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Atenção continuada em saúde Prof.ª Thais de Barros Fernandes Descrição Caracterização da Educação Continuada em Saúde e a atuação do farmacêutico nesse processo. Propósito Conhecer e aplicar os princípios da atenção continuada é essencial, uma vez que os serviços farmacêuticos representam a materialização dos cuidados em saúde prestados para o paciente e para a sociedade. A Educação em Saúde está incluída nessas atividades, buscando a promoção do uso adequado e seguro de medicamentos. Objetivos Módulo 1 Cuidados farmacêuticos no tratamento não medicamentoso Módulo 2 Aspectos gerais da Educação em Saúde e cuidados farmacêuticos Distinguir os tipos de serviços clínicos farmacêuticos não medicamentosos. Identificar ações e processos de Educação em Saúde a partir dos cuidados farmacêuticos. Introdução Você sabia que o farmacêutico também atua no cuidado direto ao paciente? A atenção continuada é um modelo de cuidado que busca o seguimento do cuidado em saúde, centralizado nas prioridades em saúde do paciente, em busca da atenção integral. Os últimos anos têm demostrado a importância do farmacêutico para além dos serviços tipicamente gerenciais da cadeia de medicamentos. As atribuições clínicas do farmacêutico constituem serviços e procedimentos que visam à promoção, proteção e recuperação da saúde, além da prevenção de doenças e de outros problemas de saúde. Tais ações têm como objetivo proporcionar cuidado ao paciente, à família e à comunidade, de forma a promover o uso racional de medicamentos e otimizar a farmacoterapia – com o objetivo principal de melhoria da qualidade de vida do paciente. O cuidado farmacêutico é um modelo de prática que orienta a entrega de diferentes serviços e procedimentos, os quais podem estar diretamente relacionados com o medicamento ou não. 1 - Cuidados farmacêuticos no tratamento não medicamentoso Ao �nal deste módulo, você deverá ser capaz de distinguir os tipos de serviços clínicos farmacêuticos não medicamentosos. Assistência e atenção farmacêutica Assistência farmacêutica Há uma dificuldade para definir esse conceito, originada a partir das diferenças entre os serviços de atenção à saúde prestados. Algumas confusões estão relacionadas às tentativas de tradução de termos utilizados em outros idiomas – como pharmaceutical care e atención farmacéutica – e as tentativas de transposições das práticas desses países. Além disso, é sabido que a assistência farmacêutica vai além da atuação do farmacêutico, reconhecido como um campo de saberes multiprofissional e interdisciplinar. No Brasil, esse termo tem um caráter bastante abrangente.Trata-se de um conjunto de ações e serviços associados ao medicamento em diversos níveis, sobretudo no que diz respeito à melhoria das condições de saúde promovida pela sua correta utilização. Dessa maneira, a atenção farmacêutica se insere nesse conceito, por se tratar de ações do farmacêutico voltadas à assistência à população (a um paciente ou a uma comunidade) e a fim de promover o uso racional de medicamentos. A publicação da Política Nacional de Medicamentos permitiu o reconhecimento da assistência farmacêutica como parte essencial do sistema de saúde e elemento básico para a execução das atividades de promoção e aprimoramento das condições de cuidado em saúde da população. A terminologia adotada por ela é utilizada por pesquisadores que têm como objeto de estudo o tema, a saber, a Portaria nº 3.916, de 30 de outubro de 1998: Grupo de atividades relacionadas com o medicamento, destinadas a apoiar as ações de saúde demandadas por uma comunidade. Envolve o abastecimento de medicamentos em todas e em cada uma de suas etapas constitutivas, a conservação e controle de qualidade, a segurança e a eficácia terapêutica dos medicamentos, o acompanhamento e a avaliação da utilização, a obtenção e a difusão de informação sobre medicamentos e a educação permanente dos profissionais de saúde, do paciente e da comunidade para assegurar o uso racional de medicamentos. (BRASIL, 1998) Atenção farmacêutica No começo da década de 1990, pesquisadores intensificaram as discussões sobre o pharmaceutical care – posteriormente adaptado ao Brasil como “atenção farmacêutica”. Tratava-se de uma ideia além da provisão e dispensação de medicamentos, vislumbrando uma aproximação e o desenvolvimento de uma relação entre farmacêutico e paciente em busca dos melhores resultados em saúde para ele. Dessa maneira, a Organização Mundial da Saúde define atenção farmacêutica como: Atitudes, comportamentos, compromissos, inquietações, valores éticos, funções, conhecimentos, responsabilidades e destrezas do farmacêutico na prestação da farmacoterapia, com o objetivo de alcançar resultados terapêuticos de�nidos na saúde e na qualidade de vida do paciente. (Traduzido de Opas/OMS, 1993, p.3) Mas quais seriam esses resultados em saúde? A cura de doenças, amenizar ou acabar com sintomas e atrasar ou prevenir o início de uma doença ou sintoma. No Brasil, a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), a Sociedade Brasileira de Farmácia Hospitalar (Sbrafh), o Conselho Federal de Farmácia (CFF), a Federação Nacional dos Farmacêuticos (Fenafar), a Secretaria Estadual de Saúde do Ceará, a Gerência de Assistência Farmacêutica do Ministério da Saúde (GTAF) e a Rede Unida se uniram para estabelecer o significado dessa terminologia, que foi publicada na Resolução n° 338, de 06 de maio de 2004, como: Atitudes, valores éticos, comportamentos, habilidades, compromissos e corresponsabilidades na prevenção de doenças, promoção e recuperação da saúde, de forma integrada à equipe de saúde. É a interação direta do farmacêutico com o usuário, visando a uma farmacoterapia racional e à obtenção de resultados definidos e mensuráveis, voltados para a melhoria da qualidade de vida. Esta interação também deve envolver as concepções dos seus sujeitos, respeitadas as suas especificidades biopsicossociais, sob a ótica da integralidade das ações de saúde. (BRASIL, 2004) Farmácia clínica e cuidado farmacêutico Farmácia clínica Voltando um pouco, no final da década de 1960, nos Estados Unidos, os farmacêuticos iniciaram um movimento de questionamento da sua formação e suas atitudes em relação aos seus pacientes. Vários problemas foram detectados e abordados, a fim de encontrar soluções viáveis dentro das suas competências. Assim, no final do século, surgiu a necessidade de criação de uma nova disciplina, denominada “Farmácia Clínica”. Tal conhecimento permitiria a melhoria do cuidado com os pacientes e sua integração com a equipe de saúde. No Brasil, as discussões acerca do desenvolvimento da Farmácia Clínica se iniciaram somente na década de 1980, ou seja, com um atraso de 20 anos em relação aos Estados Unidos. Tal discrepância resultou em um atraso no início