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PROFESSORES Me. Cassiano Lucas Silva Carvalho (Org) Me. Daiany Cris Silva Me. Milena Cristina Belançon Me. Vinícius Adriano de Freitas Fundamentos da Educação ACESSE AQUI O SEU LIVRO NA VERSÃO DIGITAL! EXPEDIENTE Coordenador(a) de Conteúdo Priscilla Campiolo Manesco Paixão Projeto Gráfico e Capa André Morais, Arthur Cantareli e Matheus Silva Editoração Lucas Pinna Silveira Lima Design Educacional Lucio Carlos Ferrarese Curadoria Cleber Rafael Lopes Lisboa Revisão Textual Ana Caroline Canuto de S. Baniogli Ilustração Geison Odlevati Ferreira Fotos Shutterstock DIREÇÃO UNICESUMAR NEAD - NÚCLEO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Diretoria Executiva Chrystiano Mincoff, James Prestes, Tiago Stachon Diretoria de Graduação e Pós-graduação Kátia Coelho Diretoria de Cursos Híbridos Fabricio Ricardo Lazilha Diretoria de Permanência Leonardo Spaine Diretoria de Design Educacional Paula R. dos Santos Ferreira Head de Graduação Marcia de Souza Head de Metodologias Ativas Thuinie M.Vilela Daros Head de Recursos Digitais e Multimídia Fernanda S. de Oliveira Mello Gerência de Planejamento Jislaine C. da Silva Gerência de Design Educacional Guilherme G. Leal Clauman Gerência de Tecnologia Educacional Marcio A. Wecker Gerência de Produção Digital e Recursos Educacionais Digitais Diogo R. Garcia Supervisora de Produção Digital Daniele Correia Supervisora de Design Educacional e Curadoria Indiara Beltrame Reitor Wilson de Matos Silva Vice-Reitor Wilson de Matos Silva Filho Pró-Reitor de Administração Wilson de Matos Silva Filho Pró-Reitor Executivo de EAD William Victor Kendrick de Matos Silva Pró-Reitor de Ensino de EAD Janes Fidélis Tomelin Presidente da Mantenedora Cláudio Ferdinandi NEAD - Núcleo de Educação a Distância Av. Guedner, 1610, Bloco 4 Jd. Aclimação - Cep 87050-900 | Maringá - Paraná www.unicesumar.edu.br | 0800 600 6360 Impresso por: Bibliotecário: João Vivaldo de Souza CRB- 9-1679 C397 CENTRO UNIVERSITÁRIO DE MARINGÁ. Núcleo de Educação a Distância. CARVALHO, Cassiano Lucas Silva; SILVIA, Daiany Cris; BELAÇON, Milena Cristina; FREITAS, Vinícius Adriano de. Fundamentos da Educação. Cassiano Lucas Silva Carvalho; Daiany Cris Silvia; Milena Cristina Belaçon; Vinícius Adriano de Freitas. Maringá - PR: Unicesumar, 2022. 208 p. ISBN 978-65-5615-915-7 “Graduação - EaD”. 1. Fundamentos 2. Educação 3. EaD. I. Título. CDD - 22 ed. 370 FICHA CATALOGRÁFICA Reitor Wilson de Matos Silva A UniCesumar celebra os seus 30 anos de história avançando a cada dia. Agora, enquanto Universidade, ampliamos a nossa autonomia e trabalhamos diaria- mente para que nossa educação à distância continue como uma das melhores do Brasil. Atuamos sobre quatro pilares que consolidam a visão abrangente do que é o conhecimento para nós: o intelectual, o profissional, o emocional e o espiritual. A nossa missão é a de “Promover a educação de qualidade nas diferentes áreas do conhecimento, for- mando profissionais cidadãos que contribuam para o desenvolvimento de uma sociedade justa e solidária”. Neste sentido, a UniCesumar tem um gênio impor- tante para o cumprimento integral desta missão: o coletivo. São os nossos professores e equipe que produzem a cada dia uma inovação, uma transforma- ção na forma de pensar e de aprender. É assim que fazemos juntos um novo conhecimento diariamente. São mais de 800 títulos de livros didáticos como este produzidos anualmente, com a distribuição de mais de 2 milhões de exemplares gratuitamente para nos- sos acadêmicos. Estamos presentes em mais de 700 polos EAD e cinco campi: Maringá, Curitiba, Londrina, Ponta Grossa e Corumbá, o que nos posiciona entre os 10 maiores grupos educacionais do país. Aprendemos e escrevemos juntos esta belíssima história da jornada do conhecimento. Mário Quin- tana diz que “Livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas”. Seja bem-vindo à oportu- nidade de fazer a sua mudança! Tudo isso para honrarmos a nossa missão, que é promover a educação de qualidade nas diferentes áreas do conhecimento, formando profissionais cidadãos que contribuam para o desenvolvimento de uma sociedade justa e solidária. Cassiano Lucas Silva Carvalho (Org) Olá, tudo bem? Prezado(a) estudante, aqui quem fala é o Professor Cassiano Carvalho e sou o responsável pela organização do seu livro de Fundamentos da Educação. Aproveito esse momento para você conhecer o Cassiano por trás do Professor. Em primeiro lugar, eu gosto muito de praticar esportes, frequento academia de segunda a sexta-feira e acredito que todo mundo tenha que desen- volver uma atividade física para sair um pouco de casa, do ambiente de trabalho: qualquer atividade física é válida, o importante é não ficar no sedentarismo. Além de praticar esportes, eu gosto muito de leitura, não só livros de filosofia como também livros de literatura clássica. Aprecio uma boa série e um bom filme, também gosto de jogos on-line e de viajar. Sou um grande aprecia- dor da culinária e minha comida favorita é hambúrguer - se eu pudesse, comeria hambúrgueres todos os dias. Espero que você goste do material, toda equipe deu o melhor de si para proporcionar uma experiência ótima sobre os Fundamentos da Educação. É isso, caro(a) alu- no(a), espero que você esteja bem e continue bem. Se cuide e até a próxima! http://lattes.cnpq.br/6271865259723449 https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/15002 Daiany Cris Silva Sou Cientista Social com Mestrado e Licen- ciatura em Ciências Sociais pela Universida- de Estadual de Maringá (UEM). Especialista em Estudos Geracionais, realizando pesqui- sas sobre a participação social e política de jovens e idosos, utilizando como principal abordagem teórica e metodológica a an- tropologia. Possuo experiência com polí- ticas públicas para a juventude, em razão do trabalho realizado no setor responsável por essa temática, na Prefeitura Municipal de Maringá, entre os anos de 2015 a 2017. Atualmente sou Professora de Sociologia no Ensino Médio Regular e na Educação de Jo- vens e Adultos da Rede Básica de Educação do Estado do Paraná. http://lattes.cnpq.br/9836626816148868 Milena Cristina Belançon Sou Mestre em Ciências Sociais pela Uni- versidade Estadual de Maringá (2020) e, também, possuo bacharelado (2017) e li- cenciatura (2016) em Ciências Sociais, pela mesma universidade. http://lattes.cnpq.br/6653565063142893 Vinícius Adriano de Freitas Sou o Professor Vinícius Adriano de Freitas, mestre em Educação pela Universidade Es- tadual de Maringá (2016). Cursei Especiali- zação em Filosofia: Teorias do Conhecimen- to pela Universidade Estadual de Maringá (UEM) (2011), instituição na qual também me graduei em Pedagogia (2008) e em Fi- losofia (2015). Estou cursando o Doutorado em Educação (iniciado em 2018) pela UEM. Sou docente da rede municipal de ensino da cidade de Cianorte-PR e professor Assistente do Curso de Pedagogia da UEM, Campus Re- gional de Cianorte (CRC). Atuo, principalmen- te, com os seguintes temas: Ensino, Aprendi- zagem, Formação de Professores, Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem, Alfabetização, Linguística, Metodologia da Pesquisa, Filosofia Moderna, Filosofia Con- temporânea e Teoria Crítica da Sociedade. http://lattes.cnpq.br/5865292371225852 http://lattes.cnpq.br/9836626816148868 http://lattes.cnpq.br/6653565063142893 http://lattes.cnpq.br/5865292371225852 Prezado(a) estudante, gostaria de aproveitar essa oportunidade para compartilhar uma situação que pude notar e vem me incomodando ao longo de minha trajetória profissional. Em nosso dia a dia, é possível observar, especialmente em debates sobre temas polêmicos, pessoas tratarem a Educação como algo “ineficaz” ou de pouco im- pacto diante de problemas sociais, como a violência e segurança pública, economia, entre outros. Por outro lado, existem aqueles que tratam a Educaçãocomo um projeto capaz de mudar a realidade de uma nação, em todos os aspectos. Você se identifica com algum desses posicionamentos? De qualquer forma, perceba que tanto a crítica quanto a defesa do objeto em questão demandam o conhecimento das propriedades desse objeto, caso contrário, o sujeito estará fadado a um discurso sobre algo que des- conhece. Diante disso, gostaria de perguntar: você conhece quais são os Fundamentos da Educação? Por que eles são tão importantes? Como futuro educador(a), você deverá estar preparado(a) para o desafio de defender a Educação daqueles que a atacam, bem como demonstrar para seus futuros alunos o poder transformador dela. Para essa finalidade, é de suma importância que você tenha plena consciência dos Fundamentos da Educação. Em primeiro lugar, convém pontuar que a Educação tem como base as seguintes áreas do conhecimento: Filosofia (O que foi pensado?), História (Em qual contexto foi pensado?), Sociologia (Quais são os impactos dela na sociedade?) e Antropologia (Qual o melhor método de observação?). Agora que você já sabe quais áreas compõem os Fundamentos da Educação, ima- gine-se na seguinte situação: Você foi convidado(a) para debater e se posicionar publi- camente acerca da exigência de maiores investimentos na Educação. Nesse contexto, um ouvinte lhe fez a seguinte pergunta: Por que investir na Educação? Não seria mais interessante investir na Saúde ou na Segurança Pública? Como você, prezado(a) estudante, responderia a essa indagação? Será que a Edu- cação poderia ser totalmente dissociada de áreas como a Saúde ou a Segurança Pú- blica? Para alcançar sua resposta, proponho as seguintes reflexões: é possível ter uma FUNDAMENTOS DA EDUCAÇÃO sociedade sem médicos? É possível ter uma sociedade sem policiamento ou exército? Provavelmente, uma sociedade sem segurança pública e sem saúde estaria fadada ao colapso. No entanto, sem Educação, não estaríamos abrindo mão somente da saúde ou da segurança, mas também de todas as demais áreas que compõem uma sociedade próspera. Você poderia me dizer o que torna a Educação tão ampla? Para se preparar para os desafios de sua jornada acadêmica e estar apto (a) para responder às perguntas feitas, dedicamos um momento especial em nosso livro para explorar e conhecer cada Fundamento da Educação. Na Unidade 1, você terá acesso aos fundamentos históricos e filosóficos da Educação. Iremos apresentar os principais filósofos, as áreas internas da Filosofia, além do acesso à forma como a história universal (das civilizações) e a história da filosofia são divididas. Na Unidade 2, você terá acesso aos fundamentos sociológicos da Educação. Iremos mostrar como ocorreu o nascimento da Sociologia como ciência, os principais sociólogos e suas contribuições para o entendimento da sociedade moderna e contemporânea. Na Unidade 3, você terá acesso a um aprofundamento dos fundamentos socioló- gicos da Educação. Iremos apresentar as principais teorias sociológicas e sua relação com a Educação. Na Unidade 4, você terá acesso aos fundamentos antropológicos da Educação. Iremos destacar como ocorreu o nascimento da Antropologia como ciência autônoma, a partir de seus principais teóricos. Na Unidade 5, você terá acesso à história da Educação no Brasil. Conhecerá quais foram as influências das principais correntes filosóficas e sociológicas em nossa nação e na Educação como um todo. Vamos colocar a mão na massa? Após seus estudos, tenho certeza de que você se sentirá apto para responder a todas as reflexões e perguntas feitas acerca dos Funda- mentos da Educação! IMERSÃO RECURSOS DE Ao longo do livro, você será convida- do(a) a refletir, questionar e trans- formar. Aproveite este momento. PENSANDO JUNTOS NOVAS DESCOBERTAS Enquanto estuda, você pode aces- sar conteúdos online que amplia- ram a discussão sobre os assuntos de maneira interativa usando a tec- nologia a seu favor. Sempre que encontrar esse ícone, esteja conectado à internet e inicie o aplicativo Unicesumar Experien- ce. Aproxime seu dispositivo móvel da página indicada e veja os recur- sos em Realidade Aumentada. Ex- plore as ferramentas do App para saber das possibilidades de intera- ção de cada objeto. REALIDADE AUMENTADA Uma dose extra de conhecimento é sempre bem-vinda. Posicionando seu leitor de QRCode sobre o códi- go, você terá acesso aos vídeos que complementam o assunto discutido. PÍLULA DE APRENDIZAGEM OLHAR CONCEITUAL Neste elemento, você encontrará di- versas informações que serão apre- sentadas na forma de infográficos, esquemas e fluxogramas os quais te ajudarão no entendimento do con- teúdo de forma rápida e clara Professores especialistas e convi- dados, ampliando as discussões sobre os temas. RODA DE CONVERSA EXPLORANDO IDEIAS Com este elemento, você terá a oportunidade de explorar termos e palavras-chave do assunto discu- tido, de forma mais objetiva. Quando identificar o ícone de QR-CODE, utilize o aplicativo Unicesumar Experience para ter acesso aos conteúdos on-line. O download do aplicativo está disponível nas plataformas: Google Play App Store https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/3881 APRENDIZAGEM CAMINHOS DE 1 2 3 4 5 HISTÓRIA, FILOSOFIA E EDUCAÇÃO 11 INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E SUA RELAÇÃO COM A EDUCAÇÃO 49 85 TEORIAS SOCIOLÓGICAS COMO INSTRUMENTOS PARA A EDUCAÇÃO 121 PERSPECTIVAS ANTROPOLÓGICAS COMO INSTRUMENTOS PARA A EDUCAÇÃO 157 FUNDAMENTOS HISTÓRICOS E FILOSÓFICOS DA EDUCAÇÃO NO BRASIL 1História, Filosofia e Educação Me. Cassiano Lucas Silva Carvalho Me. Vinícius Adriano de Freitas A seguir, apresentam-se os conteúdos que você estudará nesta unida- de: • Fundamentos históricos e filosóficos na formação de professores, para quê? • Principais áreas de estudo da filosofia: epistemologia, me- tafísica, ética, estética e filosofia política • Períodos na História Geral: Pré-história, Idade Antiga, Idade Média, Idade Moderna e Idade Con- temporânea • Períodos da História da Filosofia: Filosofia Antiga, Filo- sofia Medieval, Filosofia Moderna e Filosofia Contemporânea • Platão: um marco para a história da educação. UNIDADE 1 12 13 Olá, estudante, seja bem-vindo(a)! Este material tem como objetivo principal formar professores com quali- dade. O(a) estudante de cursos de licenciatura tem como um dos fundamentos de sua formação a compreensão da interdisciplinaridade que há entre história, filosofia e educação. Este entendimento nos permite refletir sobre a função social da escola na atualidade. A filosofia se consolidou como área do conhecimen- to na Grécia ainda na Antiguidade. Ela teve momentos altos e baixos, mas, afinal, como ela surgiu? Para que a presença da história e da filosofia em cursos de formação de professores? Diante das questões levantadas, nesta unidade, buscaremos: (i) esclarecer o porquê de estudar os fundamentos históricos e filosóficos da educação em cursos de licenciatura; (ii) evidenciar que a filosofia tem objetos específicos de conhecimento; (iii) compreender, em caráter introdutório, os períodos na História Geral; (iv) compreender, também em caráter introdutório, os períodos da História da Filosofia e (v) evidenciar o pro- jeto de Platão em relação à educação. Ao longo da histó- ria, a filosofia teve diferentes significados. Diante disso, nesta unidade concentramo-nos na compreensão do seu surgimento, ou seja, uma introdu- ção à filosofia; sempre buscando: (i) por um lado, expli- citar a história e a filosofia como áreas do conhecimento; (ii) por outro lado, integrar as três áreas do conhecimen- to: história, filosofia e educação. Aproveite seus estudos e anote suas considerações em seu Diário de Bordo. UNICESUMAR UNIDADE 1 14 Fundamentos históricos e filosóficos na formação de professores, para quê? Olá, estudante! Ao longo deste material, o objetivo é compreender o porquê da presença (i) da história, (ii) da filosofia e (iii) da educaçãono curso de formação de professores. Vamos conversar um pouco sobre os elementos da figura anterior: o professor está em pé em uma sala de aula que dispõe de um quadro-negro. Ele está com anotações na mão esquerda e um giz branco na mão direita. Provavelmente, irá iniciar a exposição de um conteúdo de uma aula aos estudantes. De certa forma, os quatro elementos descritos – professor, quadro-negro, giz e anotações – formam um ícone que representa a ação do docente e a sala de aula nos dias atuais. Vamos pensar: há outras formas de organizar a sala de aula que se distinguem do que vemos na imagem? PENSANDO JUNTOS 15 A figura que abre esta unidade será objeto de nossa reflexão histórica e filosófica: (i) por que ensinar?, (ii) qual o melhor ambiente para o ensino?, (iii) quem é o educando?, (iv) por que a aula expositiva?, (v) o que o professor ensina?, (vi) como ensinar?, (vii) por que escrever na lousa?, (viii) como avaliar a aprendizagem?, (ix) o livro didático é necessário para uma aprendizagem de qualidade?, (x) qual a relação entre forma e conteúdo nos processos de ensino e de aprendizagem durante a escolarização? Esses conhecimentos são importantes para a formação docente e para a posterior atuação profissional, pois contribuem para ampliar e complementar o pensar e o agir do professor. Direta ou indiretamente, questões filosóficas fazem parte do cotidiano humano. Estamos realizando o exercício filosófico, quando paramos para refletir sobre o que é melhor para nossa vida. Assim sendo, o ato de filosofar decorre do fato de que sujeitos racionais e sensíveis (o ser humano) são capazes de dar sentido às coisas (filosofia da vida, da existência). Contudo, a filosofia do especialista em filosofia é diferente: ocupa-se com o rigor de conceitos filosóficos (o que pressupõe intimidade com a história da filosofia). No entanto, é necessário fazer uma observação: o pensar do filósofo não é melhor nem superior ao dos “cidadãos comuns”; apenas é diferente. A experiên- cia filosófica está presente no dia a dia da profissão docente, porque problemas filosóficos fazem parte dos processos de ensino e de aprendizagem, ou seja, no seu dia a dia, o docente se questiona: (i) o que é conhecer?, (ii) tudo é passível de conhecimento?, (iii) por que alguns educandos têm mais facilidade para apren- der? e (iv) para que é necessário aprender? etc. A filosofia oferece condições teóricas para a superação da consciência ingênua e o desenvolvimento da consciência crítica. Assim, mediante à filosofia, a “expe- riência vivida” é transformada em “experiência compreendida”, isto é, em um saber O estudo da filosofia é essencial, porque não se pode pensar em nenhum ser humano que não seja solicitado a refletir e agir. Quer dizer, cada ser humano tem uma concepção de mundo, uma linha de conduta moral e política e, então, tende a atuar filosoficamente em to- dos os contextos, seja (i) no sentido de manter ou (ii) modificar as maneiras de pensar e agir. Fonte: Aranha e Martins (1993). EXPLORANDO IDEIAS UNICESUMAR UNIDADE 1 16 a respeito dessa experiência. Em última análise, cabe à filosofia fazer a crítica da cultura. Conforme argumentam Aranha e Martins (1993, p.28), “só assim será possível desvelar as formas de dominação que se ocultam sob o convencio- nalismo, a alienação e a ideologia”. Sobre o termo Filosofia, do grego φιλοσοφία, trata-se de uma palavra que pode ser traduzida por “amor à sabedoria”. Conforme Stigar (2010), a palavra ‘filosofia’ acaba dando origem ao ‘filósofo’. “Em sua origem na Grécia antiga a palavra ‘filósofo’ designava uma pessoa que sempre está em busca da sabedoria, ou seja, “amante da sabedoria” [...] (STIGAR, 2010, p.29). Dessa forma, em sua origem, a filosofia: “[...] era a atividade do homem sábio, ou seja, do amigo do saber (filo + sophia = amor à sabedoria). O filósofo é um conhecedor de tudo, de todas as coisas, o sophós, o sábio” (STIGAR, 2010, p.29). Por que, então, o trabalho docente é filosófico? Porque o trabalho docente é epistemológico, isto é, lida diretamente com o saber, o conhecimento humano. Envolve constante reflexão sobre o agir didático-metodológico, que, por sua vez, tem três processos que envolvem aspectos históricos e filosóficos: (i) o ensino, (ii) a aprendizagem e (iii) o desenvolvimento humano. Epistemologia ou teoria do conhecimento é uma área da filosofia que busca explicar: “o que é conhecimento?” e “como ocorre o processo de conhecer?”. Atual- mente, além da filosofia, a psicologia e a pedagogia trabalham com a epistemologia. A Filosofia da Educação é um campo que direciona e, ao mesmo tempo, problematiza sobre a prática pedagógica e a formação humana. Vejamos a ex- plicação dada por Luckesi (1994, p. 21) a respeito da relação entre a educação e a filosofia da educação: “ A educação é uma prática humana direcionada por uma determi-nada concepção teórica. A prática pedagógica está articulada com uma pedagogia, que nada mais é que uma concepção filosófica da educação. Tal concepção ordena os elementos que direcionam a prática educacional. É importante ficar claro que, historicamente, a educação “[...] não se manifesta como um fim em si mesma, mas sim como um instrumento de manutenção ou trans- 17 formação social” (LUCKESI, 1994, p. 30-31), ou seja, a educação sempre tem uma finalidade específica, de acordo com o momento histórico no qual está situada. Os problemas abordados pela filosofia da educação estão ligados aos sujeitos (profes- sor, estudante, tutor, pedagogo, padre etc.) e aos objetos (lápis, livro didático, cader- no, computador etc.), bem como a relação entre eles dentro do sistema educacional. Conforme Luckesi (1994, p. 32), nas relações entre filosofia e educação só há duas alternativas: “ [...] ou se pensa e se reflete sobre o que se faz e assim se realiza uma ação educativa consciente; ou não se reflete criticamente e se executa uma ação pedagógica a partir de uma concepção mais ou menos obscura e opaca existente na cultura vivida do dia a dia - e assim se realiza uma ação educativa com baixo nível de consciência. Retomando a questão, o que induz o educador a filosofar é a sua constante re- flexão a respeito dos sujeitos e dos objetos com os quais lida profissionalmente. Dito de outra forma, o que leva o educador a filosofar: “ [...] são os problemas (entendido esse termo com o significado que lhe foi consignado) que ele encontra ao realizar a tarefa educativa. E como a educação visa o homem, é conveniente começar por uma reflexão sobre a realidade humana, procurando descobrir quais os aspectos que ele comporta, quais as suas exigências referindo-as sempre à situação existencial concreta do homem brasileiro, pois é aí (ou pelo menos a partir daí) que se desenvolverá o nosso trabalho (SAVIANI, 2000, p. 23). Dessa forma, o exercício filosófico possibilita que as pessoas, diante dos problemas, respondam com reflexão e não com ideias prontas. E, diante dos problemas que a realidade educacional apresenta ao educador, a reflexão filosófica se faz necessária. UNICESUMAR UNIDADE 1 18 Há um consenso entre nós, humanos, que aquilo que traz influência sobre nós – (i) os sujeitos e (ii) os objetos – dispõe de características tão complexas que, para nos apropriarmos disso, passou-se a categorizar que se exige diferentes tipos de conhecimento. Observe o quadro a seguir: Conhecimento Popular Conhecimento Científico Conhecimento Filosófico Conhecimento Religioso (Teológico) Valorativo Real (factual) Valorativo Valorativo Reflexivo Contingente Racional Inspiracional Assistemático Sistemático Sistemático Sistemático Verificável Verificável Não verificável Não Verificável Falível Falível Infalível Infalível Inexato Aproximada- mente exato Exato Exato Quadro 1 - Os tipos de conhecimento / Fonte: adaptado de Ferrari (1974). Principais áreas de estudo da filosofia: epistemologia, metafísica, ética, estética e filosofia política 19 Figura 1 - A mortede Sócrates / Fonte: Pixabay (2021, on-line). Afinal, o que distingue estes níveis de conhecimento? Vejamos. O conhecimento empírico diz respeito ao conhecimento imediato, àquilo que nossos sentidos nos repassam imediatamente. Contudo, ao longo da história da filosofia, houve um problema levantado: até que ponto podemos confiar no conhecimento imediato? Descrição da Imagem: no quadro pintado a óleo, é representada a morte de Sócrates, condenado a beber veneno pela Justiça ateniense. Sócrates está sentado, voltado para frente, olhando para a direita, em uma cama de madeira alta e lenços amarelos. Ele tem o cabelo encaracolado curto e grisalho e a barba encaracolada média e grisalha. O filósofo está com o tronco nu e uma vestimenta branca sobre os membros inferiores. A mão esquerda dele está levantada, apontando para cima, enquanto a mão direita recebe uma taça cobre de um homem. O homem que dá a taça está de costas para o observador, tem cabelos castanhos curtos encaracolados e não tem barba. Ele veste uma roupa vermelha que cobre o peito e as pernas, a mão esquerda está à altura dos olhos, em uma atitude de lamento, enquanto a mão direita segura a taça. À esquerda, em uma das pontas da cama, há um homem com cabelos e barbas brancas. Ele está sentado de costas para Sócrates e utiliza uma túnica cinza que cobre todo o corpo exceto pés, mãos e cabeça e está com a cabeça abaixada em atitude de lamento. Mais ao fundo, ainda à esquerda, há um corredor. Nele, encontra-se um homem jovem lamentando, vestido de marrom e azul, com cabelos loiros encaracolados e curtos, com as mãos apoiadas contra a parede e o rosto encoberto pelos braços. No fim do corredor, há uma mulher e três homens subindo uma escada. À direita da imagem, perto da cama, en- contram-se seis homens, vestidos com roupas longas, cada qual com um ou duas cores: laranja, amarelo, azul, cinza e marrom, com cabelos curtos e encaracolados, escuros, castanhos e grisalhos. Três prestam atenção na fala de Sócrates, enquanto os outros apresentam expressões faciais de lamento e tristeza. UNICESUMAR UNIDADE 1 20 Um exemplo: por meio da visão, observando o céu, vemos o Sol girando em torno da Terra. Entretanto, por meio do conhecimento científico, sabe-se atual- mente que, ao contrário, é a Terra que gira em torno do Sol. Em outras palavras, às vezes, o conhecimento imediato (empírico) nos engana. No entanto, não se pode desprezar o conhecimento empírico. Apesar de ele ser o imediato, muitas vezes, é verdadeiro e, de certa forma, uma das maneiras de se obter conhecimento é por meio da empiria, ou seja, da experiência imediata. O conhecimento científico diz respeito aos saberes obtidos por meio da ciência. Utiliza-se o método científico para a obtenção de conhecimentos confiá- veis e exatos. Por meio da ciência, certos saberes foram contestados. Por exemplo, atualmente, sabe-se que a saúde não é apenas uma questão de “sorte”, mas de ques- tões referentes à genética, do acesso ao sistema de saúde (enfermagem, medicina, farmácia, fisioterapia etc.), da alimentação, da prática de exercícios físicos entre outros. Assim sendo, de certa forma, o conhecimento científico é muito mais sistematizado e exato que o conhecimento empírico. O conhecimento filosófico tem origem em reflexões que o ser humano faz a partir de questões que levanta no ato de pensar. Contudo, o pensamento filosófico exige um certo rigor. Dito de outra forma, o conhecimento filosófico fica ao nível da linguagem, da lógica, da argumentação e da escrita, mas não é testável, ou seja, não é empírico. Quanto ao conhecimento teológico ou religioso, este também se baseia em questões estritamente relacionadas à crença em entidades que, no geral, não se pode ter experiência (no sentido científico). Assim, tem por base a fé religiosa para dar fundamentos ao conhecimento. Por exemplo, para analisar aquilo que chamamos de “vida”, há quatro formas diferentes de a conhecermos: (i) popular, isto é, diz respeito ao conceito de “vida” que ouvimos no dia a dia (empírico); (ii) científico, refere-se aos conhecimentos que uma ciência como a “biologia” busca documentar de maneira clara e objetiva a definição de “o que é vida”; (iii) o filosófico, por não ser verificável, resume-se à palavra e ao diálogo, ou seja, diz respeito à sabedoria que se busca expressar por meio do raciocínio lógico a respeito do conceito de “vida”; por fim, o conhecimento mais aprofundado diz respeito aos estudos de ordem (iv) religiosa, isto é, refere-se à definição atribuí- da a seres e entidades sobrenaturais - com as quais não se pode ter um contato imediato, porque estão para além da experiência possível - à vida (por exemplo, 21 no cristianismo se diz que a origem da vida veio de um sopro dado por um ser semelhante a nós humanos). Em outras palavras, a questão não é qual tipo de conhecimento é mais im- portante. O que está em evidência são os níveis de conhecimento diferentes: empírico, científico, filosófico e teológico. A figura, a seguir, busca sistematizar a discussão desenvolvida até aqui. Sujeito Conhecimento Objeto Empírico Cientí�co Filosó�co Teológico Figura 2 - Níveis de conhecimento / Fonte: adaptada de Cervo, Bervian e Silva (2007). Ao longo da história, estes diferentes tipos e/ou níveis de conhecimento tiveram diferentes graus de importância: na Antiguidade, valorizava-se o conhecimento filosófico; na Era Medieval, priorizou-se o conhecimento teológico; na Moderni- dade, o conhecimento científico ganhou status; na Contemporaneidade, tem-se oscilado entre o conhecimento científico e o empírico. Descrição da Imagem: a imagem se trata de um mapa mental, nas cores azuis e branco. Acima, existem três retângulos azuis escritos em branco: à esquerda, “Sujeito”, no centro “Conhecimento” e à direita “Objeto”. Existe uma linha azul, curvada, acima destes retângulos, conectando “Sujeito” a “Objeto”, passando acima de “Conhecimento”. Abaixo destes, à direita, existe um círculo, dividido internamente em quatros camadas circulares. À esquerda, existem quatro retângulos azuis escritos em branco. Estes se conectam às camadas dos círculos por meio de uma única seta direcional cada, a partir de cada retângulo. O primeiro, no topo, “Empírico”, se conecta à camada exterior do círculo. O segundo, “Científico”, se conecta à segunda camada interior. O terceiro, “Filosófico”, se conecta à terceira. E o quarto, “Teológico”, se conecta ao centro do círculo. UNICESUMAR UNIDADE 1 22 A partir do que foi teorizado até aqui, você também já deve ter percebido que, além de cada tipo de conhecimento lidar com características específicas do objeto de conhecimento, cada tipo de conhecimento apresenta limitações quan- do é posto em prática. Em outras palavras, cada tipo de conhecimento tem seus métodos e áreas de estudo que lhe são próprias. Apesar da particularidade dos diferentes níveis de conhecimento, pode-se dizer que os quatro níveis de conhecimento têm suas fronteiras. Estes limites acabam definindo as áreas de estudo. A epistemologia, do grego episteme (conhecimento) + logia (estudo), ou seja, “estudo do conhecimento” ou “teoria do conhecimento” lida com a crença, a justi- ficação e o conhecimento. Segundo Losee (2001), os próprios filósofos praticantes da ciência frequentemente discordam sobre seu objeto de estudo. Losee (2001) adota a posição que distingue fazer ciência de pensar sobre como se faz ciência. A epistemologia é, então, “[...] uma disciplina [...] que se debruça sobre o pensar sobre como se faz ciência (a realidade ou a natureza estaria no plano zero e a Físi- ca, como ciência, seria o plano 1 – uma descrição da realidade)” (OSTERMANN; CAVALCANTI, 2011, p. 9). Nessa posição, a epistemologia procura respostas a questões do tipo: • Como é obtido e validado o conhecimento científico? • Existe um método da Ciência? Se afirmativo, qual é esse método? • Em que circunstâncias se dá o abandono de uma teoria e a sua subs- tituição poroutra? • Qual é o estado cognitivo das leis e princípios científicos? • É possível estabelecer um critério de demarcação? (OSTERMANN; CA- VALCANTI, 2011, p. 9). Ao focarmos no conhecimento filosófico, verifica-se que, na relação sujeito-objeto, ele lida com cinco áreas: epistemologia, metafísica, ética, estética e filosofia política. PENSANDO JUNTOS 23 Para os racionalistas, o paradigma de conhecimento é a matemática e a lógica. Dessa forma: “ O pensamento racionalista defenderá como princípio inquestioná-vel da verdade científica e da formação da inteligência do homem, a evidência racional, não derivada da experiência ou contato com os objetos, mas de conteúdos mentais, manifestados no homem desde sua origem no mundo (PEREIRA; LIMA, 2017, p.68). Para os empiristas, é a ciência que depende da experiência. Defende, portanto, que a “experiência sensível” é o “[...] ponto de partida para a construção de con- clusões legítimas, abstrações e generalizações” (PEREIRA; LIMA, 2017, p. 68). A metafísica ou “ontologia” trata da realidade, do ser, do nada e da verdade. A palavra vem do grego antigo μετα, ou seja, metà, que significa “depois de”, “além de tudo”; e Φυσις, isto é, physis, “natureza” ou “física”, quer dizer, examina a natureza fundamental da realidade. Esta área da filosofia pressupõe um “mundo transcendente”, isto é, a existência de seres (manifestados ou não) “[...] que não podem ser apreendidos por nossos sentidos, pelo raciocínio lógico ou por qualquer dos métodos disponibilizados por nossas ciências” (SECCO, 2013, p. 64). Por exemplo, a alma, enquanto objeto de estudo da metafísica, jamais será objeto de estudo do conhecimento científico, porque carece de existência, ou seja, não se faz presente no espaço nem no tempo; está para além do mundo físico (por isso metafísica, para além da física). A ética trata do certo e do errado; do bem e do mal. Pode-se dizer que a ética diz respeito a uma teoria da moral, sendo, então, a “filosofia da moral”, ou seja, o estudo racional sobre a experiência moral dos seres humanos. Ética é, portanto, o campo da filosofia que se preocupa com a definição de o que é bom e o que é mau. Por outro lado, a moral, embora tenha certa relação com a ética, é um campo diferente. Conforme escreve Foucault (1984, p. 26): “Moral é um conjunto de valores e regras de ação propostas aos indivíduos e aos grupos por intermé- dio de aparelhos prescritivos diversos, como podem ser a família, as instituições educativas, as Igrejas etc.” UNICESUMAR UNIDADE 1 24 A estética, ou “filosofia da arte”, trata do belo. Na língua grega, aesthesis diz respeito à nossa capacidade de receber impressões sensíveis dos objetos que nos cercam, nossa capacidade de sermos afetados, por meio dos sentidos, por esses objetos. A filosofia política trata da vida em sociedade. O termo política é derivado da língua grega antiga πολιτεία, isto é, politeía, é a área que, quando estuda- da pela filosofia, refere-se ao campo do conhecimen- to que tem como objeto principal a pólis, ou seja, na língua portuguesa, a cidade. “Como conduzir a vida coletiva?” e “como melhorar a convivência com os ou- tros na cidade?” são as questões centrais da política enquanto campo de estudos da filosofia. Epistemologia Trata das questões sobre co- nhecimento Metafísica Trata das questões sobre tempo, espaço, Deus, causa e realidade Ética Bom e mau Estética Arte e beleza Filosofia Política Liberdade, justiça e poder Fonte: adaptado de Robinson e Groves (2012, p.4) Neste quadro de áreas de estudo da filosofia, como surge a “filosofia da educação”? Assim, no que diz res- peito aos níveis de conhecimento, tanto a “filosofia da educação” como a “pedagogia” lidam com os qua- tro níveis – o conhecimento popular, o científico, o fi- losófico e o religioso. Quanto aos campos de estudo 25 da filosofia, tanto a “filosofia da educação” como a “pedagogia” trabalham com eles: epistemologia, me- tafísica, ética, estética e filosofia política. Períodos na história Geral: pré- história, idade antiga, idade média, idade moderna e idade contemporânea Você já se perguntou: qual o motivo da divisão da história em períodos? A grosso modo, as divisões têm origens metodológicas e pedagógicas, ou seja, buscam facilitar o estudo da história. A divisão da história em três períodos – (i) an- tigo, (ii) medieval e (iii) moderno – foi consagrada pelo pedagogo alemão Christoph Keller, chamado em latim de “Cellarius” (nascimento em 22 de no- vembro de 1638 e falecimento em 4 de junho 1707). Embora a divisão “antiga-medieval-moderna” da história tenha sido usada anteriormente por estu- diosos italianos renascentistas, Cellarius, por meio de sua obra “História Universal” dividida em um período antigo, medieval e nova, ajudou a popula- rizar estes três períodos. Depois dele, essa divisão tripartite se tornou padrão. A Pré-História diz respeito ao período anterior à invenção da escrita. Trata-se de uma época na qual o ser humano começa a viver em comunidade. Contudo, a questão de ser a escrita o “divisor de águas” entre pré- -história e história, conforme afirmam Rosa e Zingano (2013, p. 33), atualmente é uma ideia questionável: UNICESUMAR UNIDADE 1 26 “ Por muito tempo a Pré-História foi definida como o período que vai desde o aparecimento do homem (mais ou menos três milhões de anos a.C) até a invenção da escrita (mais ou menos quatro mil anos a.C.). Atualmente, os historiadores discutem este conceito, pois ainda que uma civilização não tenha desenvolvido a escrita, não significa que ela não tenha sua própria história. No que diz respeito à formação (educação) na Pré-História, de certa forma ela estava diretamente ligada à sobrevivência humana. Como não havia distinção entre ciência e magia, as pessoas agiam por instinto e, então, os saberes que iam sendo internalizados eram, depois, transmitidos dos mais velhos para os mais jovens sobretudo por meio da oralidade (diálogo). A Idade Antiga ou Antiguidade é o primeiro período da história propria- mente dita. Tem como marco inicial o desenvolvimento da escrita, fato ocorrido a cerca de 4000 anos a.C. Tradicionalmente, considera-se que a Idade Antiga se encerra com a queda do Império Romano do Ocidente, no ano 476 d.C. A Idade Média é o período que tem início em 476 d.C. e vai até a tomada de Constantinopla pelos turcos otomanos (1453 d.C.). São destaques da Idade Média: (i) Alta Idade Média; (ii) Feudalismo (iii) Baixa Idade Média; (iv) Cultu- ra Medieval e (v) Formação das Monarquias Nacionais. O Período Medieval é marcado pelo domínio da religião, sobretudo pela Igreja Católica. A Idade Moderna é o período da História que vai de 1453 até 1789 (ano no qual ocorre a Revolução Francesa). Nesse período, podemos destacar: (i) ex- pansão marítima europeia; (ii) revolução comercial e o mercantilismo; (iii) co- lonialismo europeu na América; (iv) périplo africano; (v) renascimento cultural; (vi) reforma protestante e contrarreforma; (vii) absolutismo e (viii) iluminismo. Conforme indica Araújo (2007, p. 25), a modernidade se caracteriza: “ [...] pela antitradição, pela derrubada das convenções, dos costumes e das crenças, pela saída dos particularismos e entrada no universa-lismo, ou ainda pela entrada da idade da razão. Mas, muitas combi- nações do moderno e do tradicional podem ainda ser encontradas nos cenários sociais concretos. Como afirma Habermas (2002, p. 5), a modernidade, que faz jus ao conceito de “modernização”, se refere: 27 “ [...] a um conjunto de processos cumulativos e de reforço mútuo: à formação de capital e mobilização de recursos; ao desenvolvimento das forças produtivas e ao aumento da produtividade do trabalho; ao estabelecimento do poder político centralizado e à formação de identidades nacionais; à expansão dos direitos de participação político, das formas urbanas de vida e da formação escolar formal; à secularização de valores e normas etc. Modernidade é, portanto,“sinônimo de sociedade moderna ou civilização indus- trial e está associada a um conjunto de atitudes perante o mundo [...]” (ARAÚJO, 2007, p. 26), como a predominância da ideia de que o mundo: “ [...] é passível de transformação pela intervenção humana; um com-plexo de instituições econômicas, em especial a produção industrial e a economia de mercado; toda uma gama de instituições políticas, como o Estado nacional e a democracia de massa; a primazia e a centralidade do indivíduo e não, do grupo como sujeito de direitos e de decisões; o primado da subjetividade; o pluralismo e a ideo- logia; a concepção linear de história; a realimentação mútua entre ciência e tecnologia, com a hegemonia de sua racionalidade própria; o predomínio cada vez maior do simbolismo formal de cunho nu- mérico-matemático (informática); a pesquisa e industrialização em níveis diversos de qualidade técnica (transformadora, inovadora, criadora); a burocratização e a organização política da sociedade. (ARAÚJO, 2007, p.26-27). A Idade Contemporânea diz respeito ao período, que tem início em 1789 e chega até os dias atuais. O termo “contemporâneo” vem do latim contemporaneus e quer dizer “o que coincide com o tempo”. O conceito contemporâneo é usado como sinônimo de “atual” e “atualidade”. A época contemporânea se refere ao período de consolidação do capitalismo como modo de produção. Refere-se também à globalização da economia, con- forme Moreira e Kramer (2007): “ A expressão [globalização] refere-se à maciça presença, no mundo de hoje, de instituições transnacionais, cujas decisões interferem nas opções políticas que se fazem no âmbito de qualquer Estado-nação. UNICESUMAR UNIDADE 1 28 Designa também o efeito de processos econômicos, entre os quais se incluem processos de produção, consumo, comércio, fluxo de capitais e interdependência monetária. Em outros momentos, a pa- lavra corresponde à difusão do discurso neoliberal, crescentemente hegemônico e visto como inevitável. Ainda em outros, associa-se ao surgimento de novas tecnologias da informação e da comunicação que socializam saberes e, em certo grau, padronizam os significados atribuídos ao mundo, à vida, à sociedade, à natureza. Finalmente, em muitos casos, o termo corresponde às mudanças decorrentes de regras globais, formuladas por organismos como o Fundo Monetá- rio Internacional (FMI) e o Banco Mundial (BURBULES; TORRES, 2000 apud MOREIRA; KRAMER, 2007, p. 1039). Contudo, há uma problemática com relação à denominação da época atual: con- temporaneidade ou pós-modernidade? Embora ambos os termos se referem à época atual, a pós-modernidade tem uma perspectiva bem distinta em relação ao tempo presente. Conforme indica Adelman (2009, p. 187), o “pós-moderno” diz respeito à: “[...] fase histórica do capitalismo tardio e seu “reflexo” no pensamento - também é representado como deterioração [...], triunfo final de uma sociedade ca- pitalista, sem mais capacidade de manter uma oposição política e cultural autêntica”. Pré-História: Do surgimento do ser humano ao ano 40000 Idade Antiga: Do ano 4000 a.C. ao ano 476 d.C. Idade Média: Do ano 476 ao ano 1453 Idade Moderna: Do ano 1453 ao ano 1789 Idade Contemporânea: Do ano 1789 aos dias atuais Quadro 3 - Quadro-resumo dos períodos históricos / Fonte: o autor. Diante do exposto, a seguir, buscaremos relacionar os períodos da história geral com os períodos da história da filosofia. 