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AULA 1 NEUROEDUCAÇÃO E NEURODIDÁTICA: COMO O CÉREBRO APRENDE Profª Susane Garrido 2 CONVERSA INICIAL Nesta aula serão apresentadas noções de educação, de didática e de neurodidática, de práticas de ensino e de práticas educacionais para o exercício pleno de processos cognitivos de ensino e de aprendizagem. TEMA 1 – INTRODUÇÃO À NEUROEDUCAÇÃO: ESCOLAS COM O CÉREBRO EM MENTE É importante apresentar algumas premissas neste contexto novo da educação, chamado atualmente de neuroeducação. Segundo Jensen (2005), no campo da neuroeducação, considera-se que os seres humanos aprendem de várias maneiras, ou seja, via diferentes mecanismos e/ou métodos, sejam eles a sensibilização, a habituação, as respostas condicionadas, o aprendizado semântico, a imitação, a ação e outras tantas possibilidades que serão mencionadas ao longo da disciplina. Entretanto, assim como muitos dos mecanismos cerebrais cognitivos não são ainda decifrados em sua totalidade, para a neuroeducação, o que irá associar-se, em termos de execução didática, à neurodidática, à ideia de potência ou potenciação das memórias de longo prazo (LTP) tem sido um dos principais processos físicos de aprendizagem. A base para a LTP foi construída sobre o trabalho originalmente realizado por Donald Hebb, em 1949. Em síntese, para essa teoria de aprendizagem (sigla LTP), quando a resposta de um neurônio a outro neurônio for aumentada, isso significa que ele aprendeu a responder, ou seja, para cada evento no futuro, irá se requerer dessa rede neural menos esfoço (ou trabalho) para ativar a mesma rede de memória. Entretanto, podemos utilizar nossas redes de memórias de diversas formas para a educação, e de um ponto de vista da atualidade, com relação às possibilidades tecnológicas embutidas de todas as formas em nosso modo de viver, utilizar a memória não significa necessariamente memorizar, pois são fundamentos diferentes; sinteticamente, para a função da memória, temos a aquisição, a retenção e a evocação, e embora neste tema o objetivo não seja tratarmos disso em específico, é importante correlacionar os preceitos da neuroeducação, os quais tendem muito para a observação desses mecanismos no cérebro, para que possamos compreender como nossas práticas pedagógicas podem ser efetivas para as construções cognitivas que pretendemos, sabendo de 3 antemão que os mecanismos das memórias, assim como os aspectos emocionais e afetivos que inclusive interferem nesses processos, estarão sempre muito presentes. Primeiramente, vamos definir o que é uma prática pedagógica a partir do que vem a ser uma ação pedagógica. Conforme Rios (2008), uma ação pedagógica que visa a uma transformação social deve situar-se em um campo ético, já que se articula com “a dimensão técnica (domínio dos saberes); a dimensão estética (sensibilidade na relação pedagógica); e a dimensão política (que diz respeito à participação na construção coletiva da sociedade e ao exercício dos direitos e deveres)” (Verdum, 2013, p. 95). A necessidade da reinvenção da prática pedagógica que visa à aprendizagem, seja dentro ou fora da sala de aula, traz diferentes desafios ao professor, principalmente se considerarmos os adventos das tecnologias que cercam atualmente o cotidiano de uma grande maioria da população que estuda em diferentes níveis, porque as perspectivas de cognição humana e suas interrelações com essas tecnologias apresentam-se cade vez mais em fase de mutação, de atualização em espaços de tempo cada vez mais curtos e diversos, já que as relações de espaço e tempo se estreitam e se complexificam mais, pois não são somente lineares. Assim, de acordo com Verdum, citado por Fernandes (1999, p. 159), uma prática pedagógica é: Prática intencional de ensino e aprendizagem não reduzida à questão didática ou às metodologias de estudar e de aprender, mas articulada à educação como prática social e ao conhecimento como produção histórica e social, datada e situada, numa relação dialética entre prática- teoria, conteúdo-forma e perspectivas interdisciplinares. Já sob a ótica de Viana (2016), a educação brasileira tem-se orientado por uma prática pedagógica fundamentada em uma tradição empírica da ciência pedagógica e em uma perspectiva da ideologia liberal, em que a educação possui claramente interesses na manutenção de um status quo social e econômico que opta pelo conservadorismo, reprodução de culturas e dos