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Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) Autor: Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó 13 de Janeiro de 2024 Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida Índice ..............................................................................................................................................................................................1) Abertura de curso 3 ..............................................................................................................................................................................................2) Regime Jurídico Administrativo 5 ..............................................................................................................................................................................................3) Princípios Expressos 14 ..............................................................................................................................................................................................4) Princípios Implícitos ou Reconhecidos 26 ..............................................................................................................................................................................................5) Questões Comentadas - Princípios Administrativos - Cesgranrio 53 ..............................................................................................................................................................................................6) Lista de questões - Princípios Administrativos - Cesgranrio 74 CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 2 85 APRESENTAÇÃO DO CURSO Olá concurseiros e concurseiras. É com muita satisfação que estamos lançando este livro digital de Direito Administrativo. Antes de mais nada, gostaria de me apresentar. Meu nome é Herbert Almeida, sou Auditor de Controle Externo do Tribunal de Contas do Estado do Espírito Santo aprovado em 1º lugar no concurso para o cargo. Além disso, obtive o 1º lugar no concurso de Analista Administrativo do TRT/23º Região/2011. Meu primeiro contato com a Administração Pública ocorreu através das Forças Armadas. Durante sete anos, fui militar do Exército Brasileiro, exercendo atividades de administração como Gestor Financeiro, Pregoeiro, responsável pela Conformidade de Registros de Gestão e Chefe de Seção. Sou professor de Direito Administrativo e Administração Pública aqui no Estratégia Concursos. Além disso, tenho quatro paixões na minha vida! Primeiramente, sou apaixonado pelo que eu faço. Amo dar aulas aqui no Estratégia Concursos e espero que essa paixão possa contribuir na sua busca pela aprovação. Minhas outras três paixões são a minha esposa, Aline, e meus filhotes, Pietro e Gael (que de tão especial foi presenteado com um cromossomosinho a mais). Agora, vamos falar do nosso curso! O curso é composto por teoria, exercícios e videoaulas. Além disso, abordaremos a teoria completa, mas de forma objetiva, motivo pelo qual você não precisará complementar os estudos por outras fontes. As nossas aulas terão o conteúdo suficiente para você fazer a prova, abrangendo a teoria, jurisprudência e questões. Observo ainda que o nosso curso contará com o apoio da Prof. Leticia Cabral, que nos auxiliará com as respostas no fórum de dúvidas. A Prof. Leticia é advogada e trabalha também como assessora de Procurador do Estado em Vitória-ES. Atualmente também é aluna do mestrado em Direito Processual na UFES (Universidade Federal do Espírito Santo). Com isso, daremos uma atenção mais completa e pontual ao nosso fórum. Vamos fazer uma observação importante! Ao longo da aula, vamos utilizar questões de várias bancas de concurso, porém com assertivas adaptadas para verdadeiro ou falso. O motivo dessa adaptação é permitir a contextualização do conteúdo do capítulo recém estudado com o tema da questão. Já ao final da aula, teremos uma super bateria de questões devidamente comentadas para você resolver. Por fim, se você quiser receber dicas diárias de Direito Administrativo, siga-me nas redes sociais (não esqueça de habilitar as notificações no Instagram e Youtube, assim você será informado sempre que eu postar uma novidade por lá): Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 3 85 @profherbertalmeida /profherbertalmeida /profherbertalmeida /profherbertalmeida e /controleexterno Se preferir, basta escanear as figuras abaixo: Sem mais delongas, espero que gostem do material e vamos ao nosso curso. Observação importante: este curso é protegido por direitos autorais (copyright), nos termos da Lei 9.610/98, que altera, atualiza e consolida a legislação sobre direitos autorais e dá outras providências. Grupos de rateio e pirataria são clandestinos, violam a lei e prejudicam os professores que elaboram os cursos. Valorize o trabalho de nossa equipe adquirindo os cursos honestamente através do site Estratégia Concursos ;-) Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 4 85 ==2537cb== A expressão regime jurídico é comumente utilizada para demonstrar um conjunto de normas jurídicas que disciplinam as relações jurídicas firmadas pelos sujeitos de uma sociedade. Ademais, parte da doutrina costuma dividir o regime jurídico em regime de direito público e regime de direito privado. O regime de direito público “consiste num conjunto de normas jurídicas que disciplinam poderes, deveres e direitos vinculados diretamente à supremacia e à indisponibilidade dos direitos fundamentais”1. Em termos mais simples, o regime de direito público é aquele aplicável no exercício da função pública, buscando satisfazer os interesses indisponíveis da sociedade. Aplica-se esse regime, por exemplo, quando o Estado desapropria um imóvel particular para construir um hospital: nesse caso, há o conflito entre o interesse do proprietário do imóvel (que muitas vezes não quer se desfazer do seu bem) e o interesse da sociedade (que precisa do hospital). Nesse caso, o Estado se utiliza da supremacia do interesse público, colocando-se em posição de superioridade perante o particular. No regime de direito público, os interesses da sociedade são indisponíveis. Isso significa que o agente público, que atua em nome da sociedade, não é proprietário da coisa pública, ele apenas atua em nome da sociedade. Justamente por isso que o poder público sofre um conjunto de limitações ou restrições. Um agente público, por exemplo, não pode alienar (vender) um bem que esteja sendo utilizado diretamente na prestação de serviços para a sociedade. Não pode, por exemplo, vender um prédio em que esteja funcionando uma escola pública. Da mesma forma, quando desejar firmar um contrato, o poder público não pode escolher livremente quem deseja contratar, devendo primeiro fazer um processo licitatório para a escolha do contratado. Ademais, os agentes públicos sujeitam-se ao princípio da legalidade, de tal forma que só podem fazer aquilo que a lei autoriza ou determina. Trata-se da aplicação da legalidade administrativa. Por outro lado, o regime de direito privado, normalmente direcionado para os particulares, trata das relações individuais da população. Neste regime, não há aplicação das prerrogativas do poder público, colocando os indivíduos em igualdade de condições em suas relações jurídicas (horizontalidade). Por exemplo: nos contratos administrativos, há aplicação do regime de direito público e, por isso, a Administração poderá realizar alterações unilaterais no contrato, ou seja, realizará mudanças no contratoindependentemente da vontade da outra parte contratada. Trata-se, nesse caso, da aplicação do princípio da supremacia. Por outro lado, quando dois particulares firmam um contrato, as alterações das cláusulas contratuais somente poderão ocorrer quando as duas partes concordarem; neste caso, uma parte não poderá alterar 1 Justen Filho, 2014 (p. 145). Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 5 85 o contrato sem a concordância da outra. Ocorre, aqui, a aplicação do regime de direito privado, não estando presentes as prerrogativas ou as restrições inerentes ao regime de direito público. Essa separação é mais doutrinária do que prática, uma vez que, “no mundo real”, os dois regimes convivem “lado a lado”. As relações que a Administração firma submetem-se tanto ao regime de direito público como ao de direito privado, ocorrendo, na verdade, o predomínio de um ou outro regime, conforme o caso. Por exemplo: as empresas estatais exploradoras de atividade econômica são entidades de direito privado. Em regra, suas relações são regidas pelo direito privado, como ocorre num contrato de financiamento firmado entre um banco público e o seu cliente. No entanto, esse mesmo banco público sujeita-se a um conjunto de regras de direito público, como a necessidade de realização de concurso público para o provimento de seus empregados públicos e o dever de licitar em determinadas condições. Na mesma linha, uma prefeitura municipal, em regra, sujeita-se ao regime de direito público; mas se sujeitará ao regime de direito privado quando, por exemplo, emitir um cheque de pagamento ou quando firmar um contrato de seguro de um veículo, uma vez que nestas situações não estarão presentes (pelo menos não diretamente) as prerrogativas de direito público. A