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Natalia Quintino Dias Doenças cerebrovasculares As doenças cerebrovasculares são a 2ª causa de mortalidade e a 3ª causa de incapacitação funcional. As doenças cerebrovasculares podem ser divididas em: - Assintomáticas; - Disfunções cerebrais focais: • Ataque Isquêmico Transitório (AIT); • Acidente Vascular Cerebral Isquêmico (AVCI). - Acidente Vascular Cerebral Hemorrágico (AVCH): • Hemorragia intraparenquimatosa ou AVCH; • Hemorragia subaracnoide (HSA). - Demência vascular; - Encefalopatia hipertensiva. Ataque isquêmico transitório (AIT) Definição: déficit neurológico (encefálico, medular ou retiniano) agudo, de origem vascular, transitório, sem lesão tecidual à neuroimagem. A maioria dos AITs é revertida em até 60 minutos, e a duração é de 1 a 10 minutos em 80% dos casos. A principal causa de AIT é a oclusão do vaso por material embólico proveniente de placa de ateroma proximal ao vaso ocluído ou por êmbolo de origem cardíaca. • AITs em que sintomas transitórios sucessivos não se repetem por ocorrer disfunção em territórios arteriais diferentes sugerem etiologia cardíaca como fonte de êmbolos. Deve ser conduzido como emergência médica, pois 10 a 20% dos pacientes poderão evoluir com um AVCI em 90 dias, 50% destes nas primeiras 48 horas e cerca de um terço desenvolverá um AVC em um período de cinco anos. Escore ABCD2: prevenção de novos eventos A – (Age): > 60 anos (1 ponto) B – (Blood pressure): PA > 140x90mmHg (PAS > 140 e/ou PAD > 90) (1 ponto) C – (Clínica): Hemiparesia (2 pontos); distúrbio de linguagem sem hemiparesia (1 ponto) D – (Duração): 60 minutos (2 pontos); 10-60 min (1 ponto); menos de 10 min (0 ponto) D – (Diabetes): 1 ponto. Pontuação – predição de AVCI em 48h 0-1: 0% 2-3: 1,3%; 4-5: 4,1%; 6-7: 8,1%. Escore < 4 pontos: baixo risco de AVCI; Escore > 4 pontos: alto risco de AVCI. Acidente vascular cerebral isquêmico (AVCI) Caracteriza-se tipicamente como episódio de disfunção neurológica decorrente de isquemia focal cerebral ou retiniana, com sintomas típicos que duram mais de 24 horas e com lesão em exames de imagem, como Tomografia Computadorizada (TC) ou Ressonância Magnética (RM) de crânio. A suspeita clínica rápida de AVC (FAST) do AVCI envolve: F (Face) — alguma alteração na face (pedir para sorrir); A (Arms) — diferença entre a altura dos braços elevados; S (Speak) — alteração na fala; T (Time) — horário do início dos sintomas (agir rápido). Fisiopatologia O AVCI deve-se à redução do fluxo sanguíneo para determinada área do encéfalo, gerando, consequentemente, isquemia com necrose e perda de tecido cerebral. A redução do fluxo sanguíneo pode se dar por redução global de sangue ao encéfalo ou por obstrução de uma artéria cerebral causada por um êmbolo (arterioarterial ou cardíaco), uma trombose arterial ou uma inflamação nos vasos (vasculite). Os AVC podem ter como causa fenômenos obstrutivos ou hemorrágicos. Os obstrutivos desencadeiam os AVC isquêmicos; podem ser devidos à trombose, embolia, dissecção da parede arterial, arterite, compressão, malformação. A principal causa de trombose é a aterosclerose. As embolias são também frequentes, tendo como principais origens o coração e as artérias aorta ou carótidas. As arterites são inflamações específicas das artérias cerebrais; são eventualidades raras e, em geral, de difícil caracterização, sendo definidas por estudo histológico. Etiologia Os principais mecanismos estão relatados na escala de classificação etiológica de TOAST: Natalia Quintino Dias ▶ Aterosclerose de grandes artérias; ▶ Oclusão de pequenas artérias (lacunar); ▶ Embolia cardíaca; ▶ Outras etiologias de AVCI; ▶ AVCI de causa indeterminada. Anatomia Circulação anterior Artéria carótida interna: - Artéria cerebral anterior - Artéria cerebral média Circulação posterior Artérias vertebrais e basilar: - Artéria cerebral posterior - Artérias cerebelares Aterosclerose de grandes artérias É responsável por 15% dos AVCIs. Deve-se a patologias das artérias de grande calibre que fazem a irrigação cerebral e que podem ser divididas em extracranianas e intracranianas. A aterosclerose de