interesses das classes mais abastadas, reproduzindo desigualdades e mantendo um sistema iminentemente capitalista e nada humanista. Dessa forma histórica, a prática pedagógica permanece arraigada a uma mínima foça de expressão de pensamentos ou de mudanças e a uma força máxima de aprisionamento e sufocamento de possibilidades novas ou que 4 venham a contribuir para uma ideia de mais igualdade social, de diversidade e até mesmo de ruptura de hegemonias de todas as naturezas (Viana, 2016). As considerações políticas nesse cenário histórico, ao menos no Brasil, tendem a uma ideia de condicionamento, no qual a tradição e a cultura vigente de épocas utilizaram-se da memória e de sua potência enquanto mecanismo de repetição (com a máxima do neurônio que aprende), para a manutenção de um status quo; esse exercício, embora biologicamente correto, pois aprendemos pela memorização, assim como pela habituação, criou uma limitação de possibilidades mais ampliadoras, como os do pensamento coletivo. Para a libertação da prática pedagógica enquanto ato político, e não somente de educação, uma vez que ato pedagógico já o é, há se de tecer muito sobre a liberdade de expressão das pessoas, de professores e de alunos. É necessário potencializar diferentes credos, diferentes formas de pensar, de se predispor a exercícios de empatia, de literalmente colocar-se no lugar do outro, para assim então perceber-se diferente, apoiar espectros de entendimentos e de ideais novas, de linguagens novas, múltiplas; há de se ser múltiplo. A educação, nessas perspectivas, torna-se um processo antes de mais nada crítico, intervencionista nos contextos em que está inserida, ensinando o estudante a ter uma postura crítica frente à realidade social. Segundo Viana (2016), a educação deve propiciar a autonomia dos sujeitos, aparatando-o para além de uma simples alfabetização, tornando-o autônomo intelectualmente para intervir na própria realidade, contribuindo para sua produção/transformação. Na raiz do dilema está o entendimento da relação entre teoria e prática em termos da lógica formal, para a qual os opostos se excluem. [...]. E, na medida em que o professor é revestido do papel de defensor da teoria enquanto o aluno assume a defesa da prática, a oposição entre teoria e prática se traduz, na relação pedagógica, como oposição entre professor e aluno. No entanto, admite-se, [...], que tanto a teoria como a prática são importantes no processo pedagógico, [...] não sendo, pois, possível excluir um dos polos da relação em benefício do outro. Dir-se-ia, pois, que teoria e prática, assim como professor e aluno são indissociáveis do processo pedagógico. (Saviani, 2007, p. 107) E embora falemos aqui que uma prática pedagógica é um ato político, não defende-se partidariamente ninguém, e muito menos considera-se que o fato de ser um ato político deve vir carregado ideologicamente de qualquer coisa; aqui, defende-se que a plasticidade humana é um ato humano, que deve vir sim carregada de possibilidades para desenvolver e evoluir a espécie, a fim não 5 somente de sua manutenção ou sobrevivência, mas de sua transformação para melhor, de forma reflexiva, consciente, crítica e intencional. TEMA 2 – PERSPECTIVAS SOCIAIS E HUMANISTAS E SEU IMPACTO SOBRE O CÉREBRO DOS(AS) ESTUDANTES Há perspectivas diversas, difundidas e executadas na prática para os conceitos de educação vigentes, desde asmais comportamentalistas e de estimulo e resposta de Skinner e Pavlov, até as perspectivas psicológicas humanistas de Rogers e dissidentes, nas quais a emoção precisa ser considerada, além das teorias de âmbito mais construtivista e social, como as de Piaget, Vygotsky e Saviani, por exemplo. Em se tratando de uma disciplina que trata das neurociências como questão de fundo, o que, de uma certa forma, denota tendências mais evolucionistas na medida em que a ideia é sempre lidar com o desenvolvimento de nossa plasticidade e gerar motivações intrínsecas no que cerca os processos cognitivos, vamos tocar em diferentes vertentes para perceber diferenças e similaridades nas abordagens, construindo assim os processos educacionais mais adequados às especificidades de contextos, pessoas e de possibilidades. Vamos nos ater a conceitos mais humanistas e sociais neste tema, a começar pelas perspectivas de Rogers e Barret. Para Rogers, educação é um processo individual e intrínseco de facilitação da autoconstrução do conhecimento no