Prévia do material em texto
Alojamento conjunto e cuidados com o recém-nascido normal Luciana Friedrich, Fabiana Costa Menezes, Laura Vargas Dornelles Alojamento Conjunto é a unidade hospitalar onde o recém-nascido (RN) sadio, após o nascimento, permanece com a mãe até a alta. Em alguns hospitais, além de RN sadios, são admitidos bebês com comorbidades (ex: sífilis congênita, icterícia), desde que as mesmas possam ser tratadas e acompanhadas de maneira adequada. Sempre que possível, o alojamento conjunto deve ser indicado para os RNs, salvo em situações que requerem um maior cuidado. Inúmeras são as vantagens de manter o RN em alojamento conjunto com sua mãe, dentre elas o fortalecimento do vínculo entre pais e bebê e a promoção e incentivo do aleitamento materno. 1. Rotina de admissão do RN normal O RN sadio deve permanecer na sala de parto junto com sua mãe o maior tempo possível, de maneira que possa se iniciar a amamentação e o vínculo mãe-bebê o quanto antes. Algumas medidas são realizadas logo após o nascimento do bebê: O RN deve ser recebido em campos estéreis e aquecidos, que podem ser colocados sobre o abdômen materno após o parto vaginal sem intercorrências e se o RN estiver clinicamente estável, promovendo, dessa forma, o primeiro contato mãe-bebê. Em caso de grande quantidade de secreção em orofaringe, manter a cabeça lateralizada. O cordão deve ser clampeado a uma distância de 2-3 cm da pele. O clampeamento tardio de cordão (1 a 3 minutos após o nascimento) é recomendado para todos os nascimentos, objetivando aumento das reservas de ferro do bebê. Após o primeiro contato com a mãe, colocar o RN em berço aquecido em posição supina com a região cervical ligeiramente hiperextendida, secar e, se necessário, aspirar as vias aéreas superiores, delicadamente, com uma sonda de aspiração traqueal, geralmente número 6 ou 8 (usa-se vácuo em até 100 cmH2O). Nesse primeiro momento, um rápido exame físico é realizado, o RN é pesado e identificado. - Neste primeiro exame físico, deve-se observar o aspecto geral do RN, atividade motora, choro, cor, buscar existência de alterações cardiorrespiratórias (palidez, cianose, má perfusão, pulsos fracos) ou de malformações evidentes. Posteriormente, um exame físico mais detalhado deverá ser realizado, na presença dos pais, em um local com boa iluminação e temperatura agradável (26-30°C), com o bebê completamente despido, de maneira que achados normais em um exame físico do RN possam ser mostrados para os pais. Deve-se realizar um exame físico completo, diariamente, até a alta do RN. Aspirado gástrico: pode ocasionar estímulo vagal e traumatismo local. É realizado nos RNs com líquido amniótico meconial, vômitos, secreção em grande quantidade, presença de sangue em orofaringe, polidrâmnio e suspeita de obstrução do trato digestivo. Nessa etapa alguns aspectos devem ser observados: Impossibilidade de passar a sonda pelas narinas: suspeitar de atresia de coanas Impossibilidade de levar a sonda até o estômago: suspeitar de atresia de esôfago Volume gástrico maior do que 20 ml: suspeitar de obstrução intestinal alta Aspirado com aspecto bilioso: suspeitar de obstrução inferior ao esfíncter de Oddi Banho: até essa etapa, manusear o RN com luvas para evitar contato com secreções. Durante esse procedimento, não se deve retirar todo o vérnix caseoso. Após, realizar as medidas do RN, que são comprimento, perímetros cefálico, torácico e abdominal. Medicações após nascimento: Vitamina K 1mg intramuscular (prevenção de doença hemorrágica do RN), colírio de nitrato de prata 1% (Método Credé), 1 gota em cada olho dentro da primeira hora de vida (profilaxia de conjuntivite gonocócica) e vacina contra hepatite B intramuscular (realizar em todos os RNs maiores do que 1,500 kg, dentro das primeiras 12 horas de vida). Determinação da idade gestacional: determinada através do Método de Capurro (avalia o RN a termo), que deve ser realizado nas primeiras 24 horas de vida. São levados em conta cinco aspectos do RN: textura da pele, formação da orelha, sulcos plantares, tamanho da glândula mamária, formação do mamilo). Assim, o RN pode ser classificado em adequado para a idade gestacional (AIG – entre os percentis 10-90), pequeno para a idade gestacional (PIG – abaixo do percentil 10) ou grande para a idade gestacional (GIG – acima do percentil 90). O método de Capurro é especificado na Figura 1. Figura 1. Método de Capurro 2. Exame físico completo do RN Dados antropométricos: a média de tamanho para um RN a termo masculino é de 2,950 kg e 49,2 cm. Já para um RN a termo do sexo feminino é de 2,850 kg e 45,5 cm. A medida do perímetro cefálico é, em média, entre 32-36 cm, podendo ser menor logo nas primeiras horas de vida devido à presença de cavalgamento de suturas cranianas. Geralmente é 2 a 3 cm maior do que o perímetro torácico. Pele e anexos: logo após o nascimento, e até mesmo durante os primeiros dias de vida, a acrocianose (cianose de extremidades) e a cianose perioral são consideradas normais, desaparecendo espontaneamente. A pele do RN a termo é vermelha durante as primeiras horas de vida, geralmente clareando entre 24-48 horas, quando inicia a descamação fisiológica. Em algumas condições específicas, a pele do RN pode ter achados diferentes, como, por exemplo, no caso de filhos de mãe diabética e pré-termos (menores de 37 semanas de idade gestacional), que são mais pletóricos, e os pós-maturos (maiores de 41 semanas de idade gestacional), que são mais pálidos. A icterícia fisiológica ocorre após as 36 horas de vida, no sentido crânio- caudal. Cianose generalizada pode ocorrer em RNs policitêmicos, cardiopatas, com infecção, alterações metabólicas, doenças respiratórias, ente outras causas. É sempre considerada patológica, devendo ser investigada. Impregnação por mecônio pode ocorrer em RN pélvicos ao nascimento, em situações de sofrimento fetal, RN pequenos para a idade gestacional ou em RN pós-termos. Diversos achados são comuns e normais na pele dos recém-nascidos: Eritema tóxico: aparecem em metade dos recém-nascidos a termo. São pápulas amareladas sobre base eritematosa, que se assemelham a picadas de insetos, geralmente de localização mais em tronco do que em extremidades. Podem se apresentar como pústulas também. O conteúdo das pápulas e pústulas demonstra eosinofilia. Geralmente aparece no segundo ou terceiro dia de vida e desaparece dentro das primeiras semanas de vida. Melanose pustular do recém-nascido: mais comum em crianças de pele com pigmentação mais escura, são pústulas com conteúdo eosinofílico, que espontaneamente rompem e deixam um rastro de máculas hiperpigmentadas que desaparecem com o passar dos dias ou semanas. Milium: pequenos pontos brancos na face, no nariz, na testa ou no queixo que ocorrem por obstrução e intumescimento de glândulas sebáceas. Milária: são pequenas pápulas ou vesículas, transparentes/róseas que aparecem por obstrução de glândulas sudoríparas. Em RNs podem apresentar-se também como pequenas pápulas esbranquiçadas comumente encontradas na face e couro cabeludo, sendo cistos de inclusão preenchidos com debris de queratina. Geralmente desaparecem espontaneamente nos primeiros meses de vida. Mancha mongólica: são manchas azuladas em placas que podem ser extensas, de localização geralmente em região lombossacra e glúteos, acometendo mais negros, índios e asiáticos, e que desaparecem com o tempo. Máscara equimótica: alteração na coloração da face do RN, com presença de petéquias, que ocorre por fragilidade capilar, decorrentesde apresentação de face ou circular de cordão durante o nascimento. Nevos flamius ou manchas salmão: malformação capilar de coloração salmão, geralmente