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Tecnologia de Tratamento de
Resíduos
Cristina Aparecida Vilas Bôas de Sales
Oliveira
Cristiano Alves de Carvalho
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2. ACONDICIONAMENTO E COLETA DE RESÍDUOS SÓLIDOS
O acondicionamento de resíduos sólidos urbanos (RSU) é uma etapa essencial no
processo de gestão dos mesmos e consiste em prepará-los para a coleta de forma
sanitariamente adequada, compatível com o tipo e quantidade de resíduos. As etapas
de acondicionamento dos RSU, o sistema de coleta e transporte devem priorizar a
qualidade, produtividade e o baixo custo. (CEMPRE, 2018; Monteiro, 2001).
Apresentação
Neste bloco veremos as formas de acondicionamento, a coleta de resíduos sólidos e
sua importância estratégica para o bom gerenciamento de resíduos, especialmente
quando se pretende a reciclagem dos materiais presentes no lixo. A coleta seletiva
constitui uma alternativa eficaz na preservação do meio ambiente e na geração de
renda para a população. No decorrer deste material serão apresentados os parâmetros
necessários para o dimensionamento do serviço de coleta de resíduos e os principais
aspectos relacionados a unidade de triagem de resíduos e unidades de transferência.
2.1 Acondicionamento de Resíduos
De acordo com Barros (2013), o acondicionamento deve ser realizado no ponto de
geração dos resíduos, em recipientes mecânica-quimicamente compatíveis com as
suas características, ressaltando, portanto, a necessidade de se conhecer a origem e
características dos mesmos.
Geralmente, os resíduos urbanos são acondicionados em sacos plásticos comuns,
entretanto, deve se levar em consideração a estanqueidade e resistência dos
recipientes para evitar rompimentos, vazamentos entre outros aspectos (Barros,
2013).
A etapa de coleta e transporte dos resíduos depende do processo de
acondicionamento, armazenamento e da disposição dos recipientes no local, dia e
horários estabelecidos pelo sistema de limpeza urbana do município. Todos os
envolvidos no processo, desde os estabelecimentos comerciais, industriais, de serviço
de saúde, incluindo a população, são responsáveis pelo correto acondicionamento.
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De acordo com Monteiro (2001) o correto acondicionamento evita acidentes; a
proliferação de vetores reduz o impacto ambiental, promove a homogeneização dos
resíduos quando aplicada a segregação e coleta seletiva além de facilitar; e a coleta e
transporte dos mesmos.
Embora seja uma prática recomendada, ainda se observa em diversas regiões o
descarte inadequado de resíduos, com pontos de acúmulo a céu aberto, tornando-se
fontes para atração de animais que podem rasgar os sacos plásticos e espalhar os
resíduos, ocasionando danos ao meio ambiente e à saúde pública (Monteiro, 2001,
Barros, 2013).
Do ponto de vista epidemiológico, os resíduos sólidos são uma fonte de transmissão de
doenças através de macro e microrganismos presentes nos resíduos ou que possa ser
atraído por eles, uma vez que podem fazer uso destes como fontes de alimentos ou
abrigo. Entre os vetores mais comuns destacam-se os ratos, baratas, moscas, vermes,
bactérias, fungos entre outros patogênicos. Outro aspecto relacionado a transmissão
de doenças pelo acondicionamento inadequado, se dá através do contato da
população ou dos profissionais da área de limpeza pública, com organismos
patogênicos no manuseio dos resíduos. (Barros, 2012). Os profissionais que atuam
diretamente com sistema de limpeza devem utilizar Equipamentos de Proteção
Individual (EPI) e ser vacinados contra tétano e hepatite para o caso de ocorrer algum
acidente na atividade desenvolvida (Barros, 2012).
O acondicionamento de resíduos sólidos urbanos geralmente é realizado através de
diferentes recipientes, entre eles os sacos plásticos (sacolinhas), vasilhames metálicos
(latas) ou plásticos (baldes), caixotes de madeira ou caixas de papelão, contêineres
metálicos ou plásticos (lixeiras) localizados nas calçadas das ruas, entre outros. Deve se
destacar que a capacidade do recipiente deve atender os critérios de resistência e
volume de resíduos a serem armazenados, da putrescibilidade dos orgânicos que varia
entre regiões, da durabilidade e da frequência da coleta (Barros, 2013; Barros, 2012).
