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REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA UNIASSELVI-PÓS Autoria: Kevin Daniel dos Santos Leyser Indaial - 2020 1ª Edição CENTRO UNIVERSITÁRIO LEONARDO DA VINCI Rodovia BR 470, Km 71, no 1.040, Bairro Benedito Cx. P. 191 - 89.130-000 – INDAIAL/SC Fone Fax: (47) 3281-9000/3281-9090 Reitor: Prof. Hermínio Kloch Diretor UNIASSELVI-PÓS: Prof. Carlos Fabiano Fistarol Equipe Multidisciplinar da Pós-Graduação EAD: Carlos Fabiano Fistarol Ilana Gunilda Gerber Cavichioli Jóice Gadotti Consatti Norberto Siegel Julia dos Santos Ariana Monique Dalri Marcelo Bucci Revisão Gramatical: Equipe Produção de Materiais Diagramação e Capa: Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI Copyright © UNIASSELVI 2020 Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri UNIASSELVI – Indaial. Impresso por: L685r Leyser, Kevin Daniel dos Santos Reabilitação neuropsicológica. / Kevin Daniel dos Santos Leyser. – Indaial: UNIASSELVI, 2020. 246 p.; il. ISBN 978-85-7141-448-8 ISBN Digital 978-85-7141-449-5 1. Neuropsicologia. - Brasil. 2. Reabilitação. – Brasil. Centro Universitário Leonardo Da Vinci. CDD 612.8 Sumário APRESENTAÇÃO ............................................................................5 CAPÍTULO 1 TEMAS GERAIS EM REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA .......9 CAPÍTULO 2 REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA DO PROCESSAMENTO DE INFORMAÇÃO, ATENÇÃO E MEMÓRIA ...................................................................................85 CAPÍTULO 3 REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA DAS FUNÇÕES EXECUTIVAS, LINGUAGEM E COMUNICAÇÃO SOCIAL ..........171 APRESENTAÇÃO Caro acadêmico, antes de apresentar o conteúdo deste livro, gostaria de me apresentar a você̂. Sou Bacharel e Licenciado em Psicologia (2005) e Licenciado em Filosofia (2004) pela Universidade Comunitária Regional de Chapecó e Bacharel em Teologia pela Faculdade de Educação Teológica Logos (2002). Especialista em Psicopedagogia e Práticas Pedagógicas e Gestão Escolar pela FACEL (2007) e em Educação à Distância: Gestão e Tutoria pelo Centro Universitário Leonardo da Vinci (2018). Mestre em Educação (FURB, 2011) e Doutorando em Educação (FURB, 2019). Agora vamos ao Livro Didático. Este é um momento emocionante para se envolver na reabilitação neuropsicológica (RN), e a produção deste Livro Didático reflete o crescente interesse e desenvolvimento de conhecimento, novos tratamentos e procedimentos de avaliação de todo o mundo, com o objetivo de melhorar a vida das pessoas com uma lesão cerebral adquirida, causada por um acidente ou por uma doença, seja estática ou progressiva. Houve uma aceitação recente de que, independentemente de quão comprometidas sejam as pessoas com lesão cerebral, e quaisquer que sejam seus problemas particulares, há melhorias em suas vidas e nas vidas de suas famílias que podem ser feitas. Este livro reflete uma experiência em rápido crescimento entre os terapeutas que está sendo estimulada por acadêmicos especializados no ensino superior e por seu envolvimento subsequente na reabilitação neuropsicológica. As contribuições deste livro são informadas por pesquisas rigorosas conduzidas por acadêmicos e profissionais, algumas vezes trabalhando separadamente e outras trabalhando juntos. De fato, um princípio primordial no trabalho descrito e explicado neste livro é que a reabilitação após lesão cerebral é mais eficaz quando pesquisadores, profissionais e clientes e suas famílias trabalham juntos para encontrar soluções para problemas causados por uma lesão no cérebro. O trabalho de um neuropsicólogo, como é reconhecido nos capítulos deste livro, pode envolver interação especializada com crianças ou adultos, com clientes altamente motivados, com aqueles que sofreram lesões cerebrais recentemente ou aqueles que sofreram lesões há muitos anos. Todos esses grupos são abordados neste livro e podem incluir pessoas com distúrbios da consciência, com demência, com problemas de saúde mental, com epilepsia, acidente vascular cerebral, lesão cerebral traumática (LCT), encefalite, HIV, lesões por explosão, e danos cerebrais variados. As questões de avaliação, tratamento e pesquisa são discutidas à medida que as principais funções cognitivas são consideradas, incluindo velocidade do processamento de informações, atenção, memória de trabalho, memória, funções executivas, linguagem e comunicação social. Todas as discussões sobre essas funções são informadas pelo trabalho prático e profissional com famílias e indivíduos. Métodos experimentados e testados são avaliados, bem como terapias novas e futuras. Modelos e teorias teóricas, bem como aplicações práticas, são abordados neste livro. A reabilitação neuropsicológica (RN) é um campo que precisa de uma ampla base teórica incorporando estruturas, teorias e modelos de várias áreas diferentes. Nenhum modelo, teoria ou estrutura é suficiente para resolver os problemas complexos que as pessoas enfrentam com dificuldades resultantes de danos ao cérebro. Ao mesmo tempo, problemas da vida real devem ser abordados. O objetivo da RN é permitir que as pessoas com deficiência atinjam seu nível ideal de bem-estar, reduzir o impacto de seus problemas na vida cotidiana e ajudá- las a retornar aos seus ambientes mais adequados. Para muitas pessoas, isso é voltar para casa, mas para aqueles com problemas demais para ir para casa, o ambiente mais apropriado pode ser o cuidado a longo prazo. Mesmo aqui, no entanto, devemos nos preocupar em ajudar pacientes e clientes a alcançar seu bem-estar ideal e reduzir o impacto de seus problemas no dia a dia. Ao mesmo tempo, pensava-se que a reabilitação de pessoas com demência e outras condições progressivas não valia a pena diante da deterioração, mas isso não é mais aceito em países com atitudes positivas em relação à reabilitação e abordagens positivas na reabilitação. Os leitores deste livro descobrirão muitos exemplos de vida diária aprimorada após a reabilitação. Podemos não conseguir restaurar o funcionamento perdido, mas isso não significa que nada possa ser feito para reduzir ou moderar os problemas reais enfrentados por pessoas com danos cerebrais. Pelo contrário, eles podem ser ajudados a lidar, contornar ou compensar seus problemas; eles podem aprender como chegar a um acordo com sua condição e seus efeitos através da compreensão de suas circunstâncias de vida; e sua ansiedade e angústia podem ser reduzidas. A RN está preocupada com a melhoria dos déficits cognitivos, emocionais, psicossociais e comportamentais causados por um dano ao cérebro. Essa reabilitação não apenas melhora a vida de pessoas com lesão cerebral e de suas famílias, mas também faz sentido em termos econômicos. Pois, os custos de não reabilitar pessoas com lesão cerebral são consideráveis. Em resumo, este livro fornece uma perspectiva abrangente e contemporânea da RN em todo o mundo. Os capítulos a seguir fornecem uma integração da teoria, pesquisa e aplicações práticas da RN e abrangem uma variedade de tópicos relevantes para clínicos, pesquisadores, educadores, administradores de serviços de saúde e formuladores de políticas. Grandes avanços e desenvolvimentos de ponta no campo são delineados e áreas prioritárias para futuras pesquisas e desenvolvimento de serviços são previstas. Para alcançar seu objetivo final de melhorar a vida das pessoas com distúrbios neurológicos e suas famílias, os princípios e a prática da RN devem acompanhar as descobertas científicas em andamento, particularmente nas neurociências cognitivas e sociais, e as mudanças no cenário sociocultural do mundo. Desejo uma boa jornada a todos, rumo à edificação da educação e sucesso frente aos desafios intelectuais, éticos e pessoais proporcionados pelo estudo da Reabilitação Neuropsicológica. Prof. Me. Kevin Daniel dos Santos Leyser CAPÍTULO 1 TEMAS GERAIS EM REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA A partir da perspectivado saber-fazer, neste capítulo você terá os seguintes objetivos de aprendizagem: Saber Conhecer os fundamentos da Reabilitação Neuropsicológica. Compreender o uso das teorias e planejamentos no desenvolvimento da Reabilitação Neuropsicológica. Fazer Associar as novas evidências e a tecnologia com o processo de Reabilitação Neuropsicológica. Estabelecer metas e gerenciar planejamentos de Reabilitação Neuropsicológica. 10 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA 11 TEMAS GERAIS EM REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA Capítulo 1 1 CONTEXTUALIZAÇÃO Seja bem-vindo ao primeiro capítulo do Livro Didático de Reabilitação Neuropsicológica. Aqui vamos explorar a reabilitação neuropsicológica (RN) como a área de conhecimento e prática que se preocupa com a melhoria dos défi cits sociais e emocionais cognitivos causados por um dano ao cérebro. Como outros tipos de reabilitação, os principais objetivos da reabilitação neuropsicológica são permitir que as pessoas com defi ciência atinjam seu nível ideal de bem-estar, reduzir o impacto de seus problemas na vida cotidiana e ajudá-las a retornar aos seus ambientes mais adequados. Neste capítulo, especifi camente, analisaremos algumas das contribuições históricas mais importantes para a reabilitação neuropsicológica moderna. Algumas das principais teorias e modelos que infl uenciam a prática atual de reabilitação serão descritas, incluindo aquelas do funcionamento cognitivo, aprendizagem, emoção, avaliação e identidade. Assim como abordaremos a necessidade de uma ampla base teórica (ou várias bases) ao planejar e implementar programas de reabilitação, para garantir boas práticas clínicas. Veremos a importância de que os profi ssionais de saúde justifi quem suas decisões de tratamento com base nas evidências disponíveis e levem em consideração as preferências e o status de seus pacientes. Vamos também apontar que a ocorrência de recuperação espontânea após lesão cerebral está bem estabelecida atualmente, tanto do ponto de vista comportamental quanto de imageamentos cerebrais, assim como exploraremos neste capítulo a explosão das tecnologias da informação e comunicação e como estas nos oferecem novas ferramentas de reabilitação. 2 UMA BREVE HISTÓRIA DA REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA A descrição mais antiga conhecida do tratamento de lesão cerebral é de um documento egípcio de 2500 a 3000 anos atrás. O papiro foi descoberto por Edwin Smith em Luxor em 1862 (WALSH, 1987). Este documento escreve o tratamento de 48 casos de lesão, dos quais 27 foram traumatismos cerebrais. Ele contém as primeiras descrições conhecidas das estruturas cranianas, das meninges, da superfície A descrição mais antiga conhecida do tratamento de lesão cerebral é de um documento egípcio de 2500 a 3000 anos atrás. O papiro foi descoberto por Edwin Smith em Luxor em 1862 (WALSH, 1987). 12 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA externa do cérebro, do líquido cefalorraquidiano e das pulsações intracranianas. É o registro mais antigo que utiliza a palavra "cérebro". Os procedimentos de tratamento descritos demonstram um nível de conhecimento egípcio sobre este tema que supera o de Hipócrates, que viveu há 1000 anos depois. Entre os primeiros casos descritos, está um homem com uma ferida aberta na cabeça, penetrando no osso do crânio, deixando o cérebro exposto. Deve-se dizer, no entanto, que os procedimentos descritos no papiro de Smith eram mais sobre tratamento do que reabilitação. Além do papiro descoberto por Smith, alguns relatórios descrevendo o tratamento aparecem ao longo dos séculos, incluindo um caso de Paul Broca (1865 apud BOAKE, 1996). Broca estava atendendo um paciente adulto que não conseguia mais ler palavras em voz alta. Ele foi primeiro ensinado a ler letras, depois sílabas antes de combinar sílabas em palavras. No entanto, ele não aprendeu a ler palavras de mais de uma sílaba, de modo que o tratamento passou para uma abordagem de palavras inteiras e o paciente aprendeu a reconhecer várias palavras. A seguir você poderá compreender como eventos históricos, como as guerras, infl uenciaram o surgimento e o desenvolvimento da reabilitação neuropsicológica. 2.1 PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL A reabilitação moderna, como a entendemos, começou na Primeira Guerra Mundial. Isso ocorreu porque mais soldados com ferimentos de bala na cabeça sobreviveram. Durante a Guerra Civil Americana (1861 a 1865), ferimentos de bala na cabeça foram vistos em grande número e, embora estatísticas precisas sobre as taxas de mortalidade não estejam disponíveis para o século XIX, a taxa de sobrevivência era baixa por causa de infecção. Técnicas antissépticas aprimoradas no fi nal do século XIX e procedimentos neurocirúrgicos mais efi cazes levaram à redução da mortalidade na Primeira Guerra Mundial. Outros fatores que contribuíram para o aumento das taxas de sobrevivência foram devidos aos próprios rifl es: a velocidade do cano era mais rápida e as balas eram menores e mais deformáveis. Melhores capacetes também contribuíram para melhorar as taxas de sobrevivência. No entanto, ferimentos penetrantes na cabeça ainda ocorreram e centros de reabilitação de lesões cerebrais dedicados foram criados pela primeira vez (BOAKE, 1996). É importante ressaltar que a pessoa mais importante e infl uente daquela época foi Kurt Goldstein, um neurologista e psiquiatra alemão pioneiro na A reabilitação moderna, como a entendemos, começou na Primeira Guerra Mundial. Isso ocorreu porque mais soldados com ferimentos de bala na cabeça sobreviveram. 13 TEMAS GERAIS EM REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA Capítulo 1 neuropsicologia moderna. Ele tratou os soldados na frente de batalha antes de enviá-los para um departamento terapêutico em Frankfurt onde as avaliações eram realizadas por psicólogos. O centro de Frankfurt incluía um hospital residencial, uma unidade de avaliação psicológica e uma ofi cina especial para os pacientes praticarem e serem avaliados em habilidades vocacionais (POSER; KOHLER; SCHÖNLE, 1996). Goldstein fez recomendações específi cas sobre terapia para comprometimentos da fala, leitura e escrita (GOLDSTEIN, 1942; BOAKE, 1996). Após a Primeira Guerra Mundial, Goldstein criou o Instituto de Pesquisa sobre as Consequências de Lesões Cerebrais. Foi ali que ele desenvolveu uma teoria das relações cérebro-mente. Em 1930, ele aceitou uma posição na Universidade de Berlim, mas em 1933, quando os nazistas chegaram ao poder, Goldstein foi preso e encarcerado. Depois de uma semana, ele foi libertado com a condição de concordar em deixar o país imediatamente e nunca mais voltar. Durante o ano seguinte, ele morou em Amsterdã, escreveu seu trabalho principal, The Organism (O Organismo), e depois emigrou para os EUA em 1935. Ele se tornou cidadão dos EUA em 1940 e morreu lá em 1965. Walter Poppelreuter foi outro neurologista e psiquiatra alemão que realizou investigações de soldados com lesões cerebrais durante a Primeira Guerra Mundial e documentou os resultados de perda e comprometimento da função cerebral. Ele publicou o primeiro livro sobre reabilitação de lesões cerebrais em 1917, cujo título era Distúrbios das capacidades visuais inferiores e superiores causadas por danos occipitais: com referência especial às implicações psicopatológicas, pedagógicas, industriais e sociais (POPPELREUTER, 1990). Neste livro, ele descreveu seu tratamento de soldados com distúrbios visuoespaciais e visuoperceptuais. Ele também discutiu reabilitação vocacional/profi ssional. Muitas das estratégias que ele descreveu são semelhantes às dos programas de reabilitação profi ssional hoje. Ele se juntou ao partido nazista em 1931 e morreu em 1939. Apesar destes neurologistas e suas brilhantes investigações, pouca reabilitação de lesão cerebral ocorreu após a Primeira Guerra Mundial. Cushing, um neurocirurgião americano, disse que nos EUA, muitos veteranoscom feridas cerebrais receberam uma pensão inadequada por seu grau de incapacidade e foram enviados para casa sem mais reabilitação (CUSHING, 1919). Perante este fato, o psicólogo americano, Franz (1917), sugeriu que o governo estabelecesse uma instituição nacional para tratar soldados com lesões cerebrais, mas isso nunca aconteceu. Acabamos de ver, resumidamente, a infl uência da Primeira Guerra Mundial no desenvolvimento histórico da reabilitação neuropsicológica. Agora vamos Após a Primeira Guerra Mundial, Goldstein criou o Instituto de Pesquisa sobre as Consequências de Lesões Cerebrais. Foi ali que ele desenvolveu uma teoria das relações cérebro-mente. 14 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA seguir neste mesmo ímpeto ao discorrermos as infl uências da Segunda Guerra Mundial. 2.2 SEGUNDA GUERRA MUNDIAL Com o início da segunda guerra mundial, houve novamente a necessidade de centros especializados para tratar indivíduos com ferimentos de bala na cabeça. Enquanto a maioria das pessoas recebeu apenas fi sioterapia por difi culdades motoras, aquelas com comprometimentos cognitivos ou comportamentais signifi cativos foram enviadas para instituições psiquiátricas e de saúde mental. O neuropsicólogo mais famoso que veio à tona na Segunda Guerra Mundial foi Alexander Romanovich Luria, do que era então a União Soviética. Ele é frequentemente chamado de avô da neuropsicologia. Nascido em Kazan, Luria foi para a Universidade de Kazan aos 16 anos e obteve seu diploma em 1921 aos 19 anos. Ainda estudante, ele estabeleceu a Associação Psicanalítica de Kazan e planejou uma carreira em psicologia psicanalítica. Suas primeiras pesquisas procuraram estabelecer métodos objetivos para avaliar ideias freudianas sobre anormalidades do pensamento e os efeitos da fadiga nos processos mentais. Então veio a Segunda Guerra Mundial e Luria liderou uma equipe de pesquisa em um hospital do exército, procurando maneiras de compensar disfunções psicológicas em pacientes com lesão cerebral. A trágica disponibilidade de pessoas com várias formas de lesão cerebral traumática forneceu-lhe materiais volumosos para o desenvolvimento de suas teorias da função cerebral e métodos para remediar os défi cits. Luria (1992) sempre acreditou que a pesquisa psicológica deveria ser para o benefício da humanidade e argumentou que deveríamos olhar para a pessoa em seu contexto social, deixando, assim, um legado que está muito em evidência hoje nas práticas de reabilitação neuropsicológica. No Reino Unido, Oxford era um centro especializado no tratamento de soldados feridos na Segunda Guerra Mundial. O neurocirurgião chefe, Cairns, percebeu que quanto mais cedo os ferimentos na cabeça fossem tratados, melhor o prognóstico. Ele enviou Unidades Neurocirúrgicas Móveis, que realizaram operações nos soldados feridos o mais próximo possível da frente de batalha. Os pacientes foram então enviados de volta por via aérea para tratamento mais completo em Oxford. Isso, juntamente com o fato de a penicilina ter sido desenvolvida e estar sendo usada, signifi cou que a taxa de mortalidade de pessoas com lesões cerebrais traumáticas caiu de 50% na Primeira Guerra Mundial para 5% na Segunda Guerra Mundial (QUARE, 2003). A fábrica de automóveis Morris também estava sediada em Oxford, onde Lord Nuffi eld, chefe da Morris Motors, O neuropsicólogo mais famoso que veio à tona na Segunda Guerra Mundial foi Alexander Romanovich Luria, do que era então a União Soviética. Ele é frequentemente chamado de avô da neuropsicologia. 15 TEMAS GERAIS EM REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA Capítulo 1 foi persuadido a desenvolver máquinas para produzir as placas de metal usadas na reparação de danos no crânio. Um amigo de Luria, o psicólogo britânico Oliver Zangwill (1913-1987), às vezes é conhecido como o pai da neuropsicologia britânica. Ele trabalhou no Hospital Bangour nos arredores de Edimburgo com soldados britânicos que sobreviveram a lesões cerebrais durante a Segunda Guerra Mundial. Um artigo importante de Zangwill (1947) sobre reabilitação de pessoas com lesão cerebral foi publicado no qual ele discutiu, entre outras coisas, os princípios da reeducação. Ele se referiu a três abordagens principais: compensação, substituição e retreinamento direto. Até onde sabemos, ele foi o primeiro a categorizar abordagens para a reabilitação cognitiva dessa maneira. As perguntas que ele levantou ainda são pertinentes hoje. Por exemplo, no artigo de 1947, ele escreveu: "Desejamos saber em particular até que ponto o paciente com lesão cerebral pode compensar suas defi ciências e até que ponto o cérebro humano com lesão é capaz de reeducação" (ZANGWILL, 1947, p. 62). Vale lembrar que esta questão é tão relevante agora no século XXI como foi durante a Segunda Guerra Mundial. Por compensação, Zangwill signifi cava a "reorganização da função psicológica, a fi m de minimizar ou contornar uma determinada incapacidade" (ZANGWILL, 1947, p. 63). Ele acreditava que a compensação ocorria em grande parte espontaneamente, sem intenção explícita do paciente, embora em alguns casos isso pudesse ocorrer pelos próprios esforços do paciente ou como resultado de instruções e orientações do psicólogo/terapeuta. Exemplos de compensações oferecidas por Zangwill incluem oferecer a uma pessoa com afasia uma lousa para escrever ou ensinar alguém com hemiplegia direita a escrever com a mão esquerda. Substituição era "a construção de um novo método de resposta para substituir um lesionado irreparavelmente por uma lesão cerebral" (ZANGWILL, 1947, p. 64). Ele reconheceu que isso era uma forma de compensação, mas que ia além disso. Leitura labial para pessoas surdas e o uso do Braille para pessoas cegas seriam exemplos de substituição. A forma mais elevada de treinamento, no entanto, era o retreinamento direto. Diferentemente da compensação e substituição, que eram os métodos de escolha para funções que “não se recuperam genuinamente” (ZANGWILL, 1947, p. 65), algumas funções danifi cadas poderiam, talvez, ser restauradas através do treinamento. Como ele disse, “direto, em oposição ao treinamento substitutivo, tem um papel real, embora limitado, a desempenhar na reeducação’ (ZANGWILL, 1947, p. 66)”. Enquanto isso, nos Estados Unidos da América, as pessoas mais infl uentes 16 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA foram Cranich e Wepman, que trabalhavam com pessoas com problemas de linguagem (CRANICH, 1947; WEPMAN, 1951), e Aita, que estabeleceu um programa de tratamento diário para pessoas com lesões penetrantes para o cérebro (AITA, 1948). Aita estabeleceu um programa de reabilitação de pós- traumatismo craniano em um hospital geral militar que usava um sistema interdisciplinar de atendimento. Os pacientes eram tratados por uma equipe de fi sioterapeutas e terapeutas ocupacionais, psicólogos, especialistas profi ssionais, assistente social, médico e gerente de casos. Parentes também participaram do programa e ensaios terapêuticos foram realizados em casa. Foi estabelecida uma terapia de trabalho, que resultou em 60% dos pacientes que se matricularam na escola ou retornaram ao trabalho após o acompanhamento. Mais uma vez, no fi nal da guerra, esses programas de reabilitação foram encerrados. Você acabou de ver, resumidamente, a infl uência da Segunda Guerra Mundial no desenvolvimento histórico da reabilitação neuropsicológica. Agora vamos seguir com a infl uência da Guerra do Yom Kipur. 2.3 A GUERRA DO YOM KIPUR Outro confl ito armado que teve grande infl uência na reabilitação de lesões cerebrais foi a Guerra do Yom Kippur de 1973. Yehuda Ben-Yishay (nascido em 1933), um israelense americano, foi convidado de volta a Israel após a guerra para trabalhar em um projeto conjunto do Ministério da Defesa de Israel e do Instituto de Medicina de Reabilitação da Universidade de Nova York. Um programa de tratamento diário, infl uenciado pelo trabalho deGoldstein, foi estabelecido em 1975 em Tel Aviv. Este foi o precursor de programas holísticos. Ben-Yishay (1996) descreve como o programa de Tel Aviv começou. Ele disse que já havia tratado alguns soldados israelenses enviados a Nova York para reabilitação antes da Guerra do Yom Kippur e percebeu que era necessário um tipo diferente de abordagem para a reabilitação então disponível. Cerca de 250 soldados sofreram uma lesão cerebral nesta Guerra e receberam bons cuidados físicos, mas foram "incapazes de retomar vidas produtivas, principalmente por causa de problemas neurocomportamentais, cognitivos e psicológicos residuais" (BEN-YISHAY, 1996, p. 327-328). Com o apoio de pessoas em Nova York e Israel, nasceram a comunidade terapêutica e o estilo de tratamento holístico. A seguir, você verá brevemente contribuições em tempos mais recentes para o surgimento e desenvolvimento da reabilitação neuropsicológica. Um programa de tratamento diário, infl uenciado pelo trabalho de Goldstein, foi estabelecido em 1975 em Tel Aviv. Este foi o precursor de programas holísticos. 17 TEMAS GERAIS EM REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA Capítulo 1 2.4 TEMPOS MAIS RECENTES Embora algumas pessoas estivessem trabalhando na reabilitação de problemas cognitivos antes de 1976, o primeiro programa a se chamar programa de “Reabilitação Cognitiva" parece ter sido o aberto por Leonard Diller (nascido em 1924) em Nova York em 1976 (DILLER, 1976). Diller também foi um dos primeiros a publicar estudos sobre negligência unilateral (DILLER; WEINBERG, 1977). Diller e Ben-Yishay trabalharam juntos por muitos anos e o primeiro foi um dos principais apoiadores de Ben-Yishay na criação do programa israelense. Goldstein (1942) e mais tarde Ben-Yishay (1996) reconheceram que cognição, emoção e comportamento estão interligados, difíceis de separar e devem ser abordados em conjunto em programas de reabilitação. Esse é o núcleo da abordagem holística a ser discutido mais adiante neste capítulo. Um dos programas holísticos mais conhecidos é o de George Prigatano (1986). Seu centro em Oklahoma City foi grandemente infl uenciado por Ben- Yishay (PRIGATANO, 1986). Depois ele mudou o centro para Phoenix, Arizona. Por sua vez, Prigatano infl uenciou Anneliese Christensen, que introduziu um centro semelhante na Dinamarca em 1995 (CHRISTENSEN; TEASDALE, 1995), e Wilson e seus colegas que abriram o Oliver Zangwill Center em Cambridgeshire, Inglaterra em 1996 (WILSON et al., 2000). Para aprofundar o seu conhecimento sobre o desenvolvimento histórico da Reabilitação Neuropsicológica, leia o artigo: “Avaliação e Reabilitação Neuropsicológica: Desenvolvimento Histórico e Perspectivas Atuais” de Hamdan, Pereira e Riechi (2011) e o artigo “Neuropsicologia no Brasil: passado, presente e futuro” de Hazin et al. (2018), disponíveis nos seguintes links respectivamente: <https:// revistas.ufpr.br/psicologia/article/viewFile/25373/17001> e <http:// pepsic.bvsalud.org/pdf/epp/v18nspe/v18nspea07.pdf>. As investigações e programas de reabilitação neuropsicológica propostas no curso da história concomitantemente possibilitaram uma diversidade teórica e metodológica que sustentasse e orientasse tais intervenções. A seguir vamos aprofundar um pouco sobre o desenvolvimento teórico na reabilitação neuropsicológica. 18 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA 1 No contexto histórico do desenvolvimento da reabilitação neuropsicológica as guerras tiveram um protagonismo central. Podemos perceber claramente isso comparando alguns dados entre a Guerra Civil Americana e a Primeira Guerra Mundial. Disserte sobre os fatores que indicam o início da reabilitação moderna na Primeira Guerra Mundial. R.:____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ___________________________________________________ ___________________________________________________ 3 DESENVOLVIMENTOS TEÓRICOS NA REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA No início desta seção, são necessárias algumas palavras sobre o signifi cado do termo "reabilitação" e sua prática. Reabilitação não é sinônimo de recuperação, se com isso queremos dizer fazer o indivíduo retornar ao que ele era antes da lesão ou doença. Tampouco é sinônimo de tratamento (o tratamento é algo que fazemos às pessoas ou damos às pessoas, como quando administramos medicamentos ou cirurgia). A reabilitação é um processo interativo bidirecional pelo qual os sobreviventes de lesões cerebrais trabalham em conjunto com a equipe profi ssional e outras pessoas para alcançar seu bem-estar físico, psicológico, social e profi ssional/vocacional ideal (MCLELLAN, 1991). 19 TEMAS GERAIS EM REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA Capítulo 1 A Sociedade Britânica de Medicina de Reabilitação (BSRM) e o Royal College of Physicians (RCP) no Reino Unido defi nem reabilitação como “um processo de mudança ativa pelo qual uma pessoa que se tornou incapacitada adquire o conhecimento e as habilidades necessárias para obter melhores funções físicas, psicológicas e social” e, em termos de prestação de serviços, isso implica “o uso de todos os meios para minimizar o impacto de condições incapacitantes e ajudar as pessoas com defi ciência a atingir o nível desejado de autonomia e participação na sociedade” (BSRM/RCP National Clinical Guidelines, 2003 , p. 7). Agora sim, vamos às abordagens teóricas! 3.1 ABORDAGENS INICIAIS PARA A REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA Uma das primeiras tentativas de fornecer um modelo de tratamento foi proposta por Powell (1981), que listou seis procedimentos, desde a estratégia de não intervenção (deixando a natureza seguir seu curso) até a prática (que ele considerava a estratégia mais usada), a tratamentos médicos, bioquímicos e cirúrgicos que às vezes podem ser combinados com outros tratamentos terapêuticos (DURAND, 1982). Embora esses procedimentos possam ter descrito a situação atual naquele momento, eles eram mais uma lista de títulos do que modelos teóricos. Mais próximos a este último no sentido de fornecer teorias de tratamento estão os cinco passos das intervenções neuropsicológicas sugeridas por Gross e Schutz (1986). Esses são: 1. Controle ambiental. 2. Condicionamento estímulo-resposta (S-R). 3. Treinamento de habilidades. 4. Substituição de estratégia. 5. Ciclo cognitivo. Gross e Schutz (1986) afi rmam que essas diretrizes são hierárquicas para que os pacientes que não conseguem aprender sejam tratados com técnicas de controle ambiental; pacientes que podem aprender, mas não conseguem generalizar, precisam de condicionamento S-R; pacientes que podem aprender e generalizar, mas não conseguem se auto-monitorar, devem receber treinamento de habilidades; aqueles que podem se auto-monitorar se benefi ciarão da substituição da estratégia; e aqueles que conseguem gerenciar tudo o que precede e são capazes de defi nir seus próprios objetivos serão os mais adequados para o tratamento incorporado ao modelo do ciclo cognitivo. 20 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA Embora esses “modelos” pareçam plausíveis, é duvidoso que os terapeutas sejam capazes de determinar se um paciente pode ou não aprender ou generalizar. Sabemos, por exemplo, que pacientes em coma são capazes de algum grau de aprendizagem (SHIEL et al., 1993). Além disso, há muito se sabe que podemos ensinar generalização (ZARKOWSKA, 1987). Apesar dessas reservas, as tentativas de Gross e Schutz foram úteis para incentivar os terapeutas da época a pensar em maneiras delidar com os problemas na reabilitação. Elas permanecem, no entanto, “maneiras de tratar”, em vez de modelos a partir dos quais é possível teorizar ou conjecturar. A seguir vamos discorrer sobre as teorias com o foco no funcionamento cognitivo. 3.2 TEORIAS COM O FOCO NO FUNCIONAMENTO COGNITIVO Talvez a área em que a teoria tenha tido maior infl uência na reabilitação esteja no funcionamento cognitivo, particularmente no tratamento de pessoas com transtornos de linguagem e leitura. Como Baddeley (2014) indicou, um modelo pode ser pensado como uma representação que pode nos ajudar a entender e prever fenômenos relacionados. Foi na terapia com afasia que os modelos, nesse sentido, apareceram pela primeira vez (COLTHEART, 1991). Coltheart (1991) argumentou que, para tratar um défi cit, é necessário entender completamente sua natureza e, para isso, é preciso ter em mente como a função é normalmente alcançada. Sem esse modelo, não se pode determinar que tipos de tratamento seriam apropriados. Isso parece plausível, mas o modelo talvez seja limitado na reabilitação porque, embora modelos de linguagem e leitura nos permitam entender a natureza do défi cit ou o que está errado, eles não nos dizem como consertar as coisas. Além disso, as pessoas em reabilitação raramente apresentam défi cits isolados, como difi culdade em entender sentenças reversíveis ou passivas, identifi cadas pelos modelos propostos por Coltheart. A maioria das pessoas terá défi cits cognitivos adicionais, como processamento de informações mais lento ou falta de memória, défi cits de atenção ou executivos. Também é provável que tenham problemas emocionais, sociais e comportamentais. Lembre-se de que na reabilitação é mais provável que os pacientes precisem de ajuda com os problemas do dia a dia, como usar o telefone, em vez de apenas 21 TEMAS GERAIS EM REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA Capítulo 1 ajudar com o comprometimento identifi cado pelos modelos. É preciso entender que, embora haja pouca dúvida de que os modelos teóricos da neuropsicologia cognitiva tenham sido infl uentes para nos ajudar a entender e explicar fenômenos relacionados e desenvolver procedimentos de avaliação (WILSON; PATTERSON, 1990), eles são insufi cientes para o desenvolvimento de programas de reabilitação (WILSON, 2002). Muito bem, você acabou de vislumbrar as contribuições das teorias com foco no funcionamento cognitivo, agora vamos introduzir as teorias com o foco na aprendizagem. 3.3 TEORIAS COM O FOCO NA APRENDIZAGEM Para Baddeley (1993, p. 235) "uma teoria da reabilitação sem um modelo de aprendizagem é um veículo sem um motor". Ele continuou dizendo que na reabilitação há difi culdade em distinguir entre aprendizagem e memória. A memória (pelo menos a memória episódica), ele sugere, é a capacidade de recordar eventos pessoais, enquanto a aprendizagem é qualquer sistema ou processo que resulta na modifi cação do comportamento pela experiência. A teoria da aprendizagem e a modifi cação do comportamento estão intrinsecamente ligadas e têm sido usadas na reabilitação há muitos anos, inclusive na reabilitação cognitiva. Goodkin (1966) foi um dos primeiros a defender explicitamente técnicas comportamentais com adultos com lesão cerebral. O condicionamento operante da estratégia comportamental foi aplicado inicialmente a problemas motores, mas Goodkin (1966) posteriormente o aplicou para ajudar um paciente com AVC com disfasia a melhorar as habilidades de linguagem. Não foi até o fi nal da década de 1970, no entanto, que modelos e técnicas comportamentais começaram a ser aplicados seriamente a problemas cognitivos. Atualmente, abordagens comportamentais são amplamente usadas na reabilitação para ajudar a reduzir ou compensar défi cits cognitivos. Alderman e seus colegas, por exemplo, demonstraram originalidade na aplicação de estratégias da psicologia comportamental a pacientes com problemas executivos e problemas comportamentais (ALDERMAN; FRY; YOUNGSON, 1995). As técnicas de terapia comportamental e modifi cação de comportamento foram adaptadas e modifi cadas para ajudar as pessoas com distúrbios de memória, percepção, linguagem e leitura (WILSON, 1999). Essas técnicas são 22 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA incorporadas à reabilitação cognitiva porque fornecem uma estrutura, uma maneira de analisar problemas cognitivos, um meio de avaliar as manifestações cotidianas de problemas cognitivos e um meio de avaliar a efi cácia do tratamento. Elas também nos fornecem muitas estratégias, como modelação, modelagem, encadeamento, dessensibilização, inundação, extinção, reforço positivo, custo da resposta e assim por diante. Todas essas estratégias podem ser adaptadas para atender a propósitos específi cos de reabilitação. A partir desta introdução das teorias focadas na aprendizagem você já deve ter percebido a valiosa contribuição desta abordagem teórica para a reabilitação neuropsicológica. A próxima abordagem que veremos é aquela das teorias com o foco na emoção. Vamos lá? 3.4 TEORIAS COM O FOCO NA EMOÇÃO Isolamento social, ansiedade, depressão e outros problemas emocionais são comuns em sobreviventes de lesão cerebral (WILSON et al., 2009). Reconhecer e lidar com as consequências emocionais da lesão cerebral se tornou cada vez mais importante nos últimos anos. Prigatano (1999) sugere que a reabilitação provavelmente falhará se não lidarmos com os problemas emocionais. Consequentemente, a compreensão de teorias e modelos de emoção é crucial para uma reabilitação bem-sucedida. Desde que o livro altamente infl uente de Aaron T. Beck, Terapia Cognitiva e Distúrbios Emocionais, apareceu em 1976, a terapia comportamental cognitiva (TCC) tornou-se um dos procedimentos psicoterapêuticos mais importantes e mais bem validados. Uma atualização do modelo de Beck apareceu em 1996 (SALKOVSKIS, 2004). Um de seus principais pontos fortes foi o desenvolvimento de teorias clinicamente relevantes. Existem várias teorias não apenas para depressão e ansiedade, mas também para pânico, transtornos obsessivo- compulsivos e fobias. Mateer e Sira (2006) sugerem que a TCC é adequada para melhorar as habilidades de enfrentamento, ajudando os clientes a gerenciar difi culdades cognitivas e abordando a ansiedade e a depressão mais generalizadas no contexto de uma lesão cerebral. Um desenvolvimento mais recente, utilizando muitas das técnicas na TCC, é a Terapia Focada na Compaixão (TFC). Com base no trabalho de Gilbert (2005), a TFC enfatiza a experiência emocional associada a problemas psicológicos. Ela se baseia em abordagens sociais, evolucionárias (especialmente a teoria do 23 TEMAS GERAIS EM REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA Capítulo 1 apego) e neurofi siológicas para mudar sentimentos perturbados. Uma diferença entre a TCC e a TFC é que o foco é diferente. A TFC promove o desenvolvimento de emoções como gentileza, cuidado, apoio, incentivo e validação como parte da experiência de intervenções psicológicas. Por exemplo, se um cliente identifi ca alguns pensamentos negativos e pode gerar alternativas, ele é treinado para gerar sentimentos de calor, bondade, compreensão e apoio a essas alternativas. Essa abordagem tem sido usada para pessoas com lesão cerebral traumática (ASHWORTH, 2014). Inerente à abordagem TFC está a visão de que podemos ser gentis, compassivos e compreensivos em relação a nós mesmos, ou podemos ser críticos e até odiar a nós mesmos. Pessoas com autocrítica podem experimentar uma série de difi culdades de saúde mental, enquanto aquelas que são auto- compassivas são muito mais resistentes a esses problemas. Uma abordagem simples da TFC é identifi car a autocrítica e ajudar as pessoas a se concentrarem na autocompaixão. Ashworth (2014) relata pacientes que se benefi ciaram da TFC. A psicoterapia analítica também é usada na reabilitação. Talvez o proponente mais conhecido dessa abordagem para o tratamentode pessoas sobrevivendo lesão cerebral traumática (LCT) seja Prigatano. Ele descreve sua abordagem (baseada na Abordagem da Terapia Milieu de Ben-Yishay) em seu livro Princípios de Reabilitação Neuropsicológica (PRIGATANO, 1999). Um estudo analisou os efeitos de um programa de reabilitação que oferece psicoterapia e reabilitação cognitiva em comparação com apenas reabilitação cognitiva. O primeiro grupo mostrou um funcionamento emocional signifi cativamente melhorado, incluindo menor ansiedade e depressão. Os autores concluíram que “psicoterapia comportamental cognitiva e remediação cognitiva parecem diminuir o sofrimento psicológico e melhorar o funcionamento cognitivo entre pessoas que vivem na comunidade com LCT leve e moderado” (TIERSKY; ANSELMI; JOHNSTON, 2005, p. 1565). Em resumo, pode-se dizer que lidar com as consequências emocionais da lesão cerebral pode fazer toda a diferença entre um resultado bem-sucedido e um malsucedido. Agora vamos falar um pouco sobre as teorias com o foco na avaliação. 