29 Períodos da História da Filosofia: filosofia antiga, filosofia medieval, filosofia moderna e filosofia contemporânea Geralmente, a periodização da história da filosofia é feita a partir de uma corre- lação com os períodos da história: (i) filosofia antiga; (ii) filosofia medieval; (iii) filosofia moderna e (iv) filosofia contemporânea. Tradicionalmente, a Filosofia Antiga é dividida em três épocas: (1) período pré-socrático ou cosmológico, (2) período socrático ou antropológico e (3) período helenístico ou greco-romano. Estas três fases na história da filosofia antiga aconteceram, sobretudo, em Atenas e, depois, em Roma. Vejamos as ca- racterísticas deste período de acordo com: “ O período pré-socrático ou cosmológico, em que a filosofia se ocupa principalmente com a origem do mundo e as causas das transforma-ções da natureza; o período socrático ou antropológico, ocorrido entre o final do Século V até o final do Século IV a.C., cujas figuras principais UNICESUMAR UNIDADE 1 30 são Sócrates, Platão e Aristóteles, em que o objeto de estudo da filosofia passa a ser o homem, sua vida política e moral, e sua capacidade de conhecer as coisas; e o período helenístico ou greco-romano, entre o final do Século III a.C até o Século II d. C, quando começa a consoli- dar-se a supremacia da visão cristã, sobretudo com o pensamento de Santo Agostinho. Neste período, deixa-se de acreditar em soluções mais coletivas para a vida humana e se começa a introduzir uma saída individual, consolidando-se uma nova ética e uma política que deixa de ser vista como boa. É o período em que predominam as doutrinas dos estóicos, dos epicuristas e dos céticos. Neste período, as doutrinas filosóficas helenísticas deixaram de ter sua sede em Atenas, e Roma passou a ser o lugar em que tais doutrinas continuaram consolidan- do-se e modificando-se (ASSMANN, 2014, p. 35). Do ponto de vista epistemológico – da teoria conhecimento –, no período pré-so- crático, já se investigava a natureza de maneira racional, ou seja, a filosofia surge por meio de um “desligamento” entre o mítico (fundamentado em deuses) e o filosófico (fundamentado na racionalidade humana). Neste sentido, os dois principais filó- sofos pré-socráticos são Heráclito e Parmênides. Heráclito (544-484 a.C.) nasceu em Éfeso, na Jônia. Seu principal propósito foi compreender a multiplicidade do real. Para ele, o ser é múltiplo, não apenas no sentido de multiplicidade das coisas, mas também no sentido de oposições internas. Aranha e Martins (2009, p. 150) explicam o pensamento de Heráclito explicitando que, para ele: “ O que mantém o fluxo do movimento não é o simples aparecer de novos seres, mas a luta dos contrários, pois “a guerra é pai de todos, rei de todos”. É da luta que nasce a harmonia, como síntese dos contrários. O dinamismo de todas as coisas pode ser representado pela metáfora do fogo, expresso visível da instabilidade, símbolo da eterna agitação do devir: “o fogo eterno e vivo, que ora acende e ora se apaga”. Com relação a Parmênides (540-470 a.C.), que viveu em Eleia, cidade do sul da Magna Grécia, Aranha e Martins (2009) conceituam que sua teoria filosófica influenciou de maneira decisiva o pensamento ocidental. Para Parmênides, o ser é único, imutável, infinito e imóvel. Dessa forma, cabe explicitar que sua teoria se contrapõe à filosofia de Heráclito, de que uma coisa 31 pode ser e não ser ao mesmo tempo. Todavia, Parmêni- des não nega a existência do movimento, porém consi- dera que este processo existe apenas no mundo sensível, mas a percepção deste movimento pelos sentidos é ilu- sória, sendo apenas o mundo inteligível o verdadeiro. No período socrático ou antropológico, inves- tigam-se as questões humanas, tais como a ética, os comportamentos e os conhecimentos humanos. Este período se estende do final do século V a.C. ao final do século IV a.C. No período helenístico ou greco-romano, acom- panham-se as transformações da cultura grega, que pas- sa a fazer parte do Império Romano. Mais tarde, surge o cristianismo, que influencia no desenvolvimento poste- rior. Este período se estende do final do século III a.C. até o século VI depois de Cristo. Na transição da antiguidade para o período medie- val, na época da chamada “filosofia patrística” – elabo- rada por padres da Igreja, por isso a palavra “patrística” –, é um período em que a preocupação principal é com as questões religiosas, tais como (a) a criação do mun- do, (b) o pecado original, (c) a ressurreição dos mortos, avançando,assim, para temas mais complexos de caráter moral como (d) consciência, (e) livre-arbítrio e (f) as re- lações entre fé e razão. Este período se estende do século I até o século VII d.C. A Filosofia Medieval foi fortemente influenciada pelos pensamentos de Platão e Aristóteles, abrangen- do também pensadores árabes, judeus e europeus. Este período se estende entre o século VIII e o século XIV. Na maior parte da Europa, a Idade Média durou mil anos. É um período muito longo se comparado com a Antiguidade (cinco a seis séculos, dependendo da re- gião), que o precedeu, e a Idade Moderna (três séculos). UNICESUMAR Figura 3 - Acrópole de Atenas / Fonte: Rawpixel ([2022a], on-line). UNIDADE 1 32 Uma ideia que causou intenso debate durante o desenvolvimento da Filosofia Medieval foi a questão dos universais. O universal é a ideia e a essência comum a todas as coisas. Esta problemática teve início com as questões formuladas por Porfírio de Tiro (234-305). O questionamento deste pensador acerca dos “predicá- veis” geralmente é sistematizado da seguinte forma: (a) são as predicáveis realidades subsistentes em si mesmas? Ou (b) consistem apenas em simples conceitos men- tais? Se são as predicáveis realidades subsistentes em si mesmas (a), são corpóreas? (x) ou incorpóreas? (y). Se a resposta entre (x) e (y) for a de que são corpóreas (a), são separadas das coisas sensíveis (I) ou subsistem nas coisas corpóreas e delas dependem (II)? As principais soluções apresentadas para estas perguntas foram (i) o realismo, (ii) o realismo moderado, (iii) o nominalismo e (iv) o conceptualismo. “ Para os realistas, como Santo Anselmo (séc. XI) e Guilherme de Champeaux (séc. XIII), o universal tem realidade objetiva (são res, ou seja, “coisa”). Essa posição é claramente influenciada pela teoria das ideias de Platão. Descrição da Imagem: fotografia da Acrópole de Atenas, Grécia, com o Templo Parthenon no topo da colina, em que é possível perceber no fundo construções de uma cidade, dois montes e o céu. A foto está com uma saturação amarela. 33 O realismo moderado é representado no século XIII por Tomás de Aquino. Como aristotélico, afirma que os universais só existem formalmente no espírito, embora tenham fundamento nas coisas. Para os nominalistas, como Roscelino (séc. XI), o universal é apenas o que é expresso em um nome. Ou seja, os universais são palavras, sem nenhuma realidade específica correspondente. A tendência nominalista reapareceu com algumas nuances diferentes no século XIV com o inglês Guilherme de Ockam, franciscaco que representa a reação à filosofia aristotélico-tomista. A posição conceptualista é intermediária entre o realismo e o nomi- nalismo e teve como principal defensor Pedro Abelardo (séc. XII), grande mestre da polêmica. Para ele, os universais são conceitos, entidades mentais, que existem somente no espírito (ARANHA; MARTINS, 2009, p.162) UNICESUMAR UNIDADE 1 34 A Filosofia Moderna valoriza, principalmente, a re- flexão como ponto de partida do raciocínio filosófi- co. Na Filosofia Moderna, defende-se que tudo o que desejamos conhecer pode ser transformado em uma ideia clara, formulada pelo intelecto. Neste período, que se estende do século XVII até o século XVIII, a percepção de realidade dá ori- gem à ciência moderna, a qual tem início com René Descartes. “Pai da filosofia moderna” e matemático, de fato, Descartes merece o lugar de destaque. Pri- meiro, “[...] por ter buscado com afinco um método em todos os ramos da investigação humana [...]” (SCRUTON, 1981, p. 35), segundo, “[...] por ter in- troduzido na filosofia [...], muitos dos conceitos e argumentos que desde então têm servido de funda- mento”, argumenta Scruton (1981, p. 35). Contudo, o teórico adverte a tradição de dizer que Descartes deu início à filosofia moderna, “ [...] não deve induzir-nos a erigir uma barreira intransponível [...] Embora o pensamento de Descar- tes tenha mudado de forma radical o método filosófico, grande parte de seu conteúdo não mudou. Portanto, não deveríamos surpreender-nos caso se possa demonstrar que algum argumento filosófico moderno foi antecipado pelos pensadores medie- vais, nas diversas tentativas que eles empreenderam no sentido de re- conciliar a religião e a filosofia ou de separá-las. (SCRUTON, 1981, p. 20). 35 Por fim, a filosofia nos dias atuais, a chamada Filosofia Contemporânea, volta- -se para os problemas referentes ao avanço técnico-científico. Devemos nos lem- brar de uma sociedade que nos últimos 200 anos sofreu uma série de mudanças radicais, por exemplo, a ascensão da burguesia ao poder, duas Guerras Mundiais e ameaças de extinção da vida na Terra. Este período se estende de meados do século XIX aos dias atuais. Nietzsche, filósofo alemão, é considerado o pensador que deu início à Filosofia Contemporânea. Crítico da modernidade, Nietzsche representa, na verdade, uma crítica à filosofia e à sua história. Com base em outros critérios, é possível elaborar outras formas de periodização da filosofia. Porta (2003), por exemplo, organiza a história da filosofia conforme quadro a seguir: Período Filo- sófico Correspondên- cia ao período histórico Grandes Nomes Disciplina-chave Conceito Chave 1. Período Metafísico Época antiga Medieval Início da moderna Platão Aristóteles São Tomás de Aquino Metafísica (ontologia) Ser 2. Período epistemológico (ou transcen- dental) Época moderna Descartes Kant Epistemologia Teoria Transcendental Verdade Objetividade Validez 3. Período semântico - hermenêutico Época contemporânea Husserl Dilthey Heidegger Frege Wittgenstein Teoria da significação Fenomenologia Hermenêutica Semântica (análise lógi- ca da linguagem) Significado Semântica (análise lógica da linguagem) Quadro 4 - A história da filosofia a partir de seus problemas / Fonte: adaptado de Porta (2003). Diante do exposto no decorrer desta unidade, fica evidente a importância da pe- riodização da história da filosofia. Contudo, como mostra o quadro apresentado, existem outras formas de organizá-la. Assim sendo, a periodização não pode ser usada como critério determinante para compreender a filosofia, a filosofia da educação, os filósofos, os problemas filosóficos, a pedagogia etc. UNICESUMAR UNIDADE 1 36 Ao longo da história da humanidade, o processo educativo passou (e tem passa- do) por constantes mudanças. Neste contexto, evidenciam-se “pedaços” de cultu- ras antigas em nossa educação contemporânea. Como afirma Marrou (2015, p. 4), “a história da educação na Antiguidade não pode deixar indiferente nossa cultura moderna; ela retraça as origens diretas de nossa própria tradição pedagógica”. De fato, muito do que ocorre na educação aqui no Brasil, desde o “descobrimento” até os dias atuais, é uma herança das culturas europeias. “Somos greco-latinos; o essencial da nossa civilização veio da deles; isto é verdadeiro, em um grau emi- nente, para nosso sistema de educação”, diz Marrou (2015, p. 4). Platão: um marco para a história da educação 37 Antes dos gregos e dos romanos, diversos povos já haviam se preocupado com educação. Contudo, não se tratava de uma escolarização institucionalizada, isto é, de uma formação organizada por uma instituição ou pelo Estado, tampouco situada em prédios próprios e/ ou coordenada por profissionais especializados (os do- centes). Conforme indica Mariano (2012, p. 62): “ [...]nas sociedades primitivas, “[...] os mais velhos eram os responsáveis por transmitir para os mais novos os ensina- mentos necessários para a sobrevivência em suas sociedades [...]”, isto é, os conhe- cimentos “[...] de caça e pesca; as artes da guerra; os rituais religiosos; lendas e his- tórias de seu povo. Tais formas de educa- ção, no entanto, não se encaixam no que compreendemos hoje por educação ins- titucionalizada, e muito menos no que entendemos por sistema educacional ou ensino, que envolve hierarquias, normas, leis de regência e controle aplicadasàs escolas, aos colégios, às universidades de um determinado país, estado ou cidade. (MARIANO, 2012, p. 62). A educação, como conhecemos hoje, teve como marco o filósofo Platão – nascimento em 427 a.C. em Atenas (Grécia) e falecimento em Atenas (Grécia) 347 a.C. Foi ele o pensador que fundou a Academia de Atenas, escola que tinha o nome do herói Academos. Sobre a fundação da academia, Wermann e Machado (2016, p.8) afirmam: “A Academia foi fundada por ele [Platão] em 387 a.C, em Atenas, e subsistiu por mais de 9 séculos, até 529, fecha por um Editum do imperador Justiniano”. UNICESUMAR UNIDADE 1 38 Figura 4 - Ruínas da Academia de Atenas / Fonte: Rawpixel ([2022b], on-line). Platão, ao problematizar sobre a educação e a pedagogia, nos fornece um im- portante retrato do problema da educação na Grécia de seu tempo. Conforme Pagni ([2022], p. 13), o filósofo buscava uma pedagogia (Paideia) justa, isto é, uma educação “[...] que fosse capaz de corrigir as distorções produzidas por poetas e sofistas e de colocar os cidadãos no caminho reto”. Uma das questões que seria necessário era um lugar para os estudos - a Academia, propriamente dita. Na Academia, Platão propõe que se ensine por meio do logos, isto é, da fala ou da palavra humana. São elas as fontes do conhecimento verdadeiro. Em outras palavras, em oposição aos mitos (mitologia grega), o filósofo propõe a razão, Descrição da Imagem: a imagem é uma fotografia da Academia de Atenas vista por um outro ângulo. É possível observar que a Academia de Atenas se encontra no topo da paisagem, o que torna possível a alusão de que o conhecimento tem caráter elevado. Ao passo que as demais construções (civis) estão dispostas logo abaixo da academia. Há uma relação entre o conhecimento e a felicidade? “A filosofia de Platão tem o eu seu cerne um projeto sistemático de esclarecimento dos homens e combate à ignorância, fonte de todos os males da humanidade. Para ele, não há felicidade sem sabedoria”. (Vladimir Chaves dos Santos) PENSANDO JUNTOS 39 ou seja, a ciência. Ela surge como “[...] negação dos mitos, enquanto fala sem justificativa e sem autoria e da afirmação do logos, a fala que tem razão e autor” (SANTOS, 2009, p. 15, grifo do autor). Os conceitos, fonte do conhecimento universal e científico, não se obtêm de seres imaginários (mitos), mas por meio da própria lógica, da discussão, do discurso racional que, nós humanos, dispomos por meio de nossa linguagem. Assim, Platão “[...] lançou as bases para a ideia de que a emancipação e a reali- zação do homem se dão por meio do conhecimento; daí a necessidade de uma educação pública, custeada pela sociedade” (SANTOS, 2009, p. 11), bases da peda- gogia moderna. Estas reflexões platônicas influenciaram por séculos a educação e a cultura ocidental, conforme é possível observar nos nossos estudos. “De acordo com o ideal pedagógico de Platão, a educação escolar deveria ser universal, pú- blica e destinar-se a formar o carácter do indivíduo de harmonia com os valores tradicionais e ideais da cidade. Concebeu por isso um modelo de educação dividido em duas etapas fun- damentais: a primeira, consagrada à apropriação das virtudes morais básicas, por meio do exercício e da habituação mimética; a segunda, dedicada à aquisição das chamadas virtudes superiores da justiça e da sabedoria, mediante uma radical conversão da vida dos senti- dos a dos valores ideais. Ciente de que educar é introduzir ordem e harmonia na conduta humana, Platão não dispensou os valores tradicionais da [...] [paideia] arcaica, mas soube acrescentar-lhes algumas virtudes pedagógicas que a sua filosofia da educação teorizou”. Fonte: Alexandre Júnior (1995, p. 491-492). EXPLORANDO IDEIAS NOVAS DESCOBERTAS Elaborado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Aní- sio Teixeira (INEP), é um Glossário que a Diretoria de Estatísticas e Avaliação da Educação Superior do INEP disponibilizou aos professores, estudantes, gestores, dirigentes, pesquisadores e estudiosos da educação. Coordenado pela Professora Marília Morosini (PUCRS), o trabalho foi concebido e produ- zido por integrantes da Rede Sulbrasileira de Investigadores da Educação Superior (RIES), ampliando e consolidando empreendimento anterior mate- rializado na Enciclopédia de Pedagogia Universitária, publicada em 2003 pela Fundação de Apoio à Pesquisa do Rio Grande do Sul FAPERGS) e pela Rires. UNICESUMAR https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/15387 UNIDADE 1 40 Para fechar esta unidade, apresenta-se, a seguir, um quadro no qual está sistema- tizada uma síntese das características dos três primeiros períodos da história da filosofia: (i) Idade Antiga, (ii) Idade Média e (iii) Idade Moderna, com base em sete conceitos: (1) ideia básica, (2) seres humanos, (3) verdade, (4) saber mais importante, (5) trabalho, (6) política e ética e (7) história. Períodos históricos/ Questões filosóficas IDADE ANTIGA (séc. V a.C. - IV d.C) IDADE MÉDIA (século V d.C - XVI) IDADE MODERNA (século XVI - XX) Ideia básica (razão última) PHYSIS: razão da natureza. Agir é contemplação. Valem os princípios. DEUS: razão de Deus. Agir é contemplação. Valem os princípios. HOMEM: razão do homem. Natureza a dominar. Agir é fabricação. Prevalecem os resultados. Seres humanos Servos da natureza. Livres e escravos. Servos de Deus. Iguais entre si e irmãos da natu- reza. Senhores de si (eu sou), da natureza e de Deus. Livres e iguais pela razão. Verdade Adequação do sujeito ao objeto. Objetivismo. Adequação do sujeito ao objeto. Objetivismo. Construção (Kant) ou representação. Subjetivismo. Saber mais impor- tante Mito e Filosofia. Contemplação da natureza. Ócio. Teologia. Contemplação de Deus. Fé. Ciências e Tecnologia. Produção humana. Fruto do trabalho. Trabalho Atividade de escravos (negativo) Castigo devido ao pecado (negativo) Ação auto criadora do Homem - senhor de si e da natureza (positivo) 41 Períodos históricos/ Questões filosóficas IDADE ANTIGA (séc. V a.C. - IV d.C) IDADE MÉDIA (século V d.C - XVI) IDADE MODERNA (século XVI - XX) Política e ética Atividade natural. Só na pólis se realiza a ética. Cidade dos homens. Separação entre política e moral. Política = mal. Atividade artificial Política: mal necessário (e passageiro). Separação entre ética e política. História Fisiológica. Eterno retorno do mesmo. Teológica. Início e fim em/ com Deus. Antropológica. Início com homem. Progresso (processo). Quadro 5 - Esquema da História da Racionalidade Ocidental / Fonte: adaptado de Assmann (2014, p. 56) Ao longo desta unidade, buscou-se responder o porquê da presença dos funda- mentos históricos e filosóficos da educação na formação de professores. Agora já se pode explicitar a justificativa: o trabalho docente é histórico, filosófico, edu- cativo e pedagógico. Abordou-se os diferentes níveis/tipos de conhecimento. Vale relembrar: o conhecimento empírico (popular), o conhecimento científico, o conhecimento filosófico e o conhecimento religioso (teológico) têm similaridades e diferenças. Buscou-se trazer à tona o problema de que é possível analisar um mesmo objeto ou fenômeno sob diferentes questões, métodos e perspectivas. Diante do problema do conhecimento, definiu-se que a pedagogia é a ciência da educação. De certa forma, todo professor é um “especialista em pedagogia” em uma determinada área do saber. Mediante a união entre “história”, “filosofia” e “educação”, estamos a construir os fundamentos históricos e filosóficos da educa- ção. Ficou claro que o campo da filosofia que mais contribuições traz à educação é a epistemologia, pois lida diretamente com o problema do conhecimento. UNICESUMAR UNIDADE 1 42 Ao longo desta conversa, o nosso enfoque foi o estudo da periodização: primeiramente, a periodização da história; depois, vimos a periodização da filosofia. Por meio da cronologia, busca-se facilitar a compreensão de ciclos presentesao longo da história. Por fim, encerramos esta uni- dade com exposição de Platão como um marco na história da educação. Platão defende que todo o conhecimento está presente no próprio sujeito, mas para realizar plenamente o potencial que o su- jeito tem, é necessário o acesso à educação pública. 43 1. Excerto 1: As aulas de Filosofia devem conduzir aos novos significados a respeito de muitos dos problemas que os alunos vivenciam em seu cotidiano, ajudando-os a traçar novos caminhos, incentivando e propiciando o esforço do pensamento para transformar costumes, preconceitos, valores etc. Toda aula de Filosofia deveria provocar nos alunos a experiência do pensamento, o filosofar, conduzindo-os ao movimento do pensamento. Sócrates já havia asseverado sobre a característica prática do filosofar, no sentido de propiciar mudança de atitude. A verdadeira função social da filosofia é a crítica ao estabelecido, tendo como objetivo primordial impedir que os homens se entreguem às ideias e formas de conduta que a sociedade em sua organização vigente lhes impõe. A crítica e, em especial, a crítica radical (aquela que problematiza e questiona os critérios e os valores que são socialmente aceitos e colocados em prática) são totalmente imprescindíveis para a transformação da realidade das coi- sas. Nesse sentido, a tarefa crítica da filosofia além de apontar para transformações, possibilita o surgimento do novo. Disponível em: LOPES, S. A. O ensino de Filosofia por meio da experiência filosófica. Crí- tica Educativa, São Paulo, v. 2, n. 2, p. 295-310, jul./dez. 2016. Disponível em: https:// www.criticaeducativa.ufscar.br. Acesso em: 05 maio. 2022. O excerto 1 realiza uma abordagem da filosofia e da “experiência filosófica”, sobre o que foi apresentado, analise as sentenças, a seguir, e assinale a opção correta: I - A experiência filosófica está presente no dia a dia da profissão docente, porque problemas filosóficos fazem parte dos processos de ensino e de aprendizagem. II - A filosofia oferece condições teóricas para a superação da consciência ingênua e o desenvolvimento da consciência crítica. III - O conhecimento filosófico tem origem em reflexões que o ser humano faz a partir de questões que levanta no simples ato de pensar. Contudo, o pensamento filo- sófico exige um certo rigor, pois se trata muitas vezes de refletir sobre o próprio conceito, e não de tratar os conceitos como prontos e acabados. IV - Filosofia, do grego Φιλοσοφία, “filosofia”, é uma palavra que traduzindo para a língua portuguesa, significa “amor à sabedoria”. É correto o que se afirma em: 44 a) I, II, III e IV. b) I, II e III, apenas. c) I e II, apenas. d) I e IV, apenas. e) II e III, apenas. 2. A divisão da história em três períodos foi consagrada pelo pedagogo alemão Chris- toph Keller, chamado em latim de “Cellarius” (nascimento em 22 de novembro de 1638 e falecimento em 4 de junho de 1707). Depois dele, essa divisão se tornou padrão. Contudo, na época atual, incluiu-se um quarto período. Assim, hoje, divide-se a história em quatro períodos. Assinale a única alternativa que contempla a ordem correta de periodização da história. a) 1°) Era Medieval, 2°) Antiguidade, 3°) Época Contemporânea e 4°) Era Moderna. b) 1°) Idade Contemporânea, 2°) Idade Antiga, 3°) Idade Média e 4°) Idade Moderna. c) 1°) Idade Antiga, 2°) Idade Média, 3°) Idade Moderna e 4°) Idade Contemporânea. d) 1°) Idade Média, 2°) Idade Moderna, 3°) Idade Contemporânea e 4°) Idade Antiga. e) 1°) Idade Antiga, 2°) Época Contemporânea, 3°) Era Antiga e 4°) Época Moderna. 3. Leia o texto que tem como tema central a periodização da história da filosofia: A História da Filosofia, como toda divisão cronológica, é uma opção arbitrária de quem estabelece os pontos de ruptura para justificar as separações entre um período e ou- tro. É claro que esta ‘arbitrariedade’ está sustentada em algum princípio que permite aproximações entre temas, características e proposições dos autores. Neste caso, as periodizações da História da Filosofia devem ser buscadas nos critérios de quem as fez, mais do que nas relações dos próprios filósofos, que ao escreverem e muitas ve- zes dialogando com textos de antepassados não estavam preocupados em pertencer a um período específico. As caracterizações de um determinado período são úteis para uma sistematização didática, mas como toda caracterização, ao mesmo tempo em que dá identidade e especificidade ao período que está sendo caracterizado, também serve para simplificar e reduzir um determinado pensamento ao período em que ele surge. Falar de características do pensamento filosófico de uma época é uma forma de encobrimento das diversidades que existem, mas ao mesmo tem- po, a procura por estas características nos auxiliam na identificação da abordagem filosófica. Dialogando entre uma caracterização geral e as particularidades de cada 45 filósofo, a periodização que fazemos a seguir parte de algumas das principais obras de História da Filosofia e se aproxima das divisões clássicas da própria História [...] FREITAS NETO, J. A; KARNAL, L. O ensino de filosofia na escola pública do Estado de São Paulo. São Paulo: SEE, s/d, p. 24-27. Tradicionalmente, divide-se a história da filosofia em quatro períodos. Assinale a única alternativa que contempla a ordem correta de periodização da história da filosofia: a) 1°) Filosofia Medieval, 2°) Filosofia Antiga, 3°) Filosofia Contemporânea e 4°) Filo- sofia Moderna. b) 1°) Filosofia Contemporânea, 2°) Filosofia Antiga, 3°) Filosofia Medieval e 4°) Filo- sofia Moderna. c) 1°) Filosofia Antiga, 2°) Filosofia Medieval, 3°) Filosofia Moderna e 4°) Filosofia Contemporânea. d) 1°) Filosofia Moderna, 2°) Filosofia Medieval, 3°) Filosofia Contemporânea e 4°) Filosofia Antiga. e) 1°) Filosofia Antiga, 2°) Filosofia Contemporânea, 3°) Filosofia Antiga e 4°) Filosofia Moderna. 4. Observe o quadro que busca sistematizar os níveis/tipos de conhecimento: 1 2 3 4 Valorativo Real (factual) Valorativo Valorativo Reflexivo Contingente Racional Inspiracional Assistemático Sistemático Sistemático Sistemático Verificável Verificável Não verificável Não Verificável Falível Falível Infalível Infalível Inexato Aproximadamente exato Exato Exato Quadro 1 - Os tipos de conhecimento / Fonte: adaptado de Ferrari (1974). Observe que o quadro está incompleto (linha 1). Com base nas características dos diferentes tipos/níveis de conhecimento, complete-o na linha abaixo da palavra “co- nhecimento”. Assinale a única alternativa que apresenta as palavras que contemplam os diferentes níveis/tipos de conhecimento. 46 a) 1. conhecimento histórico; 2. conhecimento evidente; 3. conhecimento contem- plativo; 4. conhecimento espiritual. b) 1. conhecimento teológico; 2. conhecimento metafísico; 3. conhecimento artístico; 4. conhecimento histórico. c) 1. conhecimento epistemológico; 2. conhecimento metafísico; 3. conhecimento positivo; 4. conhecimento evidente. d) 1. conhecimento moderno; 2. conhecimento falso; 3. conhecimento verdadeiro; 4. conhecimento duvidoso. e) 1. conhecimento popular; 2. conhecimento empírico; 3. conhecimento filosófico; 4. conhecimento teológico. 5. Analise o texto a seguir: [...] Qual a relação entre Filosofia e Educação? Afinal, a Filosofia é necessária para a Educação? Por que o educador deve filosofar? Vamos responder começando com outras perguntas: É importante refletir sobre qual ser humano se quer formar? É importante refletir para que educar? É importante analisar os valores que devem orientar a prática educativa? [...] [a filosofia da educação é importante] porque a re- flexão filosófica não pode ser negligenciada pelo educador. E o que induz o educador a filosofar? Segundo Saviani (2000, p. 23): ‘O que leva o educador a filosofar são os problemas (entendido esse termo com o significado que lhe foi consignado) que ele encontra ao realizar a tarefa educativa. E como a educação visa o homem, é conve- niente começarpor uma reflexão sobre a realidade humana, procurando descobrir quais os aspectos que ele comporta, quais as suas exigências referindo-as sempre à situação existencial concreta do homem brasileiro, pois é aí (ou pelo menos a partir daí) que se desenvolverá o nosso trabalho’. (SAVIANI, D. Educação: do senso comum à consciência filosófica. 13. ed. Campinas: Autores Associados, 2000. p. 23). Assim, o exercício filosófico possibilita que as pessoas diante dos problemas respondam com reflexão e não com ideias prontas. E, diante dos problemas que a realidade educacional apresenta ao educador, este não deve abrir mão da reflexão filosófica. A partir da leitura do excerto de texto, REDIJA um texto dissertativo-argumentativo, de 10 a 15 linhas, sobre a Filosofia da Educação, contemplando os seguintes aspectos: a) A conceituação do termo “Filosofia da Educação”. b) A caracterização dos problemas abordados pela Filosofia da Educação. 2Introdução às Ciências Sociais e sua Relação com a Educação Me. Cassiano Lucas Silva Carvalho Me. Daiany Cris Silva Me. Milena Cristina Belançon a seguir, apresentam-se os temas que você estudará nesta unidade: • As Ciências Sociais como um campo de estudos que emerge de uma sociedade em transformação • Sociologia e Antropologia: produzindo um olhar orientado sobre a vida em sociedade • As ciências sociais e as diretrizes nacionais da Educação Básica. UNIDADE 2 50 Prezado(a) estudante, do mesmo modo que a Filosofia e a His- tória, a Sociologia e a Antropologia são áreas do saber que es- tão inclusas na grande área das humanidades, com a diferença de que seu objeto de estudo consiste em analisar o homem, especialmente, na vida em sociedade, bem como conceituar e distinguir as diferentes sociedades, suas relações, diversidade, entre tantos outros assuntos que buscaremos abordar ao longo desta unidade. A educação está presente em todas as sociedades e, por isso, é um objeto de análise muito importante para essas áreas há muito tempo. Eixos de tradição clássica e contempo- rânea buscam responder uma série de questões que ligam so- ciedade e educação, compreendendo que essas relações se auto alimentam, ou seja, a educação impacta nas práticas sociais, assim como as práticas sociais impactam a educação. Desse modo, é conveniente também pensar a educação na perspectiva sociológica e antropológica, nos faz refletir sobre processos de socialização contidos em sistemas simbólicos e culturais, ou seja, em dimensões das sociedades que organizam e “regularizam” os processos de reprodução da vida, a qual a educação está contida. Para iniciarmos este caminho cujo obje- tivo é nos aproximar das reflexões sociológicas e antropológicas da educação, traremos, nesta unidade, três grandes tópicos que nos farão compreender melhor os fundamentos dessas áreas e em que elas podem ajudar na prática escolar: as ciências so- ciais como um campo de estudos que emerge de uma sociedade em transformação; sociologia e antropologia, produzindo um olhar orientado sobre a vida em sociedade; e, as ciências sociais e as diretrizes nacionais da Educação Básica. Desse modo, apre- sentaremos a você um breve histórico do surgimento dessas ciências, introduzindo sua aplicabilidade e, também, indicando a relação destas com a educação. Nosso objetivo é que esta unidade possa aproximá-lo da Sociologia e da Antropologia, enxergando, nesse caminho, as possibilidades de moldar-se enquanto profissional da edu- cação. Bons estudos! 51 UNICESUMAR UNIDADE 2 52 As ciências sociais como um campo de estudos que emerge de uma sociedade em transformação Prezado(a) aluno(a), buscaremos compreender o surgimento da Sociologia, contex- tualizando-a como resultado de transformações sociais. Para tanto, apresentaremos a perspectiva do autor conhecido como fundador desta ciência, Auguste Comte (1798-1857) e sua preocupação em racionalizar as mudanças ocorridas neste cená- rio. Desde já, gostaríamos de pontuar que as Ciências Sociais se subdividem em três grandes áreas: a sociologia, a antropologia e a ciência política. Porém este grande campo surge com o nome de Sociologia e, posteriormente, é subdivido entre as áreas específicas, em todos eles o conhecimento gerado é sobre a sociedade, porém cada área parte de um viés particular. Desse modo, esta seção trata da sociologia, todavia entendendo que a antropologia também está contida neste histórico. Tente você, aluno(a), imaginar-se nesse contexto enquanto um artesão independente que vê a chegada das máquinas e todas as mudanças que esse fato acarreta. PENSANDO JUNTOS 53 O século XVIII marcou o mundo por contar com duas grandes Revoluções, a Industrial (1780-1860) e a Francesa (1789-1799). Estas marcaram, definitivamen- te, a instalação da sociedade capitalista e os acontecimentos que tornaram possível o que entendemos por criação da sociologia. A revolução industrial, iniciada na Inglaterra, modificou os métodos produtivos que, até então, eram, em grande par- te, manuais, introduzindo a máquina a vapor e seus sucessivos aperfeiçoamentos. Dessa forma, progressivamente, poucas pessoas foram acumulando os novos meios de produção, as máquinas e convertendo muitas pessoas em seus empregados. Portanto, esse momento concatena a consolidação da sociedade capitalista, e disto decorre uma série de mudanças nos costumes e nas instituições até então existentes, sendo necessárias novas formas de organização da vida social. Os artesãos tiveram que se adaptar, pois o seu produto não era mais competitivo tanto pelo trabalho manual despendido quanto pelo tempo usado na produção. Dessa forma, todo o país se modificou, reunindo a população, até então pre- dominantemente rural, em grandes cidades no entorno das indústrias. Nessa realidade, muitos tiveram suas formas habituais de vida, radicalmente alteradas tanto pela necessidade de se mudar para a cidade quanto pelas rígidas regras de trabalho impostas, inclusive, às crianças. Com isso, podemos imaginar o quanto essas cidades cresceram, demograficamente, e muito rápido. Este crescimento não foi acompanhado por uma estrutura adequada de moradia e saúde, o que tor- nou o cenário propício para que as cidades industriais passassem a abrigar altos índices de suicídio, alcoolismo, criminalidade, violência, surtos de epidemia etc. Nos anos seguintes, registraram-se os efeitos desta realidade em manifestações de revolta dos trabalhadores, como a destruição de máquinas, atos de sabotagem e a organização destes operários em associações que enfrentavam os proprietários dos instrumentos de trabalho em busca de melhores condições de vida. Em toda essa efervescência de mudanças e rearranjos, a sociedade passou a ser um problema que precisava ser investigado e analisado. E estas digressões começa- ram a ser feitas por pessoas que desejavam modificar essa realidade caótica. Estas pessoas já estavam fazendo sociologia, ainda que este termo não fosse empregado. Outra circunstância que engrossou o caldo para o surgimento da sociologia foi a mudança que ocorria nas formas de pensamento. Com as mudanças econômicas ocorridas, desde o século XVI, a visão sobrenatural para explicar os fenômenos foi dando lugar ao uso da racionalidade. O desenvolvimento de métodos de observa- ção da natureza fez com que os seres humanos pudessem, cada vez mais, dominá-la UNICESUMAR UNIDADE 2 54 e controlá-la. Desse modo, o pensamento filosófico e científico pôde se aprimorar e abrir espaço para o uso da razão, em oposição ao controle teológico. Nessa perspectiva, no século XVIII, destacam-se os pensadores franceses, chamados iluministas. Estes se ocuparam em atacar os fundamentos da socie- dade feudal em busca de uma transformação da sociedade. Em suas análises, os iluministas indicavam que as instituições existentes iam contra a natureza de liberdade e igualdade presente nas pessoas, e, por isso, reivindicavam a liberação do indivíduo de todos os laços sociais tradicionais. Munidadesta perspectiva é que a burguesia toma o poder, na França, em 1798, o que ficou conhecido como Revolução Francesa. A partir daí, desenrola-se uma grande mudança de regime, que impactou, também, o modo de organização da sociedade francesa. Toda essa mudança foi objeto de estudos de muitos pensadores, que questionaram cada vez mais a ordem e a racionalização. Dessa forma, a sociologia surge com interesses práticos, de propor soluções para os problemas da industrialização e suas conse- quências, para analisar e discutir sobre a “ordem social”. Uma série de pensadores cedeu ao mundo suas digressões usadas na formação do saber sociológico, desse modo, não há um criador a quem se endereça a criação dessa ciência, mas, sim, um conjunto destes. Dentre estes, destacamos o filósofo Auguste Comte. 