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Alojamento conjunto e cuidados com o recém-nascido normal 
Luciana Friedrich, Fabiana Costa Menezes, Laura Vargas Dornelles 
 
Alojamento Conjunto é a unidade hospitalar onde o recém-nascido (RN) sadio, 
após o nascimento, permanece com a mãe até a alta. Em alguns hospitais, 
além de RN sadios, são admitidos bebês com comorbidades (ex: sífilis 
congênita, icterícia), desde que as mesmas possam ser tratadas e 
acompanhadas de maneira adequada. Sempre que possível, o alojamento 
conjunto deve ser indicado para os RNs, salvo em situações que requerem um 
maior cuidado. Inúmeras são as vantagens de manter o RN em alojamento 
conjunto com sua mãe, dentre elas o fortalecimento do vínculo entre pais e 
bebê e a promoção e incentivo do aleitamento materno. 
 
1. Rotina de admissão do RN normal 
 
O RN sadio deve permanecer na sala de parto junto com sua mãe o maior 
tempo possível, de maneira que possa se iniciar a amamentação e o vínculo 
mãe-bebê o quanto antes. Algumas medidas são realizadas logo após o 
nascimento do bebê: 
 
 O RN deve ser recebido em campos estéreis e aquecidos, que podem ser 
colocados sobre o abdômen materno após o parto vaginal sem 
intercorrências e se o RN estiver clinicamente estável, promovendo, dessa 
forma, o primeiro contato mãe-bebê. Em caso de grande quantidade de 
secreção em orofaringe, manter a cabeça lateralizada. O cordão deve ser 
clampeado a uma distância de 2-3 cm da pele. O clampeamento tardio de 
cordão (1 a 3 minutos após o nascimento) é recomendado para todos os 
nascimentos, objetivando aumento das reservas de ferro do bebê. 
 
 Após o primeiro contato com a mãe, colocar o RN em berço aquecido em 
posição supina com a região cervical ligeiramente hiperextendida, secar e, 
se necessário, aspirar as vias aéreas superiores, delicadamente, com uma 
sonda de aspiração traqueal, geralmente número 6 ou 8 (usa-se vácuo em 
até 100 cmH2O). Nesse primeiro momento, um rápido exame físico é 
realizado, o RN é pesado e identificado. 
- Neste primeiro exame físico, deve-se observar o aspecto geral do RN, 
atividade motora, choro, cor, buscar existência de alterações 
cardiorrespiratórias (palidez, cianose, má perfusão, pulsos fracos) ou de 
malformações evidentes. Posteriormente, um exame físico mais detalhado 
deverá ser realizado, na presença dos pais, em um local com boa iluminação 
e temperatura agradável (26-30°C), com o bebê completamente despido, de 
maneira que achados normais em um exame físico do RN possam ser 
mostrados para os pais. Deve-se realizar um exame físico completo, 
diariamente, até a alta do RN. 
 
 Aspirado gástrico: pode ocasionar estímulo vagal e traumatismo local. É 
realizado nos RNs com líquido amniótico meconial, vômitos, secreção em 
grande quantidade, presença de sangue em orofaringe, polidrâmnio e 
suspeita de obstrução do trato digestivo. Nessa etapa alguns aspectos 
devem ser observados: 
 Impossibilidade de passar a sonda pelas narinas: suspeitar de atresia de 
coanas 
 Impossibilidade de levar a sonda até o estômago: suspeitar de atresia de 
esôfago 
 Volume gástrico maior do que 20 ml: suspeitar de obstrução intestinal 
alta 
 Aspirado com aspecto bilioso: suspeitar de obstrução inferior ao 
esfíncter de Oddi 
 
 Banho: até essa etapa, manusear o RN com luvas para evitar contato com 
secreções. Durante esse procedimento, não se deve retirar todo o vérnix 
caseoso. Após, realizar as medidas do RN, que são comprimento, 
perímetros cefálico, torácico e abdominal. 
 
 Medicações após nascimento: Vitamina K 1mg intramuscular (prevenção de 
doença hemorrágica do RN), colírio de nitrato de prata 1% (Método Credé), 
1 gota em cada olho dentro da primeira hora de vida (profilaxia de 
conjuntivite gonocócica) e vacina contra hepatite B intramuscular (realizar 
em todos os RNs maiores do que 1,500 kg, dentro das primeiras 12 horas de 
vida). 
 