do processo de cuidado farmacêutico no País. Atualmente, o Conselho Federal de Farmácia define a disciplina como uma área da Farmácia voltada para a pesquisa e prática do uso racional de medicamentos. Seu núcleo está direcionado ao cuidado do paciente, com a finalidade de melhorar os resultados da terapia medicamentosa, propiciar saúde e bem-estar e evitar doenças. Na área da pesquisa, ela aborda a esfera da atuação clínica do farmacêutico e as possíveis melhorias das práticas de cuidado. Seu campo permite o desenvolvimento de estudos de: Avaliação de tecnologias em saúde Por meio de metodologias de revisão ou abordagens farmacoeconômicas. Serviços de saúde Por meio de estudos experimentais. Utilização de medicamentos Por meio de estudos observacionais. Como área de prática profissional, direciona modelos de práticas que sugerem a condução de diferentes serviços e procedimentos farmacêuticos. Seu principal objetivo está no empenho da busca pela prevenção e a resposta aos problemas relacionados à terapia medicamentosa, ao uso adequado e racional de medicamentos, à promoção, à proteção e à recuperação da saúde,bem como à prevenção de doenças e de outros problemas de saúde. O farmacêutico atua em conjunto com a equipe multidisciplinar. Cuidado farmacêutico Trata-se do embasamento teórico para garantia da qualidade dos serviços farmacêuticos. O conceito determina que o farmacêutico tem por função o atendimento, dentro das suas capacidades profissionais, das necessidades de saúde do paciente, sobretudo ao que diz respeito à terapia medicamentosa. É dever do farmacêutico garantir que a farmacoterapia seja adequada para tratar seus problemas de saúde. Do ponto de vista do medicamento, sua segurança e efetividade devem ser asseguradas. Do ponto de vista do paciente, o farmacêutico deve certificar seu interesse e sua aptidão para a utilização correta dos medicamentos. O processo do cuidado se desenvolve com base no método científico, partindo da observação de um problema e buscando a sua resolução. O campo da gestão utiliza a metodologia circular denominada PDCA, conhecida pela execução das ações de planejar (plan), fazer (do), verificar (check), agir (act) e retornando ao início para um novo ciclo – planejar, fazer, verificar e agir. A Saúde utilizou tal metodologia para basear a criação de protocolos de cuidado com o paciente. O cuidado farmacêutico envolve etapas como: Atribuições clínicas do farmacêutico De�nições As atribuições compõem os direitos e as obrigações clínicas desse profissional, a partir da sua habilitação e registro no conselho regional do seu estado. No Brasil, são regulamentados pela Resolução CFF nº 585, de 29/08/2013, que determina as atribuições clínicas do farmacêutico em diferentes ambientes (como hospitais, ambulatórios, unidades de atenção primária à saúde, farmácias comunitárias, drogarias, entre outros). Assim, vamos diferenciar alguns termos importantes na prática profissional: Acolhimento ou a identi�cação da demanda Identi�cação das necessidades de saúde (a anamnese farmacêutica) Criação de um plano de cuidado com a participação ativa do paciente Avaliação dos resultados obtidos Atribuições São os direitos e deveres do profissional, no que tange à sua área de atuação. Atividades São ações do processo de trabalho. Serviços É o conjunto dessas atividades. Os serviços clínicos farmacêuticos, como o acompanhamento farmacoterapêutico, são constituídos de um agrupamento de atividades específicas de natureza técnica e podem ser realizadas por esse profissional devido ao aporte legal na definição das suas atribuições clínicas. Saiba mais A importância de definir esses conceitos partiu da necessidade de expansão das atividades clínicas do farmacêutico ̶ a qual ocorreu, em parte, devido a mudanças no perfil demográfico e epidemiológico da população brasileira. O País apresentou um envelhecimento da população, refletindo em um aumento na morbidade e na mortalidade por doenças crônicas não transmissíveis (como a hipertensão e a diabetes). Esse cenário demonstrou a necessidade de realizar o cuidado direto com o paciente, possibilitando o uso racional de medicamentos e de outros insumos em saúde e reorientando as suas atividades desse profissional, com base nas demandas dos pacientes, família, cuidadores e sociedade. Em resumo, o cuidado prestado pelo farmacêutico se efetiva por meio da realização de: É a conciliação de medicamentos, monitorização terapêutica de medicamentos, revisão da farmacoterapia, acompanhamento farmacoterapêutico, gestão da condição de saúde, educação em saúde, entre outros. Serviços farmacêuticos direcionados ao paciente Serviços farmacêuticos direcionados ao paciente, à família e à comunidade São práticas integrativas e complementares (reconhecidas a partir da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares, PNPIC – são consideradas a acupuntura, a antroposofia, a fitoterapia, a floral terapia e a homeopatia) e práticas em estética. É a verificação/monitorização de parâmetros clínicos, realização de pequenos curativos, organização dos medicamentos em uso pelo paciente, entre outros. Serviços clínicos farmacêuticos Afinal, o que é um serviço? Quando pesquisamos no dicionário, podemos achar diferentes significados relacionados com a natureza e com os tipos de atividades executadas. Aqui, vamos nos ater ao significado de que um serviço é um conjunto de atividades estruturadas a partir de um processo de trabalho. Por hierarquia, os serviços farmacêuticos fazem parte dos serviços de saúde, os quais atuam para a prevenção, o diagnóstico e o tratamento de doenças e sintomas, assim como a promoção, manutenção e recuperação da saúde. Então, os serviços farmacêuticos são um grupo de atividades estruturadas em um processo de trabalho que têm por intenção apoiar os serviços de saúde, com o propósito de melhoria da qualidade de vida das pessoas. Saiba mais Cabe destacar o caso da consulta farmacêutica, que não pode ser classificada como um serviço. Trata-se de uma ação na qual o farmacêutico realiza um encontro com o paciente com o objetivo de prover diferentes tipos de serviços ou procedimentos de acordo com as dificuldades encontradas naquele caso, as carências do paciente e as qualidades do serviço de saúde ao qual aquele profissional pertence. Seu principal objetivo é obter os melhores resultados possíveis, a partir da terapia farmacológica e proporcionar o uso racional de Procedimentos diretamente relacionados ao paciente medicamentos. Ela também tem como meta a promoção, proteção e recuperação da saúde e prevenção de doenças e de outras condições de saúde. Procedimentos clínicos farmacêuticos Os procedimentos são metodologias que permitem a execução de ações e processos, ou seja, dizem sobre a maneira pela qual uma tarefa deve ser cumprida. Na área da saúde, assim como em