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HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO AULA 4 Profª Ana Carolina Contin Kosiak 2 CONVERSA INICIAL Nesta etapa, temos como temas principais a educação brasileira no Brasil Republicano, especialmente nos períodos marcados pela chamada República Velha e Era Vargas. Trata-se de um momento histórico de inovação, uma vez que o Brasil, até então colonial e sob a égide da Monarquia, passa a possuir independência política e governamental, o que incide também em uma certa independência no âmbito educacional – mesmo que este seja marcado por influências externas. Trataremos sobre as mudanças no planejamento e na estruturação da Educação brasileira, a partir do forte debate educacional e das correntes pedagógicas que ilustrou o período. Assim, analisaremos a presença do pensamento liberal e da economia nas escolas, assim como a presença marcante dos imigrantes no âmbito educacional. Com a instauração do Estado Novo, o Brasil se insere em um contexto internacional marcado pelas guerras e pela disputa ideológica, o que também reflete na formação da educação brasileira. TEMA 1 – A EDUCAÇÃO NOS PRIMEIROS ANOS REPUBLICANOS Nos primeiros anos do regime republicano o Brasil era essencialmente uma nação agrária. A economia e a sociedade brasileira giravam em torno do trabalho com a terra e de seus produtos, sendo o café o principal. A centralidade desta mercadoria acabou por se expressar até mesmo na política institucional do país, onde após alguns anos de mandato dos militares (que estabeleceram a república) o poder passou para as mãos da elite cafeicultora, em especial a do estado de São Paulo. A vocação agrícola do Brasil era tanta que ficou conhecido na história nacional como “República do Café”, ou também “República do café com leite”. O “leite” nessa denominação seriam os pecuaristas do estado de Minas Gerais, que também tinham grande autoridade nesse novo campo político, embora fosse menor que a contraparte do “café”. A junção do período republicano que o Brasil foi comandado por militares, acrescido do tempo da “República do Café com Leite” ficou conhecido como “República Velha”. O mandato presidencial de Campos Salles em 1898 foi o que inaugurou o período da “República do Café com Leite”. Campos Salles foi governador do estado de São Paulo e era oriundo das famílias tradicionais da cidade e dos antigos barões paulistas do café. Durante seu governo em São Paulo, entre 1896 3 e 1897, se desenvolveram e estruturaram os grupos escolares (Frizzarini; Silva, 2014). Os grupos escolares paulistas eram os modelos do que mais tarde viria a ser intitulado de “ensino tradicional”. Seus pilares eram: simplicidade, análise e progressividade; formalismo; memorização; emulação; intuição (Saviani, 2013). Este último era derivado da ideia pedagógica do método intuitivo. Para além de São Paulo, os Grupos Escolares, aos moldes paulistas, se disseminaram por outros estados brasileiros como Mato Grosso, Paraná, Paraíba, Santa Catarina, Maranhão e Bahia. Os fundamentos dos grupos escolares de São Paulo passaram a pautar também as propostas de ensino do Governo Federal em relação à educação. Estes fundamentos eram baseados essencialmente em concepções positivistas. Esta corrente de pensamento tinha como principal lema a defesa da ordem e a crença de que o desenvolvimento da ciência levaria a um progresso social. No que diz respeito à educação brasileira, os adeptos do positivismo defendiam que somente a instrução com bases científicas poderia levar o Brasil a ser um país desenvolvido. Eles alegavam que um sistema nacional de ensino seria um requisito para a transformação da nação brasileira, que até então era formada por indivíduos pobres e analfabetos (na visão desses homens, os responsáveis pelo atraso do país), em cidadãos letrados, conhecedores do dever público e das noções técnicas necessárias para garantir que o Brasil se tornasse próspero e civilizado. Estas ideias inspiraram a criação de um movimento cuja