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O acondicionamento de resíduos em sacolas plásticas possui inúmeras vantagens
como, por exemplo, a vedação dos resíduos, o custo, a praticidade, entretanto, devido
à baixa degradabilidade deste material torna-se um grande problema ambiental. O
plástico, devido à baixa velocidade de degradação, ainda retarda a decomposição dos
materiais acondicionados em seu interior, uma vez que dificulta a entrada de oxigênio,
quando se pretende a decomposição aeróbia dos resíduos (Barros, 2012).
Barros (2013) ressalta que os domicílios produzem resíduos classificados como
perigosos tais como pilhas; baterias; óleos e graxas; lâmpadas; lubrificantes; dentre
outros, que a luz da PNRS, devido a responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida
dos produtos, enquadra o consumidor e ou produtor/comerciante como responsável
por sua correta destinação final. Para atender os requisitos da PNRS existem os Locais
de Entrega Voluntária dos resíduos considerados perigosos em comércios e
revendedores de tais produtos. Para acondicionar as pilhas, recomenda-se a utilização
de sacos plásticos individuais para prevenir eventuais vazamentos de substâncias. Para
as lâmpadas fluorescentes devem ser armazenadas em recipientes rígidos para evitar
quebra e com a indicação da potência que está diretamente relacionada com a
quantidade de mercúrio.
O gerenciamento dos resíduos sólidos urbanos é de incumbência do município,
entretanto, os grandes geradores são os responsáveis pela gestão dos seus resíduos,
inclusive o acondicionamento e coleta mediante licenciamento do órgão ambiental. Os
recipientes de acondicionamento dependem das características dos resíduos gerados.
Os resíduos da construção civil, devido ao volume e peso específico, devem ser
armazenados em contêineres metálicos ou de PEAD (Polietileno de Alta Densidade),
sendo de responsabilidade do gerador.
De acordo com Santos (2017), os resíduos de serviço de saúde provenientes de
unidades de atendimento médico assistencial, clinicas, centros de pesquisa,
necrotérios, funerárias, de barreiras sanitárias e medicamentos, correspondem a 3%
dos Resíduos sólidos produzidos no Brasil considerando uma produção diária de
1kg/hab.
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Por se tratar de resíduos com teor de periculosidade, o acondicionamento dos
resíduos de serviços de saúde (RSS) deve ser acondicionado, de forma a evitar riscos
ocupacionais nos ambientes de trabalho ou qualquer tipo de contaminação à
população, conforme disposto na RESOLUÇÃO RDC Nº 222/2018. (Brasil/ ANVISA,
2018).
Estes resíduos possuem uma classificação própria em decorrência das suas
características, e o acondicionamento deve ser compatível para atender os requisitos
na legislação conforme descrito na Tabela 2.5. (Santos, 2017; Brasil/ANVISA, 2018;
Barros, 2012). A RDC estabelece que os recipientes de armazenamento de resíduos
atingirem 2/3 da sua capacidade devem ser descartados, não podendo ser
reaproveitados.
Tabela 2.5. Acondicionamento de resíduos de serviço de saúde
Classe de Resíduos de
Serviço de Saúde Tipos de resíduos Acondicionamento
A- Resíduos
Biológicos-
Potencialmente
Infectantes
Sondas, curativos, luvas de
procedimentos, culturas e os
estoques de microrganismo, peças
anatômicas, linhas arteriais,
endovenosas e dialisadores, Órgãos,
tecidos e fluidos orgânicos
Sacos plásticos brancos
leitosos (os que não
precisam de
tratamento) e vermelho
(quando requer
tratamento),
identificados com
símbolo universal de
substâncias infectantes
B- Resíduos Químicos
Produtos farmacêuticos,
desinfetantes, materiais contendo
metais pesados; reagentes para
laboratório,processadores de
imagem (reveladores e fixadores),
resíduos de análises clínicas
Sacos plásticos brancos
leitosos, identificados
com símbolo universal
de substâncias
inflamáveis, tóxicas e
corrosivas
C- Resíduos
Radioativos
Rejeitos radioativos de laboratórios
de análises clínicas, serviços de
medicina nuclear e radioterapia
Recipientes blindados,
identificados com o
símbolo de substâncias
radioativas e tempo de
decaimento
D- Resíduos Comuns Equivalente aos resíduos domiciliares
Sacos plásticos preto,
preferencialmente de
forma segregada para
encaminhamento a
coleta seletiva
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E- Resíduos
Perfurocortantes
Agulhas, seringas, lâminas de bisturi,
ampolas de medicamentos
Recipientes rígidos
(caixa de papelão
amarela padronizadas
ou em bombonas de
PVC) identificadas com
o símbolo de
substâncias
perfucortantes
Os resíduos de serviço de saúde são transportados internamente para um local de
armazenamento temporário, denominado Sala de Resíduos para que aguardem o
envio para o local de armazenamento externo. Na sala de resíduos, os sacos plásticos
não podem ficar armazenados diretamente no chão, e os de rápida decomposição
devem ser refrigerados. O armazenamento externo dessa classe de resíduos deve ser
composto por contêineres instalados em salas de fácil acesso aos veículos coletores.
