Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.
left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Experimente o Premium!star struck emoji

Acesse conteúdos dessa e de diversas outras disciplinas.

Libere conteúdos
sem pagar

Ajude estudantes e ganhe conteúdos liberados!

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Experimente o Premium!star struck emoji

Acesse conteúdos dessa e de diversas outras disciplinas.

Libere conteúdos
sem pagar

Ajude estudantes e ganhe conteúdos liberados!

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Experimente o Premium!star struck emoji

Acesse conteúdos dessa e de diversas outras disciplinas.

Libere conteúdos
sem pagar

Ajude estudantes e ganhe conteúdos liberados!

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Experimente o Premium!star struck emoji

Acesse conteúdos dessa e de diversas outras disciplinas.

Libere conteúdos
sem pagar

Ajude estudantes e ganhe conteúdos liberados!

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Experimente o Premium!star struck emoji

Acesse conteúdos dessa e de diversas outras disciplinas.

Libere conteúdos
sem pagar

Ajude estudantes e ganhe conteúdos liberados!

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Experimente o Premium!star struck emoji

Acesse conteúdos dessa e de diversas outras disciplinas.

Libere conteúdos
sem pagar

Ajude estudantes e ganhe conteúdos liberados!

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Experimente o Premium!star struck emoji

Acesse conteúdos dessa e de diversas outras disciplinas.

Libere conteúdos
sem pagar

Ajude estudantes e ganhe conteúdos liberados!

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Experimente o Premium!star struck emoji

Acesse conteúdos dessa e de diversas outras disciplinas.

Libere conteúdos
sem pagar

Ajude estudantes e ganhe conteúdos liberados!

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Experimente o Premium!star struck emoji

Acesse conteúdos dessa e de diversas outras disciplinas.

Libere conteúdos
sem pagar

Ajude estudantes e ganhe conteúdos liberados!

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Experimente o Premium!star struck emoji

Acesse conteúdos dessa e de diversas outras disciplinas.

Libere conteúdos
sem pagar

Ajude estudantes e ganhe conteúdos liberados!

Prévia do material em texto

AULA 3 
ÉTICA APLICADA À PRÁTICA 
PASTORAL 
Prof. Roberto Rohregger 
 
 
2 
CONVERSA INICIAL 
Vivemos em uma sociedade, ou talvez melhor seria dizer, em um mundo e, 
dessa forma, daí tentarmos abranger mais que um grupo comum, em uma 
determinada localidade, que está relativizando cada vez mais a ética, onde tudo 
é permitido. As fronteiras entre o que é ético do que não é estão ficando 
extremamente difusas, mesmo em situações em que há uma legislação clara e, 
consequentemente, uma pena por qualquer transgressão praticada. Essa 
normalização de questões que muitas vezes são no mínimo dúbias é, muitas 
vezes, ignorada e o indivíduo avança, cedendo aos atos dos seus desejos, não 
tendo, aparentemente, o menor receio das suas consequências. Até o próprio 
conceito da palavra ética está se perdendo. 
Nota-se, infelizmente, esse proceder em vários campos do agir humano: 
no mundo corporativo, temos líderes empresarias, presidentes e diretores usando 
de meios no mínimo pouco recomendáveis para aumentar suas fortunas 
pessoais ou oprimindo a sociedade onde se estabelecem, degradando o meio 
ambiente, usufruindo um lucro imoral. No âmbito das ciências, também há 
procedimentos que podem ser eticamente questionáveis. Na política, infelizmente, 
temos o aprofundamento dessas ações antiéticas. Nos órgãos públicos, que 
deveriam prover serviços de segurança e saúde, há um profundo 
descompromisso com as necessidades da população. E, por fim, a realidade mais 
chocante: na própria Igreja, há inúmeros casos de escândalos de líderes religiosos 
e, muitas vezes, do próprio cristão, que não se compromete com um agir ético. 
Hoje, se torna essencial que a Igreja faça uma reflexão profunda sobre a 
questão da ética e sua abrangência, não somente com relação à sociedade, mas, 
com relação a essa mesma Igreja: até que ponto a Igreja, nos dias atuais, está 
sendo ética? Como foi o proceder ético do corpo de Cristo no decorrer da história, 
quando a sociedade necessitava de uma voz para orientá-la? Para podermos 
pensar essas questões é necessário voltarmos às origens da Igreja e às origens 
do desenvolvimento do discurso cristão, para responder ao que pode se 
considerar a derradeira pergunta com relação a esse tema: estamos 
respondendo à altura aos ensinamentos de Jesus, com relação à ética? 
 
 
 
3 
TEMA 1 – O REINO DE DEUS E A ÉTICA 
Aquela é uma pergunta a que o Novo Testamento não responde 
diretamente. Jesus fala sobre o Reino de Deus como uma realidade conhecida; 
declara sobre o qual, por meio de parábolas, como algo que está próximo ou longe 
de nós; fala sobre as condições em que podemos ou não o alcançar. Enfim, 
nenhum dado nos apresenta sobre o Reino de Deus como noção ou como 
definição. Uma questão que nos traz dúvidas é quando virá o Reino ou quando 
poderemos nele ingressar? Jesus o trata como uma realidade já presente, que, 
dependendo das circunstâncias, já podemos desfrutar; ou trata-se de uma 
esperança? Nos evangelhos, encontramos textos que favorecem tanto uma 
quanto outra possibilidade de resposta. 
Presente ou futuro? Já aqui ou ainda não? Tanto o tempo como o 
conteúdo de Reino de Deus são difíceis de captar. Só o tempo e a familiaridade 
com os textos podem nos ajudar, pelo menos em parte. Mas, a descoberta total 
creio que jamais será alcançada. 
1.1 O Reino de Deus no Evangelho de Marcos 
No Evangelho de Marcos, a questão do Reino de Deus é mencionada 14 
vezes. Na primeira vez em que Jesus prega a palavra, Ele anuncia a proximidade 
do Reino (Mc 1, 14-15). Marcos repete mais 13 vezes as palavras de Jesus e faz 
uma menção se referindo a José de Arimateia, “que esperava o Reino de Deus” 
(Mc 15, 43). 
Em Marcos, Jesus entra em cena nas margens do Jordão, no momento em 
que é batizado por João (Mc 1, 9-11) e logo passa ao deserto, onde é tentado por 
Satanás (Mc 1, 12-13). Sua pregação na Galileia pode então ter início: “Depois 
que João foi preso, veio Jesus para a Galileia, proclamando o Evangelho de Deus: 
‘Completou-se o tempo e aproximou-se o Reino de Deus. Convertei-vos e crede 
no Evangelho’” (Mc 1, 14-15). 
Após o anúncio inaugural, é por intermédio de parábolas que, ao longo do 
relato, Jesus fala do Reino de Deus. Jesus prega sobre a parábola do semeador 
e não é muito entendido pelos seus discípulos, que o indagam a esse respeito. 
Jesus explica que a eles é dado conhecer o mistério do Reino de Deus, mas aos 
outros Ele falava por parábolas. Duas entre as parábolas são parábolas do Reino: 
 