 Determinação da idade gestacional: determinada através do Método de 
Capurro (avalia o RN a termo), que deve ser realizado nas primeiras 24 
horas de vida. São levados em conta cinco aspectos do RN: textura da pele, 
formação da orelha, sulcos plantares, tamanho da glândula mamária, 
formação do mamilo). Assim, o RN pode ser classificado em adequado para 
a idade gestacional (AIG – entre os percentis 10-90), pequeno para a idade 
gestacional (PIG – abaixo do percentil 10) ou grande para a idade 
gestacional (GIG – acima do percentil 90). O método de Capurro é 
especificado na Figura 1. 
 
 
 Figura 1. Método de Capurro 
 
 
 
2. Exame físico completo do RN 
 Dados antropométricos: a média de tamanho para um RN a termo 
masculino é de 2,950 kg e 49,2 cm. Já para um RN a termo do sexo 
feminino é de 2,850 kg e 45,5 cm. A medida do perímetro cefálico é, em 
média, entre 32-36 cm, podendo ser menor logo nas primeiras horas de 
vida devido à presença de cavalgamento de suturas cranianas. Geralmente 
é 2 a 3 cm maior do que o perímetro torácico. 
 
 Pele e anexos: logo após o nascimento, e até mesmo durante os primeiros 
dias de vida, a acrocianose (cianose de extremidades) e a cianose perioral 
são consideradas normais, desaparecendo espontaneamente. A pele do RN 
a termo é vermelha durante as primeiras horas de vida, geralmente 
clareando entre 24-48 horas, quando inicia a descamação fisiológica. Em 
algumas condições específicas, a pele do RN pode ter achados diferentes, 
como, por exemplo, no caso de filhos de mãe diabética e pré-termos 
(menores de 37 semanas de idade gestacional), que são mais pletóricos, e 
os pós-maturos (maiores de 41 semanas de idade gestacional), que são 
mais pálidos. 
 A icterícia fisiológica ocorre após as 36 horas de vida, no sentido crânio-
caudal. 
 Cianose generalizada pode ocorrer em RNs policitêmicos, cardiopatas, 
com infecção, alterações metabólicas, doenças respiratórias, ente outras 
causas. É sempre considerada patológica, devendo ser investigada. 
 Impregnação por mecônio pode ocorrer em RN pélvicos ao nascimento, 
em situações de sofrimento fetal, RN pequenos para a idade gestacional 
ou em RN pós-termos. 
 
Diversos achados são comuns e normais na pele dos recém-nascidos: 
 Eritema tóxico: aparecem em metade dos recém-nascidos a termo. São 
pápulas amareladas sobre base eritematosa, que se assemelham a 
picadas de insetos, geralmente de localização mais em tronco do que 
em extremidades. Podem se apresentar como pústulas também. O 
conteúdo das pápulas e pústulas demonstra eosinofilia. Geralmente 
aparece no segundo ou terceiro dia de vida e desaparece dentro das 
primeiras semanas de vida. 
 Melanose pustular do recém-nascido: mais comum em crianças de 
pele com pigmentação mais escura, são pústulas com conteúdo 
eosinofílico, que espontaneamente rompem e deixam um rastro de 
máculas hiperpigmentadas que desaparecem com o passar dos dias ou 
semanas. 
 Milium: pequenos pontos brancos na face, no nariz, na testa ou no 
queixo que ocorrem por obstrução e intumescimento de glândulas 
sebáceas. 
 Milária: são pequenas pápulas ou vesículas, transparentes/róseas que 
aparecem por obstrução de glândulas sudoríparas. Em RNs podem 
apresentar-se também como pequenas pápulas esbranquiçadas 
comumente encontradas na face e couro cabeludo, sendo cistos de 
inclusão preenchidos com debris de queratina. Geralmente 
desaparecem espontaneamente nos primeiros meses de vida. 
 Mancha mongólica: são manchas azuladas em placas que podem ser 
extensas, de localização geralmente em região lombossacra e glúteos, 
acometendo mais negros, índios e asiáticos, e que desaparecem com o 
tempo. 
 Máscara equimótica: alteração na coloração da face do RN, com 
presença de petéquias, que ocorre por fragilidade capilar, decorrentesde apresentação de face ou circular de cordão durante o nascimento. 
 Nevos flamius ou manchas salmão: malformação capilar de coloração 
salmão, geralmente localizada em pálpebras, supercílios, glabela e 
nuca. Também ocorrem na testa (tipicamente em formato de “V”), nariz e 
na região supralabial. A maioria resolve espontaneamente, mas algumas 
localizadas na nuca podem persistir. 
 Lanugo: fina penugem que pode recobrir o corpo do recém-nascido, 
geralmente em dorso e ombros, sendo mais comum em pré-termos, com 
desaparecimento espontâneo. 
 