Neste local os sacos plásticos devem ser armazenados no interior dos recipientes
(Brasil/ ANVISA, 2018).
Os resíduos industriais possuem características diversas, geralmente são subprodutos
de processos de transformação, resíduos perigosos o que requer o acondicionamento
em recipientes que garantam a estanqueidade, resistência mecânica e química para
evitar vazamentos.
A NBR 12235/1992 (ABNT, 1992) estabelece os requisitos para o acondicionamento de
resíduos classificados como perigos como forma temporária para ser encaminhado a
reciclagem, recuperação, tratamento ou a disposição final em aterros deve ser
realizado em contêineres, tambores, tanques e/ou a granel.
As maneiras mais usuais de acondicionamento de resíduos sólidos são através de
tambores metálicos de 200 litros para resíduos sólidos sem características corrosivas,
bombonas plásticas para resíduos sólidos com características corrosivas, sacos de
polipropileno trançado com capacidade de armazenamento superior a 1m3,
contêineres plásticos padronizados com possibilidade de reutilização, caixas de
papelão indicados para resíduos destinados a incineração (Monteiro, 2001).
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A NBR 12235/1992 determina que os locais de armazenamento de resíduos perigosos
sejam em áreas cobertas, com boa ventilação, instalados sob estruturas de concreto
de forma que os lixiviados gerados não atinjam o lençol freático, contaminem o solo
ou recursos hídricos superficiais. Os resíduos perigosos, dependendo das suas
características, não devem ser acondicionados juntos, devido ao risco de reações
química provocarem explosões, liberar gases tóxicos, promover a lixiviação de
substâncias tóxicas (ABNT, 1992).
2.2 Coleta e transporte de Resíduos
O serviço de coleta de resíduos consiste em reunir os resíduos previamente
acondicionados e encaminhar a destinação final, que pode ser a unidade de
tratamento ou o aterro sanitário. A coleta de resíduos domésticos, comerciais e dos
públicos é de responsabilidade da prefeitura, os resíduos de grandes geradores e
envolve.
O sistema de coleta de resíduos sólidos considera o porte da cidade, a topografia do
município, o plano viário, as condições de tráfego, a estrutura dos pavimentos das
ruas, as diferenças de regiões dentro do município (zona residencial, comercial e
industrial), as quantidades e características dos resíduos a serem coletadas e a
destinação final. Em função de todos os aspectos relacionados à coleta de resíduos,
especialmente os custos envolvidos, deve se implantar um sistema de coleta seletiva,
preferencialmente na fonte geradora, para melhorar a eficiência do processo de
gestão dos resíduos.
De acordo com Barros (2012), o sistema de coleta de resíduos pode ser dividido em
quatro categorias: sistema regular ( destinado a residências e comerciais e industriais
de pequeno porte para coleta em intervalos previamente determinados), a coleta
especial (realizada mediante escala ou por demanda), coleta pelo próprio gerador
(indicada para recolha de grandes volumes de resíduos, geralmente os industriais,
entulhos) e a coleta seletiva (consiste na separação dos materiais por categorias
diretamente na fonte geradora, os recicláveis devem ser encaminhados as unidades de
reciclagem ou tratamento).
