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Autora: Profa. Tais Masotti Lorenzetti Fortes Colaboradoras: Profa. Raquel Machado C. Coutinho Profa. Marília Tavares Coutinho da Costa Patrão Enfermagem Integrada Professora conteudista: Tais Masotti Lorenzetti Fortes Formada em Enfermagem em 1986, trabalhou como enfermeira em unidade de clínica médica, em clínica de doenças infectocontagiosas e no controle de infecções hospitalares enquanto se especializava em Enfermagem Médico-Cirúrgica. Iniciou sua carreira docente em 1994, ministrando disciplinas de Saúde do Adulto e Doenças Transmissíveis. Acreditando na responsabilidade da enfermagem de apresentar as possibilidades terapêuticas e estimular o paciente a participar de seu tratamento, cursou pós-graduação em Marketing. Com a prática reiterada na atenção de idosos, concluiu mestrado em Gerontologia Social. As mudanças pedagógicas a levaram a estudar metodologias participativas e que considerem a vivência anterior do aluno, culminando em outra especialização, agora em Métodos de Aprendizagem Participativa. Doutorou-se em Patologia Clínica, estudando o envelhecimento da pele e propondo métodos de prevenção de lesões pertinentes ao processo de alterações cutâneas. © Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou quaisquer meios (eletrônico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita da Universidade Paulista. U517.24 – 23 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) F738e Fortes, Tais Masotti Lorenzetti. Enfermagem Integrada / Taís Masotti Lorenzetti Fortes. – São Paulo: Editora Sol, 2023. 120 p., il. Nota: este volume está publicado nos Cadernos de Estudos e Pesquisas da UNIP, Série Didática, ISSN 1517-9230. 1. Políticas. 2. Informatização 3. Humanização. I. Título. CDU 616-083 Profa. Sandra Miessa Reitora Profa. Dra. Marilia Ancona Lopez Vice-Reitora de Graduação Profa. Dra. Marina Ancona Lopez Soligo Vice-Reitora de Pós-Graduação e Pesquisa Profa. Dra. Claudia Meucci Andreatini Vice-Reitora de Administração e Finanças Prof. Dr. Paschoal Laercio Armonia Vice-Reitor de Extensão Prof. Fábio Romeu de Carvalho Vice-Reitor de Planejamento Profa. Melânia Dalla Torre Vice-Reitora das Unidades Universitárias Profa. Silvia Gomes Miessa Vice-Reitora de Recursos Humanos e de Pessoal Profa. Laura Ancona Lee Vice-Reitora de Relações Internacionais Prof. Marcus Vinícius Mathias Vice-Reitor de Assuntos da Comunidade Universitária UNIP EaD Profa. Elisabete Brihy Profa. M. Isabel Cristina Satie Yoshida Tonetto Prof. M. Ivan Daliberto Frugoli Prof. Dr. Luiz Felipe Scabar Material Didático Comissão editorial: Profa. Dra. Christiane Mazur Doi Profa. Dra. Ronilda Ribeiro Apoio: Profa. Cláudia Regina Baptista Profa. M. Deise Alcantara Carreiro Profa. Ana Paula Tôrres de Novaes Menezes Projeto gráfico: Prof. Alexandre Ponzetto Revisão: Andressa Picosque Caio Ramalho Sumário Enfermagem Integrada APRESENTAÇÃO ......................................................................................................................................................7 INTRODUÇÃO ...........................................................................................................................................................8 Unidade I 1 POLÍTICAS NACIONAIS DE SAÚDE NO SUS ..............................................................................................9 1.1 Política Nacional de Atenção Básica (Pnab) .................................................................................9 1.1.1 Novas diretrizes da Pnab ..................................................................................................................... 13 1.2 Política Nacional de Atenção Hospitalar (PNHOSP) ............................................................... 14 1.3 Política Nacional de Humanização (PNH) .................................................................................. 18 1.3.1 Acolhimento ............................................................................................................................................. 21 1.3.2 Gestão participativa e cogestão ....................................................................................................... 21 1.3.3 Ambiência .................................................................................................................................................. 22 1.3.4 Clínica ampliada e compartilhada ............................................................................................. 22 1.3.5 Valorização do trabalhador ................................................................................................................. 22 1.3.6 Defesa dos direitos dos usuários ...................................................................................................... 23 1.3.7 Formação e intervenção....................................................................................................................... 23 2 ESTRATÉGIAS PARA O CUIDADO DA PESSOA COM DOENÇA CRÔNICA .................................... 23 2.1 Cuidado da pessoa com doença crônica: hipertensão arterial sistêmica ..................... 30 2.1.1 Diretrizes para o diagnóstico de hipertensão arterial sistêmica ......................................... 34 2.1.2 Terapêutica medicamentosa .............................................................................................................. 34 2.1.3 Terapêutica não medicamentosa ..................................................................................................... 37 2.2 Cuidado da pessoa com doença crônica: diabetes mellitus ............................................... 38 2.2.1 Diagnóstico ............................................................................................................................................... 40 2.2.2 Tratamento ................................................................................................................................................ 49 3 FUNDAMENTOS CIENTÍFICOS SOBRE ONCOLOGIA E TERAPÊUTICA ONCOLÓGICA .............. 52 3.1 Epidemiologia do câncer no Brasil ................................................................................................ 52 3.2 A enfermagem na terapêutica oncológica ................................................................................ 53 4 CUIDADOS PALIATIVOS E MODELOS ASSISTENCIAIS ........................................................................ 55 4.1 Aspectos históricos do cuidado paliativo ................................................................................... 55 4.2 Conceito e princípios de cuidados paliativos............................................................................ 57 4.3 O cuidado paliativo no Brasil .......................................................................................................... 58 Unidade II 5 PREVENÇÃO E TRATAMENTO DE FERIDAS ............................................................................................. 64 5.1 Cicatrização ............................................................................................................................................ 65 5.2 Avaliação da ferida .............................................................................................................................. 65 5.3 Tipos de cobertura ............................................................................................................................... 68 6 PROGRAMA NACIONAL DE SEGURANÇA DO PACIENTE (PNSP) .................................................. 70 6.1 Evento adverso ...................................................................................................................................... 72 6.2 Dez passos para a segurança do paciente.................................................................................. 73 6.2.1Primeiro passo: identificação do paciente ................................................................................... 73 6.2.2 Segundo passo: cuidado limpo e seguro (higienização das mãos) .................................... 74 6.2.3 Terceiro passo: cateteres e sondas (conexões corretas) .......................................................... 74 6.2.4 Quarto passo: cirurgia segura ............................................................................................................ 75 6.2.5 Quinto passo: sangue e hemocomponentes (administração segura) ............................... 75 6.2.6 Sexto passo: paciente envolvido com sua segurança .............................................................. 76 6.2.7 Sétimo passo: comunicação efetiva ............................................................................................... 76 6.2.8 Oitavo passo: prevenção de queda .................................................................................................. 77 6.2.9 Nono passo: prevenção de lesão por pressão ............................................................................. 77 6.2.10 Décimo passo: segurança no uso da tecnologia ..................................................................... 79 7 INFORMATIZAÇÃO EM SAÚDE ................................................................................................................... 80 7.1 Padrões de registro e documentação ........................................................................................... 80 7.2 Modelos de registro de enfermagem ........................................................................................... 82 7.2.1 Cipe ............................................................................................................................................................... 82 7.2.2 Padrão Nanda, Classificação das Intervenções de Enfermagem (NIC) e Classificação dos Resultados de Enfermagem (NOC) .......................................................................... 84 7.2.3 Outros modelos ....................................................................................................................................... 86 7.3 Prontuário eletrônico do paciente (PEP), Sistema de Informações em Enfermagem e prontuário pessoal ....................................................................................................... 87 7.4 E-saúde, telessaúde ............................................................................................................................. 90 7.5 Sobre a Biblioteca Virtual da Atenção Primária à Saúde (BVS APS) ............................... 92 8 HEMOCOMPONENTES E HEMODERIVADOS ......................................................................................... 94 8.1 Hemocomponentes ............................................................................................................................. 95 8.1.1 Concentrado de hemácias (CH) ......................................................................................................... 95 8.1.2 Plasma fresco congelado (PFC) ......................................................................................................... 95 8.1.3 Crioprecipitado (Crio) ............................................................................................................................ 96 8.1.4 Concentrado de plaquetas (CP) ........................................................................................................ 96 8.2 Competências do enfermeiro .......................................................................................................... 96 8.3 Reações transfusionais ....................................................................................................................... 99 7 APRESENTAÇÃO Este material destina-se a fomentar a reflexão acerca de aspectos da prática de enfermagem por vezes abordados em certos conteúdos, mas cuja crescente relevância social demanda reforço. A interdisciplinaridade da enfermagem é discutida, visando levar o aluno a ponderar as conexões existentes entre as diversas áreas com o propósito de desenvolver raciocínio clínico que considere os aspectos holísticos do ser humano, em um trabalho integrado e transdisciplinar. São objetivos também equipar o aluno para conhecer, planejar, desenvolver e avaliar o cuidado do paciente oncológico e em cuidados paliativos e de sua família, assim como discutir os programas de saúde específicos para a saúde do homem e para as populações indígena, negra, em situação de rua e com algum tipo de deficiência. Além disso, são analisados os prontuários eletrônicos – cada vez mais presentes e que se somam às propostas de segurança do paciente, objetivando uma assistência comprometida com o atendimento profissional e planejado do cliente, paciente, família e sociedade – e os modelos de registro, documentação e planejamento de enfermagem disponíveis no momento, como o padrão Nanda, a Classificação das Intervenções de Enfermagem (NIC), a Classificação dos Resultados de Enfermagem (NOC), a Classificação Internacional para a Prática de Enfermagem (Cipe) e outros. Desta forma, em resumo, são objetivos específicos desta disciplina incentivar a reflexão sobre as conexões existentes entre as disciplinas e conteúdos apresentados até o momento, favorecer o desenvolvimento de raciocínio clínico que considere os aspectos holísticos do ser humano e estimular habilidades de analisar crítica e clinicamente as situações que se apresentam na prática de enfermagem. Este material de estudo reúne conhecimentos por vezes pouco trabalhados ao longo da graduação, mas cada vez mais presentes na prática profissional, como os relacionados a cuidados paliativos, segurança do paciente e inclusão. 8 INTRODUÇÃO O processo de formação profissional oferece ao longo do curso informações que muitas vezes não entendemos ou valorizamos por falta de outros conhecimentos ou de maturidade. Rever alguns destes conteúdos em outros momentos ou com outra apresentação muitas vezes dá a eles um significado diferente. Com isso, nesta disciplina nos propomos a revisitar alguns conteúdos da atenção básica, como doenças crônicas e políticas de atenção básica e hospitalar, pois, com as experiências somadas, é possível articular informações e situações atuais com maior profundidade. Em primeiro lugar, resgatando a história do Sistema Único de Saúde (SUS), apresentaremos as propostas para a atenção básica e hospitalar. Na sequência, direcionaremos estas informações para programas de saúde de grande relevância e estratégias utilizadas para agir nas doenças crônicas não transmissíveis. Exibiremos então as propostas de acolhimento nas políticas de humanização, abordando o cuidado de pacientes oncológicos e em cuidados paliativos. Há espaço ainda para discutir o cuidado com feridas, a segurança do paciente e a informatização em saúde, incluindo várias modalidades de registro e a telenfermagem, finalizando com importantes apontamentos sobre hemoterapia. Que esta seja uma oportunidade para recordar, agregando e amadurecendo o conhecimento anteriormente adquirido. 