3.5 TEORIAS COM O FOCO NA AVALIAÇÃO Os neuropsicólogos clínicos estão fortemente envolvidos na avaliação, isto é, na coleta sistemática, organização e interpretação de informações sobre uma 24 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA pessoa e sua situação. Normalmente, várias abordagens teóricas são usadas nessas avaliações. Isso inclui (i) a abordagem psicométrica baseada em análise estatística, (ii) a abordagem de localização pela qual o examinador tenta avaliar quais partes do cérebro estão danifi cadas, (iii) avaliações derivadas de modelos teóricos de funcionamento cognitivo, como mencionado acima, (iv) ) defi nição de uma síndrome através da exclusão de outras explicações, como falta de visão e capacidade de nomeação prejudicada, por não reconhecer objetos como vistos na agnosia; e (v) avaliações ecologicamente válidas que preveem problemas na vida cotidiana. As avaliações neuropsicológicas, no entanto, não podem fornecer todas as informações necessárias para a reabilitação cognitiva. Embora os testes nos permitam criar uma imagem dos pontos fortes e fracos da pessoa com lesão no cérebro, eles não conseguem identifi car com detalhes sufi cientes a natureza dos problemas cotidianos enfrentados pela pessoa e pela família. Precisamos saber (i) quais problemas estão causando a maior difi culdade, (ii) quais estratégias de enfrentamento são usadas, (iii) se os problemas são exacerbados por ansiedade ou depressão, (iv) se essa pessoa pode voltar ao trabalho e assim por diante. As respostas para essas perguntas podem ser obtidas a partir de procedimentos mais funcionais ou comportamentais, incluindo observação direta (em ambientes naturais ou simulados) ou através de medidas de autorrelato ou técnicas de entrevista. Agora vamos falar brevemente sobre as teorias com o foco na identidade. 3.6 TEORIAS COM O FOCO NA IDENTIDADE Existem muitas teorias e modelos que abordam a identidade, a maioria dos quais é abordada de maneira abrangente em uma excelente obra de Ownsworth (2014). A teoria da identidade social (TAJFEL; TURNER, 1979) refere-se ao autoconceito de uma pessoa derivado de sua participação percebida em um grupo social relevante. De acordo com essa teoria e com a teoria da auto-categorização (JETTEN et al., 2012), a participação em grupos é parte integrante do nosso senso de self e não é facilmente separável do mesmo. Quando as pessoas são forçadas, por exemplo, a desistir do trabalho, perdem sua identidade profi ssional e podem sofrer perda de autoestima. A perda de membros do grupo pode signifi car menos apoio social, pior qualidade de vida e uma sensação prejudicada de bem-estar. Haslam et al. (2008) aplicaram a teoria da identidade social a 25 TEMAS GERAIS EM REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA Capítulo 1 sobreviventes de AVC. Eles sugeriram que a participação em vários grupos protegia as pessoas contra os efeitos negativos da lesão cerebral. Ownsworth (2014) nos lembra que uma lesão no cérebro pode afetar praticamente qualquer aspecto do funcionamento e, no nível mais profundo, pode alterar o senso de self ou as qualidades essenciais que defi nem quem somos. Como um dos clientes de Oliver Zangwill disse: "Vivo nas ruínas do meu antigo self". Claire, uma mulher com severa prosopagnosia e perda de conhecimento das pessoas, sente que perdeu a essência de seu antigo self, dizendo que sente que se espatifou na vida de outra pessoa (WILSON; ROBERTSON; MOLE, 2015). Um modelo infl uente dos últimos anos é o modelo em forma de "Y". Este modelo sugere que “um conjunto complexo e dinâmico de fatores biológicos, psicológicos e sociais interage para determinar as consequências da lesão cerebral adquirida” (GRACEY; EVANS; MALLEY, 2009; p. 867). O modelo integra descobertas de ajuste psicossocial, conscientização e bem-estar. É, essencialmente, uma tentativa de reduzir a discrepância entre o antigo "self" e o novo "self". É importante ressaltar que abordar questões de identidade tornou-se cada vez mais importante na reabilitação com o modelo em forma de "Y", um dos pilares do Oliver Zangwill Center. Muito bem, você acabou de ler sobre as teorias com foco na identidade, vamos introduzir agora as teorias com o foco na abordagem holística. 3.7 TEORIAS COM O FOCO NA ABORDAGEM HOLÍSTICA Ben-Yishay e Prigatano (1990) fornecem um modelo de estágios hierárquicos na abordagem holística através do qual o paciente deve trabalhar na reabilitação. Estes são, em ordem: engajamento, conscientização, domínio, controle, aceitação e identidade. Uma das principais mensagens dessa abordagem é que é inútil separar os aspectos cognitivos, sociais, emocionais e funcionais da lesão cerebral, uma vez que a forma como nos sentimos afeta o modo como nos comportamos e como pensamos. Os programas holísticos, explícita ou implicitamente, tendem a trabalhar nos estágios hierárquicos de Ben-Yishay e preocupam-se com: (i) aumentar a conscientização do indivíduo sobre o que aconteceu com ele; (ii) aumentar a aceitação e a compreensão do que aconteceu; (iii) fornecer estratégias ou 26 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA exercícios para reduzir problemas cognitivos; (iv) desenvolvimento de habilidades compensatórias; e (v) fornecer aconselhamento profi ssional. Todos os programas holísticos incluem terapia de grupo e individual. Cicerone, Dahlberg e Kalmar (2005, 2011) fornecem evidências da efi cácia de abordagens holísticas quando dizem: “Recomenda-se a reabilitação neuropsicológica holística abrangente para melhorar a participação pós-aguda e a qualidade de vida após LCT moderada ou grave” (CICERONE; DAHLBERG; KALMAR, 2011, p. 526). Nos tópicos anteriores temos um pouco sobre algumas abordagens teóricas para a reabilitação neuropsicológica como aquelas que focam no funcionamento cognitivo, na aprendizagem, na identidade, na avaliação, na emoção e em programas holísticos. Diante dessa variedade de teorias e modelos podemos nos perguntar por que precisamos de inúmeras teorias e modelos de reabilitação? Vamos responder esta pergunta a seguir. 3.8 POR QUE PRECISAMOS DE INÚMERAS TEORIAS E MODELOS EM REABILITAÇÃO As pessoas com lesão cerebral provavelmente têm vários problemas cognitivos (por exemplo, com atenção, memória, funções executivas, busca de palavras etc.). Também é provável que tenham problemas não-cognitivos adicionais, como ansiedade, depressão, défi cits de habilidades sociais e assim por diante. Consequentemente, é improvável que qualquer teoria, modelo ou estrutura possa resolver todas essas difi culdades. Estar associado a uma única abordagem provavelmente levará a práticas clínicas precárias. A reabilitação precisa de uma ampla base ou bases teóricas e, para esse fi m, Wilson (2002) publicou um modelo provisório e sintetizado, incorporando muitas áreas que precisam ser consideradas no planejamento de programas de reabilitação. Qualquer programa de reabilitação precisacomeçar com o paciente e sua família: quais são suas necessidades, o que eles esperam alcançar, o que é mais importante para eles e qual é sua formação cultural? A natureza, extensão e gravidade dos danos cerebrais devem ser determinadas. Precisamos estar cientes dos padrões de recuperação. Problemas cognitivos, emocionais, psicossociais e comportamentais precisam ser avaliados. Teorias e modelos de linguagem, leitura, memória, funcionamento executivo, 27 TEMAS GERAIS EM REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA Capítulo 1 atenção e percepção estão disponíveis para nos permitir entender padrões de funcionamento. As ferramentas de avaliação nos permitem determinar difi culdades cognitivas, emocionais, comportamentais e sociais. Avaliações comportamentais ou funcionais podem ser usadas para complementar procedimentos de avaliação padronizados. Devemos estar cientes das teorias da aprendizagem. Finalmente, qualquer intervenção precisa ser avaliada. Para conhecer mais sobre as abordagens teóricas da reabilitação neuropsicológica e tipos de reabilitação quanto à abordagem teórica neurológica leia os artigos: “A reabilitação neuropsicológica sob a ótica da psicologia comportamental” de Livia Pontes e Maria Hübner (2008) e “Métodos em reabilitação neuropsicológica” de Gigiane Gindri et al. (2012). 1 A terapia comportamental cognitiva (TCC) tornou-se um dos procedimentos psicoterapêuticos mais importantes e mais bem validados. Além de proporcionar um desenvolvimento de teorias clínicas efetivas, a TCC é adequada para a reabilitação no que tange ao gerenciamento de diversas difi culdades cognitivas. Partindo da TCC a Terapia Focada na Compaixão (TFC) também tem sido muito utilizada na reabilitação neuropsicológica. O que é a TFC? E quais são seus benefícios na reabilitação neuropsicológica? R.:____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ___________________________________________________ 28 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA 4 TRATAMENTO BASEADO EM EVIDÊNCIAS Em nossos sistemas atuais de assistência à saúde, torna-se cada vez mais importante mostrar que nossas intervenções são efi cazes, como também econômicas. Os médicos são obrigados a usar protocolos de tratamento baseados em evidências e os pesquisadores são incentivados a estudar a clínica e a relação custo-benefício do tratamento. Os formuladores de políticas e a gerência precisam tomar decisões sobre quais formas de atendimento oferecer em uma sociedade onde os custos com saúde estão crescendo e os orçamentos estão diminuindo. É possível fazer uma distinção entre efetividade (se o tratamento funciona, como é que funciona, para quem funciona), efi cácia (se realmente ajuda) e efi ciência (relação custo-benefício). Do ponto de vista do paciente, a efi cácia é a mais relevante. Neste tópico, apresentamos um esquema básico para planejamento e avaliação do tratamento neuropsicológico, proposto por Wilson, Herbert e Shiel (2003). Nesta abordagem, são descritas 11 etapas, desde a especifi cação do comportamento a ser alterado até o planejamento da generalização dos resultados do tratamento. Além disso, diferentes formas de evidência de tratamento em geral são discutidas a partir de estudos de caso único, para delineamentos de grupos e, fi nalmente, o ensaio clínico randomizado (ECR). Atenção especial será dada ao delineamento experimental de caso único (DECU), que oferece uma alternativa valiosa quando não é possível realizar estudos em grupo em larga escala. Os padrões de qualidade para relatar os resultados de ECRs e DECUs são discutidos. Finalmente, apresentamos uma visão geral dos fundamentos dos estudos de avaliação econômica. A aplicação de informações gerais sobre medicina baseada em evidências (MBE) à reabilitação neuropsicológica, em particular, é feita e ilustrada com exemplos. Lembre-se de que um dos elementos principais das boas práticas clínicas é tornar explícitas nossas ações clínicas. Isso não é importante apenas para o clínico, mas também para os outros membros da equipe de tratamento. Além disso, é de grande importância para os pacientes e seus cuidadores. A avaliação de tratamentos individuais fornece informações sobre a efi cácia. A explicitação de suas ações clínicas melhorará a comunicação entre as diferentes partes envolvidas e ajudará o tratamento multidisciplinar e interdisciplinar, pois os objetivos são compartilhados e o quadro de referência é conhecido por todos. Uma das maneiras de fazer isso é planejando e avaliando o tratamento de cada 29 TEMAS GERAIS EM REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA Capítulo 1 paciente em um plano de tratamento. Wilson, Herbert e Shiel (2003) propuseram um plano básico de 11 etapas para o tratamento, conforme descrito na tabela a seguir. TABELA 1 - CONFIGURANDO UM PLANO DE TRATAMENTO Etapa Ação Exemplo 1 Especifi que o comportamento a ser alterado Concentração fraca 2 Decida se uma defi nição operacional é ou não necessária Não é capaz de ater a uma tarefa por mais de 3 minutos 3 Declare as metas ou objetivos do tratamento Ater a uma tarefa por 3 minutos, 2 vezes ao dia, por 5 dias consecutivos; por exemplo, escovação dos dentes 4 Avalie o problema (faça uma linha de base) Desenvolver uma escala de classifi cação para os cuidadores avaliarem o comportamento atencional durante a escovação dos dentes 5 Considere motivadores ou reforçadores Use feedback e elogios específi cos e positivos; evite multitarefa 6 Planeje o tratamento Quem, quando, onde, com que frequência, quais estratégias etc. 7 Comece o tratamento Informe o paciente, cuidadores e equipe de tratamento quando o tratamento começará 8 Monitore o progresso do tratamen- to Medição regular do problema, por exemplo, use a escala de classifi cação (etapa 4) todos os dias e avalie semanalmente 9 Avalie tratamento Avaliações regulares são discutidas dentro da equipe e comparadas para monitorar o progresso 10 Altere se necessário Os objetivos da etapa 3 podem ter sido muito ambiciosos, altere objetivos para um objetivo mais realista; ou as metas são cumpridas e novas metas precisam ser defi nidas 11 Planeje para generalização Como a concentração pode ser melhorada durante outras tarefas além da escovação dos dentes? FONTE: Adaptado de Wilson, Herbert e Shiel (2003) 4.1 MEDICINA BASEADA EM EVIDÊNCIAS A medicina baseada em evidências (MBE) é uma abordagem para cuidar de pacientes que envolve o uso explícito e criterioso da literatura de pesquisa clínica combinada com uma compreensão da fi siopatologia, experiência clínica e preferências do paciente para ajudar na tomada de decisões clínicas. Embora a MBE tenha sido projetada no campo da medicina, os princípios e a prática podem 30 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA ser facilmente aplicados à reabilitação neuropsicológica. A MBE é projetada para tomar decisões de tratamento menos tendenciosas às preferências ou conhecimentos dos profi ssionais. Além disso, a aplicação dos processos de MBE ajuda a garantir que a forma mais efi caz de atendimento seja oferecida com base em argumentos e responsabilidades, conforme suportado por evidências científi cas. O termo foi originalmente usado para um método educacional da McMaster Medical School no Canadá, no qual os médicos eram ensinados a melhorar suas decisões para pacientes individuais. A aplicação da MBE na prática clínica é realizada por meio de um método de cinco etapas (SCHOUTEN; OFFRINGA; ASSENDELFT, 2014): 1. Traduza o problema clínico em uma pergunta respondível. 2. Pesquise com efi ciência as melhoresevidências. 3. Avalie as evidências em termos de qualidade metodológica e aplicabilidade em sua própria situação clínica. 4. Tome uma decisão com base nas evidências. 5. Avalie a qualidade desse processo regularmente. A quantidade de evidências na medicina (atualmente) é esmagadora e precisa ser reunida e traduzida em diretrizes baseadas em evidências para uso na prática clínica (ou seja, prática baseada em evidências). FIGURA 1 - PROCESSO DE TOMADA DE DECISÃO CLÍNICA FONTE: O autor Dessa forma, os médicos podem usar as melhores e mais atualizadas evidências para decisões sobre pacientes individuais. Na defi nição da MBE, o médico deve usar a evidência com cuidado, explícita e criteriosamente. Além das melhores evidências, o clínico usará as preferências do paciente e as informações disponíveis sobre o prognóstico do paciente para orientar a decisão, conforme mostrado na Figura 1. 31 TEMAS GERAIS EM REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA Capítulo 1 Algumas armadilhas comuns na MBE são o uso de hábitos, regras e rituais dos profi ssionais (por que as evidências seriam melhores do que o que tenho feito nos últimos 20 anos?) e a estrutura muitas vezes hierárquica em um ambiente médico. Por exemplo, o chefe do departamento pode liderar decisões sobre o tratamento, e não as evidências. Além disso, os pacientes se tornaram mais informados e capacitados ao longo dos anos, o que torna o papel das preferências dos pacientes mais infl uente na tomada de decisões. Um dos desenvolvimentos nessa linha é a tomada de decisão compartilhada ou colaborativa, um processo no qual médicos e pacientes se comunicam sobre as melhores evidências disponíveis para orientar a decisão do tratamento. É importante ressaltar que no campo da reabilitação neuropsicológica, usamos, por exemplo, abordagens de reabilitação centradas no cliente, nas quais é usado o estabelecimento de metas colaborativas entre a equipe de tratamento, o indivíduo com lesão cerebral e sua família. Agora vamos ver um pouco sobre as evidências da efi cácia de tratamentos de reabilitação neuropsicológica com base em estudos de grupo. 4.2 MELHOR EVIDÊNCIA COM BASE EM ESTUDOS DE GRUPO O ensaio clínico randomizado (ECR) oferece o melhor design para estudar a efi cácia do tratamento. O relato de ECRs pode ser aprimorado usando listas de verifi cação bem aceitas, como a declaração CONSORT (Consolidated Standards of Reporting Trials), desenvolvida com a intenção de facilitar o relato claro e transparente dos ensaios clínicos (CONSORT Statement, 2010). Uma revisão recente mostrou que o endosso de periódicos científi cos ao CONSORT pode de fato benefi ciar a integridade dos relatórios dos ensaios (TURNER et al., 2012). Originalmente, a declaração CONSORT foi desenvolvida para uso em ensaios farmacológicos. Em estudos de tratamento não farmacológico – como aqueles que avaliam reabilitação neuropsicológica – nem sempre é possível oferecer uma intervenção falsa, estudos às cegas para pacientes e profi ssionais também é difícil. Como resultado, esses ensaios clínicos randomizados poderiam potencialmente ser classifi cados como de qualidade inferior e, portanto, uma lista de verifi cação alternativa para o relatório de estudos não farmacológicos foi desenvolvida. Especifi camente, a lista de verifi cação para avaliar um relatório de um estudo não farmacológico (CLEAR-NPT) é uma ferramenta mais adequada para avaliar 32 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA criticamente os ECRs no campo da reabilitação neuropsicológica. A cada ano, o número de artigos revisados por pares no campo da medicina está crescendo e tornou-se impossível para os médicos coletar as evidências por eles mesmos. Bjork, Roos e Lauri (2009) estimaram que em 2006, 1,346 milhão de artigos foram publicados em 23.750 periódicos. O crescimento médio anual dos índices na Web of Sciences é estimado em 2,5%. Uma das maneiras mais efi cientes de traduzir essa enorme quantidade de evidências na prática clínica é usar diretrizes baseadas em evidências. Geralmente, são publicados por sociedades profi ssionais, organizações governamentais ou equipes de pesquisadores e clínicos trabalhando juntos para formular recomendações para a prática clínica (como o grupo INCOG). Um exemplo no campo da reabilitação de lesões cerebrais em adultos são as diretrizes da Scottish Intercollegiate Guidelines Network (SIGN, 2013). Lembre-se de que no campo da reabilitação neuropsicológica, as recomendações do INCOG para o manejo da cognição após lesão cerebral traumática podem ser usadas. Este grupo internacional de pesquisadores e médicos (conhecido como INCOG) se reuniu para desenvolver diretrizes de prática clínica para reabilitação cognitiva após lesão cerebral traumática. O grupo INCOG formulou recomendações sobre cinco tópicos: amnésia pós-traumática e delírio (PONSFORD et al., 2014a), atenção e velocidade de processamento de informações (PONSFORD et al., 2014b), função executiva e autoconsciência (TATE et al., 2014), comunicação cognitiva (TOGHER et al., 2014) e memória (VELIKONJA et al., 2014). O grupo liderado por Keith Cicerone formulou recomendações para reabilitação cognitiva após acidente vascular cerebral e lesão cerebral traumática com base em uma série de revisões sistemáticas avaliando a efi cácia da reabilitação cognitiva (CICERONE; DAHLBERG; KALMAR, 2000, 2005, 2011). Os resultados dessas revisões foram traduzidos no manual de reabilitação cognitiva publicado pelo Congresso Americano de Medicina Física (HASKINS, 2012). Outra maneira de reunir as melhores evidências é usar as informações da Cochrane Collaboration, que é uma rede global independente de pesquisadores, profi ssionais, pacientes, prestadores de cuidados e pessoas interessadas em reunir informações de alta qualidade para tomar decisões de saúde. Os resultados das revisões sistemáticas são publicados na Cochrane Reviews, que pode ser acessada facilmente no site: <https://www.cochranelibrary.com/>. Para o campo da reabilitação neuropsicológica, revisões relevantes estão disponíveis em muitos tópicos, por exemplo: reabilitação para défi cits de memória; défi cits de atenção; disfunção executiva; negligência espacial; distúrbios perceptivos; apraxia; afasia; ansiedade após acidente vascular cerebral; ansiedade após lesão cerebral 33 TEMAS GERAIS EM REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA Capítulo 1 traumática; depressão após acidente vascular cerebral; e depressão após lesão cerebral traumática. Acesse o site do Cochrane Brazil (<https://brazil.cochrane.org/>) que é uma organização não governamental, sem fi ns lucrativos e sem fontes de fi nanciamento internacionais, que tem por objetivo contribuir para o aprimoramento da tomada de decisões em Saúde, com base nas melhores informações científi cas disponíveis. Sua missão consiste em elaborar, manter e divulgar revisões sistemáticas de ensaios clínicos randomizados, o melhor nível de evidência para tomada de decisões em saúde. Inaugurado em 1996, o Cochrane Brazil, um dos 13 Centros da Colaboração e 28 extensões, promove workshops de revisão sistemática e metanálise e realiza consultorias científi cas para autores de Revisões Sistemáticas. O Centro já propiciou ao País cerca de duas centenas de publicações internacionais. O Centro possui produção científi ca comparável à de instituições similares dos países europeus e funciona como laboratório para a pesquisa e ensino de graduação e pós-graduação. Lembre-se de que a evidência da efi cácia da intervenção, resumida em metanálises e revisões sistemáticas e traduzida em diretrizes e recomendações para a prática clínica, é baseada principalmente em ensaios clínicos randomizados (ECR). Contudo, nem sempre é possível implementar um tratamento ou replicar um estudo com base em um ECR, pois podem estar faltando informações essenciais nos relatórios. Primeiro, talvez não seja possível julgar a confi abilidade ea validade dos resultados do estudo e, segundo, informações sobre o tratamento em si podem estar faltando. Por exemplo, noventa e cinco ECRs foram revisados e mostraram que há um grande conjunto de evidências para apoiar a efi cácia da reabilitação cognitiva após lesão cerebral, mas também foi concluído que a maioria dos estudos fornece pouca informação sobre o conteúdo do tratamento real (VAN HEUGTEN; WOLTERS-GREGORIO; WADE, 2012). Isso difi culta o uso dos estudos ao tomar decisões de tratamento na prática clínica diária. Neste tópico, sugerimos que pesquisadores e clínicos usem uma lista de verifi cação ao relatar intervenções de reabilitação em estudos futuros. Os itens desta lista de verifi cação dizem respeito a: (1) características do paciente para ajudar os médicos a decidir se os pacientes no estudo são comparáveis aos 34 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA pacientes em seu próprio ambiente; (2) características do tratamento para ajudar os médicos a decidir se o tratamento é aplicável ao seu próprio ambiente; e (3) informações sobre metas, custos e benefícios do tratamento, para permitir que os médicos antecipem os resultados. Após contemplar as evidências com base em estudos de grupo, lhe convidamos a focar sua leitura nas evidências de delineamentos experimentais de casos únicos. 4.3 DELINEAMENTO EXPERIMENTAL DE CASO ÚNICO Os estudos de delineamento experimental de caso único (DECU) têm uma longa tradição em educação e psicologia e hoje são publicados em periódicos nas áreas de educação especial, terapia comportamental e reabilitação neuropsicológica (EVANS et al., 2014). Os DECUs infl uenciaram a prática clínica em alguns campos, como educação especial e defi ciências intelectuais, mas na maioria dos contextos médicos, os ECRs, revisões sistemáticas e metanálises são valorizadas como níveis mais elevados de evidência. Os DECUs são classifi cados em relatórios de caso único, apesar da base experimental e, às vezes, de um nível de controle muito elevado para fatores de confusão. O termo DECU é usado para descrever estudos nos quais um participante, ou uma série de participantes, é estudado em um delineamento experimental no qual o participante atua como seu próprio controle. As medições são realizadas repetidamente antes da intervenção (fase de linha de base), durante a intervenção (fase de intervenção) e possivelmente durante uma fase de manutenção ou retirada do tratamento. Os fatores de confusão são controlados de várias maneiras. Muitos delineamentos diferentes são usados, como delineamentos de reversão (delineamento ABA ou ABAB), vários delineamentos de linha de base e de tratamento alternado ou paralelo. O poder do DECU está relacionado ao número de medições, e não ao número de participantes, como nos delineamentos de grupo. A validade externa do DECU é aumentada quando o delineamento é replicado com mais participantes. Os DECUs são diferentes das descrições de casos e relatórios de casos, nos quais o delineamento é principalmente observacional e os resultados são descritivos. Os DECUs são preferíveis quando a população de pacientes de interesse mostra alta variabilidade ou quando os casos são raros, o que impede a formação de amostras homogêneas em larga escala, necessárias para realizar ECRs bem 35 TEMAS GERAIS EM REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA Capítulo 1 projetados (GUYATT et al., 1990). Por exemplo, esse pode ser o caso ao estudar pessoas com lesão cerebral com comportamento desafi ador, como agressão. O comportamento alvo pode diferir de paciente para paciente, o que tem consequências para a escolha de uma medida de resultado comum. Um exemplo desse comportamento-alvo específi co é um paciente que frequentemente grita, berra e amaldiçoa e faz ameaça aos enfermeiros durante os cuidados diários (WINKENS et al., 2014). Usando um DECU, esse comportamento verbal agressivo foi avaliado duas vezes por dia por uma enfermeira imediatamente após as atividades de vida diária (AVD), numa escala de 0 a 4: 0 = não grita, berra ou amaldiçoa; 1 = grita, berra ou amaldiçoa uma vez; 2 = grita, berra ou amaldiçoa várias vezes; 3 = grita, berra ou amaldiçoa e ameaça a enfermeira uma ou várias vezes; 4 = comportamento contínuo de gritar, berrar, xingar ou ameaçar. Nos últimos anos, os DECUs ganharam popularidade. Evans et al. (2014) argumentaram que esse interesse renovado se deve às seguintes mudanças: os DECUs agora são classifi cados como evidência de nível 1 pelo Oxford Center para Medicina Baseada em Evidências; agora estão disponíveis ferramentas para avaliar a qualidade dos DECUs e diretrizes para relatar os resultados seus resultados, como a escala de risco de viés em ensaios (TATE et al., 2013); e os métodos para analisar dados deste tipo de delineamento estão melhorando e os métodos de análise estatística estão se tornando mais disponíveis e aceitos. A edição especial sobre DECUs da revista Neuropsychological Rehabilitation (o volume 24, número 3-4, publicada em abril de 2014) é um exemplo do foco crescente em neste tipo de delineamento no campo da reabilitação neuropsicológica. Além da escolha de uma metodologia adequada de delineamento de pesquisa para obtermos mais evidências para fundamentar nossas práticas clínicas em reabilitação neuropsicológica, também surge a questão de uma avaliação econômica de tal empreendimento, pois, sem uma compreensão de custo-benefício, custo-efetividade e custo-utilidade, podemos comprometer toda a investigação e todo programa de reabilitação proposto. É sobre este tema que veremos a seguir. 4.4 AVALIAÇÃO ECONÔMICA A avaliação econômica pode ser defi nida como a análise comparativa de cursos de ação alternativos em termos de custos (uso de recursos) e consequências (resultados, efeitos). O objetivo dos estudos de avaliação econômica é descrever, medir e avaliar todos os custos e consequências alternativas relevantes (por exemplo, intervenção X versus comparador Y). Existem diferentes tipos de 36 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA avaliação econômica, como análise de custo-benefício, análise de custo- efetividade e análise de custo-utilidade. Nas avaliações econômicas parciais (por exemplo, análises de custos e estudos de descrição de custos), são fornecidas menos evidências sobre a descrição, medição ou avaliação de intervenções e tecnologias em saúde, em comparação com avaliações econômicas completas. Para dar um exemplo relevante da diferença entre avaliações econômicas parciais e completas, foi publicado uma avaliação econômica completa de uma intervenção de terapia cognitivo-comportamental aumentada em comparação com o treinamento cognitivo computadorizado para sintomas depressivos pós-AVC (VAN EEDEN et al., 2015). Neste estudo, os custos e os efeitos foram levados em consideração da perspectiva da sociedade. Outro exemplo é a publicação de uma análise de custos de um programa residencial de reintegração comunitária para pacientes com lesões cerebrais graves, onde apenas os custos do programa, mas não os efeitos, foram levados em consideração (VAN HEUGTEN et al., 2011). A pesquisa de avaliação econômica pode ser usada em diferentes áreas da assistência à saúde, independentemente do tipo de intervenção, população ou doença. No entanto, existem certos tipos de intervenção que são de interesse específi co para o campo da pesquisa em avaliação econômica, devido ao seu potencial de serem rentáveis para mais de uma população (por exemplo, intervenções de autogestão). Também existe um interesse crescente por doenças crônicas devido ao seu alto ônus social e fi nanceiro. A lesão cerebral adquirida é universalmente reconhecida como uma doença crônica devido às consequências a longo prazo. Além disso, o número de pessoas que vivem com as consequências de formas graves de lesão cerebral está aumentando como resultado de melhorias nos cuidados médicos agudos e no envelhecimento da população. Portanto,o impacto econômico dessas condições, especialmente acidentes vasculares cerebrais e lesões cerebrais traumáticas em jovens, está se tornando um tópico de grande interesse para pesquisadores e formuladores de políticas de saúde. Provavelmente, isso levará a um aumento nos estudos de avaliação econômica nos próximos anos. 4.5 PRÁTICA BASEADA EM EVIDÊNCIAS Conforme discutido neste tópico, são possíveis diferentes formas de avaliação do tratamento, dependendo do objetivo: este tratamento ajuda meu paciente? Este tratamento funciona e para quem funciona? Quais são os custos e benefícios deste tratamento? Alguns requisitos podem ser formulados para todas as formas de avaliação, independentemente do delineamento. Primeiro, o nível 37 TEMAS GERAIS EM REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA Capítulo 1 de funcionamento do paciente precisa ser avaliado em horários predeterminados, usando os mesmos instrumentos. Além disso, as medidas escolhidas para mensurar a mudança no funcionamento devem estar alinhadas com os objetivos do tratamento; por exemplo, quando o objetivo do tratamento é retornar ao trabalho, não faz sentido repetir um teste neuropsicológico. Finalmente, os estudos em grupo geralmente relatam signifi cância estatística com base nas pontuações médias do grupo total. Na prática clínica, os escores médios são menos relevantes. Outras formas de relatar os resultados dos estudos sobre efi cácia também devem ser consideradas. Essas formas podem incluir o nível de relevância clínica, além da signifi cância estatística, relatando, por exemplo, a porcentagem de pacientes que melhoraram x pontos na medida do resultado primário. Outros parâmetros podem ser relatados nos quais as melhorias individuais são levadas em consideração, como o Índice de Mudança Confi ável (RCI). Por fi m, medidas de resultados individualizadas podem ser usadas no nível do grupo e do indivíduo. A Escala de Objetivos Atingidos (GAS) é uma ferramenta valiosa para esse fi m e demonstrou ser viável na medição dos resultados da reabilitação após lesão cerebral (BOUWENS; VAN HEUGTEN; VERHEY, 2009). As medidas de resultado centradas no cliente também podem formar uma fonte valiosa de informação ao considerar o resultado de um ponto de vista mais individual. A Medida Canadense de Desempenho Ocupacional (COPM) pode, por exemplo, ser usada para defi nir problemas no desempenho ocupacional com base em uma entrevista semiestruturada com o paciente (LAW et al., 1998). Também pode ajudar no estabelecimento de metas e na medição de mudanças no desempenho ao longo do tempo, da perspectiva dos pacientes. Jenkinson, Ownsworth e Shum (2007) mostraram a utilidade clínica da COPM na reabilitação comunitária de indivíduos com lesão cerebral e recomendam a incorporação de autoavaliações no contexto de outros resultados. Para aprofundar a leitura sobre reabilitação neuropsicológica baseada em evidências, leia o capítulo 10 do livro “Reabilitação neuropsicológica: abordagem interdisciplinar e modelos conceituais na prática clínica” de Jaqueline Abrisqueta-Gomez et al. (2012). 38 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA Até este momento conseguimos discorrer sobre o contexto histórico do desenvolvimento da reabilitação neuropsicológica, as abordagens e modelos teóricos que foram propostas para fundamentar a prática clínica da reabilitação e focamos principalmente no modelo de práticas baseadas em evidências. Agora vamos percorrer um outro caminho, vamos introduzir o tema dos mecanismos de recuperação após lesão cerebral adquirida. O intuito aqui é elucidar fenômenos existentes na prática de reabilitação neuropsicológica partindo da compreensão dos modelos teóricos vistos anteriormente. Você está pronto para este desafi o de estudo? Então, vamos lá. 1 Na pesquisa em busca de evidências para fundamentar a prática clínica em reabilitações neuropsicológicas podemos utilizar diversos delineamentos, os mais utilizados são os Ensaios Clínicos Randomizados (ECRs) e os Delineamentos Experimentais de Caso Único (DECUSs). Em quais situações é recomendável a utilização de DECUs? Justifi que sua resposta. R.: ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ 39 TEMAS GERAIS EM REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA Capítulo 1 5 MECANISMOS DE RECUPERAÇÃO APÓS LESÃO CEREBRAL ADQUIRIDA Após a lesão, o cérebro é capaz de um alto grau de autorreparo. Os mecanismos subjacentes à chamada recuperação espontânea não são completamente compreendidos. A única ideia bem estabelecida é que esses mecanismos são baseados na plasticidade do cérebro, na capacidade do cérebro de mudar sua estrutura e função como resultado de processos de recuperação autônomos. Além disso, a plasticidade é estimulada pela aprendizagem e pela estimulação ambiental. Três mecanismos principais de plasticidade são importantes na recuperação espontânea: a resolução da diásquise, a recuperação funcional da rede e os reajustes compensatórios mais orientados por comportamento após danos cerebrais. O conceito de "diásquise", cunhado em 1914 por von Monakow (1914) para explicar a perda de excitabilidade que ocorre distante de uma região cerebral focal, experimentou destinos mistos. No entanto, o recente desenvolvimento de novos métodos para investigar a função cerebral revitalizou o conceito. A recuperação funcional da rede tem sido intensivamente estudada em pacientes com défi cits motores e afasia, enquanto mecanismos compensatórios comportamentais foram encontrados em vários domínios após lesão cerebral adquirida (NUDO, 2013; ROBERTSON; MURRE, 1999). Como mencionado, a plasticidade cerebral também está subjacente aos processos de recuperação com base na experiência e na aprendizagem, comumente referidos como recuperação "dependente da experiência". Essas mudanças na organização cerebral são mais evidentes em pessoas com defi ciências sensoriais (por exemplo, surdas ou cegas congênitas) no chamado fenômeno de plasticidade cross-modal (FRASNELLI et al., 2011), mas no remapeamento plástico induzido pela reabilitação de áreas cerebrais lesionadas também deve estar presente em pessoas com lesão cerebral adquirida. Neste tópico, descrevemos alguns estudos raros que investigaram a reorganização cerebral adaptativa após o treinamento cognitivo. O método mais frequentemente usado para promover a recuperação após danos cerebrais é o ensino de estratégias compensatórias. Nesse caso, a recuperação não é realizada pela restauração de uma função perdida, mas por oferecer aos pacientes com lesão cerebral adquirida estratégias para compensar suas defi ciências. Essas estratégias podem ser amplamente subdivididas em estratégias externas e internas. Estratégias externas são auxílios materiais que ajudam os pacientes a 40 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA superar défi cits cognitivos na vida cotidiana. Estratégias internas são métodos verbais e não verbais para melhorar o processamento e retenção de informações, resolução de problemas e autorregulação (por exemplo, mnemônica e treinamento autoinstrucional). No caso do treinamento de estratégia compensatória, os mecanismos de recuperação são bem conhecidos no nível da tarefa, mas não há estudos até o momento que investiguem a recuperação no nível cerebral. A lesão cerebral adquirida frequentemente afetagrandes porções das áreas corticais, mas também pode danifi car regiões cerebrais subcorticais, como no acidente vascular cerebral (AVC) ou lesão cerebral traumática (LCT). No entanto, na maioria dos indivíduos, a recuperação espontânea ocorre quase invariavelmente dentro de um período que pode variar de semanas a meses após a lesão. Esse processo de recuperação funcional pode ser defi nido como espontâneo quando indivíduos – pacientes ou animais experimentais – não foram submetidos a procedimentos formais de treinamento em reabilitação e a recuperação é independente da experiência. Essa defi nição de recuperação espontânea, no entanto, levanta dois problemas. Como argumentado por Mogensen (2012), é difícil supor que a recuperação, mesmo na ausência de treinamento formal, seja independente da experiência. Pacientes em recuperação de danos cerebrais, por exemplo, são constantemente expostos às demandas da vida cotidiana. Atividades como caminhar, comunicar, alimentar, vestir e tomar medicamentos não são independentes da experiência e podem ser consideradas como tipos informais de treinamento. Segundo, muitas vezes é difícil distinguir os processos de recuperação espontânea verdadeiros da recuperação devido à compensação comportamental (NUDO, 2013). Após o AVC, por exemplo, os movimentos de apontar podem ser feitos mesmo por indivíduos com comprometimento motor muito grave. No entanto, a maioria dos sujeitos usa o tronco em vez do braço para realizar esses movimentos (CIRSTEA; LEVIN, 2000). O uso dessas estratégias compensatórias está relacionado ao grau de comprometimento motor; enquanto indivíduos gravemente prejudicados recrutam essas estratégias em grande parte em um esforço para compensar seus défi cits motores, indivíduos levemente comprometidos tendem a empregar padrões de movimento de braço mais convencionais. Apesar dessas advertências, vários estudos mais antigos, realizados quando a reabilitação não era tão comum, apontam para uma recuperação espontânea considerável dos processos cognitivos, principalmente durante os primeiros seis meses após lesão cerebral. Em um estudo transversal, Bond (1976) constatou que, mesmo sem intervenções de reabilitação, o QI de pacientes com LCT com amnésia pós-traumática (APT) de menos de 11 semanas se recuperou substancialmente nos primeiros seis meses após o início e estabilizou-se para 41 TEMAS GERAIS EM REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA Capítulo 1 dentro de um desvio padrão da média. Após esse período, observou-se uma taxa mais lenta de recuperação, que atingiu o máximo após 24 meses. Em outro estudo dessa época (BOND; BROOKS, 1976), realizado longitudinalmente com um subconjunto dos pacientes do estudo Bond (1976), também foi constatado que a maior parte da melhora nos escores de QI ocorreu durante os primeiros seis meses, com apenas uma ligeira mudança de seis meses para dois anos após a lesão. Embora ambos os estudos citados acima possam ser criticados por vários motivos, entre outros pela ausência de um grupo controle, os efeitos de aprendizado devido ao uso repetido do mesmo teste de QI, a ausência de escores de QI pré-mórbidos e outros fatores de confusão, eles apoiam a ideia de que o cérebro é capaz de um alto grau de autorreparo. Outro exemplo claro de recuperação espontânea é o estudo dos tempos de reação. Van Zomeren e Deelman (1978) traçaram as curvas de recuperação dos tempos de reação em pacientes não tratados com traumatismo craniano fechado com graus variados de gravidade. Nesse caso, os tempos de reação de todos os grupos de gravidade melhoraram rapidamente durante os primeiros seis a oito meses, enquanto o progresso diminuiu nos 18 meses seguintes. Pesquisas indicam que não são apenas os pacientes com LCT que melhoram espontaneamente durante os estágios iniciais de sua doença; recuperação espontânea também tem sido consistentemente relatada em pacientes com AVC. O curso natural da afasia, por exemplo, tem sido frequentemente mapeado. Lendrem e Lincoln (1985), por exemplo, acompanharam a recuperação espontânea das habilidades de linguagem em 65 pacientes com AVC alocados aleatoriamente no grupo sem tratamento de um estudo desenvolvido para avaliar a terapia da fala e avaliado em intervalos de seis semanas. Treze outros pacientes identifi cados como tendo afasia na admissão já haviam se recuperado tão bem após quatro semanas que foram excluídos de mais participação. As habilidades linguísticas dos 52 pacientes restantes melhoraram mais entre 4 e 10 semanas após o AVC, com poucas alterações a partir de então. Mais recentemente, Farnè et al. (2004) seguiram o curso natural de recuperação da negligência visuoespacial em um grupo de 23 pacientes com AVC, usando vários testes para negligência pessoal e extrapessoal. Os resultados mostram que, durante o estágio agudo (1 a 6 semanas após o início e 1 e 2 semanas depois), ambos os tipos de negligência se recuperam signifi cativamente na maioria dos pacientes. Um subconjunto de oito pacientes mostrou melhora ainda maior no estágio crônico (três meses após o AVC). Em um estudo mais recente de negligência, Nijboer et al. (2013) seguiram o curso de recuperação da negligência visuoespacial em uma amostra de 51 pacientes que não receberam treinamento específi co para negligência. Os resultados mostraram que a 42 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA recuperação mais signifi cativa ocorre nas primeiras 12 a 14 semanas. Após esse período, as curvas de recuperação, medidas nos testes de bissecção de linha e cancelamento de letras, fi cam uniformes e a recuperação por negligência é insignifi cante. Vimos até agora que existem evidências sufi cientes para afi rmar que a recuperação espontânea substancial ocorre nas semanas e meses após o surgimento repentino de uma lesão cerebral. No entanto, os mecanismos exatos subjacentes a essas capacidades de autorreparo do cérebro ainda são pouco compreendidos. A compreensão desses mecanismos permitiria o planejamento de tratamentos que estimulam e reforçam ainda mais a recuperação espontânea. Essas terapias podem ter um efeito cumulativo e melhorar a recuperação e os resultados a longo prazo. Três desses mecanismos foram extensivamente estudados: resolução de diásquise, recuperação funcional da rede e os já mencionados mecanismos de adaptação comportamental. A seguir, abordaremos um pouco sobre estes três mecanismos. 