outras áreas que buscam a padronização de ações com o objetivo de diminuir a ocorrência de desvios de execução de uma determinada atividade, é comum que certos procedimentos sejam desenvolvidos por meio de instruções denominadas Procedimento Operacional Padrão (POP). Comentário Esses documentos devem trazer informações sobre o que é aquele procedimento, seu objetivo, quando o executar, quem deve executar, os materiais necessários, entre outras informações importantes. A Resolução nº 585/2013, do Conselho Federal de Farmácia, estabelece os procedimentos que podem ser executados por esse profissional durante a realização dos serviços farmacêuticos ou fora deles, objetivando contribuir para: A prevenção de doenças A promoção e recuperação da saúde O bem-estar das pessoas Ou seja, essas ações têm o propósito de obter informações sobre o paciente ou contribuir para o uso de recursos terapêuticos necessários para executar o processo de cuidado. A maioria desses procedimentos, como: Verificação de parâmetros clínicos; Perfuração de lóbulo auricular; Realização de pequenos curativos; Administração de medicamentos; Procedimentos em estética e acupuntura; Entre outros procedimentos, necessita do desenvolvimento de habilidades motoras. Dessa maneira, o profissional deve estudar exaustivamente como executar o procedimento e ter acesso a todas as instruções presentes nos POPs, porém, ter noção de que algumas dessas ações só serão aperfeiçoadas a partir da prática. Atenção! A segurança e a qualidade desses procedimentos são garantidas por meio da padronização das ações, o cumprimento das normas de biossegurança, registros documentais, o uso de equipamentos calibrados e qualificados e o cumprimento da legislação vigente. Tratamento não medicamentoso Cuidados farmacêuticos no tratamento não farmacológico São consideradas práticas não farmacológicas de cuidado ações de promoção, proteção e recuperação da saúde que não são centralizadas na utilização de medicamentos alopáticos. Diferentes abordagens são necessárias, de acordo com a doença ou sintoma a ser tratado. Um exemplo bastante comum sobre o uso de terapias não farmacológicas é o manejo da dorcrônica. Nesse caso, os tratamentos podem ser utilizados com o objetivo de diminuir a dor, trazer alívio psicológico (por meio de redução da ansiedade, do estresse e do medo) e trazer a sensação de controle para o paciente. São exemplos de práticas: Intervenções físicas Por meio de massagem, uso de calor e frio, acupuntura, corrente elétrica, homeopatia, entre outros. Intervenções psicológicas Por meio de terapia cognitivo-comportamental, técnicas de Mindfulness, meditação, entre outros. Como o farmacêutico pode atuar nessa modalidade de cuidado? Resposta Existem diversas maneiras, sobretudo, devido à posição em que esse profissional se encontra – muitas vezes em contato direto com o paciente em unidades dispensadoras de medicamentos. Entre os serviços que ele pode ofertar e que não estão diretamente relacionados à farmacoterapia, destacam- se: a educação em saúde, o rastreamento em saúde e manejo de problemas de saúde autolimitados, que serão abordados adiante. Serviços farmacêuticos no tratamento não medicamentoso Rastreamento em saúde Esse serviço permite ao farmacêutico identificar uma doença ou uma condição de saúde em duas situações: quando o paciente ainda não manifestou os sintomas ou quando ele tem possibilidade de desenvolvê-las. Na prática, o profissional conduz uma série de procedimentos, exames ou aplicação de instrumentos validados (fluxogramas, escalas, entre outros); analisa os resultados; e realiza a orientação e o encaminhamento do paciente ao profissional ou ao serviço de saúde adequado para o seu diagnóstico e tratamento. É importante ressaltar que o rastreamento em saúde não é utilizado como prova diagnóstica definitiva. Dessa maneira, o rastreamento em saúde tem um papel importante na contribuição para a redução do agravamento de diversas doenças – sobretudo as crônicas não transmissíveis (como hipertensão e Farmacêutica fazendo aferição de pressão arterial. diabetes), que muitas vezes ainda são subdiagnosticadas. Assim, a contribuição do farmacêutico para a identificação e o cuidado precoce dessas doenças ajuda muito na redução da sua morbidade. A eficiência desse serviço para rastreamento de doenças específicas deve considerar algumas questões, como: Vamos ver, a seguir, como isso é feito. Avaliação de parâmetros clínicos e laboratoriais O farmacêutico pode executar uma série de procedimentos, exames ou aplicação de instrumentos a fim de avaliar resultados complementares e decidir A doença deve ocorrer com bastante frequência e ser considerada grave nessa população Os sinais e sintomas relacionados a ela devem ser detectáveis e prevalentes A detecção precoce pode contribuir para a redução da morbidade pela doença E, quando detectada, deve dispor de tratamento efetivo sobre a melhor conduta para auxiliar o paciente. Entre outros testes utilizados, os principais são: Veri�cação da pressão arterial Medidas da glicemia, do colesterol e dos triglicerídeos capilares Análises antropométricas Alguns instrumentos de entrevista adaptados ao português e validados também são comumente utilizados, como, por exemplo: Escore de risco de diabetes tipo 2 (do inglês Finnish Diabetes Risk – FINDRISC); Miniexame do estado mental; Escore para triagem de depressão (do inglês The Patient Health Questionnaire 2 - PHQ2); Entre outros. Para garantir a eficiência do serviço, os procedimentos usados devem ser de baixo custo, boa sensibilidade e reprodutibilidade e de fácil aplicação. Mais uma vez, cabe ressaltar a importância da criação dos POPs – Procedimentos Operacionais Padrão – para garantir a padronização da execução dessas atividades. Por fim, os testes devem ser os menos invasivos possíveis, a fim de aumentar a aceitação pelos pacientes. A escolha da melhor conduta clínica não medicamentosa, após a avaliação dos testes, pode conduzir o farmacêutico a dois caminhos: o aconselhamento farmacêutico ou encaminhamento. Vamos dedicar este espaço para a compreensão do encaminhamento farmacêutico e retomar a discussão sobre o aconselhamento no tópico de Educação em Saúde. A decisão sobre o encaminhamento do paciente deve ser registrada no seu prontuário ou na sua receita. Além disso, ele deve receber um documento contendo as motivações do farmacêutico para realizar essa ação e as demais informações necessárias para garantia da continuidade do cuidado. Todo o processo deve ser explicado para o seu paciente e seu cuidador. Saiba mais Embora o prontuário seja um documento muito conhecido no âmbito hospitalar, ele existe em outros ambientes de saúde. No caso de consultórios farmacêuticos ou farmácia não vinculados a outros serviços de saúde (como hospitais) ou outros profissionais de