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HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO 
AULA 4 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Profª Ana Carolina Contin Kosiak 
 
 
2 
CONVERSA INICIAL 
Nesta etapa, temos como temas principais a educação brasileira no Brasil 
Republicano, especialmente nos períodos marcados pela chamada República 
Velha e Era Vargas. Trata-se de um momento histórico de inovação, uma vez 
que o Brasil, até então colonial e sob a égide da Monarquia, passa a possuir 
independência política e governamental, o que incide também em uma certa 
independência no âmbito educacional – mesmo que este seja marcado por 
influências externas. Trataremos sobre as mudanças no planejamento e na 
estruturação da Educação brasileira, a partir do forte debate educacional e das 
correntes pedagógicas que ilustrou o período. Assim, analisaremos a presença 
do pensamento liberal e da economia nas escolas, assim como a presença 
marcante dos imigrantes no âmbito educacional. Com a instauração do Estado 
Novo, o Brasil se insere em um contexto internacional marcado pelas guerras e 
pela disputa ideológica, o que também reflete na formação da educação 
brasileira. 
TEMA 1 – A EDUCAÇÃO NOS PRIMEIROS ANOS REPUBLICANOS 
Nos primeiros anos do regime republicano o Brasil era essencialmente 
uma nação agrária. A economia e a sociedade brasileira giravam em torno do 
trabalho com a terra e de seus produtos, sendo o café o principal. A centralidade 
desta mercadoria acabou por se expressar até mesmo na política institucional 
do país, onde após alguns anos de mandato dos militares (que estabeleceram a 
república) o poder passou para as mãos da elite cafeicultora, em especial a do 
estado de São Paulo. A vocação agrícola do Brasil era tanta que ficou conhecido 
na história nacional como “República do Café”, ou também “República do café 
com leite”. O “leite” nessa denominação seriam os pecuaristas do estado de 
Minas Gerais, que também tinham grande autoridade nesse novo campo político, 
embora fosse menor que a contraparte do “café”. A junção do período 
republicano que o Brasil foi comandado por militares, acrescido do tempo da 
“República do Café com Leite” ficou conhecido como “República Velha”. 
O mandato presidencial de Campos Salles em 1898 foi o que inaugurou 
o período da “República do Café com Leite”. Campos Salles foi governador do 
estado de São Paulo e era oriundo das famílias tradicionais da cidade e dos 
antigos barões paulistas do café. Durante seu governo em São Paulo, entre 1896 
 
 
3 
e 1897, se desenvolveram e estruturaram os grupos escolares (Frizzarini; Silva, 
2014). Os grupos escolares paulistas eram os modelos do que mais tarde viria a 
ser intitulado de “ensino tradicional”. Seus pilares eram: simplicidade, análise e 
progressividade; formalismo; memorização; emulação; intuição (Saviani, 2013). 
Este último era derivado da ideia pedagógica do método intuitivo. Para além de 
São Paulo, os Grupos Escolares, aos moldes paulistas, se disseminaram por 
outros estados brasileiros como Mato Grosso, Paraná, Paraíba, Santa Catarina, 
Maranhão e Bahia. 
Os fundamentos dos grupos escolares de São Paulo passaram a pautar 
também as propostas de ensino do Governo Federal em relação à educação. 
Estes fundamentos eram baseados essencialmente em concepções positivistas. 
Esta corrente de pensamento tinha como principal lema a defesa da ordem e a 
crença de que o desenvolvimento da ciência levaria a um progresso social. No 
que diz respeito à educação brasileira, os adeptos do positivismo defendiam que 
somente a instrução com bases científicas poderia levar o Brasil a ser um país 
desenvolvido. Eles alegavam que um sistema nacional de ensino seria um 
requisito para a transformação da nação brasileira, que até então era formada 
por indivíduos pobres e analfabetos (na visão desses homens, os responsáveis 
pelo atraso do país), em cidadãos letrados, conhecedores do dever público e das 
noções técnicas necessárias para garantir que o Brasil se tornasse próspero e 
civilizado. Estas ideias inspiraram a criação de um movimento cuja principal 
pauta era a difusão da educação pelo território nacional. 
Os preceitos positivistas andavam ao lado das concepções liberais de 
educação, também elas entusiastas do acesso universal (ou seja, de todas as 
crianças e adultos, independente de classe social) à educação em território 
nacional, do qual o principal responsável seria o Estado. Em 1924 foi criado por 
Heitor Lyra (engenheiro, que se tornou um grande estudioso e entusiasta da 
educação brasileira) a Associação Brasileira de Educação, a qual realizou a 
primeira Conferência Nacional de Educação em 1927, que passou a ser um 
evento anual. As discussões sobre o ensino dentro da Associação e da 
Conferência giravam em torno quase exclusivamente em concepções 
positivistas e liberais, praticamente inexistindo espaço para correntes 
dissidentes dentro desses espaços. Um impacto prático muito relevante dessas 
correntes de pensamento no campo educacional brasileiro está relacionado ao 
ensino religioso. 
 