Administração Pública pode submeter-se a regime jurídico de direito privado ou de direito público. A aplicação do regime jurídico é feita conforme determina a Constituição ou as leis, levando em consideração a necessidade, ou não, de a Administração encontrar-se em situação de superioridade em relação ao particular. Por exemplo, o art. 173, § 1º, da Constituição, determina que a lei estabeleça o estatuto jurídico da empresa pública, da sociedade de economia mista e de suas subsidiárias que explorem atividade econômica de produção ou comercialização de bens ou de prestação de serviços, dispondo, entre outros aspectos, sobre “a sujeição ao regime jurídico próprio das empresas privadas, inclusive quanto aos direitos e obrigações civis, comerciais, trabalhistas e tributários” (CF, art. 173, § 1º, II). Nesse caso, ficou nítida a determinação de que esse tipo de empresa deverá submeter-se ao regime de direito privado. Isso porque a natureza da atividade (exploração de atividade econômica) não permite uma relação de desigualdade. Assim, haverá casos de aplicação de regras de direito público e, em outros, de direito privado. Todavia, mesmo quando emprega modelos privatísticos, nunca será integral a submissão ao direito privado. Vale dizer: mesmo quando ocorre a aplicação do regime de direito privado, a sua utilização não será isolada, pois haverá, de alguma forma, aplicação de regras de direito público. Nesse contexto, Maria Sylvia Zanella Di Pietro diferencia a expressão regime jurídico da Administração Pública para designar, em sentido amplo, os regimes de direito público e de direito privado a que pode submeter-se a Administração Pública. Por outro lado, a autora utiliza a expressão regime jurídico administrativo para abranger tão somente o “conjunto de traços, de conotações, que tipificam o Direito Administrativo, colocando a Administração Pública numa posição privilegiada, vertical, na relação jurídico- administrativa”. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 6 85 Em síntese, o regime jurídico da Administração Pública se refere a qualquer tipo de regramento, seja de direito público ou de direito privado; enquanto o regime jurídico administrativo trata das regras que colocam a Administração Pública em condições de superioridade perante o particular. O regime jurídico administrativo resume-se em dois aspectos: de um lado, estão as prerrogativas, que representam alguns privilégios para a Administração dentro das relações jurídicas; de outro, encontram-se as sujeições, que são restrições de liberdade de ação para a Administração Pública. Regime jurídico administrativo As prerrogativas ou privilégios são regras, desconhecidas no direito privado, que colocam a Administração em condições de superioridade nas relações com o particular. São faculdades especiais que o setor público dispõe, como, por exemplo, o poder de requisitar bens e serviços, de ocupar temporariamente imóvel alheio, de aplicar sanções administrativas, de alterar ou rescindir unilateralmente os contratos administrativos, de impor medidas de polícia, etc.2 Por outro lado, as sujeições ou restrições retiram ou diminuem a liberdade da Administração quando comparada com o particular, sob pena de nulidade do ato administrativo ou, até mesmo, de responsabilidade da autoridade que o editou. São exemplos a necessidade de observar a finalidade pública ou de pautar-se segundo os princípios da moralidade, legalidade e publicidade. Além desses, podemos mencionar a sujeição à realização de concurso público para selecionar pessoal e de fazer licitação para firmar contratos com particulares. Dessa forma, enquanto prerrogativas colocam a Administração em posição de supremacia perante o particular, sempre com o objetivo de atingir o benefício da coletividade; as restrições limitam a sua atividade a determinados fins e princípios que, se não observados, implicam desvio de poder e consequente nulidade dos atos da Administração. Segundo Marcelo Alexandrino e Vicente Paulo, o regime jurídico administrativo é um regime de direito público, aplicável aos órgãos e entidades que compõem a Administração Pública e à atuação dos agentes administrativos em geral. Os eminentes autores destacam que ele se baseia na existência de “poderes especiais” contrabalançados pela imposição de “restrições especiais”. As prerrogativas e sujeições, conforme ensinamentos de Celso Antônio Bandeira de Mello, traduzem-se, respectivamente, nos princípios da supremacia do interesse público sobre o privado e na indisponibilidade do interesse público. 3 2 Di Pietro, 2017. 3 Bandeira de Mello utiliza a expressão “indisponibilidade, pela Administração, dos interesses públicos”. Prerrogativas Sujeições Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 7 85 A supremacia do interesse público fundamenta a existência das prerrogativas ou poderes especiais da Administração Pública, caracterizando-se pela chamada verticalidade nas relações entre a Administração e o particular. Baseia-se na ideia de que o Estado possui a obrigação de atingir determinadas finalidades, que a Constituição e as leis exigem. Assim, esses poderes especiais representam os meios ou instrumentos utilizados para atingir o fim: o interesse público. Dessa forma, havendo conflito entre o interesse público e os interesses particulares, deverá prevalecer o primeiro. Por outro lado, a indisponibilidade do interesse público representa as restrições na atuação da Administração. Essas limitações decorrem do fato de que a Administração não é proprietária da coisa pública, não é proprietária do patrimônio público, tampouco titular do interesse público. Estes pertencem ao povo! A indisponibilidade representa, pois, a defesa dos interesses dos administrados. Em decorrência do princípioda indisponibilidade do interesse público, segundo Alexandrino e Paulo, a Administração somente pode atuar quando houver lei que autorize ou determine sua atuação, e nos limites estipulados por essa lei. Dessa forma, enquanto os particulares atuam conforme a autonomia da vontade, os agentes administrativos devem agir segundo a “vontade” da lei. É importante destacar que Maria Sylvia Zanella Di Pietro diz que os princípios fundamentais que demonstram a bipolaridade do Direito Administrativo – de um lado as prerrogativas e de outro as sujeições – são os princípios da supremacia do interesse público sobre o particular e da legalidade. Perceba que a autora “troca” o princípio da indisponibilidade pelo princípio da legalidade para demonstrar as sujeições administrativas. Independentemente de quais são os princípios basilares, o fundamental é entender que o regime jurídico administrativo se resume a um conjunto de prerrogativas e sujeições especiais que permitem, de um lado, o alcance da finalidade pública do Estado e, de outro, a preservação dos direitos fundamentais e do patrimônio público. (TCE-PE - 2017) A administração pública pode estar sujeita tanto ao regime jurídico de direito privado quanto ao regime jurídico de direito público. Comentários: A assertiva está correta. A diferenciação entre o regime de direito público e o regime de direito privado é um trabalho doutrinário, porém difícil de se observar no mundo real. Por exemplo, no âmbito da Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 8 85 Administração Pública, as relações jurídicas ora são regidas pelo direito público ora pelo direito privado. Cita-se, por exemplo, a realização de concurso público (direito público) e um contrato de financiamento (direito privado) realizados por uma empresa pública. regime de direito público: normas que disciplinam a supremacia e a indisponibilidade do interesse público, colocando a Administração em posição de verticalidade perante os particulares. regime de direito privado: normas, em geral aplicáveis aos particulares, que colocam as partes em condições de igualdade (horizontalidade). regime jurídico administrativo: conjunto de normas formadas, por um lado, pelas prerrogativas (supremacia) e, de outro, pelas sujeições (restrições). Por isso que a sua base é formada pelos princípios da supremacia e da indisponibilidade do interesse público. regime jurídico da administração: envolve todo o regime jurídico aplicável à Administração, tratando tanto das regras de direito público como das regras de direito privado. A base do regime jurídico administrativo encontra-se nos princípios da supremacia e da indisponibilidade do interesse público. Porém, temos vários outros princípios que orientam a atividade administrativa. Dessa forma, é fundamental compreendermos o conceito dos princípios administrativos antes de estudarmos detidamente cada um deles. Os princípios administrativos são os valores, as diretrizes, os mandamentos mais gerais que orientam a elaboração das leis administrativas, direcionam a atuação da Administração Pública e condicionam a validade de todos os atos administrativos.4 São, portanto, as ideias centrais de um sistema, estabelecendo suas diretrizes e conferindo a ele um sentido lógico, harmonioso e racional, o que possibilita uma adequada compreensão de sua estrutura. Ademais, os princípios determinam o alcance e o sentido das regras de determinado subsistema do ordenamento jurídico, balizando a interpretação e a própria produção normativa.5 Percebe-se, pois, que os princípios estabelecem valores e diretrizes que orientam não só a aplicação como também a elaboração e interpretação das normas do ordenamento jurídico, permitindo que o sistema funcione de maneira harmoniosa, equilibrada e racional. 