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Com a publicação da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), (Brasil, 2010a) que
reconhece o resíduo sólido reutilizável e reciclável como um bem de valor econômico e
social, tem-se observado a implantação de programas de coleta seletiva de forma a
promover inclusão social, aumentar a renda da população e ainda diminuir os
impactos ambientais com a redução da extração de recursos naturais, diminuir os
riscos de contaminação do meio ambiente aumentar a vida útil do aterro sanitário
(Conke, 2018).
A coleta seletiva se baseia na tecnologia para realização da segregação e reciclagem,
no mercado para comercialização dos recicláveis e na sensibilização da população que
é essencial na etapa de separação e acondicionamento adequado dos resíduos
(Cempre, 2018).
Um bom sistema de coleta seletiva requer a participação de todos os envolvidos no
ciclo de vida dos produtos. A coleta seletiva proporciona inúmeras vantagens como,
por exemplo, a obtenção de recicláveis de boa qualidade evitando a contaminação
com outros materiais, reduz a quantidade de resíduos direcionadas aos aterros
prolongando a vida útil do mesmo, possibilita agregar valor econômico e social aos
materiais recuperáveis gerando renda aos catadores. Para atender os objetivos
propostos com a coleta seletiva são necessários recursos e materiais, aumentando os
gastos nesta etapa do gerenciamento dos resíduos e os recicláveis precisam ser
segregados na fonte para evitar contaminações (Cempre, 2018).
No que diz respeito ao aumento da vida útil do aterro sanitário é possível mensurar o
benefício da coleta seletiva através de um indicador denominado taxa de desvio do
lixo, que considera a taxa de lixo domiciliar e a quantidade de recicláveis, sendo
expressa pela equação a seguir:
Equação 2.1 Taxa de desvio do lixo
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A coleta seletiva pode ser realizada de Porta a Porta, Postos de Troca ou através dos
Pontos de Entrega Voluntária (PEV). A coleta porta a porta promove o recolhimento
dos recicláveis diretamente na fonte geradora, pelo poder público ou catadores, sendo
necessários equipamentos e veículos adequados. Geralmente a coleta seletiva na
modalidade porta a porta ocorre em dias distintos da coleta convencional. A coleta
através de pontos de entrega voluntária consiste em disponibilizar contêineres ou
recipientes específicos com o nome do reciclável a ser disposto, em locais estratégicos
para que o cidadão possa encaminhar os resíduos neste ponto. No caso da coleta em
postos de troca é um tipo de recolha de recicláveis baseado na troca do material por
um bem ou benefício como, por exemplo, alimentos, vale transporte, descontos, entre
outras formas. (Cempre, 2018, Barros, 2012). Cada tipo de coleta seletiva apresenta
vantagens e desvantagens como, por exemplo, na entrega porta a porta a
disponibilidade do serviço é considerada fraca, pois depende da frequência de coleta.
Já para a modalidade ponto de entrega voluntária é permanente, pois depende do
cidadão se dirigir ao local indicado. No que diz respeito a adesão da coleta seletiva, a
modalidade porta a porta apresenta um percentual maior, pois o sistema de coleta
diretamente na fonte geradora, favorece que o mesmo colabore com o sistema e
aindapode se contar com o incentivo por parte de vizinhos ou administradores de
condomínios por exemplo. No PEV a adesão é progressiva, pois depende muito de
ações de sensibilização da comunidade para aderir ao programa, o que, neste caso, é
um processo mais lento (Barros, 2012).
De acordo com Barros (2012) a frequência e horário de coleta de resíduos sólidos
urbanos são parâmetros importantes no processo de gerenciamento dos resíduos. A
frequência representa o número de vezes que o sistema de limpeza urbana recolhe os
resíduos em um determinado setor da cidade. O estabelecimento da frequência da
coleta deve considerar a quantidade de resíduos gerados, a periculosidade e
putrescidade dos mesmo para minimizar odores e presença de animais. O horário de
coleta deve considerar o trafego da cidade, especialmente em horários de picos em
grandes centros, das características dos veículos e estrutura viária do município e dos
recursos financeiros disponíveis para o atendimento da demanda.