localizada em pálpebras, supercílios, glabela e nuca. Também ocorrem na testa (tipicamente em formato de “V”), nariz e na região supralabial. A maioria resolve espontaneamente, mas algumas localizadas na nuca podem persistir. Lanugo: fina penugem que pode recobrir o corpo do recém-nascido, geralmente em dorso e ombros, sendo mais comum em pré-termos, com desaparecimento espontâneo. Classificação em relação à idade gestacional: classificados como adequados (AIG), pequenos (PIG) ou grandes (PIG), de acordo com as curvas utilizadas em cada centro de referência. Os PIG e os GIG possuem maio risco de fazer hipoglicemia, por pouca reserva de glicogênio hepático e por hiperinsulinismo, respectivamente. PIG simétrico: tem o perímetro cefálico menor que o percentil 10 e é resultante de desnutrição intrauterina prolongada, apresentando pele pregueada, ressecada e com descamação, perda de tecido subcutâneo, fácies envelhecidas, mas com boa maturidade neurológica. PIG assimétrico: tem o perímetro cefálico maior que o percentil 10, o que torna a cabeça aparentemente grande em relação ao resto do corpo, com presença de alargamento de suturas e fontanela. Geralmente decorrente de desnutrição na fase final da gestação, sendo o crescimento do pólo cefálico preservado. GIG: pelo seu tamanho, é comum a ocorrência de trauma obstétrico por distócia de ombro, apresentando com maior frequência luxação nesse local, fratura de clavícula, lesão de plexo braquial e tocotraumatismos. Sinais vitais: verificar curva térmica (normal entre 36,5-37,5°C), frequência respiratória (normal entre 30-60 mpm), frequência cardíaca (normal entre 120-160 bpm), eliminações fisiológicas (lembrar que RN amamentados ao seio evacuam de 8-10 vezes por dia, enquanto que os que recebem amamentação artificial evacuam, geralmente, 1-2 vezes ao dia), com diurese abundante e com densidade inferior a 1015. Exame neurológico sumário: verificar inicialmente o estado de consciência, tônus ativo e passivo, postura do RN, tremores e reflexos. Observar a hipertonia fisiológica do RN normal. Reflexo de Moro: abdução e extensão simétrica dos braços, seguida de adução, como se fosse um abraço. Coloca-se o RN em posição supina, elevam-se os braços do mesmo e em seguida retira-se a sustentação. Reflexo de sucção: estimular a sucção colocando a própria mão do RN na cavidade oral. Reflexo dos pontos cardeais: o examinador estimula a região perioral do RN com o dedo, tocando os 4 quadrantes, o que leva o RN a procurá-lo com voracidade, como se fosse abocanhá-lo. Reflexo de preensão palmo-plantar: o toque do dedo do examinador entre as falanges dos pés e das mãos do RN estimula a preensão simétrica forte. Reflexo cutâneo-plantar: reação de hiperextensão em leque dos dedos, que é iniciada pelo hálux, e que aparece após aplicação de leve pressão com uma caneta na face externa de cada planta do pé, e após deslizando-a no sentido calcanhar-dedos. Reflexo do apoio plantar: segurar o RN apoiado pelas axilas, em posição ortostática, fazendo com que o mesmo se sustente pelas suas pernas. Marcha reflexa: caracterizada como um esboço do ato de andar, irregular, que surge quando o RN é flexionado para a frente, como se estivesse estimulando o seu caminhar. Segmento cefálico: com a medida do perímetro cefálico pode-se avaliar a presença de cavalgamento de suturas, bossa serossanguínea, céfalo- hematoma, craniossinostose (fechamento precoce das suturas cranianas). Além disso, o exame da cabeça permite afastar a presença de encefalocele, craniotabes, entre outras alterações. Hidrocefalia pode ser suspeitada com a associação de fontanelas grandes com o aumento do perímetro cefálico. Crânio: pesquisar por afundamento de crânio, abaulamento de fontanela, encefalocele, craniotabes, implantação baixa dos cabelos (que pode estar presente em paciente com síndrome de