55 Descrição da Imagem: a figura apresenta uma pintura de Auguste Comte, emoldurada em um retângulo dourado com detalhes florais, com a pintura em formato oval no centro. Nesta, está um homem de cor clara, na faixa etária de 50 anos, com cabelos castanhos e curtos, com testa larga pela calvície, rugas e olhos castanhos. Ele está retratado da cintura para cima, de pé, voltado para frente, olhando levemente para a esquerda e expressão séria. Seu braço direito está apoiado em uma mobília alta de madeira, não definida, com a mão aberta, enquanto o braço esquerdo está junto ao corpo, com a mão à barriga, levemente fechada. Ele está vestindo um terno, camisa e gravata preta, que cobre seu corpo, com exceção das mãos e da cabeça. Figura 1 - Auguste Comte / Fonte: Wikimedia Commons (2008, on-line). UNICESUMAR UNIDADE 2 56 Auguste Comte foi um filósofo francês que viveu entre 1798 e 1857. O autor desenvolveu a teoria positivista, que considera a ideia de que o conheci- mento verdadeiro é dado por meio da experimen- tação e do aferimento científico. Dessa forma, o que o autor chamava de física social (que agora chama- mos de sociologia) deveria orientar-se em direção ao conhecimento das leis imutáveis da vida social. Segundo as palavras de Comte, na obra Conceitos Gerais e Surgimento da Sociologia: “ Entendo por física social a ciência que tem por objeto próprio o estu-do dos fenômenos sociais, segundo o mesmo espírito com que são con- siderados os fenômenos astronômi- cos, físicos, químicos e fisiológicos, isto é, submetidos a leis invariáveis, cuja descoberta é o objetivo de suas pesquisas. Assim, ela se propõe dire- tamente a explicar, com a maior pre- cisão possível, o grande fenômeno do desenvolvimento da espécie humana, visto em todas as suas partes essen- ciais (COMTE, 1972, p. 86). Desse modo, podemos compreender os motivos de Comte chamar essa nova ciência de “física social”, já que ele expressava o desejo de construí-la aos mol- des das ciências naturais. Por sugerir este método e molde é que a criação da sociologia é, muitas vezes, atribuída ao positivismo de Comte, pois foi assim que esta ciência começou a se oficializar. O positivismo é uma corrente teórica que de- fendia a disciplina e a ordem como fatores essenciais para o progresso social. Nesse sentido, a função do 57 pensamento social deveria ser a de orientar a in- dústria e a produção, acreditando que o progresso econômico acabaria com os conflitos sociais e traria segurança para as pessoas. Dessa maneira, a ciência, para os autores dessa corrente, poderia desempenhar a mesma função que a religião desempenhava no pe- ríodo feudal quanto à conservação social. Com isso, compreendemos que a sociologia surgiu num momento de grande expansão do capi- talismo e efervescência de conflitos e lutas em que se envolviam as classes sociais. Nesse cenário, um conjunto de pensadores faziam duras críticas à mo- dernidade, urbanização, industrialização, ficando co- nhecidos como “Profetas do passado”, pelo apego que mantinham com as instituições feudais, religiosas e aristocráticas. Esses profetas estavam preocupados com a coesão social, a ordem e os valores morais da tradição. Essas ideias influenciaram, também, a for- ma de pensar dos pioneiros da sociologia, que esta- vam preocupados com a preservação da nova ordem econômica e política. Comte analisava que as ideias religiosas haviam perdido sua força na condução das pessoas e, por isso, não era mais suficiente para organizar a nova sociedade. Porém o autor também discordava dos iluministas, pois acreditava que a propagação dessas ideias pela sociedade só traria mais desunião. Segun- do Comte (1972), era necessário restabelecer a ordem nas ideias e nos conhecimentos, a partir de uma nova maneira de conhecer a realidade. Para tanto, o autor partia da ciência e de seus avanços em diversas áreas e, principalmente, da visão positiva da realidade, re- forçando a necessidade de se analisar a sociedade usando os mesmos métodos das demais ciências. Dessa forma, a sociologia deveria dedicar-se à busca UNICESUMAR UNIDADE 2 58 dos acontecimentos constantes e repetitivos da natureza. A escolha de Comte pela palavra “positiva” para qualificar sua filosofia tinha a intenção de diferenciar da filosofia do século dezoito, que era negativa, ou seja, contestava as instituições sociais que ameaçavam a liberdade das pessoas. Desse modo, sua filosofia positiva não possuía caráter destrutivo, apenas de organizador da realidade. Auguste Comte formulou a lei dos três estados, que, segundo ele, rege o modo de pensar da humanidade. Segundo essa lei, as concepções da história humana passam por três fases: teológica, metafísica e positiva. O estado teo- lógico seria aquele em que as respostas para os fenômenos sociais e naturais são buscadas no sobrenatural, na ação divina, ou seja, sem uso da racionalidade. O estado metafísico seria um estágio de transição entre o estado teológico e o positi- vo, em que o sobrenatural é substituído por forças abstratas personificadas. Desse modo, a razão começa a se preparar para o exercício científico, mas ainda não está solidificada. Portanto, o estado positivo é o estado científico cujos fenômenos não são mais explicados de forma sobrenatural, mas sim, pela observação e atestação via método. Sendo assim, este seria o último estágio da evolução mental da ra- zão humana. Dessa forma, Comte fundava-se na “ordem” e no “progresso” como agentes de atuação mútua na nova sociedade. Enquanto para ele, os iluministas se preocupavam só com a ordem, os revolucionários somente com o progresso, insistia na necessidade de uma ação mútua desses dois fatores. Notou alguma familiaridade nestes conceitos? Isso mesmo, é do positivismo de Auguste Comte que veio a escrita “Ordem e Progresso”, na bandeira do Brasil. Os ideais positivistas de “evolução organizada” impulsionaram a mudança de regime ocorrida com a Proclama- ção da República e acabaram por ser homenageados na nova bandeira nacional, que é a que conhecemos hoje. Fonte: os Autores. EXPLORANDO IDEIAS 59 Nesse sentido, podemos concluir que o positivismo foi um movimento intelectual e político que influenciou, fortemente, governos e, também, sistemas educacionais, a exemplo da Reforma Educativa Brasileira, de 1891. A Reforma Educativa de 1891 foi impulsionada por Benjamin Constant (1833 – 1891), chefe do Ministério da Instrução Pública, Correios e Telégrafos – órgão que se ocupava com assuntos educacionais em nível nacional, na época, inspirado em Comte, promoveu uma série de mudanças na tradição do currículo jesuítico. Constant propôs substituir o ensino acadêmico por um conjunto mais amplo de matérias, que incluíam disci- plinas científicas, como proposto pelo positivismo. A partir de então, uma série de pensadores se dedicaram cada vez mais a compreender a sociedade e tecer cons- tatações sobre esta, tendo em vista que com o desenvolvimento da sociedade e do pensamento surgia, também, a necessidade de novas explicações e formulações. Como apresentamos até aqui, a Sociologia é resultado das transformações sociais que vivemos entre os séculos XVIIIe XIX. A modernização e a indus- trialização da nossa sociedade trouxeram muitas mudanças para a convivência social, suscitando questões relacionadas às desigualdades sociais, que se tornaram determinantes para influenciar a maneira com que as pessoas se relacionam, coletivamente. Em outras palavras, as relações sociais mudaram e, como conse- quência disso, a organização política e a forma com que construímos significados sobre a vida em sociedade também se modificaram. Para compreender estas mudanças, as ciências naturais e exatas não seriam suficientes, portanto, sentiu- -se a necessidade de criar uma ciência que pensa a coletividade e sua forma de organização, uma Ciência Social. UNICESUMAR UNIDADE 2 60 Dizer que é preciso se tornar cônscio, lúcido das nossas próprias possibilidades de vida e de quem nos cerca é a maneira encontrada pelo Sociólogo Wright Mills (1975) para nos provocar a olhar o mundo a nossa volta e compreendê-lo para além do que já nos acostumamos como preestabelecido, desenvolvendo nossas próprias percepções e, o mais importante, localizando-se dentro de uma sociedade que possui a ordem e a estrutura que precisam ser reveladas a quem vive sob suas influências. O indivíduo só pode compreender sua própria experiência e avaliar o seu próprio destino localizando-se dentro de seu período; só pode conhecer suas possibilidades na vida tornan- do-se cônscio das possibilidades de todas as pessoas, nas mesmas circunstâncias que ele. Sob muitos aspectos, é uma missão terrível, sob muitos outros, magnífica. (Wright Mills). PENSANDO JUNTOS Sociologia e antropologia: produzindo um olhar orientado sobre a vida em sociedade 61 Considerando o papel social da Sociologia de construir concepções sobre a for- ma como funcionamos e nos organizamos, coletivamente, Wright Mills (1975) nos diria que nos tornar conscientes da sociedade em que vivemos é o passo inicial para que nós e todos que estão à nossa volta compreendamos melhor a própria experiência neste mundo. Por esse motivo é que toda essa contextuali- zação histórica do surgimento da Sociologia como conhecimento científico é essencial, pois, a partir desse movimento, entendemos como as Ciências Sociais se relacionam com a realidade cotidiana. É preciso ter em mente, portanto, assim como discutimos na seção anterior, que a modernidade modificou a maneira como nos relacionamos no nosso dia a dia, deixamos de ser donos do nosso próprio trabalho e passamos a vendê-lo para os donos das fábricas, trocamos os comandados de reis e rainhas, a monar- quia, por uma organização política em que a maior parcela da população possui direito de escolha e influência. O que conhecemos hoje como estado democráti- UNICESUMAR UNIDADE 2 62 co, diminui-se a importância dos conhecimentos de senso comum, aqueles que aprendemos com a experiência, ou que ouvimos de familiares e vizinhos, lendas e crendices populares, em favor da ciência, que tomou um lugar de destaque e de razão absoluta. Todas essas mudanças proporcionaram nova maneira de pensar e agir, coletivamente, pois a vida em sociedade já havia se transformado. O desemprego, a fome, os problemas da vida urbana, como a falta de habita- ção para todos(as), são novas questões, a própria urbanização e o surgimento das cidades tornam-se novidade. E a pergunta que insistia em rodear os pensamentos de quem vivia esse momento de grandes transformações sociais era: Como po- demos explicar todos esses acontecimentos? As Ciências Sociais seriam, então, uma possível resposta ou, pelo menos, um campo científico que poderia indicar bons caminhos para se lidar com todas essas situações. Cabe evidenciar que há maior destaque para a Sociologia, pois, como apre- sentamos no tópico anterior, foi esta disciplina que inaugurou os estudos sobre as questões sociais, tendo como seu pioneiro Auguste Comte e sua ciência positivista. Mas como é possível perceber na nossa vivência cotidiana, muitos temas estão pre- sentes na estrutura de uma sociedade, e entre esses temas estão a cultura e a política, dimensões que são tratadas, respectivamente, pela Antropologia e a Ciência Política, campos científicos que desenvolveram teorias e técnicas específicas para tratar destas temáticas. Para que você, caro(a) aluno(a), compreenda melhor estas subdi- visões das Ciências Sociais, trataremos, brevemente, sobre cada uma de suas áreas. “A Sociologia é o estudo da vida e do comportamento social, sobretudo em relação a sistemas sociais, como eles funcionam, como mudam, as consequências que produzem e sua relação complexa com a vida” (JOHNSON, 1997, p. 217). A Sociologia é uma ciência que analisa nossas relações interpessoais: família, rela- cionamentos, grupos sociais e nossas relações com a vida pública: escola, trabalho, religião, estado, justiça, entre outros meios sociais com que convivemos diariamente. Já a Antropologia, definida, essencialmente, como o estudo da humanidade, concentrou-se, inicialmente, em investigar sociedades primitivas, com organiza- ção simples, restritas a ilhas e localizações distantes, que tiveram pouco contato com sociedades ocidentais, e que por serem “qualificadas como ‘simples’, em con- sequência, elas irão permitir a compreensão, como numa situação de laboratório, da organização ‘complexa’ de nossas próprias sociedades” (LAPLANTINE, 2003, p. 8). Desse modo, o estudo antropológico se concentra no entendimento da racionalidade humana em sua coletividade, como a humanidade produz signi- 63 ficados e simbolismos, ou seja, o que é cultura e como ela se constrói. O olhar antropológico mostra-nos que, ao conhecermos o outro, sociedades distintas da nossa, conhecemos a nossa própria realidade. Quanto à Ciência Política, podemos compreendê-la, mais amplamente, como o conjunto de “estudos sobre os fenômenos e as estruturas políticas, conduzido sis- tematicamente e com rigor, apoiado num amplo e cuidadoso exame dos fatos ex- postos com argumentos racionais” (BOBBIO; MATTEUCCI; PASQUINO, 1998, p. 164). O que isso significa? Estudar os fenômenos e estruturas políticas é verificar tendências de comportamento político, determinados grupos tendem a se identificar com quais posições políticas? Realizar uma leitura orientada sobre dados eleitorais, fazer pesquisas de intenção de votos, mapear as ações do estado, ou avaliar políticas públicas. Este é o âmbito das Ciências Sociais que investiga nossas ações com relação às instâncias de poder, às estruturas políticas do estado e suas instituições. Com essa breve explicação sobre as três áreas das Ciências Sociais, é possível diagnosticar que não há uma divisão bem clara entre uma área e outra, todos os temas se entrelaçam. Isso é muito construtivo para a consolidação das Ciências Sociais como campo de estudos, pois possibilita a produção de um conhecimen- to científico comprometido com a realidade social que, por sua vez, é diversa e dinâmica e, por isso, não pode ser lida por meio de uma única perspectiva. Como o próprio nome dessa disciplina nos diz, nesta seção, daremos mais ênfase à Sociologia e à Antropologia por entender que estes campos científicos proporcionam instrumentos de leitura da realidade social muito profícuos a pro- fissionais da educação, que são pessoas que estão em contato diário com questões emergentes da nossa organização social, além de considerar a grande influência que essas duas disciplinas possuem sobre a construção de teorias educacionais, tema que trataremos com mais profundidade posteriormente. Então, quer dizer que a Ciência Política é um campo de estudos dispensável para se pensar a educação? De maneira alguma, lembra de quando dissemos que todas as áreas de estudo das Ciências Sociais estão, de certa maneira, interligadas? Pois é, embora a Ciência Política não seja o nosso foco principal, ela fará parte de nossas discussões, dado que não há como discutir educação sem tocar em questões políticas, as próprias diretrizes curriculares, as legislações eo sistema educacional que fazem parte das estruturas políticas. No entanto, esta dimensão macroestrutural não é o principal ponto nesta disciplina, o que nos interessa, UNICESUMAR UNIDADE 2 64 no momento, é discutir como utilizar as Ciências Sociais como ferramenta para atuação prática na política educacional. A produção de conhecimento sociológico e antropológico, especificamente, fornece suporte teórico e metodológico à implementação de políticas educacio- nais à prática docente e à organização pedagógica, e é esse contexto que buscamos abordar nesta unidade. Sob esta perspectiva, você, caro(a) leitor(a), poderia nos questionar: Como, afinal, a Sociologia e a Antropologia contribuem para a produ- ção deste olhar orientado sobre a vida em sociedade? Ou melhor, o que significa esse olhar orientado? Bom, a nossa proposta, aqui, é demonstrar como é possível fazer do conhecimento sociológico e antropológico uma ação e fornecer conhe- cimento básico sobre este campo de estudos, uma das formas de proporcionar meios para que você possa realizar interpretações conscientes sobre a realidade em que vive. São estas interpretações conscientes sobre a realidade que chamamos de olhar orientado pela Sociologia e a Antropologia, que se caracteriza por uma análise atenta ao contexto social em que estamos inseridos. Assim como afirma Florestan Fernandes (FERNANDES apud FORACHI; MARTINS, 2008), o modo de agir, a capacidade de decisão e o julgamento depen- dem do grau de consciência dos indivíduos sobre as ações dos outros ou os efeitos das possíveis alterações da estrutura e do funcionamento das instituições. Desse modo, compreender as relações estabelecidas em seu entorno e possuir o enten- dimento sobre como as instituições sociais e as estruturas políticas desenvolvem interferências sobre a nossa vida cotidiana são conhecimentos que proporcionam mais capacidade de ação efetiva na sociedade e fazem com que um profissional da educação, por exemplo, se depare com problemas sociais e possa interpretá-los de maneira consciente e, por meio de sua análise, tomar decisões fundamentadas. Nosso objetivo é, portanto, nos distanciar do senso comum, dessas leituras preestabelecidas que temos sobre o mundo em que vivemos e que estão a salvo de questionamento, pois temos a plena certeza de que estão corretas por experiência. O senso comum pode ser traduzido em frases, como: “sempre pensei dessa forma” ou “eu sempre fiz assim porque é o certo a se fazer”, porém, frases como essas são acom- panhadas de ações pouco avaliadas em que o contexto social é desconsiderado. Com toda certeza, nossa experiência pode e deve orientar nossas ações, afi- nal, é no convívio cotidiano que aprendemos muito sobre como nos relacionar, socialmente. No entanto há questões em que a experiência não pode dizer por si mesma a maneira de agir mais conveniente, pois não vivemos em todos os 65 meios sociais existentes e, muito menos, passamos por todas as situações que viver nessa sociedade pode nos proporcionar, o que significa que não podemos ter conhecimento sobre tudo apenas por experiência prévia. Citamos como exemplo a seguinte situação: uma professora possui anos de experiência no ensino privado cuja ênfase do trabalho está no preparo para ves- tibulares e avaliações seletivas. Essa professora é aprovada em um concurso da rede pública e planeja replicar seu método de ensino no novo local de trabalho. Ao assumir suas turmas em um bairro periférico, percebe que há uma série de defasagens no processo de aprendizagem e entende que isso é resultado da falta de esforço dos alunos(as). Então, a professora decide que é preciso ser mais rígida e cobrar mais empenho dos(as) alunos(as), e o resultado não foi satisfatório. Depois de um tempo maior convivendo com as turmas, após trocar experiências com outros(as) professores(as) de sua área, receber orientações da equipe pedagógica e ao conhecer, realmente, a realidade do colégio em que trabalhava, a professora compreendeu, aos poucos, que a dificuldade de aprendizado dos alunos era con- sequência de fatores externos ao empenho de cada um. Assim, decide rever a sua metodologia de ensino para se adequar à linguagem cotidiana dos(as) discentes, e a nova metodologia surtiu melhor efeito. Percebe que a professora precisou realizar uma análise mais aprofundada sobre a realidade de seu público-alvo? Se esse momento de análise de contexto fosse ignorado, e a professora insistisse em replicar o método de ensino que uti- lizava na rede privada na rede pública, a grande possibilidade é que o processo de ensino e aprendizagem fosse um fracasso, durante todo o ano letivo. Realizar análises sociais é um exercício que aprendemos com os estudos das Ciências Sociais, e utilizar este conhecimento como meio de lidar com situações como a citada anteriormente é extremamente importante para a atuação no meio educacional. Segundo Florestan Fernandes, esse exercício é um elemento típico dos estudos sobre a sociedade: “ Visto que as Ciências Sociais exigem de nós, como requisito es-sencial, um estado de espírito que permite entender a vida em so-ciedade como estando submetida a uma ordem, produzida pelo próprio concurso das condições, fatores e produtos da vida social (FERNANDES apud FORACHI; MARTINS, 2008, p. 10-11). UNICESUMAR UNIDADE 2 66 Dessa forma, entende-se que compreender qual é a ordem estabelecida e como ela funciona é essencial para que possamos agir de maneira acertada com relação às questões que podem surgir durante a nossa atuação profissional. O destaque nesta perspectiva do sociólogo Florestan Fernandes (2008) dá-se na capacidade das Ciências Sociais de construir concepções de mundo e maneiras de interpretar a realidade. Considerando esta possibilidade que essa ciência nos traz, cabe a nós exercitar o desprendimento das nossas concepções de mundo Toma-se Auguste Comte como referência. Suas indagações correspondiam a questões que não poderiam ser formuladas e respondidas no âmbito do conhecimento do senso comum ou da filosofia pré-científica: O que é ordem social? Como ela se constitui? Como ela se mantém? Como ela se transforma? Em outras palavras, com o aparecimento da Sociologia não só se amplia o sistema das ciências, como se descobrem meios intelectuais plenamente adequados às necessidades de desenvolvimento criador ou construtivo dos modos secularizados de perceber e de explicar o mundo. (Florestan Fernandes) PENSANDO JUNTOS 67 que já estão cristalizadas e preestabelecidas, as de senso comum e construir novas formas de compreender a vida em sociedade. Para que esse exercício seja possível, será preciso relembrar Wright Mills (1975). O sociólogo aponta que o processo de conscientização só é possível quando nos disponibilizamos a avaliar a própria experiência. Parece con- traditório dizer isso neste momento, pois não deveríamos deixar de lado o senso comum e o conhecimento adquirido por experiência? Em parte, sim, principal- mente quanto a pré-noções, aquelas que não são questionadas cotidianamente, e são apenas reproduções inconscientes. Porém a experiência diz respeito, também, a como nos relacionamos com o mundo em que vivemos. Retomemos o caso da professora, por experiência, ela tinha plena certeza de que o método de ensino que foi, comprovadamente, funcional na rede privada, era efetivo, mas, ao tentar replicar os mesmos métodos na rede pública, percebeu que o resultado não foi o mesmo. A experiência de anos de ensino na rede priva- da diria que seu método é correto, portanto, o problema estava na participação dos(as) estudantes que não se empenharam o suficiente nos estudos. Contudo a sua pré-concepção de que um bom método de ensino poderia ser aplicado com igual resultado em qualquer realidade a impediu de ter bons resultados. Para re- verter esta situação, foi necessário realizar uma avaliação detida sobre a situação. Tendo em vista ocasiões como a dessa professora, é possível perceber que avaliara própria experiência no sentido que provoca Wright Mills (1975) é ponderar decisões e agir de maneira consciente. Para aquela professora avaliar a própria experiência, seria preciso admitir que lecionar para jovens de grupos privilegiados é ensinar pessoas que possuem mais intimidade com o conheci- mento formal, pois possuem mais acesso à informação e a materiais de ensino de mais qualidade, se comparadas a jovens da rede pública que, junto ao seu histórico escolar, possuem uma série de questões sociais com que precisam lidar, muitas delas intensificadas pela sua condição de classe social e pelas desigual- dades sociais que vivenciam, diariamente. Para Mills (1975), este movimento de avaliar a própria experiência, ponderar decisões e agir de maneira consciente, considerando os contextos sociais, chama-se imaginação sociológica, termo criado pelo autor para conceituar o exercício de questionamento sobre a realidade social. Segundo o sociólogo, para exercitar a imaginação sociológica, é necessário realizar um conjunto de três séries de questões: UNICESUMAR UNIDADE 2 68 “ 1) Qual a estrutura dessa sociedade como um todo? Quais seus componentes essenciais, e como se correlacionam? Como difere de outras variedades de ordem social? Dentro dela, qual o sentido de qualquer característica particular para a sua continuação e para a sua transformação? 2) Qual a posição dessa sociedade na história humana? Qual a mecânica que a faz modificar-se? Qual é seu lugar no desenvolvimento da humanidade como um todo, e que senti- do tem para esse desenvolvimento? Como qualquer característica particular que examinemos afeta o período histórico em que existe, e como é por ele afetada? Como difere de outros períodos? Quais seus processos característicos de fazer a história? 3) Que variedades de homens predominam nessa sociedade e nesse período? E que variedades irão predominar? De que formas são selecionadas, formadas, liberadas e reprimidas, tornadas sensíveis ou impermeáveis? Que tipos de “natureza humana” se revelam na conduta e caráter que observamos nessa sociedade, nesse período? E qual é o sentido que para a “natureza humana” tem cada uma das características da sociedade que examinamos? (MILLS, 1975, p. 13). Ufa! Quantas questões não é mesmo? Mas calma, o intuito não é responder com- pletamente todas essas questões, o que desejamos é provocar reflexão. Após a lei- tura de todos esses questionamentos, você se sentiu incentivado a pensar melhor sobre o mundo em que vive? Ou, até mesmo, buscou responder algumas dessas questões? E aquelas perguntas com que você se sentiu inábil para respondê-las, provocaram curiosidade sobre suas possíveis respostas? É esse exercício de ins- tigar curiosidades sobre o mundo a nossa volta que buscamos realizar, e é por isso que destacamos, na íntegra, esse conjunto de questões propostas por Mills (1975), para que compreendam o movimento de questionamento à realidade que Cientistas Sociais utilizam para investigar a vida em sociedade. A imaginação sociológica, no entanto, não é uma exclusividade de pesqui- sadores, ela é possível para todas as pessoas que se dispõem a desenvolver a razão a fim de perceber, com lucidez, o que está ocorrendo no mundo e o que pode estar acontecendo dentro de si mesmo (MILLS, 1975). Isso significa que imaginar, sociologicamente, é interpretar os acontecimentos sociais e ter o discernimento 69 sobre como eles influenciam suas próprias decisões, e essa capacidade de interpretação é possível para todas as pessoas. Se restringirmos as nossas respostas a cada uma daquela série de questões a um tema central, o sistema capitalista e suas relações econômicas, perceberemos que cada questão e sua respectiva resposta re- velam instâncias da vida em sociedade que podemos sentir em nossa vida cotidiana. Sintetizando de uma maneira muito sim- plória as possíveis respostas a todo este conjunto de questões propostas por Mills (1975), podemos dizer que vivemos em uma sociedade que passou por um proces- so de industrialização, o que transformou a maneira de produzir e constituiu o sis- tema capitalista. As consequências disso em nosso dia a dia podem ser vistas em nossas relações de trabalho, no acesso de- sigual a direitos básicos. A simplificação é sintomática nos exercícios que realizamos nas ciências sociais pois, nossos modelos sempre serão simplificações grosseiras da realidade (FONSECA, 1999) pela simples impossibilidade de descrever em sua tota- lidade a realidade social. É notável, quando analisamos o público em geral da educação pública, por exemplo, que possui pouco poder econômico, o que é determinante para muitos comportamen- tos, principalmente, no processo de ensi- no-aprendizagem. No caso da professora que citamos anteriormente, muitos diriam que aluno é aluno, não importa de onde é UNICESUMAR UNIDADE 2 70 e como é, mas a prática pedagógica demonstra que a realidade possui uma lógica diferente. Isso nos mos- tra que não é possível planejar uma atuação profis- sional efetiva se não analisarmos todas as condições de vida de nossos(as) estudantes. Embora todas aquelas três questões sejam reve- ladoras, em muitos sentidos, uma dimensão especí- fica foi deixada de lado, propositalmente. Como a nossa organização social difere de outras variedades de ordem social? Essa pergunta está na primeira sé- rie de questões proposta por Wright Mills (1975) e revela uma preocupação do autor, que é recorrente a muitos outros autores(as) das Ciências Sociais: quais são as nossas aproximações e nossos distan- ciamentos com relação a outras sociedades? O que o conhecimento sobre outras estruturas sociais pode revelar sobre a nossa própria organização? A inten- ção de tratar dessa dimensão de maneira mais apro- fundada, separadamente, diz respeito a qual campo de estudos esses questionamentos refletem mais for- ça, a Antropologia, outra área das Ciências Sociais que nos ajudará a orientar o nosso olhar sobre a realidade em que vivemos. Vamos pensar a educação como um processo de comunicação, que, geralmente, se constitui, também, como um processo de orientação. Para se comunicar, é necessário ter domínio da língua do outro, saber ex- pressões, se fazer compreensível. Então, imagine você, como podemos desenvolver esses conhecimentos de linguagem? Concordamos que conhecer o terreno onde estamos nos comunicando é essencial, certo? Logo, conhecer com quem buscamos conversar é, igualmente, importante. É nesse sentido que a antro- pologia nos ajuda na atuação educativa: “o sucesso do 71 contato educativo depende do diálogo estabelecido entre o agente e seu interlocutor, e é nessa área de comunicação que o método etnográfico atua” (FON- SECA, 1998, p. 59). Etnográfico? O que é isso? Calma. O método etnográfico, mais conhecido como etnografia, “é uma explicação descritiva da vida social e da cultura de um dado sistema social, baseado na observação detalhada do que as pessoas de fato fa- zem” (JOHNSON, 1997, p. 101). Essa é uma metodo- logia criada por antropólogos para investigar socie- dades não ocidentais. Com a riqueza de detalhes que esta técnica proporciona, é possível realizar análises aprofundadas sobre a organização e o funcionamen- to das mais variadas sociedades. Ressaltamos, veementemente, que esta tradição da antropologia de estudar sociedades não ocidentais foi inicial. É importante destacar que essa caracterís- tica de formação da disciplina construiu um modo de conhecimento característico, apoiado na rique- za de detalhes e na construção de percepções sobre o outro. No entanto, de acordo com o que afirma Laplantine (2003, p. 12), “se o campo de investigação da antropologia consistisse, apenas, no estudo das sociedades preservadas do contato com o Ocidente, ela se encontraria hoje sem objeto”. Ao se reinventar e expandir seu campo de pes- quisa às configurações de nossa própria sociedade, a antropologia contribuiu para que as Ciências Sociais desenvolvessemuma postura de investigação media- da pela observação direta e interação lenta e contínua com pequenos grupos humanos. Este posicionamen- to metodológico, representado pelo olhar etnográfi- co, “além de ser um instrumento importante para a compreensão intelectual de nosso mundo, também UNICESUMAR UNIDADE 2 72 pode ter uma utilidade prática” (FONSECA, 1998, p. 59) por proporcionar o entendimento da diversidade de vivências humanas. Em contexto escolar, conhecer o método de pesquisa da antropologia, a et- nografia, possibilita a compreensão das diferenças entre os comunicadores no processo de ensino-aprendizagem, professor(a) e aluno(a). Para isso, é preciso realizar um movimento crucial: tornar familiar o que é estranho e tornar estranho o que nos é familiar (FONSECA, 1998). Isso é o que chamamos na antropologia de estranhamento, esta postura motiva-nos a conhecer histórias, maneiras de agir e pensar, que são novas para nós, as quais não temos explicações prévias, ou problematizar situações que parecem possuir soluções evidentes, mas que, com uma análise detida, se mostram de difícil resolução. Por um lado, deve haver um movimento de aproximação a ser realizado de maneira cautelosa e atenta, para que todos os novos elementos sejam mapeados e conhecidos. De outro lado, quando se trata do que nos é familiar, o movimento deve ser inverso, um desprendimento de conhecimentos prévios e a busca por maneiras imprevistas de se olhar e compreender uma situação. A atitude de estranhamento mostra-nos que nada é inato, todas as ações e comportamentos são escolhas culturais, além disso, permite-nos descobrir que: aquilo que tomávamos por natural em nós mesmos é, de fato, cultural; aquilo que era evidente é infinitamente problemático (LAPLANTINE, 2003). Esse termo é muito utilizado na antropologia, e ele só é possível em razão do contexto de surgimento da disciplina. Contudo o estranhamento é uma das etapas do mé- todo etnográfico, que, segundo a antropóloga Cláudia Fonseca (2003), pode se desdobrar em cinco: “1) Estranhamento; 2) Esquematização; 3) Desconstrução; 4) Comparação e 5) Sistematização do material em modelos alternativos” (FON- SECA, 1998, p. 66). Abordaremos cada uma dessas fases buscando exemplificar com uma situação do dia a dia da escola. Imagine que você é coordenador(a) pedagógico(a) de uma escola e recebe recla- mações de professores das mais diversas áreas sobre o comportamento de um aluno. As reclamações retratam atitudes de agitação durante as aulas e posturas inconvenientes em momentos inoportunos. Alguns dos(as) docentes, ao tratar 73 sobre o aluno, logo indicam que aquele seria um caso de indisciplina e desres- peito à autoridade e, por isso, o aluno deveria ser tratado com rigor e com as punições devidas. Porém, ao ouvir, atentamente, todos os relatos, você percebeu que existiam indícios de que aquele comportamento possuía outra explicação, menos óbvia, dado que os(as) professores(as) relataram que era característico daquele aluno a falta de concentração em uma única atividade, a fácil distração com elementos externos e atrasos no cumprimento de suas tarefas em compara- ção aos seus colegas. Percebendo essa situação, você, prontamente, buscou mais informações sobre o aluno, conversou, pessoalmente, com ele, consultou outros profissionais sobre a situação e, então, contatou a família para que um laudo médico fosse feito, pois tudo indicava que havia um fator não explicado que seria determinante para o mau comportamento daquele aluno. A família acatou o pedido e, como resultado da avaliação médica, o aluno foi diagnosticado com hiperatividade, um transtorno neurológico cujas características são: desatenção, agitação e impulsividade, entre outros comportamentos que poderiam ser, facil- mente, confundidos com pura indisciplina e desobediência. O problema, clara- mente, não poderia ser resolvido apenas com a constatação do quadro médico do aluno, ainda seria necessária uma boa orientação de modo a propor mudanças na abordagem pedagógica em sala de aula. Perceba que, nesta situação, foi preciso ativar uma postura de estranhamento com relação às informações que recebeu, assim, houve a necessidade de se refutar as explicações de fácil acesso e analisar a situação com mais afinco. Isso só foi possível, por meio de uma esquematização, um mapeamento das informações que chegaram até você, que, por sua vez, precisaram ser desconstruídas e vistas, por meio de uma nova lente, repensada e analisada, mais detidamente, de acordo com uma nova hipótese, seguido de análise comparativa ao desenvolvimento comum de outros(as) estudantes. Todo este caminho percorrido foi necessário para se compreender que a situação do aluno era, de fato, uma questão de hiperatividade e não poderia ser lida de maneira tão óbvia como indisciplina. Constata-se que, de alguma maneira, todos os passos do método etnográfico foram utilizados nesta situação hipotética, e quanto à última etapa, sistematização do material em modelo alternativo, está aqui, no relato desse caso, que serve como referencial para que se possa analisar situações semelhantes. UNICESUMAR UNIDADE 2 74 Embora tenhamos traduzido o método etnográfico de maneira prática e apro- ximada ao cotidiano, “a etnografia não é tão aberta, pois faz parte das Ciências Sociais e precisa de enquadramento (político e histórico) do comportamento humano” (FONSECA, 1998, p. 62). Esta objetividade de centrar um método es- pecífico para investigar as maneiras de ser e agir da humanidade em suas diversas expressões culturais é uma das principais características da Antropologia. A disciplina foi criada após o movimento intelectual do século XVIII que tornou a humanidade objeto de estudo científico, tomando o lugar da natureza, porém replicando métodos e técnicas de pesquisa das ciências naturais. Esse é o movimento responsável pelo surgimento do Positivismo de Auguste Comte, citado no início desta unidade. A antropologia, seguindo esse fluxo de mudan- ças no pensamento social, surge com um objeto e um método de investigação específicos: “as sociedades então ditas ‘primitivas’, ou seja, exteriores às áreas de civilização europeias ou norte-americanas” (LAPLANTINE, 2003, p. 7 - 8). O encontro com sociedades que possuem formas de organização social com lógicas tão distintas da nossa proporciona às Ciências Humanas como um todo um novo olhar científico, que só foi possível, por meio da história de formação da antropologia como disciplina e sua imersão em sociedades não-ocidentais. Ao possibilitar o entendimento de outras culturas, o debate antropológico permite notar, com a maior proximidade possível, que as formas de compor- tamento e de vida em sociedade que tomávamos todos, espontaneamente, por “inatas (nossas maneiras de andar, dormir, nos encontrar, nos emocionar, come- morar os eventos de nossa existência...) são, na realidade, o produto de escolhas culturais” (LAPLANTINE, 2003, p. 13). Este contexto possibilitou a criação do termo estranhamento sobre o qual discutimos anteriormente. NOVAS DESCOBERTAS Uma maneira interessante de sistematizar e referenciar as situações que enfrentamos no dia a dia escolar é a leitura de publicações acadêmicas. Ex- perimente acessar a coletânea de estudos de caso, organizada pelo Depar- tamento de Educação da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas). Nesta coleção, há uma série de situações que precisaram con- tar com uma análise detida do contexto de cada discente. Fonte: as autoras. https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/15388 75 O saber antropológico é, portanto, o conhecimento do plural, da diver- sidade de escolhas que a humanidade possui. Por meio dessa característica da disciplina, o campo de estudos da educação se motivou a adotar posicionamentos teóricos, também plurais, que consideram a diversidade de vivências que com- partilham o espaço escolar. Em um âmbito geral, a Sociologia e a Antropologia contribuem para queos(as) profissionais da educação construam uma atuação profissional contex- tualizada, considerando os diversos âmbitos da vida em sociedade, economia, cultura e política, como elementos determinantes e formadores de seres sociais. Orientar o nosso olhar por meio da Sociologia e a Antropologia é essencial para que a prática na política educacional tenha a análise social como norteadora de suas ações e, por meio disso, possa contextualizar histórias individuais. Em sín- tese, a reflexão que os olhares que essas duas ciências constroem trabalham com uma lente multifuncional, que não isola a individualidade de sua origem social. As ciências sociais e as diretrizes nacionais da Educação Básica Buscamos mostrar, na seção anterior, que as Ciências Sociais, como um campo de estudos mais amplo, proporcionam, por meio do estudo científico, a produ- ção de um olhar mais orientado sobre a realidade em que vivemos. A sociologia colabora para que sejamos mais curiosos e atentos com relação às explicações sobre como nos organizamos, coletivamente, e a antropologia revela que exis- tem inúmeros significados para as maneiras de agir, ser e pensar da humani- dade, assim como há diversas possibilidades de se estabelecer a convivência social. Essa capacidade de produzir percepções sobre o mundo pode ocasionar um lugar de privilégio a esta ciência na articulação de políticas educacionais, e é sobre este tema que trata esta seção. Segundo do Artigo 205, da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 (BRASIL, 1988, on-line): “A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”. UNICESUMAR UNIDADE 2 76 Vista como direito social básico, a educação pos- suía um papel central no processo de redemocratiza- ção do estado brasileiro. No final do século XX, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (BRASIL, 1996, on-line), que institui a necessidade de orientar os currículos dos sistemas e redes de ensino brasilei- ras de maneira uniforme, para que se possa garantir o direito de educação a todos, de maneira igualitária e formativa, foi um importante passo para alcançar esse objetivo de uma educação para o exercício da cidadania e qualificação para o mercado de trabalho. O texto da LDB serviu de amparo para a consoli- dação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que é como se chama o documento que foi desen- volvido para estabelecer competências, habilidades e conhecimentos a serem desenvolvidas nos estu- dantes brasileiros. O que se destaca no processo de construção das políticas curriculares no Brasil é que ele se deu em um contexto de configuração de nos- sa Democracia e de disputa de pautas políticas, que versam sobre o direito à aprendizagem e ao desen- volvimento da população brasileira (SILVA; NETO; VICENTE, 2015). A BNCC, assim como os principais documentos que norteiam o sistema educacional brasileiro, reco- nhece que a educação tem um compromisso com “a formação e o desenvolvimento humano global, em suas dimensões intelectual, física, afetiva, social, ética, moral e simbólica” (BNCC, 2018, p. 16). Isso signifi- ca que a consolidação das diretrizes curriculares do estado brasileiro segue, em grande medida, os pro- pósitos de desenvolvimento social que foi tão cara ao surgimento da Sociologia, e como consequência, as Ciências Sociais de forma mais abrangente. Essa rela- ção pode ser vista, principalmente, no Brasil, quando 77 relacionamos à consolidação das investigações sobre educação e das Ciências Sociais. Segundo Henriques (1998), o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) teve um importante papel na formação de um campo de estudos da educação como uma ciên- cia. Entre as décadas de 50 e 60, Anísio Teixeira, o então diretor do INEP, firmou parcerias com insti- tuições, como a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), para lançar programas de pesquisa no âmbito educacio- nal. Nesse momento, o INEP enfatizava o objetivo de “aplicar a pesquisa sociológica à política educacional, dentro de uma perspectiva de uso das Ciências So- ciais para a solução dos problemas da educação no Brasil” (HENRIQUES, 1998, p. 83). Caro(a) aluno(a), você se lembra de que pontua- mos, na primeira seção, que o movimento positivis- ta, aquele criado por Auguste Comte, o precursor da Sociologia, influenciou o poder político do Brasil República, contribuindo na reforma educativa de 1891? Qual era mesmo o intuito do positivismo? Conhecer a ordem da sociedade para estabelecer o progresso social, certo? Vejamos, aqui, mais um mo- mento em que a Sociologia é utilizada para buscar o avanço social por meio do conhecimento científico. A postura do INEP, autarquia que, durante o Jusce- lino Kubitschek (JK), manteve-se sob a direção de Anísio Teixeira, fomentava pesquisas educacionais, tinha como objetivo explorar os resultados de pes- quisas das ciências sociais sobre a temática para ajus- tar o sistema educacional às condições existentes e às exigências do desenvolvimento econômico, social e cultural das diversas regiões do nosso país (HENRI- QUES, 1998, p. 83). Dessa maneira, o projeto desen- UNICESUMAR UNIDADE 2 78 volvimentista de “50 anos em 5” de JK estaria mais próximo. Esse contexto de fomento à consolidação da educação como campo científico deu-se junto da estruturação das Ciências Sociais no Brasil. Percebe-se esse movimento ao constatar que grandes pesquisadores da área desenvolveram pesquisas junto ao Centro Brasileiro de Pesquisas Edu- cacionais (CBPE), Florestan Fernandes é um deles (HENRIQUES, 1998). Perceba que buscar o apoio do olhar científico das ciências sociais foi, nesse contexto de fortalecimento das pes- quisas educacionais, primordial para as organizações que estavam à frente deste movimento. Os propósitos do uso de uma ciência como a Sociologia para se pensar as políticas educacionais são estratégicos para as estruturas de poder se pensamos no seu uso de uma maneira positivista, avaliando a vida em sociedade para estabelecer formas de regulação social. Em contrapartida, quando a relação entre a educação e as Ciências Sociais é promovida a fim de estabelecer vínculos democráticos, veremos a construção de estratégias que culminam em iniciativas, como a criação da BNCC, que possui valores democráticos e inclusivos. Estimado(a) aluno(a), até o mo- mento foi possível percebermos que do mesmo modo que a Filosofia esteve intimamente ligada com a Educação, as Ciências Sociais, por sua vez, desde seu surgimento com a corrente positivista, estiveram também ligada com a questão da educação e da busca pelo conheci- mento. Além disso, pudemos conhecer um pouco mais sobre a área da sociologia e da antropologia, produzindo reflexões sobre a sociedade e suas instituições. A necessidade de produzir conhe- cimento sobre o mundo acompanha a humanidade desde o seu surgimento, e as mudanças nos modos de produção e nas formas de governo impactam, dire- tamente, na organização da sociedade e no modo como levamos a vida. Desse modo, essas mudanças geram impacto também na forma como a escola se organiza, como a educação é manipu- lada pela sociedade e como