aluno; nele, o professor é um facilitador de tudo; entretanto, o processo se dá em um contexto com múltiplas variáveis de todas as ordens agindo junto com o próprio conhecimento, ou seja, aspectos psicológicos, familiares, culturais, cognitivos e também relacionados aos saberes que se tem interesse para educar. Sua abordagem foi denominada como centrada na pessoa (ACP). O cérebro humano é acompanhado de inúmeros estímulos de ordens diversas. No entanto, pra abordagens mais humanistas, os aspectos emocionais que compõem esse sistema humano são elementos de total relevância; as emoções (tratadas no capítulo de emoções) terão papel estruturante nas construções cognitivas oriundas dessas abordagens centradas na pessoa, uma vez que o universo emocional, embora amplo, é único para cada indivíduo. Já para Barret, a educação é um processo cognitivo e social que deve considerar a neuroplasticidade do cérebro como elemento preponderante para 6 uma boa educação; entretanto, essa neuroplasticidade está diretamente associada a aspectos emocionais e sociais para seu desenvolvimento. Na atualidade, um dos principais ofensores para uma educação de sucesso está no stress gerado pelo excesso de tudo, desde as informações, aspectos usualmente difundidos desde o advento internet, até os problemas ampliados pelas perspectivas de coabitação de vários mundos, como o real, o digital e o virtual, nos quais os jovens andam quase sempre imersos. "According to Jensen and Snider (2013), these students’ brains are “often overwhelmed by risk factors for academic or social impairment – poverty, parental separation, abuse, neglect, poor nutrition, bullying, lack of housing stability, and health issues” (Barret et al, p. 67). Na obra de Barret et al. (2005), a ideia de educação conecta-se fortemente com Damásio, ao citar que funções cognitivas clássicas (como também abordadas na nossa disciplina), assim como fatores externos, como o ambiente e a situação social e psicológica dos alunos, são altamente interferentes em qualquer apreensão do conhecimento. The aspects of cognition that are recruited most heavily in education, including learning, attention, memory, decision making, motivation, and social functioning, are both profoundly affected by emotion and in fact subsumed within the processes of emotion” (Immordno-Yang; Damasio, 2007, p. 7). A positive environment is important because it fundamentally supports learning at the level of emotion and culture, whereas a negative environment shuts learning down. Schools must engage students positively at the emotional and social levels if they are to make progress at the cognitive level. (Barret et al, 2005, p. 70) Já Demerval Saviani considera a educação como "produção do saber", pois o homem é capaz de elaborar ideias, possíveis atitudes e uma diversidade de conceitos. No entanto, essa produção só tem sentido se for social e puder mudar o ambiente e as condições de vida desse mesmo sujeito e dos demais à sua volta. Saviani (1991, p. 29) dá ênfase à ideia do currículo escolar, da escrita e do conhecimento científico, trazendo para a escola a sistematização da cultura popular para a cultura erudita, por meio dessa espécie de tripé. Vygotsky trata a educação como um processo social de cunho construcionista, o qual traz uma peculiaridade quase que metodológica quando enfoca a medida das construções dos aprendizes, considerando as zonas de desenvolvimento proximal, o que de forma sintética significa dizer que, quanto mais independente do sujeito que ensina fica o aprendiz, mais ele aprendeu; ou seja, há um exercício de codependência, mas também de autonomia. 7 Nesse contexto, não se pode deixar de citar Luria e sua ideia de um Sistema mais complexo para tratar do funcionamento do cérebro ou da funcionalidade cognitiva do cérebro, o qual passou a ser uma tese mais evoluída e menos fechada que a do Sistema funcional de outro autor chamado Pyotr Kuzmicj Anokhin, na qual os sistemas cerebrais eram fechados e, talvez, independentes. Para Luria, a função cerebral não pode ser entendida como a função de uma área em particular, mas de todo o sistema ao qual o cérebro faz parte, sem reducionismos a agrupamentos específicos neuronais ou algo similar. Sua tese se organiza na ideia de função, localização e sintoma para os casos de alguma doença. Em uma linha mais construtivista, encontra-se Piaget com sua Epistemologia genética, a qual irá focar em aspectos da