Prévia do material em texto
SEPSE Sepse é uma disfunção no funcionamento de órgãos e sistemas, secundária à resposta desregulada de um hospedeiro a uma infecção. • A sepse é uma disfunção orgânica com risco de vida causada por uma resposta desregulada do hospedeiro à infecção. • É uma resposta inflamatória desregulada a uma infecção, levando a disfunção no funcionamento de órgãos e sistemas. • Diferente do antigo conceito de infecção generalizada, entende-se atualmente que o foco de infecção pode estar localizado em apenas um órgão, como o pulmão, por exemplo; no entanto, é a resposta do organismo para combater o agente infeccioso que provoca uma resposta inflamatória sistêmica descontrolada, não regulada e autossustentável responsável pela lesão celular e disfunções orgânicas atribuídas à sepse. • A sepse faz parte de um continuum de gravidade, que se inicia na infecção não complicada, perpassa a sepse, o choque séptico e culmina na síndrome de disfunção de múltiplos órgãos (SDMOS) e morte. Fatores de risco para pior evolução • extremos de idade, doenças imunossupressoras, câncer, medicamentos imunossupressores, diabetes, abuso de álcool, cateteres venosos ou outras condições que envolvam integridade cutânea. Etiologia • bacterianas Gram-positivas e Gram-negativas • Principais: Staphylococcus aureus, Pseudomonas aeruginosa e Escherichia coli QUADRO CLÍNICO O quadro clínico da sepse é variado e depende do foco da infecção. • Pacientes geralmente apresentam: febre*, taquicardia, taquipneia, leucocitose e hipotensão. • Hipotensão, aumento do TEC, livedo ou cianose podem indicar choque • Conforme o quadro se agrava, surgem sinais de choque circulatório e de outras disfunções orgânicas, por exemplo, síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA), lesão renal aguda (LRA) e coagulação intravascular disseminada (CIVD). *10-15% dos pacientes com sepse não apresentam febre. COMO SUSPEITAR DE SEPSE? • Em pacientes com sinais e sintomas locais ou sistêmicos de infecção, devem ser aplicados escores de suspeição precoce de sepse (NEWS, o qSOFA e o SIRS). Esses escores não confirmam o diagnóstico de sepse, e apenas triam os pacientes de maior gravidade. • O qSOFA se baseia em três parâmetros e uma pontuação ≥ 2 pode ser utilizada para identificar disfunções orgânicas em pacientes em que se suspeita de infecção. • O qSOFA tem alta especificidade para sepse (embora tenha baixa sensibilidade) e é associado a maior mortalidade. • O NEWS se baseia em seis parâmetros vitais e pode classificar o risco de sepse em baixo, médio ou alto. Em pontuações ≥ 4, sugere-se encaminhar o paciente à sala de emergência e iniciar cuidados precoces de atenção ao paciente séptico DIAGNÓSTICO Sepse é diagnosticada em pacientes com infecção (suspeita ou confirmada) associada a disfunção orgânica. • O diagnóstico de disfunção orgânica é feito quando há ≥ 2 no escore SOFA • O escore SOFA não diagnostica sepse e nem permite diferenciar se a disfunção orgânica é prévia (por exemplo, um paciente com doença renal crônica ou cirrose) ou resultado de processos infecciosos. COMO INVESTIGAR O FOCO INFECCIOSO? • Principal causa: pneumonia • Outros focos: Abdome > corrente sanguínea > trato urinário > pele > relacionados ao uso de cateter > SNC. • Cerca de 80% dos casos de sepse são da comunidade Local suspeito Sintomas/sinais Avaliação microbiológica inicial Vias respiratórias superiores Inflamação faríngea mais exsudato ± inchaço e linfadenopatia Cotonete de garganta para cultura aeróbica Trato respiratório inferior Tosse produtiva, dor torácica pleurítica, achados auscultatórios consolidativos Escarro de boa qualidade, teste rápido de influenza, teste de antígeno urinário (por exemplo, pneumococo, legionela ; não recomendado em crianças), cultura quantitativa de escova protegida ou lavado broncoalveolar Trato urinário Urgência, disúria, dor lombar ou nas costas Cultura de urina e microscopia mostrando piúria Cateteres vasculares: arteriais, venosos centrais Vermelhidão ou drenagem no local de inserção Δ Cultura de sangue (do cateter e de um local periférico), ponta do cateter de cultura (se removida) Cateter pleural de demora Vermelhidão ou drenagem no local de inserção Δ Cultura de líquido pleural (através de cateter) Ferida ou queimadura Inflamação, edema, eritema, secreção de pus Coloração de Gram e cultura de pus drenado, cultura de ferida não confiável Pele/tecidos moles Eritema, edema, linfangite Cultura de fluido de bolha ou drenagem de pus; papel dos aspirados de tecido não comprovado Sistema nervoso central Sinais de irritação meníngea Contagem de células no LCR, proteína, glicose, coloração de Gram e cultura ◊ Gastrointestinal Dor abdominal, distensão, diarréia e vômito Cultura de fezes para Salmonella , Shigella ou Campylobacter ; detecção