 
4 
a parábola da semente que brota por si (Mc 4, 26-29) e a do grão de mostarda 
(Mc 4, 30-32). Cada uma aborda o Reino de Deus desde a sua primeira frase. 
A parábola do grão de mostarda encontra-se também em Mateus e Lucas, 
sob forma um pouco diferente. A da semente que brota espontaneamente só 
pertence a Marcos. 
E Ele dizia: “O Reino de Deus é como um homem que lançou a semente 
à terra: ele dorme e acorda, de noite e de dia, mas a semente germina e 
cresce, sem que ele saiba como. A terra por si mesma produz fruto: 
primeiro a erva, depois a espiga e, por fim, a espiga cheia de grãos. 
Quando o fruto está no ponto, imediatamente metem-lhe a foice, porque 
o tempo da colheita chegou” (Mc 4, 26-29). 
1.2 O Reino de Deus no Evangelho de Mateus 
Posteriormente a Marcos, 20 anos talvez, Mateus herda a pregação do 
Reino apresentada por seu predecessor e modifica-a em função de suas próprias 
perspectivas. Mateus, entretanto, raramente usa o termo Reino (ou Reinado) de 
Deus. Encontramo-lo apenas quatro vezes em seu texto (Mt 12, 28; 19, 24; 21, 
31; 21, 43). No mais, ele usa o termo Reino ou Reinado dos Céus, termo usado 
no meio impregnado de judaísmo, ao qual ele pertence. Mateus ainda se distingue 
de Marcos, num ponto: seu texto trata de um Reino do Filho do Homem. 
Além de Mateus apresentar o Reinado para além do quadro restrito da 
pregação de Jesus, ele insere seu anúncio solene já na missão de João Batista, 
que proclama: “Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo” (Mt 3, 2), 
afirmação sem paralelo em Marcos e em Lucas. O Reino assume, em Mateus, 
uma dimensão cósmica, aberta ao longo dos tempos, universal no espaço, num 
mundo sobre o qual estende-se a realeza de Jesus, Filho do Homem. 
Mateus descreve os primórdios da pregação evangélica em três etapas: 
1. Mt 4, 12-17: a instalação na Galileia e proclamação do Reino; 
2. Mt 4, 18-22: o chamado dos quatro primeiros discípulos; 
3. Mt 4, 23-25: a proclamação do Reino e a realização das primeiras curas. 
O Evangelho de Mateus fornece uma imagem muito nova do Reino dos 
Céus em relação à que o Evangelho de Marcos revela. Mais desprendido das 
questões de ordem temporal, o Reino em Mateus possui uma nítida dimensão 
ética: é hoje que devemos buscar, por meio de um comportamento exemplar, 
conforme a Tora explicada por Jesus, seja qual for a hora de sua manifestação 
última. 
 
 
5 
1.3 O Reino de Deus no Evangelho de Lucas 
A obra de Lucas não se limita ao evangelho que lhe é atribuído. Para se ter 
dela uma visão mais completa, convém acrescentar-lhe os Atos dos Apóstolos. 
Os Atos adotam a expressão Reino de Deus. O Evangelho de Lucas distingue-se 
tanto do de Marcos quanto do de Mateus pelo fato de que a pregação do Reino 
não é por ele mencionada no início da missão de Jesus. Somente mais tarde, 
quando Jesus deixa Cafarnaum, é que ele cita a expressão: “Devo também 
anunciar a outras cidades a Boa Nova do Reino de Deus” (Lc 4, 43). 
O evangelista emprega muitas vezes a expressão Reino de Deus para 
designar o conteúdo da mensagem evangélica e a introduz por meio de um verbo 
que evoque a pregação: evangelizar, proclamar, anunciar etc. Ora Jesus é o 
sujeito, é o anunciador do Reino (por exemplo, em Bíblia, L 4, 43; At 1, 3); ora o 
sujeito é um apóstolo ou um arauto do evangelho: Filipe (At 8, 12) e principalmente 
Paulo (At 19, 8; 20, 25; 28, 23; 28, 31). Em Lucas, como em Mateus,o anúncio do 
Reino de Deus é paralelo à realeza de Jesus. 
Ao contrário de Mateus, Lucas não parece interessar-se pelo Reino de 
Deus durante o tempo de Israel. Ele começa a partir de Jesus. Na obra de Lucas, 
como na de Marcos e Mateus, é impossível apreender uma concepção coerente 
do Reino de Deus. Lucas retoma os dados tradicionais que integram a sua obra. 
Molda-os segundo as suas perspectivas e as comunidades para as quais se dirige. 
1.4 O Reino de Deus no Evangelho de João 
A expressão Reino de Deus figura apenas duas vezes no Evangelho de 
João. A sua apresentação é diferente da dos evangelhos sinóticos. O Evangelho 
de João concentra o olhar na própria figura de Jesus, que assume pessoalmente 
a função real, de modo especial na hora da paixão. As duas vezes em que o 
evangelista usa a expressão Reino de Deus encontram-se na cena com 
Nicodemos: “ver o Reino de Deus” (Jo 3, 3) e “entrar no Reino de Deus” (Jo 3, 5). 
No evangelho de João, Reino de Deus corresponde a uma expressão da realidade 
global denominada salvação, mais frequentemente traduzida pelas metáforas da 
vida ou da luz. 
 