grandes vasos pode levar a infarto encefálico por embolia vaso-vaso, que é a principal causa, ou hipofluxo. A principal artéria extracraniana a ser acometida na circulação anterior é a carótida interna, principalmente por aterosclerose na sua origem, na região cervical. Na investigação de doença de grandes vasos, é indispensável algum estudo vascular, como Doppler de carótidas, angiotomografia, angiorressonância ou arteriografia. Nos casos de doença aterosclerótica com estenose de lúmen da artéria carótida interna ≥ 70% do lado sintomático, há benefício da endarterectomia ou implante de stent como profilaxia secundária em relação ao tratamento medicamentoso. Se estenose < 50%, esses tratamentos não são recomendados. Entre 50-70%, avaliar de acordo com fatores de risco. No caso de doença aterosclerótica de grandes vasos intracranianos (≥ 70%) associado a AVC recente ou AIT, o uso de dupla antiagregação por 3 meses é recomendado em associação à estatina de alto potencial e pressão sistólica menor que 140mmHg. Oclusão de pequenas artérias A doença das artérias encefálicas de pequeno calibre que fazem a perfusão das áreas mais profundas do encéfalo (lenticuloestriadas, talamoperfurantes, perfurantes pontinas) leva à isquemia pequena, geralmente com infarto menor do que 15 mm, conhecido como lacunar. Correspondem a 15 a 30% dos AVCIs e estão associadas à hipertensão ou ao diabetes ou à microateroma levando ao estreitamento até o ponto de oclusão da trombose. Podem ser infartos clinicamente silenciosos ou levar a síndromes envolvendo tratos de substância branca com padrões específicos relacionados à sua localização. São síndromes lacunares: Hemiparesia motora pura: lesão localizada na cápsula interna, coroa radiada por comprometimento das artérias lenticuloestriadas, ramos da artéria cerebral média ou na ponte pelo comprometimento das artérias perfurantes pontinas. Caracteriza-se por hemiparesia completa proporcionada, na maioria das vezes, na ausência de alterações sensitivas; AVC puramente sensitivo: lesão localizada no tálamo por oclusão das artérias talamoperfurantes. Caracteriza-se por perda sensorial ou parestesia contralateral; Síndrome sensório-motora: ocorre fraqueza e alteração de sensibilidade contralateral por acometimento de ramos lenticuloestriados da artéria cerebral média que supre o tálamo e a porção adjacente do braço posterior da cápsula interna; Hemiparesia atáxica: lesão localizada na ponte ou na cápsula interna por compromisso das artérias perfurantes pontinas e lenticuloestriadas, respectivamente. Caracterizada por hemiparesia e ataxia do lado com predomínio de paresia crural; Natalia Quintino Dias Disartria ou síndrome “da mão desajeitada”: lesão na ponte ou na cápsula interna contralateral. Caracteriza-se por fraqueza facial central, disartria e disfagia graves, paresia e desjeito da mão, com incapacidade de manobrar uma caneta ou lápis normalmente; Síndrome pouco comum quando há infarto no núcleo subtalâmico manifestando-se como hemibalismo. Exames de imagem, como a TC e a RM, devem ser realizados, embora, na maioria das vezes, possam se apresentar normais. Entretanto, sua importância reside na exclusão de outras causas de AVC. Não há indicação para angiografia, no caso de envolvimento de pequenas artérias. Profilaxia secundária: Controle de fatores de risco cardiovasculares, além do uso de anti- hipertensivos e estatinas. O uso de anticoagulação não está indicado. Cardioembolia É responsável por aproximadamente 20% a 30% de todos os AVC isquêmicos e geralmenteé mais incapacitante do que aqueles com mecanismos não embólicos, dada a propensão à oclusão intracraniana de grandes vasos, resultando em áreas maiores do cérebro isquêmico. Causas de cardioembolia: arritmias, como a fibrilação atrial que corresponde a pelo menos 50%, e lesões cardíacas estruturais, como miocardiopatia dilatada, valvulopatias graves e trombos intracavitários. As oclusões cardioembólicas podem recanalizar; em 48 horas podem não ser mais visíveis em 90% dos exames de arteriografia. Deve-se realizar TC ou RM, sendo o infarto cortical distal em forma de cunha envolvendo um grande