Prévia do material em texto
AULA 3 ÉTICA APLICADA À PRÁTICA PASTORAL Prof. Roberto Rohregger 2 CONVERSA INICIAL Vivemos em uma sociedade, ou talvez melhor seria dizer, em um mundo e, dessa forma, daí tentarmos abranger mais que um grupo comum, em uma determinada localidade, que está relativizando cada vez mais a ética, onde tudo é permitido. As fronteiras entre o que é ético do que não é estão ficando extremamente difusas, mesmo em situações em que há uma legislação clara e, consequentemente, uma pena por qualquer transgressão praticada. Essa normalização de questões que muitas vezes são no mínimo dúbias é, muitas vezes, ignorada e o indivíduo avança, cedendo aos atos dos seus desejos, não tendo, aparentemente, o menor receio das suas consequências. Até o próprio conceito da palavra ética está se perdendo. Nota-se, infelizmente, esse proceder em vários campos do agir humano: no mundo corporativo, temos líderes empresarias, presidentes e diretores usando de meios no mínimo pouco recomendáveis para aumentar suas fortunas pessoais ou oprimindo a sociedade onde se estabelecem, degradando o meio ambiente, usufruindo um lucro imoral. No âmbito das ciências, também há procedimentos que podem ser eticamente questionáveis. Na política, infelizmente, temos o aprofundamento dessas ações antiéticas. Nos órgãos públicos, que deveriam prover serviços de segurança e saúde, há um profundo descompromisso com as necessidades da população. E, por fim, a realidade mais chocante: na própria Igreja, há inúmeros casos de escândalos de líderes religiosos e, muitas vezes, do próprio cristão, que não se compromete com um agir ético. Hoje, se torna essencial que a Igreja faça uma reflexão profunda sobre a questão da ética e sua abrangência, não somente com relação à sociedade, mas, com relação a essa mesma Igreja: até que ponto a Igreja, nos dias atuais, está sendo ética? Como foi o proceder ético do corpo de Cristo no decorrer da história, quando a sociedade necessitava de uma voz para orientá-la? Para podermos pensar essas questões é necessário voltarmos às origens da Igreja e às origens do desenvolvimento do discurso cristão, para responder ao que pode se considerar a derradeira pergunta com relação a esse tema: estamos respondendo à altura aos ensinamentos de Jesus, com relação à ética? 3 TEMA 1 – O REINO DE DEUS E A ÉTICA Aquela é uma pergunta a que o Novo Testamento não responde diretamente. Jesus fala sobre o Reino de Deus como uma realidade conhecida; declara sobre o qual, por meio de parábolas, como algo que está próximo ou longe de nós; fala sobre as condições em que podemos ou não o alcançar. Enfim, nenhum dado nos apresenta sobre o Reino de Deus como noção ou como definição. Uma questão que nos traz dúvidas é quando virá o Reino ou quando poderemos nele ingressar? Jesus o trata como uma realidade já presente, que, dependendo das circunstâncias, já podemos desfrutar; ou trata-se de uma esperança? Nos evangelhos, encontramos textos que favorecem tanto uma quanto outra possibilidade de resposta. Presente ou futuro? Já aqui ou ainda não? Tanto o tempo como o conteúdo de Reino de Deus são difíceis de captar. Só o tempo e a familiaridade com os textos podem nos ajudar, pelo menos em parte. Mas, a descoberta total creio que jamais será alcançada. 1.1 O Reino de Deus no Evangelho de Marcos No Evangelho de Marcos, a questão do Reino de Deus é mencionada 14 vezes. Na primeira vez em que Jesus prega a palavra, Ele anuncia a proximidade do Reino (Mc 1, 14-15). Marcos repete mais 13 vezes as palavras de Jesus e faz uma menção se referindo a José de Arimateia, “que esperava o Reino de Deus” (Mc 15, 43). Em Marcos, Jesus entra em cena nas margens do Jordão, no momento em que é batizado por João (Mc 1, 9-11) e logo passa ao deserto, onde é tentado por Satanás (Mc 1, 12-13). Sua pregação na Galileia pode então ter início: “Depois que João foi preso, veio Jesus para a Galileia, proclamando o Evangelho de Deus: ‘Completou-se o tempo e aproximou-se o Reino de Deus. Convertei-vos e crede no Evangelho’” (Mc 1, 14-15). Após o anúncio inaugural, é por intermédio de parábolas que, ao longo do relato, Jesus fala do Reino de Deus. Jesus prega sobre a parábola do semeador e não é muito entendido pelos seus discípulos, que o indagam a esse respeito. Jesus explica que a eles é dado conhecer o mistério do Reino de Deus, mas aos outros Ele falava por parábolas. Duas entre as parábolas são parábolas do Reino: 4 a parábola da semente que brota por si (Mc 4, 26-29) e a do grão de mostarda (Mc 4, 30-32). Cada uma aborda o Reino de Deus desde a sua primeira frase. A parábola do grão de mostarda encontra-se também em Mateus e Lucas, sob forma um pouco diferente. A da semente que brota espontaneamente só pertence a Marcos. E Ele dizia: “O Reino de Deus é como um homem que lançou a semente à terra: ele dorme e acorda, de noite e de dia, mas a semente germina e cresce, sem que ele saiba como. A terra por si mesma produz fruto: primeiro a erva, depois a espiga e, por fim, a espiga cheia de grãos. Quando o fruto está no ponto, imediatamente metem-lhe a foice, porque o tempo da colheita chegou” (Mc 4, 26-29). 