saúde, apenas o farmacêutico registrará os atendimentos e orientações, para que possa ter registro do plano de cuidados do paciente e avaliar se há necessidade de encaminhamento a outro profissional. Agora vamos ver um vídeo para entendermos como fazer o rastreamento em saúde e a definição da melhor conduta clínica. Rastreamento em saúde Neste vídeo, a partir de um relato de caso, a especialista explicará como deve ser feito o rastreamento em saúde e quais os sinais que devem ser observados para a escolha da melhor conduta clínica: orientação farmacêutica ou encaminhamento. Problema autolimitado e prática integrativa e complementar Manejo do problema de saúde autolimitado Problemas de saúde autolimitados são condições agudas conhecidas como transtornos menores, que duram por curtos períodos e são de baixa gravidade, como dores de cabeça e resfriados. No geral, sua evolução não leva a danos para a saúde. O farmacêutico pode realizar diferentes tipos de manejo para os problemas de saúde autolimitados. O processo se inicia pelo acolhimento sobre a questão trazida pelo paciente e tem sequência com a prescrição de medicamentos que não necessitam de prescrição médica para a dispensação. O farmacêutico pode prescrever medicamentos industrializados e preparações magistrais – alopáticos ou dinamizados –, plantas medicinais e drogas vegetais. O processo deve ser acompanhado pelo profissional, a fim de verificar a sua resolução. Quando necessário, esse serviço também deve ter como desfecho o encaminhamento para outro profissional ou serviço de saúde. Veja o fluxo que deve ser seguido desde o acolhimento da demanda do paciente até a avaliação dos resultados obtidos. Esse fluxo pode ser usado também no rastreamento em saúde quando forem observadas alterações nos parâmetros clínicos, como a glicemia, por exemplo. Fluxo de cuidado farmacêutico. Esse serviço é de extrema importância devido aos riscos da utilização de medicamentos de maneira desassistida, os quais podem estar relacionados ao insucesso na resolução do transtorno ou à ocorrência de mais problemas de saúde. Tais riscos justificam a oferta desses serviços, sobretudo em farmácias comunitárias e drogarias. Além do que foi dito, esse serviço contribui para a redução da sobrecarga das unidades de atendimento, pois permite a resolução de pequenas condições que não exigem consulta médica. Indicação de práticas integrativas e complementares Você sabe o que são práticas integrativas e complementares? Conhecidas como PICS, elas são consideradas recursos terapêuticos fundamentados em conhecimentos tradicionais. Podem ser usadas para a prevenção de agravos e a promoção e recuperação da saúde, além do tratamento paliativo de algumas condições crônicas de saúde. São elas: Medicina Tradicional Chinesa/Acupuntura; Medicina Antroposófica; Homeopatia; Plantas Medicinais e Fitoterapia; Meditação; Reiki; Yoga; Aromaterapia; Ozonioterapia; Terapia de Florais; Entre outras 18 práticas. A Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares foi implementada no Sistema Único de Saúde, em 2006, com o propósito de contribuir no processo de atenção integral à saúde. Esse processo foi impactado por um relatório emitidoa partir da 1ª Conferência Nacional de Assistência Farmacêutica, o qual enfatizava a importância de aumentar o acesso aos medicamentos fitoterápicos e homeopáticos no SUS. O acesso a essas práticas têm aumentado desde 2006, pois muitos estados e municípios criaram legislações específicas para a sua implantação. As práticas integrativas e complementares proporcionaram novos campos de atuação para o farmacêutico. Além da manipulação, esse profissional também pode realizar a prescrição de medicamentos homeopáticos e florais, tornando-o protagonista de atendimentos com as PICS em vários ambientes de saúde. Atenção! Ressaltamos a contribuição das PICS para a atenção à saúde – não em um caráter de substituição à Medicina tradicional e ao uso de medicamentos alopáticos, mas sim em um caráter de complemento. Elas são oferecidas de maneira paralela ou integrada aos medicamentos, cirurgias e demais procedimentos oferecidos pela Medicina convencional. A homeopatia e a terapia �oral O farmacêutico homeopata é o profissional registrado no Conselho Regional de Farmácia do seu estado e ele possui formação teórico-prática em homeopatia. Tal conhecimento é acessado por meio de disciplinas oferecidas por cursos de graduação de Farmácia e estágio na área, por curso de pós-graduação latu sensu (especialização) ou por outros cursos reconhecidos pelo Conselho Federal de Farmácia. Seguindo uma regra semelhante aos medicamentos alopáticos, o farmacêutico só pode prescrever medicamentos homeopáticos isentos de prescrição médica. Quais são eles? São os medicamentos que têm concentração de substância ativa equivalente às doses máximas farmacologicamente estabelecidas. Ou seja, ele só pode indicar medicamentos homeopáticos de baixa potência, utilizados para o tratamento de patologias menores. Assim, a entrevista farmacêutica para a indicação de medicamento homeopático deve ser baseada em técnicas de comunicação que propiciem a boa compreensão do paciente sobre a utilização do seu medicamento. Medicamentos homeopáticos e fitoterápicos fazem parte das PICS. A entrevista farmacêutica para a indicação de medicamento homeopático deve ser baseada em técnicas de comunicação que propiciem a boa compreensão do paciente sobre a utilização do seu medicamento. São etapas fundamentais nesse processo: Identi�cação da questão de saúde Observação de sinais e sintomas aparentes De�nição sobre a necessidade de indicação do medicamento Possibilidade de encaminhamento ao médico Seleção do medicamento apropriado para a resolução do caso Construção de um conjunto de informações a serem passadas Acompanhamento do paciente para avaliação da resolução das questões Falta pouco para atingir seus objetivos. Vamos praticar alguns conceitos? Questão 1 De acordo com a Resolução nº 585, de 29 de agosto de 2013, do Conselho Federal de Farmácia (CFF), é uma atribuição clínica do farmacêutico que pode ser relacionada ao tratamento não medicamentoso Parabéns! A alternativa B está correta. Trata-se de uma atribuição do farmacêutico relacionada à comunicação e Educação em Saúde, e não associada diretamente ao tratamento medicamentoso. As demais opções são relacionadas ao uso de medicamentos. Questão 2 Sobre o serviço clínico de manejo de problema de saúde autolimitado, é correto afirmar que A determinar parâmetros bioquímicos e fisiológicos do paciente, para fins de acompanhamento da farmacoterapia e rastreamento em saúde. B elaborar materiais educativos destinados à promoção, proteção e recuperação da saúde e prevenção de doenças e de outros problemas relacionados. C monitorar níveis terapêuticos de medicamentos, por meio de dados de