9 ENFERMAGEM INTEGRADA Unidade I 1 POLÍTICAS NACIONAIS DE SAÚDE NO SUS 1.1 Política Nacional de Atenção Básica (Pnab) A universalidade é o eixo estrutural da atenção básica no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), que, considerando a pessoa em sua singularidade social e cultural, proporciona a ela uma atenção integral, além de incorporar ações de vigilância em saúde num processo contínuo e sistemático de coleta, análise e disseminação de dados. Isso se dá visando planejar e implementar ações públicas para a proteção da saúde da população, e para a prevenção e redução de riscos, agravos e doenças (BRASIL, 2011b, 2017). A atenção básica é caracterizada como a porta de entrada preferencial do SUS, e relaciona-se ao cuidado das pessoas e a um papel estratégico na rede de atenção à saúde,servindo como base para a integralidade. Entre as estratégias do cuidar, o Programa Saúde da Família, criado em 1994, amplia a cobertura de saúde, voltando-se à população em situação social mais vulnerável, e vem, ao longo dos anos, organizando o processo de trabalho com equipes multiprofissionais, base territorial e responsabilidade sanitária. Com suas ações de saúde ampliadas e com a Rede de Atenção à Saúde (RAS), o Programa melhorou os índices de resolutividade, cuidado clínico, cuidado terapêutico e diagnóstico. Diante de todas as necessidades, percebeu-se a indispensabilidade de políticas públicas voltadas a essa situação de saúde, promulgando-se em 2006 a Política Nacional de Atenção Básica (Pnab), inserida no contexto dos Pactos pela Saúde (BRASIL, 2006c). Ela ainda teve uma segunda edição em 2011, com a Portaria n. 2.488 (BRASIL, 2011b), que estabeleceu diretrizes e normas para a organização da atenção básica, para a Estratégia Saúde da Família (ESF) e para o Programa de Agentes Comunitários de Saúde. Sua terceira edição data de 2017 (BRASIL, 2017). A Pnab é resultado da consolidação do SUS e da experiência de movimentos sociais populares, trabalhadores e gestores das três esferas de governo. A Portaria n. 2.488/2011 esclarece em seu Anexo I que seu objetivo é definir “a organização de [RAS] como estratégia para um cuidado integral e direcionado às necessidades de saúde da população”, além de destacar a atenção básica como primeiro ponto de atenção e porta de entrada preferencial do SUS, devendo ordenar os fluxos e contrafluxos de pessoas, produtos e informações em todos os pontos de atenção à saúde (BRASIL, 2011b). O texto segue indicando que “o Decreto n. 7.508, de 28 de julho de 2011, […] define que ‘o acesso universal, igualitário e ordenado às ações e serviços de saúde se inicia pelas portas de entrada do SUS e se completa na rede regionalizada e hierarquizada’” (BRASIL, 2011b). A RAS apresenta arranjos que contribuem para o atendimento continuado das necessidades de serviços de saúde integral e com qualidade da população assistida. A atenção básica é primordial para 10 Unidade I a perenidade da assistência à saúde dos que necessitam de um cuidado maior. Por exemplo, os casos de pacientes crônicos não podem ser resolvidos apenas por um sistema de saúde fragmentado mediante equipamentos de pronto atendimento ambulatorial e hospitalar; demandam também ações de cuidado – que envolvem hospitais, pronto atendimento, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) etc. –, promoção da saúde – englobando campanhas de educação em saúde, ESF e unidades básicas de saúde (UBS) –, acompanhamento (nas UBS e pela ESF) e continuidade (em hospitais e pelo programa Melhor em Casa) no atendimento de saúde prestado à população (COSTA; RAMIRES, 2014). Unidade coronariana (UCO) Enfermaria de leitos crônicos Atenção domiciliar Unidade de atenção ao acidente vascular encefálico (Uave) Unidade de pronto atendimento Unidade de saúde com sala de estabilização Unidade básica de saúde Central de regulação Samu Enfermaria de leitos clínicos Unidade de terapia intensiva para pacientes críticos Figura 1 – Exemplo de pontos de atenção secundários e terciários que compõem uma RAS Fonte: Oliveira (2016, p. 34). Visando melhorar a articulação dos serviços ofertados na atenção básica, a Pnab estabelece princípios e diretrizes que caracterizam sua relação e orientam sua organização nos municípios. Seus princípios estão descritos no quadro 1. Quadro 1 – Princípios do SUS na atenção básica Universalidade Possibilitar o acesso universal e contínuo a serviços de saúde de qualidade e resolutivos, caracterizados como a entrada preferencial da RAS (primeiro contato), acolhendo as pessoas e promovendo a vinculação e a corresponsabilização pela atenção às suas necessidades de saúde Equidade Ofertar o cuidado reconhecendo as diferentes condições de vida e de saúde de acordo com as necessidades de cada pessoa. Considerar que o direito à saúde passa pelas diferenciações sociais e deve atender à diversidade, ficando proibida qualquer exclusão baseada em idade, gênero, cor, crença, nacionalidade, etnia, orientação sexual, identidade de gênero, estado de saúde, condição socioeconômica, escolaridade ou limitação física, intelectual ou funcional, entre outras Integralidade É o conjunto de serviços executados pela equipe de saúde que atendem às necessidades biológicas, psicológicas, ambientais e sociais da população adscrita, visando combater os fatores que causam doenças, promover e manter a saúde, prevenir doenças e agravos, curar, reabilitar, reduzir danos e prover cuidados paliativos Adaptado de: Brasil (2011b, 2017). 11 ENFERMAGEM INTEGRADA As diretrizes que regem o SUS, a serem operacionalizadas na atenção básica, são descritas no quadro 2. Quadro 2 – Diretrizes da atenção básica Regionalização e hierarquização Refere-se à atenção básica como ponto de comunicação da RAS, considerando as regiões de saúde um recorte espacial estratégico para fins de planejamento, organização e gestão de redes de ações e serviços de saúde Territorialização e adstrição Permite a programação descentralizada e o desenvolvimento de ações setoriais e intersetoriais com foco em um território específico, impactando a situação, os condicionantes e os determinantes da saúde das pessoas e coletividades que constituem aquele espaço e estão, portanto, adstritos nele População adscrita Trata-se da população que está presente no território da UBS. O objetivo é estimular o vínculo e a responsabilização entre as equipes e a população, garantindo a continuidade das ações de saúde e a longitudinalidade do cuidado, a fim de se tornar referência Cuidado centrado na pessoa Aponta para a elaboração de ações singularizadas de cuidado que auxiliem as pessoas a desenvolver conhecimentos, aptidões, competências e confiança necessários para gerir e tomar decisões embasadas sobre sua própria saúde e seu cuidado de forma mais efetiva Resolutividade Refere-se à importância de a atenção básica ser resolutiva, utilizando e articulando diferentes tecnologias de cuidado individual e coletivo, por meio de uma clínica ampliada capaz de construir vínculos positivos e intervenções clínica e sanitariamente efetivas, centrada na pessoa e na perspectiva de ampliação dos graus de autonomia dos indivíduos e dos grupos sociais Longitudinalidade do cuidado Pressupõe a continuidade da relação de cuidado, com vinculação e responsabilização entre profissionais e usuários ao longo do tempo e de modo permanente e consistente, acompanhando os efeitos das intervenções em saúde e de outros elementos na vida das pessoas, evitando, assim, a perda de referências Coordenação do cuidado Trata-se de elaborar, acompanhar e organizar o fluxo dos usuários entre os pontos de atenção das RAS, articulando também as outras estruturas das redes de saúde e intersetoriais, públicas, comunitárias e sociais Ordenação das redes Significa reconhecer as necessidades de saúde da população sob sua responsabilidade, organizando-as em relação aos outros pontos de atenção à saúde, contribuindo para que o planejamento das ações e a programação dos serviços de saúde partam dessas necessidades Participação da comunidade Requer estimular a participação das pessoas, a orientação comunitária das ações de saúde na atenção básica e a competência cultural no cuidado como forma de ampliar a autonomia e capacidade dos indivíduos de cuidar da sua saúde e a das pessoas e coletividades do território Adaptado de: Brasil (2011b, 2017). População Sistemas de apoio Rede de Atenção à Saúde Sistemas logísticos Modelos de saúde Sistema de governança Pontos de atenção terciários Pontos de atenção secundários Centro de comunicação (atenção primária à saúde) Figura 2 – Elementos constitutivos da RAS Adaptada de: Mendes (2011). 12 Unidade I A equipe de saúde deve buscar a integralidadeda atenção de modo a superar a fragmentação da assistência. Isso significa compreender o usuário como ser singular em suas diferentes dimensões biológicas, psicológicas, econômicas, sociais e culturais, além de atentar-se a todos os pontos essenciais para dar vazão às suas necessidades de saúde. E essas ações devem ser de fato resolutivas (BRASIL, 2011b; COSTA; RAMIRES, 2014). As atividades das equipes de atenção básica devem seguir as disposições legais que regulamentam o exercício de cada uma das profissões. Assim, é importante tratarmos das atividades específicas do enfermeiro, destacando a seguir suas obrigações: I – Realizar atenção à saúde aos indivíduos e famílias vinculadas às equipes e, quando indicado ou necessário, no domicílio e/ou nos demais espaços comunitários (escolas e associações, entre outras), em todos os ciclos de vida; II – Realizar consulta de enfermagem, procedimentos, solicitar exames complementares, prescrever medicações conforme protocolos, diretrizes clínicas e terapêuticas, ou outras normativas técnicas estabelecidas pelo gestor federal, estadual, municipal ou do Distrito Federal, observadas as disposições legais da profissão; III – Realizar e/ou supervisionar acolhimento com escuta qualificada e classificação de risco, de acordo com protocolos estabelecidos; IV – Realizar estratificação de risco e elaborar plano de cuidados para as pessoas que possuem condições crônicas no território, junto aos demais membros da equipe; V – Realizar atividades em grupo e encaminhar, quando necessário, usuários a outros serviços, conforme fluxo estabelecido pela rede local; VI – Planejar, gerenciar e avaliar as ações desenvolvidas por técnicos/auxiliares de enfermagem, ACS [agentes comunitários de saúde] e ACE [agentes de combate às endemias] em conjunto com os outros membros da equipe; VII – Supervisionar as ações do técnico/auxiliar de enfermagem e ACS; VIII – Implementar e manter atualizados rotinas, protocolos e fluxos relacionados a sua área de competência na UBS; e IX – Exercer outras atribuições conforme legislação profissional, e que sejam de responsabilidade na sua área de atuação (BRASIL, 2017, Anexo, 4.2.1). 13 ENFERMAGEM INTEGRADA 1.1.1 Novas diretrizes da Pnab A Portaria n. 2.436/2017 do Ministério da Saúde aprovou a Pnab no Brasil, revisando as diretrizes para a organização da atenção básica no SUS. Essa portaria define a atenção básica, ou atenção primária à saúde (APS), como o conjunto de ações de saúde individuais, familiares e coletivas que envolvem promoção, prevenção, proteção, diagnóstico, tratamento, reabilitação, redução de danos, cuidados paliativos e vigilância em saúde, desenvolvido por meio de práticas de cuidado integrado e gestão qualificada, realizada com equipe multiprofissional e dirigida à população em território definido (BRASIL, 2017, art. 2º). Com as novas diretrizes, a Pnab permite que o gestor trabalhe a sua equipe de acordo com suas especificidades e necessidades. Ela também traz novidades em relação ao financiamento da atenção básica, reconhecendo novos modelos de atenção e ampliando o número de equipes que receberão recursos do Ministério da Saúde. Essa regra permite ao gestor municipal compor suas equipes de atenção básica de acordo com as características e as necessidades locais, com a presença de médicos, enfermeiros e auxiliares e/ou técnicos de enfermagem (BRASIL, 2017). Além disso, como já mencionado, a portaria define a organização em RAS como estratégia para o cuidado integral e direcionado às necessidades de saúde da população, com destaque para a atenção básica como o primeiro ponto de atenção e entrada preferencial no sistema de saúde (BRASIL, 2017). Para entender a atualização dos referenciais da Pnab, as principais mudanças dos princípios e diretrizes que regem o SUS na atenção básica estão descritas no quadro 3. Quadro 3 – Principais diferenças entre as versões da Pnab de 2011 e 2017 Principais mudanças Pnab 2011 Pnab 2017 Integração, atenção básica e vigilância Agentes de combate às endemias (ACE) não compunham a equipe de Saúde da Família (eSF), não tendo atribuições relacionadas a Vigilância e tendo processo de trabalho e território diferentes ACE pode ser membro da eSF e da equipe da atenção básica (eAB). O território é considerado único e há planejamento integrado das ações, sendo incorporadas as atribuições do ACE conforme a Lei n. 11.350/2006 (BRASIL, 2006a) Núcleo Ampliado de Saúde da Família e Atenção Básica (Nasf-AB) O Núcleo de Apoio de Saúde da Família (Nasf) era somente eSF e atuava no matriciamento Nasf-AB pode se vincular às eSF e eAB e complementar as ações das equipes, tendo maior resolutividade Oferta de serviços e ações essenciais e ampliados da atenção básica Processo iniciado pelo Programa Nacional de Melhoria do Acesso e da Qualidade (PMAQ) Criação de uma lista de ações e serviços que devem ser disponibilizados pelas UBS, ampliando o atendimento Territorialização/vínculo Usuário só podia se vincular a uma UBS Usuário pode se vincular a mais de uma UBS, através de negociação entre gestão e equipes, mantendo as informações com a equipe de referência 14 Unidade I Principais mudanças Pnab 2011 Pnab 2017 Regulação Aparece de forma superficial Atribui aos membros da equipe a função de contribuir com os processos de regulação do acesso a partir da atenção básica Sinaliza a telessaúde e a utilização de protocolos como ferramentas de apoio e aperfeiçoamento do processo de regulação Saúde bucal Equipe de Saúde Bucal (eSB) vinculada somente às eSF ou equipes parametrizadas pelo PMAQ eSB podem compor as eSF e eAB Formação e educação na saúde Educação permanente não versava sobre formação em saúde (ensino na saúde) Reforça o papel da UBS como espaço de formação da força de trabalho para a atenção básica (formação técnica, graduação e residência em saúde) Incorpora a temática do ensino na saúde (integração, ensino, serviço), destacando o papel da atenção básica como lócus de formação na graduação e na residência, de pesquisa e extensão Pontos de apoio Não reconhecia os pontos de apoio Reconhece os pontos de apoio como estrutura física que compõe a atenção básica/SUS para atendimento às populações dispersas e destaca que os pontos de apoio devem respeitar as normas gerais de segurança sanitária e acolhimento humanizado da população Credenciamento de equipes Não tratava do credenciamento das equipes Inclui nas regras de credenciamento o prazo de quatro meses para implantação, após publicação no Diário Oficial da União, sob pena de descredenciamento Composição das eSF e eAB eSF mínima com médico, enfermeiro, técnico/auxiliar de enfermagem e ACS, podendo ser complementada com saúde bucal Não havia padrão; o município podia definir composição e carga horária eSF mínima com médico, enfermeiro, técnico/ auxiliar de enfermagem e ACS, podendo ser complementada com saúde bucal e ACE Carga horária semanal definida (40 h), assim como a composição das eAB (máximo de três profissionais por categoria pelo mínimo de 10 h) Gerente de atenção básica Não era mencionado Reconhece o papel do gerente de UBS, a depender da necessidade local. O gerente deve ter nível superior, preferencialmente na área da saúde, e, caso seja enfermeiro, a UBS deverá ter outro enfermeiro para as ações clínicas eAB Não era reconhecida e não recebia custeio estadual ou federal É reconhecida, mas apresenta caráter transitório (em direção à eSF), e seu financiamento tem valor inferior ao das eSF Adaptado de: Brasil (2011b, 2017). 1.2 Política Nacional de Atenção Hospitalar (PNHOSP) A PNHOSP foi instituída pela Portaria n. 3.390/2013 (BRASIL, 2013d), que estabelece as diretrizes para a organização do componente hospitalar da RAS. É aplicada a todos os hospitais, públicos ou privados, que prestem ações e serviços de saúde no âmbito do SUS. 15 ENFERMAGEM INTEGRADA Essa Portaria descreve que a assistênciahospitalar no SUS é organizada a partir das necessidades da população, a fim de garantir o atendimento aos usuários, com apoio de uma equipe multiprofissional que atua no cuidado e na regulação do acesso, na qualidade da assistência prestada e na segurança do paciente (BRASIL, 2013d). De forma integrada aos demais pontos de atenção da RAS e com outras políticas intersetoriais, a assistência tem como objetivo garantir resolução da atenção e continuidade do cuidado, assegurando a equidade e a transparência, sempre de forma pactuada com os colegiados do SUS (BRASIL, 2013d). Os hospitais são instituições complexas, com densidade tecnológica específica, de caráter multiprofissional e interdisciplinar, responsáveis pela assistência aos usuários em condições agudas ou crônicas, que apresentem quadro de instabilidade e de complicações de seu estado de saúde, exigindo assistência contínua em regime de internação e ações que abrangem a promoção da saúde, a prevenção de agravos, o diagnóstico, o tratamento e a reabilitação. Os hospitais, enquanto integrantes da RAS, deverão atuar de forma articulada à atenção básica, que tem a função de coordenar o cuidado e ordenar a RAS, de acordo com a Portaria n. 2.488/2011, que aprovou a Pnab. Os hospitais, além de prestar assistência, são ainda espaços de educação, formação de recursos humanos, pesquisa e avaliação de tecnologias em saúde para a RAS (BRASIL, 2011b). Quadro 4 – Alguns conceitos importantes Acessibilidade hospitalar Condição para uso seguro e autônomo, total ou assistido, de espaços, mobiliários e equipamentos do hospital por pessoa com deficiência ou mobilidade reduzida Acolhimento Escuta ética e adequada das necessidades de saúde do usuário no momento de procura ao serviço de saúde e na prestação de cuidados com a finalidade de atender à demanda com resolutividade e responsabilidade Apoio matricial Suporte técnico especializado ofertado a uma equipe interdisciplinar de saúde a fim de ampliar seu campo de atuação e qualificar suas ações, invertendo a lógica da fragmentação dos saberes Auditoria clínica Análise crítica e sistemática da qualidade de atenção à saúde prestada no hospital, incluindo os procedimentos usados para diagnóstico e tratamento, uso dos recursos e resultados para os usuários Classificação de risco Protocolo preestabelecido com a finalidade de agilizar o atendimento a partir da análise do grau de necessidade do usuário, proporcionando atenção centrada no nível de complexidade e não na ordem de chegada Clínica ampliada Dispositivo de atenção à saúde centrado nas necessidades de cada usuário e no seu contexto, articulando um conjunto de práticas capazes de potencializar a capacidade de atuação dos profissionais por meio da implantação das equipes de referência, construção de vínculo e elaboração de projetos terapêuticos compartilhados com os usuários, buscando ampliar os recursos de intervenção sobre o processo saúde-doença Diretrizes terapêuticas Recomendações desenvolvidas de modo sistemático para auxiliar os profissionais de saúde e usuários no momento da tomada de decisões acerca de circunstâncias clínicas específicas Gerência Administração de uma unidade ou órgão de saúde (como ambulatório, hospital, instituto e fundação) que se caracteriza como prestador de serviços do SUS 16 Unidade I Gestão Atividade e responsabilidade de comandar um sistema de saúde municipal, distrital, estadual ou nacional, exercendo as funções de coordenação, articulação, negociação, planejamento, acompanhamento, controle, avaliação e auditoria Gestão da clínica Práticas assistenciais e gerenciais desenvolvidas a partir da caracterização do perfil dos usuários por meio da gestão de leitos, corresponsabilização das equipes e avaliação de indicadores assistenciais Gerenciamento de leitos Dispositivo para otimizar a