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A coleta realizada no período diurno é mais barata, possibilita fiscalização dos serviços
prestados, entretanto impacta no tráfego de veículos e é menos produtiva devido as
baixas velocidades de trânsito. A coleta noturna é recomendada para áreas comerciais
e turísticas devido à baixa circulação de pessoas neste horário, não interfere no
transito local, como podem desenvolver maiores velocidade promovem maior
produtividade do serviço, entretanto pode causar incômodo aos residentes devido ao
ruído, dificulta a fiscalização dos serviços prestados, maior custo de mão de obra
devido aos encargos trabalhistas, dentre outros aspectos (Barros, 2012).
A NBR 12810/2020 (ABNT, 2020a) estabelece as diretrizes para a coleta de resíduos de
serviço de saúde. Por se tratar de resíduos contaminados, contagiosos, a coleta deve
ser realizada diariamente, assim como o transporte externo dos mesmos à unidade de
tratamento ou disposição final, tomando todos os cuidados para evitar contaminação,
acidentes de trabalho, preservando a integridade dos colaboradores e a conservação
do meio ambiente. Os resíduos industriais classificados como perigosos seguem as
diretrizes da NBR 7500:2020 (ABNT, 2020b) que estabelece as condições de transporte
terrestre de produtos perigosos.
Para o bom planejamento do serviço de coleta devem ser levados em conta o
dimensionamento da frota de veículos e equipamentos, o quadro de colaboradores, a
regularidade dos serviços prestados, os horários da coleta, os itinerários e os pontos
de destinação baseados na estimativa de resíduos a serem coletados. Deve-se levar em
conta a necessidade de ampliação dos serviços baseados na projeção futura de
geração de resíduos no município.
Segundo Cempre (2018), o dimensionamento da frota de veículos deve considerar:
Mapa geral do município;
Veículos da frota e respectivas capacidades;
Localização de pontos importantes do serviço como garagem de veículos,
ponto de descarga, grandes geradores;
Determinação do volume e peso específico dos resíduos;
https://www.abntcatalogo.com.br/norma.aspx?ID=438328
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Definição dos setores de coleta;
Estimativa da quantidade de resíduos por setor;
Parâmetros operacionais do serviço por setor (distância entre a garagem e o
ponto de coleta; distância do setor de coleta ao ponto de descarga ou unidade
de transbordo; extensão das vias do setor; velocidade média dos veículos
coletores).
O dimensionamento da frota de veículos coletores de resíduos é dado pela formulação
matemática representada pela Equação, que considera o tempo necessário para a
coleta dividido pelo tempo da jornada de trabalho. O tempo necessário para a coleta é
dividido em três partes, o tempo total de percurso para coleta (L/Vc); o tempo de
percurso entre a garagem e o setor de coleta e o retorno do veículo (2(Dg/Vt)); e o
tempo de ida e volta ao local de destinação final para descarga dos veículos, que
considera o tempo de ida e volta (2(Dg/Vt)) multiplicado pelo número de viagens
necessárias pela descarga (Q/C) (Cempre, 2018).
Onde:
Ns: Número de caminhões necessários para atender a um determinado setor;
J (horas): duração útil da jornada de trabalho;
L (km): extensão total das vias (ruas e avenidas) do setor de coleta;
Vc (km/h): velocidade média de coleta;
Dg (km): distância entre a garagem e o setor de coleta;
Vt (km/h): velocidade média de transporte (da garagem até o setor e do setor
até a descarga em vice-versa);
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Dd (km): distância entre o setor de coleta (centro geométrico) e o ponto de
descarga;
Q (t ou m3): quantidade total de lixo a ser coletada no setor;
C (t ou m3): capacidade dos veículos de coleta. Considera-se um valor que
corresponde a 70% da capacidade nominal.
A frota total não corresponde ao somatório de veículos utilizados em cada setor, pois a
coleta pode ser realizada em dias e horários alternados. Deve-se considerar o maior
número de veículos utilizados simultaneamente, ou seja, a quantidade necessária em
um mesmo dia e horário, além de considerar um adicional de 10% para reserva e
manutenção e emergências.
Exercício de aplicação
A cidade de Delfim Moreira está localizada no estado de Minas Gerais e é subdividida
em 3 setores de coleta, “1”, “2” e “3”, que representam regiões homogêneas em
termos de geração de lixo per capita e uso e ocupação do solo. O setor “1” e “2” são
áreas residenciais, e o setor “3” área comercial. A coleta no setor “1” e “2” é diurna e
alternada e no setor “3” é noturna e diária. No setor “1” coleta-se 90% do resíduo
gerado, no setor “2” coleta-se 60% e no setor “3” coleta-se 100%. No setor 3 são
gerados mais 2,0 t/dia de resíduos comerciais sob responsabilidade da prefeitura.
