensificou sua popularidade para conseguir sobreviver à chegada da televisão. O veículo se aproveitou de uma característica fundamental: permitir que o ouvinte faça outras atividades enquanto acompanha a programação. Ou seja, o rádio não exclui, o rádio integra. Além disso, não é preciso nenhuma habilidade especial para acompanhar o rádio, apenas a audição, o que o aproxima cada vez mais do público. [...] . Clareza é o elemento-chave para transmitir a informação sem confundir a cabeça do ouvinte. Para este entendimento ser eficiente, o profissional (âncora, repórter comentarista) deve dominar não só o conteúdo sobre o qual discorre, mas também a técnica para se fazer compreendido. Um repórter que fala rápido demais e atropela as palavras vai deixar em quem ouve uma impressão de forte descontrole [...], ou seja, a notícia acabará sendo posta em segundo plano" (TAVARES,2011. p.37). REDAÇÃO PARA RÁDIO O texto jornalístico segue normas universais, seja para meio impresso, seja para meio eletrônico. Ele deve ser claro, conciso, direto, simples e objetivo. O que vai diferenciar o texto do rádio é a instantaneidade do meio. A mensagem se “dissolve” quando é levada ao ar. A linguagem deve ser coloquial e, em algumas emissoras, pode ser até extremamente popular. A rádio Tupi do Rio de Janeiro é uma estação popular. Há um programa específico, A patrulha da cidade, que faz uso de uma linguagem mais informal, com piadas de duplo sentido e, às vezes, até palavrões. ESTAÇÃO POPULAR Programas como esse existem no Brasil inteiro, com formas diversas, como, por exemplo, o mantido pelo radialista conhecido com a alcunha de "Mução“, que ficou famoso em todo o Brasil. A imagem do ícone que ele usa é uma referência mais nacional. O texto para emissoras como a CBN é mais formal, mesmo que também seja coloquial. Isso se deve à diferença de estilos das duas emissoras. Artur da Távola descreveu em 1976 uma diferenciação entre os dois tipos de emissora. ARTUR DA TÁVOLA (1936-2008) Artur da Távola tem uma carreira de muitas vertentes. Foi um político importante no Rio de Janeiro, radialista, diretor da rádio Roquette Pinto e colunista de tradicionais jornais da cidade. A Tupi seria uma rádio de alta estimulação, enquanto a CBN seria uma estação de baixa estimulação. RÁDIOS DE ALTA ESTIMULAÇÃO Têm proximidade com a comunidade; comunicadores individualizados (apresentadores famosos); elenco e produtores; linguagem com humor e descontração; personalização do ouvinte sempre que é possível; análise permanente de audiência; estímulo ao sentimento de solidariedade e participação nos principais acontecimentos da comunidade; proximidade da cultura popular e de base brasileira. RÁDIOS DE BAIXA ESTIMULAÇÃO Trazem outras características: uso de uma fala mais elaborada e distante do coloquial; comunicadores não individualizados – raramente se reconhece o nome e a vida de seus locutores; radiojornalismo generalizante com notícias em forma de pequenas manchetes; quase nenhuma personalização do ouvinte; seriedade e distanciamento; tendência para a cultura de classe média e de base estrangeira. Os jornais de rádio podem ser de texto corrido e de texto manchetado. O texto corrido é aquele em que um período se segue ao outro na composição da notícia. Essa forma é adotada na maioria dos textos radiofônicos: boletins de repórteres, comentários e editoriais, além de notas para sínteses noticiosas. O texto manchetado, por sua vez, pode ser lido por dois locutores, e os dados da notícia são apresentados como manchetes da imprensa escrita. DICA Existem alguns recursos de redação que ajudam o texto a ter mais clareza. Um deles é o desdobramento, que é usado para desmembrar o conjunto cargo-nome da pessoa. Ele só pode ser usado quando apenas uma fonte expõe suas opiniões. Exemplo: “O governador do Rio de Janeiro aumentou o período de isolamento social até 31 de maio. Wilson Witzel anunciou que está em estudo o lockdown, que é a paralisação total das atividades econômicas no estado”. Outro recurso de redação são as suítes, quando se dá continuidade a um fato já noticiado. O lead se modifica, mas o resto da notícia se mantém, para situar o ouvinte. EXERCITANDO Feita essa diferenciação, destacaremos algumas características para redigir um texto no rádio. Vamos praticar. Para isso, use o software de edição digital de som que você baixou. Construa um texto. Escolha a informação que pretende retratar: As frases devem ser curtas e estar na ordem direta (sujeito + verbo + predicado). A repetição de palavras é um problema no jornalismo. Evite adjetivar seu texto. Evite frases longas. A pontuação merece atenção especial. Evite orações intercaladas, aquelas entre vírgulas. Elas resultam em “vales” na fluência do textoe no entendimento das frases pelos ouvintes. A oração intercalada pode também provocar erros de português. Evite o uso do “não” no direcionamento de seu público. Redija o que aconteceu. Ninguém liga o rádio para saber o que não aconteceu (BARBEIRO & LIMA, 2001, p. 63). O uso do “ontem” no lead envelhece o texto. Evite rimas. Rádio é som. Recomenda-se que, depois de elaborar o texto, o jornalista faça uma leitura em voz alta. Os pronomes possessivos seu, sua, seus e suas também guardam dubiedade na aplicação. Prefira o uso dos pronomes dele, dela, deles e delas. Dê preferência ao uso do presente do indicativo e do futuro composto quando for se referir ao que vai acontecer. Os verbos usados nas declarações precisam ser analisados com calma. O uso de siglas deve seguir a cláusula pétrea do texto jornalístico. Na redação de números, é importante facilitar o trabalho do locutor e o entendimento do ouvinte. O jornalista não pode confundir velocidade com pressa. DICA 1: Por ser um veículo em tempo real, o rádio fará muitas coberturas continuadas, ou seja, acompanhará o andamento da notícia. Por exemplo, sessões legislativas importantes e julgamentos de interesse nacional no Supremo costumam ser longos, e o repórter responsável pela cobertura entrará muitas vezes no ar. Nesses momentos, é importante evitar construções como “já dura 6 horas a votação da Reforma da Previdência”, ou “permanece o impasse entre os ministros do Supremo sobre a prisão em 2ª instância”. Procure enfoques novos, pois “permanece” e “continuam” afugentam o interesse da matéria. Outra palavra que deve ser retirada da construção do texto jornalístico é “parece”. Ela deixa a impressão de que o jornalista não está seguro com o que está noticiando. DICA 2: Em rádios de baixa intensidade, evite o uso de artigos antes de nomes próprios. Ao escrever “o” Lula, “o” Bolsonaro, o jornalista pode aparentar uma intimidade que não é compatível com o perfil da emissora. No entanto, se for uma rádio de alta intensidade, como a Tupi, e em transmissões esportivas, essa construção pode ser adotada. DICA 3: Se você for escrever um nome estrangeiro, confira a pronúncia. Se necessário, não se acanhe em escrever foneticamente o nome. Forneça ao locutor do texto todas as ferramentas para que ele consiga fazer o trabalho bem. PREPARADO? ESCREVA SUA NOTÍCIA. Escolha uma pessoa, monte um texto e realize uma entrevista. Troque com os colegas, publique em suas redes, grave no aplicativo. TRANSFORMANDO O FATO EM NOTÍCIA O que torna um fato objeto de interesse jornalístico não se difere no rádio, no jornal ou na TV. No entanto, a forma de tratamento desses fatos vai se moldar às características do veículo e do público que o acompanha. É importante aqui destacar o que é notícia. É necessário o tratamento de um profissional, o jornalista, que, por meio de critérios técnicos, transforma o fato em notícia. A regra geral é que o fato merece virar notícia por ser inusitado. Porém, como o descrito, essa regra é geral. Além disso, o jornalista deve observar se o fato possui: Atualidade (ser o mais recente possível); Proximidade (ocorrer o mais próximo possível do público); Proeminência (envolver pessoas importantes do ponto de vista do público) e Universalidade (interessar ao maior número de pessoas possível em relação ao quadro de valores, conhecimentos e necessidades do público). O rádio possui um fluxo de trabalho para captação e transmissão de notícias. Pode-se dividir em dois tipos as fontes geradoras deste fluxo: Internas Equipe de reportagem, enviados especiais e correspondentes. Externas Informantes, ouvintes, agência de notícias, outros veículos de comunicação, assessorias de imprensa. Esses fatos chegarão de diversas formas e caberá à equipe da redação definir como cada assunto será tratado. ATENÇÃO Vale destacar que, como cada meio de comunicação de massa atende a necessidades específicas da população, há, entre eles, um sentido de complementação das mensagens transmitidas, independentemente de serem de teor jornalístico, entretenimento ou comerciais. Como estamos tratando de radiojornalismo, vale estabelecer a diferenciação. O rádio apresenta o fato quando ocorre e, muitas vezes, diretamente do lugar em que ele está acontecendo. A televisão amplia essa característica com acréscimo da imagem. O jornal amplia quantitativamente o fato, e a revista, qualitativamente. Quer conhecer um pouco mais sobre os bastidores e a forma do rádio, então lhe apresentamos o Plantão do Conhecimento. Por meio dele, você conhecerá as principais estratégias para produzir textos para rádio e as principais técnicas de entrevista radiofônicas, além de saber como funciona a construção de minidocumentários. VERIFICANDO O APRENDIZADO MÓDULO 2 Reconhecer as demandas para realização da cobertura radiofônica SIMULTANEIDADE NA RECEPÇÃO DA MENSAGEM RADIOFÔNICA Para explicar a simultaneidade da mensagem radiofônica, é preciso apresentar algumas características do meio de comunicação. O rádio tem algumas particularidades quanto à comunicação massiva: AMPLA Numa emissora que transmita por ondas tradicionais, o limite é a potência de seus transmissores. No entanto, nas transmissões pelos ambientes digitais, não há fronteiras para o alcance desta audiência. ONDAS TRADICIONAIS Medida em hertz e divididas em ondas longas e ondas curtas. HETEROGÊNEA A mensagem atinge diversas classes socioeconômicas, com anseios e necessidades diversas. O processo de segmentação, ou seja, o foco em um público-alvo para suas transmissões tem por objetivo limitar essa heterogeneidade e melhor atender aos desejos da audiência. QUANTO AO RETORNO Na radiodifusão tradicional, é baixo, pois a mensagem não tem condição de ser respondida assim que emitida. Com o advento das novas tecnologias da informação, o ouvinte tem maior capacidade de retorno e interação. QUANTO À RECEPÇÃO Simultânea. Muitas pessoas podem receber a mesma mensagem ao mesmo tempo. No caso do rádio, é bom considerar que um aparelho pode ser ouvido por mais de uma pessoa. QUANTO AOS RECURSOS FINANCEIROS As verbas para sustentar uma rádio vêm de publicidade no sistema comercial. Na rede educativa, governos ou fundações públicas ou privadas arcam com as despesas. VOCÊ SABIA O rádio nasceu com a utilização de emissões de ondas eletromagnéticas para transmitir à distância. As novas tecnologias de informação mudaram a forma de o rádio chegar a muitas pessoas, mas não modificaram a característica de se tratar de um veículo de comunicação de massa com uma audiência heterogênea. Ela já foi uma audiência anônima, mas as possibilidades de interação cresceram ao longo de mais de cem anos do rádio. Logo, não se pode dizer que o público de rádio seja inteiramente anônimo. FATORES DA RECEPÇÃO RADIOFÔNICA O CONTEÚDO E A FORMA DA MENSAGEM RADIOFÔNICA, PELA AUSÊNCIA DE ALGUNS ELEMENTOS E A PRESENÇA DE OUTROS, SÃO CONDICIONADOS BASICAMENTE POR SEIS FATORES: CAPACIDADE AUDITIVA DO RECEPTOR, LINGUAGEM RADIOFÔNICA, TECNOLOGIA DE TRANSMISSÃO E RECEPÇÃO EMPREGADA, FUGACIDADE, TIPOS DE PÚBLICO E FORMAS DE RECEPÇÃO." (FERARETTO, 2001, p. 25) Vamos conhecê-los: A CAPACIDADE AUDITIVA DO RECEPTOR A capacidade auditiva do receptor é importante pela falta de contato visual para a codificação da mensagem. Obviamente, neste caso, fala-se da radiodifusão tradicional, pois muitas emissoras usam o recurso de colocar câmeras no estúdio. Mesmo assim, o que o comunicador faz é baseado na linguagem radiofônica. O que acontece, nestes casos, é que o público observa o radialista em ação. Logo, a fala continua a ser a base da transmissão na comunicação radiofônica. LINGUAGEM RADIOFÔNICA Na linguagem radiofônica, o uso da voz humana, da música, dos efeitos sonoros e do silêncio atua para levar a mensagem até o ouvinte. A música e os efeitos sonoros agem no subconsciente, já o discurso oral visa o consciente. A combinação correta desses elementos ajuda na emissão e compreensão do conteúdo transmitido ao ouvinte. A TECNOLOGIA DE TRANSMISSÃO E RECEPÇÃO A tecnologia de transmissão e recepção será influenciadapela maior ou menor quantidade de recursos técnicos disponíveis. A capacidade dos transmissores da rádio, a tecnologia de banda larga das estações e a eficiência dos aparelhos pelos quais os ouvintes terão acesso ao conteúdo determinarão o bom termo das mensagens radiofônicas. A FUGACIDADE A fugacidade, ou seja, a instantaneidade do rádio como veículo de comunicação determina parte importante da estrutura tecnológica da transmissão e recepção, além de impor um condicionante à mensagem. Para Ferraretto (2001, p. 27), dois aspectos importantes interferem na questão da fugacidade: a inerência radiofônica da mensagem e, no caso do jornalismo, a obsolescência da informação. Exemplo: por ser rádio, consome-se a mensagem no momento da sua transmissão. Para retomar um ponto mal compreendido, só utilizando um gravador, o que não é prático nem corriqueiro. As grandes emissoras tentam mitigar essa característica colocando sua programação nos próprios websites, pois, dessa forma, conseguem atender aos ouvintes que procuram um conteúdo já passado. Porém, as emissoras que não dispõem dessa tecnologia, ainda estão sujeitas a essa característica. Na teoria, a notícia radiofônica torna-se obsoleta simultaneamente após a transmissão, já que deve ser sempre a mais atual possível; de preferência, daquele momento. Assim, se for retomado, na sequência, o mesmo assunto, isso será feito sob um novo ponto de vista ou pela inclusão de um detalhe desconhecido na emissão anterior a respeito do mesmo tema. No entanto, é necessário levar em conta que a audiência da emissora é rotativa. Então, mesmo depois de terminada a cobertura, o repórter precisa consolidar uma reportagem que deverá entrar no ar em outros horários, que não é aquele da transmissão ao vivo. Para melhor eficácia da utilização dessas reportagens, é importante que os editores da rádio saibam o tempo médio da audiência da emissora. Teoricamente, se o tempo médio for de três horas, a matéria que entrou às 13h pode voltar a entrar no ar às 16 horas, pois haverá um número de ouvintes que não acompanhou a transmissão anterior. O TIPO DE PÚBLICO O tipo de público, ou seja, o nível socioeconômico e cultural do ouvinte que constitui o público-alvo da emissora determina como a mensagem vai ser estruturada. A segmentação fixa a lógica da produção em procurar a parte específica da audiência. Exemplo: lembra-se de que falamos no primeiro módulo