Down ou síndrome de Turner). Bossa serossanguínea: edema no couro cabeludo, com limites imprecisos e que não respeita as linhas de suturas. Está presente desde o nascimento, com redução gradual e desaparecendo com cerca de 24 horas de vida. Pode estar associada ao parto prolongado. Céfalo-hematoma: derrame sangüíneo sub-periósteo. Moderadamente doloroso à palpação, consistência cística, não cruza a linha de suturas. Desaparece em algumas semanas ou eventualmente calcifica, levando a uma deformidade assimétrica localizada. Pode acentuar icterícia. Eventualmente associado a fratura da tábua óssea subjacente. Fontanelas: fontanelas aparentemente grandes ou pequenas, contanto que o perímetro cefálico seja normal e as suturas cranianas apresentem boa mobilidade não requerem maior preocupação ou investigação. Fontanelas muito grandes podem significar atraso na ossificação e estão relacionadas a hipotireoidismo, trissomias, hipofosfatemia e osteogênese imperfeita. Face: procurar por fáscies sindrômicas, hiper ou hipotelorismo, micro ou retrognatia, presença de epicanto, paralisia facial, localização anormal de implantação das orelhas. Olhos: as pálpebras do RN podem estar edemaciadas nos primeiros dias, fato que pode dificultar e exame. A presença de secreção ocular pode ser causada, muitas vezes, pelo uso de nitrato de prata colírio (conjuntivite química). Avaliar presença de hemorragias conjuntivais, movimentos oculares incoordenados (estrabismo fisiológico transitório), catarata congênita, opacificação da córnea, lacrimejamento anormal. Orelhas: avaliar forma e implantação das orelhas, assim como presença de apêndices ou fossetas pré-auriculares, que podem estar relacionadas a malformações renais e de trato urinário. Nariz: deve-se avaliar a forma, o tamanho e a permeabilidade das narinas. Presença de secreção nasal serossanguinolenta pode estar relacionada à sífilis congênita. Obstrução nasal e espirros são comuns após o nascimento. Boca: avaliar a coloração das mucosas, presença de dentes precoces, cistos orais, fenda labial ou palatina, macroglossia (se presente, pensar em hipotireoidismo e síndrome de Down). Pérolas de Epstein: pequenos cistos de retenção, de coloração esbranquiçada, localizados na linha média, na transição dos palatos duro e mole. São transitórias e sem significado clínico. Pescoço: atentar para achados como pescoço alado, que é comum na Síndrome de Turner e Síndrome de Down. Massas tumorais podem corresponder a higroma cístico, teratoma cervical, adenomegalias (pensar em infecções congênitas), cisto por persistência do conduto tireoglosso (geralmente de localização anterior). Tórax: verificar simetria, diâmetro ântero-posterior e presença de deformações. Pode estar presente hipertrofia mamária bilateral, que é comum e ocorre por ação de hormônios maternos. Palpar clavículas em busca de crepitação que possa sugerir fratura (a maioria é do tipo galho- verde, que pode causar pseudoparalisia de plexo braquial). A respiração no recém-nascido é do tipo abdominal, com ritmo irregular, mas retrações são sempre patológicas. Ausculta cardíaca: em cerca de 60% dos RN a termo, dentro das primeiras 48 horas de vida, podem estar presentes sopros cardíacos transitórios, que, a princípio, não necessitam de investigação, a não ser que permaneçam além desse período ou que sejam acompanhados de sinais de descompensação, como cianose, taquipneia, pulsos fracos ou choque. Sempre avaliar atividade pré-cordial, a frequência cardíaca e seu ritmo, bulhas e presença de sopros patológicos. RNs a termo podem apresentar frequência cardíaca abaixo de 100, principalmente durante o sono, mas quando estimulados, a mesma aumenta. Ausculta pulmonar: avaliar entradade ar nos pulmões, presença de sinais de insuficiência respiratória, como cianose, gemência, batimentos de asa de