aprendizagem com base na evolução dos “Esquemas”, estruturas estas, mentais ou cognitivas, pelas quais os indivíduos intelectualmente organizam sua aprendizagem ou novas tomadas de decisão; nesse processo de tomada de decisão, encontram-se sistemas de assimilação e de acomodação das novas informações como os responsáveis pela evolução dos esquemas (sensório-motores) “da criança”, para os esquemas cognitivos “dos adultos” (Garrido, 2005). Segundo Viana (2016), ambos autores, Piaget e Vygotsky, concebem a criança como um ser ativo, mas discordam quanto à sequência dos processos de aprendizagem e de desenvolvimento mental. TEMA 3 – DA DIDÁTICA À NEURODIDÁTICA Aqui, embora façamos uma breve incursão conceitual na história da didática, a ideia é mostrar as possibilidades didáticas de diferentes correntes, intencionando as conexões neurais e neuronais que possibilitam ao cérebro a aprendizagem, o que acabou sendo denominada de neurodidática. Os condicionamentos, as conexões sócioculturais e emocionais e os reforços de memória serão apresentados para que se possa perceber que as abordagens didáticas apresentam tendências que devemos escolher para trabalharmos em sala de aula com nossos alunos. Historicamente falando, a primeira obra publicada com o tema didática chama-se Didática magna, e data do ano de 1631, e foi produzida por Comênio (ou Comenius); é uma obra precursora de uma educação moderna, na qual as relações de ensino e de aprendizagem entre professor e aluno deveriam ter 8 enfoques multifacetados de diversas naturezas, considerando os interesses da criança, as relações com a própria natureza e a boa comunicação. Assim, percebe-se que, mesmo estando na Idade Média, Comenius enxergava a didática como uma ferramenta fundamental para o desenvolvimento sócio cognitivo e psicológico das crianças, contanto que fosse algo baseado no tempo e no espaço, pois não existiria um padrão a ser seguido por todos. É bastante atual a ideia de Comenius, uma vez que hoje, diante de inúmeras perspectivas de busca de absorção das informações assim como de linguagens e modelos, faz-se necessário uma adequação cada vez mais explícita dos processos didáticos que iremos escolher como professores para chegarmos em nossos alunos, assim como para impactarmos cognitivamente em seus desenvolvimentos. Já VeraCandau defende a didática em uma perspectiva intercultural crítica, que vem a reforçar a ideia de que os processos de ensino e de aprendizagem devem conter uma carga bastante grande dos aspectos culturais que cercam o aprendiz, ao mesmo tempo que haja uma provocação de questionamento da própria cultura, ou de reinvenção criativa do que se compreende e do que pode vir a ser; nesse sentido, o professor tende a ser um facilitador dessa crítica. Segundo Candau e Koff (2015, p. 7): Por sua vez, ressaltamos que, para nós, a reinvenção da escola pressupõe, entre outros aspectos, colocar em debate o modo de viver o currículo e/ou a prática educativa, refletindo e discutindo, portanto, o que entendemos são os seus modos de organizar tempos e espaços, relações, papéis de seus diferentes sujeitos e atores, saberes e conhecimentos, métodos, técnicas e recursos, linguagens, planejamento e avaliação. E, embora reconheçamos que não é suficiente promover transformações de caráter teórico-metodológico para mudar a escola, consideramos que esse é um aspecto significativo para construir uma outra escola e, portanto, uma outra educação, desde que tais mudanças sejam contextualizadas histórica e culturalmente e estejam orientadas por princípios claramente formulados e que expressem respostas às questões: que educação queremos construir? Que sujeitos/atores desejamos ajudar a formar? Ou, em outras palavras, que prática escolar desejamos realizar a serviço de quem e do quê? E a neurodidática, o que vem a ser? Como um campo novo de estudos, inúmeras especulações surgem a respeito da neurodidática; há aquelas correntes que a defendem já como uma ciência, outras como um campo emergente de conhecimento interdisciplinar entre as neurociências cognitivas e a didática, e há aqueles que vão considerá-la um mito, ou seja, uma dissidência que não se sustenta cientificamente falando. 