da toxina Clostridium difficile Intra-abdominal Sintomas/sinais abdominais específicos Cultura aeróbica e anaeróbica de coleções de fluidos abdominais drenadas percutaneamente ou cirurgicamente Cateter DP Fluido de DP turvo, dor abdominal Contagem de células e cultura de fluido PD Trato genital Mulher: Dor abdominal baixa, corrimento vaginal Masculino: Disúria, frequência, urgência, incontinência de urgência, urina turva, sensibilidade prostática Feminino: esfregaços endocervicais e vaginais elevados em meio seletivo Masculino: coloração de Gram de urina e cultura Osso Dor, calor, inchaço, diminuição do uso Hemoculturas, ressonância magnética, culturas ósseas em cirurgia ou por radiologia intervencionista Articulação Dor, calor, inchaço, diminuição da amplitude de movimento Artrocentese com contagem de células, coloração de Gram e cultura EXAMES COMPLEMENTARES Solicite exames complementares para: confirmar a infecção, sua etiologia (cultura), disfunções orgânicas (exames do SOFA), além de exames para o diagnóstico ou exclusão de choque séptico • Dois pares de hemoculturas (meios de cultura para anaeróbio e aeróbio) colhidos de dois sítios diferentes (preferencialmente antes da administração de antibióticos) Nenhum exame deve atrasar o manejo inicial do paciente! • Lactato para o diagnóstico de choque séptico (lactato ≥ 18 mg/dL são associados a pior prognóstico e a queda dos níveis de lactato é associada com diminuição da mortalidade) Os níveis de pró-calcitonina apresenta baixo valor diagnóstico, porém sua utilização na suspensão da antibioticoterapia é bem estabelecida em algumas populações: • Para adultos com diagnóstico inicial de sepse ou choque séptico e controle do foco adequado onde a duração ideal da terapia não é clara, sugerimos o uso de pro-calcitonina e avaliação clínica para decidir quando descontinuar os antimicrobianos ao invés de da avaliação clínica isolada. CHOQUE SÉPTICO Pacientes com diagnóstico de sepse podem evoluir desfavoravelmente para disfunção circulatória/hemodinâmica e metabólica, uma condição de choque com mecanismo distributivo, denominada choque séptico. • Choque séptico é definido como necessidade de vasopressor para manter uma PAM ≥ 65 mmHg e nível de lactato sérico > 18 mg/dL, na ausência de hipovolemia. Em pacientes com PAM normal a mortalidade dos pacientes com sepse e lactato elevado chega a 30%. • Os sinais clínicos de má perfusão sistêmica devem ser pesquisados e reconhecidos precocemente, não se devendo aguardar o estabelecimento de critérios diagnósticos para tomada de decisão terapêutica. • O TEC é uma alternativa possível ao lactato sérico como um alvo de ressuscitação na sepse Pode-se diagnosticar um caso de choque antes mesmo que a infecção subjacente seja definitivamente diagnosticada. Nesses casos, uma vez excluídas hipovolemia e síndrome coronariana aguda, é prudente tratar empiricamente choque séptico, enquanto se obtém informaçõesadicionais. TRATAMENTO O tratamento da sepse é focado no agente antimicrobiano, na modulação da resposta inflamatória do hospedeiro e no suporte às suas disfunções orgânicas. ✓ Internar em UTI!!! (a demora da alocação do paciente pode aumentar a mortalidade) ✓ tratamento da infecção ✓ terapia de suporte às disfunções orgânica COMO, QUANDO E QUAL ANTIBIÓTICO DEVO PRESCREVER? A escolha dos antimicrobianos, embora empírica, deve ser personalizada para o paciente e para o agente infeccioso, assim como sua duração. • A antibioticoterapia deve ser iniciada precocemente, preferencialmente em até uma hora (e após a obtenção de culturas), e deve ser direcionada para o foco suspeito de infecção • O atraso da antibioticoterapia pode aumentar a mortalidade. Sugere-se que a antibioticoterapia cubra inicialmente agentes infecciosos Gram-positivos e Gram- negativos. • Principais germes: Escherichia coli, Staphylococcus aureus, Klebsiella pneumoniae, Streptococcus pneumoniae. • Sepse por vírus (ex. COVID-19) deve-se considerar suspensão de antibióticos. • Sepse por fungos deve-se prescrever antifúngicos. Não há consenso em relação aos critérios para suspensão da antibioticoterapia, sendo a melhora clínica, laboratorial e de exames de imagem, bem como o período de tratamento proposto, os principais determinantes Duração de antibioticoterapia em infecções cujo curso curto se mostrou equivalente ao curso longo de tratamento Ressuscitação volêmica Para pacientes com hipoperfusão induzida por sepse ou choque séptico, sugerimos que pelo menos 30 ml/kg de fluido cristalóide intravenoso (IV) devem ser administrados nas primeiras 3 horas de ressuscitação • O valor de 30 mL/kg deve ser objetivado na ressuscitação inicial, mas essa meta deve ser ajustada a cada paciente, evitando fornecer volumes menores ou maiores do que o paciente necessita • Há uma tendência