podemos in- terpretar esses novos modelos de sociali- zação. Assim, pudemos compreender que a sociologia e a antropologia influenciam à educação e ao mesmo tempo são por ela impactadas, fazendo com que os mo- delos de análise e observação sejam cons- tantemente repensados. O olhar orientado, que a Sociologia e a Antropologia buscam desenvolver, auxiliam, portanto, nas interpretações conscientes sobre a realidade com aten- ção ao contexto social em que estamos inseridos. Dessa forma, estas áreas con- tribuem para que os(as) profissionais da educação construam uma atuação pro- fissionalcontextualizada, ou seja, consi- 79 derem os diversos âmbitos da vida em sociedade como elementos determinantes e formadores de seres sociais. Assim, estas interpretações conscientes são essenciais para a prática na política educacional e auxiliam na construção de uma sociedade mais justa, por meio de suas ferramentas de compreensão da realidade. UNICESUMAR 80 1. Leia o texto a seguir: [...] o desenvolvimento do sistema das ciências se tem processado sob o influxo de duas ordens e fatores. Uma, de natureza especificamente positivo-racional, ligada com as exigências da própria marcha das investigações científicas. Outra, de natureza ultracientífica, constituída pelo conjunto de necessidades práticas (econômicas, cul- turais e sociais), que podem ou precisam ser satisfeitas, de modo direto ou indireto, mediante a descoberta ou a utilização de conhecimentos científicos. Algumas disci- plinas, como Química, emergiram graças à concorrência de fatores das duas ordens. Outras, como a Sociologia, nasceram da conjugação dos efeitos das crises sociais com os da revolução da mentalidade, produzida pelo advento do pensamento científico. FERNANDES, F. A herança intelectual da sociologia. In: FORACHI, M. M.; MARTINS, J. de S. Sociolo- gia e Sociedade: leituras de introdução à sociologia. Rio de Janeiro: LTC, 2008, p. 10. A partir da leitura do excerto, analise as afirmativas: I - Apenas os avanços no pensamento científico devem ser considerados quando se trata do desenvolvimento das ciências na modernidade. Fatores de natureza ultracientífica, que possuem relação com a economia, a cultura e o contexto social, não influenciam sob o advento científico. II - O campo de estudos das ciências naturais, representado pela Química, é tão influenciado por fatores sociais quanto a Sociologia, assim como, também, se desenvolveu em razão dos avanços do pensamento positivo-racional. III - O autor desconsidera que o surgimento das ciências pode estar relacionado a condições sociais, econômicas e culturais. IV - A Sociologia é uma ciência que emerge das transformações sociais, dessa ma- neira, os efeitos das crises sociais são determinantes para o surgimento desta disciplina. É correto o que se afirma em: a) IV apenas. b) I e III apenas. c) I e IV apenas. d) II e IV apenas. e) I, II, III e IV. 81 2. Leia o texto a seguir: O Positivismo influenciou, de maneira considerável, a sociedade, nos séculos XIX e XX. Tendo em vista que a Educação é uma atividade social, também foi marcada por esta influência. Nas escolas, a influência do positivismo se fez sentir com força, devido à influência da Psicologia e da Sociologia, ciências auxiliares da Educação. O positivismo esteve presente de forma marcante no ideário das escolas e na luta a favor do ensino leigo das ciências e contra a escola tradicional humanista religiosa. O currículo multidisciplinar – fragmentado – é fruto da influência positivista. ISKANDAR, J. I.; LEAL, M. R. Sobre positivismo e educação. Revista Diálogo Educacional, Curitiba, v. 3, n. 7, p. 89, 2002. Com base no texto apresentado e nos conhecimentos adquiridos, avalie as afirma- ções, a seguir, com (V) para verdadeiras ou (F) para falsas: I - O positivismo defendia a ideia de que o ensino nas escolas devia seguir as tradi- ções religiosas e os preceitos da fé cristã. II - Segundo o positivismo, o progresso social seria alcançado, por meio da disciplina e da ordem. III - Os pensadores positivistas, que, posteriormente, ficaram conhecidos como fun- dadores da sociologia, acreditavam que a ciência deveria substituir a religião na função de elemento de conservação social. IV - A corrente positivista foi criada a partir de um projeto que buscava mudanças na educação, porém suas ideias foram rechaçadas, e não houve aplicação prática. As afirmações I, II, III e IV são respectivamente: a) V, V, F, F. b) F, V, V, F. c) V, F, V, F. d) F, F, F, V. e) V, F, V, V. 3. Leia o texto a seguir: A reflexão do homem sobre o homem e sua sociedade, e a elaboração de um saber são, portanto, tão antigos quanto a humanidade, e se deram tanto na Ásia como na África, na América, na Oceania ou na Europa. Mas o projeto de fundar uma ciência do homem – uma antropologia – é, ao contrário, muito recente. De fato, apenas no final 82 do século XVIII é que começa a se constituir um saber científico (ou pretensamente científico) que toma o homem como objeto de conhecimento, e não mais a natureza; apenas nessa época é que o espírito científico pensa, pela primeira vez, em aplicar ao próprio homem os métodos até então utilizados na área física ou da biologia. LAPLANTINE, F. Introdução: o campo e a abordagem antropológicos. In: LAPLANTINE, F. Aprender Antropologia. São Paulo: Brasiliense, 2003. Considerando a leitura do texto apresentado e seus conhecimentos sobre o surgi- mento da Sociologia e Antropologia, considere as afirmações a seguir: I - Tanto na Ásia como na África, na América, na Oceania ou na Europa, desde o século XVIII, os conhecimentos sobre o funcionamento da sociedade são dispensáveis. II - O pensamento antropológico permite conhecer e aceitar a diversidade cultural e, por meio do conhecimento das culturas, construir um olhar atento sobre a realidade social em que vivemos. III - O conhecimento sociológico é um possibilitador para que a humanidade conheça melhor a si própria e suas construções coletivas. IV - A Antropologia, assim como a Sociologia, faz parte do movimento na ciência que deixa de lado as explicações sobre a humanidade, por meio exclusivo dos fenômenos naturais. A vida humana, com suas características sociais, políticas e culturais tornam-se objeto científico. V - Não há aplicabilidade prática dos fundamentos teóricos da Sociologia e Antro- pologia na educação. É correto o que se afirma em: a) I, II e III, apenas. b) I, II, III e IV, apenas. c) II, III e IV, apenas. d) II, III, IV e V, apenas. e) I, II, III, IV e V. 4. Leia o texto a seguir: Anísio Teixeira (1971) via o sistema educacional como um reflexo da vida social do país. Para ele, as transformações da sociedade eram essenciais às modificações pretendidas para a educação brasileira, desde o início do século XX. A experiência educacional e a vida em coletividade deveriam interagir de modo real para que todos 83 os talentos individuais fossem valorizados. BORTOLOTI, K. F. da. S. Anísio Teixeira e as Ciências Sociais. Revista História e Cultura, v. 3, n.3, p. 135-154, dez. 2014. Considerando a relação das Ciências Sociais com a educação, é correto afirmar que: a) Não é possível associar as pesquisas sobre educação às Ciências Sociais. b) A experiência educacional e a vida coletiva em sociedade não possuem relação direta. c) Anísio Teixeira acreditava que era preciso dissociar a educação das Ciências Sociais. d) Anísio Teixeira foi um importante articulador da política educacional no Brasil, responsável pela consolidação da educação como uma ciência. Ele acreditava que a experiência educacional deveria considerar a vida coletiva em sociedade. e) Determinar políticas educacionais com base na realidade social só desvaloriza os talentos individuais. 5. Leia o texto a seguir: Antonio Paim afirma algo que muito importa ao conhecimento pleno da instauração do sistema republicano no Brasil: — A influência política do comtismo, é fenômeno posterior à República. E cita José Veríssimo, para quem muitas das ideias cuja pater- nidade os positivistas “a posteriori” reclamaram, faziam parte do acervo comum aos espíritos liberais da época em que surgiram. Tais, por exemplo, as idéias relativas ao casamento civil, à separação Igreja-Estado, à federação e ao regime presidencial. LIMA FILHO, A. V. O positivismo e a República. Revista da Faculdade de Direito, Universidade de São Paulo, n. 99. p. 3-33, 2004. Com base no excerto apresentado e seus conhecimentos sobre a corrente positivis- ta, produza um texto dissertativo de 5 a 10 linhas, contextualizando a influênciado positivismo na Proclamação da República brasileira. 3Teorias Sociológicas como Instrumentos para a Educação Me. Cassiano Lucas Silva Carvalho Me. Daiany Cris Silva Me. Milena Cristina Belançon A seguir, apresentam-se os temas que você estudará nesta unidade: • A educação enquanto fato social • A racionalização dos processos pedagógicos • Pensando a educação na sociedade de classes. UNIDADE 3 86 Prezado(a) estudante, após o nosso pri- meiro contato com as Ciências Sociais, foi possível conhecer um pouco do surgimen- to da sociologia, a sua divisão posterior em antropologia, ciência política e sociologia. Tivemos contato, também, com a teoria positivista, tomando ciência de seu princi- pal autor, Auguste Comte. Nesta unidade, portanto, daremos continuidade na busca pelo conhecimento das teorias sociológi- cas, destacando seus principais autores e enfatizando as contribuições destes para a educação. Tendo em vista que o objeto da Sociologia é a sociedade, temas, como a educação, a escola, os alunos, as práticas docentes estão contidas nas teorias que aqui estudaremos. Dividimos esta unidade em três tópi- cos e, em cada um deles, abordaremos as teorias e as concepções de três autores que são conhecidos como clássicos da Sociolo- gia, ganhando, inclusive, o apelido de “três porquinhos”, são eles: Émile Durkheim e a teoria do fato social; Max Weber e sua visão sobre a burocracia e racionalidade; e Karl Marx, que desenvolveu seu método crítico ao capitalismo e à sociedade de classes. Es- tes autores se destacaram por construírem teorias a respeito da sociedade moderna que surgia com o advento das novas for- mas de produção e o momento histórico da sociedade, deixando um legado de co- nhecimento que movimenta as Ciências Sociais até hoje. 87 Muitos estudiosos buscam deduzir da teoria social dos clássicos da sociologia elementos para pensar o processo educativo, e é isso que buscaremos fazer nesta unidade. Compete a nós, agora, explorar conceitos e concepções que nos auxi- liarão a entender ainda mais a relação entre sociologia e educação, pontuando sempre a necessidade de se levar em conta o contexto macrossocial e político. Bons estudos! Esperamos que seja uma boa jornada, vamos lá! UNICESUMAR UNIDADE 3 88 A educação enquanto fato social Estimado(a) estudante, neste momento, trabalharemos com a perspectiva de Émile Durkheim (1858-1917) sobre a sociedade e a educação. Dessa forma, buscaremos desenhar uma breve biografia do autor para entender o contexto e o local de onde partiam suas análises e teorias. Émile Durkheim nasceu na Alsácia, na França, em 1858. Suas obras mais conhecidas são O Suicídio, As Regras do Método Sociológico e Da Divisão do Trabalho Social. Durkheim é conhecido como fundador da So- ciologia Moderna e assim como Auguste Comte, fazia parte da corrente positivista. Émile Durkheim presenciou o nascimento da Terceira República da França, que aconteceu em 1875, após acirradas lutas entre republicanos e monarquistas. Nesse contexto, a expansão do capitalismo industrial choca-se com uma tomada de cons- ciência cada vez mais aguda das classes operárias, que passaram a se organizar de forma mais intensa. Ainda jovem, Durkheim decidiu seguir a carreira de professor e, a partir de então, passou a dedicar-se com avidez a explorar de que forma poderia contribuir com o futuro da sociedade por meio da educação. 89 Descrição da Imagem: a figura apresenta uma foto em preto e branco de Émile Durkheim. Nesta, está um homem de cor clara, na faixa etária de cinquenta anos, de óculos finos, calvo, com cabelos curtos no lado da cabeça, barba e bigode grisalhos fartos e de comprimento médio, e um semblante sério e confiante. Ele está fotografado um pouco abaixo da cintura para cima, sentado, voltado para a esquerda da imagem. Seu braço esquerdo está apoiado em um apoio de madeira, fino e comprido, com o punho sobre o encosto, enquanto o braço direito está junto ao corpo, com a mão próxima à barriga, levemente fechada. Ele está vestindo um terno preto, camisa com colarinho branco e gravata preta e calças cinzas, que cobrem seu corpo, com exceção das mãos e da cabeça. Figura 1 - Émile Durkheim / Fonte: Wikimedia Commons (1918, on-line). UNICESUMAR UNIDADE 3 90 Uma das teorias mais conhecidas de Durkheim, e que conheceremos, mais deti- damente, nesta unidade, diz respeito ao fato social. Para o autor, os seres humanos defrontam-se com regras e costumes na vida social que não foram criados por ele, mas ainda assim, devem seguir para que a vida coletiva tenha sucesso. Dessa forma, o autor buscava analisar o fato social como “coisas”, à semelhança dos fe- nômenos naturais, que são independentes das consciências individuais. Os fatos sociais, portanto, seria aquele conjunto de regras que seguimos mesmo que não estejam descritas em lugar nenhum, que já existem antes de nascermos e que continuarão a existir depois que morrermos. Você, aluno(a), já se perguntou por que nos sentamos para assistir aulas presenciais? Por que a disposição da sala de aula é sempre a mesma, com o professor à frente, e os(as) alunos(as) dispostos em filas e fileiras? A disposição dos locais de cada um em uma sala de aula, portanto, seria um fato social. Porém, não é qualquer “coisa” que pode ser considerada um fato social, pois existem alguns requisitos a cumprir, são eles: 1. Coercitividade: diz respeito à força que os fatos sociais exercem sobre os membros de uma sociedade. Dessa forma, as pessoas são impelidas a cumprir normas e regras sociais, independentemente de sua vontade e, caso não cum- prirem, estão sujeitas às punições legais ou não (espontâneas). Entendemos por punições legais aquelas que estão descritas em códigos de leis, portanto, diz respeito aos crimes e às demais infrações que podem ser modificadas, mas não individualmente, já que as leis são formuladas e debatidas por muitas pessoas e passadas de geração em geração. Por outro lado, as sanções que não são legais, chamadas espontâneas, não estão descritas em documentos, dizem respeito mais aos costumes e hábitos de uma sociedade e, nesse tipo de situação, as sanções são aplicadas pelas demais pessoas. Por exemplo, se durante uma aula presencial todos os alunos estão sentados, e apenas um de- les se mantém em pé, sem nenhum motivo aparente, causará estranhamento e questionamento por parte dos outros colegas sobre aquele comportamento. 2. Generalidade: diz respeito à repetição dos atos, constantemente, entre os indivíduos de uma sociedade. Dessa forma, o fato social torna-se comum e coletivo. É comum em nossa sociedade que as aulas sejam ministradas da forma que estamos analisando, se você for a uma escola no Rio Grande do Sul ou no Acre, será encontrado o mesmo formato. 91 3. Exterioridade: trata de como o indivíduo absorve os valores, as regras e as normas da sociedade em que está inserido, independentemente de sua von- tade. Ou seja, o indivíduo não é consultado se quer, ou não, cumprir aqueles costumes, mas é impelido a cumpri-los. Por exemplo, desde a sua primeira ida à escola, o aluno já se depara com a distribuição de carteiras e deve ocu- par uma delas. Certas dinâmicas podem alterar esse formato da organização clássica da sala de aula, porém sabemos que o aluno não é consultado sobre isso, cabendo a ele somente a escolha do lugar. Conhecemos, portanto, as três características principais que Durkheim associou ao fato social. E você sabe qual foi um dos exemplos abordados pelo autor para tratar desse tema? A educação. Isso porque, para Durkheim, a educação desempenha um papel muito importante por transmitir essa série de regras de comportamento social. Dessa forma, o autor dividia a educação em dois tipos, a informal, que seria aquela transmitida pela família, em casa, e a formal, obtida na prática escolar. A partir do contexto das transformações sociais da Europa, o autor dedi- cou-se a desenvolver a Ciência da Educação e, assim, ficouconhecido por ser o primeiro a teorizar e escrever uma obra sobre a Sociologia da Educação. O autor foi responsável, também, por incluir a disciplina “Sociologia da Educação” no currículo acadêmico de formação de professores. A proximidade que Durkheim notou entre a sociologia e a educação pode ser resumida no seguinte trecho: “ Como a vida escolar não é senão o germe da vida social e como esta não é senão o desenvolvimento daquela – os principais processos pelos quais uma funciona devem ser encontrados na outra. Pode-se, pois, esperar que a sociologia, ciência das instituições sociais, nos auxilie a compreender melhor o que são as instituições pedagógi- cas e a conjecturar o que devam ser elas, para melhor resultado do próprio trabalho (FILLOUX, 2010, p. 85). Assim, podemos notar como a educação e a sociedade andam juntos na concep- ção durkheimiana. Para Durkheim, somos compostos de duas dimensões, uma individual, que diz respeito apenas a nós mesmos e aos acontecimentos da nossa vida pessoal, e outra coletiva, composta por um sistema de ideias, sentimentos e hábitos que exprimem aquilo que aprendemos no grupo ao qual fazemos parte. UNICESUMAR UNIDADE 3 92 O objetivo da educação seria, portanto, constituir o ser social em cada um de nós. A prova disso para o autor é a construção da civilização em detrimento da constituição primitiva dos seres humanos: “ Este ser social [...] não se encontra já pronto na constituição primi-tiva do homem [...] Foi a própria sociedade que, à medida que ia se formando e se consolidando, tirou do seu seio estas grandes forças morais [...] Ao entrar na vida, a criança traz apenas a sua natureza de indivíduo (DURKHEIM, 2011, p. 11). Essa constatação, no entanto, que parece bastante óbvia para Durkheim, que ele chega a chamar de “axioma fundamental”, foi bastante questionada. As críticas feitas ao autor foram feitas por pensadores de uma corrente mais individualis- ta, que não consideravam o meio social e o contexto onde essa educação seria propagada. Estes questionam a teoria do autor, acusando-a de promover um apagamento da individualidade, o que é, duramente, negado por seus seguido- res, que afirmam que a teoria de Durkheim mostra ser possível “individualizar socializando” (DURKHEIM, 2011, p. 15), ou seja, que a construção da individualidade se dê a partir da vida em interação social. Sobre a definição de axioma, trata-se de um termo usado na filosofia para indicar que uma premissa é, ne- cessariamente, 93 evidente e verdadeira, ainda que indemonstrável, originada, segundo a tradição racionalista, de princípios inatos da consciência ou, segundo os empiristas, de generalizações da observação empírica. Durkheim explicita a retroalimentação entre a sociedade e a educação, e o pa- pel fundamental de uma e de outra em sua constituição, como no trecho a seguir: “ A sociedade não somente eleva o tipo humano à dignidade de modelo para o educador reproduzir, como também o constrói, e o constrói de acordo com suas necessidades. [...] O homem que a educação deve realizar em nós não é o homem tal como a natureza o criou, mas sim tal como a sociedade quer que ele seja (DURKHEIM, 2011, p. 107). Émile Durkheim bebe, também, da fonte positivista, aquela corrente teórica em que se busca analisar a sociedade a partir do modelo das ciências naturais, ou seja, da ideia de que o conhecimento verdadeiro é dado através da experimen- tação e aferimento científico. Dessa forma, o autor aprofunda a necessidade de refletir sobre um dado, uma realidade observável, o que ele chama de “coisa”. Por isso, a educação para ele é uma dessas “coisas”, que carecem de observação, descrição, análise e explicação. Ao lecionar pedagogia, Durkheim apresentava um caráter bastante prático, buscando responder às dificuldades práticas que o educador público encontrava na França contemporânea. Nesse sentido, o autor deixou registrada na obra O Ensino da Moral na Escola Primária um curso, em que define como tarefa moral do professor Francês da época dar uma educação laica e racionalista a seus alunos. A moral foi um tema importante para o autor justamente por abordar o que se trata do bem e do dever, conceitos que estão, intimamente, ligados à sua visão da educação enquanto parte fundamental do processo de socialização. A educação moral desempenharia, assim, “o papel de iniciar a criança aos diversos deveres e de suscitar virtudes específicas” (DURKHEIM, 2011, p. 24), além de desenvolver a aptidão geral à moralidade, ou seja, aos princípios do que o meio social considera bem e dever dos indivíduos. Uma vez que Durkheim acreditava na educação moral laica, ele buscava se- parar a moral da religião e operacionalizá-la com uso da razão. Mesmo reco- nhecendo que a religião exprime, em muitos casos, verdades, o autor aponta que estas precisam ser reinterpretadas de forma racional e objetiva em vez de UNICESUMAR UNIDADE 3 94 simbólica. Desse modo, propunha que a análise moral se tornasse sociológica. Neste ínterim, o autor acreditava, também, que a ciência seria importante para a formação do espírito de autonomia das crianças, ensinando a reconhecer o que é fundamentado na natureza das coisas, o que é normal, modificável e os limites da ação para melhorar essa natureza. Assim, todo ensino tem um destino moral para Durkheim e, dessa forma, a educação teria um papel importante de ensinar o que são as sociedades, como se formam e se transformam, o que exercem sobre o indivíduo e o papel que o indivíduo desempenha nelas (DURKHEIM, 2011). A obra de Émile Durkheim dedicou-se à educação na escola primária e, nesta seara, pautou a noção do ensino em disciplinas que deveriam servir à constituição do entendimento, conforme exposto no trecho a seguir: “ Cada uma das disciplinas fundamentais implica uma filosofia latente, ou seja, um sistema de noções cardeais, que resumem os aspectos mais gerais das coisas, tais como nós as concebemos, e que comandam a interpretação delas. É esta filosofia, fruto do trabalho acumulado por gerações, que se deve transmitir à criança, pois ela constitui o próprio esqueleto da inteligência (DURKHEIM, 2011, p. 34). Em resumo, a educação forma o ser social, tendo por objetivo “substituir o ser egoís- ta e associal que acaba de nascer por um outro capaz de levar uma vida moral e social” (DURKHEIM, 2011, p. 55). Podemos expandir este conceito pensando nos outros níveis de educação, que possuiriam, portanto, a capacidade para aprimorar essa adaptação à vida em sociedade e confirmá-la. Desse modo, a educação é vista como a criadora de um novo ser, e é isso que diferencia a “educação” dos animais. Enquanto estes apenas são treinados para facilitar o movimento das funções na- turais, a educação humana é capaz de iniciar uma nova vida, nessa perspectiva. Isso porque os animais vivem em sociedades simples, que funcionam com base em instintos, enquanto os humanos vivem em sociedades complexas, em que a necessidade da vida social criou essa série de regras que precisam ser apreendidas. “ Como já dizia Rousseau, para satisfazer às necessidades vitais, a sensa-ção, a experiência e o instinto podiam bastar para o homem assim como para o animal. Se o homem não tivesse sentido outras necessidades além daquelas, bastante simples, cujas raízes provêm de sua constituição 95 individual, ele não teria corrido atrás da ciência; ainda mais que ela não foi obtida sem laboriosos e dolorosos esforços. Ele só sentiu a sede do saber quando a sociedade a provocou nele, e a socieda- de só a provocou quando ela mesma sentiu esta necessidade. Isto aconteceu quando a vida social, sob todas as suas formas, tornou- -se complexa demais para poder funcionar de outra forma a não ser com base na reflexão, ou seja, no pensamento iluminado pela ciência. A cultura científica se tornou então indispensável, e é por isto que a sociedade a exige de seus membros e a impõe como um dever (DURKHEIM, 2011, p. 57). Com isso, podemos vercom mais clareza ainda como a educação é parte fun- damental da compreensão da sociedade para Durkheim. Além disso, Durkheim dedicou-se também à ciência da educação, nesse sentido, o autor diferencia a educação da pedagogia. Para o autor, a educação seria “a ação exercida nas crianças pelos pais e pro- fessores” (DURKHEIM, 2011, p. 75), sendo ela constante e geral, já a pedagogia “consiste não em ação, mas sim em teorias [que] explicitam as maneiras de con- ceber a educação, e não de praticá-la” (DURKHEIM, 2011, p. 75). Nesse sentido, o autor conclui que a Pedagogia seria uma maneira de refletir sobre as questões relativas à educação. “ [...] para poder acomodar com discernimento as práticas edu-cativas à variedade de casos particulares, é preciso saber quais são as suas tendências, as razões dos diferentes processos que as compõem e os efeitos que elas produzem em diferentes circuns- tâncias; em suma, é preciso submetê-las à reflexão pedagógica (DURKHEIM, 2011, p. 89). Portanto, Durkheim considerava a educação como formadora de valores impres- cindíveis para o ser social cuja ação: “garantiria a transmissão e a preservação do arcabouço cultural produzido histórica e socialmente pelos humanos” (SOUZA; CAMPOS, 2016, p. 19). UNICESUMAR UNIDADE 3 96 Prezado(a) estudante, neste momento, conheceremos as contribuições de Max Weber (1864-1920) para a compreensão da sociedade e da educação. Para tanto, trazemos uma breve biografia do autor, conhecendo o contexto e o local de onde partiam suas análises e teorias. Max Weber foi um autor alemão, que, além da profissão jurídica, estudou filosofia, teologia, história, economia e política. Com isso, ele é considerado também um dos fundadores da Sociologia Clássica. Em sua trajetória, o autor desenvolveu um amplo conhecimento sobre as sociedades e, particularmente, sobre as religiões mundiais, concluindo que a modernidade é caracterizada pela racionalização da cultura e da sociedade. Como veremos, Weber construiu sua teoria sociológica com base no sujeito, trabalhando o indivíduo para o meio social, podendo ser um transformador, tomando suas próprias decisões. Suas principais obras são A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo (1905) e Economia e Sociedade (1922). A racionalização dos processos pedagógicos 97 Descrição da Imagem: a figura apresenta uma foto em preto e branco de Max Weber. Nesta, está um homem de cor clara, na faixa etária de cinquenta anos, cabelo aparentemente castanho, penteado social, bigode, barba grisalha, média, cheia e pontuda. Ele está fotografado da metade do abdômen para cima, enquadrado em seu peito e rosto, postura ereta levemente inclinada para a esquerda, olhando para a direita, e expressão séria. Ele está vestindo um terno, camisa com colarinho branco e gravata preta, que cobre seu corpo, com exceção da cabeça. Figura 2 - Max Weber / Fonte: Wikimedia Commons (1918b, on-line). UNICESUMAR UNIDADE 3 98 Para entendermos a perspectiva de Weber, devemos primeiro conhecer o contex- to de sua formação, levando em conta que seu objetivo foi entender os caminhos percorridos pela sociedade ocidental até o período moderno, na tentativa de construir um conjunto de modelos teóricos que ajudariam na compreensão de diversos aspectos sociais de sua época. A Alemanha, país em que vivia o autor, surgiu, tardiamente, enquanto nação, tendo em vista os demais países europeus. Weber acompanhou essa formação e evolução econômica do país com grande interesse. De partida, o autor passou a rejeitar o positivismo, já que ele não era afeito a analisar particularidades indi- viduais, mas sim a estrutura da sociedade de forma geral. Para o autor, não era possível usar os métodos das ciências naturais nas ciências sociais, já que nestas os acontecimentos são dependentes da postura e da própria ação do investigador, ao contrário das primeiras, que são bastante independentes. Ou seja, para ele, importa o olhar que se dá para os acontecimentos, que pode variar a depender do observador e de seus próprios valores. O autor era adepto do método compreensivo, que busca entender o sentido das ações de um indivíduo, e não apenas a aparência destas. Para isso, Weber fez um esforço interpretativo do passado a fim de compreender mudanças posteriores. Se, para os positivistas a ordem social sobrepõe-se aos indivíduos, Weber apontava que as ações individuais, levando em conta os demais membros, é que movem a sociedade. Portanto, seu método compreensivo levava em conta que o comportamento social não é individual, e a sociedade é concebida pela soma de suas relações interpessoais. A perspectiva weberiana compreende, portanto, que cada indivíduo age leva- do por uma razão ou motivo e, dessa forma, as regras sociais só se tornam regras ao serem admitidas pelo membro de uma sociedade sob forma de motivação. Assim, os valores seriam socializados e internalizados de formas diferentes, de- pendendo da relação do indivíduo com o meio social. Em um mundo cada vez mais racional, com escassez e os agentes sociais interessados em satisfazer suas necessidades, há uma tensão implícita, não existem condições para que todos satisfaçam suas necessidades, por isso, a sociedade moderna para Weber é ten- sionada, racional e previsível. E, justamente por isso, se faz necessária a interna- lização de normas de convivência. Para compreender as relações sociais e a sociedade, Weber usou o conceito de ação social, que diz respeito às ações que os indivíduos exercem, orientando-se 99 pela ação dos outros. O autor acreditava que toda ação social do indivíduo teria como princípio a liberdade. “ A ação social pode ser orientada para as ações passadas, presentes ou futuras de outros. Assim, pode ser causada por sentimentos de vingança de males do passado, defesa contra perigos do presente ou contra ataques futuros. Os “outros” podem ser indivíduos co- nhecidos ou desconhecidos, ou podem constituir uma quantidade indefinida (WEBER, 2002, p. 37). Esta ‘ação’ diria respeito a um comportamento compreensível, isto é, um compor- tamento orientado por um sentido, ainda que não de forma consciente. Dessa forma, tal comportamento estaria relacionado ao sentido subjetivo com refe- rência ao comportamento dos outros, estando, portanto, co-determinado por esta referência e, podendo ser explicado pela compreensão a partir deste sentido mental (subjetivo) (RODRIGUES, 2001). Ou seja, uma vez que pautamos nossa ação na racionalidade, esperamos que os demais indivíduos também o façam. Portanto, a ação social tem como com- ponente a expectativa de que os outros deem determinado peso a certos valores e crenças, de que se comportem de um modo regular etc., fundando, assim, as normas sociais. A motivação dessa ação para Weber poderia ser dada pela tradição, pela emo- ção ou por interesses racionais (que se dividem em relação a valores e em relação a fins), da seguinte maneira: ■ A ação orientada pela tradição é aquela determinada por um costume ou hábito. Ex: Ir à escola porque é o que se espera que todos façam. ■ A ação orientada pelo afeto diz respeito às emoções e aos sentimentos, atuando de forma irracional. Exemplo: Ir à escola para encontrar os amigos. ■ A ação orientada por interesses racionais em relação a valores manifes- ta-se pela convicção consciente de um valor, daqueles familiares ou in- corporados à nossa hierarquia. Ex: Ir à escola porque a família deposita grande valor a este ato. UNICESUMAR UNIDADE 3 100 ■ A ação orientada por interesses racionais em re- lação a fins é determinada pelo objetivo claro e direto, praticada como investimento e, portanto, usando a razão para determinar um fim. Ex: Ir para escola com o objetivo de ter uma qualifica- ção e ganhar dinheiro. Com estes simples exemplos podemos considerar que não optamos por apenas um tipo de ação nas situações que vivemos, elas estão, constantemente, misturadas. O que Weber buscou fazer em seus es- tudos foi isolar esses tipospara que sirvam de refe- rência em seu método. Portanto, os “Tipos Ideais Puros” são parte fun- damental da metodologia weberiana. Estes tipos 101 ideais são entendidos como ponto a ser alcançado, não baseado em um modelo de realidade, mas sim enxer- gado como um instrumento guia. É o ponto final de uma estrada que não acaba uma vez que o conhecimento, já que é criado pelos seres humanos, sempre será parcial e incompleto. O tipo ideal constitui uma meto- dologia para Weber, onde se faz uma construção mental do aspecto que se observa, criando uma ideia de perfei- ção sobre ele, que não será atingida. A partir disso, o autor propõe fazer uma comparação entre este tipo ideal/ perfeito e a realidade encontrada. É preciso pontuar que este tipo ‘ideal’ não quer dizer desejado uma vez que à medida que se descreve o quanto a realidade se aproxima, ou se distancia do tipo ideal construído mentalmen- te, essa realidade se apresenta a você e se revela em seu caráter mais com- plexo, assim, os comportamentos vêm à luz revelando a racionalidade e a ir- racionalidade que os tornou possíveis (RODRIGUES, 2001). Além de levar em conta o com- portamento dos outros para exercer as ações, Weber lembra também que os indivíduos precisam lidar com as normas sociais. Para o autor, essas normas advêm da própria ação dos indivíduos ao longo do tempo, fun- cionando como uma espécie de con- UNICESUMAR UNIDADE 3 102 densação de expectativas recíprocas, ou seja, são construídas a partir da própria experiência da vida em sociedade. Por outro lado, as regras e normas, também fazem com que seja mais fácil prevermos as ações das outras pessoas, pois são guias do que se deve fazer. Neste ínterim, Weber trata das associações, indicando como a mais abrangente de todas o próprio Estado, onde, inclusive, a própria filiação não é voluntária. Desse modo Weber pontua que as regras não dependem de mim ou de você uma vez que já estavam criadas quando nascemos, porém lembra que estas são como são por conta de outros indivíduos e o futuro delas depende também de como esta é operacionalizada por nós e por todos os outros indivíduos da socie- dade. Lembrando que não nos referimos aqui apenas às normas formais, como as leis, mas a toda ação que praticamos em sociedade com base no que é esperado por ela. Estas regras, para Weber, são construídas de forma racional, ou seja, com fins específicos, e são distribuídas por um tipo de imposição. A sociologia weberiana baseia-se na dominação, para isso, Weber dis- cute desde a dominação da natureza por meio da técnica – o trabalho. Com a dominação da natureza pelo Homem, aprendendo a controlar e entender o fogo, por exemplo, perde-se a capacidade de representação daquilo que antes não era controlado. Se antes o Homem explicava o fogo como um atributo de algum Deus, depois que o dominou por meio da técnica, este se tornou uma reação entre dióxido de carbono e a água. Do mesmo modo, para Weber, a obediência às regras é garantida por meio do processo de dominação e poder, em que o autor destaca três tipos: • Dominação Tradicional: para garantir a aceitação, baseia-se na tradi- ção, nos costumes e nos hábitos. Para o autor, tudo o que o Homem moderno não consegue controlar, ou seja, racionalizar, ou dominar, por meio de métodos para efetivar uma ação, leva-o à apatia e ao medo. O Homem moderno emerge em meio a essa racionalização, não controla nem o princípio nem o fim de sua vida, por isso, teme a morte – pois está fora de seu controle. Fonte: as autoras. EXPLORANDO IDEIAS 103 • Dominação Carismática: a devoção é garantida pelo poder de um líder que possui carisma. • Dominação Legal: é o caso das sociedades modernas cuja dominação é mitigada por base legal, em leis, estatutos, regulamentações. A dominação legal carece, portanto, de uma legislação racional, e nesse sen- tido Weber enfatiza dois aspectos importantes da racionalização. O primeiro deles seria a constituição do Estado pautada no Direito Racional (dizendo respeito ao processo de racionalização da vida), e o outro a constituição da Administração Racional (embasada no modelo burocrático). Estes aspectos demonstram a difusão dos fundamentos da racionalidade nas sociedades mo- dernas, que transformaram os modos informais e tradicionais de dominação por instituições organizadas e legitimadas. Dessa forma, acompanhando a racionalização da sociedade, a Educação para Weber não abarca mais o intuito de uma formação integral, que buscava levar os indivíduos a compreenderem seu papel no contexto social. Nas so- ciedades modernas, a Educação funciona como uma espécie de treinamento para habilitar o indivíduo a realizar tarefas específicas em estratos sociais, buscando apenas privilégios sociais. Para conceituar a educação, portanto, Weber baseia-se na razão como método. Na visão do autor, tanto a escola como a família seriam responsáveis pela educação, que possui um caráter socializador, responsável por formar indivíduos e manter a ordem social, fornecendo a preparação necessária para o exercício de atividades exigidas pelas mudanças ocasionadas pela raciona- lização social. Dessa maneira, o autor possuía uma perspectiva bastante pes- simista de que a educação não estava formando o Homem, mas simplesmente preparando-o para desempenhar tarefas. Weber constatou, portanto, que os tipos de Educação variam de acordo com o contexto da época e a forma de dominação existente. Dessa forma o autor via dois polos opostos no campo das finalidades educacionais, sendo um deles com fins de despertar o carisma, e o outro, transmitir o conhecimento especializado (WEBER, 1982). Despertar o carisma, para Weber, referia-se ao ascetismo má- gico e aos heróis, e não a pessoas comuns. Já o tipo de finalidade preocupado UNICESUMAR UNIDADE 3 104 em transmitir conhecimentos especializados, Weber chamou de pedagogia do treinamento cujo objetivo seria preparar o indivíduo para tarefas. Como Weber acompanhou a formação dos Estados nacionais e a ascensão do modelo capitalista, ele pode concluir que educar, na forma da racionalização, tornou-se essencial para o Estado e para o capitalismo, uma vez que foi necessário se respaldar no Direito nacional e na burocracia, fornecendo profissionais especia- lizados para que as empresas capitalistas, pudessem cumprir o seu fundamento de lucrar. Segundo o autor, portanto, o capitalismo moderno e o Estado foram respon- sáveis por conceber o Homem racional, um Homem desencantado do mundo, que não se guiaria mais pelos desígnios de Deus e de imperadores, mas se orienta pela lei e pela razão. Tal desencantamento ocorreu, portanto, pelo desvencilhamento de costumes e crenças baseados em tradições herdadas ou aprendidas que se apoiavam nos pilares fixos das religiões ou da magia, uma vez que as explicações e questiona- mentos passaram a basear-se nos fundamentos da razão. Weber constatou que “os títulos educacionais representam ‘prestígio social’ e são usados quase sempre como proveito econômico” (WEBER, 1982, p. 278). Assim, a Educação auxilia na formação de uma classe privilegiada, por vantagens econômicas e também sociais. Essa Educação racionalizada funcionaria, então, como mecanismo de ascensão social e de consecução de status pessoal, e, assim, tornou-se um amontoado de “conteúdos direcionados para a qualificação de pes- soas que demonstram reais possibilidades de gerenciar o Estado, as empresas e a política, de maneira ‘racional’” (SILVA; AMORIM, 2012, p. 104). “[...] o desencantamento do mundo envolve a substituição de uma visão mágica do mun- do, substituindo a visão de um mundo guiado por forças misteriosas para uma distinta representação da realidade. É o que ilustra sua primeira aparição na Consideração Inter- mediária: ‘A tensão entre a religião e o conhecimento intelectual destaca-se com clareza sempre que o conhecimento racional, empírico, funcionou coerentemente através do de- sencantamento do mundo e sua transformaçãonum mecanismo causal’ (WEBER, 1982, p. 401). Atente-se, neste trecho, para a expressão “mecanismo casual”. Ela nos aponta, diretamente, para o leitmotiv da tese weberiana: na visão de mundo proposta pela ciên- cia, forças mágicas ou mesmo o sentido último da realidade (metafísica) são substituídos por uma interpretação que se limita a descrever a dinâmica causal e contingente que rege a relação entre os fenômenos”. Fonte: adaptado de Sell (2012). EXPLORANDO IDEIAS 105 Em textos sobre a educação na universidade, por exemplo, o autor comparou o modelo chinês e o americano, destacando o quanto o modelo americano cami- nhava para uma educação em que os princípios administrativos se sobrepunham aos princípios pedagógicos, o que ele chamou de pedagogia do treinamento. Sua crítica se pautava na busca por títulos e qualificação formal, que, segundo ele, seriam geradas por tal burocratização. Já os chineses, mantinham o que Weber chamou de pedagogia do cultivo, pois era centrada no conhecimento clássico, em literatura e artes. Weber tinha uma ampla abordagem da educação, pensando para além da escola e dos pais e considerando também a educação religiosa, a educação carismática, a educação filosófica, a educação literária, a educação po- lítica e a educação especializada, além, é claro, da educação nos espaços formais. Na sociedade burocratizada, a dominação exercida pela escola e pelos pais não se basta apenas ao conteúdo formal, segundo Weber, estendendo-se também para outros meios, compondo a formação do caráter dos indivíduos/alunos. É por isso que o autor expressa sua crítica ao capitalismo, por ver que tudo foi sendo reduzido à busca por riqueza material e ascensão social. Neste ínterim a educa- ção funcionaria como um meio de manutenção de uma situação de dominação. UNICESUMAR UNIDADE 3 106 Weber criticava esses processos de racionalização, por ver que estes apri- sionam os indivíduos em processos técnicos sofisticados, mas com o fim em si mesmos, fazendo que com o tempo os indivíduos se tornassem máquinas cen- tradas em sua própria reprodução. Este processo foi notado pelo autor em várias instituições sociais, entre elas as escolas e os processos pedagógicos. Em Weber, observa-se que a pedagogia do treinamento é imposta pela racionalização da vida, com a finalidade de criar diversas possibilidades de desenvolvimento de competências e habilidades para a obtenção de poder e dinheiro. A racionalização, segundo o autor, é implacável e impossível de ser vencida, bem como a Educação especializada e a lógica do treinamento. Weber é conhecido pelo seu pessimismo ao afirmar que esse cenário representa o fim da possibilidade de desenvolver o talento do ser humano. Segundo Weber, a racionalização da educação tem propósito de restringir a oferta de pessoal para determinadas ocupações, como vemos no trecho abaixo: “ Quando ouvimos, de todos os lados, a exigência de uma adoção de currículos regulares e exames especiais, a razão disso é, decerto, não uma ‘sede de educação’, surgida subitamente, mas o desejo de restringir a oferta dessas posições e sua monopolização pelos donos dos títulos educacionais (WEBER, 1982, p. 232). Por produzir esse grupo privilegiado, a racionalização entra em contradição com a democracia. Desse modo, Weber aponta a existência de certa ambiguidade en- tre democracia e burocracia, uma vez que a burocracia carece do treinamento especializado, porém, a limitação das oportunidades torna esta antidemocrática. Sobre a prática professoral, Weber foi defensor da neutralidade. Partindo de uma análise sobre o pesquisador da sociedade, o autor sugere que os estudos sejam feitos de forma sistemática e de modo que suas conclusões possam ser aceitas ou refutadas considerando apenas o método empregado na análise. Em continuidade, Weber demonstra que não há, em matéria política e de convivência social, um ponto de vista privilegiado que pudesse justificar a superioridade do professor em relação aos alunos. Portanto, o autor sugere que ao falar para seus alunos, um professor deveria ter sempre o cuidado de explicitar quais de seus argumentos são puramente lógicos ou empíricos e aqueles que têm caráter valo- rativo, ou seja, partem de uma opinião pessoal. Segundo Weber: 107 “ O verdadeiro professor evitará impor, de sua cátedra, uma tomada de posição qualquer, seja abertamente, seja por sugestão – pois a maneira mais desleal é evidentemente a que consiste em ‘deixar os fatos falarem’ (WEBER, 2013, p. 46). Portanto, o autor afirma a completa impossibilidade de fazer do exercício da docência uma profissão de fé ou um palanque político. Para o autor, esse tipo de atitude transforma o professor em profeta e, o que é pior, em um profeta que se pronuncia em nome da ciência utilizando meios subjetivos (WEISS, 2014). Weber defende esse ponto de vista uma vez que reconhece que a posição do professor é privilegiada, no sentido de incutir nos alunos suas próprias concepções, e isto deve ser, severamente, repudiado. É importante, porém, contextualizar a crítica de Weber. Na época em que o autor escrevia, a educação alemã era dominada por uma visão do mundo em que o valor máximo era a obediência, sem possibilidade de crítica ou reflexão e in- fluenciada pelo antissemitismo e racismo, que possibilitou ao nazismo conquistar boa parte da população. Por isso, Weber defende a neutralidade, pois apresentadas todas as teorias, o aluno poderia ser capaz de construir um pensamento crítico sobre o que era apresentado e ser capaz de discriminar um discurso tendencioso e um discurso com base no conhecimento científico. Assim, este aluno estaria longe de poder ser doutrinado (QUINTILIANO, 2016). UNICESUMAR UNIDADE 3 108 Descrição da Imagem: a figura apresenta uma foto em preto e branco de Karl Marx. Nesta, está um ho- mem de cor clara, na faixa etária de cinquenta anos, cabelos de comprimento médio e fartos, grisalhos, barba e bigodes também de comprimento médio e fartos, grisalhos, cobrindo o pescoço e parte do rosto. Parcialmente calvo, com rugas, e um semblante sério. Ele está fotografado das coxas para cima, sentado em uma cadeira de madeira com estofamento de couro, postura levemente inclinada para a direita com o braço sobre uma mesa coberta por um tecido, olhando para a esquerda, e expressão séria. Suas mãos estão levemente fechadas, com os dedos indicadores parcialmente estendidos. Ele está vestindo um terno preto, camisa branca e calças pretas, que cobrem seu corpo, com exceção das mãos e da cabeça. Também está utilizando um colar, com uma lente pendurada ao peito. Figura 3 - Karl Marx / Fonte: Wikimedia Commons (1870, on-line). 