de rádios de alta e baixa intensidades? Em uma rádio de baixa intensidade, para um público com o poder aquisitivo maior, a linguagem pode ser menos coloquial do que em uma rádio popular de alta intensidade. Só não se pode esquecer uma coisa: ela deve ser compreensível, pois menos coloquial não quer dizer rebuscamento. A FORMA DE RECEPÇÃO A forma de recepção da mensagem apresenta quatro formas distintas para escutar: I. Escuta ambiental – Tudo o que o ouvinte busca no meio de comunicação rádio é um fundo musical ou de palavras. II. Escuta em si – O ouvinte presta atenção marginal interrompida pela presença de uma atividade paralela. III. Atenção concentrada – Supõe um aumento no volume de som do receptor, superando os sons do ambiente e permitindo a concentração do ouvinte na mensagem radiofônica. IV. Escuta por seleção – O ouvinte sintoniza intencionalmente determinado programa e a ele dedica sua atenção. Exemplo: a mensagem radiofônica deve ser formulada levando em conta as possibilidades de percepção características do veículo. Há diferenças quanto ao aprofundamento informativo. No rádio, após a divulgação dos dados básicos do fato, é necessário fazer uma mesa redonda, ou entrevistas, além da intervenção de comentaristas. CARACTERÍSTICAS BÁSICAS DE UMA ENTREVISTA RADIOFÔNICA A entrevista é uma das práticas jornalísticas mais antigas. No rádio, ela tem uma característica que os veículos impressos nem sempre conseguem obter: a emoção. Esse sentimento pode ser demonstrado pelo entrevistado e pelo entrevistador. O objetivo é que a entrevista traga revelações, novos conhecimentos e tire dúvidas dos ouvintes. O tempo e o exercício são as melhores formas de a técnica de entrevista ser aprimorada. Boas entrevistas abrem caminho para mais trabalhos desse tipo, como também para reportagens. Entrevistas são uma das formas que o radiojornalismo tem para aprofundar um assunto. É bom seguir alguns preceitos ao estabelecer a conversa com um entrevistado. VAMOS PRATICAR? Primeiro leia: O primeiro aspecto é que a entrevista radiofônica é uma conversa. Por falar em planejamento, a entrevista deve ter começo, meio e fim. A pergunta deve ser direta, não pode ser longa. Colocar-se no lugar do ouvinte é um exercício fundamental para perguntar o que é necessário. A entrevista não é um bate-papo entre duas pessoas. É necessário entender o que o entrevistado disse nas entrelinhas. As respostas devem ser claras: se você, enquanto entrevistador, não a entendeu, o ouvinte, provavelmente, também não entenderá. Cuidado para que a entrevista não fique maior do que o necessário. Os entrevistados devem ser tratados com deferência. Não fique com dúvidas quando elas surgirem. De tempos em tempos, será necessário relembrar o nome do entrevistado. Não fale “em cima” do entrevistado. A entrevista ao vivo é um risco. Entrevista não é linchamento. Se estiver cara a cara com o entrevistado, considere o que não está sendo dito, observe as reações das pessoas. ENTENDEU O PASSO A PASSO? ENTENDEU OS DESAFIOS? AGORA, VAMOS LÁ! Agora, tome a voz, registre no sistema de som sua notícia. Veja como ficou, compartilhe e troque com colegas, ouça opiniões. Depois de pronto, revisite os 15 passos. Veja se efetivamente conseguiu atingir todos. DICA 1: Fuja das perguntas óbvias, como perguntar a uma pessoa como ela está se sentindo após perder um familiar. DICA 2: Há algumas “bengalas expressionais” que devem ser evitadas. Uma delas é a tradicional “Como o senhor está vendo isso?” Outra é: “Qual é sua opinião sobre...”? DICA 3: Há entrevistados que são lacônicos, que respondem apenas “sim” e “não”. Uma das saídas é estimulá-lo com um “Por quê?”. Se a entrevista for gravada, converse com ele antes, procure mostrar que é uma conversa e que ele deve ficar tranquilo, pois será tratado com decoro. DICA 4: Não se deixe intimidar pelo poder ou pela fama do seu entrevistado. Tente conhecê-lo bastante, estude o tema e o entrevistado. DICA 5: Fique atento para que o entrevistado não fuja da pergunta. Se a questão proposta não for respondida, sem querer ou intencionalmente, volte ao tema. DICA 6: Entrevista não é debate. É necessário tomar cuidado para que um bate-boca não confunda o ouvinte. Ela não é um confronto de opiniões entre jornalista e entrevistado. DICA 7: Muitas entrevistas esportivas são repetitivas porque o entrevistador repete muitas perguntas. Use a criatividade. Observe detalhes do jogo. Faça anotações sobre os jogadores, perceba detalhes e, ao abordar o entrevistado, tenha algo novo e bom para perguntar. DICA 8: Seja criterioso nas entrevistas coletivas. Muitas são organizadas para atrair publicidade ou para que prevaleça o ponto de vista do entrevistado. O jornalista deve estar por dentro dos assuntos que envolvem aquela fonte, pois, muitas vezes, o lead de entrevistas coletivas não está no assunto que provocou a convocação dela. DICA 9: Em algumas oportunidades, não há tempo para se preparar adequadamente para a entrevista. A saída é recorrer às tradicionais perguntas básicas do jornalismo: o quê?; quem?; como?; quando?; onde?; por quê? Queridos ouvintes, voltamos para a nossa rádio e separamos algumas dicas para as suas futuras entrevistas. A TÉCNICA DO FLASH E AS REPORTAGENS É muito importante que o jornalista de rádio tenha em mente que a notícia “anda”. Ao cobrir de evento, deve entrar no ar sempre que houver notícias novas. Essas entradas são chamadas de flashes. FLASHES O flash, por definição, é uma entrada ao vivo que mantém o assunto no ar e tem aspecto efêmero. Na impossibilidade de entrada ao vivo por falta de espaço na programação, o flash pode ser gravado, mas nãoserá a versão definitiva da reportagem. Como já foi explicado, assim que as matérias chegam, os repórteres devem gravar as reportagens para serem usadas ao longo da programação da rádio. Nas entradas ao vivo da rua, o repórter tem a oportunidade de valorizar um dos aspectos mais fascinantes da linguagem radiofônica: a descrição dos elementos que compõem a notícia. É dessa forma que o ouvinte vai compor a imagem mental do acontecimento. Deve-se ter em mente que as informações paralelas ajudam na composição deste quadro. Porém, é necessário ter discernimento ao relatar reações que façam sentido para que o ouvinte entenda o fato retratado. EXEMPLO Por exemplo, uma mãe empurrando um carrinho de bebê na rua fica relevante se ela o faz em meio a um tiroteio. POR UMA CARACTERÍSTICA PRÓPRIA DO RADIOJORNALISMO, AS REPORTAGENS AO VIVO REPRODUZEM SEMPRE O SOM AMBIENTE. ISSO DÁ O CLIMA DO ACONTECIMENTO. É IMPOSSÍVEL NEM É DESEJÁVEL IMPEDIR QUE O SOM AMBIENTE PASSE PARA A REPORTAGEM. SONS DE CARRO NO TRÂNSITO, CHUVA, BUZINAS, EXECUÇÃO DE UMA MÚSICA, REFRÃO DE TORCEDORES E MANIFESTANTES DÃO COLORIDO ESPECIAL À REPORTAGEM." (BARBEIRO & LIMA, 2001, p. 41) É necessário evitar jargões e lugares comuns como “clima tenso”. Em vez de usar essa expressão, é melhor descrever o que deixa o clima tenso. O comércio está fechado, escolas não abriram, e as ruas estão desertas. Melhor “desenhar” este cenário para o ouvinte do que reduzi-lo a “clima tenso”. Em coberturas que envolvam grandes dramas, como desabamentos, rompimentos de barragens e enchentes, deve-se evitar cair em armadilhas melodramáticas. Relate o que está vendo, mas evite adjetivações. Nas reportagens que envolvam multidão, para apresentar o número de participantes, o repórter deve procurar a estimativa das autoridades e dos organizadores e, se forem discrepantes, anunciarem as duas. VOCÊ SABIA Há rádios que transmitem localmente, ou seja, apenas para a cidade-sede da emissora, e outras que transmitem em rede. Essa diferença é mais um aspecto a influenciar a atuação do repórter em um flash. Se você estiver em rede, é importante evitar regionalismos e localizar as ruas. Por exemplo, “o acidente aconteceu na Avenida Marechal Rondon, no Engenho Novo, Zona Norte do Rio”. Depois de chegar dos eventos, o repórter terá de consolidar a reportagem. Neste momento, entra em cena o editor, que poderá orientar o repórter a deixar o material que será usado em diversos outros momentos da programação. O repórter deve deixar gravado um trecho de 10 a 15 segundos com o principal destaque da matéria. Muitas emissoras usam esse trecho no início dos programas, como se fosse a escalada de um telejornal. A duração da matéria varia, mas não é recomendável ultrapassar 90 segundos em uma reportagem factual. ATENÇÃO O rádio é um veículo de grande volatilidade. Conteúdos muito longos acabam não sendo absorvidos pelos ouvintes. Em grandes coberturas, essa regra do tempo de duração pode ser quebrada. A reportagem é a principal fonte de matérias exclusivas da rádio jornalística. O repórter precisasse preparar para construir uma reportagem completa, ouvindo os vários lados da questão. Ele deve cultivar suas próprias fontes de informação e acompanhar os assuntos pelos jornais, pelas revistas, plataformas digitais e pela televisão. O jornalista não domina todos os assuntos, pois isso é impossível, mas sabe quem pode dar as informações. Por esse motivo, não deve ter inibição de ligar para um especialista e tirar dúvidas sobre o assunto que precisará cobrir. O repórter capta a notícia e, com base no que viu e em testemunhos dos entrevistados, conta para o ouvinte o episódio da melhor maneira possível. Portanto, o importante é a notícia, não o jornalista. O repórter relata o fato e introduz as sonoras que ilustram seu texto. SONORAS Sonoras são gravações de entrevistas ou chamadas utilizadas em momentos-chave dos programas, como, por exemplo, em noticiários, dando voz a autoridades e pessoas importantes que têm opiniões relevantes sobre determinados assuntos. Trata-se de um conceito que auxilia a construção de “imagens” pelo rádio. VERIFICANDO O APRENDIZADO MÓDULO 3 Descrever a formulação de documentários e programas especiais para o rádio REPORTAGENS ESPECIAIS O rádio capta o momento, a informação factual, em tempo real, mas também pode ser veículo para séries e reportagens especiais, que entrarão no ar em vários capítulos, aprofundando um tema, uma pauta que merece detalhamento mais cuidadoso. Esse tipo de material radiofônico tem o objetivo de informar, provocar reflexão e até emocionar o ouvinte. Por mais completa que seja uma reportagem, ou uma série, não há como esgotar o assunto por completo. Uma das primeiras atitudes que o repórter deve tomar é delimitar o campo de trabalhos dentro do tema escolhido. EXEMPLO Muito já se escreveu sobre o esgotamento físico emocional do confinamento, mas, a partir a ideia genérica do assunto, o objetivo é buscar um recorte que interesse ao público. Qual é o método de trabalho que as empresas que ofereceram a oportunidade de home office aos funcionários usam para que eles não fiquem sobrecarregados? Ou como fica a divisão de tempo nas casas? E assim por diante. Definida a pauta, o próximo procedimento é a pré-produção. Essa será a pesquisa sobre o tema, a apuração sobre fontes e personagens relevantes e marcação de entrevistas. Não se pode esquecer de que o rigor na apuração dos fatos é determinante para a qualidade da reportagem. O repórter precisa ter o máximo de informação sobre o assunto, pois só assim poderá escolher o que é realmente importante. O jargão popular diria “é melhor sobrar do que faltar”. A pesquisa e a apuração servem para reunir todos os dados já existentes sobre o assunto. O repórter terá de decidir se usará apenas estudos e números nacionais para embasar a notícia, ou se exemplos internacionais serão bem-vindos. Haverá abrangências históricas ou focará apenas nos últimos cinco anos? Repórteres e chefes deverão estar em contato permanente para que as dúvidas sejam sanadas ao longo do percurso, pois, se algo ficar incompleto, haverá retrabalho. EXEMPLO Numa reportagem especial, os personagens são fundamentais. Os números em pesquisas significam pessoas. Se o dado diz: “12% das mulheres se dizem esgotadas com a dupla jornada”, o repórter deve buscar a história de uma delas contando as agruras de ter de dar conta da casa e do trabalho. Para conseguir personagens, vale pedir ajuda aos amigos, procurar nas redes sociais, em entidades de classe, fontes que deem acesso aos relatos. A regra de ter muitas para escolher depois também vale nessa etapa do processo. A produção propriamente dita significa ir a campo para entrevistar e observar. A boa reportagem depende de depoimentos representativos e da sensibilidade do repórter. Aspectos técnicos não podem ser deixados de lado. Se, nas reportagens factuais, há uma “licença” para áudios que não estejam perfeitos do ponto de vista técnico, nas matérias especiais, deve haver uma preocupação com a qualidade das sonoras. EXEMPLO Numa série, os capítulos têm entre quatro e cinco minutos, consolidando tudo o que foi apurado. A edição pode descartar integralmente algumas sonoras, outras serão usadas apenas parcialmente. O repórter deve ter em mente que toda escolha significa uma perda. Um editor acompanhando o trabalho terá um olhar mais distanciado e não terá tanto pudor em cortar um trecho que ele perceba estar sobrando. Ao final de cada capítulo, o repórter deve gravar um “pé”, que chamará para a reportagem seguinte. As novas tecnologias da informação fazem com que as reportagens já saiam em multiplataformas. Além do áudio, há emissoras que incluem fotos e vídeos no material para poder alimentar os websites e as plataformas digitais, como Facebook, Instagram e Twitter. ESTRUTURA DO DOCUMENTÁRIO RADIOFÔNICO O documentário é uma forma de recuperar histórias evidenciadas em registros escritos, fontes que podem ser citadas e entrevistas atuais. O objetivo fundamental é informar, mostrar a históriaou situação, apresentando fatos, sempre se baseando em reportagens de fontes seguras. Com frequência, os temas nascem de questões contemporâneas, como a ascensão ou queda de um projeto político, o ordenamento do solo nas grandes cidades ou a escalada de violência nas capitais e regiões metropolitanas do país. Outros tipos de documentário se concentram em contar a trajetória de alguém relevante, ou no aniversário de uma tragédia, ou a passagem de um evento que mudou a realidade política do país ou do mundo. Basicamente, isso tudo tem a ver com pessoas. Embora pesquisas e fatos históricos sejam importantes, o ser humano está no centro dos acontecimentos. O programa deve ter como preceito básico informar o ouvinte e fazer com que ele entenda como certas decisões políticas ou certos fatos influenciaram a vida dele. A PRINCIPAL VANTAGEM DO DOCUMENTÁRIO SOBRE A FALA DIRETA É TORNAR O FATO MAIS INTERESSANTE E MAIS VIVO AO ENVOLVER MAIOR NÚMERO DE PESSOAS, DE VOZES E UM TRATAMENTO DE MAIOR AMPLITUDE. É PRECISO ENTRETER E, AO MESMO TEMPO, INFORMAR, ESCLARECER E TAMBÉM ESTIMULAR NOVAS IDEIAS E NOVOS INTERESSES." (MCLEISH, 2001, p. 192) A principal decisão estrutural é utilizar ou não um narrador. Uma narrativa explicativa que promova o encadeamento das partes obviamente é útil para conduzir o programa de uma maneira lógica e informativa. Um narrador ajuda o programa a cobrir uma área extensa em um tempo bem curto. O narrador liga as diferentes sonoras com depoimentos, pontua músicas representativas do período e contextualiza depoimentos. Há documentários em que a narrativa não faz uso de links. As matérias são expostas, e seu encadeamento faz com que o assunto siga em frente. O mais comum, no entanto, é o documentário com o narrador. EXEMPLIFICANDO TÉCNICAS DE PRODUÇÃO DE DOCUMENTÁRIOS RADIOFÔNICOS Depois da escolha do tema, a produção do documentário radiofônico deve começar pelo planejamento do trabalho. A duração é a primeira coisa a se decidir. Por causa das grades de programação, que costumam ser concebidas em blocos de meia hora, o programa pode ocupar 30 minutos ou uma hora. No entanto, ao negociar esse tempo com os editores, o produtor deve saber se haverá material suficiente para preencher o espaço. Um tema muito amplo vai exigir do produtor uma escolha: ou ele vai cobrir todos os aspectos do assunto, deixando a cobertura superficial, ou vai destacar apenas um ponto e fazer um recorte profundo. Um exemplo: personagens como Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil têm vasta área de atuação no campo da cultura. Poderia fazer um recorte na vida de cada um deles e tratar o tema. Seria possível falar do Chico Buarque escritor e documentar apenas os livros, uma faceta conhecida, mas que não ganha o mesmo destaque de sua área musical. Poderia ver Gilberto Gil e seu período como político (ele foi vereador em Salvador e ministro da Cultura). Com Caetano, poderia ser feito um recorte sobre a época do exílio. São algumas escolhas com as quais é possível reduzir o período a ser coberto e facilitar o aprofundamento. Para isso, o produtor deve organizar uma planilha e responder basicamente a duas perguntas: “Aonde quero chegar?”, “O que quero deixar para o ouvinte?”