principal pauta era a difusão da educação pelo território nacional. Os preceitos positivistas andavam ao lado das concepções liberais de educação, também elas entusiastas do acesso universal (ou seja, de todas as crianças e adultos, independente de classe social) à educação em território nacional, do qual o principal responsável seria o Estado. Em 1924 foi criado por Heitor Lyra (engenheiro, que se tornou um grande estudioso e entusiasta da educação brasileira) a Associação Brasileira de Educação, a qual realizou a primeira Conferência Nacional de Educação em 1927, que passou a ser um evento anual. As discussões sobre o ensino dentro da Associação e da Conferência giravam em torno quase exclusivamente em concepções positivistas e liberais, praticamente inexistindo espaço para correntes dissidentes dentro desses espaços. Um impacto prático muito relevante dessas correntes de pensamento no campo educacional brasileiro está relacionado ao ensino religioso. 4 A primeira Constituição brasileira, de 1824, instaurada ainda no Império, estabelecia que o Brasil era um país oficialmente católico. Estando de acordo com esta instituição, portanto, as escolas que se estabeleceram após esse período (mesmo quando não estavam diretamente relacionadas a entidades católicas) professavam o catolicismo e o inseriram em seus ensinamentos. No final do Império, o estabelecimento do catolicismo como religião oficial passou por uma séria crise que ficou conhecida como “questão religiosa”. Este conflito acabou por resultar na separação oficial entre Estado e Igreja, a qual por sua vez determinou o fim do ensino religioso católico obrigatório nas escolas do Brasil. Após o final oficial do ensino religioso católico prevaleceu uma concepção laica de ensino nas instituições brasileiras (ou seja, que não pautava lições religiosas nas escolas), pelo menos formalmente. Esta concepção laica estava diretamente ligada às defesas positivistas de uma educação formada em bases científicas. Houve vários protestos por parte de membros da Igreja católica que reivindicavam a volta imediata dos currículos confessionais nas escolas nos mais diferentes meios, como congressos, livros, revistas e outras formas de pressão política que acirraram o debate educacional por toda República Velha. TEMA 2 – CONCEPÇÕES DE EDUCAÇÃO NA REPÚBLICA VELHA Nesses primeiros anos de República também se destacaram no cenário nacional da educação as escolas fundadas e frequentadas por imigrantes, sobretudo europeus. Com a abolição do tráfico e, mais tarde, do trabalho escravo em 1888 e os primeiros passos do processo de industrialização do Brasil passou- se a defender a importação de mão de obra para esse novo campo do trabalho em terras brasileiras. Ocorreu então um intenso processo de chamamento e contratação de estrangeiros para ocupar as vagas que se difundiam tanto no campo quanto nas cidades brasileiras. Dessa maneira, os primeiros anos da República foram marcados pela massiva imigração de portugueses, italianos, sírios, alemães, poloneses, japoneses, judeus, espanhóis, franceses, ucranianos, eslavos, entre outras nacionalidades e grupos étnicos. A grande maioria desses imigrantes eram pessoas em situação de pobreza em suas terras e viam no Brasil a oportunidade de construir uma vida melhor. Com eles traziam as suas bagagens culturais repletas de costumes, hábitos e ideários, inclusive sobre educação. As ideias educacionais dos imigrantes e as escolas que 5 fundaram podem ser divididas em dois diferentes grupos (que não necessariamente são excludentes entre si). O primeiro grupo se baseia nas concepções libertárias de educação. Ainda no final do século XIX começou a surgir, juntamente com a chegada dos imigrantes no Brasil, um incipiente movimento socialista que no campo educacional defendia a educação pública,gratuita e popular e criticou a incapacidade do Estado em oferecer esse ensino a todos. Também defendiam a criação de escolas e bibliotecas operárias. No começo do século XX, em especial nos anos da “República do Café”, o principal movimento político libertário era o anarquista. O movimento anarquista brasileiro era composto em grande parte por imigrantes europeus, sobretudo os italianos e em menor medida os espanhóis. Os anarquistas criticavam o uso do ensino como forma de doutrinação da população mais pobre por parte da Igreja e das elites e defendiam concepções de ensino oriundas de pensadores revolucionários europeus como “educação integral” e “ensino racionalista”. Para tanto, buscavam colocar em prática tais concepções com centros de estudo e escolas como a Escola Libertária Germinal (1904), a Escola Social da Liga operária (1911) e as Escolas Modernas (1909). Os ideais anarquistas que estas concepções reuniam eram de uma educação voltada para uma verdadeira ilustração da população mais pobre sem a atrelar a deveres perante o Estado, a religião e os interesses da classe dominante. O ensino libertário pautava essencialmente o respeito ao sujeito educando e a criação da possibilidade que este, em conjunto com seus semelhantes, pudessem transformar radicalmente a sociedade em que viviam. Com o arrefecimento do movimento anarquista por volta do final da década de 1920, o movimento comunista, em especial o partido que desse movimento se formava, o Partido Comunista do Brasil (PCB), passou a liderar as reivindicações por uma educação libertária, e teve em grande parte das fileiras que engrossavam sua composição imigrantes europeus que advinham de regiões onde os movimentos comunistas já eram expressivos. Além das escolas com vocação revolucionária, os vastos e diversos grupos de imigrantes que desembarcaram no Brasil criaram também instituições de ensino aos moldes mais “tradicionais”. As escolas de imigrantes se diferenciavam das demais por ter um ensino que além das lições “comuns” de letramento e cálculo, ofereciam também a aprendizagem das línguas, da história e da cultura dos grupos de origem. Existiram desde pequenas escolas 6 estabelecidas em colônias até grandes institutos que acabaram por serem reconhecidos por comunidades externas pela sua excelência de ensino. Pode se citar alguns exemplos de espaços educacionais que tiveram essa origem e que existem até hoje (ainda que com um currículo de caráter menos étnico), como o colégio Dante Alighieri, fundando em São Paulo em 1911 por imigrantes italianos, o Colégio Humboldt, idealizado nessa mesma cidade por imigrantes alemães em 1916, e a Escola Americana (atual Colégio e Universidade Mackenzie), um dos mais antigos de São Paulo, fundado em 1870 por um casal de imigrantes estadunidenses presbiterianos. Ao mesmo tempo em que proliferaram escolas de imigrantes, iniciativas de educação privada e grupos escolares estaduais, ainda faltava no Brasil um grande projeto educacional nacional e um sistema de ensino que abrangesse a totalidade dos estados. O início de tal sistema só veio a ocorrer na década de 30 do século XX. TEMA 3 – EDUCAÇÃO NO INÍCIO DA “ERA VARGAS” O ano de 1929 ficou marcado mundialmente pela quebra da Bolsa de Nova York. No Brasil isso refletiu na queda da exportação de café e em uma profunda crise da economia brasileira que, como já foi abordado, era extremamente dependente desse produto. As mudanças no cenário econômico impactaram drasticamente no campo político. O poder que estava até então nas mãos da elite agropecuária do Sudeste, com a sua derrocada desencadeada pela crise, passou para um grupo político alheio a esse meio, liderado por Getúlio Vargas. Vargas, oriundo do Rio Grande do Sul, assumiu o posto de chefe de Estado pela primeira vez em 1930 em um movimento que intitulou de “revolução”. A “Revolução de 30” tinha como defesa principal a modernização do território brasileiro, tendo como ferramenta fundamental a intensificação da industrialização do país. Para concretizar tal cenário seria necessária mão de obra minimamente qualificada e letrada, criando a demanda por um sistema educacional mais acessível às massas. Uma das primeiras medidas do governo Vargas foi a criação do Ministério da Educação e da Saúde Pública. Esta pasta tinha como dirigente Francisco Campos, um grande entusiasta do Movimento “Escola Nova”. A “Escola Nova” surgiu ainda nos anos 1920 para fazer frente à demanda de uma pedagogia que se adequasse à realidade inédita que florescia nos grandes centros urbanos. 