de estratégias de ressuscitação volêmica mais restritivas • A ressuscitação volêmica deve ser administrada em bolus, em infusão rápida, por exemplo, 500 mL aberto. • Esse volume deve ser administrado em alíquotas de 250-500 mL em 10 minutos • Preferir Ringer lactato. Idealmente, a responsividade do paciente à terapia fluida deveria ser avaliada antes de cada infusão. Assumimos como fluidorrespondedor o paciente que apresenta aumento de 15% do débito cardíaco (medido ao ECO) com a manobra de elevação passiva das pernas • Monitore a fluidorresponsividade e a fluidotolerância do paciente a partir de avaliação clínica e POCUS após cada infusão. • Na impossibilidade de avaliação de fluidorresponsividade, sugerimos que a resposta clínico-hemodinâmica e a presença ou ausência de congestão pulmonar sejam avaliadas antes e após cada bolus (fluidotolerância) Embora o lactato não seja um marcador direto de perfusão tecidual, ele tem sido repetidamente descrito como um marcador substituto de desfechos adversos: • Assim, quando maior do que 2 mmol/L (> 18 mg/dL) na admissão do paciente, sugerimos uma segunda dosagem 2-4 h após o início da ressuscitação volêmica, como avaliador de medidas já implantadas e indicador prognóstico DROGAS VASOATIVAS Na maioria dos pacientes, o alvo é manter PAM ≥ 65 mmHg, se necessário com uso de drogas vasopressoras. • Pacientes com história de HAS crônica provavelmente se beneficiam de PAM mais elevada (alvo de 80- 85 mmHg) com melhores desfechos renais. • Já entre pacientes idosos (> 65 anos), uma PAM mais baixa (> 60 mmHg) permite o desmame um pouco mais rápido dos vasopressores, sem qualquer diferença em outros desfechos. Principal droga vasopressora: noradrenalina • As drogas vasoativas podem ser iniciadas em acesso venoso periférico com segurança em um momento inicial de estabilização do paciente. Para adultos com choque séptico em uso de norepinefrina com níveis inadequados de PAM, sugerimos adicionar vasopressina ao invés de aumentar a dose de norepinefrina • Pode-se considerar associação de noradrenalina com vasopressina em pacientes em uso de noradrenalina em dose maior do que 5 μg/minuto por mais de 6 horas. Para adultos com choque séptico e níveis inadequados de PAM apesar da norepinefrina e vasopressina, sugerimos adicionar epinefrina EM PACIENTES NÃO RESPONDEDORES, O QUE MAIS PODE SER FEITO? • Sempre reavalie hipóteses diagnósticas e plano terapêutico. • Terapia inotrópica com dobutamina pode ser utilizada em pacientes que não responderam à reposição volêmica inicial e à terapia com vasopressores com noradrenalina, principalmente se houver suspeita ou diagnostico de débito cardíaco baixo. • Transfusões de hemácias estão reservadas para pacientes com nível de hemoglobina ≤ 7 g/dL. As exceções incluem choque hemorrágico concomitante ou isquemia miocárdica ativa, que têm indicações específicas de hemotransfusão. • Se a terapia de substituição renal estiver indicada, terapias contínuas demonstraram melhores taxas de recuperação renal. Já a diálise precoce parece não ter mostrado resultados benéficos em pacientes com sepse. Glicocorticoides no choque séptico Para adultos com choque séptico e necessidade contínua* de terapia vasopressora, sugerimos o uso de corticosteróides IV • Definimos necessidade contínua como uma dose de norepinefrina ou epinefrina ≥ 0,25 mcg/kg/min por pelo menos 4h após o início das drogas para manter a PAM alvo • A dose recomendada é de 200 mg/dia de hidrocortisona realizada em bolus EV de 50 mg a cada 6 horas ou em infusão contínua, por 7 dias COMO MANEJAR SEPSE COMO UM ESPECIALISTA? • Caso seja necessário fazer intubação orotraqueal em paciente em choque séptico, deve-se evitar drogas cardiodepressoras ou hipotensoras (como midazolam, fentanil e propofol) para indução em sequência rápida. Quetamina e etomidato são boas opções. • Existe preocupação com etomidato e disfunção adrenal em pacientes críticos. No entanto, não existem evidências que demonstrem que dose única de etomidato cause insuficiência adrenal. Manter glicemia sérica < 180 mg/dL, se necessário com insulina de ação rápida. • Em pacientes em ventilação mecânica, deve-se considerar ventilação protetora, com alvo de volume corrente de 6 mL/kg e pressão de platô não excedendo 30 cmH2O. • Considerar profilaxia de úlcera de estresse em pacientes em ventilação mecânica por mais de 48 horas, com coagulopatia ou choque, com omeprazol 40 mg EV 1 vez/dia. • Considear profilaxia de TEV em pacientes com disfunção orgânica: enoxaparina 40 mg SC 1 vez/dia ou heparina 5.000 UI SC 3 vezes/dia. • Pacientes em choque séptico, com necessidade de ventilação mecânica ou de terapia substitutiva renal, ou com disfunção neurológica e alteração de nível de consciência necessitam de internação em unidade de terapia intensiva.