 Classificação em relação à idade gestacional: classificados como 
adequados (AIG), pequenos (PIG) ou grandes (PIG), de acordo com as 
curvas utilizadas em cada centro de referência. Os PIG e os GIG possuem 
maio risco de fazer hipoglicemia, por pouca reserva de glicogênio hepático 
e por hiperinsulinismo, respectivamente. 
 PIG simétrico: tem o perímetro cefálico menor que o percentil 10 e é 
resultante de desnutrição intrauterina prolongada, apresentando pele 
pregueada, ressecada e com descamação, perda de tecido subcutâneo, 
fácies envelhecidas, mas com boa maturidade neurológica. 
 PIG assimétrico: tem o perímetro cefálico maior que o percentil 10, o que 
torna a cabeça aparentemente grande em relação ao resto do corpo, 
com presença de alargamento de suturas e fontanela. Geralmente 
decorrente de desnutrição na fase final da gestação, sendo o 
crescimento do pólo cefálico preservado. 
 GIG: pelo seu tamanho, é comum a ocorrência de trauma obstétrico por 
distócia de ombro, apresentando com maior frequência luxação nesse 
local, fratura de clavícula, lesão de plexo braquial e tocotraumatismos. 
 
 Sinais vitais: verificar curva térmica (normal entre 36,5-37,5°C), frequência 
respiratória (normal entre 30-60 mpm), frequência cardíaca (normal entre 
120-160 bpm), eliminações fisiológicas (lembrar que RN amamentados ao 
seio evacuam de 8-10 vezes por dia, enquanto que os que recebem 
amamentação artificial evacuam, geralmente, 1-2 vezes ao dia), com 
diurese abundante e com densidade inferior a 1015. 
 Exame neurológico sumário: verificar inicialmente o estado de consciência, 
tônus ativo e passivo, postura do RN, tremores e reflexos. Observar a 
hipertonia fisiológica do RN normal. 
 Reflexo de Moro: abdução e extensão simétrica dos braços, seguida de 
adução, como se fosse um abraço. Coloca-se o RN em posição supina, 
elevam-se os braços do mesmo e em seguida retira-se a sustentação. 
 Reflexo de sucção: estimular a sucção colocando a própria mão do RN 
na cavidade oral. 
 Reflexo dos pontos cardeais: o examinador estimula a região perioral 
do RN com o dedo, tocando os 4 quadrantes, o que leva o RN a 
procurá-lo com voracidade, como se fosse abocanhá-lo. 
 Reflexo de preensão palmo-plantar: o toque do dedo do examinador 
entre as falanges dos pés e das mãos do RN estimula a preensão 
simétrica forte. 
 Reflexo cutâneo-plantar: reação de hiperextensão em leque dos 
dedos, que é iniciada pelo hálux, e que aparece após aplicação de leve 
pressão com uma caneta na face externa de cada planta do pé, e após 
deslizando-a no sentido calcanhar-dedos. 
 Reflexo do apoio plantar: segurar o RN apoiado pelas axilas, em 
posição ortostática, fazendo com que o mesmo se sustente pelas suas 
pernas. 
 Marcha reflexa: caracterizada como um esboço do ato de andar, 
irregular, que surge quando o RN é flexionado para a frente, como se 
estivesse estimulando o seu caminhar. 
 