7 Nestes locais surgia uma sociedade mais dinâmica com uma recém-formada “classe média”, que cada vez mais se avolumava nesse espaço mais citadino. De certa forma, a “Escola Nova” foi elaborada para atender esse público dos trabalhadores urbanos (que não viviam na miséria, mas que ao mesmo tempo não tinham condições de pagar por escolas particulares) e evitar que eles se radicalizassem ao frequentar escolas libertárias. Os ideais da Escola Nova foram os pilares do Ministério da Educação nesse período. Entre os mais importantes princípios dessa concepção estavam o deslocamento do foco do pensamento pedagógico, retirando-o do professor (e o que este considerava adequado ensinar) para os alunos e suas necessidades. Também tinha como temática central a defesa da igualdade de oportunidades. Ressaltavam estes pensadores que o ensino devia ser construído de modo que cada um pudesse educar-se até o limite de suas aptidões naturais, sem barreiras econômicas ou sociais. Também destacavam a função essencialmente pública da educação (e não mais prioridade da família ou Igreja), a necessidade de uma escola única para todos entre 7 e 15 anos, a laicidade do ensino, sua gratuidade, a possibilidade de coeducação de meninos e meninas, e o requisito de professores com formação superior e salários iguais, independentemente do nível de ensino (Saviani, 2013). Quando foi institucionalizada pelo governo federal a corrente da Escola Nova não era homogênea. Mas em comum entre as medidas adotadas e suas inspirações pedagógicas existia o sentimento da necessidade da modernização da educação. Nesse sentido foram estabelecidos os regulamentos para a instauração do Conselho Nacional da Educação, realizada a criação do ensino secundário, a regulamentação do ensino comercial e a instauração do ensino superior e do regime universitário. Uma questão mais controversa e que gerou diversas rusgas dentro do movimento foi o restabelecimento do ensino religioso católico nas escolas. Esta concessão, feita em 1931, pode ser interpretada como uma maneira de angariar apoio para o governo em um setor que há tempos reclamava do Estado e de suas decisões a respeito da educação. Mesmo que na teoria o restabelecimento do ensino religioso confessional nas escolas públicas fosse contraditório com o preceito de laicidade escolanovista, na prática esse movimento lidava com diversas demandas e acabava por ceder em alguns dos seus princípios em nome das alianças. Além disso, esse tipo de situação acabava por revelar a grande diversidade de atores desse movimento, que nem 8 sempre estavam de acordo sobre os mesmos pontos. A heterogeneidade é exposta, por exemplo, se analisada a trajetória dos três principais nomes do movimento – Lourenço Filho, bem relacionado com a oligarquia paulista, Fernando de Azevedo, que teve importantes cargos no regime varguista, e Anísio Teixeira, crítico do autoritarismo Lourenço Filho foi o precursor do movimento Escola Nova. Sua grande inovação foi elaborar metodologias e princípios pedagógicos a partir da psicologia. Fernando Azevedo, seu contemporâneo e companheiro do movimento, se tornou um dos principais divulgadores da Escola Nova. Os preceitos de que foi defensor eram de que a escola deveria proporcionar mais liberdadeàs crianças, oferecendo a possibilidade delas mesmas pautarem atividades de forma espontânea. Defendia também o conceito de escola ativa, baseado nos pressupostos do campo da psicologia de que a criança é um ser especialmente moldado pelo exercício. Igualmente defendia o respeito a singularidade de cada criança e seu tempo de aprendizagem. Apesar desse respeito à individualidade do educando, a Escola Nova (de acordo com a visão de