109 Pensando a educação na sociedade de classes Caro(a) estudante, a terceira seção desta unidade é reservada para que conheça- mos a teoria e obra de Karl Marx (1818-1883), desse modo fecharemos o estudo sobre os três grandes clássicos da Sociologia. Estamos quase lá! Karl Marx nasceu em 1818, na Alemanha, acompanhou a evolução do indus- trialismo e das teorias sociais, assim como a internacionalização industrial, a ex- ploração de continentes e a consequente proliferação da desigualdade econômica. Neste processo, Marx percebeu que os sinais aparentes de miséria e sofrimento dos trabalhadores não eram casos isolados, mas faziam parte de um processo histórico que levava a burguesia à condição de classe dominante. Dessa forma Marx dedicou toda sua obra à compreensão e crítica ao Sistema Capitalista, e, por isso, mesmo não sendo um sociólogo de carreira, é considerado um autor clássico da Sociologia. O autor cursou Direito, era doutor em Filosofia e também exerceu a profissão de jornalista. Sua principal obra é O Capital (1867). Vale também ressaltar que seus estudos foram fruto de uma grande parceria com Friederich Engels (1820-1895). Marx estudou a sociedade com muito afinco, colaborando, assim, para o desenvolvimento da sociologia. O autor desenvolveu o que se conhece por Sociologia Materialista,adotando uma posição crítica na formação social UNICESUMAR UNIDADE 3 110 capitalista. A intenção do autor com essas críticas não era apenas contribuir para o desenvolvimento da Ciência, mas propor uma ampla transformação política, econômica e social. Dessa forma, Sell (2017) aponta o quanto Marx se esforçou para unificar sua teoria com a prática, assim, iniciamos pontuando o quanto a prática era parte indispensável das análises feitas pelo alemão. Assim como os demais clássicos da sociologia, o estudo de Marx foi cons- truído, devido às práticas e às necessidades políticas da sociedade de sua época, mas isso não impediu que este, posteriormente, fosse (e ainda é) frequentemente adaptado por outros autores para estudos de diversas realidades e contextos. Para compreender a sociedade capitalista, Marx achou por certo necessário desvendar o funcionamento da história humana desde os primórdios da civili- zação. Nesta investigação, a autor conclui que o motor da história é a luta de classes. Marx entendeu, portanto, o trabalho como central no desenvolvimento da sociedade, funcionando como mediador nas relações entre o Homem e a natureza e também dos Homens entre si. Desde o desenvolvimento de instrumentos de trabalho e a domesticação de animais, Marx notou como o trabalho atuou sempre no sentido da dominação do Homem sobre a natureza, o que ele chamou de desenvolvimento de forças produtivas. Também, para o autor, a união de vários indivíduos para o trabalho e a divisão destes em diferentes ‘setores’ foi responsável por moldar característi- cas muito importantes da sociedade. Outro fator que é somado nesta seara diz respeito às relações de propriedade, nesse sentido o autor observou que “nem sempre os homens que possuem os meios para realizar o trabalho trabalharam e nem sempre os que trabalham possuem esses meios” (RODRIGUES, 2001, p. 39). Assim, concluiu que a possibilidade de vender mão-de-obra (força de trabalho) por aqueles que não possuem os meios de produção funda a base da desigualdade uma vez que possibilita a dominação de um pelo outro. Desta forma, Marx notou que “as grandes transformações pelas quais passou a história da humanidade foram as transformações de um modo de produção a outro” (RODRIGUES, 2001, p. 40), iniciando pelo escravista, passando pelo feudal e chegando ao capitalista. De acordo com Marx, esses diferentes modos de produção abarcavam, também, diferentes modelos de sociedade, que sempre carregam classes com diferentes relações de propriedade (uma dominada e a outra dominante). Desse modo, constituiu-se a estratificação social. 111 A obra do filósofo alemão George Friederich Hegel (1770-1831) exerceu grande influência sobre a teoria desenvolvida por Marx, principalmente sua con- cepção de dialética, conceito fundamental para a compreensão da teoria de Marx. A intenção de Hegel, ao apresentar seu método dialético, era entender a his- tória como ‘movimento’, ao contrário do método metafísico que acreditava que a essência das coisas não se modifica. Para este filósofo, as coisas estão em contínua transformação (movimento) porque todo ser é, intrinsecamente, contraditório, ou seja, há um movimento de ideias, causado pela oposição ou contradição das ideias entre si. Hegel vai chamar esta ideia de princípio da contradição. Há, por- tanto, uma ideia (Tese) e a contradição desta (Antítese). Toda contradição, por sua vez, gera a necessidade de ser superada pela síntese (SELL, 2017). Esta é a base do idealismo dialético de Hegel. Marx, por sua vez, promoveu uma crítica ao método dialético de Hegel, mos- trando mais uma vez como sua crença era pela prática, pela realidade e pela materialidade. Segundo Marx, as bases do pensamento filosófico, no método de Hegel, seriam ideológicas (ou seja, baseadas em falsas representações do real). Portanto, Marx desejava fundamentar seu pensamento em pressupostos reais. Com isso, o autor afirmava que é a matéria que determina a consciência (ou o pensamento), invertendo o sistema hegeliano. O método de Marx funda-se na materialidade para interpretar a realidade. Tra- ta-se de descobrir, pelo movimento do pensamento, as leis que definem a forma organizativa das sociedades ao longo da história. Espera, desta forma, que a rea- lidade aparente seja superada, buscando-se a realidade concreta. Ainda assim, Marx não deixou de lado o mundo das ideias. O autor tentou explicar a consciência dos indivíduos a respeito do modo de vida e das relações entre as classes na so- ciedade em que viviam. Afirmando que a consciência estaria ligada às condições materiais de vida, Marx expandiu esse pensamento, afirmou que tais ideias e concepções não seriam reais, mas sim frutos de representações feitas a respeito da vida a partir de como as relações aparecem na experiência cotidiana, não cap- tando, assim, a essência das relações às quais os indivíduos estão submetidos. Vamos pensar sobre o que significa isso na prática? Um ótimo exemplo é dado por Rodrigues (2001): UNICESUMAR UNIDADE 3 112 “ Quando se estabelece na história uma determinada forma de divisão do tra-balho, quando ela se torna dominante e generalizada dentro de uma sociedade, ela estabelece o lugar de cada um den- tro do processo produtivo. Assim, as re- lações de propriedade vigentes, o poder político de certos grupos sobre outros e as formas de exploração do trabalho que uma determinada classe social consegue implantar numa determinada época his- tórica, estabelecem e determinam o que cada indivíduo está obrigado a fazer, o modo como está obrigado a trabalhar e viver (RODRIGUES, 2001, p. 42). Dessa forma, no modo de produção capitalista existem os burgueses, que possuem os meios de produção, e o proletariado, aqueles que não possuem alternativa a não ser vender sua força de trabalho para os burgueses em troca de um salário. Assim, no plano das ideias, isso é enxergado pela sociedade como natural, como única forma possível de viver. Já para Marx, essa sociedade foi, historicamente, construída pela luta de classes. Na luta de classes, por- tanto, o indivíduo não é espontâneo, mas influenciado pela sociedade, melhor dizendo, por uma parte (classe) da sociedade sobre a outra. Dessa forma, Marx acredita que as relações de dominação são, socialmente, construí- das, ou seja, não estão presentes desde que o mundo é mundo, e sim foram criadas pela luta de classes. Marx percebe que os indivíduos não possuem cons- ciência real da dominação que sofrem, pois aprendem do nascer ao morrer que se deve trabalhar para receber o salário e viver. É por isso que o autor afirma que os in- 113 divíduos só têm acesso às aparências, e não ao processo histórico real, uma vez que desconhecem sua própria dominação. Esta aparência seria imposta pela classe dominante por meio de uma ideologia, ou seja, a classe dominada é vítima de uma coerção tão bem arquitetada que parece, para esta, como natural. Esta é a grande diferença do modo de produção capitalista, para Marx, enquanto no modo escravista e no feudal a classe dominada sabia que estava sendo dominada, no capitalismo essa dinâmica é percebida como natural e justa. Para Marx, o modo de produção capitalista haveria de ser superado como foram os ou- tros, dando lugar a um sistema em que não haveria mais classes sociais, pois a divisão do trabalho seria abolida. Toda esta apresentação sobre a teoria de Marx é necessária para compreendermos a sua contribuição para a educação uma vez que o tema não ocupou um lugar central em sua obra, mas aparece articulado com o horizonte das relações socioeconômicas. Dessa forma, Marx não formulou uma teoria da educação, descreven- do métodos e diretrizes para o processo ensino-apren- dizagem, ainda assim, contribui com a discussão sobre o tema uma vez que remete a grandes reflexões sobre a sociedade e suas relações. A educação, na sociedade capitalista, seria, segundo Marx, um elemento de manutenção da hierarquia so- cial. Portanto,o ensino opera em um paradoxo, já que seria necessário um sistema educacional adequado para construir as mudanças sociais tão necessárias à sociedade capitalista, porém o sistema educacional só poderia ser adequado para este fim caso existissem mudanças sociais de forma geral na sociedade. UNICESUMAR UNIDADE 3 114 O que isso quer dizer? Que a educação seria uma grande aliada da construção de uma sociedade emancipada da dominação, mas, por estar contida neste sis- tema, não é capaz de produzir este resultado. O autor percebeu que o trabalho na sociedade capitalista transforma os indivíduos em seres unilaterais, ou seja, não possuem a oportunidade de desenvolver potencialidades intelectuais. Isso por conta do cotidiano difícil, da necessidade de trabalhar incansavelmente e repetitivamente para sobreviver materialmente. Assim como as classes sociais, a educação no capitalismo é dividida. Já na épo- ca das observações de Marx a burguesia guardava seus privilégios educacionais, enquanto os trabalhadores recebiam uma educação parcial de disciplinamento para as fábricas. Marx defendia a educação nas fábricas, pois via na conciliação entre o traba- lho manual e intelectual um grande avanço para a sociedade da época. Porém prezava pela educação politécnica, como uma forma de superar a unilateralidade dos trabalhadores e possibilitar que estes tivessem uma formação mais completa. Em 1866, Marx redigiu um documento para os delegados do Conselho Central Provisório do I Congresso da Associação Internacional dos Trabalhadores. Neste documento, o autor apontou sua sugestão para os conteúdos educacionais, que deveriam contemplar três dimensões: “ Primeiramente: Instrução intelectual.Segundo: Educação física, tal como é dada em escolas de ginástica e pelo exercício militar. Terceiro: Instrução politécnica, que transmite os princípios gerais de todos os processos de produção e, simultaneamente, inicia a criança e o jovem no uso prático e manejo dos instrumentos elementares de todos os ofícios (MARX, 1982, s.p). Caro(a) estudante, você consegue estabelecer um paralelo com a sociedade da época de Marx e a nossa? Imagine, aqui, as diferenças encontradas em termos de ofertas educacio- nais entre as classes mais abastadas e as menos favorecidas. PENSANDO JUNTOS 115 Marx acreditava, dessa forma, ser necessário romper com o indivíduo parcial, ou seja, transformar o indivíduo em um ser desenvolvido integralmente, unindo trabalho produtivo remunerado, formação intelectual, exercício físico e instrução politécnica, como forma de impulsionar a classe operária. Como já enfatizamos, a educação não foi tema central da obra de Karl Marx, deste modo, o que existem são muitas interpretações e alguns autores que se inspi- raram nas teorias de Marx para compor suas próprias obras. O que é importante enfatizar da leitura da sociedade feita por Marx neste contexto que estudamos é que, segundo sua célebre frase “[...] toda ciência seria supérflua se a forma de aparecimento e a essência das coisas coincidissem imediatamente” (MARX, 1985, p. 271). Dessa forma, podemos rememorar o que o autor considerava aparência, a representação que faz com que os dominados não enxerguem a dominação. Portanto, podemos considerar que, para Marx, a ciência poderia auxiliar na su- peração de tal aparência e expor a realidade. Um bom exemplo de autor que se aprofundou na obra de Marx para compor suas digressões sobre a educação é Louis Althusser (1918-1990). O autor analisa a educação enquanto um dos aparelhos ideológicos do Estado capitalista, responsável, portanto, por reproduzir as relações de produção. Dessa forma, a aprendizagem passaria aos alunos a ideologia da classe dominante. Outro autor marxista muito importante nos estudos sobre educação foi Anto- nio Gramsci (1891-1937), que via a escola enquanto um instrumento fundamen- tal de disputa por hegemonia, já que esta seria a formadora de hábitos e conti- nuadora da adaptação do indivíduo aos interesses da sociedade. Dessa forma, o autor partia da proposta de que a escola fosse além de seus objetivos primeiros e se relacionasse à luta pela igualdade social para superar as divisões de classe. Nesse sentido, o autor defendia que as classes subalternas não abrissem mão da educação formal já que, para enfrentar a luta pela hegemonia, precisam en- tender as formas de dominação a que estão submetidos, e isso só seria possível pelo acesso ao conhecimento historicamente produzido (SCHLESENER, 2016). Caro(a) estudante, nesta unidade, estivemos em contato com as principais referências da Sociologia Clássica. Esperamos que você possa ter compreendido a importância destes autores na construção de uma série de interpretações da sociedade e suas relações com o tema da educação. Os autores clássicos, Émile Durkheim, Max Weber e Karl Marx, são muito necessários, primeiro por terem se destacado já há muito tempo em suas teorias sobre a sociedade, e em segundo UNICESUMAR UNIDADE 3 116 lugar, por terem inspirado tantas autoras e autores, até hoje, a produzirem inter- pretações sobre o mundo em que vivemos. Ao tratar a educação moderna enquanto um fato social, um fruto da racionali- zação ou um instrumento de manutenção ideológica, notamos que ela é um compo- nente fundamental na constituição da sociedade. Cabe, ainda, analisar que a educação tanto constrói a sociedade, quanto, ao mesmo tempo, é construída por ela mesma. Os diferentes conceitos e as teorias aqui abordados pretendem fornecer uma base firme para a sua realidade enquanto educador tanto na compreensão crítica das relações sociais quanto na formação humanizadora, tão necessária para uma sociedade. Além disso, podemos aprender com eles, mais uma vez, a necessidade em se contextualizar as obras de cada autor, assim como contextualizar também a nossa prática docente. Por isso, do mesmo modo que o conhecimento filosófico e histórico, o conhecimento sociológico se faz fundamental para a formação dos educadores, especialmente no que tange os fundamentos da educação. Todos os temas abordados pelos autores clássicos que aqui buscamos elen- car são ainda muito frutíferos na investigação do papel da escola e da educação, como você verá no decorrer deste livro. Assim, esperamos que os conteúdos aqui abordados também possam auxiliá-lo(a) na construção de métodos educacionais que busquem superar as dificuldades impostas pela prática escolar. 117 1. Leia o texto a seguir: Durkheim parte da noção de dualidade do ser humano. Na perspectiva durkheimiana, existe em cada um de nós dois seres. Um constituído de estados mentais que não se relacionam senão conosco: é o ser individual. O outro, expressão de ideias, hábitos e sentimentos coletivos: é o ser social. Se aquele é natural, este só pode se desenvolver em sociedade, sendo a educação responsável por edificar esse novo ser. Todavia a educação não se reduz ao mero adestramento, pois não se trata simplesmente do “desenvolvimento de certos instintos adormecidos”, mas de um processo de criação cujo objetivo é gerar um ser totalmente novo VARES, S. F. de. A Educação como Fato Social: uma análise sobre o pensamento pedagógico de Durkheim. Revista Educação (UNG), Guarulhos, v. 6, n. 1, p. 32, 2011. Com base no texto apresentado e nos conhecimentos adquiridos, avalie as afirma- ções a seguir, atribuindo (V) para o que julgar verdadeiro e (F) para o que que julgar falso: ( ) Durkheim contrariava qualquer dogma pregado pelas religiões, considerando que todos seus ensinamentos deveriam ser descartados em favor da ciência e da moral racional. ( ) O objetivo da educação seria, para Durkheim, excluir todas as características do ser individual, moldando todos com os mesmos métodos a fim de que se tornem seres sociais. ( ) A teoria durkheimiana acredita que a necessidade em se moldar o ser social dá-se pelo fato de que humanos vivem em sociedades complexas, em que a vida social só é possível se cumpridas as normas determinadas.Assinale a alternativa correta. a) V, V, F. b) F, F, V. c) V, F, V. d) F, F, F. e) V, V, V. 118 2. Leia o texto a seguir: Se em Marx a educação pode oprimir ou emancipar o indivíduo (no sentido de ‘liber- tação’); em Durkheim, a educação é o mecanismo pelo qual ele se torna membro de uma sociedade (se torna ‘um ser novo’). Weber vai mais longe: a educação é fator de seleção e de estratificação sociais. LOPES, P. C. Educação, Sociologia da Educação e Teorias Sociológicas Clássicas: Marx, Dur- kheim e Weber. Lisboa: Biblioteca Online de Ciências da Comunicação, [s. d.]. Considerando as diferenças entre os três autores clássicos da Sociologia, descreva brevemente em um texto dissertativo de 5 a 10 linhas, o centro da teoria sociológica de cada um deles. 3. Leia o texto a seguir: O ensino aparece como instrumento para a reprodução do conhecimento mas também na possibilidade de colocá-lo a serviço da transformação da sociedade e do mundo. Eis o aspecto de seu caráter revolucionário. A abolição da divisão do trabalho visava em Marx, romper com um tipo de educação que reproduza esta divisão, como a formação pelo treino, pelo trabalho produtivo, do conformismo e de uma pedagogia da obediência. SILVA, J. A. M. AMORIM, W. L. Estudo de Caso: O pensamento sociológico de Max Weber e a Educa- ção. Revista Interdisciplinar Científica Aplicada, Blumenau, v. 6, n. 1, p. 100-110, 2012. Com base no excerto apresentado e seus conhecimentos sobre a teoria de Karl Marx, é correto o que se afirma em: a) A estratificação, segundo Karl Marx, seria benéfica para a sociedade uma vez que, assim, os indivíduos podem desempenhar sua função natural na vida b) Como retratado no trecho apresentado, Marx era contra o trabalho nas fábricas, desse modo o autor defendia que a educação para a classe trabalhadora fosse apenas intelectual c) Para Karl Marx, a sociedade capitalista tem a escola como grande inimiga, uma vez que esta opera em uma lógica diferente do resto do sistema e possui com- promisso com a ideologia dos dominados d) A divisão da educação, constatada por Marx, não faz mais sentido atualmente uma vez que todas as classes têm acesso igual às oportunidades e à educação e) De acordo com a teoria marxista, a educação na sociedade capitalista tende a reproduzir as relações sociais e as ideologias da classe dominante. 119 4. Leia o texto a seguir: A burocratização do capitalismo, com sua exigência de técnicos, funcionários, prepa- rados com especialização etc., generalizou o sistema de exames por todo o mundo. Acima de tudo, a evolução é muito estimulada pelo prestígio social dos títulos edu- cacionais, adquiridos através desses exames. É ainda mais o caso quando o título educacional é usado com vantagem econômica WEBER, M. Ensaios de Sociologia. 5. ed. Tradução de Waltensir Dutra. Rio de Janeiro: LTC, 1982, p. 278. De acordo com o trecho apresentado e os conhecimentos adquiridos sobre Max Weber, analise as proposições a seguir: I - Para Weber, nas sociedades modernas, a Educação funciona como uma espécie de treinamento para habilitar o indivíduo a realizar tarefas específicas. II - Segundo Max Weber, a sociedade moderna baseia seu sistema educacional em crenças e tradições que remetem à religião, num processo chamado burocratização. III - A racionalização da educação, descrita por Weber, seria uma ameaça para a manutenção do capitalismo. IV - Na pedagogia do treinamento, descrita por Weber, o objetivo da educação seria a busca por títulos e qualificação formal. É correto o que se afirma em: a) I e II, apenas. b) I e IV, apenas. c) IV, apenas. d) II, III e IV, apenas. e) I, II e III, apenas. 5. Leia o texto a seguir: A suspensão das provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) em razão do es- tado de calamidade pública, provocado pela pandemia do coronavírus, foi aprovada nesta terça-feira (19), no Plenário virtual do Senado, por 75 votos a 1. A matéria segue, agora, para análise da Câmara dos Deputados. [...] Para Daniella Ribeiro, senadora responsável pela proposta, o adiamento do Enem 2020 impedirá a concorrência des- leal entre candidatos que não têm as mesmas oportunidades de acesso à internet, especialmente entre estudantes das redes pública e privada de ensino 120 AGÊNCIA SENADO. Senado aprova adiamento do ENEM 2020; matéria vai à Câmara. Senado No- tícias, 19 maio. 2020. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2020/05/19/ senado-aprova-adiamento-do-enem-2020-materia-vai-a-camara. Acesso em: 16 maio. 2022. Considerando o exposto, no que se refere ao adiamento do Enem 2020 em função da pandemia do coronavírus (covid-19), avalie as afirmativas, no que se refere às possíveis análises e reflexões dos autores clássicos da sociologia e assinale a correta: a) Uma vez que a educação, para Durkheim, é um fato social que obedece ao re- quisito da generalidade, ou seja, ser direito geral de todos, sua teoria poderia ter sido usada para defender o não adiamento do Enem 2020. b) Em um ponto de vista diferente da autora da proposta no Senado, seria possível fazer uso da teoria de Karl Marx para defender o adiamento do Enem 2020, uma vez que, para o autor, a educação formal deveria ser abolida. c) Weber poderia ser acionado pela autora da proposta de adiamento do Enem 2020, já que, para o autor, a educação auxilia na formação de uma classe privi- legiada por vantagens econômicas e sociais, em consonância com o argumento usado pela senadora. d) Usando um argumento weberiano, poderia se dizer que, a decisão do adiamento ou não do Enem 2020 deveria ser tomada pelos professores, já que estes detêm conhecimento e poder legítimo para sobrepor a opinião dos alunos. e) Não é possível aplicar a teoria dos autores clássicos da sociologia nesse caso, pois eles são muito antigos e suas teses já foram todas descartadas. 4Perspectivas Antropológicas como Instrumentos para a Educação Me. Cassiano Lucas Silva Carvalho Me. Daiany Cris Silva Me. Milena Cristina Belançon Você estudará nesta unidade: • A antropologia e o olhar sobre o outro • A importância da etnografia para a compreensão da realidade social • A prática docente orientada pelo fazer etnográfico. UNIDADE 4 122 Prezado(a) estudante, o surgimento da Antropologia como ciência é resultado das reflexões incentivadas por uma sociedade que buscava compreender melhor a si mesma e as suas possibilidades como uma construção coletiva. Tendo em vista esse movimento da investigação científica de meados do século 19 e início do século 20, apresentaremos nessa unidade o contexto de consolidação da An- tropologia como disciplina. Portanto, nosso objetivo é demonstrar que a Antro- pologia consiste em um dos Fundamentos da Educação, do mesmo modo que a História, a Filosofia e a Sociologia. Leia com atenção, e anote seus pensamentos no seu Diário de Bordo. Bons estudos! DIÁRIO DE BORDO 123 Caro(a) estudante, neste momento dimensionaremos o histórico do surgimento da antropologia e a definição do seu objeto de estudo, a cultura. Nesse sentido, convém analisar as principais correntes de pensamento teórico clássico, respon- sáveis pela consolidação da antropologia como ciência. É importante ressaltar também que a antropologia nos incentiva a pensar o outro, aqueles que vivem sob uma lógica de vida diferente da nossa por possuírem outros hábitos e costumes culturais. O que é cultura? Como a cultura se constrói entre as nações humanas? Quais são as diferentes formas de significar a vida em sociedade? Poderíamos apontar essas questões como as que, primordialmente, condu- ziram o surgimento e a consolidação da antropologia como uma ciência sobre a humanidade que, inicialmente, ao centrar o seu objeto de estudo em sociedades ditas primitivas. Com organização “simples” e localizadas em ilhas “exóticas”, a Antropologia despertou uma nova maneira de pensar a ciência sobre as relações humanas, definiu que poderíamos melhor compreender o funcionamento de nossa própria sociedadese tivéssemos contato com povos que vivem sob uma lógica distinta da nossa. Para que esta compreensão fosse passível, definir um conceito de cultura e estabelecer metodologias para estudá-la se tornaria, então, o passo inicial para o desenvolvimento de teorias antropológicas. Na atualidade, A antropologia e o olhar sobre o outro UNICESUMAR UNIDADE 4 124 este campo de estudos se concentra em estudar todas as sociedades humanas, incluindo a que vivemos, com sistemas sociais mais complexos. Esta diferenciação entre sociedades “simples” e “complexas” é a herança que os primórdios da antropologia nos deixaram para classificar as diferentes expressões culturais. Talvez, seja por isso a recorrência ao tratar a cultura como um sinônimo de eruditismo, sendo o conhecimento formal relativo a possuir mais “cultura”. Você, caro(a) estudante, já deve ter se referido, ou ouviu alguém se referir a uma pessoa que possui hábitos qualificados como refinados pela nossa sociedade, como o gosto por música clássica, conhecimento sobre iguarias gastronômicas ou leitores de filosofia e literatura estrangeira, como pessoas que possuem cultu- ra? Pois é, muitos relacionam cultura à sofisticação. Mas será que é isso mesmo? O antropólogo brasileiro Damatta (1981) ressalta que tendemos a utilizar a palavra cultura como forma de discriminação e distinção de vivências humanas: “ Cultura é uma palavra usada para classificar as pessoas e, às vezes, grupos sociais, servindo como uma arma discriminatória contra algum sexo, idade (‘as gerações mais novas são incultas’), etnia (‘os pretos não tem cultura’) ou mesmo sociedades inteiras, quando se diz que ‘os franceses são cultos e civilizados’ em oposição aos ame- ricanos que são ‘ignorantes e grosseiros (DAMATTA, 1981, p. 1). Nesse sentido, a cultura seria um categorizador de hábitos mais ou menos civi- lizados, o que significa que há pessoas que possuem mais cultura do que outras. Isso poderia nos levar a pensar que os mais ricos são mais cultos do que os mais pobres, por exemplo, logo, devem permanecer dominantes nas instâncias de po- der por possuírem conhecimentos mais racionais. Perceba que, no senso comum, o uso do termo cultura é classificatório, por- tanto, colabora na distribuição de poder entre as diferentes condições humanas. Porém o que os estudos antropológicos nos mostram é que, quando falamos de cultura, nos referimos a um conceito que interpreta a vida social. Portanto, para nós, antropólogos(as), possuir cultura não é estabelecer hierarquias de civilidade, mas compreender o modo de vivência coletiva entre grupos, povos e nações, e essa compreensão não deve estabelecer qualificações que consideram determi- nadas culturas mais desenvolvidas que outras. 125 Compreende-se, portanto, que investigar quais são “as regras que formam a cultura (ou a cultura como regra) é algo que permite relacionar indivíduos entre si e o próprio grupo com o ambiente onde vivem” (DAMATTA, 1981, p. 2). Ou seja, se conseguimos captar como a cultura de determinado grupo/povo/nação se constrói e como as pessoas que fazem parte de sua construção significam os acontecimentos em sua vida os processos sociais, temos a possibilidade de ava- liar as relações estabelecidas nessa sociedade que se solidificam em torno desse conjunto de regras. Perceba, caro(a) estudante, que utilizamos muitas aspas na escrita deste texto, faze- mos isso pois, quando falamos de antropologia não devemos lidar com ideias gene- ralistas, como a noção de “civilidade” ou a expressão “possuir cultura”, muito menos podemos afirmar que há sociedades mais “simples” e outras mais “complexas” como se houvesse hierarquias entre os diferentes sistemas sociais. Realizar afirmações como essas nos colocaria em posição contraditória e incoerente em detrimento do olhar orientado sobre o outro que as teorias antropológicas pretendem nos ensinar. Retomemos o conceito de cultura cunhado pela antropologia. A questão que se coloca neste momento é: Como se faz possível uma ciência que se dedica a estudar fenômenos tão complexos, variáveis e imprevisíveis? Pois, diferentemente das ciências naturais em que a matéria-prima de seus estudos são eventos isolados e fatos simples, recorrentes e passíveis de reprodução em situações de laboratório, por exemplo, em que se pode comprovar e repetir um mesmo teste inúmeras vezes, nas ciências sociais não podemos controlar as ações humanas nem mesmo conseguimos reproduzi-las a fim de testá-las. Os elementos da cultura de uma dada sociedade, relações de parentesco, hierarquias sociais e instâncias de poder, religiosidade, rituais, mitos e ditos po- pulares, entre outros eventos que estão bem perto de nós, que nos pertencem, integralmente, como sociedade, são o objeto de estudo da antropologia e o pro- Cultura é, em Antropologia Social e Sociologia, um mapa, um receituário, um código atra- vés do qual as pessoas de um dado grupo pensam, classificam, estudam e modificam o mundo e a si mesmas. Fonte: Roberto Damatta (1987). PENSANDO JUNTOS UNICESUMAR UNIDADE 4 126 blema não está no fato de que não conseguimos reproduzi-los ou testá-los, mas como devemos observá-los (DAMATTA, 1987). Para entender a maneira que a antropologia encontrou para se observar as culturas e todos os seus elementos, faremos o mesmo caminho que o antropólogo brasileiro Roberto Damatta propôs em um texto introdutório clássico das Ciên- cias Sociais que se chama “Relativizando: uma introdução à antropologia social” (DAMATTA, 1987), somando considerações sobre os principais movimentos teó- ricos da disciplina. O autor destaca que há três grandes “antropologias” no caminho de consolidação científica desta área de estudo, a primeira é a Antropologia Biológi- ca ou Física, que estabelece classificações entre as “raças humanas” baseadas na na- tureza; seguida da Antropologia Geral, que pode ser representada pela Arqueologia e os estudos de sociedades do passado e; a Antropologia Social (ou Cultural), que também pode ser chamada de Etnologia, é a versão moderna da disciplina, em que se considera que a humanidade não é só produto de cultura, mas que também a produz. Esse campo de estudos nos permite compreender a visão humana sobre o conjunto de regras e costumes que nos orientam socialmente. 127 A antropologia biológica (ou física) A Antropologia Biológica trata das relações da natureza com o desenvolvimento da vida humana. Nesse campo de estudos, o natural é anterior ao biológico e ao social, o que significa que existe uma ordem de evolução que é, previamente, estabelecida pela natureza. Desta forma, a nossa biologia é constituída por essa ordem natural que acaba por determinar a nossa organização social. Esta lógica científica pode dar a entender que há uma natureza humana que é universal. “O estudo da Antropologia Biológica, situa a questão de uma consciência física do estudo do Homem. Ela remete aos parâmetros biológicos de nossa exis- tência, revelando como estamos ligados ao mundo animal e aos mecanismos básicos da vida no planeta” (DAMATTA, 1987, p. 35). O movimento intelectual que pode representar esse campo da antropologia é o das teorias evolucionistas, que possuem uma perspectiva muito simplista da evolução da humanidade, evo- lução esta que se daria em etapas, primeiro pelo desenvolvimento físico, depois o desenvolvimento social: “primeiro grito, depois a fala. Primeiro o indivíduo, depois o grupo” (DAMATTA, 1987, p. 34). UNICESUMAR UNIDADE 4 128 Lewis Henry Morgan (1818-1881), Edward Burnett Tylor (1832-1917) e James George Frazer (1854-1941) são os principais autores das teorias evolu- cionistas, que também podem ser nomeados como os “fundadores” da antro- pologia, dado que os primeiros estudos de grande relevância na área foram de sua responsabilidade. A pesquisa de Morgan sobre as linhas de parentesco entre povos originários da América, publicada em 1871, chama-se “Sistemas de consanguinidade e afini- dade da família humana” emarcou os estudos acerca dos sistemas de parentesco na antropologia. Nessa obra, Morgan conclui que haveria apenas “dois sistemas de terminologia de parentesco, fundamentalmente, diferentes: um descritivo (do hemisfério sul, tropical e claramente não-europeu) e outro classificatório (da Europa e do noroeste asiático)” (CASTRO, 2005, p. 6). Morgan acreditava que nos “sistemas classificatórios, que eram, de um lado, característicos de povos não civilizados e, por outro lado, eram mais artificiais, mais elaborados e mais distantes da natureza da descendência do que os siste- mas descritivos dos povos ‘civilizados’” (ALMEIDA, 2010, p. 311). Em síntese, as contribuições de Morgan versavam sobre o desenvolvimento da luta pela sobre- vivência da humanidade. O autor destacou um processo progressivo de evolução que passava por, basicamente, três estágios: selvageria, barbárie e civilização. Veja, no quadro a seguir, apresentado pelo autor para entender como cada estágio se localiza no processo de evolução da humanidade: Períodos Condições Período Inicial da selvageria Status inferior de selvageria. Da infância da raça humana até o começo do próximo período. Período Intermediário de Selvageria Status intermediário de Selvageria. Aquisição de uma dieta de subsistência à base de peixes. Período final de Selvageria Status superior de selvageria. Invenção do arco-e-flecha. Período Inicial da Barbárie Status inferior da Barbárie. Invenção da arte da cerâmica. 