 
 
6 
1.5 O agir ético com base no Reino de Deus 
A concepção do Reino de Deus teológica tem suas implicações éticas pois 
requer uma nova forma de ser e proceder. A proposta é de que somos cidadãos 
dessa nova realidade que se impõe como realidade última, acima da realidade 
cotidiana, mas que não está separada desta, mas sim a ela sobreposta. Como 
afirmam Harrington e Keenan (2006, p. 71): 
Quando a cristandade sob o imperador Constantino, passou a ser uma 
religião oficialmente autorizada no Império Romano, tornou-se inevitável 
que o Reino de Deus passasse a ser identificado com a estrutura política 
dominante, e tal identificação foi ressaltada muitas vezes depois. Mas tal 
abordagem ignora o aspecto transcendente do Reino: é o Reino de Deus 
que irá se instaurar e o que Deus trará irá superar qualquer dos reinos 
terrenos. 
Não podemos confundir o Reino de Deus com governos. O Reino de Deus 
se manifesta na forma da sua justiça e, assim, não é uma estrutura, mas um 
conceito que se efetivará somente com Deus. Deve-se compreender que todo 
cristão deve aguardar ansiosamente a implantação total do Reino de Deus e, 
enquanto a aguarda, viver como se já se o houvesse implantado, observando 
todos os ensinamentos de Cristo, pois “o que Jesus apresenta é a ideia de que o 
irromper do governo de Deus na vida de uma pessoa exige uma total resposta a 
esse governo” (Block, 2006, p. 553). A construção é a meta ética daqueles que 
seguem a Cristo, pois está relacionada com a própria pregação do evangelho. 
Segundo Vidal (2005, p. 14): 
Uma vez inserida a moral cristã no horizonte da salvação escatológica, 
os esquemas do comportamento moral sofrem radical transformação: - 
surge nova ordem de valores, tal como parece no manifesta das bem-
aventuranças (Mt 5, 3-10); - propõem-se exigências radicais ligadas ao 
caráter definitivo e insubstituível do reino (Lc 9, 57-62). – As opções são 
de caráter totalizador: a irrupção do reino faz que tudo o mais perca valor 
(Mt 13, 44.45-46). – A pertença ao reino acarreta radicalização em todas 
as atuações que consequentemente realizarão “justiça maior que a dos 
escribas e fariseus (Mt 5, 20). A moral do reino adquire contorno 
definitivo na passagem de Mt 25, 31-46: a realização do reino, 
identificado com os pobres e, mediante estes, com Cristo, é a norma do 
comportamento moral cristão. 
O Reino de Deus exige uma decisão e compromisso pessoal, que se dá 
com base em uma outra característica cristã, a fé. Segundo Azpitarte (1995, p. 
59), “Aceitar o seu reino exige, como primeira condição, reconhecer que Deus é a 
única realidade absoluta e incondicionada”. A ética cristã é superior em 
decorrência da fé que se deve ter em Jesus, o Cristo, e assim a ética cristã é 
normativa e centrada nas escrituras. Podemos aventar então que a 
 
 
7 
responsabilidade pelo avanço do Reino de Deus é individual e comunitária, pois 
cada um deve agir, ter seu agir ético alinhado com a Palavra e, em comunidade, 
o corpo de Cristo tem essa função, inclusive como instituição, de ser a promotora 
da justiça e da paz. 
TEMA 2 – PRINCÍPIOS ÉTICOS CONTIDOS NO SERMÃO DO MONTE 
O Sermão do Monte tem sido chamado de a Carta Magna do Reino de 
Deus. No Sermão do Monte, Cristo inicia o relato das novidades que Ele tinha a 
dizer à sua comunidade, àqueles que o seguiam e aos que apenas o escutavam 
eventualmente. A localização do monte é incerta, mas é provável que ficasse 
próximo aos arredores de Cafarnaum. Seguindo os costumes dos rabis, Jesus 
ficava sentado, enquanto ensinava. No Sermão do Monte, parece que Jesus nos 
fala diretamente agora, na primeira parte de forma mais ampla; mas nesse agora 
ele olha diretamente em nossos olhos, seu olhar se fixa profundamente em nossos 
olhos, ele toca diretamente nossa alma. Vamos analisar particularmente duas 
partes do Sermão do Monte, as bem-aventuranças e os aspectos envolvidos em 
ser sal e luz, especificamente no Evangelho de Mateus (Mt 5-7). 
2.1 A ética como virtude 
No Sermão da Montanha, Jesus apresenta os atributos iniciais das pessoas 
que recebem a regra do Reino que ele traz. Há nove referências diretas ao Reino. 
O Sermão do Monte é a grande abertura daquilo que Jesus quer comunicar, ponto 
por ponto, sobre a lei régia, a perfeita lei da liberdade, sobre a palavra que está 
plantada em nós. A palavra bem-aventurança pode ser interpretada como as 
alegrias do céu ou uma declaração de felicidade. Havia dois públicos para quem 
Jesus estava falando: para os discípulos (seus seguidores) e para o povo. 
Entende-se que o ensino é para os seus seguidores, para os discípulos. Aquilo 
que Jesus fala é para todos ouvirem, mas os seus seguidores têm uma 
responsabilidade maior (Mt 5-7). Segundo Tasker (1980, p. 49), “As bem-
aventuranças em Mateus parecem ser oito em número, pois no verso 11 Jesus 
abandona a forma exclamatória ‘bem-aventurados são’ e aborda os discípulos 
diretamente com as palavras bem-aventurados sois (vós)”. 
Cada beatitude inclui um pronunciamento de bênção, uma descrição 
daqueles considerados abençoados pela fé, uma explicação (o porquê) da 
 