 
4 
A primeira Constituição brasileira, de 1824, instaurada ainda no Império, 
estabelecia que o Brasil era um país oficialmente católico. Estando de acordo 
com esta instituição, portanto, as escolas que se estabeleceram após esse 
período (mesmo quando não estavam diretamente relacionadas a entidades 
católicas) professavam o catolicismo e o inseriram em seus ensinamentos. No 
final do Império, o estabelecimento do catolicismo como religião oficial passou 
por uma séria crise que ficou conhecida como “questão religiosa”. Este conflito 
acabou por resultar na separação oficial entre Estado e Igreja, a qual por sua 
vez determinou o fim do ensino religioso católico obrigatório nas escolas 
do Brasil. 
Após o final oficial do ensino religioso católico prevaleceu uma concepção 
laica de ensino nas instituições brasileiras (ou seja, que não pautava lições 
religiosas nas escolas), pelo menos formalmente. Esta concepção laica estava 
diretamente ligada às defesas positivistas de uma educação formada em bases 
científicas. Houve vários protestos por parte de membros da Igreja católica que 
reivindicavam a volta imediata dos currículos confessionais nas escolas nos mais 
diferentes meios, como congressos, livros, revistas e outras formas de pressão 
política que acirraram o debate educacional por toda República Velha. 
TEMA 2 – CONCEPÇÕES DE EDUCAÇÃO NA REPÚBLICA VELHA 
Nesses primeiros anos de República também se destacaram no cenário 
nacional da educação as escolas fundadas e frequentadas por imigrantes, 
sobretudo europeus. Com a abolição do tráfico e, mais tarde, do trabalho escravo 
em 1888 e os primeiros passos do processo de industrialização do Brasil passou-
se a defender a importação de mão de obra para esse novo campo do trabalho 
em terras brasileiras. Ocorreu então um intenso processo de chamamento e 
contratação de estrangeiros para ocupar as vagas que se difundiam tanto no 
campo quanto nas cidades brasileiras. Dessa maneira, os primeiros anos da 
República foram marcados pela massiva imigração de portugueses, italianos, 
sírios, alemães, poloneses, japoneses, judeus, espanhóis, franceses, 
ucranianos, eslavos, entre outras nacionalidades e grupos étnicos. A grande 
maioria desses imigrantes eram pessoas em situação de pobreza em suas terras 
e viam no Brasil a oportunidade de construir uma vida melhor. Com eles traziam 
as suas bagagens culturais repletas de costumes, hábitos e ideários, inclusive 
sobre educação. As ideias educacionais dos imigrantes e as escolas que 
 