5.1 DIÁSQUISE O conceito de diásquise foi introduzido por von Monakow em 1914 para indicar a perda temporária de excitabilidade ou a paralisação funcional dos neurônios em regiões distantes de uma lesão. Esse processo foi descrito como dinâmico e deveria resolver com o tempo. No momento da introdução, os métodos experimentais não eram avançados o sufi ciente para verifi car esse processo e, portanto, desapareceram nas pesquisas em neurociência. Somente na década de 1950 Kempinski (1958) mostrou que a ablação cortical unilateral gerava atividade elétrica deprimida em pontos homotópicos do hemisfério contralesional. Alguns anos depois, Høedt-Rasmussen e Skinhøj (1964) notaram um fl uxo sanguíneo signifi cativamente baixo no hemisfério cerebral clinicamente e angiografi camente normal de um paciente cuja artéria cerebral média contralateral foi ocluída. Apesar dessa escassez de evidências, a diásquise foi usada por muitos anos para interpretar sintomas clínicos que não poderiam estar diretamente relacionados a uma lesão cerebral, na ausência de uma explicação melhor. No entanto, o desenvolvimento de novas técnicas de imagem, especialmente aquelas que medem alterações metabólicas no tecido cerebral, levou a um renascimento do conceito de diásquise. Quando defi nida como qualquer alteração remota no funcionamento do cérebro causada diretamente por uma lesão induzindo comportamento anormal e resolvendo-se com o tempo, a diásquise foi identifi cada em um número crescente de estudos. Por exemplo, Carrera e Tononi 43 TEMASGERAIS EM REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA Capítulo 1 (2014) fi zeram uma distinção entre vários tipos de diásquise. A diásquise focal diz respeito a alterações nas áreas cerebrais bem defi nidas, a uma distância de uma lesão focal, enquanto a diásquise conectada ou de conexão diz respeito a alterações na conectividade entre a(s) área(s) afetada(s) e regiões cerebrais distantes. A diásquise focal foi demonstrada em repouso, bem como no caso de estimulação. A diásquise focal em repouso foi detectada pela primeira vez por Kuhl et al. (1980) e por Baron et al. (1984) por meio de tomografi a por emissão de pósitrons (PET). No estudo de Baron et al. (1984), foi encontrada uma redução signifi cativa do metabolismo (glicose e oxigênio) no cerebelo contralesional de cinco pacientes com AVC com infarto supratentorial unilateral. Em um estudo PET subsequente, Baron et al. (1992) descobriram que em pacientes com lesões talâmicas, o comprometimento neuropsicológico global estava signifi cativamente correlacionado com o hipometabolismo cortical ipsilateral e que a recuperação subsequente do hipometabolismo foi acompanhada por melhora cognitiva em um subgrupo de pacientes com comprometimento neuropsicológico. No entanto, as consequências comportamentais da diásquise são diferentes nas lesões corticais e subcorticais. Enquanto os pacientes com lesões subcorticais e diásquise cortical tendem a apresentar défi cits clínicos semelhantes aos de pacientes com lesões corticais, nas lesões corticais foram encontrados diferentes padrões de diásquise, mas sua relação com a mudança comportamental é menos clara. Após o AVC cortical, por exemplo, o hipometabolismo no tálamo e no estriado ipsilateral tem sido frequentemente encontrado, mas sem consequências comportamentais claras. Os paradigmas de ativação também podem revelar efeitos negativos distantes após danos cerebrais focais, caso em que é apropriado falar sobre diásquise funcional (CARRERA; TONONI, 2014). Em 1990, Di Piero et al. mostraram que a diásquise cerebelar contralesional ainda era visível em um paciente um mês após o AVC durante uma tarefa de ativação do dedo, embora ao mesmo tempo o fl uxo sanguíneo cerebelar em repouso fosse simétrico. Este estudo mostrou que áreas de diásquise ainda podem estar presentes em resposta à estimulação, mas não em repouso. Esse fenômeno pode ser devido à ausência de informações de uma área danifi cada e não à falta de resposta, como demonstrado por Price et al. (2001). Esses autores administraram uma tarefa de leitura a quatro pacientes com problemas na produção da fala e danos à área de Broca. Essa tarefa provocou ativações anormais, não apenas no córtex frontal inferior danifi cado, mas também no córtex temporal posterior inferior não danifi cado. No entanto, em um dos pacientes, a última região poderia ser ativada por outra tarefa, o que provocou ativações temporoparietais generalizadas. A pesquisa de ativação também mostrou que os aumentos de atividade em regiões cerebrais distantes de uma lesão podem ser secundários a uma perda de inibição da área lesionada 44 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA (MOHAJERANI et al., 2011), uma forma de diásquise não prevista na defi nição original de von Monakow. A diásquise de conexão refere-se a mudanças distantes na conectividade dentro e entre os hemisférios cerebrais após lesões focais. Essas mudanças seletivas no acoplamento ocorrem entre os nós de uma rede cerebral defi nida, distante de uma lesão e resolvem-se completamente após o tempo. He et al. (2007), por exemplo, encontraram conectividade funcional interrompida em duas redes de atenção separadas, localizadas em áreas dorsais e dorso-parietais ventrais em 11 pacientes com AVC com negligência visuoespacial. A conectividade dentro da rede ventral do hemisfério direito lesionada predominantemente foi interrompida e não apresentou recuperação após o tempo. Na rede dorsal bilateral estruturalmente intacta, pelo contrário, a conectividade inter-hemisférica só foi transitoriamente interrompida no estágio agudo após o AVC, mas se recuperou completamente após aproximadamente 40 semanas. As consequências comportamentais dessa interrupção inter-hemisférica da conectividade funcional, em particular a detecção de estímulos e a reorientação atencional no campo visual esquerdo, também se recuperaram completamente no estágio crônico. A diásquise também pode ser estudada no conectoma humano, o mapa abrangente de todas as conexões neurais no cérebro. As lesões nos chamados gráfi cos cerebrais fornecem uma maneira de modelar lesões no sistema nervoso, defi nidas como um conjunto de nós (indicando regiões anatômicas) e bordas interconectadas (indicando conexões). A simulação de lesões focais destacou os efeitos generalizados que essas lesões podem ter na conectividade funcional do cérebro (FORNITO et al., 2015). Lesões que afetam áreas com alta centralidade topológica (com “nós de hub” densamente conectados) causam amplas mudanças na conectividade funcional inter-regional, caracterizadas por um padrão complexo de aumentos inter-regionais e diminuições na conectividade, diferentemente dos efeitos das lesões nas regiões menos centrais. A modelagem computacional do cérebro inteiro determinou, assim, que as lesões focais podem ter efeitos difusos na dinâmica cerebral inter-regional, com base na topologia de conexão da região lesionada (ALSTOTT et al., 2009). Portanto, Carrera e Tononi (2014) propuseram um novo subtipo de diásquise, a saber, “diásquise conectomal” defi nida como as mudanças remotas no conectoma estrutural e funcional, incluindo desconexões e reorganização de subgráfi cos. 5.2 RECUPERAÇÃO FUNCIONAL DAS REDES NEURAIS Após danos cerebrais, a recuperação cognitiva e comportamental 45 TEMAS GERAIS EM REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA Capítulo 1 espontânea também pode ser alcançada pela reorganização dos circuitos neurais intactos. O primeiro a sugerir que esse remodelamento das redes neurais poderia estar subjacente à recuperação funcional foi Luria (1963). Mais recentemente, particularmente durante as duas últimas décadas, os estudos de imagem funcionais revelaram evidências de mecanismos de reorganização cerebral por mudanças de atividade em direção às áreas perilesionais do cérebro e em áreas homólogas do hemisfério contralesional. Esses processos de reorganização foram investigados principalmente em afasia e défi cits na função motora. O estudo longitudinal de PET realizado por De Boissezon et al. (2005) ilustra esses processos de reorganização após afasia. Os autores examinaram sete pacientes com afasia subcortical duas vezes: dois meses e um ano após o AVC, enquanto o paciente estava em repouso e durante uma tarefa de geração de palavras. A afasia melhorou consideravelmente após um ano e as diferenças no fl uxo sanguíneo cerebral regional (FSCr) para o contraste de linguagem e repouso na segunda sessão em relação à primeira sessão. A recuperação da linguagem não apenas envolve áreas perisilvianas específi cas da linguagem no hemisfério esquerdo, mas também (em uma extensão muito menor) do hemisfério direito. Ambas as regiões, as regiões perilesionais do hemisfério dominante para tarefas relacionadas à linguagem e as áreas homólogas da linguagem no hemisfério não dominante, são objeto das duas principais teorias que explicam a recuperação da afasia (CAPPA, 2008). Há evidências consideráveis de que as áreas perilesionais do hemisfério esquerdo podem assumir as funções da linguagem nas semanas e meses após um AVC. Saur et al. (2006) usaram imagem por ressonância magnética funcional (fMRI) repetida para estudar a dinâmica da recuperação da linguagem em 14 pacientes com afasia. Nos primeiros dias após o AVC, houve pouca ativação das regiões perilesionais do hemisfério esquerdo e nenhuma no hemisfério direito, com graus variados de comprometimento da linguagem. No estágio peri-agudo(cerca de duas semanas após o AVC), no entanto, foi observado um grande aumento de ativação nas regiões da linguagem dos dois hemisférios, com pico de ativação na região homóloga de Broca do hemisfério direito. Essas áreas reguladas também mostraram uma alta correlação com a linguagem aprimorada. Finalmente, no estágio crônico, foi observada uma normalização da ativação com um re-deslocamento do pico de ativação para as áreas da linguagem do hemisfério esquerdo, associadas a uma melhora adicional da linguagem. Essas alterações neuroplásticas após a afasia, ou seja, a ativação de áreas poupadas da linguagem do hemisfério esquerdo e novas áreas do hemisfério esquerdo juntamente com ativações de áreas homólogas do hemisfério direito, são consistentes entre os pacientes afásicos (KIRAN, 2012). Embora o papel das regiões perilesionais intactas na recuperação da afasia tenha sido fi rmemente 46 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA estabelecido, o recrutamento de áreas contralesionais no hemisfério direito é mais controverso. Segundo vários autores, o recrutamento no hemisfério direito pode ser apenas parcialmente adaptável (SZAFLARSKI et al., 2013; THIEL et al., 2006) e tem sido sugerido que a ativação da pars triangularis direita pode até limitar o processo de recuperação, especialmente no estágio crônico (TURKELTAUB et al., 2012). Resultados semelhantes foram encontrados na recuperação motora após acidente vascular cerebral. Após lesão focal traumática ou acidente vascular cerebral, as áreas perilesionais são responsáveis pela recuperação neurológica. Estudos de acompanhamento durante vários meses com pacientes com AVC com infarto cerebral isquêmico revelaram que esse AVC resulta em uma excitabilidade reduzida do tecido cerebral adjacente à lesão. A regressão dessa inibição perilesional, bem como a desinibição intracortical do córtex motor contralateral ao infarto, foram os mecanismos relacionados à recuperação (BÜTEFISCH; KLEISER; SEITZ, 2006). Estudos que examinam o membro superior afetado descreveram uma mudança na lateralidade da ativação após o AVC, de modo que, logo após o AVC, a ativação cerebral durante a estimulação do membro seja principalmente ipsilateral no hemisfério não afetado; mais tarde, após o AVC, a atividade muda para o padrão normal, sendo contralateral, ou seja, nas áreas perilesionais (incluindo áreas somatossensoriais secundárias) do córtex sensório- motor afetado (CHEN et al., 2014). Padrões alterados de recrutamento neural também foram encontrados em pacientes com lesão cerebral traumática ao executar tarefas de memória de trabalho (MCALLISTER et al., 2001). Esse aumento da atividade é encontrado nas regiões homólogas do córtex pré-frontal (CPF) contralateral em comparação com indivíduos saudáveis ou em pequenas áreas do CPF ipsilateral adjacentes àquelas utilizadas por controles saudáveis . Em um estudo de ressonância magnética, Turner, McIntosh e Levine (2011) investigaram se esses padrões de recrutamento neural em tarefas de memória de trabalho são realmente compensatórios ou se também estão presentes em um cérebro não danifi cado. Eles descobriram que a precisão da resposta em diferentes níveis de carga de memória de trabalho estava relacionada ao recrutamento de várias regiões do cérebro em pacientes com LCT e controles saudáveis. Parecia que as regiões "compensatórias" do CPF direito eram, de fato, recrutadas nos dois grupos, à medida que as demandas de tarefas de memória de trabalho aumentavam. No entanto, os níveis de carga de memória de trabalho em que essas redes do CPF direito foram acopladas eram claramente mais baixos em pacientes com LCT quando comparados com controles saudáveis, consistentes com uma hipótese alterada de envolvimento funcional em vez de com atividade compensatória neural. 47 TEMAS GERAIS EM REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA Capítulo 1 5.3 COMPENSAÇÃO COMPORTAMENTAL Mesmo na ausência de treinamento ou reabilitação, compensação comportamental espontânea pode ocorrer após lesão cerebral. Essa compensação implica o uso não intencional de diferentes sistemas neuropsicológicos no desempenho de uma tarefa (ROBERTSON; MURRE, 1999). Mudanças na cinemática devido a problemas cognitivos são um exemplo típico de mecanismos compensatórios desse tipo. Goodale et al. (1990), por exemplo, estudaram um grupo de nove pacientes com negligência visuoespacial totalmente recuperada cinco meses após terem sofrido um acidente vascular cerebral. Foi solicitado a esses pacientes que apontassem para alvos em uma barra e dividissem pares de alvos na mesma barra. Embora a precisão dos movimentos fosse comparável a controles saudáveis, uma análise cinemática revelou que os pacientes começaram fazendo um arco muito mais amplo que os controles. Esse arco foi então corrigido "em voo" para alcançar o objetivo fi nal. Aparentemente, uma distorção em um sistema espacial referenciado pelo corpo ainda estava presente nos pacientes, mas isso foi compensado espontaneamente pelo feedback visual durante os movimentos de apontar. Outro exemplo de compensação comportamental vem de um eminente neuropsicólogo (KOLB, 1990) que sofreu um acidente vascular cerebral occipital com um quadrantanopia superior esquerdo como principal sintoma. Ele relatou ter difi culdades em fi xar objetos diretamente porque aprendeu rapidamente a compensar a perda foveal ao mudar o ponto de fi xação. A sobrecompensação pelo defeito de campo até levou a um acidente de esqui quando ele esbarrou em um obstáculo no campo intacto enquanto tentava evitar outro obstáculo no lado afetado. A teoria da adaptação preventiva de Kolk em pessoas com afasia de Broca (KOLK, 1995) exemplifi ca muito bem a compensação comportamental. Este autor apresentou a ideia de que produzir uma sentença gramaticalmente correta requer tempo e que a produção de frases agramáticas por pacientes afásicos pode ser devida a um problema de tempo (KOLK; VAN GRUNSVEN, 1985; KOLK et al., 1985). De acordo com essa ideia, os elementos necessários para construir uma sentença precisam de tempo para serem ativados e essa ativação está sujeita a deterioração ao longo do tempo. Outra suposição é que os elementos de uma frase são interdependentes, ou seja, a ativação de um elemento requer a ativação de outro elemento, como o sujeito de uma frase que precisa estar ativo para ativar a conjugação correta de um verbo sucessivo. Em situações diárias, esse problema de tempo é perceptível nas grandes diferenças no tipo de output de fala das pessoas com afasia de Broca. Nas 48 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA conversas livres, por exemplo, pacientes afásicos tendem a produzir fala agramática, isto é, linguagem que carece de grande parte da morfologia gramatical necessária, mas contém poucos morfemas erroneamente produzidos. Nas conversas eliciadas, pelo contrário, a fala de pacientes afásicos é mais paragramática, com um alto número de morfemas selecionados incorretamente e relativamente poucas omissões. Kolk e seus colaboradores (HAARMANN; KOLK, 1992; HOFSTEDE; KOLK, 1994) mostraram convincentemente que a fala eliciada refl ete principalmente o problema de tempo descrito, enquanto o caráter agramático da fala espontânea é principalmente uma adaptação a esse défi cit subjacente. Na fala espontânea, os pacientes afásicos têm a oportunidade de criar formas de frases mais simples e essa simplifi cação de mensagens é uma reação adaptativa à sobrecarga de capacidade. Na fala eliciada e em outras situações de pressão de tempo, difi cilmente é possível uma adaptação preventiva, resultando em mais erros morfológicos e construtivos. Você acabou de ler sobre os três principais mecanismos subjacentes às capacidades de autorreparo do cérebro. Agora vamos falar um pouco sobre o papel da experiência e aprendizagem na reabilitação neuropsicológica. 5.4 EXPERIÊNCIA E APRENDIZAGEM Embora os processos de recuperação espontânea, recuperaçãode rede e de compensação comportamental após lesão cerebral possam levar a melhorias funcionais, o mais poderoso reforço do progresso cortical e funcional é obviamente a recuperação dependente da experiência. As mudanças corticais e funcionais são mais impressionantes na chamada plasticidade cross-modal, na qual a perda de uma função sensorial devido a doença ou dano cerebral fortalece outras funções sensoriais e induz uma extensa reorganização plástica das áreas cerebrais. Em pessoas cegas congênitas, por exemplo, o córtex visual ocioso é recrutado progressivamente para uma ampla gama de outras tarefas sensoriais e cognitivas, como processamento auditivo e tátil, processamento de linguagem e memória verbal. Embora os efeitos do treinamento de habilidades sensório-motoras nos processos de plasticidade após danos cerebrais tenham sido extensivamente investigados (NUDO, 2013), o impacto da reabilitação cognitiva e da prática na reorganização cerebral após danos cerebrais recebeu pouca atenção. Somente no tratamento da afasia com terapia de fala e linguagem, um número substancial de estudos foi realizado. Uma investigação de PET por Musso et al. (1999) 49 TEMAS GERAIS EM REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA Capítulo 1 concluíram que um treinamento breve e intenso de compreensão de linguagem administrado a quatro pacientes com afasia de Wernicke resultou em melhorias signifi cativas no desempenho. As áreas cerebrais que se correlacionaram com a melhora induzida pelo treinamento na compreensão verbal foram a parte posterior do giro temporal superior direito e o pré-cúneo esquerdo. Este estudo enfatizou o papel do hemisfério direito na recuperação da afasia. Estudos subsequentes encontraram aumentos induzidos pela terapia e diminuições na ativação, tanto no hemisfério esquerdo quanto no direito, com alta variabilidade interindividual do hemisfério direito como um recurso de "backup" (ABEL et al., 2015. Em um raro estudo envolvendo linguagem e memória, Blasi et al. (2002) mostraram que pacientes com lesões frontais esquerdas e afasia parcialmente recuperada podem aprender uma nova tarefa de complementação de palavra que normalmente requer o córtex esquerdo danifi cado, a uma taxa comparável à dos controles saudáveis. Essa melhoria foi evidente devido aos melhores tempos de reação verbal e à redução de erros. A aquisição de dados por ressonância magnética mostrou que esses pacientes ativam, em um nível anormalmente alto, regiões homólogas no córtex frontal direito durante o preenchimento da complementação da palavra, especialmente quando a tarefa é nova. Essa atividade compensatória frontal direita diminui claramente à medida que o desempenho melhora durante o estágio de aprendizagem. Segundo os autores, esse decréscimo na ativação se assemelha à modulação normal induzida pela prática de recuperação de palavras no córtex frontal esquerdo. A atividade compensatória frontal no hemisfério não danifi cado também demonstrou ser dinâmica ou dependente da carga cognitiva (VOYTEK et al., 2010). Em um experimento de eletroencefalograma (EEG), esses autores manipularam a carga de memória de trabalho e a carga atencional em dois grupos separados de pacientes com dano frontal unilateral. As áreas pré-frontais intactas do hemisfério não danifi cado são compensadas rápida e fl exivelmente, de acordo com a experimentação, pelo hemisfério danifi cado, dependente da carga cognitiva. Essa atividade compensatória do hemisfério não danifi cado não apenas aumentou à medida que as demandas no hemisfério danifi cado aumentaram, mas também estava relacionada à precisão comportamental. A aprendizagem hebbiana e a reconexão neural têm sido propostas repetidamente como mecanismos que podem explicar os resultados da reabilitação, combinando a aprendizagem no nível comportamental com mudanças no nível fi siológico, em particular o aumento da força sináptica entre os neurônios que disparam juntos como resultado de experiências de aprendizagem (ROBERTSON; MURRE, 1999). No entanto, ainda não existe suporte empírico para essa explicação, provavelmente devido às mesmas razões pelas quais a diásquise é um conceito persistente há muitos anos: a ausência de métodos sofi sticados de imagem que permitam verifi car os princípios da aprendizagem 50 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA hebbiana. O progresso nas imagens médicas, especialmente no mapeamento detalhado dos padrões de conectividade cerebral, pode promover o suporte empírico a essa teoria da recuperação em um futuro próximo. Finalmente, a recuperação de danos cerebrais foi facilitada pelo ensino de estratégias compensatórias aos pacientes. Nesse caso, a recuperação não é alcançada restaurando ou substituindo as funções neuropsicológicas prejudicadas, mas oferecendo estratégias aos pacientes para compensar suas defi ciências no nível da tarefa. Essas estratégias visam melhorar o comportamento, substituindo a realização inefi caz de tarefas por um desvio comportamental, a fi m de realizar tarefas com êxito. Para esse fi m, estratégias cognitivas externas e internas podem ser utilizadas. Estratégias externas foram usadas com sucesso para melhorar problemas cognitivos em domínios tão diversos quanto atenção, organização e planejamento, cálculo, gerenciamento de tempo, recuperação de memória, regulação de emoções e autoconsciência (GILLESPIE; BEST; O’NEILL, 2012). Estudos usando estratégias compensatórias internas após a LCT foram recentemente descritos em uma série de revisões avaliativas por um grupo internacional de pesquisadores e clínicos (INCOG). Essas revisões abrangem os domínios de atenção e velocidade da informação (PONSFORD et al., 2014b), memória (VELIKONJA et al., 2014), função executiva e autoconsciência (TATE et al., 2014) e comunicação cognitiva (TOGHER et al. 2014). Outras revisões que avaliam a efi cácia de estratégias internas após lesão cerebral adquirida são as de Cicerone (CICERONE; DAHLBERG; KALMAR, 2000, 2005). Embora na abordagem estratégica o mecanismo de ação de estratégias internas e externas seja bem compreendido no nível da tarefa, até o momento nenhum estudo investigou como estratégias efi cazes no nível da tarefa podem infl uenciar a organização e o funcionamento do cérebro. Para saber mais sobre reabilitação neuropsicológica após Lesão Cerebral Adquirida, sugerimos a leitura dos seguintes artigos: dissertação “Reabilitação Neuropsicológica na Lesão Cerebral Adquirida” de Ana J. de A. Borges (2010), disponível no link < https://repositorio.cespu.pt/bitstream/handle/20.500.11816/109/ Tese%20de%20Mestrado.pdf?sequence=5&isAllowed=y> e o artigo “Avaliação e reabilitação neuropsicológica após lesão encefálica adquirida” de Gouveia, Lacerda e Kernkraut (2017), disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413- 389X2017000400003&lng=pt&nrm=iso>. 51 TEMAS GERAIS EM REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA Capítulo 1 Partindo dos temas expostos neste capítulo, você já deve estar familiarizado com o contexto histórico, teórico e metodológico da reabilitação neuropsicológica. Além disso, exploramos neste tópico sobre os mecanismos de recuperação após lesão cerebral adquirida. Isto tudo nos conduz a outro tema central da prática clínica em reabilitação neuropsicológica, o uso de tecnologias para superar o comprometimento das funções mentais. Este é o tema que veremos a seguir. 1 Entre os mecanismos subjacentes a capacidade de autorreparo do cérebro temos a diásquise, a recuperação funcional de rede e a adaptação comportamental. No caso da diásquise, as pesquisas indicam tipos diferentes, como a diásquise focal, funcional e de conexão, entre outras. Disserte sobre a diferença entre a diásquise focal e a diásquise de conexão. R.:_______________________________________________ _______________________________________________ _______________________________________________ ______________________________________________________________________________________________ _______________________________________________ _______________________________________________ _______________________________________________ _______________________________________________ _______________________________________________ _______________________________________________ 6 USANDO A TECNOLOGIA PARA SUPERAR O COMPROMETIMENTO DAS FUNÇÕES MENTAIS A avaliação neuropsicológica permite identifi car defi ciências da função mental que limitam a atividade independente e a participação social (O'NEILL; EVANS, 2009). A identifi cação dessas barreiras permite um dos três tipos de intervenção: 52 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA restauração da função; aceitação da perda da função; e compensação pela função defi ciente. Este tópico explora os esforços para usar as tecnologias digitais para superar o comprometimento das funções mentais, a fi m de permitir atividades independentes e incentivar uma maior participação. 6.1 TECNOLOGIA ASSISTIVA PARA COGNIÇÃO (TAC) Tecnologias assistivas para cognição (TAC) são tecnologias criadas, adaptadas ou apropriadas para compensar o comprometimento cognitivo, como parte da reabilitação neuropsicológica. Neste tópico, revisamos a literatura sobre a efi cácia da TAC em diferentes domínios cognitivos, resumimos as questões que infl uenciam o uso da TAC por pessoas com defi ciências cognitivas e destacamos o potencial futuro da TAC na reabilitação neuropsicológica. Os tipos de tecnologia que auxiliam a cognição mudaram e mudarão, portanto, as classifi cações ou revisões focadas na tecnologia datam rapidamente (O’NEILL; GILLESPIE, 2014). Ao adotar um foco na interface entre a neuropsicologia humana e as funções das tecnologias, uma vez que auxiliam funções cognitivas específi cas, a esperança é que as revisões por domínio cognitivo tenham uma contribuição mais duradoura. Por exemplo, desktops, laptops e assistentes digitais pessoais serviram como base técnica para aplicação de lembretes para apoiar a função executiva da organização. O "lembrete" é a função tecnológica de interesse, que foi evidenciada em todas as tecnologias como sendo efi caz. Em outras palavras, o foco nas evidências para a função de uma tecnologia continuará indicando a utilidade dessa tecnologia para um determinado défi cit neuropsicológico, mesmo quando a base tecnológica mudar. 6.2 A CLASSIFICAÇÃO INTERNACIONAL DE FUNCIONALIDADE, INCAPACIDADE E SAÚDE (CIF) COMO ESTRUTURA PARA A TAC Várias revisões fornecem evidências da efi cácia da TAC em termos de grupos específi cos de usuários, como idosos (POLLACK, 2005) e pessoas com demência 53 TEMAS GERAIS EM REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA Capítulo 1 (BHARUCHA et al., 2009). O presente tópico conceitua sistematicamente a TAC em termos da função mental específi ca (da CIF) sendo assistida. A estrutura escolhida é a da CIF, que oferece uma linguagem comum na forma de um conjunto de categorias de cognição e função (OMS, 2004) e permite a conexão de défi cits neuropsicológicos, tecnologias e atividades da vida diária. A CIF dá origem a uma visão distinta de incapacidade e saúde, que tem menos foco na etiologia ou diagnóstico e mais na interação específi ca de comprometimento e meio ambiente. Assim, o comprometimento que permanece, como uma modifi cação ambiental, incluindo o fornecimento de tecnologia, pode aumentar a atividade ou a participação (OMS, 2004). A divisão das funções mentais da CIF em sete funções globais e 11 funções mentais específi cas, conforme mostrado na Tabela 1.2, oferece uma estrutura de avaliação familiar aos neuropsicólogos. A medição das funções resulta em um perfi l de pontos fortes e fracos que indica possíveis soluções, incluindo a prescrição de tecnologias (O’NEILL; GILLESPIE, 2014). Esse nível de explicação neuropsicológica também permite o diagnóstico cruzado de tecnologias efi cazes (JAMIESON et al., 2014). Embora atualmente não haja suporte evidenciado para todas as funções cognitivas, a Tabela 1.2 também destaca as áreas que têm sido o foco dos ensaios clínicos (em itálico) e são de particular relevância na reabilitação neuropsicológica. Esses são os domínios que serão abordados mais detalhadamente neste tópico. TABELA 2 – As sete funções mentais globais e 11 específi cas da CIF Funções mentais globais Funções mentais específi cas 1 Consciência Atenção 2 Orientação Memória 3 Intelecto Psicomotor 4 Psicossocial Emoção 5 Temperamento e personalidade Percepção 6 Energia e tração Pensamento 7 Sono Cognição de nível-superior 8 Linguagem 9 Cálculo 10 Movimentos sequenciais 11 Experiência de si e do tempo FONTE: Adaptado de OMS (2004) 54 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA 6.3 EFICÁCIA DA TAC A literatura sobre a efi cácia do TAC é revisada nesta seção por domínio, cobrindo o seguinte: atenção; memória; emoção; cognição de nível superior; cálculo; e experiência de si e do tempo. 6.3.1 Funções da Atenção Atenção é a função mental de se concentrar em um estímulo externo ou experiência interna pelo período de tempo necessário. A TAC tem sido usada para desviar a atenção visoespacial, apoiar a atenção sustentada e direcionar a atenção para representações internas (como metas) (GILLESPIE; BEST; O’NEILL, 2012). Podemos ver o uso da TAC na negligência unilateral, que é uma consequência comum do acidente vascular cerebral, envolvendo difi culdade em direcionar a atenção para o corpo contralesional ou para o espaço extrapessoa. O Dispositivo de Ativação de Membro, por exemplo, desvia a atenção para áreas negligenciadas do corpo (ROBERTSON et al., 2002). Este dispositivo emite tons quando o usuário não moveu o membro negligenciado dentro de um período de tempo prescrito, e o movimento resultante cancela o tom, reforçando o movimento do lado negligenciado. A efi cácia na redução da negligência visual surgiu a partir de projetos de casos únicos (O’NEILL; MCMILLAN, 2004), que levaram a um grande estudo randomizado de controle randomizado (ROBERTSON et al., 2002). Este estudo recrutou pacientes com acidente vascular cerebral e negligência persistente e, embora o uso do dispositivo não tenha sido associado a uma negligência signifi cativamente melhorada, ele potencializou melhorias signifi cativas na função motora do lado afetado, um efeito mantido 24 meses após o tratamento. O alerta tonal oferecido por telefones celulares pode funcionar como um suporte exógeno para atenção sustentada. Manly et al. (2002) também utilizaram pistas sem conteúdo (um tom auditivo) para melhorar o desempenho em um teste de atenção sustentada. Rich (2009) usou pistas táteis (por meio de um dispositivo portátil que vibrava periodicamente) para redirecionar a atenção de volta à tarefa em andamento. As tecnologias que fornecem alertas de tom puro ou pistas sem conteúdo (como dispositivos ou aplicativos independentes em telefones celulares) também podem desviar a atenção para os estados de meta representados internamente e levar a um aumento da atividade alinhada com esses objetivos, como demonstrado por Fish et al. (2007). Essas tecnologias de alerta podem 55 TEMAS GERAIS EM REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA Capítulo 1 ser interpretadas como redirecionando a atenção de estímulos externos para representações internas ou envolvendo o sistema atencional de supervisão. Fish et al. (2007) mostraram que um prompt (notifi cação) de texto automatizado sem conteúdo específi co, mas vinculado ao treinamento em gerenciamento de metas, pode ser usado para alertar a atenção para as metas. Receber oito mensagens de texto por dia com a mensagem “PARE” levou a uma complementação maior de uma tarefa experimental de memória (fazer uma ligação) para 20 pessoas com difi culdades de memória após lesão cerebral adquirida (LCA). Os autores sugerem que o prompt sem conteúdo permitiu que as pessoas pensassem em seu treinamento e concentrassem sua atenção em seus objetivos.O estudo examinou o comportamento direcionado à meta (realização de uma atividade pretendida) em vez da memória para a meta. No entanto, é limitado, porque a única tarefa avaliada foi ligar para o experimentador, um proxy (representante) para a memória durante as tarefas diárias. Outras TACs redirecionam a atenção enviando aos participantes mensagens com conteúdo que chama a atenção para seus objetivos. Isso foi conseguido através de mensagens de texto (CULLEY; EVANS, 2010) e mensagens de voz (KIRSCH; SHENTON; ROWAN, 2004). As mensagens incluem pistas para objetivos pré-acordados e, assim, redirecionam a atenção para as representações internas dos participantes. Elas demonstraram melhorar o comportamento na tarefa e a memória para os objetivos da terapia. No geral, as evidências da efi cácia de dispositivos que desviam a atenção são boas. A evidência mais forte apoia a efi cácia do dispositivo de alerta/notifi cações para negligência na motoricidade (ROBERTSON et al., 2002). Também há boas evidências da efi cácia da pista sem conteúdo na melhoria do desempenho das tarefas, mas evidências mais fracas de seu impacto no comportamento direcionado a objetivos. 6.3.2 Funções da memória As funções da memória são empregadas ao registrar, armazenar e recuperar informações. Nesta seção, abordaremos suportes para memória retrospectiva e, na seção sobre funções cognitivas de nível superior, suportes para memória prospectiva. Existem dois tipos principais de TAC que apoiam a memória episódica: câmeras e dispositivos de reminiscência multimídia. 56 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA A SenseCam é uma câmera fotográfi ca combinada com um sensor, usado ao redor do pescoço e voltado para o exterior para aumentar a memória de longo prazo, tirando fotos regulares. Foi projetado para capturar um registro digital do dia do usuário; o usuário revisa essas informações. Esse sistema foi investigado (BERRY et al., 2007) com uma pessoa com comprometimento autobiográfi co da memória e constatou-se que resulta em melhora da memória episódica. Alm et al. (2004) relataram o desenvolvimento e uso de uma ferramenta de reminiscência multimídia interativa com tela sensível ao toque. À medida que os usuários interagem com o sistema, eles ativam imagens ou amostras de som específi cas. Estes acionam memórias pessoais sobre as quais o usuário fala. Estudos com pessoas com demência sugeriram que o sistema era tolerado e que o seu uso foi aproveitado. O impacto na taxa de recuperação da memória ou facilitação da conversa ainda não foi relatado. No geral, o suporte empírico ao TAC para funções de memória é limitado. Os estudos foram de caráter qualitativo ou individual, com alto risco de viés. 6.3.3 Funções emocionais As funções emocionais estão relacionadas ao sentimento e aos componentes afetivos dos processos da mente, tal como a regulação cognitiva da emoção. As funções das tecnologias testadas para apoiar a emoção têm sido as que distraem e os dispositivos de biofeedback. Aparelhos de som pessoais têm sido usados para distrair usuários com esquizofrenia dos efeitos angustiantes das alucinações auditivas (JOHNSTON et al., 2002). Embora algumas evidências para a efi cácia dessa abordagem tenham sido demonstradas, os estudos geralmente têm sido de baixa qualidade metodológica. Dispositivos de biofeedback têm sido utilizados para pessoas com doenças relacionadas à ansiedade. O’Neill e Findlay (2014) relataram dois casos de desregulação emocional crônica e comportamentos desafi adores após lesão cerebral. A frequência de agressão externalizada e autolesão diminuiu após sessões diárias de 20 minutos de biofeedback emWave2 na variabilidade da frequência cardíaca. A efi cácia e a aceitabilidade para os usuários indicaram que o estudo cruzado de controle aleatório é justifi cado e resultados preliminares positivos foram relatados (HABIB, O’NEILL; EVANS, 2014). Uma abordagem que visa combinar consciência e distração afetada é o robô foca Paro, usado no tratamento da ansiedade e do comportamento que evidencia manifestação de sofrimento relacionado à desorientação que é frequentemente visto em pessoas com demência. O Paro foi projetado para ter consciência do 57 TEMAS GERAIS EM REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA Capítulo 1 contexto, detectando aspectos da fi siologia e do comportamento do usuário, para fornecer feedback para reforçar comportamentos que aliviam a ansiedade, como acariciar, e ter um fator de forma (um fi lhote peludo de foca de olhos grandes) que fornece cuidados e distrai outras preocupações. Os ensaios clínicos iniciais indicam que melhorias signifi cativas no estado emocional e, consequentemente, na qualidade de vida resultaram da integração do Paro nos centros de atendimento a pessoas com demência (BEMELMANS et al., 2015). 