. Com esse balizamento, fica mais fácil editar e escolher algo para entrar ou ficar de fora do documentário. Depois de decidido o tema, o jornalista deve começar a pesquisa para conhecer melhor o objeto do trabalho. No nosso exemplo, vou usar a título de ilustração como foi o exílio de Caetano Veloso. O produtor deve fazer uma lista de tópicos a serem abordados. A partir daí, cada profissional cria um método de trabalho; geralmente, o título vem depois. No recente documentário da Netflix sobre Michael Jordan, o título Last dance foi escolhido em cima de uma frase do treinador do Chicago Bulls na época, Phil Jackson. O profissional deve registrar essas ideias no bloco de notas ou num caderninho. O objetivo é que ele possa recorrer a esses apontamentos. Ao especificar os vários fatores que devem ser incluídos, fica mais fácil avaliar o peso de cada um deles no programa e concluir se há ou não conteúdo para sustentar o interesse do ouvinte. O jornalista deve estar com a mente aberta para o fato de que pode surgir algo durante a pesquisa que modifique seu planejamento. COLETA DE MATERIAL A maior parte das entrevistas poderá ser feita por telefone. É importante tentar que sejam ao vivo, mas, se houver incompatibilidade de agendas, certifique-se de que a qualidade sonora do material esteja em perfeitas condições. Estar ao vivo possibilitará descrições sobre o estado de espírito do entrevistado. Alguma respiração, um movimento de braço ou um olhar fugidio podem dar um colorido especial ao texto do documentário. O jornalista deve lembrar-se de que, no rádio, os profissionais devem formar imagens para os ouvintes. Se a entrevista for feita pessoalmente, um bom recurso para reforçar esta ideia é que a voz do entrevistador entre na edição. O uso de música nos documentários deve respeitar a lógica de que a música ajude a narrativa, não deve ser usada de forma gratuita. A música serve como um depoimento complementar, um testemunho do estado de espírito do compositor na época. Bem-vindos de volta! Neste bloco, Rodrigo Rainha falará sobre a construção de minidocumentários para rádio. VERIFICANDO O APRENDIZADO MÓDULO 4 Estabelecer as formas de realizar edição em rádio TIPOS DE NOTÍCIA O noticiário de uma rádio, ou seja, a difusão das notícias da emissora, subdivide-se em: SÍNTESE NOTICIOSA Como o nome diz, pretende ser um resumo dos principais fatos ocorridos desde a última transmissão. É um informativo em que se usa um texto curto e direto. Geralmente, o acontecimento mais importante vem no final da edição. Dura entre cinco e dez minutos. Exemplos: Repórter Esso (que terminou em 1968) e Sentinelas da Tupi (ainda no ar). RADIOJORNAL Corresponde a uma versão radiofônica dos periódicos impressos. Reúne várias formas jornalísticas: boletins, comentários, editoriais, meteorologia, trânsito, entre outros. Os assuntos são agrupados por editorias, regiões geográficas ou em fluxo, ou seja, os assuntos se interligam. Exemplo: Jornal da CBN. EDIÇÃO EXTRAORDINÁRIA Ocorre quando é necessário interromper a programação com alguma informação importante. A morte de alguém relevante, a queda de um ministro, um atentado terrorista, algo que deva ser noticiado imediatamente. TOQUE INFORMATIVO Espaço informativo típico das emissoras musicais em frequência modulada. Apresenta uma ou duas notícias, geralmente, nas horas cheias. Dependendo da rádio, o comunicador pode ou não ficar preso ao texto, com a liberdade, inclusive, de improvisar em cima dele. Exemplo: JB Informa. INFORMATIVO ESPECIALIZADO Pode ocorrer na forma de uma síntese noticiosa ou de um radiojornal. O que vai diferenciá-lo é o tratamento de um assunto específico. Um exemplo é o Giro Esportivo, da Rádio Tupi do Rio de Janeiro. ORGANIZANDO E CATEGORIZANDO A EDIÇÃO DAS NOTÍCIAS A edição é uma forma de construir de maneira mais organizada uma reportagem ou uma sequência de sonoras capazes de relatar um fato jornalístico. As edições devem ser enxutas, ricas em conteúdo e didáticas, para que o ouvinte saiba do que se está falando. O editor é o filtro do produto jornalístico, ele é o responsável por redigir e organizar o noticiário na forma de um programa radiojornalístico. É importante destacar que a legislação determina que ao menos 5% da programação diária de uma emissora sejam ocupados com conteúdo jornalístico. Veja agora algumas orientações para uma eficiente edição no rádio: Grandes acontecimentos merecem tratamento de edição especial. Na utilização de material de arquivo, é preciso ter cuidado para não usar sonoras de personagens. A chamada da matéria, que, em algumas redações convencionou-se chamar de cabeça, é fundamental para prender o ouvinte desde o começo. Se isso não acontecer, dificilmente ele se interessará pelo restante. O editor deve evitar que a cabeça e o início da matéria fiquem iguais. Uma entrevista,dependendo da qualidade, pode sofrer mais de uma edição. O editor deve destacar a validade do material. A edição deve sempre refletir a verdadeira condição dos fatos. Um editor pode construir uma matéria usando sonoras obtidas pelos repórteres. Quando está selecionando os melhores trechos, o editor deve “limpar” a sonora. Os pontos ideais de corte e de emenda virão com a prática, mas a ideia principal é dar sentido à fala do entrevistado. A edições devem terminar com uma nota-pé que reitere a informação principal. CRITÉRIOS DE SELEÇÃO DE NOTÍCIAS A simultaneidade e a instantaneidade implicam em rapidez na distribuição da informação. Por esse motivo, o chefe de reportagem deve se preocupar com eventos que façam diferença imediata na vida dos ouvintes. Um acidente de trânsito, um incêndio, um assalto em andamento, a cobertura de catástrofes naturais como enchentes e rompimento de barragens são os momentos em que as pessoas mais procuram o rádio para se informar. Obviamente, a cobertura de inaugurações e seminários, ou visitas de presidentes, entram na pauta. No entanto, em caso de algo urgente e em tempo real, o rádio deve optar por cobrir os acontecimentos imediatos. Nunca mais haverá um “11 de setembro” nem a “tragédia do morro do Bumba”, em Niterói. ATENÇÃO Nada impede que uma pauta seja feita, principalmente em áreas relacionadas a serviço, como comportamento ou temas ligados à saúde. Também nesses casos, pautas de reportagens incluem o assunto, o fato gerador de interesse, a natureza da matéria (se narrativa, se é uma exposição do tema, uma mesa redonda etc.) e o contexto. Sempre é bom reforçar na pauta a linha editorial da emissora (perigos de soltar balão ou passar cerol na linha da pipa, por exemplo). INSERÇÃO DE SONORAS As sonoras têm algumas funções importantes na linguagem radiofônica. A primeira delas é mostrar que o jornalista teve contato com a fonte primária da informação. Sonoras conferem mais credibilidade às notícias. Outra função importante é dar ritmo à reportagem. Sonoras quebram a sequência da voz única e renovam a atenção do ouvinte para o fato que está sendo noticiado. A sonora também pode ser chamada de “ilustração”, justamente por ilustrar a informação. Para inserir a sonora, o jornalista deve levar em consideração as características do veículo. A primeira é a falta de imagem. Então, ao colocar a sonora, o profissional deve anunciar quem vai falar. Depois que a sonora acabar, o jornalista deve fazer uma retomada, citando quem acabou de falar. Essa introdução, ou chamada, e a retomada devem ser suaves e fazer parte do texto naturalmente. As sonoras só devem ultrapassar os 30 segundos em casos excepcionais. Algumas orientações sobre o uso desse recurso: As sonoras devem ser as mais opinativas possíveis. O contexto e o enredo devem estar no texto redigido pelo repórter ou editor. Nestes casos, o redator não opina, quem opina é o entrevistado. Sonoras opinativas são sempre mais contundentes e chamam mais atenção do ouvinte. Sonoras que contenham emoção também rendem boas edições. Um choro, uma gargalhada ou uma frase em tom de desabafo às vezes dizem mais do que uma sonora de 40 segundos. Cuidado e bom senso são ferramentas necessárias ao repórter ou editor. A emoção pode ser tanto algo que enriqueça o depoimento como um caminho para a desinformação. Não se repete na sonora a informação do texto. O redator/repórter deve desconfiar de sonoras em que é necessário ouvir mais de uma vez para entender o que o entrevistado quis dizer. O ouvinte só terá uma oportunidade. Por isso, é necessário que ela seja clara. Importante lembrar que a sonora deve ter o mínimo de qualidade técnica para ser audível. ROTEIRO E SCRIPT Ao montar um programa para uma rádio, o importante é que o produtor tenha em mente o público específico. É importante saber alternar o ritmo do programa, pois, numa atração de três ou quatro horas, é necessário momentos de respiro. Um quadro de orientações profissionais, outro de finanças pessoais, outro de cultura, ou mesmo um momento de humor. É importante ter em mente que rádio é fortemente baseado na criação de hábito por parte do ouvinte. Então, ao elaborar o programa, o produtor deve estabelecer um espelho, ou roteiro. É necessário respeitá-lo, pois dificilmente o ouvinte ficará o tempo todo sintonizado. Em muitas oportunidades, ele ouve apenas os quadros que o interessam. LEMBRE-SE: A AUDIÊNCIA NO RÁDIO É ROTATIVA Programas jornalísticos não devem usar este roteiro como camisa de força, pois, pelas características próprias do veículo, um acontecimento que exija a atenção da emissora deve ganhar o espaço merecido, mesmo que seja necessário “virar a programação”, como se convencionou dizer nas redações. QUER VISUALIZAR UM ROTEIRO? Seções Descrição Duração Abertura Texto que pode ser um pequeno editorial destacando algum fato importante. 2'00 Resumo de notícias Pode ser feito por locutores diferentes. Também pode ser feito em uma edição de várias sonoras que formem um amplo painel para o ouvinte. 4'00 Prestação de serviços Informações de trânsito, transportes, impostos que vencem naquela data etc. 3'00 Entrevista Entrevista factual com alguém que esclareça a principal notícia do dia. 6'00 Intervalo ----------------------------------- 3'00 Reabertura Como a audiência é rotativa, o apresentador deve retomar o que já aconteceu no programa até ali e anunciar alguns assuntos que ainda entrarão no ar. 1'00 Matéria Entrada de um repórter, que pode ser ao vivo em flash ou em uma reportagem gravada. 2'00 Quadro de finanças Ao vivo ou gravado, comentarista responde a dúvidas previamente enviadas por ouvintes. 3'00 Entrevista Fonte conversando ao vivo sobre determinado assunto importante do dia. 6'00 Intervalo -------------------------------------- 3'00 Reabertura Como a audiência é rotativa, o apresentador deve retomar o que já aconteceu no programa até ali e anunciar alguns assuntos que ainda entrarão no ar. 1'00 Comentário Comentarista da emissora fala sobre algum fato político relevante. 2'00 Quadro de saúde Especialista tira dúvidas dos ouvintes sobre saúde. 3'00 Matéria Entrada de um repórter, que pode ser ao vivo em flash ou em uma reportagem gravada. 2'00 Quadro de esporte Jornalista esportivo traz as informações dos principais times da cidade. 4'00 Intervalo -------------------------------------- 3'00 Entrevista Fonte conversando ao vivo sobre determinado assunto importante do dia. 6'00 Debate final Jornalistas discutem sobre um assunto importante do dia. 5'00 Encerramento Despedidas, chamadas da próxima atração. 1'00 1 HORA O script é a lauda em que estará o texto do repórter ou o texto do redator para que um locutor leia. Veja a seguir o exemplo: SCRIPT DE UMA EDIÇÃO DA RÁDIO CBN Sugestão: a última sonora pode ser ilustrada com a música João Valentão, de Dorival Caymmi O Congresso parou hoje para assistir à troca de insultos e acusações de corrupção entre o presidente do Senado, Antônio Carlos Magalhães, e o presidente e líder do PMDB, Jader Barbalho. A briga, que começou com uma discussão sobre o valor do salário mínimo e envolve a disputa pela presidência do Senado, chegou ao extremo. Por mais de uma hora, o plenário lotado acompanhou o duelo verbal marcado pelos adjetivos ladrão, corrupto, desonesto, mentiroso e truculento. O ataque partiu de Antônio Carlos Magalhães, que renunciou ao sigilo bancário e entregou à mesa diretora do Senado um dossiê com denúncias contra Jader Barbalho. TEMPO:15” INÍCIO: ESTOU ENCAMINHANDO DEIXA: SIGILO BANCÁRIO Depois foi a vez de Jáder Barbalho apresentar documentos que, segundo ele, comprometem o senador Antônio Carlos Magalhães. TEMPO: 16” INÍCIO: PASSOU A SER DEIXA: COISA INTEMPESTIVA O bate-boca se intensificou quando Jader Barbalho lembrou de uma representação na Comissão de Ética pedindo a cassação do mandato de Antônio Carlos Magalhães. TEMPO 40” INÍCIO: O SENHOR TEM DEIXA: SÃO SEUS A atuação dos senadores em seus respectivos estados foi motivopara a troca de insultos. Jader Barbalho disse que Antônio Carlos Magalhães controla a política na Bahia à base do chicote e do dinheiro. TEMPO: 45” INÍCIO: O JORNALISTA DEIXA: COM O COFRE O senador Antônio Carlos Magalhães reagiu afirmando que Jader Barbalho burlou o fisco quando era governador do Pará e cometeu uma série de irregularidades nos ministérios da Previdência e da Reforma Agrária. TEMPO: 42” INÍCIO: NA PREVIDÊNCA FIM: ERA UM TRAIDOR Na troca de insultos, os senadores incluíram até o nome do presidente Fernando Henrique Cardoso. Jader Barbalho disse que Antônio Carlos Magalhães é grosseiro no tratamento ao presidente. TEMPO: 42” INÍCIO: O PRESIDENTE DEIXA: PISOU NA BOLA No revide, Antônio Carlos Magalhães disse que Jader Barbalho foi muitas vezes ao gabinete dele para falar mal do presidente: TEMPO: 39” INÍCIO: QUERO DIZER DEIXA: DA REPÚBLICA O duelo verbal terminou com ironia. O senador Jader Barbalho disse que o compositor baiano Dorival Caymmi se inspirou em Antônio Carlos Magalhães para fazer a música João Valentão. Trechos da letra foram citados pelos dois senadores. TEMPO: 53” INÍCIO: TENHO A IMPRESSÃO DEIXA: MUITO OBRIGADO PÉ – A mesa diretora do Senado vai decidir amanhã o que fazer com os dossiês entregues pelos senadores Antônio Carlos Magalhães e Jader Barbalho. O duelo verbal, marcado pelos adjetivos ladrão, desonesto, corrupto, mentiroso e truculento, pode resultar em um processo no Conselho de Ética e Decoro do Senado. Importante perceber que, ao fim da edição, a nota-pé recupera parte da introdução e acrescenta algo novo. Matéria Repórter Validade ACM X Jader Equipe Brasília Arquivar Produção Editor Praça Jornal da CBN 05/04/2000 Edmilson São Paulo AGORA É SUA VEZ! Utilize o modelo do exemplo a seguir e construa seu próprio podcast. Monte com a notícia, divisão do tempo, entrevista e o que achar que tem sentido em sua criatividade. Edite da melhor forma, troque com os colegas e deixe o material guardado para entender o fundamento. EXEMPLO Seções Descrição Duração Abertura Texto que pode ser um pequeno editorial destacando algum fato importante. 