 
5 
fundaram podem ser divididas em dois diferentes grupos (que não 
necessariamente são excludentes entre si). 
O primeiro grupo se baseia nas concepções libertárias de educação. 
Ainda no final do século XIX começou a surgir, juntamente com a chegada dos 
imigrantes no Brasil, um incipiente movimento socialista que no campo 
educacional defendia a educação pública,gratuita e popular e criticou a 
incapacidade do Estado em oferecer esse ensino a todos. Também defendiam 
a criação de escolas e bibliotecas operárias. No começo do século XX, em 
especial nos anos da “República do Café”, o principal movimento político 
libertário era o anarquista. O movimento anarquista brasileiro era composto em 
grande parte por imigrantes europeus, sobretudo os italianos e em menor medida 
os espanhóis. Os anarquistas criticavam o uso do ensino como forma de 
doutrinação da população mais pobre por parte da Igreja e das elites e defendiam 
concepções de ensino oriundas de pensadores revolucionários europeus como 
“educação integral” e “ensino racionalista”. Para tanto, buscavam colocar em 
prática tais concepções com centros de estudo e escolas como a Escola 
Libertária Germinal (1904), a Escola Social da Liga operária (1911) e as Escolas 
Modernas (1909). Os ideais anarquistas que estas concepções reuniam eram de 
uma educação voltada para uma verdadeira ilustração da população mais pobre 
sem a atrelar a deveres perante o Estado, a religião e os interesses da classe 
dominante. O ensino libertário pautava essencialmente o respeito ao sujeito 
educando e a criação da possibilidade que este, em conjunto com seus 
semelhantes, pudessem transformar radicalmente a sociedade em que viviam. 
Com o arrefecimento do movimento anarquista por volta do final da década de 
1920, o movimento comunista, em especial o partido que desse movimento se 
formava, o Partido Comunista do Brasil (PCB), passou a liderar as reivindicações 
por uma educação libertária, e teve em grande parte das fileiras que 
engrossavam sua composição imigrantes europeus que advinham de regiões 
onde os movimentos comunistas já eram expressivos. 
Além das escolas com vocação revolucionária, os vastos e diversos 
grupos de imigrantes que desembarcaram no Brasil criaram também instituições 
de ensino aos moldes mais “tradicionais”. As escolas de imigrantes se 
diferenciavam das demais por ter um ensino que além das lições “comuns” de 
letramento e cálculo, ofereciam também a aprendizagem das línguas, da história 
e da cultura dos grupos de origem. Existiram desde pequenas escolas 
 
 
6 
estabelecidas em colônias até grandes institutos que acabaram por serem 
reconhecidos por comunidades externas pela sua excelência de ensino. Pode 
se citar alguns exemplos de espaços educacionais que tiveram essa origem e 
que existem até hoje (ainda que com um currículo de caráter menos étnico), 
como o colégio Dante Alighieri, fundando em São Paulo em 1911 por imigrantes 
italianos, o Colégio Humboldt, idealizado nessa mesma cidade por imigrantes 
alemães em 1916, e a Escola Americana (atual Colégio e Universidade 
Mackenzie), um dos mais antigos de São Paulo, fundado em 1870 por um casal 
de imigrantes estadunidenses presbiterianos. 
Ao mesmo tempo em que proliferaram escolas de imigrantes, iniciativas 
de educação privada e grupos escolares estaduais, ainda faltava no Brasil um 
grande projeto educacional nacional e um sistema de ensino que abrangesse a 
totalidade dos estados. O início de tal sistema só veio a ocorrer na década de 30 
do século XX. 
TEMA 3 – EDUCAÇÃO NO INÍCIO DA “ERA VARGAS” 
O ano de 1929 ficou marcado mundialmente pela quebra da Bolsa de 
Nova York. No Brasil isso refletiu na queda da exportação de café e em uma 
profunda crise da economia brasileira que, como já foi abordado, era 
extremamente dependente desse produto. As mudanças no cenário econômico 
impactaram drasticamente no campo político. O poder que estava até então nas 
mãos da elite agropecuária do Sudeste, com a sua derrocada desencadeada 
pela crise, passou para um grupo político alheio a esse meio, liderado por Getúlio 
Vargas. Vargas, oriundo do Rio Grande do Sul, assumiu o posto de chefe de 
Estado pela primeira vez em 1930 em um movimento que intitulou de 
“revolução”. A “Revolução de 30” tinha como defesa principal a modernização do 
território brasileiro, tendo como ferramenta fundamental a intensificação da 
industrialização do país. Para concretizar tal cenário seria necessária mão de 
obra minimamente qualificada e letrada, criando a demanda por um sistema 
educacional mais acessível às massas. 
Uma das primeiras medidas do governo Vargas foi a criação do Ministério 
da Educação e da Saúde Pública. Esta pasta tinha como dirigente Francisco 
Campos, um grande entusiasta do Movimento “Escola Nova”. A “Escola Nova” 
surgiu ainda nos anos 1920 para fazer frente à demanda de uma pedagogia que 
se adequasse à realidade inédita que florescia nos grandes centros urbanos. 
 