utilização dos leitos, aumentando a rotatividade segundo critérios técnicos a fim de diminuir o tempo de internação desnecessário e abrir novas vagas para demandas represadas Horizontalização do cuidado Forma de organizar o trabalho em saúde na qual existe uma equipe multiprofissional de referência que atua diariamente no serviço (em contraposição à forma de organização do trabalho em que os profissionais têm uma carga horária distribuída por plantão) Linha de cuidado Estratégia de organização da atenção que viabiliza a integralidade da assistência por meio de um conjunto de saberes, tecnologias e recursos necessários ao enfrentamento de riscos, agravos ou demais condições específicas do ciclo de vida ou outro critério sanitário. Esse conjunto deve ser ofertado de forma oportuna, articulada e contínua, abrangendo os campos da promoção, prevenção, tratamento e reabilitação Núcleo Interno de Regulação (NIR) Interface com as Centrais de Regulação para delinear o perfil de complexidade da assistência de sua instituição no SUS e disponibilizar consultas ambulatoriais, serviços de apoio diagnóstico e terapêutico e leitos de internação, segundo critérios preestabelecidos para o atendimento, além de buscar vagas de internação e apoio diagnóstico e terapêutico fora do hospital para os pacientes internados, quando necessário Núcleo de Acesso e Qualidade Hospitalar (NAQH) Núcleo composto por profissionais das diversas áreas do hospital cuja finalidade é garantir a qualidade da gestão do serviço de urgência e emergência e dos leitos de retaguarda às urgências, na forma da Portaria n. 2.395/2011 Modelo de atenção Forma como é organizado o sistema de saúde a partir da compreensão do processo saúde-doença Plano terapêutico Plano de cuidado de cada paciente elaborado pela equipe multiprofissional com o objetivo de avaliar ou reavaliar diagnósticos e riscos, redefinindo as linhas de intervenção terapêutica dos profissionais envolvidos no cuidado Ponto de atenção Espaço para prestar serviços de saúde por meio de uma produção singular, como uma unidade ambulatorial especializada, uma unidade de atenção domiciliar, uma unidade de atenção paliativa etc. Prontuário único Documento destinado ao registro dos cuidados prestados ao usuário por todos os profissionais de saúde Portas hospitalares de urgência e emergência Serviços instalados em uma unidade hospitalar com atendimento ininterrupto do conjunto de demandas espontâneas e referenciadas de urgências e emergências clínicas, pediátricas, obstétricas, cirúrgicas, traumatológicas etc. Protocolo clínico Documento que padroniza o atendimento a determinada patologia ou condição clínica, identificando as ações de prevenção, diagnóstico, tratamento e reabilitação RAS Rede de serviços em determinado território, organizados sistematicamente para que os diferentes níveis e densidades tecnológicas estejam articulados e adequados de forma regulada para o atendimento ao usuário Visita aberta Acesso dos visitantes às unidades de internação a qualquer tempo Adaptado de: Brasil (2013d). 17 ENFERMAGEM INTEGRADA A seguir são apresentadas as diretrizes da PNHOSP: I – garantia de universalidade de acesso, equidade e integralidade na atenção hospitalar; II – regionalização da atenção hospitalar, com abrangência territorial e populacional, em consonância com as pactuações regionais; III – continuidade do cuidado por meio da articulação do hospital com os demais pontos de atenção da RAS; IV – modelo de atenção centrado no cuidado ao usuário, de forma multiprofissional e interdisciplinar; V – acesso regulado de acordo com o estabelecido na Política Nacional de Regulação do SUS; VI – atenção humanizada em consonância com a Política Nacional de Humanização; VII – gestão de tecnologia em saúde de acordo com a Política Nacional de Incorporação de Tecnologias do SUS; VIII – garantia da qualidade da atenção hospitalar e segurança do paciente; IX – garantia da efetividade dos serviços, com racionalização da utilização dos recursos, respeitando as especificidades regionais; X –financiamento tripartite pactuado entre as três esferas de gestão; XI – garantia da atenção à saúde indígena, organizada de acordo com as necessidades regionais, respeitando-se as especificidades socioculturais e direitos estabelecidos na legislação, com correspondentes alternativas de financiamento específico de acordo com pactuação com subsistema de saúde indígena; XII – transparência e eficiência na aplicação de recursos; XIII – participação e controle social no processo de planejamento e avaliação; e XIV – monitoramento e avaliação (BRASIL, 2013d, art. 6º). 18 Unidade I Dentro da PNHOSP foram estabelecidos seis eixos estruturadores: I – assistência hospitalar; II – gestão hospitalar; III – formação, desenvolvimento e gestão da força de trabalho; IV – financiamento; V – contratualização; e VI – responsabilidades das esferas de gestão (BRASIL, 2013d, art. 7º). Saiba mais Para compreender melhor os seis eixos estruturantes, leia o capítulo III da PNHOSP: BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria n. 3.390, de 30 de dezembro de 2013. Brasília, 2013d. Disponível em: https://bit.ly/3jjRdLw. Acesso em: 3 jan. 2023. 1.3 Política Nacional de Humanização (PNH) A Política Nacional de Humanização (PNH), também conhecida como HumanizaSUS, “foi criada pelo Ministério da Saúde, em 2003, a partir do reconhecimento de experiências inovadoras e concretas que compõem um ‘SUS que dá certo’” (MARTINS; LUZIO, 2017, p. 14). Em sua apresentação, a PNH reconhece que podem ser apontados avanços na descentralização e na regionalização da atenção e da gestão da saúde, através da ampliação dos níveis de universalidade, equidade, integralidade e controle social, mas observa que a fragmentação e a verticalização dos processos de trabalho enfraqueceram as relações entre os diferentes profissionais da saúde e entre estes e os usuários (BRASIL, 2004). As iniciativas de humanização para a saúde se apresentam, em geral, de modo vago e associadas a atitudes humanitárias, de caráter filantrópico, voluntárias, e não como um direito à saúde. E raras vezes o trabalhador é incluído nessas práticas (BRASIL, 2004). Com isso, a humanização deve admitir que “aumentar o grau de corresponsabilidade dos diferentes atores que constituem a rede SUS, na produção da saúde, implica mudança na cultura da atenção dos usuários e da gestão dos processos de trabalho” (BRASIL, 2004, p. 7). A PNH tem como propósitos (BRASIL, 2004): • contagiar trabalhadores, gestores e usuários do SUS com os princípios e as diretrizes da humanização; • fortalecer iniciativas de humanização existentes; 19 ENFERMAGEM INTEGRADA • desenvolver tecnologias relacionais e de compartilhamento das práticas de gestão e de atenção; • aprimorar, ofertar e divulgar estratégias e metodologias de apoio a mudanças sustentáveis dos modelos de atenção e de gestão; • implementar processos de acompanhamento e avaliação, ressaltando saberes gerados no SUS e experiências coletivas bem-sucedidas. Visando direcionar a implantação das mudanças de humanização, foram propostos três macro-objetivos, relacionados a seguir: • ampliar as ofertas da PNH aos gestores e aos conselhos de saúde, priorizando a atenção básica/ fundamental e hospitalar, com ênfase nos hospitais de urgência e universitários; • incentivar a inserção da valorização dos trabalhadores do SUS na agenda dos gestores, dos conselhos de saúde e das organizações da sociedade civil; • divulgar a PNH e ampliar os processos de formação e produção de conhecimento em articulação com movimentos sociais e instituições. A humanização como estratégia de interferência no processo de produção de saúde leva em conta que sujeitos sociais, quando mobilizados, convocados, são capazes de transformar realidades, transformando-se a si próprios nesse mesmo processo (BENEVIDES; PASSOS, 2005). Ao considerar a humanização como conjunto de estratégias para qualificar a atenção e a gestão em saúde no SUS, com a avaliação dos serviços oferecidos, foi possível identificar prioridades na PNH: • redução de filas e do tempo de espera, com ampliação do acesso; • atendimento acolhedor e resolutivo, baseado em critérios de risco; • implantação de modelo de atenção com responsabilização e vínculo; • garantia dos direitos dos usuários; • valorização do trabalho na saúde; • gestão participativa nos serviços. Pensando nas várias frentes de atuação, cada uma tem seu papel: No eixo das instituições do SUS, pretende-se que a PNH faça parte dos planos estaduais e municipais dos vários governos, discutidos e aprovados pelos gestores e pelos conselhos de saúde correspondentes. 20 Unidade I No eixo da gestão do trabalho, propõe-se a promoção de ações que assegurem a participação dos trabalhadores nos processos de discussão e decisão, reconhecendo, fortalecendo e valorizando seu compromisso com o processo de produção de saúde e seu crescimento profissional. No eixo da educação permanente, indica-se que a PNH componha o conteúdo profissionalizante na graduação, na pós-graduação e na extensão em saúde, vinculando-a aos Polos de Educação Permanente e às instituições formadoras. No eixo da informação/comunicação, indica-se […] sua inclusão no debate da saúde, visando à ampliação do domínio social sobre a PNH. No eixo da atenção, propõe-se […] democratização da gestão dos serviços e da ampliação da atenção integral à saúde, promovendo a intra e a intersetorialidade com responsabilização sanitária pactuada entre gestores e trabalhadores. No eixo do financiamento, propõe-se a integração de recursos vinculados a programas específicos de humanização e outros recursos de subsídio à atenção, unificando-os e repassando-os fundo a fundo mediante adesão, com compromisso, dos gestores à PNH. No eixo da gestão da PNH, indica-se a pactuação com as instâncias intergestoras e de controle social do SUS, o acompanhamento, o monitoramento e a avaliação sistemáticos das ações realizadas, de modo integrado às demais políticas de saúde, estimulando a pesquisa relacionada às necessidades do SUS na perspectiva da humanização (BRASIL, 2004, p. 10-11). É possível implantar a PNH em todas as esferas do SUS, inclusive na atenção básica: elaborando projetos de saúde individuais e coletivos para usuários e sua rede social, considerando as políticas intersetoriais e as necessidades de saúde; incentivando práticas que promovam a saúde; estabelecendo formas de acolhimento e inclusão do usuário que otimizem os serviços e viabilizem o fim das filas, a hierarquização de riscos, o acesso aos demais níveis do sistema e ainda o comprometimento com o trabalho em equipe, de modo a aumentar o grau de corresponsabilidade, e com a rede de apoio profissional, visando a maior eficácia na atenção em saúde (BRASIL, 2006b). Também se aplica na urgência e emergência, nos prontos-socorros, nos prontos atendimentos, na assistência pré-hospitalar e em outros postos para acolher a demanda por critérios de avaliação de risco, garantindo acesso referenciado aos demais níveis de assistência. Envolve ainda comprometer-se com a referência e a contrarreferência, aumentando a resolução da urgência e emergência, provendo o acesso à estrutura hospitalar e a transferência segura, conforme a necessidade dos usuários, e definir 21 ENFERMAGEM INTEGRADA protocolos clínicos, garantindo a eliminação de intervenções desnecessárias e respeitando as diferenças e as necessidades do sujeito (BRASIL, 2006b; VASCONCELOS; MARTINS; MACHADO, 2014). Todas as propostas atendem a princípios que merecem ser relembrados, como a transversalidade, sendo inserida em todas as políticas e programas propostos pelo SUS. A PNH busca a relação entre trabalho, pessoas e grupos sem a referência de hierarquia, e reconhece que as especialidades se completam e interagem através de quem é assistido, estimulando a corresponsabilidade (BRASIL, 2006b). Outro desses princípios é a indissociabilidade entre gestão e assistência, partindo do pressuposto de que a gestãointerfere diretamente na atenção à saúde. Trabalhadores e usuários devem conhecer e participar ativamente da gestão e do processo decisório nas organizações de saúde e nas ações de saúde coletiva. Contempla ainda a participação do usuário e sua família no seu próprio cuidado, sendo responsáveis pelo seu tratamento e de seus familiares. Protagonismo, corresponsabilidade e autonomia compõem o terceiro princípio. Ao contribuir com as propostas de atenção, os usuários se tornam mais que só pacientes, os trabalhadores se tornam mais que simples cumpridores de funções: são todos atores responsáveis que reconhecem a importância de sua atuação, autônoma e construtiva – o que resulta em maior adesão (BRASIL, 2006b). Para que estas propostas saiam do papel ou do discurso e se tornem ação, sugere-se incluir trabalhadores, usuários e gestores nos processos de trabalho. A comunicação e o espaço entre os três grupos de participantes provocam movimento que produz mudança contínua, estimulando novos modos de cuidar e de organizar o trabalho, sendo recurso para a produção de saúde; ou seja, a inclusão das diferenças nos processos de gestão e cuidado humaniza a assistência. A seguir são apresentados conceitos que refletem as estratégias para implantação da PNH. 1.3.1 Acolhimento É a responsabilização do trabalhador/equipe pelo usuário que implica identificar suas expectativas e reais necessidades, acompanhando-o desde sua chegada até sua saída do serviço de saúde. Ao ouvir a queixa, as preocupações e as angústias do usuário com escuta qualificada, o profissional é capaz de analisar a demanda, garantindo atenção integral, resolutiva e responsável através do envolvimento das redes internas e externas dos serviços para dar continuidade à assistência quando necessário, incluindo sua cultura e saberes. A articulação com os outros serviços de saúde assegura a eficácia de encaminhamentos (VASCONCELOS; MARTINS; MACHADO, 2014). 1.3.2 Gestão participativa e cogestão Significa incluir novos sujeitos nos processos de gestão, que será exercida por um conjunto mais ampliado de indivíduos que compõem a organização, assumindo-se que todos são gestores de seus processos de trabalho. 22 Unidade I A PNH distingue arranjos de cogestão em dois grupos: o primeiro diz respeito à organização do espaço coletivo de gestão que permita o acordo entre necessidades e interesses de usuários, trabalhadores e gestores; o segundo refere-se aos mecanismos que garantem a participação ativa de usuários e familiares no cotidiano das unidades de saúde, acompanhando o atendimento das prioridades estabelecidas. A organização de espaços coletivos de gestão para a produção de acordos e pactos entre usuários, trabalhadores e gestores deve ser garantida, assegurando o atendimento das necessidades percebidas pela comunidade. São exemplos os Colegiados Gestores de Hospitais, o Colegiado Gestor da Unidade de Saúde, as Mesas de Negociação Permanente, os Contratos de Gestão, os Contratos Internos de Gestão, a Câmara Técnica de Humanização, a Gerência de Porta Aberta, entre outros. São espaços que permitem a experimentação da cogestão na saúde (BRASIL, 2010a). 1.3.3 Ambiência Entende que o espaço físico deve ser acolhedor e dar condições para o usuário confiar na assistência, refletindo na maior possibilidade de adesão ao tratamento proposto. Organizar espaços saudáveis e acolhedores de trabalho traduz um duplo desafio: o de sintonizar “o que fazer” com o “como fazer”. A soma de diferentes campos do saber e profissões, tais como o dos arquitetos, dos engenheiros, dos médicos, dos nutricionistas, dos enfermeiros, dos usuários, entre outros, valoriza o processo de construção coletiva a partir de diferentes olhares. Trata-se, assim, de um modo de fazer que afirme as especificidades do saber de cada um em relação de interferência para a produção de um objetivo comum, refletindo em um ambiente adaptado a cada comunidade, espelhando suas características (BRASIL, 2006b). 1.3.4 Clínica ampliada e compartilhada Consiste em aumentar a autonomia do usuário, da família e da comunidade do serviço de saúde. É integrar a equipe de trabalhadores de diferentes áreas da saúde na busca de um cuidado e tratamento de acordo com cada caso, individualizado, criando um vínculo com o usuário pela adesão à proposta desenvolvida com ele e para ele. O risco e a vulnerabilidade do indivíduo são considerados, e o diagnóstico é feito não só com base no saber dos especialistas, mas também na história de quem está sendo cuidado, de modo a possibilitar decisões compartilhadas e compromissadas. Essa estratégia usa outros enfoques além da avaliação orgânica, e qualifica o diálogo e as relações, entendo-as como terapêuticas. Além disso, responsabiliza o usuário no compromisso com sua terapia e doença (BRASIL, 2006b). 1.3.5 Valorização do trabalhador Dá visibilidade à experiência dos trabalhadores e estimula sua participação nas decisões, entendendo que o trabalhador é quem detém mais informações sobre suas necessidades e acreditando na sua capacidade de analisar, definir e qualificar os processos de trabalho (BRASIL, 2006b). O Programa de Formação em Saúde do Trabalhador e as Comunidades Ampliadas de Pesquisa seguem a proposta da clínica ampliada e possibilitam o diálogo, a intervenção e a análise do que gera sofrimento e 23 ENFERMAGEM INTEGRADA adoecimento, do que fortalece o grupo de trabalhadores e do que propicia os acordos de como agir no serviço de saúde (BENEVIDES; PASSOS, 2005; BRASIL, 2011d). 1.3.6 Defesa dos direitos dos usuários Implica incentivar o conhecimento dos direitos dos usuários garantidos por lei e assegurar que sejam cumpridos em todas as fases do cuidado, desde a recepção até a alta. Esse conhecimento permite qualificar a relação entre usuário e serviço (BRASIL, 2004). 