2'00 Resumo de notícias Pode ser feito por locutores diferentes. Também pode ser feito em uma edição de várias sonoras que formem um amplo painel para o ouvinte. 4'00 Prestação de serviços Informações de trânsito, transportes, impostos que vencem naquela data etc. 3'00 Entrevista Entrevista factual com alguém que esclareça a principal notícia do dia. 6'00 Intervalo ----------------------------------- 3'00 Reabertura Como a audiência é rotativa, o apresentador deve retomar o que já aconteceu no programa até ali e anunciar alguns assuntos que ainda entrarão no ar. 1'00 Matéria Entrada de um repórter, que pode ser ao vivo em flash ou em uma reportagem gravada. 2'00 Quadro de finanças Ao vivo ou gravado, comentarista responde a dúvidas previamente enviadas por ouvintes. 3'00 Entrevista Fonte conversando ao vivo sobre determinado assunto importante do dia. 6'00 Intervalo -------------------------------------- 3'00 Reabertura Como a audiência é rotativa, o apresentador deve retomar o que já aconteceu no programa até ali e anunciar alguns assuntos que ainda entrarão no ar. 1'00 Comentário Comentarista da emissora fala sobre algum fato político relevante. 2'00 Quadro de saúde Especialista tira dúvidas dos ouvintes sobre saúde. 3'00 Matéria Entrada de um repórter, que pode ser ao vivo em flash ou em uma reportagem gravada. 2'00 Quadro de esporte Jornalista esportivo traz as informações dos principais times da cidade. 4'00 Intervalo -------------------------------------- 3'00 Entrevista Fonte conversando ao vivo sobre determinado assunto importante do dia. 6'00 Debate final Jornalistas discutem sobre um assunto importante do dia. 5'00 Encerramento Despedidas, chamadas da próxima atração. 1'00 Chegamos ao final da nossa rádio, e nada melhor do que o Rodrigo Rainha para fazer esse encerramento. VERIFICANDO O APRENDIZADO Agora, vamos ouvir sobre os assuntos mostrados neste tema. No podcast a seguir, em forma de programa de rádio, o Professor Rodrigo Rainha e seus convidados abordam os assuntos até aqui trabalhados, exemplificando-os. CONCLUSÃO CONSIDERAÇÕES FINAIS O rádio vem passando por várias transformações tecnológicas e, por meio delas, conseguiu sobreviver à chegada da TV e, atualmente, à concorrência de outras tecnologias. Isso se deve ao fato de que o rádio faz companhia e torna possível a execução de outras tarefas ao mesmo tempo em que o usuário escuta seu programa preferido. Mesmo com toda essa tecnologia, simultaneidade e instantaneidade continuam a ser aliadas da linguagem radiofônica. A transmissão de rádio pelas plataformas digitais apagou fronteiras nacionais e, hoje, em qualquer lugar do mundo com banda larga, é possível acompanhar a programação da emissora de sua preferência. O radiojornalismo presta serviços, informa em tempo real e faz companhia. O rádio mudou, mas continua sua aventura de formar imagens e ser o meio de informação de quem não tem tempo de ler jornal, ver TV, ou acessar os portais dos veículos de comunicação. PODCAST REFERÊNCIAS BARBEIRO, H.; LIMA, P. R. de. Manual de Radiojornalismo: produção, ética e internet. Rio de Janeiro: Campus, 2001. BOND, F. Introdução ao jornalismo. Rio de Janeiro. Agir, 1959. FERRARETTO, L. A. Rádio: o veículo, a história e a técnica. Porto Alegre: Sagra Luzzatto, 2001. KISHINHEVESKY, M. O rádio sem onda: convergência digital e novos desafios na radiodifusão. Rio de Janeiro. E-papers, 2007. LAGE, N. A reportagem: teoria e técnica de entrevista e pesquisa jornalística. 4. ed. Rio de Janeiro. Record, 2001. MCLEISH, R. Produção de rádio: um guia abrangente da produção radiofônica. São Paulo. Summus Editorial, 2001. MEDITSCH, E. O rádio na era da informação: teoria e técnica do novo radiojornalismo. Florianópolis: UFSC, 2001. ORTRIWANO, G. S. Radiojornalismo no Brasil. In: 80 anos de rádio: Revista USP dezembro, janeiro, fevereiro 2002-2003. ROMO GIL, M. C. Introducción al conocimiento y práctica de la radio. México: Diana, 1994. TAVARES, M. (org). Manual de Redação CBN. São Paulo: Globo, 2011. TÁVOLA, A. da. Um veículo forte, à espera de programas criativos e populares. In: sindicato dos jornalistas profissionais de Porto Alegre, 1976. TINHORÃO, J. R. Música popular, do gramofone ao rádio e TV. São Paulo: Ática, 1981. EXPLORE+ O rádio é um veículo de comunicação de massa que se reinventa a partir das novas tecnologias. A principal fronteira que se abre nessa nova realidade são os podcasts. Implementados ainda na década de 1990, este novo produto de áudio representa a possibilidade de apresentar os produtos de áudio de uma nova forma. Para conhecer mais esses produtos, seguem algumas recomendações: · O podcast científico 37 graus. · O podcast Vida de jornalista, em que o jornalista Rodrigo Alves entrevista vários colegas de profissão sobre suas trajetórias. · Vozes da CBN, um podcast produzido pela emissora que foi pensado primordialmente para a plataforma de podcasts da CBN. CONTEUDISTA Creso da Cruz Soares Júnior CURRÍCULO LATTES O RÁDIO NA ERA DIGITAL DEFINIÇÃO A convergência midiática e a maneira como o rádio se reposicionou. A ampliação do conceito de rádio para rádio expandido. A diferenciação entre rádio na era digital e rádio digital. As novas formas de produção, circulação e consumo do rádio na era digital. O podcast e a web rádio. As novas formas de transmissão na interação entre consumidor e emissor. PROPÓSITO Conhecer os elementos que compõem a linguagem radiofônica digital, como atuam e reconfiguram as formas de se fazer e de se ouvir rádio hoje em dia. OBJETIVOS MÓDULO 1 Comparar as configurações do rádio antes e durante a era digital MÓDULO 2 Identificar as formas atuais de produção, circulação e consumo da linguagem radiofônica MÓDULO 3 Identificar os novos formatos para o rádio INTRODUÇÃO É muito comum ouvirmos numa conversa, ou num bate-papo informal, frases dotipo: “o rádio morreu” e “eu não escuto rádio”. Ou ainda: “eu só escuto rádio no carro, para saber do trânsito”, ou “eu só ouço rádio quando vou a casa dos meus avós”, dando a entender que rádio é “coisa do passado”. Se você se identifica com algumas dessas afirmações, após estudar o tema aqui tratado, O rádio na era digital, provavelmente irá rever suas certezas. Vamos navegar nessas ondas! Fonte: haroldguevara / pixabay MÓDULO 1 Comparar as configurações do rádio antes e durante a era digital RÁDIO: UMA MÍDIA EM TRANSFORMAÇÃO O rádio está em constante transformação. Os tempos atuais não são o primeiro momento da história da comunicação em que esse veículo precisou enfrentar a descrença em relação a sua capacidade de sobrevivência. Vamos conhecer um pouco sobre a evolução do rádio: Quando a televisão surgiu, o rádio enfrentou uma grande disputa. Ocorreu a fuga em massa dos anunciantes, que passaram a financiar a TV – e não mais o rádio –, a especulação no mercado era de que um meio sem imagem não poderia competir, ou sobreviver a uma disputa de público, com o meio com imagem. Mas o que se viu, como sabemos, não foi o fim do rádio. A partir dos anos 1960 o veículo só se fortaleceu e prosseguiu pelas décadas seguintes, até o princípio dos anos 2000, desempenhando papel fundamental como fonte de informação, de companhia e de formação do gosto musical das sociedades modernas e contemporâneas. Com o advento e a popularização da internet, ocorreu um processo de descrença em relação à sobrevivência do rádio muito semelhante com o momento da chegada da TV, entretanto já devidamente superado entre os especialistas no assunto. A respeito da relação do rádio e internet, de acordo com a professora e pesquisadora Nair Prata (2009), em obra dedicada aos novos gêneros radiofônicos e formas de interação que surgiram em virtude da adaptação do rádio à web, vivemos um fenômeno qualificado como “radiomorfose”. Segundo a autora, a expressão é um empréstimo do conceito mediamorphosis, criado pelo americano Roger Fidler (1997) para definir a capacidade de adequação e transformação dos meios comunicacionais às chamadas tecnologias de informação e comunicação (TICs). ROGER FIDLER Pioneiro e visionário de novas mídias, reconhecido internacionalmente. Ele é mais conhecido por sua visão de jornais digitais e dispositivos de leitura móvel, que concebeu e escreveu pela primeira vez em 1981. Em seu livro Webradio. – novos gêneros, novas formas de interação, Prata afirma: [...] PODERÍAMOS AFIRMAR QUE O RÁDIO DOS ANOS 50, ATRAVÉS DO PROCESSO DE RADIOMORFOSE, SUPEROU O IMPACTO TECNOLÓGICO DO ADVENTO DA TV E BUSCOU UMA NOVA LINGUAGEM. O VEÍCULO NÃO MORREU, APENAS SE TRANSFORMOU. HOJE, NESTE PRINCÍPIO DE SÉCULO XXI, A RADIOMORFOSE CONTINUA E O VEÍCULO NÃO VAI MORRER COM O IMPACTO DAS NOVAS TECNOLOGIAS DIGITAIS E DA WEB, MAS BUSCA UMA READAPTAÇÃO E ENCONTRA SEU CAMINHO NUMA NOVA LINGUAGEM, ESPECIALMENTE DESENVOLVIDA PARA OS NOVOS SUPORTES. (PRATA, 2009, p. 79) Vejamos agora o que Jenkins afirma sobre as transformações do rádio: [...] AS TRANSFORMAÇÕES VIVIDAS PELO RÁDIO NO NOVO MILÊNIO PAUTAM-SE NA CAPACIDADE QUE O MEIO DESENVOLVEU PARA SE ADEQUAR ÀS CHAMADAS “CULTURA PARTICIPATIVA”, “CULTURA DO COMPARTILHAMENTO” E “CULTURA DA CONVERGÊNCIA”. (JENKINS, 2013) A despeito de uma nomenclatura ideal, o fato é que a noção do que é rádio hoje se expandiu, superando controvérsias entre os estudiosos da área. Inicialmente, houve muita resistência à ideia de que certos formatos de programas sonoros surgidos no novo contexto, como o podcast, fossem consideradas rádio, pelo fato de não serem transmitidos ao vivo, mas sob demanda. Isso porque a definição de radiodifusão sempre esteve baseada num modelo comunicacional de transmissão massiva do tipo “um-todos”, isto é, de um meio que fala (emite) para todos (ouvintes e telespectadores). Atualmente, no entanto, os modelos comunicacionais também operam de forma substancial nos esquemas “um-um” ou “muitos-muitos”, muitas vezes de forma simultânea, como veremos mais adiante. [...] HOJE, A DEFINIÇÃO DE RÁDIO QUE PREVALECE É A QUE SE RELACIONA COM A LINGUAGEM RADIOFÔNICA. ISTO É, O ALARGAMENTO DO CONCEITO, OU MESMO DA COMPREENSÃO DO QUE É “RÁDIO” ESTÁ DIRETAMENTE ASSOCIADO AO SEU FORMATO NARRATIVO E DE MONTAGEM, EM QUE SE APLICA “UMA LINGUAGEM COMUNICACIONAL ESPECÍFICA, QUE USA A VOZ (EM ESPECIAL NA FORMA DA FALA), A MÚSICA, OS EFEITOS SONOROS E O SILÊNCIO, INDEPENDENTEMENTE DO SUPORTE TECNOLÓGICO AO QUAL ESTÁ VINCULADA”. (KISCHINHEVSKY, 2011, p.8) Em virtude dessa nova forma de interpretarmos o rádio hoje, a qual exploraremos a seguir, a ideia de morte ao meio ou de “eu não escuto rádio”, não faz sentido algum. Ao percebermos a linguagem radiofônica como o principal componente do significado de rádio, adentramos num cenário que, embora em constante modificação, mostra-se um terreno fértil para a criação de novas formas de produção, circulação e conteúdo da comunicação sonora. Vamos a elas! O QUE ERA O RÁDIO? O tradicional dicionário de Comunicação organizado por Rabaça e Barbosa pela primeira vez em 1987, e que recebeu muitas revisões e atualizações, traz mesmo em suas versões mais modernas, publicadas já nos anos 2000, uma perpetuação na forma de definir o verbete rádio. De maneira geral, podemos identificar que os autores se baseiam em categorias como transmissão, legislação, conteúdo, programação, localização, financiamento e suporte para definirem o que é rádio. O que, sem dúvida, é pertinente e, por muito anos, nos orientou e nos bastou como profissionais e estudiosos do campo da Comunicação. Entretanto, conforme veremos, essa maneira de definir rádio já não é mais suficiente. Veja algumas definições do rádio conforme suas categorias: TRANSMISSÃO Veículo de radiodifusão sonora que transmite programas de entretenimento, educação e informação. LEGISLAÇÃO Serviço prestado mediante concessão do Estado, que o considera de interesse nacional; a emissora de rádio deve operar dentro de regras preestabelecidas em leis, regulamentos e normas. CONTEÚDO A legislação brasileira admite exploração comercial (emissora comercial) ou sua utilização para fins exclusivamente educativos (emissora educativa). PROGRAMAÇÃO Quanto à programação, há emissoras que oferecem ao público ouvinte programação em mosaico e outras que se dedicam, basicamente, a um tipo de oferta ou serviço (programação linear; p. ex., música clássica ou popular, hora certa, evangelização etc.). Cada emissora de rádio pode ainda ter a totalidade ou parte de sua programação voltada para o público em geral ou para segmentos específicos. LOCALIZAÇÃO A cobertura de uma emissora pode ser local, estadual, regional ou até internacional, dependendo de sua localização. Atualmente, programações radiofônicas são também transmitidas pela internet (web rádio). FINANCIAMENTO E SUPORTE O suporte para o funcionamento do rádio pode ser por: · Aparelho emissor ou receptor de telegrafia ou de telefone sem fio. Aparelho de radiofonia destinado a receber as ondas hertzianas, pelas quais são transmitidos os sons emitidos por uma emissora de rádio. O rádio portátil (de pilhas), o auto rádio e o walkman deram maior popularidade ao veículo rádio. · Aparelho transmissor-receptor que tem campo de utilização na segurança pública (em viaturas, incluindo-se aviões, helicópteros e navios, e portáteis – os walkie-talkies), na indústria de transporte (radiotáxis, caminhões, aviões e embarcações), na defesa nacional (unidades militares) e nas comunicações privadas (radioamadores). Observando os itens destacados, podemos perceber que, sem dúvida, tudo o que está mencionado pode, sim, definir o que é rádio. Mas não apenas isso. O tempo passou, as tecnologias de informação e comunicação se desenvolveram, os meios de comunicação como um todo se reinventaram. Hoje, podemos afirmar que o rádio não apenas não morreu como mais uma vez em sua história se reinventou e saiu fortalecido ao se adaptar à chamada