 
7 
Nestes locais surgia uma sociedade mais dinâmica com uma recém-formada 
“classe média”, que cada vez mais se avolumava nesse espaço mais citadino. 
De certa forma, a “Escola Nova” foi elaborada para atender esse público dos 
trabalhadores urbanos (que não viviam na miséria, mas que ao mesmo tempo 
não tinham condições de pagar por escolas particulares) e evitar que eles se 
radicalizassem ao frequentar escolas libertárias. 
Os ideais da Escola Nova foram os pilares do Ministério da Educação 
nesse período. Entre os mais importantes princípios dessa concepção estavam 
o deslocamento do foco do pensamento pedagógico, retirando-o do professor (e 
o que este considerava adequado ensinar) para os alunos e suas necessidades. 
Também tinha como temática central a defesa da igualdade de oportunidades. 
Ressaltavam estes pensadores que o ensino devia ser construído de modo que 
cada um pudesse educar-se até o limite de suas aptidões naturais, sem barreiras 
econômicas ou sociais. Também destacavam a função essencialmente pública 
da educação (e não mais prioridade da família ou Igreja), a necessidade de uma 
escola única para todos entre 7 e 15 anos, a laicidade do ensino, sua gratuidade, 
a possibilidade de coeducação de meninos e meninas, e o requisito de 
professores com formação superior e salários iguais, independentemente do 
nível de ensino (Saviani, 2013). 
Quando foi institucionalizada pelo governo federal a corrente da Escola 
Nova não era homogênea. Mas em comum entre as medidas adotadas e suas 
inspirações pedagógicas existia o sentimento da necessidade da modernização 
da educação. Nesse sentido foram estabelecidos os regulamentos para a 
instauração do Conselho Nacional da Educação, realizada a criação do ensino 
secundário, a regulamentação do ensino comercial e a instauração do ensino 
superior e do regime universitário. Uma questão mais controversa e que gerou 
diversas rusgas dentro do movimento foi o restabelecimento do ensino religioso 
católico nas escolas. Esta concessão, feita em 1931, pode ser interpretada como 
uma maneira de angariar apoio para o governo em um setor que há tempos 
reclamava do Estado e de suas decisões a respeito da educação. Mesmo que 
na teoria o restabelecimento do ensino religioso confessional nas escolas 
públicas fosse contraditório com o preceito de laicidade escolanovista, na prática 
esse movimento lidava com diversas demandas e acabava por ceder em alguns 
dos seus princípios em nome das alianças. Além disso, esse tipo de situação 
acabava por revelar a grande diversidade de atores desse movimento, que nem 
 