nariz, taquipneia, estridor expiratório. A frequência respiratória de um RN a termo é considerada normal quando entre 30 e 60 movimentos por minuto. A respiração periódica é comum. Abdômen: observar a forma do abdômen. Se escavado, pode sugerir presença de hérnia diafragmática. Distensão abdominal pode ser encontrada na presença de ascite, sepse, obstrução intestinal, tumorações. Massas abdominais nessa faixa etária podem corresponder a neuroblastoma, rins policísticos, hidronefrose, tumor de Wilms, cistos ovarianos. Na palpação, pode-se perceber o fígado, que geralmente é palpável 2,5 cm abaixo do rebordo costal direito. O baço geralmente não é palpável. Atentar para a presença de diástase de retos, hérnia umbilical e inguinal, que são mais comuns em pacientes pré-termos. Ausência de ruídos hidroaéreos pode ser sinal de íleo paralítico. Examinar coto umbilical, que onde se identificam 2 artérias e 1 veia. Genitália masculina: verificar comprimento do pênis (é considerado tamanho normal acima de 2,5 cm), localização do orifício uretral, jato urinário, prepúcio, presença de hipospádia ou epispádia. Palpar testículos (na bolsa ou no canal inguinal) e verificar a presença de hérnias ou hidrocele. Criptorquidia bilateral sugere anomalia da diferenciação sexual (o que pode apontar para distúrbios metabólicos graves) e Síndrome de Klinefelter. Cerca de 2-5% dos recém-nascidos a termo terão criptorquidia unilateral ao nascimento, que deve ser acompanhada durante os primeiros meses de vida. Hiperpigmentação da bolsa escrotal pode significar presença de alguma síndrome congênita da adrenal. A presença de fimose é normal e fisiológica em recém-nascidos. Testículo de consistência endurecida, arroxeado e doloroso à manipulação sugere quadro de torção testicular, que é uma urgência cirúrgica. A hidrocele não-comunicante pode persistir por semanas ou alguns meses, sem necessidade de correção. Genitália feminina: verificar tamanho do clitóris, hipertrofia de pequenos lábios, fusão de grandes lábios, presença de fístulas, orifício uretral e vaginal. Hipertrofia de clitóris, principalmente quando acompanhada de hiperpigmentação, pode sugerir excesso de androgênio. Secreção mucoide ou sangramento vaginal discreto são comuns devido à ação hormonal materna. A imperfuração himenal pode levar à retenção de secreções uterinas e vaginais. Ânus: observar permeabilidade. A eliminação de mecônio geralmente ocorre nas primeiras 48 horas de vida, devendo ser investigada quando ultrapassa esse período. Coluna: examinar com o RN em decúbito ventral, palpando a coluna em toda sua extensão para evidenciar defeitos vertebrais, avaliar presença de cifose, escoliose, agenesia de sacro ou cóccix. Atentar para presença de hipertricose ou fosseta lombossacra, que podem sugerir espinha bífida. Meningomielocele e mielocele são mais raras. Extremidades: verificar simetria, proporções dos membros, mobilidade, fraturas, examinar articulações para afastar luxação congênita de quadril. Palpar pulsos femorais para afastar coarctação da aorta. Atentar para presença de prega palmar única (simiesca) bilateral, que associada à falta da uma falange no 5º dedo podem sugerir Síndrome de Down. Pé torto congênito geralmente é simétrico, bilateral e de caráter poligênico. O pé torto posicional geralmente é assimétrico, unilateral e decorrente de posição anormal intra-uterina. Diferentemente do pé torto verdadeiro, o pé torto posicional costuma ser de fácil mobilização, conseguindo-se trazer o mesmo facilmente até a linha média. Costuma melhorar com o decorrer dos dias. Paralisia braquial: estiramento exagerado das raízes nervosas do plexo braquial nas inserções cervicais, geralmente ocorrendo durante um parto distócico. Pode ser do tipo Erb-Duchenne, onde o braço e o antebraço estão paralisados, em rotação interna e pronação da mão, do