9 A neurodidática surge como uma resposta a interpretações equivocadas do tipo “estímulos corretos desenvolvem estilos de aprendizagem específicos”, advindas de algumas teorias sobre estilos de aprendizagem como as inteligências múltiplas, de Daniel Golemann ou a Learning Styles: Concepts and Evidences (“Estilos de aprendizagem: conceitos e provas”), de Harold Pasher, de 2008. Embora os estudos dos estilos de aprendizagem citados sejam importantes e com boas bases científicas, muitas interpretações (de senso comum) acerca de metodologias didáticas baseadas em um ou outro estímulo para um ou outro estilo de aprendizagem proliferaram-se sem fundamentos comprobatórios na literatura de didática ao longo da história, ocasionando grandes estragos sobre a ideia de uma dicotomia entre os processos integrados do sistema cerebral cognitivo humano. Entretanto, a neurodidática surge justamente arraigada à premissa de que o cérebro humano não aprende com base em um estímulo ou a partir de uma área específica, mas sim do conjunto ou no tecido complexus (tomando emprestado o termo de Morin), onde tudo se conecta a tudo e inclusive ao que desconhecemos, ao que aprendemos. Com base na ideia de uma neurodidática, as funções cognitivas humanas, como a percepção, a memória, a abstração ou a imaginação, assim como todos os artefatos emocionais dos seres humanos, andam juntos nos processos de aprendizagem. Abordaremos aqui, a partir de diferentes vertentes, alguns exemplos de desenvolvimento neurodidático enquanto metodologia ou ferramenta de ensino e de aprendizagem. Um delas é a Teoria das situações didáticas de Brousseau, bastante difundida no terreno da matemática, devido à possibilidade de desenvolvimento do mecanismo de abstração (de decomposição e estratégia). Trata-se de um modelo teórico prático no qual há uma situação problema, usualmente uma espécie de competição, da qual parte-se para as sugestões de soluções com testagens com combinações e negociações entre as equipes; o método possui uma série de fases, e o “erro" faz parte do processo. Brousseau (2009) basicamente apresenta, em sua teoria, três situações didáticas: situação de ação (fase em que se estuda propriamente a situação, criam-se as estratégias e testa-se várias vezes tudo); situação de formulação (fase em que os parceiros de uma equipe por exemplo precisam saber comunicar sua formulação de estratégia); situação de validação (nessa fase, cada jogador 10 posiciona-se em relação a um enunciado. Caso não haja consenso ou concordância, pode-se demonstrar a formulação, refazer ou adaptar). Na abordagem da TSD, Brousseau (2008) descreve que o objetivo dessa teoria é de propiciar a reflexão sobre as relações entre os conteúdos do ensino e os métodos educacionais, e de modo mais amplo, abordar a didática como campo de investigação cujo objeto é a comunicação dos conhecimentos matemáticos e suas transformações. Isso porque, para Brousseau (2008), o ensino é concebido a partir de relações entre o sistema educacional e o aluno, vinculado à promoção de determinado conhecimento. Dessa forma, a relação didática é interpretada como uma comunicação de informações e essa atividade se consolida em dois processos: a aculturação e a adaptação independente. A aculturação está relacionada ao conjunto de mudanças resultantes do contato, de dois ou mais grupos de indivíduos, representantes de culturas diferentes ou até saberes diferentes, quando postos em contato direto e contínuo. A adaptação independente é o processo no qual o aluno ou os alunos vão se ajustando ao meio de forma natural no desenvolvimento das atividades. Além desses dois processos, Brousseau (2008) considera na TSD a influência do meio sociocultural na aprendizagem, inspirado, nesse âmbito, em Vigotski (1998). (Silva; Nilson, 2015, p. 3-4) Em outra vertente, mais voltada à memória, temos o modelo de Ensino de Jensen (2005), conduzido com forte correlação entre a mente e o corpo, e que propõe uma didática do antes, durante e depois. A ideia do modelo é que você despenda um percentual de tempo para cada um desses momentos com as seguintes premissas: 1. No antes: despender 10% do tempo para preparar os estudantes para a proposta que se pretende e preparar também o ambiente. 2. No durante: despender cerca de 80% do tempo para cinco etapas: engajamento, enquadramento, aquisição, elaboração e fortalecimento da memória. 2.1 No engajamento, há a conexão entre o corpo e a mente, e nessa etapa, aumenta-se a frequência cardíaca e os níveis de cortisol, podendo ainda envolver o aumento de dopamina ou epinefrina. Como atividades didáticas, pode-se utilizar de “retórica, humor, afirmações, arte, rituais de grupo, atividades ou alongamentos” (p. 147). 