 
8 
sempre estavam de acordo sobre os mesmos pontos. A heterogeneidade é 
exposta, por exemplo, se analisada a trajetória dos três principais nomes do 
movimento – Lourenço Filho, bem relacionado com a oligarquia paulista, 
Fernando de Azevedo, que teve importantes cargos no regime varguista, e 
Anísio Teixeira, crítico do autoritarismo 
Lourenço Filho foi o precursor do movimento Escola Nova. Sua grande 
inovação foi elaborar metodologias e princípios pedagógicos a partir da 
psicologia. Fernando Azevedo, seu contemporâneo e companheiro do 
movimento, se tornou um dos principais divulgadores da Escola Nova. Os 
preceitos de que foi defensor eram de que a escola deveria proporcionar mais 
liberdadeàs crianças, oferecendo a possibilidade delas mesmas pautarem 
atividades de forma espontânea. Defendia também o conceito de escola ativa, 
baseado nos pressupostos do campo da psicologia de que a criança é um ser 
especialmente moldado pelo exercício. Igualmente defendia o respeito a 
singularidade de cada criança e seu tempo de aprendizagem. Apesar desse 
respeito à individualidade do educando, a Escola Nova (de acordo com a visão 
de Azevedo) devia se organizar como uma comunidade baseada na 
solidariedade e cooperação, onde o indivíduo deveria abrir mão de parte de suas 
necessidades para se adequar ao social. Dessa maneira, as crianças eram ao 
mesmo tempo colocadas como protagonistas de sua educação, mas também 
cooperadoras do meio educacional. 
Anísio Teixeira, outro expoente do movimento, acreditava na educação 
como plano central para a reforma da sociedade brasileira e para a construção 
de uma nação mais justa. A superação da desigualdade passaria, de acordo com 
suas crenças, por um projeto pleno de ensino primário e secundário, sendo a 
educação, portanto, um direito de todas as pessoas, lema esse que permeou 
toda a sua atuação, tanto prática como teórica. 
Os princípios fundamentais da Escola Nova, compartilhada pela grande 
maioria de seus defensores, e que constavam como a base do Manifesto Escola 
Nova (1932) eram: fim do formalismo e da autoridade absoluta do professor 
como o sujeito principal da educação, a consequente maior autonomia do aluno 
perante seu processo educacional, no qual o professor entraria como um 
orientador; centralidade da atividade, da compreensão do processo por parte do 
educando e não só do resultado, repudiando o sistema de punições e 
premiações com base somente neste quesito; criação de um ambiente que 
 
 
9 
proporcionasse a iniciativa dos alunos em relação à proposição das atividades, 
em contraposição a obediência e a disciplina como fins em si mesmas. Em 
resumo, a Escola Nova propunha mudanças radicais em relação ao regime 
tradicional de ensino, deslocando o centro do saber educacional do cientificismo 
para os estudos sobre psicologia e as emoções (Hilfsdorf, 2005). 
Entre os principais teóricos estrangeiros que inspiraram os estudiosos 
brasileiros da Escola Nova estão Ovide Decroly (1871—1932), Edouard 
Claparéde (1873- 1940), Adolphe Ferriére (1879-1960) e Maria Montessori 
(1870-1950). Decroly seria um dos principais pensadores a respeito da 
espontaneidade do aprendizado infantil em ambientes propícios (Carvalho, 
2020). Claparéde, por sua vez, foi um pioneiro no campo da psicologia infantil e 
defendia que a educação ofertada aos pequenos levasse em conta os estágios 
de desenvolvimento da criança e seus processos mentais (Nassif; Campos, 
2005). Maria Montessori é ainda hoje um nome bastante expressivo no campo 
educacional, reconhecida pelo seu método de ensino baseado na atividade 
desenvolvida pela própria criança como centro e nos estímulos físicos 
propiciados pelos materiais didáticos (Paschoal; Machado, 2019). 
Já Adolphe Ferriére, entre todos mencionados anteriormente, pode ser 
considerado o que mais se destacava como inspiração para a Escola Nova 
brasileira. Ele mesmo foi um dos fundadores da Escola Nova em âmbito 
internacional e um dos seus maiores entusiastas. Em 1921 os escolanovistas 
europeus, tendo como o organizador principal o próprio Ferriére, organizaram a 
Liga Internacional para a Educação Nova. Esta liga procurava reunir ao redor do 
mundo pedagogos e estudiosos interessados no rompimento do tradicionalismo 
do ensino escolar. Para tanto, organizaram congressos internacionais, 
estabeleceram sedes em diferentes regiões dos continentes, fundaram 
periódicos e meios de comunicação para difundir seus ideais e chegaram até 
mesmo a criar um Centro de Experimentações de Métodos Educativos (Chagas 
de Carvalho, 2021). Um dos fundamentos da Escola Nova, tanto em terras 
estrangeiras quanto brasileiras, era de que a ignorância da população não era 
culpa da própria, e nem que a consequente situação de pobreza e pouco 
desenvolvimento social em que ela se encontrava fosse de sua 
responsabilidade, mas sim que a marginalização das massas e as poucas 
oportunidades que eram oferecidas a essa camada eram o verdadeiro centro do 
atraso e da baixa qualidade de vida que levavam. 
 