tipo Klumpke, que atinge apenas a mão, com dificuldade para fechar os dedos no estímulo da preensão palmar, ou ambas associadas. A paralisia de Klumpke pode estar associada à lesão do nervo frênico ipsilateral, podendo haver paralisia diafragmática e alterações simpáticas como midríase no lado afetado. Deve-se solicitar avaliação neurológica para determinar tipo e grau da lesão, e geralmente a fisioterapia motora está indicada após a alta para a recuperação da força e sensibilidade do membro afetado. Luxação congênita do quadril: consiste em uma displasia do acetábulo, com dificuldade em manter a cabeça do fêmur em posição normal. Pode ser descoberta realizando-se a manobra de Ortolani (flexão das coxas sobre o abdômen e posterior abdução forçada). Caso positiva, encontra-se um clique característico ou uma dificuldade na abdução da coxa. É cerca de 7-8 vezes mais comum em meninas. A presença de assimetria nas pregas cutâneas da coxa, proeminência lateral do grande trocânter femoral ou aparente encurtamento do fêmur são sinais de lesão grave e tardia. O acompanhamento ortopédico é obrigatório após a alta, para prescrição do tratamento adequado com órteses ou cirurgia. 3. Tópicos relevantes no alojamento conjunto Alimentação: sempre orientar quanto à importância do aleitamento materno, cuidados com as mamas, a pega e posicionamento correto do recém-nascido. Em caso de fissuras, pode-se usar óleo vegetal nos mamilos (Dersani®). Em caso de fissuras importantes e dor que estejam prejudicando a amamentação, um tratamento com corticóide tópico, como a fludroxicortida 3 vezes ao dia por 5 dias, por um período curto pode ser orientado (Drenison®). Orientar os pais que o RN pode perder até cerca de 10% do peso de nascimento, o qual será recuperado em torno dos 7 dias de vida no RN a termo e com 14 dias no RN pré-termo. Banho: testar a temperatura da água com o dorso da mão ou cotovelo, que deve estar em torno de 37°C. Evitar o excesso de sabão para não irritar nem ressecar a pele do RN. Não deixar o bebê sozinho na banheira e evitar talcos e perfumes pelo risco de alergia cutânea ou respiratória. Podem-se usar óleos minerais ou vegetais, assim como uma loção hidratante neutra, nos bebês com a pele mais ressecada e descamativa. É recomendável utilizar um creme protetor contra assaduras, mas antes se deve realizar a limpeza dos resíduos de urina e fezes com um algodão embebido em água morna ou óleo. Evacuações: a primeira evacuação deve ocorrer até as 48 horas de vida do RN. As evacuações iniciais do recém-nascido são verde-escuras e pegajosas (mecônio). Após o 3º dia, as fezes tornam-se verde-amareladas e mais amolecidas (conhecidas como fezes de transição), torando-se amarelo-ouro, explosivas, semi-líquidas e com grumos. Bebês em aleitamento materno exclusivo apresentam fezes mais líquidas e frequentes. Investigar caso ocorra atraso na eliminação do mecônio, que pode ocorrer por imperfuração anal, atresias ou estenoses do trato digestivo inferior, doença de Hirschprung, fibrose cística, distúrbios metabólicos ou infecção. Não fornecer alta para nenhum RN que não tenha eliminado mecônio durante a permanência no alojamento conjunto. Micções: alertar para a possibilidade de eliminação de cristais de urato, que podem deixar manchas róseo-avermelhadas na fralda, simulando sangue. Nenhum bebê receberá alta sem a observação de micções adequadas. Eructações e regurgitações: as regurgitações são comuns, já que a maioria dos bebês devolve um pouco de leite deglutido logo após as mamadas, junto com o ar eructado, o que não traz nenhuma repercussão sobre a curva ponderal do RN. Para reduzir a freqüência e o volume das regurgitações, recomenda-se não alimentar o RN deitado, não esperar que o bebê esteja muito faminto para alimentá-lo(poderá engolir muito ar se estiver muito ansioso), colocar o