farmacocinética clínica. D realizar, no âmbito de sua competência profissional, administração de medicamentos ao paciente. E prescrever, conforme legislação específica, no âmbito de sua competência profissional. A o farmacêutico também deve atuar no manejo de problemas de saúde considerados graves. Parabéns! A alternativa D está correta. O farmacêutico pode utilizar da indicação de medicamentos isentos de prescrição para o manejo de condições de saúde consideradas menores e agudas. As alternativas A, B e C não são atribuições do farmacêutico, enquanto a alternativa E apresenta outro serviço, o rastreamento em saúde. B o farmacêutico não deve realizar o encaminhamento do paciente para outros profissionais ou serviços de saúde. C o farmacêutico deve utilizar métodos invasivos para o diagnóstico das condições. D o farmacêutico pode indicar terapias não medicamentosas, que incluem as práticas integrativas e complementares em saúde. E o farmacêutico pode utilizar esse serviço para realizar o rastreamento de doenças prevalentes na população. 2 - Aspectos gerais da Educação em Saúde e cuidados farmacêuticos Ao �nal deste módulo, você deverá ser capaz de identi�car ações e processos de Educação em Saúde a partir dos cuidados farmacêuticos. Fundamentos da Educação em Saúde Breve histórico A Educação em Saúde no Brasil se desenvolveu a partir do século XX, em meio às endemias de doenças infecciosas e parasitárias. Sua execução era considerada vertical, na qual os que obtém maior grau de formação passam os ensinamentos para quem tem menos e não há troca; e higienista, na qual se defende que a população deve adotar certos padrões sociais e de comportamento em nome da saúde. Vamos ver agora um resumo sobre os principais acontecimentos: Na segunda metade do século XIX Esse campo recebia o nome de “educação higienista”, na qual seu foco eram os determinantes biológicos das doenças infecciosas. Em 1920 Seu nome passou a ser “educação sanitária”, devido ao desenvolvimento da saúde pública. Porém, seu foco ainda era na prevenção de doenças e seu processo guiado por orientações embasadas na mudança de comportamento. Educação em Saúde Além de ser reconhecido como um serviço clínico, a Educação em Saúde é uma atribuição do farmacêutico em diferentes ambientes de trabalho. Esse serviço é Em 1950 As metodologias de educação foram alteradas devido à influência de novas teorias e estratégias adotadas em outros países. Tais ideias apontavam para a necessidade do aumento da participação da população, favorecendo o desenvolvimento de habilidades pessoais e da comunidade. Em 1960 Os profissionais passaram a praticar essa nova dimensão, com o uso de métodos e técnicas específicas usadas para reafirmar a participação comunitária e a consideração do saber popular. Dessa maneira, fica claro o quanto o processo de desenvolvimento da Educação em Saúde foi mediado por limites e manipulação política da sua prática. Atualmente Usamos “Educação em Saúde”, pois esse termo incorpora os determinantes sociais e culturais no conceito de saúde. A proposta atual coloca os educadores e os educandos em posição de troca de conhecimento, permitindo que os saberes se complementem em uma parceria de zelo por melhores condições de vida. Essa terminologia é adotada por todas as outras profissões da área da saúde. praticado com o uso de diferentes estratégias educativas, juntando a sabedoria popular e a científica. Atendimento ao paciente. Seu principal objetivo é obter a autonomia dos pacientes e o compromisso de todos os envolvidos (pacientes, cuidadores, profissionais e gestores) com a promoção da saúde, prevenção e controle das doenças e aumento da qualidade de vida. Seus métodos visam ampliar os conhecimentos, aperfeiçoar as habilidades e as condutas sobre os problemas de saúde e seus tratamentos. Seus princípios implicam na mobilização da comunidade com o compromisso do exercício da cidadania. A conquista da autonomia e da responsabilidade por decisões em saúde é compreendido como o processo de empoderamento do paciente. O profissional da saúde não deve impor ou realizar a transferência vertical dos conhecimentos, e sim transmiti-los, adaptando-os à realidade do receptor. Educarem Saúde significa criar e aprimorar os conhecimentos dos pacientes a fim de desenvolver responsabilidade pela própria saúde e pela saúde da comunidade. Dessa maneira, o indivíduo também tem a possibilidade de participar ativamente em sua comunidade. A prática da Educação em Saúde está prevista na lei nº 13.021/2014, na qual fica definido que a farmácia deve prover orientação sanitária individual e coletiva. O farmacêutico pode conduzir essas ações por diversas maneiras, que veremos agora: São instrumentos úteis nessa prática: Tabelas que auxiliem a visualização do horário adequado para usar os medicamentos; Caixas organizadoras de medicamentos que auxiliam na adesão; Etiquetas ou rótulos com informações escritas ou visuais (pictogramas) – sobretudo quando o paciente ou o cuidador não sabem ler; Demonstração da técnica de uso de dispositivos para administração de medicamentos (como medicamentos inalatórios ou medicamentos injetáveis) ou aparelhos para monitoramento de parâmetros da saúde (como o glicosímetro); Folders, panfletos ou cartazes, vídeos, outros. Aconselhamento sobre mudanças de hábitos de vida (como cessação do tabagismo, por exemplo) Criação de atividades educativas para promover a adesão ao tratamento ou o descarte correto dos medicamentos Demonstração da importância do tratamento Promoção de informações sobre doenças, fatores de risco e condições de saúde Importância da Educação em Saúde Educação em Saúde e o uso racional de medicamentos A contribuição da Educação em Saúde para o uso racional de medicamentos está prevista na Política Nacional de Medicamentos (PNM). O código de ética do farmacêutico e algumas legislações específicas que citam suas atribuições reafirmam a relevância desse profissional em ações educativas individualizadas e comunitárias. Dispensação de medicamentos. A dispensação é a atividade mais realizada pelo farmacêutico nas farmácias públicas e privadas no Brasil. Ao mesmo tempo que esta se trata da principal necessidade dos usuários, é a atividade que mais demanda tempo do farmacêutico. A dispensação não é somente uma entrega de medicamentos, ela é composta por um processo de orientação sobre o uso adequado dessas tecnologias. O enfoque das informações deve permanecer na obediência à dosagem, a influência de bebidas e alimentos, a interação com outros medicamentos, a possível ocorrência e o desenvolvimento de reações adversas, além de questões de conservação de medicamentos. A bula dos medicamentos é o material mais utilizado pelos pacientes para a busca de informações. Porém, a linguagem utilizada na sua escrita é muito técnica, o que dificulta a