era digital. VENTOS DA MUDANÇA O hábito de se entender e dividir a história poreras é bastante comum, mas merece ser visto de maneira crítica. Primeiro porque, geralmente, não é possível datar exatamente quando uma era começa ou termina. Depois, porque a predominância de certos batismos para delimitar épocas históricas pode nos levar a utilizar expressões que acabam por ficar muito difundidas e pouco analisadas. Mais que isso, na maioria das vezes não conseguimos identificar quem criou cada alcunha. EXEMPLO Quando dizemos “era de ouro do rádio” ou “era do rádio”, para falar daquele período em que o veículo se consagrou como meio de comunicação de massa; ou “era do disco” para falar da época em que as gravações e vendas de discos se disseminaram globalmente de maneira avassaladora; e assim sucessivamente, podendo citar ainda exemplos como “era da televisão”, “era da informação”, “era da convergência” e a própria “era digital”. Diante de um manancial tão grande de nomenclaturas e da inevitável interseção entre essas eras no decorrer da história, cada uma delas – inclusive a era “digital” – pressupõe a sobreposição de uma série acontecimentos, não apenas no âmbito tecnológico, mas também econômico, político, cultural e social. É muito importante termos isso em mente para não desenvolvermos uma visão essencialmente tecnicista e evolucionista da história. Para que qualquer técnica seja desenvolvida, é necessário que ela seja economicamente viável, politicamente legislada e regulamentada, socialmente utilizada e culturalmente absorvida por uma população ou sociedade. Se formos pensar sobre tecnologias ligadas mais diretamente ao campo da comunicação, assim aconteceu com o rádio, com a TV, com os celulares, os computadores e a internet. Em todos os casos se fez ou ainda se faz necessário reduzir custos de produção para disseminar a técnica, bem como criar normas de utilização e regulação, promover o uso e o consumo, rever a produção a partir de como o uso e o consumo se desenvolvem em determinadas culturas e sociedades, e assim por diante. Tendo isso em mente, podemos entender a era digital como uma época em que a digitalização dos meios de produção, de circulação e de consumo de qualquer produto foi e ainda está sendo bastante estimulada, inclusive no que diz respeito à produção, circulação e consumo de informação. Para chegarmos ao ponto em que estamos hoje, tivemos que passar não apenas pelo advento da internet, mas pela sua difusão em todos os continentes, credos e classes. Veja o quanto aprendemos e evoluímos: Tivemos que ter acesso à digitalização e compressão dos arquivos sonoros e de vídeo (os conhecidos formatos .mp3, .mp4, entre outros similares). Aprendemos a navegar em sites, blogs, redes sociais e aplicativos diversos, não apenas consumindo, mas alimentando toda essa grande rede com conteúdo e informação. Lamentavelmente, também nos deparamos com a desinformação. Passamos a assistir TV no celular, a ouvir rádio na TV, ou ambos simultaneamente, enquanto navegamos nos sites de notícias e redes sociais. Aderimos às plataformas de streaming, alimentando algoritmos baseados em nosso gosto que também acabam por direcionar o nosso consumo. Além disso, passamos a compartilhar tudo o que nos chega, na velocidade da luz. É a tal convergência das mídias, como definiu o pensador americano Henry Jenkins. Segundo o autor, trata-se da condição de uma nova época na qual as mídias e suas linguagens (texto, foto, vídeo e som) convergem para um mesmo ambiente, complementando-se entre si. HENRY JENKINS É um pensador dedicado aos estudos de mídia e à cultura popular, com especial atenção para temas relacionados à produção e ao consumo de produtos midiáticos de forte apelo e alcance popular, como filmes, séries, games e afins. Durante aproximadamente 10 anos esteve à frente do MIT Comparative Media Studies, o centro de estudos de mídia comparado do Massachusetts Institute of Technology. Atualmente é professor da University of Southern California (USC), onde coordena o grupo de pesquisa New Media Literacies (learnig in a participatory culture) – em português, alfabetização nas novas mídias. O rádio da era digital é, portanto, o rádio que se insere em todo esse contexto. De outra parte há quem confunda sua definição com a de rádio digital. Mas não, eles não são a mesma coisa. O rádio digital praticamente não existe. Ou melhor, podemos dizer que ele foi suplantado por esse entendimento de um rádio mais amplo, digno da era digital. Consequentemente, outro conceito se fortaleceu: o de rádio expandido. Vejamos a seguir como entender melhor essa diferenciação. RÁDIO NA ERA DIGITAL Um rádio é uma mídia. Múltipla nesse sentido é também o rádio da convergência midiática, que dialoga com outras mídias, enquanto tem suas formas de produção, circulação e consumo atravessadas e modificadas pela internet e pelas atuais tecnologias de informação e comunicação. Em uma primeira fase, a busca era converter o meio de transmissão de rádio para uma transmissão digital, como usado na internet. Mas essa mudança não se materializou. Cabe aqui o questionamento: O que impediu o rádio terrestre de passar a funcionar de maneira digital? Foi a indecisão por um padrão tecnológico de digitalização. A história ao redor desse assunto é longa, cheia de detalhes e impasses legais, técnicos e até mesmo geográficos. Então, para encurtar a história, podemos dizer que o avanço do rádio via internet fez o rádio digital terrestre “caducar” ou, simplesmente, perder sua urgência, sobretudo nos centros urbanos, onde não há empecilhos para a escuta de rádio em todas as formas possíveis, na atualidade. E, no caso dos lugares mais distantes e carentes, demandaria aparelhos receptores específicos, além de toda uma adaptação das emissoras locais e das comunidades aos usos tecnológico e social desse novo padrão. Diante de todas as novas qualidades que o rádio incorporou nos últimos anos e da ampliação da compreensão sobre até onde ele pode ir hoje em dia, consta a seguir nova definição elaborada pelos pesquisadores Luiz Artur Ferraretto (UFRGS) e Marcelo Kischinhevsky (UFRJ) para a Enciclopédia de Comunicação, organizada pela Intercom, a principal associação de pesquisa em comunicação do país. INTERCOM A Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom) é uma instituição sem fins lucrativos, destinada ao fomento e à troca de conhecimento entre pesquisadores e profissionais atuantes no mercado. RESUMINDO A seguir, alguns trechos relevantes retirados da definição dos autores: · Meio de comunicação que transmite, na forma de sons, conteúdos jornalísticos, de serviço, de entretenimento, musicais, educativos e publicitários. · Até os anos 1990, prepondera uma noção de rádio como sendo um meio de comunicação que utiliza emissões de ondas eletromagnéticas para transmitir a distância mensagens sonoras destinadas a audiências numerosas. · Com o crescimento da internet e a convergência tecnológica, alguns autores – como Mariano Cebrián Herreros (2001, p. 47) – defendem uma concepção mais plural, para além, inclusive, do hertziano. · No início do século XXI (...) o veículo amalgama-se à TV por assinatura, seja por cabo ou DTH (direct to home); ao satélite, (...) e à internet, na qual aparece no sinal de estações tradicionais, nas web rádios ou, até mesmo, em alternativas sonoras como o podcasting. · A pluralidade pode ser estendida, entre outros fatores, aos modos de processamento de sinais – analógico ou digital –, à definição legal da emissora – comercial, comunitária, educativa ou pública –, ou ao conteúdo – jornalismo, popular, musical, cultural, religioso... · De início, suportes não-hertzianos, como web rádios ou o podcasting, não foram aceitos como radiofônicos por parcela significativa da comunidade científica brasileira. (...) na atualidade, a tendência é aceitar o rádio como uma linguagem comunicacional específica, que usa a voz (em especial, na forma da fala), a música, os efeitos sonoros e o silêncio, independentemente do suporte tecnológico ao qual está vinculada. (Ferraretto e Kischinhevsky, 2010) RÁDIOHERTZIANO É aquele transmitido por ondas eletromagnéticas. O rádio do senso comum, com número do dial e frequências AM ou FM, que sintonizamos em aparelhos receptores tradicionais. No caso do rádio FM suas ondas são captadas pelos aparelhos de celular em geral, dos mais antigos aos mais modernos. Já o sinal AM estava com os dias contados. Rumo à digitalização do rádio terrestre, estimava-se que as emissoras AM tivessem migrado para o FM ainda em 2018. Mas impasses que impediram a adoção do sinal digital para o rádio terrestre também foram sentidos nessa etapa do processo, sobretudo considerando as proporções continentais do nosso país e as diferentes realidades socioculturais. Como podemos observar a partir dos tópicos destacados, a definição atualizada de rádio, proposta por Ferraretto e Kischinhevsky, também se baseia em critérios adotados anteriormente por Rabaça e Barbosa, tais como: tipo de transmissão, aspectos legais, conteúdo e programação. Entretanto, abre a possibilidade de compreendermos o rádio a partir de sua linguagem, desvinculando seu significado do suporte ao qual é vinculado. Em estudos subsequentes, Marcelo Kischinhevsky vai se debruçar ainda mais sobre a definição de rádio expandido, atualmente introjetada e muito utilizada entre os estudiosos do campo. Em artigos desenvolvidos a partir de 2011 até seu livro mais recente, intitulado Rádio e mídias sociais (2014), o autor vai elaborando tal definição até chegar ao seguinte ponto: O RÁDIO É HOJE UM MEIO DE COMUNICAÇÃO EXPANDIDO, QUE EXTRAPOLA AS TRANSMISSÕES EM ONDAS HERTZIANAS E TRANSBORDA PARA AS MÍDIAS SOCIAIS, O CELULAR, A TV POR ASSINATURA, SITES DE JORNAIS, PORTAIS DE MÚSICA. A ESCUTA SE DÁ EM FREQUÊNCIA MODULADA (FM), ONDAS MÉDIAS (AM), CURTAS E TROPICAIS, MAS TAMBÉM EM TELEFONES CELULARES, TOCADORES MULTIMÍDIA, COMPUTADORES, NOTEBOOKS, TABLETS; PODE OCORRER AO VIVO (NO DIAL OU VIA STREAMING) OU SOB DEMANDA (PODCASTING OU ATRAVÉS DA BUSCA EM ARQUIVOS OU DIRETÓRIOS). NESTE CENÁRIO DE RECONFIGURAÇÃO DA MÍDIA SONORA, TAMBÉM A PRODUÇÃO, A EDIÇÃO E A VEICULAÇÃO DE ÁUDIOS GANHARAM AGILIDADE, AMPLIFICANDO A VOZ DE NOVOS ATORES SOCIAIS. (KISCHINHEVSKY, 2014, p.13-14.) Kischinhevsky inaugura uma visão que atualmente é muito bem-aceita e incorporada por diversos pesquisadores do rádio e das mídias sonoras em geral; para ele, o rádio é hoje um meio de comunicação expandido. O rádio da era digital amolda-se à noção de rádio expandido e vai muito além do meio de comunicação em si e dos suportes que, tradicionalmente, levaram informação e entretenimento aos ouvintes. O rádio da era digital trata-se, mais do que nunca, de uma linguagem comunicacional específica que, como veremos no próximo módulo, já não pertence apenas aos produtores tradicionais de conteúdo radiofônico e, ao mesmo tempo, se une a elementos não sonoros, chamados também de “parassonoros”, como a imagem, o texto escrito, a interface e as condições de navegabilidade, interatividade e interação mediadas por celulares e computadores para existir, se difundir e ser consumido. TEREMOS AGORA, UM PANORAMA SOBRE “O RÁDIO X O RÁDIO: PRESENTE E PASSADO”. APERTE O PLAY! VERIFICANDO O APRENDIZADO MÓDULO 2 Identificar as formas atuais de produção, circulação e consumo da linguagem radiofônica O “RÁDIO EXPANDIDO” Com a compreensão de rádio na era digital e a conceituação de “rádio expandido” devidamente esclarecidos, podemos partir para este segundo módulo, que nos dará o arcabouço necessário para entender melhor o que podemos fazer com a linguagem radiofônica hoje. Veremos a seguir as características dessa linguagem e a sua adaptabilidade aos avanços tecnológicos, juntamente com exemplos que nos ajudarão a entender as melhores formas de explorá-la. Veremos como produzir conteúdo e informação por intermédio dela e como fazê-la circular atualmente para que seja consumida. Nesse contexto, estudaremos com mais ênfase o podcast e a web rádio aplicados ao radiojornalismo. CARACTERÍSTICAS BÁSICAS DA LINGUAGEM RADIOFÔNICA Definitivamente a linguagem radiofônica não nasceu junto com o rádio. Podemos afirmar, com base em vasta bibliografia relacionada à história de rádio (ORTRIWANO, 2002; MOREIRA, 2001; FERRARETTO, 2001; entre outros), que o processo de concepção de uma linguagem apropriada para o meio se deu a partir de muito trabalho, tentativas, erros e até mesmo aventuras. Tanto no Brasil quanto no mundo, de meados dos anos 1920 a meados de 1950, essa linguagem foi sendo concebida e consolidada a partir de experimentos no jornalismo, na rádio educação, no entretenimento, na publicidade e até mesmo na política. Por outro lado, assim como qualquer outra linguagem, é viva e mutável, permanecendo em transformação constante. Ao longo dos últimos quase 70 anos, diversos adventos tecnológicos contribuíram com novos processos de modificação e atualização dessa linguagem. A fim de exemplificar, podemos lembrar dois deles: A miniaturização dos aparelhos e o advento do gravador portátil. Ele trouxe dinamismo e maior credibilidade ao radiojornalismo. As chamadas “sonoras” passaram a ilustrar matérias e reportagens e, dessa maneira, o invento atuou de forma inconteste na linguagem radiofônica. SONORAS Trechos de depoimentos e entrevistas relativas ao tema tratado. A redução do tamanho dos aparelhos e a possibilidade de eles funcionarem à pilha incluiu a condição de portabilidade como uma das principais características do rádio, levando-o a ocupar um espaço preponderante no cotidiano das sociedades. A partir do seu uso como companheiro do dia a dia, a linguagem radiofônica foi conquistando um tom coloquial e se aproximando ainda mais do ouvinte. Para falar sobre todo esse tempo e transformações, seria necessário um tema dedicado apenas à história do rádio para esta disciplina. Com o propósito de cumprir os objetivos propostos sobre o rádio na era digital, cabe, por ora, relembrar algumas características básicas da linguagem radiofônica. Para tal, serão discutidos a seguir os principais formatos e gêneros radiofônicos que, ao longo do tempo, passaram a formar a programação e a identidade do meio. GÊNEROS E FORMATOS DO RÁDIO Falar em gênero e formato radiofônico nunca foi simples; diversos são os autores que já abordaram o tema e inúmeras são as categorizações propostas, entre as quais, é possível perceber muitas semelhanças e algumas diferenças. O primeiro desafio trata-se de entender o que é exatamente gênero radiofônico e formato radiofônico. Uma vez compreendida tal distinção, perceber como cada gênero pode supor um formato adequado ou vice-versa. Para tornar essa reflexão ainda mais consistente, devemos considerar que categorizações e definições (em geral) não são estanques, não são fixas. Ao contrário, utilizando um termo bastante em voga nos estudos de comunicação atuais, podemos dizer que se hibridizam, ou seja, se mesclam, cada vez mais. Conforme veremos em exemplos a seguir, o gênero informativo pode se mesclar ao de entretenimento na elaboração de um audiodocumentário ou de um audiodrama. SAIBA MAIS O audiodocumentário é um formato de programa relativo ao gênero