 
8 
benção. Vamos analisar os versículos 3 a 16 da primeira parte do sermão (Mt 5, 
3-11). 
“3 Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino 
dos céus” (Mt 5, 3): algumas traduções optam por pobres de espírito, o que não 
condiz plenamente com a intenção do texto e o deixa um pouco confuso. A melhor 
tradução para o entendimento do que está querendo se dizer é humildes de 
espírito. Considerando que, no grego, a forma dativa em que se encontra a palavra 
espírito também pode ter um significado causativo, podemos traduzir como: bem-
aventurados aqueles que são pobres (humildes), tornando-se pobres (humildes) 
por meio do agir do Espirito Santo. 
Os pobres (humildes) de espírito são aqueles que reconhecem sua pobreza 
(humildade) espiritual (sua dependência de Deus) e deixam de lado toda a sua 
autoafirmação, procurando a Graça de Deus. 
“4 Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados” 
(Mt 5, 4): quem seriam os que choram? Que choro é esse? As pessoas que 
choram podem chorar por si ou pelos outros, mas notadamente há uma tristeza 
na sua alma. Notam-se, nelas, a angústia, a dor e o sofrimento. Esses que estão 
inconformados, incompreendidos serão consolados e esse consolo virá direto de 
Deus; não um consolo passageiro, mas um consolo que conforta e que dá ânimo 
de vida. 
“5 Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra” (Mt 5, 
5): mansos não conota fraqueza, mas sim uma energia controlada. A palavra 
contém ideias de humildade e autodisciplina: “Os mansos são aqueles que se 
humilham diante de Deus, não se rebelam, e reconhecem toda a sua dependência 
em Deus” (Tasker, 1980, p. 49). Em consequência disso, são gentis e amáveispara com os outros. Não provocam discórdias ou contendas; sua presença é 
tranquilizadora, fomente e está comprometida com a paz e a justiça. O termo 
grego para mansidão abrange o oposto da ira, da irritação, do melindre que se 
consome com mágoas e pelo qual se geme de amargura (Rienecker, 1998, p. 77). 
Herdarão a terra, somente podem herdar a terra aqueles que promovem a 
paz e o amor de Deus, pois sem estes não haverá terra. Assim como a terra 
prometida era herança de um povo, essa terra (o planeta) também é herança para 
a descendência do homem. 
“6 Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça porque eles 
serão fartos” (Mt 5, 6): Deus é justo, e sua justiça é para sempre. O cristão está 
 
 
9 
comprometido com a justiça, não com uma justiça que é implantada pelo homem, 
que pode ser falha, mas com a justiça que vem de Deus, que é seu mandato, que 
é parte do seu Reino. O cristão não deve se calar perante as injustiças que o 
mundo promove, não deve se conformar, não deve ser ingênuo. Infelizmente, há 
muitos cristãos ingênuos que repetem palavras e conceitos sem ao menos pensar 
se isso é justiça ou não. Justiça, no Novo Testamento, não é concretizada na base 
do olho por olho. 
A pergunta do cristão deve ser: esse sistema, ou a sociedade em que vivo, 
promove a justiça de forma ampla e igualitária? Chegará o dia em que o cristão 
será farto de justiça, porque a real justiça, a Justiça de Deus, será manifesta, aí o 
verdadeiro crente poderá se sentir aliviado porque aquela não é a justiça de um 
sistema, que está sendo implantada, mas a santa e irreparável Justiça Divina. 
Mas, enquanto isso não acontece, é nossa obrigação sermos os porta-vozes da 
Justiça de Deus, inconformados com o que o mundo nos impõe, ansiosos que 
somos pela vitória do bem sobre o mal. 
“7 Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão 
misericórdia” (Mt 5, 7): essa é uma das bem-aventuranças mais simples de se 
entender, mas não menos difícil de se viver. Os misericordiosos são aqueles que 
têm um profundo entendimento sobre a graça de Deus. Sabem que estão 
envolvidos no mar da misericórdia divina e têm consciência de que, assim como 
um peixe não vive fora da água, também morreria fora do mar da misericórdia de 
Deus (Rienecker, 1998, p. 77). Sabem que não são merecedores dessa 
misericórdia e aqueles que têm essa consciência vivem e aplicam a misericórdia. 
“8 Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus” 
(Mt 5, 8): o coração era considerado o centro do ser da pessoa, incluindo mente, 
vontade e emoções. Então, quando falamos de coração estamos falando de nossa 
interioridade, ou seja, de nosso pensar, agir e querer. Mas, principalmente, do 
nosso pensar, porque é ali na mente que se constroem nossas ações. Jesus disse 
que aquele que olhar com cobiça já pecou, antes de agir. O agir muitas vezes é 
apenas a consequência de algo que nasceu em nossa mente, em nosso eu; afinal, 
para os outros, somos apenas aquilo que deixamos transparecer. Não sabemos 
o que vai na mente dos outros, mas sabemos o que vai em nossa mente e que 
domina nosso coração. É no palco do cérebro que muitas batalhas são travadas 
entre o bem e o mal. Sermos limpos de coração significa procurarmos a pureza 
em nossos pensamentos, não alimentarmos o mal (maus pensamentos, invejas, 
 