RN em posição dorsal após a mamada e com a cabeceira elevada, após ter ficado 5-10 minutos em posição vertical para arrotar, mesmo que sem sucesso. Se o bebê for alimentado por mamadeira, esta deve ser oferecida inclinada, de forma que o bico esteja sempre preenchido com leite, evitando que o RN sugue o ar. O orifício não deve ser pequeno nem grande demais, permitindo apenas o gotejamento do leite quando a mamadeira é virada para baixo. Soluços: são normais, principalmente após as mamadas e quando os bebês estão despidos ou molhados. Umbigo: aplicar álcool 70% em toda a circunferência e na base, 3 vezes ao dia. A queda ocorrerá entre 7-14 dias. Pode ocorrer um pequeno sangramento na cicatriz após a queda. Alertar aos pais a procurar assistência médica se sangramento abundante, secreção purulenta, mau cheiro ou hiperemia ao redor da cicatriz. Obstrução nasal: roncos, espirros e dificuldade para amamentar secundários à obstrução nasal são freqüentes. Orienta-se a limpeza das narinas com solução fisiológica antes das mamadas. Testes de triagem: Teste do Reflexo Vermelho (Teste do Olhinho): realizar o exame com o oftalmoscópio colocado a aproximadamente 1 metro de distância dos olhos do RN, em um local escuro. Observa-se o reflexo nos dois olhos, simultaneamente, que deve apresentar um brilho homogêneo de cor vermelho-alaranjada. Leucocoria é o nome que se dá ao reflexo branco- amarelado visto através da pupila., e o recém-nascido que apresentar esse reflexo deve ser avaliado por um oftalmologista para excluir a presença de catarata, coloboma, coriorretnite, retinoblastoma, infecções intra-oculares, entre outras causas. Teste da Orelhinha: é o exame de emissões otoacústicas evocadas (EOA). Deve ser realizado antes da alta hospitalar. Caso alterado, sugere-se repetir o exame até os 30 dias de vida. Teste do Coraçãozinho: teste de triagem para detectar cardiopatias congênitas críticas (canal-dependente), como atresia pulmonar, hipoplasia de ventrículo esquerdo, coartação de aorta crítica e transposição de grandes vasos, antes das suas manifestações clínicas, que podem ser fatais se ocorrerem após a alta. Deve ser realizado após as 24 horas de vida do RN, e consiste na medida da saturação diferencial (oximetria) em membro superior direito e qualquer membro inferior. A saturação deve ser maior de 95% em ambos os membros e com diferença menor de 3% entre as 2 medidas. Cartão do RN: deve conter informações sobre o tipo de parto, condições de nascimento, escore de Apgar, manobras de reanimação necessárias, sexo, idade gestacional, classificação do RN (AIG, PIG, GIG), pesos de nascimento e de alta, comprimento e perímetro cefálico. Devem constar, também, as hipóteses diagnósticas e tratamentos realizados, a evolução clínica, os resultados de exames complementares, tipo de alimentação no hospital e na alta, a presença e a intensidade de icterícia. 4. Outras recomendações para a alta do Recém-nascido: Tempo de permanência: preconiza-se que a alta do RN a termo e saudável, que evoluiu sem intercorrências, seja dada com cerca de 48 horas de vida, com reavaliação ambulatorial em 48-72 horas após a alta hospitalar. Os pais devem ser orientados a procurarem um serviço de emergência se ocorrer algum dos sinais de alerta abaixo: Anorexia, sucção débil ou ausente; Vômitos freqüentes e volumosos; Diarreia com fezes líquidas, fétidas, com muco ou sangue e comprometimento do estado geral; Febre (temperatura axilar > 37,8º) sempre deve ser investigada. Hipotermia, prostração, adinamia; Sonolência ou irritabilidade intensa. Choro fraco ou estridente, gritado; Dificuldade respiratória, tosse, gemência, estridor, palidez, cianose, icterícia; Alterações no coto umbilical: sangramento (pequenas gotas de sangue logo antes ou após a queda são normais), mau cheiro, secreção purulenta, hiperemia