1.3.7 Formação e intervenção Atende aos princípios de adequação às mudanças constantes de perfil do usuário e demandas de saúde. A PNH é vivenciada e reinventada continuamente por princípio, através de cursos e oficinas de formação/intervenção e a partir da discussão dos processos de trabalho. Em todo o Brasil, os trabalhadores são formados técnica e politicamente e reconhecidos como multiplicadores e apoiadores da PNH em suas localidades. Saiba mais Para saber mais sobre a PNH e estratégias de humanização, acesse o site a seguir: ÁREAS temáticas BVS MS: humanização: publicações. BVS, [s.d.]. Disponível em: https://bit.ly/3v65Jth. Acesso em: 15 out. 2018. 2 ESTRATÉGIAS PARA O CUIDADO DA PESSOA COM DOENÇA CRÔNICA Devido aos processos de transição demográfica, epidemiológica e nutricional, a urbanização e o crescimento econômico e social contribuem para o maior risco de desenvolvimento de doenças crônicas na população. As doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) são as principais causas de mortalidade em todo o mundo. No Brasil, as doenças cardiovasculares, os cânceres, as doenças respiratórias crônicas e o diabetes mellitus (DM) são as principais DCNT, tendo sido responsáveis, em 2015, por 51,6% do total de óbitos na população entre 30 e 69 anos (BRASIL, 2011a). As DCNT constituem o problema de saúde de maior magnitude no Brasil, e correspondem a 72% das causas de mortes. Assim como no cenário mundial, no país as DCNT atingem fortemente as camadas mais pobres da população e demais grupos vulneráveis (BRASIL, 2011a). Suas principais causas incluem fatores de risco modificáveis, como tabagismo, consumo nocivo de bebida alcoólica, inatividade física e alimentação inadequada. Em termos de mortes atribuíveis às DCNT, os grandes fatores de risco globais conhecidos são: hipertensão (responsável por 13% das mortes no mundo), tabagismo (9%), hiperglicemia (6%), 24 Unidade I inatividade física (6%), sobrepeso e obesidade (5%). Vale destacar que as taxas de mortalidade por doenças cardiovasculares e respiratórias crônicas estão diminuindo, possivelmente como resultado do controle do tabagismo e do maior acesso à atençãoprimária, além da melhoria da assistência e da redução do tabagismo nas últimas duas décadas, que passou de 34,8% em 1989 para 15,1% em 2010 (BRASIL, 2011a, 2014). Entretanto, as taxas de mortalidade por diabetes e câncer aumentaram nesse mesmo período (BRASIL, 2011a). Saiba mais Acessando o documento a seguir, você pode conhecer melhor o plano de ações que o Ministério da Saúde traçou para as DCNT: BRASIL. Ministério da Saúde. Plano de ações estratégicas para o enfrentamento das doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) no Brasil: 2011-2022. Brasília: Ministério da Saúde, 2011a. Disponível em: https://bit.ly/3V8wY0E. Acesso em: 2 jan. 2023. Os fatores de risco para as DCNT são monitorados no Brasil por meio de diferentes inquéritos de saúde, com destaque para a Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel). Já a vigilância epidemiológica de DCNT é responsabilidade da Coordenação-Geral de Vigilância das Doenças e Agravos não Transmissíveis e Promoção da Saúde, subordinada ao Departamento de Vigilância de Doenças e Agravos não Transmissíveis e Promoção da Saúde, pertencente à Secretaria de Vigilância em Saúde. Esse monitoramento se configura em um conjunto de ações e processos que permitem conhecer a ocorrência, a magnitude e a distribuição das DCNT e de seus principais fatores de risco no país, bem como identificar seus determinantes e condicionantes econômicos, sociais e ambientais. Além disso, uma das ações da vigilância de DCNT visa caracterizar sua tendência temporal, e por isso são fundamentais para o planejamento, o monitoramento e a avaliação das ações de cuidado integral e das políticas públicas de prevenção e controle das DCNT no Brasil (BRASIL, 2014). Os três componentes essenciais da vigilância de DCNT são: • monitoramento dos fatores de risco; • monitoramento da morbidade e mortalidade das DCNT; • monitoramento e avaliação das ações de assistência e promoção da saúde. O instrumento norteador dessa prática é o Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento das Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT) no Brasil: 2011-2022 (BRASIL, 2011a). Esse documento 25 ENFERMAGEM INTEGRADA apresenta a vigilância de DCNT como um de seus eixos, sendo também detalhados indicadores, metas, objetivos e ações a serem desenvolvidas por essa vigilância. Entre as metas, podemos destacar: • redução de mortalidade prematura (entre pessoas de 30 a 69 anos) por DCNT em 2% ao ano; • diminuição da prevalência de tabagismo em 30%; • aumento dos índices de mamografia em mulheres de 50 a 69 anos para 70% em dois anos; • ampliação dos índices de Papanicolau em mulheres de 25 a 64 anos para 85% em três anos; • aumento da prática de atividade física no tempo livre em 10%; • contenção do crescimento da obesidade em adultos; • aumento do consumo recomendado de frutas e hortaliças em 10%; • redução do consumo abusivo de bebidas alcoólicas em 10%. Dessas metas, cinco estão sendo atingidas: a redução da mortalidade prematura (entre pessoas de 30 a 69 anos) por DCNT, a diminuição da prevalência de tabagismo, o aumento do índice de mamografia em mulheres de 50 a 69 anos nos últimos dois anos, a ampliação da prática de atividade física no tempo livre e o aumento do consumo recomendado de frutas e hortaliças (BRASIL, 2011a). O Plano aborda os quatro principais grupos de DCNT (doenças circulatórias, câncer, doenças respiratórias crônicas e diabetes) e seus fatores de risco em comum modificáveis – tabagismo, álcool, inatividade física, alimentação não saudável e obesidade (BRASIL, 2011a). Define ainda diretrizes e ações em três eixos: • vigilância, informação, avaliação e monitoramento; • promoção da saúde; • cuidado integral. Os quadros 5 a 7 especificam as principais ações de cada eixo. 26 Unidade I Quadro 5 – Principais diretrizes e ações do Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento das DCNT no eixo vigilância, informação, avaliação e monitoramento Diretrizes Componentes essenciais Monitorar os fatores de risco Monitorar a morbidade e mortalidade específicas das doenças Avaliar as respostas dos sistemas de saúde (que também incluem gestão, políticas, planos, infraestrutura, recursos humanos e acesso a serviços de saúde essenciais, inclusive a medicamentos) Principais ações Realizar a Pesquisa Nacional de Saúde junto com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), abordando temas como acesso aos serviços e sua utilização, morbidade, fatores de risco e proteção de doenças crônicas, saúde de idosos, mulheres e crianças, além de fazer medições antropométricas, de pressão arterial e coleta de material biológico Elaborar estudos sobre DCNT com análises de morbimortalidade e inquéritos com foco em desigualdades em saúde (populações vulneráveis como indígenas e quilombolas), intervenções em saúde e custos de DCNT Criar um portal na internet para monitorar e avaliar a implantação do Plano Nacional de Enfrentamento das DCNT, bem como desenvolver um sistema de gestão de DCNT Adaptado de: Brasil (2011a). Quadro 6 – Principais diretrizes e ações do Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento das DCNT no eixo promoção da saúde Diretrizes Componentes essenciais Compreendendo a importância das parcerias para superar os fatores determinantes do processo saúde-doença, foram definidas diferentes ações envolvendo diversos ministérios (Educação, Cidades, Esporte, Desenvolvimento Agrário, Desenvolvimento Social, Meio Ambiente, Agricultura/Embrapa, Trabalho e Planejamento), a Secretaria Especial de Direitos Humanos, a Secretaria de Segurança Pública, órgãos de trânsito e outros, além de organizações não governamentais, empresas e sociedade civil, com o objetivo de viabilizar intervenções que reduzissem a incidência dessas doenças e de seus fatores de risco, em especial para as populações em situação de vulnerabilidade 27 ENFERMAGEM INTEGRADA Diretrizes Principais ações Atividade física Implantar o Programa Academia da Saúde, construindo espaços saudáveis que promovam a saúde e estimulem atividade física, práticas corporais, lazer e modos de vida saudáveis em articulação com a atenção básica em saúde Instituir o Programa Saúde na Escola, propondo ações de avaliação nutricional, avaliação antropométrica, detecção precoce de hipertensão arterial sistêmica, promoção de atividades físicas e corporais, da alimentação saudável e de segurança alimentar no ambiente escolar Construir praças com o Programa de Aceleração do Crescimento, como forma de integrar atividades e serviços culturais, práticas esportivas e de lazer Reformular espaços urbanos saudáveis com a criação do Programa Nacional de Calçadas Saudáveis e construção e reativação de ciclovias, parques, praças e pistas de caminhadas Fomentar campanhas de comunicação que incentivem a prática de atividade física e hábitos saudáveis, associadas a grandes eventos culturais e esportivos Alimentação saudável Promover ações de alimentação saudável por meio do Programa Nacional de Alimentação Escolar Aumentar a oferta de alimentos saudáveis por meio de parcerias e acordos com a sociedade civil (agricultores familiares, pequenas associações e outros) para aumentar a produção e a oferta de alimentos in natura. Apoiar iniciativas intersetoriais para expandir a oferta de alimentos básicos e minimamente processados Regular a composição nutricional dos alimentos processados por meio de acordos com o setor produtivo e parcerias com a sociedade civil visando prevenir DCNT e promover a saúde (com redução do sal e do açúcar nos alimentos) Diminuir os preços dos alimentos saudáveis por meio da redução de impostos, taxas e subsídios, objetivando estimular seu consumo Implantar o Plano Intersetorial de Controle e Prevenção da Obesidade visando reduzir a obesidade na infância e na adolescência e detectar o aumento do índice de obesidade em adultos Regulamentar especificamente a publicidade de alimentos,principalmente para crianças Tabagismo e álcool Adequar a legislação nacional que regula o ato de fumar em recintos coletivos Ampliar as ações de prevenção e cessação do tabagismo, com atenção especial aos grupos mais vulneráveis (jovens, mulheres, população de menor renda e escolaridade, indígenas e quilombolas) 28 Unidade I Diretrizes Principais ações Fortalecer a implementação da política de preços e de aumento de impostos dos produtos derivados de tabaco e álcool a fim de reduzir seu consumo, conforme preconizado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) Apoiar a intensificação de ações fiscalizatórias em relação à venda de bebidas alcoólicas a menores de 18 anos Fortalecer, no Programa Saúde na Escola, ações educativas voltadas à prevenção e à redução do uso de álcool e tabaco Apoiar iniciativas locais de legislação específica em relação ao controle de pontos de venda de álcool e horário noturno de fechamento de bares e outros pontos correlatos de comércio Envelhecimento ativo Implantar um modelo de atenção integral ao envelhecimento ativo, favorecendo ações de promoção da saúde, prevenção e atenção integral Promover o envelhecimento ativo e ações de saúde suplementar Incentivar os idosos para a prática da atividade física regular no programa Academia da Saúde Capacitar as equipes da atenção básica para atender, acolher e cuidar da pessoa idosa e de pessoas com condições crônicas Incentivar a ampliação da autonomia e independência para o autocuidado e o uso racional de medicamentos Criar programas para formação de cuidadores de pessoas idosas e de pessoas com condições crônicas na comunidade Adaptado de: Brasil (2011a). Quadro 7 – Principais diretrizes e ações do Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento das DCNT no eixo cuidado integral Diretrizes Componentes essenciais Realizar ações visando fortalecer a capacidade de resposta do SUS e ampliar um conjunto de intervenções diversificadas capazes de prover uma abordagem integral da saúde com vistas à prevenção e ao controle das DCNT 29 ENFERMAGEM INTEGRADA Diretrizes Principais ações Estabelecer linha de cuidado de DCNT, definindo e implementando protocolos e diretrizes clínicas com base em evidências de custo-efetividade, vinculando os portadores ao cuidador e à equipe da atenção básica, garantindo a referência e a contrarreferência para a rede de especialidades e a rede hospitalar, favorecendo a continuidade do cuidado e a integralidade na atenção. Outro fator importante é desenvolver um sistema de informação de gerenciamento de DCNT Capacitar as equipes da atenção básica em saúde, expandindo recursos de telemedicina, segunda opinião e cursos a distância, qualificando a resposta às DCNT Ampliar o acesso gratuito aos medicamentos e insumos estratégicos previstos nos protocolos clínicos e diretrizes terapêuticas das DCNT e do tabagismo Fortalecer as ações de prevenção e qualificação do diagnóstico precoce e tratamento dos cânceres do colo de útero e de mama; garantir acesso ao exame preventivo e à mamografia de rastreamento de qualidade a todas as mulheres nas faixas etárias e periodicidade preconizadas, independentemente de renda ou raça/cor, reduzindo desigualdades; garantir tratamento adequado às mulheres com diagnóstico de lesões precursoras; garantir avaliação diagnóstica dos casos de mamografia com resultado anormal; e garantir tratamento adequado aos casos de mulheres com diagnóstico confirmado de câncer de mama ou diagnóstico de lesões benignas Fortalecer, por meio do Saúde Toda Hora e da Rede de Atenção às Urgências, o cuidado ao portador de DCNT na rede de urgência, integrando as unidades de promoção, prevenção e atendimento à saúde com o objetivo de ampliar e qualificar o acesso humanizado e integral aos usuários em situação de urgência nos serviços de saúde de forma ágil e oportuna Ampliar o atendimento domiciliar de pessoas com dificuldades de locomoção ou que precisem de cuidados regulares, mas não de hospitalização, por meio de um conjunto de ações de promoção à saúde, prevenção e tratamento de doenças e reabilitação prestadas em domicílio com garantia de continuidade de cuidados e integradas às RAS Estabelecer linha do cuidado do infarto agudo do miocárdio e de acidente vascular encefálico na Rede de Atenção às Urgências, qualificando e integrando todas as unidades de saúde da Rede para permitir que os pacientes com essas condições sejam atendidos, diagnosticados e tratados rapidamente, com acesso às terapias estabelecidas nos protocolos clínicos e diretrizes terapêuticas, garantindo acesso a tratamento adequado em tempo hábil Adaptado de: Brasil (2011a). Lembrete No Brasil, as DCNT correspondem ao problema de saúde de maior magnitude (72% das causas de morte). Assim como no cenário mundial, no país as DCNT atingem sobretudo as camadas mais pobres da população e demais grupos vulneráveis. 30 Unidade I 2.1 Cuidado da pessoa com doença crônica: hipertensão arterial sistêmica A hipertensão arterial (HA) atinge, no Brasil, 36 milhões de indivíduos adultos, correspondendo a 32,5% da população, e mais de 60% dos idosos. Direta ou indiretamente, essa condição contribui para 50% das mortes por doença cardiovascular. Associada ao DM, suas complicações cardíacas, renais e vasculares, como o acidente vascular encefálico, têm impacto elevado na perda da produtividade do trabalho e da renda familiar (MALACHIAS et al., 2016). A hipertensão arterial sistêmica (HAS) é o principal fator de risco para as doenças cardiovasculares, sendo uma condição clínica associada a elevada mortalidade. Salienta-se ainda que cerca de 80% dos hipertensos apresentam comorbidades como diabetes, dislipidemia, tabagismo ou histórico familiar de ateromatose (BRASIL, 2013b; MALACHIAS et al., 2016). Acidente vascular encefálico, infarto agudo do miocárdio, insuficiência cardíaca, doença arterial periférica e doença renal crônica são enfermidades relacionadas a HA que levam a agravos na saúde e até a morte súbita (MALACHIAS et al., 2016). Acidente vascular encefálico Doença renal crônica Infarto agudo do miocárdio Hipertensão/ morte súbita Doença arterial periférica Figura 3 – Agravos à saúde associados a HA que podem levar a morte súbita A HA é uma condição clínica multifatorial caracterizada pela elevação nos níveis pressóricos (≥ 140 mmHg e/ou 90 mmHg). É frequentemente associada a distúrbios metabólicos e alterações funcionais e/ou estruturais de órgãos-alvo, sendo agravada pela presença de outros fatores de risco, como dislipidemia, obesidade abdominal, intolerância à glicose e DM (BRASIL, 2013b; MALACHIAS et al., 2016). A pré-hipertensão (PH) é uma condição caracterizada por pressão arterial sistólica (PAS) entre 121 mmHg e 139 mmHg e/ou pressão arterial diastólica (PAD) entre 81 mmHg e 89 mmHg. Ela se associa a um maior risco de desenvolvimento de HA e anormalidades cardíacas, pois cerca de um terço dos eventos cardiovasculares atribuíveis à elevação da pressão arterial ocorre em indivíduos com pré-hipertensão. Meta-análises de incidência de doença cardiovascular, doença isquêmica do coração e acidente vascular encefálico em indivíduos pré-hipertensos mostraram que o risco foi maior naqueles com pressão arterial entre 130 mmHg e 139 mmHg ou 85 mmHg e 31 ENFERMAGEM INTEGRADA 89 mmHg do que naqueles com valores entre 120 mmHg e 129 mmHg ou 80 mmHg e 84 mmHg (MALACHIAS et al., 2016). A avaliação inicial de um usuário com HA deve incluir a confirmação do diagnóstico, a suspeição e a identificação de causa secundária, além da avaliação do risco cardiovascular. Lesões de órgão-alvo e doenças associadas também devem ser investigadas. Fazem parte também dessa avaliação a medição da pressão arterial, o exame físico e a investigação clínica e laboratorial. Propõem-se avaliações gerais dirigidas a todos e, em alguns casos, avaliações complementares apenas para grupos específicos (MALACHIAS et al., 2016). De formageral, sugere-se realizar exames anualmente. O profissional deverá estar atento ao acompanhamento de cada caso, considerando sempre o risco cardiovascular, as metas de cuidado e as complicações existentes (BRASIL, 2013b). A consulta de enfermagem faz parte da estratégia dirigida a grupos de risco que propõe uma adequada intervenção educativa em indivíduos com valores de pressão arterial limítrofes (que estão mais predispostos à hipertensão). As medidas equivalem às propostas para tratamento não medicamentoso da HA (BRASIL, 2013b). Nesse contexto, a consulta de enfermagem objetiva promover a educação em saúde para a prevenção primária da doença por meio do estímulo à adoção de hábitos saudáveis de vida, além de avaliar e estratificar o risco para doenças cardiovasculares (BRASIL, 2013b). A prevenção primária da HA pode ser feita mediante controle de seus fatores de risco, entre os quais é possível citar sobrecarga na ingestão de sal, excesso de adiposidade, especialmente na cintura abdominal, e abuso de álcool. Duas estratégias de prevenção podem ser consideradas: uma visando à população em geral e outra dirigida especialmente aos grupos de risco. A primeira defende reduzir a exposição a fatores de risco, principalmente com relação ao consumo de sal. O profissional poderá atuar nessa estratégia por meio de ações educativas coletivas com a população em geral para orientá-la a restringir a adição de sal no preparo de alimentos e a identificar a quantidade de sal e/ou sódio presente nos alimentos industrializados, entre outros (BRASIL, 2013b). Para os usuários hipertensos, o foco do processo educativo nas consultas de enfermagem será também orientá-los acerca das medidas que reduzem a pressão arterial, como hábitos alimentares adequados, manutenção do peso e de um perfil lipídico desejável, estímulo à vida ativa e aos exercícios físicos regulares, redução do consumo de bebidas alcoólicas e do estresse e abandono do tabagismo (BRASIL, 2013b). 