 
10 
julgamentos…). Apenas com um coração puro podemos ver a Deus, porque o 
coração puro nos conduz à santidade, não a uma santidade exterior, para pastor 
ver, mas a uma santidade que nos impulsiona para o amor, que nos revela a 
beleza de Deus no mundo e no outro. 
“9 Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados 
filhos de Deus” (Mt 5, 9): Deus é o pacificador supremo, e seus filhos seguem 
seu exemplo. Todo cristão deve ser portador da paz, deve promover uma cultura 
da paz, do respeito. Não é possível ser cristão e ao mesmo tempo favorável à 
destruição, à guerra. Os pacificadores são os que se esforçam para aproveitar 
qualquer oportunidade para promover a reconciliação (Tasker, 1980, p. 50). 
“10 Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, 
porque deles é o reino dos céus”; “11 Bem-aventurados sois vós, quando 
vos injuriarem e perseguiram e, mentindo, disserem todo mal contra vós por 
minha causa”; “12 Alegrai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão 
nos céus; porque assim perseguiram aos profetas que foram antes de vós” 
(Mt 5, 10-12): a causa da perseguição é a lealdade a Jesus e aos valores do 
Reino. Quando de fato formos injuriados, perseguidos e falarem mal de nós por 
causa de Cristo, aí seremos realmente bem-aventurados porque são sinais de que 
não estamos nadando no fluxo do que o mundo afirma ser o correto, mas estamos 
nos entregando, como sacrifício vivo a Deus, para a expansão do seu Reino. Os 
profetas foram perseguidos porque anunciavam a vontade de Deus. Não 
regrediam, pagavam o preço de anunciar o Reino. 
2.2 Ser sal e luz 
“13 Vós sois o sal da terra; e se o sal for insípido, com que se há de 
salgar? Para nada mais presta senão para se lançar fora, e ser pisado pelos 
homens” (Mt 5, 13): sabemos que, na Antiguidade, o sal tinha a função de, além 
de salientar o sabor da comida, assim como hoje, conservar o alimento; claro, não 
havia refrigeração. O sal usado em Israel na época de Cristo vinha quase todo do 
Mar Morto e era cheio de impurezas, o que implicava, muitas vezes, a perda do 
sabor. Logo, ele não podia ficar guardado muito tempo porque perdia o sabor, 
ficava insosso, insípido. 
Percebemos claramente a função importantíssima do sal na cultura da 
Antiguidade, que em parte permanece até hoje. Quem gosta de comida sem sal? 
Bom, o sal apresenta duas funções importantes: dar gosto ao alimento e preservá-
 
 
11 
lo. E, sem essas funções, ele não serve para nada. Ninguém dará importância a 
ele. 
Aos discípulos, Jesus estava apontando para a analogia de serem aqueles 
que deveriam dar significados, preservar e conservar o evangelho, impedir a sua 
corrupção e a sua decadência (Blomberg, 2009, p. 327). O texto é bem claro: se 
os discípulos não se comprometessem a fazer a diferença, a serem a diferença, 
se não houvesse um compromisso deles, real, com a preservação do evangelho, 
seriam então insípidos, perderiam sua força, passariam a agir de forma tola, 
seriam pisados, jogados fora, desprezados, rejeitados, tratados com rispidez. É 
dessa forma que queremos que o mundo olhe a comunidade de Cristo? Como um 
grupo de insípidos? De tolos? Como aqueles que não têm nada a acrescentar? 
“14 Vós sois a luz do mundo; não se pode esconder uma cidade 
edificada sobre um monte”; “15 Nem se acende a candeia e se coloca debaixo 
do alqueire, mas no velador, e dá luz a todos que estão na casa” (Mt 5, 14-
15): o Reino de Deus é para ser manifestado. Cristo não nos chamou para 
ficarmos escondidos. Se somos edificados sob a Palavra de Deus, não há como 
passarmos desapercebidos. Fritz Rienecker, em seu comentário sobre o 
Evangelho de Mateus, diz: 
Não há como os discípulos possam ficar escondidos neste mundo. As 
pessoas veem vocês! Reparam em vocês. Assim como não se pode 
passar ao largo de Jerusalém sem ter notado essa cidade sobre o monte, 
assim também não pode ser simplesmente ignorada a comunidade de 
Jesus na terra. Ela, enfim está aí. Quer o mundo goste, quer não, precisa 
ser confrontada com ela. (Rienecker, 1998, p. 82) 
E, queiramos ou não, por sermos luz, sempre estaremos em evidência, 
mesmo que a nossa luz seja de uma vela pequena. Deus não nos chamou para 
ficarmos escondidos. Ao tentarmos nos esconder, estamos agindo contra a 
vontade de Deus. Para quê? Para que a Palavra de Deus, a ética do Reino seja 
manifestada. 
Devemos crescer na graça e no entendimento. Isso exige consciência da 
nossa missão e esforço para cumpri-la. 
“16 Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam 
as vossas boas obras e glorifiquema vosso Pai, que está nos céus” (Bíblia, 
Mt 5, 16): Cristo nos chama para que sejamos luz diante dos homens, para que 
nossas boas obras sejam vistas, pois é por meio destas que Deus será glorificado. 
Os discípulos não devem esconder-se, mas viver e trabalhar em lugares onde sua 
influência seja sentida e a sua luz seja mais plenamente manifestada a outros – 
 
 
12 
não para sua glorificação própria, mas para que outros possam ver a luz da 
verdadeira bondade cristã expressando-se em atos reais de gentileza e serviço 
(Tasker, 1980, p. 50). 
A Igreja deve se comprometer com nunca permitir que a vivência do 
evangelho se transforme em algo insípido, sem gosto, sem sal, em algo que não 
é mais um farol mas uma pequena vela que ilumina apenas os nossos passos à 
frente, quando deveria ser a lâmpada que ilumina toda a existência. 
TEMA 3 – ÉTICA PAULINA: CARACTERÍSTICAS E BASES TEOLÓGICAS 
Paulo nasceu provavelmente numa cidadezinha entre as montanhas e o 
mar, no ano 1 d.C. O próprio apóstolo afirma: “Eu sou judeu de Tarso, cidade não 
insignificante da Silícia”. Era da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, de 
hebreus (Pollock, 1989, p. 10). Paulo, que estava se preparando para assumir 
uma posição de destaque no sistema religioso hebreu, ao se converter se torna 
um exilado da sua comunidade original, passa de perseguidor a perseguido e 
torna-se um dos mais importantes apóstolos de Cristo. Seus textos são 
fundamentais e fundamentam teologicamente e eticamente o cristianismo. 
Paulo praticamente lança a base para os principais conceitos da ética 
cristã. Devemos compreender que, no início do cristianismo, muitas das propostas 
apresentadas eram absolutamente novas e impactantes, por exemplo aliar a 
responsabilidade com a liberdade, quando o apóstolo afirma em Bíblia (1 Coríntios 
6, 12): “Tudo me é permitido, mas nem tudo convém”. Este é um desafio que 
persiste até os dias de hoje: saber separar, identificar os caminhos corretos a 
percorrer. Essa afirmação requer um refletir e assumir nossa responsabilidade na 
construção de uma sociedade saudável. 
3.1 A ética nas epistolas paulinas 
Provavelmente, um dos escritos mais antigos do Novo Testamento seja a 
Primeira Carta aos Tessalonicenses (1Ts). Nessa epístola, Paulo exorta para que 
seus leitores compreendam que a essência da vida cristã está posta na espera do 
Senhor, não em uma espera passiva, mas uma comprometida. Paulo lembra aos 
seus leitores os laços de fraternidade de todos que seguem a mensagem de 
Cristo. Os tessalonicenses viviam em um ambiente de enorme liberdade e 
libertinagem sexual e o apóstolo lembra das suas responsabilidades para com a 
 