6.3.4 Funções cognitivas de nível superior As funções cognitivas de nível superior correspondem ao que é frequentemente chamado de funções executivas. A CIF divide as funções cognitivas de alto nível naquelas que permitem abstração, organização e planejamento (incluindo a execução de planos), gerenciamento de tempo, fl exibilidade cognitiva, insight, julgamento e solução de problemas. Uma grande proporção da TAC desenvolvida até o momento, como revisado em Gillespie, Best e O’Neill (2012), tem sido usado para auxiliar o gerenciamento do tempo e a organização e planejamento. As funções de gerenciamento de tempo são funções da memória prospectiva que garantem que um comportamento seja interrompido e o outro comece em um horário específi co. Um exemplo é lembrar o usuário de sair para ir a uma consulta médica em um horário específi co. Os exemplos incluem lembretes auditivos ou visuais para executar uma determinada tarefa em um determinado momento usando: gravadores de voz com um temporizador; mensagens de texto para telefones móveis; as mensagens de voz para os lembretes dos telefones funcionam em um smartphone ou software de agendas em um PC; e assistentes digitais pessoais (ADPs) (JAMIESON et al., 2014). Os prompts podem ser declarações explícitas de qual ação executar ou pistas implícitas sem conteúdo. Assim, tecnologias cuja função principal pode ser vista como redirecionando a atenção (por exemplo, dispositivos de pistas sem conteúdo) podem funcionar como auxiliares de memória em potencial (FISH et al., 2007). Cicerone, Dahlberg e Kalmar (2011) recomendaram o uso de dispositivos compensatórios externos para pessoas com problemas de memória após lesão cerebral traumática (LCT) ou acidente vascular cerebral, enquanto outra revisão (DE JOODE et al., 2010) concluiu que tecnologias assistivas, como ADPs, 58 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA reduziram possíveis problemas de memória após lesão cerebral adquirida (LCA). Uma revisão recente (JAMIESON et al., 2014) realizou uma meta- análise incluindo sete estudos em grupo e concluiu que havia fortes evidências da efi cácia de dispositivos de alerta/notifi cação de memória prospectiva para pessoas com LCA ou doenças degenerativas. Uma revisão sistemática sobre a TAC (GILLESPIE; BEST; O’NEILL, 2012) destacou que a maioria dos estudos foi de caráter qualitativo ou individual. Em resposta, uma recente revisão sistemática de Goodwin et al. (2015) do uso de auxílios à memória prospectiva por pessoas com esclerose múltipla (EM) incluíram estudos não randomizados; no entanto, não havia evidências sufi cientes para apoiar ou refutar a efi cácia desse grupo de usuários. As TACs que ajudam a organização e fornecem suporte passo a passo durante o desempenho da tarefa são cada vez mais bem evidenciadas, embora estejam disponíveis de várias formas. Mihailidis (2008) desenvolveu e testou o sistema Órtese Cognitiva para Assistência às Atividades no Lar, para apoiar usuários com demência com a lavagem das mãos. Uma câmera situada, sobre a pia, captura dados visuais na posição das mãos dos usuários e fornece instruções auditivassobre as etapas corretivas, se forem observados desvios signifi cativos. Lancioni et al. (2000) desenvolveram e testaram o sistema palm top da VICAID para micronotifi car pessoas com defi ciência intelectual por meio de tarefas vocacionais. Os principais recursos incluíam a interface do usuário simplifi cada (botão único), avisos visuais e auditivos e recompensas pela conclusão bem- sucedida da tarefa através de feedback ao usuário. Finalmente, O'Neill, Moran e Gillespie (2010) examinaram o uso de computadores que emulavam solicitações e perguntas de cuidadores e respondiam às respostas verbais dos usuários em um diálogo de apoio naturalista (Guide). O Guide foi demonstrado: apoiar pessoas com demência vascular a realizar uma nova sequência (vestir um membro protético); apoiar uma pessoa com lesão cerebral a seguir uma rotina matinal; e apoiar duas pessoas com comprometimento cognitivo grave a usar a tecnologia de verifi cação de glicose no sangue. Assim como foi atestado que houve intervenções signifi cativamente reduzidas do cuidador nas rotinas matinais dos participantes após o uso diário por três semanas. Em resumo, existem diversos estudos publicados sobre tecnologias de lembrete, abrangendo abordagens de macronotifi cações (lembretes de eventos) e micronotifi cações (lembretes de suporte de sequência) que, em conjunto, indicam suporte moderado à efi cácia da tecnologia assistiva para apoiar a organização e planejamento. 59 TEMAS GERAIS EM REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA Capítulo 1 6.3.5 Funções de cálculo A CIF divide as funções de cálculo em simples e complexas. Embora nenhuma TAC tenha como objetivo auxiliar cálculos complexos em populações clínicas, há um único relato de caso de uma calculadora de bolso que ajuda com sucesso a subtração para um participante com discalculia (PAVÃO MARTINS; FERREIRA; BORGES, 1999). O fato de as calculadoras portáteis serem comercializadas desde o início dos anos 1970, ainda que seu uso como auxílio ao cálculo e estimativa permaneça pouco pesquisado, sugere a necessidade de uma mudança conceitual para construir evidências para o uso desses dispositivos. Abordagens de jogos adaptáveis que estão cientes e se adaptam às necessidades dos usuários são uma abordagem promissora para a reaprendizagem da numeracia e cálculo. 6.3.6 Funções de experiência pessoal e do tempo As funções de experiência pessoal (de si) e do tempo está relacionada à conscientização da identidade, do corpo e da posição de uma pessoa na realidade de seu ambiente e do tempo. As tecnologias nessa área apoiam principalmente a conscientização do si em relação à localização (ou seja, navegação). Essa funcionalidade de aumentar a consciência do indivíduo de si mesmo é contrastada com rastreadores disponíveis comercialmente que permitem que pessoas saudáveis saibam o paradeiro de uma pessoa com comprometimento cerebral. Robinson et al. (2009) desenvolveram dois dispositivos que utilizam o GPS (Sistemas de Posicionamento Global) para localizar o usuário e direcionam o pedestre para um destino desejado. Outras TACs usam informações no ambiente para fornecer ao usuário instruções dependentes do contexto. Por exemplo, Chang, Tsai e Wang (2008) usaram uma série de etiquetas e Kirsch, Shenton e Rowan (2004) usaram símbolos no ambiente para fornecer a base para a navegação dependente do contexto usando um ADP. Morris et al. (2003) desenvolveram uma plataforma de mobilidade inteligente que gera uma representação da localização usando sensores e, em seguida, guia o usuário nessa base. Por fi m, Liu, Makino e Maeda (2008) também desenvolveram uma TAC que orienta o usuário com base em um mapa interno (pré-programado) do ambiente. No geral, as evidências da efi cácia desses dispositivos de navegação são limitadas a ensaios técnicos e estudos de usabilidade sem controle de caso; a maioria dos estudos de tecnologias para ajudar na navegação são, portanto, qualitativos. 60 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA O crescimento de aplicativos de navegação em smartphones permitiu e promete melhores interfaces. No entanto, estes permanecem clinicamente não testados com pessoas com comprometimento cerebral. A maior parte do trabalho realizado na área de navegação e orientação foi em facilitar a navegação externa. A navegação externa é baseada em posições de GPS e/ou torre de celular. As tecnologias que utilizam esses sistemas, como sistemas de navegação automotiva e aplicativos para smartphones, funcionam muito bem, mas não estão isentas de erros. Esses sistemas exigem atualização regular e, na melhor das hipóteses, a localização é precisa em um raio de 15 metros. As tecnologias existentes normalmente incluem instruções de texto passo a passo com output de fala e um mapa com sobreposição direcional (por exemplo, uma seta ou uma bússola). O alerta ou notifi cação é fornecido como feedback corretivo quando o viajante comete um erro. A variedade de outputs parece ser capaz de atender a uma ampla variedade de necessidades, mas os testes clínicos de tecnologias indicadas de maneira plausível ainda precisam ser realizados. A desorientação interior quanto ao local e ao tempo pode ser angustiante. Brown et al. (2013) exploraram o uso de um Wander-Reminder com um homem com histórico de hemorragia intracerebral direita, frequentemente angustiado ao perambular à noite. O dispositivo consistia em um sensor infravermelho passivo com reprodução programada de mensagens gravadas que, se acionadas entre meia-noite e 7 da manhã, tocavam uma gravação que abordava o homem pelo nome, lembrando-o de que era noite e sugerindo um retorno à cama. A frequência de perambulações noturnas foi signifi cativamente reduzida. A desorientação e o discernimento comprometido, difi culdades comuns após a lesão cerebral, difi cultam a aderência ao tratamento de reabilitação neuropsicológica. Um estudo explorou o uso de vídeos de orientação com roteiro com cinco pessoas que demonstraram falta de discernimento e desorientação três meses após a lesão. Os vídeos eram vistos diariamente, onde outras pessoas signifi cativas para os pacientes forneciam informações sobre o setting atual e os objetivos da reabilitação (onde eles estavam e o porquê) e garantiam sua segurança e identidade dentro do grupo familiar. Isso aumentou signifi cativamente os escores de orientação no Teste de Orientação e Amnésia de Galveston (TOAG) em três dos cinco participantes. Quando um TOAG estendido, incluindo seis perguntas de insight, foi usado, quatro dos cinco sujeitos apresentaram melhorias signifi cativas (BROWN et al., 2013). Portanto, o uso de vídeos de orientação familiar pode efetivamente resolver difi culdades de conscientização e discernimento. Assistir a um vídeo de si mesmo também pode ser uma ajuda poderosa à autoconsciência. Um estudo de controle randomizado convidou 54 participantes com LCT a realizar uma tarefa de preparação de refeições quatro vezes e depois 61 TEMAS GERAIS EM REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA Capítulo 1 receber um dos três tipos de intervenção de feedback: vídeo mais feedback verbal; feedback verbal; ou feedback experiencial. O estudo constatou que vídeo e feedback verbal foram os mais efi cazes para melhorar a autoconsciência (SCHMIDT et al., 2013). É importante ressaltar que a melhoria da autoconsciência não foi acompanhada pela deterioração do status emocional. O pequeno atraso entre as fi lmagens e a revisão, bem como a portabilidade dos computadores tablet, oferece um meio prático de auxiliar o insight. 6.4 O USO DA TAC Embora haja evidências crescentes da efi cácia do TAC, ocorrem diversos problemas que infl uenciam o uso destas tecnologias. Entender estes problemas poderá ajudar em sua aplicação na reabilitação de pessoas com defi ciências cognitivas. Vamos então falar um pouco sobre estes problemas a seguir. 6.4.1 Barreiras ao uso da TAC Baldwin e Powell (2011) encontraram quatrotemas principais de barreiras ao uso da TAC em entrevistas com pessoas com comprometimento da memória e com seus cuidadores: 1. barreiras emocionais, como o constrangimento ou estigma que podem acompanhar o uso; 2. efeitos reversos ou crenças de que a tecnologia teria um efeito negativo (lembrando alguém do défi cit de memória ou sendo irritante ao alertar); 3. crenças de dependência, de modo que o uso da tecnologia prejudique ainda mais a memória; e; 4. crenças de identidade, como a de que alguém seja tecnofóbico ou não seja bom com a tecnologia. Esses temas sugerem que aqueles com melhor ajuste às difi culdades, melhor conhecimento dos fatores que afetam a recuperação e mais exposição podem ter maior probabilidade de obter um resultado bem-sucedido usando tecnologias. Investigações de habilidades para usar a TAC após lesão cerebral adquirida (LCA) sugerem problemas de acessibilidade para pessoas com comprometimento cognitivo. De Joode et al. (2012) compararam o uso do software padrão de agenda para PC por pessoas com LCA e pessoas controles. Os resultados indicaram que os participantes com LCA experimentaram emoções negativas semelhantes (por 62 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA exemplo, frustração) que os participantes do controle, apesar de experimentarem mais fortemente e se cansarem mais rapidamente, principalmente quando tinham difi culdade em usar o software. Ambos os grupos cometeram os mesmos tipos de erros. No entanto, o grupo saudável precisou de menos tempo, teve mais sucesso e exigiu menos esforço mental para concluir as tarefas As habilidades de automonitorar, aprender com os erros e manter a tarefa em mente por tempo sufi ciente para inserir todos os lembretes, afetaram o desempenho. As pessoas experimentaram difi culdades nas estratégias típicas de solução de problemas, como pesquisa na tela ou tentativa e erro. Os autores sugerem que as interfaces de software para essa população apresentem uma pequena quantidade de informações relevantes de cada vez e usem entrada de dados seriais passo a passo para minimizar a carga na memória operacional e nas habilidades executivas (JOODE et al., 2012). 6.4.2 Preditores de uso Wilson e Watson (1996) e Evans et al. (2003) investigaram quais fatores previam o uso de auxiliares de memória. As pessoas que usavam mais auxiliares de memória eram mais jovens; tinha uma quantidade maior de tempo desde a lesão; usavam mais auxiliares de memória antes da lesão; tinham um nível mais alto de independência; e mostravam melhor funcionamento atencional. Jamieson et al. (2015) utilizaram métodos semelhantes para investigar os fatores que previam o uso de auxiliares de memória tecnológicos. Eles descobriram que as pessoas que usavam mais TAC eram mais jovens, usavam mais auxiliares de memória antes de se lesionarem e atualmente utilizam mais auxiliares não tecnológicos. Jamieson et al. (2015) também investigaram a prevalência do uso de auxílio à memória para pessoas com LCA. Lembretes, alarmes e cronômetros de telefones celulares foram usados por 38% dos participantes, e o uso da tecnologia foi consideravelmente maior do que entre os participantes de Evans et al. (2003). No entanto, o uso de todos os tipos de auxiliares de memória foi maior nessa amostra, não apenas auxiliares tecnológicos, sugerindo que as duas populações tinham níveis diferentes de comportamentos compensadores de memória em geral. Nesse estudo de coorte, a maioria utilizava recursos não tecnológicos de memória, como listas (78%), agendas (79%) e diários (77%). Os resultados mostram que a TAC para a memória ainda é consideravelmente menos prevalente do que auxílios e estratégias não tecnológicos. A persistência do uso é outra questão, pois apenas alguns estudos 63 TEMAS GERAIS EM REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA Capítulo 1 investigaram o uso a longo prazo da TAC. Svoboda et al. (2015) verifi caram que o uso da TAC e os ganhos funcionais associados ao seu uso foram mantidos por dez participantes 12 a 19 meses após a introdução. A tecnologia foi introduzida com um programa de treinamento abrangente, orientado pela teoria, usando aprendizagem sem erros e pistas de desvanecimento (SVOBODA et al., 2012). Esse alto nível de treinamento pode ter sido um fator importante para impulsionar o uso contínuo dos participantes ao longo do tempo. Contudo, pesquisas futuras são necessárias para descobrir se o tipo de apoio e treinamento que as pessoas recebem de fato infl uencia o uso a longo prazo da TAC. 6.5 MODELO NEURO-SÓCIO- TÉCNICO O modelo "neuro-sócio-técnico" da TAC argumenta que os pesquisadores precisam entender o ambiente, o usuário e a tecnologia para entender completamente o uso da tecnologia assistida (O'NEILL; GILLESPIE, 2014). Central para este modelo é o conceito de Bateson (1998) de circuitos totais. Para ilustrar, para uma pessoa que usa uma bengala longa para apoiar a perda de visão, concentrar-se no cérebro, no bastão ou no ambiente seria deixar de ver as propriedades funcionais de todo o circuito ou conjunto de inter-relações. Na medida em que são componentes de um loop funcional, todos são necessários e nenhum é sufi ciente por si só. Toda tecnologia assistiva para cognição deve fazer parte desse circuito total. Nem o nível de explicação da neuro, tampouco da sócio ou técnico podem descrever o apoio necessário por si só. O modelo "neuro-sócio-técnico" vê a cognição distribuída em um loop funcional que compreende o cérebro, outras pessoas e as tecnologias. Se alguém usar um alerta de smartphone para se lembrar de concluir uma tarefa, esse smartphone fará parte do sistema de memória. O uso da tecnologia requer processamento cognitivo sufi ciente por parte do usuário. O meio social também deve treinar e apoiar o uso por um tempo sufi ciente para permitir a sinergia funcional da pessoa e do dispositivo. Circuitos totais pode ser usado para analisar interrupções na atividade, localizar bloqueios no loop e especular sobre os aumentos do loop para permitir que a atividade continue. Uma abordagem estruturada para essa análise pode ser encontrada na abordagem conhecida como Combinando Pessoa e Tecnologia (SCHERER et al., 2007). Mais especifi camente, o modelo de circuito total pode ser usado para mapear sistematicamente funções cognitivas para atividades e tecnologias. A interação perfeita com o mundo é uma meta para as tecnologias 64 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA com um esforço zero, em que a cognição e o dispositivo trabalhem juntos naturalmente. 6.6 DESENVOLVIMENTOS NO FUTURO PRÓXIMO A revolução digital continuará trazendo melhorias nos componentes, interfaces e personalização que os clínicos e outros profi ssionais do cuidado continuarão adotando e testando sob supervisão. O atual aumento da tecnologia portátil e vestível (telefones inteligentes, óculos, relógios e roupas) e na computação ubíqua (aparelhos, casas e ambientes inteligentes) aproximam a TAC dos usuários desses serviços. As amplas tendências tecnológicas sugerem que a TAC útil surgirá da tecnologia que (1) reconhece objetos, ações, emoções e rostos, (2) é consciente do afeto e (3) facilita a navegação na vida cotidiana. (1) Reconhecendo objetos, ações, emoções e rostos O reconhecimento por computador de objetos, pontos de referência, rostos, frases faladas, ações e emoções continua sendo um desafi o, mas recebeu muito esforço recente para ajudar a desenvolver essa capacidade. Uma vez que o reconhecimento possa ocorrer em tempo real, o usuário poderá receber apresentação visual ou auditiva de informações (por exemplo, Google Glass, Microsoft HoloLens e interfaces semelhantes que estão sendo desenvolvidas) sobre: a identidade de objetos para superar agnosias; tipo e intensidade da emoção expressa para superar a cegueira mental; ou fornecer informações instrucionais sobreposta a um objeto para superar a dispraxia. Esses algoritmos de reconhecimento provavelmenteserão usados nas complexas notifi cações e planejamento da TAC, pois permitirão notifi cações mais relevantes ao contexto. Por exemplo, Guide (O'NEILL; MORAN; GILLESPIE, 2010), que é uma tecnologia de micronotifi cações que usa reconhecimento de fala e saída de voz para orientar as pessoas nas atividades cotidianas, não tem capacidade de monitorar as atividades dos usuários, exceto pedindo aos usuários para relatar em que estágio da atividade eles estão. A TAC Órtese Cognitiva para Assistência às Atividades no Lar, no entanto, possui um componente de inteligência artifi cial que tenta inferir o estágio da atividade a partir de dados de vídeo. A confl uência de tais abordagens é provável. A computação vestível e ubíqua já reúne uma grande quantidade de dados 65 TEMAS GERAIS EM REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA Capítulo 1 sobre os usuários: suas atividades anteriores, desempenho, encontros sociais, escolhas de compra, jornadas e preferências. A TAC poderia usar esses dados para estar ciente do que o usuário provavelmente está tentando realizar e, portanto, poderia fazer sugestões sobre atividades quando elas não vêm à mente e, deste modo, ajudar a apoiar a consecução desses objetivos. (2) regulação emocional A desregulação emocional é uma característica proeminente de muitos distúrbios da função cerebral e tem sido relacionada a difi culdades de funcionamento social altamente problemáticas na vida cotidiana de pessoas com comprometimento cerebral (GOSLING; ODDY, 1999). Os sistemas de reconhecimento podem ser usados para reconhecer estados emocionais no usuário, superando a barreira da alexitimia. O feedback ao usuário de seu próprio estado emocional pode ser usado para apoiar sua regulação emocional. A reabilitação neurocomportamental é um exemplo de uma abordagem psicológica efi caz, na qual profi ssionais especialmente treinados fornecem feedback sobre estados emocionais e comportamentais (WORTHINGTON et al., 2006) para aumentar a consciência do estado em si e nos outros, para que a pessoa possa regular melhor a expressão emocional. Os dispositivos que podem funcionar como ferramentas nesse processo de feedback serão uma nova classe importante de ferramentas para lidar com a desregulação da emoção e do comportamento. Especifi camente, a TAC de regulação emocional pode usar vários canais de monitoramento, incluindo indicadores fi siológicos (ou seja, resposta galvânica da pele, frequência cardíaca, agitação do movimento) e informações sobre localização, coapresentação de pessoas e atividades para avaliar mudanças no estado emocional. Essas informações podem ser devolvidas ao usuário (novamente por meio de uma discreta exibição visual ou de áudio ou, nesse caso, talvez seja adequado um feedback tátil, como um alerta de vibração). Se a situação se agravar, também pode ser apropriado fornecer os indicadores de aviso aos cuidadores ou equipe clínica, que poderão intervir antes que ocorra uma grave escalada emocional. (3) Navegação na vida cotidiana A navegação por satélite revolucionou a condução. O potencial para refi nar essa forma básica de assistência tecnológica para o pedestre na vida cotidiana é atraente. Primeiro, é provável que os dados de posicionamento sejam mais precisos e funcionem em ambientes fechados. Conhecer o histórico de um usuário, local e orientação precisos pode informar a TAC a emitir dicas mais 66 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA contextuais. Segundo, é provável que essas informações estejam cada vez mais vinculadas a conjuntos de dados, como a agenda do usuário, sua lista de tarefas, suas comunicações e também bancos de dados mais gerais sobre transporte, eventos, pontos de referência, notícias e tarefas. Portanto, é provável que a TAC de navegação espacial do futuro não diga apenas ao usuário quando virar à esquerda ou à direita, mas também onde e quando comprar um ingresso e onde almoçar enquanto aguarda a redução da fi la de ingressos. Ou talvez o sistema ignore completamente a fi la e consiga reservar o ingresso on-line para o usuário. A navegação espacial passará para navegação no espaço social ou navegação na vida cotidiana; portanto, podemos antecipar a fusão de dispositivos de navegação espacial e dispositivos de alerta/notifi cações. A função executiva é uma das áreas da função cognitiva em que estamos atualmente fazendo as maiores incursões. As funções cognitivas de nível superior sustentam abstração, organização, gerenciamento de tempo, fl exibilidade cognitiva, insight e julgamento. De acordo com as análises acima, desenvolvemos suportes para organização do comportamento e gerenciamento de tempo. Assim, permanecem muitas funções de pensamento que ainda precisam ser auxiliadas pela tecnologia. Vemos potencial para o futuro da TAC aumentar a memória de trabalho, julgamento e solução de problemas. Para aprofundar seus conhecimentos sobre a Tecnologia Assistiva para a reabilitação neuropsicológica, sugerimos a leitura dos artigos “Tecnologia Assistiva” de Galvão Filho (2012) e “Tecnologia Assistiva e neurodegeneração” de Leite e Léon (2018). Esses materiais podem ser encontrados nos seguintes links, respectivamente: <http://www.galvaofi lho.net/TA_educacao.pdf> e <http://revista.urcamp.tche.br/index.php/Revista_CCEI/article/ view/343/pdf>. Também indicamos a leitura do capítulo 18 do livro “Reabilitação Neuropsicológica” de Jaqueline Abrisqueta-Gomez (2012). 67 TEMAS GERAIS EM REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA Capítulo 1 ALGUMAS CONSIDERAÇÕES Este capítulo analisou algumas das contribuições históricas mais importantes para a reabilitação neuropsicológica moderna, reconhecendo pessoas como Goldstein, Poppelreuter, Luria, Zangwill, Ben-Yishay, Diller e Prigatano. Algumas das teorias e modelos infl uentes que infl uenciam a prática atual de reabilitação foram descritas, incluindo aquelas do funcionamento cognitivo, aprendizado, emoção, avaliação e identidade. A abordagem holística da reabilitação é recomendada e evidências de sua efi cácia citadas. Abordamos a necessidade de uma ampla base teórica (ou várias bases) ao planejar e implementar programas de reabilitação, para garantir boas práticas clínicas. Vimos também que é importante que os profi ssionais de saúde possam justifi car suas decisões de tratamento com base nas evidências disponíveis e levando em consideração as preferências e o status de seus pacientes. Planejar o tratamento explicitamente e avaliar o resultado do tratamento deve, portanto, ser um processo autoevidente, seja monitorando o paciente individualmente ou aplicando as melhores evidências disponíveis de maneira cuidadosa e criteriosa. Foi possível confi rmar que a ocorrência de recuperação espontânea após lesão cerebral está bem estabelecida atualmente, tanto do ponto de vista comportamental quanto de imageamentos. Processos como diásquise, recuperação funcional da rede neural e presença de mecanismos de compensação comportamental têm sido repetidamente demonstrados após danos cerebrais adquiridos. No entanto, seu tempo exato e mecanismos de trabalho ainda são motivo de debate. No caso da recuperação funcional da rede, por exemplo, hipóteses alternativas, como comprometimento funcional alterado, foram propostas. Semelhante à diásquise, o desenvolvimento de métodos comportamentais e de imagem mais sofi sticados pode responder a alguns desses enigmas em pesquisas futuras. Além disso, efeitos marcantes da recuperação dependente da experiência, incluindo treinamento cognitivo, foram repetidamente encontrados nos níveis comportamental e de tarefa. A explicação desses efeitos no nível do cérebro ainda está em sua infância, mas aqui também o uso de novos métodos de imagem e investigação neurofi siológica pode explicar como o treinamento dependente da experiência infl uencia a reorganização do cérebro no futuro próximo. Por sua vez, essas ideias podem promover métodos de reabilitação maisdirecionados. Este capítulo terminou com otimismo cauteloso. A explosão das tecnologias da informação e comunicação mudou nossa sociedade, mas também nos ofereceu novas ferramentas de reabilitação. Os primeiros ensaios e revisões 68 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA demonstraram a efi cácia dos dispositivos para apoiar aspectos da atenção, memória prospectiva e organização do comportamento. Existe e haverá um atraso entre a velocidade do desenvolvimento tecnológico e a taxa de ensaios clínicos. A indústria tem interesse em apoiar esses testes e propomos que esse interesse seja compatível. Enquanto isso, os profi ssionais da saúde e envolvidos na reabilitação neuropsicológica podem continuar a tentar delineamentos experimentais de caso único e amostra pequena. A civilização humana é um refi namento do ciclo neuro-sócio-técnico, produzindo um ambiente técnico e práticas sociais para apoiar a cognição. Agora, esse ambiente técnico inclui dispositivos eletrônicos portáteis que imitam de perto a função cerebral e são usados por pessoas saudáveis para aumentar suas habilidades. Esses mesmos dispositivos, agora normais e valorizados, têm um grande potencial para atender às necessidades daqueles com comprometimento cognitivo e funcional. Esse potencial será realizado em sua plenitude apenas se os profi ssionais envolvidos com a reabilitação conhecerem a TAC e implementarem seu uso com seus clientes. 69 TEMAS GERAIS EM REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA Capítulo 1 REFERÊNCIAS ABEL, S. et al. Therapy-induced brain reorganization patterns in aphasia. Brain, v. 138, p. 1097-1112, 2015. ABRISQUETA-GOMEZ, Jaqueline et al. Reabilitação neuropsicológica: abordagem interdisciplinar e modelos conceituais na prática clínica. Porto Alegre: Artmed, 2012. AITA, J.A. Follow-up study of men with penetrating injury to the brain. Archives of Neurology and Psychiatry, v. 59, p. 511-516, 1948. 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Discrimination and generalisation. In: YULE, W.; CARR, J. (Eds.). Behaviour modifi cation for people with mental handicaps. London: Croom Helm, 1987. p. 79-94. CAPÍTULO 2 REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA DO PROCESSAMENTO DE INFORMAÇÃO, ATENÇÃO E MEMÓRIA A partir da perspectiva do saber-fazer, neste capítulo você terá os seguintes objetivos de aprendizagem: Saber Compreender o uso da Reabilitação Neuropsicológica para processos cognitivos. Conhecer os procedimentos da reabilitação neuropsicológica no processamento de informação, atenção e memória. Fazer Associar as novas evidências neuropsicológicas na reabilitação do processamento lento de informação. Identifi car práticas de reabilitação neuropsicológica dos processos atencionais e memória. 86 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA 87 REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA DO PROCESSAMENTO DE INFORMAÇÃO, ATENÇÃO E MEMÓRIA Capítulo 2 1 CONTEXTUALIZAÇÃO Seja bem-vindo ao segundo capítulo do Livro Didático sobre Reabilitação Neuropsicológica. Neste capítulo, vamos discorrer sobre três temas neuropsicológicos centrais para a prática e a pesquisa em reabilitação neuropsicológica. O processamento de informações, a atenção e a memória. Mais especifi camente veremos, no primeiro tópico, diferentes abordagens para o tratamento do processamento lento de informações. A seguir vamos tratar da reabilitação neuropsicológica de transtornos da atenção, primeiramente em adultos e, posteriormente, em crianças. Então, vamos focar na reabilitação da Memória de Trabalho, seguindo para os dois últimos tópicos, onde vamos nos aprofundar sobre técnicas de tratamento baseadas em evidências para a reabilitação da memória em adultos e crianças. 2 REABILITAÇÃO DO PROCESSAMENTO LENTO DE INFORMAÇÃO A lentidão do processamento de informações ou a velocidade reduzida de processamento é um dos principais sintomas após danos cerebrais adquiridos. Indivíduos com lesão cerebral traumática (LCT), por exemplo, mostram velocidade reduzida de processamento de informações em todo o espectro de gravidade da lesão (FELMINGHAM; BAGULEY; GREEN, 2004; WILLMOTT et al., 2009). O processamento lento de informação não apenas prejudica vários processos cognitivos, como atenção, memória e função executiva, mas também tem um grande impacto na vida dos pacientes. Tarefas diárias como dirigir um carro, manter uma conversa ou assistir televisão podem parecer esmagadoras. Não ser mais capaz de acompanhar mentalmente as demandas cognitivas das tarefas da vida diária, por sua vez, pode levar à fadiga, humor depressivo, irritabilidade e exaustão. O problema do processamento lento de informações provavelmente será exacerbado por novos desenvolvimentos na sociedade moderna. O ritmo de vida de hoje exige o processamento rápido de múltiplas fontes de informação, não apenas no sistema econômico, onde a rapidez de produção, distribuição e consumo de mercadorias se acelerou consideravelmente nas últimas duas décadas, mas também no gerenciamento dos requisitos de vida diária devido ao uso de novas técnicas de digitalização e processos inovadores de comunicação. 88 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA O tratamento do processamento lento de informações após danos cerebrais adquiridos envolve principalmente três abordagens: intervenções farmacológicas, reparadoras e compensatórias. De longe, a abordagem mais comum para a reabilitação do processamento lento de informações é o treinamento reparador mediado por computador (LOETSCHER; LINCOLN, 2013; PONSFORD; WILLMOTT, 2004). A ideia é que exercícios de computador possam estimular áreas cerebrais envolvidas na velocidade do processamento de informações. Abordagens estratégicas e metacognitivas (isto é, compensatórias) para a melhoria do processamento lento de informações foram estudadas em pessoas com LCT e acidente vascular cerebral. Em abordagens farmacológicas, o metilfenidato tem sido utilizado para melhorar a velocidade do processamento de informações. Neste capítulo trataremos dos estudos de tratamento conduzidos com base nessas abordagens (intervenções farmacológicas, reparadoras e compensatórias), os quais foram revisados criticamente, especialmente no que diz respeito às evidências para generalização das medidas diárias da velocidade de processamento de informações. Além disso, o impacto desses tratamentos na participação social é também discutido mais adiante neste tópico. O que é a velocidade de processamento? A equipe da Cognifi t (2020, p. 1) responde a esta pergunta da seguinte maneira: A velocidade de processamento é um dos elementos principais de um processo cognitivo e, por isso, é uma das habilidades mais importantes para a aprendizagem, o rendimento escolar, o desenvolvimento intelectual, o raciocínio e a experiência. A velocidade de processamento é uma habilidade cognitiva que poderia ser defi nida como o tempo que uma pessoa demora para realizar uma tarefa mental. Está relacionada à velocidade que uma pessoa entende e reage a uma informação recebida, seja visual (letras e números), auditiva (linguagem) ou um movimento. Em outras palavras, a velocidade de processamento é o tempo que existe entre o recebimento e a resposta a um estímulo. Uma velocidade de processamento lenta ou defi citária não está relacionada à inteligência, indicando que uma não vai antecipar necessariamente a outra. Possuir uma velocidade de processamento lenta signifi ca que algumas tarefas determinadas serão mais difíceis que outras, como ler, fazer cálculos matemáticos, ouvir e escrever anotações ou manter uma conversação.Também pode interferir nas funções executivas, pois uma pessoa que tem uma velocidade de processamento lenta terá mais difi culdade para planejar, estabelecer objetivos, tomar decisões, iniciar tarefas, prestar atenção etc. A velocidade de processamento implica uma 89 REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA DO PROCESSAMENTO DE INFORMAÇÃO, ATENÇÃO E MEMÓRIA Capítulo 2 grande capacidade de realizar tarefas simples ou aprendidas previamente. Isso faz alusão à habilidade para processar informações facilmente, processando ela de forma mais rápida e não consciente. Quanto mais elevada seja a velocidade de processamento, mais efi ciente será sua capacidade de pensamento e aprendizagem. A velocidade de processamento é o tempo decorrido desde quando a informação é recebida até ser entendida e respondida. 2.1 VELOCIDADE DO PROCESSAMENTO DE INFORMAÇÃO: AVALIAÇÃO A velocidade do processamento de informações (VPI) refere-se à rapidez com que uma pessoa pode reagir às informações recebidas. Esse processo consiste em várias operações, como codifi car, entender e manipular informações, formular uma reação e executar uma resposta selecionada. Na maioria dos estudos sobre lesão cerebral adquirida (LCA), a velocidade do processamento de informações foi mensurada usando testes neuropsicológicos, como o Teste Modalidade Símbolos-Dígitos (SDMT) ou o Teste de Trilhas (TMT) (DYMOWSKI et al., 2015; FELMINGHAM; BAGULEY; GREEN, 2004; WILLMOTT et al., 2009). Nos testes neuropsicológicos, as operações cognitivas e a velocidade da reação motora não são diferenciadas e, portanto, são computadas como uma variável. Uma exceção notável é o Delis-Kaplan Executive Function System (DKEFS) Teste de Trilhas, no qual as condições de contraste permitem o controle da velocidade motora. Frequentemente, a velocidade de conclusão dos testes e as pontuações de precisão (por exemplo, erros) são interpretadas como medidas da velocidade de processamento, como no Teste de Stroop de Cores e Palavras (TSCP) ou no TMT. Como alternativa, o número de itens concluídos corretamente dentro de um determinado prazo é registrado, como no SDMT. Para conhecer mais sobre a velocidade do processamento de informação e sua centralidade nos processos cognitivos, mais especifi camente, sobre a relação entre os tempos de reação em tarefas simples e complexas, ou os tempos de inspeção, e os resultados em testes de inteligência, leia o artigo “Velocidade 90 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA de Processamento da Informação na Defi nição e Avaliação da Inteligência” de Iolanda Ribeiro e Leandro Almeida (2005), disponível no link: <http://www.scielo.br/pdf/ptp/v21n1/a02v21n1.pdf>. Além disso, em alguns testes, os tempos de reação (TR) são medidos, como na Tarefa de Atenção Seletiva. É somente nas tarefas de tempo de reação que os tempos de decisão e os tempos de resposta motora são regularmente registrados e descritos separadamente (GERRITSEN et al., 2003; VAN ZOMEREN, 1981). Em contraste com o desempenho nos tempos de decisão, a velocidade de resposta motora de pacientes com LCT sem défi cits motores na mão preferida é comparável a controles saudáveis (VAN ZOMEREN, 1981). Pacientes com AVC que respondem com a mão ipsilateral à lesão têm apenas tempos de movimento mais lentos em tarefas cognitivamente exigentes, mas não em tarefas simples e de reação de escolha (GERRITSEN et al., 2003). Em um raro estudo que investiga a lentidão em vários estágios cognitivos separados, como codifi cação e seleção de respostas, verifi cou-se que a lentidão após a LCT é generalizada e não pertence a nenhum estágio específi co do processamento cognitivo (STOCKS; GAILLARD, 1986). A velocidade do processamento de informações também pode ser mensurada através da observação comportamental. A Escala de Classifi cação do Comportamento Atencional (RSAB), desenvolvida por Ponsford e Kinsella (1991), contém vários itens relacionados ao processamento lento de informações, como "lento na resposta verbal", "lento no movimento" ou "desempenho lento em tarefas mentais" que são classifi cados pelos terapeutas em uma escala de 5 pontos, variando de “de modo nenhum” a “sempre”. Mais recentemente, Winkens et al. (2009a) desenvolveram o Teste de Observação da Lentidão Mental (MSOT). A versão fi nal deste teste contém quatro tarefas comuns à maioria das pessoas, passíveis de sincronização precisa e facilmente padronizadas. As tarefas foram projetadas para medir o desempenho em situações de pressão temporal, como seguir uma descrição de rota, ordenar dinheiro e fazer uma ligação telefônica. Duas tarefas têm um tempo predeterminado, após o qual são interrompidas, enquanto o tempo gasto para executar a tarefa e o número de elementos corretos alcançados são registrados para outras tarefas. Por fi m, também são utilizadas medidas de autorrelato nas quais pacientes com LCA podem indicar suas próprias percepções de problemas com a velocidade do processamento de informações na vida cotidiana. Winkens et al. (2009a) desenvolveram o Questionário de Lentidão Mental (MSQ), que compreende 21 91 REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA DO PROCESSAMENTO DE INFORMAÇÃO, ATENÇÃO E MEMÓRIA Capítulo 2 atividades diárias relacionadas ao processamento lento de informações, como “tenho problemas para acompanhar uma conversa” ou “tenho problemas para fazer duas coisas ao mesmo tempo”. Os itens são pontuados em uma escala de frequência de 5 pontos e em uma escala de severidade de 3 pontos. No geral, devemos lembrar que uma combinação de abordagens pode ser usada para avaliar a velocidade do processamento de informações na pesquisa e na prática clínica. A seguir vamos falar um pouco sobre a velocidade de processamento de informações após lesão cerebral adquirida (LCA). 