4 Barchet, 2008, p. 34. 5 Alexandrino e Paulo, 2011, p. 183. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 9 85 Por exemplo, o princípio da moralidade condiciona a atuação administrativa segundo os princípios da probidade e boa fé, invalidando, por conseguinte, os atos decorrentes de comportamentos fraudulentos e astuciosos. Esse tipo de princípio serve para balizar as ações administrativas, auxiliar a interpretação das regras e direcionar a produção legislativa. Nesse sentido, existem inúmeros princípios como a legalidade, a razoabilidade, a moralidade, a publicidade, a continuidade, a autotutela, etc. Os princípios podem ser expressos, quando estão previstos taxativamente em uma norma jurídica de caráter geral; ou implícitos, quando não constam taxativamente em uma norma jurídica, decorrendo, portanto, de outros princípios, da jurisprudência ou da doutrina. Saber se um princípio é expresso ou implícito depende do ponto de vista. Por exemplo, entre os princípios expressos, podemos destacar os princípios constitucionais previstos no art. 37 da Constituição Federal de 1988 (CF/88), nos seguintes termos: Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência [...]. Os princípios previstos acima são considerados expressos tendo como referência a Constituição Federal. Ou seja, tendo como referência unicamente a Constituição, são princípios previstos expressamente para a administração pública direta e indireta – autarquias, fundações públicas, empresas públicas e sociedades de economia mista –, de qualquer dos Poderes – Legislativo, Executivo e Judiciário – da União, dos estados, do Distrito Federal e dos municípios: legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência – LIMPE. Os princípios previstos expressamente no art. 37 da Constituição Federal aplicam-se indistintamente às administrações direta e indireta, de todos os Poderes e de todas as esferas. Ou seja, os princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência – que formam o famoso mnemônico: LIMPE – orientam a atuação administrativa dos órgãos de todos os Poderes – devemos incluir aqui o Ministério Público e o Tribunal de Contas –; das entidades administrativas que integram a administração indireta – independentemente se são de direito público ou de direito privado –; e de todos os níveis de governo – União, estados, DF e municípios. Além dos princípios previstos expressamente na Constituição Federal, temos previsão taxativa em diversas leis, como na Lei 9.784/1999, que dispõe sobre o processo administrativo na Administração Pública Federal, na Lei 14.133/2021, que estabelece normas gerais de licitações e contratos, e em várias outras normas. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 10 85 As normas infraconstitucionais também apresentam princípios expressos aplicáveis à Administração Pública. Vejamos alguns exemplos: Lei 14.133/2021 (Lei de Licitações e Contratos): “Art. 5º Na aplicação desta Lei, serão observados os princípios da legalidade, da impessoalidade, da moralidade, da publicidade, da eficiência, do interesse público, da probidade administrativa, da igualdade, do planejamento, da transparência, da eficácia, da segregação de funções, da motivação, da vinculação ao edital, do julgamento objetivo, da segurança jurídica, da razoabilidade, da competitividade, da proporcionalidade, da celeridade, da economicidade e do desenvolvimento nacional sustentável [...].” Explicando: o princípio da igualdade é implícito na CF, mas expresso na Lei 14.133/21. Logo, dizerse um princípio é implícito ou expresso vai depender da norma que estamos utilizando como referência. Outro exemplo: Lei 9.784/1999 (Lei do Processo Administrativo da Administração Pública Federal): “Art. 2o A Administração Pública obedecerá, dentre outros, aos princípios da legalidade, finalidade, motivação, razoabilidade, proporcionalidade, moralidade, ampla defesa, contraditório, segurança jurídica, interesse público e eficiência.” Explicando: o princípio da segurança jurídica é implícito na CF, mas expresso na Lei 9.784/99. Viu como depende da referência? Mas lembrando: se a questão não citar qual é a referência, vamos partir da ideia de que a pergunta trata dos princípios expressos ou implícitos na Constituição Federal. Por outro lado, os princípios implícitos6 não constam taxativamente em uma norma jurídica geral, decorrendo de elaboração doutrinária e jurisprudencial. Não significa que eles não estão previstos em uma norma jurídica, apenas não constam expressa ou taxativamente. Ou seja, o princípio implícito encontra-se previsto nas normas, apenas não consta expressamente o seu “nome”. Podemos encontrar princípios (i) que decorrem de algum princípio expresso ou da interpretação lógica de vários princípios; (ii) cuja aplicação conste taxativamente na Constituição, ou seja, não consta uma designação (o “nome”) para chamar o princípio, mas consta o seu significado; e (iii) outros por serem implicações do próprio Estado de Direito e do sistema constitucional como um todo. Vamos exemplificar. O princípio da finalidade não se encontra previsto expressamente na Constituição Federal. Contudo, ele decorre do princípio da impessoalidade. Assim, toda atuação administrativa deverá ter como finalidade, em sentido amplo, o interesse público e, em sentido estrito, a função específica 6 José dos Santos Carvalho Filho denomina de “princípios reconhecidos” aqueles que não possuem previsão expressa. Todavia, adotaremos a expressão “princípios implícitos”, uma vez que esta é a designação da doutrina majoritária. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 11 85 desenvolvida pela norma. Essa é a aplicação do princípio da finalidade, que decorre de um princípio previsto expressamente na Constituição Federal: o princípio da impessoalidade. No segundo caso, temos o exemplo do princípio da segurança jurídica, que possui apenas a sua aplicação prevista na Constituição Federal, conforme consta no inc. XXXVI, art. 5º, determinando que “a lei não prejudicará o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada”. Assim, a CF veda a aplicação retroativa de lei que tenha o poder de prejudicar o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada. É justamente essa a aplicação do princípio da segurança jurídica. Contudo, não consta no texto constitucional algo do tipo “a lei deve respeitar o princípio da segurança jurídica”. Assim, podemos perceber que, no segundo caso, não aparece taxativamente a denominação do princípio, mas consta a sua aplicação, cabendo à doutrina e à jurisprudência reconhecer a sua existência e designação. Por fim, o princípio da supremacia do interesse público é exemplo da terceira situação, pois é um princípio geral de Direito, decorrendo de interpretação sistemática de nosso ordenamento jurídico. Apesar de existir diversos dispositivos constitucionais de base para esse princípio, não há como fazer uma menção taxativa. O princípio da supremacia significa a própria razão de ser da Administração, representando a lógica do nosso ordenamento constitucional. Antes de encerrarmos essa parte introdutória, cabe fazer uma última observação. Em que pese a doutrina disponha que os princípios da supremacia do interesse público e da indisponibilidade sejam os princípios basilares ou fundamentais do Direito Administrativo, não há hierarquia entre os princípios. Ou seja, não podemos afirmar que o princípio da supremacia encontra-se acima do princípio da moralidade, por exemplo. No caso de aparente conflito entre eles, caberá ao interpretador dar uma aplicação que mantenha a harmonia e unidade do ordenamento jurídico.7 Após essa abordagem, vamos resolver algumas questões e, em seguida, vamos abordar cada princípio separadamente. (SEGEP - 2018) Os princípios que balizam a atuação da Administração pública estão todos subordinados ao princípio da legalidade, erigido pela Constituição Federal como cláusula pétrea. Comentários: A assertiva está errada. Não há hierarquia entre os princípios. Quando houver um aparente conflito entre os princípios, deverá ser adotada uma ponderação entre eles para aplicar a interpretação que melhor se 7 A doutrina clássica faz a diferenciação entre normas, regras e princípios. As normas são gênero, enquanto as regras e os princípios são as suas espécies. As regras possuem comandos a serem seguidos, com conteúdo mais objetivo. Por exemplo: uma lei determina que a Administração dê publicidade aos gastos realizados; isso é uma regra. Quando há um conflito entre regras, uma prevalecerá sobre a outra, com base na hierarquia (ex.: a Constituição prevalece sobre uma lei ordinária), na cronologia (leis novas prevalecem sobre leis mais antigas) e na especialidade. Os princípios, por outro lado, possuem um comando mais geral, abstrato. Quando há um conflito sobre os princípios, não existirá um critério único para definir qual deverá prevalecer, pois um não excluíra o outro; por isso, deverá o interprete utilizar a solução mais harmoniosa para cada situação real. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 12 85 ==2537cb== harmonize com a situação concreta, sem que exista um princípio que imediatamente esteja “acima dos demais”. Por exemplo: a atuação administrativa deve pautar-se na lei, de tal forma que a Administração não pode praticar ou manter os efeitos de atos ilegais; uma vez identificada a ilegalidade, em regra, a Administração deverá realizar a anulação. No entanto, se a ilegalidade ocorreu há muito tempo, a sua anulação poderá trazer prejuízos maiores do que a manutenção do ato. Assim, o princípio da legalidade dá espaço para aplicação do princípio da segurança jurídica, de tal forma que o ato, ainda que ilegal, não poderá ser anulado quando houver a prescrição ou a decadência. Não significa que o princípio da segurança jurídica esteja acima do princípio da legalidade, mas no nosso exemplo, na ponderação entre os dois, prevaleceu o princípio da segurança jurídica. (TRE BA - 2017) São princípios que regem a administração pública expressos na Constituição Federal de 1988: legalidade, indivisibilidade, moralidade, publicidade e eficiência. Comentários: A assertiva está errada. essa é tranquila, mas importante! Os princípios expressos na Constituição Federal são a legalidade, a impessoalidade, a moralidade, a publicidade e a eficiência. A questão está incorreta, uma vez que “indivisibilidade” não é princípio constitucional expresso. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 13 85 PRINCÍPIOS EXPRESSOS Vamos trabalhar agora os cinco princípios expressamente previstos no art. 37, caput, da Constituição Federal de 1988: legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência. Princípio da Legalidade O princípio da legalidade está previsto expressamente no artigo 37 da Constituição Federal, sendo aplicável às administrações públicas direta e indireta, de todos os Poderes e todas as esferas de governo. Este princípio nasceu com o Estado de Direito, que impõe a atuação administrativa nos termos da lei. É o Estadoque cria as leis, mas ao mesmo tempo deve submeter-se a elas. A sociedade não quer um governo de homens, mas um governo de leis. Segundo Maria Sylvia Zanella Di Pietro, o princípio da legalidade constitui uma das garantias principais de respeito aos direitos individuais. Isso ocorre porque a lei, ao mesmo tempo em que os define, estabelece também os limites de atuação administrativa que tenha por objeto a restrição ao exercício de tais direitos em benefício da coletividade. A legalidade apresenta dois significados distintos. O primeiro aplica-se aos administrados, isto é, às pessoas e às organizações em geral. Conforme dispõe o inciso II do artigo 5º da CF/88, ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei. Dessa forma, para os administrados, tudo o que não for proibido será permitido. O segundo sentido do princípio da legalidade é aplicável à Administração e decorre diretamente do art. 37, caput, da CF/88, impondo a atuação administrativa somente quando houver previsão legal. Portanto, a Administração só poderá agir quando houver previsão legal. Por esse motivo, ele costuma ser chamado de princípio da estrita legalidade. O inciso II do art. 5º da Constituição também serve de proteção aos direitos individuais, pois, ao mesmo tempo em que permite que o administrado faça tudo o que não estiver proibido em lei, ele impede que a Administração tente impor as restrições. Ou seja, o conteúdo da norma permite que o administrado atue sobre sua vontade autônoma e impede que a Administração imponha limites não previstos em lei. Nesse contexto, a Administração deve se limitar aos ditames da lei, não podendo, por simples ato administrativo, conceder direitos de qualquer espécie, criar obrigações ou impor vedações. Para tanto, depende de prévia edição legal. Em síntese, a função administrativa se subordina às previsões legais e, portanto, o agente público só poderá atuar quando a lei determinar (vinculação) ou autorizar (discricionariedade). Ou seja, a atuação administrativa obedece a vontade legal. Por outro lado, os administrados podem fazer tudo o que não estiver proibido em lei, vivendo, assim, sob a autonomia da vontade. Diz-se, portanto, que a Administração não pode atuar contra a lei (contra legem) nem além da lei (praeter legem), podendo atuar somente segundo a lei (secundum legem). Por outro lado, os administrados podem Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 14 85 atuar segundo a lei (secundum legem) e além da lei (praeter legem), só não podem atuar contra a lei (contra legem). Por exemplo, se dois particulares resolverem firmar um contrato em que um vende uma televisão sob a condição de o outro cortar a sua grama, teremos uma situação não prevista no Código Civil, que é o normativo responsável por regulamentar este tipo de relação jurídica. Todavia, a lei não proíbe este tipo de relação, sendo possível, por conseguinte, realizá-la. Nesse caso, os particulares atuaram além da lei (praeter legem), mas não cometeram nenhuma ilegalidade. Por sua vez, a Administração deve atuar somente segundo a lei. Assim, não é possível, por exemplo, que um órgão público conceda um direito a um servidor não previsto em lei. Diga-se, a lei não proibiu a concessão do direito, mas também não o permitiu, logo não pode a Administração concedê-lo. Outro aspecto importante do princípio da legalidade é que a Administração não deve seguir somente os atos normativos primários ou os diplomas normativos com força de lei. A atuação administrativa também deve estar de acordo com os decretos regulamentares e outros atos normativos secundários, como as portarias e instruções normativas. É claro que esses últimos atos normativos não podem instituir direito novo, ou seja, eles não podem inovar na ordem jurídica, criando direitos e obrigações. No entanto, esses diplomas detalham as determinações gerais e abstratas da lei, permitindo a sua aplicação no dia a dia da Administração. Assim, os agentes públicos se vinculam também aos atos normativos secundários. Nesse sentido, se um agente público descumprir somente um decreto ou uma portaria, o ato, ainda assim, poderá ser considerado ilegal. Por exemplo, suponha-se que uma lei estabeleceu que a remessa de determinados produtos por meio postal deverá obedecer a padrões de segurança estabelecidos em decreto regulamentar. Em seguida, o decreto disciplinou os padrões de segurança e disciplinou as regras para sua fiscalização. Agora, se um agente público realizar a apreensão do produto sem observar as normas do decreto e a forma de sua fiscalização, eventual multa aplicada poderá ser considerada ilegal. No caso, apenas o decreto foi infringido pelo agente público, mas o ato foi dado como ilegal. Contudo, não devemos confundir o princípio da legalidade com o da reserva legal. O primeiro determina que a atuação administrativa deve pautar-se na lei em sentido amplo, abrangendo qualquer tipo de norma, desde a Constituição Federal até os atos administrativos normativos (regulamentos, regimentos, portarias etc.). Por outro lado, a reserva legal significa que determinadas matérias devem ser regulamentadas necessariamente por lei formal (lei em sentido estrito – leis ordinárias e complementares). Por exemplo: a Constituição exige que “a lei regulará a individualização da pena” (CF, art. XLVI) – consequentemente, somente uma lei aprovada pelo Poder Legislativo poderá dispor sobre esse tema, não cabendo um decreto ou outro ato normativo secundário. Veja que são sentidos bem distintos, um envolvendo a atuação administrativa (princípio da legalidade), e o outro tratando da regulamentação de determinadas matérias. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 15 85 Em que pese a administração esteja sujeita ao princípio da legalidade, existem situações em que a legalidade pode ser, de certa forma, “mitigada”. Nessa linha, a doutrina apresenta como exceção ao princípio da legalidade (ou restrições excepcionais ao princípio da legalidade) a: • edição de medidas provisórias (CF, art. 62); • decretação do estado de defesa (CF, art. 136) e • decretação do estado de sítio (CF, arts. 137 a 139). As medidas provisórias são atos normativos, com força de lei, editados pelo Presidente da República, em situações de relevância e urgência. Apesar de as medidas provisórias possuírem força de lei, Celso Antônio Bandeira de Mello as considera exceção ao princípio da legalidade em decorrência de uma série de limitações, como as características de excepcionalidade e precariedade. O estado de defesa poderá ser decretado pelo Presidente da República, ouvidos o Conselho da República e o Conselho de Defesa Nacional, para “preservar ou prontamente restabelecer, em locais restritos e determinados, a ordem pública ou a paz social ameaçadas por grave e iminente instabilidade institucional ou atingidas por calamidades de grandes proporções na natureza” (CF, art. 137). O estado de defesa implicará na restrição de alguns direitos, conforme constará no decreto que o instituirá e, por isso, representa exceção ao princípio da legalidade. Por outro lado, o estado de sítio poderá ser decretado pelo Presidente da República, após autorização do Congresso Nacional, ouvidos o Conselho da República e o Conselho de Defesa Nacional, em caso de “comoção grave de repercussão nacional ou ocorrência de fatos que comprovem a ineficácia de medida tomada durante o estado de defesa” ou de “declaração de estado de guerra ou resposta a agressão armada estrangeira” (CF, art. 137, caput e incs. I e II). O estado de sítio é uma medida mais gravosa que o estado de defesa, representando uma série de medidas restritivas previstasna Constituição. Para finalizar, vale falar sobre o princípio da juridicidade, que basicamente é uma ampliação do conceito de legalidade. Segundo o princípio da juridicidade, o administrador não se sujeito apenas à lei, mas a todo o ordenamento jurídico. Consequentemente, a discricionariedade administrativa fica mais reduzida, uma vez que o agente público se sujeita às leis, aos regulamentos, aos princípios e a todos os demais componentes de nosso ordenamento jurídico. Assim, se um ato atender à lei, mas ferir um princípio, poderá ele ser anulado, até mesmo pelo Poder Judiciário. Princípio da legalidade: a Administração Pública somente poderá agir quando houver lei determinando ou autorizando a sua atuação. O princípio envolve qualquer tipo de norma, incluindo atos secundários como os decretos e instruções normativas. No entanto, os atos secundários não podem criar direitos e obrigações. Princípio da autonomia da vontade: significa que os administrados (particulares) podem fazer tudo que não estiver proibido em lei. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 16 85 ==2537cb== Reserva legal: trata das matérias que a Constituição exige que obrigatoriamente sejam disciplinadas em lei em sentido estrito (lei formal). Restrições (exceções) excepcionais ao princípio da legalidade: medida provisória, estado de defesa e estado de sítio. Princípio da impessoalidade O princípio da impessoalidade, também apresentado expressamente na CF/88, apresenta cinco sentidos: Princípio da finalidade: em sentido amplo, o princípio da finalidade é sinônimo de interesse público, uma vez que todo e qualquer ato da administração deve ser praticado visando à satisfação do interesse público. Por outro lado, em sentido estrito, o ato administrativo deve satisfazer a finalidade específica prevista em lei. Assim, do primeiro significado do princípio da impessoalidade, decorre um princípio implícito: o princípio da finalidade. Dessa forma, todo ato da Administração deve ser praticado visando à satisfação do interesse público (sentido amplo) e da finalidade para ele especificamente prevista em lei (sentido estrito). Se não for assim, o ato será inválido. Exemplificando, podemos analisar o caso da remoção de servidor público, que tem como finalidade específica adequar o número de servidores nas diversas unidades administrativas de um órgão. Caso seja aplicada com o intuito de punir um servidor que desempenha mal suas funções, o ato atendeu apenas ao sentido amplo, pois punir um servidor que trabalhe mal tem interesse público. Contudo, o ato é nulo, por desvio de finalidade, uma vez que a lei não estabelece esta finalidade para a transferência1. Validade do ato do agente de fato: os atos praticados pelos agentes públicos são imputados ao Estado, em virtude da impessoalidade. Como consequência, os atos praticados pelos agentes de fato são considerados válidos, especialmente em relação aos terceiros de boa-fé. Agente de fato é o agente público que não teve uma investidura regular na função pública. Por exemplo, uma pessoa que ocupa cargo efetivo, mas sem ter prestado concurso público, será um agente de fato. Se, no futuro, a Administração identificar a ilegalidade na investidura deste agente, desfazendo o seu provimento, ainda assim os atos por ele praticados serão considerados válidos. Imagine, por exemplo, que este agente (investido irregularmente) emitiu uma licença para construir. O proprietário da obra não deu causa ao "provimento irregular", logo não poderia ser prejudicado por esta situação. Por isso, o licenciamento, ainda que assinado por servidor irregularmente investido, será considerado válido. Esta medida também tem correlação com o princípio da segurança jurídica. Exemplo apresentado na obra de Alexandrino e Paulo, 2011, p. 194-195. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 17 85 Princípio da igualdade ou isonomia: o princípio da impessoalidade se traduz na ideia de isonomia, pois a Administração deve atender a todos os administrados sem discriminações. Não se pode favorecer pessoas ou se utilizar de perseguições indevidas, consagrando assim o princípio da igualdade ou isonomia. Nesse ponto, devemos lembrar que a Constituição Federal estabelece que todos são iguais perante a lei (art. 5º, caput), sendo que eventuais tratamentos diferenciados só podem ocorrer quando houver previsão legal. A Constituição Federal apresenta diversas referências a esta aplicação do princípio da impessoalidade como o art. 37, II, que exige a aprovação prévia em concurso público para a investidura em cargo ou emprego público, permitindo que todos possam disputar-lhes com igualdade; o art. 37, XXI, que exige processo de licitação pública para a contratação de obras, serviços, compras e alienações, assegurando igualdade de condições a todos os concorrentes; o art. 175, que também exige licitação pública para as permissões e concessões de serviço público; e o art. 100 que trata do regime de precatórios judiciais para o pagamento dos débitos das fazendas públicas. Analisando esses dois primeiros aspectos, podemos perceber que o princípio da impessoalidade decorre do princípio da supremacia do interesse público – em virtude da busca pela finalidade ou pelo interesse público – e da isonomia ou igualdade – em decorrência do tratamento igualitário, nos termos da lei. Vedação de promoção pessoal: os agentes públicos atuam em nome do Estado. Dessa forma, não poderá ocorrer a pessoalização ou promoção pessoal do agente público pelos atos realizados. Esse significado decorre diretamente da disposição do §1º do Art. 37 da CF/88: § 1º - A publicidade dos atos, programas, obras, serviços e campanhas dos órgãos públicos deverá ter caráter educativo, informativo ou de orientação social, dela não podendo constar nomes, símbolos ou imagens que caracterizem promoção pessoal de autoridades ou servidores públicos. Isso significa que as atividades da Administração não podem ser imputadas aos funcionários que as realizaram, mas aos órgãos e entidades que representam. Dessa forma, um governador não pode se promover, à custa da Administração, por obras realizadas em seu governo. Não poderá constar, por exemplo, que “Fulano de Tal” fez isso, mas apenas que o “Governo Estadual” ou a “Administração Municipal” realizou determinadas obras. Se um agente se aproveitar das realizações da Administração para se promover individualmente, estará realizando publicidade indevida. Isso impede que, nas placas ou propagandas de publicidade pública, constem nomes pessoais ou de partidos políticos. Impede também a utilização de slogans, que possam caracterizar promoção pessoal. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 18 85 É mister informar que a promoção pessoal, conforme estamos vendo, fere o princípio da impessoalidade. No entanto, é claro que esse tipo de conduta também infringe outros princípios, como a legalidade e a moralidade. Impedimento e suspeição: esses institutos possuem o objetivo de afastar de processos administrativos ou judiciais os envolvidos no processo que não possuem condições de aplicar a lei de forma imparcial, em função de parentesco, amizade ou inimizade com pessoas que participam do processo. Por exemplo, se um juiz possuir inimizade reconhecida com um indivíduo que seja parte de um processo, ele não poderá julgar de forma imparcial. Dessa forma, buscando evitar possíveis favorecimentos, preservando a isonomia do julgamento, recomenda-se o afastamento da autoridade. Na verdade, os dois últimos aspectosnada mais são do que consequência lógica das duas primeiras aplicações (princípio da finalidade e da isonomia). Em síntese, o princípio da impessoalidade representa a busca pela finalidade pública, o tratamento isonômico aos administrados, a vedação de promoção pessoal e a necessidade de declarar o impedimento ou suspeição de autoridade que não possua condições de julgar de forma igualitária. Princípio da moralidade O princípio da moralidade, que também está previsto de forma expressa no caput do art. 37 da Constituição Federal, impõe que o administrador público não dispense os preceitos éticos que devem estar presentes em sua conduta. Dessa forma, além da legalidade, os atos administrativos devem subordinar-se à moralidade administrativa. Muito se discutiu sobre a existência da moralidade como princípio autônomo, uma vez que o seu conceito era considerado vago e impreciso. Dessa forma, a doutrina entendia que, na verdade, o princípio estava absorvido pelo princípio da legalidade. No entanto, tal compreensão encontra-se prejudicada, uma vez que a própria Constituição Federal incluiu os princípios da legalidade e moralidade como princípios autônomos, ou seja, tratou cada um de forma individual. Ademais, são diversas as previsões de condutas contra a moralidade administrativa apresentadas na Carta de 1988, como, por exemplo, o art. 37, §4º, que dispõe que os atos de improbidade administrativa importarão a suspensão dos direitos políticos, a perda da função pública, a indisponibilidade dos bens e o ressarcimento ao erário; o art. 14, §9º, com a redação da Emenda Constitucional de Revisão nº 4/1994, que dispõe que os casos de inelegibilidade devem proteger, entre outras coisas, a probidade administrativa e a moralidade para exercício de mandato; e o art. 85, V, que considera crime de responsabilidade os atos do Presidente da República contra a probidade administrativa. Com efeito, o art. 5º, LXXIII, dispõe que qualquer cidadão é parte legítima para propor ação popular que vise a anular ato lesivo à moralidade administrativa. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 19 85 A Lei 9.784/1999 também prevê o princípio da moralidade em seu art. 2º, caput, obrigando, assim, a Administração Pública federal. O parágrafo único, inc. IV, do mesmo artigo, exige “atuação segundo padrões éticos de probidade, decoro e boa-fé”. Dessa forma, podemos perceber a autonomia do princípio da moralidade. Nessa linha, Maria Sylvia Zanella Di Pietro dispõe que “sempre que em matéria administrativa se verificar que o comportamento da Administração ou do administrado que com ela se relaciona juridicamente, embora em consonância com a lei, ofende a moral, os bons costumes, as regras de boa administração, os princípios de justiça e de equidade, a ideia de honestidade, estará havendo ofensa ao princípio da moralidade administrativa”2. Assim, podemos observar uma atuação administrativa legal, porém imoral. Por exemplo, pode não existir nenhuma lei proibindo um agente público de nomear o seu cônjuge para exercer um cargo em comissão no órgão em que trabalha, ou seja, o ato foi legal. Contudo, tal ato mostra-se imoral, pois a conduta ofende os bons princípios e a honestidade. Com base nos princípios previstos no caput do art. 37, o Supremo Tribunal Federal firmou entendimento sobre a vedação do nepotismo na Administração Pública, sendo que o fundamento decorre diretamente da Constituição, não havendo necessidade de lei específica para disciplinar a vedação. Vejamos: Súmula Vinculante nº 13 - A nomeação de cônjuge, companheiro ou parente em linha reta, colateral ou por afinidade, até o terceiro grau, inclusive, da autoridade nomeante ou de servidor da mesma pessoa jurídica investido em cargo de direção, chefia ou assessoramento, para o exercício de cargo em comissão ou de confiança ou, ainda, de função gratificada na administração pública direta e indireta em qualquer dos Poderes da União, dos estados, do Distrito Federal e dos municípios, compreendido o ajuste mediante designações recíprocas, viola a Constituição Federal. Entretanto, há uma pequena restrição em relação aos cargos de natureza política. Inicialmente, o STF possuía o entendimento de que a Súmula Vinculante 13 não seria aplicada aos cargos de natureza política, como ministros e secretários de estado (RE 579.951, julgado em 20/8/2008). Atualmente, todavia, o entendimento é de que a vedação deve ser analisar caso a caso, de tal forma que a nomeação para cargo de natureza política não afasta a aplicação da Súmula Vinculante 13 automaticamente. Assim, somente estará caracterizado nepotismo, nos cargos de natureza política, se o nomeado não possuir capacidade técnica para o cargo ou ficar demonstrada “troca de favores” ou outra forma de fraudar a legislação (RCL 7.590/PR; RCL 17.102/SP). Em resumo, podemos dizer que a nomeação de um irmão para ocupar um cargo de natureza administrativa ofende os princípios da moralidade, impessoalidade, igualdade e eficiência; porém a nomeação do irmão do prefeito para exercer o cargo de secretário municipal (natureza política) ofenderá a Constituição se ficar 2 Di Pietro, 2014, p. 79. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 20 85 demonstrada a falta de capacidade técnica do nomeado ou ainda a troca de favores ou outro meio de fraude da lei. Devemos considerar, portanto, que um ato até pode ser legal, mas se for imoral, é possível a sua anulação. Com isso, a moralidade administrativa ganha um sentido jurídico, permitindo até mesmo o controle judicial do ato. Com isso, caso a autoridade administrativa atue de forma imoral, o ato poderá ser anulado pelo Poder Judiciário. Não significa, pois, que os princípios da legalidade e da moralidade são indissociáveis. Na verdade, eles estão muito relacionados, sendo que, na maior parte das vezes, as pessoas acabam infringindo os dois simultaneamente. Diga-se, muitos atos imorais são também ilegais e muitos atos ilegais também são imorais. Cumpre observar que o princípio da moralidade se aplica às relações entre a Administração e os administrados e também nas atividades internas da Administração. A extensão aos particulares é muito importante, uma vez que não são raros os casos de formação de conluio buscando fraudar a realização de licitações públicas. Nesses casos, um pequeno grupo de empresas se reúne para obter vantagens em seus relacionamentos com a Administração. Tais condutas mostram-se, além de ilegais, imorais e desonestas. De acordo com as lições de Gustavo Barchet, o princípio da moralidade em divide-se em três sentidos:3 • Dever de atuação ética (princípio da probidade): o agente público deve ter um comportamento ético, transparente e honesto perante o administrado. Assim, o agente público não pode sonegar, violar nem prestar informações incompletas com o objetivo de enganar os administrados. Não pode um agente se utilizar do conhecimento limitado que as pessoas têm sobre a administração para obter benefícios pessoais ou prejudicar indevidamente o administrado; • Concretização dos valores consagrados na lei: o agente público não deve limitar-se à aplicação da lei, mas buscar alcançar os valores por ela consagrados. Assim, quando a Constituição institui o concurso público para possibilitar a isonomia na busca por um cargo público, o agente público que preparar um concurso dentro desses ditames (proporcionar a isonomia) estará também cumprindo o princípio da moralidade; • Observância dos costumes administrativos: a validade da conduta administrativa se vincula à observância dos costumes administrativos, ou seja, às regras que surgem informalmente no quotidiano administrativo a partirde determinadas condutas da Administração. Assim, desde que não infrinja alguma lei, as práticas administrativas realizadas reiteradamente, devem vincular a Administração, uma vez que causam no administrado um aspecto de legalidade. Por fim, vale anotar que a doutrina considera que a imoralidade surge do conteúdo do ato. Por conseguinte, não é preciso a intenção do agente público, mas sim o objeto do ato praticado. Logo, um ato pode ser imoral, ainda que o agente não tivesse a intenção de cometer uma imoralidade. Por exemplo: o ato de nomeação de um parente para um cargo em comissão é imoral, ainda que a autoridade não saiba que o 3 Barchet, 2008, pp. 43-45. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 21 85 nomeado é seu parente ou mesmo que a intenção fosse efetivamente melhorar a qualidade dos serviços públicos e não favorecer o familiar. Princípio da publicidade O princípio da publicidade, previsto taxativamente no artigo 37 da Constituição Federal, apresenta duplo sentido: exigência de publicação em órgãos oficiais como requisito de eficácia: os atos administrativos gerais que produzirão efeitos externos ou os atos que impliquem ônus para o patrimônio público devem ser publicados em órgãos oficiais, a exemplo do Diário Oficial da União ou dos estados, para terem eficácia (produção de efeitos jurídicos). Não se trata, portanto, de requisito de validade do ato, mas tão somente da produção de seus efeitos. Assim, um ato administrativo pode ser válido (competência, finalidade, forma, motivo e objetivo), mas não eficaz, pois se encontra pendente de publicação oficial. Nem todo ato administrativo precisa ser publicado para fins de eficácia, mas tão somente os que tenham efeitos gerais (têm destinatários indeterminados) e de efeitos externos (alcançam os administrados), a exemplo dos editais de licitação ou de concurso. Esses atos irão se aplicar a um número indeterminado de administrados, não se sabe quantos. Outra situação decorre dos atos que impliquem ou tenham o potencial de implicar em ônus ao patrimônio público, como a assinatura de contratos ou a homologação de um concurso público. exigência de transparência da atuação administrativa: o princípio da transparência deriva do princípio da indisponibilidade do interesse público, constituindo um requisito indispensável para o efetivo controle da Administração Pública por parte dos administrados. Com efeito, a publicidade poderá se manifestar pelas seguintes formas: (i) direito de peticionar junto aos órgãos públicos em defesa de direitos ou contra ilegalidade ou abuso de poder (CF, art. 5º, XXXIV, ”a”); (ii) direito de obter certidões em repartições públicas, para defesa de direitos e esclarecimento de situações de interesse pessoal (CF, art. 5º, XXXIV, “b”); (iii) divulgação de ofício de informações, por intermédio de publicações na imprensa oficial, em jornais impressos ou pela internet. Ademais, segundo a CF/88: “art. 5º (...) XXXIII - todos têm direito a receber dos órgãos públicos informações de seu interesse particular, ou de interesse coletivo ou geral, que serão prestadas no prazo da lei, sob pena de responsabilidade, ressalvadas aquelas cujo sigilo seja imprescindível à segurança da sociedade e do Estado”. Outros dispositivos constitucionais que merecem destaque são os seguintes: Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 22 85 Art. 37. (...) § 3º