 
13 
forma de viver e relacionar-se uns com os outros. Meeks (1996, p. 116) afirma 
que: 
1 Ts está cheia de lembretes de coisas que os destinatários já sabem. 
“Como sabeis”, é um refrão (ex.: 1,5; 2.2.5.11; 3.4); de mais a mais, 
lembram-se a eles “preceitos” específicos que os fumadores lhes deram 
(4.2), e são encorajados a manter o comportamento que já assumiram e 
a progredir nele ainda mais (4.1.10; 5.11) 
Podemos dizer que o apóstolo passa a mensagem de que não era novidade 
para os tessalonicenses o respeito ao próprio corpo e ao corpo das outras 
pessoas. Paulo relembra aos seus leitores a obrigação cristã de amor fraternal de 
uns para com os outros (1Ts 4), pois Jesus ensinou que devemos amar a Deus 
sobre todas as coisas, e ao próximo como a nós mesmos. Jesus não falou amem 
os seus familiares como a si mesmos, isso é algo em que devemos pensar com 
clareza. Paulo observa alegre que eles estavam fazendo isso e não somente na 
Tessalônica, mas em toda a Macedônia. Porém, de forma geral, para Paulo a ética 
cristã deve estar localizada entre a ressurreição de Cristo e a sua parousia, isto é, 
a sua volta – aliás, é tendo o horizonte da volta de Cristo que devemos viver 
eticamente. E esse viver ético é sempre o fruto do Espírito (Gl 5, 22-23). 
Quando observamos muitos dos escritos paulinos, podemos perceber que 
para Paulo o maior ato de liberdade é poder abrir mão da própria liberdade. Com 
base no misticismo paulino do estar em Cristo é que podemos interpretar o sentido 
ético da vida: “Não vivo mais eu, mas Cristo vive em Mim”, como vemos em (1 Co 
2, 16), pois quem conheceu a mente do Senhor, que o possa instruir? Nós, porém, 
devemos buscar ter a mente de Cristo. Em Gl 5, 13-14), somos instruídos sobre a 
forma como devemos viver e usar a nossa liberdade em Cristo: “13 Porque vós, 
irmãos, fostes chamados à liberdade; porém não useis da liberdade para dar 
ocasião à carne; sede, antes, servos uns dos outros, pelo amor. 14 Porque toda a 
lei se cumpre em um só preceito, a saber: Amarás o teu próximo como a ti 
mesmo”. 
Como podemos perceber nas suas epístolas, há uma preocupação com o 
bem-estar da comunidade (Bíblia, Rm 12, 5; 1 Co 10, 17; 12, 13; 12, 27; Ef 4, 25; 
Gl 3, 28). 
A ética cristã deve ser uma ética que transcenda a normatização estipulada 
pela sociedade, pois a ética cristã se baseia no novo homem. Esse novo homem 
avalia o mundo com base no estar em Cristo: “Paulo requer que todos os homens 
 
 
14 
livres não devem, por motivos éticos, insistir em sua liberdade, mas devem fazer 
concessões para aqueles que ainda não são livres” (Schweitzer, 2003, p. 361). 
Esse viver em Cristo significa abrir mão, cada vez mais, dos seus interesses 
pessoais e viver por uma causa: viver e difundir o evangelho de Cristo. 
Que Cristo cresça e o homem desapareça, o cristão sempre viverá essa 
tensão Cristo/eu, caso não ceda espaço para minimizar o seu egoísmo latente. 
Quando a Igreja tira Cristo do centro e coloca o homem, a quem Cristo deve servir 
para que aquele possa usufruir as “bênçãos” de ser filho de Deus, focado no aqui 
e no agora, perdemos a visão transcendental da mensagem cristã. Trata-se de 
uma hermenêutica antropocêntrica, em que a Bíblia funciona mais como um 
manual mágico em que, se obedecermos a certas fórmulas, obteremos “milagres” 
fantásticos, não diferindo muito de livros de mágica e ocultismo. 
A ética paulina baseia-se na primazia do sacrifício redentor de Cristo; a 
fórmula de estar em Cristo é fundamental, e somente com base nessa realidade 
é que o cristão pode ter uma nova vida (2 Co 5, 17; Gl 2, 20; 3, 28; Fp 4, 1). O que 
deve motivar a conduta do cristão é imitar a Cristo (Rm 15, 5; Gl 2, 20; Ef 5, 1-2; 
Fp 2, 5). A ética paulina está profundamente vinculada ao novo nascimento em 
Cristo e em caminhar em direção a ser um com Jesus. 
TEMA 4 – ÉTICA PAULINA: PRINCÍPIOS GERAIS 
A concepção paulina da conduta ética não leva à salvação, isto é, sua 
aplicação não leva à salvação, sua aplicação é terrena e é reflexo da ação de 
Deus na vida do cristão. Essa concepção é importante, pois parte da compreensão 
de que o cristão não está mais debaixo da lei. Paulo afirma que o crente não tem 
necessidade de se justificar, mas busca a santificação pela ação e orientação do 
Espírito de Deus (Rm 3, 19; 6, 14-15). Outro aspecto em que Paulo alinhava o 
comportamento ético é de que, apesar de o cristão não estar sob a lei, ele não 
realiza tudo o que deseja, ou seja, entende que sua liberdade está em Cristo. 
Nisso Paulo combatia as concepções gnósticas, que faziam distinção entre as 
ações corporais e as espirituais. Paulo se opõe radicalmente a essas concepções 
que, em certa medida, estavam adentrando igrejas como a de Corinto e Colossos. 
Deixa claro que as ações individuais têm sua responsabilidade, cuja regra de ouro 
é o controle e a obediência pois, apesar de que todas as coisas nos sejam lícitas, 
nem todas nos convêm (1 Co 6, 12; 10, 23). Conforme aponta Schreiner (2015, p. 
25): 
 