2.2 No enquadramento: a ideia dessa etapa é como uma espécie de ativação neuronal na medida em que a etapa anterior conectou mente e corpo; neste momento, o professor terá a atenção dos alunos para enfim propor aprendizagem. 2.3 Na aquisição: é a etapa de uma ideia de instrução ou de outro tipo de aprendizado, na qual as sinapses irão de fato ocorrer; assim, as metodologias mais ativas terão maior impacto e, portanto, maior 11 significado; quanto mais atividades de cooperação, maiores serão os laços emocionais, propulsores de cognição. 2.4 Na elaboração: há uma intenção com o aprofundamento da aprendizagem iniciada na etapa anterior. Neste momento, é saudável trabalhar os erros, pois eles servirão de base para os contrapontos e solidificarão as teses que devem ser consolidadas, uma vez que, nessa etapa, ainda se estará tratando das memórias de curto prazo. 2.5 Fortalecimento da memória: essa etapa possui relevância para as lógicas que tratam do uso da memória para aprendizagem, pois nela está o reforço da memória a partir de elementos que possam ser evocados e, portanto, repetidos. 3. No depois: despender cerca de 10% do tempo em duas etapas: tempo de acomodação e descanso e revisão.TEMA 4 – PLANEJAMENTO COM O CÉREBRO EM MENTE Historicamente, o ser humano planeja. Seja na ancestralidade para caçar ou para se proteger de predadores, o planejamento sempre ocorreu; isso se deve à região do córtex frontal, a qual é mais desenvolvida em seres humanos do que em outros animais. Essa atividade humana tem se desenvolvido cada vez mais, e de acordo com de Neubert et al (2013), em uma Pesquisa da Universidade de Oxford, detectou-se no cérebro humano uma região do córtex frontal que não tem atividade equivalente em macacos. Essa área seria responsável pelo planejamento estratégico, tomada de decisão e execução de múltiplas tarefas, assim como desenvolvimento da flexibilidade humana. O planejamento de processos que envolvem ensino e aprendizagem está sempre conectado a muitas estratégias, mas sempre à perspectiva teórica que fundamenta a prática a ser realizada, ou seja, se a abordagem é construtivista ou tradicional ou até mesmo crítica, o planejamento deve-se ater às considerações fundamentais dessas linhas para ser coerente em todo o seu propósito. De uma forma mais sintética, os planejamentos contêm elementos fundamentais para sua construção, começando pelos objetivos (o que se deseja realizar); público-alvo, (para quem, e com quem se deseja realizar algo); metodologia (como se deseja realizar algo); recursos (com o que se pode 12 realizar algo); avaliação (como se avalia esse "algo”) e referências bibliográficas. Diante disso, um bom planejamento é aquele em que há sinergia entre todos esses aspectos, considerando, como premissa na ótica neurocientífica que estamos tratando a disciplina, dos desenvolvimentos cognitivos associados, e correlacionando-os aos conceitos das linhas teóricas acima mencionadas. Assim, em um planejamento de atividade envolvendo educação a distância, por exemplo, ou o uso de tecnologias digitais e virtuais, ao compararem-se dois modelos, um tradicional conservador e outro, construcionista-interacionista, tem- se: Quadro 1 – Mudanças dos paradigmas educacionais Modelo antigo Novo modelo Implicações tecnológicas Aulas na sala de aula Exploração individual Redes de PC com acesso à informação Absorvição passiva Aprendizagem Desenvolvimento de habilidades e simulações Trabalho individual Trabalho em grupo Benefícios das ferramentas colaborativas e correio eletrônico Professor omnisciente Professor como guia Apoiado no acesso à rede por especialistas Contexto estável Contexto de mudanças rápidas Requer redes e ferramentas de edição Homogeneidade Diversidade Requer acesso a várias ferramentas e métodos Fonte: Reinhardt, 1995. Trazendo considerações da obra Planejamento (Garrido, 2008) e conexões atuais, para uma abordagem de âmbito construcionista, poderiam apresentar-se como objetivos, usualmente, desenvolver espaços de conhecimento, reflexão e experimentação no que tange ao tópico que estaria em questão. Quanto à metodologia, a ideia poderia ser promover encontros mediados por: Ferramentas de comunicação disponíveis na comunidade de aprendizagem; Desenvolvimento coletivo/cooperativo da aprendizagem; Utilização de metodologias ativas e inovadoras. 