compreensão da população com baixa escolaridade. Re�exão O uso incorreto dos medicamentos devido à falta de informações proporciona a ocorrência de problemas de efetividade e segurança. É preciso ter em mente que o uso de um medicamento sempre poderá apresentar riscos. Nesse contexto, o processo de orientação, quando realizado de maneira adequada, deve servir de ferramenta para a prevenção de erros de medicação e problemas relacionados a medicamentos. Grupo de ações educativas em saúde. É importante ressaltar o papel do farmacêutico como educador em ações coletivas. Trata-se de ações comunitárias em saúde, reuniões para grupos de usuários portadores de determinadas doenças (como grupos de diabetes e AIDS), ações comunitárias locais, entre outras. Esses métodos permitem a aplicação de técnicas de prevenção primária, além do compartilhamento de saberes multi e interprofissional. Aconselhamento farmacêutico O aconselhamento em saúde é uma atividade na qual o farmacêutico executa uma escuta ativa e voltada às demandas trazidas pelo paciente. Ela se baseia na construção de uma relação de confiança entre as partes para que o paciente possa reconhecer a sua autonomia e tornar-se o protagonista do seu processo de saúde. Seu principal objetivo é consolidar as aptidões do paciente no controle do seu processo de tratamento para aprimorar a sua adesão e com isso melhorar a sua saúde e a sua qualidade de vida. O profissional também pode abordar informações sobre cuidados em saúde e de higiene, de prevenção de doenças e complicações ou de melhoria do estado geral de saúde. Sua execução se desenvolve em um processo de troca de informações dinâmico e bidirecional acerca de aspectos de cuidados em saúde e do uso de medicamentos. Durante essa atividade, o profissional deve utilizar recursos que favoreçam o processo, como: Frascos graduados; Conta-gotas; Colheres de medida; Seringas; Cartazes ou folhetos educativos. O aconselhamento também pode ter como desfecho o encaminhamento para outro profissional e, nesse caso, uma ação deve dar sequência à outra. Atenção! O farmacêutico deve explicar a questão de saúde identificada por ele (propiciando a troca de conhecimentos), aconselhar sobre a busca de outro profissional ou serviço e redigir o documento para encaminhamento. O benefício direto dessa atividade para o paciente se reflete no aumento da segurança a respeito dos medicamentos, em que o sujeito aprimora os seus conhecimentos, a fim de reconhecer a importância dos medicamentos para a manutenção da sua saúde. Para o farmacêutico, essa atividade traz reconhecimento profissional por parte da comunidade e dos demais profissionais da saúde, além de aprofundar as relações de confiança com o paciente – as quais facilitam o seu acesso a informações que podem auxiliar no cuidado. Ações em saúde para a comunidade As ações comunitárias têm o papel de levar informação, a fim de que se alcancem níveis elevados de saúde. A população deve ser orientada quanto à utilização de medicamentos e maneiras de prevenir ou minimizar as consequências das doenças mais prevalentes na sua região. Dessa forma, a comunidade poderá apoiar os profissionais de saúde na realização de movimentos maiores, contribuindo para a promoção da saúde. Como o farmacêutico pode iniciar uma ação em saúde? Vamos ver agora as etapas necessárias para o desenvolvimento desta ação: O incentivo à participação popular garante um complemento para as demais ações adotadas para a melhoria da saúde. Ter a comunidade como aliada nesse processo significa ter mais pessoas conscientes sobre o uso de medicamentos e as questões relacionadas às doenças. Assim, as pessoas podem contribuir e levar as demandas para serem abordadas nas ações direto para os profissionais que as executam. Como incentivar a participação das pessoas? Resposta Basicamente, por meio da construção da relação de confiança. Os profissionais devem escutar a opinião da comunidade quanto aos temas mais importantes a Ele deve se informar sobre as necessidades de informação em saúde da população – incluindo medicamentos, alimentação, habitação, escolaridade, morbidade e mortalidade, higiene, entre outros. Nesta etapa, é importante garantir que haverá um material de apoio à ação e, por isso, ele deve criar cartilhas, cartazes, folhetos sobre os principais temas a serem abordados. Devem ser ministradas palestras, de preferência voltadas a grupos específicos (pacientes com hipertensão, diabetes, AIDS, alcoólatras, entre outros). Essas palestras também podem ser ministradas no formato de roda de conversa e troca de experiências, mediadas pelo profissional. Dessa maneira, o paciente se torna consciente da sua importância e do seu papel para a obtenção do sucesso no tratamento, dividindo o protagonismo com o profissional de saúde e os medicamentos. serem abordados nos encontros de educação. A população também deve ser convidada a participar das palestras e das rodas de conversa (por exemplo, na ação sobre como administrar medicamentos injetáveis, convidar um paciente usuário de insulina e permitir o seu relato de experiência). Educação em cuidados com o medicamento Educação em Saúde e cuidados farmacêuticos A abordagem do farmacêutico como educador deve incluir assuntos que vãoalém daqueles identificados na prescrição daquele paciente. A educação deve ser a mais ampla possível, porém, dentro dos limites da compreensão de quem se pretende educar. As informações envolvidas nesse processo devem ser passadas com o foco de embasar mudanças de comportamentos acerca de diversas questões relativas ao uso de medicamentos. A seguir, discutiremos tópicos importantes e que devem ser tratados. Conservação Pouco se fala sobre como os medicamentos devem ser guardados e os malefícios da falta de conservação. A primeira informação importante é que os medicamentos devem ser mantidos em suas embalagens originais. Os blisters ou cartelas só devem ser abertos no momento da tomada da dose, caso contrário, o medicamento poderá perder a sua atividade. Na fase do desenvolvimento, as indústrias avaliam a capacidade de proteção da embalagem, tornando-a a mais adequada possível. Saiba mais Visto esse ponto, as embalagens devem ser mantidas em um local de abrigo da luz, do calor e da umidade. Por isso, cômodos como cozinha e banheiro não são adequados para o armazenamento, pois o calor e a umidade podem favorecer a decomposição do medicamento. Já os medicamentos sensíveis à temperatura devem ser mantidos sob refrigeração em geladeira – o local mais indicado é o meio da geladeira, onde ocorrem menos variações de temperatura do que na porta e tem menor risco de congelamento. Características organolépticas dos medicamentos O gosto, o cheiro e o formato de certos medicamentos podem dificultar a adesão do paciente ao tratamento (sobretudo, no caso de crianças e