território arterial, um achado comum. Além disso, a imagem pode mostrar um padrão clássico de isquemia dispersa, sugerindo uma chuva de êmbolos ou a migração distal de um êmbolo após a fragmentação. A suspeita de embolia também é altamente provável quando ocorreu a transformação hemorrágica de um infarto isquêmico, sugerindo lesão de reperfusão após a recanalização. Profilaxia secundária: uso de anticoagulantes, classicamente inibidores da vitamina K, como o Marevan. Há a opção dos novos anticoagulantes, como: apixabana e dabigatrana (maior risco de sangramento gastrointestinal). A vantagem dos novos anticoagulantes é que não há a necessidade de medição rotineira do RNI. A desvantagem dos novos anticoagulantes é a impossibilidade de reversão da anticoagulação de maneira rápida. Não se indica rivaroxabana por aumento de risco de sangramento intracraniano. Outras etiologias Causas inflamatórias: como as vasculites (primárias, sistêmicas, infecciosas, associadas ao abuso de drogas), que devem ser consideradas em pacientes sem fatores de risco e principalmente com acidente vascular que não respeita o território de um vaso sanguíneo, além das causas genéticas nos pacientes com história de familiares com síndrome demencial precoce. Doenças hematológicas: podem estar associadas a estados pró-coagulantes e quadros de hiperviscosidade sanguínea. Outra causa hematológica é a anemia falciforme. Doenças linfoproliferativas: como linfoma e leucemia, responsáveis por mecanismos de hiperviscosidade com consequente comprometimento do fluxo sanguíneo cerebral. A trombocitose essencial e a policitemia vera são causas conhecidas com mecanismos semelhantes. Dissecção arterial: paciente com história de dor cervical e cefaleia associada à AVCI pode apresentar dissecção arterial de origem traumática ou espontânea, que pode causar evento isquêmico por embolização por causa de estase sanguínea ou hipofluxo cerebral em associação a falsa luz do vaso sanguíneo. Doença de Moyamoya (DMM): caracteriza-se por estenose progressiva das porções terminais das artérias carótidas internas e do tronco principal das artérias cerebral anterior e cerebral média associada à proliferação de vasos colaterais na base do crânio, além de ser causa de acidente vascular na criança, adolescente e adultos. Natalia Quintino Dias Fatores de risco Não modificáveis - Idade + avançada; - Sexo masculino; - Etnia – predomínio em negros; - História familiar materna ou paterna. Modificáveis - HAS; - Tabagismo atual; - Obesidade abdominal (relação cintura-quadril); - Dieta pobre em vegetais e grãos e rica em carnes, ovos, frituras; - Inatividade física; - DM; - Uso de álcool; - Estresse psicossocial e depressão; - Doenças cardíacas; - Níveis elevados de apolipoproteína. O uso de anticoncepcionais, migrânea com aura em mulheres jovens e desordens respiratórias do sono em wake-up stroke são outros fatores associados a um maior risco de doença cerebrovascular. Quadro clínico As manifestações clínicas da vítima de AVCI podem variar, a depender do território (anterior ou posterior) e do tipo de artéria acometidos (grandes ou pequenas artérias). Artéria cerebral anterior Monoparesia crural (perda de força em uma perna), hemiparesia (paralisia de um lado do corpo), plegia – fraqueza intensa (menos comum), apraxia contralateral (incapacidade de realizar tarefas), hemi/hipoanestesia do membro inferior contralateral. Infartos bilaterais do território da ACA pode levar à paraparesia (fraqueza das duas pernas). O comprometimento de artéria cerebral anterior ou artéria comunicante anterior pode se manifestar como mutismo acinético (estado de vigília com baixa consciência em relação ao ambiente). Além disso, o acometimento desse território pode-se ainda apresentar com abulia ou apatia pelo comprometimento do giro do cíngulo ou cabeça do caudado. Natalia Quintino Dias Artéria cerebral média ▶ Fraqueza da mão ou do braço e da mão (síndrome braquial); ▶ Fraqueza facial com afasia motora (de Broca) — hemisfério dominante; ▶ Fraqueza ou não no braço (síndrome opercular frontal); ▶ Afasia de expressão – perda de expressão (de Wernicke) — hemisfério