 
10 
TEMA 4 – EDUCAÇÃO NO ESTADO NOVO 
Como já mencionado, as diversas maneiras que estas concepções foram 
incorporadas pelo Estado Brasileiro não foram livres de contradições e pressões 
dos mais diversos atores sociais que influíam na política nacional. Foi sob o 
período ditatorial da Era Vargas, conhecido como “Estado Novo”, que durou de 
1937 a 1945, que se instauraram profundas reformas no campo educacional, 
sobretudo no que diz respeito ao ensino secundário e ao superior (que na 
República Velha haviam ficado sob tutela estadual, sem nenhuma grande 
coordenação nacional). 
Com o Estado Novo houve, tal qual em outras áreas, maior centralização 
das políticas educacionais, sob comando das reformas do ministro Gustavo 
Capanema. É somente então que o ensino secundário (após um primário de 
quatro anos) observa uma expansão relevante, principalmente na modalidade 
profissionalizante, com as matrículas quase dobrando entre 1937 e 1945. O que 
hoje entendemos por Anos Finais do Ensino Fundamental e Ensino Médio, na 
época era intitulado de Ensino Secundário. Após quatro anos do Ensino Primário, 
se desse prosseguimento aos estudos, o aluno passaria ao Ensino Secundário. 
O primeiro ciclo seria comum a todos, chamado de Ginasial (mais 
semelhante ao que hoje se intitula Fundamental II ou Anos Finais do Ensino 
Fundamental). Após este, se seguia o colegial (mais semelhante ao atual Ensino 
Médio). O colegial se dividia nos setores profissionais (que ofertava as “carreiras” 
industrial, comercial e agrícola) e o acadêmico (cujo objetivo era preparar para o 
ensino universitário), que por sua vez era repartido entre o Curso Científico, e 
Curso Clássico. Além dessas possibilidades também existia o curso Normal, 
voltado a formação de professores para o primário - ou melhor dizendo, 
professoras, pois, nesta época, a docência para crianças já estava bem 
estabelecida como uma profissão feminina (Almeida, 1996). 
A concepção educacional que pautou as reformas de Francisco Campos 
e Gustavo Capanema durante o Estado Novo teve um tom mais conservador do 
que propriamente “novo”, como os seus antecessores nos cargos de chefia do 
Ministério da Educação. O principal anseio desse período varguista em relação 
à educação seria o de manter a ordem (nesse sentido se compreende as 
concessões feitas à Igreja Católica) e também de incutir nos pequenos 
brasileiros uma identidade nacional. 
 