 Segmento cefálico: com a medida do perímetro cefálico pode-se avaliar a 
presença de cavalgamento de suturas, bossa serossanguínea, céfalo-
hematoma, craniossinostose (fechamento precoce das suturas cranianas). 
Além disso, o exame da cabeça permite afastar a presença de encefalocele, 
craniotabes, entre outras alterações. Hidrocefalia pode ser suspeitada com 
a associação de fontanelas grandes com o aumento do perímetro cefálico. 
 Crânio: pesquisar por afundamento de crânio, abaulamento de 
fontanela, encefalocele, craniotabes, implantação baixa dos cabelos 
(que pode estar presente em paciente com síndrome de Down ou 
síndrome de Turner). 
 Bossa serossanguínea: edema no couro cabeludo, com limites 
imprecisos e que não respeita as linhas de suturas. Está presente desde 
o nascimento, com redução gradual e desaparecendo com cerca de 24 
horas de vida. Pode estar associada ao parto prolongado. 
 Céfalo-hematoma: derrame sangüíneo sub-periósteo. Moderadamente 
doloroso à palpação, consistência cística, não cruza a linha de suturas. 
Desaparece em algumas semanas ou eventualmente calcifica, levando a 
uma deformidade assimétrica localizada. Pode acentuar icterícia. 
Eventualmente associado a fratura da tábua óssea subjacente. 
 Fontanelas: fontanelas aparentemente grandes ou pequenas, contanto 
que o perímetro cefálico seja normal e as suturas cranianas apresentem 
boa mobilidade não requerem maior preocupação ou investigação. 
Fontanelas muito grandes podem significar atraso na ossificação e estão 
relacionadas a hipotireoidismo, trissomias, hipofosfatemia e 
osteogênese imperfeita. 
 Face: procurar por fáscies sindrômicas, hiper ou hipotelorismo, micro ou 
retrognatia, presença de epicanto, paralisia facial, localização anormal 
de implantação das orelhas. 
 Olhos: as pálpebras do RN podem estar edemaciadas nos primeiros 
dias, fato que pode dificultar e exame. A presença de secreção ocular 
pode ser causada, muitas vezes, pelo uso de nitrato de prata colírio 
(conjuntivite química). Avaliar presença de hemorragias conjuntivais, 
movimentos oculares incoordenados (estrabismo fisiológico transitório), 
catarata congênita, opacificação da córnea, lacrimejamento anormal. 
 Orelhas: avaliar forma e implantação das orelhas, assim como presença 
de apêndices ou fossetas pré-auriculares, que podem estar relacionadas 
a malformações renais e de trato urinário. 
 Nariz: deve-se avaliar a forma, o tamanho e a permeabilidade das 
narinas. Presença de secreção nasal serossanguinolenta pode estar 
relacionada à sífilis congênita. Obstrução nasal e espirros são comuns 
após o nascimento. 
 Boca: avaliar a coloração das mucosas, presença de dentes precoces, 
cistos orais, fenda labial ou palatina, macroglossia (se presente, pensar 
em hipotireoidismo e síndrome de Down). Pérolas de Epstein: pequenos 
cistos de retenção, de coloração esbranquiçada, localizados na linha 
média, na transição dos palatos duro e mole. São transitórias e sem 
significado clínico. 
 
 Pescoço: atentar para achados como pescoço alado, que é comum na 
Síndrome de Turner e Síndrome de Down. Massas tumorais podem 
corresponder a higroma cístico, teratoma cervical, adenomegalias (pensar 
em infecções congênitas), cisto por persistência do conduto tireoglosso 
(geralmente de localização anterior). 
 
 Tórax: verificar simetria, diâmetro ântero-posterior e presença de 
deformações. Pode estar presente hipertrofia mamária bilateral, que é 
comum e ocorre por ação de hormônios maternos. Palpar clavículas em 
busca de crepitação que possa sugerir fratura (a maioria é do tipo galho-
verde, que pode causar pseudoparalisia de plexo braquial). A respiração no 
recém-nascido é do tipo abdominal, com ritmo irregular, mas retrações são 
sempre patológicas. 
 Ausculta cardíaca: em cerca de 60% dos RN a termo, dentro das 
primeiras 48 horas de vida, podem estar presentes sopros cardíacos 
transitórios, que, a princípio, não necessitam de investigação, a não ser 
que permaneçam além desse período ou que sejam acompanhados de 
sinais de descompensação, como cianose, taquipneia, pulsos fracos ou 
choque. Sempre avaliar atividade pré-cordial, a frequência cardíaca e 
seu ritmo, bulhas e presença de sopros patológicos. RNs a termo podem 
apresentar frequência cardíaca abaixo de 100, principalmente durante o 
sono, mas quando estimulados, a mesma aumenta. 
 Ausculta pulmonar: avaliar entradade ar nos pulmões, presença de 
sinais de insuficiência respiratória, como cianose, gemência, batimentos 
de asa de nariz, taquipneia, estridor expiratório. A frequência respiratória 
de um RN a termo é considerada normal quando entre 30 e 60 
movimentos por minuto. A respiração periódica é comum. 
 