dominante; ▶ Heminegligência (falência em descrever, orientar-se em direção ou responder estímulos) — hemisfério não dominante; ▶ Anosognosia (falta de consciência, má interpretação ou negação de sintomas da enfermidade) — hemisfério não dominante; ▶ Desvio conjugado do olhar ipsilateral; ▶ Déficit motor clássico — hemiparesia/plegia completa desproporcionada de predomínio braquifacial. Avaliação e manejo inicial Inicia-se com ABCDE primário. - Assistência de vias aéreas de acordo com necessidade do paciente (alteração de consciência ou disfunção bulbar); - Monitorização com oximetria de pulso contínua, com o objetivo de manter SatO2 ≥ 94% utilizando o método menos invasivo para o fornecimento de oxigênio suplementar. - Monitorização de Pressão Arterial (PA) não invasiva, cardíaca e de pulso é essencial junto com o ECG. - Punção de 2 acessos calibrosos nas veias periféricas, já que o trombolítico venoso deve ser realizado em acesso exclusivo, e no momento da punção deve ser colhida rotina laboratorial sem atraso ao manejo inicial. Corrigem-se a hipotensão e hipovolemia, se necessário. - A avaliação da glicemia capilar não deve ultrapassar 140 a 180 mg/dL nem ficar abaixo de 60 mg/dL. Apenas a análise da glicemia deve preceder o início da terapia com trombolítico. - A temperatura não deve ultrapassar 38° C. O próximo passo é a revisão da história clínica, com foco na apresentação clínica e no tempo de início dos sintomas neurológicos. Abalos musculares e liberação esfincteriana seguida de déficit remetem à paralisia de Todd, um quadro de fraqueza muscular em um hemicorpo após uma crise epiléptica focal motora. - Deve-se realizar avaliação neurológica através do NIHSS (quadro abaixo). Natalia Quintino Dias A pontuação total pode atingir valores de 0-42 pontos, indicando que quanto maior o valor do NIHSS, maior a gravidade do AVC. Exames de imagem Todos os pacientes com suspeita devem realizar um exame de imagem na entrada do hospital antes de um tratamento específico. Há dois métodos de imagem úteis: a TC de crânio sem contraste e a RM de crânio. Natalia Quintino Dias TC de crânio sem contraste: sempre foi o método de escolha, amplamente utilizada nos trials de trombólise, por ser um método disponível com maior facilidade nos centros médicos, de rápida aquisição, praticamente isento de efeitos colaterais e com grande sensibilidade para o diagnóstico de hemorragias intracranianas. RM de crânio: tão acurada quanto a TC para ver hemorragias nas primeiras 6h do déficit. Nos pacientes que acordam com o déficit ou têm um tempo de início de sintomas incerto, a RM é útil em detectar mismatch (difusão positiva e Flair negativo) para selecionar candidatos à terapia com alteplase. • É considerada de escolha em casos em que o diagnóstico clínico é difícil, como pacientes com crises convulsivas, distúrbios da glicemiae migrânea hemiplégica, quando se planeja ampliar a inclusão na terapia trombolítica, e em centros onde há rápida disponibilidade. Os métodos de avaliação dos vasos tanto na TC quanto na RM com sequência DWI com ou sem perfusão são úteis para selecionar candidatos a trombectomia mecânica e devem ser utilizados como critério, nunca levando atraso ao procedimento trombolítico. Recomenda-se imagem (TC sem contraste) dentro de 20 minutos da chegada do paciente com suspeita de AVC ao hospital. Em pacientes candidatos a trombectomia mecânica (déficit inicial entre 6 e 24 horas) é valido o estudo da imagem de artérias vertebrais e carótidas extracranianas, em adição ao estudo de vasos intracranianos. Além disso, nesses casos, com oclusão de grandes vasos em circulação anterior, pode-se solicitar RM com difusão ou RM de perfusão. Nos pacientes com déficits que se iniciaram dentro das 6 horas da avaliação, com oclusão de grandes vasos e ASPECTS maior ou igual a seis, recomenda-se seleção para trombectomia mecânica baseada em TC ou RM associada ao estudo dos vasos. (A) TC de crânio sem contraste que evidencia AVCI na artéria cerebral média direita; (B) RM de crânio na sequência de difusão que evidencia isquemia em território da artéria cerebral média esquerda. Tratamento