13 Já para a avaliação, conceitos de natureza individual e coletiva devem ser trazidos e, diante das possibilidades tecnológicas, tais conceitos poderiam ser instrumentalizados pelas seguintes ferramentas: 1. Participação individual e coletiva qualitativa (e interlinkada), nas datas previamente combinadas, nas atividades de comunicação e de interação. 2. Resenha aprofundada na temática, sem “cópia” dos textos sugeridos para leitura e com mais de quatro páginas. 3. Criação de semanários correspondentes ao acompanhamento do processo de construção dos conhecimentos. 4. A avaliação final utilizará a lógica qualitativa de crescimento do aluno a partir de suas atuações nas atividades: cinco fóruns + resenha + semanários. Para um âmbito mais interacionista (similar ao que acontece no construcionista), poder-se ia apresentar como objetivos: desenvolver espaços de colaboração e de cooperação para construção dos conhecimentos. A metodologia, nessa linha, poderia estar sob forma de Projetos de aprendizagem coletivos e cooperativos, iniciados pelos interesses dos alunos e construídos a partir de dúvidas e de certezas provisórias ou sob forma de desafios/espaços que possibilitam a proposição de desafios de resolução cooperativa. Assim, em uma ideia de construção de Projetos, as orientações são fundamentos: Há sempre orientações referentes às atividades propostas (e construídas em coletivo) disponíveis em webfólios coletivos. Os prazos são impreterivelmente cumpridos tanto pelos professores (tutores) e alunos, a fim de manter a comunidade em funcionamento. Há espaços assíncronos e síncronos de contatos para esclarecimento de dúvidas. A proposição de avaliação coletiva e individual deve envolver domínio tecnológico e participação ativa nas atividades propostas. Avaliação: Parte coletiva (50%) + Parte individual (50%). 14 TEMA 5 – MODALIDADES DE EDUCAÇÃO E O CÉREBRO Sob um âmbito mais conceitual e filosófico, há basicamente três modalidades de educação atualmente no mundo, a presencial, a distância e a híbrida. A presencial, que todos nós conhecemos, é aquela em que alunos e professores estão compartilhando informações no mesmo espaço, ao mesmo tempo em que estamos experimentando os processos de ensino e de aprendizagem. Para o cérebro humano, essa modalidade é a mais cômoda, uma vez que segue a trajetória histórica biológica do sensorial on time, ou seja, de se estar no mesmo lugar ao mesmo tempo, experimentando sensações e percepções cognitivas em um tempo presente. Já a modalidade a distância é aquela que flexibiliza o espaço e o tempo, ou flexibiliza um ou outro, o que significa que podemos estar ao mesmo tempo em espaços diferentes ensinando e aprendendo, e também podemos estar em tempos diferentes no mesmo espaço, e até mesmo em tempos diferentes e em espaços diferentes; nessa, o cérebro se utiliza bastante de outras funções cognitivas, como a memória, a atenção e concentração, por exemplo, na medida em que o tempo passa a ser uma dimensão não linear, mas mais sincrônica e de cada um. A modalidade híbrida, a mais democrática de todas as modalidades, é aquela em que se pode compor um currículo com parte de uma modalidade e parte de outra, e esses percentuais podem ser usualmente institucionalizados, e nos casos mais ousados de algumas iniciativas, até individualizados conforme desejo do aluno e oferta da instituição; em termos neurais, ela carrega um todo mais sistêmico. De um ponto de vista regulatório brasileiro, desde o Decreto n. 5.622/2005, que regulamentou o âmbito da Educação a distância, e com o atual Decreto n. 9.057/2017, convalidando o mesmo conceito, há apenas duas modalidades, a presencial e a distância, e estas diferem entre si por percentuais de presencialidade embutidos nas atividades de ensino e de aprendizagem. Atuar bem, didaticamente falando e com um planejamento eficaz para dar conta dessas modalidades de ensino e, portanto, de aprendizagem, requer um preparo mais aprofundado por parte do professor, assim como também por parte do aluno, e torna-se absolutamente necessário passar a pensar na educação a distância ou até mesmo na modalidade híbrida, pois as metas do PNE do Brasil 15 pretendem atingir um manancial da população que será acessada somente se houver diversificação e ampliação modal. De acordo com Garrido et al (2015, p. 1): Como Meta do PNE está o atingimento de cerca de 30% população em idade de cursar o Ensino Superior no Brasil. Para isso, esforços como o cumprimento dos SINAES e uma avaliação