 Abdômen: observar a forma do abdômen. Se escavado, pode sugerir 
presença de hérnia diafragmática. Distensão abdominal pode ser 
encontrada na presença de ascite, sepse, obstrução intestinal, tumorações. 
Massas abdominais nessa faixa etária podem corresponder a 
neuroblastoma, rins policísticos, hidronefrose, tumor de Wilms, cistos 
ovarianos. Na palpação, pode-se perceber o fígado, que geralmente é 
palpável 2,5 cm abaixo do rebordo costal direito. O baço geralmente não é 
palpável. Atentar para a presença de diástase de retos, hérnia umbilical e 
inguinal, que são mais comuns em pacientes pré-termos. Ausência de 
ruídos hidroaéreos pode ser sinal de íleo paralítico. Examinar coto 
umbilical, que onde se identificam 2 artérias e 1 veia. 
 
 Genitália masculina: verificar comprimento do pênis (é considerado 
tamanho normal acima de 2,5 cm), localização do orifício uretral, jato 
urinário, prepúcio, presença de hipospádia ou epispádia. Palpar testículos 
(na bolsa ou no canal inguinal) e verificar a presença de hérnias ou 
hidrocele. Criptorquidia bilateral sugere anomalia da diferenciação sexual 
(o que pode apontar para distúrbios metabólicos graves) e Síndrome de 
Klinefelter. Cerca de 2-5% dos recém-nascidos a termo terão criptorquidia 
unilateral ao nascimento, que deve ser acompanhada durante os primeiros 
meses de vida. Hiperpigmentação da bolsa escrotal pode significar 
presença de alguma síndrome congênita da adrenal. A presença de fimose 
é normal e fisiológica em recém-nascidos. Testículo de consistência 
endurecida, arroxeado e doloroso à manipulação sugere quadro de torção 
testicular, que é uma urgência cirúrgica. A hidrocele não-comunicante pode 
persistir por semanas ou alguns meses, sem necessidade de correção. 
 
 Genitália feminina: verificar tamanho do clitóris, hipertrofia de pequenos 
lábios, fusão de grandes lábios, presença de fístulas, orifício uretral e 
vaginal. Hipertrofia de clitóris, principalmente quando acompanhada de 
hiperpigmentação, pode sugerir excesso de androgênio. Secreção mucoide 
ou sangramento vaginal discreto são comuns devido à ação hormonal 
materna. A imperfuração himenal pode levar à retenção de secreções 
uterinas e vaginais. 
 
 Ânus: observar permeabilidade. A eliminação de mecônio geralmente 
ocorre nas primeiras 48 horas de vida, devendo ser investigada quando 
ultrapassa esse período. 
 
 
 Coluna: examinar com o RN em decúbito ventral, palpando a coluna em 
toda sua extensão para evidenciar defeitos vertebrais, avaliar presença de 
cifose, escoliose, agenesia de sacro ou cóccix. Atentar para presença de 
hipertricose ou fosseta lombossacra, que podem sugerir espinha bífida. 
Meningomielocele e mielocele são mais raras. 
 
 Extremidades: verificar simetria, proporções dos membros, mobilidade, 
fraturas, examinar articulações para afastar luxação congênita de quadril. 
Palpar pulsos femorais para afastar coarctação da aorta. Atentar para 
presença de prega palmar única (simiesca) bilateral, que associada à falta 
da uma falange no 5º dedo podem sugerir Síndrome de Down. Pé torto 
congênito geralmente é simétrico, bilateral e de caráter poligênico. O pé 
torto posicional geralmente é assimétrico, unilateral e decorrente de 
posição anormal intra-uterina. Diferentemente do pé torto verdadeiro, o pé 
torto posicional costuma ser de fácil mobilização, conseguindo-se trazer o 
mesmo facilmente até a linha média. Costuma melhorar com o decorrer 
dos dias. 
 Paralisia braquial: estiramento exagerado das raízes nervosas do plexo 
braquial nas inserções cervicais, geralmente ocorrendo durante um parto 
distócico. Pode ser do tipo Erb-Duchenne, onde o braço e o antebraço 
estão paralisados, em rotação interna e pronação da mão, do tipo 
Klumpke, que atinge apenas a mão, com dificuldade para fechar os 
dedos no estímulo da preensão palmar, ou ambas associadas. A 
paralisia de Klumpke pode estar associada à lesão do nervo frênico 
ipsilateral, podendo haver paralisia diafragmática e alterações 
simpáticas como midríase no lado afetado. Deve-se solicitar avaliação 
neurológica para determinar tipo e grau da lesão, e geralmente a 
fisioterapia motora está indicada após a alta para a recuperação da força 
e sensibilidade do membro afetado. 
 Luxação congênita do quadril: consiste em uma displasia do 
acetábulo, com dificuldade em manter a cabeça do fêmur em posição 
normal. Pode ser descoberta realizando-se a manobra de Ortolani 
(flexão das coxas sobre o abdômen e posterior abdução forçada). Caso 
positiva, encontra-se um clique característico ou uma dificuldade na 
abdução da coxa. É cerca de 7-8 vezes mais comum em meninas. A 
presença de assimetria nas pregas cutâneas da coxa, proeminência 
lateral do grande trocânter femoral ou aparente encurtamento do fêmur 
são sinais de lesão grave e tardia. O acompanhamento ortopédico é 
obrigatório após a alta, para prescrição do tratamento adequado com 
órteses ou cirurgia. 
 