Trombólise A trombólise intravenosa é considerada método de escolha para o tratamento específico do AVC. A trombólise intra-arterial é um método não recomendado, sendo a trombectomia mecânica a alternativa mais eficaz. Em casos em que a trombólise intravenosa é sabidamente menos eficaz, como no de obstrução de vasos proximais de grandes vasos, a indicação do método alternativo deve ser recomendada. Após a exclusão de hemorragia intracraniana, o paciente que se mantém eletivo a protocolo trombolítico deve ser submetido aos critérios de exclusão e ao consentimento informado. O tratamento com alteplase intravenoso deve ocorrer em até 4,5 horas após o início dos sintomas. O benefício é tempo-dependente e pode beneficiar aqueles com sintomas leves, se incapacitantes, e adultos com AVE que tenham doença falciforme bem como pacientes em idade avançada. A decisão do uso de trombolítico venoso deve ser individualizada em pacientes com déficits não incapacitantes e contraindicação relativa. Entre aqueles que não utilizam heparina, varfarina ou hemodialíticos, não é necessário aguardar o resultado do coagulograma para iniciar trombólise. Natalia Quintino Dias - Alteplase na dose de 0,9mg/kg (máximo 90mgg), infundidos 10% em bolus e o restante em bomba de infusão em 1h. A trombectomia deve ser considerada nos pacientes com janela de oportunidade entre 4,5 horas e 6 horas, déficit neurológico grave, cirurgia de grande porte recente e oclusão das grandes artérias extra ou intracranianas evidenciada nos exames de imagem. Há indicação de trombectomia no tratamento da fase aguda do AVCI por estenose da carótida interna ou de segmentos proximais da artéria cerebral média. Deve-se considerar o tratamento concomitante com trombólise venosa e trombectomia mecânica nas obstruções proximais na janela de tempo de até 4,5 horas. Segundo as novas diretrizes da AHA Diretriz do Manejo de AVC agudo, pacientes devem receber tratamento intravascular com trombectomia mecânica caso preencham todos os seguintes critérios: ▶ Idade ≥ 18 anos; ▶ NIHSS ≥ 6; ▶ Tempo do início dos sintomas até o procedimento < 6 horas (até 24 horas caso haja uma área considerável de penumbra na perfusão; ▶ Presença de oclusão intracraniana proximal: evidência de déficit relacionado à oclusão de carótida interna ou segmento proximal da artéria cerebral média (M1). Boa funcionalidade pré-AVC (Escala modificada de incapacidade de Rankin com escore 0 a 1*); ASPECTS ≥ 6 na primeira TC. As novas diretrizes recomendam trombectomia mecânica em pacientes elegíveis 6 a 16 horas após o início do déficit. O procedimento pode beneficiar pacientes com 16 a 24 horas após um AVC. Assim, outras recomendações, para pacientes selecionados, a trombectomia mecânica são: ▶ Início dos sintomas entre 6 e 24 horas; ▶ Oclusão de grande vaso na circulação anterior; ▶ Critério de eleição no DAWN1 ou DEFUSE-32: estudos prospectivos mostram os benefícios da trombectomia acima de 6 horas após o início do AVC nos pacientes que apresentam um descompasso entre a gravidade do déficit clínico e o volume do infarto, que foi avaliado com o uso de RM de difusão ou TC de perfusão e medido com o uso de software automatizado. Se os pacientes estiverem em um hospital de pequeno porte, com AVC grave que atendam aos critérios para alteplase, devem receber esse tratamento e podem ser encaminhados para centros que realizem a trombectomia mecânica, caso necessário. * Escala de Rankin Natalia Quintino Dias Trombólise endovenosa Indicações ▷ Diagnóstico de AVC com déficit neurológico (independentemente da gravidade); ▷ Sintomas que começaram a 4,5 horas; ▷ Wake up stroke com mismatch FLAIR ponderada em difusão na RM; ▷ Maior ou igual a 18 anos. Contraindicações ▷ TCE grave/AVCI dentro de três meses; ▷ Cirurgia intracraniana ou intraespinhal dentro de três meses; ▷ Malignidade ou sangramento gastrointestinal dentro de 21 dias; ▷ Hemorragia intracraniana prévia; ▷ Suspeita de HSA, suspeita de endocardite infecciosa, de dissecção de aorta; ▷ Neoplasia intra-axial intracraniana; ▷ Sangramento interno ativo; ▷ PAS acima de 185 ou PAD acima de 110 que não pode ser abaixada