 
11 
Um dos grandes movimentos “em prol” desse nacionalismo no campo 
educacional foi a proibição das escolas de imigrantes, que tiveram que ser 
extintas ou reformuladas a tal ponto de não poderem mais ensinar línguas e 
costumes estrangeiros, e nem mais terem em seus nomes uma nacionalidade 
estrangeira, como por exemplo, “Escola Alemã”. É importante ressaltar que foi 
durante o Estado Novo que o Brasil entrou na Segunda Guerra Mundial contra o 
Eixo, liga formada por Alemanha, Itália e Japão, países que eram a nação de 
origem de muitos imigrantes brasileiros. Ou seja, essa proibição visava também 
coibir as expressões culturais dos países inimigos em terras brasileiras e 
estimular uma brasilidade nos filhos e netos desses imigrantes. 
Outra grande medida do período autoritário de Vargas, além da nova 
estruturação do ensino secundário e a proibição das escolas estrangeiras, foi a 
adoção do sistema terciário de educação por meio do modelo de Universidade. 
O sistema de ensino superior criado na gestão de Capanema foi constituído 
principalmente a partir da federalização de faculdades estaduais já existentes, e 
sua reunião na forma de universidade.Se defendia então que cada estado da 
federação tinha direito a pelo menos uma universidade federal (Bortolanza, 
2017). 
Uma das universidades que não passou pelo processo de federalização, 
mas que mesmo assim se tornou uma das principais instituições superiores do 
Brasil, se não a principal, foi a Universidade de São Paulo. Construída e até hoje 
mantida como uma universidade de tutela do estado de São Paulo, a USP foi 
inaugurada em 1934. Apesar de não ter passado para o âmbito federal, o 
processo de constituição da USP foi muito semelhante às demais universidades, 
surgindo a partir da união das Faculdades de Faculdade de Filosofia, Ciências e 
Letras (FFCL), da Escola Politécnica de São Paulo, da Escola Superior de 
Agricultura "Luiz de Queiroz", da Faculdade de Medicina, da Faculdade de 
Direito e da Faculdade de Farmácia e Odontologia. O objetivo era de criar um 
centro de referência para a intelectualidade nacional e de certa forma “restaurar” 
(mesmo que “somente” no campo dos saberes) o prestígio e o poder paulista 
que, na percepção de muitos, havia e perdido com a crise de 1929 e a ascensão 
de Vargas ao poder (Campos, 2004). 
 
 
 
12 
TEMA 5 – GOVERNO DUTRA E O SEGUNDO MANDATO DE VARGAS 
Com o final da Segunda Guerra e a vitória do Brasil perante o fascismo 
europeu, o clima político no Brasil passou a ser menos favorável a uma ditadura 
em terras nacionais. Igualmente passou a pesar a nova estabilidade social e 
econômica que começava a surgir. Foi nesse sentido que após uma transição 
de alguns meses o sistema democrático foi restabelecido. Com ele surgiram 
também algumas mudanças no campo educacional. Eurico Gaspar Dutra subiu 
ao poder em 31 de janeiro de 1946. As principais medidas do seu ministério da 
educação foram: a criação da exigência de concurso para a profissão de 
docente; o caráter complementar do sistema nacional (em que municípios, 
estados e a federação trabalham de forma colaborativa); a vinculação 
orçamentária das despesas educacionais no quadro financeiro do Estado; a 
criação de assistência escolar para alunos com dificuldades; a criação de 
institutos de pesquisas como parceiros das universidades; e por fim, um dos mais 
relevantes: a competência federal em relação às bases e diretrizes da educação 
nacional (Hilsdorf, 2005). 
Para construir esse corpo legislativo, o ministro da educação do governo 
Dutra instaurou uma comissão cujo objetivo era desenvolver preliminarmente a 
Lei de Diretrizes e Bases (LDB), que só seria definitivamente promulgada em 
1961. A maior transformação proposta pela versão final da LDB em relação ao 
Estado Novo dizia respeito à descentralização do sistema de ensino. Tendo em 
vista o princípio de colaboração entre as esferas governamentais do executivo, 
as novas diretrizes estabeleceram que o ensino primário e secundário ficaria a 
cargo de municípios e estados, respectivamente, sendo o papel do governo 
federal nesses âmbitos, complementar. Ao governo federal caberia ser o 
principal responsável apenas pelo ensino superior. Este novo mecanismo de 
funcionamento do sistema educacional brasileiro não ficou a salvo de duras 
críticas, especialmente de remanescentes do governo ditatorial, como o antigo 
ministro Gustavo Capanema, que travou a aprovação do projeto por anos no 
plenário. 
Se durante o Estado Novo houve um certo equilíbrio entre os 
tradicionalistas da Igreja Católica e os defensores da Escola Nova, com o seu 
fim, estes últimos passaram a se sobressair, ocupando diversos cargos na 
burocracia pública e na comissão de elaboração da Lei de Diretrizes e Bases da 
 