3. Tópicos relevantes no alojamento conjunto 
 Alimentação: sempre orientar quanto à importância do aleitamento 
materno, cuidados com as mamas, a pega e posicionamento correto do 
recém-nascido. Em caso de fissuras, pode-se usar óleo vegetal nos 
mamilos (Dersani®). Em caso de fissuras importantes e dor que estejam 
prejudicando a amamentação, um tratamento com corticóide tópico, como 
a fludroxicortida 3 vezes ao dia por 5 dias, por um período curto pode ser 
orientado (Drenison®). Orientar os pais que o RN pode perder até cerca 
de 10% do peso de nascimento, o qual será recuperado em torno dos 7 
dias de vida no RN a termo e com 14 dias no RN pré-termo. 
 
 Banho: testar a temperatura da água com o dorso da mão ou cotovelo, que 
deve estar em torno de 37°C. Evitar o excesso de sabão para não irritar 
nem ressecar a pele do RN. Não deixar o bebê sozinho na banheira e 
evitar talcos e perfumes pelo risco de alergia cutânea ou respiratória. 
Podem-se usar óleos minerais ou vegetais, assim como uma loção 
hidratante neutra, nos bebês com a pele mais ressecada e descamativa. É 
recomendável utilizar um creme protetor contra assaduras, mas antes se 
deve realizar a limpeza dos resíduos de urina e fezes com um algodão 
embebido em água morna ou óleo. 
 
 Evacuações: a primeira evacuação deve ocorrer até as 48 horas de vida do 
RN. As evacuações iniciais do recém-nascido são verde-escuras e 
pegajosas (mecônio). Após o 3º dia, as fezes tornam-se verde-amareladas 
e mais amolecidas (conhecidas como fezes de transição), torando-se 
amarelo-ouro, explosivas, semi-líquidas e com grumos. Bebês em 
aleitamento materno exclusivo apresentam fezes mais líquidas e 
frequentes. Investigar caso ocorra atraso na eliminação do mecônio, que 
pode ocorrer por imperfuração anal, atresias ou estenoses do trato 
digestivo inferior, doença de Hirschprung, fibrose cística, distúrbios 
metabólicos ou infecção. Não fornecer alta para nenhum RN que não tenha 
eliminado mecônio durante a permanência no alojamento conjunto. 
 
 Micções: alertar para a possibilidade de eliminação de cristais de urato, que 
podem deixar manchas róseo-avermelhadas na fralda, simulando sangue. 
Nenhum bebê receberá alta sem a observação de micções adequadas. 
 
 Eructações e regurgitações: as regurgitações são comuns, já que a maioria 
dos bebês devolve um pouco de leite deglutido logo após as mamadas, 
junto com o ar eructado, o que não traz nenhuma repercussão sobre a 
curva ponderal do RN. Para reduzir a freqüência e o volume das 
regurgitações, recomenda-se não alimentar o RN deitado, não esperar que 
o bebê esteja muito faminto para alimentá-lo(poderá engolir muito ar se 
estiver muito ansioso), colocar o RN em posição dorsal após a mamada e 
com a cabeceira elevada, após ter ficado 5-10 minutos em posição vertical 
para arrotar, mesmo que sem sucesso. Se o bebê for alimentado por 
mamadeira, esta deve ser oferecida inclinada, de forma que o bico esteja 
sempre preenchido com leite, evitando que o RN sugue o ar. O orifício não 
deve ser pequeno nem grande demais, permitindo apenas o gotejamento 
do leite quando a mamadeira é virada para baixo. 
 