129 Períodos Condições Período Intermediário da Barbárie Status intermediário da barbárie. Da domes- ticação de animais no hemisfério oriental e ocidental, do cultivo irrigado de milho e plantas, com uso de tijolos de adobe e pedras. Período final da Barbárie Status superior da barbárie. Invenção do pro- cesso de fundir minério de ferro, com o uso de ferramentas de ferro. Status de Civilização Invenção do alfabeto fonético, com o uso da escrita, até o tempo presente. Quadro 1- Quadro do Processo de Evolução Progressiva / Fonte: Castro (2005, p. 28). Em síntese, a selvageria trata das descobertas tecnológicas para a alimentação, o manuseio do fogo e a criação de instrumentos e ferramentas. Já a barbárie se refere ao momento em que a humanidade constitui a agricultura, moradias fi- xas, utensílios de cerâmica e a domesticação de animais e, por fim, a civilização, fase que vivenciamos na atualidade, surge da criação da linguagem e escrita que constitui novos moldes de relação social e proporciona a criação de mecanismos de organização social e proteção da propriedade privada, o que constitui o estado moderno, as instituições sociais e outros elementos mais “sofisticados” da cultura. E o nosso outro autor evolucionista, Tylor, com o objetivo de organizar as descober- tas da humanidade, durante a evolução, por meio da leitura de pesquisas arqueoló- gicas da pré-história, publicou, em 1865, a obra Pesquisas sobre a Antiga História A obra de Charles Darwin (1809-1882) Sobre a Origem das Espécies por meio da Seleção Natural, publicada em 1872, foi uma importante influência para as teorias evolucionistas na antropologia. Os antropólogos evolucionistas, ao passo que buscavam compreender as descobertas tecnológicas da humanidade, analisavam o surgimento das primeiras or- ganizações e instituições sociais. Fonte: as autoras. EXPLORANDO IDEIAS UNICESUMAR UNIDADE 4 130 da Humanidade e o Desenvolvimento da Civilização. Esse texto culminou em seu trabalho mais relevante: “Cultura primitiva: pesquisas sobre o desenvolvimento da mitologia, filosofia, religião, linguagem, arte e costume”, publicado em 1871, no qual o autor deu-nos a primeira definição antropológica de cultura: “ Cultura ou Civilização, tomada em seu mais amplo sentido etno-gráfico, é aquele todo complexo que inclui conhecimento, crença, arte, moral, lei, costume e quaisquer outras capacidades e hábitos adquiridos pelo homem na condição de membro da sociedade. (CASTRO, 2005, p. 8). Usando os termos cultura e civilização como sinônimos, Tylor defendia que haveria um “descompasso entre configurações culturais avançadas e atrasadas, convivendo numa mesma sociedade, que dentro de uma linha de continuidade do processo de civilização, se apresentam como sobrevivências” (MATIAS, 2008, p. 5). Sobre o Etnocentrismo, é importante pontuar que a teoria evolucionista contribuiu muito para que uma visão etnocêntrica de cultura fosse erradicada pelo mundo, o etnocentrismo que em um sentido mais amplo pode possuir dois sentidos, um primeiro que se faz em uma certa “cegueira para diferenças culturais, a tendência de pensar e agir como se elas não existissem. No segundo sentido, refere-se aos julgamentos negativos que membros de uma cultura tendem a fazer sobre todas as demais” (JOHNSON, 1997, p. 102). Quanto a James Frazer, a sua obra de destaque é O Ramo de Ouro, publicada em 1890. O autor tinha como objetivo compreender um tema da mitologia clás- sica “[...] a regra para a sucessão do sacerdócio no templo do bosque de Nemi, perto de Roma” (CASTRO, 2005, p. 10). Por meio da análise desse tema e tantos outros que versavam seus estudos sobre religiosidade, a proposta do antropólogo possui um caráter processual de análise, apresentando semelhanças às teorias de Morgan e Tylor. Frazer, “[...] visa descobrir as leis gerais que regulavam a história humana no passado e que, se a natureza for realmente uniforme, é de se esperar que a regulam no futuro” (FRAZER, 1908 apud CASTRO, 2005, p. 104). Frazer, Tylor e Morgan têm em comum a perspectiva de que o desenvolvi- mento das sociedades humanas possui um fluxo processual e por meio da análise do nosso desenvolvimento em diferentes momentos da história e em sua diversi- dade de regiões e manifestações culturais, a humanidade constrói a evolução dos 131 processos sociais. Em síntese, a teoria evolucionista nos diz que há uma espécie humana que é universal em todo o mundo, tanto quanto à organização econômi- ca quanto em aspectos culturais e sociais. Isso significa que, ao redor do mundo, a humanidade se desenvolve “em ritmos desiguais, de acordo com as populações, passando pelas mesmas etapas, para alcançar o nível final que é o da ‘civilização’” (LAPLANTINE, 2003, p. 49). No Brasil, as teorias evolucionistas também surtiram alguma repercussão, e o antropólogo maranhense Raimundo Nina Rodrigues pode ser apontado como o principal representante desta influência evolucionista na ciência brasileira. Ele possui entre as suas principais obras Os Africanos no Brasil, publicada em 1932, e As Raças Humanas e a Responsabilidade Penal no Brasil, publicada em 1894. Em uma considerável produção sobre a formação da sociedade brasileira o antro- pólogo cunhou o que chamamos de teoria das três raças, pois acreditava que seria preciso definir e diferenciar as raças puras primitivas: a branca, a negra e a ver- melha, das raças cruzadas, as mestiças. O autor acrescenta, ainda, que nenhuma raça mestiça poderia figurar ao lado delas, pois se encontravam em transição e até poderiam desaparecer (NEVES, 2008, p. 246). O desejo pelo desaparecimento da mestiçagem configura o teor eugenista da obra de Nina Rodrigues. Sobre a Eugenia, Neves (2008) afirma que o termo Eugenia foi cunhado por Francis Galton, primo de Charles Darwin, em 1883. Seria para ele a ciência do melhoramento da hereditariedade humana, ou seja, para estudiosos eugenistas existe uma raça humana superior, e pela ciência seria possível uma “purificação das raças” para manter esse gene superior como majoritário. Nina Rodrigues foi um importante referencial na medicina legal brasileira, no início do século XX, e colaborou na construção da visão que considera a inferioridade de algumas raças sobre outras, no caso, entre brancos e negros. O autor colocava-se desfavorável à mestiçagem no Brasil: “ Nina Rodrigues considerava algumas raças inferiores a outras e era contra a mestiçagem que, em suas próprias palavras, apenas “retar-dava aeliminação do sangue branco”. Embora, de um modo geral, considerasse a raça negra inferior à branca e nociva como elemento étnico na formação do povo brasileiro, admitia que essa nocividade poderia se manifestar em diferentes graus, conforme a procedência dos africanos (NEVES, 2008, p. 257). UNICESUMAR UNIDADE 4 132 A antropóloga Marilyn Strathern (2014), ao analisar a obra de James Frazer, pro- põe a seguinte reflexão sobre a teoria do autor, que acreditamos que pode ser estendida em alguma medida para compreender a contribuição da teoria evolu- cionista como um todo na antropologia. Segundo a autora: “ Frazer não se referia à comparação entre sistemas sociais, mas à reu-nião de diversos costumes de modo a lançar luz sobre um conjunto particular deles. Pode-se lançar luz a partir de qualquer direção – as crenças e práticas de qualquer lugar do mundo iluminarão as que estiverem sendo estudadas e mostrarão possíveis antecedentes ou uma tendência de que as pessoas pensem da mesma forma em todos os lugares (STRATHERN, 2014, p. 168). O que a antropóloga busca ressaltar é que, apesar das teorias evolucionistas possuírem certa influência na disseminação de ideias racistas e etnocêntricas, em suma, o seu fazer antropológico deu-nos um roteiro de análise que é muito importante para a antropologia até os dias atuais, que é o de lançar luz sobre a diversidade de vivências culturais e, por meio disso, compreender como nós construímos como pessoas em qualquer lugar do mundo. 133 A antropologia geral ou arqueologia Você, caro(a) estudante, já se perguntou se para haver cultura é preciso haver sociedade? Claramente, em algum momento, alguma organização social deverá existir para que se forme um sistema cultural, o que não significa que quando houver a extinção de uma dada sociedade o seu material cultural é, automatica- mente, extinguido. A arqueologia é o campo de estudos na antropologia que nos mostra como isso é possível. “ A Antropologia Geral diz respeito ao estudo do homem no tem-po, através dos monumentos restos de moradas, documentos, ar-mas, obras de arte e realizações técnicas que foi deixando no seu caminho enquanto civilizações davam lugar a outras no curso da história. Essa esfera do trabalho é conhecida como arqueologia [...] (DAMATTA, 1987, p. 28). UNICESUMAR UNIDADE 4 134 Ao desencavar e colecionar artefatos, instrumentos, ferramentas e objetos ma- teriais que datam milhares de anos, os arqueólogos possuem em suas mãos bens culturais que contam a história de um sistema social já desaparecido. Por meio da análise e catalogação desses elementos, a arqueologia consegue nos contar quais eram as características da cultura de determinado povo que já não existe mais na atualidade. Machu Picchu, a cidade dos Incas no Peru, é um dos grandes exemplos de como a cultura pode permanecer presente mesmo que sua sociedade já não exista mais. Próximo de Cusco, a antiga capital do império Inca, Machu Picchu, testemunha a existência dos Incas, que perdurou entre 1200 e 1550. Esse sítio arqueológico revela nuances da organização política, econômica e cultural de toda uma civilização. A arqueologia é um grande instrumento para os estudos antropológicos, uma vez que nos permite conhecer nossas manifestações culturais do passado, o que é uma boa maneira de avaliar como a humanidade se comporta em todas as suas dimensões, períodos da história e contextos sociais. 135 A antropologia social ou etnologia A Antropologia Social (ou Cultural) caracteriza-se pelo “estudo da humanidade como produtora e transformadora da natureza. E muito mais que isso: a visão humana enquanto membro de uma sociedade e de um dado sistema de valores” (DAMATTA, 1987, p. 32). Esse campo de estudos se diferencia dos demais por reconhecer que o âmbito social e cultural possuem impactos significativos e são dotados de realidade, regras e possuem uma dinâmica própria, que não é tão dependente da natureza, como durante anos se acreditou. Na Antropologia Social ou Cultural, nossos estudos são baseados em textos des- critivos, que possuem detalhes da organização social de um grupo/ povo/nação. Chamamos, também, a ciência que produz esse material de etnologia, que é o estudo da cultura, que só é possível por meio da principal técnica de pesquisa na antropologia, a etnografia. Por meio da etnografia, convivemos com as sociedades que estudamos, escrevemos sobre as suas culturas e registramos em textos acadê- micos nossas análises acerca dos temas que nos dedicamos a estudar. Esse texto final de apresentação dos resultados de pesquisa é um estudo etnológico, que se UNICESUMAR UNIDADE 4 136 constitui do processo de análise científica e mobilização de conceitos teóricos da antropologia. Há muitos estudiosos que nos diferenciam das outras áreas das ciências sociais, por meio desse método, pois os antropólogos(as) seguem esse roteiro básico de pesquisa, convive-se com as culturas que se estuda, descrevem-se e interpretam-se o que se observa em campo, o que chamamos de realizar uma etnografia e, depois, ao registrarmos nossas interpretações em textos acadêmicos, chamamos de estudos etnológicos. Nas palavras de Johnson (1997, p.101) a Etnologia (ou Etnografia) pode ser definida como: “ [...]uma explicação descritiva da vida social e da CUL-TURA em um dado SISTEMA SOCIAL, baseada em observação detalhada do que as pessoas de fato fazem. Constitui um método de pesquisa associado principal- mente a estudos antropológicos de sociedades tribais, mas é também muito usado por sociólogos, sobretudo em relação a grupos, organizações e comunidades que são parte de sociedades maiores e mais complexas tais como hospitais, bairros étnicos, gangues urbanas e cul- tos religiosos (JOHNSON, 1997, p. 101). O que todas essas “antropologias” nos informam, ao indicar os ca- minhos de consolidação teórica da disciplina, é que a “antropologia se ocupa dos seres humanos como produtos da vida em sociedade” (BENEDICT, 1983, p. 13), o que significa que nenhuma de nossas per- cepções, nossas crenças e nossos valores são naturais, mas sim cons- truções sociais e culturais muito bem solidificadas pelas gerações. Em síntese, este campo de estudos incentiva-nos a abrir o nos- so olhar sobre a diversidade de vivências que existem ao redor do mundo e, diante disso, nos possibilita que percebamos que o “outro” e o “desconhecido” pode nos informar sobre como a vida humana é plural em possibilidades e, até mesmo, por meio disso, elaborar novas concepções de mundo, diminuir preconceitos e produzir me- lhor compreensão sobre as pessoas que estão à nossa volta e sobre a nossa própria vida cotidiana. 137 A importância da etnografia para a compreensão da realidade social Caro(a) estudante, neste momento, conheceremos as correntes de pensamento na antropologia e a maneira com que o principal conjunto de autores clássicos da disciplina contribuem para que compreendamos melhor a nossa realidade social, em sua diversidade de culturas pelo mundo, principalmente, quanto às primeiras investigações antropológicas entre os povos originários da América e Oceania. A antropologia, desde as suas primeiras tentativas de explicar as nossas cons- truções culturais, contribuiu, significativamente, para que pudéssemos com- preender melhor a nossa realidade social. Até mesmo as teorias evolucionistas, que, embora tenham colaborado para reafirmar visões de mundo racializadas e hierárquicas, ainda assim, contribuíram para que as ciências como um todo se atentassem para o quanto o estudo das complexidades do desenvolvimen- to humano, no sentido abstrato de suas subjetivações e colaborações coletivas, são importantes de serem considerados, cientificamente. A cultura e a sociedade passam, nesse momento, a se legitimar como meios constitutivos da vida junto da natureza, que já não é mais um elemento único para se pensar a humanidade. UNICESUMAR UNIDADE 4 138 Por ser tão complexa e plural, consideramos,que há diversas correntes teóri- cas na antropologia que contribuíram para que esse olhar atento à realidade social possa ser consolidado. Primordialmente, surgem a antropologia cultural e a an- tropologia social que, em contraposição ao evolucionismo, buscam questionar as determinações hierarquizadas impostas sobre a análise antropológica até então. E como esses campos de estudos nos proporcionaram esses questionamentos? Há uma palavra muito importante para a antropologia que é relativizar. A relati- vização nos estudos antropológicos é quando consideramos os contextos que a cultura possui para a sua construção. Este movimento de relativização é essencial para que haja uma valorização genuína das mais diversas expressões culturais. Relativizar, em antropologia, é estar atento às diversidades e peculiaridades que cada cultura possui, e este olhar relativizado para a cultura do outro pode evitar a uniformização etnocêntrica das características culturais nas relações humanas, em diferentes regiões do mundo. A relativização é um conceito significativo para a antropologia e nos ensina muito sobre como podemos lidar com diversas situações na nossa vida cotidiana, como docentes, por exemplo. Relativizar pode favorecer para que o nosso trabalho seja orientado pela diversidade de possibilidades que o corpo discente e a comunidade escolar podem nos proporcionar. Saber relativizar na escola, ou seja, levar em conta diferentes perspectivas e seus contextos, possibilita um trabalho que objetiva a ação educacional situada à realidade social. Para que você, caro(a) estudante, compreenda melhor como esse e outros conceitos da antropologia, principalmente em sua metodologia, a etnografia, pode colaborar para melhor dimensionar a realidade social que estamos imersos, apresentaremos as principais correntes teóricas e os trabalhos etnográficos que marcaram a antropologia clássica. A Antropologia Cultural é corrente teórica que cunhou o movimento de relativização na antropologia, o que nós chamamos de relativismo cultural ou culturalismo. Como um dos maiores representantes desse campo de estudos temos o seu precursor Franz Boas (1858-1942), antropólogo que desenvolveu estudos sobre povos originários nos Estados Unidos. O autor é um grande crítico do evolucionismo, vertente teórica relevante para os trabalhos iniciais na consolidação da teoria antropológica. Em 1931, em conferência pela American Association for the Advancement of Science, Boas critica os evolucionistas, exemplificando em seu discurso chamado 139 “Raça e Progresso” o caráter racista de suas pesquisas (BOAS, 2004). A princi- pal crítica do autor é que não se poderia classificar e diferenciar as populações humanas por meio de características biológicas e unificar o desenvolvimento da humanidade como se houvesse uma única maneira para que ele acontecesse. Como proposta de superação desse modelo de análise, Boas sugere que as dife- renças que se podem observar nas mais diversas populações são de origem social e, para compreender como cada grupo/povo/nação se constituem, culturalmente, é preciso contextualizar, historicamente, o seu desenvolvimento. Para que haja essa contextualização histórica em conjunto com a boa per- cepção do meio social em que vivem as populações que estudamos, Boas sugere que é preciso observá-las de perto com variedade de detalhes. Nesse momento, a antropologia começa a disseminar a sua principal característica metodológica, o trabalho de campo. Este ocorre quando o antropólogo convive, diariamente, com a população que pretende estudar, e, na convivência diária com essas popu- lações, o antropólogo deve observar e registrar tudo o que achar relevante para a compreensão da sociedade em que está imerso. Inspiradas pela obra de Franz Boas, Ruth Benedict e Margareth Mead são as principais referências nos estudos da antropologia cultural. Ambas as autoras se dedicaram ao trabalho de campo e à perspectiva de relativização por meio de um conhecimento detido e contextualizado das culturas que estudam. Margareth Mead em sua obra mais conhecida sobre sociedades de Papua- -Nova Guiné, Sexo e Temperamento, publicada em 1931, analisa que as ca- racterísticas associadas aos sexos não são inatas a determinações biológicas, como, geralmente, se acreditava, mas, sim, condicionadas pelos aprendizados culturais (MEAD, 2000). Se fizermos o movimento de relativização nesse caso, perceberemos que, ao contrário de como é em nossa sociedade ocidental, em que homens cumprem um papel de virilidade e força, entre os Arapesh, sociedade estudada por MEAD (2000), este comportamento masculino é inexistente, dado a construção cultural característica daquela população. Colocar a nossa sociedade e a deles em compa- ração nos permite perceber que a cultura molda as nossas ações sociais em uma gama de possibilidades que é variada, e não homogênea. Essa concepção questio- na teorias universalizantes sobre o comportamento humano muito erradicadas até o surgimento do relativismo cultural na antropologia. UNICESUMAR UNIDADE 4 140 Observações, como as dessa antropóloga, são provenientes do trabalho de campo detalhado e aten- to, porém, enquanto Mead emergia na sociedade de Papua - Nova Guiné, Ruth Benedict demonstrou que o estudo etnográfico também pode ser realizado a distância, caso o antropólogo seja impossibilitado de realizar o trabalho de campo pessoalmente e possua um bom material descritivo sobre a sociedade que estuda, por meio de relatos e reconstituição de me- mórias. E foi o que ela fez na sua obra O Crisântemo e a Espada, publicada em 1946 (BENEDICT, 2006). Nessa etnografia, Benedict analisa a sociedade japonesa fazendo comparações à sociedade estaduni- dense e avalia que a extrema hierarquização da socie- dade japonesa faz com que a obediência às autoridades e a autodisciplina sejam preceitos que moldam o com- portamento da população do país. O imperador, por exercer um considerável domínio moral sobre os sol- dados japoneses, durante a segunda guerra mundial, obtinha como resultado uma dedicação inabalável du- rante os embates. Atitude que não era recorrente aos soldados dos EUA, que fazem parte de uma constru- ção cultural não tão submissa à autoridade e que não exime críticas a ninguém. Diagnosticar os padrões de comportamento da sociedade japonesa e revelar que o imperador era uma autoridade intocável durante a guerra fez com que o estudo da antropóloga fosse im- portante para condução da Segunda Guerra Mundial em seus embates entre EUA e Japão, até mesmo porque esse estudo foi feito sob encomenda para o serviço de inteligência estadunidense. No Brasil, nós temos uma obra significativa que, sob a influência da antropologia cultural, buscou de- linear as relações entre as pessoas escravizadas, a senzala, e seus exploradores, a casa grande, nessa 141 obra publicada em 1933, que se chama Casa Grande e Senzala, do antropólogo brasileiro Gilberto Freyre, há uma análise que valoriza a miscigenação racial, a produção de açúcar no nordeste brasileiro e as rela- ções políticas estabelecidas neste contexto. Os estudos de Boas, Benedict, Mead e Freyre possuem um alinhamento metodológico que é mui- to caro à antropologia, em todas as suas correntes teóricas, o texto etnográfico. Como já destacamos, a etnografia é uma explicação descritiva da vida social e da cultura de um dado sistema social, ba- seado na observação detalhada do que as pessoas de fato fazem (JOHNSON, 1997, p. 101). Para os culturalistas comparar as lógicas de diversas cultu- ras, recolher materiais de qualidade e em detalhes sobre a sociedade que se estuda, seja no trabalho de campo, seja por meio de estudos arqueológicos, textos históricos ou relatos de memórias, todas es- tas formas de construir um conteúdo de análise são válidas para que o texto etnográfico contribua, sig- nificativamente, para as ciências das humanidades. Quando a antropóloga Marilyn Strathern nos indaga: “O faz o etnógrafo?- ele escreve” (STRAHTHERN, 1986 apud STRAHTHERN, 2014, p. 165), ela quer demonstrar que é ao observar a escri- ta e a maneira com que descrevemos nossos estudos é que podemos compreender a prática etnográfica. No entanto, para o antropólogo Bronislaw Malinowski, responsável por consolidar a etnografia como uma metodologia especificamente antropológica, a escrita vinda da “antropologia de gabinete”, expressão utili- zada pelo autor para nominar os estudiosos que não realizavam trabalho de campo pessoalmente, não bastava para que uma etnografia apresentasse uma análise concisa da sociedade que estuda, ou seja, a UNICESUMAR UNIDADE 4 142 escrita e a revisão bibliográfica são importantes, pois iluminam as análises e re- gistram nossas percepções, mas, para Malinowski, sem a vivência da observação participante, o estar lá, junto deles, não há etnografia. Para o antropólogo polonês, para se realizar uma boa etnografia, nós precisa- mos imergir na cultura nativa e se tornar um nativo na medida em que convivemos com a sociedade que estudamos. Nativo é uma denominação às pessoas que são naturais de uma dada sociedade, aqueles que nasceram e foram criados nessa so- ciedade, e apenas essas pessoas possuem o total conhecimento sobre a sua cultura. Por isso, para Malinowski seria necessário se tornar um deles, parte da sociedade em que vivem para que possamos compreender a lógica que rege as suas vidas, só assim a sociedade poderia ser estudada enquanto uma totalidade, tal como funciona no momento mesmo onde a observamos (LAPLANTINE, 2003). Para nos orientar nesta jornada, Malinowski escreveu-nos uma espécie de manual sobre como realizar uma boa etnografia no texto introdutório da obra Argonautas do Pacífico Ocidental, publicada em 1922. Nela, o autor adverte que realizar uma etnografia, que se configura como uma observação participante da sociedade que estudamos, não deve ser uma tentativa de traduzir os costumes de outra cultura para a nossa compreensão, e sim captar o sentido que aquele povo/grupo/nação denota aos seus hábitos e costume. Para isso, o antropólogo precisa estar presente e participar de todos os processos sociais daquela cultura. 143 A concepção de etnografia de Malinowski considera como regra principal do trabalho de campo, que é preciso haver “a documentação estatística por evidência concreta, a atenção aos imponderáveis da vida real e a elaboração de um corpus inscriptorum” (GIUMBELLI, 2002, p. 97). Isso significa que é preciso uma imer- são tamanha que o antropólogo consegue captar os significados verdadeiros dos modos de vida da população que estuda e, isso só é possível, por meio da descri- ção e da documentação detalhada dos fatos observados em campo. Essa imersão no campo de pesquisa deve seguir as seguintes etapas: 1) uma boa revisão bibliográfica da teoria antropológica; 2) Observação atenta aos detalhes e sentidos dos hábitos e costumes da cultura que estuda; 3) Descrição detalhada em diários de campo; e 4) O registro etnográfico, a etnologia, que compõe toda descrição da cultura estudada, análises dos processos observa- dos e a contribuição teórica do trabalho de campo. Além de orientar o que nós conhecemos como etnografia na atualidade, Malino- wski é representante de um movimento intelectual que chamamos, atualmente, de antropologia funcionalista. Ao analisar o kula, sistema de trocas intertribais de ilhas de Nova Guiné da comunidade Trobriandesa, em Os Argonautas do Pacífico Diário de Campo: com as instruções de Malinowski, um meio de registro muito importan- te na antropologia é o diário de campo. Nele, nós registramos todos os acontecimentos da observação participante e, além de relatar todos os fatos que achamos relevantes, podemos também registrar nossas impressões e pensamentos. Este material é somado às revisões bibliográficas que realizamos anteriormente à imersão no campo e, posterior- mente, no momento de escrita da etnologia. Experimente você, caro(a) estudante, escreva um diário de campo de sua prática docente, isso mesmo, pegue um caderno e anote tudo o que achar relevante sobre o dia a dia do meio educacional, seja em seu estágio acadêmico seja sob regência na sala de aula. Todas essas observações registradas podem servir como horizonte para que você analise suas ações e de seus alunos e possa planejar melhor sua atuação profissional. Fonte: as autoras. EXPLORANDO IDEIAS UNICESUMAR UNIDADE 4 144 Ocidental, o autor avalia como as instituições sociais são determinantes para o estabelecimento das relações sociais e o próprio funcionamento da sociedade. Segundo Castro (2005), os culturalistas e funcionalistas na antropologia fo- ram “dois outros marcos de ruptura com a tradição evolucionista, tanto em seus aspectos teóricos quanto práticos, foram as obras de Franz Boas (1858-1942) e de Bronislaw Malinowski (1884-1942)” (CASTRO, 2005, p. 14), justamente por considerarem que a sociedade e a cultura são elementos constitutivos do com- portamento humano. Outro Antropólogo conhecido por sua antropologia funcionalista é Marcel Mauss (1872-1950), sobrinho e companheiro de pesquisas de Émilie Durkheim (1858-1917), o teórico fundador da sociologia como ciência ganhou o título de pioneiro das teorias funcionalistas. Marcel Mauss e Émilie Durkheim trabalha- ram juntos na construção de estudos muito importantes para as Ciências Sociais. Durkheim, inclusive, faz algumas notas sobre a metodologia etnográfica em sua famosa obra As regras do Método Sociológico, publicada em 1895, em que o autor inaugura uma metodologia específica para se estudar a sociedade. No entanto quem realizou uma discussão antropológica aprofundada foi Marcel Mauss, e sua principal obra é Ensaio sobre a Dádiva, publicada no início da década de 1920, a qual muitos consideram como um estudo de aplicação do método sociológico de Durkheim, pois o autor busca analisar fatos sociais e avaliar a função social que eles possuem na vida da nossa sociedade. Em Ensaio sobre a Dádiva, Mauss mostra-nos que sistemas de trocas podem possuir valores morais que extrapolam a relação econômica e estruturam a ma- neira com que as pessoas se relacionam em uma dada sociedade. O autor estudou diferentes sistemas de trocas nas sociedades da Polinésia, Melanésia e noroeste americano e, ao analisar a circulação de bens que cada uma das populações des- sas regiões realizavam, Mauss percebeu que as coisas possuem um valor social e moral e se ligam a quem doa. Portanto, quem recebe algo, também, recebe um pedaço do outro e, por isso, é obrigado a retribuir com um pouco de si. Dessa maneira, o sistema de troca deve seguir a lógica de dar, receber e retribuir. A grande descoberta de Marcel Mauss foi que quando as coisas ultrapassam a esfera econômica e se tornam presentes, materialmente, na vida em sociedade, os processos sociais que envolvem a circulação desses bens torna-se um fato social total, ou seja, esse sistema de trocas interfere em como as pessoas estabelecem suas relações. Um equivalente a essa lógica que Mauss revela é quando, em nossa 145 sociedade, nós trocamos presentes. Você, caro(a) estudante, já passou pela situa- ção de receber um bom presente de alguém muito próximo e se pegou pensando que deve retribuir com um presente tão bom quanto ou melhor? Esse sentimento de obrigação de realizar algo para manter uma relação social bem estabelecida é o que chamamos de lógica da dádiva (MAUSS, 2003). Para além do movimento funcionalista, protagonizado por Malinowski e Mauss, temos mais um marco teórico muito importante no debate antropológico clássico, a antropologia estruturalista do antropólogo francês Levi Strauss. Inspirado pelo método estrutural da linguística. Para o antropólogo, é a comunicação que conecta os indivíduos de uma sociedade, portanto, para que possamos compreender os fenô- menos culturais devemos mapear a lógica da linguagem nas relações sociais. O autor desenvolve este argumento em Antropologia Estrutural,obra publicada em 1958. Desde as controvérsias da antropologia evolucionista e suas rupturas com o surgimento do culturalismo, funcionalismo e estruturalismo, o que a consolida- ção da disciplina pode nos ensinar é que os hábitos e os costumes culturais, prin- cipalmente os de culturas não ocidentais, não são apenas acontecimentos exóticos que devemos considerar como curiosidades. Muito pelo contrário, antropólogos não colecionam descrições de situações curiosas, nós apresentamos o sentido que as ações e interações humanas carregam em sua coletividade, demonstrando que, em qualquer lugar do mundo, seja qual for a cultura, a racionalidade é uma carac- terística de todas as pessoas, e não há hierarquias no modo como a mobilizamos. UNICESUMAR UNIDADE 4 146 O fazer etnográfico, o ato de pesquisar e analisar culturas, permite-nos perce- ber muitas nuances em nossa vida cotidiana, portanto, convido você a buscar mobilizar essa percepção que a antropologia proporciona para desenvolver alternativas de atuação docente. Essa seção demonstrará como a prática peda- gógica pode ser orientada pela etnografia. O processo educativo é um movimento de diálogo constante e, na educação, é preciso se comunicar, acima de tudo. A gestão escolar deve estar em diálogo com a comunidade a qual presta serviços, a estrutura curricular deve dialogar com os conhecimentos culturais do corpo discente e as práticas pedagógicas devem aproximar o conhecimento científico dos educandos buscando, ainda, instru- mentalizar essa vivência escolar para a convivência no mundo cotidiano. Todas as instâncias da atuação educacional são possibilitadas por meio da comunicação, nós comunicamos o que queremos ensinar e precisamos estar atentos ao que nos comunica quem aprende. A prática docente orientada pelo fazer etnográfico 147 É nesse sentido que a antropologia pode colaborar na ação educativa, o su- cesso do contato educativo depende do diálogo estabelecido entre o agente e seu interlocutor, e é nessa área de comunicação que o método etnográfico atua (FON- SECA, 1999, p. 59). Segundo Damatta (1987), a possibilidade de diálogo com o outro, que estabelecemos no estudo antropológico, nos permite “ultrapassar o plano das conveniências preconceituosas interessadas em desmoralizar o <ou- tro>” (DAMATTA, 1987, p. 2). O que nós propomos, ao pensar o fazer etnográfico como meio de desenvolver possibilidades de diálogo e comunicação, é propor- cionar um posicionamento de relativização cotidiano. Quando nos depararmos com a realidade escolar, devemos nos destituir de pré-noções e construir análises reflexivas dos fatos com que convivemos, diariamente, no ambiente escolar. Seguem alguns recortes das considerações finais da tese de doutorado A Maior Zoeira: Experiências Juvenis na Periferia de São Paulo, defendida em 2010 pelo Antropólogo brasileiro Alexandre Barbosa Pereira, no Programa Pós- -Graduação em Antropologia Social da Universidade de São Paulo (USP), para que possamos discutir como o fazer etnográfico pode contribuir para uma prática docente melhor orientada, centrada no movimento de diálogo e comunicação: “ [...] uma etnografia de uma escola específica ou de um grupo especí-fico de estudantes, tentei experienciar etnograficamente a experiên-cia escolar. [...] Desse modo, a etnografia suscitou principalmente os seguintes temas: tecnologias, gênero, corporalidade, violência, criminalidade, ludicidade e jocosidade. Desses, as tecnologias e as relações lúdicas e jocosas empreendidas pelos jovens foram perce- bidas como aspectos centrais das experiências juvenis e escolares observadas em campo. Contudo, o enfoque sobre as ludicidades e as tecnologias não me levou a desprezar os demais elementos que me foram apresentados pelos atores em suas práticas cotidianas. [...] Nessa dinâmica de apreensão das múltiplas associações entre os temas ou termos suscitados pela pesquisa de campo, evidenciou-se como cada um, conforme a perspectiva, modificava e era modifica- do pelo outro. Dessa maneira, se a escola possibilita a configuração de uma experiência juvenil específica, sendo uma das agências res- ponsáveis pela definição contemporânea de juventude, essa, em sua experiência escolar, não apenas reinventa a escola, como, a partir do processo de reprodução das estruturas sociais instituído pela escola, UNICESUMAR UNIDADE 4 148 passa também a reproduzir as formas como se dá essa experiência escolar, por meio de desestabilização de regras e objetivos institu- cionais. Dessa forma, os estudantes também estabelecem as suas relações com a instituição escolar e com os professores, a partir da influência de aspectos hegemônicos das maneiras de classificar o mundo, muitas vezes, pautadas por conteúdos estigmatizantes que reforçam visões reificadas da realidade e legitimadoras de desigual- dades sociais (PEREIRA, 2010, p. 244-246). Este é um trecho de uma etnografia em uma escola da periferia de São Paulo, e nele contém algumas análises do autor sobre sua experiência de campo. Perceba que nessa pequena análise que o autor faz sobre o seu trabalho de incursão etno- gráfica na escola ele conseguiu destacar temas muito relevantes para a vivência escolar, tanto para alunos quanto para professores. Primeiramente, o antropólogo demonstra que as tecnologias estão muito presentes na vida escolar, assim como há a presença da ludicidade e jocosidade, o que podemos traduzir como as brin- cadeiras cotidianas em sala de aula. Pereira (2010) destaca que o corpo discente não é passivo e receptor de nossas ações e, sim, possui influência sobre como as relações sociais dentro do âmbito escolar são estabelecidas. Pereira (2010) demonstra, em sua etnografia, que é preciso desenvolver um olhar mais atento às dinâmicas das relações na escola, pois as indisciplinas do cotidiano escolar, as brincadeiras, que em grande maioria são violentas e se configuram como bullying são reproduções das desigualdades sociais que vivenciamos no nosso dia a dia. Essa análise só foi possível, por meio de uma experimentação et- nográfica do ambiente escolar, e é esse exercício que propomos aqui. Claramente, você, como futuro(a) professor(a), não deverá realizar uma etnografia em cada classe de alunos em que trabalhará, porém o convite que fazemos é para que você NOVAS DESCOBERTAS Se você se interessar em conhecer como seria uma boa incursão etnográfica na escola, acesse a tese de Alexandre Pereira Barbosa na biblioteca digital da USP. https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/15389 149 experiencie a prática docente diante das lentes da antropologia, também, para além dos métodos pedagógicos que a pedagogia possa nos ensinar. Provavelmente, uma das perguntas que podem rondar seus pensamentos ao ler a nossa proposta é: Como seria possível transformar um conhecimento que, pelo menos inicialmente, foi todo consolidado com estudos de sociedades dife- rentes da nossa em algo aplicável no meu cotidiano? A questão é que para nós, antropólogos, o fazer etnográfico não é apenas um método científico é, também, uma maneira de se perceber o mundo. Se retomarmos o movimento de desnaturalização que os antropólogos da teoria clássica tiveram que realizar para compreender as sociedades que estudavam, perceberemos que desnaturalizar, o que significa que devemos desconsiderar que haja comportamentos e formas de interação que são inatas da natureza humana, é essencial para o pensamento antropológico. Malinowski, se não tivesse se des- prendido ao máximo de suas pré-concepções sobre os trobriandeses, população que o autor se dedicou a estudar em Papua-Nova Guiné, não teria conseguido nos propor uma metodologia que traduziria tão bem os sentidos e significados que aquela sociedade denota às suas relações sociais. A desnaturalização é primordial para o pensamento antropológico, assim como é essencial para a prática pedagógica. Se a nossa prática é baseada na co- municação, como poderemos estabelecer um bom diálogo com o corpo dis-cente se não nos desprendermos de todas as nossas pré-concepções sobre eles e estarmos abertos a ouvir, ver e observar o que eles nos comunicam? Aguçar os nossos sentidos para compreender a realidade a nossa volta é o que chamamos na antropologia de “tornar o estranho familiar e o familiar estranho”. Fazer etnografia supõe uma vocação de desenraizamento, uma formação para ver o mun- do de maneira descentrada, uma preparação teórica para entender o “campo” que que- remos pesquisar, um “se jogar de cabeça” no mundo que pretendemos desvendar, um tempo prolongado dialogando com as pessoas que pretendemos entender, um “levar a sério” a sua palavra, um encontrar uma ordem nas coisas e, depois, um colocar as coisas em ordem mediante uma escrita realista, polifônica e intersubjetiva. Fonte: Urpi Montoya Uriarte (2012, on-line). PENSANDO JUNTOS UNICESUMAR UNIDADE 4 150 Segundo o antropólogo brasileiro Ve- lho (1977, p. 132), “o familiar com todas estas necessárias relativizações é cada vez mais objeto relevante de investigação para uma antropologia preocupada em per- ceber a mudança social” tanto em nossas grandes construções históricas como nas nossas interações cotidianas. Estranhar o familiar significa que o nosso olhar deve estar atento às construções sociais que soli- dificam ações que reproduzem as desigual- dades sociais, até mesmo em nossas ações. “O processo de estranhar o familiar tor- na-se possível quando somos capazes de confrontar, intelectualmente, e, mesmo emo- cionalmente, diferentes versões e interpreta- ções existentes a respeito de fatos, situações” (VELHO, 1977, p. 132), reavaliar aconteci- mentos e ações cotidianas é o que o processo de estranhamento pode nos proporcionar. Como aponta o antropólogo Pereira (2010), a jocosidade, as brincadeiras na sala de aula, revelam muitos dos preconceitos e das violências que estão presentes em nossa vida em sociedade. Quando conseguimos captar como a reprodução desses proble- mas sociais estão inseridos em nosso es- paço de trabalho, podemos planejar ações mais efetivas para a resolução de alguns conflitos. Assim, como em qualquer am- biente da vida em sociedade, as violências nem sempre são escancaradas, o racismo, por exemplo, principalmente na sociedade brasileira, é uma violência que se manifesta de maneira muito singela. 151 Em uma avaliação breve sobre as nossas próprias ações como professores, quantas vezes não priorizamos aquele(a) aluno(a) branco(a) sentado(a) na primeira carteira e que faz perguntas sobre tudo em detrimen- to de alunos que ficam calados e acuados no fundo da sala? Muitas vezes, confundimos a indisciplina e o desinteresse com a falta de atenção que damos às necessidades de alu- nos que não conseguiram, ainda, desenvolver todo o seu potencial de participação e inte- resse, se comparado aos nossos queridinhos da primeira carteira. Quando refletimos so- bre as nossas ações e as ações dos estudantes que ensinamos, principalmente quando esta reflexão é acompanhada da contextualização da realidade do corpo discente, percebemos que pequenas atitudes, como descentrar a participação da classe, dirigir questões para pessoas que parecem mais distantes, atitudes que desnaturalizam a ação recorrente de pro- fessores, podem colaborar para que compor- tamentos excludentes não se fortalecem no cotidiano escolar. Caro(a) estudante, discutimos os princi- pais conceitos e referenciais teóricos da an- tropologia clássica, compreendemos que há muitas maneiras de se pensar o conceito de cultura, mas destacamos que estudar mani- festações culturais é muito mais complexo do UNICESUMAR UNIDADE 4 152 que relacioná-la à sofisticação e ao eruditismo. En- tende-se, portanto, que a antropologia pode revelar nuances da vida cotidiana que são importantes para avaliarmos nossas ações em sociedade. Ao embarcar em expedições a ilhas “exóticas” na Oceania e na América, os primeiros antropólogos nos mostraram que para se compreender e analisar o comportamento humano é preciso um despren- dimento de todas as nossas concepções preestabe- lecidas. Quando exercitamos esse desprendimento temos a possibilidade de olhar o outro de uma ma- neira mais reflexiva e compreensiva. Tendo isso em mente, o relativismo cultural nos dá a oportunidade de ver o outro por si mesmo, evitando encaixá-lo em nossas próprias percepções de mundo. Nesse sentido, o estudo das culturas nos mostra que as nossas relações sociais são dotadas de sentidos e significados que expressam a complexidade do de- senvolvimento humano durante a história em todas as regiões do mundo, o que nos prova que conhecer realidades distantes da nossa pode nos ensinar muito sobre a nossa própria realidade. Compreender o outro é estar por perto e é isso que o fazer etnográfico nos incentiva, a exercitar um olhar cuidadoso sobre as construções de nossa sociedade. Essas reflexões que a antropologia nos oferece podem ser instrumentos de ação no cotidiano escolar, evitan- do com que você, futuro(a) professor (a), reproduza atitudes violentas e excludentes ou, até mesmo, possa intervir em situações de conflito. Esperamos que as nossas contribuições sirvam para que você possa desenvolver uma boa prática educacional. 153 1. Leia o excerto de texto a seguir: Não há ninguém que veja o mundo com uma visão pura de preconceitos. Vê-o, sim, com o espírito condicionado por um conjunto definido de costumes e instituições, e modos de pensar. BENEDICT, R. Padrões de Cultura. São Paulo: Livros do Brasil, 1983. Com base na leitura do excerto de texto apresentado, analise as afirmações que seguem: I - A antropóloga Ruth Benedict é da vertente culturalista na antropologia, por isso, acredita que as nossas percepções sobre o mundo são condicionadas por nossos costumes e nossas instituições, pela nossa cultura. II - Nossa maneira de pensar e agir, assim como destaca Ruth Benedict, são condi- cionadas pela nossa cultura. III - Todas as pessoas são livres de preconceito, desde que nasceram. IV - Os preconceitos estão presentes na visão de mundo de qualquer pessoa que esteja submetida à determinada cultura, e eles podem ser desfeitos na medida em que aprendemos sobre outras culturas. V - Quando a antropóloga diz que não há ninguém que não veja o mundo com uma visão pura de preconceitos, ela quer dizer que a nossa maneira de pensar é moldada, culturalmente, por isso, não é pura. É correto o que se afirma em: a) I, II e III, apenas. b) II, III e IV, apenas. c) III, IV e V, apenas. d) I, II, IV, e V, apenas. e) II, III, IV e V, apenas. 