Azevedo) devia se organizar como uma comunidade baseada na solidariedade e cooperação, onde o indivíduo deveria abrir mão de parte de suas necessidades para se adequar ao social. Dessa maneira, as crianças eram ao mesmo tempo colocadas como protagonistas de sua educação, mas também cooperadoras do meio educacional. Anísio Teixeira, outro expoente do movimento, acreditava na educação como plano central para a reforma da sociedade brasileira e para a construção de uma nação mais justa. A superação da desigualdade passaria, de acordo com suas crenças, por um projeto pleno de ensino primário e secundário, sendo a educação, portanto, um direito de todas as pessoas, lema esse que permeou toda a sua atuação, tanto prática como teórica. Os princípios fundamentais da Escola Nova, compartilhada pela grande maioria de seus defensores, e que constavam como a base do Manifesto Escola Nova (1932) eram: fim do formalismo e da autoridade absoluta do professor como o sujeito principal da educação, a consequente maior autonomia do aluno perante seu processo educacional, no qual o professor entraria como um orientador; centralidade da atividade, da compreensão do processo por parte do educando e não só do resultado, repudiando o sistema de punições e premiações com base somente neste quesito; criação de um ambiente que 9 proporcionasse a iniciativa dos alunos em relação à proposição das atividades, em contraposição a obediência e a disciplina como fins em si mesmas. Em resumo, a Escola Nova propunha mudanças radicais em relação ao regime tradicional de ensino, deslocando o centro do saber educacional do cientificismo para os estudos sobre psicologia e as emoções (Hilfsdorf, 2005). Entre os principais teóricos estrangeiros que inspiraram os estudiosos brasileiros da Escola Nova estão Ovide Decroly (1871—1932), Edouard Claparéde (1873- 1940), Adolphe Ferriére (1879-1960) e Maria Montessori (1870-1950). Decroly seria um dos principais pensadores a respeito da espontaneidade do aprendizado infantil em ambientes propícios (Carvalho, 2020). Claparéde, por sua vez, foi um pioneiro no campo da psicologia infantil e defendia que a educação ofertada aos pequenos levasse em conta os estágios de desenvolvimento da criança e seus processos mentais (Nassif; Campos, 2005). Maria Montessori é ainda hoje um nome bastante expressivo no campo educacional, reconhecida pelo seu método de ensino baseado na atividade desenvolvida pela própria criança como centro e nos estímulos físicos propiciados pelos materiais didáticos (Paschoal; Machado, 2019). Já Adolphe Ferriére, entre todos mencionados anteriormente, pode ser considerado o que mais se destacava como inspiração para a Escola Nova brasileira. Ele mesmo foi um dos fundadores da Escola Nova em âmbito internacional e um dos seus maiores entusiastas. Em 1921 os escolanovistas europeus, tendo como o organizador principal o próprio Ferriére, organizaram a Liga Internacional para a Educação Nova. Esta liga procurava reunir ao redor do mundo pedagogos e estudiosos interessados no rompimento do tradicionalismo do ensino escolar. Para tanto, organizaram congressos internacionais, estabeleceram sedes em diferentes regiões dos continentes, fundaram periódicos e meios de comunicação para difundir seus ideais e chegaram até mesmo a criar um Centro de Experimentações de Métodos Educativos (Chagas de Carvalho, 2021). Um dos fundamentos da Escola Nova, tanto em terras estrangeiras quanto brasileiras, era de que a ignorância da população não era culpa da própria, e nem que a consequente situação de pobreza e pouco desenvolvimento social em que ela se encontrava fosse de sua responsabilidade, mas sim que a marginalização das massas e as poucas oportunidades que eram oferecidas a essa camada eram o verdadeiro centro do atraso e da baixa qualidade de vida que levavam. 