 Soluços: são normais, principalmente após as mamadas e quando os 
bebês estão despidos ou molhados. 
 
 Umbigo: aplicar álcool 70% em toda a circunferência e na base, 3 vezes ao 
dia. A queda ocorrerá entre 7-14 dias. Pode ocorrer um pequeno 
sangramento na cicatriz após a queda. Alertar aos pais a procurar 
assistência médica se sangramento abundante, secreção purulenta, mau 
cheiro ou hiperemia ao redor da cicatriz. 
 
 Obstrução nasal: roncos, espirros e dificuldade para amamentar 
secundários à obstrução nasal são freqüentes. Orienta-se a limpeza das 
narinas com solução fisiológica antes das mamadas. 
 
 Testes de triagem: 
 Teste do Reflexo Vermelho (Teste do Olhinho): realizar o exame com 
o oftalmoscópio colocado a aproximadamente 1 metro de distância dos 
olhos do RN, em um local escuro. Observa-se o reflexo nos dois olhos, 
simultaneamente, que deve apresentar um brilho homogêneo de cor 
vermelho-alaranjada. Leucocoria é o nome que se dá ao reflexo branco-
amarelado visto através da pupila., e o recém-nascido que apresentar 
esse reflexo deve ser avaliado por um oftalmologista para excluir a 
presença de catarata, coloboma, coriorretnite, retinoblastoma, infecções 
intra-oculares, entre outras causas. 
 Teste da Orelhinha: é o exame de emissões otoacústicas evocadas 
(EOA). Deve ser realizado antes da alta hospitalar. Caso alterado, 
sugere-se repetir o exame até os 30 dias de vida. 
 Teste do Coraçãozinho: teste de triagem para detectar cardiopatias 
congênitas críticas (canal-dependente), como atresia pulmonar, 
hipoplasia de ventrículo esquerdo, coartação de aorta crítica e 
transposição de grandes vasos, antes das suas manifestações clínicas, 
que podem ser fatais se ocorrerem após a alta. Deve ser realizado após 
as 24 horas de vida do RN, e consiste na medida da saturação 
diferencial (oximetria) em membro superior direito e qualquer membro 
inferior. A saturação deve ser maior de 95% em ambos os membros e 
com diferença menor de 3% entre as 2 medidas. 
 
 Cartão do RN: deve conter informações sobre o tipo de parto, condições de 
nascimento, escore de Apgar, manobras de reanimação necessárias, sexo, 
idade gestacional, classificação do RN (AIG, PIG, GIG), pesos de 
nascimento e de alta, comprimento e perímetro cefálico. Devem constar, 
também, as hipóteses diagnósticas e tratamentos realizados, a evolução 
clínica, os resultados de exames complementares, tipo de alimentação no 
hospital e na alta, a presença e a intensidade de icterícia. 
 
 
4. Outras recomendações para a alta do Recém-nascido: 
 Tempo de permanência: preconiza-se que a alta do RN a termo e 
saudável, que evoluiu sem intercorrências, seja dada com cerca de 48 
horas de vida, com reavaliação ambulatorial em 48-72 horas após a alta 
hospitalar. 
 
 Os pais devem ser orientados a procurarem um serviço de emergência se 
ocorrer algum dos sinais de alerta abaixo: 
 Anorexia, sucção débil ou ausente; 
 Vômitos freqüentes e volumosos; 
 Diarreia com fezes líquidas, fétidas, com muco ou sangue e 
comprometimento do estado geral; 
 Febre (temperatura axilar > 37,8º) sempre deve ser investigada. 
 Hipotermia, prostração, adinamia; 
 Sonolência ou irritabilidade intensa. Choro fraco ou estridente, gritado; 
 Dificuldade respiratória, tosse, gemência, estridor, palidez, cianose, 
icterícia; 
 Alterações no coto umbilical: sangramento (pequenas gotas de sangue 
logo antes ou após a queda são normais), mau cheiro, secreção 
purulenta, hiperemia periumbilical, secreção com aspecto de fezes ou 
urina (persistência do canal onfalomesentérico ou do úraco), dor à 
manipulação. 
 