32 Unidade I Quadro 8 – Principais medidas na consulta de enfermagem para acompanhamento da pessoa com HA Consulta de enfermagem Investigação: histórico Coletar informações sobre a pessoa, a família e a comunidade com o propósito de identificar necessidades, problemas, preocupações ou reações Identificar a pessoa (coletar dados socioeconômicos e relacionados a ocupação, moradia, trabalho, escolaridade, lazer, religião, rede familiar, vulnerabilidades e potencial para o autocuidado) Anotar os antecedentes familiares e pessoais Registrar as queixas atuais, principalmente as indicativas de lesão de órgão-alvo, como tontura, cefaleia, alterações visuais, dor precordial, dispneia, paresia, parestesia, edema e lesões de membros inferiores Identificar a percepção da pessoa diante da patologia, do tratamento e do autocuidado Anotar as medicações em uso e a presença de efeitos colaterais Investigar os hábitos de vida (alimentação, sono, repouso, atividade física, higiene e funções fisiológicas) Identificar os fatores de risco (diabetes, tabagismo, alcoolismo, obesidade, dislipidemia, sedentarismo e estresse) Pesquisar a presença de lesões em órgãos-alvo ou doenças cardiovasculares (envolve doenças cardíacas, como hipertrofia de ventrículo esquerdo, angina ou infarto prévio do miocárdio, revascularização miocárdica prévia, insuficiência cardíaca; episódio isquêmico ou acidente vascular encefálico; nefropatia; doença vascular arterial periférica; retinopatia hipertensiva) Investigação: exame físico Realizar medidas antropométricas (altura, peso, circunferência abdominal e índice de massa corporal) Aferir a pressão arterial com a pessoa sentada e deitada Mensurar as frequências cardíaca e respiratória Aferir os pulsos radial e carotídeo Investigar alterações na visão Inspecionar a pele (integridade, turgor, coloração e manchas) Inspecionar a cavidade oral (dentes, prótese, queixas, dores, desconfortos e data do último exame odontológico) Avaliar o tórax/abdômen e realizar a ausculta cardiopulmonar e abdominal Avaliar os membros superiores e inferiores: unhas, dor, edema, pulsos pediosos e lesões; articulações (capacidade de flexão, extensão, limitações de mobilidade e edemas); pés (bolhas, sensibilidade, ferimentos, calosidades e corte das unhas) Diagnóstico Interpretar os resultados e fazer as devidas conclusões quanto às necessidades, aos problemas e às preocupações da pessoa diante dos dados obtidos na anamnese para direcionar o plano assistencial 33 ENFERMAGEM INTEGRADA Consulta de enfermagem Planejamento Para prevenir, minimizar ou corrigir os problemas identificados, é importante, no planejamento da assistência, orientar o usuário sobre os seguintes tópicos: – doença e processo de envelhecimento; – motivação para alterar hábitos de vida não saudáveis (fumo, estresse, bebida alcoólica e sedentarismo); – percepção da presença de complicações; – medicamentos em uso (indicação, doses, horários, efeitos desejados e colaterais); – solicitação e avaliação dos exames previstos no protocolo assistencial local (quando pertinente, encaminhar a outros profissionais) Implementação Deverá progredir conforme as necessidades e o grau de risco do usuário e a sua capacidade de adesão e motivação para o autocuidado, a cada consulta Avaliação Avaliar com a pessoa e a família o quanto as metas de cuidados foram alcançadas e o seu grau de satisfação com o tratamento. Observar se ocorreu alguma mudança a cada retorno Averiguar a necessidade de mudança ou adaptação no processo de cuidado e reestruturar o plano de acordo com essa necessidade Registrar em prontuário todo o processo de acompanhamento Adaptado de: Brasil (2013b). O intervalo das consultas deve ser determinado pelo grau de severidade da condição clínica e pela capacidade de autocuidado do indivíduo e da família. Essa capacidade de autocuidado deve ser sistematicamente avaliada levando-se em consideração aspectos socioeconômicos e culturais. Confirmação do diagnóstico Medição da pressão arterial Exame físico Avaliação do risco cardiovascular Lesões de órgão-alvo Exame laboratorial Suspeição e a identificação de causa secundária > 140 × 90 mmHg Avaliação inicial do usuário com HA Figura 4 – Fluxo de atendimento na avaliação inicial do usuário com HA 34 Unidade I 2.1.1 Diretrizes para o diagnóstico de hipertensão arterial sistêmica A HAS é definida pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) como condição clínica multifatorial caracterizada por elevação sustentada dos níveis pressóricos (≥ 140 e/ou 90 mmHg). Frequentemente se associa a distúrbios metabólicos, alterações funcionais e/ou estruturais de órgãos-alvo, sendo agravada pela presença de outros fatores de risco […], como dislipidemia, obesidade abdominal, intolerância à glicose e diabetes melito (MALACHIAS et al., 2016, p. 1). Associa-se ainda a eventos como morte súbita, acidente vascular encefálico, infarto agudo do miocárdio, insuficiência cardíaca, doença arterial periférica e doença renal crônica, fatal e não fatal (MALACHIAS et al., 2016). A classificação da pressão arterial segundo a SBC está apresentada na tabela 1. Tabela 1 – Classificação da pressão arterial de pessoas com 18 anos de idade ou mais, de acordo com medição casual ou no consultório, segundo a SBC Classificação PAS (mmHg) PAD (mmHg) Normal ≤ 120 ≤ 80 Pré-hipertensão 121 – 139 81 – 89 Hipertensão estágio 1 140 – 159 90 – 99 Hipertensão estágio 2 160 – 179 100 – 109 Hipertensão estágio 3 ≥ 180 ≥ 110 Quando a PAS e a PAD situam-se em categorias diferentes, a maior deve ser utilizada para classificar a pressão arterial A classificação é definida de acordo com a pressão arterial no consultório e pelo nível mais elevado de pressão arterial, sistólica ou diastólica. A HA sistólica isolada, caracterizada pela PAS ≥ 140 mmHg e PAD < 90 mmHg, é classificada em 1, 2 ou 3, de acordo com os valores da PAS nos intervalos indicados. A HA diastólica isolada, caracterizadapela PAS < 140 mmHg e PAD ≥ 90 mmHg, é classificada em 1, 2 ou 3, de acordo com os valores da PAD nos intervalos indicados. Adaptada de: Malachias et al., (2016). 2.1.2 Terapêutica medicamentosa A abordagem terapêutica da HA deve ter por finalidade reduzir a pressão arterial, proteger os órgãos-alvo e prevenir desfechos cardiovasculares e renais, considerando as medidas não medicamentosas e o uso de fármacos anti-hipertensivos. A decisão terapêutica deve estar fundamentada na presença 35 ENFERMAGEM INTEGRADA de fatores de risco, de lesão em órgão-alvo e/ou de doença cardiovascular, e não somente no nível da pressão (MALACHIAS et al., 2016). O tratamento não medicamentoso da HAS inclui a redução do peso corporal, a adoção de um plano alimentar saudável e sustentável, a prática de atividades físicas regulares, a cessação do tabagismo e o controle do estresse (BRASIL, 2013b; MALACHIAS et al., 2016). De acordo com Malachias et al. (2016), a escolha do medicamento a ser utilizado como monoterapia inicial para o tratamento medicamentoso da HAS deve basear-se na capacidade do agente escolhido de reduzir a morbimortalidade cardiovascular, no mecanismo fisiopatogênico predominante no paciente a ser tratado, nas características individuais, nas doenças associadas e nas condições socioeconômicas do paciente. Com base nesses critérios, as classes de anti-hipertensivos atualmente consideradas preferenciais pela SBC para o controle da pressão arterial em monoterapia inicial são: diuréticos (preferência para os diuréticos tiazídicos, como clortalidona, hidroclorotiazida e indapamida, reservando os diuréticos de alça, como furosemida e bumetanida, para os casos de insuficiência renal); inibidores da enzima conversora de angiotensina (ECA); bloqueadores dos canais de cálcio; bloqueadores dos receptores da angiotensina II (MALACHIAS et al., 2016). Segundo o Ministério da Saúde e a SBC, evidências científicas demonstraram redução de morbimortalidade com a administração dessas classes de medicamentos e de betabloqueadores. No entanto, os benefícios obtidos com estes últimos são menores quando comparados aos dos demais grupos, devendo ser reservados para situações específicas. Por isso não se indica betabloqueadores como fármacos de primeira linha no tratamento da HAS (BRASIL, 2013b; MALACHIAS et al., 2016). A SBC esclarece que “a proteção observada não depende do tipo de fármaco empregado, mas fundamentalmente da redução da [pressão arterial]” (MALACHIAS et al., 2016, p. 35). Desse modo, todos os medicamentos anti-hipertensivos disponíveis podem ser utilizados, desde que sejam observadas as indicações e contraindicações específicas. A preferência inicial será sempre por aqueles que comprovadamente reduzem os eventos cardiovasculares (MALACHIAS et al., 2016). Em 2017, o American College of Cardiology (ACC) e a American Heart Association (AHA) publicaram uma nova diretriz com recomendações sobre a definição de hipertensão (CAREY; WHELTON, 2018). Essa diretriz considera HAS a presença de PAS igual ou superior a 130 mmHg e/ou PAD igual ou superior a 80 mmHg, conforme apresentado na tabela 2. 36 Unidade I Tabela 2 – Classificação da pressão arterial de pessoas com 18 anos de idade ou mais, de acordo com a medição em consultório, segundo ACC/AHA Classificação PAS (mmHg) PAD (mmHg) Normal < 120 < 80 Elevada 120 – 129 < 80 Hipertensão estágio 1 130 – 139 80 – 89 Hipertensão estágio 2 ≥ 140 ≥ 90 Hipertensão estágio 3 ≥ 180 ≥ 120 Adaptada de: Flack e Adekola (2020). A diretriz recomenda iniciar o tratamento medicamentoso para pessoas com hipertensão em estágio 1 com doença cardiovascular ou risco cardiovascular estimado em 10 anos superior a 10%. Esse risco cardiovascular estimado em 10 anos é calculado utilizando o escore global de Framingham, chamado ASCVD risk calculator. Para pessoas com hipertensão em estágio 2 e/ou se a pressão arterial medida estiver acima da meta em mais de 20/10 mmHg (sistólica/diastólica), recomenda-se iniciar a terapia medicamentosa combinada, com 2 anti-hipertensivos (CAREY; WHELTON, 2018). Os fármacos de primeira linha continuam os mesmos: tiazídicos, inibidores da ECA ou bloqueadores dos receptores de angiotensina e bloqueador de canal de cálcio. No entanto, na população negra, os tiazídicos e os bloqueadores dos canais de cálcio são mais eficazes (CAREY; WHELTON, 2018). Betabloqueadores Bloqueadores dos receptores da angiotensina Bloqueadores dos canais de cálcio Outros anti-hipertensivos Inibidores da ECA Diuréticos tiazídicos Combinações preferenciais Combinações não recomendadas Combinações possíveis, mas menos testadas Figura 5 – Associações de fármacos recomendadas pela SBC Fonte: Malachias et al. (2016, p. 39). 37 ENFERMAGEM INTEGRADA 2.1.3 Terapêutica não medicamentosa O tratamento não medicamentoso da HA envolve controle de peso com medidas nutricionais, prática de atividades físicas, cessação/redução do tabagismo e controle de estresse. 2.1.3.1 Peso corporal O aumento de peso está diretamente relacionado ao aumento da pressão arterial tanto em adultos jovens ou idosos quanto em crianças – a relação entre sobrepeso e alteração da pressão arterial já pode ser observada a partir dos 8 anos de idade. O aumento da gordura visceral também é considerado um fator de risco para HA. 2.1.3.2 Aspectos nutricionais O sucesso do tratamento da HA com medidas nutricionais depende da pactuação, aceitação e adoção de um plano alimentar saudável e sustentável, pois dietas radicais resultam no abandono do tratamento. Enfatizar o consumo de frutas, hortaliças e laticínios com baixo teor de gordura, incluir a ingestão de cereais integrais, frango, peixe e frutas oleaginosas, preconizar a redução do consumo de carne vermelha, doces e bebidas com açúcar: a adoção desse padrão alimentar reduz a pressão arterial. Qualquer proposta de alteração ou inclusão alimentar deve ser pactuada com o paciente, considerando suas questões econômicas, de acesso aos alimentos, preparo e socialização, além de faixa etária, sexo e etnia. 2.1.3.3 Álcool O consumo habitual de álcool eleva a pressão arterial de forma linear, e seu abuso associa-se a maior incidência de HA. Estima-se que um aumento de 10 g/dia na ingestão de álcool eleve a pressão arterial em 1 mmHg, e a diminuição desse consumo reduz a pressão arterial. Recomenda-se moderação no consumo de álcool. 2.1.3.4 Atividade/exercício físico Atividade física refere-se a qualquer movimento corporal que aumente o gasto energético, o que inclui andar na rua, subir escadas, fazer trabalhos físicos domésticos, praticar atividades físicas de lazer. A expressão exercício físico refere-se à atividade física realizada de forma estruturada, organizada e com objetivo específico, orientada a atingir as metas propostas, respeitando as características individuais. O comportamento sedentário, medido pelo tempo sentado, também tem implicações na saúde, não só relacionados à HA, mas também a outros fatores. A sobrevivência de pessoas que passam a maior parte do tempo sentadas é menor do que daquelas que passam pouco tempo sentadas (MALACHIAS et al., 2016). 38 Unidade I 2.1.3.5 Controle do estresse Estudos sobre as práticas de gerenciamento de estresse apontam a importância das psicoterapias comportamentais e de técnicas de meditação e relaxamento no tratamento da HA. Descobrir os elementos estressores e as práticas que diminuem sua interferência na qualidade de vida não parece fácil e exige disponibilidade dos envolvidos. 2.1.3.6 Equipe multiprofissional A atuação da equipe multiprofissional promove melhor controle da HA por ofertar várias opções de linguagens ou propostas, o que está diretamente relacionado à adesão ao tratamento medicamentoso e não medicamentoso. A equipe multiprofissional pode ser constituída por todos os profissionais que lidam com pacientes hipertensos: médicos, enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem, nutricionistas, psicólogos, assistentessociais, fisioterapeutas, professores de educação física, musicoterapeutas, farmacêuticos, educadores, comunicadores, funcionários administrativos e ACS. Saiba mais Para obter mais informações, você pode consultar essa nova diretriz: CAREY, R. M.; WHELTON, P. K. Prevenção, detecção, avaliação e tratamento da hipertensão arterial em adultos: sinopse da Diretriz de Hipertensão do American College of Cardiology/American Heart Association 2017. Annals of Internal Medicine, v. 168, n. 5, p. 351-358, 2018. Disponível em: https://bit.ly/3Ww0z5T. Acesso em: 2 jan. 2023. 