1 Disserte sobre as consequências do processamento lento de informação. R.: ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ __________________________________________________ 2.2 VELOCIDADE DE PROCESSAMENTO DE INFORMAÇÕES APÓS LESÃO CEREBRAL ADQUIRIDA Uma redução na velocidade do processamento de informações é um sintoma comum após lesão cerebral adquirida. Pesquisas realizadas antes da virada do século mostraram que indivíduos com LCT (PONSFORD; KINSELLA, 1992; SPIKMAN et al., 1996), acidente vascular cerebral (HOCHSTENBACH 92 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA et al., 1998; HOM; REITAN, 1990) e a esclerose múltipla (ARCHIBALD; FISK, 2000) geralmente executam controles signifi cativamente mais lentos que os saudáveis em uma grande variedade de testes neuropsicológicos que medem a velocidade do processamento de informações. Estudos mais recentes forneceram evidências adicionais de lentidão do processamento de informações em grupos semelhantes de pacientes com LCA (DELUCA et al., 2004; DYMOWSKI et al., 2015; FELMINGHAM; BAGULEY; GREEN, 2004; GERRITSEN et al., 2003; WILLMOTT et al., 2009). Alguns autores demonstraram que quando a lentidão na velocidade básica do processamento de informações é controlada, os défi cits na atenção dividida, na atenção focada e na alternância de tarefas não são mais aparentes (FELMINGHAM; BAGULEY; GREEN, 2004; PONSFORD; KINSELLA, 1992; SPIKMAN et al., 1996). Isso sugere que a maioria dos processos atencionais depende da velocidade adequada do processamento de informações. No entanto, outros estudos demonstraram que ainda há défi cits no controle estratégico da atenção após o controle da lentidão do processamento da informação (AZOUVI et al., 1996; PARK; MOSCOVITCH; ROBERTSON, 1999; SERINO et al., 2006). Emum estudo recente, Dymowski et al. (2015) investigaram se défi cits no controle estratégico da atenção (isto é, na memória de trabalho), na atenção seletiva, na inibição de resposta e na fl exibilidade mental após a LCT são mediados pela velocidade reduzida do processamento de informações. A velocidade lenta do processamento de informações foi generalizada em todas as tarefas neuropsicológicas em pacientes com LCT, e os autores descobriram que apenas problemas residuais na inibição da resposta permaneciam após o controle da lentidão básica. Esses achados apoiam a infl uência difusa e independente da velocidade reduzida do processamento de informações no desempenho atencional após a LCT. É importante ressaltar, que embora a lentidão do processamento de informações mostre uma quantidade signifi cativa de recuperação após LCA, especialmente em pacientes com LCT após os primeiros seis a oito meses após a lesão, essa lentidão permanece um comprometimento crônico para muitos pacientes (VAN ZOMEREN; DEELMAN, 1978). Para ilustrar o quão debilitante pode ser a velocidade de processamento reduzida, van Zomeren e Brouwer (1994) traçaram os tempos de reação dos pacientes com LCT no estágio subagudo e no estágio crônico inicial em comparação com os de indivíduos controle em várias experiências de Tempo de Reação (TR). A linha de regressão que foi traçada através dos pontos nesta pesquisa revelou uma relação notavelmente constante entre os tempos de reação dos pacientes e os dos controles. A razão entre esses tempos de reação é de aproximadamente 1.5, o que signifi ca que os pacientes reagem a uma velocidade aproximadamente um terço mais lenta que os controles saudáveis. 93 REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA DO PROCESSAMENTO DE INFORMAÇÃO, ATENÇÃO E MEMÓRIA Capítulo 2 Brouwer (1985) havia descoberto anteriormente que essa taxa de tempo de reação parece ser ainda um pouco maior em tarefas mais complexas do que nas tarefas mais simples de tempo de reação de escolha. Essas descobertas ajudam a entender por que as pessoas com lesão cerebral fi cam sobrecarregadas na vida cotidiana pela velocidade rápida com que as informações são apresentadas e os eventos ocorrem. É como se, em tarefas rápidas, o paciente agisse abruptamente como ator principal em um fi lme que está sendo reproduzido no modo de avanço rápido (fast forward). Os mecanismos pelos quais o processamento lento de informações pode difi cultar a execução de tarefas (especialmente em tarefas com tempo limitado) foram levantados por Salthouse (1996). Embora este autor explique os problemas de lentidão dos problemas de processamento de informações enfrentados por adultos mais velhos, os mesmos mecanismos podem estar funcionando em pessoas com LCA. Especifi camente, Salthouse (1996) postulou dois mecanismos responsáveis pelo desempenho comprometido em tarefas de velocidade cognitiva: um mecanismo de tempo limitado e um mecanismo de simultaneidade. O me canismo de tempo limitado simplesmente sustenta que durante a realização de uma tarefa cognitiva, especialmente tarefas com limites de tempo externos, o tempo para executar operações posteriores é bastante restrito quando uma grande quantidade de tempo disponível é ocupada pela execução de operações iniciais. Por exemplo, durante uma chamada telefônica, uma parte desproporcional do tempo disponível pode ser ocupada pela codifi cação das informações recebidas, deste modo a formulação de uma resposta pode interferir nas novas informações recebidas. Esse mecanismo opera em tarefas com limites de tempo externos, em que operações cognitivas relevantes são realizadas muito lentamente dentro do tempo disponível. O mecanismo de simultaneidade baseia-se na ideia de que os produtos do processamento inicial podem ser perdidos quando forem necessários para o processamento posterior. Em outras palavras, quando as informações são processadas lentamente, as informações relevantes podem não estar disponíveis ou fi car empobrecidas ou degradadas quando chega o tempo em que é necessária. As evidências para esses dois mecanismos em pessoas com danos cerebrais adquiridos vêm principalmente de pesquisas sobre memória e atenção (DELUCA, 2008). Como resultado dos dois mecanismos descritos acima, o desempenho da memória de trabalho em pacientes com esclerose múltipla, por exemplo, é equivalente a controles saudáveis, mas requer signifi cativamente mais tempo de processamento (DELUCA et al., 2004). Além disso, os défi cits na atenção sustentada, focada e dividida em pacientes com LCT desaparecem quando a 94 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA lentidão básica do processamento de informação é controlada (SPIKMAN et al., 1996) e as limitações na atenção dividida após a LCT são novamente devidas ao processamento lento da informação e não aos processos estratégicos como alternar entre tarefas (AZOUVI et al., 2004). Você acabou de ler sobre a velocidade de processamento de informações após lesão cerebral adquirida (LCA), agora vamos prosseguir com estudos que falam sobre o tratamento do processamento lento de informação após lesão LCA. 2.3 O TRATAMENTO DO PROCESSAMENTO LENTO DE INFORMAÇÃO APÓS LESÃO CERABRAL ADQUIRIDA Em geral, existem três abordagens principais para o tratamento da lentidão mental após danos cerebrais: ensaios farmacológicos, abordagem reparadora, e abordagem compensatória. Primeiro, em ensaios farmacológicos, a melhoria da velocidade do processamento de informações comprometida é realizada pela administração de metilfenidato. Segundo, a abordagem reparadora ou restauradora visa melhorar a velocidade do processamento de informações para restaurar as habilidades da pessoa a um nível que se aproxima da função normal. Por fi m, a abordagem compensatória pressupõe que o aumento da velocidade, especialmente nas tarefas da vida cotidiana, seja um objetivo inatingível e que seja mais benéfi co para os pacientes aprenderem estratégias compensatórias para contornar as consequências da lentidão mental. A seguir você poderá ler sobre estas três abordagens citadas acima. Vamos lá? Conheça o programa de estimulação CogniFit, disponível no seguinte endereço: <https://www.cognifi t.com/br/habilidade- cognitiva/velocidade-de-processamento>. O Cognifi t foi desenvolvido para ajudar as pessoas a realizar uma avaliação neurocognitiva completa que analisa a velocidade de processamento e, de acordo com os resultados, proporciona um conjunto completo de exercícios cognitivos personalizados para melhorar a velocidade de 95 REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA DO PROCESSAMENTO DE INFORMAÇÃO, ATENÇÃO E MEMÓRIA Capítulo 2 processamento cognitiva. A avaliação neuropsicológica completa e o programa de estimulação de CogniFit foi desenhado por uma equipe de neurologistas e psicólogos cognitivos que estudam os processos da plasticidade sináptica e da neurogênese. São necessários apenas 15 minutos ao dia, de 2 a 3 vezes por semana, para estimular suas habilidades e processos cognitivos. O programa é disponível online. Os diferentes exercícios interativos são apresentados no formato de divertidos jogos cerebrais que podem ser praticados no computador ou tablet. Após cada sessão, CogniFit fornece um gráfi co detalhado com o progresso do usuário. 2.3.1 Intervenções Farmacológicas O metilfenidato tem sido amplamente utilizado no tratamento do transtorno do défi cit de atenção e hiperatividade e para melhorar o comportamento atencional e a velocidade do processamento de informações após LCT. Em um estudo cruzado randomizado, Whyte et al. (2004) forneceram 34 indivíduos que haviam sofrido uma LCT moderada a grave, metilfenidato ou placebo duas vezes ao dia. Os resultados mostraram que o metilfenidato tem efeitos positivos na velocidade do processamento de informação. Mais tarde, Willmott e Ponsford (2009) confi rmaram esse efeito positivo do metilfenidato na velocidade do processamento de informação.Este estudo também foi delineado como um estudo randomizado, cruzado, duplo-cego, controlado por placebo. Aqui também, o metilfenidato aumentou signifi cativamente a velocidade do processamento de informações em uma série de testes neuropsicológicos, bem como em uma tarefa de tempo de reação. Embora todos os itens na Escala de Classifi cação do Comportamento Atencional (RSAB) tenham indicado melhora com o metilfenidato, essas diferenças não atingiram signifi cância estatística. Portanto, existe algum suporte empírico para o efeito positivo das abordagens farmacológicas na velocidade do processamento de informações; no entanto, mais pesquisas são necessárias. 2.3.2 Abordagens Reparadoras Em termos de sofi sticação teórica e qualidade das evidências, a extremidade inferior da abordagem reparadora é ocupada pelos chamados jogos cerebrais. Embora a maioria desses programas tenha sido desenvolvida com o objetivo de reduzir o declínio cognitivo relacionado à idade, alguns autores reconheceram 96 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA o potencial do uso de jogos cerebrais para o treinamento da velocidade de processamento em pessoas com lesão cerebral. A evidência para a efi cácia desses programas é, para dizer o mínimo, mista e difícil de interpretar. A seção a seguir revisa primeiro a pesquisa sobre o uso de jogos cerebrais em adultos mais velhos. O estudo mais abrangente nesse campo é o estudo longitudinal ATIVO (REBOK et al., 2014). Neste estudo, um ensaio randomizado, controlado e simples cego, dez sessões de treinamento para memória, raciocínio ou velocidade do processamento de informações foram oferecidas a idosos saudáveis. No subgrupo da velocidade do processamento de informações, composto por 702 indivíduos com idade média de 74 anos, essas sessões duraram de 60 a 75 minutos e envolveram um programa computadorizado de velocidade do processamento de informações. Os participantes da primeira e da segunda condições de treinamento receberam treinamento de estratégia de memória (n = 703) e treinamento de raciocínio não computadorizado (n = 699), respectivamente. Um grupo controle (n = 698) não recebeu treinamento. Uma proporção de cada subgrupo treinado (cerca de 40%) também teve sessões de reforço 11 e 35 meses após a intervenção. O treinamento da velocidade do processamento, via computador, focou na pesquisa visual e na capacidade de processar informações cada vez mais complexas apresentadas em tempos de apresentação sucessivamente mais curtos. Os efeitos foram acompanhados até dez anos após o treinamento, com três conjuntos de avaliação: (1) campo de visão útil, baseada no teste Useful Field of Vision (UFOV), que são tarefas que exigem identifi cação e localização de informações, com precisão de 75%, sob níveis variáveis de demanda cognitiva; (2) medidas de autorrelato das difi culdades nas atividades instrumentais de vida diária (AIVD); e (3) duas medidas baseadas no desempenho de funcionamento diário (por exemplo, AIVD cronometrada). 1 Explique o mecanismo de tempo limitado, um dos mecanismos responsáveis pelo desempenho comprometido em tarefas de velocidade cognitiva, postulado por Salthouse. R.: ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ 97 REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA DO PROCESSAMENTO DE INFORMAÇÃO, ATENÇÃO E MEMÓRIA Capítulo 2 No geral, o treinamento da velocidade do processamento de informações produziu melhorias signifi cativamente maiores imediatamente após a intervenção do que o treinamento de capacidade de memória ou raciocínio. Esses ganhos ainda eram evidentes após dez anos, com um efeito médio à grande para a intervenção da velocidade do processamento em uma pontuação composta de resultados de velocidade, compreendendo os três tipos de tarefas mencionados acima. Além disso, o grupo que recebeu o treino da velocidade do processamento relatou menos difi culdades nas AIVD do que o grupo de controle não tratado dez anos após a intervenção. No entanto, o estudo mostrou efeitos ausentes a fracos do treinamento da velocidade do processamento nas duas medidas baseadas no desempenho de funcionamento diário. Portanto, como reconhecido pelos autores, os benefícios de seu treinamento foram amplamente específi cos à capacidade cognitiva treinada. O treinamento ATIVO não se generalizou em melhoras em medidas baseadas no desempenho de funcionamento diário que são sustentadas por processos cognitivos múltiplos. A única exceção notável a essa tendência foi que os participantes nos grupos de treinamento de velocidade do processamento de informações e treinamento de raciocínio apresentaram uma taxa signifi cativamente menor (aproximadamente 50%) de acidentes com veículos motorizados por descuido em comparação ao grupo de controle durante um período de seis anos após o treinamento (BALL et al., 2010). De maneira mais geral, no entanto, este estudo destacou algumas das principais limitações dos programas de treinamento cerebral baseados em computador, a saber, a falta de generalização para as atividades da vida diária. Um exemplo típico de um dos muitos estudos que não fornecem suporte para a generalização de habilidades além do treinamento é o recente ensaio clínico randomizado (ECR) em larga escala realizado por Owen et al. (2010). Esses autores pediram que os telespectadores de um programa científi co de TV popular participassem de um estudo online de seis semanas. Um total de 11.430 participantes treinou várias vezes por semana em tarefas cognitivas computadorizadas destinadas a melhorar o raciocínio, a memória, o planejamento, as habilidades visuoespaciais e a atenção. Comparado a um grupo de controle, que não praticou nenhuma tarefa cognitiva específi ca durante o período de treinamento, mas respondeu a perguntas usando qualquer recurso online disponível, foram observados melhores desempenhos do grupo de treinamento em todas as tarefas cognitivas treinadas. No entanto, nenhuma evidência foi encontrada para efeitos de transferência para tarefas não treinadas, mesmo quando essas tarefas estavam intimamente relacionadas às tarefas treinadas em termos de demandas cognitivas. Caro acadêmico, em resumo, os jogos cerebrais certamente não são a solução mágica reivindicada por vários de seus criadores e as reivindicações de ganhos rápidos e amplos em várias habilidades mentais são exageradas e não são sufi cientemente substanciadas com evidências empíricas. Além disso, faltam 98 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA investigações específi cas envolvendo pessoas com lesão cerebral adquirida (LCA) que examinem a generalização de habilidades, de jogos cerebrais computadorizados a atividades da vida diária. Ao contrário dos jogos cerebrais, existem inúmeras abordagens de treinamento que são teoricamente fundamentadas e têm uma lógica claramente descrita. O Treino de Processos Atencionais (Attention Process Training - APT) desenvolvido por Sohlberg e Mateer (1987) e programas de treinamento atencional específi co (STURM et al., 1997) são exemplos de tratamentos computadorizados multiníveis, hierárquicos e direcionados especifi camente que incluem o treinamento de aspectos separados da atenção, como a atenção dividida ou atenção seletiva. Esses programas de treinamento sempre incluem tarefas de treinamento com requisitos de velocidade de processamento organizados em níveis de difi culdade. Em geral, ensaios clínicos randomizados (ECR) que investigam o treinamento específi co de processos atencionais em pacientes com AVC produziram efeitos signifi cativos de tratamento apenas na atenção dividida, um processo cognitivo que depende fortemente da velocidade do processamento de informações. Infelizmente,não foram encontrados efeitos signifi cativos em outros domínios da atenção ou habilidades funcionais da vida diária (LOETSCHER; LINCOLN, 2013). A mesma conclusão pode ser tirada de estudos que investigam a efi cácia do treinamento da velocidade do processamento de informações em indivíduos com lesão cerebral traumática (LCT). Ponsford e Kinsella (1988) usaram um programa de treinamento computadorizado que consistia em várias tarefas de tempo de reação com o objetivo de melhorar a velocidade do processamento de informações em dez indivíduos com LCT grave. Após um período de treinamento de três semanas, no qual as pontuações apareceram apenas na tela após a conclusão de cada tarefa, os pacientes entraram em um período de três semanas durante o qual receberam feedback e reforço de um terapeuta em relação ao seu desempenho. Os sujeitos melhoraram signifi cativamente ao longo do treinamento, tanto em testes de velocidade do processamento de informações quanto em uma escala de classifi cação do comportamento atencional diário. No entanto, quando a recuperação espontânea foi controlada, não havia evidências conclusivas de que os participantes mostrassem uma resposta signifi cativa à intervenção, independentemente de o reforço e o feedback do terapeuta terem sido utilizados ou não. Verifi cou-se que a aplicação do Treino de Processos Atencionais (APT) em amostras maiores de pacientes com LCT (PARK; MOSCOVITCH; ROBERTSON, 1999) produz um desempenho aprimorado em vários índices de uma medida de resultado de velocidade. No entanto, um padrão de resultados semelhante foi encontrado para um grupo de controle que recebeu a tarefa de resultado de velocidade duas vezes, mas não recebeu treinamento. Os efeitos do treinamento 99 REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA DO PROCESSAMENTO DE INFORMAÇÃO, ATENÇÃO E MEMÓRIA Capítulo 2 foram específi cos para a velocidade do processamento, pois o desempenho não melhorou em uma tarefa de memória verbal com distração. Em resumo, consistente com as opiniões expressas nas principais revisões (CICERONE et al., 2011), a dependência única de intervenções baseadas em computador para melhorar a velocidade do processamento de informações, mesmo quando direcionadas a processos atencionais específi cos que envolvem demandas de velocidade, não é recomendada (CICERONE et al., 2000, 2011). Os principais motivos são a especifi cidade dos efeitos da tarefa e a falta de evidências de generalização nas tarefas da vida diária. 2.3.3 Abordagens Compensatórias Na reabilitação cognitiva, existe um consenso geral de que as intervenções devem ter o objetivo de melhorar o desempenho dos pacientes em áreas relevantes para o seu funcionamento diário. Uma abordagem para gerenciar o processamento lento de informações que possui uma promessa específi ca a esse respeito é o treinamento em estratégia. O treinamento em estratégia envolve ensinar aos pacientes com lesão cerebral estratégias metacognitivas que lhes permitam compensar as consequências de sua lentidão mental e, assim, reduzir as consequências negativas que essa lentidão produz na vida cotidiana. O Gerenciamento da Pressão de Tempo (Time Pressure Management - TPM) é um exemplo desse treinamento estratégico. A estrutura subjacente ao TPM foi derivada de uma ideia anterior proposta por Michon (1978) em psicologia do tráfego. Como a participação no tráfego é uma atividade inerentemente arriscada, Michon analisou em profundidade como os participantes do tráfego tentam evitar perigos. O comportamento do tráfego foi conceitualizado como um conjunto hierárquico de subtarefas com três níveis de pressão de tempo. O nível mais alto é o nível estratégico. Nesse nível, o participante do tráfego se preocupa com as decisões que precedem a participação real do tráfego, como a escolha da rota a ser tomada ou o tipo de transporte que vai usar. Os riscos envolvidos nesse nível são mínimos, porque as decisões geralmente podem ser tomadas com amplas margens de tempo, com quantidades mínimas de pressão interna de tempo. Um segundo nível de ordem superior é o nível tático. Esse é o nível em que o participante do tráfego está envolvido no tráfego e tenta restringir os riscos antecipando situações iminentes de tráfego (por exemplo, diminuindo a velocidade de cruzeiro de um carro quando começa a chover ou decidindo executar uma manobra de ultrapassagem). Nesse nível, haverá uma certa pressão de tempo, porque há um limite de tempo em que as decisões 100 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA devem ser tomadas. Finalmente, há o nível operacional. Este é o nível em que ações devem ser tomadas de momento em momento para evitar perigos durante o trânsito. Nesse nível, as decisões para evitar situações perigosas devem ser tomadas dentro de prazos muito estreitos e o risco de reações inadequadas ou muito lentas é constante. É sabido, por exemplo, que a maioria dos acidentes de aeronaves ocorre durante a aproximação, pouso ou decolagem. O que acontece no tráfego pode ser generalizado para outras tarefas diárias da velocidade da vida, como cozinhar, assistir a um fi lme ou fazer uma ligação telefônica. Em todas essas tarefas, as decisões nos níveis superiores estratégico e tático são mais fáceis de serem tomadas, devido aos níveis mais baixos de pressão de tempo sofridos. Isso se aplica particularmente a pessoas com lesão cerebral com velocidade reduzida de processamento de informações que experimentam altos níveis de pressão de tempo no nível operacional em todos os tipos de tarefas da vida diária. O TPM implica a redução da pressão de tempo no nível operacional, realocando o maior número possível de decisões operacionais nos níveis estratégico e tático. Os pacientes com lesão cerebral são ensinados a reorganizar as tarefas de velocidade, para que a pressão de tempo seja reduzida o máximo possível, maximizando as decisões no nível estratégico. Quando isso não é possível, eles podem ser ensinados a gerenciar a pressão de tempo no nível tático, ensinando-os a lidar com a sobrecarga de informações durante a execução da tarefa. Portanto, ao usar sua capacidade preservada de tomar decisões nos níveis estratégico e tático, os pacientes podem compensar sua velocidade prejudicada no nível operacional, alocando-se mais tempo. O quadro a seguir ilustra como pacientes com processamento lento de informações podem usar as estratégias do TPM na execução de tarefas de velocidade, evitando a pressão de tempo e lidando com ela. QUADRO 1 – COMO OS PACIENTES COM PROCESSAMENTO LENTO DE INFORMAÇÕES PODEM USAR AS ESTRATÉGIAS DO TPM NA EXECUÇÃO DE TAREFAS DE VELOCIDADE, PREVENINDO E LIDANDO COM A PRESSÃO DE TEMPO A estratégia cognitiva no TPM Autoinstrução: "Deixe-me dar tempo sufi ciente para executar a tarefa" Perguntas a serem feitas Objetivo principal 1. Existem duas ou mais coisas a serem feitas ao mesmo tempo para as quais não há tempo sufi ciente? Se sim: vá para a etapa 2, caso contrário, faça a tarefa. Reconhecer a pressão de tempo na tarefa em questão 101 REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA DO PROCESSAMENTO DE INFORMAÇÃO, ATENÇÃO E MEMÓRIA Capítulo 2 2. Faça um breve plano de quais ações podem ser feitas antes do início da tarefa real. Evitar a pressão do tempo possível 3. Faça um plano de emergência descrevendo o que fazer em caso de pressão excessiva no tempo. Lidar com a pressão de tempo o mais rápido e efetivamente possível 4. Plano e plano de emergência pronto? Então use-o regularmente! Exortar o paciente a se monitorar enquanto usa a estratégia do TPM FONTE: O Autor A efi cácia do TPM foi investigada em pacientes com LCT e AVC. Em um ensaio clínico randomizado (ECR) com 22 pacientes com LCT crônica e subaguda, dos quais 12 estavam no grupo experimental e 10 no grupo controle, Fasotti et al. (2000) compararam os efeitos do TPM com aqueles do treinamento genérico de concentração com o objetivo de lembrar informações. Foramrealizados treinos de desempenho em dois tipos de tarefas curtas em vídeo: tarefas para “lembrar” e para “realizar”. Para ambas as tarefas, informações sobre um tópico específi co foram apresentadas aos pacientes. Nas tarefas para "lembrar", os pacientes precisavam reproduzir o máximo possível dessas informações (por exemplo, reproduzir as informações fornecidas por um vendedor sobre um produto que ele queria comprar). Nas tarefas para “realizar”, os pacientes precisavam usar as informações para realizar uma tarefa (por exemplo, usar as informações sobre um aplicativo gráfi co para desenhar um gráfi co de seu próprio desempenho em um teste neuropsicológico). Os efeitos do treinamento do TPM foram avaliados com duas tarefas semelhantes (uma tarefa para “lembrar” e uma para “realizar”). Além disso, testes neuropsicológicos de memória, atenção e rapidez do processamento das informações foram administrados e o bem-estar psicossocial foi avaliado com vários questionários. Os resultados mostraram que o grupo TPM usou mais estratégias do que o grupo controle após o treinamento, e essa diferença permaneceu signifi cativa na tarefa para “realizar” aos seis meses de acompanhamento. Embora o desempenho nos dois tipos de tarefas tenha melhorado mais após o treinamento com TPM do que após o treinamento de concentração, essa diferença não alcançou signifi cância. Provavelmente, isso ocorreu devido às pequenas amostras de pacientes utilizadas e à baixa potência do estudo. Os efeitos do TPM melhoraram o desempenho cognitivo em vários testes de memória e atenção, o que não ocorreu no treinamento de concentração. O bem-estar psicossocial não mudou signifi cativamente no pós-treinamento ou acompanhamento nos dois grupos. Tais achados indicam que o bem-estar psicossocial depende de outros fatores além do funcionamento cognitivo. 102 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA Uma década depois, Winkens et al. (2009b) entregaram um programa de treinamento de dez horas para um grupo de 20 pacientes com AVC. Este grupo foi comparado a um grupo com cuidados comuns, de 17 sobreviventes de AVC bem pareados, usando instrumentos de avaliação mencionados anteriormente (MSOT e MSQ). Uma tarefa de captação de informações semelhante à utilizada em Fasotti et al. (2000) também foi utilizada como medida primária de resultado. Os resultados mostraram que, após o treinamento, os pacientes do grupo TPM usaram mais estratégias do que o grupo de cuidados comuns. O grupo TPM também melhorou seu desempenho na tarefa de captação de informações, enquanto no grupo de cuidados como de costume, esse desempenho se deteriorou levemente. No entanto, a diferença pós-treinamento entre os dois grupos não foi signifi cativa. O desempenho no MSOT não diferiu entre os grupos após o treinamento, mas após três meses de acompanhamento, esse teste ecológico revelou um aumento signifi cativamente maior na velocidade de desempenho no grupo TPM. Ambos os grupos mostraram um declínio signifi cativo no número de reclamações no MSQ após o treinamento. Essa diferença ainda estava presente no acompanhamento. Seguindo estes resultados citados acima, você pode compreender que embora uma abordagem compensatória para a lentidão do processamento de informações como o TPM seja considerada benéfi ca para melhorar o desempenho de pessoas com lesão cerebral em uma grande variedade de tarefas da vida diária (ou pelo menos em tarefas que se assemelham ou simulam tarefas da vida diária), a evidência a favor de abordagens estratégicas ou metacognitivas continuam ambíguas. Até o momento, não foi possível demonstrar uma relação inequívoca entre o uso de estratégias compensatórias e o desempenho aprimorado em tarefas que exigem velocidade de processamento de informações. Além disso, a generalização para outros domínios cognitivos e outras tarefas diárias ainda precisa ser mostrada. Embora o TPM tenha se mostrado promissor, são necessárias mais pesquisas com grupos maiores e validação com tarefas relevantes da vida diária, como dirigir carro e preparar refeições. Além disso, são necessárias escalas de observação mais confi áveis que medem a infl uência do TPM nas tarefas da vida diária. Também, percebe-se que o treinamento estratégico como o TPM requer esforço cognitivo e processamento de informações elaborado que pode não ser possível para pessoas com lesão cerebral grave. Portanto, é necessária uma seleção cuidadosa dos pacientes, que leve em consideração problemas de fatigabilidade e motivação. 103 REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA DO PROCESSAMENTO DE INFORMAÇÃO, ATENÇÃO E MEMÓRIA Capítulo 2 Para compreender a relação entre velocidade de processamento de informação (VPI) com a Memória de Trabalho (MT) – tópico que será discutido mais adiante neste capítulo, leia o artigo “Velocidade de processamento, sintomas depressivos e memória de trabalho: comparação entre idosos e portadores de esclerose múltipla” de Ferreira et al. (2011), disponível no seguinte endereço: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_ arttext&pid=S0102-79722011000200019>. Você acabou de ler sobre a reabilitação do processamento lento de informação, onde retratamos dados sobre abordagens em reabilitação e sua efi cácia. Agora vamos introduzir estudos sobre a reabilitação de transtornos de atenção em adultos. 3 REABILITAÇÃO DE TRANSTORNOS DE ATENÇÃO EM ADULTOS Neste tópico resumiremos os modelos de atenção mais infl uentes em adultos, com base na neurociência cognitiva atual. Em seguida, consideraremos a avaliação clínica da atenção, incluindo a integração da atenção em formulações neuropsicológicas clínicas. Abordagens para a reabilitação da atenção também serão resumidas. Após este tópico, sobre a reabilitação da atenção em adultos, veremos no tópico a seguir sobre o comprometimento e a reabilitação da atenção em crianças. Caro leitor, observe a sobreposição conceitual entre atenção e velocidade do processamento de informações (que vimos no tópico anterior deste capítulo) e memória de trabalho (que veremos nos últimos dois tópicos a seguir neste capítulo). Assim como a sobreposição entre estes temas e os distúrbios da atenção espacial que serão abordados no capítulo 3 deste livro. “Atenção” é, superfi cialmente, um conceito simples, no entanto, pode ser difícil defi nir e operacionalizar. Portanto, problemas de atenção podem ser difíceis de resolver na prática clínica. Klein e Lawrence (2011) defi nem atenção como os processos pelos quais os recursos de processamento de informações 104 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA são alocados diferencialmente. Seu sistema de classifi cação especifi ca que a alocação diferencial ocorre em dois modos (endógeno e exógeno) e em quatro domínios (tempo, espaço, sentido e tarefa). O termo endógeno refere-se a processos independentes do estímulo, gerados internamente, não refl exivos (geralmente chamados de "de cima para baixo" – top-down). O termo exógeno refere-se a processos externamente tratados, refl exivos, orientados a estímulos ou "de baixo para cima", bottom-up. Essa classifi cação fornece um contexto útil ao mensurar a atenção, que só pode ser alcançada indiretamente, e para avaliar criticamente essa mensuração. No nível comportamental, as medidas podem ser a velocidade e a precisão das respostas durante uma tarefa, juntamente com sua variação com a manipulação de fatores experimentais. No nível neural, a medição pode variar de parâmetros relevantes (por exemplo, fl uxo sanguíneo cerebral regional na imagem de Ressonância Magnética funcional – fMRI) em diferentes épocas ou em resposta a eventos. A estrutura solicita questões práticas e teóricas, como quais níveis estão sendo medidos, existe evidência comparável para outros modos ou domínios? Também gera questões clínicas, por exemplo, esse cliente tem difi culdade com atenção endógena entre domínios ou existe especifi cidade de domínio? Também poderia nos ajudar a avaliara base de evidências atual e a gama de testes disponíveis e, assim, desenvolver a prática considerando questões como aquela de se podemos diferenciar adequadamente entre modos exógenos e endógenos ou obter amostras adequadas entre os domínios. Agora que você já tem uma noção sobre os processos atencionais e a importância de se pensar estratégias efetivas de reabilitação para indivíduos que sofrem algum tipo de comprometimento deste processo cognitivo, vamos apresentar alguns modelos de atenção. 3.1 MODELOS DE ATENÇÃO Posner e Petersen (1990) descreveram uma estrutura altamente infl uente para a compreensão da atenção humana, atualizada duas décadas depois (PETERSEN; POSNER, 2012). Eles afi rmam que a atenção é anatomicamente separada de outros sistemas cognitivos (por exemplo, aqueles para percepção ou tomada de decisão) e que a atenção compreende três funções em uma rede de áreas cerebrais. Esses processos ou sistemas de atenção são: Sistema de Ativação Reticular (SRA) ou Sistema de Alerta; Sistema Atencional Posterior (SAP) ou Sistema de Orientação; e Sistema Atencional Anterior (SAA) ou Sistema de Execução. O sistema de alerta, alternativamente descrito como “excitação, atenção sustentada e vigilância”, mantém um estado de prontidão para responder. É 105 REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA DO PROCESSAMENTO DE INFORMAÇÃO, ATENÇÃO E MEMÓRIA Capítulo 2 sinônimo de vigília, embora, como estado, varie ao longo do dia, em resposta à estimulação, e assim por diante. Praticamente todas as tarefas envolvem o estado de alerta, mas as demandas deste estado aumentam quando, por exemplo, a duração da tarefa é estendida (com erros cada vez mais prováveis), a complexidade aumenta ou quando os alvos são raros ou imprevisíveis. Um exemplo de situação exigindo o estado de alerta seria aguardar no consultório médico antes de uma consulta ou aguardar por sua parada no ônibus. Em cada exemplo, é preciso estar "pronto para responder". A rede de alerta inclui o tronco cerebral, formação reticular e tálamo, e é amplamente lateralizada no hemisfério direito (PETERSEN; POSNER, 2012; STURM; WILLMES, 2001). O sistema de orientação serve para priorizar as informações através da modalidade sensorial (por exemplo, audição, visão, tato) e espaço. É também referido como atenção seletiva. Um exemplo pode ser o de esperar na fi la de compras, mantendo a atenção vagamente voltada para o sinal “próximo caixa disponível” e percebendo quando a exibição muda. A rede de orientação inclui áreas do lobo frontal, particularmente aquelas envolvidas na realização de movimentos oculares, junto com o lobo parietal e a junção temporoparietal. O sistema de orientação possui dois componentes. O primeiro é para implantar um controle rápido sobre a atenção (por exemplo, manter a atenção na área ao redor da placa de exibição) e está associado a uma rede dorsal (RD – um processo predominantemente endógeno e descendente). O segundo está envolvido na resposta a eventos sensoriais e na atenção alternada (por exemplo, quando os caixas fi cam disponíveis). Isso envolve uma rede mais ventral e amplamente lateralizada à direita, incluindo as regiões frontais ventrais e a junção temporoparietal. Corbetta e Shulman (2002) comparam essa rede ventral a um “disjuntor” que serve para interromper a atividade em andamento. Petersen e Posner (2012) descrevem que os componentes são independentes, mas quase sempre funcionam em conjunto. É claro que a maioria dos cenários cotidianos exigiria ambos – permanecendo prontos para responder e respondendo por sua vez. Caro acadêmico, como a atenção é de capacidade limitada, precisamos de mecanismos que controlem para onde é direcionada ou priorizem o que é selecionado. Idealmente, essa "direção" deve ser a que mais provavelmente levará a nossos objetivos. Posner e Petersen (2012) se referem a esse mecanismo como atenção executiva, e especifi cam dois processos componentes. Um é para “confi gurar” uma tarefa de acordo com seu objetivo principal (por exemplo, observar o próximo caixa disponível quando eu chegar na frente da fi la) e o segundo para manter o foco nessa tarefa (por exemplo, manter-se atento a esse objetivo, mesmo se também estiver falando ao telefone). Quando nos concentramos, isso tem um efeito indireto em outros aspectos do sistema. Por exemplo, quando o visor é atualizado para mostrar o número do caixa pretendido, 106 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA nossa atenção será capturada e os recursos disponíveis para outros fi ns (por exemplo, participar da conversa por telefone) serão temporariamente reduzidos. Essa ideia de capacidade limitada levou ao uso de termos como atenção alternada e atenção dividida, para se referir a situações nas quais precisamos ter mais de uma coisa em mente – seja a mudança de atenção de uma coisa para outra ou a conclusão de duas atividades simultâneas com demandas interferentes. Existe um sistema de áreas frontais e parietais do cérebro envolvidas na atenção executiva, com o lobo frontal medial, o córtex cingulado anterior (CCA) e a ínsula sendo particularmente importantes. Isso é consistente com a rede de atenção dorsal de Corbetta e Shulman (2002). Você pode agora se perguntar, como podemos ligar a teoria sobre os processos atencionais à prática de reabilitação neuropsicológica destes processos? Vamos discorrer sobre isso a seguir. 3.2 LIGANDO A TEORIA À PRÁTICA Um primeiro passo para ligar a teoria à prática, tratando-se da reabilitação de transtornos de atenção em adultos, é lidar com os conceitos atencionais. Spikman et al. (2001) examinaram a validade de construto da atenção revisando estudos de análise fatorial de pessoas com lesão cerebral e controles, e encontraram apenas dois fatores úteis e consistentes, os de velocidade do processamento e “memória de trabalho/controle”. O impressionante aqui é a falta de consistência com os modelos teóricos. Termos como “velocidade” e “controle” se referem às características comportamentais observáveis da atenção, em vez de processos mecanicistas pelos quais o cérebro cria atenção, sendo o último o foco de modelos teóricos. Essas diferenças na terminologia e no nível de foco provavelmente contribuíram para a falta de integração entre o trabalho teórico e aplicado sobre atenção. Embora muitos estudos tenham empregado testes teóricos em grupos clínicos (por exemplo, usando o paradigma de dicas de Posner), e observações e dados clínicos tenham sido parte integrante do desenvolvimento de alguns modelos (como os modelos de Corbetta e Shulman e suas observações sobre pessoas com AVC), permanece uma desconexão. Outra questão relacionada é a notável sobreposição entre o que chamamos de atenção e outros conceitos, incluindo velocidade do processamento de informações, memória de trabalho e funcionamento executivo. Os limites não são imediatamente óbvios, nem absolutos (como esboçado na Figura 1). É útil aqui retornar ao termo “alocação diferencial de recursos”, a característica essencial da atenção, e aquela a se considerar na pesquisa e prática clínica. 107 REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA DO PROCESSAMENTO DE INFORMAÇÃO, ATENÇÃO E MEMÓRIA Capítulo 2 FIGURA 1 - OS COMPONENTES CENTRAIS DA ATENÇÃO E SEU CONCEITO SE SOBREPÕEM A OUTROS DOMÍNIOS DA COGNIÇÃO Nota: VPI refere-se à velocidade do processamento de informações FONTE: O Autor Na pesquisa e prática clínica a avaliação do cliente individual também é central. Como em qualquer avaliação clínica neuropsicológica, ao avaliar a atenção, é preciso pensar holisticamente. Isso inclui fazer uso dos dados da entrevista com o cliente e com um informante, considerando observações comportamentais e desempenho em tarefas funcionais e selecionando testes que permitam testar hipóteses. Os domínios primários a serem avaliados estão resumidos no Quadro 2. 