 
15 
Dificilmente poderíamos dizer, portanto, que a ética pode ser separada 
de preeminência de Cristo, pois tudo que é feito pelos crentes deve ser 
feito em nome de Jesus e para sua honra. Não há aqui aquela 
concepção de fazer o queé certo simplesmente porque é certo, ou do 
dever pelo dever. Uma afirmação semelhante aparece perto do final da 
discussão de Paulo sobe os alimentos oferecidos aos ídolos, em I 
Coríntios 8 -10. Em síntese ele diz “...quer vocês comam ou bebam, ou 
o quer que façam, façam todas as coisas para a glória de Deus” (10.31) 
Aqueles que fazem parte do corpo de Cristo pertencem inteiramente a Ele, 
não se encontram debaixo da lei e sim da graça (Rm 6, 14). Mas, a graça não nos 
dá subsídios para a prática do pecado ou para agirmos sob o domínio da carne. 
Os cristãos devem servir à justiça de Deus. A justiça é acentuada, portanto, 
também no sentido ético. 
Pressupostos da ética paulina: 
 A lei é inadequada tanto para a justificação quanto para a santificação. 
 O homem justificado e regenerado é aquele que porá em prática a conduta 
ideal, em um grau que agrade a Deus. 
 A ação do Espírito Santo é eficaz para contribuir com o ser humano no seu 
agir. 
 O desenvolvimento espiritual em geral tornará o caminhar do ser humano 
mais ético. 
 O homem que está em Cristo tem a lei de Cristo em seu coração (1 Co 9, 
21; Gl 6, 2). 
 O cristão busca possuir a mente de Cristo (1 Co 2, 16). 
Logo, a Igreja deve estar envolvida com as necessidades e problemas 
sociais, causas justas que são responsabilidade ética do cristão, em ações que 
promovam a justiça, mas não por ser uma obrigação ou uma ação politicamente 
correta e nem, em última análise, porque é o certo, mas sim para honrar a Deus. 
Schreiner (2015, p. 27) afirma: 
Nas circunstâncias concretas da vida, nos particulares que constituem a 
existência cotidiana, Paulo direciona a mente de seus leitores a Deus. 
Um exemplo disso é o código familiar de Efésios 5.21 – 6.9. Maridos e 
esposas (5.22,23) não devem seguir meramente as convenções sociais, 
[...]. Em última análise, a esposa não deve se subordinar ao marido por 
mera convenção social ou porque a sociedade funcionará melhor assim. 
Ela deve fazê-lo para honrar seu Senhor Jesus, o Messias. Da mesma 
maneira, e talvez em um sentido mais radical, os maridos são chamados 
a amar suas esposas como Cristo amou a igreja. 
Atualmente, há um vazio ético na sociedade, vazio esse decorrente da não 
aceitação da legislação da Igreja como normatizadora. Nota-se que esse vazio 
 
 
16 
também ocorre dentro da própria instituição eclesiástica. Quando os membros não 
se sentem confortáveis com as indicações éticas da instituição, muda-se de igreja; 
pior ainda é quando tampouco os dirigentes e líderes da própria igreja não se 
sentem obrigados a seguir regras ou criam as suas próprias regras, ignorando ou 
reinterpretando a seu bel-prazer as indicações das escrituras. Com base na 
concepção paulina, nossa ação não deve ser pautada por nossas vontades, mas 
devemos ser submissos àquilo que Cristo nos ordena, claramente indicado nas 
escrituras. 
TEMA 5 – AS EPÍSTOLAS GERAIS E A ÉTICA 
As epístolas de Tiago; 1 e 2 Pedro; 1, 2 e 3 João; Judas; e Hebreus 
pertencem àquela classe de epístolas do Novo Testamento chamadas gerais ou 
católicas (no sentido de universais). Tal designação foi dada a essas sete cartas, 
nos primórdios da história da Igreja, pelo fato de cada uma ser endereçada à Igreja 
em geral e não a uma única congregação. A Igreja primitiva incluiu 2 e 3 João 
como epístolas gerais. Estas, contudo, são epístolas pessoais dirigidas a 
indivíduos. Em geral, eruditos do Novo Testamento concordam que é o 
gnosticismo o tipo da heresia combatida entre os séculos I e II, tema presente nas 
preocupações das epístolas gerais. Além dessas preocupações, havia também 
alguns problemas, nas comunidades cristãs incipientes, sobre o que os apóstolos 
tinham que orientar. Vejamos alguns dos principais pontos elencados em algumas 
das epístolas. 
Na primeira epístola de Pedro, fala-se da chamada do crente, por Deus, à 
salvação, como uma esperança futura (1Pe 1, 3; 2, 10). Essa chamada para a 
herança de Deus implica certos deveres de conduta que um crente deve viver em 
relação a si mesmo (1Pe 1, 13-21) e para com a sociedade (1Pe 1, 22-25), em 
suma a maneira com a qual um crente deve viver diariamente em sociedade. Isso 
é visto sob o aspecto da submissão. Embora o crente viva numa sociedade pagã, 
deve disciplinar-se perante Deus de tal maneira que o pagão veja que ele é 
diferente (1Pe 2, 11-12). O crente deve estar submisso à autoridade constituída 
(1Pe 2, 13-14), a fim de promover um clima que conduza à justiça (1Pe 2, 15-17). 
O crente simplesmente não pode ser um anarquista. Um espírito submisso deve 
ser observado nas suas relações industriais (1Pe 2, 18-25), familiares (1Pe 3, 1-
7) e na Igreja (1Pe 3, 8-12). Deve haver nele uma unidade de espírito, que só 
pode ser produzida por meio da humildade e da submissão. Cada pessoa deverá 
 