 
13 
educação. Esta valorização da Educação Nova também acabou por reforçar uma 
reformulação do ensino católico que passou a adotar uma perspectiva mais 
humanista, sem perder totalmente seu caráter confessional (Saviani, 2013). 
As transformações operadas desde 1930, com a primeira subida de 
Getúlio ao poder mudaram definitivamente o cenário educacional brasileiro. A 
maior mudança, sem dúvidas, foi a criação de um efetivo sistema nacional de 
educação, com diversos órgãos de estruturação, legislações e orçamento que o 
amparasse. O início da universalização da educação básica e a existência de 
um verdadeiro quadro de ensino superior só foram possíveis devido às reformas 
varguistas. As modificações nas percepções pedagógicas que orientaram esse 
novo sistema de ensino também foram muito relevantes, todavia, em nenhum 
momento houve um rompimento total com os fundamentos e práticas da 
educação tradicional da República Velha. Isto se deveu tanto a acordos e 
concessões feitos com e para os setores mais conservadores da sociedade, 
quanto às diferentes ideias que conviveram (e muitas vezes conflitaram) dentro 
do próprio movimento da Escola Nova. 
Já nos anos 1950, Getúlio Vargas retornaria à presidência do Brasil, dessa 
vez eleito. Nesse período, e ainda mais nos governos de seus sucessores, 
iniciaram-se deslocamentos importantes. Orientações pedagógicas mais 
humanistas, como a Escola Nova, sem desaparecerem ou criarem inovações, 
gradativamente perdem poder de influenciar as políticas públicas, que começam 
a se guiar por concepções mais tecnicistas, que dialogavam com os rumos que 
o Estado Brasileiro tomaria nos anos que se seguiram. 
NA PRÁTICA 
A ficção também é capaz de fazer com que os conteúdos teóricos possam 
ser analisados, especialmente com a possibilidade de problematizar e 
desconstruir a criação artística. Por isso, recomendamos o filme “Getúlio” (2014), 
dirigido por João Jardim e roteirizado por George Moura, da Globo Filmes. O 
filme é um drama biográfico que percorre a intimidade de Getúlio Vargas em 
seus últimos dias de vida. Isolado no Palácio do Catete (RJ), Getúlio começa a 
refletir sobre as pressões políticas que vinha sofrendo, especialmente por ser 
acusado de ser o mandatário do assassinato do jornalista Carlos Lacerda. Além 
disso, é interessante perceber que, quando adentramos nas particularidades do 
pensamento do político, conseguimos analisar algumas motivações para que 
 
 
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fatos marcantes de seu governo tenham acontecido, compreendendo as 
questões subjetivas por trás das “grandes decisões”. O roteiro também é 
acertado no que diz respeito à interpretação e à relação entre passado e 
presente: a trama é conduzida de modo que seja possível ver semelhanças, 
especialmente nas negociações políticas, com quase todos os momentos 
históricos do Brasil, chamando a atenção do espectador para problemas que 
parecem ser crônicos e incuráveis na política brasileira. 
FINALIZANDO 
O período inicial do Brasil Republicano é essencial para prestarmos 
atenção à ideia de educação brasileira que começa a surgir nesse período. 
Mesmo com as influências estrangeiras, e com a formação do Brasil a partir da 
imigração, e de uma necessidade de adequação à sua própria realidade. Além 
disso, compreendemos os debates trazidos pela Pedagogia da época, com a 
criação e a aplicação de teorias (como a tradicional e o escolanovismo), que 
serão de extrema relevância para estudarmos sobre os momentos históricos e 
governamentais posteriores à década de 1930. 
 
 
 
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REFERÊNCIAS 
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