informativo, mas pode utilizar-se de recursos de linguagem ligados ao entretenimento na escolha de uma trilha sonora, por exemplo. Nele a presença de um locutor guia a história narrada, expondo fatos reais com uso de entrevistas, depoimentos, recortes de outras publicações etc. O audiodrama é mais utilizado como entretenimento, mas pode basear-se em fatos reais para explicar uma situação, fazer uma campanha educativa ou algo assim. No audiodrama também há presença do locutor, e atores encenam partes da história, atribuindo uma representação da realidade. Em busca de originalidade e estilo radiofônico, profissionais da radiodifusão, estudiosos do tema, grandes emissoras e até mesmo radioamadores já comprovaram que a interlocução entre os gêneros radiofônicos aprimora o desenvolvimento de produtos inovadores, capazes de cativar a audiência. Segundo Prata (2009), muitos autores já se dedicaram a categorizar os principais gêneros radiofônicose, com as transformações vividas pós-internet, o tema voltou a ganhar força. Vejamos um exemplo: A partir da popularização dos podcasts e das web rádios, permitiu-se uma apropriação da linguagem radiofônica por indivíduos não ligados especificamente à atividade jornalística, contribuindo com o caldeirão de possibilidades que emergem nesses novos tempos. Ao mesmo tempo, os podcasts, web rádios e sites de emissoras com presença marcante no rádio terrestre (como CBN e BandNews) tornaram-se ferramentas fundamentais à atividade jornalística e vêm demonstrando a urgência de atualização na formação profissional para esse fim. BEM-VINDO AO MUNDO DOS PODCASTS Embora já popularizado, cabe aqui explicar a origem do termo podcast e como funciona a tecnologia podcasting. O primeiro é nome que qualifica o produto, o segundo, o verbo que corresponde à tecnologia de transmissão. O pesquisador espanhol Juan Ignácio Gallego, da Universidade Carlos III de Madrid, autor da obra Podcasting, nuevos modelos de distribuición para los contenidos sonoros (2010), desenvolveu um trabalho de extrema profundidade no assunto. O autor identificou e descreveu diversas possibilidades para o surgimento do nome podcast, mas após entrevistar os principais atores envolvidos com o surgimento da tecnologia, explica que o termo é a mistura dos nomes iPod (aparelho armazenador de áudio .mp3, desenvolvido pela Apple) e casting (de broadcasting, que, em português, significa radiodifusão). Ainda segundo Gallego, a tecnologia podcasting surge em virtude de marcos da informação e da comunicação ocorridos entre os anos 2000 e 2004, no contexto em que os blogs eram fenômeno de comunicação na internet e começavam a incorporar arquivos sonoros em suas postagens. Já existiam o formato .mp3 e o recurso de assinatura por RSS (formato de distribuição de informações em tempo real cujo conteúdo pode ser acessado pelas chamadas plataformas agregadoras). Mas em que o podcast se assemelha a um blog? É simples, quando assinamos um blog, o incorporamos em um feed de alimentação por RSS. A partir daí, somos notificados cada vez que uma nova postagem é feita. O podcasting é basicamente a mesma coisa, mas referente aos arquivos sonoros. Quando assinamos um podcast, passamos a ser notificados sobre cada novo episódio publicado. Com relação a sua definição, com o passar do tempo, o termo vem perdendo o rigor de sua definição técnica e ganhando uma definição mais voltada ao seu uso social. Por isso, encontramos hoje arquivos de áudio disponibilizados para escuta ou para download que também recebem o nome de podcast, independentemente de o recurso de assinatura estar incorporado. Outro nome internacional de peso, quando o assunto é podcast, é o do professor Richard Berry, da Universidade de Sunderland, na Inglaterra, onde leciona disciplinas ligadas aos temas de radiodifusão, podcasting e produção sonora. É coeditor do livro Podcasting, new aural cultures & digital media (2018), além de autor de diversos artigos sobre o tema, tais como “Podcasting: considering the evolution of the medium and its association with the word ‘radio’”. Berry, ao contrário de outros autores, vê especificidades na definição de podcasting que estão para além da visão expandida de rádio. RESUMINDO Segundo o autor e seus pares de pesquisa, o podcasting pode ser definido como: Uma plataforma Um meio de colocar o áudio em seus ouvidos. Práticas Maneiras de criar conteúdo distinto. Culturas Ideias que a forma prática ou define como o trabalho está sendo feito. Berry afirma que, os podcasts em si podem ser definidos como conteúdo de áudio da internet entregue globalmente via assinatura de um dispositivo conectado e depois consumido de forma assíncrona pelos ouvintes. ATENÇÃO O autor alerta para o fato de que existem alguns fatores-chave que podem nos ajudar a definir podcasts, eles são intercambiáveis, mas em geral devemos pensar em: · qualidade de áudio · intimidade · autenticidade · independência · formalidade / informalidade · inovação · intencionalidade O PODCAST E OS GÊNEROS E FORMATOS RADIOFÔNICOS A partir de um levantamento bibliográfico de fôlego, Prata (2009) apresenta um panorama de estudos ligados à categorização dos gêneros e formatos radiofônicos, retomando a obra de papas do estudo do discurso até de estudiosos do jornalismo (Marcushi, Fairclough, Bakhtin, Faus Belau, Barbosa Filho, entre outros). Entre tantas categorizações, destacaremos três: BARBOSA FILHO (2003) A este Prata deu ênfase, por apresentar sete diferentes tipos de gênero radiofônico, os quais são: 1. Jornalístico; 2. Educativo-Cultural; 3. Entretenimento; 4. Publicitário; 5. Propagandístico; 6. Serviço; 7. Especial. FERRARETTO (2001) Encontramos na obra de Ferraretto, uma possibilidade mais sucinta de reconhecer os gêneros radiofônicos. Dessa vez são divididos em quatro grandes classes: 1. Informativo; 2. Musical; 3. Educativo; 4. Comunitário. MARIO KAPLÚN O argentino Mario Kaplún foi ainda mais sucinto que Ferraretto, apresentou em sua obra lançada no final dos anos 1990, e editada em português apenas em 2017, três categorias, as quais são: 1. Informativo; 2. Educativo-cultural; 3. De entretenimento. Entretanto, salienta que, numa primeira classificação geral, os programas de rádio se dividem em dois grandes grupos: os musicais e os falados. Ou ainda, majoritariamente musicais ou majoritariamente falados. MARIO KAPLÚN Foi um educomunicador, radialista e escritor. Promoveu o conceito de comunicação transformadora em oposição à comunicação bancária. Observando as categorias acima, podemos perceber que os gêneros se misturam em sua essência. O gênero educativo-cultural também poderia ser considerado de entretenimento ou mesmo jornalístico. Da mesma forma que o chamado rádio de serviço também poderia ser considerado jornalístico. Afinal, uma das principais funções do jornalismo em rádio é, justamente, a prestação de serviço. Além da gama de gêneros, existe uma gama de formatos radiofônicos. Vamos agora definir o que são formatos radiofônicos: Os formatos são o que podemos reconhecer como os produtos, por meio dos quais determinado gênero se expressa. Por exemplo, o gênero jornalístico, também qualificado de informativo ou noticioso, está presente em flashes, boletins radiojornais, sínteses, giros de reportagens etc. De acordo com Ferraretto, os formatos às vezes podem ser puros, como flashes e boletins, ou mistos, como os radiojornais e as radiorrevistas, que reúnem um somatório de formatos em sua composição. Vamos conhecer alguns formatos radiofônicos: Flash Como o próprio nome sugere, os flashes são rápidos e podem ser escutados ao longo da transmissão ao vivo. Na prática apresentam-se como notas breves com duração de aproximadamente 1 minuto sobre fatos ocorridos há poucos instantes que “esquentam” o noticiário e “amarram” a audiência. Por se tratarem de notas muito breves e frescas, não compõem a grade de podcasts das versões web das emissoras. São o reflexo do “aqui e agora”. Entretanto, como muitos desses sites hoje em dia disponibilizam o chamado “dedo duro”, que corresponde à gravação da programação diária completa, pelo período de uma semana, ao optarmos pela escuta na íntegra, podemos ouvir novamente os flashes ocorridos no período selecionado. Notícia Estrutura mais utilizada no radiojornalismo, traz o relato dos fatos ocorridos de forma hierarquizada e organizada. Em geral, obedece à lógica da “pirâmide invertida”, com lide, desenvolvimento e encerramento com assinatura da matéria. Quando as notícias eram transmitidas apenas ao vivo, pelo rádio terrestre, elas tinham, em média, um minuto e meio de duração, a fim de manter a atenção do ouvinte. Com a migração das emissoras terrestres para a internet, o surgimento das web rádios e a popularização dos podcasts, esse formato foi sendo flexibilizado, pois agora o ouvinte pode ouvir novamente, pausar ou voltar cada matéria. Nesses casos, um recurso chave muito utilizado são as chamadas “sonoras” (trechos de depoimentos colhidos pelo repórter para ilustrara matéria). Reportagem Levantamento detalhado sobre determinado fato ou conjuntura, envolvendo ampla pesquisa e realização de diversas entrevistas. Reportagens especiais são consideradas material nobre no rádio e, quando bem executadas, podem reverter-se em reconhecimento profissional, além de terem impacto potencial sobre a opinião pública. No universo dos podcasts esse formato é bastante comum e vem ganhando tratamento estético cada vez mais especial, com roupagem de audiodocumentário. Paisagem sonora Termo criado pelo pesquisador canadense Murray Schafer, diz respeito aos sons de ambientes, cenários, locais e situações. Na linguagem radiofônica as paisagens sonoras são utilizadas com o intuito de nos remeter a determinados locais, cenários, ambientes, situações. Sons que são, literalmente, capazes de nos fazer visualizar cenas ou nos imaginar em determinados lugares. Alguns exemplos simples seriam o barulho do mar, uma revoada de pássaros, as páginas de um livro virando. Boletim Espécie de reportagem mais curta, breve. Pode ter caráter mais analítico sobre áreas específicas (economia, esportes, tecnologia, saúde, gastronomia, música etc.) ou apresentar-se como “pílulas” na programação. Com identidade sonora própria, ocorre em horários predeterminados; podem ser assinados e apresentados por repórteres ou jornalistas especializados que colaboram com a emissora ocasionalmente. De maneira geral, os boletins entram no meio da programação ao vivo, a partir da chamada do âncora ao repórter. Comentário Supre a demanda do ouvinte por análise mais profunda dos fatos relatados, complementando a exposição fria e objetiva dos acontecimentos. Os comentaristas são em geral jornalistas muito experientes em determinada área de cobertura (economia, política, esportes etc.). Os comentários diferenciam-se dos boletins por serem opinativos. Normalmente o âncora convoca o comentarista no momento do radiojornal em que a editoria correspondente tem seu noticiário veiculado. No caso dos boletins, percebemos que as vinhetas utilizadas marcam a identidade sonora dos quadros, enquanto nos comentários um efeito sonoro padrão da emissora marca a entrada do convidado. Em ambos os casos, a locução do título do quadro ou coluna antecipa a fala do convidado /comentarista. No decorrer dos quadros, o(s) âncora(s) interage(m) com os responsáveis por cada boletim ou comentário, dando um tom informal e coloquial, característicos do rádio. Entrevista Pode ser em formato pingue-pongue (mais usual) ou com sonoras editadas e apresentadas por tópicos ou palavras-chave; ocasionalmente, conforme a “temperatura” do evento, emissoras entram ao vivo com a sonora de coletivas, reproduzindo inclusive perguntas feitas por repórteres de outros veículos. No rádio terrestre, quando as entrevistas se alongam, é importante reiterar para o ouvinte quem é o entrevistado e o assunto que está sendo tratado. No rádio via streaming e nos podcasts a reiteração não se mostra tão imprescindível, porque os elementos de apoio (não sonoros), como texto e imagens, podem suprir essa necessidade. Narração Padrão na transmissão de eventos esportivos, mas também usada em outras áreas de cobertura, como política (sessões de CPIs, por exemplo) e documentários em geral; exige grande conhecimento dos temas abordados, com pesquisa prévia e apoio de produtores, redatores e, sobretudo, comentaristas. O locutor que narra os acontecimentos (ou a história) deve descrever os fatos em riqueza de detalhes, sem perder de vista o interesse principal. DEDO DURO A expressão “dedo duro” surgiu, infelizmente, na época da ditadura, como forma de garantir a censura dos meios. Ao ter que entregar sua programação gravada aos censores, as emissoras perdiam a liberdade de expressão e o rádio (ainda bem distante da era digital) perdia o direito de ter sua programação dissipada no ar. MURRAY SCHAFER Além de professor e pesquisador, Schafer também era músico, compositor e ambientalista. Autor de dois livros canônicos sobre o tema Soundscape (paisagem sonora) e The tuning of the world (a afinação do mundo), sua obra contribuiu para o desenvolvimento de um senso crítico e analítico a respeito do som que nos rodeia ou “ambiente sônico”. No âmbito do radiojornalismo, desde meados dos anos 1990 ganharam força as emissoras all news, que transmitem jornalismo 24 horas por dia. Para cumprir essa missão, alternam ao longo de sua programação todos os tipos de textos mencionados e rotineiramente dão conta de: [...] LEVAR AOS OUVINTES CERCA DE MIL INFORMAÇÕES POR DIA, EM FORMAS DE NOTA, BOLETIM, REPORTAGEM, COMENTÁRIOS, PROGRAMAS ESPECIAIS, INSTITUCIONAIS, ENTRE OUTROS. SIGNIFICA DAR AO CIDADÃO O QUE ELE PRECISA. RESPEITAR O OUVINTE, CONSULTANDO-O SOBRE ASSUNTOS POLÊMICOS, COBRAR POSTURA E AÇÃO DAS AUTORIDADES COMPETENTES... FAZEM COM QUE A COMUNIDADE DÊ O RETORNO, GARANTINDO A AUDIÊNCIA. (MARANGONI, Apud. ORTRIWANO, Gisela, 2002, p.83.) Conforme vimos até aqui, a tecnologia do podcasting vem sendo muito bem utilizada pelos grandes grupos de comunicação, no âmbito do radiojornalismo. Mas não apenas por eles. Há muito mais possibilidades em voga ou em construção, e a criatividade é o limite. VAMOS CONHECER SOBRE A LINGUAGEM DO RÁDIO, APERTE O PLAY! Em grande medida, os aspectos mais relevantes em relação ao uso do podcasting e do streaming têm a ver com o fato de que a partir dessas tecnologias ganhamos a possibilidade de gerar e distribuir conteúdo livremente e a sua popularização permitiu uma oferta mais variada e menos centralizada nos grandes grupos de comunicação, tanto no que diz respeito ao rádio informativo, quanto ao de entretenimento e musical. Para Carvalho e Pieranti (2010), a popularização dos podcasts como produção radiofônica descentralizada é uma referência do potencial de digitalização do rádio e sua interseção com as demais mídias digitais (internet, TV digital, tablets e outros). Ao mesmo tempo, esse gostinho do que o rádio digital seria acabou sendo suplantado pelo que o podcast é hoje. A seguir, veremos alguns exemplos de podcasts independentes para entendermos como podemos explorar ainda mais esse rico universo do rádio expandido. O FENÔMENO PODCASTING E SUA PRIMEIRA GERAÇÃO Embora a