com segurança; ▷ Diátese hemorrágica; ▷ INR acima de 1,7; ▷ Heparina dentro de 48 horas com TTPA anormal; ▷ HBPM dose full nas 24 horas prévias; ▷ Plaquetas < 100.000; ▷ Uso de inibidor direto da trombina ou inibidor do fator Xa com anormalidades nos exames de coagulação; ▷ TC mostrando sangramento; ▷ TC mostrando hipodensidade extensa (mais de um terço do hemisfério cerebral). Escore ASPECTS Avalia a extensão do comprometimento da ACM e do risco de sangramento com o tratamento trombolítico. Subdivide o território da ACM em 10 regiões padronizadas, avaliadas em dois cortes da TC de crânio, na altura do tálamo e nos núcleos da base, e o próximo corte logo acima dos núcleos da base. Uma TC normal tem escore de 10, e um escore 0 indica isquemia difusa em todo o território da ACM. A interpretação da pontuação é: ▶ 7 a 10: baixo risco de hemorragia; ▶ 5 a 7: risco alto de hemorragia. Cuidados pós-trombolíticos ▶ O paciente trombolisado deve ser transferido para unidade de tratamento intensivo ou de AVC; ▶ Não se devem oferecer heparina, antiagregantes plaquetários ou anticoagulantes orais nas primeiras 24 horas; ▶ Verificar escore de AVC do NIH a cada 15 minutos durante a infusão, a cada 30 minutos nas próximas 6 horas e, depois, a cada hora até completar 24 horas; ▶ Monitorizar a PA com frequência antes, durante e até 36 horas após o tratamento trombolítico; ▶ Havendo qualquer suspeita de hemorragia intracraniana, suspender o rt-PA e solicitar TC de crânio com urgência, hemograma, TP, KTTP, plaquetas e fibrinogênio. Uma vez que seja evidenciado o sangramento pós-trombólise, recomenda-se parar imediatamente a trombólise e controlar a pressão arterial: - PAS alvo: 140-160; - Reverter o efeito do fibrinolítico: 10 UI de crioprecipitado ou um agente antifibrinolítico (ácido tranexâmico 10 a 15 mg/kg IV por 20 minutos ou ácido aminocaproico 5 g IV seguido de uma infusão de 1 g por 1 hora se necessário); - Considerar crioprecipitado se a dosagem sérica do fibrinogênio estiver abaixo de 150 mg/dL. Antiplaquetários e estatinas Não candidatos à trombólise: ácido acetilsalicílico 160-300mg é recomendado nas primeiras 24-48h. Candidatos à trombólise: aguardar no mínimo 24h parainiciar o antiagregante plaquetário. Se NIHSS ≤ 3 que não recebeu alteplase OU AIT de alto risco (ABCD2 ≥ 4): dupla antiagregação plaquetária por 21 dias (AAS + clopidogrel). Estatinas: artovastatina 80mg iniciada precocemente OU sinvastatina 40mg no primeiro dia, seguida por 20mg por 3 meses. Outros Recomenda-se que a hipovolemia e a hipotensão sejam corrigidas para manter a perfusão sistêmica necessária para o bom funcionamentos dos órgãos. Em pacientes com AVC, o tratamento da hipertensão é indicado quando há comorbidades associadas, como insuficiência renal aguda, edema agudo de pulmão e angina instável, e é razoável a Natalia Quintino Dias PA sistólica ser diminuída em até 15% do valor inicial em 24 horas, devendo-se reconsiderar essa conduta em caso de deterioração neurológica. A redução excessiva da PA pode piorar a isquemia cerebral. Manter controle conservador com glicemia entre 140 e 180 mg/dL. O controle da temperatura é indicado quando esta ultrapassa 38°C. Eleva-se a cabeceira a 30° apenas em caso de hipoxemia crônica, risco de disfagia, hipertensão intracraniana ou sem exame de imagem. Profilaxia de trombose venosa profunda e lesão aguda da mucosa gástrica Em pacientes sem contraindicações, o compressor pneumático intermitente associado à hidratação e aspirina é recomendado. O uso profilático com inibidor da bomba de prótons ou de antagonistas H2 deve ser reservado àqueles com alto risco de sangramento digestivo, como AVCI muito extenso, ventilação mecânica, sepse grave e história prévia de úlcera péptica. Manejo das complicações neurológicas Edema cerebral É uma complicação comum do AVCI extenso. Pico do edema em torno de 3-5 dias após o evento. Em alguns casos de infarto maligno da ACM ou cerebelar, pode ocorrer manifestação clínica precoce dentro das primeiras 24 horas, podendo o edema levar à herniação cerebral e óbito. A hemicraniectomia precoce dentro das primeiras 48 horas é indicada. O