2. Leia o excerto de texto a seguir: A integração de todos os detalhes observados bem como a síntese sociológica dos diversos indícios importantes são tarefas do etnógrafo. Antes de mais nada, ele pre- cisa descobrir o significado de certas atividades que, de início parecem incoerentes e não correlacionadas. A seguir, ele precisa distinguir, nessas atividades, o que é constante e relevante do que é acidental e de pouca importância, isto é, o etnógrafo deve procurar descobrir as leis e regras de todas as transações. A ele cabe construir 154 o quadro ou esquema total da grande instituição, da mesma forma que o cientista formula toda a sua teoria baseado em dados experimentais que, embora sempre ao alcance de todos, precisam de interpretação coerente e organizada. MALINOWSKI, B. Argonautas do Pacífico Ocidental. Coleção Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1998. A partir da leitura do excerto de texto, analise as afirmações seguintes: I - O trecho transcrito orienta sobre a postura que um antropólogo deve ter ao analisar as situações em trabalho de campo. II - Malinowski chama atenção para a necessidade de manter um olhar atento e investigativo ao se observar as ações das pessoas que compõem a sociedade que se estuda. III - Compreender o sistema total da instituição social mais importante da sociedade que estuda é uma das grandes características da antropologia funcionalistade Malinowski. IV - Segundo o que relata o autor, não é importante estar presente no campo e observar de maneira participante a sociedade que estuda. É correto o que se afirma em: a) IV, apenas. b) I, II, III e IV. c) I, II e III, apenas. d) II, III e IV, apenas. e) I e III, apenas. 3. Leia o excerto de texto a seguir: Por sorte, as monografias antropológicas não pretendem possuir ‘valor jornalístico’, no sentido de uma exposição factual, mas sim contribuir para o desenvolvimento de corpus de deduções fundamentadas a respeito dos princípios que regem a interação humana em diferentes épocas e lugares. EVANS-PRITCHARD, E. E. Bruxaria, Oráculos e Magia entre os Azande. Edição resumida e intro- dução Eva Gillies; Tradução Eduardo Viveiros de Castro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005. 155 Sobre as contribuições da teoria antropológica para se pensar as culturas pelo mun- do, é correto afirmar que: a) A antropologia não é uma ciência relevante para as Ciências Sociais. b) Embora o evolucionismo tenha contribuído para visões racistas nas ciências hu- manas, o campo de estudos inaugurou o debate antropológico e mostrou que o social não deve ser considerado nos estudos da humanidade. c) Os primeiros estudos antropológicos provaram que o desenvolvimento social não é, unicamente, biológico, as construções culturais também determinam boa parte do nosso comportamento em sociedade. d) O relativismo cultural considera o desenvolvimento progressivo da humanidade, assim como as teorias evolucionistas. e) A Antropologia considera que a cultura é sinônimo de sofisticação. 4. Sobre as teorias evolucionistas no início da consolidação da antropologia e as pos- teriores críticas do relativismo cultural na disciplina, analise as afirmações a seguir, considerando-as como (V) verdadeiras ou (F) falsas: I - As teorias evolucionistas defendidas por autores, como James Frazer e Franz Boas, dizem que a humanidade possui um desenvolvimento progressivo e universal. II - O Antropólogo Franz Boas era um crítico assíduo do evolucionismo cultural e defendia que todas as culturas possuem um desenvolvimento próprio que deve ser contextualizado pelas suas construções históricas. III - Lewis Morgan defendia que a espécie humana possui três estágios de desenvol- vimento: a selvageria, a barbárie e a civilização. IV - Para alguns teóricos evolucionistas, poderíamos classificar algumas culturas como mais civilizadas que outras. As afirmações I, II, III e IV são respectivamente. a) F, V, V, V. b) V, V, V, V. c) V, F, F, F. d) V, F, F, V. e) V, V, F, F. 156 5. Leia o excerto de texto a seguir: De fato, quando um antropólogo social fala em “cultura”, ele usa a palavra como um conceito chave para a interpretação da vida social. Porque para nós ‘’cultura” não é simplesmente um referente que marca uma hierarquia de “civilização”, mas a maneira de viver total de um grupo, sociedade, país ou pessoa. Cultura é, em Antropologia So- cial e Sociologia, um mapa, um receituário, um código através do qual as pessoas de um dado grupo pensam, classificam, estudam e modificam o mundo e a si mesmas. DAMATTA, R. Você tem cultura? Rio de Janeiro: Jornal da Embratel, 1981. Com base em seus conhecimentos sobre o conceito de cultura, considere as afir- mações a seguir: I - Para a antropologia, cultura são hábitos, costumes e construções sociais que são significadas, coletivamente, em uma dada sociedade. II - Cultura é hierárquica e sinônimo de civilidade. III - Para se interpretar a vida em sociedade, é preciso conhecer a sua cultura. IV - O conceito de cultura, na antropologia, é muito amplo e abrange situações da vida cotidiana, como relações de parentesco, casamento e vestimenta. V - As construções culturais de uma sociedade moldam a maneira de ser, agir e pensar das pessoas que nela estão imersas. É correto apenas o que se afirma em: a) I, II e III. b) II, III e IV. c) III, IV e V. d) I, III, IV e V. e) II, III, IV e V. 5Fundamentos Históricos e Filosóficos da Educação no Brasil Me. Cassiano Lucas Silva Carvalho Me. Daiany Cris Silva Me. Milena Cristina Belançon Você estudará nesta unidade: • A Pedagogia Jesuítica no Brasil: fun- damentos históricos e filosóficos • A Pedagogia Nova no Brasil: fun- damentos históricos e filosóficos • A Pedagogia Tecnicista no Brasil: fundamentos históricos e filosóficos • A Pedagogia Histórico-Crítica no Brasil: fundamentos históricos e filosóficos • Paulo Freire e seus impactos nos fundamentos históricos e filosóficos na educação no Brasil e no mundo. UNIDADE 5 158 Caro(a) acadêmico(a), chegamos à última unidade! Após nosso percurso pelos Fundamentos da Educação, a saber: Filosofia; História; Sociologia e Antropologia. Chegou o momento de trabalharmos com um tempo e um espaço específico: o nos- so país, ou seja, o enfoque desta unidade é analisar especialmente os fundamentos históricos, filosóficos e sociológicos da Educação Brasileira. A primeira perspectiva pedagógica que se fez presente na história da educação no Brasil foi a Pedagogia Jesuítica, hoje incluída no campo das tendências pedagó- gicas consideradas “tradicionais”. Por quase dois séculos, a educação brasileira foi organizada pelos primeiros “professores” do nosso país: os padres jesuítas. O século XIX foi marcado pela transição do Império para a República. Com a expulsão dos jesuítas. A principal característica deste período foi a instituição das chamadas aulas régias (aulas avulsas). Com a abolição da escravidão (1888) e a Proclamação da República (1889), têm-se o início das primeiras propostas de escolas “para todos”: o discurso se inicia porque, para o país se “modernizar” e se adequar ao trabalho assalariado, necessitaríamos de cidadãos escolarizados. 159 Na transição do século XIX para o século XX, tivemos a instituição das pri- meiras escolas primárias e os cursos normais para a formação dos professores. Ao mesmo tempo que o ideário de que a república, a democracia e a cidadania só se alcançariam com a escola para todos, já temos um movimento que põe em questão os modelos escolares vigentes. É aí que a Pedagogia Nova vem propor novos fundamentos à educação brasileira. Durante o Regime Militar (1964-1985), com o predomínio de uma educação voltada ao “aprender a fazer”, tivemos como tendência a Pedagogia Tecnicista. Com a redemocratização do país, sobretudo na década de 1990, o Brasil passa a buscar uma educação crítica. A tendência predominante passa a ser a Pedagogia Históri- co-Crítica. Por fim, buscaremos investigar um dos teóricos que mais impactou nos fundamentos históricos e filosóficos da educação no Brasil: Paulo Freire Com isso, exorto você a anotar seus pensamentos em seu Diário de Bordo. Bons estudos! UNICESUMAR UNIDADE 5 160 Caro(a) professor(a) em formação, nesta unidade, o enfoque será o Brasil. Então, perguntamos: qual o tempo dos fundamentos históricos e filosóficos da educa- ção no Brasil? Bem, aqui temos um problema: havia educação no Brasil antes do “descobrimento” (em 22 de abril de 1500, por Pedro Álvares Cabral). Contudo, os povos nativos que habitavam o espaço hoje denominado Brasil não praticavam a educação formal, ou seja, em escolas. Portanto, a educação fundamentada em princípios ocidentais só tem início no Brasil após o século XVI. Neste sentido, o nosso recorte é do ano de 1500 aos dias atuais. Assim sendo, a abordagem começa pela primeira concepção filosófica que deu fundamento à educação em nosso país: o Processo Tradicional. O Processo Tradicional ou “Pedagogia da essência”, atualmente, é con- denado por quase todas as correntes da pedagogia. Ele é acusado de reproduzir o conhecimento dominante, perpetuar a opressão, a cultura do silêncio e por meio da “concepção bancária de educação”, que consiste no “ato de depositar, de transferir, de transmitir valores e conhecimento” (FREIRE, 1981, p. 67). Nesta A pedagogia jesuítica no Brasil: fundamentos históricos e filosóficos 161 visão bancária deeducação, são negadas a criatividade e a transformação, pois o educador é aquele que possui os saberes considerados universais, imutáveis e fixos e o educando não possui esses saberes, por isso deve receber, memorizar e repetir o que foi dito pelo mestre. Figura 1 - Colégio Jesuíta em Belém. / Fonte: Wikimedia (1941, on-line). Historicamente, diversas tendências filosóficas, sociológicas e psicológicas podem caracterizar a Pedagogia Tradicional, “[...] desde o ensino verbalista adotado na Idade Média e na Idade Moderna até o ensino baseado no empi- rismo e no positivismo, dos séculos XVII, XVIII e XIX” (TERUYA, 2010, p. 33). Dessa forma, quando nos referimos à Pedagogia Tradicional, é importante saber que diversos fundamentos históricos e filosóficos dão embasamentos a esta concepção: (i) a catequese, pautada no cristianismo, (ii) a pedagogia e a didática proposta por Comenius (vista anteriormente), (iii) o ensino verbalista centrado na aula expositiva etc. Descrição da Imagem: Fotografia do Pátio do Colégio Jesuíta em um dia ensolarado. Da esquerda para a direita, temos um jardim com rosas, árvores grandes, com uma estátua de costas para foto. Ao fundo está o Colégio, cujo prédio apresenta quatro andares: o primeiro tem uma porta, aproximadamente dez janelas da direita para a esquerda; o segundo e o terceiro andar apresentam aproximadamente o mes- mo número de janelas, ao passo que o quarto andar é composto por duas torres e uma cruz ao centro. UNICESUMAR UNIDADE 5 162 Após o início da colonização pelos portugueses, houve a tentativa da intro- dução de uma educação escolar católica no Brasil. Sobretudo sob a égide do Ratio Studiorum – documento escrito em latim –, ocorre o que Saviani (2007) chama de “esboço de um sistema educacional”. Composto de 467 regras, o Ratio Studiorum tem o pensamento de Tomás de Aquino (tomismo) como base, isto é, as ideias teológicas e filosóficas deste pensador (considerado santo pela Igreja Católica, vale lembrar) norteou o ideário pedagógico do Ratio Studiorum. Vigo- rou no Brasil entre 1599 e 1759. O documento definiu “ [...] a cultura escolar e formativa da Igreja, manifesta nos documentos e nas inserções feitas pela Companhia de Jesus no século XVI, influen-ciando profundamente a formação de professores por meio de suas regras, visto que todo o processo formativo docente reflete, como em todo aspecto adaptativo humano, as estruturas sociais, culturais, eco- nômicas e morais de uma época. Em contrapartida, dialeticamente, a educação e a formação pedagógica sustentam de algum modo aquilo que se determina como essencial a uma sociedade, do ponto de vista ético, moral e no que tange à formação intelectual, bem caracteriza- do no processo formativo docente efetivado pelos jesuítas. Assim, a formação docente no âmbito do Ratio Studiorum remonta a um extenso detalhamento de regras estabelecidas para compor uma ação diária permanente que garantisse o ideário religioso e, principalmen- te, a formação do professor jesuíta na mais restrita moralidade cristã (TORRA; MARTINS; CORRÊA, 2013, p. 1091-1092). 163 Do ponto de vista pedagógico, o Ratio Studiorum, fundamentado em princípios da Igreja Católica, recomenda: (i) ensino predominantemente verbal e memorístico; (ii) a posição das mãos e o modo de levantar os olhos, por exemplo (GADOTTI, 2003); (iii) repetições dos conteúdos estudados em casa todos os dias, a fim de faci- litar a memorização. Para os padres jesuítas, as explicações eram muito importantes na vida dos estudantes. Utilizando-se do método expositivo, o mestre explicava e o educando se limitava em repetir após ele. Não era exercitado para penetrar por si o pensamento dos autores antigos. O exercício ativo exigido dele era, além da lição de memória, o tema escrito. Entre os Jesuítas foi que nasceu esse sistema pedagó- gico que faz do tema escrito (hoje denominado “conteúdo”) o tipo de tema escolar, sistema esse herdado pela universidade e que se perpetuou até tempos recentes. Conforme indica Saviani (1999), críticas à Pedagogia Tradicional começaram a aparecer no Brasil no final do século XIX. Contudo, foi no início do século XX que a corrente pedagógica Escola Nova, em um movimento de crítica à pedagogia e ao sistema de ensino dos séculos anteriores no Brasil, passou a denominar a pedagogia jesuítica de Pedagogia Tradicional. E afinal, o que é a Pedagogia Tra- dicional? De que a acusam? Vejamos a explicação dada por Teruya (2010, p. 32): “ O processo tradicional tem o objetivo de ensinar os indivíduos a se tornarem receptores passivos. Nessa perspectiva, compreende-se que, ao nascer, a mente humana é uma tabula rasa e aos poucos a socieda- de, por meio das instituições como família, igreja e escola, vai impri- mindo as imagens e as informações do ambiente. A visão de mundo é transmitida de geração a geração, no sentido de preservar a tradição. UNICESUMAR UNIDADE 5 164 Apesar de ser uma concepção pedagógica que se inicia ainda na Grécia, na An- tiguidade; no período moderno, o teórico que a legitimou como “científica” e como “ciência” foi Johann Friedrich Herbart. Pode, então, ser considerado o “pai” da Pedagogia Tradicional na modernidade. Johann Friedrich Herbart nasceu em 4 de maio de 1776, na cidade de Olden- burg, situada ao norte da Alemanha, e morreu em 11 de agosto de 1841, na cidade universitária de Göttingen (Alemanha). Entre 1794 e 1797, foi aluno do filósofo Johann Gottlieb Fichte (1762-1814) na Universidade de Iena. No entanto, o jovem Herbart rapidamente tomará distância da “teoria da ciência” e da filosofia prática de seu mestre. No terreno fértil das contradições do pensamento idealista, fará germinar sua própria filosofia realista. Herbart, no entanto, permanecerá em sua vida inteira fiel ao rigor intelectual de seu mestre Fichte, tentando, a exemplo dele, apresentar os elementos mais importantes de sua reflexão sob a forma de “deduções”. Dentre os teóricos que dão respaldo aos métodos, propostas de ensino e ten- dências pedagógicas “tradicionais”, tivemos, inicialmente, os empiristas, como Bacon e Locke, por exemplo, que apesar de nada terem escrito especificamente sobre didática ou pedagogia, davam respaldo à visão empirista/associacionista sobre a criança e, então, serviram de respaldo para a escola tradicional. Segundo o verbete criado pelo filósofo e pedagogo brasileiro Dermeval Saviani, a introdução da denominação “Concepção Pedagógica Tradicional ou Pedagogia Tradicional” ocorreu no final do século XIX com o advento do movimento renovador que, para marcar a “novidade” das propostas que começaram a ser veiculadas, classi- ficou como “tradicional” a concepção até então dominante. Os pressupostos da aprendizagem (Pedagogia Tradicional) são fundamenta- dos na receptividade dos conteúdos e na mecanização de sua recepção. A apren- dizagem se dá por meio da resolução de exercícios e da repetição de conceitos e recapitulação do saber adquirido sempre que necessário for reavivado na mente. A avaliação também é mecânica e ocorre por meio de “resolução de tarefas” en- viadas para casa e provas (sobretudo escritas). Segundo Saviani (1999), a Escola Tradicional para todos, que, no caso do Brasil, data do final do século XIX, surge para a “superação da marginalidade”. Nesse quadro, “[...] a causa da marginalidade é identificada com a ignorância. É marginalizado da nova sociedade quem não é esclarecido. A escola surge como 165 um antídoto à ignorância [...]” (SAVIANI, 1999, p. 18), e, então, terá o professor como figura central: é ele quem traz os “conteúdos verdadeiros” e, assim, só terá aprendido aquele que memorizar exatamente o que foi exposto, o que foi dito pelo professor. Assim sendo, é papel da educação, para a Pedagogia Tradicional: “ [...] difundir a instrução, transmitir os conhecimentos acumulados pela humanidade e sistematizados logicamente. O mestre-escola será o artífice dessa grande obra. A escola se organiza, pois, como uma agência centradano professor, o qual transmite, segundo uma gradação lógica, o acervo cultural aos alunos. A estes cabe assimilar os conhecimentos que lhes são transmitidos. Como as iniciativas cabiam ao professor, o essencial era contar com um professor ra- zoavelmente bem preparado. Assim, as escolas eram organizadas na forma de classes, cada uma contando com um professor que expunha as lições que os alunos seguiam atentamente e aplicava os exercícios que os alunos deveriam realizar disciplinadamente (SAVIANI, 1999, p. 18). Os procedimentos didáticos da Pedagogia Tradicional, quando postos em prática, propõem que o professor deve seguir os cinco passos apresentados por Herbart (2010) em sua obra Pedagogia geral: deduzida da finalidade da educação: 1) pre- paração, 2) apresentação, 3) associação, 4) generalização e 5) aplicação (SAVIANI, 1999), o que evidencia a proposta ser de base empirista/associacionista. A figura a seguir busca sistematizar a didática proposta pela Pedagogia Tradicional me- diante os cinco “passos”. Primeiro passo: “Preparação” Inicialmente, a tarefa docente é preparar os educandos. O profes- sor deve começar a aula recordan- do a aula anterior. Esse procedi- mento faz com que os alunos se interessem pelas ideias das novas lições a serem transmitidas e pres- tem atenção ao novo conteúdo. Na prática: Rotina de “inicio da aula”. UNICESUMAR UNIDADE 5 166 Segundo passo: “Apresentação” O segundo passo é a apresenta- ção. O conteúdo deve ser apresen- tado com clareza e objetividade, para que as ideias apareçam com nitidez aos estudantes. Na prática: O professor apre- senta o ‘conteú- do’ novo. Terceiro passo: “Comparação e Assimilação” O terceiro passo é a associação. É o momento da assimilação dos conteú- dos novos transmitidos pelo profes- sor por meio da comparação com os conteúdos antigos. É o momento de fazer comparações, identificar as di- ferenças e semelhanças entre o novo e velho conhecimento ou ideias. Na prática: Os educandos fazem exercícios com o apoio de professores so- bre o ‘conteúdo’ novo. Quarto passo: “Generalização” O quarto passo é a generalização. É o momento de refletir sobre o conhecimento no sentido de sair da situação individual e partir para a observação das leis gerais ofere- cidas pelas lições. Na prática: Os educandos fazem exercícios sem o apoio de professores sobre o ‘conteú- do’ novo (prova escrita, por exemplo). Quinto passo: “Aplicação” O quinto passo é aplicação. É o momento de exercitar e incorporar o novo conhecimento de tal ma- neira que o conteúdo faça parte da mente do aprendiz. Dessa forma, os educandos são instruídos e ensinados pelo professor em uma sala de aula. Na prática: “Ta- refa para casa” Quadro 1 - Os cinco passos da Pedagogia Tradicional Fonte: adaptado de Saviani (1999 apud HERBART, 2010). 167 Conforme alerta Saviani (1999), os críticos da Pedagogia Tradicional buscam reforçar que ela não é científica. Contudo, Saviani (1999) aproxima os cinco passos propostos por Herbart do método indutivo (“passos para uma pesquisa investigativa” proposta por Bacon) e, portanto, refuta o argumento de que a Peda- gogia Tradicional não tem embasamento científico. Ela tem! O quadro a seguir apresenta uma síntese dos fundamentos históricos e filosóficos da educação de acordo com a Pedagogia Tradicional e o método indutivo (empirismo). Relação entre a Pedagogia Tradicional e o método científico Método pedagógico Método científico Método associacionista (aprendizagem por associação) Método indutivo (empirismo) “Passos” da aula Herbart (1776-1841) “Passos” da pesquisa investigativa Bacon (1561-1626) 1) Preparação. 2) Apresentação. 3) Comparação e assimilação. 4) Generalização. 5) Aplicação. 1) Observação. 2) Generalização. 3) Confirmação. Quadro 2 - Fundamentos filosóficos, epistemológicos e científicos da Pedagogia Tradicional e a sua “didática” / Fonte: adaptado de Saviani (1999). De certa forma, a organização do ensino proposta por Herbart busca atender o projeto de educação da modernidade. As “novas” concepções para desvendar o mundo vão se consolidando no campo filosófico e no campo pedagógico. Nesse processo de modernização, o empirismo é a base epistemológica que sustenta os métodos de ensino. Segundo Valdemarin (2004, p. 35): “ [...]pode-se dizer que o marco epistemológico no qual se amparam sucessivos tratados pedagógicos é o empirismo, e o elemento a partir do qual se torna possível estabelecer a continuidade entre Bacon, Locke, Hume, Comênio, Rousseau, Pestalozzi, Fröebel e Spencer é a consideração da origem do conhecimento nas percepções humanas e a valorização da utilidade do saber. Para estes autores, os sentidos UNICESUMAR UNIDADE 5 168 humanos afiançam a possibilidade do conhecimento humano, per- mitindo ao homem construir um saber sem tutelas, descobrindo e interpretando as leis naturais e colocando a natureza a seu serviço. Nessa perspectiva, os métodos de ensino deveriam partir do concre- to para o abstrato, das partes para o todo. Essa concepção empirista atendia às necessidades do desenvolvimento econômico dos séculos XVII, XVIII e XIX, pois possibilitava a liberdade de raciocínio em relação à tradição e à intervenção humana sobre o mundo. Contudo, devido ao insucesso da escola moderna de “ensinar tudo a todos”, so- bretudo no final do século XIX, acentuam-se as críticas às bases epistemológicas, bem como aos fundamentos históricos e filosóficos da Pedagogia Tradicional e, assim, tem-se o início do movimento de renovação pedagógica, conhecido atualmente como Pedagogia Nova. A pedagogia nova no Brasil: fundamentos históricos e filosóficos O Cristo Redentor, inaugurado em 1931, atualmente, é reconhecido como um dos cartões- -postais da cidade do Rio de Janeiro, do Brasil e até mesmo da América Latina. Símbolo da influência da Igreja Católica no Brasil, o monumento está localizado no Corcovado, no Parque Nacional da Tijuca. A cidade do Rio de Janeiro é o maior des- tino turístico internacional do Brasil, da América Latina e de todo o Hemisfério Sul. 169 A cidade do Rio de Janeiro foi a capital do Brasil de 1763 a 1960, quando o go- verno se transferiu para Brasília. A vinda da corte portuguesa, em 1808, marcaria profundamente a cidade, então convertida no centro de decisões do Império Português, debilitado com as guerras de Napoleão. Após a Abertura dos Portos, o Rio de Janeiro se tornou um centro comercial. Nas primeiras décadas do século XIX, foram criados diversos estabelecimen- tos de ensino, como: (i) a Academia Militar, (ii) a Escola Real de Ciências, (iii) a Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios, (iv) a Academia Imperial de Belas Artes, (v) a Biblioteca Nacional e (vi) o Jardim Botânico. Contudo, com a Independência do Brasil, em 1822, é que, definitivamente, a Pedagogia Tradicional tem uma crise acentuada no Brasil e, então, surgem propostas de uma educação escolar dife- renciada, centrada na criança, laica e obrigatória. São dados os primeiros passos para o escolanovismo no Brasil. A primeira Escola Nova foi fundada em 1889, na Inglaterra. Nos Estados Unidos da América (EUA), as primeiras “escolas novas” surgem no início do sé- culo XX, com a ideia de renovação pedagógica. Esse movimento de renovação pedagógica recebeu diferentes denominações: Escola Nova, Educação Progres- siva e Educação Ativa (BRANCO, 2014). O grande nome do movimento na América foi o filósofo e pedagogo John Dewey (1859-1952). John Dewey, filósofo norte americano, influenciou a elite brasileira com o movimento da Escola Nova. Para John Dewey, a educação é uma necessidade que está para além dos muros da escola: ela é um fenômeno coletivo, social e democrático. Dessa forma, a escola não pode formar apenas para “passar de ano” ou para “conquistar um diploma”: o desenvolvimento proposto pela escolarização teria, para Dewey, o progresso do social, do coletivo. Mediante o desenvolvimento do talento dos educandos, a sociedadeavança. A Pedagogia Renovada (Pedagogia Nova) mantém o propósito de adaptar o estudante ao meio social, daí seu interesse em reproduzir no seu contexto a própria existência humana. O conhecimento se resume ao que está vinculado à atuação e às descobertas dos aprendizes, configurando o que Piaget descreve como o mecanismo de conscientização. Segundo Libâneo (1994, p.58) a Peda- gogia Escolanovista entende que, na relação professor-estudante, “não há lugar privilegiado para o professor; antes, seu papel é auxiliar o desenvolvimento livre e espontâneo da criança; intervém-se é para dar forma ao raciocínio dela”. UNICESUMAR UNIDADE 5 170 Já sob o regime republicano e um processo que combinou a urbanização com a industrialização, o Brasil passará a ter a presença de uma educação técnico-pro- fissional na escolarização de seus cidadãos. Paralelamente a este fator ocorre a “descoberta” da psicologia infantil. De acordo com Saviani (1999), quem melhor articulou estes dois aspectos no Brasil foi Lourenço Filho. O ponto culminante deste período se deu com o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova. Outro ponto importante foi a promulgação da Lei no 4.024 (BRASIL, 1961), nossa pri- meira lei de diretrizes e bases da educação, que entrou em vigor em 1962. Segundo Saviani (1999), a Pedagogia Nova representou uma espécie de biop- sicologização da sociedade, da educação e da escola. Segundo Saviani (1999, p. 20-21) “[...] alguns dos principais representantes da pedagogia nova se conver- teram à pedagogia a partir da preocupação com os ‘anormais’ (ver, por exemplo, Decroly e Montessori)”. A partir das experiências levadas a efeito com crianças “anormais” é que se pretendeu generalizar procedimentos pedagógicos para o conjunto do sistema escolar. A fim de facilitar a compreensão das mudanças decorrentes da disputa entre a Pedagogia Tradicional para a Pedagogia Nova, Saviani (1999) faz algumas com- parações. Compreende-se, então, que essa maneira de entender a educação, por referência à pedagogia tradicional, tenha deslocado o eixo da questão pedagógica da seguinte forma, conforme o quadro a seguir. A Pedagogia Tradicional A Pedagogia Nova Do intelecto Para o sentimento Do aspecto lógico Para o psicológico Dos conteúdos cognitivos Para os métodos ou processo peda- gógicos Do professor Para o aluno Do esforço Para o interesse Da disciplina Para a espontaneidade Do diretivismo Para o não diretivismo 171 A Pedagogia Tradicional A Pedagogia Nova Da quantidade Para a qualidade De uma pedagogia de inspiração filosófica centrada na ciência lógica Para uma pedagogia de inspiração experimental baseada principalmen- te nas contribuições da biologia e da psicologia De “o importante é aprender” Para “o importante é aprender a aprender” Quadro 3 - Pedagogia tradicional versus Pedagogia Nova / Fonte: Adaptado de Saviani (1999). Diante do exposto, para funcionar de acordo com a concepção escolanovista, a organização escolar teria de passar por reformulações consideráveis, isto é, “[...] a escola deveria agrupar alunos segundo áreas de interesses decorrentes de sua atividade livre. O professor agiria como um estimulador e orientador da aprendizagem [...]” (SAVIANI, 1999, p. 21). Seria, portanto, uma aprendizagem que partiria do agir do educando sobre o próprio objeto de conhecimento. Por exemplo, para aprender a ler, não seria necessário ensinar primeiro as vogais, depois as consoantes e depois as sílabas: mediante a convivência com textos que circulam socialmente, recorte de letras, atividades em equipes, jogos e brincadei- ras a criança seria capaz de se alfabetizar. Contudo, isto não quer dizer que não precisa do apoio do professor: o docente ajudará a criança a “resolver problemas” que forem surgindo durante o processo de aprendizagem. Assim, a educação e a escola no Brasil passam a ter novos encaminhamentos no início do século XX. O documento que representa esta mudança é o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova (1932) e dos Educadores (1959). Diferentes teorias psicológicas, com seus conceitos e métodos, com sua con- cepção de homem, educação e sociedade, trazem elementos que interferem di- retamente no trabalho do docente e este, por sua vez, poderá fazer diferentes intervenções que favoreçam uma aprendizagem de qualidade. Assim sendo, a aula se organiza de maneira diferente. O quadro a seguir busca sistematizar os “passos” que guiam a aula na Pedagogia Tradicional (Herbart) e os que guiam a aula de acordo com a Pedagogia Nova (Dewey). UNICESUMAR UNIDADE 5 172 A Pedagogia Tradicional A Pedagogia Nova Herbart Dewey 1° passo: preparação 1° passo: atividade 1° passo: atividade 2° passo: apresentação A 2° passo: problema 3° passo: assimilação 3° passo: coleta de dados 4° passo: generalização 4° passo: hipótese 4° passo: hipótese 5° passo: aplicação 5° passo: experimentação Quadro 4 - Organização do ensino: Pedagogia Tradicional versus Pedagogia Nova Fonte: elaborado com base em Saviani (1999). No final do século XX, outro movimento de renovação dos fundamentos da educação no Brasil se fez presente com a chegada das obras de Jean Piaget com tradução para o português. Jean William Fritz Piaget – nascimento em Neuchâtel, Suíça (1896) e falecimento em Genebra, Suíça (1980) – foi um biólogo, psicólogo e epistemólogo suíço. Defendeu uma abordagem interdisciplinar para a investi- gação epistemológica e fundou a Epistemologia Genética, teoria que tem como base o estudo da gênese psicológica do pensamento humano. Piaget revolucionou a educação de crianças ao mostrar que elas não pensam como os adultos e constroem o próprio aprendizado. Contudo, Piaget não cria um método, como ele próprio gostava de frisar. Ele nunca atuou como pedagogo. Em outras palavras, Piaget chega à conclusão que a chave para o desenvolvimento e a aprendizagem infantil é o desafio: quando se sente instigada a ir em busca do co- nhecimento, a criança mobiliza seus esquemas mentais e, assim, procura resolver a situação e a fim de se adaptar (“resolver”) ao problema ao qual foi exposta. 173 Saviani (1999) argumenta que as mudanças que ocorreram no trabalho pedagógico e que desembocaram na Escola Tecnicista estavam de acordo com as ocorridas no trabalho fabril. A Pedagogia Tecnicista foi teorizada com base no pressuposto da “neutralidade científica” e inspirada nos princípios de “racionalidade”, “eficiência” e “produtividade”. Neste sentido, essa pedagogia advoga a reordenação do processo educativo de maneira a torná-lo objetivo e operacional. De modo semelhante ao que ocorreu no trabalho fabril, pretende-se a objetivação do trabalho pedagógico. “ Buscou-se planejar a educação de modo a dotá-la de uma organi-zação racional capaz de minimizar as interferências subjetivas que pudessem pôr em risco sua eficiência. Para tanto, era mister opera- cionalizar os objetivos e, pelo menos em certos aspectos, mecanizar o processo. Dar a proliferação de propostas pedagógicas tais como A pedagogia tecnicista no Brasil: fundamentos históricos e filosóficos UNICESUMAR UNIDADE 5 174 o enfoque sistêmico, o microensino, o telensino, a instrução pro- gramada, as máquinas de ensinar etc. Daí também o parcelamento do trabalho pedagógico com a especialização de funções, postu- lando-se a introdução no sistema de ensino de técnicos dos mais diferentes matizes. Daí, enfim, a padronização do sistema de ensino a partir de esquemas de planejamento previamente formulados aos quais devem se ajustar às diferentes modalidades de disciplinas e práticas pedagógicas (SAVIANI, 1999, p.25). Em outros termos, a Pedagogia Tecnicista propôs a reorganização dos processos de ensino e de aprendizagem de maneira que a educação se tornasse voltada ao útil, ao prático, ao “aprender fazer”, no lugar do “pensamento” e da “reflexão”. Buscou-se, então, com base em justificativas teóricas derivadas da corrente filo- sófico-psicológica behaviorista/comportamentalista – abordagem que, grossomodo, considera que a aprendizagem efetiva só ocorre quando há mudança de comportamento no sujeito, daí o termo “comportamentalismo” –, planejar a edu- cação de modo a dotá-la de uma organização racional capaz de minimizar as interferências subjetivas que pudessem pôr em risco sua eficiência. Se na Pedagogia Tradicional a iniciativa cabia ao professor e se na Pedagogia Nova a iniciativa se deslocou para o educando, na Pedagogia Tecnicista o ele- mento principal passou a ser a organização racional dos meios, ocupando o professor e o aluno posição secundária. A organização do processo se converteu na garantia da eficiência, compensando e corrigindo as deficiências do professor e maximizando os efeitos de sua intervenção. Tendo como “pano de fundo” a teoria do capital humano, os princípios da racionalidade, eficiência e produtividade passam a fazer parte das ideias peda- gógicas no Brasil. Em uma comparação, se na Pedagogia Tradicional o centro era o professor, na Pedagogia Nova o centro passa a ser o educando, na Pedagogia Tecnicista o centro passa a ser a organização racional dos meios. Então, se na Pe- dagogia Tradicional o importante era aprender, na Pedagogia Nova o importante passa a ser o “aprender a aprender”, na Pedagogia Tecnicista o importante passa a ser o “aprender a fazer”. O quadro a seguir sistematiza a distinção que há entre as três tendências pedagógicas que organizaram e, ao mesmo tempo, buscaram didatizar os fundamentos históricos e filosóficos da educação no Brasil do século XVI ao século XX: 175 A Pedagogia Tradicio- nal (pressupostos e fundamentos) A Pedagogia Nova (pressupostos e fundamentos) A Pedagogia Tecnicista (pressupostos e funda- mentos) O intelecto O sentimento O objetivo O aspecto lógico O psicológico O operacional Os conteúdos cognitivos Os métodos ou proces- sos pedagógicos A objetivação do trabalho pedagógico O professor O aluno Os meios O esforço O interesse A eficiência A disciplina Para a espontaneidade A produtividade O diretivismo Para o não diretivismo O operacionalismo A quantidade A qualidade Para o controle do com- portamento Uma pedagogia de inspi- ração filosófica centrada na ciência lógica Uma pedagogia de inspiração experimental baseada principalmente nas contribuições da biologia e da psicologia Para uma pedagogia de inspiração na psicologia behaviorista (comporta- mentalismo), ênfase no estímulo-resposta “O importante é aprender” O importante é “apren- der a aprender” O importante “aprender a fazer” Quadro 5 - Comparação entre os fundamentos da Pedagogia Tradicional, Pedagogia Nova e Peda- gogia Tecnicista / Fonte: elaborado com base em Saviani (1999). Mediante estas três abordagens, denominadas por Saviani (1999) como “teorias não críticas”, tivemos (e ainda estamos tendo) a presença daquilo que Saviani (1999) denomina como “ensaios contra-hegemônicos” nas ideias pedagógicas, isto é, as pedagogias críticas passam a se fazer presentes na orientação da prática educativa, sobretudo entre 1980 e 2010. Dentre estas, destacamos a “pedagogia crítico-social dos conteúdos”, de José Carlos Libâneo, e a “pedagogia histórico- -crítica”, autoria do próprio professor Saviani. UNICESUMAR UNIDADE 5 176 A pedagogia histórico-crítica no Brasil: fundamentos históricos e filosóficos Para Saviani (1999), as três concepções que se fizeram presentes no Brasil até o final do século XX – Pedagogia Tradicional, Pedagogia Nova e Pedagogia Tec- nicista –, embora tenham cada uma sua especificidade, do ponto de vista dos fundamentos históricos e filosóficos que dão à educação escolar, têm uma mesma visão em relação às bases do processo de escolarização: a reprodução da socie- dade. A diferença é que (i) os métodos de ensino “tradicionais” privilegiam os métodos de transmissão dos conhecimentos já obtidos; (ii) os métodos de ensino “novos” privilegiam os processos de obtenção dos conhecimentos. Para além dos métodos novos e tradicionais, a proposta de uma Pedagogia Revolucionária, Histórico-Crítica, fundamentada nos ideais democráticos e nas ideias de Karl Marx (marxismo), em discussão no Brasil da década de 80 aos dias atuais, busca “[...] superar por incorporação as contribuições de uns e de outros” (SAVIANI, 177 1999, p. 79). No campo das teorias críticas, temos, no Brasil, a Psicologia Histó- rico-Cultural. Dentre os teóricos e obras principais desta teoria, temos: Vigotsky, Luria e Leontiev (2016) e Vygotsky (1984). Segundo a teoria de Vygotsky, “[...] há uma diferença entre o que o sujeito pode fazer sozinho e o que ele pode fazer com a ajuda de um parceiro” (BRASIL, 2015, p. 103). Dessa forma, pode-se dizer que o professor “[...] pode atuar a partir da zona de desenvolvimento proximal dos alunos, qualquer que seja o nível, e assim pro- mover o desenvolvimento de cada aluno” (BRASIL, 2015, p. 103). Nas palavras de Vygotsky (1984, p. 97), “[...] a Zona de Desenvolvimento Proximal define aquelas funções que ainda não amadureceram, mas que estão em processo de maturação, funções que amadureceram, mas que estão, presentemente, em estado embrionário”. Dentre as pedagogias críticas que passam a se fazer presentes na orientação da prática educativa, destacamos a “pedagogia crítico-social dos conteúdos”, de José Carlos Libâneo, e a “pedagogia histórico-crítica”, autoria do próprio professor Dermeval Saviani. O quadro a seguir busca sistematizar como se diferencia a organização da aula na medida em que o docente tem como base (1) a Pedagogia Tradicional; (2) A Pedagogia Nova e (3) A Pedagogia Revolucionária (crítica) e seus funda- mentos históricos e filosóficos. A Pedagogia Tradicional A Pedagogia Nova A Pedagogia Revolucio- nária (crítica) Herbart Dewey Saviani 1° passo: preparação 1° passo: atividade 1° passo: prática social 2° passo: apresentação 2° passo: problema 2° passo: problematização 3° passo: assimilação 3° passo: coleta de dados 3° passo: instrumentalização 4° passo: generalização 4° passo: hipótese 4° passo: catarse 5° passo: aplicação 5° passo: experimentação 5° passo: prática social Quadro 6 - Comparação entre os passos da aula - Pedagogia Tradicional, Pedagogia Nova e Pedagogia Histórico-Crítica / Fonte: adaptado de Saviani (1999). UNICESUMAR UNIDADE 5 178 Atualmente, as diferentes abordagens pedagógicas expostas acimas podem coexistir no ambiente escolar. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação – LDB (9.394/96) garante a pluralidade de ideias pedagógicas na escola pública brasilei- ra. Cabe ao professor refletir: a criança, ao chegar à escola, traz consigo sua his- tória e sua cultura. Isto deve ser considerado como algo relevante nos processos de ensino e de aprendizagem. A ação educativa só tem sentido se estiver adequada a este sujeito, sua idade e seu contexto de vida. O que escrevo? Quando escrevo? Como escrevo? Para quem escrevo? O que leio? Quando leio? Como leio? Para quem leio? Por que estudo? O que estou estudando? São perguntas que devem estar presentes e serem res- pondidas no dia a dia no processo de escolarização. Respostas a estas perguntas são encontradas nos fundamentos históricos e filosóficos que a educação escolar brasileira vem tendo ao longo do desenvolvimento do acesso à escolarização para todos. Cabe ao professor definir qual estratégia, pedagogia, abordagem, funda- mento e prática guiará o seu agir na sala de aula. 179 Paulo Freire e seus impactos nos fundamentos históricos e filosóficos na educação no Brasil e no mundo Paulo Freire é um pensador que não pensa as ideias, mas a existência humana. Por isto, propõe uma escolarização na qual o sujeito seja capaz de aprender a escrever a sua vida, como autor e como testemunha de sua história, isto é, biografar-se, existenciar-se, historicizar-se. Na proposta de Paulo Freire, por meio dos círcu- los de cultura, o professor passa a propiciar condições favoráveis à dinâmica do grupo, reduzindo ao mínimo sua intervenção direta no curso do diálogo. Neste sentido,o educando começa a escrever livremente, não copia palavras, mas expressa juízos. Então, Freire não inventa um método de ensino, mas, podería- mos dizer, um “método de conscientização”. O conhecimento do mundo da leitura, da escrita, da literatura e das ciências se tornam toda a pedagogia: os saberes ocor- rem quando o sujeito aprende a dizer a sua própria palavra. E a palavra humana é criadora, então, aprende-se criando, pensando, filosofando; dialogando com o outro. Quanto à justificativa em relação à “Pedagogia do oprimido”, Paulo Freire explicita que ela é necessária diante da necessidade de que haja o desapareci- mento da rigidez nas relações educador-educando. Neste sentido, a pedagogia do oprimido é “[...] aquela que tem de ser forjada com ele e não para ele, enquanto homens ou povos, na luta incessante de recuperação de sua humanidade” (FREI- RE, 1987, p. 34). O autor considera que a grande tarefa humanística e histórica dos oprimidos é libertar a si e aos opressores. UNICESUMAR UNIDADE 5 180 Descrição da Imagem: a figura apresenta uma foto em preto e branco de Paulo Freire. Nesta, está um homem de cor clara, na faixa etária de cinquenta anos, de óculos grossos de grau, calvo, com cabelos curtos no lado da cabeça, barba e bigode grisalhos fartos e de comprimento médio, e um semblante sério. Ele está fotografado em formato de busto, provavelmente em pé, voltado para a esquerda da imagem. Ele está vestindo um terno preto e camisa cinza, que cobrem seu corpo, com exceção da cabeça. Figura 1 - Paulo Freire (1977) / Fonte: Wikimedia Commons (1977, on-line). 