A seguir os dados da cidade de Delfim Moreira que deverão ser considerados no
cálculo da frota.
População atendida:
Setor 1 - 2.375 habitantes;
Setor 2 - 1.500 habitantes;
Setor 3 – 1.000 habitantes;
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Extensão das vias de coleta:
Setor 1 - 8,0 km;
Setor 2 - 11 km;
Setor 3 - 6,0 km;
Produção percapita: 1,0 kg/hab.dia;
Distância da garagem ao setor de coleta:
Setor 1 - 4,5 km;
Setor 2 - 5,0 km;
Setor 3 – 2,4 km;
Distância do setor à estação de transbordo:
Setor 1 - 4,5 km;
Setor 2 - 6,4 km;
Setor 3 - 2,0 km;
Velocidade média de coleta e transporte:
Vc = 4,0 km/h;
Vt = 30,0 km/h.;
Duração da jornada: 7 horas:
Capacidade do caminhão compactador: C = 10 m3:
Use 70% do total de capacidade:
Peso específico lixo compactado = 600 kg/m3.
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Calcule a geração total de resíduos coletados por setor e a frota total necessária para
seu atendimento.
Setor 1 Setor 2 Setor 3
QS1 = 2375*1,0 = 2375
kg/dia
QS2 = 1500*1,0 = 1500
kg/dia
QS3 = 1000*1,0 = 1000
kg/dia
Setor 1: coleta alternada: a cada 2 dias (2ª, 4ª e 6ª feiras)
O total de RSU coletado é dado pela quantidade gerada multiplicado por 2, uma vez
que o enunciado afirma que é realizado em dias alternados (dia sim e dia não), o que
indica um acúmulo de resíduos correspondente a dois dias. O enunciado afirma que
90% dos resíduos são coletados, portanto, deve multiplicar por esta porcentagem.
Total coletado no setor 1- S1 = QcoletadoemS1 = 2QS1. = 4750 kg x90% = 4275 kg
Aplicando os valores na fórmula acima temos:
NS1 = 1/7{(8/4)+2*(4,5/30)+2*((4,5/30)(( 4275/600)/(10*0,70))= 0,372 1 caminhão.
Setor 2: coleta alternada: a cada 2 dias (3ª, 5ª e sábado).
Total coletado no setor 2 = QcoletadoemS2 = 2QS2. = 3000 kg x60% = 1800 kg
NS2 = 1/7{(11/4)+2*(5/30)+2*((6,4/30)((1800/600)/(10*0,70))= 0,467 1 caminhão
Setor 3: coleta diária (2ª a sábado).
Neste setor a coleta é realizada diariamente e 100% dos resíduos são coletados.
Total coletado em S3 = QcoletadoemS3 = QS3+2t/dia = 1000 kg+2000kg= 3000 kg
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NS3 = 1/7{(6/4)+2*(2,4/30)+2*((2/30)((3000/600)/(10*0,70))= 0,251 1 caminhão
Para o cálculo da frota total devemos considerar o maior número de veículos que
precisam operar simultaneamente, ou seja, em um mesmo dia e horário além de
considerar um adicional de 10% para reserva e manutenção.
Portanto, o maior número de veículos necessários por dia é 1, já que a coleta nos
setores é realizada em dias alternados e em turnos diferentes, entretanto, como
devemos considerar 10% para segurança e emergências o total estimado para frota
atender o município é de 2 caminhões.
2.3 Unidades de Triagem e Transferência de Resíduos Sólidos Urbanos
As usinas de triagem são importantes para a separação dos materiais recicláveis
proveniente da coleta e transporte convencional. A central de triagem deve ser
equipada com mesas de catação para a separação criteriosa dos materiais para
encaminhar a comercialização dos recicláveis, prensas para enfardamento de resíduos
de menor peso específico como papeis, plásticos para facilitar o estoque e transporte
dos mesmos.