2.2 Cuidado da pessoa com doença crônica: diabetes mellitus O termo diabetes mellitus (DM) refere-se a um transtorno metabólico de etiologias heterogêneas caracterizado por hiperglicemia e distúrbios no metabolismo de carboidratos, proteínas e gorduras, resultantes de defeitos da secreção e/ou da ação da insulina. A incidência dessa patologia vem aumentando nos últimos anos, tornando-se um importante e crescente problema de saúde, estando sua prevalência habitualmente associada à dislipidemia, HA e disfunção endotelial. Evidências demonstram que o bom manejo desse problema na atenção básica evita hospitalizações e mortes por complicações cardiovasculares e cerebrovasculares, podendo melhorar também a qualidade de vida das pessoas acometidas pela doença (BRASIL, 2013a). Estima-se que a glicemia elevada seja a terceira causa, em termos de importância, de mortalidade prematura, superada apenas por pressão arterial aumentada e uso de tabaco. Em 2015, calculou-se que 415 milhões de pessoas entre 20 e 79 anos de idade – o que correspondia a 8,8% da população mundial – viviam com diabetes. Projeta-se que, em 2040, caso as tendências atuais persistam, 39 ENFERMAGEM INTEGRADA 642 milhões de pessoas serão portadoras de diabetes, estando cerca de 75% dos casos em países em desenvolvimento (GAO; REGIER; CLOSE, 2016). No Brasil, dados da Vigitel mostram que a prevalência autorreferida na população acima de 18 anos aumentou de 5,3% para 5,6% entre 2006 e 2011. Ao analisar esse dado de acordo com o sexo, apesar do aumento de casos entre homens, que de 4,4% em 2006 passaram para 5,2% em 2011, as mulheres apresentaram uma maior proporção da doença, correspondendo a 6% dessa população (BRASIL, 2013a). A ocorrência de diabetes é mais comum em pessoas com baixa escolaridade: os números indicam que 7,5% das pessoas que têm até oito anos de estudo possuem diabetes, contra 3,7% das pessoas com mais de 12 anos de estudo, ou seja, uma diferença de mais de 50%. O levantamento apontou, também, que o DM aumenta de acordo com a idade da população: 21,6% dos brasileiros com mais de 65 anos referiram a doença, um índice bem maior do que o observado entre pessoas na faixa etária de 18 a 24 anos, em que apenas 0,6% estão com a doença. Estima-se que o país passe da oitava posição em 2000, com prevalência de 4,6%, para a sexta posição, com 11,3%, em 2030. Os fatores de risco relacionados aos hábitos alimentares e ao estilo de vida da população estão associados a esse incremento na carga de DM globalmente (BRASIL, 2013a). Um estudo realizado em Cuiabá/MT descreveu as características epidemiológicas de 7.938 pessoas com DM atendidas na rede pública entre 2002 e 2006. Os principais fatores de risco cardiovascular identificados foram sobrepeso, sedentarismo e antecedentes familiares cardiovasculares. Mais de 80% dessas pessoas também eram hipertensas. O infarto agudo do miocárdio foi a complicação mais frequentemente observada. Outro resultado importante foi a identificação de que o usuário já chega na atenção básica com sinais de estágio avançado da doença, o que demonstra, entre outros fatores, as dificuldades de diagnóstico precoce e de ações de prevenção (BRASIL, 2013a). Dessa forma, com o atendimento tardio, as complicações agudas e crônicas da doença causam alta morbimortalidade, acarretando altos custos para os sistemas de saúde. Em todo o mundo, os gastos relacionados ao diabetes em 2010 foram estimados em 11,6% do total das despesas com atenção em saúde, e no Brasil os valores são semelhantes. Um estudo realizado pela OMS mostrou que os custos governamentais de atenção ao DM variam de 2,5% a 15% dos orçamentos anuais de saúde, e os custos de produção perdidos podem exceder em até cinco vezes os custos diretos de atenção à saúde (BRASIL, 2013a). Diante dos dados epidemiológicos, entender a doença e o manejo clínico prepara o profissional de saúde para um cuidado especializado da DM. A insulina é produzida pelo pâncreas, e é um hormônio que se liga a receptores especiais na superfície da célula, os quais abrem os canais responsáveis pela entrada da glicose. No DM, a produção de insulina pelo pâncreas está ausente ou diminuída e/ou os receptores celulares de insulina tornaram-se incapazes de ligar-se a ela para permitir a entrada de glicose na célula (LEWIS et al., 2013). A doença pode ser classificada como tipo 1 ou tipo 2. No tipo 1, o processo de destruição da célula beta leva ao estágio de deficiência absoluta de insulina, quando a administração do hormônio é necessária para prevenir cetoacidose. Em geral, a manifestação inicial é abrupta, acometendo 40 Unidade I principalmente crianças e adolescentes sem excesso de peso. Na maioria dos casos, a hiperglicemia é acentuada, evoluindo rapidamente para cetoacidose, especialmente na presença de infecção ou outra forma de estresse. Assim, o traço clínico que mais define o tipo 1 é a tendência à hiperglicemia grave e cetoacidose, acometendo aproximadamente 8% da população com a doença. Já no tipo 2, a deficiência relativa de insulina é menos intensa do que a observada no tipo 1, costumando ter um início insidioso e sintomas mais brandos. Manifesta-se, em geral, em adultos com longa história de excesso de peso e com história familiar de DM tipo 2. No entanto, com a epidemia de obesidade que atinge crianças, observa-se um aumento na incidência de diabetes em jovens, até mesmo em crianças e adolescentes (BRASIL, 2013a). Após o diagnóstico, a doença pode evoluir por muitos anos antes de requerer insulina para controle. Seu uso, nesses casos, não visa evitar a cetoacidose, que é rara nessas situações e, quando presente, em geral é ocasionada por infecção ou estresse muito grave; o objetivo da aplicação de insulina é manter o controle glicêmico. A hiperglicemia desenvolve-se lentamente, permanecendo assintomática por vários anos, acometendo cerca de 90% dos casos na população e estando relacionada ao diabetes gestacional (estado de hiperglicemia menos severo que os tipos 1 e 2, detectado pela primeira vez na gravidez e que geralmente se resolve no período pós-parto, frequentemente retornando, no entanto, anos depois). Hiperglicemias detectadas na gestação que alcançam o critério de diabetes para adultos, em geral, são classificadas como diabetes na gravidez, independentemente do período gestacional e da sua resolução ou não após o parto. Recomenda-se que seu rastreamento seja iniciado na primeira consulta de pré-natal (BRASIL, 2013a). O processo de destruição da célula beta leva ao estágio de deficiência absoluta de insulinaTipo 1 Deficiência relativa de insulina, que é menos intensa do que a observada no tipo 1. Costuma ter início insidioso e sintomas mais brandos Tipo 2 Estado de hiperglicemia menos severo que nos tipos 1 e 2, detectado pela primeira vez na gravidez. Geralmente se resolve no período pós-parto e pode frequentemente retornar anos depois Gestacional Figura 6 – Classificação dos tipos de diabetes Diante desse cenário, e para o adequado tratamento, é relevante realizar o diagnóstico precoce, ou seja, antes que se instalem as complicações. Dessa forma, o rastreamento das pessoas com fatores de risco torna-se uma medida primordial na atenção básica. 2.2.1 Diagnóstico O diagnóstico baseia-se na detecção da hiperglicemia. Quatro tipos de exame podem ser utilizados: glicemia casual, glicemia em jejum, teste de tolerânciaà glicose (TTG) com sobrecarga de 75 g em duas horas e, em alguns casos, hemoglobina glicada (HbA1c). Quando a pessoa requer diagnóstico rápido 41 ENFERMAGEM INTEGRADA e o serviço dispõe de laboratório com determinação glicêmica imediata ou de glicosímetro e tiras reagentes, a glicemia casual é o primeiro exame a ser solicitado. Nesse caso, o ponto de corte indicativo de diabetes é maior ou igual a 200 mg/dL na presença de sintomas de hiperglicemia. Não havendo urgência, é preferível solicitar uma glicemia em jejum medida no plasma por laboratório. Pessoas com glicemia em jejum alterada, entre 110 mg/dL e 125 mg/dL, por apresentarem alta probabilidade de ter diabetes, podem requerer uma segunda avaliação por TTG-75 g, na qual o paciente recebe uma carga de 75 g de glicose, em jejum, e a glicemia é medida antes e 120 minutos após a ingestão. Uma glicemia de duas horas pós-sobrecarga maior ou igual a 200 mg/dL é indicativa de diabetes, e uma glicemia entre 140 mg/dL e 200 mg/dL indica tolerância à glicose diminuída (BRASIL, 2013a). A Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) adotou valores laboratoriais de normoglicemia para indivíduos com glicose em jejum menor que 100 mg/dL, glicose após duas horas de sobrecarga com 75 g de glicose menor que 140 mg/dL e HbA1c menor que 5,7% (OLIVEIRA; MONTENEGRO JUNIOR; VENCIO, 2017). A SBD também classificou, para pré-diabetes ou risco aumentado para DM, indivíduos com glicose em jejum entre 100 mg/dL e 126 mg/dL, índice de glicose após duas horas de sobrecarga com 75 g de glicose entre 140 mg/dL e 200 mg/dL e HbA1c entre 5,7% e 6,5%. Por fim, tomou como indivíduos com diabetes estabelecido aqueles com glicose em jejum maior ou igual a 126 mg/dL, índice de glicose após duas horas de sobrecarga com 75 g de glicose maior ou igual a 200 mg/dL, glicose ao acaso maior ou igual a 200 mg/dL e HbA1c maior ou igual a 6,5%. Para prevenir doença cardiovascular, a estratificação de risco baseia-se em idade, presença dos fatores de risco tradicionais, existência de marcadores de aterosclerose subclínica e ocorrência de eventos cardiovasculares. Recomenda-se estratificar o risco em quatro categorias (baixo, intermediário, alto e muito alto), avaliando os fatores de risco, como idade superior a 49 anos para homens e 56 anos para mulheres, DM com duração superior a 10 anos, história familiar prematura de doença cardiovascular, presença de síndrome metabólica, HAS tratada ou não, tabagismo, taxa de filtração glomerular estimada menor que 60 mL/min, albuminúria maior que 30 mg/g de creatinina, neuropatia autonômica cardiovascular e retinopatia diabética (OLIVEIRA; MONTENEGRO JUNIOR; VENCIO, 2017). Quanto a rastreamento e ações para o usuário com diabetes, o enfermeiro deve monitorar, controlar e educar o portador de DM, conforme indicado no quadro 9. 42 Unidade I Quadro 9 – Principais medidas na consulta de enfermagem do usuário portador de DM Consulta de enfermagem Investigação: histórico Identificar a pessoa, coletando dados socioeconômicos e relacionados a ocupação, moradia, trabalho, escolaridade, lazer, religião, rede familiar, vulnerabilidades e potencial para o autocuidado Registrar os antecedentes familiares e pessoais (história familiar de diabetes, hipertensão, doença renal, cardíaca e diabetes gestacional) Registrar queixas atuais, história sobre o diagnóstico de DM, cuidados implementados e tratamento prévio Avaliar a percepção da pessoa com relação a doença, tratamento e autocuidado Anotar os medicamentos utilizados para DM e outros problemas de saúde, além da presença de efeitos colaterais Registrar os hábitos de vida (alimentação, sono, repouso, atividade física, higiene e funções fisiológicas) Identificar os fatores de risco (tabagismo, alcoolismo, obesidade, dislipidemia e sedentarismo) Investigação: exame físico Medir os dados antropométricos (atura, peso, circunferência abdominal e índice de massa corporal) Aferir a pressão arterial com a pessoa sentada e deitada Identificar alterações de visão Examinar a cavidade oral, com atenção para a presença de gengivite, problemas odontológicos e candidíase Medir a frequência cardíaca e respiratória, além de realizar a ausculta cardiopulmonar Avaliar a pele quanto a integridade, turgor, coloração e manchas Inspecionar os membros inferiores (unhas, dor, edema, pulsos pediosos e lesões; articulações – capacidade de flexão, extensão, limitações de mobilidade, edemas –; e pés – bolhas, sensibilidade, ferimentos, calosidades e corte das unhas) Durante a avaliação ginecológica, atentar-se à presença de Candida albicans 43 ENFERMAGEM INTEGRADA Consulta de enfermagem Diagnóstico Dificuldades e déficit cognitivo, analfabetismo, prejuízo da acuidade visual e auditiva, problemas emocionais, sintomas depressivos e outras barreiras psicológicas, como sentimento de fracasso pessoal, crença na piora da doença e medo de perder a independência, podem ser a causa de hipoglicemia, ganho de peso e alterações nas aplicações de insulina Quanto ao uso da insulina, verificar se o usuário realiza a autoaplicação e, se não realiza, quem a aplica para ele, atentando, nesse caso, aos motivos pelos quais ele precisa de ajuda. Averiguar a presença de complicações e reações nos locais de aplicação, além da forma de conservação e transporte da insulina Quanto à automonitorização, identificar se o paciente consegue verificar a glicemia capilar e se apresenta dificuldades no manuseio do aparelho Planejamento Esclarecer o paciente sobre os sinais de hipoglicemia e hiperglicemia e orientá-lo sobre como agir nessas situações Motivá-lo a modificar hábitos de vida não saudáveis (fumo, estresse, bebida alcoólica e sedentarismo) Atentar para a presença de complicações Orientar o paciente sobre a doença e o processo de envelhecimento Verificar o uso de medicamentos prescritos (oral ou insulina), indicação, doses, horários, efeitos desejados e colaterais, controle da glicemia Averiguar estilo de vida Observar o uso da insulina e o modo correto de reutilizar agulhas; planejar rodízio dos locais de aplicação para evitar lipodistrofia Solicitar e avaliar os exames previstos no protocolo assistencial local Quando pertinente, encaminhar ao médico e, se necessário, a outros profissionais Implementação Deverá progredir conforme as necessidades e o grau de risco da pessoa e a sua capacidade de adesão e motivação para o autocuidado, a cada consulta Pessoas com DM com dificuldade para o autocuidado precisam de mais suporte até que consigam ampliar as condições de se cuidar O apoio ao autocuidado poderá ser provido pela equipe de saúde ou por outros recursos, familiares ou comunitários, articulados para esse fim Avaliação Avaliar a pessoa e a família, se as metas de cuidados foram alcançadas e seu grau de satisfação com o tratamento Observar se ocorreu alguma mudança a cada retorno à consulta Avaliar a necessidade de mudança ou adaptação no processo de cuidado e reestruturar o plano de acordo com essas necessidades Registrar no prontuário todo o processo de acompanhamento Adaptado de: Brasil (2013a). 44 Unidade I Sinais/sintomas e condições de risco presentes Glicemia capilar > 100 e > 200 mg/dL< 100 mg/dL Diabetes improvável Glicemia em jejum Consulta de enfermagem para mudança de estilo de vida e reavaliação a cada ano Testar glicemia a cada dois anos (grupo de risco) Consulta médica > 126 mg/dL Consulta de enfermagem Diabetes Figura 7 – Fluxo de atendimento ao usuário portador de DM Entre as complicações crônicas do DM, as úlceras nos pés e a amputação de extremidades são as mais graves e com maior impacto socioeconômico. As úlceras nos pés apresentam uma incidência anual de 2%, e a pessoa com diabetes tem um risco de 25% de desenvolver essa complicação ao longo da vida. Estudos estimam que as úlceras são responsáveis por 40% a 70% das amputações não traumáticas de membros inferiores (BRASIL, 2013a). Figura 8 – Deformidadesnos pés/área de risco para ulceração em diabéticos Fonte: IWGDF (2019, p. 9). 45 ENFERMAGEM INTEGRADA Aproximadamente 20% das internações de indivíduos com DM ocorrem por lesões nos membros inferiores, e 85% das amputações de membros inferiores na DM são precedidas de ulcerações, sendo os principais fatores associados a neuropatia periférica, deformidades no pé e traumatismos (BRASIL, 2013a). A figura 9 ilustra o desenvolvimento de uma úlcera plantar em pés de diabéticos. Figura 9 – Úlcera plantar em pé diabético Fonte: IWGDF (2019, p. 7). Observação A neuropatia sensitivo-motora e a autonômica são a causa mais importante das úlceras diabéticas. Os principais pontos a serem ressaltados para os portadores de DM quanto à avaliação dos seus pés são: o conhecimento sobre os cuidados com os pés e as unhas; o comportamento do paciente com relação aos seus pés; o apoio familiar no cuidado com os pés; e as condições dos calçados e das palmilhas (BRASIL, 2013a). A prevenção por meio do exame frequente dos pés de pessoas com DM, realizado pelo médico ou pelo enfermeiro em todas as consultas, é uma medida crucial para reduzir complicações. Quanto aos fatores de risco, o profissional deve atentar-se ao histórico de amputação ou úlceras nos pés no passado e à presença de neuropatia periférica, deformidade nos pés, doença vascular periférica, nefropatia diabética, mau controle glicêmico e tabagismo (BRASIL, 2013a). Portanto, o exame físico dos pés de portadores de DM deve ser minucioso, seguindo algumas etapas, como a avaliação da pele, a avaliação musculoesquelética, a avaliação vascular e a avaliação neurológica. A inspeção da pele deve ser ampla, verificando se há ressecamento e descamação, unhas espessadas ou onicomicose, intertrigo micótico, bolhas, ulceração ou áreas de eritema, e observando também a higiene dos pés e o corte das unhas. Na avaliação musculoesquelética, inspecionam-se deformidades nos pés, e na avaliação vascular a palpação dos pulsos pedioso e tibial posterior deve ser registrada como presente ou ausente, observando também a temperatura dos pés e os pelos, além do estado da pele e dos músculos (BRASIL, 2013a). As figuras 10 e 11 apresentam instrumentos que devem ser utilizados na avaliação neurológica, com o teste de sensibilidade com o uso de monofilamento, diapasão e do reflexo aquileu. 46 Unidade I Figura 10 – Monofilamento para avaliação neurológica Fonte: Boulton et al. (apud BRASIL, 2013a, p. 98). No teste de sensibilidade com o uso do monofilamento, deve-se atentar às áreas de teste, aplicar o monofilamento de 10 g e solicitar ao cliente que diga sim ou não durante o toque nas áreas conferidas, para confirmar a existência ou não de sensibilidade, aplicando força apenas o suficiente para curvar o monofilamento. Deve-se realizar uma aplicação simulada e uma aplicação concreta nas mesmas áreas para confirmar a identificação, pelo paciente, do local testado, e, se duas respostas estiverem corretas, descarta-se a perda de sensibilidade protetora. Da mesma forma, qualquer área insensível indica sensibilidade protetora alterada (OLIVEIRA; MONTENEGRO JUNIOR; VENCIO, 2017). Figura 11 – Diapasão Fonte: IWGDF (apud BRASIL, 2013a, p. 98). 