10 TEMA 4 – EDUCAÇÃO NO ESTADO NOVO Como já mencionado, as diversas maneiras que estas concepções foram incorporadas pelo Estado Brasileiro não foram livres de contradições e pressões dos mais diversos atores sociais que influíam na política nacional. Foi sob o período ditatorial da Era Vargas, conhecido como “Estado Novo”, que durou de 1937 a 1945, que se instauraram profundas reformas no campo educacional, sobretudo no que diz respeito ao ensino secundário e ao superior (que na República Velha haviam ficado sob tutela estadual, sem nenhuma grande coordenação nacional). Com o Estado Novo houve, tal qual em outras áreas, maior centralização das políticas educacionais, sob comando das reformas do ministro Gustavo Capanema. É somente então que o ensino secundário (após um primário de quatro anos) observa uma expansão relevante, principalmente na modalidade profissionalizante, com as matrículas quase dobrando entre 1937 e 1945. O que hoje entendemos por Anos Finais do Ensino Fundamental e Ensino Médio, na época era intitulado de Ensino Secundário. Após quatro anos do Ensino Primário, se desse prosseguimento aos estudos, o aluno passaria ao Ensino Secundário. O primeiro ciclo seria comum a todos, chamado de Ginasial (mais semelhante ao que hoje se intitula Fundamental II ou Anos Finais do Ensino Fundamental). Após este, se seguia o colegial (mais semelhante ao atual Ensino Médio). O colegial se dividia nos setores profissionais (que ofertava as “carreiras” industrial, comercial e agrícola) e o acadêmico (cujo objetivo era preparar para o ensino universitário), que por sua vez era repartido entre o Curso Científico, e Curso Clássico. Além dessas possibilidades também existia o curso Normal, voltado a formação de professores para o primário - ou melhor dizendo, professoras, pois, nesta época, a docência para crianças já estava bem estabelecida como uma profissão feminina (Almeida, 1996). A concepção educacional que pautou as reformas de Francisco Campos e Gustavo Capanema durante o Estado Novo teve um tom mais conservador do que propriamente “novo”, como os seus antecessores nos cargos de chefia do Ministério da Educação. O principal anseio desse período varguista em relação à educação seria o de manter a ordem (nesse sentido se compreende as concessões feitas à Igreja Católica) e também de incutir nos pequenos brasileiros uma identidade nacional. 11 Um dos grandes movimentos “em prol” desse nacionalismo no campo educacional foi a proibição das escolas de imigrantes, que tiveram que ser extintas ou reformuladas a tal ponto de não poderem mais ensinar línguas e costumes estrangeiros, e nem mais terem em seus nomes uma nacionalidade estrangeira, como por exemplo, “Escola Alemã”. É importante ressaltar que foi durante o Estado Novo que o Brasil entrou na Segunda Guerra Mundial contra o Eixo, liga formada por Alemanha, Itália e Japão, países que eram a nação de origem de muitos imigrantes brasileiros. Ou seja, essa proibição visava também coibir as expressões culturais dos países inimigos em terras brasileiras e estimular uma brasilidade nos filhos e netos desses imigrantes. Outra grande medida do período autoritário de Vargas, além da nova estruturação do ensino secundário e a proibição das escolas estrangeiras, foi a adoção do sistema terciário de educação por meio do modelo de Universidade. O sistema de ensino superior criado na gestão de Capanema foi constituído principalmente a partir da federalização de faculdades estaduais já existentes, e sua reunião na forma de universidade.Se defendia então que cada estado da federação tinha direito a pelo menos uma universidade federal (Bortolanza, 2017). Uma das universidades que não passou pelo processo de federalização, mas que mesmo assim se tornou uma das principais instituições superiores do Brasil, se não a principal, foi a Universidade de São Paulo. Construída e até hoje mantida como uma universidade de tutela do estado de São Paulo, a USP foi inaugurada em 1934. Apesar de não ter passado para o âmbito federal, o processo de constituição da USP foi muito semelhante às demais universidades, surgindo a partir da união das Faculdades de Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL), da Escola Politécnica de São Paulo, da Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz", da Faculdade de Medicina, da Faculdade de Direito e da Faculdade de Farmácia e Odontologia. O objetivo era de criar um centro de referência para a intelectualidade nacional e de certa forma “restaurar” (mesmo que “somente” no campo dos saberes) o prestígio e o poder paulista que, na percepção de muitos, havia e perdido com a crise de 1929 e a ascensão de Vargas ao poder (Campos, 2004). 