tecnologia do podcasting se apresente como possibilidade de distribuição de conteúdo desde aproximadamente 2004, no Brasil o hábito de consumir podcasts demorou para se popularizar, sobretudo no âmbito do radiojornalismo, considerando que há apenas um ano os principais grupos de comunicação do país passaram a investir mais pesadamente na produção de podcasts com nomes importantes do jornalismo brasileiro à frente. Até então, as iniciativas ligadas à produção de conteúdo jornalístico eram majoritariamente independentes, produzidas por pequenos veículos de comunicação, por rádios públicas educativas, como a Rádio Cultura de São Paulo, ou por profissionais autônomos e blogueiros, muitas vezes, inclusive, amadores. Em 2006, entretanto, alguns portais para armazenamento de áudio, distribuição de podcasts e consumo de áudio via streaming começaram a ficar mais conhecidos, como o PodOmatic e o SoundCloud. Hoje em dia, existem dezenas deles, além dos grandes Deezer e Spotify. Naquele contexto, temas musicais – seja na forma de programas do tipo audiobiografias e documentários ou playlists que colocavam em cena o DJ que existia dentro de cada produtor – fizeram a alegria de uma juventude, a qual Herschmann e Kischinhevsky (2008) batizaram de geração podcasting, em trabalho no qual trataram dos novos usos do rádio na sociedade do espetáculo e do entretenimento. Na ocasião, os autores alegavam que a possibilidade de se fazer rádio sob demanda podia contribuir para o estabelecimento de linhas de fuga, isto é, de divulgação de outras vozes, outras falas, outros repertórios que não o chamado “mais do mesmo” que massiva e maçantemente costumavam ocupar as rádios musicais com seu formato top 40 ditando a regra do jogo desde os anos 1960/70. Paralelamente, o podcasting inaugurava novas formasde sociabilidade e permitia a construção de toda uma rede de identificações culturais valorizadas e prestigiadas pelos usuários. Nas palavras dos autores: PERDEM FORÇA AS MEDIAÇÕES TRADICIONAIS REALIZADAS PELA INDÚSTRIA DA MÚSICA E DO ENTRETENIMENTO, [...] E A VEICULAÇÃO DE CONTEÚDOS DE FORMA SINCRÔNICA; GANHAM TERRENO A PLURALIDADE NAS REPRESENTAÇÕES ARTÍSTICAS, AS REDES TRANSNACIONAIS DE IDENTIFICAÇÕES CULTURAIS, A INTERAÇÃO SOCIAL MEDIADA [POR COMPUTADOR], AS TRANSMISSÕES RADIOFÔNICAS ASSINCRÔNICAS E AS NOVAS FORMAS DE AUDIÇÃO. (HERSCHMANN; KISCHINHEVSKY, 2008 p. 104.) TRANSMISSÕES RADIOFÔNICAS ASSINCRÔNICAS Aquelas que não são consumidas de forma sincronizada pelo público, mas sob demanda, tal qual o podcast ou o streaming. Herschmann e Kischinhevsky chamam atenção para dois pontos, vejamos quais são eles: DESINTERMEDIAÇÃO Esse é o primeiro ponto, o qual consiste na falta de intermediários da indústria da música na promoção de podcasts, ao falarem sobre a perda da força das mediações tradicionais. Em trabalhos posteriores os autores reviram essa primeira impressão, na medida em que ocorria a aparição de novos agentes intermediários, tanto da indústria da música quanto da tecnologia da informação, no processo de produção, circulação e consumo de podcasts, como, por exemplo, as plataformas agregadoras e os grandes mecanismos de busca. Afinal, embora produzir um podcast seja algo relativamente simples, fazer com que circule em grande escala, sendo acessado e consumido de maneira significativa para consequentemente tornar-se rentável já é bem mais complicado. Nessa corrida, como sempre, sobressaem-se aqueles que contam com apoio financeiro e know-how técnico a seu favor. Justamente por isso os autores notaram que haviam sido otimistas demais ao pensarem o fenômeno do podcasting como algo libertador das forças de mercado. Há sem dúvida uma condição de libertação e pluralidade ali, mas não tão utópica quanto teria parecido inicialmente. Atualmente, além dos novos intermediários mencionados, devemos ainda lembrar do avanço da inteligência artificial e a lógica dos algoritmos que atualmente dominam a distribuição de conteúdo na rede. KNOW-HOW Conhecimento processual ou saber-fazer são termos utilizados para descrever o conhecimento prático sobre como fazer alguma coisa. CONTÉUDO SOB DEMANDA O outro ponto relevante apontado pelos autores é a veiculação do conteúdo de forma assincrônica. É quando cada um ouve no momento, da maneira e onde quiser, deixando de depender da transmissão em massa, como na radiodifusão tradicional, para escutar seu programa favorito. Sobre esse aspecto não há ressalvas. Ao contrário, podemos afirmar que ele só se acentua, ao passo em que a cultura de ouvir podcasts ou de se consumir qualquer tipo de informação via streaming se fortalece. Para Gallego (2011) a tecnologia do podcasting possibilitou a aparição de radialistas amadores e novos prescritores musicais, isto é, agentes capazes de indicar músicas e artistas não reconhecidos pelo mainstream e fazer circular um repertório novo. A corrente dominante ou convencional, também conhecida pelo anglicismo mainstream, é a corrente de pensamento mais comum ou generalizada no contexto de determinada cultura. A corrente dominante inclui toda a cultura popular e a cultura de massa, as quais são difundidas pelos meios de comunicação de massa. Ficam os seguintes questionamentos: Seriam esses novos prescritores novos formadores de opinião? Teriam eles condições de contribuir para a formação do gosto musical de um indivíduo ou sociedade, tal qual a radiodifusão fez tão bem e por tantos anos? Se voltarmos os pareceres desses autores para o âmbito do radiojornalismo na web, também poderíamos falar de uma geração podcasting capaz de nos fornecer novas fontes de informação? Capaz de afetar nossa visão de mundo ou de se tornarem novos formadores de opinião na sociedade? Algumas respostas para essas indagações estão relacionadas a seguir: Esse papel de formadores de opinião tem surgido de forma mais intensa entre os agentes que hoje chamamos de influenciadores digitais; nesse sentido, os canais do YouTube e os perfis de redes sociais têm se mostrado ferramentas de comunicação mais eficazes. O prazer de ouvir e seguir um podcast bem elaborado, que conte com produtores de conteúdo bem preparados e debata temas do nosso interesse vem crescendo e se consolidando como prática cultural de nossa sociedade. Gamelovers, aficionados por séries, coletivos LGBTs, coletivos de mulheres, entre muitos outros grupos sociais, estão se manifestando a partir da produção de conteúdo sonoro, e o cunho informativo ganha matizes criativos na hora de passar a mensagem. Grandes empresas já perceberam o potencial do podcast e aderiram ao formato com conteúdo de qualidade, fortalecendo ainda mais suas marcas. Com tamanho profissionalismo por trás de suas produções, os referenciais se aprimoram e uma segunda geração de podcasters (produtores de podcast) independentes promete surgir, mais bem embasada. Podcasts como Braincast, Quarentenando e O assunto trazem episódios produzidos durante a quarentena. Em alguns casos, a estética sonora de alta qualidade obtida nas gravações em estúdio foi substituída por uma estética possível, mas sem prejuízo do conteúdo, enquanto outros conseguiram manter as condições de produção. Como já se diz entre os especialistas de plantão, a pandemia de Covid-19, após controlada, dará início a um “novo normal”, isto é, um novo cotidiano, no qual a questão do isolamento social estará presente de tempos em tempos e as práticas do home office e até mesmo do homeschooling não deverão se perder, voltando às condições anteriores. Nesse contexto, um recente estudo da plataforma de streaming Deezer mostra como o consumo de áudio está mudando em tempos de quarentena. A pesquisa revela que essa nova condição de vida aumentou a necessidade de se ouvir mais rádio. Veja alguns resultados desse estudo a seguir: Consumo de rádio e podcast entre 2 e 22 de março de 2020 Local: Itália e França RESULTADOS Crescimento da Plataforma: 19% do consumo deste meio. Podcasts com temas infantis aumentaram em 218%. Podcasts de treinamento esportivo cresceram 194%. Podcasts com a temática meditação cresceram 132%. Diante dessa reconfiguração social que se anuncia num mundo pós-pandemia, fica evidente a aceleração do entrosamento entre os mundos online e offline de maneira cada vez mais amalgamada. No que se refere mais especificamente ao rádio da era digital, o terreno para novas inciativas e empreendimentos é promissor. Há uma demanda reprimida por conteúdo de qualidade e, nesse contexto, estima-se que das instituições de ensino possam surgir os profissionais mais bem preparados que darão conta desse papel na sociedade. Talvez, até o momento, não tenha sido possível conhecer uma geração de podcasters no campo do jornalismo alternativo que marcasse o mercado de comunicação como poderia. Pelo menos não de forma significativa e abrangente. Mas ao que tudo indica, uma geração 2.0 desses produtores se anuncia e poderá aproveitar as novas condições de produção, distribuição e consumo da mensagem sonora que temos em mãos. VERIFICANDO O APRENDIZADO MÓDULO 3 Reconhecer os novos formatos para o rádio NOVAS LINGUAGENS E NOVAS FÓRMULAS No módulo anterior vimos alguns exemplos de como as tecnologias do streaming e do podcasting estão sendo utilizadas no âmbito do rádio informativo, tomando como referência emissoras comerciais e públicas, e podcasts produzidos por empresas e instituições de ensino. Nesse sentido, é importante lembrar que, além dos gêneros e formatos radiofônicos que nos orientam para os usos de uma linguagem apropriada para a criação de programas, outro tipo de classificação se mostra extremamente relevante: são os tipos de emissora ou, ainda, os tipos de rádio. Entenda-se: PÚBLICO Estatal ou educativo, sem fins lucrativos. COMERCIAL Com fins lucrativos. COMUNITÁRIO Atende mais especificamente às demandas de determinada localidade e tem diferentes tiposde financiamento para sua subsistência. RÁDIO LIVRE Outrora classificado como rádio pirata, por atuar sem concessão. Com o advento do rádio na internet, o Rádio Livre pôde migrar de suporte para um terreno ainda sem regulação específica e difundir suas ideias e gostos de alguma maneira. Todas essas classificações e categorizações que envolvem o universo do rádio, a despeito dos nomes utilizados, indicam que há, sem dúvida, uma riqueza de campos a explorar. E a linguagem radiofônica pode se adaptar de diferentes formas em cada um desses campos. EXEMPLO Um podcast jornalístico produzido para uma grande emissora comercial que tenha forte presença tanto no rádio terrestre quanto no rádio via web terá diferentes condições de produção, circulação e consumo que um podcast criado por um ou dois indivíduos não reconhecidos midiaticamente para uma web rádio livre ou comunitária. E nesses diferentes contextos, aspectos estéticos e de usos da fala certamente serão diferentes. Isso significa que há muito mais alternativas a serem exploradas do que aquelas que possam caber em todos os três módulos aqui expostos. Por isso, estar atento às tendências, circunstâncias e contextos é sempre fundamental. Desse modo, ampliando ainda mais o cenário de possibilidades para a linguagem radiofônica na era digital, vamos explorar neste último módulo as web rádios e, atentos às condições de interatividade e interação a elas inerentes, abordaremos também o conceito de rádio social (KISCHINHEVSKY, 2014). WEB RÁDIO, RÁDIO VIA WEB E EMISSORAS ONLINE Utilizamos no nome web rádio (em português) ou webradio (em inglês) para referir-nos ao rádio que existe apenas na internet (PRATA, 2009). As versões para web de emissoras existentes nas frequências do rádio terrestre são o que entendemos como os sites dessas emissoras, muito embora tais sites tenham hoje as mesmas características visuais e de serviços para o usuário disponíveis numa web rádio. Que características são essas e que novos elementos elas trazem para o universo do rádio? A segmentação e um caráter utópico, emocional. Em geral, web rádios estão relacionadas com causas variadas que podem abranger desde a difusão de um gosto musical específico até a difusão de informações que, geralmente, ganham pouco espaço no chamado mainstream. Além de aspectos mais subjetivos, a realização de uma web rádio requer conhecimentos básicos de questões técnicas ligadas à sua preparação, alimentação de conteúdo e difusão. Veremos agora alguns exemplos dessas características: Rádio Viva o samba Dentro de um segmento musical do samba e do choro, serve de exemplo genérico para observarmos tais características. Há uma década no ar, a Viva o samba é a concretização do sonho do bancário Luiz Carlos Correa e sua companheira, a comerciante Aglaise Silva, de criarem a própria rádio e faz jus a uma ideia romântica e utópica sobre o uso das novas tecnologias e modalidades de produção radiofônica da era digital. A web rádio dedica-se a tocar, exclusivamente, os gêneros musicais samba e choro. A Viva o samba, mais do que ser dedicada exclusivamente à veiculação de samba e choro, busca exaltar a figura do sambista e dos chorões, sobretudo daqueles e daquelas que não encontram espaço para mostrar seu trabalho nas rádios comerciais. Em seu texto de apresentação os produtores deixam bem claro o misto de sonho e missão na realização do projeto: O QUE FAZ UMA PESSOA QUE NÃO TEM SONHOS? O SENTIDO DA VIDA ESTÁ EM BUSCAR E REALIZAR A CADA DIA UM PEDACINHO DO SONHO QUE NÓS TEMOS, SEJA O SONHO MAIS SIMPLES OU MESMO AQUELE SONHO IMPOSSÍVEL. SE É QUE EXISTE UM SONHO IMPOSSÍVEL QUANDO SE ACREDITA NELE. O PROJETO DA WEB RÁDIO VIVA O SAMBA SURGIU POR BOAS INFLUÊNCIAS DO MEU INCANSÁVEL, BATALHADOR E GRANDE AMIGO JAIR DO PANDEIRO, MEU PAI. O MEU "VÉI" SEMPRE PERCORREU AS RÁDIOS E OUTRAS MÍDIAS PARA CONSEGUIR UM ESPAÇO PARA MOSTRAR O TRABALHO DO SEU GRUPO "COMPASSO DA VILA". NUNCA DESISTIU DO SEU SONHO, MAS NA MAIORIA DAS VEZES AS PORTAS NÃO SE ABRIRAM. ASSISTINDO A ESSA LUTA DIÁRIA PENSEI EM CRIAR ESTE ESPAÇO LIVRE, ONDE O MEU "VÉI" PUDESSE MOSTRAR O VALOROSO TRABALHO DO SEU GRUPO, SONHEI MAIS, SONHEI PARA TODOS OS ARTISTAS QUE SE DEDICAM A FAZER COM MUITO AMOR E SACRIFÍCIO A SUA ARTE, PARA TODOS RESERVEI UM PEDACINHO DESTE PROJETO. (Trecho extraído da aba “Quem Somos” no site da webradio Viva o Samba.) Jair Corrêa, o Jair do Pandeiro, integrou o grupo Compasso da Vila; entre diversos trabalhos acompanhou o cantor e compositor Martinho da Vila no disco gravado em 1997 "Butiquim do Martinho". Segundo o Dicionário Cravo-Albin de música popular brasileira, o disco alcançou no primeiro mês 40 mil cópias vendidas. Uma das faixas gravadas pelo grupo, a música "Sintonia do amor", ficou por muito tempo nas paradas das rádios AM e FM. Ao longo de sua trajetória, a Viva o samba foi se aperfeiçoando tecnicamente e, atualmente, funciona a partir de uma plataforma de serviços padrão para criação e gerenciamento de web rádios chamada brlogic, que fornece os recursos necessários para que usuários leigos administrem esse tipo de site. São partes essenciais desses recursos: 1 A possibilidade de se transmitir programação ao vivo via streaming. 