As Usinas de Triagem têm por objetivo reduzir a quantidade de resíduos enviados ao
aterro o qual pode-se alcançar valores da ordem de 50%, quando bem gerenciadas,
não há necessidade de alteração no sistema de coleta convencional e ainda possibilita
o aproveitamento da fração orgânica para a compostagem. (Cempre, 2018, Monteiro,
2001). A central de triagem requer investimento em equipamentos de separação de
materiais e capacitação de colaboradores para realizar a atividade de segregação.
Para se determinar a eficiência da usina de triagem utiliza-se um indicador
denominado taxa de desvio que considera o somatório da quantidade de resíduos
orgânicos encaminhada à compostagem com a parcela de recicláveis dividido pela
quantidade total de resíduos processados pela usina conforme expresso na Equação
1.2. No Brasil estima-se uma taxa de desvio da ordem de 50% (Cempre, 2018).
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Equação 1.2 Taxa de desvio
Além das unidades de triagem, o sistema de gerenciamento de resíduos conta com as
unidades de transbordo ou transferência que consistem em pontos intermediários
para armazenamento temporário dos resíduos coletados no município. Estas unidades
são essenciais em grandes centros devido, principalmente, as distâncias entre o
gerador e o local de disposição final (aterros). Dependendo da distância do gerador e
do local de destinação final, torna-se inviável o transporte de resíduos de forma direta
e, portanto, recomenda-se utilizar estas unidades intermediarias. A coleta de RSU nos
centros urbanos é realizada com veículos de pequeno ou médio porte por conta da
estrutura viária, ao trafego de veículos e por outros aspectos econômicos.
Geralmente, as estações de transbordos são localizadas em pontos estratégicos para
que os veículos coletores de médio e pequeno porte possam retornar à atividade de
recolha dos RSU. Os materiais das unidades de transferência são dispostos em
caminhões ou carretas de grande porte e direcionados as unidades de tratamento, se
for o caso, ou a disposição em aterros sanitários que geralmente são afastados da
fonte geradora. Estas unidades apresentam vantagens econômicas no que diz respeito
a logística de transporte dos RSU, porém podem provocar a rejeição da população
residente próximo a usina devido aos odores, ruídos de caminhões, trafego de veículos
pesados entre outros aspectos. Como os aterros sanitários são instalados em
localidades distantes das fontes geradoras, além dos custos com o transporte, observa-
se uma redução na produtividade dos veículos de pequeno e médio porte, devido ao
tempo ocioso para a descarga de RSU e retorno ao setor de coleta, tornando
necessário o aumento da frota de veículos para atender a demanda do município.
Em grandes centros torna-se vantajosa a implantação de uma unidade de transferência
conforme apontado a seguir:
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Proporciona economia de transporte, pois os resíduos são coletados em
veículos de pequeno e médio porte e encaminhados aos aterros em veículos
maiores e, por consequência, transporta maior quantidade de resíduos.
Economia de trabalho pois será necessário apenas um motorista, os demais
colaboradores (garis) podem desempenhar suas atividades de coleta.
Economia de energia com combustível.
Redução de custos relacionados a manutenção de veículos coletores.
Possibilita a recuperação de materiais destinados a reciclagem.
A implantação da área de transbordo deve levar em consideração aspectos como a
localização estratégica para que fique no centro das rotas de coleta e dos locais de
destinação final, o zoneamento para minimizar os impactos ambientais, econômicos e
sociais atendendo as regulamentações vigentes, as condições de acesso pelos veículos
devendo estar localizada em vias principais, deve ser respeitada a opinião pública,
pois, em muitos casos, há resistência por parte da população da vizinhança e os custo
com a área escolhida (terreno) (Barros, 2012).
Conclusão
Neste bloco você aprendeu os principais conceitos envolvendo a temática resíduos
sólidos, a importância do correto acondicionamento dos resíduos, como deve ser
realizado, os serviços de coleta e coleta seletiva, bem como as unidades de triagem e
transferência. Ainda foram apresentados os principais parâmetros de
dimensionamento da frota de veículos coletores de resíduos.
REFERÊNCIAS
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das Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais. 2019. Disponível em:
<http://abrelpe.org.br/panorama/>. Acesso: 2 jul. 2020.
,
42
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BARROS, R. M. Tratado Sobre Resíduos Sólidos. Interciência. Ex. 2. Rio de Janeiro,
2013.
BARROS, R. T. V. Elementos de gestão de resíduos sólidos. Belo Horizonte: Tessitura,
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