47 ENFERMAGEM INTEGRADA O diapasão 128 Hz testa fibras grossas sensitivas para avaliar a sensibilidade vibratória. Aplica-se o diapasão primeiro nos punhos do paciente (ou cotovelo ou clavícula) para que ele saiba o que esperar. A pessoa não deve ser capaz de ver se ou onde o examinador aplica o diapasão. O diapasão é aplicado sobre uma parte óssea no lado dorsal da falange distal do hálux. O diapasão deve ser aplicado perpendicularmente com pressão constante, sendo tal aplicação repetida duas vezes, mas alternada com pelo menos uma aplicação simulada, em que o diapasão não esteja vibrando. O teste é positivo se o paciente responde de forma incorreta a, pelo menos, duas de três aplicações, e negativo com duas das três respostas corretas. Se o paciente é incapaz de sentir as vibrações no hálux, o teste é repetido mais proximalmente – na tuberosidade tibial, no maléolo (BRASIL, 2013a). No teste para o reflexo aquileu (reflexos do tornozelo), por sua vez, o paciente deve estar sentado, com o pé pendente, ou ajoelhado sobre uma cadeira, com o tornozelo em posição neutra. Então, utiliza-se um martelo apropriado para percussão do tendão de Aquiles. Considera-se o teste alterado quando há ausência da flexão do pé (BRASIL, 2013a). Com essa avaliação sistemática, o enfermeiro deve se atentar aos sinais clínicos para intervir o mais precocemente possível em intercorrências envolvendo os pés do paciente com DM, evitando, assim, complicações decorrentes do diabetes. Quadro 10 – Condutas segundo intercorrências encontradas nos pés de portadores de DM Sinais clínicos Conduta Lesões ulcerativas, descoloração, edema ou necrose Avaliação médica se houver nova lesão, descoloração, edema ou necrose Ausência de pulsos Monitorar sinais e sintomas de isquemia e encaminhar para avaliação especializada Calo Avaliar necessidade de remoção do calo Infecção fúngica Avaliação médica para tratamento com antimicótico Infecção bacteriana Avaliação médica imediata para tratamento Unha encravada Avaliar a necessidade de correção e orientar o paciente para que não corrija o problema sozinho Deformidade nos pés Orientar sobre calçados apropriados e encaminhar para avaliação do ortopedista ou para órtese Higiene inadequada Orientar sobre a importância da higiene adequada e identificar fatores que não a permitam Calçados ou meias inadequados Implementar estratégias de educação em saúde, orientando sobre riscos Desconhecimento sobre autocuidado Implementar estratégias para o autocuidado, reforçar as orientações e buscar rede de apoio Adaptado de: Brasil (2013a). Diante de lesões nos pés dos portadores de DM, algumas condutas são recomendadas, como a coleta do material para cultura dos ferimentos infectados e limpeza diária com solução fisiológica a 0,9%. Em caso de crosta ou calosidade, deve-se desbridá-la e avaliar a necessidade de encaminhar ao cirurgião. Recomenda-se ainda usar preparos enzimáticos, conforme protocolos locais, evitar o uso de esparadrapo diretamente sobre a 48 Unidade I pele e orientar repouso, com o membro inferior afetado ligeiramente elevado, protegendo o calcâneo e a região maleolar (BRASIL, 2013a; OLIVEIRA; MONTENEGRO JUNIOR; VENCIO, 2017). A figura 12 ilustra calçados adequados para evitar lesões nos pés de portadores de DM: Figura 12 – Calçados adequados para evitar lesões nos pés dos portadores de DM Disponível em: https://bit.ly/3jo8Rht. Acesso em: 22 dez. 2022. Não há consenso sobre calçados adequados para pacientes com DM nas normas brasileiras, mas o Departamento de Pé Diabético da SBD elaborou um conjunto de normas técnicas com base em conceitos globais mínimos de adequação. O sapato, por exemplo, deve pesar menos que 400 g (no máximo, 480 g), sua parte anterior (a frente) deve ser ampla, com largura e altura suficientes para acomodar os dedos (modelos com até três larguras), a parte externa deve ser em couro macio e flexível. Deve ter forração interna em couro de carneiro, microfibra antialérgica e antibacteriana que absorva o suor, além de entressola palmilhada com fibras de densidade variável e solado não flexível, do tipo mata-borrão, com redução de impacto e antiderrapante, de couro ou borracha densa, colado ou costurado, com espessura mínima de 20 mm e contraforte rígido e prolongado para acomodar e ajustar o retropé, prevenindo atrito no calcâneo e/ou no maléolo. O calçado não deve ter costuras e/ou dobras internas, e o colarinho deve ser almofadado. Deve ainda ter lingueta prolongada, gáspea complacente, com altura para o dorso do pé, palmilha removível e abertura e fechamento com calce regulável (velcro ou cadarço não encerado e mínimo de ilhoses). O cabedal não deve ser de material sintético, a numeração deve ter um ponto ou meio ponto e, aomenos, duas larguras, o salto deve ter 2 cm e o sapato deve apresentar rigidez no médio pé e fixação no calcanhar (OLIVEIRA; MONTENEGRO JUNIOR; VENCIO, 2017). Saiba mais Para obter informações mais detalhadas sobre a avaliação dos pés dos portadores de DM, acesse o documento indicado a seguir: OLIVEIRA, J. E. P.; MONTENEGRO JUNIOR, R. M.; VENCIO, S. Diretrizes da Sociedade Brasileira de Diabetes: 2017-2018. São Paulo: Clannad, 2017. Disponível em: https://bit.ly/3BONtbq. Acesso em: 4 jan. 2023. 49 ENFERMAGEM INTEGRADA 2.2.2 Tratamento O diabetes tipo 1 habitualmente surge nos primeiros anos de vida. É provocado pela falta de insulina, e seu tratamento consiste basicamente na administração regular desse hormônio para controlar a glicemia. Não existe cura para o diabetes tipo 1. O tratamento visa controlar a glicemia em longo prazo, de forma a reduzir a incidência das complicações, e pode ser aplicado segundo várias abordagens, sendo as mais importantes: • administração regular de insulina (até seis vezes por dia); • controle da dieta; • monitoramento frequente da glicemia por parte do paciente; • prática de exercícios físicos. O objetivo do tratamento é manter o valor da hemoglobina glicosada abaixo de 7%. Para tanto, o paciente deve procurar manter a glicemia antes das refeições entre 80 e 130 mg/dL, e após as refeições, abaixo de 180 mg/dL. Se os valores estiverem descontrolados, a dieta e a dose da insulina devem ser reavaliadas. O nível de insulina administrado deve ser cuidadosamente definido de acordo com a dieta e o hábito de exercício do paciente. Quantidades insuficientes podem não controlar a glicemia e aumentar o risco de complicações, enquanto quantidades excessivas podem provocar hipoglicemia. Os tipos de insulina mais utilizados são: • Insulina de ação rápida: sua ação tem início em cerca de 15 minutos, atinge o pico em 1 hora e continua a funcionar por 2 a 4 horas. Tipos: insulina glulisina (Apidra), insulina lispro (Humalog) e insulina aspártico (NovoLog). • Insulina regular ou de ação curta: sua ação tem início em cerca de 30 minutos após a injeção, atinge um pico em torno de 2 a 3 horas e é eficaz por aproximadamente 3 a 6 horas. Tipos: Humulin R, Novolin R. • Insulina de ação intermediária: sua ação tem início em cerca de 2 a 4 horas, atinge o pico em 4 a 12 horas e é eficaz por cerca de 12 a 18 horas. Tipos: protamina neutra de Hagedorn (NPH) – Humulin N, Novolin N. • Insulina de ação prolongada: atinge a corrente sanguínea várias horas após a injeção e tende a diminuir os níveis de glicose de forma bastante uniforme ao longo de 24 horas. Tipos: insulina detemir (Levemir) e insulina glargina (Lantus). 50 Unidade I Tabela 3 – Formulações de insulinas disponíveis no Brasil Tipo Nome Início Pico Duração Insulinas basais Insulina intermediária NPH 2-4 h 4-10 h 10-18 h Análogo de ação longa Glargina U100 2-4 h – 20-24 h Análogo de ação intermediária Detemir 1-3 h 6-8 h 18-22 h Análogo de ação ultralonga Glargina U300 6 h – 36 h Degludeca < 4 h – 42 h Insulinas prandiais Insulina rápida Regular (Humulin R/Novolin R) 30-60 min 2-3 h 5-8 h Análogo de ação ultrarrápida Asparte (Novorapid) 5-15 min 30 min-2 h 3-5 hLispro (Humalog) Glulisina (Apidra) Fast Aspartate (Fiasp) 2-5 min 1-3 h 5 h Inalada (Afrezza) Imediato 10-20 min 1-2 h Insulinas pré-misturadas NPH/Regular 70% NPH/30% R (Humulin 70/30) 30 min-1 h 3-12 h 10-16 hNPL/Lispro 75% NPL/25% Lispro (Humalog Mix 25) 5-15 min 1-4 h50% NPL/50% Lispro (Humalog Mix 50) NPA/Asparte 70% NPA/30% Aspart (NovoMix 70/30) Fonte: Silva Júnior et al. (2022, p. 2). O DM tipo 2 apresenta algum grau de diminuição na produção de insulina, mas é principalmente uma resistência do organismo à insulina produzida que faz com que as células não consigam captar a glicose circulante no sangue. Ocorre em adultos, geralmente obesos, sedentários e com histórico familiar de diabetes. O excesso de peso é o principal fator de risco para o diabetes tipo 2, mas, além dele e do sedentarismo, há ainda outros: • idade acima de 45 anos; • história familiar de diabetes; • HA; • história prévia de diabetes gestacional; • glicemia em jejum maior que 100 mg/dL (pré-diabetes); 51 ENFERMAGEM INTEGRADA • ovário policístico; • colesterol elevado; • uso prolongado de medicamentos, como corticoides, tacrolimo, ciclosporina ou ácido nicotínico; • tabagismo; • dieta rica em gorduras saturadas e carboidratos e pobre em vegetais e frutas. O diabetes tipo 2 vem muitas vezes acompanhado por outras condições, incluindo HA e colesterol alto. Esta condição clínica (hiperglicemia, obesidade, hipertensão e colesterol alto) é referida como síndrome metabólica. Inicialmente, o diabetes tipo 2 pode ser tratado com medicações por via oral. Geralmente são drogas que estimulam a produção de insulina pelo pâncreas ou aumentam a sensibilidade das células à insulina presente. Com o tempo, a própria hiperglicemia lesiona células beta do pâncreas, reduzindo progressivamente a produção de insulina. Por este motivo, é comum que pacientes com diabetes tipo 2, depois de muitos anos de doença, passem a precisar de insulina para controlar sua glicemia. Os hipoglicemiantes orais podem ser classificados como: • Inibidores da alfaglicosidase: impedem a digestão e absorção de carboidratos no intestino. • Sulfonilureias: estimulam a produção pancreática de insulina. • Glinidas: agem também estimulando a produção de insulina pelo pâncreas. O SUS oferece medicamentos gratuitamente para tratar o diabetes, sendo financiados pelo Ministério da Saúde e liberados nas farmácias credenciadas. Os pacientes portadores da doença são acompanhados pela atenção básica, e o acesso ao medicamento tem sido fundamental para reduzir os desfechos mais graves da doença. Por fim, desde 2017, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS agregou duas novas tecnologias para o tratamento do diabetes (BRASIL, 2020): • caneta para injeção de insulina, para proporcionar melhor comodidade na aplicação, facilitar o transporte, armazenamento e manuseio e permitir maior assertividade no ajuste da dosagem; • insulina análoga de ação rápida, que é semelhante às insulinas humanas, porém com pequenas alterações nas moléculas, feitas para modificar a maneira como as insulinas agem no organismo humano, especialmente em relação ao tempo para início de ação e duração do efeito. 52 Unidade I 3 FUNDAMENTOS CIENTÍFICOS SOBRE ONCOLOGIA E TERAPÊUTICA ONCOLÓGICA 3.1 Epidemiologia do câncer no Brasil O câncer está entre as principais causas de morte, e atinge pessoas de todos os sexos, idades, culturas e situações socioeconômicas, impactando significativamente a saúde mental na percepção da sexualidade, da imagem pessoal e da autoestima. É uma doença causada pelo crescimento anormal e desordenado das células, que, dividindo-se rapidamente, tendem a ser muito agressivas e incontroláveis, determinando a formação de tumores malignos que podem se espalhar para outras regiões do corpo. As causas de câncer são variadas: podem ser externas e internas ao organismo, ou estar inter-relacionadas. Embora o câncer afete todas as faixas etárias, sua maior suscetibilidade se relaciona sobretudo a fatores extrínsecos, tais como ambiente, em particular a ocupação, dieta, estresse e hábitos de vida. Trata-se de uma doença complexa, que pode ser de longa duração e que compromete significativamente a vida dos indivíduos nas dimensões biológica, social e afetiva, exigindo assistência especializada de diferentes profissionais (SOUZA; ESPÍRITO SANTO, 2008). O Instituto Nacional de Câncer (Inca) destaca que os fatores de risco dessa doença em determinada população dependem diretamente das características biológicas e comportamentais dos indivíduos que a compõem, bem como das suas condições sociais, ambientais, políticas e econômicas. Ou seja, os fatores de risco são altamente influenciados pela cultura do grupo ao qual pertencem.Hoje, o câncer vem se mostrando uma das principais causas de mortalidade no mundo, e merece especial atenção dos profissionais de saúde para amenizar o sofrimento, pois, mesmo havendo cura para muitos casos, a taxa de mortalidade é muito alta. Nos países em desenvolvimento, os casos são diagnosticados em estágio avançado e, por conseguinte, a sobrevida média é menor se comparada aos países desenvolvidos: cerca de 40% após cinco anos, e a média mundial estimada é de 49%. É uma doença com possibilidade de cura, mas, em casos nos quais ela já não seja possível, pode-se estabelecer cuidados que visem diminuir o sofrimento dos doentes e de seus familiares. Essa doença repercute de maneira expressiva no indivíduo, e as restrições físicas e psíquicas decorrentes dela implicam mudanças significativas, levando a pessoa a afastar-se do convívio pessoal ou interromper projetos de vida. No estágio avançado, 90% dos pacientes queixam-se de dor moderada a severa, suficiente para reduzir suas atividades e exigir medicações, sendo a dor secundária à evolução da patologia (SILVA; MARTINEZ; GRADIM, 2011). O Ministério da Saúde, através da Portaria n. 2.439/2005, instituiu no SUS a Política Nacional de Atenção Oncológica (Pnao), definindo as ações de prevenção e controle do câncer e de assistência aos doentes (BRASIL, 2005b; PARADA et al., 2008). A Pnao estabelecia a organização de “redes estaduais ou regionais de atenção oncológica, formalizadas nos Planos Estaduais de Saúde, organizadas em níveis hierarquizados, com estabelecimento de fluxos de referência e contrarreferência, garantindo acesso e atendimento integral” (BRASIL, 2005b, art. 2º, III). A Pnao hoje consta no Regulamento do SUS, aprovado pela Portaria n. 2.048/2009 (BRASIL, 2009). 53 ENFERMAGEM INTEGRADA As ações de prevenção do câncer podem ser realizadas em dois níveis: primário e secundário. A prevenção primária consiste em um conjunto de ações para diminuir o risco de câncer ao eliminar ou reduzir a exposição a fatores casuais e estimular os fatores de proteção, incluindo atividades de promoção da saúde, incentivando, por exemplo, a mudança de hábitos de vida. A prevenção secundária consiste em identificar de grupos de risco e definir ações específicas para a detecção precoce. São exemplos os tipos de câncer com possibilidade hereditária. Estadiar um caso de câncer significa avaliar seu grau de disseminação. Para tal, há regras internacionalmente estabelecidas, em constante aperfeiçoamento. A União Internacional para Controle do Câncer estabeleceu um sistema de estadiamento dos tumores no qual T indica a dimensão do tumor primário, N corresponde à disseminação em linfonodos regionais e M explicita a presença ou ausência de metástase. Na interpretação de cada fator, são analisadas as diversas variações que, para o tumor primitivo, vão de T1 a T4; para o comprometimento linfático, de N0 a N3; e para as metástases, a distância M0 a M1. É válido lembrar que, quanto maior o número, mais extensa é a doença e pior seu prognóstico (INCA, 2018). A combinação das diversas variantes de T, N e M determina o estádio clínico, que geralmente varia de I a IV; isso significa que, quanto maior o estádio, mais avançado é o câncer e menor é a chance de cura. Esse estádio clínico determina o prognóstico do paciente e a terapêutica a ser aplicada (INCA…, 2022). O estadiamento implica que tumores com a mesma classificação histopatológica e extensão apresentam evolução clínica, resposta terapêutica e prognóstico semelhantes. É importante ressaltar que o estadiamento de um tumor é uma consideração histológica e anatômica de uma célula de um paciente, e, portanto, a avaliação clínica, social e psicológica desse paciente deve acompanhar o diagnóstico e a proposta terapêutica. Em estudo de 2022, o Inca apresentou para os três próximos anos uma estimativa de ocorrências dos 21 tipos de câncer mais incidentes no Brasil – dois a mais do que na publicação anterior, com a inclusão dos cânceres de pâncreas e de fígado, incluídos por serem problema de saúde pública. O câncer de fígado aparece entre os mais incidentes na região Norte do Brasil, estando relacionado a infecções hepáticas e doenças hepáticas crônicas. Câncer de pâncreas está entre os 10 mais incidentes na região Sul, sendo seus principais fatores de risco a obesidade e o tabagismo (INCA…, 2022). O tumor mais incidente no país é o de pele não melanoma (31,3% do total de casos), seguido pelos de mama feminina (10,5%), próstata (10,2%), cólon e reto (6,5%), pulmão (4,6%) e estômago (3,1%). Se diferenciados por sexo, e depois do câncer de pele não melanoma, o câncer de próstata, nos homens, predomina em todas as regiões, e o câncer de mama, nas mulheres, é o mais incidente. 3.2 A enfermagem na terapêutica oncológica O paciente com câncer deve contar com uma ampla estrutura de apoio para enfrentar as diferentes etapas do processo, pois requerem intensos cuidados, exigindo da equipe de enfermagem conhecimento científico e habilidades para reconhecer sinais e/ou sintomas subjetivos, próprios desses indivíduos (SOUZA; VALADARES, 2011). 