2 O serviço de auto dj. 3 A inclusão de podcasts. AUTO DJ O serviço de auto Dj é um sistema de transmissão de áudio sob demanda que consiste na própria execução da web rádio de forma automatizada. Para colocar esse sistema em prática é necessário alimentá-lo com arquivos de áudio em .mp3, em geral, para um local remoto que funciona como o “painel do auto Dj”. Feito isso, é a partir dali que a programação da rádio será executada e alterada quantas vezes forem necessárias, inserindo músicas, quadros, programas, notícias etc. (Fonte: Blog Brlogic) Além disso, é possível também encontrar o recurso de produção de aplicativos para que a rádio seja consumida via smartphones e tablets. A imagem a seguir exibe um printscreen da home page da rádio. No topo, ao lado dos símbolos das redes sociais Facebook e Twitter, um texto dinâmico apresenta o nome do programa que está em andamento (no caso é o Buteco Viva o Samba), seguido das informações relativas ao repertório: número da faixa, título da música, intérprete, nome do disco e compositores da música em questão, elementos “parassonoros”, conforme definição já vista de Kischinhevsky (2014) para definir as informações não sonoras que hoje compõem o rádio expandido. Na elipse amarela desenhada sobre a imagem acima, vemos o termo “Adamastor, o locutor”, uma brincadeira dos criadores da rádio para humanizar o sistema de auto Dj. E no cantinho inferior esquerdo, contornado de verde, vemos o número de usuários online. RÁDIO ARQUIBANCADA Outro exemplo é a Rádio Arquibancada, uma web rádio que também se dedica ao universo do samba, mas escolheu o segmento das escolas de samba e do carnaval para se especializar. Além disso, enquanto a Viva o samba se define mais como uma rádio musical, a Rádio Arquibancada prioriza o gênero informativo, com textos e podcasts de cunho mais jornalístico. Em ambos os exemplos, notamos também a presença muito forte dos produtores das web rádios. É importante informar quem está por trás daquela iniciativa: o autor. Por isso, encontramos normalmente nesses sites abas de menu como “quem somos” ou “a rádio”, onde textos escritos de forma mais apaixonada do que aconteceria no caso de um site de uma grande emissora costumam dar a tônica da missão da rádio. A seguir exploraremos a imagem da página de entrada de uma grande emissora. Nesse processo ficarão claras algumas características típicas da web rádio. A principal delas é, sem dúvida, a presença de uma interface apoiada em diversos elementos não sonoros (parassonoros, segundo Kischinhevsky, 2014), que trazem consigo as condições de escuta, navegabilidade e interatividade, necessárias ao consumo (uso) dessa rádio. Agora, veja a estrutura da página: CABEÇALHO / TOPO / MENU SUPERIOR DA PÁGINA Elementos presentes: logotipo, ícones para redes sociais, player ao vivo e menu com acesso às emissoraslocais da rede. Numa observação geral dos exemplos exibidos fica claro que, estruturalmente, eles se assemelham, uma vez que os elementos da interface necessários para o consumo da rádio são os mesmos: a presença de um player, navegação por menus, programas disponibilizados via streaming, podendo realizar-se ou não o download, convergência de mídias (texto, imagem, vídeo e som) e link com os canais de redes sociais das emissoras, onde normalmente acontecem as principais interações com os ouvintes. VÍDEO CENTRAL Inserido a partir do canal da emissora no YouTube, revela a imagem do estúdio naquele momento, onde há um programador de conteúdo humano e não um sistema de auto Dj por trás. Cabe ressaltar que o uso de câmeras em estúdios de rádio comerciais é um recurso pouco ou mal utilizado, em virtude da cultura sonora do meio. ESPECIAIS Área do site dedicada a debates ocorridos durante a quarentena. O áudio desses programas foi transmitido ao vivo pelo dial enquanto a gravação (com imagem) fica disponibilizada no site. NOTÍCIAS E COMENTARISTAS As principais notícias e os boletins dos comentaristas da emissora podem ser destacados com o uso de imagens no site. Clicando nos respectivos links, acessa-se o streaming da matéria ou comentário. No caso dos comentaristas, o site também serve como uma porta de entrada aos respectivos blogs. COLUNA COM BANNERS ELETRÔNICOS, PARA CAMPANHAS E OUTRAS ÁREAS DO SITE Nessa coluna destaca-se o acesso aos podcasts produzidos pela emissora regularmente. Ao clicar na imagem correspondente, o usuário é levado para a página de acesso a cada um deles. RODAPÉ / MENU INFERIOR Abaixo do anúncio, fica a área do site na qual é possível navegar entre as editorias, mais uma vez, acessar as redes sociais da emissora, rever a marca (logotipo) e se cadastrar para receber a newsletter da emissora. VAMOS SABER MAIS SOBRE AS RÁDIOS WEB, OS NOVOS CAMINHOS DO RÁDIO. APERTE O PLAY! INTERATIVIDADE E INTERAÇÃO NO RÁDIO DA ERA DIGITAL As rádios com presença inclusiva ou exclusivamente na internet criaram condições de interatividade e interação que merecem destaque. Vamos em primeiro lugar, definir a distinção entre esses dois termos: De acordo com Quadros e Lopez (2015), o significado do termo interatividade é difuso e não traz uma definição consensual na bibliografia existente sobre o tema (ver também: Primo, 2007). As autoras relatam, porém, que: [...] A MAIOR PARTE DAS REFLEXÕES A RESPEITO DO CONCEITO APONTA PARA UMA ORIGEM NAS CIÊNCIAS SOCIAIS, NA NOÇÃO DE INTERAÇÃO SOCIAL E RECIPROCIDADE. A INTERATIVIDADE SURGIRIA COM O DESENVOLVIMENTO DA COMPUTAÇÃO, QUANDO A INTERAÇÃO UNE-SE À INFORMÁTICA, POR VOLTA DOS ANOS 1960 (FRAGOSO, 2001). CONTUDO, A INTERATIVIDADE É TAMBÉM ATRIBUÍDA AO RÁDIO, QUE DESDE SEUS PRIMÓRDIOS SURGE COMO MÍDIA COM POTENCIAL PARA A COMUNICAÇÃO DE DUPLA-VIA. (...) EM UM CENÁRIO DE CONVERGÊNCIA MIDIÁTICA, PORÉM, EM QUE MÍDIAS TRADICIONAIS SE FUNDEM ÀS DIGITAIS, OS CONCEITOS PARECEM SE MESCLAR. À MEDIDA QUE O RÁDIO SE INSERE E SE APROPRIA DE ELEMENTOS DA COMUNICAÇÃO MEDIDA PELO COMPUTADOR, SUAS PRÓPRIAS CARACTERÍSTICAS SE ALTERAM, MOLDANDO-SE À NOVA REALIDADE. DESTA FORMA, TAMBÉM A INTERATIVIDADE NO MEIO SE MODIFICA, AMPLIANDO ATRAVÉS DAS TECNOLOGIAS DIGITAIS AS FORMAS DE INTERAÇÃO ENTRE OUVINTE E EMISSORA, E PASSANDO A CONSIDERAR OUTROS AMBIENTES ONDE ESTÁ PRESENTE: SEU SITE INSTITUCIONAL, SITES DE REDES SOCIAIS, APLICATIVOS PARA CELULAR, PROGRAMAS DE BATE-PAPO VIRTUAL, ENTRE OUTROS. (QUADROS; LOPES, 2015 p. 165.) Na tentativa de simplificar a questão e complementar o raciocínio iniciado pelas autoras, podemos hoje pensar na interatividade relacionada com a capacidade de interação inerente a algum meio, suporte ou até mesmo objeto. Interatividade é, portanto, uma condição capaz de qualificar algo como sendo ou não interativo. Essa condição, por sua vez, está relacionada às atividades que irão promover a interação, ou seja, atividades que nos levam a interagir com alguma coisa, a qual chamamos de interface. ATENÇÃO É importante perceber que o conceito de interface não diz respeito apenas ao mundo digital, mesmo que nesse mundo ganhe maior protagonismo. O próprio aparelho de rádio antigo, com o qual é necessário interagir apertando os botões de on/off, volume e mudança de dial, trata-se também de uma interface. Por outra parte, podemos entender a interação em si como o ato de interagir com alguma coisa ou alguém. Ao pressionarmos um botão de on/off, girarmos o regulador de volume ou clicarmos num player ou num menu de navegação, estamos promovendo esse ato de interação e comprovando a capacidade de interatividade. Mais que isso, o conceito de interação também se refere ao ato de interagir de forma mais ampla, seja por intermédio da fala, do texto de bate-papo, do clique nas reações de uma rede social ou mesmo no envio de emojis. INTERAGIR COM O OUVINTE ESTÁ NA GÊNESE DO RÁDIO Observando mais detalhadamente o caso da interação radiofônica, as autoras apontam que, desde o começo, o rádio se configurou como uma mídia com potencial para a comunicação de dupla via, ou seja, emissor-ouvinte e ouvinte-emissor. Se lá atrás a interação se dava de forma, digamos, mais restrita, como envio de cartas e, posteriormente, participação via ligação telefônica, o que dizer de hoje, com todas as ferramentas de comunicação que temos à disposição para esse fim? Sobre o ouvinte Quadros e Lopez comentam: [...] O OUVINTE É UMA PRESENÇA CONSTANTE NA PROGRAMAÇÃO RADIOFÔNICA NO BRASIL DESDE O INÍCIO DAS TRANSMISSÕES, NA DÉCADA DE 1920. SEJA POR MEIO DO ENVIO DE CARTAS, DA PARTICIPAÇÃO EM PROGRAMAS DE AUDITÓRIO, DE LIGAÇÕES TELEFÔNICAS, DO CONTATO DIRETO EM VISITAS ÀS EMISSORAS OU MAIS RECENTEMENTE ATRAVÉS DAS PLATAFORMAS E DISPOSITIVOS DE COMUNICAÇÃO MÓVEL E DIGITAL, O RÁDIO AO LONGO DE SUA HISTÓRIA TEM BUSCADO EXPLORAR DIFERENTES FERRAMENTAS COM O INTUITO DE MANTER UM CONTATO DIRETO COM SEUS OUVINTES. (QUADROS; LOPEZ, 2015 p. 168.) O uso que o rádio da era digital faz das redes sociais e dos aplicativos de bate-papo abre espaço para condições de interação que intensificam a comunicação entre os polos emissor-receptor (emissora → ouvinte) e receptor-emissor (ouvinte → emissora) de uma maneira nunca antes imaginada e, mais que isso, promovem a interação entre receptores (ouvinte ↔ ouvinte), que pode ou não contar com a mediação de apresentadores e âncoras, no mais legítimo modelo comunicacional todos-todos. Gradativamente a condição de interatividade passou a ser um elemento central do rádio via internet, em que as formas de interação acontecem de variadas maneiras, dentre essas maneiras podemos destacar: Comentários e avaliações. Reações ao conteúdo veiculado. Utilização das seções do tipo “fale conosco”, com formulários e campos de envio de mensagens. Envio de e-mails e, mais recentemente, por intermédio de aplicativos de mensagens instantâneas como WhatsApp, que, definitivamente, reconfiguraram o processo de produção de conteúdo, incluindo o ouvinte que envia textos, áudios e vídeos que passaram para as emissoras. Hoje, não é mais possível imaginar a apuração de notícias sem a contribuição do ouvinte. NOVAS RÁDIOS E VELHOS COMPROMISSOS Diante de tudo o que foi visto, despertou alguns questionamentos: Quais seriam as aplicações e implicações do rádio da era digital na formação em jornalismo hoje? Devemos considerar que os nativos digitais estão na universidade e o acesso gratuito ou razoavelmente acessível às novas tecnologias estimula a cultura do “faça você mesmo”, alimentada pelas facilidades da portabilidade e da cultura participativa e colaborativa. Paralelamente, a comunicação em rede propicia que as fronteiras entre emissores e receptores sejam cada vez mais porosas. Mas será que todo mundo pode ser produtor de conteúdo? Prescritor de música? Responsável pela produção de notícias? Ao que tudo indica, não. Caso contrário não sofreríamos as consequências sórdidas da proliferação de fake news e da desinformação. O diferencial, portanto, deve estar na qualidade do conteúdo. Este é um verdadeirodesafio para os novos profissionais da comunicação e, pelo que vimos até aqui, o ensino de radiojornalismo deve expandir suas possibilidades, tal qual o rádio o fez. Pois a inovação vai nascer no ambiente de ensino-aprendizagem. VERIFICANDO O APRENDIZADO CONCLUSÃO CONSIDERAÇÕES FINAIS Ao longo dos módulos tivemos a oportunidade de compreender melhor o rádio, num tempo histórico que pode ser classificado como era da convergência midiática ou digital. Nesse contexto, cabe uma noção de rádio expandido que extrapola os suportes tradicionais e se impõe como uma linguagem comunicacional específica que se utiliza da fala, da música, do silêncio e dos efeitos sonoros, segundo estudiosos do tema. O ingresso do rádio no ambiente online e a incorporação das tecnologias de informação e comunicação na relação entre o meio e sua audiência favorecem a disponibilização de múltiplas opções para que o ouvinte possa se manifestar e até mesmo buscar interferir na programação radiofônica, fazendo parte dela nos papéis de receptor e de produtor. PODCAST REFERÊNCIAS BARBOSA FILHO, A. Gêneros radiofônicos: os formatos e os programas em áudio. São Paulo: Edições Paulinas, 2003. BERRY, R. Podcasting: considering the evolution of the medium and its association with the word ‘radio’. The radio journal international studies in broadcast and audio media. 14(1):7-22, April 2016. FERRARETTO, L. A.; KISCHINHEVSKY, M. In: Enciclopédia Intercom de Comunicação. São Paulo: Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, 2010. v. 1. GALLEGO, J. I. Novas formas de prescrição musical. In: HERSCHMANN, M. (Org.). Nas bordas e fora do mainstream – novas tendências da música independente no início do século XXI. São Paulo: Estação das Letras e Cores, 2011. HERSCHMANN, M.; KISCHINHEVSKY, M. A geração podcasting e os novos usos do rádio na sociedade do espetáculo e do entretenimento. In: Famecos. Porto Alegre: PUC-RS, v.15, n. 38, 2008. JENKINS, H. Cultura da convergência. São Paulo: Editora Aleph, 2ª edição, 2013. KISCHINHEVSKY, M. Rádio social: mapeando novas práticas interacionais sonoras. In: XX Encontro da Compós, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 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O rádio e a relação com o ouvinte no cenário de convergência: uma proposta de classificação dos tipos de interatividade. In: Famecos. Porto Alegre: PUC-RS, v.22, n.3, 2015. RABAÇA, C. A.; BARBOSA, G. G. (Orgs.). Dicionário de comunicação. São Paulo: Editora Campus, 2001. EXPLORE+ Algumas questões importantes sobre o rádio foram vistas de forma mais breve neste estudo e podem ser mais bem compreendidas a partir do seguinte material de apoio: · o filme Uma onda no ar, que traz um debate sobre rádio livre e rádio comunitária; · o livro Rádio livres – a reforma agrária no ar, que traz o embasamento necessário para discutir-se a democratização da radiodifusão. Os autores são Arlindo Machado, Caio Magri, Marcelo Masagão. Sobre o potencial do podcasting, sobretudo num mundo pós-pandemia, vale a pena uma lida na matéria “Sem picos: quarentena muda forma de ouvir podcasts e músicas nos serviços de streaming”. É bastante inspirador conhecer o conceito de rádio arte e as produções de pesquisadores brasileiros sobre o tema. Visite o site da Rede Rádio Arte, e explore seu acervo sem pressa. Se você tem interesse em iniciar seu próprio podcast, mas não sabe como, conheça a plataforma e aplicativo Anchor FM. É gratuita, intuitiva e razoavelmente simples de utilizar. Para aprofundar ainda mais as discussões sobre gêneros e formatos radiofônicos, bem como sobre os usos sociais do podcast, leia os seguintes textos de Eduardo Vicente: · “Gêneros e formatos radiofônicos”; · “Do rádio ao podcast: as novas práticas de produção e consumo de áudio”. Dicas de livros: · O novo rádio: cenários da radiodifusão na era digital. Organizado por Antônio Francisco Magnoni e Juliano Maurício de Carvalho. · Políticas públicas de radiodifusão no governo Dilma, de Octávio Penna Pieranti. Conheça mais sobre o Rádio UFRJ. Ele está disponível em site como em plataformas de streaming, com o nome “informação e conhecimento”. Na reportagem “Arquitetura paulista nas décadas de 1960 a 1980”, feita pela Biblioteca Sonora, veja um exemplo de onde ingredientes da linguagem radiofônica estão todos presentes (a voz, a música, o efeito sonoro, o silêncio em pausas enigmáticas), mas a forma como são utilizados difere caso a caso. CONTEUDISTA Lena Benzecry CURRÍCULO LATTES