idosos). Essa é uma preocupação da indústria e das farmácias de manipulação, que tentam usar excipientes compatíveis para disfarçar essas características. O farmacêutico deve prestar orientação prévia sobre esses aspectos, pois em muitos casos os pacientes podem desistir da terapia devido a esses incômodos. No caso de comprimidos, uma alternativa encontrada pela indústria para mascarar esse problema foi o revestimento ou a encapsulação de formas farmacêuticas sólidas. Em casos extremos, em que a adesão seja muito dificultada, o farmacêutico deve contatar o médico para discussão sobre possíveis alternativas. Validade O prazo de validade corresponde à data-limite que a indústria garante a eficácia e a segurança do medicamento, caso a embalagem primária não seja aberta. Isso significa que o prazo de validade é alterado a partir do momento em que o paciente começa a utilizar o medicamento (seja sólido ou líquido). Comentário O contato do medicamento com agentes externos, como o ar, pode causar alterações na formulação. Essa observação deve ser reforçada sobretudo no caso das suspensões extemporâneas, que são reconstituídas com água filtrada da casa do paciente. Dessa maneira, o paciente deve ser orientado a descartar de maneira adequada os seus medicamentos em caso de sobra no final do tratamento. Educação em cuidados com o paciente Automedicação A prática da automedicação faz parte dos cuidados de manutenção em saúde. Quando realizada de maneira correta, ela pode ajudar a tratar pequenos males e prevenir agravos. Porém, quando realizada de maneira desassistida e sem os conhecimentos necessários para a sua execução, essa prática pode estar relacionada a diversos riscos. Atenção! Dos problemas que podem ocorrer, destacam-se a dificuldade para avaliar a gravidade das questões de saúde apresentadas e o conhecimento necessário para optar por uma alternativa terapêutica adequada. O farmacêutico deve avaliar se o problema realmente é uma queixa menor, que pode ser tratada com um medicamento que não precisa de prescrição médica. Caso contrário, o farmacêutico deve realizar o encaminhamento para outro profissional. Riscos para crianças Crianças são as principais vítimas da intoxicação devido ao uso acidental de medicamentos. A indústria farmacêutica tenta aprimorar a farmacotécnica para tornar as formulações cada vez mais aceitáveis para esses pacientes, incluindo cor, sabor e odores agradáveis, porém, se a formulação for agradável demais, ela pode gerar o risco do uso excessivo pela criança (que não compreende o seu papel como medicamento) e, com isso, gerar intoxicação. Algumas medidas para evitar esse problema incluem o uso de frascos com uma tecnologia especial na tampa, que dificulta a abertura pelas crianças e a criação de frascos multigotas. Por precaução, os medicamentos devem ser guardados longe do alcance das crianças. Riscos para idosos Idosos podem necessitar de cuidados específicos para a utilização de medicamentos. Doenças relacionadas à memória ou à cognição podem dificultar na compreensão do processo de tratamento, além de ocasionarem esquecimentos sobre a tomada das doses. Além do risco de causar diferenças farmacocinéticas devido à alteração nas tomadas, pode haver duplicação ou supressão da dose, impactando no efeito terapêutico. Os idosos também podem ter problemas em relação à abertura das embalagens e à leitura de bulas e rótulos. Se possível, o farmacêutico deve fazer desenhos esquemáticos e listas com o auxílio de desenhos, que facilitem a compreensão, a seguir veremos um exemplo. Por isso, assim como no caso das crianças, é necessário educar os cuidadores para prestarem apoio. O uso de imagens facilita o entendimento do paciente idoso ou analfabeto. Riscos para a gravidez e a lactação O uso de medicamentos durante a gravidez deve ser realizado com bastante cautela. Algumas moléculas são capazes de atravessar a barreira da placenta e atingir o feto, ou até mesmo se acumular no seu organismo. Dependendo do período de desenvolvimento, os medicamentos podem causar más-formações ou até mesmo levar ao aborto. Efeitos negativos da utilização de medicamentos também podem ocorrer durante a amamentação, em que certos fármacos podem ser excretados ainda com atividade biológica pelo leite materno. Nos dois casos, o uso de medicamentos deve ocorrer somente quando necessário. O paciente deve se consultar com o médico e com o farmacêutico para que esses profissionais verifiquem se é possível utilizar aquele remédio e avaliem os riscos e benefícios da sua utilização. Riscos associados ao consumo de medicamentos durante a gravidez. Consumo de bebidas alcoólicas O álcool pode interferir no metabolismo de diversos medicamentos, aumentando e/ou reduzindo o seu efeito. Anti-inflamatórios ou antibióticos podem ter sua efetividade totalmente comprometida e, no caso da segunda classe, esse ato ainda pode favorecer a ocorrência de microrganismos multirresistentes. Por isso, é indicado que os pacientes não façam a sua ingestão até vinte e quatro horas antes do início do esquema posológico. O consumo de bebidas alcoólicas deve ser evitado durante o tratamento medicamentoso. Pacientes etilistas devem ter um acompanhamento multidisciplinar e o farmacêutico pode ser a porta de entrada para esse processo. Esse profissional pode ser o elo entre os outros e realizar uma troca de informações, além de acompanhar de perto a evolução do paciente durante o processo de dispensação. Reutilização da prescrição Nesse contexto, o paciente pode perceber semelhanças entre sinais e sintomas que ele já teve no passado e utilizar as mesmas prescrições médicas para sanar os problemas. Aqui, voltamos ao conceito e aos problemas relacionados à automedicação. Para ser efetivo, exige conhecimentos básicos sobre sintomas, problemas de saúde e decisões sobre a melhor escolha terapêutica. Comentário A reutilização da prescrição também pode ocorrer devido à dificuldade de acesso ao sistema de saúde. É importante relembrar que as prescrições têm prazos de validade diferentes, a depender da classe de medicamentos utilizada. Seja qual for o motivo para essa prática, o paciente deve ser capaz de identificar os riscos que essa ação pode causar à sua saúde e como ele pode reduzi-los. Duplicação da dose O que fazer quando verificar que se esqueceu de tomarum medicamento? Trata- se de uma pergunta que os farmacêuticos escutam com grande frequência. Nesses casos, muitos pacientes decidem por duplicar a dose. Porém, eles não têm noção dos riscos associados com essa prática, sobretudo para os medicamentos com faixa terapêutica estreita (na qual a dose efetiva e a dose tóxica são bastante próximas). A orientação mais segura para esse caso é explicar que o paciente deve voltar a tomar o medicamento no horário previamente estabelecido, sem duplicar as doses. Alguns