 
17 
dar conta, a Deus, de seus atos. Na comunidade cristã, o crente deve praticar a 
disciplina da vida santa, a fim de ter a verdadeira comunhão (1Pe 4, 7-11). 
Já na segunda epístola, Pedro chama os seus ouvintes para a busca da 
excelência moral (2Pe 1, 3-4). No capítulo final da epístola, começa-se referindo 
o propósito que o apóstolo tivera ao escrever, a saber: “despertar com lembrança 
a vossa [nossa] mente esclarecida” (2Pe 3), recordar-nos do ensino dos profetas 
e dos apóstolos, especialmente dos avisos de que nos últimos dias se levantariam 
homens que ridicularizariam a ideia da segunda vinda do Senhor. 
Na epístola de 1 João vemos as condições para a comunhão com Deus 
(1Jo 1, 1-10; 2, 17). A mensagem dessa epístola foi proclamada a fim de que 
possamos gozar de comunhão com aqueles que a proclamam. João passa a 
deduzir da natureza de Deus as condições dessa comunhão. Porém, há dois 
obstáculos à comunhão: 
1. A alegação de estarmos em comunhão com Ele, enquanto andamos em 
trevas (1Jo 1, 6-7); 
2. Sustentarmos que não temos pecado nenhum (1Jo 1, 8). 
Em 1 João 3, 1-24, os filhos de Deus são aqueles que demonstram 
qualidades de caráter iguais às Dele, de que nasceram do céu. Em 1 João 3, 1, 
vê-se a caridade de Deus: “Vede quão grande caridade nos tem concedido o Pai: 
que fôssemos chamados de filhos de Deus”. Somos considerados filhos de Deus 
pelo próprio Deus, não como adotados, mas como nascidos do Espírito. 
Já na segunda epístola, a palavra favorita de João é verdade, que nela 
aparece cinco vezes (2 Jo). Essa palavra é usada em três sentidos: como base 
do ensino cristão; como o próprio Cristo; e como sinceridade. Temos, assim, um 
ensino maravilhoso: no verso 1, a verdade como fonte de amor, a natureza do 
amor, a razão para o amor; no verso 2, Cristo é a verdade, em nós, conosco; no 
verso 3 a verdade é a graça, a misericórdia, e a paz é seu fruto; no verso 4, a 
verdade aparece como caminho, como mandamento divino (2 Jo 1, 1-4). 
Em Tiago temos, no capítulo 2, versículos 1-4, 8, 13, uma forte advertência 
contra a acepção de pessoa, cuja tradução da palavra grega quer dizer 
literalmente receber o rosto, isto é, fazer julgamentos e estabelecer diferenças 
baseadas em considerações externas tais como aparência física, status social ou 
raça. A fala de Tiago é contundente: “Ouvi, meus amados irmãos: Porventura não 
escolheu Deus aos pobres deste mundo para serem ricos na fé, e herdeiros do 
reino que prometeu aos que o amam?” (Tg 2, 5). Tiago também alerta para o 
 
 
18 
perigo do descontrole na palavra (Tg 3, 1-12), apresenta a sabedoria que traz a 
paz em Tg 3, 13-18. No capítulo 4, 1-3, Tiago fala sobre as paixões humanas: a 
hedoné: – os prazeres sensuais, em conotação negativa; os prazeres 
pecaminosos, a cobiça: “Sois invejosos e cobiçosos”. No verso 4, aborda-se a 
amizade do mundo – os prazeres e riquezas deste mundo. No verso 5, o ciúme 
(epipotheo), ansiar intensamente. E nos versos 6 a 10 ele aplica-se a explicar a 
forma de ação do cristão, que deve: 6 – ser humilde; 7 – sujeitar-se a Deus, resistir 
ao diabo; 8 – teras mãos limpas, o coração puro; 9, 10 – humilhar-se diante de 
Deus (Tg 4, 1-10). 
Podemos ver que, nas epístolas gerais, há também um fio condutor, 
alinhado com a própria mensagem dos evangelhos e das epístolas paulinas: a 
submissão a Cristo, pois o ponto central da ética cristã é buscar a mente de Cristo. 
 
 
 
19 
REFERÊNCIAS 
AZPITARTE, E. L. Fundamentação da ética cristã. 1. ed. São Paulo: Paulus, 
1995. 
BÍBLIA (Novo Testamento). Bíblia Online. Disponível em: 
<http://www.bibliaonline.com.br/>. Acesso em: 18 abr. 2019. 
BLOCK, D. Jesus segundo as escrituras. 1. ed. São Paulo: Shedd, 2006. 
BLOMBERG, C. L. Jesus e os Evangelhos: uma introdução ao estudo dos quatro 
evangelhos. 1. ed. São Paulo: Vida Nova, 2009. 
HARRINGTON, D. J.; KEENAN, J. F. Jesus e a ética da virtude. 1. ed. São 
Paulo: Loyola, 2006. 
MEEKS, W. A. O mundo moral dos primeiros cristãos. 1. ed. São Paulo: 
Paulus, 1996. 
POLLOCK, J. O apóstolo. 1. ed. São Paulo: Vida, 1989. 
RIENECKER, F. Evangelho de Mateus: comentário esperança. 1. ed. Curitiba: 
Evangélica Esperança, 1998. 
SCHREINER, T. R. Teologia de Paulo: o apóstolo da glória de Deus em Cristo. 
1. ed. São Paulo: Vida Nova, 2015. 
SCHWEITZER, A. O misticismo de Paulo: o apóstolo. 1. ed. São Paulo: Novo 
Século, 2003. 
TASKER, R. V. G. Mateus: introdução e comentário. 1. ed. São Paulo: Vida Nova, 
1980. 
VIDAL, M. Para conhecer a ética cristã. 1. ed. São Paulo: Paulus, 1993.

Mais conteúdos dessa disciplina