 Teste do Pezinho: deve ser realizado entre 3-5 dias de vida (sempre antes 
dos 7 dias de vida) no posto de saúde. A triagem básica inclui a detecção 
de hipotireoidismo congênito, fenilcetonúria, hemoglobinopatias e fibrose 
cística. Está em fase de incorporação no Rio Grande do Sul a fase IV do 
PNTN (Programa Nacional de Triagem Neonatal), que inclui a detecção de 
mais 2 doenças no Teste do Pezinho realizado nos postos de saúde: a 
Hiperplasia Adrenal Congênita e a Deficiência de Biotinidase. 
 
 Prevenção de síndrome da morte súbita do lactente (SMSL): ocorre em 
bebês menores de 6 meses e está associada a alguns fatores de risco. Ver 
capitulo ALTE e SMSL (seção emergência e terapia intensiva) 
 Posição para dormir: utilizar o decúbito dorsal (posição supina). Não 
utilizar a posição prona (de bruços). Estudos recentes demonstram que 
a posição lateral apresenta risco de morte súbita semelhante à posição 
prona. Assim, sempre orientar as mães de que a posição ao dormir é um 
dos fatores mais importantes para prevenir a SMSL. 
 Colchão e travesseiros: evitar colchão e travesseiros macios. Manter o 
lençol bem preso sob o colchão. Nunca cobrir a face e a cabeça do 
bebê. Evitar colocar a cabeça do bebê sobre almofadas e edredons. 
Jamais colocar, dentro do berço do RN, almofadas, bichos de pelúcia, 
“paninhos” ou “cheirinhos” com os quais o RN possa se asfixiar. 
 Superaquecimento: evitar. 
 Fumo: bebês expostos ao fumo na gravidez e após o nascimento têm 
maior risco. 
 Alimentação: Bebês em aleitamento materno exclusivo têm menor risco. 
 
 Cólicas do lactente: ocorrem em 20-70% dos bebês normais. Definida 
como paroxismos de irritabilidade, agitação ou choro por pelo menos 3 
horas, em mais de 3 dias por semana, por pelo menos 3 semanas 
seguidas. Ocorrem geralmente ao anoitecer, com início no final da segunda 
semana de vida, intensificando-se entre a 3ª e a 7ª semana e reduzindo de 
forma importante após os 3 meses, embora alguns bebês possam ainda 
apresentar sintomas até os 5 meses. Durante a crise, o lactente chora, fica 
com a face congesta, contrai os músculos abdominais, encolhe e estica as 
pernas e braços, fecha as mãos, elimina flatos, o que traz um alívio 
temporário até iniciar nova crise. O choro é inconsolável e inexplicável, 
trazendo grande ansiedade para toda a família. Deve-se rever a técnica de 
alimentação, colocar o lactente de bruços sobre o abdome da mãe. Os 
movimentos e sons repetitivos podem acalmar (balançar suave, conversar, 
música ou movimento respiratório, ruídos cardíacos e peristálticos). 
Massagear suavemente o abdome, dar um banho morno e relaxante, 
colocar calor local (bolsa de água morna ou pano passado a ferro). Se 
necessário e conforme indicação do pediatra, utilizar antiespasmódicos e 
antiflatulentos. 
 
Referências 
1. Alves Filho, N. Anamnese e Exame Físico do Recém-Nascido. In: Alves 
Filho N, Corrêa MD, Alves Jr JM et al. Perinatologia Básica. 3ª ed. 
MEDSI / Guanabara Koogan 2006; 246-255. 
2. Almeida MFB, Santos AMN. Assistência ao Recém-Nascido a Termo. In: 
Kopelman BI, Santos AMN, Goulart AL et al. Diagnóstico e Tratamento 
em Neonatologia. Atheneu 2004;13-16. 
3. Cochran WD, Lee KG. Assessement of The Newborn: History and 
Physical Examination of the Newborn. In: Manual of Neonatology Care. 
Cloherty JP, Eichenwald EC, Hansen AR, Stark AR .7th ed. Lippincott 
Williams &Wilkings 2012; 91-101. 
4. Sielski LA, McKee-Garrett TM. Assistência ao Recém-Nascido Sadio no 
Berçário. In: Manual de Neonatologia. Cloherty JP, Eichenwald EC, 
Stark AR .6th ed. Lippincott Williams &Wilkings 2010; 58-63. 
5. Lamy ZC, Lamy Filho F. Alojamento Conjunto – Indicações e Vantagens. 
In: ProRN – Programa de Atualização em Neonatologia. Ciclo5, Módulo 
2. Artmed / Panamericana 2008; 77-123.

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