medicamentos podem ser tomados assim que o paciente lembrar ou constatar que não ingeriu a dose na hora certa, porém, são casos que devem ser avaliados por um profissional. Certos medicamentos devem ser tomados em horários específicos, então, essa informação deve ser combinada com o médico. Cultura de prescrição de medicamentos Muitos pacientes reclamam ao sair do consultório médico sem uma prescrição de medicamento ou com poucos medicamentos. Popularmente, a prescrição é altamente desejada e compreendida como parâmetro de qualidade de um bom atendimento. Porém, é papel do farmacêutico alertar quanto à necessidade (ou a falta de necessidade) do uso de medicamentos e de outras opções terapêuticas. Polifarmácia, o uso concomitante de vários medicamentos. Por outro lado, o uso concomitante de vários remédios, conhecido como polifarmácia, pode resultar em reações adversas e interações medicamentosas que podem levar a sérios danos à saúde. Então, o paciente deve ser esclarecido quanto à ausência de prescrição e quanto aos riscos do uso conjunto de vários medicamentos. Outros aspectos Como foi dito, a informação deve ir além da prescrição do paciente. Além disso, o farmacêutico deve repetir quantas vezes forem necessárias as informações referentes ao tratamento, independentemente do número de encontros e do tempo de utilização do medicamento. As ações educativas podem ocorrer em caráter individual ou coletivo. Suas metodologias vão variar com os objetivos a serem alcançados, que devem ser firmados em conjunto com a população. Agora, veremos um vídeo que aborda os principais pontos que o profissional farmacêutico deve ter em mente para a educação em saúde dos pacientes e da comunidade. Educação em Saúde e cuidados farmacêuticos Neste vídeo, serão discutidos os pontos mais importantes da Educação em Saúde no que tange aos medicamentos e as principais dúvidas encontradas pelo profissional farmacêutico no dia-dia com os pacientes. Falta pouco para atingir seus objetivos. Vamos praticar alguns conceitos? Questão 1 O serviço farmacêutico que tem por objetivo promover a autonomia dos pacientes e o seu compromisso com a promoção da saúde, prevenção e controle das doenças é chamado de Parabéns! A alternativa E está correta. A Educação em Saúde pode ser compreendida como um método educativo estruturado na apropriação de temáticas em saúde por parte da população. Trata-se de práticas que contribuem para a ampliação da autonomia das pessoas sobre as discussões acerca do seu cuidado e nas discussões com profissionais e gestores com o objetivo de garantirem uma atenção em saúde de acordo com as suas necessidades. A manejo do problema de saúde autolimitado. B assistência farmacêutica. C rastreamento em saúde. D atenção farmacêutica. E educação em saúde. Questão 2 É uma informação correta em relação ao uso adequado de medicamentos: Parabéns! A alternativa A está correta. O álcool pode alterar o metabolismo de vários medicamentos, afetando diretamente a sua efetividade. Considerações �nais A O consumo de álcool deve ser evitado durante a farmacoterapia. B Os medicamentos podem ser guardados na cozinha ou no banheiro para facilitar que o paciente se lembre do seu uso. C Ao perceber que esqueceu de tomar uma dose, o paciente deve ingeri-la de imediato, independentemente do medicamento. D Pacientes grávidas não podem usar medicamentos no primeiro trimestre de gestação. E Idosos não devem ser supervisionados quando utilizam medicamentos, pois isso pode ferir a sua autonomia. O farmacêutico atua na prestação da atenção continuada por meio dos serviços clínicos. Para tal, é importante compreender a diferença entre os termos “assistência farmacêutica”, “atenção farmacêutica”, “farmácia clínica” e “cuidados farmacêuticos”. As atribuições clínicas desse profissional incluem serviços e procedimentos, os quais podem ou não estar diretamente relacionados ao uso de medicamentos. O tratamento não medicamentoso inclui ações de rastreamento em saúde, manejo de problemas de saúde autolimitados e Educação em Saúde. O manejo de problemas de saúde autolimitados pode incluir a indicação de práticas integrativas e complementares, como a homeopatia. A Educação em Saúde é parte fundamental da garantia da continuidade do cuidado. Seus atributos devem ser amplamente aplicados em busca do uso racional de medicamentos. São ações de educação o aconselhamento farmacêutico e as ações comunitárias em saúde. Por fim, existem tópicos a serem destacados para orientação em saúde, como informações sobre o acondicionamento, a validade, a utilização por grupos de risco, entre outros. Podcast Neste podcast, a especialista trará os principais pontos abordados no conteúdo, debatendo a importância do farmacêutico na prevenção de doenças e na qualidade de vida do paciente. Explore + Leia mais sobre o aconselhamento farmacêutico no artigo O papel do farmacêutico comunitário no aconselhamento ao paciente, das autoras Emília Vitória da Silva, Janeth de Oliveira Silva Naves e Júlia Vidal, publicado em 2008. Aprenda mais sobre os conceitos de Educação em Saúde e educação na saúde no artigo Educação em saúde e educação na saúde: conceitos e implicações para a saúde coletiva, escrito por Mirian Falkenberg e outros autores, de 2014. Recomenda-se ainda a exploração da Portaria nº338/2004, da Resolução nº 585/2013 e do livro Serviços farmacêuticos diretamente destinados ao paciente, à família e à comunidade: contextualização e arcabouço conceitual, do Conselho Federal de Farmácia, publicado em 2016. Referências BRASIL. Ministério da Saúde. Política Nacional de Medicamentos. Brasília: MS, 1998. BRASIL. Ministério da Saúde. Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS: atitude de ampliação de acesso. Brasília, 2015, p. 96. GALATO, D. et al. Curso on-line: prescrição farmacêutica no manejo de problemas de saúde autolimitados – módulo 2 – unidade 3 – documentação do processo de atendimento e da prescrição farmacêutica. Brasília: Conselho Federal de Farmácia, 2015. MARQUES, T. C. Educação em saúde: uma estratégia inovadora para a dispensação de medicamentos. Bases da Dispensação Racional de Medicamentos para Farmacêuticos. 1. ed. [S. l.]: LMC – Pharmabooks, 2012. 300 p. NELLY, M. et al. Organização Mundial da Saúde. Organização Panamericana de Saúde. Assistência farmacêutica para gerentes municipais. Rio de Janeiro: OPAS/OMS, 2003. OPAS/OMS. El papel del farmacéutico en el sistema de atención de salud: informe de la reunión de la OMS, Tokio, Japon, 31 ago. al 3 sep., 1993. STORPIRTIS, S. et al. Farmácia clínica e atenção farmacêutica. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2008. Material para download Clique no botão abaixo para fazer o download do conteúdo completo em formato PDF. Download material O que você achou do conteúdo? Relatar problema javascript:CriaPDF()