tratamento clínico do edema cerebral torna indispensável a monitorização invasiva da pressão intracraniana. Deve-se manter a cabeceira elevada a 30°, evitar hiponatremia (Na acima de 135), manter pCO2 entre 30 e 34, além de boa perfusão cerebral, com PPC maior que 60 a 70 mmHg. O manitol, na dose de 0,25 a 1,5 g/kg IV em 20 minutos, pode ser repetido, mas não mais frequentemente do que 6 horas, com base na pressão intracraniana, com monitoração de débito urinário e reposição de perdas. Solução salina de 7,45 a 20% pode ser utilizada em substituição ao manitol, além da ação mais rápida e menos duradoura. Natalia Quintino Dias Transformação hemorrágica É um evento frequente e acontece em até 30% dos AVCIs. A maioria é hemorragia petequial sem repercussão clínica. As hemorragias pequenas não necessitam de cuidados específicos, inclusive com manutenção de profilaxia de trombose venosa profunda e ácido acetilsalicílico. Os hematomas intraparenquimatosos, por sua vez, devem ser manejados conforme o protocolo de hemorragia cerebral espontânea. Acidente vascular hemorrágico (AVCH) A hemorragia intraparenquimatosa espontânea, ou AVCH, decorre da ruptura de um vaso com extravasamento de sangue para o parênquima cerebral. Corresponde a cerca de 20% de todos os AVCs. Etiologias e sítios mais frequentes Primárias ▶ Hipertensão arterial sistêmica (40 a 70%); ▶ Angiopatia amiloide (5 a 10%). O AVCH hipertensivo é o mais habitual, em sítios típicos do encéfalo, principalmente em locais de irrigação de artérias profundas, como núcleos da base (putâmen), tálamo, ponte, cerebelo e substância branca subcortical. Os decorrentes de angiopatia amiloide ocorrem predominantemente nas regiões lobares (mais frequentemente parietal e occipital), em razão dos acometimentos de vasos de circulação distal. A angiopatia amiloide é a principal causa de hemorragias cerebrais que ocorrem nos pacientes normotensos e idosos, além de se associar às características microscópicas da doença de Alzheimer. Secundárias ▶ Malformações vasculares (4 a 10%); ▶ Neoplasias intracranianas (2 a 10%); ▶ Coagulopatias, anticoagulantes (9 a 14%); ▶ Transformação isquêmico-hemorrágica; ▶ Trombose venosa cerebral; ▶ Vasculites; ▶ Uso de drogas ou medicações. (A) lobar; (B) putaminal; (C) talâmico; (D) pontino; (E) cerebelar. Quadro clínico Podem ser semelhantes às do AVCI, geralmente com sinais de hipertensão intracraniana, como cefaleia, vômitos, sonolência e crises convulsivas, que são os mais comuns; no entanto, a distinção clínica não é suficiente para guiar o manejo. O prognóstico pode ser avaliado por meio do Índice de Hemorragia Cerebral (IHC). Diagnóstico Exames de imagem Pode ser realizado com TC de crânio sem contraste ou RM de crânio. Tomografia com hemorragia lobar versus ressonância magnética com micro-hemorragias. Conduta Deve ser tratado como urgência neurológica. A hipertensão sistólica associase a expansão do hematoma, deterioração neurológica, óbito e sequelas tardias. Redução rápida da PA até 140 é segura. Nos pacientes com PA inicial maior que 220 mmHg, hematoma volumoso, quadro clínico grave e com indicação de descompressão cirúrgica, recomenda- Natalia Quintino Dias se a redução gradual por meio da infusão contínua de antihipertensivos intravenosos com monitorização frequente da PA. • As drogas mais utilizadas são o metoprolol e o nitroprussiato de sódio. No caso de sangramento em decorrência do uso de drogas anticoagulantes (Marevan®, dabigatrana, rivaroxabana e apixabana), a reversão deve ser realizada o mais rápido possível, com plasma fresco congelado e/ou complexos protrombínicos, conjuntamente com reposição de inibidores da vitamina K na forma intravenosa. A prevenção de trombose venosa profunda deve ser realizada com meias e perneira, além de compressor pneumático. A heparina subcutânea, como profilaxia, deve ser iniciada de um a quatro dias após a estabilidade clínica e tomográfica do hematoma. Tratamento cirúrgico É reservado para casos como hematomas cerebelares > 3 cm, com sinais de compressão do tronco encefálico ou hidrocefalia, devendo ser feita craniectomia posterior com drenagem