fortemente integrada aos diferentes contextos que englobam asofertas deste segmento, bem como o reconhecimento do papel da educação a distância como modalidade que difere em todos os âmbitos, da modalidade presencial e que portanto necessita de uma regulamentação legal e avaliativa diferenciadas dos padrões mais tradicionais, far-se-ão tão necessários como deverão gerar uma reinvenção da própria universidade como instância da formação em nível superior com a devida qualidade que deve ser assegurada para quem a procura. De uma forma reducionista, as peculiaridades de cada modalidade para fins de planejamento concentram-se nas garantias de atingimento factual de cada público alvo. Em outras palavras, gerar aprendizagem para conhecimento, a finalidade da educação enquanto processo de desenvolvimento social, deve considerar todas as especificidades de elaboração de objetivos, de metodologias, de utilização dos recursos possíveis e eficazes para tal e de avaliações condizentes. Em cenários mais presenciais, em que se trata do público ao mesmo tempo e no mesmo espaço, embora acredita-se que se atinja a todos simultaneamente, um planejamento eficiente ainda será aquele que, de uma certa forma, consiga “individualizar a aprendizagem”, já que cada um tem seu tempo de absorção e de maturação cognitiva, ao mesmo tempo em que a cooperação passe a ser uma forma mais dinâmica de se chegar a todos. Nesses casos de atividades presenciais, as interações síncronas tornam-se o mecanismo mais apropriado e a comunicação, algo que se pode corrigir no mesmo tempo e no mesmo espaço. Entretanto, em cenários balizados pela intermediação das tecnologias, casos da educação a distância e da educação híbrida, os planejamentos devem atentar-se para atividades com muita interação assíncrona (as síncronas podem ser utilizadas também, mas devem atender às possibilidades dos grupos de alunos), realizações de feedback e ações de acolhimento individualizadas, a fim de que a evasão não se torne uma possibilidade factível ao aluno, o que é bastante comum na modalidade, visto que inúmeras dificuldades permeiam as iniciativas, como por exemplo a aversão ao uso de tecnologias, a necessidade do contato físico e presencial, a falta de autonomia para estudar, o índice elevado de leituras que a 16 modalidade normalmente comporta e, infelizmente, a estatística negativa de iniciativas de baixa qualidade por parte de algumas instituições de ensino. Não se pode desconsiderar que o Brasil, sendo um país latino, carrega uma cultura muito afetiva e que condiciona mais atributos subjetivos à aprendizagem do que outros países, cujo traço afetivo não seja tão intenso; isso corrobora a uma educação a distância com evasões mais altas, na medida em que essas lacunas relacionais não estejam devidamente supridas através de metodologias e recursos que deem conta de uma certa “presencialidade”, mesmo que virtualizada. Já na perspectiva mais híbrida, há a possibilidade do contato presencial professor-aluno e aluno-aluno, o que ativa psicologicamente o âmbito mais relacional do aluno e o ajuda a manter condições de permanência nos cursos. Ao se tratar de mundos presenciais e virtuais juntos, ou então híbridos, surgem novos conceitos de presencialidade, pois podemos ter o que chamamos de presença virtual, na qual o sujeito está virtualmente presente no mesmo tempo, mas ausente no mesmo espaço. Para o cérebro humano, lidar com a sincronia de tempo e de espaço é o que foi aprendido em toda a história humana. Entretanto, a partir do momento em que se quebra essa sincronia e surge a assincronia, quando uma das duas dimensões pode variar ou ambas, há uma perda de referencial e de localização geográfica principalmente, que sempre remeteu o cérebro a um tempo cronos (“cronológico”, ou seja, linear). Em abordagens do tipo híbridas ou a distância, o Modus Operandi nos remete a um novo modo de pensar e de executar as atividades, o que obriga a percepção e a memória a serem funções mais flexíveis, assim como nosso próprio planejamento; Isso se torna literalmente um desafio a ser vencido devido à plasticidade que nos acompanha. 17 REFERÊNCIAS BARRETT, L. F.; NIEDENTHAL, P. M.; WINKIELMAN, P. (Ed.). Emotion and Consciousness. The Guilford Press, 2005. BROUSSEAU, G. Introdução ao estudo das situações didáticas: conteúdos e métodos de ensino. São Paulo: Ática, 2008. CAMPOS, F. C. 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