1.2 O Reino de Deus no Evangelho de Mateus Posteriormente a Marcos, 20 anos talvez, Mateus herda a pregação do Reino apresentada por seu predecessor e modifica-a em função de suas próprias perspectivas. Mateus, entretanto, raramente usa o termo Reino (ou Reinado) de Deus. Encontramo-lo apenas quatro vezes em seu texto (Mt 12, 28; 19, 24; 21, 31; 21, 43). No mais, ele usa o termo Reino ou Reinado dos Céus, termo usado no meio impregnado de judaísmo, ao qual ele pertence. Mateus ainda se distingue de Marcos, num ponto: seu texto trata de um Reino do Filho do Homem. Além de Mateus apresentar o Reinado para além do quadro restrito da pregação de Jesus, ele insere seu anúncio solene já na missão de João Batista, que proclama: “Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo” (Mt 3, 2), afirmação sem paralelo em Marcos e em Lucas. O Reino assume, em Mateus, uma dimensão cósmica, aberta ao longo dos tempos, universal no espaço, num mundo sobre o qual estende-se a realeza de Jesus, Filho do Homem. Mateus descreve os primórdios da pregação evangélica em três etapas: 1. Mt 4, 12-17: a instalação na Galileia e proclamação do Reino; 2. Mt 4, 18-22: o chamado dos quatro primeiros discípulos; 3. Mt 4, 23-25: a proclamação do Reino e a realização das primeiras curas. O Evangelho de Mateus fornece uma imagem muito nova do Reino dos Céus em relação à que o Evangelho de Marcos revela. Mais desprendido das questões de ordem temporal, o Reino em Mateus possui uma nítida dimensão ética: é hoje que devemos buscar, por meio de um comportamento exemplar, conforme a Tora explicada por Jesus, seja qual for a hora de sua manifestação última. 5 1.3 O Reino de Deus no Evangelho de Lucas A obra de Lucas não se limita ao evangelho que lhe é atribuído. Para se ter dela uma visão mais completa, convém acrescentar-lhe os Atos dos Apóstolos. Os Atos adotam a expressão Reino de Deus. O Evangelho de Lucas distingue-se tanto do de Marcos quanto do de Mateus pelo fato de que a pregação do Reino não é por ele mencionada no início da missão de Jesus. Somente mais tarde, quando Jesus deixa Cafarnaum, é que ele cita a expressão: “Devo também anunciar a outras cidades a Boa Nova do Reino de Deus” (Lc 4, 43). O evangelista emprega muitas vezes a expressão Reino de Deus para designar o conteúdo da mensagem evangélica e a introduz por meio de um verbo que evoque a pregação: evangelizar, proclamar, anunciar etc. Ora Jesus é o sujeito, é o anunciador do Reino (por exemplo, em Bíblia, L 4, 43; At 1, 3); ora o sujeito é um apóstolo ou um arauto do evangelho: Filipe (At 8, 12) e principalmente Paulo (At 19, 8; 20, 25; 28, 23; 28, 31). Em Lucas, como em Mateus,o anúncio do Reino de Deus é paralelo à realeza de Jesus. Ao contrário de Mateus, Lucas não parece interessar-se pelo Reino de Deus durante o tempo de Israel. Ele começa a partir de Jesus. Na obra de Lucas, como na de Marcos e Mateus, é impossível apreender uma concepção coerente do Reino de Deus. Lucas retoma os dados tradicionais que integram a sua obra. Molda-os segundo as suas perspectivas e as comunidades para as quais se dirige. 1.4 O Reino de Deus no Evangelho de João A expressão Reino de Deus figura apenas duas vezes no Evangelho de João. A sua apresentação é diferente da dos evangelhos sinóticos. O Evangelho de João concentra o olhar na própria figura de Jesus, que assume pessoalmente a função real, de modo especial na hora da paixão. As duas vezes em que o evangelista usa a expressão Reino de Deus encontram-se na cena com Nicodemos: “ver o Reino de Deus” (Jo 3, 3) e “entrar no Reino de Deus” (Jo 3, 5). No evangelho de João, Reino de Deus corresponde a uma expressão da realidade global denominada salvação, mais frequentemente traduzida pelas metáforas da vida ou da luz. 6 1.5 O agir ético com base no Reino de Deus A concepção do Reino de Deus teológica tem suas implicações éticas pois requer uma nova forma de ser e proceder. A proposta é de que somos cidadãos dessa nova realidade que se impõe como realidade última, acima da realidade cotidiana, mas que não está separada desta, mas sim a ela sobreposta. Como afirmam Harrington e Keenan (2006, p. 71): Quando a cristandade sob o imperador Constantino, passou a ser uma religião oficialmente autorizada no Império Romano, tornou-se inevitável que o Reino de Deus passasse a ser identificado com a estrutura política dominante, e tal identificação foi ressaltada muitas vezes depois. Mas tal abordagem ignora o aspecto transcendente do Reino: é o Reino de Deus que irá se instaurar e o que Deus trará irá superar qualquer dos reinos terrenos. Não podemos confundir o Reino de Deus com governos. O Reino de Deus se manifesta na forma da sua justiça e, assim, não é uma estrutura, mas um conceito que se efetivará somente com Deus. Deve-se compreender que todo cristão deve aguardar ansiosamente a implantação total do Reino de Deus e, enquanto a aguarda, viver como se já se o houvesse implantado, observando todos os ensinamentos de Cristo, pois “o que Jesus apresenta é a ideia de que o irromper do governo de Deus na vida de uma pessoa exige uma total resposta a esse governo” (Block, 2006, p. 553). A construção é a meta ética daqueles que seguem a Cristo, pois está relacionada com a própria pregação do evangelho. Segundo Vidal (2005, p. 14): Uma vez inserida a moral cristã no horizonte da salvação escatológica, os esquemas do comportamento moral sofrem radical transformação: - surge nova ordem de valores, tal como parece no manifesta das bem- aventuranças (Mt 5, 3-10); - propõem-se exigências radicais ligadas ao caráter definitivo e insubstituível do reino (Lc 9, 57-62). – As opções são de caráter totalizador: a irrupção do reino faz que tudo o mais perca valor (Mt 13, 44.45-46). – A pertença ao reino acarreta radicalização em todas as atuações que consequentemente realizarão “justiça maior que a dos escribas e fariseus (Mt 5, 20). A moral do reino adquire contorno definitivo na passagem de Mt 25, 31-46: a realização do reino, identificado com os pobres e, mediante estes, com Cristo, é a norma do comportamento moral cristão. O Reino de Deus exige uma decisão e compromisso pessoal, que se dá com base em uma outra característica cristã, a fé. Segundo Azpitarte (1995, p. 59), “Aceitar o seu reino exige, como primeira condição, reconhecer que Deus é a única realidade absoluta e incondicionada”. A ética cristã é superior em decorrência da fé que se deve ter em Jesus, o Cristo, e assim a ética cristã é normativa e centrada nas escrituras. Podemos aventar então que a 7 responsabilidade pelo avanço do Reino de Deus é individual e comunitária, pois cada um deve agir, ter seu agir ético alinhado com a Palavra e, em comunidade, o corpo de Cristo tem essa função, inclusive como instituição, de ser a promotora da justiça e da paz. TEMA 2 – PRINCÍPIOS ÉTICOS CONTIDOS NO SERMÃO DO MONTE O Sermão do Monte tem sido chamado de a Carta Magna do Reino de Deus. No Sermão do Monte, Cristo inicia o relato das novidades que Ele tinha a dizer à sua comunidade, àqueles que o seguiam e aos que apenas o escutavam eventualmente. A localização do monte é incerta, mas é provável que ficasse próximo aos arredores de Cafarnaum. Seguindo os costumes dos rabis, Jesus ficava sentado, enquanto ensinava. No Sermão do Monte, parece que Jesus nos fala diretamente agora, na primeira parte de forma mais ampla; mas nesse agora ele olha diretamente em nossos olhos, seu olhar se fixa profundamente em nossos olhos, ele toca diretamente nossa alma. Vamos analisar particularmente duas partes do Sermão do Monte, as bem-aventuranças e os aspectos envolvidos em ser sal e luz, especificamente no Evangelho de Mateus (Mt 5-7). 2.1 A ética como virtude No Sermão da Montanha, Jesus apresenta os atributos iniciais das pessoas que recebem a regra do Reino que ele traz. Há nove referências diretas ao Reino. O Sermão do Monte é a grande abertura daquilo que Jesus quer comunicar, ponto por ponto, sobre a lei régia, a perfeita lei da liberdade, sobre a palavra que está plantada em nós. A palavra bem-aventurança pode ser interpretada como as alegrias do céu ou uma declaração de felicidade. Havia dois públicos para quem Jesus estava falando: para os discípulos (seus seguidores) e para o povo. Entende-se que o ensino é para os seus seguidores, para os discípulos. Aquilo que Jesus fala é para todos ouvirem, mas os seus seguidores têm uma responsabilidade maior (Mt 5-7). Segundo Tasker (1980, p. 49), “As bem- aventuranças em Mateus parecem ser oito em número, pois no verso 11 Jesus abandona a forma exclamatória ‘bem-aventurados são’ e aborda os discípulos diretamente com as palavras bem-aventurados sois (vós)”. Cada beatitude inclui um pronunciamento de bênção, uma descrição daqueles considerados abençoados pela fé, uma explicação (o porquê) da 8 benção. Vamos analisar os versículos 3 a 16 da primeira parte do sermão (Mt 5, 3-11). “3 Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus” (Mt 5, 3): algumas traduções optam por pobres de espírito, o que não condiz plenamente com a intenção do texto e o deixa um pouco confuso. A melhor tradução para o entendimento do que está querendo se dizer é humildes de espírito. Considerando que, no grego, a forma dativa em que se encontra a palavra espírito também pode ter um significado causativo, podemos traduzir como: bem- aventurados aqueles que são pobres (humildes), tornando-se pobres (humildes) por meio do agir do Espirito Santo. Os pobres (humildes) de espírito são aqueles que reconhecem sua pobreza (humildade) espiritual (sua dependência de Deus) e deixam de lado toda a sua autoafirmação, procurando a Graça de Deus. “4 Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados” (Mt 5, 4): quem seriam os que choram? Que choro é esse? As pessoas que choram podem chorar por si ou pelos outros, mas notadamente há uma tristeza na sua alma. Notam-se, nelas, a angústia, a dor e o sofrimento. Esses que estão inconformados, incompreendidos serão consolados e esse consolo virá direto de Deus; não um consolo passageiro, mas um consolo que conforta e que dá ânimo de vida. “5 Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra” (Mt 5, 5): mansos não conota fraqueza, mas sim uma energia controlada. A palavra contém ideias de humildade e autodisciplina: “Os mansos são aqueles que se humilham diante de Deus, não se rebelam, e reconhecem toda a sua dependência em Deus” (Tasker, 1980, p. 49). Em consequência disso, são gentis e amáveispara com os outros. Não provocam discórdias ou contendas; sua presença é tranquilizadora, fomente e está comprometida com a paz e a justiça. O termo grego para mansidão abrange o oposto da ira, da irritação, do melindre que se consome com mágoas e pelo qual se geme de amargura (Rienecker, 1998, p. 77). Herdarão a terra, somente podem herdar a terra aqueles que promovem a paz e o amor de Deus, pois sem estes não haverá terra. Assim como a terra prometida era herança de um povo, essa terra (o planeta) também é herança para a descendência do homem. “6 Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça porque eles serão fartos” (Mt 5, 6): Deus é justo, e sua justiça é para sempre. O cristão está 9 comprometido com a justiça, não com uma justiça que é implantada pelo homem, que pode ser falha, mas com a justiça que vem de Deus, que é seu mandato, que é parte do seu Reino. O cristão não deve se calar perante as injustiças que o mundo promove, não deve se conformar, não deve ser ingênuo. Infelizmente, há muitos cristãos ingênuos que repetem palavras e conceitos sem ao menos pensar se isso é justiça ou não. Justiça, no Novo Testamento, não é concretizada na base do olho por olho. A pergunta do cristão deve ser: esse sistema, ou a sociedade em que vivo, promove a justiça de forma ampla e igualitária? Chegará o dia em que o cristão será farto de justiça, porque a real justiça, a Justiça de Deus, será manifesta, aí o verdadeiro crente poderá se sentir aliviado porque aquela não é a justiça de um sistema, que está sendo implantada, mas a santa e irreparável Justiça Divina. Mas, enquanto isso não acontece, é nossa obrigação sermos os porta-vozes da Justiça de Deus, inconformados com o que o mundo nos impõe, ansiosos que somos pela vitória do bem sobre o mal. “7 Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia” (Mt 5, 7): essa é uma das bem-aventuranças mais simples de se entender, mas não menos difícil de se viver. Os misericordiosos são aqueles que têm um profundo entendimento sobre a graça de Deus. Sabem que estão envolvidos no mar da misericórdia divina e têm consciência de que, assim como um peixe não vive fora da água, também morreria fora do mar da misericórdia de Deus (Rienecker, 1998, p. 77). Sabem que não são merecedores dessa misericórdia e aqueles que têm essa consciência vivem e aplicam a misericórdia. “8 Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus” (Mt 5, 8): o coração era considerado o centro do ser da pessoa, incluindo mente, vontade e emoções. Então, quando falamos de coração estamos falando de nossa interioridade, ou seja, de nosso pensar, agir e querer. Mas, principalmente, do nosso pensar, porque é ali na mente que se constroem nossas ações. Jesus disse que aquele que olhar com cobiça já pecou, antes de agir. O agir muitas vezes é apenas a consequência de algo que nasceu em nossa mente, em nosso eu; afinal, para os outros, somos apenas aquilo que deixamos transparecer. Não sabemos o que vai na mente dos outros, mas sabemos o que vai em nossa mente e que domina nosso coração. É no palco do cérebro que muitas batalhas são travadas entre o bem e o mal. Sermos limpos de coração significa procurarmos a pureza em nossos pensamentos, não alimentarmos o mal (maus pensamentos, invejas, 10 julgamentos…). Apenas com um coração puro podemos ver a Deus, porque o coração puro nos conduz à santidade, não a uma santidade exterior, para pastor ver, mas a uma santidade que nos impulsiona para o amor, que nos revela a beleza de Deus no mundo e no outro. “9 Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus” (Mt 5, 9): Deus é o pacificador supremo, e seus filhos seguem seu exemplo. Todo cristão deve ser portador da paz, deve promover uma cultura da paz, do respeito. Não é possível ser cristão e ao mesmo tempo favorável à destruição, à guerra. Os pacificadores são os que se esforçam para aproveitar qualquer oportunidade para promover a reconciliação (Tasker, 1980, p. 50). “10 Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus”; “11 Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguiram e, mentindo, disserem todo mal contra vós por minha causa”; “12 Alegrai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram aos profetas que foram antes de vós” (Mt 5, 10-12): a causa da perseguição é a lealdade a Jesus e aos valores do Reino. Quando de fato formos injuriados, perseguidos e falarem mal de nós por causa de Cristo, aí seremos realmente bem-aventurados porque são sinais de que não estamos nadando no fluxo do que o mundo afirma ser o correto, mas estamos nos entregando, como sacrifício vivo a Deus, para a expansão do seu Reino. Os profetas foram perseguidos porque anunciavam a vontade de Deus. Não regrediam, pagavam o preço de anunciar o Reino. 2.2 Ser sal e luz “13 Vós sois o sal da terra; e se o sal for insípido, com que se há de salgar? Para nada mais presta senão para se lançar fora, e ser pisado pelos homens” (Mt 5, 13): sabemos que, na Antiguidade, o sal tinha a função de, além de salientar o sabor da comida, assim como hoje, conservar o alimento; claro, não havia refrigeração. O sal usado em Israel na época de Cristo vinha quase todo do Mar Morto e era cheio de impurezas, o que implicava, muitas vezes, a perda do sabor. Logo, ele não podia ficar guardado muito tempo porque perdia o sabor, ficava insosso, insípido. Percebemos claramente a função importantíssima do sal na cultura da Antiguidade, que em parte permanece até hoje. Quem gosta de comida sem sal? Bom, o sal apresenta duas funções importantes: dar gosto ao alimento e preservá- 11 lo. E, sem essas funções, ele não serve para nada. Ninguém dará importância a ele. Aos discípulos, Jesus estava apontando para a analogia de serem aqueles que deveriam dar significados, preservar e conservar o evangelho, impedir a sua corrupção e a sua decadência (Blomberg, 2009, p. 327). O texto é bem claro: se os discípulos não se comprometessem a fazer a diferença, a serem a diferença, se não houvesse um compromisso deles, real, com a preservação do evangelho, seriam então insípidos, perderiam sua força, passariam a agir de forma tola, seriam pisados, jogados fora, desprezados, rejeitados, tratados com rispidez. É dessa forma que queremos que o mundo olhe a comunidade de Cristo? Como um grupo de insípidos? De tolos? Como aqueles que não têm nada a acrescentar? “14 Vós sois a luz do mundo; não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte”; “15 Nem se acende a candeia e se coloca debaixo do alqueire, mas no velador, e dá luz a todos que estão na casa” (Mt 5, 14- 15): o Reino de Deus é para ser manifestado. Cristo não nos chamou para ficarmos escondidos. Se somos edificados sob a Palavra de Deus, não há como passarmos desapercebidos. Fritz Rienecker, em seu comentário sobre o Evangelho de Mateus, diz: Não há como os discípulos possam ficar escondidos neste mundo. As pessoas veem vocês! Reparam em vocês. Assim como não se pode passar ao largo de Jerusalém sem ter notado essa cidade sobre o monte, assim também não pode ser simplesmente ignorada a comunidade de Jesus na terra. Ela, enfim está aí. Quer o mundo goste, quer não, precisa ser confrontada com ela. (Rienecker, 1998, p. 82) E, queiramos ou não, por sermos luz, sempre estaremos em evidência, mesmo que a nossa luz seja de uma vela pequena. Deus não nos chamou para ficarmos escondidos. Ao tentarmos nos esconder, estamos agindo contra a vontade de Deus. Para quê? Para que a Palavra de Deus, a ética do Reino seja manifestada. Devemos crescer na graça e no entendimento. Isso exige consciência da nossa missão e esforço para cumpri-la. “16 Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquema vosso Pai, que está nos céus” (Bíblia, Mt 5, 16): Cristo nos chama para que sejamos luz diante dos homens, para que nossas boas obras sejam vistas, pois é por meio destas que Deus será glorificado. Os discípulos não devem esconder-se, mas viver e trabalhar em lugares onde sua influência seja sentida e a sua luz seja mais plenamente manifestada a outros – 12 não para sua glorificação própria, mas para que outros possam ver a luz da verdadeira bondade cristã expressando-se em atos reais de gentileza e serviço (Tasker, 1980, p. 50). A Igreja deve se comprometer com nunca permitir que a vivência do evangelho se transforme em algo insípido, sem gosto, sem sal, em algo que não é mais um farol mas uma pequena vela que ilumina apenas os nossos passos à frente, quando deveria ser a lâmpada que ilumina toda a existência. TEMA 3 – ÉTICA PAULINA: CARACTERÍSTICAS E BASES TEOLÓGICAS Paulo nasceu provavelmente numa cidadezinha entre as montanhas e o mar, no ano 1 d.C. O próprio apóstolo afirma: “Eu sou judeu de Tarso, cidade não insignificante da Silícia”. Era da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, de hebreus (Pollock, 1989, p. 10). Paulo, que estava se preparando para assumir uma posição de destaque no sistema religioso hebreu, ao se converter se torna um exilado da sua comunidade original, passa de perseguidor a perseguido e torna-se um dos mais importantes apóstolos de Cristo. Seus textos são fundamentais e fundamentam teologicamente e eticamente o cristianismo. Paulo praticamente lança a base para os principais conceitos da ética cristã. Devemos compreender que, no início do cristianismo, muitas das propostas apresentadas eram absolutamente novas e impactantes, por exemplo aliar a responsabilidade com a liberdade, quando o apóstolo afirma em Bíblia (1 Coríntios 6, 12): “Tudo me é permitido, mas nem tudo convém”. Este é um desafio que persiste até os dias de hoje: saber separar, identificar os caminhos corretos a percorrer. Essa afirmação requer um refletir e assumir nossa responsabilidade na construção de uma sociedade saudável. 3.1 A ética nas epistolas paulinas Provavelmente, um dos escritos mais antigos do Novo Testamento seja a Primeira Carta aos Tessalonicenses (1Ts). Nessa epístola, Paulo exorta para que seus leitores compreendam que a essência da vida cristã está posta na espera do Senhor, não em uma espera passiva, mas uma comprometida. Paulo lembra aos seus leitores os laços de fraternidade de todos que seguem a mensagem de Cristo. Os tessalonicenses viviam em um ambiente de enorme liberdade e libertinagem sexual e o apóstolo lembra das suas responsabilidades para com a 13 forma de viver e relacionar-se uns com os outros. Meeks (1996, p. 116) afirma que: 1 Ts está cheia de lembretes de coisas que os destinatários já sabem. “Como sabeis”, é um refrão (ex.: 1,5; 2.2.5.11; 3.4); de mais a mais, lembram-se a eles “preceitos” específicos que os fumadores lhes deram (4.2), e são encorajados a manter o comportamento que já assumiram e a progredir nele ainda mais (4.1.10; 5.11) Podemos dizer que o apóstolo passa a mensagem de que não era novidade para os tessalonicenses o respeito ao próprio corpo e ao corpo das outras pessoas. Paulo relembra aos seus leitores a obrigação cristã de amor fraternal de uns para com os outros (1Ts 4), pois Jesus ensinou que devemos amar a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo como a nós mesmos. Jesus não falou amem os seus familiares como a si mesmos, isso é algo em que devemos pensar com clareza. Paulo observa alegre que eles estavam fazendo isso e não somente na Tessalônica, mas em toda a Macedônia. Porém, de forma geral, para Paulo a ética cristã deve estar localizada entre a ressurreição de Cristo e a sua parousia, isto é, a sua volta – aliás, é tendo o horizonte da volta de Cristo que devemos viver eticamente. E esse viver ético é sempre o fruto do Espírito (Gl 5, 22-23). Quando observamos muitos dos escritos paulinos, podemos perceber que para Paulo o maior ato de liberdade é poder abrir mão da própria liberdade. Com base no misticismo paulino do estar em Cristo é que podemos interpretar o sentido ético da vida: “Não vivo mais eu, mas Cristo vive em Mim”, como vemos em (1 Co 2, 16), pois quem conheceu a mente do Senhor, que o possa instruir? Nós, porém, devemos buscar ter a mente de Cristo. Em Gl 5, 13-14), somos instruídos sobre a forma como devemos viver e usar a nossa liberdade em Cristo: “13 Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade; porém não useis da liberdade para dar ocasião à carne; sede, antes, servos uns dos outros, pelo amor. 14 Porque toda a lei se cumpre em um só preceito, a saber: Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Como podemos perceber nas suas epístolas, há uma preocupação com o bem-estar da comunidade (Bíblia, Rm 12, 5; 1 Co 10, 17; 12, 13; 12, 27; Ef 4, 25; Gl 3, 28). A ética cristã deve ser uma ética que transcenda a normatização estipulada pela sociedade, pois a ética cristã se baseia no novo homem. Esse novo homem avalia o mundo com base no estar em Cristo: “Paulo requer que todos os homens 14 livres não devem, por motivos éticos, insistir em sua liberdade, mas devem fazer concessões para aqueles que ainda não são livres” (Schweitzer, 2003, p. 361). Esse viver em Cristo significa abrir mão, cada vez mais, dos seus interesses pessoais e viver por uma causa: viver e difundir o evangelho de Cristo. Que Cristo cresça e o homem desapareça, o cristão sempre viverá essa tensão Cristo/eu, caso não ceda espaço para minimizar o seu egoísmo latente. Quando a Igreja tira Cristo do centro e coloca o homem, a quem Cristo deve servir para que aquele possa usufruir as “bênçãos” de ser filho de Deus, focado no aqui e no agora, perdemos a visão transcendental da mensagem cristã. Trata-se de uma hermenêutica antropocêntrica, em que a Bíblia funciona mais como um manual mágico em que, se obedecermos a certas fórmulas, obteremos “milagres” fantásticos, não diferindo muito de livros de mágica e ocultismo. A ética paulina baseia-se na primazia do sacrifício redentor de Cristo; a fórmula de estar em Cristo é fundamental, e somente com base nessa realidade é que o cristão pode ter uma nova vida (2 Co 5, 17; Gl 2, 20; 3, 28; Fp 4, 1). O que deve motivar a conduta do cristão é imitar a Cristo (Rm 15, 5; Gl 2, 20; Ef 5, 1-2; Fp 2, 5). A ética paulina está profundamente vinculada ao novo nascimento em Cristo e em caminhar em direção a ser um com Jesus. TEMA 4 – ÉTICA PAULINA: PRINCÍPIOS GERAIS A concepção paulina da conduta ética não leva à salvação, isto é, sua aplicação não leva à salvação, sua aplicação é terrena e é reflexo da ação de Deus na vida do cristão. Essa concepção é importante, pois parte da compreensão de que o cristão não está mais debaixo da lei. Paulo afirma que o crente não tem necessidade de se justificar, mas busca a santificação pela ação e orientação do Espírito de Deus (Rm 3, 19; 6, 14-15). Outro aspecto em que Paulo alinhava o comportamento ético é de que, apesar de o cristão não estar sob a lei, ele não realiza tudo o que deseja, ou seja, entende que sua liberdade está em Cristo. Nisso Paulo combatia as concepções gnósticas, que faziam distinção entre as ações corporais e as espirituais. Paulo se opõe radicalmente a essas concepções que, em certa medida, estavam adentrando igrejas como a de Corinto e Colossos. Deixa claro que as ações individuais têm sua responsabilidade, cuja regra de ouro é o controle e a obediência pois, apesar de que todas as coisas nos sejam lícitas, nem todas nos convêm (1 Co 6, 12; 10, 23). Conforme aponta Schreiner (2015, p. 25): 15 Dificilmente poderíamos dizer, portanto, que a ética pode ser separada de preeminência de Cristo, pois tudo que é feito pelos crentes deve ser feito em nome de Jesus e para sua honra. Não há aqui aquela concepção de fazer o queé certo simplesmente porque é certo, ou do dever pelo dever. Uma afirmação semelhante aparece perto do final da discussão de Paulo sobe os alimentos oferecidos aos ídolos, em I Coríntios 8 -10. Em síntese ele diz “...quer vocês comam ou bebam, ou o quer que façam, façam todas as coisas para a glória de Deus” (10.31) Aqueles que fazem parte do corpo de Cristo pertencem inteiramente a Ele, não se encontram debaixo da lei e sim da graça (Rm 6, 14). Mas, a graça não nos dá subsídios para a prática do pecado ou para agirmos sob o domínio da carne. Os cristãos devem servir à justiça de Deus. A justiça é acentuada, portanto, também no sentido ético. Pressupostos da ética paulina: A lei é inadequada tanto para a justificação quanto para a santificação. O homem justificado e regenerado é aquele que porá em prática a conduta ideal, em um grau que agrade a Deus. A ação do Espírito Santo é eficaz para contribuir com o ser humano no seu agir. O desenvolvimento espiritual em geral tornará o caminhar do ser humano mais ético. O homem que está em Cristo tem a lei de Cristo em seu coração (1 Co 9, 21; Gl 6, 2). O cristão busca possuir a mente de Cristo (1 Co 2, 16). Logo, a Igreja deve estar envolvida com as necessidades e problemas sociais, causas justas que são responsabilidade ética do cristão, em ações que promovam a justiça, mas não por ser uma obrigação ou uma ação politicamente correta e nem, em última análise, porque é o certo, mas sim para honrar a Deus. Schreiner (2015, p. 27) afirma: Nas circunstâncias concretas da vida, nos particulares que constituem a existência cotidiana, Paulo direciona a mente de seus leitores a Deus. Um exemplo disso é o código familiar de Efésios 5.21 – 6.9. Maridos e esposas (5.22,23) não devem seguir meramente as convenções sociais, [...]. Em última análise, a esposa não deve se subordinar ao marido por mera convenção social ou porque a sociedade funcionará melhor assim. Ela deve fazê-lo para honrar seu Senhor Jesus, o Messias. Da mesma maneira, e talvez em um sentido mais radical, os maridos são chamados a amar suas esposas como Cristo amou a igreja. Atualmente, há um vazio ético na sociedade, vazio esse decorrente da não aceitação da legislação da Igreja como normatizadora. Nota-se que esse vazio 16 também ocorre dentro da própria instituição eclesiástica. Quando os membros não se sentem confortáveis com as indicações éticas da instituição, muda-se de igreja; pior ainda é quando tampouco os dirigentes e líderes da própria igreja não se sentem obrigados a seguir regras ou criam as suas próprias regras, ignorando ou reinterpretando a seu bel-prazer as indicações das escrituras. Com base na concepção paulina, nossa ação não deve ser pautada por nossas vontades, mas devemos ser submissos àquilo que Cristo nos ordena, claramente indicado nas escrituras. TEMA 5 – AS EPÍSTOLAS GERAIS E A ÉTICA As epístolas de Tiago; 1 e 2 Pedro; 1, 2 e 3 João; Judas; e Hebreus pertencem àquela classe de epístolas do Novo Testamento chamadas gerais ou católicas (no sentido de universais). Tal designação foi dada a essas sete cartas, nos primórdios da história da Igreja, pelo fato de cada uma ser endereçada à Igreja em geral e não a uma única congregação. A Igreja primitiva incluiu 2 e 3 João como epístolas gerais. Estas, contudo, são epístolas pessoais dirigidas a indivíduos. Em geral, eruditos do Novo Testamento concordam que é o gnosticismo o tipo da heresia combatida entre os séculos I e II, tema presente nas preocupações das epístolas gerais. Além dessas preocupações, havia também alguns problemas, nas comunidades cristãs incipientes, sobre o que os apóstolos tinham que orientar. Vejamos alguns dos principais pontos elencados em algumas das epístolas. Na primeira epístola de Pedro, fala-se da chamada do crente, por Deus, à salvação, como uma esperança futura (1Pe 1, 3; 2, 10). Essa chamada para a herança de Deus implica certos deveres de conduta que um crente deve viver em relação a si mesmo (1Pe 1, 13-21) e para com a sociedade (1Pe 1, 22-25), em suma a maneira com a qual um crente deve viver diariamente em sociedade. Isso é visto sob o aspecto da submissão. Embora o