do hematoma e, em caso de hidrocefalia, derivação ventricular externa. Em se tratando de hematomas lobares volumosos (acima de 30 cm3 e distância do córtex < 1 cm), em pacientes sonolentos com escala de coma de Glasgow entre 9 e 12, pode ser feita drenagem. Hemorragia subaracnoide A hemorragia meníngea espontânea ou hemorragia subaracnoide (HSA) se dá, na maioria das vezes, em razão da ruptura de um aneurisma das artérias intracranianas. É grave, com letalidade aproximada de 50%. Manifestação clínica + típica Cefaleia súbita, muitas vezes referida como “a pior da vida”, surgindo espontaneamente ou relacionada a esforço físico ou relações sexuais e que atinge o seu grau máximo de intensidade em pouco tempo. + Sinais de irritação meníngea ou rigidez nucal, como outros déficits focais Etiologia Aneurismas cerebrais saculares, os principais responsáveis, são dilatações arteriais focais. Alguns estão associados a malformação arteriovenosa (MAV), embolia séptica, doença renal policística (ADPKD), colagenoses (Ehlers-Danlos), síndromes malformativas (síndrome de Loeys-Dietz) e neoplasias. Os aneurismas costumam ser formados por meio da combinação de estresse hemodinâmico e uma fraqueza da parede vascular de natureza congênita ou adquirida. Fatores de risco: hipertensão, tabagismo, abuso de álcool e de drogas simpatomiméticas —por exemplo, a cocaína. Existem genes relacionados à aneurismas de caráter familiar autossômico dominante. Locais mais frequentes: vasos do polígono de Willis. Seu aparecimento é mais comum nabifurcação das artérias da circulação anterior (90% dos casos). Escala de Hunt-Hess Avalia o prognóstico, de acordo com os déficits focais. Diagnóstico O diagnóstico pode ser feito com TC de crânio sem contraste, com a visualização de sangue em cisternas cerebrais. A quantidade de sangue em cisternas ou ventrículos é graduada por meio da escala tomográfica de Fisher. Natalia Quintino Dias Em caso de pequeno volume de sangramento, a TC apresenta-se normal -> realizar punção lombar com estudo do líquor com a detecção de hemácias degradadas ou elementos de degradação, como bilirrubina. Se o líquor apresentar aspecto hemorrágico, pode ter ocorrido acidente de punção ou ser HSA, para confirmação realiza-se e o teste dos três tubos: coleta-se de 1 a 3mL de liquor em três tubos sucessivos. Na HSA, os três tubos têm liquor com o mesmo aspecto. O padrão-ouro para a investigação do aneurisma é a realização da arteriografia cerebral, que, em alguns casos, pode servir como o tratamento intravascular do aneurisma. Se o exame for negativo, repetir em 4 semanas. Tratamento Deve ser realizado sempre em centro de terapia intensiva e basear-se em complicações como ressangramento, vasoespasmo, hidrocefalia e crises convulsivas. O tratamento mais eficaz é a clipagem cirúrgica ou embolização, a depender da localização, do formato e do tamanho do aneurisma. • Antitrombóticos: suspender/reverter anticoagulação • Euvolemia: soro fisiológico 0,9% • Pressão arterial: PAS < 160mmHg até o tratamento do aneurisma roto. PAM < 110mmHg. • Nimodipino (60mg VO de 4/4h, por 21 dias): Reduz gravidade de vasoespasmo. O vasoespasmo é mais frequente entre o terceiro e o 14º dias pós-sangramento. Complicações Hidrocefalia pós-HSA: é complicação bem documentada, que deve ser suspeitada em caso de rebaixamento da consciência ou piora neurológica dias a semanas após uma HSA tratada. Os produtos da degradação do sangue intraventricular obstruem as granulações de Pacchioni, impedindo a drenagem do liquor produzido. Ela pode ser diagnosticada por TC de crânio sem contraste e deve ser tratada cirurgicamente, com uma Derivação Ventricular Externa (DVE), mantendo-se o paciente sob vigilância em ambiente de terapia intensiva. Após alguns dias em uso da DVE, fecha-se a válvula, aguarda-se por 6 horas e repete-se a tomografia. • Caso a hidrocefalia aumente, o paciente é considerado incapaz de reabsorver o liquor produzido, sendo indicada a derivação ventriculoperitoneal (definitiva). • Se o volume dos ventrículos não aumentar, retira-se a DVE, pois haverá evidências de que o paciente voltou a reabsorver o liquor.