181 Um dos elementos básicos na mediação opressores-oprimidos é a prescrição. “Toda prescrição é imposição da opção de uma consciência a outra”, diz Paulo Freire (1987, p. 36-37). A Pedagogia do Oprimido é a pedagogia dos sujeitos empenhando-se na luta por sua libertação. Ela “busca a restauração da inter- subjetividade, se apresenta como pedagogia do homem” (FREIRE, 1987, p. 45). Importante apontar que, para Paulo Freire, ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho: os seres humanos se libertam em comunhão. Por isto, não existe autolibertação – ninguém se liberta sozinho. A Pedagogia do Oprimido se opõe ao que Paulo Freire denomina “con- cepção ‘bancária’ da educação”, isto é, a aula expositiva, tendo como metodologia principal o ensino verbalista (a Pedagogia Tradicional, como vimos anteriormen- te). Consiste em uma relação educador-educandos na qual a narração se torna produto didático, sendo, então, o educador o sujeito que: “ [...] conduz os educandos à memorização mecânica do conteúdo narrado. Mais ainda, a narração os transforma em ‘vasilhas’, em re-cipientes a serem ‘enchidos’ pelo educador. Quanto mais cheios’ os recipientes com seus ‘depósitos’, tanto melhor educador será. Quanto mais se deixar docilmente ‘encher’, tanto melhores educandos serão (FREIRE, 1987, p. 66). Na visão “bancária” da educação, o “saber” é uma doação dos que se julgam sá- bios aos que “nada sabem”. Nesta concepção, os seres humanos são vistos como seres da adaptação, do ajustamento. Para se perpetuar, a concepção “bancária” (Pedagogia Tradicional) nega a dialogicidade, ou seja, o diálogo, a “conversa” e, portanto, faz-se antidialógica. Por outro lado, a Pedagogia do Oprimido afirma a dialogicidade e se faz dialógica. Considera que ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mes- mo, os seres humanos se educam entre si, mediatizados pelo mundo. Trata-se de uma concepção de educação problematizadora que parte exatamente do caráter histórico e da historicidade dos homens. “Enquanto a concepção ‘bancária’ dá ênfase à permanência, a concepção problematizadora reforça a mudança”, diz Paulo Freire (1987, p. 84). UNICESUMAR UNIDADE 5 182 A dialogicidade é a essência da educação como prática da liberdade tendo como sua essência a palavra, pois “não há palavra verdadeira que não seja práxis. Daí que dizer a palavra verdadeira seja transformar o mundo” (FREIRE, 1987, p. 89). Entre- tanto, não há diálogo quando não se acredita no potencial de desenvolvimento e de aprendizagem que há no ser humano. É a “fé” no poder humano “[...] de fazer e de refazer. De criar e recriar. Fé na sua vocação de ser mais, que não é privilégio de alguns eleitos, mas direito dos homens”, diz o autor (FREIRE, 1987, p. 93). O diálogo começa na busca pelo conteúdo programático. Será, portanto, “a partir da situação presente, existencial, concreta, refletindo o conjunto de aspira- ções do povo, que poderemos organizar o conteúdo programático da educação ou da ação política” (FREIRE, 1987, p. 100). Metodologicamente, na Pedagogia do Oprimido/Pedagogia Dialógica, deli- mitada a área em que se vai trabalhar, conhecida por meio de fontes secundárias, começam os investigadores a primeira etapa de investigação. Em seguida, vem a segunda fase da investigação que começa quando os investigadores, por meio dos dados colhidos, chegam à apreensão daquele conjunto de contradições em torno do tema gerador investigado. A última etapa se inicia quando os investi- gadores (os educandos), terminadas as descodificações nos círculos, dão começo ao estudo sistemático e interdisciplinar de seus achados. Paulo Freire diz que não há revoluções com verbalismos, nem tampouco com ativismo, mas com práxis, portanto, com reflexão e ação incidindo sobre as estruturas a serem transformadas. Desta forma, atores, no plural, em intersubjeti- vidade e intercomunicação estarão em oposição à ação antidialógica, mecanicista. A teoria da ação antidialógica se respalda em uma visão localista dos problemas humanos e não na visão deles como dimensão de uma totalidade, pela manipu- A obra de Paulo Freire tem sido reconhecida mundialmente não apenas como uma res- posta a problemas brasileiros do passado ou do presente, mas como uma contribuição original e destacada da América Latina ao pensamento pedagógico universal. Não se pode dizer que seu pensamento responda apenas à questão da educação de adultos ou à pro- blemática do chamado “Terceiro Mundo”. (Moacir Gadotti) PENSANDO JUNTOS 183 lação das massas oprimidas e pela invasão cultural, isto é, “[...] é a penetração que fazem os invasores no contexto cultural dos invadidos, impondo a eles sua visão do mundo, enquanto lhes freiam a criatividade, ao inibirem sua expansão” (FREI- RE, 1987, p. 173). Por sua vez, a teoria da ação dialógica tem como características a “colaboração”, a união, a organização e a síntese cultural. O quadro a seguir busca demonstrar a distinção entre a educação bancária e a educação libertadora, nos termos defendidos por Paulo Freire. Educação bancária versus Educação libertadora Educação Bancária Educação libertadora Contradição entre educador-educando Superação da contradição entre edu- cador-educando Serve à dominação Serve à libertação Antidialógica Dialógica Inibe a criatividade Estimula a criatividade e a reflexão Domesticadora Crítica Conservadora Revolucionária Quadro 7 - Contradição entre educação bancária e educação libertadora Fonte: elaborado com base em Freire (2005). Em síntese, por meio da Pedagogia do Oprimido, Paulo Freire busca uma nova concepção de educação que se efetive em busca da mudança/transformação so- cial e, assim, a construção de uma sociedade humanizada. NOVAS DESCOBERTAS O Ministério da Educação (MEC) disponibiliza on-line a Coleção Educadores, com 62 títulos. Dentre as obras, 31 são de autores brasileiros, 30 são livros de pensadores estrangeiros e um livro é intitulado Manifesto dos pioneiros da Educação Nova (1932) e dos educadores (1959). UNICESUMAR https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/14950 UNIDADE 5 184 Esta unidade do nosso livro se centrou nos estudos dos fundamentos históricos e filosóficos da educação no Brasil. Com base em Saviani (2007), identificamos quatro períodos da história da educação no Brasil: 1° Período (1549-1759): Mo- nopólio da vertente religiosa da pedagogia tradicional; 2° Período (1759-1932):Coexistência entre as vertentes religiosa e leiga da pedagogia tradicional; 3° Pe- ríodo (1932-1969): Predominância da pedagogia nova; 4° período (1969-2001): Configuração da concepção pedagógica produtivista. O conhecimento dos diferentes momentos que fizeram parte da construção dos fundamentos da educação no Brasil nos possibilita refletir sobre o que é ser professor nos dias atuais. Somos o que somos mediante uma identidade que foi sendo construída ao longo do desenvolvimento do pensamento educacional ocidental. Parabéns por seus estudos! Ao longo desta unidade, buscamos compreender os fundamentos da educa- ção no Brasil. Primeiramente, analisamos a influência dos padres jesuítas como o primeiro esboço de uma concepção de educação sistemática. Com uma peda- gogia de base cristã, esta predominou em nosso país até a expulsão dos jesuítas em 1759. Neste período, predominou a Pedagogia Tradicional. Com a abolição da escravidão (1888) e a Proclamação da República (1889), o ideário de “ensinar tudo a todos” passou a se fazer presente. Logo que surgem os primeiros grupos escolares, a abordagem hoje denominada “tradicional” começa 185 a ser questionada, tendo o seu ápice com o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, em 1932, ou seja, a Pedagogia Nova foi uma das principais vertentes que deram fundamentos históricos e filosóficos à educação no Brasil no século XX. Contudo, ainda no século XX, tivemos a Pedagogia Tecnicista, que predomi- nou durante o regime militar. Centrada no “aprender a fazer”, tinha como funda- mento ideológico o produtivismo. Com a redemocratização do Brasil, a Constituição de 1988 estabelece o desafio de melhorar a qualidade da educação no Brasil. Temos, então, as Pedagogias Críti- cas. Os Estados e os governos, com diferentes enfoques com relação à escolarização, têm o desafio de encontrar fundamentos históricos e filosóficos para uma educação que seja capaz de alcançar o ideário contemporâneo: ensinar tudo a todos. Nos dias atuais – século XXI –, o Brasil ainda enfrenta inúmeros desafios na (i) formação cultural, (ii) na educação e (iii) na pedagogia. Sobre os fundamen- tos históricos e filosóficos da educação para o século XXI, por um lado, temos o desafio de responder qual a finalidade da educação que está sendo ofertada atual- mente como obrigatória, bem como quais os fundamentos do ensino superior (graduação e pós-graduação); por outro lado, se damos uma resposta como, por exemplo, de que “a educação no Brasil centra-se na formação para o trabalho”, cabe a nós, professores, questionarmos se é exclusivamente para o trabalho que a educação forma e/ou deve formar. UNICESUMAR 186 1. Algumas concepções pedagógicas norteiam o trabalho realizado nas instituições de ensino. Dentre elas, temos a da Pedagogia Tradicional que muito contribuiu para o surgimento de outras concepções. Acerca das características da Pedagogia Tradicio- nal e seu processo (Processo Tradicional), analise as afirmações a seguir. I - A Pedagogia Tradicional defende que o educando elabore/construa seus próprios conhecimentos. A criança é o centro do processo educativo. II - A Pedagogia Tradicional é uma tendência pedagógica centrada no professor. III - A Pedagogia Tradicional se caracteriza pela ênfase dada à necessidade de que ocorra a apropriação do conhecimento, porém, isto só ocorre quando o educan- do decora o conteúdo ensinado. IV - A Pedagogia Tradicional evidencia o professor como o “centro” do saber e o principal agente para que ocorra a aprendizagem. É correto o que se afirma em: a) I, II, III e IV. b) II, III e IV, apenas. c) I, III e IV, apenas. d) I, II, III, apenas. e) I e IV, apenas. 2. Considere o seguinte excerto de texto a seguir: [...] uma forma intermediária de castigo, entre o físico e o moral, era deixar o aluno em pé, durante a aula, enquanto os colegas permaneciam sentados. Nesse caso, era castigado fisicamente, pela posição, e moralmente, pelo fato de tornar-se visível a todos os colegas sua fragilidade. Era a exposição pública do erro. LUCKESI, C. C. Prática Escolar: do Erro Como Fonte de Castigo ao Erro Como Fonte de Virtude. CR- maricovas, [2022]. Disponível em: http://www.crmariocovas.sp.gov.br/pdf/ideias_08_p133-140_c. pdf. Acesso em: 19 maio. 2022. O rígido controle e a disciplina dos conteúdos são procedimentos adotados na: a) Escola Tradicional. b) Pedagogia das Competências. c) Escola Nova. d) Pedagogia Anarquista. e) Escola Libertária. 187 3. Considerando os fundamentos históricos e filosóficos do Processo Construtivista (Jean Piaget) e sua influência sobre a educação na contemporaneidade, é correto afirmar que no processo Construtivista… a) o método é o responsável pela aquisição da aprendizagem. b) a obtenção do conhecimento é resultado da atividade do próprio sujeito (“sujeito cognoscente”). c) o ponto de partida para a aprendizagem é o conteúdo transmitido pelo professor. d) a linguagem oral, a escrita e a leitura se desenvolvem separadamente, atuando, porém, de maneira interdependente no processo de aprendizagem. e) o ponto de partida para o conhecimento é a diversidade cultural e a pluralidade. 4. Leia com atenção os excertos 1 e 2 que tratam dos fundamentos da educação da Pedagogia Tradicional no Brasil. Excerto 1: O termo pedagogia tradicional [...] adveio do estudo das concepções antigas de educação. Essa teoria ou concepção pedagógica formou-se a partir dos pontos re- correntes nas práticas de ensino evidentes ao longo da história da educação. Daí o termo Pedagogia Tradicional, para explicitar a sua recorrência, a sua gênese histó- rico-cronológica. SÁ, R. Concepção Pedagógica Tradicional. InfoEscola, [2022]. Disponível em: http://www.infoesco- la.com/pedagogia/concepcao-pedagogica-tradicional/. Acesso em: 19 maio. 2022. Excerto 2: Segundo o verbete criado pelo filósofo e pedagogo brasileiro Dermeval Saviani para o glossário do sítio da Unicamp [...], a introdução da denominação “Concepção Pe- dagógica Tradicional ou Pedagogia Tradicional” foi introduzida no final do século XIX com o advento do movimento renovador que, para marcar a novidade das propostas que começaram a ser veiculadas, classificaram como ‘tradicional’ a concepção até então dominante. SÁ, R. Concepção Pedagógica Tradicional. InfoEscola, [2022]. Disponível em: http://www.infoesco- la.com/pedagogia/concepcao-pedagogica-tradicional/. Acesso em: 19 maio. 2022. 188 Considerando a leitura dos excertos, produza um texto dissertativo entre 5 e 10 li- nhas explicando, de acordo com os pressupostos de Dermeval Saviani na obra Escola e Democracia acerca da Pedagogia Tradicional: a) Como a Pedagogia Tradicional vê a função da escola. b) Como a escola se organiza de acordo com a Pedagogia Tradicional. 5. Na obra “Escola e Democracia” de Dermeval Saviani, a fim de demonstrar que, por referência à Pedagogia Tradicional, a maneira de entender a educação passou por um “deslocamento do eixo da questão pedagógica”, implicando na Pedagogia Nova, o autor sistematiza estas mudanças da seguinte forma: A Pedagogia Tradicional (pressupostos e funda- mentos) A Pedagogia Nova (pressu- postos e fundamentos) A Pedagogia Tecnicista (pressupostos e funda- mentos) O intelecto O sentimento O objetivo O aspecto lógico O psicológico O operacional Os conteúdos cognitivos Os métodos ou processos pedagógicos A objetivação do trabalho pedagógico O professor O aluno Os meios O esforço O interesse A eficiência A disciplina Para a espontaneidade A produtividade O diretivismo Para o não diretivismo O operacionalismo A quantidade A qualidade Para o controle do comportamento Uma pedagogia de inspiração filosófica centrada na ciência lógica Uma pedagogia de inspiração experimental baseada principalmente nas contribuições da biologia e da psicologia Para uma pedagogia de inspiração na psicologia behaviorista (comportamen- talismo), ênfase no estímulo-resposta “O importante é aprender” O importante é “aprender a aprender”O importante “aprender a fazer” Quadro 8 - Sistematização das mudanças na Pedagogia / Fonte: o autor. 189 Considerando a análise do quadro, produza um texto dissertativo-argumentativo entre 15 e 30 linhas sobre a pedagogia tradicional e sua didática, contemplando os seguintes tópicos: a) A função da escola de acordo com a Pedagogia Tradicional (considere os funda- mentos históricos e filosóficos desta abordagem pedagógica). b) Como a escola é organizada de acordo com essa Pedagogia. c) A didática da Pedagogia Tradicional (método expositivo – Herbart). 190 UNIDADE 1 ADELMAN, M. 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Sobre a sentença II - A filosofia oferece os meios teóricos para despertar e desenvolver o senso crítico necessário para se distanciar de formas de pensar e encarar pré-con- cebidas pelo meio cultural (política, religião etc). Sobre a sentença III - O conhecimento filosófico tem origem na reflexão e no ques- tionamento até mesmo do que é considerado verdade pela maioria. Para aprender e descobrir o novo a partir do que já está consolidado, é necessário rigor observatório e conhecimento dos principais autores da história da filosofia - vale ressaltar que cada filósofo produziu sua filosofia a partir do contato com o mesmo mundo que seus semelhantes. IV - Se checarmos a etimologia da palavra Filosofia, o que se segue está correto: do grego Φιλοσοφία, “filosofia”, é uma palavra que, traduzindo para a língua portuguesa, significa “amor à sabedoria”. 2. C. 1°) Idade Antiga, 2°) Idade Média, 3°) Idade Moderna e 4°) Idade Contemporânea. Essa forma de periodização da história é aceita pela maioria dos historiadores. 3. C. 1°) Filosofia Antiga, 2°) Filosofia Medieval, 3°) Filosofia Moderna e 4°) Filosofia Con- temporânea. Essa forma de periodização da história da filosofia é aceita pela maioria dos pesquisadores de filosofia. 4. E. 1. conhecimento popular; 2. conhecimento empírico; 3. conhecimento filosófico; 4. conhecimento teológico. Se checarmos o quadro de Ferrari (1974), veremos que cada tipo de conhecimento apresenta características específicas. No entanto, é possível observar também algumas semelhanças entre os diversos tipos de conhecimento, por exemplo: o conhecimento filosófico é considerado infalível da mesma maneira que o conhecimento teológico. O caráter infalível está diretamente associado ao fato de que esses tipos de conhecimento são capazes de criar sistemas próprios e autossuficientes, regidos por regras especiais. Desse modo, tratam-se de formas de conhecimento capazes de atribuir sentido ao mundo a partir do rigor intelectual e inspiracional (especialmente, no conhecimento religioso). 198 5. A Filosofia da Educação é um saber crítico e reflexivo sobre o sentido da educação, que discute e problematiza as questões relativas à formação humana. Nessa perspectiva, busca investigar os modos como determinados questionamentos ontológicos, episte- mológicos, antropológicos, políticos, éticos e estéticos atuam sobre o agir educativo. Os problemas abordados pela filosofia da educação são datados e situados historicamente e respondem pelo tipo de racionalidade que orienta o agir educacional. Na medida em que a filosofia problematiza as origens, as justificações e os limites do saber e o sentido da ação humana, ela torna consciente, para os envolvidos no processo educativo, a racionalidade que determina suas ações. Assim, não é a filosofia que estabelece os fins ou o sentido ético da educação, mas ela problematiza essas questões. UNIDADE 2 1. D. I - Apenas os avanços no pensamento científico devem ser considerados quando se trata do desenvolvimento das ciências na modernidade. Fatores de natureza ultra- científica, que possuem relação com a economia, a cultura e o contexto social, não influenciam sob o advento científico. - A ciência não existe de forma “separada do mundo”. Portanto, todo o contexto cultural e econômico exerce influência direta no desenvolvimento científico. II - O campo de estudos das ciências naturais, representado pela Química, é tão in- fluenciado por fatores sociais quanto a Sociologia, assim como se desenvolveu em razão dos avanços do pensamento positivo-racional. - Independentemente da área, toda ciência é realizada pelo ser humano. Nesse sentido, se levarmos em con- sideração que o ser humano estará sempre inserido em um contexto cultural e econômico, teremos que admitir a influência por fatores sociais (ainda que porventura seja inconsciente). III - O autor desconsidera que o surgimento das ciências pode estar relacionado às condições sociais, econômicas e culturais. - As ciências surgiram para desenvolver a qualidade de vida do ser humano: lidar com crises, otimizar processos, com- preender os fenômenos do mundo. Portanto, ela não existe “por si”, mas está diretamente associada com o respectivo contexto sociocultural. IV - A Sociologia é uma ciência que emerge das transformações sociais, dessa maneira, os efeitos das crises sociais são determinantes para o surgimento desta disciplina. - Toda crise pode se tornar uma oportunidade de inovação e desenvolvimento. Com o advento da Revolução Industrial, a sociedade ocidental dos séculos XVIII e XIX sofreu severas transformações. Nesse contexto, a Sociologia surge como uma ciência responsável pela compreensão e solução dos problemas oriundos da Revolução Industrial. 199 2. B. I - O positivismo defendia a ideia de que o ensino nas escolas devia seguir as tradições religiosas e os preceitos da fé cristã. F - Muito pelo contrário - O positivismo defendia o ensino das ciências. II - Segundo o positivismo, o progresso social seria alcançado, por meio da disciplina e da ordem. V - Exatamente! Para os positivistas, Ordem e disciplina eram considerados sinôni- mos de progresso. Essas qualidades deveriam ser apreciadas na ciência. III - Os pensadores positivistas, que, posteriormente, ficaram conhecidos como funda- dores da sociologia, acreditavam que a ciência deveria substituir a religião na função de elemento de conservação social. V - Para os positivistas, em termos de conservação social, compreender o mundo e torná-lo um lugar melhor para se viver por meio da ciência é mais interessante do que deixar os fenômenos mundanos de lado para focar na salvação em um além- -mundo, como defende a religião judaico-cristã (maior influenciadora do Ocidente). IV - A corrente positivista foi criada a partir de um projeto que buscava mudanças na edu- cação, porém suas ideias foram rechaçadas e não houve aplicação prática. F - A corrente positivista exerceu bastante influência especialmente no Brasil, ins- pirando até mesmo o lema da bandeira oficial. 3. C. I - Tanto na Ásia como na África, na América, na Oceania ou na Europa, desde o século XVIII, os conhecimentos sobre o funcionamento da sociedade são dispensáveis. - Pelo contrário - o funcionamento da sociedade dessas regiões foi de suma importância para o desenvolvimento das ciências humanas como um todo. II - O pensamento antropológico permite conhecer e aceitar a diversidade cultural e, por meio do conhecimento das culturas, construir um olhar atento sobre a realidade social em que vivemos. - O pensamento antropológico defende que não há somente uma cultura, mas várias culturas de igual valor perante o mundo. III - O conhecimento sociológico é um possibilitador para que a humanidade conheça melhor a si própria e suas construções coletivas. - O conhecimento sociológico torna possível conhecermos a nós mesmos a partir da análise do próximo. IV - A Antropologia, assim como a Sociologia, faz parte do movimento na ciência que deixa de lado as explicações sobre a humanidade, por meio exclusivo dos fenômenos naturais. A vida humana, com suas características sociais, políticas e culturais tornam-seobjeto científico. - Do mesmo modo que a natureza como um todo se tornou o objeto de estudo das ciências naturais, toda a produção humana também se tornou objeto de estudo do próprio homem. 200 V - Não há aplicabilidade prática dos fundamentos teóricos da Sociologia e Antropologia na educação. - Há aplicabilidade, pois é de consenso geral que a realidade escolar está diretamente associada com a sociedade e suas constantes transformações. 4. D. d) Anísio Teixeira foi um importante articulador da política educacional no Brasil, responsável pela consolidação da educação como uma ciência. Ele acreditava que a experiência educacional deveria considerar a vida coletiva em sociedade. Alguns pesquisadores tratam Anísio Teixeira como o “inventor” da escola pública no Brasil. 5. Os princípios republicanos encontraram consonâncias com os princípios positivistas, principalmente, quanto à “evolução organizada”, almejada por ambos. Além disso, os republicanos rejeitam a Monarquia, modo de governo operado até então no Brasil por meio de sua máxima do poder instituído por Deus, o que encontra, também, familiaridade com a característica laica do positivismo. UNIDADE 3 1. B. F-F-V ( ) Durkheim contrariava qualquer dogma pregado pelas religiões, considerando que todos seus ensinamentos deveriam ser descartados em favor da ciência e da moral racional. F - Não se trata de excluir totalmente, mas de balancear o peso da religião com o valor da ciência e da moral racional. ( ) O objetivo da educação seria, para Durkheim, excluir todas as características do ser individual, moldando todos com os mesmos métodos a fim de que se tornem seres sociais. F - Não se trata de excluir as características individuais. Pelo contrário, a vida em sociedade é composta pela união das características individuais de cada indivíduo. ( ) A teoria durkheimiana acredita que a necessidade em se moldar o ser social dá- -se pelo fato de que humanos vivem em sociedades complexas, em que a vida social só é possível se cumpridas as normas determinadas. V - A moldagem do ser social pode ser compreendida como a adequação dos indivíduos para uma existência harmônica a partir das normas sociais determinadas. 2. Marx e Durkheim centraram suas teorias no poder das forças externas ao indivíduo. Já Weber, centra-se na capacidade de ação do indivíduo sobre o exterior. 201 3. E. a) A estratificação, segundo Karl Marx, seria benéfica para a sociedade uma vez que, assim, os indivíduos podem desempenhar sua função natural na vida. - Pelo contrário, a estratificação social para Marx é o que gera os problemas sociais, uma vez que as classes dominantes visam apenas o benefício próprio. b) Como retratado no trecho apresentado, Marx era contra o trabalho nas fábricas, desse modo o autor defendia que a educação para a classe trabalhadora fosse apenas intelec- tual - Marx não era contra o trabalho nas fábricas, mas era contra a forma como o trabalho nas fábricas era organizado: jornadas de trabalho excessivas, exploração do trabalho infantil e salários baixíssimos. c) Para Karl Marx, a sociedade capitalista tem a escola como grande inimiga, uma vez que esta opera em uma lógica diferente do resto do sistema e possui compromisso com a ideologia dos dominados - Falso, para Marx a escola reproduz a ideologia da classe dominante, o que contribui com a perpetuação e influência sobre a classe dominada (proletário). d) A divisão da educação, constatada por Marx, não faz mais sentido atualmente uma vez que todas as classes têm acesso igual às oportunidades e à educação - Falso, pois o aces- so à educação ainda continua sendo um privilégio e não uma realidade para todos. e) De acordo com a teoria marxista, a educação na sociedade capitalista tende a repro- duzir as relações sociais e as ideologias da classe dominante. - Verdadeiro, para Marx as escolas são exemplos de aparelhos ideológicos do Estado, responsável pela difusão da ideologia da classe dominante. 4. B. I e IV apenas. I - Para Weber, nas sociedades modernas, a Educação funciona como uma espécie de treinamento para habilitar o indivíduo a realizar tarefas específicas. - Verdadeiro, trata-se da educação técnica. II - Segundo Max Weber, a sociedade moderna baseia seu sistema educacional em crenças e tradições que remetem à religião, num processo chamado burocratização. - Falso, o sistema educacional moderno é baseado em fundamentos racionais. III - A racionalização da educação, descrita por Weber, seria uma ameaça para a ma- nutenção do capitalismo. - Falso, educar, na forma da racionalização, tornou-se essencial para o Estado e para o capitalismo, uma vez que foi necessário se respaldar no Direito nacional e na burocracia, fornecendo profissionais espe- cializados para que as empresas capitalistas, c cumprir o seu fundamento de lucrar. Segundo o autor, portanto, o capitalismo moderno e o Estado foram responsáveis por conceber o Homem racional, um Homem desencantado do mundo, que não se guiaria mais pelos desígnios de Deus e de imperadores, mas se orienta pela lei e pela razão. IV - Na pedagogia do treinamento, descrita por Weber, o objetivo da educação seria a busca por títulos e qualificação formal. - Verdadeiro, trata-se da busca pela qualifi- cação formal, sendo uma forma de comprovar a competência técnica e prática. 202 5. C. a) Uma vez que a educação, para Durkheim, é um fato social que obedece ao requisito da generalidade, ou seja, ser direito geral de todos, sua teoria poderia ter sido usada para defender o não adiamento do Enem 2020. - Falso, pois a teoria de Durkheim corrobora com a ideia do adiamento do Enem, e não o contrário. Sem o adia- mento, não é possível falar em “direito geral de todos”. b) Em um ponto de vista diferente da autora da proposta no Senado, seria possível fazer uso da teoria de Karl Marx para defender o adiamento do Enem 2020, uma vez que, para o autor, a educação formal deveria ser abolida. Falso - Há distorções no pensamento de Marx, não se trata de abolir a educação formal, mas de ampliar o seu acesso. c) Weber poderia ser acionado pela autora da proposta de adiamento do Enem 2020, já que, para o autor, a educação auxilia na formação de uma classe privilegiada por vantagens econômicas e sociais, em consonância com o argumento usado pela senadora. Verdadeiro - A educação pode servir como um meio de perpetuar as desigualdades sociais. d) Usando um argumento weberiano, poderia se dizer que, a decisão do adiamento ou não do Enem 2020 deveria ser tomada pelos professores, já que estes detêm conhecimento e poder legítimo para sobrepor a opinião dos alunos. - Falso, pois os professores não conhecem a realidade dos alunos tão bem quanto os próprios alunos que seriam prejudicados. e) Não é possível aplicar a teoria dos autores clássicos da sociologia nesse caso, pois eles são muito antigos e suas teses já foram todas descartadas. - Falso, o que torna algo um clássico, é seu caráter atemporal. UNIDADE 4 1. D. I - A antropóloga Ruth Benedict é da vertente culturalista na antropologia, por isso, acredita que as nossas percepções sobre o mundo são condicionadas por nossos costumes e nossas instituições, pela nossa cultura. - Exatamente! Ruth Benedict de- fendia a tese de que a cultura é capaz de moldar as percepções sobre o mundo de seus adeptos. II - Nossa maneira de pensar e agir, assim como destaca Ruth Benedict, são condicio- nadas pela nossa cultura. - Exatamente! A cultura pode ser compreendida como uma narrativa coletiva do mundo compartilhada entre os integrantes de uma mesma cultura. III - Todas as pessoas são livres de preconceito, desde que nasceram. - Pelo contrário, todas as pessoas são inseridas ao nascer na cultura local, recebendo inúmeras infor- mações e valores, bem como os preconceitos da respectiva cultura. 203 IV - Os preconceitos estão presentes na visão de mundo de qualquer pessoa que es- teja submetida à determinada cultura, e eles podem ser desfeitos na medida emque aprendemos sobre outras culturas. - Acredita-se que ao entrarmos em contato com uma cultura diferente, estaremos aptos a observar que há várias formas de encarar o mesmo mundo. Ou seja, é possível concluir que não há uma “cultura absoluta”. V - Quando a antropóloga diz que não há ninguém que não veja o mundo com uma visão pura de preconceitos, ela quer dizer que a nossa maneira de pensar é moldada, culturalmente, por isso, não é pura. Exatamente! Não é possível defender a pureza quando somos bombardeados culturalmente por valores e pensamentos que já existiam antes de nosso nascimento. 2. C. I - O trecho transcrito orienta sobre a postura que um antropólogo deve ter ao analisar as situações em trabalho de campo. - Malinowski foi pioneiro na pesquisa de campo, servindo como um guia para os demais estudiosos que tivessem a intenção de estudar quaisquer sociedades com uma maior profundidade. II - Malinowski chama atenção para a necessidade de manter um olhar atento e investigativo ao se observar as ações das pessoas que compõem a sociedade que se estuda. - É preciso se atentar aos detalhes e investigar as possíveis causas dos comportamentos que estão sendo presenciados na respectiva sociedade estudada. III - Compreender o sistema total da instituição social mais importante da socieda- de que estuda é uma das grandes características da antropologia funcionalista de Malinowski. - Para Malinowski, toda sociedade possui um modus operandi especial, compreender a lógica por trás da sociedade estudada permite compreender todos os fenômenos particulares dessa mesma sociedade. IV - Segundo o que relata o autor, não é importante estar presente no campo e observar de maneira participante a sociedade que estuda. - Pelo contrário, Malinowski foi um dos pioneiros na pesquisa de campo das sociedades que estudou. 3. C. a) A antropologia não é uma ciência relevante para as Ciências Sociais. - A antropolo- gia é uma ciência relevante para as Ciências Sociais, pois se trata de uma abordagem diferente sobre o mesmo objeto - a sociedade. b) Embora o evolucionismo tenha contribuído para visões racistas nas ciências huma- nas, o campo de estudos inaugurou o debate antropológico e mostrou que o social não deve ser considerado nos estudos da humanidade. - Pelo contrário, o evolucionismo corrobora a tese de que o social deve ser considerado nos estudos da humanidade c) Os primeiros estudos antropológicos provaram que o desenvolvimento social não é, unicamente, biológico, as construções culturais também determinam boa parte do nosso comportamento em sociedade. Exatamente! A partir dessa constatação, os produtos e atividades do homem (cultura) passaram a ter o caráter de objeto científico, assim como a natureza o tem nas ciências naturais. 204 d) O relativismo cultural considera o desenvolvimento progressivo da humanidade, assim como as teorias evolucionistas. - Pelo contrário, as teorias evolucionistas tiveram como característica o etnocentrismo - a própria cultura era tratada como o ápice da humanidade. e) A Antropologia considera que a cultura é sinônimo de sofisticação. - A cultura não é necessariamente sinônimo de sofisticação, mas de sobrevivências: Tylor defendia que haveria um “descompasso entre configurações culturais avançadas e atrasadas, convivendo numa mesma sociedade, que dentro de uma linha de continuidade do processo de civilização, se apresentam como sobrevivências” (MATIAS, 2008, p. 5). 4. A. I - As teorias evolucionistas defendidas por autores, como James Frazer e Franz Boas, dizem que a humanidade possui um desenvolvimento progressivo e universal. - Pelo contrário, esses autores foram grandes críticos do evolucionismo. II - O Antropólogo Franz Boas era um crítico assíduo do evolucionismo cultural e defendia que todas as culturas possuem um desenvolvimento próprio que deve ser contextualizado pelas suas construções históricas. - Verdadeiro. III - Lewis Morgan defendia que a espécie humana possui três estágios de desenvol- vimento: a selvageria, a barbárie e a civilização. Verdadeiro - Obs: checar o quadro 1 da unidade 4. IV - Para alguns teóricos evolucionistas, poderíamos classificar algumas culturas como mais civilizadas que outras. - Verdadeiro - Alguns teóricos evolucionistas avaliam as demais culturas com um olhar etnocêntrico, levando em consideração somente aquilo que é valorizado em sua própria cultura. 5. D. I - Para a antropologia, cultura são hábitos, costumes e construções sociais que são significadas, coletivamente, em uma dada sociedade. - Verdadeiro - Cultura são as ações moldadas coletivamente na respectiva sociedade. II - Cultura é hierárquica e sinônimo de civilidade. Falso - Juízos de valores não devem fazer parte da análise antropológica. Sempre que julgarmos algo, julgaremos com base em nossos próprios valores culturais, deixando de lado o fato de que em culturas diferentes, há valores diferentes dos nossos. III - Para se interpretar a vida em sociedade, é preciso conhecer a sua cultura. - Ver- dadeiro - Reconhecer os valores que são passados de geração em geração em nossa cultura, é o primeiro passo para compreendê-la. IV - O conceito de cultura, na antropologia, é muito amplo e abrange situações da vida cotidiana, como relações de parentesco, casamento e vestimenta. - Verdadeiro - A cultura abarca tudo o que é mantido e executado coletivamente, bem como as relações de parentesco, casamento e vestimenta. V - As construções culturais de uma sociedade moldam a maneira de ser, agir e pensar 205 das pessoas que nela estão imersas. Verdadeiro - Somos influenciados pela maneira de ser de nossos semelhantes, pois compartilhamos um conjunto de valores coleti- vos. Ainda que essa relação possa variar em grau, não é possível negar a existência de influência. UNIDADE 5 1. B. I - A Pedagogia Tradicional defende que o educando elabore/construa seus próprios conhecimentos. A criança é o centro do processo educativo. Falso - Na pedagogia tradicional a criança ocupa o papel passivo no processo de aprendizagem. Quem constrói o conhecimento é sempre o professor. II - A Pedagogia Tradicional é uma tendência pedagógica centrada no professor. Verdadeiro - Na pedagogia tradicional, é o professor quem exerce o papel ativo no processo de ensino e aprendizagem. III - A Pedagogia Tradicional se caracteriza pela ênfase dada à necessidade de que ocorra a apropriação do conhecimento, porém, isto só ocorre quando o educando decora o conteúdo ensinado. - Verdadeiro - Na pedagogia tradicional o conhecimento é apropriado pelo aluno por meio de um processo passivo, no qual o aluno é tratado como um recipiente vazio que será preenchido com o conhecimento do professor. IV - A Pedagogia Tradicional evidencia o professor como o “centro” do saber e o princi- pal agente para que ocorra a aprendizagem. - Verdadeiro - Na pedagogia tradicional o professor é tratado como uma figura absoluta, detentor de todas as respostas. Todas as etapas do processo de ensino e aprendizagem são realizadas pelo professor. 2. A. Na escola tradicional ainda se acreditava na relação entre punição e aprendizagem. Por esse motivo, os castigos e as humilhações públicas eram práticas comuns para se alcançar uma espécie de disciplina ocasionada pelo medo. 3. B. No Processo Construtivista, a obtenção do conhecimento é resultado da atividade do próprio sujeito (“sujeito cognoscente”). No Processo Construtivista, Piaget demonstra como o sujeito possui o papel ativo do processo de aprendizagem, colocando a abordagem da Pedagogia Tradicional em xeque. 4. A escola se organiza como uma agência centrada no professor, o qual transmite, segundo uma gradação lógica, o acervo cultural aos alunos. A estes cabe assimilar os conhecimentos que lhes são transmitidos. Como as iniciativas cabiam ao professor, o essencial era contar com um professor razoavelmente bem preparado. Assim, as escolas eram organizadas na forma de classes, cada uma contando com um professor206 que expunha as lições que os alunos seguiam atentamente e aplicava os exercícios que os alunos deveriam realizar disciplinadamente. 5. Por considerar-se a principal instituição transmissora do conhecimento, para a peda- gogia tradicional, a escola tem como principal função combater a ignorância, logo, ela serve como um instrumento para equacionar o problema da marginalidade. Mediante a visão que a pedagogia tradicional tem acerca da escola como transmissora de co- nhecimentos, elas eram organizadas na forma de classes, cada uma contando com um professor que expunha as lições que os alunos seguiam atentamente e aplicava os exercícios que os alunos deveriam realizar disciplinadamente. O ensino dito “tradicio- nal” se estruturou através de um método pedagógico, que é o método expositivo, cuja matriz teórica pode ser identificada nos cinco passos formais de Herbart. Esses passos são: 1) o passo da preparação, 2) o passo da apresentação, 3) o passo da comparação e assimilação, 4) o passo da generalização e, por último, 5) o passo da aplicação. No ensino herbartiano, o passo da preparação significa basicamente a recordação da lição anterior, logo, do já conhecido; através do passo da apresentação, é colocado diante do aluno um novo conhecimento que lhe cabe assimilar; a assimilação, portanto o terceiro passo, ocorre por comparação, isto é, a comparação do novo com o velho; o novo é assimilado a partir do velho. Esses três passos correspondem, no método científico indutivo, ao momento da observação. Trata-se de identificar e destacar o diferente entre os elementos já conhecidos. O passo seguinte, o da generalização, significa que, se o aluno já assimilou o novo conhecimento, ele é capaz de identificar todos os fenômenos correspondentes ao conhecimento adquirido. O passo da apli- cação, que é o quinto passo do método herbartiano, coincide, via de regra, com as “lições para casa”. Fazendo os exercícios, o aluno vai demonstrar se ele aprendeu, e assimilou ou não o conhecimento. Trata-se de verificar por meio de exemplos novos, não manipulados ainda pelo aluno, se ele efetivamente assimilou o que foi ensina- do. Corresponde, pois, ao momento da confirmação, no caso do método científico, uma vez que, se o aluno aplicou corretamente os conhecimentos adquiridos, se ele acertou os exercícios, a assimilação está confirmada. Pode-se afirmar que ao ensino correspondeu uma aprendizagem. Por isso, a preparação da lição seguinte começa com a recapitulação da anterior, o que é feito normalmente mediante a correção da lição de casa. Eis, pois, a estrutura do método tradicional; na lição seguinte começa-se corrigindo os exercícios, porque essa correção é o passo da preparação. História, Filosofia e Educação Introdução às Ciências Sociais e sua Relação com a Educação Teorias Sociológicas como Instrumentos para a Educação Perspectivas Antropológicas como Instrumentos para a Educação Fundamentos Históricos e Filosóficos da Educação no Brasil _GoBack Button 14: Button 15: Página 8: Botão 22: Botão 21: