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Discipulado para uma nova 3 IGREJA DISCIPULADORA Roteiro para formar uma igreja discipuladora Josadak Lima IGREJA DISCIPULADORA Roteiro para formar uma igreja discipuladora 1ª edição São Bernardo do Campo - SP - 2016 Copyright © 2016, Josadak Lima Direios cedidos à Associaçâo da Igreja Metodista e Publicado pelo Departamento Editorial da Igreja Metodista - Angular Editora. É proibida a reprodução total ou parcial da obra, de qualquer forma ou por qualquer meio sem a autorização prévia e por escrito do autor. A violação dos Direitos Autorais (Lei n.º 9610/98) é crime estabelecido pelo artigo 184 do Código Penal Secretaria Editorial Joana D’Arc Meireles Capa Fabio Nelson Marchiori Diagramação Alexandre Paes Dias Revisão Celena Alves Lima, Josadak. Igreja Discipuladora - Roteiro para formar uma igreja discipuladora. Volume 3 – São Bernardo do Campo, SP: Editeo, 2016. p. 56 ISBN: 978-85-8046-042-1 1. Discipulado. 2. Missão 3. Caráter Sumário Capítulo 1 Procurando no discipulado formar a pessoa cristã virtuosa ..................... 11 Capítulo 2 As bases na formação discipuladora de Jesus .............................................. 23 Capítulo 3 O foco do discipulado na igreja local ........................................................... 31 Capítulo 4 Uma reprodução de alto impacto .................................................................. 39 Capítulo 5 Tornando-se uma igreja referencial .............................................................. 45 Capítulo 6 A chave da revolução do discipulado na igreja local .................................. 51 Apresentação IGREJA DISCIPULADORA - Roteiro para formar uma igreja discipuladora - parte da referência deixada pela igreja de Tessalônica, que nasce e se alicerça no Evangelho e no discipulado de Jesus. Em Tessalônica, a Palavra de Deus, personalizada na vida dos discípulos e discípulas de Jesus, “sai” e caminha-se pelas estradas, nas ruas de outras cidades, apresentando Jesus como Salvador, não como uma doutrina, mas como um caminho para trilhar na companhia de outras pessoas que seguiam o Mestre. Desta forma, a igreja local em Tessalônica serve de referência para quem quer formar uma igreja discipuladora e missionária; para quem quer adotar o modelo de discipulado de Jesus como sua estratégia de crescimento tanto qualitativo como quantitativamente. O tempo chegou. O tempo é agora. De hoje em diante siga o curso da igreja de Tessalônica, com o foco no discipulado, numa experiência para a vida toda. Josadak Lima Pastor Metodista da Sexta Região Eclesiástica Capítulo 1 Procurando no discipulado formar a pessoa cristã virtuosa “Recordando-nos, diante do nosso Deus e Pai, da operosidade da vossa fé,da abnegação do vosso amor e da firmeza da vossa esperança em nosso Senhor Jesus Cristo”. 1Ts 1.3 Este livro baseiam-se no primeiro capítulo de 1 Tessalonicenses e tem como propósito conduzir sua leitura na descoberta de uma igreja marcada por uma espiritualidade contagiante e constituída por pessoas que buscam para si o discipulado e que discipulam. Trata-se, portanto, de um relacionamento de cuidado mútuo; cuidado que abrange as diversas áreas do viver e do ser, com diligência, zelo, atenção e solicitude. O cuidado é vital, pois sem cuidado não há vida. No contexto cristão, o cerne do cuidado é encontrar a genuína conversão, seguida, então, pela imitação de Cristo, por meio de cristãos mais maduros. partimos do fato de que o ser humano é, por sua natureza e essência, um ser de cuidado. Sente a disposição de cuidar e a necessidade de ser ele também cuidado. Cuidar e ser cuidado são existenciais (estruturas permanente) e indissolúveis. 1 relevante, capaz de impactar o mundo com o evangelho, como fez a comunidade dos tessalonicenses. Com intuito de conduzir o assunto, observa-se que no primeiro capítulo de 1 Tessalonicenses há uma estreita relação com o restante da Bíblia e, principalmente, com Jesus de Nazaré e Paulo. Vemos o interesse de Deus por uma igreja 1 BOFF, Leonardo. Saber Cuidar. São Paulo, 2012, p. 12. Ao mesmo tempo, revela-se um jeito de ser igreja, cuja atuação dinâmica pode ser percebida pela exposição clara e íntegra do evangelho e o discipulado dos convertidos ao cristianismo. O retrato daquela pequena e recém-formada comunidade cristã era uma fé ativa, amor capaz de sacrifícios e firme esperança. Eis o tripé que sustenta e identifica uma igreja genuinamente cristã, capaz de vivenciar uma relação de ajuda, por meio do discipulado. Esta é a mais importante chave para entender toda a carta aos Tessalonicenses. É também o quadro mais belo e completo que encontramos dessa comunidade à qual foi considerada como referência para o primeiro texto escrito do Novo Testamento. Com isto, acredito ser esta igreja local do Novo Testamento que melhor expressa as características concretas de uma comunidade que nasceu e cresceu saudável, tanto quantitativo como qualitativamente. Ela foi fundada e organizada por Paulo por ocasião de sua segunda viagem missionária, conforme o relato de Atos 17.1-10. Era composta, em sua maioria, por gentios artífices e pequenos comerciantes. O que é tão surpreendente é que Atos 17 parece sugerir que a equipe missionária de Paulo esteve nesta cidade de 200 mil pessoas apenas algumas semanas, ou no máximo alguns meses, antes que as revoltas os forçassem a fugir para Bereia. Ainda assim, deixaram atrás de si um núcleo de uma igreja forte e vital, que permanece fiel, apesar da perseguição.2 Provavelmente, Paulo e sua equipe tenham chegado à Tessalônica no início do verão do ano 50 d.C. Mas depois de fundar a igreja, tiveram de sair às pressas devido a forte perseguição, e as pessoas que se converteram ao cristianismo tiveram de se virar por conta própria, não havendo passado por um período mais longo de instrução sobre as verdades da fé cristã e o discipulado, rumo à maturidade em Cristo. Contudo, na primeira oportunidade, Paulo (já em Corinto) enviou de volta à Tessalônica seu mais jovem discípulo - Timóteo - o qual retornou trazendo excelentes notícias dos fiéis (1Ts 3.1-6), e algumas perguntas sobre a nova fé que haviam abraçado. O curto período de tempo que haviam permanecido ali, não lhes fora suficiente para edificá-los totalmente na fé. 2 RICHARDS, Lawrence. Comentário devocional da Bíblia. Rio de Janeiro: CPAD, 2012, p. 886. Então, com esta base, Paulo escreve 1 Tessalonicenses para elogiar sua fé e responder as perguntas. Tudo indica ter sido este o primeiro, dos trezes livros escritos por Paulo. Esta carta foi escrita num tom íntimo e amigável para confortar e encorajar o grupo frente às inúmeras perseguições pelo fato de terem abraçado a fé em Cristo. As ênfases da carta são: 3 • a preocupação amorosa de Paulo pelos seus amigos e amigas em Tessalônica; • sofrimento como parte da vida cristã; • a necessidade de se realizar o próprio trabalho, não vivendo da generosidade alheia; • a ressurreição dos cristãos que morreram; • a prontidão para a vinda de Cristo. Observe que a carta de 1 Tessalonicenses, capítulo 1, começa com o nome daqueles que a envia: Paulo, Silas e Timóteo; equipe missionária bem conhecida naquela comunidade cristã. Em seguida, temos a exposição da conexão entre doutrina e vida prática, na qual fica ressaltado as virtudes da fé, amor e esperança, como identidade da formação integral e existencial abrangente dos discípulos de Jesus. Portanto, as virtudes da fé, amor e esperança devem ser algo óbvio na vida daqueles que se convertem ao cristianismo e seguem Jesus. De fato, com o advento do cristianismo, tanto as virtudes intelectuais (sabedoria, ciência e intelecto) quanto às morais (justiça, prudência, fortaleza e temperança), apesar de importantíssimas para o “viver bem”, passaram a ser harmonizadas pela percepção das três virtudes maiores, chamadas teologais: fé, esperança e amor:4 1) Fé é a crença naquilo que não se pode deter prova, imediata e certa, pelo viés sensível; é um salto qualitativo na ordem do saber, onde aderimos confiantemente aoCriador, ao supremo Ser – inacessível às cogitações humanas e passamos a ver tudo sobre sua ótica. 2) Esperança, em sentido resumido, constituía a crença, no que nos foi dito por Cristo, em relação à vida eterna. Em nosso dia a dia formulamos as indagações mais fascinantes e mais incômodas, tais como: Qual é o sentido da vida? Será que o humano é resultado do acaso? Mas, pela virtude da esperança obtemos as respostas mais interessantes, resolvendo as situações contraditórias da vida, na qual é possível descobrir caminhos fascinantes pela perspectiva da revelação bíblica e também a iluminação na busca de sua própria vida. 3 FEE, Gordon; Stuart, Douglas. Como ler a Bíblia livro por livro. São Paulo: Vida Nova, 2013, p. 431. 4 AQUINO, Santo Tomás. Da justiça. São Paulo: Vide Editorial, 2012, p. 10. 3) Amor culmina na consideração do próximo, independente de sua condição pessoal, como pessoa com dignidade semelhante à nossa, fazendo-a sentar -se à mesa em que nos banqueteamos. O amor ao próximo é a regra de ouro, a suprema e única norma de conduta. O modelo ético cristão deve ser iluminado por estas três virtudes fundamentais da revelação. Com efeito, a presença dessas virtudes na vida dos tessalonicenses tornou preeminentes outras facetas desta trilogia em si. São três evidências do progresso espiritual daquela comunidade: 1) a operosidade resultante da fé, 2) a firmeza produzida pela esperança e 3) a abnegação como expressão do amor. Operosidade resultante da fé Toda obra espiritual deve ser produzida pela fé, a qual produz boas obras em nós. A palavra “fé” (do grego pistis) tem variados usos e significados. Em algumas partes da Bíblia, ela aparece como “fé salvadora”, num sentido pessoal, na qual a pessoa sabe no que crê. Em outros, como “conteúdo e verdade que compõe a teologia cristã”, também como o “dom da fé”. A fé presente nos Tessalonicenses era uma fé dinâmica e produtiva, que crescia e era observável; tinha expressão e visibilidade; podia ser medida ou avaliada. Era o tipo de fé que resulta em serviço. A “fé” deles foi descrita como uma “obra” (Almeida Revista Corrigida). Isto traz à nossa mente aquela ocasião em que perguntaram a Jesus: “Que faremos para realizar as obras de Deus?” (Jo 6.28) e responde: “A obra de Deus é esta: que creiais naquele que por ele foi enviado” (Jo 6.29). Neste sentido, a fé consiste numa ação, num feito, porém, não é um labor pelo qual acumulamos méritos ou algo de que se possa orgulhar. Trata-se, na verdade, do único trabalho que o homem pode fazer sem “roubar” de Cristo sua glória de Salvador e sem negar o próprio estado de pecador desamparado. Esta fé é uma obra sem méritos, pela qual a criatura reconhece seu Criador e o pecador reconhece seu Salvador. Assim, a expressão “operosidade da vossa fé” consiste na vida de fé que se segue à conversão.5 De fato, à semelhança dos tessalonicenses, não podemos somente receber o evangelho, mas devemos agir de acordo com a mensagem. Nossa fé deve ser operante e útil; também pode ser apenas sentimental, mas deve manifestar-se em boas obras e atos de serviços. Não são as boas obras que produzem fé, mas a fé que desencadeia a produção de boas obras. 5 MACDONALD, William. Comentário bíblico popular. São Paulo: Mundo Cristão, 2008, p. 713. Vemos em toda a Bíblia que fé e obra são inseparáveis, uma depende da outra – fé sem as obras é morta! (Tg 2.20). Assim, a fé bíblica não é passiva, mas esforço ou labor incomum que busca compreender e abraçar o que foi dado em potencial, sendo expressão da maneira como se vive. Portanto, o discípulo ou a discípula de Jesus precisa de esforços intensos, diante de circunstâncias difíceis. Existe contraste entre obra e trabalho. Enquanto a obra pode ser agradável e estimulante, o trabalho muitas vezes implica um esforço tão árduo a ponto de chegar à fadiga e até à exaustão. 6 Um dos grandes desafios do discipulado é combinar fé e obras, compondo um modo de ser integral, no qual a pessoa use os sentidos para ver, olhar de fato. Ouvir, escutar além do compartilhar, sentir a respiração da alma, do tom da voz: ver, julgar, agir. Fé é uma palavra bíblica que se refere tanto à crença intelectual quanto à confiança ou ao compromisso em um relacionamento. Os autores bíblicos geralmente não fazem distinção entre fé como crença e fé como confiança, mas tendem a considerar que a verdadeira fé consiste tanto no que se crê (que Deus existe, que Jesus é o Filho de Deus etc.) quanto no compromisso para com uma pessoa digna de confiança e capaz de salvar (confiança na pessoa de Cristo como meio de salvação).7 A firmeza produzida pela esperança A palavra “Esperança”, aqui, trata da volta de Jesus. O conceito de firmeza é uma alusão à paciência ou uma resistência persistente. Os tessalonicenses estavam sofrendo duras perseguições por causa da valorosa defesa da causa do Senhor. Apesar disto, tinham uma vida cristã ativa e viril como resultado da esperança que tinham Jesus Cristo. Jesus era o foco deles. Quando Jesus é o foco da vida de um discípulo e discípula, sua esperança inspira, dando-lhe suporte para os ataques dos oponentes e força, do alto, para contra-atacar até alcançar a vitória. De fato, os cristãos de Tessalônica tinham uma esperança viva na vinda de Jesus. Eram fiéis consistentes, perseverantes, firmes e constantes, manifestavam as propriedades e um conjunto de resultados de experiências que pontuam a vida cristã normal. 6 NOVO comentário bíblico Novo Testamento. Rio de Janeiro: Central Gospel, 2010, p. 558. 7 GRENZ, Stanley. Dicionário de Teologia. São Paulo: Vida, 1999, p.57. Jó, é um belo exemplo desse tipo de esperança, pois, mesmo atingido por golpes atordoantes, e apesar de seus argumentos, não perdeu a fé em Deus. Ele afirmou: “Porque eu sei que meu Redentor vive e por fim se levantará sobre a terra” (Jó 19.25). É a esperança no desespero; uma resposta à dúvida de Jó 14.13-14. Sendo assim, Deus, segundo a esperança e certeza de Jó, livrou-o das acusações infundadas dos seus amigos e mostrou-lhes a sua ação. Ou seja: • mostrou que a vida de Jó estava nas mãos de Deus; • que Deus é o seu redentor; • sua esperança na vida e na morte. Jó não era um servo do Senhor casuísta. Sua absoluta confiança tinha como eixo principal sua fé no Deus Todo-Poderoso. Jó fluía uma certeza no meio de tanta incerteza: “eu sei”. Ele viu Deus com os olhos da fé e do entendimento espiritual, aceitando os planos de Deus para sua vida. Certamente, Jó é o testemunho clássico de alguém que atravessou problemas e encontrou Deus. Ele aprendeu a crescer através das provações. Se Jó pudesse nos dizer alguma coisa, quanto aos seus problemas e experiência com Deus, com certeza nos diria: o sofrimento teve maravilhoso poder de produzir em mim um refinamento de caráter excelente. Só permanece em Cristo aquele que nutre uma viva esperança. No Novo Testamento as provações são os elementos estimuladores da fé perseverante. Ou seja: as provações funcionam como disciplina de Deus em prol do nosso aperfeiçoamento espiritual. Neste processo de refinamento do caráter, só aprendemos a perseverar se permanecermos firmes na fé cristã. Ser perseverante não significa ser indiferente, aceitar passivamente o destino, não é resignação, não é uma disposição obstinada, mas uma atitude de bravura inspirada por Deus, que resiste com firmeza sob quaisquer dificuldades. A verdadeira esperança não está firmada em um credo; não se trata de aceitar apenas pelo intelecto algo que está escrito num papel que contém uma declaração doutrinária, mas é uma fé que nos leva à entrega de nós mesmos, para vivermos de acordo com a vontade de Deus. É crer na existência de um Deus pessoal, infinito e santo, que tem cuidado de nós, sabendo que pode ser “achado”, quando o buscarmos com sinceridade de coração. Não podemos vislumbrar nenhum tesouro espiritual, se a fé em Deus não estiver viva e ativa em nossos corações. A abnegação como expressão do amor O que realizamos no Reino de Deus sempre deve estar motivado pelo amorde Deus. Somente o amor é capaz de nos levar à disposição de doar-nos voluntariamente, ao serviço uns aos outros, de nos tornar livres e nos deixar crescer cada vez mais, até que cheguemos à altura e profundidade de Jesus Cristo. Somente o amor é capaz de gerar em nosso coração os mesmos sentimentos de Jesus para com as pessoas; é reviver a vida de Jesus com pleno amor, tornando-se testemunha do amor de Deus. A palavra “amor” (do grego Ágape) tem aqui uma conotação de amor cristão, que se manifesta por meio de trabalho árduo. Este tipo de amor não se resume apenas numa emoção - um sentimento, atração ou impulso passional, mas sim em atitude. Onde há amor - o verdadeiro amor - há espírito de doação, altruísmo, participação efetiva e edificação mútua - não só de palavras, mas por obras e em verdade. Com efeito, o discipulado não tem, por essência, o puro saber, mas o amor. A sua finalidade última não é a ciência, mas a edificação pelo afeto. O seu motor não é a razão, mas o aprender que nasce do desejo. O seu horizonte não é o conteúdo cognitivo ou busca da verdade, mas o sentido da vida. Embora, o discipulado seja, evidentemente, a procura do saber pela via da cognição, o itinerário do afeto e do emocional só alcança seu propósito quando alavanca amor à pessoa em discipulado pela vida, seja pela sua própria ou das outras pessoas. Ao realizar esse desejo mais profundo, cumpre-se, plenamente, aquilo que Irineu de Lião disse: “a glória de Deus é o homem completamente v i v o”. O serviço do discípulo e discípula de Jesus deve ser motivado pelo seu amor. O cristianismo não é uma religião que se afirma no dever, mas no servir a uma pessoa por amor. Ser escravo de Jesus é desfrutar da verdadeira liberdade. Comparado com o amor, o que se produz com base na motivação pelo lucro monetário é desprezível. O amor a Cristo produz mais serviço do que o dólar jamais poderia inspirar. Os tessalonicenses eram uma prova viva desse fato.8 O que a igreja deixa como marca, por essência, é o amor; é o que ela precisa, antes de mais nada, compreendê-lo e exercitá-lo. O amor manifesta-se em olhares, gestos, atitudes e, às vezes, em palavras. Não importa a expressão. O importante é amar. Jesus olhou seus discípulos com olhar de amor, falou-lhes amorosamente e idealizou-lhes um projeto de amor. 8 MACDONALD, William. Comentário bíblico popular. São Paulo: Mundo Cristão. 2008, p. 713. Frequentemente distingue-se entre a fé do coração (emocional) e a da mente (racional). Diz-se que a pessoa pode crer racionalmente em fatos a respeito de Deus e, apesar disto, se não tiver confiança no coração,estará a meio metro de distância da salvação.Essa distinção,todavia,não é bíblica.Felizmente.Afinal, como se pode distinguir teologicamente – sem falar na perspectiva psicológica e anatômica – entre as atividades racionais e emocionais da mente? A Bíblia faz distinção, sim, mas apenas entre a fé do coração e a confissão dos lábios (Mt 15.7-9),entre o que se pode chamar de fé verdadeira e fé falsa.9 Não existe fé cristã sem amor. A fé operante só pode ser acompanhada por amor. Portanto, aquele que crê impulsionado pelo amor, busca compreendê- lo. Sem amor,porém,nada somos.Isso não significa que nos apro - fundarmos no conhecimento torna-se irrelevante. No entanto, o amor tudo supera.Ainda que tenhamos dificuldades, o amor em Cristo Jesus nos faz vencê-lo.10 Pensar naquilo que promove o amor parece ser, à primeira vista, não tão difícil de entender, pois, todos nós queremos ser apreciado e amado. O difícil é quando isto inclui nossos ”rivais”. Amar é prazeroso e recomendável pela atração e encantos intrínsecos; proporciona prazer a todos que estão ao redor, à semelhança de uma fragrância preciosas. Edificando o emocional e o espiritual das pessoas. O amor é o princípio ético por excelente. No qual se destacam a generosidade desinteressada e oblativa, sem qualquer outro interesse ou possibilidade de gozo e satisfação do que o próprio fato de exercer-se e colocar-se em movimento em direção a outra pessoa.11 O que é amável não desmerece ou desqualifica o próximo; não faz acepção de pessoas. Veja: 9 GUNDRY, Stanley. 5 perspectivas sobre santificação. Editora Vida: São Paulo, 2006, p. 183. 10 GERMANO, Altair. Pedagogia transformadora. Rio de Janeiro: CPAD, 2013, p. 22. 11 BINGEMER. M.C. A Igreja e os intelectuais: contribuição para a construção da sociedade. Bauru/SP: Edusc, 1997, p. 21. O amor é paciente, é benigno; o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece, não se conduz inconvinientemente, não procura os seus próprios interesses, não se exaspera, não se ressente mal,não se alegra com a injustiça,mas regozija-se com a verdade.O amor tudo crê, todo espera, todo suporta.(1Co 13.4-7). Os dez princípios, apresentados por Ted Engstrom12, que seguem abaixo, ajudarão ao educador ou educadora a fazer do amor algo prático em seu ofício de educar: 1) “Precisamos tomar a decisão de desenvolver amizades em que não exigimos nada em troca”. Essa é a base para o amor bíblico, incondicional e não manipulador. 2) “Deve haver um esforço consciente para nutrirmos um interesse autêntico por outras pessoas”. Esse interesse deve procurar o benefício das pessoas e não os nossos próprios interesses. 3) “Cada um de nós é uma criatura ímpar. Consequentemente, levaremos tempo, e muitas vezes um longo tempo, para conhecermos uns aos outros”. Tempo expressa amor de modo prático. 4) “Comprometa-se a aprender como ouvir”. Ouvir atentamente é difícil, especialmente, quando a pessoa que está falando é monótona, mas isso expressa amor genuíno. 5) “Simplesmente, esteja presente, quer você saiba exatamente o que fazer ou não”. Investir tempo em pessoas demonstrará o seu cuidado. Cuidar é amar. 6) “Sempre trate as pessoas de igual para igual”. Ser um líder não faz de alguém melhor do que ninguém, nem mais valioso, aos olhos de Deus. 7) “Seja generoso com elogios legítimos e encorajamento”. É impossível demonstrar amor através de criticismo amargo e depreciação. Os elogios carregam a mensagem oposta. 8) “Faça de seus amigos prioridade, preferindo-os antes de si mesmo”. O amor não pode ser praticado sem demonstrar o valor de seus amigos. Considerar cada um superior a si mesmo é uma ordem do Senhor (Fp 2.3). 9) ‘’Aprenda amar a Deus com todo o seu coração, alma, mente, e força. Depois, ame seu próximo como a si mesmo”. O Senhor deixou claro que amar ao próximo está ligado com amar a Deus. 10) “Enfatize as qualidades e virtudes das pessoas, não seus pecados e fraquezas”. Pecadores, somos todos; então, é importante que uma liderança não dê a impressão de que é perfeita, sem pecados. 12 SHEDD, Russel. O líder que Deus usa: resgatando a liderança bíblica para a Igreja no novo milênio. São Paulo: Vida Nova, 2000, p. 65. A trilogia: fé, amor e esperança, manifesta a genuinidade do cristianismo puro e simples. São realidades interiores que se expressam em atividades transformadas em labuta amorosa e resistência sob pressão. Estes três atributos do verdadeiro cristianismo estão firmados na Pessoa de Jesus. A verdadeira fé se mostra por obras correspondentes; mas meras “boas obras” que não emanam da fé.Carecerão de frutifica- ção espiritual: o amor divinamente implantado fará surgir ações vigorosas de grande custo; motivos menores que estes fracassarão sob prova.A esperança cristã manterá os homens firmes sob tensão; o mero idealismo humano esfacela-se sob pressão. 13 13 AIRHART, Arnold. Comentário bíblico Beacon. Rio de Janeiro: CPAD, p. 361. Capítulo 2 As bases na formação discipuladora de Jesus “porque o nosso evangelho não chegou a vocês somente em palavra, mas também em poder, no Espírito Santo e em plena convicção. Vocês sabem como procedemos entre vocês, em seu favor”. 1Ts 1.5 O discipulado se apresenta no Novo Testamento sob uma forma prática, espelhada em Jesus. Todas as suas categorias centrais encontram-se reflexivamente ligadas entre si e, concretamente, percebível na relação de Jesus com os doze, numa dimensão espiritualfirmada nos valores do Evangelho do Deus. Essa relação diz especial respeito à questão da vivência cristã. Neste sentido, o Evangelho - método eficaz de Jesus - é reconhecidamente a base da formação espiritual dos discípulos de Jesus. O Evangelho a que me refiro, não é o evangelho escrito, mas o evangelho vivo que é Jesus, o qual precisa ser acolhido e vivido no seu dinamismo até as exigências mais radicais. Foi este evangelho que chegou à Tessalônica e trouxe um grande resultado espiritual. Quando a equipe missionária, liderada por Paulo, chegou na cidade, não havia cristão ali; quando saíram, ficou uma igreja pujante e crescente, com forte presença de conteúdo do evangelho. Quando Paulo e sua equipe levaram a mensagem às pessoas, não fizeram com palavras persuasivas. Utilizaram palavras, mas Deus usou essas palavras, envolvendo-as com poder do alto. Quem acolhe o evangelho sabe da sua natureza sobrenatural. A ação divina disponibiliza e nos coloca a serviço do Reino e sob obediência ao mesmo evangelho e à igreja local. Só “permanecendo” no evangelho podemos nos tornar perfeito em Cristo e conhecedor da Verdade. Assim, de nós mesmo, não podemos persuadir ninguém quanto o abraçar a fé em Jesus Cristo; é uma obra do Espírito. Podemos, sim, compartilhar o evangelho, mas a pessoa precisa abrir o coração e crer na mensagem, combinada com a ação do Espírito Santo, que tem poder para convencer e iluminar, para uma vida de radicalidade e de intensidade cristã, que remete para uma fonte interior que, quem discípula deve ter o cuidado de defender e valorizar. Ao mencionar “ nosso evangelho”, Paulo não está insinuando que sua mensagem fosse diferente da dos outros apóstolos. O conteúdo é o mesmo: a diferença está nos mensageiros.14 Portanto, à semelhança dos tessalonicenses o discípulo e discípula de Jesus contemporâneo, não deve tratar a mensagem evangélica como mera leitura religiosa; pois não é. Nos seus diversos aspectos, a formação de um discípulo tem um caráter essencialmente espiritual, mas que também assegura a formação humana e intelectual. 1) “Em poder”, não com mero raciocínio ou eloquência humana. De fato o “ poder” de Deus (do grego dinamis, uma dinamite espiritual) não é produzido artificialmente. O Evangelho precisa operar poderosamente na vida dos discípulos produzindo, primeiro, convicção do pecado, arrependimento genuíno e confissão. A persuasão humana não é capaz de gerar novas criaturas ou novos discípulos e discípulas de Jesus. A mensagem de Paulo estava embasada na Verdade de Deus, não em “motivos impuros” como diziam seus acusadores (1Ts 2.3-4). Paulo não pregava a Palavra tentando “pegar as pessoas com isca”, com tapeação, astúcia, artifício ou argumento falso com o propósito de induzir ao erro. Na época em que a carta de Paulo aos Tessalonicenses foi escrita, havia certo tipo de pregador itinerante, chamado sofista. Eram pregadores de sofismas (do grego Sóphisma - “sutileza de sofista”). O sofisma era um argumento aparentemente válido, mas, na realidade, não conclusivo, e que supõe má-fé por parte de quem o apresenta. Se existe um “erro” na história da igreja, do qual temos de tirar algumas lições, é a negligência da responsabilidade da pregação expositiva da Palavra. A Palavra de Deus quando proclamada com fidelidade tem poder; ela é instrumento do Espírito Santo para realizar a obra da graça. A Palavra é suficiente. O evangelho não é apresentação de uma ideia, mas a operação de um poder. Quando o evangelho é pregado, o poder de Deus está em operação para a salvação da humanidade, tirando-a dos poderes de destruição e transferindo-a para a nova vida. 14 MACDONALD, William. Comentário bíblico popular. São Paulo: Mundo Cristão. 2008, p. 713. Pregadores que se especializam em apelos sentimentalistas, que impressionam e enganam as mentes incautas, estão mais para vendedores de “indulgências” religiosas, do que para expositores da Palavra. Eles se fundamentam em métodos e técnicas, muitas delas duvidosas. Podem até possuir uma boa homilética, mas não têm o poder capaz de converter os ouvintes dos “ídolos” ao Deus vivo e verdadeiro. 2) “No espírito santo”, não na energia da carne. Qualquer ação na igreja, inclusive o discipulado, que seja desprovida do poder produzido pelo Espírito Santo, se torna um “artifício” humano; é fogo estranho, não vem do céu. Sabe do que nós precisamos hoje? É de uma postura evangélica, isenta de relativismos e comprometimentos com a carne. Paulo anunciou o evangelho no poder do Espírito Santo, ao invés de utilizar as técnicas comuns que os gregos usavam para controlar a mente. Ele sabia que uma pregação baseada apenas nesses artifícios humanos não promovia mudança de vida; a mudança só ocorreria por meio do ato regenerador proveniente do Espírito Santo, assim, o pecador pode realmente experimentar mudanças radicais em seu interior. Jesus utilizou o termo grego allon traduzido como “outro”, ao falar da vinda do Espírito Santo (Jo 14.16), que quer dizer “outro do mesmo tipo” ou semelhante a Jesus por natureza divina. Esta é uma promessa de consolo para aqueles que creem em Cristo, que amam e guardam a sua Palavra. Ora, não poderia haver consolo maior do que ouvir Jesus dizer: “Naquele dia compreenderão que estou em meu Pai, vocês em mim, e eu em vocês.” (Jo 14.20). O que Jesus quer que os discípulos entendam é que como ele é uma pessoa, o Espírito Santo deve também ser uma pessoa, tal como Jesus. O Espírito Santo representa Jesus assim como Jesus é o representante do Pai. Encontramos consolo na pessoa do Espírito Santo porque a sua natureza é ser Consolador. Sempre que precisarmos de conforto, ele estará junto de nós para ajudar em todas as nossas necessidades. Realmente, como prometeu Jesus, não estamos órfãos (Jo 14.16-18). O Espírito Santo viria e daria continuidade a obra magnífica de Jesus entre os homens e a principal obra do Espírito, nesta esfera, é convencer “o mundo” de que a única solução é Jesus Cristo. 8Quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo. 9Do pecado, porque os homens não creem em mim; 10da justiça, porque vou para o Pai, e vocês não me verão mais; 11e do juízo,por- que o príncipe deste mundo já está condenado.(Jo 16.8-11) Jesus afirma que, quando o Espírito chegar, convencerá o mundo incrédulo. O verbo “convencerá”, significa persuadir, expor os fatos, levar a crer ou aceitar. Como o Espírito Santo convence os ímpios? Através dos cristãos! Nossas palavras, atitudes ou maneira influenciam as pessoas positiva ou negativamente. Evangelizar por meio do exemplo, com a própria postura é uma atitude eficaz. Portanto, um bom discípulo de Jesus não é aquele que dá bons conselhos, mas sim que, a luz de Deus, e sua sabedoria, é exemplo de cristão autêntico. Agora, vejamos outras três expressões que aparecem na sequência textual de João 16.8-11. Em primeiro lugar, o Espírito Santo nos convence do “pecado”, especialmente o pecado da incredulidade ou da rejeição a Pessoa de Jesus. Este é o grande mal do mundo estar condenado no pecado por não crer em Jesus Cristo. O texto aponta que o Espírito Santo irá expor o pecado do mundo, despertar na consciência da humanidade o conhecimento de sua natureza pecaminosa e mostrá-la que não pode chegar a Deus sozinho, visto que está irremediavelmente perdida. A humanidade, por si mesma, não tem a mínima condição de compreender a natureza de sua incredulidade. Somente o Espírito mostra às pessoas sua condição de incredulidade em relação a Cristo, despertando a sua consciência de culpa que leva ao verdadeiro arrependimento e, só assim, haverá genuína conversão. Como o Espírito Santo faz isto? Constrangendo o pecador, tornando-o consciente da sua incredulidade, mostrando que não há nada em Jesus Cristo que o torne impossível de crer. O pior de todos os pecados é não crer em Deus. Incredulidade é o único pecado que as pessoas se perdem definitivamente. A responsabilidade da pessoa cristã é proclamar o evangelho, meio pelo qual o Espírito Santo utilizapara convencer a humanidade de sua incredulidade. Em segundo lugar, o Espírito Santo nos convence da “justiça”. Observe que não é da injustiça, mas da justiça! A justiça do mundo é muito diferente da justiça de Deus! Que justiça é esta? Jesus Cristo é a justiça de Deus. Foi graças a sua vida reta, justa e sem pecado que o Senhor Jesus satisfez plenamente o Pai. Deste modo, o Filho cumpriu toda justiça divina com sua morte e ressurreição, e nos tornou justificados (Rm 3.21-26; 4.25). Assim, a justiça de Deus não se expressa no fanatismo religioso, nem nos cerimoniais e rituais da religião judaica. Quando o homem crê em Jesus, a justiça de Deus lhe é imputada. O Espírito Santo faz com que toda a pessoa incrédula reconheça este padrão de justiça! Na Pessoa de Jesus Deus estabeleceu um novo conceito de justiça, que foge da questão do fazer e não fazer. Em terceiro lugar, o Espírito Santo convence do “juízo”. O método de juízo do mundo é oposto ao juízo divino. Observe a referência ao “príncipe deste mundo”, como personificação do mal, o qual pela cruz de Cristo foi vencido e julgado. Satanás está derrotado e não pode deter a vitória daqueles que creem. Deste modo, não precisamos temer o juízo de Deus, pois em Cristo fomos feitos “justiça de Deus” e salvos da “ira futura” (2Co 5.21; 1Ts 1.10). Todo aquele que rejeita a Jesus Cristo como Salvador pessoal compartilhará do terrível julgamento no fim dos tempos, o juízo vindouro. Aqui fica claro o poder espiritual da Igreja, Corpo de Cristo, dentro do mundo. Portanto, não estar do lado de Jesus implica ficar do lado do diabo e está condenado. Portanto, este é o juízo que fala da libertação das garras de Satanás, que já está julgado pela cruz de Cristo; sua sentença final virá mais tarde (Ap 20.1-3 e 10). 3) “Em plena convicção”, não no profissionalismo humano. O discipulado é prático e vivencial. Implica em convicção de coração. À semelhança de Paulo e sua equipe, precisamos nutrir grande confiança no poder transformador do evangelho, pois se trata da Palavra viva de Deus. O estilo de vida dos discípulos de Jesus deve confirmar a mensagem que anunciam. O discipulado é uma obra divina que tem como finalidade modelar os futuros discípulos e discípulas ao caráter de Jesus, e isto perpassa pela “plena convicção”. Paulo tinha uma convicção pessoal e uma confiança inabalável naquilo que falava. Sua plena segurança de fé e convicções estavam moldada pela imutável Palavra de Deus, não pela mutável cultura da época. O apóstolo não apenas anunciava as Boas-Novas, como também levava uma vida coerente com aquilo que pregava, expresso num discurso sempre pautado no seguimento de Jesus Cristo. Charles Spurgeon disse que quando nosso evangelho é pregado, completo e poderosamente, e o Espírito Santo é enviado dos céus, nossas igrejas não só retêm os seus membros, mas ganham novos convertidos; quando desaparece o que constitui a força e a essência, o evangelho é encoberto e a vida de oração é menosprezada e tudo se transforma em mera aparência física e se torna ficção. Capítulo 3 O foco do discipulado na igreja local “De fato, vocês se tornaram nossos imitadores e do Senhor, pois, apesar de muito sofrimento, receberam a palavra com alegria que vem do Espírito Santo”. 1Ts 1.6 Com efeito, o testemunho de vida e as palavras das pessoas que discipulam devem estabelecer o padrão de novos relacionamentos e novos estilos de vivência cristã. Os Tessalonicenses haviam imitado o exemplo de Paulo e de Jesus. Isto lhes dava condição de ser modelo para as pessoas. Na Bíblia a palavra imitação não tem apenas o significado de copiar; está na base de toda a vida cristã e pressupõe reproduzir a Cristo por meio de pessoas. O engajamento no seguimento de Jesus implica compreender a profundidade e a relevância do seguir e do imitar. Imitar é participar. Entre os primeiros discípulos, Jesus concedeu a esta palavra uma importância fundamental, compreendendo-a como uma espécie de produtividade via seguimento, ou seja, reprodução. Jesus transformou o discipulado num projeto de vida. Ele falou do “jugo” do discipulado (Mt 11.29-30), como algo leve e suave. Em outra parte, ele afirmou: “Eu lhes dei o exemplo, para que vocês façam como lhes fiz” (Jo 13.15). Os rabinos, do tempo de Jesus, frequentemente falavam acerca de tomar sobre si “o jugo da Lei”, e sob a orientação deles, aquele fardo poderia se tornar pesado. O “jugo” de Jesus, ao contrário, é suave, não porque seu chamado ao discipulado seja menos exigente, mas porque esse jugo nos torna pupilos daquele que é “manso e humilde de coração” (Mt 11.29). O discipulado de Jesus, portanto, reside no convite pessoal: “vinde a mim” (Mt 11.28). Este não é um convite para uma religião, mas para um relacionamento. A opressão religiosa gera peso e dúvida. A “dúvida”, quando causada pela ação inescrupulosa de líderes que só se importam consigo mesmos, oprime a alma do indivíduo. O melhor caminho mesmo é aprender de Jesus. Quando o Evangelho de Cristo chega com poder no Espírito e em plena convicção, gera uma profunda ruptura com o passado e estabelece os alicerces de uma nova vida que prevalece. Daí em diante, Cristo é formado no cristão; eles passam a produzir frutos para Deus, pois os ídolos são deixados e as práticas erradas são abandonadas. Hoje em dia, constituiu-se uma nova finalidade do sistema cristão que versa no desenvolvimento de habilidades e satisfações meramente humanas. Em alguns contextos, o discipulado é definido como referência a um período especial da vida cristã, a qual uns chamam de primeiros passos, outros de fundamentos, outros de integração etc. Esta maneira de ver o discipulado, exclui a ideia de projeto que cobre toda a vida e tem relação com a eternidade. Nasce assim a cultura do discipulado genérico, despersonalizado e sem o mistério. Então, com a negligência desses fins últimos, o discipulado tem perdido o seu brilho e encantamento, por isto tem se evanescido em questões irrelevantes e se desviado em generalidades. Certos círculos que se julgam preocupados com o discipulado de Jesus, não enxergam que são reféns de sabedorias humanas, de boa gestão e de critérios formais de alta performance. Não podemos identificar tais expressões como discipulado de Jesus. Para ser discípulo, é preciso renunciar à procura de segurança, deixar de confiar em si mesmo,ou em qualquer criatura,aceitar a insegurança, reconhecer-se injusto, pecador... É preciso destruir em si mesmo essa impaciência de estar com a razão que parece inata na criatura humana.15 O discipulado foi confiscado, através dos séculos, pela ideia do ensino como aprendizado de conhecimento e habilidades instrumentais, em detrimento da virtude da sabedoria e dos relacionamentos comprometidos e pessoais. Entretanto, na atualidade, emerge um novo horizonte de necessidades do discipulado que não são meramente funcionais nem pode ser confundidas com aprendizagem ou instrução, mas que solicitam respostas sobre o significado da vida. Com isso, o discipulado já não pode ser entendido como adaptação às exigências departamentais das igrejas ou instituições eclesiásticas, nem como realização de personalidades autônomas e crítica. Em síntese, o discipulado praticado hoje, se comparado ao modelo de Jesus, encontra-se desfigurado e evanescente, por ter progredido mais em conteúdo didático do que em sabedoria; mais em exposição bíblica ou preleção que em diálogo; mais nos modelos estratégicos que no sentido vivencial; mais em organizações do que em presença encorajadora. 15 COMBLIN, José. A fé no Evangelho. São Paulo: Paulus, 2010, p. 31. Imitando quem é mais maduro A imitação é própria de um discípulo e discípula. Sua essência e a existência (o ser e o agir) requerem um exemplo de ação, um modelo para seguir, adaptando-o às circunstâncias. Com efeito, o meio pelo qual ocorre a imitação são as pessoas. Com isto em mente, ressaltamos algumas proposições conceituais: 1) Conceito bíblico de discipulado não significa mera reprodução de conteúdo; 2) A imitação éuma representação que resulta de um processo específico de construção do ser a partir de princípios e valores cristãos, que visam efeitos transformadores; 3) A imitação compõe-se de elementos estruturais definidos, dos quais o mais importante é a figura da pessoa discipuladora; 4) A construção da imitação é formalizada na e pela pessoa discípula e da discipuladora, na qual o currículo, a priori, é a vida de ambos. O discipulado situa-se à imitação nas fronteiras ilimitadas do “possível” lógico, casual e necessário. Portanto, quando Paulo afirma “vocês se tornaram ossos imitadores” (1Ts 1.6) é para indicar um momento decisivo na jornada cristã dos tessalonicenses. Aponta para uma experiência autêntica. O mais difícil, os tessalonicenses já tinham: referenciais verdadeiros para imitá-lo na fé. Todo verdadeiro discípulo e discípula de Jesus deve ser capaz de repetir como Paulo disse: “Sede meus imitadores, como eu sou de Cristo” (1Co 11.1). Isto é a imitação da imitação da verdadeira realidade original. A permanência de Paulo e sua equipe em Tessalônica (no mínimo três semanas) foi extremamente proveitosa; muito frutífera (1Ts 2.1). Ter uma “vida frutífera” é a mais bela expressão que se pode dizer sobre a vida cristã, especialmente no discipulado. Frutos são o efeito da atividade. Paulo transformou o discipulado via imitação numa produção objetiva e de profundo impacto existencial. As igrejas implantadas por ele tinham este modelo vivo. Seus discípulos eram pessoas que levavam outras pessoas a Cristo, por meio da mensagem das Boas-Novas e do próprio exemplo virtuoso. Eram gente que, à semelhança do apóstolo, se concentravam em Cristo e refletiam sua imagem. Assim, o discipulado está vinculado a uma origem divina e misteriosa. Nesta concepção, imitavam Jesus no conteúdo ou princípios ensinados, na Pessoa ou estilo de vida. Mas, o que eles observaram em Paulo durante aquele curto período? Viram o amor sacrificatório (1Ts 2.7). A metáfora da “mãe” diz tudo. Com esta representação, Paulo comunica a ideia de que, quem ama se entrega incansavelmente. Um coração de mãe é um coração que acolhe, nutre, cuida, consola e ajuda filhos e filhas a dar os primeiros passos. Ninguém pode dar aquilo que não tem. Por isso, precisamos desenvolver um coração de “mãe”, que se relaciona de forma branda, afetiva e carinhosa. De fato, o nível de entrega de Paulo aos Tessalonicenses foi tão profundo que, além da mensagem do evangelho, ele doou-lhes a própria “vida”. Envolvimento de coração e alma. Um amor altruísta. Uma oferta meiga e generosa. Pessoal e total. Ao invés de conseguir algo para si próprio, ele procurou entregar-se a si mesmo (1Ts 2.8). Ele doou o sangue. Doou a vida. Não reteve nada! Este é o tipo de discipulador ou discipuladora que a igreja precisa! Nesta mesma perspectiva, em 1 Tessalonicenses 2.11-12, Paulo usa a figura do “pai” para comunicar o conceito de afeto, compreensão, interesse, firmeza e disciplina. Esta é uma relação de discipulado, de cuidado individual (cada um/uma), norteada pela amizade e confiança mútua, onde se pode evocar o testemunho dos discípulos quanto ao seu comportamento entre eles. Como discipuladores, somos chamados a reverter a tendência egoísta de tal maneira que o bem-estar do outro seja uma prioridade. Não existe discipulado sem a marca da doação. A Palavra de Deus exige que renunciemos, voluntariamente, nosso inegável direito de dependência daqueles, cuja prosperidade espiritual, é resultante de nossas ministrações. Sendo, pois, os Tessalonicenses “boa terra”, por receberem a boa semente e a reproduzirem, tornaram-se verdadeiros discípulos de Jesus; uma espécie de “cópias vivas” do povo de Deus que ali levou a Palavra, pregou o que vivia e vivia o que pregava. À semelhança de Paulo, as ações dos discipuladores não podem ser orientadas por comportamento carnal, acompanhados de falsas honrarias, falsos elogios, com segundas intenções para enganar os incautos. Alguns, hoje, têm utilizado a capa da bajulação para conseguir se promover, vantagem egoísta e glorificação de si mesmo. São lobos em pele de ovelhas que, com suas ambições mundanas, procuram fisgar as pessoas, com o pretexto do serviço a Deus. Imitantes do Senhor Jesus Cristo O conceito da imitação é a busca por um significado. Este lhe é emprestado tanto pela pessoa que discipula quanto, principalmente, pela discipulada. Em poucas palavras, a realidade final da imitação é a perfeição cristã. Nisto, o objeto da imitação é Cristo, representado por quem se tornou mais maduro em ação. As pessoas que alcançam tal maturidade em ação, tornam-se referências (1Co 11.1; Cl 3.17). Uma vez assumida esta condição, esta pessoa se “distingue” em matéria de responsabilidade em relação às outras. Assim, no discipulado de Paulo, a imitação não tinha uma alusão “estética” do mundo exterior, mas de realidades espirituais e morais do ser. Visava à essência das coisas do reino de Deus e se afirmava como representação do que “poderia ser”, levando os discípulos para o alvo que era crescer no caráter de Cristo. Hoje, este alvo não é um ilusório ideal filosófico que está distante das mais altas exigências pedagógicas e morais da Bíblia, mas algo absolutamente possível. Essa imitação não é de aparência, mas de visão e caráter. Vem de dentro, pois o Senhor habita em nós. Os cristãos de Tessalônica estavam sendo moldados pelo caráter de Cristo demonstrado em Paulo e seus companheiros. Na prática, dirigente de cultos gera dirigentes de cultos; professor de escola dominical gera professores de escola dominical, administrador gera administradores; discípulo de Jesus gera discípulos de Jesus. Se as pessoas lhe seguirem, elas irão encontrar a Cristo? O que teria corroborado para os tessalonicenses virem a ser fiéis imitadores de Jesus? Teria sido apenas aquelas poucas semanas de Paulo e sua equipe em Tessalônica? Certamente que não! Acredito que a estadia posterior do jovem Timóteo à cidade trouxe tremenda contribuição ao processo, pois sua missão se resume assim: “[...] para, em benefício da vossa fé, confirmar-vos e exortar-vos” (1Ts 3.2). Com a chegada de Timóteo à Tessalônica, os crentes não se sentiram mais órfãos; agora havia alguém para lhes dar um abraço afetuoso, um olhar de aceitação e disponibilizar seus ouvidos às queixas e sofrimentos deles. De fato, nos momentos de pressões da vida, nada substitui a presença física daqueles que amamos. Tal como em Tessalônica, muitas comunidades hoje estão precisando de um “enviado” como Timóteo, alguém incumbido de confortar corações aflitos e calejados pelas lutas diárias. Todos nós, em algum momento de nossa vida, temos necessidade de um “Timóteo”; uma pessoa acessível e que chegue junto com o propósito de cuidar. Certamente, Timóteo colocou em prática uma atitude comum nas comunidades do Novo Testamento: comer e beber juntos à mesa. É assim que deve funcionar o discipulado! Timóteo sabia que o ato de sentar-se à mesa com outra pessoa vai além de tomar uma refeição. Comer é uma forma de comunhão; é um símbolo de encontro de vidas. É na mesa que todos se sentem família. Não estou falando de ir à casa das pessoas motivados apenas para comer. Refiro-me ao “estar juntos”, confortar e estimular a fé. Muitas pessoas passam pela vida no anonimato, na obscuridade. Aos olhos do mundo, não são ninguém. Essas pessoas, às vezes, só querem ser ouvidas, querem sentir- se parte, sentir-se família e a igreja deve fazer esse papel: fazer com que as pessoas se sintam família na fé. A revelação divina e a realização humana “[...] receberam a palavra com alegria que vem do Espírito Santo”. (1Ts 1.6) Reencantar o discipulado significa vivenciar as implicações da revelação da Palavra de Deus. Este é o primeiro degrau para seguir Jesus, cujos processos de aprendizado e os processos vitais são, no fundo, as mesmas coisas. Trata- se de um encontro, desde sempre marcado, do viver e do aprender enquanto formação espiritual. O breve trabalho de Paulo e sua equipe em Tessalônica foi o suficiente pararevelar Jesus Cristo por meio da mensagem do evangelho. Deus se revela a humanidade, abre-lhe as cortinas dos céus e a convida a entrar em comunhão com ele, na medida em que não apenas lê a sua Palavra, mas pratica o que ela ensina. A Bíblia não é subproduto dos pensamentos humanos acerca das coisas de Deus, mas os pensamentos de Deus revelado ao seu povo, santo e temente a ele (2Pe 1.20-21). A relação dos tessalonicenses com a Palavra não se reduziu ao simples ato de ouvir, porém, à semelhança do apóstolo João (Ap 10.9-10), experimentaram “o comer o livro”, engolir tudo, mastigar, assimilando-o nos tecidos da vida. Assim, o Espírito Santo testificava em seus corações, com indizível alegria. Sem dúvida, que os tessalonicenses usufruíram daqueles seis efeitos da Palavra de Deus descritos no Salmo 19.7-10: 1) “Restaura a alma” (v. 7). Refere-se à restauração espiritual. É o poder terapêutico da Palavra de Deus, curando e transformando nosso ser interior. 2) “Dá sabedoria aos simples” (v.7). Somente a Bíblia instrui sobre a habilidosa arte de viver a vida com sabedoria do alto e bom senso. 3) “Alegra o coração” (v. 8). Quando a Bíblia é ministrada ao nosso coração promove a verdadeira alegria e gozo duradouro em nosso interior. 4) “Ilumina os olhos” (v. 8). A Palavra de Deus tem poder para nos trazer luz e entendimento das coisas obscuras e confusas, sendo lâmpada para nossos pés e luz para o nosso caminho. 5) “Permanece para sempre” (v. 9). A Palavra é imutável e relevante para nossa vida em qualquer época, diante de quaisquer circunstâncias. 6) “Mais desejáveis do que o ouro” (vs. 9-10). Para o cristão, a Bíblia deve ser infinitamente mais preciosa do que qualquer outra coisa no mundo. Capítulo 4 Uma reprodução de alto impacto “Assim, tornaram-se modelo para todos os crentes que estão na Macedônia e na Acaia”. 1Ts 1.7 Quem começa como os tessalonicenses, na condição de imitadores, logo se torna exemplo. Uma coisa leva a outra. Sobressai o caráter da ação e é ativado o princípio regulador da imitação. Vemos isto com os Tessalonicenses. O texto diz que eles se tornaram discípulos-modelo, a começar pelo fato de poderem sentir alegria em meio à tribulação (1Ts 1.6). Com efeito, o discipulado não se circunscreve aos conceitos teóricos, mas vivencia a prática, independente das circunstâncias. A palavra “ modelo” (do grego typos) originalmente significa marcas visíveis, cópias, imagem padrão e, por consequente, modelos que outros poderiam imitar. O termo, em 1 Tessalonicenses 1.7, está no singular, considerando a igreja como um todo; e o “vos” está no plural, apontando para cada cristão, como indivíduo. Assim, a imitação também é, por si mesma, um processo bíblico de ação contínua; uma operação que transforma o ser de dentro para fora. A imitação é um movimento dinâmico e uma atividade produtora que transpõe limites religiosos. Esse caráter dinâmico do agir por imitação não se completa, mas se expande em gerações de discípulos e discípulas que sempre necessitarão da atividade de uma pessoa discipuladora, quer através de leituras, encontros de grupo ou assessoria individual, para ir se reproduzindo. Vemos também em Filipenses 3.16-17, Paulo, após declarar “ sedes imitadores meus”, afirmar “observai os que andam segundo o modelo que tende em nós”, ou seja, ele não está sozinho no tocante a ser exemplo aos Filipenses; havia alguns outros modelos, como Timóteo e Epafrodito (2.19- 30), líderes bem conhecidos da igreja de Filipos: exemplos de vida cristã para aquela comunidade. Não há dúvida que, além desses, havia muitos outros que faziam parte deste time de cristãos a ser imitados. Com efeito, a imitação, corresponde a um processo de construção, ou seja, o discípulo ou discípula em ação através de meios direto ou indireto de pessoas iguais a nós. A imitação pode ser processada de dois modos: observar princípios e seguir modelos vivos. Assim: 1) Envolve uma aprendizagem (conhecimento) persuasiva e crível, subordinada a princípios bíblicos; 2) Uma identidade (modelo vivo) que decorre encantamento e emoção, suscitando com intensidade os sentimentos de temor e piedade que a imitação provoca. Desta forma, o caráter do discipulador é chave: deve marcar pela grandeza de sentimento (bondade) e pelo equilíbrio do bom senso (coerência). A questão da imitação de um modelo vai além de um número de exemplos individuais da vida cristã, mas, melhor dizendo, ao padrão único de resposta à Palavra de Deus. Consiste, a priori, numa disposição de obedecer às Boas-Novas e crer em Cristo como o Messias prometido no Antigo Testamento que Paulo elogiava. Já vimos que Timóteo foi enviado por Paulo a Tessalônica (1Ts 3.1-6) e que partilhou com aquela comunidade o que havia recebido de Paulo (2Tm 2.2). Observe que Paulo não estava falando de doutrinas, mas de verdades espirituais encarnadas no seu estilo de vida como discipulador. Como sabemos, A partir de Paulo, tem havido uma ligação de discípulo a discípulo, de geração a geração. Precisamos manter esta ligação intacta. Paulo estava dizendo a Timóteo que transmitisse o que já tinha sido provado como verdadeiro e confirmado por muitas teste- munhas confiáveis.16 Assim, a imitação reúne duas exigências: 1) A reprodução reconhecida do modelo que reforça o viver a verdade de Deus; 2) A elevação moral e ética ou crescer no caráter cristão. Portanto, não é suficiente conhecermos a sã doutrina; é preciso depositá-la, de forma vivencial, na vida uns dos outros e certificar que quem a recebe está apto para depositar da mesma forma na vida das outras pessoas. A rigor, o discipulado cristão não consiste em lições ou segredos transmitidos em particular, consiste num compartilhar de vidas. Toda vez que investimos, assim, na vida de alguém começa um processo que, idealmente, nunca terminará. Isto tem algumas implicações do “possível”, que se dimensiona: 16 COMENTÁRIO do Novo Testamento: aplicação pessoal. Rio de Janeiro: CPAD, 2009, p. 526. • na realidade presente ou passada – as coisas como são ou eram; • na opinião pública – como dizem que são ou parecem ser; • na situação ideal – como deveriam ser. Deus deseja que nos tornemos exemplos de alto nível de excelência. Portanto, assim como Timóteo, não olhe para sua fraqueza, sua timidez e sua vulnerabilidade, nem se importe com o que pensam e dizem a seu respeito, apenas dê o primeiro passo rumo ao exercício da piedade, fortificando-se na graça que está em Cristo Jesus! Ao relembrar ao jovem Timóteo do caminho do discipulado (2Tm 3.10-13), Paulo faz um lembrete histórico, onde faz uma lista de virtudes que é o oposto aos itens vistos nos versículos 2 a 4. O apóstolo apresenta uma espécie de currículo vivencial do discipulado cristão, com nove artigos espirituais que Timóteo já havia recebido de Paulo durante muitos anos de caminhada do discipulado. Paulo está fazendo Timóteo lembrar-se não somente de que ele “conheceu plenamente” ou “observou” a doutrina e a conduta do apóstolo, como se fosse um mero estudante imparcial ou um observador desinteressado, mas também de que ele se tomou um dedicado discípulo seu.Sem dúvida no início ele teve dificul- dades para entender o sentido da instrução dada por Paulo, mas foi em frente. Ele se apossou do ensino, creu nele, absorveu-o e viveu de acordo com o mesmo. Do mesmo modo começou, sem dúvida, por observar o modo de vida do apóstolo, mas depois passou a imitá-lo.17 Desta forma, a expressão “ tem seguido de perto” significa “estudar de perto”, trata-se de um termo técnico que descrevia a estreita comunhão entre o mestre e o aluno. Isto implica em imitar – imitação e composição de ações. Ou seja: Timóteo observava o ensino e o exemplo de Paulo, por um longo período de caminhada de duas vidas entrelaçadas. Agora, Timóteo, é lembrado da lista de qualidades aprendidas, que em outra parte seu discipulador denominou de “meus caminhos” (1Co 4.16-17). 17 STOTT, John. A mensagem de 2 Timóteo. São Paulo: ABU, 1989, p. 88. Para Timóteo, andar ao lado de Paulo, foi necessário umalonga e árdua jornada, cheia de aventuras, de experiências amargas e alegres. Timóteo estava absolutamente seguro da genuinidade daquilo que havia aprendido seguindo os passos de Paulo, pois o conteúdo ouvido e aprendido refletia-se rigorosamente no caráter do seu amado mestre Tanto com Paulo e sua equipe, e depois com Timóteo, os Tessalonicenses vivenciavam uma vida cristã responsiva, com ênfase na reprodução de discípulos. Eles foram bem discipulados e ficaram muito parecidos com seus “pais” espirituais. O modo como eles realizaram a imitação é um critério definitivo para nós. Foram dois modos: atentar para as orientações e seguir o exemplo. Sempre na primeira pessoa. O texto indica que a ênfase da imitação se manifesta tanto na qualidade de vida espiritual como na reprodução de novos discípulos. Você está chamando outras pessoas a imitar o quê? Tem sido seu caráter, baseado no que já alcançou de maturidade? Como está a reprodução daqueles que você está acompanhando ou discipulando? A afinidade destas duas perspectivas se mostra, entretanto, vinculada a outro aspecto do discipulado: a aprendizagem (ou conhecimento). No discipulado, o conhecimento decorre tanto das instruções específicas como da contemplação ou observação do modelo exposto. Ora, o prazer que a imitação gera em nós – de crescer na graça e no conhecimento – se encerra sempre em uma aprendizagem e a questão fundamental é sempre o objeto último da imitação: Jesus Cristo. Capítulo 5 Tornando-se uma Igreja referencial “Porque, partindo de vocês, propagou-se a mensagem do Senhor na Macedônia e na Acaia. Não somente isso, mas também por toda parte tornou-se conhecida a fé que vocês têm em Deus. O resultado é que não temos necessidade de dizer mais nada sobre isso,pois eles mesmos relatam de que maneira vocês nos receberam, e como se voltaram para Deus,deixando os ídolos a fim de servir ao Deus vivo e verdadeiro, e esperar dos céus seu Filho, a quem ressuscitou dos mortos: Jesus, que nos livra da ira que há de vir”. 1Ts 1.8-10 Paulo elogiou esta igreja (nenhuma outra igreja recebeu este tipo de elogio) porque eles não apenas eram discípulos-modelo para o mundo sem fé, mas também eram um exemplo para todas as pessoas que creem. A mensagem da vida deles teve um efeito que repercutiu além da Grécia; ficou conhecida por todas as regiões. Sua igreja tem sido comentada por outras comunidades a respeito do que está acontecendo (positivamente)? Era isto o que ocorria em relação à igreja local em Tessalônica. A primeira notícia é que eles haviam se convertido dos ídolos a Deus. Na verdade estavam experimentando mudanças radicais de crenças de vida. O impacto destas coisas não escapou dos ouvidos de ninguém em toda Grécia e fora dela. Os membros da sua igreja são verdadeiramente novas criaturas em Cristo? O evangelho chegou nela com poder transformador? O testemunho dos tessalonicenses não terminou em serem impactados pelo evangelho e serem modelos para as outras pessoas. Eles reproduziram-se como igreja. Assim, também, deve acontecer com as igrejas contemporâneas. Deus brilha em nossos corações e na comunidade para sermos canais de bênçãos para as pessoas. Igreja discipuladora Os tessalonicenses receberam o selo de autenticidade de igreja-padrão. Essa igreja local não era sufocada pelo seu próprio cordão umbilical; não sofria da síndrome do mar morto, que só recebe e sonega aquilo que vem de graça. Pelo contrário, por intermédio dela, a Palavra “repercutiu”, “divulgou”, “ressoou” em todas as direções. A igreja virou notícia e atingiu lugares distantes. Tornou -se uma espécie de “caixa acústica” do céu que irradiou e ecoava a mensagem evangélica. Assim como a igreja de Tessalônica, a nossa igreja local precisa amplificar o Reino de Deus em outras localidades e culturas; temos de ser uma igreja viva, onde a vida de Cristo pulsa e transforma. A tarefa máxima da igreja local Desde o seu nascimento, o movimento cristão teve de enfrentar barreiras de natureza política, religiosa, social e racial, que trouxeram problemas à proclamação do evangelho. Alguns desses problemas Paulo e sua equipe missionária encontraram em Tessalônica. Logo no início da igreja, em Jerusalém, o grande problema foi a visão estreita dos judeus, que consideravam o cristianismo como seita do judaísmo, e em Tessalônica esse grupo de oposição ao evangelho era muito forte. 5 Os judeus, porém, movidos de inveja, trazendo consigo alguns ho- mens maus dentre a malandragem, ajuntando a turba, alvoroçaram a cidade e, assaltando a casa de Jasom procuraram trazê-los para o meio do povo. 6Porém, não os encontrando, arrastaram Jasom e alguns irmãos perante as autoridades, chamando: estes que tem transtornado o mundo chegaram também aqui. 7Os quais Jasom hospedou.Todos estes procedem contra os decretos de César,afirmando ser Jesus outro rei.(At 17.5-7). Como podemos ver, esta posição era tão forte que, até no contexto da igreja, para os gentios (povos de outras nações) que desejassem ingressar no movimento cristão deveriam fazê-lo via os métodos da religião judaica submetendo, inclusive, à circuncisão e à obediência da lei mosaica. Alguns homens desceram da Judeia para Antioquia e passaram a ensinar aos irmãos: Se vocês não forem circuncidados conforme o costume ensinado por Moisés, não poderão ser salvo (At 15.1). Porém, aos poucos essas barreiras foram sendo ultrapassadas e o evangelho (como aconteceu em Tessalônica) se ampliou. Aquela igreja se engajou na tarefa inacabada de levar as Boas-Novas ao mundo todo. A igreja local de Tessalônica, formada por pessoas genuinamente convertidas, extrapolaram a geografia do seu país (Grécia), numa ação centrífuga, alcançaram os confins da terra. Não se acomodaram. Nenhuma desculpa é valida para que o cristão e a cristã não faça parte do programa prático da igreja quanto às atividades evangelizadora. Portanto, à semelhança dos tessalonicenses, nossas igrejas não podem se restringir no âmbito de sua influência imediata e muito menos dentro das quatro paredes do templo. Não podemos confundir, proclamação do evangelho com converter. Proclamar o evangelho não é “converter” a pessoa. O trabalho da igreja é o de compartilhar as boas-novas. Quem convence o homem é o Espírito Santo. No livro de Atos, o livro bíblico da história da igreja, existe somente dois tipos de evangelismo: 1) Evangelismo pessoal e 2) evangelismo em massa. O primeiro método é o mais efetivo da evangelização, nele os melhores resultados são alcançados. Com efeito, é o ato de testificar da obra de Cristo aos perdidos individualmente. Jesus é o nosso grande referencial de evangelismo pessoal. Há cerca de trinta e cinco entrevistas pessoais de Jesus relatadas nos Evangelhos. A Igreja Primitiva nasceu num esplendor da obra de testemunhar pessoalmente a respeito de Jesus Cristo. Ocasionalmente, multidões congregavam para ouvir um daqueles cristãos - especialmente onde ocorria algum notável milagre de cura, mas, consistentemente, esses antigos crentes estavam ocupados nos mercados, nas ruas, nas casas, persuadindo as pessoas a crerem em Cristo. Em Atos 5.42, a Bíblia narra o extraordinário empenho evangelístico dos primeiros cristãos: “E todos os dias, no templo, e nas casas não cessavam de ensinar e de anunciar a Jesus Cristo ”. Certamente, a expressão “todos os dias” inclui o evangelismo pessoal, onde os cristãos estavam espalhados por toda a cidade e região testificando de Cristo Jesus. Então, será que temos que nos concentrar na necessidade de elaborar estratégias “inteligentes” de ações contínuas que contemplem o objetivo mais amplo do trabalho de evangelização? Sim! Desde que estas estratégias estejam encaixadas no plano geral de Deus para a igreja e nossa vida. Capítulo 6 A chave da revolução do discipulado na igreja local Discipulado é vida. Uma igreja discipuladora tem vida. Nesse caminho vamos corrigindo equívocos que podem prejudicar a saúde da igreja, tanto nos aspectos teológicos como pastoral e afetivo. Neste processo, quem discipula nãoé mero repetidor de conceitos do discipulado, mas formador de convicções no coração; alguém que não trabalha sozinho nesse processo. Quem gravita, de uma forma ou de outra, na comunhão de uma igreja discipuladora, tem papel preponderante no crescimento em Cristo uns dos outros. Desta forma, todos somos formandos e formadores, pois só no ouvir e cuidado mútuo, na humildade e no desejo recíproco desse ouvir e ajudar é que formaremos um novo jeito de ser igreja. O discipulado abrange muitas facetas da vida cristã: renúncia pessoal, reconhecimento da autoridade de Jesus, obediência explícita, permanência na Palavra, servir com amor, cumprir a missão de Jesus etc. Exige-se equilíbrio e muito senso de justiça e de amor. Nesse processo o papel de quem discipulada é chave para o sucesso dos discípulos e discípulas, disponibilizando meios para que possam desenvolver uma vida interior com qualidade. Outro aspecto importante é que a caminhada do discipulado não pode ser conquistada pela força, mas pelo coração. Na escola de Jesus não se entra por ser filho ou filha de alguém importante da igreja. Só se entra pela fé e só se vive pela fé e amor. Ninguém também é excluído, para todos é oportunizado seguir o Mestre. Veja, agora, um esboço simplificado dos cinco processos indicados por Ronald Habermas quanto ao discipulado de Jesus: 1) Discipulado por meio da observação. Implica num compromisso com os princípios básico da fé. Igreja discipuladora 2) Discipulado por meio da continuidade. Quando o discípulo ou a discípula participa mais ativamente nos trabalhos do Mestre. 3) Discipulado por meio da experiência. Ter um aprendizado com mais exatidão. 4) Discipulado por meio da imitação. O discípulo ou discípula escolhe conscientemente reproduzir. 5) Discipulado por meio da transformação. Implica na vida adulta mais desenvolvida, na qual quem está no discipulado se tornam pessoas que serão imitadas. O perfil do “ser discipulador” que a igreja precisa O que é ser uma pessoa discipuladora? A discipuladora ou “discipulador é um guia ou orientador espiritual comprometido pessoalmente com o desenvolvimento integral dos discípulos”. 18 Mas o que significa ser isto? Na prática do discipulado precisamos de uma combinação entre ser uma pessoa conselheira e ser amiga. Quem discipula precisa ser uma pessoa conselheira e não, simplesmente, amiga. Às vezes, nós como discípulo e discípula temos muitos amigos, mas não temos ninguém com sabedoria, maturidade e autoridade para nos ajudar nas decisões difíceis. Precisamos de alguém que se comprometa a orar e procurar a direção de Deus conosco. Ao mesmo tempo, esta pessoa precisa ser amiga e não simplesmente dar conselhos. Jesus chamou seus discípulos de amigos. Indicou que eles eram íntimos e que se abria com eles, não escondendo seus pensamentos e desejos (Jo 15.14-15). É difícil ser um bom discipulador ou boa discipuladora sem ter um grau significante de intimidade. Se tal pessoa for um homem ou mulher de Deus, terá sabedoria do alto. Quem aconselha e não é amigo pode dar conselhos, mas não está comprometido a compartilhar com essa pessoa as consequências de suas decisões, pois não está intimamente ligado a ela. Podemos ampliar um pouco mais a definição de uma pessoa que discipula, esclarecendo o que significa estar comprometido pessoalmente ao “desenvolvimento integral” daqueles quem discípula. Quem discipula é guia ou orientador espiritual que tem uma relação íntima e comprometida com alguns seguidores de Cristo para ajudá-los a crescer de forma pessoal em: • sua identidade cristã (individualmente, e como parte da família de Deus); • seu caráter cristão; • suas habilidades ministeriais. Podemos até afirmar que estes três campos são o currículo do discipulado. 18 KORNFIELD, David. As bases na formação de discipuladores. São Paulo: Sepal, p. 34. A ordem acima reflete um sentido muito importante de prioridade. Uma regra básica: cada pessoa discipuladora deve ser discipulada. Na verdade a principal razão pela qual não discipulamos é porque não fomos discipulados. É muito difícil, quase impossível, passar para alguém aquilo que não recebemos. Se você quiser reinventar a roda, caindo em muitos erros no caminho e sem ter uma pessoa que lhe aconselhe e guie, e com grande probabilidade de fracassar, procure discipular sem ser discipulado! Todos nós precisamos ser discipulado, pois todos temos “pontos cegos”, que só as pessoas que andam conosco mais de perto conseguem enxergar, com isso elas podem nos ajudar a corrigi-los. Outra grande vantagem de ser uma pessoa que discipula, sendo também discipulada, é que, se estivermos passando por qualquer tipo de dificuldade, temos onde recorrer para pedir ajuda. O termo “exemplo”, em 1 Timóteo 4.12, significa modelar ou refletir a forma ou semelhança de uma determinada entidade. Com efeito, o poder modelador de uma existência vivida sob a Palavra de Deus tem como retorno um efeito sobre a comunidade (1Ts 1.6) que faz dela um exemplo formativo. Por isto, é indispensável que quem discipula seja, antes, discipulada. Bibliografia sugerida para leitura BRISCOE, Stuart. Discipulado diário para pessoas comuns. São Paulo: Vida, 1992. BONHOEFFER , Dietrich. Discipulado. Porto Alegre: Sinodal, 1989. CAMPANHÃ, Josué. Discipulado transformando igrejas. São Paulo: Eclésia, 2002. CÉSAR, Elben M. Lenz. Não perca Jesus de vista. Varginha, MG: Ultimato, 1997. COLEMAN, Robert. O Plano Mestre de evangelismo. São Paulo: Mundo Cristão, 2006. EVANS, Tony. Discipulado espiritual e dinâmico. São Paulo: Vida, 2000. HARBERMAS, Ronald. O discipulado completo. Rio de Janeiro: Central gospel, 2008. HENRICHSEN, Walter. Discípulos são feitos, não nascem prontos. São Paulo: Atos, 2002. JONES, Milton. Discipulado: o ministério da multiplicação. São Paulo: Vida Cristã, 1996. KORNFIELD, David. As bases na formação de discipuladores. São Paulo: Sepal, 1994. MACARTHUR, John. Chaves para o crescimento espiritual. São Paulo: Fiel, 2000. OGDEN, Greg. Elementos essenciais do discipulado. São Paulo: Vida, 2010. PETERSEN, Willian. O Discipulado de Timóteo. São Paulo: Vida, 1986. PHILLIPS, Keith. A formação de um discípulo. São Paulo: Vida, 1990.