54 Unidade I As relações do paciente oncológico – sociais, familiares e consigo mesmo – passam por completa mudança e, portanto, é necessário que haja assistência humanizada capaz de vê-lo como alguém que sofre, mas que não perdeu sua essência. A assistência de enfermagem a pacientes com câncer deve ser vista como cuidado pleno, encorajador, afetuoso e comprometido com a adaptação às novas condições de vida. O câncer traz consigo o medo de mutilações (desfiguramento) e a perspectiva de tratamentos dolorosos e de muitas perdas, e muitas pessoas consideram-no uma doença incurável. Além disso, o câncer se associa a vários significados, na maioria negativos, e essa situação de sofrimento conduz a um estado psíquico com características específicas (SOUZA; ESPÍRITO SANTO, 2008). Diante de uma patologia como o câncer, o envolvimento familiar é inevitável. A família é, em geral, a principal instituição social do indivíduo, na qual ele inicia suas relações afetivas, cria vínculos e internaliza valores. Essa relação apresenta-se de forma interligada, como se fosse a extensão do outro, pois acredita-se que a experiência de uma doença grave modifica o modo de pensar, sentir e agir das pessoas (SOUZA; ESPÍRITO SANTO, 2008). A oncologia visa diminuir o impacto das possíveis alterações físicas e emocionais e dos efeitos colaterais adversos do tratamento quimioterápico. A fim de proporcionar maior qualidade de vida aos pacientes, a oncologia surge como uma especialidade que, por excelência, se viu confrontada com a necessidade de avaliar propostas, já que muitas vezes, na busca por acrescentar anos à vida, era deixada de lado a necessidade de acrescentar vida aos anos (CHAVES; GORINI, 2011). Exemplo de aplicação As terapias complementares estão entre os possíveis cuidados a oferecer a doentes crônicos e oncológicos. Há legislações e propostas da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS que abrangem medicina tradicional chinesa/acupuntura, medicina antroposófica, homeopatia, plantas medicinais e fitoterapia, termalismo social/crenoterapia, arteterapia, ayurveda, biodança, dança circular, meditação, musicoterapia, naturopatia, osteopatia, quiropraxia, reflexoterapia, reiki, shantala, terapia comunitária integrativa, yoga, apiterapia, aromaterapia, bioenergética, constelação familiar, cromoterapia, geoterapia, hipnoterapia, imposição de mãos, ozonioterapia e terapia de florais. Reflita sobre essas práticas e aprofunde seus estudos em tais aplicações. A percepção do enfermeiro acerca dos problemas relacionados à morte e ao adoecer é fortemente influenciada por suas vivências, conhecimentos e valores éticos e pessoais. Nessa perspectiva, cada indivíduo, seja paciente, profissional ou familiar, deve ser considerado como único, tendo necessidades, valores e crenças específicas. O impacto da doençae hospitalização do paciente e a influência da interação familiar sobre a causa e sua cura têm compelido a enfermagem a um compromisso de incluí-la nos cuidados de saúde. Os cuidados de enfermagem ao paciente com câncer devem ser individualizados, pois cada fase da vida apresenta transformações fisiológicas e psíquicas. Com o diagnóstico de doença neoplásica, 55 ENFERMAGEM INTEGRADA o paciente está fragilizado e com uma perspectiva de sobrevida reduzida, e isso implica um grau de sofrimento. Com uma comunicação eficiente, o enfermeiro deve se aproximar desse paciente para identificar suas necessidades e lhe proporcionar melhor qualidade de vida. O relacionamento entre paciente, equipe de enfermagem e família no processo de cuidar inclui os seguintes aspectos: a maneira como é dada a notícia, a clareza com que é abordado o assunto e a abertura ofertada ao paciente e à sua família para conversar sobre seu sofrimento, sentimentos, dúvidas e recuperação. Para que possa enfrentar seus problemas de forma realista, a pessoa com câncer precisa da ajuda da enfermagem para identificá-los, para participar ativamente da experiência e, se possível, para encontrar soluções. É possível notar o valor do enfermeiro para o controle do medo, da fragilidade, das angústias e das dificuldades encontradas na experiência da internação, através da assistência de enfermagem, fornecendo suporte psicossocial e provendo conforto e os cuidados devidos. Saiba mais Para um estudo mais aprofundado da base científica sobre oncologia e estimativas, leia: INCA. Estimativa 2018: incidência de câncer no Brasil. Rio de Janeiro: Inca, 2018. Disponível em: https://bit.ly/3hIT4cx. Acesso em: 4 jan. 2023. 4 CUIDADOS PALIATIVOS E MODELOS ASSISTENCIAIS 4.1 Aspectos históricos do cuidado paliativo O cuidado paliativo confunde-se historicamente com o termo hospice, que definia abrigos (hospedarias) destinados a receber e cuidar de peregrinos. O relato mais antigo remonta ao século V, quando Fabíola, discípula de São Jerônimo, cuidava de viajantes vindos da Ásia, da África e dos países do leste no Hospício do Porto, em Roma (NICÉSIO, 2012). Várias instituições de caridade surgiram na Europa no século XVII, abrigando pobres, órfãos e doentes. Essa prática propagou-se com organizações religiosas católicas e protestantes, que, no século XIX, passaram a apresentar características de hospitais (BATALHA, 2017). O movimento hospice moderno foi introduzido pela inglesa Cicely Saunders. Com formação humanista e médica, Saunders fundou em 1967 o St. Christopher’s Hospice, cuja estrutura não só permitiu a assistência aos doentes, mas também o ensino e a pesquisa, recebendo bolsistas de vários países. Na década de 1970, o encontro nos EUA entre Cicely Saunders e Elisabeth Kübler-Ross fez com que o movimento crescesse naquele país. 56 Unidade I Em 1982, o Comitê de Câncer da OMS criou um grupo de trabalho responsável por definir políticas para o alívio da dor e cuidados do tipo hospice que fossem recomendados em todos os países para pacientes com câncer. O termo cuidado paliativo, já utilizado no Canadá, passou a ser adotado pela OMS devido à dificuldade de traduzir adequadamente hospice em alguns idiomas (BATALHA, 2017). A OMS publicou sua primeira definição de cuidados paliativos em 1990: cuidado ativo e total a pacientes cuja doença não responde a tratamento de cura. O controle da dor, de outros sintomas e de problemas psicossociais e espirituais é primordial. Seu objetivo é proporcionar a melhor qualidade de vida possível para pacientes e familiares. Essa definição foi revisada em 2002 (BATALHA, 2017). Figura 13 – Middlesex Hospital, Londres Disponível em: https://bit.ly/3G9Moxp. Acesso em: 21 dez. 2022. Figura 14 – Cicely Saunders Disponível em: https://bit.ly/3PR5SKE. Acesso em: 21 dez. 2022. 57 ENFERMAGEM INTEGRADA 4.2 Conceito e princípios de cuidados paliativos Segundo a definição da OMS, revista em 2002, cuidado paliativo é uma abordagem que promove a qualidade de vida de pacientes e seus familiares, que enfrentam doenças que ameacem a continuidade da vida, por meio da prevenção e do alívio do sofrimento. Requer identificação precoce, avaliação e tratamento da dor e outros problemas de natureza física, psicossocial e espiritual (INCA, 2018). Portanto não se baseia em protocolos, mas em princípios. Não se fala mais em terminalidade, mas em doença que ameaça a vida, e indica-se o cuidado desde o diagnóstico, expandindo nosso campo de atuação. Não falaremos em impossibilidade de cura, mas na possibilidade ou não de tratamento modificador da doença – afastando, dessa forma, a ideia de não ter mais nada a fazer. Pela primeira vez, a abordagem inclui a espiritualidade entre as dimensões do ser humano. A família é lembrada e, portanto, assistida também após a morte do paciente, no período de luto (BATALHA, 2017). Observação Cuidados paliativos pautam-se em conhecimentos inerentes às diversas especialidades, em possibilidades de intervenção clínica e terapêutica nas diversas áreas de conhecimento da ciência médica e de habilidades específicas. Em 1986, a OMS publicou princípios que regem a atuação da equipe multiprofissional de cuidados paliativos. Esses princípios foram reafirmados na sua revisão em 2002 e estão listados a seguir: – Promover o alívio da dor e de outros sintomas desagradáveis. – Não acelerar nem adiar a morte. – Afirmar a vida e considerar a morte um processo normal da vida. – Integrar os aspectos psicológicos e espirituais no cuidado ao paciente. – Oferecer um sistema de suporte que possibilite ao paciente viver tão ativamente quanto possível até o momento da sua morte. – Oferecer sistema de suporte para auxiliar os familiares durante a doença do paciente e o luto. 58 Unidade I – Oferecer abordagem multiprofissional para focar as necessidades dos pacientes e seus familiares, incluindo acompanhamento no luto. – Melhorar a qualidade de vida e influenciar positivamente o curso da doença. – Iniciar o mais precocemente possível o cuidado paliativo, juntamente com outras medidas de prolongamento da vida, como quimioterapia e radioterapia, e incluir todas as investigações necessárias para melhor compreender e controlar situações clínicas estressantes (MACIEL, 2008, p. 18-21). Nas últimas décadas, assistimos ao envelhecimento progressivo da população, assim como ao aumento da prevalência de câncer e outras doenças crônicas. Em contrapartida, o avanço tecnológico principalmente a partir da segunda metade do século XX, associado ao desenvolvimento da terapêutica, fez muitas doenças mortais se transformarem em crônicas, levando à longevidade dos portadores. No entanto, apesar dos esforços dos pesquisadores e do conhecimento acumulado, a morte continua uma certeza, e ameaça o ideal de cura e preservação da vida para o qual nós, profissionais da saúde, somos treinados (BATALHA, 2017). Os pacientes fora de possibilidade de cura acumulam-se nos hospitais, recebendo invariavelmente assistência inadequada, quase sempre focada na tentativa de recuperação, utilizando métodos invasivos e de alta tecnologia. Essas abordagens, ora insuficientes, ora exageradas, em geral ignoram o sofrimento e são incapazes, por falta de conhecimento adequado, de tratar os sintomas mais prevalentes, sendo a dor o principal e mais dramático. Não se trata de cultivar postura contrária à medicina tecnológica, mas de questionar o uso excessivo da tecnologia e refletir sobre nossa conduta diante da mortalidade humana, tentando equilibrar conhecimento científico e humanismo para resgatar a dignidade da vida e a possibilidade de morrer em paz (BATALHA, 2017). Cada vez mais encontramos pacientes idosos, portadores de síndromes demenciais de variadas etiologias ou com graves sequelas neurológicas. Devemos enfrentar o desafio de nos conscientizar do estado de abandono a que esses pacientes estão expostos, inverter o atual panorama dos cuidados oferecidos e tentarimplantar medidas concretas, como a criação de recursos específicos, a melhoria dos cuidados oferecidos nos recursos já existentes, a formação de grupos de profissionais e a educação da sociedade em geral (BATALHA, 2017). Os cuidados paliativos despontam como alternativa para preencher essa lacuna nos cuidados ativos aos pacientes. 4.3 O cuidado paliativo no Brasil O cuidado paliativo no Brasil teve seu início na década de 1980 e conheceu um crescimento significativo a partir do ano 2000, com a consolidação dos serviços já existentes e pioneiros e a criação de outros não menos importantes. Hoje já são mais de 40 iniciativas em toda a nação, mas ainda é pouco, considerando-se a extensão geográfica e as necessidades do país. Os profissionais de saúde têm 59 ENFERMAGEM INTEGRADA grande responsabilidade nesse projeto: é preciso firmar um compromisso para ajudar a construir um futuro promissor para os cuidados paliativos, a fim de que um dia, não muito distante, todo cidadão brasileiro possa se beneficiar dessa boa prática. Saiba mais Para mais informações sobre o manejo do paciente em cuidados paliativos, leia: CARVALHO, R. T.; PARSONS, H. A. (org.). Manual de cuidados paliativos ANCP. 2. ed. ampl. atual. São Paulo: ANCP, 2012. Disponível em: https://bit.ly/3BOcgw7. Acesso em: 4 jan. 2023. Lembrete O cuidado paliativo não se baseia em protocolos, mas em princípios. 60 Unidade I Resumo Nesta unidade foram abordados dois temas importantes para a enfermagem: políticas de saúde para doenças crônicas e oncologia. Ao tratar das políticas públicas de saúde, observou-se a importância dos cuidados preventivos e de acompanhamento, especialmente quando relacionados a diabetes mellitus e hipertensão arterial. Foram apontadas ainda as diretrizes e possibilidades de intervenção, incluindo a enfermagem na melhora da expectativa e qualidade de vida de portadores de doenças crônicas. Quanto ao tema do câncer, foi possível discorrer sobre as principais manifestações oncológicas, destacando sua incidência de acordo com dados epidemiológicos. Observou-se que a questão diagnóstica envolve fases, exames e intervenções para se determinar corretamente o tipo de célula envolvido na doença manifestada. As possibilidades terapêuticas com medicamentos orais, injetáveis ou radioterápicos, além de terapias complementares, minimizando os indesejáveis efeitos colaterais e oferecendo conforto ao longo do processo de doença e tratamento, também foram mencionadas. O direcionamento para enfermagem e sua importante atuação no diagnóstico, tratamento e reabilitação também foi abordado. Por fim, os cuidados paliativos foram apresentados como prática concreta e possível tanto nas doenças crônico-degenerativas quanto naquelas sem possibilidade terapêutica de cura. 61 ENFERMAGEM INTEGRADA Exercícios Questão 1. A Portaria n. 2.436, de 21 de setembro de 2017, aprovou a Política Nacional de Atenção Básica (Pnab), com o objetivo de revisar a regulamentação de implantação e operacionalização vigente no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), estabelecendo as diretrizes para a organização do componente atenção básica na Rede de Atenção à Saúde (RAS). Em relação à referida portaria, avalie as asserções a seguir e a relação proposta entre elas: I – Segundo a portaria, é responsabilidade dos municípios e do Distrito Federal organizar, executar e gerenciar os serviços e as ações de atenção básica, de forma parcial, dentro do seu território, exclusivamente nas unidades próprias. porque II – De acordo com a portaria, o usuário apenas pode vincular-se a uma única unidade básica de saúde (UBS). Assinale a alternativa correta: A) As asserções I e II são verdadeiras, e a asserção II justifica a I. B) As asserções I e II são verdadeiras, mas a asserção II não justifica a I. C) A asserção I é verdadeira, e a asserção II é falsa. D) A asserção I é falsa, e a asserção II é verdadeira. E) As asserções I e II são falsas. Resposta correta: alternativa E. Análise das asserções I – Asserção falsa. Justificativa: segundo o art. 10 da Portaria n. 2.436/2017, temos o que segue: Art. 10 Compete às Secretarias Municipais de Saúde a coordenação do componente municipal da atenção básica, no âmbito de seus limites territoriais, de acordo com a política, diretrizes e prioridades estabelecidas, sendo responsabilidades dos municípios e do Distrito Federal: 62 Unidade I Organizar, executar e gerenciar os serviços e ações de atenção básica, de forma universal, dentro do seu território, incluindo as unidades próprias e as cedidas pelo estado e pela União; […]. Disponível em: https://bit.ly/3Gj86Pw. Acesso em: 13 dez. 2022. II – Asserção falsa. Justificativa: diferentemente do que constava na Portaria n. 2.488, de 21 de outubro de 2011, na Portaria n. 2.436/2017 o usuário pode se vincular a mais de uma única unidade básica de saúde (UBS), por meio da negociação entre a gestão e as equipes, mantendo-se a informação com as equipes. Questão 2. Alguns conceitos importantes para a equipe de enfermagem, no que se refere aos hospitais, são os apresentados a seguir: • classificação de risco; • horizontalização do cuidado; • pontos de atenção. Em relação a esses conceitos, avalie as descrições I, II e III: I – Modo de organização do trabalho em saúde em que existe uma equipe multiprofissional de referência que atua diariamente no serviço (em contraposição à forma de organização do trabalho na qual os profissionais têm as cargas horárias distribuídas por plantão). II – Protocolo preestabelecido com a finalidade de agilizar o atendimento com base na avaliação do grau de necessidade do usuário, com a intenção de proporcionar atenção centrada no nível de complexidade, e não na ordem de chegada. III – Espaços para serviços de saúde de produção singular, como uma unidade ambulatorial especializada, uma unidade de atenção domiciliar, uma unidade de atenção paliativa etc. As descrições I, II e III referem-se, respectivamente, aos termos: A) Classificação de risco, horizontalização do cuidado e pontos de atenção. B) Classificação de risco, pontos de atenção e horizontalização do cuidado. C) Horizontalização do cuidado, classificação de risco e pontos de atenção. D) Horizontalização do cuidado, pontos de atenção e classificação de risco. E) Pontos de atenção, horizontalização do cuidado e classificação de risco. Resposta correta: alternativa C. 63 ENFERMAGEM INTEGRADA Análise da questão A associação entre os termos do enunciado e suas descrições é apresentada a seguir: • Horizontalização do cuidado: trata-se de um modo de organização do trabalho em saúde em que existe uma equipe multiprofissional de referência que atua diariamente no serviço (em contraposição à forma de organização do trabalho na qual os profissionais têm as cargas horárias distribuídas por plantão). • Classificação de risco: trata-se do protocolo preestabelecido com a finalidade de agilizar o atendimento com base na avaliação do grau de necessidade do usuário, com a intenção de proporcionar atenção centrada no nível de complexidade, e não na ordem de chegada. • Pontos de atenção: trata-se de espaços para serviços de saúde de produção singular, como uma unidade ambulatorial especializada, uma unidade de atenção domiciliar, uma unidade de atenção paliativa etc.