12 TEMA 5 – GOVERNO DUTRA E O SEGUNDO MANDATO DE VARGAS Com o final da Segunda Guerra e a vitória do Brasil perante o fascismo europeu, o clima político no Brasil passou a ser menos favorável a uma ditadura em terras nacionais. Igualmente passou a pesar a nova estabilidade social e econômica que começava a surgir. Foi nesse sentido que após uma transição de alguns meses o sistema democrático foi restabelecido. Com ele surgiram também algumas mudanças no campo educacional. Eurico Gaspar Dutra subiu ao poder em 31 de janeiro de 1946. As principais medidas do seu ministério da educação foram: a criação da exigência de concurso para a profissão de docente; o caráter complementar do sistema nacional (em que municípios, estados e a federação trabalham de forma colaborativa); a vinculação orçamentária das despesas educacionais no quadro financeiro do Estado; a criação de assistência escolar para alunos com dificuldades; a criação de institutos de pesquisas como parceiros das universidades; e por fim, um dos mais relevantes: a competência federal em relação às bases e diretrizes da educação nacional (Hilsdorf, 2005). Para construir esse corpo legislativo, o ministro da educação do governo Dutra instaurou uma comissão cujo objetivo era desenvolver preliminarmente a Lei de Diretrizes e Bases (LDB), que só seria definitivamente promulgada em 1961. A maior transformação proposta pela versão final da LDB em relação ao Estado Novo dizia respeito à descentralização do sistema de ensino. Tendo em vista o princípio de colaboração entre as esferas governamentais do executivo, as novas diretrizes estabeleceram que o ensino primário e secundário ficaria a cargo de municípios e estados, respectivamente, sendo o papel do governo federal nesses âmbitos, complementar. Ao governo federal caberia ser o principal responsável apenas pelo ensino superior. Este novo mecanismo de funcionamento do sistema educacional brasileiro não ficou a salvo de duras críticas, especialmente de remanescentes do governo ditatorial, como o antigo ministro Gustavo Capanema, que travou a aprovação do projeto por anos no plenário. Se durante o Estado Novo houve um certo equilíbrio entre os tradicionalistas da Igreja Católica e os defensores da Escola Nova, com o seu fim, estes últimos passaram a se sobressair, ocupando diversos cargos na burocracia pública e na comissão de elaboração da Lei de Diretrizes e Bases da 13 educação. Esta valorização da Educação Nova também acabou por reforçar uma reformulação do ensino católico que passou a adotar uma perspectiva mais humanista, sem perder totalmente seu caráter confessional (Saviani, 2013). As transformações operadas desde 1930, com a primeira subida de Getúlio ao poder mudaram definitivamente o cenário educacional brasileiro. A maior mudança, sem dúvidas, foi a criação de um efetivo sistema nacional de educação, com diversos órgãos de estruturação, legislações e orçamento que o amparasse. O início da universalização da educação básica e a existência de um verdadeiro quadro de ensino superior só foram possíveis devido às reformas varguistas. As modificações nas percepções pedagógicas que orientaram esse novo sistema de ensino também foram muito relevantes, todavia, em nenhum momento houve um rompimento total com os fundamentos e práticas da educação tradicional da República Velha. Isto se deveu tanto a acordos e concessões feitos com e para os setores mais conservadores da sociedade, quanto às diferentes ideias que conviveram (e muitas vezes conflitaram) dentro do próprio movimento