108 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA QUADRO 2 - A AVALIAÇÃO CLÍNICA DA ATENÇÃO,EXEMPLOS DE TESTES E SUA RELAÇÃO COM A TEORIA DA ATENÇÃO Domínio de teste Constructos teóricos relevantes Descrição comportamental Exemplos de Testes Amplitude Atencional (Span Atencional) Avaliação da capacidade atencional essencial, modo exógeno, orientação e seleção. Também conhecida como memória primária ou memória de trabalho (sem manipulação) Mensurando quanta informação pode ser mantida em mente. Teste de Amplitude Numérica (Span de Dígitos), Teste de Blocos de Corsi (por exemplo, conforme incluído nas baterias Wechsler) Velocidade do pro- cessamento de infor- mações Velocidade do processamento de informação, geralmente modo exógeno e envolvendo orientação e seleção ao longo do tempo. Avaliando a rapidez com que uma pessoa pode receber, usar e responder às informações. Os exemplos incluem os subtestes Códigos e Procurar Símbolos das baterias de inteligência Wechsler e o teste de "frases tolas" dos Testes de Velocidade e Capacidade do Processamento da Linguagem Busca Atencional Modo exógeno, orientação, seleção e potencialmente executiva se o nível de difi culdade for alto. Examinando a velocidade e a efi ciência com que conjuntos podem ser investigados para identifi car os estímulos alvos. Testes no domínio visual são mais comuns, como a parte A do Teste de Trilhas e o subteste de Busca de Mapa do Teste de Atenção Diária. Observe, no entanto, que o Teste de Atenção Diária para Crianças, segunda edição, inclui busca auditiva Vigilância/Atenção Sustentada Teste do sistema de alerta ao longo do tempo, em grande parte uma avaliação da atenção endógena, embora com componentes exógenos (por exemplo, na detecção de alvos). Determinando quão bem uma pessoa é capaz de continuar respondendo ao longo do tempo. O Teste de Desempenho Contínuo, o Teste de Atenção Sustentada à Resposta e o Teste de Adição Serial Auditiva Estimulada 109 REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA DO PROCESSAMENTO DE INFORMAÇÃO, ATENÇÃO E MEMÓRIA Capítulo 2 Atenção Alternada e/ ou Atenção Dividida Atenção complexa/ executiva, combinação provável de modos endógenos e exógenos. Explorando o que acontece com o desempenho quando restrições adicionais são impostas à atenção. Teste de Trilhas Parte B, Teste de Stroop (por exemplo, no Delis-Kaplan Executive Function System); Tarefa de Brown-Peterson para interferência/atenção dividida FONTE: O Autor Em conjunto com a prática clínica faz-se necessário a pesquisa clínica. Na pesquisa clínica, baterias fi xas são geralmente necessárias. Embora a seleção dos testes dependa de assuntos específi cos do estudo, incluindo questões de pesquisa, grupo de pacientes, considerações psicométricas e restrições de tempo/ recursos, existem vários princípios norteadores que proveem da literatura: (1) use medidas de múltiplos ensaios; (2) inclua a medição de processos top-down e bottom-up; (3) considere a velocidade, precisão e variabilidade da resposta; (4) considere a modalidade e, principalmente, a atenção espacial versus a não espacial; (5) considere o período de tempo e inclua medições por períodos mais longos, se possível (para considerar variações no estado de alerta e no impacto que isso terá no comportamento); e (6) considere a complexidade e inclua tarefas de complexidade variável, se possível. Neste contexto de ligar a teoria à prática, percebe-se a necessidade de incorporar a atenção em formulações neuropsicológicas. Duncan (2013, p. 35) considera a atenção um bloco de construção da cognição e, por extensão, todo o comportamento humano. Esses blocos de construção são “uma série de fragmentos temporais concentrados e montados momentaneamente [...] com muitos outros fragmentos montados para atingir objetivos de curto e longo prazo”. Este conjunto montado é formado por requisitos arbitrários da atividade atual. Como tal, a atenção interage com praticamente todas as outras habilidades cognitivas. É importante considerar as interações potenciais na formulação clínica, dado que uma vez que os vínculos são estabelecidos, estratégias podem ser planejadas para tentar fortalecê-las ou enfraquecê-las. Consulte as considerações do Quadro 3. 110 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA QUADRO 3 – INTERAÇÕES ENTRE ATENÇÃO, OUTROS DOMÍNIOS COGNITIVOS E FATORES AMBIENTAIS Domínio Considerações potenciais Interações entre atenção e memória • Intervalo reduzido e/ou pouca atenção sustentada reduzem a quantidade de informações que podem ser codifi cadas em testes de aprendizagem, o que afeta a recuperação. • Orientação/seleção/atenção executiva prejudicada servem para truncar o processo de busca de memória em recuperação livre, novamente mostrando desempenho de memória aparentemente reduzido Interações entre atenção e função executiva • Intervalo reduzido, seleção prejudicada, atenção sustentada reduzida podem prejudicar o desempenho em tarefas mais complexas (ou seja, aquelas que se aproximam do território "executivo") • O conhecimento da função atencional básica é essencial para interpretar com confi abilidade o desempenho em tarefas executivas Interações entre atenção e emoção • Informações emocionalmente salientes tendem a chamar nossa atenção. Pode ser difícil desviar a atenção. Isso pode impedir o progresso em direção a outros objetivos, especialmente aqueles que são emocionalmente mais neutros. • Preocupação ou ruminação consomem a capacidade atencional e, portanto, podem imitar ou agravar difi culdades com a atenção e/ou memória Interações entre atenção e fatores físicos e/ou am- bientais • Fadiga e falta de sono estão associadas a vigilância reduzida e velocidade de processamento de informações • Dores de cabeça podem exercer um impacto negativo no desempenho atencional • Há evidências de variação circadiana no desempenho atencional, portanto, considere isso em avaliações repetidas ou com várias sessões e em vincular os resultados dos testes aos comportamentos • Outros fatores como ruído, temperatura e desordem podem afetar a atenção FONTE: O Autor Agora que já estudamos sobre a importância de se pensar as teorias atencionais, o conhecimento sobre os transtornos de atenção e a prática investigativa, nos ateremos às pesquisas que versam especifi camente sobre a reabilitação neuropsicológica da atenção. 111 REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA DO PROCESSAMENTO DE INFORMAÇÃO, ATENÇÃO E MEMÓRIA Capítulo 2 Para conhecer mais sobre programas de reabilitação cognitiva dos processos atencionais, leia a dissertação “Reabilitação cognitiva dos processos atencionais em adultos com traumatismo cranioencefálico”, de Vivian Lazzarotto Pereira da Cruz (2012) – disponível no endereço: <http://www.humanas. ufpr.br/portal/psicologiamestrado/files/2012/05/Vivian-Lazzarotto- disserta%C3%A7%C3%A3o.pdf> – na qual ela apresenta uma proposta de um programa de reabilitação cognitiva dos processos atencionais e avalia seu efeito sobre a cognição e funcionalidade de adultos com traumatismo cranioencefálico. 3.3 REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA DA ATENÇÃO Em 2014, um grupo internacional de especialistas publicou recomendações para intervenções para tratar os défi cits da atenção com base em uma revisão sistemática das evidências (PONSFORD et al., 2014). As principais recomendações são apresentadas no Quadro 4. QUADRO 4 – RECOMENDAÇÕES SOBRE A REABILITAÇÃO DA ATENÇÃO DO GRUPO DE REVISÃO INCOG Intervenções empíricas apoiadas pelas recomendações do INCOG · Treinamento em estratégia metacognitiva aplicado a tarefas pessoais e funcionalmente relevantes, particularmente para défi cits na faixa leve a moderada · Treinamento de dupla tarefa também em tarefas individualmente relevantes (evidências de dois ensaios clínicos randomizados, um em LCT grave e outro lesão cerebral mista) · Terapia Cognitivo Comportamental (TCC) para abordar interações entre emoção e atenção, particularmentepara triagem leve a moderada da LCT e tratamento de distúrbios do sono que exacerbam problemas de atenção · Adaptar o ambiente e as tarefas para minimizar suas demandas atencionais e maximizar o funcionamento (com base na opinião clínica e não em evidências de pesquisa) · O Metilfenidato é efi caz como intervenção de curto prazo para melhorar a velocidade do processamento em pessoas com LCT FONTE: Adaptado de Ponsford et al. (2014) 112 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA A seguir você poderá brevemente analisar algumas das abordagens interventivas propostas na literatura especializada para a reabilitação neuropsicológica dos transtornos atencionais em adultos. 3.3.1 Treinamento computadorizado ou repetitivo Dois dos programas de treinamento mais frequentemente estudados são o Treino do Processo de Atenção (TPA) desenvolvido por Sohlberg e Mateer, (2011) e os programas de treino AIXTENT desenvolvidos por Sturm, Orgass e Hartje (2001). Ambos envolvem a prática repetitiva de tarefas atencionais. O TPA inclui tarefas de atenção sustentada e seletiva, supressão de resposta, comutação e memória de trabalho. O foco do AIXTENT está no estado de alerta, vigilância, atenção seletiva e atenção dividida. Embora os efeitos do treinamento sejam grandes em estudos metodologicamente fracos (BARKER-COLLO et al., 2009; STURM et al., 1997), estudos metodologicamente rigorosos tendem a encontrar resultados menos encorajadores. O mais premente é a falta de generalização além de melhorias nas tarefas treinadas ou em tarefas análogas próximas (PARK; INGLES, 2001). Dois pequenos ECRs também identifi caram benefícios de períodos relativamente breves de treinamento em dupla tarefa (por exemplo, caminhar enquanto executa tarefas cognitivas auditivas cada vez mais desafi adoras), mas, novamente, faltam evidências de generalização (COUILLET et al., 2010; EVANS et al., 2009). 3.3.2 Treinamento de estratégia metacognitiva O treinamento em estratégia metacognitiva é recomendado pelo grupo INCOG com base em estudos de caso, estudos com grupos e ECR. Esse treinamento constitui um componente principal de todo o trabalho cognitivo do programa no Oliver Zangwill Center (OZC). Isso ocorre em parte porque os clientes não se envolvem em programas de treinamento computadorizados, se não forem para fi ns de pesquisa, e também porque as estratégias metacognitivas são um componente necessário da adaptação a qualquer difi culdade cognitiva e/ ou emocional. Essa abordagem fornece psicoeducação interativa baseada em grupo sobre a natureza da atenção, assim como introduz estratégias (ver Quadro 5) 113 REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA DO PROCESSAMENTO DE INFORMAÇÃO, ATENÇÃO E MEMÓRIA Capítulo 2 e oferece oportunidades para os clientes praticarem estratégias em tarefas ativas. Então, como parte da reabilitação individualizada baseada em objetivos, essas estratégias são refi nadas e aplicadas a uma variedade de tarefas, desde atividades dentro da sessão até atividades vocacionais e laborais e de lazer. QUADRO 5 – ETAPAS ENVOLVIDAS NA REABILITAÇÃO DA ATENÇÃO COMO COMPONENTE DA REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA HOLÍSTICA NO CENTRO OLIVER ZANGWILL • Avaliação e formulação formal. • Psicoeducação sobre a natureza da atenção. • Explorar a atenção com exercícios (por exemplo, ouvir notícias e responder perguntas sobre elas; olhar imagens complexas e buscar alvos específi cos, por exemplo, dos livros "Onde está o Wally?"; caminhar dizendo em voz alta tipos de instrumentos musicais). • Introduzir diferentes tipos de estratégias: o Estratégias internas: desenvolver a metáfora da atenção como um feixe/lanterna e gerar imagens mentais associadas e/ou palavras- chave/mantras para facilitar o acesso a essa metáfora. o Redução de distrações externas: ruído, telefones, e-mails, tampões para os ouvidos/ruído branco, organização, boa iluminação. o Redução de distrações internas: exercícios de mindfulness ou através de estratégias para o humor e a ansiedade. o Usando auxílios externos: por exemplo, usando indicação automatizada para incentivar o foco atencional, ou referindo-se a um sistema de memória e planejamento. • Experimentar estratégias de maneira gradual: o No contexto de exercícios ativos (por exemplo, procurando óculos de sol perdidos, participando de uma "caça ao tesouro", comprando itens específi cos, planejando uma viagem a uma galeria). o No contexto da "vida real", estabelecer metas funcionais e abordá- las por meio do desenvolvimento de estratégias individualizadas e experimentos comportamentais. · Envolver parentes e/ou membros da equipe de atendimento, conforme necessário, para apoiar um entendimento compartilhado da natureza das difi culdades (por exemplo, esclarecer que a falta de atenção é distinta de descuido ou preguiça) e apoiar o início, a manutenção e a generalização do uso da estratégia. FONTE: Adaptado de Fish, Brentnall e Hicks (2017) 114 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA 3.3.3 Comparações e abordagens combinadas Usando um projeto experimental de caso único, envolvendo três pessoas com LCT, Dymowski, Ponsford e Willmott (2015) descobriram que nove horas de treinamento em estratégia metacognitiva estavam associadas a maiores ganhos em testes de atenção do que uma duração equivalente do Treino do Processo de Atenção (TPA), mas generalização desses benefícios para testes ecologicamente válidos e escalas de classifi cação eram limitados. É provável, no entanto, que o treinamento computadorizado precise estar em uma intensidade mais alta para produzir mudanças substanciais (por exemplo, por analogia com exercícios ou aprendizagem de habilidades, é a repetição regular que permite mudanças e/ou domínio, em vez de instruções iniciais). Ainda existe a possibilidade de que o treinamento em estratégia metacognitiva, cuidadosamente combinado com a prática computadorizada, possa produzir benefícios maiores, mais confi áveis, duráveis e/ou generalizáveis do que utilizar estas estratégias isoladamente. De fato, o TPA foi revisado para incluir treinamento em estratégia metacognitiva, e um ECR demonstrou sua maior efetividade (BARTFAI et al., 2014). 3.3.4 Outras abordagens para a reabilitação da atenção A mindfulness ou outros programas de treinamento relacionados à meditação têm como objetivo principal o desenvolvimento da consciência metacognitiva e o controle da atenção. Embora um grande ECR controlado por placebo de uma breve intervenção de mindfulness em pessoas com lesão cerebral não tenha identifi cado benefícios cognitivos (MCMILLAN et al., 2002), vários estudos em outras populações indicam que a terapia cognitiva completa baseada em mindfulness tem algum impacto sobre a atenção (JHA et al., 2015; TANG et al., 2007), bem como sobre a fadiga e humor (JOHANSSON; BJUHR; RÖNNBÄCK, 2012). No entanto, como estes estudos não incorporaram condições de placebo ativas, são necessárias mais pesquisas, assim como novas pesquisas em populações com comprometimentos neurológicos. 115 REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA DO PROCESSAMENTO DE INFORMAÇÃO, ATENÇÃO E MEMÓRIA Capítulo 2 Para conhecer mais sobre programas de reabilitação cognitiva de processos atencionais, leia a dissertação “Reabilitação neurocognitiva dos processos atencionais e mnésicos em casos de acidente vascular cerebral com utilização de ambientes virtuais”, de Marta F. de C. Martins (2013) – disponível no seguinte endereço: <https://pdfs.semanticscholar.org/4d03/ c4ab6362a65b6320279f1631bb438cb98087.pdf> –, na qual ela verifi ca o impacto do plano de reabilitação cognitiva com recurso à Realidade Virtual no desempenho cognitivo de um grupo de utentes do Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão, com diagnóstico de AVC após oito sessões de treino e estimulação cognitiva. 1 Qual o objetivo de programas de reabilitação neuropsicológica que utilizam treinamentos relacionados à meditação? R.: ________________________________________________________________________________________________________ __________________________________________________ 4 REABILITAÇÃO DE TRANSTORNOS DE ATENÇÃO EM CRIANÇAS As habilidades atencionais são essenciais para o funcionamento diário das crianças. Diferentes componentes da atenção, incluindo o estado de alerta, foco seletivo e mudança de atenção para a seleção de ações relevantes para o objetivo, determinam o que as crianças aprendem, quão bem aprendem e como utilizam as habilidades aprendidas. Estudos envolvendo crianças em desenvolvimento típico mostraram que esses componentes da atenção diferem com relação à idade de início, trajetórias de desenvolvimento e idade em que atingem a maturidade total (AMSO; SCERIF, 2015). Nos recém-nascidos, o componente de alerta da 116 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA atenção está presente. A capacidade de suprimir informações concorrentes ao orientar e focar seletivamente a atenção surge entre 4 e 6 meses de idade, mas continua a se desenvolver ao longo da infância e adolescência. Formas básicas de atenção executiva podem ser mostradas a partir dos quatro meses de idade, mas continuam a se desenvolver até os 14 anos, consistentes com a maturação prolongada das áreas frontoparietais (incluindo suas conexões de substância branca com as áreas temporal, occipital e subcortical). É importante observar que, embora a maturação explique as mudanças nas habilidades de atenção ao longo do tempo, também existe uma relação bidirecional entre o desenvolvimento da atenção e outras habilidades cognitivas, como a memória de curto prazo. Além disso, existe uma interação complexa entre genes, ambiente e tempo, impulsionando as trajetórias de desenvolvimento da atenção (SCERIF, 2010). 4.1 TRANSTORNOS DA ATENÇÃO NA INFÂNCIA Nas crianças, a atenção prejudicada interfere não apenas na utilização de habilidades dominadas, mas também na aquisição de novas habilidades em desenvolvimento, resultando em uma lacuna cada vez maior nas habilidades em relação aos pares da criança. Assim, a identifi cação precoce precisa e o tratamento efi caz são extremamente importantes. Difi culdades de atenção são comumente encontradas em crianças com distúrbios do desenvolvimento neurológico (por exemplo, transtorno do défi cit de atenção com hiperatividade [TDAH] e transtornos do espectro autista [TEA]) e também em crianças com lesão cerebral adquirida (LCA) ou distúrbios neurológicos (por exemplo, lesão cerebral traumática [LCT] e epilepsia). As difi culdades de atenção no contexto de TDAH ou TEA são consideradas como resultado do desenvolvimento atípico de estruturas cerebrais, por exemplo, volumes frontostriatais reduzidos e as conexões entre regiões cerebrais (CORTESE et al., 2012). Como tal, os distúrbios de atenção defi nidos comportamentalmente (por exemplo, TDAH, TEA) podem ser considerados “transtornos de rede”. Essa explicação de transtornos de rede também pode ser aplicada a crianças com LCT, uma das principais causas de incapacidade adquirida ao longo da vida em crianças. Crianças que sofrem uma LCT são particularmente vulneráveis a 117 REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA DO PROCESSAMENTO DE INFORMAÇÃO, ATENÇÃO E MEMÓRIA Capítulo 2 lesões axonais difusas, e a quantidade total de dano difuso tem um papel maior do que lesões cerebrais focais em défi cits de atenção na LCT pós-infância. Contrariamente à crença popular de que a idade jovem da lesão está associada a uma melhor recuperação, as crianças que sofrem LCT moderada à grave em uma idade jovem: (1) não mostram melhor recuperação da atenção do que as crianças que sofrem essas lesões mais tarde na vida (CATROPPA et al., 2007); (2) apresentam alto risco de comprometimento atencional contínuo e defi ciência neurocomportamental associada (ANDERSON et al., 2012); e (3) frequentemente mostram múltiplas anormalidades crônicas da substância cinzenta e branca (BEAUCHAMP et al., 2011). Uma relação dose-resposta entre a gravidade da lesão e os resultados cognitivos tem sido repetidamente demonstrada em crianças que sofreram uma LCT (BABIKIAN; ASARNOW, 2009); através das idades, maior gravidade da lesão tem sido associada a piores resultados. As conclusões da meta-análise de Babikian e Asarnow também sugerem que os défi cits de atenção persistem ao invés de se resolver com o tempo. A atenção, no entanto, é uma habilidade complexa que envolve vários processos cognitivos e redes cerebrais que podem ser afetadas diferencialmente pela LCT, como foi examinado em uma meta-análise de Ginstfeldt e Emanuelson (2010). A meta-análise examinou descobertas sobre medidas da amplitude da atenção, atenção sustentada, atenção seletiva, atenção alternada e atenção dividida (ou seja, sobrepondo-se às medidas de Posner e Petersen). A atenção sustentada e dividida foi considerada a mais vulnerável a LCT, com défi cits nesses domínios persistindo do estágio agudo ao crônico de recuperação. Para a atenção alternada, os achados foram variáveis, possivelmente devido ao pequeno tamanho da amostra nos estudos, heterogeneidade nas medidas utilizadas e diferenças nas demandas das tarefas. Os estudos também forneceram resultados mistos para atenção seletiva, supostamente por causa de diferenças nas amostras de LCT, instrumentos usados para avaliar a atenção seletiva e tamanhos pequenos de amostras. A amplitude da atenção foi menos afetada pela LCT infantil. Novamente, a gravidade da lesão foi considerada o principal fator de risco para défi cits de atenção após a LCT. Também há pesquisas que sugerem que os processos de atenção podem infl uenciar o humor, e o humor pode infl uenciar os processos de atenção em crianças (PLATT et al., 2017). No entanto, essa relação bidirecional entre atenção e humor ainda não foi investigada em crianças com distúrbios da atenção, incluindo aquelas com LCT. Um modo de compreendermos mais sobre a reabilitação neuropsicológica dos transtornos atencionais na infância é a partir das avaliações da atenção 118 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA para esta população. As avaliações da atenção em crianças podem incluir questionários para pais, fi lhos e outros e escalas de classifi cação, por exemplo, a Escala de Classifi cação de Conners e o Breve Inventário das Funções Executiva (BRIEFE). Também podem incluir testes padronizados, por exemplo, o Teste de Desempenho Contínuo (CPT), o Teste de Atenção Diária para Crianças (TEA-Ch). É possível também incluir tarefas experimentais, por exemplo, a Tarefa de Redes Atencionais (ANT) e a Tarefa de Eriksen Flanker. Como em todas as áreas da neuropsicologia, a escolha da medida dependerá do objetivo da avaliação (por exemplo, caracterização, diagnóstico, avaliação de uma intervenção), ambiente do setting (por exemplo, clínica, educacional, domiciliar, pesquisa) e da hipótese sobre quais aspectos da atenção pode ser afetada. Em suma, é importante que você compreenda que as recomendações vistas sobre a avaliação da atenção em adultos também se aplicam ao selecionar medidas para uso em crianças, mas com as recomendações adicionais de considerar a disponibilidade de normas apropriadas para o desenvolvimento e se a avaliação foi projetada para uso repetido ao longo do tempo (ou seja, para monitorar o desenvolvimento de habilidades atencionais). Para saber mais sobre indicadores de melhora de programas de intervenção neuropsicológica para treino de habilidades de atenção e fl exibilidade cognitiva em crianças com sinais de desatenção e hiperatividade, leia a dissertação “Intervenção neuropsicológica para desenvolvimento de habilidades de atenção e fl exibilidade cognitiva em criança com TDAH” de Carla N. Cantiere, disponível no seguinte endereço: <http://tede.mackenzie.br/jspui/bitstream/tede/1634/1/ Carla%20Nunes%20Cantiere.pdf>. 4.2 INTERVENÇÕES BASEADAS EM EVIDÊNCIAS PARA TRANSTORNOS DA ATENÇÃO EM CRIANÇAS Existem várias revisões existentes sobre intervençõescognitivas em crianças baseadas em evidências, por exemplo, os trabalhos de Diamond e Ling (2016) 119 REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA DO PROCESSAMENTO DE INFORMAÇÃO, ATENÇÃO E MEMÓRIA Capítulo 2 e de Peng e Miller (2016). Portanto, uma revisão detalhada não está incluída aqui. Em vez disso, a seguir resumiremos brevemente as intervenções baseadas em processos e estratégias disponíveis para a atenção, com foco em estudos controlados (por exemplo, ensaios clínicos randomizados e não randomizados). 4.2.1 Treinamento baseado em processos O treinamento baseado em processos inclui intervenções que se concentram na prática repetida. Um exemplo de um programa de treinamento informatizado disponível comercialmente que usa uma abordagem de treinamento de processo é o Cogmed. Embora o Cogmed seja projetado para direcionar a memória de trabalho/controle executivo, é frequentemente usado para melhorar a atenção. Existem alguns ensaios clínicos randomizados (ECRs) que avaliam o Cogmed em crianças com TDAH, como apresentados na revisão elaborada por Robinson et al. (2014). Alguns dos ECRs demonstraram ganhos em medidas de memória de trabalho, inibição e classifi cações dos pais no comportamento atencional. É importante observar, no entanto, que a maioria dos ECRs que avaliaram a Cogmed não relataram ganhos além da transferência proximal (ou seja, medidas do mesmo constructo alvo do treinamento, mas usando tarefas não treinadas) em tarefas de memória de trabalho. Além disso, apenas um ECR publicado avaliou o Cogmed em crianças com LCT (PHILLIPS et al., 2016), com descobertas sugerindo melhorias nas medidas não treinadas da memória de trabalho (transferência proximal) e leitura (transferência distal, ou seja, melhorias em outras habilidades cognitivas/cotidianas consideradas dependentes da atenção, mas não diretamente alvos pelo treinamento), mas não da atenção, imediatamente e três meses após o treinamento. Solan et al. (2003) avaliaram uma tarefa de treinamento informatizado envolvendo prática de atenção visual seletiva e sustentada. Eles descobriram que, após 12 semanas de sessões de treinamento de atenção de uma hora, as crianças com difi culdades de leitura melhoraram em relação aos controles (sem treinamento) em uma avaliação de atenção (transferência proximal) e compreensão de leitura (transferência distal). Resultados semelhantes foram demonstrados com crianças mais jovens e em desenvolvimento típico (WASS, 2015), pelo menos em termos de ganhos em tarefas de atenção. Novamente, no entanto, as evidências para ganhos de treinamento além de tarefas de atenção não treinadas são limitadas. 120 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA Entre os programas estruturados de treinamento da atenção estão o Attention Process Training (APT) e sua versão para a infância, o Pay Attention! - A Children´s Attention Process Training Program. O Pay Attention! foi desenvolvido a partir dos princípios do APT para uso em crianças de 4 a 10 anos de idade, com o objetivo de intervir nas difi culdades de atenção sustentada, seletiva, alternada e dividida. Para saber mais deste programa, leia o artigo “Tradução e Adaptação do Pay Attention! – Um Programa de Treinamento dos Processos da Atenção para Crianças” de Barbosa, Miranda e Bueno (2014), um estudo que descreve o processo de tradução, adaptação e análise de aplicabilidade clínica do Programa Pay Attention! ao português do Brasil. O artigo está disponível no seguinte endereço: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102- 79722014000400775&lng=en&nrm=iso>. 4.2.2 Treinamentos baseados em estratégia e em processos combinados O treinamento baseado em estratégia inclui intervenções que visam aumentar a conscientização sobre a difi culdade de atenção e ensinar estratégias para gerenciar e controlar a atenção. Essas intervenções são frequentemente combinadas com treinamento baseado em processos para fornecer uma plataforma sobre a qual as estratégias podem ser aprendidas. Por exemplo, o Programa de Reabilitação Cognitiva (CRP) (BUTLER et al., 2008) inclui o uso e a avaliação de estratégias de atenção metacognitivas enquanto conclui as tarefas de treinamento de processos da atenção por duas horas por semana, durante 20 semanas. Os resultados de um grande ECR em vários locais indicaram ganhos nas medidas de atenção em crianças que sobreviveram ao câncer envolvendo o sistema nervoso central. Da mesma forma, o Programa de Treinamento de Atenção e Memória de Amsterdã para Crianças (AMAT-C) (VAN'T HOOFT et al., 2007) pode ser concluído em casa ou na escola e envolve a realização de diferentes tarefas baseadas em processos com o apoio de um “treinador” para orientar o uso e avaliação da estratégia. A intervenção é concluída por 30 minutos por sessão, durante 17 semanas. Crianças com lesão cerebral adquirida (LCA) mostraram melhorias nas medidas de atenção auditiva e visual durante o 121 REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA DO PROCESSAMENTO DE INFORMAÇÃO, ATENÇÃO E MEMÓRIA Capítulo 2 treinamento e seis meses após o treinamento. Embora os resultados deste estudo sejam promissores, pelo menos em termos de melhoria do desempenho em medidas de atenção (transferência proximal), há evidências limitadas de efeitos de transferência distal. Além disso, o CRP e o AMAT-C incluem treinamento em outros domínios além da atenção e, portanto, não é possível atribuir os ganhos ao treinamento específi co da estratégia de atenção. Em um estudo controlado não randomizado, Galbiati et al. (2009) avaliaram o processo de treinamento específi co da atenção, visando a vigilância, atenção e concentração, e o conhecimento de estratégias para apoiar as demandas atencionais das tarefas. Crianças com LCT grave completaram o treinamento quatro vezes por semana durante seis meses. O grupo de tratamento mostrou maiores melhorias na atenção (transferência proximal) e comportamento adaptativo (transferência distal) do que o grupo controle após 12 meses. Embora este estudo sugira que o treinamento específi co da atenção possa levar a ganhos na atenção e no comportamento diário, algumas limitações de design precisam ser consideradas (ou seja, falta de randomização, falta de grupo de controle ativo). Limond, Adlam e Cormack (2014) propõem um modelo para orientar as intervenções neurocognitivas pediátricas (INP), que inclui treinamento de estratégia e processos, além de considerações clínicas mais amplas. O modelo INP compreende quatro níveis hierárquicos. As avaliações neurocognitivas e clínicas determinam qual nível de intervenção aplicar e a avaliação dinâmica pode ser usada para determinar qual intervenção em cada nível provavelmente será a mais benéfi ca. Essa abordagem está detalhada no Quadro 6. QUADRO 6 – APLICAÇÃO DO MODELO DE INTERVENÇÕES NEUROCOGNITIVAS PEDIÁTRICAS (INP) PARA AUXILIAR DIFICULDADES DE ATENÇÃO EM CRIANÇAS Níveis do modelo de INP: • O nível A descreve intervenções intensivas e apoiadas para crianças pe- quenas (ou crianças mais velhas com comprometimento cognitivo). No nível A não se espera que as estratégias sejam aplicadas independen- temente. Em vez disso, conta-se com sugestões e apoio signifi cativos de cuidadores, professores ou assistentes para ajudar a criança a saber quando e onde aplicar a estratégia e manter a criança no caminho certo. Exemplos de intervenções de atenção de nível A incluem o uso de alertas aleatórios para manter a atenção sustentada, remover as distrações do ambiente e fornecer reforço positivo para uma atenção bem-sucedida à tarefa. 122 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA • O nível B descreve a remediação potencial da atenção usando programas que envolvem a prática repetida de tarefas baseadas em processos que aumentam em difi culdade à medida que o desempenho melhora. Eles são recomendados para crianças que têm níveis sufi cientes de compreensão para entender os requisitos de treinamentoe motivação para manter o trei- namento, mesmo que as tarefas se tornem chatas ou frustrantes. Exem- plos de intervenções de nível B para atenção incluem: Rehacom (http:// rehacom.us) e Cogmed (http://cogmed.com) • O nível C descreve intervenções para desenvolver processos metacogni- tivos e de supervisão. Especifi camente, ensinando um indivíduo a identifi - car suas próprias difi culdades de atenção, como essas difi culdades podem afetar as tarefas e como selecionar e avaliar estratégias. Essas habilidades normalmente não surgem a metade ou fi nal da segunda infância e essas intervenções só são recomendadas para crianças mais velhas e aquelas com processos cognitivos subjacentes relativamente intactos. Exemplos de intervenções de nível C para atenção incluem: AMAT-C e CRP (ambos AMAT-C e CRP combinam treinamento baseado em processos (Nível B) com treinamento metacognitivo (Nível C)). • O nível D descreve intervenções que facilitam o uso independente de estratégias compensatórias na vida cotidiana e são recomendadas para adolescentes e adultos jovens. As estratégias de nível D podem ser as mesmas usadas nos Níveis A (para apoiar diretamente os processos de atenção) e Nível C (para monitorar seu próprio desempenho), mas o jovem está envolvido no desenvolvimento de uma estrutura e dicas para aplicar e avaliar estratégias de forma independente, tanto nos aspectos familiares e situações novas. O sucesso do INP dependerá de: • Fatores sistêmicos, emocionais, comportamentais, físicos e sensoriais sendo apoiados. • Intervenções apropriadas para o desenvolvimento (por exemplo, uma criança de quatro anos tipicamente em desenvolvimento não se espera que tenha desenvolvido consciência metacognitiva, portanto, as interven- ções de nível C não são recomendado para uma criança que está nesse estágio de desenvolvimento). 123 REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA DO PROCESSAMENTO DE INFORMAÇÃO, ATENÇÃO E MEMÓRIA Capítulo 2 • Habilidades de pré-requisito em vigor (por exemplo, uma criança só se be- nefi ciará de uma intervenção de Nível D se as habilidades dos níveis mais baixos já foram atingidas e estejam intactas. • Motivação e engajamento da criança e sua família, incluindo objetivos da criança e da família. FONTE: Adaptado de Limond, Adlam e Cormack (2014) Em resumo, é importante compreender que existe uma base de evidências emergentes para intervenções de atenção na infância. No entanto, as áreas de prioridade de pesquisa incluem generalização, manutenção dos ganhos do tratamento, diferenças individuais (o que funciona para quem) e moderadores/ mediadores dos efeitos do tratamento. O objetivo da reabilitação neuropsicológica é estabelecer estratégias para adaptação de funções cognitivas afetadas em relação às demandas do ambiente da criança. A reabilitação cognitiva pediátrica auxilia crianças com defi ciência mental, epilepsia, traumatismo craniencefálico, síndromes autísticas, tumores cerebrais, paralisia cerebral etc. Programas de reabilitação neuropsicológica podem ser voltados para difi culdades acadêmicas ou para funções cognitivas. Para saber mais sobre a reabilitação neuropsicológica pediátrica, leia o artigo “Reabilitação neuropsicológica pediátrica” de Flávia H. dos Santos (2005), disponível no seguinte endereço: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414- 98932005000300009&lng=pt&nrm=iso>. 124 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA 5 REABILITAÇÃO DE TRANSTORNOS DE MEMÓRIA DE TRABALHO O modelo de memória de trabalho (MT) de Baddeley e Hitch (1974) é um dos conceitos mais conhecidos e duradouros da psicologia cognitiva. Ele descreve um conjunto de módulos dedicados ao armazenamento e manipulação de informações por tempo limitado. Uma riqueza de dados experimentais da pesquisa em psicologia cognitiva, neuropsicologia e neuroimagem apoiou o modelo, e foi praticamente aplicado em vários campos, principalmente na psicologia educacional e clínica. A MT é reduzida em inúmeras condições neurológicas, psiquiátricas e de desenvolvimento, e o funcionamento da MT está associado de maneira confi ável a várias facetas do funcionamento diário. A mensuração da MT para fi ns clínicos é um componente fundamental de uma avaliação neuropsicológica, pois a memória de trabalho se sobrepõe ou sustenta o funcionamento em muitos outros domínios de cognição e emoção. Recentemente, a perspectiva de melhorar a MT por meio de treinamento adaptativo computadorizado atraiu extensos esforços de fi nanciamento e pesquisa em populações pediátricas, adultas e em envelhecimento. A esperança é que, direcionando os processos fundamentais que compõem a MT, benefícios generalizados ocorram. No entanto, há uma falta de evidência consistente de que os benefícios relacionados ao treinamento generalizam até mesmo ao desempenho em testes de funções cognitivas relacionadas, sem falar em melhorias na função diária. Portanto, caro leitor, deve-se ter cuidado ao empregar essas abordagens de treinamento. A mensagem clínica é avaliar e intervir com a MT apenas como parte de uma formulação holística e com relação aos objetivos funcionais. Observe que o material apresentado na seção anterior sobre atenção é altamente relevante para entender e trabalhar com a MT em ambientes aplicados e de pesquisa. 5.1 MEMÓRIA DE TRABALHO EM CONTEXTO: COGNIÇÃO, CÉREBRO E VIDA EM GERAL Em alguns aspectos, o cérebro é um processador paralelo com uma enorme capacidade. Ao analisar uma cena visual, por exemplo, as células respondem a determinadas propriedades (por exemplo, ângulo, cor) dentro de seu campo 125 REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA DO PROCESSAMENTO DE INFORMAÇÃO, ATENÇÃO E MEMÓRIA Capítulo 2 receptivo, independentemente do que mais esteja ocorrendo na cena. Para a memória de longo prazo, embora possa haver interferência entre itens altamente semelhantes, não há um limite estrito no número de coisas que podemos saber ou saber fazer. Por outro lado, quando se trata de outras tarefas cognitivas, principalmente aquelas relacionadas à atenção e à memória de trabalho, encontramos sérias limitações de capacidade. Se formos solicitados a concluir simultaneamente duas tarefas auditivas e visuais não relacionadas, apesar de não haver interferência sensorial direta, é provável que nosso desempenho sofra acentuadamente em comparação com condições de tarefa única (DUNCAN, 1980). O modelo da MT de Baddeley e Hitch (BADDELEY; HITCH, 1974) surgiu e teve grande infl uência no pensamento sobre essas limitações de capacidade. Eles aplicaram o termo "memória de trabalho" em referência a um conjunto de armazenamentos cognitivos temporários nos quais as informações são mantidas e manipuladas. O modelo original compreendia dois “sistemas escravos” (também conhecidos como sistemas de apoio) distintos, o “laço fonológico” (ou ciclo fonológico) e a “tábua de rascunho visuoespacial', juntamente com o processo “executivo central” servindo para controlar o input para esses sistemas escravos. Eles poderiam inferir os limites dos sistemas escravos medindo, por exemplo, o número de dígitos auditivos ou localizações visuais de uma sequência que as pessoas poderiam ter em mente (ou seja, a “extensão” da MT) e obter pistas sobre como os sistemas funcionam examinando o que é lembrado quando as informações apresentadas excedem a capacidade de extensão (por exemplo, examinando os limites do efeito de recência na recordação livre). Além disso, os processos executivos centrais podem ser investigados examinando, por exemplo, a interferência entre as armazenagens à medida que as informações em cada uma são manipuladas. Segundo Baddeley (1996), o laço fonológico possui subcomponentes tanto de armazenamento quanto de ensaio, e uma capacidade equivalente ao que pode ser dito em aproximadamente dois segundos. A “tábua de rascunho visuoespacial' é descrita como tendo subsistemas separados, mas relacionados, para informaçõesvisuais e espaciais, e como sendo fortemente dependente do processo executivo central, pois as tarefas de imagens visuais necessárias são menos automáticas que as imagens fonológicas. A robustez desse modelo na explicação de uma enorme variedade de dados experimentais é evidenciada pelo fato de que Baddeley levou 26 anos para sugerir um componente adicional, o “buffer episódico”, uma interface temporária entre os sistemas escravos e a memória de longo prazo (BADDELEY, 2000). O trabalho teórico sobre MT teve forte aplicação prática desde o início. Também tem sido infl uente nos campos da psicologia educacional e clínica. O modelo, 126 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA no entanto, não deixou de ser contestado. Resta um debate, por exemplo, sobre a natureza dos sistemas componentes e se suas funções são realmente de “armazenamento”, em oposição às funções perceptivas e de output e se existe uma separação genuína entre memória de trabalho e memória de curto prazo em oposição a, digamos, o foco atencional em um subconjunto de informações na memória de longo prazo. Além disso, Logie (2016) argumentou recentemente que os avanços em nossa compreensão dos processos de controle executivo signifi cam que o componente “executivo central" da MT poderá ser deixado de lado. A memória de trabalho, portanto, é o sistema associado ao estar ciente do conteúdo da própria mente e começar a usá-lo para alcançar objetivos. Está fortemente ligado à atenção, no sentido de que os processos de seleção e priorização considerados os marcos de atenção efetivamente precedem e se sobrepõem ao uso e armazenamento temporário dessas informações na MT. Baddeley até observou que o nome atenção de trabalho pode ser tão adequado quanto memória de trabalho (BADDELEY, 1993). O componente executivo central da MT se sobrepõe claramente a concepções mais amplas de funcionamento executivo. Também existem vínculos importantes entre MT e emoção, com efeitos de aprimoramento e comprometimento relatados em diferentes circunstâncias (DOLCOS; WANG; MATHER, 2015). Portanto, é fácil ver como as defi ciências de MT podem impactar o desempenho em muitos domínios. Existem evidências claras de associações entre a MT e a aprendizagem e compreensão de idiomas (BADDELEY, 2003), aprendizagem de habilidades (SEIDLER; BO; ANGUERA, 2012), memória autobiográfi ca (WINTHORPE; RABBITT, 1988) e capacidade intelectual geral (WECHSLER, 2010a). Em crianças, a capacidade da MT está associada ao desempenho em testes padronizados de leitura e capacidade matemática (GATHERCOLE et al., 2005). Esses estudos ilustram o provável impacto geral do domínio das reduções na capacidade e/ou efi ciência da MT que ocorrem em vários grupos clínicos nos quais o cérebro está comprometido. No entanto, é importante notar que também é possível ter um comprometimento relativamente seletivo dos componentes da MT. Wilson, Baddeley e Young (1999), por exemplo, relataram o caso de uma artista, L. E. O estilo da artista mudou de preciso e realista para um caráter amorfo e abstrato, e uma avaliação cuidadosa mostrou que ela havia prejudicado a memória imediata de informações visuais, mas não espaciais. Da mesma forma, Baddeley, Papagno e Vallar (1988) relataram um caso com comprometimento específi co do armazenamento fonológico. 