periumbilical, secreção com aspecto de fezes ou urina (persistência do canal onfalomesentérico ou do úraco), dor à manipulação. Teste do Pezinho: deve ser realizado entre 3-5 dias de vida (sempre antes dos 7 dias de vida) no posto de saúde. A triagem básica inclui a detecção de hipotireoidismo congênito, fenilcetonúria, hemoglobinopatias e fibrose cística. Está em fase de incorporação no Rio Grande do Sul a fase IV do PNTN (Programa Nacional de Triagem Neonatal), que inclui a detecção de mais 2 doenças no Teste do Pezinho realizado nos postos de saúde: a Hiperplasia Adrenal Congênita e a Deficiência de Biotinidase. Prevenção de síndrome da morte súbita do lactente (SMSL): ocorre em bebês menores de 6 meses e está associada a alguns fatores de risco. Ver capitulo ALTE e SMSL (seção emergência e terapia intensiva) Posição para dormir: utilizar o decúbito dorsal (posição supina). Não utilizar a posição prona (de bruços). Estudos recentes demonstram que a posição lateral apresenta risco de morte súbita semelhante à posição prona. Assim, sempre orientar as mães de que a posição ao dormir é um dos fatores mais importantes para prevenir a SMSL. Colchão e travesseiros: evitar colchão e travesseiros macios. Manter o lençol bem preso sob o colchão. Nunca cobrir a face e a cabeça do bebê. Evitar colocar a cabeça do bebê sobre almofadas e edredons. Jamais colocar, dentro do berço do RN, almofadas, bichos de pelúcia, “paninhos” ou “cheirinhos” com os quais o RN possa se asfixiar. Superaquecimento: evitar. Fumo: bebês expostos ao fumo na gravidez e após o nascimento têm maior risco. Alimentação: Bebês em aleitamento materno exclusivo têm menor risco. Cólicas do lactente: ocorrem em 20-70% dos bebês normais. Definida como paroxismos de irritabilidade, agitação ou choro por pelo menos 3 horas, em mais de 3 dias por semana, por pelo menos 3 semanas seguidas. Ocorrem geralmente ao anoitecer, com início no final da segunda semana de vida, intensificando-se entre a 3ª e a 7ª semana e reduzindo de forma importante após os 3 meses, embora alguns bebês possam ainda apresentar sintomas até os 5 meses. Durante a crise, o lactente chora, fica com a face congesta, contrai os músculos abdominais, encolhe e estica as pernas e braços, fecha as mãos, elimina flatos, o que traz um alívio temporário até iniciar nova crise. O choro é inconsolável e inexplicável, trazendo grande ansiedade para toda a família. Deve-se rever a técnica de alimentação, colocar o lactente de bruços sobre o abdome da mãe. Os movimentos e sons repetitivos podem acalmar (balançar suave, conversar, música ou movimento respiratório, ruídos cardíacos e peristálticos). Massagear suavemente o abdome, dar um banho morno e relaxante, colocar calor local (bolsa de água morna ou pano passado a ferro). Se necessário e conforme indicação do pediatra, utilizar antiespasmódicos e antiflatulentos. Referências 1. Alves Filho, N. Anamnese e Exame Físico do Recém-Nascido. In: Alves Filho N, Corrêa MD, Alves Jr JM et al. Perinatologia Básica. 3ª ed. MEDSI / Guanabara Koogan 2006; 246-255. 2. Almeida MFB, Santos AMN. Assistência ao Recém-Nascido a Termo. In: Kopelman BI, Santos AMN, Goulart AL et al. Diagnóstico e Tratamento em Neonatologia. Atheneu 2004;13-16. 3. Cochran WD, Lee KG. Assessement of The Newborn: History and Physical Examination of the Newborn. In: Manual of Neonatology Care. Cloherty JP, Eichenwald EC, Hansen AR, Stark AR .7th ed. Lippincott Williams &Wilkings 2012; 91-101. 4. Sielski LA, McKee-Garrett TM. Assistência ao Recém-Nascido Sadio no Berçário. In: Manual de Neonatologia. Cloherty JP, Eichenwald EC, Stark AR .6th ed. Lippincott Williams &Wilkings 2010; 58-63. 5. Lamy ZC, Lamy Filho F. Alojamento Conjunto – Indicações e Vantagens. In: ProRN – Programa de Atualização em Neonatologia. Ciclo5, Módulo 2. Artmed / Panamericana 2008; 77-123.