da Escola Nova. Já nos anos 1950, Getúlio Vargas retornaria à presidência do Brasil, dessa vez eleito. Nesse período, e ainda mais nos governos de seus sucessores, iniciaram-se deslocamentos importantes. Orientações pedagógicas mais humanistas, como a Escola Nova, sem desaparecerem ou criarem inovações, gradativamente perdem poder de influenciar as políticas públicas, que começam a se guiar por concepções mais tecnicistas, que dialogavam com os rumos que o Estado Brasileiro tomaria nos anos que se seguiram. NA PRÁTICA A ficção também é capaz de fazer com que os conteúdos teóricos possam ser analisados, especialmente com a possibilidade de problematizar e desconstruir a criação artística. Por isso, recomendamos o filme “Getúlio” (2014), dirigido por João Jardim e roteirizado por George Moura, da Globo Filmes. O filme é um drama biográfico que percorre a intimidade de Getúlio Vargas em seus últimos dias de vida. Isolado no Palácio do Catete (RJ), Getúlio começa a refletir sobre as pressões políticas que vinha sofrendo, especialmente por ser acusado de ser o mandatário do assassinato do jornalista Carlos Lacerda. Além disso, é interessante perceber que, quando adentramos nas particularidades do pensamento do político, conseguimos analisar algumas motivações para que 14 fatos marcantes de seu governo tenham acontecido, compreendendo as questões subjetivas por trás das “grandes decisões”. O roteiro também é acertado no que diz respeito à interpretação e à relação entre passado e presente: a trama é conduzida de modo que seja possível ver semelhanças, especialmente nas negociações políticas, com quase todos os momentos históricos do Brasil, chamando a atenção do espectador para problemas que parecem ser crônicos e incuráveis na política brasileira. FINALIZANDO O período inicial do Brasil Republicano é essencial para prestarmos atenção à ideia de educação brasileira que começa a surgir nesse período. Mesmo com as influências estrangeiras, e com a formação do Brasil a partir da imigração, e de uma necessidade de adequação à sua própria realidade. Além disso, compreendemos os debates trazidos pela Pedagogia da época, com a criação e a aplicação de teorias (como a tradicional e o escolanovismo), que serão de extrema relevância para estudarmos sobre os momentos históricos e governamentais posteriores à década de 1930. 15 REFERÊNCIAS ALMEIDA, J. S. de. Mulheres na escola: algumas reflexões sobre o magistério feminino. Cadernos de Pesquisa, n. 96, pp. 71-78, 1996. BORTOLANZA, J. Trajetória do ensino superior brasileiro – uma busca da origem até a atualidade. XVII Colóquio Internacional de Gestão Universitária, 2017. CAMPOS, E. de S. História da Universidade de São Paulo. São Paulo: Edusp, 2004. CARVALHO, L. M. B. V. de. O que dizem os jornais sobre a educação da infância: um levantamento sobre a circulação das ideias de Ovide Decroly em periódicos brasileiros 1914-1935. XVII Encontro Regional de História da ANPUH-PR. 2020. CHAGAS DE CARVALHO, M. M. A Liga Internacional pela Educação Nova e o “movimento de reconstrução educacional” brasileiro. Sarmiento,n. 25, pp. 163-184, 2021. FRIZZARINI, C. R. B.; SILVA, M. C. L. da. Grupos Escolares Paulistas (189-1971): as transformações dos saberes geométricos nos programas de ensino primário. XI Seminário Temático A Constituição dos Saberes Elementares Matemáticos: A Aritmética, a Geometria e o Desenho no curso primário em perspectiva histórico-comparativa, 1890-1970. 2014. HILSDORF, M. L. S. História da educação brasileira: leituras. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2005. NASSIF, L. E.; CAMPOS, R. H. de F. Édouard Claparède (1873-1940): interesse, afetividade e inteligência na concepção da psicologia funcional. Memorandum: Memória e História em Psicologia, n. 9, 91–104, 2005. PASCHOAL, J. D.; MACHADO, M. C. G. A pedagogia de Maria Montessori para a educação na infância. Quaestio, v. 21, n. 1, p. 203-220, 2019. SAVIANI, D. História das ideias pedagógicas no Brasil. Campinas: Autores Associados, 2013.