127 REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA DO PROCESSAMENTO DE INFORMAÇÃO, ATENÇÃO E MEMÓRIA Capítulo 2 1 O modelo de Memória de Trabalho proposto por Baddeley e Hitch teve grande infl uência sobre a pesquisa, a teorização e a prática de reabilitação da memória. Após vinte e seis anos da postulação do modelo, Baddeley sugeriu um componente adicional ao seu modelo. Qual é este componente adicional? R.: ____________________________________________________ ____________________________________________________ __________________________________________________ Os primeiros estudos funcionais de neuroimagem localizaram o executivo central no córtex pré-frontal dorsolateral e no córtex cingulado anterior (D’ESPOSITO et al., 1995). O córtex pré-frontal e parietal também foi identifi cado como chave na manutenção ativa dentro da MT (COHEN et al., 1997). Áreas semelhantes de ativação foram encontradas em tarefas que utilizam os sistemas escravos, mas com regiões adicionais mais posteriores e específi cas para cada sistema. Por exemplo, Smith et al. (1995) identifi caram que as redes associadas ao armazenamento da tábua de rascunho visuoespacial incluíam as regiões corticais temporal e parietal esquerda para tarefas baseadas em objetos e áreas temporais e parietais inferiores direita para tarefas espaciais. Smith e Jonides (1999), por sua vez, descobriram que o armazenamento verbal estava associado à área de Broca e às áreas motoras e pré-motoras suplementares do hemisfério esquerdo. Obviamente, essas regiões pré-frontais não são específi cas da função da MT; ao contrário, elas estão envolvidas na conclusão de uma ampla variedade de tarefas cognitivas (DUNCAN; OWEN, 2000). Estudos de imagem de ressonância magnética funcional mais recentes e de alta resolução encontraram importantes contribuições das estruturas cerebelares para as funções executivas e fonológicas da MT (THÜRLING et al., 2012). Eles também exploraram questões sutis sobre a dinâmica da MT, seu curso temporal e as conexões funcionais entre as diversas regiões cerebrais que a suportam (D´ESPOSITO; POSTLE, 2015). No entanto, esses achados iniciais resistiram ao teste do tempo. É interessante e de observação clínica que, embora as pessoas com danos no córtex pré-frontal dorsolateral nem sempre apresentem um impacto marcante ou até signifi cativo da memória de trabalho, o comprometimento relativo aos participantes do controle é aparente quando testes sufi cientemente sensíveis são usados ou em estudos de grupo (ROUSSEL et al, 2012). 128 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA Para aprofundar seu conhecimento sobre a reabilitação neuropsicológica da memória, sugerimos a leitura do livro “Reabilitação da memória: Integrando Teoria e Prática” de Barbara A. Wilson (2011). 5.2 MEMÓRIA DE TRABALHO EM TRANSTORNOS CLÍNICOS Dada a distribuição das funções da MT no cérebro e a importância da sua prática para o funcionamento diário, não surpreende que a sua capacidade tenha sido investigada em uma ampla gama de transtornos neurológicos, psiquiátricos e de desenvolvimento. A MT foi identifi cada como reduzida em comparação com a população saudável após transtornos tão abrangentes quanto lesão cerebral traumática (MCDOWELL; WHYTE; D'ESPOSITO, 1997), doença de Alzheimer e demências relacionadas (PERRY; HODGES, 1999), doença de Parkinson (LEWIS et al., 2005), esclerose múltipla (PARMENTER et al., 2006), transtorno do défi cit de atenção e hiperatividade (KENNEDY; QUINLAN; BROWN, 2016) e esquizofrenia (FORBES et al., 2009), além de ser uma característica da distúrbios emocionais, incluindo depressão (CASTANEDA et al., 2008) e transtorno de estresse pós- traumático (LAGARDE, DOYON; BRUNET, 2010). A atividade ocupacional também parece ter impacto sobre a MT, com pessoas classifi cadas com scores altos em “multitarefa de mídia” (ou seja, assistindo TV enquanto também navega na Internet etc.) identifi cadas como tendo desempenho mais fraco da MT do que aquelas com baixo desempenho nessa atividade, independentemente de se a situação do teste incluía distração (UNCAPHER; THIEU; WAGNER, 2016). Poucos estudos examinam a MT com um grau de precisão sufi ciente para permitir a identifi cação dos subcomponentes afetados. Mesmo pessoas com comprometimento cognitivo grave e generalizado reterão alguma capacidade da MT, e mesmo aquelas com comprometimentos graves de memória anterógrada, que são incapazes de lembrar muito do que ocorreu no início do dia, podem ter desempenho relativamente preservado da MT, de fato, essa preservação é uma característica diagnóstica da síndrome amnésica clássica (WILSON, 2009).129 REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA DO PROCESSAMENTO DE INFORMAÇÃO, ATENÇÃO E MEMÓRIA Capítulo 2 5.3 AVALIAÇÃO DA MEMÓRIA DE TRABALHO Uma variedade das principais baterias de avaliação cognitiva inclui maneiras de mensurar a MT. Na quarta edição da Escala de Inteligência Wechsler para Adultos (WAIS-IV) (WECHSLER, 2010a), o Índice da Memória de Trabalho (IMT) é derivado de pontuações nos subtestes de Amplitude Numérica (Span de Dígitos) e Aritmética, com o subteste opcional Sequência de Números e Letras também sendo um colaborador potencial. O WAIS-IV e seus antecessores estão entre os procedimentos mais estabelecidos na avaliação neuropsicológica, com uma amostra normativa e confi abilidade inigualável. Inclui medidas de armazenamento simples através do ensaio de Dígitos de Ordem Direta e operações da MT mais complexas nos ensaios Dígitos de Ordem Inversa e Sequenciamentos, exigindo manipulação mental dos materiais armazenados. Os problemas óbvios de interpretação na defi nição de IMT no WAIS-IV dizem respeito à “contaminação” educacional por meio do subteste Aritmético (o conhecimento aritmético pode reduzir as demandas de MT), juntamente com suas demandas de cálculo e a ausência de um componente não verbal de MT. A quarta edição da Escala de Memória Wechsler (WECHSLER, 2010b) inclui convenientemente um Índice de Memória de Trabalho Visual baseado nos subtestes Adição Espacial e Span de Símbolo. A plataforma de teste cognitivo computadorizado CANTAB inclui vários testes de memória de trabalho, principalmente com foco em material não verbal, por exemplo, Memória de Trabalho Espacial e Span Espacial (CAMBRIDGE COGNITION, 2016). Outras medidas também estão disponíveis. Isso inclui a segunda edição da Avaliação Global da Memória e Aprendizagem (SHESLOW; ADAMS, 2003), que possui um Índice de MT derivado de um subteste verbal e um não verbal; o Teste de Adição Serial Auditiva Estimulada (GRONWALL, 1977); e o procedimento da Tarefa de Brown-Peterson, por exemplo, o Teste do Trigrama de Consoantes (MITRUSHINA, 2005), que é particularmente útil para o exame do impacto da interferência na MT. Por fi m, existe um teste computadorizado projetado especifi camente para a avaliação da MT em crianças em idade escolar, a Bateria Automatizada de Memória de Trabalho (AWMA) (PACKIAM- ALLOWAY, 2007). Esta é uma avaliação empiricamente fundamentada que mede o armazenamento e a manipulação de material verbal e não verbal de forma independente. Uma escala de classifi cação complementar também está disponível (PACKIAM-ALLOWAY; GATHERCOLE; KIRKWOOD, 2008). 130 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA Saiba mais sobre as funções cognitivas identifi cadas mediante instrumentos validados e reconhecidos pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP) no site do SATESPI (<http://satepsi.cfp.org.br/>.), Sistema de Avaliação de Testes Psicológicos, que identifi cam funções cognitivas específi cas e podem contribuir para o desenvolvimento do plano terapêutico de reabilitação neuropsicológica. É útil coletar informações sobre o funcionamento cotidiano por meio de observações comportamentais de compreensão e expressão verbal e por meio de observações funcionais de tarefas de processamento de informações (por exemplo, em uma tarefa de compras ou culinária, observando comportamentos de verifi cação de lista e comentários indicando que as informações escaparam da mente do participante). A medição baseada em questionário também pode ser útil, e vários questionários incluem itens relacionados a falhas de memória de trabalho, como o Questionário de Falhas Cognitivas (BROADBENT et al., 1982) e o Questionário de Memória da Vida Diária (ROYLE; LINCOLN, 2008). Também é imperativo vincular os resultados dos testes às descrições e/ou observações da função diária. No entanto, é difícil obter informações de entrevistas específi cas da MT, devido à inter-relação entre a MT e outras funções cognitivas necessárias para o desempenho bem-sucedido das tarefas diárias. Esse é um domínio em que a avaliação neuropsicológica baseada no desempenho é absolutamente necessária para capturar capacidades básicas. A literatura sobre a MT é extensa e muitos procedimentos experimentais para medi-la foram desenvolvidos. Os mais utilizados incluem tarefas de span, em que o participante recebe uma série de estímulos e é solicitado a reproduzir a série. Também a tarefa n-back, no qual são apresentados aos participantes a uma série de estímulos e solicitados que identifi quem se o estímulo atual também apareceu em itens anteriores (quanto maior o número, mais desafi adora a tarefa). Veja o trabalho de Wilhelm, Hildebrandt e Oberauer (2013) para uma revisão abrangente dos métodos de medição da MT. Ao se tratar de avaliação e reabilitação, não podemos nos esquecer da importância do feedback. Fornecer feedback é um componente crucial da avaliação neuropsicológica. Essa é uma parte importante do processo de 131 REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA DO PROCESSAMENTO DE INFORMAÇÃO, ATENÇÃO E MEMÓRIA Capítulo 2 desenvolvimento de uma formulação das forças e desafi os cognitivos de uma pessoa e do funcionamento mais amplo. Ao fornecer feedback inicial sobre o desempenho da MT, é importante: a) fornecer uma defi nição de MT; b) vincular essa função aos testes usados para avaliá-la; c) explicar o nível de desempenho de uma maneira acessível ao participante e/ ou parentes (ou seja, percentis são geralmente o conceito psicométrico mais acessível, mas falar sobre a faixa geral alcançada em relação à população e suas expectativas para esse indivíduo geralmente é sufi ciente); d) usar exemplos da entrevista clínica e/ou observações comportamentais para ajudar a vincular essas novas informações ao conhecimento existente da pessoa e à própria experiência. Isso abre uma conversa sobre possíveis métodos de compensação de difi culdades. Também permite explorar alguns vínculos entre a MT e domínios emocionais e físicos, por exemplo, pensando nos vínculos entre humor baixo, preocupação, dor ou fadiga na capacidade da pessoa de se concentrar na conversa, no trabalho e assim por diante. No entanto, pode não ser necessário fazer referência específi ca à “memória de trabalho”, particularmente em casos que não sejam aqueles com comprometimento seletivo. Isso ocorre porque a MT geralmente é um termo desconhecido e, considerando a ampla gama de funções normalmente examinadas em uma avaliação neuropsicológica, nem sempre haverá um valor agregado na sua introdução. Uma alternativa preferível pode ser usar termos familiares existentes, como o número de coisas que o sujeito pode manter na mente, como uma sequência de instruções de orientação, como “virar à esquerda e depois à direita” ou fazer alternâncias de juízos com uma ou mais ideias para pensar nos prós e contras de cada uma. Outra distinção útil ao pensar sobre o efeito da distração no humor, por exemplo, pode ser a separação entre o armazenamento básico de informações e a capacidade de "trabalhar" mentalmente com isso. 5.4 INTERVENÇÕES NAS DIFICULDADES DA MEMÓRIA DE TRABALHO Sabe-se que a MT é, notavelmente, plástica em alguns aspectos. O exemplo mais notável que ilustra isso é o estudo de Ericsson, Chase e Faloon (1980), no 132 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA qual eles treinaram um estudante de graduação, S. F., em tarefas de span de dígitos em que ele ouviu uma série de dígitos e foi solicitado a repeti-los em voz alta na mesma ordem. Praticando por uma hora, 3-5 dias por semana, durante 20 meses, o intervalo de dígitos de S. F. aumentou de 7 para quase 80. Apesar desse desempenho impressionante, o S. F. ainda conseguia recuperar apenas 7 itens em uma tarefa de span de letras não treinada, mas ostensivamente muito semelhante. Ao explicar esse desempenho extraordinário, mas a falta de generalização, observou-se que S. F., um corredor de longa distância, usou uma estratégiade dividir dígitos em grupos de 3 a 5 itens e associar esse grupo aos tempos de corrida para várias corridas (por exemplo, 3429 = 3 minutos 42,9 segundos) ou idades e datas memoráveis e, em seguida, construindo essas sequências em grupos usando uma estrutura de subgrupo-supergrupo. Não está claro se S. F. se benefi ciou desse exercício em outros aspectos (certamente não benefi ciou seu desempenho no período de correspondência) ou mesmo se ele usava esta estratégia numérica em sua vida diária. Desde a publicação do estudo randomizado controlado de Klingberg et al. (2005) em crianças com TDAH, o treinamento de MT tem sido o foco de muitos ensaios clínicos. Klingberg et al. (2005) demonstraram melhorias na MT subsequentes ao treinamento computadorizado em um conjunto de tarefas em relação a uma intervenção de controle ativo, observando-se generalizações nos relatórios de professores/pais sobre a distração diária dos participantes. Não é de surpreender que, dada a ubiquidade dos défi cits na MT, os pesquisadores tenham se interessado em examinar os benefícios potenciais em outros grupos clínicos, incluindo acidente vascular cerebral, LCT, pessoas com defi ciência intelectual e crianças com baixa MT. O treinamento online da MT em casa é potencialmente barato, conveniente e acessível por um número muito maior de pessoas do que a reabilitação convencional fornecida pelo terapeuta. Se os benefícios sustentados e generalizados de tal treinamento, puderem ser produzidos com segurança, isso poderá anunciar uma mudança fundamental na prática clínica. No entanto, questões importantes foram levantadas em relação à durabilidade e generalização dos benefícios relacionados ao treinamento, tanto em termos de desempenho em tarefas cognitivas relacionadas relativamente estreitamente quanto em índices do funcionamento diário. Meta-análises recentes mostraram várias evidências fortes apoiando essa transferência (AU et al., 2016), versus “transferência proximal” limitadas e “transferência distal” inexistente, ou outras evidências a favor da hipótese nula (DOUGHERTY; HAMOVITZ; TIDWELL, 2016; MELBY-LERVÅG; REDICK; HULME, 2016). Também é importante observar que os ensaios metodologicamente mais fracos tendem a encontrar os resultados mais convincentes. Por exemplo, 133 REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA DO PROCESSAMENTO DE INFORMAÇÃO, ATENÇÃO E MEMÓRIA Capítulo 2 Dougherty, Hamovitz e Tidwell (2016) encontraram evidências de transferência em uma meta-análise de estudos com uma intervenção de controle passivo, mas as evidências sugeriram nenhum efeito quando os estudos com controle ativo foram examinados. Além disso, Cortese et al. (2015), analisando o treinamento cognitivo (ou seja, um foco mais amplo do que apenas o treinamento da MT) especifi camente em crianças com TDAH, descobriram que os tamanhos de efeito de estudos que usam classifi cações cegas da função diária eram signifi cativamente menores do que aqueles de estudos com classifi cações não cegas. A revisão de Herrmann, Rea e Andrzejewski (1988), que examinou os programas de treinamento de memória contemporâneos, incluía mnemônicos de associação e imagens e prática repetitiva. Eles identifi caram melhorias dramáticas, mas que raramente eram sustentadas ao longo do tempo e que eram aplicadas apenas em uma estreita gama de situações (ou seja, aquelas que envolviam aprender e recuperar novas informações, como na preparação para um exame ou entrevista de emprego ou aprender um discurso). Eles concluíram que “a capacidade geral não pode ser treinada ou pode ser treinada apenas com procedimentos até agora não testados” (HERRMANN; REA; ANDRZEJEWSKI, 1988, p. 417). Isso ecoa o padrão de resultados do famoso estudo de caso de Ericsson, Chase e Faloon (1980) e a situação atualmente parece a mesma, embora com métodos de treinamento tecnologicamente mais sofi sticados empregados. Continua sendo possível, é claro, que novos tipos de treinamento assistido por computador ou outro, por períodos mais longos, com mais complementos e um foco inerente à generalização, possam produzir melhorias duradouras e clinicamente relevantes, e é necessária uma pesquisa contínua. No entanto, é necessário aconselhamento clínico atual sobre as evidências disponíveis, levando em consideração as difi culdades em mostrar benefícios generalizados do treinamento cognitivo específi co de capacidades que não se resumam a MT. Então, o que podemos fazer perante este cenário? O imperativo clínico é ajudar as pessoas com difi culdades de MT a atingirem objetivos alcançáveis, estejam eles preocupados em entender sua formulação clínica, aumentar a participação social, melhorar o uso da estratégia compensatória, resolver problemas de humor ou reduzir a ansiedade. A memória de trabalho pode se encaixar nesse empreendimento de várias maneiras. Com base em experiências clínicas, podemos incluir: • Gerenciar a apresentação de informações: nas sessões clínicas, isso signifi ca potencialmente adaptar o estilo natural de alguém para usar frases concisas, tanto em discurso, slides de apresentação e folhetos; incluindo resumos e discussões frequentes para verifi car a 134 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA compreensão; dando tempo para discussões e perguntas; e fornecendo pausas frequentes. • Avaliação, feedback e formulação: como descrito anteriormente, é importante avaliar a função da MT no contexto de uma avaliação cognitiva mais ampla e usar o mecanismo para fornecer feedback para melhorar a compreensão do perfi l do cliente de seus pontos fortes e desafi os. • Psicoeducação: fornecer informações acessíveis a clientes, parentes e cuidadores sobre o que é a memória de trabalho e como as difi culdades com ela podem se apresentar. Isso pode incluir ajudar as pessoas a entenderem que comportamentos como esquecer elementos da conversa, não seguir as tarefas ou ter uma aparente falta de cuidado e/ou interesse podem realmente refl etir o comprometimento cognitivo, como redução da MT, em vez de “preguiça”. Esse entendimento aprimorado pode, em pequena medida, aliviar a pressão, muitas vezes, sobre relacionamentos tensos e formar uma base para estabelecer e incentivar o uso mantido de sistemas de estratégia compensatória. • Reabilitação cognitiva: essas abordagens podem ser categorizadas como ambientais, internas e externas e são usadas de acordo com a formulação e a preferência do cliente. o Gerenciamento do ambiente: isso inclui alterações simples destinadas a reduzir as demandas da MT de uma tarefa (por exemplo, manter conversas de trabalho individualmente, em vez de em grupo, sempre que possível) e reduzir as distrações. As distrações externas podem ser gerenciadas reduzindo o ruído de fundo, desligando os telefones celulares, desativando as notifi cações por e-mail, usando tampões para os ouvidos ou fones de ouvido com cancelamento de ruído, reduzindo a confusão visual e garantindo que a iluminação seja adequada para concluir a tarefa. As distrações também podem ser internas e geralmente estão associadas a outras áreas de difi culdade que afetam a MT (por exemplo, humor baixo, ansiedade, sono ruim, fadiga etc.), que podem ser tratadas conforme necessário. Como alternativa, pensamentos perturbadores podem ser sobre atividades preferíveis à atividade atual ou simplesmente ser irrelevantes para as tarefas. Geralmente, eles são passíveis de uma abordagem de defi nição de objetivos a curto prazo que incorpora recompensas (por exemplo, o objetivo é escrever pelo menos a introdução do capítulo pendente do livro esta tarde, e o gerenciamento de contingências seria não toma um café até que termine). o Uso de estratégias internas aplicadas a tarefas funcionalmente relevantes: incluem técnicas bem estabelecidas, como agrupamento, associações, imagens e outras mnemônicas, juntamente com a estratégia PQRST (pre-visualizar, perguntar, ler, resumir, testar) 135 REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICADO PROCESSAMENTO DE INFORMAÇÃO, ATENÇÃO E MEMÓRIA Capítulo 2 para aprender novas informações. Todos elas pretendem reduzir ou fornecer uma estrutura para as coisas a serem lembradas. É importante ressaltar que, em vez de serem aprendidas isoladamente, essas estratégias precisam estar ligadas a tarefas funcionais de importância para o indivíduo. o Uso de estratégias externas para auxiliar o desempenho em tarefas funcionalmente relevantes: utilizadas de maneira sistemática, um diário ou outro auxílio organizacional, seja de alta ou baixa tecnologia, pode ajudar a reduzir a carga que a vida cotidiana coloca na memória de trabalho. Quando uma nova tarefa surge, inseri-la no sistema signifi ca que não é preciso confi ar na lembrança no momento certo e/ou usar um ensaio contínuo para lembrá-la. • Sessões de terapia psicológica: informações e estratégias focadas na MT podem ser incorporadas com sucesso à terapia psicológica. Por exemplo, para pessoas que têm um estilo de pensamento ruminativo ou que estão preocupadas, pode ajudar a incluir na formulação que essas características consomem um espaço valioso na MT que é limitada, com impactos em todos os outros domínios cognitivos. Isso pode incentivar os clientes a experimentar estratégias, do tipo listadas acima ou associadas à terapia comportamental cognitiva, e a refl etir sobre os vínculos entre cognição e emoção. • Treinamento da MT: quando os clientes perguntam sobre o "treinamento cerebral", geralmente começamos descrevendo o estado atual das evidências. Isso seria baseado na literatura revisada acima e na declaração de consenso da comunidade científi ca sobre treinamento cerebral para adultos mais velhos. Esta declaração adverte que as reivindicações da mídia e do setor podem ser frequentemente exageradas e às vezes enganosas. Isso permite que os clientes tomem uma decisão informada sobre se é ou não uma área que desejam buscar. Alguns clientes nos centros de reabilitação fazem isso, mostraram melhorias nos testes cognitivos não treinados e subjetivamente o consideraram útil (HYNES; FISH; MANLY, 2014). Participar do treinamento de MT também pode ser uma experiência gratifi cante para o cliente (por exemplo, proporcionar satisfação ao concluir tarefas e ver o desempenho melhorar, recebendo elogios como parte do feedback automatizado). Isso pode aumentar a motivação para reabilitação adicional em alguns clientes. Também pode ser uma maneira útil de desenvolver a conscientização para alguns clientes, especialmente aqueles que podem ter difi culdades com evitar experiências e não se envolver em atividades que possam auxiliar em áreas de difi culdade. No entanto, outros clientes consideraram a experiência decepcionante e, embora por algum tempo o treinamento em MT tenha sido oferecido como parte de muitos programas em centros 136 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA de reabilitação neuropsicológica, a taxa de desistência de clientes tem sido alta. A abordagem descrita anteriormente é consistente com as diretrizes clínicas recentes para o gerenciamento de transtornos da atenção e processamento de informações em pessoas com lesão cerebral traumática (PONSFORD et al., 2014). Embora não haja recomendações separadas para a MT, aquelas sobre a atenção e o processamento de informações são altamente relevantes. Para conhecer mais e de forma prática como elaborar um Programa de Reabilitação, recomendamos a leitura do livro: “Neuropsicologia: teoria e prática” de Daniel Fuentes et al. (2014). 6 REABILITAÇÃO DE TRANSTORNOS DE MEMÓRIA EM ADULTOS E CRIANÇAS A memória se refere aos processos dinâmicos associados à codifi cação, armazenamento e recuperação de informações, e é o meio pelo qual utilizamos e retemos o conhecimento de nossas experiências passadas para uso no presente. A memória é fundamental para o funcionamento cognitivo, emocional, social e vocacional ao longo da vida, e seu valor inerente é evidente a partir do impacto dos comprometimentos generalizados experienciados por pessoas com lesões neurológicas adquiridas (BADDELEY; KOPELMAN; WILSON, 2002). O comprometimento da memória pode incluir difi culdade em recuperar informações adquiridas anteriormente, ou seja, memória retrospectiva (MR), aprender novas informações ou esquecer de executar ações pretendidas no futuro, ou seja, memória prospectiva (MP). O comprometimento persistente da memória é debilitante para os pacientes, comprometendo sua independência e seu funcionamento vocacional e psicossocial, além de afetar a vida de famílias e prestadores de cuidados que costumam ser a principal fonte de apoio. 137 REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA DO PROCESSAMENTO DE INFORMAÇÃO, ATENÇÃO E MEMÓRIA Capítulo 2 As primeiras tentativas de reabilitar a memória focaram na melhoria da MR, geralmente através do uso de estratégias ad hoc de memória e treinamento em tarefas de pouca relevância para o funcionamento diário (por exemplo, aprender listas de palavras ou fi guras) que não eram baseadas em evidências, resultando em uma abordagem fragmentada da intervenção (WILSON, 2009). Agora, é dada maior atenção ao tratamento de queixas comuns de memória que afetam o funcionamento diário, que normalmente surgem de défi cits em novos aprendizados e MP, usando métodos que também se baseiam em evidências mais forte. Este é o foco desta seção sobre reabilitação de memória em crianças e adultos. Muitas atividades em nossa vida cotidiana envolvem lembrar-se de executar uma ação pretendida no futuro (por exemplo, tomar medicamentos) ou aprender novas informações (por exemplo, os nomes das pessoas que você conhece) e habilidades (por exemplo, como usar um dispositivo eletrônico), funções de memória que são comumente comprometidas após lesão cerebral adquirida (LCA). Embora reconheçamos que existem outros componentes da memória (por exemplo, autobiográfi co, semântico, episódico), cobrir a reabilitação da memória em sua totalidade exigiria um livro inteiro, não apenas um tópico, e nosso foco em novas aprendizagens e MP é mais adequado ao objetivo deste livro como um recurso geral para o estudo da reabilitação neuropsicológica. Informações adicionais sobre a reabilitação desses outros componentes podem ser encontradas em outros excelentes recursos, como Wilson (2009), Lajiness-O'Neill et al. (2013) e Miller e Radford (2015). Neste tópico, descrevemos as principais abordagens para a reabilitação de novas aprendizagens e MP e analisamos as evidências de pesquisa para elas, delineando recomendações e diretrizes práticas, quando disponíveis. Finalizaremos com uma discussão das considerações importantes, desafi os e direções futuras na reabilitação neuropsicológica da memória. 6.1 ABORDAGENS PARA A REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA DA MEMÓRIA O foco atual da reabilitação da memória é reduzir o impacto funcional dos problemas cotidianos da memória, vivenciados como falhas em lembrar-se de fazer algo no futuro ou aprender algo novo (WILSON, 2009). Esses problemas foram direcionados pelo uso de estratégias compensatórias, técnicas instrucionais 138 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA específi cas e abordagens mais programáticas que visam treinar o uso da estratégia. Sugerimos a leitura do livro “Neuropsicologia: aplicações clínicas” de Leandro F. Malloy-Diniz et al. (2016). Esse livro tem um capítulo bem interessante de reabilitação da memória em que apresenta abordagens atuais para a reabilitação neuropsicológica da memória. Grande parte da base de evidências que apoia essas três abordagens estratégicas principais da reabilitação da memória é baseada em estudos com adultos que sofreram alguma forma de LCA. Uma quantidade menor de estudos foi realizada com crianças, embora também os incluamos em nossa avaliação para garantir a cobertura de abordagens à reabilitação neuropsicológica da memória através da extensão da vida. A seguir, veremos o que os pesquisadorese profi ssionais da reabilitação neuropsicológica falam sobre estas três abordagens estratégicas citadas anteriormente. 6.1.1 Estratégias compensatórias As abordagens para a reabilitação da memória geralmente têm sido caracterizadas como corretivas ou compensatórias, embora as últimas tenham se mostrado mais efi cazes. Abordagens corretivas ou compensatórias são aquelas que tratam a função comprometida da memória através de exercícios repetitivos e programas de treinamento em memória (por exemplo, programas de treinamento cerebral baseados em computador) que visam restaurar redes neurais danifi cadas ou estabelecer novas vias neurais (SANDER; VAN VELDHOVEN, 2014). As evidências para o uso de abordagens corretivas em populações com défi cits de memória são fracas e há pouca generalização para a função cotidiana. Como resultado, as diretrizes atuais advogam que elas sejam usadas apenas como um complemento às estratégias instrucionais e compensatórias baseadas em evidências (VELIKONJA et al., 2014). 139 REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA DO PROCESSAMENTO DE INFORMAÇÃO, ATENÇÃO E MEMÓRIA Capítulo 2 Por outro lado, existem boas evidências para o uso de abordagens compensatórias (VELIKONJA et al., 2014), que são comumente usadas para tratar queixas de MP. Seu objetivo não é restaurar a função da memória, mas otimizar o desempenho da memória, aproveitando os pontos fortes das pessoas em outros domínios para gerenciar ou superar melhor as falhas de memória que elas experienciam. Isso geralmente é alcançado através do uso de auxílios compensatórios, estratégias e modifi cação ambiental (SANDER; VAN VELDHOVEN, 2014). As abordagens compensatórias são ainda caracterizadas por se basearem principalmente no uso de estratégias internas ou externas. Estratégias compensatórias internas incluem o uso de imagens visuais para ajudar na organização mental e mnemônicas autogeradas para formar associações, além de agrupar e ensaiar. Essas técnicas provaram ser úteis no aprimoramento da memória para informações específi cas em pacientes com comprometimento leve, mas é duvidoso que aqueles com comprometimento grave da memória as usariam espontaneamente fora dos ambientes clínicos (SANDER; VAN VELDHOVEN, 2014; VELIKONJA et al., 2014). As estratégias compensatórias externas envolvem o uso de modifi cações ambientais (por exemplo, etiquetas, letreiros e rotinas) e auxílios (por exemplo, diários, listas de verifi cação e dispositivos eletrônicos pessoais). No entanto, aprender a usar efetivamente recursos de memória externa pode ser um desafi o, principalmente entre aqueles com grave comprometimento da memória. Como tal, estes tendem a ter mais sucesso quando o auxílio é eletrônico (por exemplo, sistemas de paging), fornecendo a sugestão ou lembrete necessário para acessar as informações armazenadas (SANDER; VAN VELDHOVEN, 2014; VELIKONJA et al., 2014; WILSON, 2009). É importante ressaltar que estratégias compensatórias externas são facilmente incorporadas à vida diária dos pacientes, com os benefícios de generalizar o treinamento para além da clínica e para os ambientes comunitários. Estratégias compensatórias externas, com as que incorporam auxiliares eletrônicos em particular, provaram ser mais bem-sucedidas em pacientes com LCA. Nesse domínio, uma série de auxiliares foi avaliada por sua capacidade de compensar défi cits na MP, incluindo telefones celulares e smartphones (EVALD, 2014), Calendário Google (MCDONALD et al., 2011), computadores de mão (LANNIN et al., 2014), e sistemas de paging (KIRSCH; SHENTON; ROWAN, 2004; WILSON et al., 2001). Notavelmente, embora o uso desses auxiliares possa melhorar o funcionamento diário de indivíduos com comprometimento da memória, outras melhorias foram encontradas quando combinadas com estratégias internas (por exemplo, mnemônica autogeradas e imagem visual) e incorporados a programas de treinamento estruturados (MILLER; RADFORD, 140 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA 2015; OWNSWORTH; MCFARLAND, 1999; SOHLBERG et al., 2007; VELIKONJA et al., 2014; WILSON, 2009). Fleming, Shum e Strong (2005) elaboraram um programa de treinamento compensatório para gerenciar défi cits de MP em pacientes com lesão cerebral traumática (LCT) que eles depois avaliaram em um ensaio clínico randomizado (ECR) (SHUM et al., 2011). Neste último estudo, uma intervenção compensatória de seis sessões com foco em estratégias externas para melhorar o uso do diário (por exemplo, treinamento em lembretes por escrito, mecanismos individuais de sugestões, envolvimento de outras pessoas signifi cativas e incentivo ao uso contínuo da estratégia) foi testada contra uma intervenção de controle que incluía práticas repetitivas de atividades de MP em seis sessões. O programa compensatório mostrou-se mais efi caz do que a intervenção de controle na melhoria dos escores em um teste padronizado de memória prospectiva, aumentando o uso da estratégia espontânea e, principalmente, resultando em maior uso do diário (SHUM et al., 2011). Incorporar a psicoeducação da memória e fatores cotidianos relacionados à sua função em programas de treinamento compensatório que combinam uma série de estratégias internas e externas pode trazer benefícios adicionais. Essa abordagem de treinamento estratégico diversifi cado demonstrou ser efi caz na reabilitação da memória, especialmente na MP, em pacientes com acidente vascular cerebral, epilepsia e outras condições neurológicas (MILLER; RADFORD, 2015). Uma quantia menor de estudos investigou o uso de estratégias compensatórias para a reabilitação da MP em crianças. Consistente com os achados da literatura adulta, há suporte para o uso de recursos eletrônicos de memória (por exemplo, telefones celulares, Neuropage) em crianças e adolescentes com LCT e outros comprometimentos neurológicos (WILSON et al., 2009). Além disso, de acordo com os achados da literatura adulta (OWNSWORTH; MCFARLAND, 1999), crianças com LCA também apresentam maior melhora no uso diário da função e da estratégia de memória após treinamento que combina estratégias internas e externas. Ho et al. (2011) desenvolveram um programa de seis sessões para crianças com LCA envolvendo diário e treinamento de autoinstrução com exemplos práticos. O objetivo era melhorar as habilidades de atenção, autorregulação e autoconsciência e ensinar comportamentos simples para apoiar o uso diário. Após o programa, as crianças melhoraram a recordação de informações e eventos, o que fi cou evidente em seu maior uso do diário e sucesso na execução de rotinas diárias. Embora esses dados sugiram que as crianças se benefi ciam tanto quanto os adultos da integração de estratégias internas e externas nos programas de treinamento em MP, a falta de um grupo de controle limita a força dessas evidências. 141 REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA DO PROCESSAMENTO DE INFORMAÇÃO, ATENÇÃO E MEMÓRIA Capítulo 2 1 Qual é o objetivo das abordagens compensatórias usadas para tratar queixas da Memória Prospectiva? R.: ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ __________________________________________________ 6.1.2 Técnicas instrucionais As estratégias instrucionais são as mais consistentemente investigadas das abordagens de reabilitação neuropsicológica que visam novas aprendizagens. Elas se concentraram no uso de diferentes princípios de aprendizagem – com aprendizagem sem erro (ASE) e recuperação espaçada (RE) entre as mais efi cazes e comumente usadas – para aprimorar a aprendizagem e a retenção de informações específi cas (CLARE; JONES, 2008). Pesquisas anteriores usando essas técnicas examinaram sua efi cácia usando o aprendizagem de lista de palavras (HUNKIN et al., 1998), mas outrotrabalho concentrou-se cada vez mais na aprendizagem de informações funcionalmente relevantes, como nomes de pessoas, locais e fatos educacionais relevantes (CLARE; JONES, 2008; EVANS et al., 2000; WILSON et al., 1994). Esses métodos instrucionais sistemáticos têm sido efi cazes para facilitar a aprendizagem em indivíduos com comprometimento da memória adquirida (EHLHARDT et al., 2008). Outras técnicas, como pistas evanescentes (PE), encadeamento progressivo e regressivo, imagens visuais e elaboração verbal, podem ser usadas em conjunto com esses métodos para auxiliar ainda mais a aprendizagem. A ASE defende, idealmente, a eliminação de erros ou, pelo menos, a minimização de erros durante a aprendizagem. Isso geralmente é obtido fornecendo ao aluno a resposta correta antes de tentar uma resposta (BADDELEY; WILSON, 1994), mas formas mais recentes engajam o aluno na geração de suas próprias respostas na medida em que recebe sufi cientes pistas centrais (TAILBY; 142 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA HASLAM, 2003). No processo de evitar que o aluno cometa erros, o potencial de interferência dos traços de memória concorrentes é reduzido, maximizando o reforço da resposta correta. Esse princípio foi empregado pela primeira vez com pacientes amnésicos e melhorou os resultados da aprendizagem, reduzindo as taxas de esquecimento (BADDELEY; WILSON, 1994; WILSON et al., 1994). Com base nesses e em outros dados, argumentou-se que a ASE capitaliza em processos de memória implícitos intactos, no contexto de fraqueza comparada na memória explícita (BADDELEY; WILSON, 1994). Descobriu-se que a ASE melhora o desempenho da memória em uma variedade de tarefas (por exemplo, listas de palavras, associações face-nome, conhecimentos gerais e aprendizagem de como usar um organizador eletrônico), predominantemente em indivíduos com LCA (EVANS et al., 2000; FISH et al.; 2015; WILSON et al., 1994, 2001) e também com demência (HASLAM et al., 2006, 2010, 2011). No entanto, não parece ser igualmente benéfi co para todos os pacientes e tarefas, nem em todos os níveis de gravidade do comprometimento da memória (CLARE; JONES, 2008; EVANS et al, 2000; HASLAM et al., 2011; WILSON et al., 2001). De fato, a ASE parece ser mais benéfi ca para pacientes com comprometimento mais grave da memória, entre os quais os recursos residuais de memória explícita, necessários para suportar a memória, são mais escassos (CLARE; JONES, 2008; TAILBY; HASLAM, 2003). Além disso, pode haver uma vantagem em criar circunstâncias que ajudem os pacientes a gerar suas próprias respostas no processo de aprendizagem, pois a autogeração parece melhorar ainda mais a aprendizagem em pacientes com LCA e demência, em comparação com a forma padrão da ASE onde o examinador gera respostas (HASLAM et al., 2017; TAILBY; HASLAM, 2003). Evidências recentes também mostram que a autogeração aprimora ainda mais a aprendizagem em relação a ASE padrão em jovens com LCA (HASLAM et al., 2017), embora não de forma consistente (HASLAM et al., 2012). Landis et al. (2006) foram os primeiros a testar a efi cácia da ASE em relação à aprendizagem por tentativa e erro padrão em crianças com LCT leve à grave. Trinta e quatro crianças aprenderam fatos de estudos sociais e científi cos apropriados para o desenvolvimento sob condições de ASE e de tentativa e erro (TE). A memória para essas informações foi testada imediatamente e depois com atrasos de dois, sete e 77 dias. No geral, os resultados foram mistos, a condição de TE produziu benefícios da retenção inicial e a condição de ASE produziu alguma vantagem, que variou em função do atraso no tempo, idade e gravidade da LCT. Esses achados inconsistentes levaram os autores a concluir que a ASE não era uma intervenção viável para uso em populações pediátricas com comprometimento da memória. 143 REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA DO PROCESSAMENTO DE INFORMAÇÃO, ATENÇÃO E MEMÓRIA Capítulo 2 Haslam et al. (2012) argumentaram que essa conclusão pode ser um pouco prematura, dada a força das evidências que apoiam o uso da ASE em populações adultas e, portanto, examinaram a efi cácia da ASE em uma amostra de LCA pediátrica mais ampla. Nesse caso, porém, a investigação examinou a efi cácia das formas padrão e de geração automática de ASE em relação à TE. Os participantes incluíram 15 crianças com LCA e 15 crianças controles sem lesão, pareados por idade e sexo. Consistente com os achados da literatura adulta, as condições de ASE resultaram em um desempenho signifi cativamente melhorado da memória em comparação com a TE para crianças com LCA. No entanto, ao contrário dos achados da literatura adulta, não houve diferença no desempenho sob as formas padrão e de geração própria de ASE. No entanto, um exame mais aprofundado dessas duas formas de ASE em crianças revelou alguma diferenciação nos achados (HASLAM et al., 2017). Seguindo os passos de Landis et al. (2006), Haslam et al. (2017) usaram essas técnicas para ajudar crianças com LCA a aprenderem com autogeração fatos científi cos e das ciências sociais apropriados à idade, e os resultados foram considerados superiores aquelas da ASE padrão e da TE. Curiosamente, a gravidade do comprometimento da memória, destacada por vários pesquisadores como um fator que deve ser considerado ao usar a ASE (CLARE; JONES, 2008; TAILBY; HASLAM, 2003), não afetou diferencialmente a recuperação sob nenhuma condição de aprendizagem. A recuperação espaçada (RE) é uma forma de prática distribuída que envolve a recuperação ativa das informações estudadas em intervalos de tempo espaçados. Pesquisas indicam que o efeito da prática de recuperação espaçada temporalmente resulta em aprendizagem aprimorada em relação a aprendizagem não espaçada ou em massa, com intervalos de tempo espaçados cada vez mais longos sendo mais efi cazes no fortalecimento dos traços de memória do que intervalos uniformes (CEPEDA et. al., 2006). A investigação da RE se concentrou principalmente em adultos cujo comprometimento da memória é o resultado de LCA (HASLAM et al., 2011; MELTON; BOURGEOIS, 2005) ou demência (OREN; WILLERTON; SMALL, 2014). Especifi camente, a efi cácia da RE foi demonstrada em uma série de tarefas, incluindo a associação nome-face (CHERRY; WALVOORD; HAWLEY, 2010), uso de auxílios à memória (MELTON; BOURGEOIS, 2005) e uso de informações pessoais relevantes para aumentar a independência, por exemplo, estratégias de segurança e medidas para realizar atividades da vida diária (MATERNE; LUSZCZ; BOND, 2014). Esses estudos se concentraram amplamente em pessoas com comprometimento de memória moderado a grave, com a maioria evidenciando que a RE é uma estratégia efi caz. Ao contrário dos achados na literatura sobre MP, combinar estratégias instrucionais parece não ser mais efi caz do que apenas o uso dos princípios individuais (HASLAM et al., 2010, 2011). Ao examinar essa questão, Haslam et al. (2010, 2011) compararam a efi cácia de várias técnicas instrucionais 144 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA – Recuperação Espaçada (RE), Aprendizagem sem Erros (ASE) e Pistas Evanescentes (PE); esta última representanda outro princípio de aprendizagem que envolve a retirada gradual de pistas em sucessivos testes de aprendizagem. Verifi cou-se que PE não eram melhor do que a aprendizagem por tentativa e erro em investigações iniciais com controles saudáveis sob condições de dupla tarefa e, portanto, não foi mais investigada em pacientes (HASLAM et al., 2010). A RE e a ASE foram benéfi cas neste contexto e foram posteriormente comparadas quanto à sua capacidade relativa de melhorar a aprendizagem em amostras de pacientes com demência e LCA. Curiosamente, a RE foi considerada mais efi caz que a ASE no ensino de associações face-nome nos dois grupos de pacientes, o que os autores atribuíram ao grau mais moderado de comprometimento da memória presente nesses pacientes. Mais importante no contextoatual, porém, foi que a combinação de RE com ASE não foi melhor do que a RE isoladamente (HASLAM et al., 2011). Como esses e outros estudos sugerem, existem vários fatores que precisam ser considerados ao empregar técnicas instrucionais em reabilitação; notavelmente, a gravidade do comprometimento da memória e a integração de estratégias de codifi cação mais elaboradas por meio da autogeração. Também há necessidade de mais pesquisas sobre o uso de técnicas instrucionais em pacientes jovens com LCA, dada a evidência mista do número limitado de estudos existentes (HASLAM et al., 2012, 2017; LANDIS et al., 2006). No entanto, talvez o maior problema com as abordagens instrutivas e compensatórias seja a pouca generalização, com o treinamento frequente necessário para a aplicação em novas tarefas. Até certo ponto, isso pode ser previsto, dada a especifi cidade das informações que eles visam na aprendizagem. É improvável que o treinamento de alguém para usar um diário eletrônico seja generalizado para o uso de outro auxílio externo (por exemplo, um sistema de paging como o NeuroPage). Da mesma forma, é improvável que o treinamento de alguém para lembrar os nomes de pessoas específi cas em seu grupo de suporte seja para aprender nomes de novos membros do grupo, muito menos outras informações (por exemplo, números de telefone). Essa generalização exigiria que o paciente aprendesse a aplicar um princípio de aprendizagem específi co em diferentes contextos, e não simplesmente aprendesse informações específi cas de uma maneira específi ca. Em outras palavras, os pacientes precisam aprender a aplicar com fl exibilidade uma estratégia ou princípio conforme necessário em situações diárias, em vez de simplesmente receber informações específi cas. Tais abordagens estratégicas são mais comumente aplicadas em abordagens programáticas para reabilitação neuropsicológica da memória. 145 REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA DO PROCESSAMENTO DE INFORMAÇÃO, ATENÇÃO E MEMÓRIA Capítulo 2 Para aprofundar o seu conhecimento sobre a reabilitação neurocognitiva na infância e adolescência, sugerimos a leitura do livro “Neuropsicologia do desenvolvimento: infância e adolescência” de Salles, Haase e Malloy-Diniz (2016). 6.1.3 Abordagens programáticas Diferentemente das estratégias compensatórias e das técnicas instrucionais, as abordagens programáticas treinam a atenção, as habilidades metacognitivas e/ ou o uso da estratégia e, embora não atinjam diretamente o comprometimento da memória, parecem ter um efeito positivo nos resultados da memória. Elas também podem ser mais bem-sucedidas na obtenção de generalização (SHUM et al., 2011). Um princípio fundamental da reabilitação cognitiva é que é ideal que os indivíduos reconheçam seus défi cits, a fi m de empregar independentemente uma estratégia para superá-los ou gerenciá-los. O treinamento de habilidades metacognitivas é uma abordagem programática projetada para facilitar o desenvolvimento da autoconsciência e mostrou-se promissor no aprimoramento das habilidades das pessoas com LCT em reconhecer e corrigir erros em tarefas cotidianas (FLEMING; SCHMIDT, 2015). Especifi camente, a autoconsciência inclui conhecimento e crenças sobre as habilidades de uma pessoa, bem como a capacidade de auto-monitorar, reconhecer e corrigir seus erros (TOGLIA; KIRK, 2000). Guiados pelo modelo de Toglia e Kirk, foram desenvolvidos programas de treinamento de habilidades metacognitivas (OWNSWORTH et al., 2008, 2010), incorporando técnicas de aprendizagem baseadas em erros que possam trazer benefícios que vão além das habilidades de autorregulação direcionadas a outras habilidades como a memória. O programa visa desenvolver habilidades metacognitivas que edifi cam habilidades internas de autorregulação (por exemplo, desempenho de tarefas de auto-monitoramento e autocorreção) e aprimoram os resultados de aprendizagem e a generalização entre as tarefas. É possível que essa abordagem tenha um escopo maior para facilitar a generalização das informações e habilidades aprendidas para apoiar ganhos de longo prazo do que as abordagens voltadas para a aprendizagem de informações altamente específi cas, mas ainda precisa ser testado quanto à sua capacidade de aprimorar a memória. 146 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA A melhor evidência para o valor de tais abordagens programáticas na reabilitação da memória vem de estudos sobre jovens com LCA. O Treinamento Amsterdã de Atenção e Memória para Crianças (AMAT-C) está entre os mais amplamente utilizados, com dados sobre sua aplicação efi caz em crianças da Holanda (HENDRIKS, 1996), Suécia (VAN'T HOOFT et al., 2003, 2005, 2007), Dinamarca (SJÖ et al., 2010) e Austrália (CATROPPA et al., 2015). O AMAT-C, originalmente desenvolvido por Hendriks e Van Den Broek (1996) para crianças sobreviventes de câncer, envolve exercícios estruturados em técnicas específi cas de atenção e de memória e treinamento metacognitivo que é entregue em um ambiente de apoio doméstico ou escolar. Em um ensaio clínico randomizado (ECR), verifi cou-se que o AMAT-C produz melhorias signifi cativas não apenas na atenção, mas também nos testes neuropsicológicos de memória em crianças com LCA (VAN'T HOOFT et al., 2005). É importante ressaltar que essas melhorias foram mantidas em uma avaliação de acompanhamento de seis meses (VAN'T HOOFT et al., 2007) e incluíram aprimoramentos nos relatórios dos pais e professores sobre o funcionamento diário em casa e na escola, desempenho escolar, relações sociais e autoimagem (SJÖ et al., 2010; VAN'T HOOFT et al., 2003). A desvantagem é que o AMAT-C consome muitos recursos, exigindo 30 minutos de prática diária por um período de 17 a 20 semanas (HO et al., 2011). Além disso, por enquanto há apenas a adaptação em inglês deste treinamento, que foi testada apenas recentemente em uma pequena amostra de pacientes com LCA (CATROPPA et al., 2015). Apesar disso, os resultados do treinamento na versão em inglês são promissores, com desempenho aprimorado em testes neuropsicológicos de atenção e memória pré e pós-intervenção, e ganhos mantidos em seis meses após a intervenção. Além disso, foram encontradas algumas evidências de generalização, com melhorias signifi cativas nos relatórios dos pais sobre o funcionamento e o comportamento adaptativo. Agora que você já estudou sobre as três principais estratégias utilizadas na reabilitação neuropsicológica da memória, vamos apresentar diretrizes e recomendações utilizadas neste processo de reabilitação. 6.2 DIRETRIZES E RECOMENDAÇÕES PRÁTICAS PARA REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA DA MEMÓRIA Com base nas evidências disponíveis, várias diretrizes práticas foram 147 REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA DO PROCESSAMENTO DE INFORMAÇÃO, ATENÇÃO E MEMÓRIA Capítulo 2 desenvolvidas destacando abordagens recomendadas para otimizar o resultado da reabilitação da memória (CICERONE et al., 2011; EHLHARDT et al., 2008; SOHLBERG et al., 2007; VELIKONJA et al., 2014). Essas recomendações evoluíram ao longo do tempo, com diretrizes subsequentes incorporando novas evidências para apresentar os padrões e opções práticas mais atualizadas para a reabilitação de uma série de funções cognitivas (CICERONE et al., 2011), incluindo comprometimento da memória (EHLHARDT et al., 2008; VELIKONJA et al., 2014). Embora as recomendações da prática atual falem principalmente no gerenciamento de queixas de memória decorrentes de LCT, elas também são relevantes para outras populações (por exemplo, acidente vascular cerebral e doenças neurodegenerativas), que podem apresentar queixas de memória semelhantes. O Quadro 7 resume as diretrizes atuais para adultos de acordo com a abordagem e a gravidade do comprometimento da memória. QUADRO 7 – DIRETRIZES E RECOMENDAÇÕES PRÁTICAS PARA REABILITAÇÃO DA MEMÓRIA EM ADULTOS Abordagem Gravidade do compro- metimento da memória Suporte empírico Compensatória – InternaLeve/Moderado Prática Padronizada (CICERONE et al., 2011) e Recomendação de grau A (VELIKONJA et al., 2014) para o uso de estratégias internas (por exemplo, imagens visuais, elaboração verbal, autogeração) para comprometimentos de memória leves a moderados após LCT. 148 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA Compensatório – Externa Leve/Moderado/Grave Prática Padronizada para uso de estratégias externas (por exemplo, diários) para comprometimentos leves da memória após LCT e Diretrizes da Prática para comprometimentos graves da memória após LCT ou acidente vascular cerebral (CICERONE et al., 2011). Diretrizes de Prática para uso de auxílios externos após LCT (SOHLBERG et al., 2007) e uso de sistemas de lembrete eletrônico em LCA (CHARTERS et al., 2014). Recomendação de grau A (VELIKONJA et al., 2014) para o uso de suportes ambientais e lembretes (por exemplo, telefones celulares, NeuroPage) após LCT, especialmente para comprometimentos graves de memória. Instrucional Leve/Moderado/Grave Diretrizes da Prática (EHLHARDT et al., 2008) e Recomendação de grau A (VELIKONJA et al., 2014) para o uso de práticas instrucionais (por exemplo, ASE, RE, prática repetida) para promover a aprendizagem. Opção de Prática (CICERONE et al., 2011) para uso de ASE com comprometimento grave da memória após LCT. 149 REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA DO PROCESSAMENTO DE INFORMAÇÃO, ATENÇÃO E MEMÓRIA Capítulo 2 Programática Leve/Moderado/Grave Recomendação de grau A (VELIKONJA et al., 2014) para o uso de estratégias metacognitivas após LCT, especialmente para comprometimentos de memória leves a moderados. FONTE: Adaptado de Cicerone et al. (2011), Ehlhardt et al. (2008), Sohlberg et al. (2007), Velikonja et al. (2014) e Charters et al. (2014). Existem poucas diretrizes para crianças, devido à base de evidências limitada. No entanto, várias revisões (LAATSCH et al., 2007; SCHAFFER; GEVA, 2016; SLOMINE; LOCASCIO, 2009; YLVISAKER et al., 2005) permitem que algumas sugestões sejam extraídas da literatura existente (consulte o Quadro 8). QUADRO 8 – SUGESTÕES PRÁTICAS PARA REABILITAÇÃO DA MEMÓRIA EM CRIANÇAS Abordagem Suporte empírico Compensatória Treinamento no uso de auxílios externos (por exemplo, smartphones, NeuroPage) (WILSON et al., 2009), em combinação com treinamento em estratégia interna (por exemplo, autoinstrução) (HO et al., 2011). Auxílios externos especialmente efi cazes para MP, e no tratamento de comprometimentos moderadas a graves de memória (SCHAFFER; GEVA, 2016). Instrucional Uso de métodos instrucionais sistemáticos (por exemplo, ASE, RE) em uma abordagem sensível ao contexto, ou seja, tratamento baseado em rotinas diárias e oportunidades de generalização e manutenção de habilidades, especialmente em casos de LCT (LAJINESS-O'NEILL; ERDODI; BIGLER, 2010; YLVISAKER et al., 2005). Programática Diretrizes da Prática para o fornecimento de treinamento em atenção (ou seja, AMAT-C) para facilitar a melhoria do desempenho da memória pós-LCA (LAATSCH et al., 2007; CATROPPA et al., 2015; VAN'T HOOFT et al., 2003, 2005, 2007). FONTE: Adaptado de Laatsch et al. (2007), Schaffer e Geva (2016), Slomine e Locascio (2009) e Ylvisaker et al. (2005) 150 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA Conforme podemos observar nos Quadros 7 e 8, há boas evidências para combinar estratégias compensatórias internas (por exemplo, auto-geração, imagens visuais) e externas (por exemplo, diários, smartphones) na reabilitação da memória de adultos e crianças, bem como para a integração de treinamento instrucional (por exemplo, ASE, RE) e programático (por exemplo, da atenção e metacognição) (CICERONE et al., 2011; VELIKONJA et al., 2014). As melhores práticas, como evidenciado na literatura contemporânea, também se concentram na reabilitação dos problemas de memória cotidianos, fornecendo treinamento em estratégias e informações com relevância funcional direta e generalização do treinamento para novas tarefas e contextos, independentemente da idade (CICERONE et al., 2011; EHLHARDT et al., 2008; LAJINESS-O'NEILL; ERDODI; BIGLER, 2010; WILSON, 2009). 6.3 CONSIDERAÇÕES, DESAFIOS E DIREÇÕES FUTURAS Como mencionado anteriormente, caro acadêmico, abordagens estabelecidas para a reabilitação neuropsicológica da memória (isto é, compensatórias e instrucionais) geralmente tiveram generalização limitada ao funcionamento do mundo real. A autoconsciência prejudicada, principalmente após a LCT, apresenta uma grande barreira à generalização dos ganhos do tratamento e pode, em parte, explicar a falha em generalizar o uso da estratégia treinada para a vida cotidiana (SHUM et al., 2011). A presença de comprometimento cognitivo mais amplo, como disfunção executiva, também é comum em pacientes com LCA. Para esse fi m, pode haver valor em incorporar o treinamento que visa a autoconsciência e o funcionamento executivo na reabilitação da memória para facilitar a generalização de estratégias compensatórias para a vida cotidiana. Da mesma forma, certas intervenções não são projetadas para facilitar a generalização; em vez disso, o foco está no direcionamento de informações altamente específi cas, em vez de treinar explicitamente as pessoas para desenvolver e usar uma estratégia. Explorar maneiras de treinar o uso estratégico dos princípios instrucionais, em vez de simplesmente fornecer as informações a serem aprendidas, em várias tarefas, pode fornecer um foco melhor para a reabilitação e, potencialmente, ter uma promessa maior de generalização. Educar e envolver a família e/ou cuidadores de adultos e crianças também é importante (SANDER; VAN VELDHOVEN, 2014; SLOMINE; LOCASCIO, 2009). O mesmo acontece com o treinamento em tarefas e estratégias ecologicamente válidas que têm relevância direta para a vida cotidiana (por exemplo, fatos 151 REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA DO PROCESSAMENTO DE INFORMAÇÃO, ATENÇÃO E MEMÓRIA Capítulo 2 científi cos de desenvolvimento apropriados para crianças e atividades ocupacionais para adultos) e valor inerente para aprimorar a generalização e manutenção dos ganhos de tratamento (EHLHARDT et al., 2008). As abordagens programáticas emergentes podem, portanto, ser mais frutíferas na obtenção de generalização e maior melhoria no funcionamento diário. No entanto, é necessário determinar quais elementos de quais programas são mais efi cazes e em que dose (por exemplo, treinamento específi co versus diversifi cado, número de sessões, programa manual e sessões de reforço para manter os ganhos de tratamento a longo prazo) para melhor informar a melhor forma visando a reabilitação neuropsicológica da memória. A mesma intervenção pode não ter os mesmos benefícios ou resultados para cada indivíduo; destacando a importância de adaptar o tratamento e monitorar os resultados para manter os ganhos de tratamento, especialmente em crianças e adolescentes (CATROPPA et al., 2015). Da mesma forma, ao direcionar abordagens instrucionais, precisamos determinar qual princípio é melhor para qual indivíduo ou população. Portanto, a identifi cação do princípio a ser almejado parece essencial, assim como o desenvolvimento de um programa que treina o uso estratégico de princípios em uma variedade de tarefas e contextos. É importante que você compreenda que ainda faltam estudos bem projetados e de alta qualidade na literatura atual e há evidências limitadas da utilidade de abordagens de reabilitação com amostras grandes. Os resultados preliminares promissores de muitas abordagens de reabilitação ainda não foram confi rmados em ensaios clínicos randomizados, ou pelo menos em amostras maiores com grupos de controle. Comparado à literatura adulta, a pesquisa atual é muito limitada em reabilitação de memória para crianças e adolescentes, especialmente de diversas populações neurológicas. Tal como já apontado no estudo de Catroppa et al. (2015), as abordagensprogramáticas desenvolvidas para as crianças até o momento mostram alguma promessa, mas exigem uma base de evidências mais forte para confi rmar sua efi cácia e apoiar a implementação na prática clínica. ALGUMAS CONSIDERAÇÕES Neste capítulo, estudamos sobre três abordagens diferentes para o tratamento do processamento lento de informações. Todas essas abordagens ainda não são maduras e, apesar de algum apoio preliminar em relação à efi cácia, a evidência permanece ambígua ou insufi ciente para orientar a prática clínica. Pode ser que os benefícios dessas abordagens dependam da gravidade da velocidade do comprometimento do processamento de informações e variem de acordo com o tempo desde a lesão. 152 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA Também é possível que lesões com efeitos leves a moderados sejam mais favoráveis à reabilitação orientada para a restituição do que lesões com efeitos graves. No primeiro caso, a reorganização plástica dos circuitos cerebrais pode ocorrer, em que os circuitos neurais intactos subjacentes à velocidade do processamento de informações recuperam sua função através do aumento da conectividade promovida por intervenções computadorizadas e direcionadas especifi camente. No caso de comprometimentos mais graves, o treinamento compensatório pode ser mais benéfi co para ajudar as pessoas a lidar com a lentidão do processamento de informações na vida diária. Outra questão central que vimos ao decorrer do capítulo diz respeito ao tempo de intervenção. Pacientes em estágio agudo ou subagudo após lesão cerebral podem ser mais receptivos a intervenções corretivas, que são mais fáceis de administrar e requerem menos recursos cognitivos. Posteriormente, no estágio mais crônico, quando os pacientes foram confrontados repetidamente com seus prejuízos de velocidade na vida diária, uma abordagem compensatória como o Gerenciamento da Pressão de Tempo (TPM) pode ser mais adequada para atender às necessidades dos pacientes. Foi possível observar aqui que a Memória de Trabalho (MT) é relevante para uma ampla gama de grupos de clientes e tem um signifi cado funcional substancial. Existem maneiras estabelecidas e relativamente simples de avaliar a MT para fi ns de pesquisa e clínicos. Atualmente, o treinamento cognitivo é o foco de muitas pesquisas, mas ainda não está claro que ofereça benefícios substanciais ao funcionamento diário e, como tal, não é recomendado nas recomendações atuais da prática clínica. A MT pode, no entanto, ser direcionada por meio de reabilitação cognitiva, que inclui avaliação, formulação e treinamento no uso de estratégias compensatórias internas e externas aplicadas a tarefas funcionalmente relevantes. Além disso, também tivemos um contato amplo com as pesquisas sobre as técnicas de tratamento baseadas em evidências para a reabilitação da memória em adultos e crianças com LCA e doenças neurológicas, com um foco principal em técnicas que melhoram a nova aprendizagem e a MP. Muito pode ser feito para compensar os défi cits de aprendizagem e memória cotidianas após lesões ou doenças neurológicas através do uso de muitas abordagens, estratégias e auxílios disponíveis. O desafi o para o futuro é desenvolver uma compreensão mais clara de quais técnicas e doses funcionam melhor com qual tipo de condição e faixa etária. 153 REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA DO PROCESSAMENTO DE INFORMAÇÃO, ATENÇÃO E MEMÓRIA Capítulo 2 REFERÊNCIAS AMSO, D.; SCERIF, G. The attentive brain: insights from developmental cognitive neuroscience. Nature Reviews. Neuroscience, v. 16, n. 10, p. 606-619, 2015. ANDERSON, V. et al. Predictors of cognitive function and recovery 10 years after traumatic brain injury in young children. Pediatrics, v. 129, n. 2, p. 254–261, 2012. ARCHIBALD, C. J.; FISK, J. D. Information processing effi ciency in patients with multiple sclerosis. Journal of Clinical and Experimental Neuropsychology, v. 22, p. 686-701, 2000. AU, J. et al. 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Identifi car práticas de reabilitação neuropsicológica da linguagem e da comunicação social. 172 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA 173 REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA DAS FUNÇÕES EXECUTIVAS,LINGUAGEM E COMUNICAÇÃO SOCIAL Capítulo 3 1 CONTEXTUALIZAÇÃO Seja bem-vindo ao terceiro capítulo deste Livro Didático, neste capítulo conheceremos algumas das principais contribuições para a reabilitação neuropsicológica das funções executivas, da linguagem e da comunicação social. Algumas das principais teorias e modelos que infl uenciam a prática atual de reabilitação focadas nestes três processos são descritas aqui. Além disso, compreenderemos a necessidade de uma ampla base teórica (ou várias bases) ao planejar e implementar programas de reabilitação neuropsicológica das funções executivas, da linguagem e da comunicação social, para garantir boas práticas clínicas. Neste capítulo, ao tratar da reabilitação neuropsicológica, o foco foi trazer as discussões teóricas e práticas atuais que versem sobre a população adulta e sobre a população infantil. Assim, você poderá comparar as abordagens, verifi cando as semelhanças e diferenças, os avanços e as lacunas atualmente presentes. Primeiro, veremos sobre a reabilitação neuropsicológica das funções executivas. A seguir, conheceremos mais sobre a reabilitação neuropsicológica da linguagem, com o foco específi ca nas afasias. Finalmente, veremos sobre a reabilitação neuropsicológica da comunicação social. 2 REABILITAÇÃO DE FUNÇÕES EXECUTIVAS As funções executivas (FE) são um conjunto complexo de funções, habilidades cognitivas, de supervisão envolvidas no controle dos processos mentais. Burgess e Simons (2005) descrevem FE como as capacidades que tornam as pessoas efi cazes no mundo real, permitindo que elas se adaptem a novas situações e desenvolvam e persigam seus objetivos de vida de maneira construtiva. Lezak (1982) distinguiu a FE de ordem superior das funções cognitivas hierarquicamente inferiores, com base nos problemas aos quais elas estão associadas. As funções cognitivas dizem respeito ao conhecimento, habilidades e equipamento intelectual que as pessoas podem possuir, abordando o que sabem ou são capazes de fazer, enquanto os FE estão relacionados a se as pessoas usam e como as pessoas realmente usam essas habilidades. Isso implica que pacientes com FE prejudicadas podem ter funções cognitivas preservadas, mas não conseguem usá-las quando necessário. Portanto, indivíduos com comprometimentos nas FE terão sérias consequências para o funcionamento da 174 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA vida diária dos pacientes, pois são necessárias em situações novas, complexas, oferecem pouca estrutura e não podem ser tratadas rotineiramente. Tais situações de tarefas não estruturadas são comuns na vida cotidiana e requerem uma nova abordagem de solução de problemas, que deve ser planejada e executada adequadamente. O que são as funções executivas? As funções executivas são um conjunto de habilidades necessárias para o controle e a auto-regulamentação de sua conduta. As funções executivas permitem você estabelecer, manter, supervisar, corrigir e realizar um plano de ação. Este conjunto de funções cognitivas fazem parte de nossas vidas cotidianas e nos ajudam a realizar atividades diárias com sucesso e efi cácia. O termo “funções executivas” foi proposto por Muriel Lezak em 1982. Este grupo de habilidades cognitivas estão principalmente indexadas às estruturas pré-frontais do cérebro. O córtex pré-frontal dorsolateral, o córtex pré-frontal ventromedial, o córtex pré-frontal orbitofrontal e o córtex anterior cingulado são as áreas cerebrais mais vinculadas às funções executivas. Com os avanços científi cos dos últimos anos, você pode obter uma estimativa da integridade funcional dessas estruturas avaliando as funções executivas. As funções executivas podem ser treinadas e melhoradas com a prática e o treinamento cognitivo. (COGNIFIT, 2020). 2.1 ASPECTOS DAS FUNÇÕES EXECUTIVAS FE é um termo abrangente, incorporando uma série de aspectos igualmente importantes no comportamento complexo das tarefas, mas que podem ser diferencialmente afetados por danos cerebrais. No entanto, a maioria das teorias do funcionamento executivo apresenta um único mecanismo de controle de supervisão. Em 1986, Norman e Shallice publicaram sua teoria dos esquemas cognitivos, especifi cando todo comportamento como o desenvolvimento de esquemas mentais, que são unidades básicas subjacentes à ação e ao pensamento (NORMAN; SHALLICE, 1986). Na maioria das situações, os esquemas podem ser selecionados rotineiramente, mas em situações novas e não rotineiras é necessário um Sistema Atencional Supervisório de controle (SAS) 175 REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA DAS FUNÇÕES EXECUTIVAS, LINGUAGEM E COMUNICAÇÃO SOCIAL Capítulo 3 para operar e selecionar os esquemas relevantes. Outros, como Stuss (2011b), assumem a posição de que não há mecanismo de controle executivo unitário, mas processos paralelos entre domínios, agindo em conjunto para realizar o controle. Miyake et al. (2000) aplicaram uma abordagem analítica fatorial para descobrir se os elementos centrais da FE poderiam ser identifi cados a partir de diferentes tarefas. Eles usaram testes neuropsicológicos padrão para medir a FE em indivíduos saudáveis e encontraram três componentes executivos, que denominaram fl exibilidade mental (deslocamento), atualização (memória de trabalho [MT]) e inibição (de respostas prepotentes). Com base nessas descobertas, Diamond (2013) propôs um modelo de FE em desenvolvimento. A memória de trabalho (MT) suporta o controle inibitório (tendo em mente um objetivo de saber o que é relevante para inibir), mas o controle inibitório, por sua vez, suporta a memória de trabalho, suprimindo informações irrelevantes do espaço de trabalho de capacidade limitada desta memória. A partir disso, são construídas FE de ordem superior, como raciocínio, resolução de problemas e planejamento (DIAMOND, 2013). Ylvisaker (1998a) usou observações clínicas para distinguir oito aspectos das FE importantes para o comportamento complexo de tarefas direcionadas a objetivos. Estes aspectos são úteis para descrever problemas executivos em nível comportamental e são: 1. consciência das capacidades e necessidades próprias; 2. estabelecimento de metas – ser capaz de estabelecer metas realistas e concretas; 3. planejamento – pensar adiante os passos que levam ao objetivo; 4. iniciação – colocar cada passo em ação; 5. monitoramento – acompanhar a sequência de etapas em relação à meta estabelecida; 6. inibição de comportamento que não leva ao objetivo; 7. fl exibilidade e resolução de problemas: mudar para uma abordagem de tarefa diferente quando a situação não ocorrer conforme o planejado; 8. comportamento estratégico: a capacidade de manter uma abordagem de tarefa bem-sucedida e generalizá-la para outras situações. Outra contribuição para o entendimento das FE foi empreendida por Baddeley e Wilson (1988). Estes pesquisadores introduziram o termo síndrome disexecutiva, descrevendo uma ampla gama de comportamentos perturbados, por exemplo, impulsividade, distração, apatia, problemas em aprender novas tarefas e se comportar inadequadamente em situações sociais, ou seja, caracterizada pela incapacidade das funções executivas em processar e elaborar ações adaptadas. Essa síndrome disexecutiva mostra uma semelhança com o que antes 176 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA era chamado de “síndrome do lobo frontal”, resultante de lesões bilaterais graves nos lobos (pré)frontais, causando alterações de personalidade e comportamento proeminentes e incapacidade de planejar e executar tarefas em várias etapas (DEVINSKI, 1992). Há um consenso geral de que o córtex pré-frontal é um elemento essencial em um sistema executivo central para a regulação do comportamento. Entretanto, Tekin e Cummings (2002) descrevem três circuitos cerebrais pré-frontais- subcorticais nos quais diferentes áreas pré-frontais têm papéis diferentes: um circuito orbitofrontal envolvido no comportamentosocial; uma unidade mediadora do circuito cingulado anterior; e um circuito pré-frontal dorsolateral mediando funções executivas. De acordo com esse achado, Stuss (2011a) relacionou a FE, envolvida na defi nição e monitoramento de tarefas, nas áreas dorsolaterais esquerda e direita. Portanto, propomos reservar o termo FE para as funções envolvidas no planejamento e desempenho das tarefas cognitivas, enquanto as funções pré- frontais envolvidas no comportamento social e na autorregulação emocional são melhor utilizadas no contexto da cognição social. Além disso, como Tekin e Cummings (2002) apontam, as áreas pré-frontais operam dentro dos circuitos subcorticais frontais nos quais outras áreas cerebrais e cerebelares também participam. Consequentemente, os problemas executivos podem não apenas resultar de danos frontais, mas também podem surgir quando os pacientes apresentam lesões em outras partes do cérebro que afetam esses circuitos, mesmo quando seus lobos frontais estão neurologicamente intactos (DUFFAU, 2012; JACOB; HARVEY; ANDERSON, 2011). Até agora vimos algumas questões sobre o conceito e aspectos das funções executivas, a seguir veremos as questões da avaliação da função executiva em adultos. 2.2 AVALIAÇÃO DA FUNÇÃO EXECUTIVA EM ADULTOS A avaliação da FE é uma questão complicada, principalmente porque os problemas executivos podem se manifestar de forma heterogênea. Portanto, testes únicos podem não capturar toda a gama de problemas. Os testes neuropsicológicos requerem a redução de um conceito em uma atividade mensurável, mas no caso da FE essa redução pode resultar em um confl ito com a demanda por validade ecológica. A maioria dos testes neuropsicológicos padrão são altamente estruturados e fornecem ao participante pistas bem defi nidas sobre 177 REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA DAS FUNÇÕES EXECUTIVAS, LINGUAGEM E COMUNICAÇÃO SOCIAL Capítulo 3 o que é esperado, enquanto o examinador assume o papel da FE (LEZAK, 1982). Nas situações da vida cotidiana que recorrem à FE, essa estrutura costuma faltar e as ações e atividades precisam ser autoimpostas, ou seja, os pacientes precisam defi nir, iniciar e realizar seus próprios objetivos. Portanto, existe uma grande lacuna entre testes neuropsicológicos e situações complexas da vida diária. Devinski (1992) observa que "muitos pacientes são bem-sucedidos nos testes, mas falham na vida". De fato, verifi cou-se que pacientes com prejuízos óbvios na FE na vida diária ainda desempenham na faixa normal de testes de FE amplamente utilizados, como o Wisconsin Card Sorting Test (WCST), o teste Stroop ou o Teste de Trilhas (TMT) (ESLINGER; DAMASIO, 1985; SHALLICE; BURGESS, 1991). Embora esses testes sejam frequentemente chamados de testes frontais, uma revisão de Alvarez e Emory (2006) mostrou que na maioria dos estudos não foram encontradas evidências de uma relação com danos frontais. Shallice e Burgess (1991) enfatizam que uma questão principal a respeito desse tipo de teste é que “normalmente existe um problema explícito a ser resolvido a qualquer momento, os ensaios tendem a ser muito curtos, a iniciação da tarefa é fortemente solicitada pelo examinador e o que constitui uma conclusão bem- sucedida do teste é claramente caracterizado” (SHALLICE; BURGESS, 1991, p. 727-728). Rabbitt (1998) afi rmou que as FE são por natureza e, necessariamente, muito complexas e as tentativas de ajustá-las a categorias específi cas como “inibição” ou “planejamento” podem ser chamadas de procrusteanas (adequar de forma artifi cial os dados a uma teoria ou sistema específi co). Além disso, se os resultados dos testes não representarem os problemas que os pacientes encontram na vida cotidiana, será muito difícil projetar e fornecer tratamentos efi cazes para esses problemas. Wilson et al. (1996) reconheceram isso quando desenvolveram uma bateria de teste capaz de medir e prever problemas executivos diários melhores do que os testes padrão de FE. A Avaliação Comportamental da Síndrome Disexecutiva (BADS) consiste em seis subtestes que medem vários aspectos da FE e mostram semelhança com as atividades de vida diária. Além disso, o BADS contém um questionário, o Questionário Disexecutivo (DEX), que permite a classifi cação dos problemas executivos da vida cotidiana por pacientes e seus representantes. No entanto, vários estudos descobriram que as correlações dos subtestes do BADS com os problemas executivos da vida diária medidos com o DEX eram baixas, assim como as correlações com outras indicações de problemas da vida diária (NORRIS; TATE, 2000). Boelen et al. (2009) descobriram que os testes neuropsicológicos e os questionários para FE eram sensíveis a problemas executivos em um grupo de pacientes mistos com lesão cerebral adquirida (LCA), mas quando combinados resultaram em uma melhor previsão estatística da participação no grupo (pacientes ou controles saudáveis) que cada tipo de medida separadamente. 178 REABiLiTAÇÃo NEuroPSiCoLÓGiCA Lamberts, Evans e Spikman (2009) desenvolveram um teste ecologicamente válido da vida real para a FE, chamado de Tarefa de Secretariado Executivo (EST). Verifi cou-se que a EST estava signifi cativamente correlacionada às pontuações do BADS, às observações de problemas executivos em situações da vida cotidiana e ao funcionamento profi ssional e do papel social, mas uma desvantagem desse tipo de medida é o longo tempo de administração. No entanto, esses testes ou outros testes ecologicamente válidos combinados com questionários podem fornecer informações relevantes sobre os objetivos do tratamento. São estas informações fornecidas pelas avaliações das funções executivas que nos possibilita desenvolver planos de reabilitação realmente efetivos. A seguir, veremos dois aspectos importantes da reabilitação neuropsicológica, os défi cits nas funções executivas em distúrbios clínicos e o gerenciamento e intervenção em distúrbios executivos em adultos. Que habilidades cognitivas compõe as funções executivas? Embora haja algum debate sobre o que são as funções executivas, existe um consenso geral sobre quais habilidades compõem as nossas funções executivas. As principais habilidades são as seguintes: Alteração: habilidade para adaptar suas opiniões e condutas a situações novas, variáveis e inesperadas. Inibição: habilidade para controlar respostas impulsivas e automáticas através da atenção e do raciocínio. Atualização: habilidade para supervisar a conduta e garantir que você está realizando adequadamente o plano de ação estabelecido. Planejamento: habilidade para pensar em futuros eventos e antecipar mentalmente a maneira correta de realizar uma tarefa ou alcançar um objetivo específi co. Memória operacional: habilidade para armazenar e lidar com informações temporariamente para realizar tarefas cognitivas complexas. Tomada de decisões: habilidade para selecionar uma opção entre diferentes alternativas de forma efi ciente e criteriosa. Resolução de problemas: habilidade para chegar a uma conclusão lógica ao considerar o desconhecido. (COGNIFIT, 2020). 179 REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA DAS FUNÇÕES EXECUTIVAS, LINGUAGEM E COMUNICAÇÃO SOCIAL Capítulo 3 2.2.1 Défi cits nas funções executivas em distúrbios clínicos Défi cits nas FE foram encontrados em muitos distúrbios diferentes associados a danos nas áreas ou nos circuitos frontais. Os problemas executivos foram extensivamente documentados em pacientes com lesão cerebral traumática (LCT) moderada a grave, com evidências de problemas mais graves em pacientes com dano frontal focal e estão negativamente relacionados à participação social e laboral (BENNETT; ONG; PONSFORD, 2005; STUSS, 2011b). Défi cits executivos também foram demonstrados em outros grupos de pacientes, por exemplo, com acidente vascular cerebral (POHJASVARAA et al., 2002), tumores cerebrais (GOLDSTEIN et al., 2004) e encefalopatia pós-anóxica (ARMENGOL,