crente viva numa sociedade pagã, deve disciplinar-se perante Deus de tal maneira que o pagão veja que ele é diferente (1Pe 2, 11-12). O crente deve estar submisso à autoridade constituída (1Pe 2, 13-14), a fim de promover um clima que conduza à justiça (1Pe 2, 15-17). O crente simplesmente não pode ser um anarquista. Um espírito submisso deve ser observado nas suas relações industriais (1Pe 2, 18-25), familiares (1Pe 3, 1- 7) e na Igreja (1Pe 3, 8-12). Deve haver nele uma unidade de espírito, que só pode ser produzida por meio da humildade e da submissão. Cada pessoa deverá 17 dar conta, a Deus, de seus atos. Na comunidade cristã, o crente deve praticar a disciplina da vida santa, a fim de ter a verdadeira comunhão (1Pe 4, 7-11). Já na segunda epístola, Pedro chama os seus ouvintes para a busca da excelência moral (2Pe 1, 3-4). No capítulo final da epístola, começa-se referindo o propósito que o apóstolo tivera ao escrever, a saber: “despertar com lembrança a vossa [nossa] mente esclarecida” (2Pe 3), recordar-nos do ensino dos profetas e dos apóstolos, especialmente dos avisos de que nos últimos dias se levantariam homens que ridicularizariam a ideia da segunda vinda do Senhor. Na epístola de 1 João vemos as condições para a comunhão com Deus (1Jo 1, 1-10; 2, 17). A mensagem dessa epístola foi proclamada a fim de que possamos gozar de comunhão com aqueles que a proclamam. João passa a deduzir da natureza de Deus as condições dessa comunhão. Porém, há dois obstáculos à comunhão: 1. A alegação de estarmos em comunhão com Ele, enquanto andamos em trevas (1Jo 1, 6-7); 2. Sustentarmos que não temos pecado nenhum (1Jo 1, 8). Em 1 João 3, 1-24, os filhos de Deus são aqueles que demonstram qualidades de caráter iguais às Dele, de que nasceram do céu. Em 1 João 3, 1, vê-se a caridade de Deus: “Vede quão grande caridade nos tem concedido o Pai: que fôssemos chamados de filhos de Deus”. Somos considerados filhos de Deus pelo próprio Deus, não como adotados, mas como nascidos do Espírito. Já na segunda epístola, a palavra favorita de João é verdade, que nela aparece cinco vezes (2 Jo). Essa palavra é usada em três sentidos: como base do ensino cristão; como o próprio Cristo; e como sinceridade. Temos, assim, um ensino maravilhoso: no verso 1, a verdade como fonte de amor, a natureza do amor, a razão para o amor; no verso 2, Cristo é a verdade, em nós, conosco; no verso 3 a verdade é a graça, a misericórdia, e a paz é seu fruto; no verso 4, a verdade aparece como caminho, como mandamento divino (2 Jo 1, 1-4). Em Tiago temos, no capítulo 2, versículos 1-4, 8, 13, uma forte advertência contra a acepção de pessoa, cuja tradução da palavra grega quer dizer literalmente receber o rosto, isto é, fazer julgamentos e estabelecer diferenças baseadas em considerações externas tais como aparência física, status social ou raça. A fala de Tiago é contundente: “Ouvi, meus amados irmãos: Porventura não escolheu Deus aos pobres deste mundo para serem ricos na fé, e herdeiros do reino que prometeu aos que o amam?” (Tg 2, 5). Tiago também alerta para o 18 perigo do descontrole na palavra (Tg 3, 1-12), apresenta a sabedoria que traz a paz em Tg 3, 13-18. No capítulo 4, 1-3, Tiago fala sobre as paixões humanas: a hedoné: – os prazeres sensuais, em conotação negativa; os prazeres pecaminosos, a cobiça: “Sois invejosos e cobiçosos”. No verso 4, aborda-se a amizade do mundo – os prazeres e riquezas deste mundo. No verso 5, o ciúme (epipotheo), ansiar intensamente. E nos versos 6 a 10 ele aplica-se a explicar a forma de ação do cristão, que deve: 6 – ser humilde; 7 – sujeitar-se a Deus, resistir ao diabo; 8 – teras mãos limpas, o coração puro; 9, 10 – humilhar-se diante de Deus (Tg 4, 1-10). Podemos ver que, nas epístolas gerais, há também um fio condutor, alinhado com a própria mensagem dos evangelhos e das epístolas paulinas: a submissão a Cristo, pois o ponto central da ética cristã é buscar a mente de Cristo. 19 REFERÊNCIAS AZPITARTE, E. L. Fundamentação da ética cristã. 1. ed. São Paulo: Paulus, 1995. BÍBLIA (Novo Testamento). Bíblia Online. Disponível em: <http://www.bibliaonline.com.br/>. Acesso em: 18 abr. 2019. BLOCK, D. Jesus segundo as escrituras. 1. ed. São Paulo: Shedd, 2006. BLOMBERG, C. L. Jesus e os Evangelhos: uma introdução ao estudo dos quatro evangelhos. 1. ed. São Paulo: Vida Nova, 2009. HARRINGTON, D. J.; KEENAN, J. F. Jesus e a ética da virtude. 1. ed. São Paulo: Loyola, 2006. MEEKS, W. A. O mundo moral dos primeiros cristãos. 1. ed. São Paulo: Paulus, 1996. POLLOCK, J. O apóstolo. 1. ed. São Paulo: Vida, 1989. RIENECKER, F. Evangelho de Mateus: comentário esperança. 1. ed. Curitiba: Evangélica Esperança, 1998. SCHREINER, T. R. Teologia de Paulo: o apóstolo da glória de Deus em Cristo. 1. ed. São Paulo: Vida Nova, 2015. SCHWEITZER, A. O misticismo de Paulo: o apóstolo. 1. ed. São Paulo: Novo Século, 2003. TASKER, R. V. G. Mateus: introdução e comentário. 1. ed. São Paulo: Vida Nova, 1980. VIDAL, M. Para conhecer a ética cristã. 1. ed. São Paulo: Paulus, 1993.