A lei disciplinará as formas de participação do usuário na administração pública direta e indireta, regulando especialmente: (...) II - o acesso dos usuários a registros administrativos e a informações sobre atos de governo, observado o disposto no art. 5º, X e XXXIII. Art. 216. (...) § 2º - Cabem à administração pública, na forma da lei, a gestão da documentação governamental e as providências para franquear sua consulta a quantos dela necessitem. Esses dispositivos foram regulamentados pela recente Lei 12.527/2011 (Lei de Acesso à Informação), que dispõe sobre os procedimentos a serem observados pela União, Estados, Distrito Federal e Municípios, com o fim de garantir o acesso a informações. Dessa forma, esse segundo sentido é muito mais amplo que o anterior, uma vez que a publicidade torna- se um preceito geral e o sigilo a exceção. Mas vale ressaltar: a publicidade é a regra, mas não é um dever absoluto. Nessa linha, com exceção dos dados pessoais (dizem respeito à intimidade, honra e imagem das pessoas) e das informações classificadas por autoridades como sigilosas (informações imprescindíveis para a segurança da sociedade e do Estado), todas as demais informações devem ser disponibilizadas aos interessados, algumas de ofício (pela internet ou por publicações) e outras mediante requerimento. As informações divulgadas de ofício constituem a denominada transparência ativa, ao passo que as informações que são fornecidas em virtude de solicitações representam a transparência passiva. Com a publicação da Lei de Acesso à Informação e posteriormente com a publicação dos respectivos regulamentos, tornou-se prática comum a divulgação dos nomes dos servidores com as respectivas remunerações. Hoje, esta prática já é muito consolidada, mas na época foi objeto de muita reclamação de categorias de agentes públicos, que não concordavam com a divulgação de suas informações na internet. O tema, dessa forma, chegou ao STF, que teve que ponderar duas categorias de princípios: (i) de um lado, a publicidade e a transparência (CF, art. 5º, XXXIIII; art. 37, caput); (ii) de outro, a intimidade da vida privada (CF, art. 5º, X). Ao final, o Supremo concluiu que: “é legítima a publicação, inclusive em sítio eletrônico mantido pela Administração Pública, dos nomes dos seus servidores e do valor dos correspondentes vencimentos e vantagens pecuniárias” (RE 652.777 AgR). Contudo, não devem ser divulgadas informações meramente pessoais, que não interessam ao público em geral, como o número completo do CPF e o endereço do servidor. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 23 85 Princípio da eficiência Este é o “mais jovem” princípio constitucional. Foi incluído no artigo 37 pela Emenda Constitucional 19/1998 como decorrência da reforma gerencial, iniciada em 1995 com o Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado (PDRAE). Assim, a eficiência diz respeito a uma atuação da administração pública com excelência, fornecendo serviços públicos de qualidade à população, com o menor custo possível (desde que mantidos os padrões de qualidade) e no menor tempo. Segundo Maria Sylvia Di Pietro4, o princípio da eficiência apresenta dois aspectos: em relação ao modo de atuação do agente público: espera-se a melhor atuação possível, a fim de obter os melhores resultados. Como consequência desse primeiro sentido, foram introduzidas pela EC 19/1998 a exigência de avaliação especial de desempenho para aquisição de estabilidade e a possibilidade de perda de cargo público (flexibilização da estabilidade) em decorrência da avaliação periódica de desempenho. quanto ao modo de organizar, estruturar e disciplinar a administração pública: exige-se que seja a mais racional possível, permitindo que se alcancem os melhores resultados na prestação dos serviços públicos. Nesse segundo contexto, exige-se um novo modelo de gestão: a administração gerencial. Assim, os controles administrativos deixam de ser predominantemente por processos para serem realizados por resultados. O momento do controle prévio passa a ser realizado prioritariamente a posteriori (após o ato), aumentando a autonomiado gestor, e melhorando a eficiência do controle. A transparência administrativa, o foco no cidadão, a descentralização e desconcentração, os contratos de gestão, as agências autônomas, as organizações sociais, a ampla participação da sociedade no controle e no fornecimento de serviços são todos conceitos relacionados com este segundo aspecto da eficiência. O princípio da eficiência surge do descontentamento da sociedade com a qualidade dos serviços e os inúmeros prejuízos causados em decorrência da morosidade administrativa. Assim, a atuação da Administração não deverá ser apenas legal, mas também eficiente. Ademais, a Constituição Federal dispõe que os órgãos e entidades da administração pública, individual ou conjuntamente, devem realizar avaliação das políticas públicas, inclusive com divulgação do objeto a ser avaliado e dos resultados alcançados, na forma da lei (CF, art. 37, § 16). Esse regramento foi inserido na Constituição por intermédio da Emenda Constitucional 109/2021, com o objetivo de evidenciar o foco da administração para os resultados, exigindo a efetividade das políticas públicas. Finalizando, é importante destacar que a busca da eficiência deve ocorrer em harmonia com os demais princípios da Administração Pública. Assim, não se pode deixar de obedecer aos princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade e publicidade somente para alcançar melhores resultados. 4 Di Pietro, 2014, p. 84. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 24 85 Por exemplo, se um agente público deixar de realizar a licitação em determinada situação, contratando a empresa de um amigo seu sobre o pretexto de que a contratação foi mais célere, barata e com mais qualidade, o ato será mais eficiente, porém será ilegal, imoral e contra a impessoalidade. Dessa forma, deverá ser considerado nulo. Vamos resolver uma questão para consolidar o conhecimento! (TRT 7 - 2017) O princípio que rege a administração pública, expressamente previsto na Constituição Federal de 1988, e que exige dos agentes públicos a busca dos melhores resultados e um menor custo possível, é o da eficiência. Comentários: a assertiva está correta. Questão bem simples. O princípio da eficiência consta expressamente na Constituição (dentro do LIMPE) e exige a busca pelos melhores resultados com o menor custo possível, ou seja, fazer mais com menos recursos. con Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 25 85 PRINCÍPIOS IMPLÍCITOS OU RECONHECIDOS Os princípios abordados a seguir são considerados implícitos ou reconhecidos quando se tem como parâmetro a Constituição Federal. No entanto, se considerarmos as normas infraconstitucionais, vários deles constam expressamente em alguma lei. Por exemplo, na Lei 9.784/1999, que regula o processo administrativo no âmbito da Administração Pública Federal, constam expressamente os princípios da legalidade, finalidade, motivação, razoabilidade, proporcionalidade, moralidade, ampla defesa, contraditório, segurança jurídica, interesse público e eficiência. Feita essa abordagem, vamos partir para o estudo específico dos princípios implícitos. Princípio da supremacia do interesse público O princípio da supremacia do interesse público sobre o privado é um princípio implícito, que tem suas aplicações explicitamente previstas em norma jurídica. Trata-se, pois, das prerrogativas administrativas. A essência desse princípio está na própria razão de existir da Administração, ou seja, a Administração atua voltada aos interesses da coletividade. Assim, em uma situação de conflito entre interesse de um particular e o interesse público, este último deve predominar. É por isso que a doutrina considera esse um princípio fundamental do regime jurídico administrativo. As prerrogativas administrativas são, portanto, os poderes conferidos à Administração, que lhe asseguram a posição de superioridade perante o administrado, aplicando-se somente nas relações em que o Poder Público atua em prol do interesse da coletividade. Podemos ver a aplicação desse princípio quando, por exemplo, ocorre a desapropriação de um imóvel, em que o interesse público prevalece sobre o proprietário do bem; ou no exercício do poder de polícia do Estado, quando são impostas algumas restrições às atividades individuais para preservar o bem-estar da coletividade. Para Maria Sylvia Zanella Di Pietro, o princípio da supremacia do interesse público está presente tanto no momento de elaboração da lei como no momento de execução em concreto pela Administração Pública. Dessa forma, o princípio serve para inspirar o legislador, que deve considerar a predominância do interesse público sobre o privado na hora de editar normas de caráter geral e abstrato. Assim, quando o legislador inclui a possibilidade de a Administração alterar de forma unilateral as cláusulas de um contrato administrativo, obrigando o particular a cumpri-las (desde que respeitados os limites e condições previstos na lei), fica evidente que o princípio da supremacia serviu de fonte inspiradora para a legislação. Por outro lado, o princípio vincula a Administração Pública, ao aplicar a lei, no exercício da função administrativa. Nesse contexto, quando a lei concede poderes à Administração para desapropriar, intervir, punir, é porque tem em vista atender ao interesse coletivo, que não pode ceder perante interesses individuais. Assim, a aplicação da lei deve ter como objetivo tutelar o interesse coletivo, não podendo ser utilizado com finalidades privadas como favorecimentos ou vantagens pessoais. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 26 85 Por exemplo, quando a lei permite que uma prefeitura municipal faça a desapropriação de um imóvel, isso só deve ser feito quando o interesse geral assim o exigir. Caso a autoridade administrativa realize a desapropriação com o objetivo de punir um inimigo político do prefeito ou para favorecer determinado grupo empresarial, estará realizando por questões individuais, e não gerais, desviando a finalidade da lei. Ou seja, estaremos diante de um vício de desvio de poder ou desvio de finalidade, tornando o ato ilegal. Como dito acima, o princípio da supremacia se fundamenta na própria razão de ser do Estado, na busca de sua finalidade de garantir o interesse coletivo. Assim, é possível ver sua aplicação em diversas ocasiões como, por exemplo: a) nos atributos dos atos administrativos, como a presunção de veracidade, legitimidade e imperatividade; b) na existência das chamadas cláusulas exorbitantes nos contratos administrativos, que permitem, por exemplo, a alteração ou rescisão unilateral do contrato; c) no exercício do poder de polícia administrativa, que impõe condicionamentos e limitações ao exercício da atividade privada, buscando preservar o interesse geral; d) nas diversas formas de intervenção do Estado na propriedade privada, como a desapropriação (assegurada a indenização), a servidão administrativa, o tombamento de imóvel de valor histórico, a ocupação temporária, etc. A imposição de restrições ao particular depende de previsão legal. Por fim, deve-se destacar que nas situações em que a Administração não atuar diretamente para a consecução do interesse público, como nos contratos de locação, de seguro ou quando agir como Estado- empresário, não lhe cabe invocar o princípio da supremacia. Contudo, Alexandrino e Paulo destacam que, mesmo que indiretamente, ainda nessas situações – quando não são impostas obrigações ou restrições aos administrados –, os atos da Administração Pública revestem-se deaspectos próprios do direito público, a exemplo da presunção de legitimidade. Princípio da indisponibilidade do interesse público Esse também é um princípio implícito. Representa o outro lado da moeda. Enquanto o princípio da supremacia representa as prerrogativas, o princípio da indisponibilidade do interesse público trata das sujeições administrativas. As sujeições administrativas são limitações e restrições impostas à Administração com o intuito de evitar que ela atue de forma lesiva aos interesses públicos ou de modo ofensivo aos direitos fundamentais dos Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 27 85 administrados1. Como exemplos de sujeições podemos mencionar a necessidade de licitar – para poder contratar serviços e adquirir bens; e a realização de concursos públicos, para fins de contratação de pessoas. Percebam que os particulares não se sujeitam a essas limitações. Uma pessoa tem disposição de um bem quando é o seu proprietário. Contudo, essa não é a realidade da Administração ou de seus agentes. Como bem assevera José dos Santos Carvalho Filho, cabe-lhes apenas geri-los, conservá-los e por eles velar em prol da coletividade, esta sim a verdadeira titular dos direitos e interesses públicos. Dessa forma, a Administração não possui livre disposição dos bens e interesses públicos, uma vez que atua em nome de terceiros, a coletividade. Por consequência, impõem limitações à alienação de bens, que só podem ocorrer nos termos previstos em lei; à contratação de pessoal efetivo, que deve seguir a regra de concurso público; à escolha de fornecedores para firmar contrato, que depende da realização de licitação, e por aí vai. Uma informação importante é que, enquanto o princípio da supremacia do interesse público não se aplica em algumas situações – como na exploração de atividade econômica – o princípio da indisponibilidade do interesse público está diretamente presente em qualquer atuação da Administração Pública. Outro aspecto relevante é a relação do princípio da indisponibilidade do interesse público com o princípio da legalidade. Como vimos acima, Maria Di Pietro coloca o princípio da legalidade como um dos princípios basilares do Direito Administrativo. Para a autora é a legalidade que demonstra a preservação da liberdade dos indivíduos, por meio de restrições impostas ao Poder Público, uma vez que a Administração só pode fazer o que estiver previsto em lei, não podendo pautar-se pela autonomia de vontade prevista para o particular. Em outras palavras, a Administração deve seguir a “vontade da lei”. Nesse sentido, Marcelo Alexandrino e Vicente Paulo afirmam que, justamente por não ter disposição sobre a coisa pública, toda atuação administrativa deve atender ao estabelecido em lei, único instrumento hábil a determinar o que seja interesse público. Isso porque a lei é a manifestação legítima do povo, que é o titular da coisa pública. Nenhum princípio é ilimitado e irrestrito. Todos os princípios encontram alguma relativização na sua aplicação, permitindo a coexistência de todos os princípios no ordenamento jurídico. Assim, mesmo que os princípios da supremacia e da indisponibilidade do interesse público sejam basilares para o Direito Administrativo, eles podem ser relativizados para preservar a aplicação dos outros princípios, como a moralidade e a eficiência. Com base nisso, o STF já firmou entendimento sobre a possibilidade de a Administração fazer acordos ou transações2, relativizando, assim, a aplicação do princípio da indisponibilidade do 1 Barchet, 2008, p. 55-56. 2 A transação é um instrumento previsto no Código Civil para que os interessados terminem um litígio mediante concessões mútuas (CC, art. 840). Em linguagem mais simples, a transação é um acordo em que um dos lados abre mão de parte de seu direito para evitar uma longa demanda judicial. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 28 85 interesse público (e também da legalidade), sobremaneira quando o acordo seja a maneira mais eficaz de se beneficiar a coletividade (RE nº 253.885/MG). Além da relação com as sujeições administrativas, há outros dois sentidos para o princípio da indisponibilidade: a) poder-dever de agir: sempre que o ordenamento jurídico conceder uma competência (poder) aos agentes públicos, esse poder representará também um dever. Assim, na situação concreta, a Administração deve agir conforme manda o interesse público, não podendo escolher se deve ou não fazer, mas aplicar o Direito. Um agente de trânsito, por exemplo, ao mesmo tempo em que tem o poder de aplicar uma multa, é obrigado a fazê-lo quando uma pessoa infringir uma regra de trânsito; b) inalienabilidade dos direitos concernentes a interesses públicos: trata-se do impedimento imposto à Administração de transferir aos particulares os direitos relacionados aos interesses públicos que a lei lhe encarregou de defender. Assim, quando faz uma concessão, por exemplo, não se transfere o direito (ou a atividade propriamente dita), mas somente o exercício da atividade. Da mesma forma, não se pode alienar um bem que esteja vinculado à satisfação do interesse público. A alienação de um bem ocorre quando o Estado transfere este bem a um terceiro. Em outras palavras, trata-se da venda de um bem. Ocorre que a Administração não pode se desfazer de seus bens quando eles estiverem afetados ao exercício do interesse público. Não é necessário aprofundar o assunto. O que devemos saber é que os bens públicos, quando possuírem uma finalidade própria relacionada à satisfação do interesse público, não podem ser alienados. Por exemplo, um prédio utilizado como sede de uma prefeitura municipal não poderá ser alienado enquanto possuir essa destinação. Dessa forma, o princípio da indisponibilidade do interesse público impõe que os bens públicos, quando relacionados à satisfação do interesse público, são inalienáveis. A única ressalva é que a inalienabilidade não é uma regra absoluta, existindo um procedimento legal que permita a alienação de bens. Após essas abordagens, vamos resolver algumas questões! (SEFAZ RS - 2018) A previsão em lei de cláusulas exorbitantes aplicáveis aos contratos administrativos decorre diretamente do princípio da supremacia do interesse público. Comentários: a assertiva está correta. As cláusulas exorbitantes são poderes especiais que a administração dispõe, nos contratos administrativos, para fazer prevalecer o interesse público. Um exemplo de cláusula exorbitante é a possibilidade de alterar unilateralmente um contrato, independentemente da concordância Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 29 85 da outra parte, dentro dos limites permitidos em lei. Nesse caso, portanto, as cláusulas exorbitantes são exemplos de aplicação do princípio da supremacia. (CD - 2014) O princípio da indisponibilidade do interesse público não impede a administração pública de realizar acordos e transações. Comentários: a assertiva está correta. o STF entende ser possível atenuar o princípio da indisponibilidade do interesse público, em particular na realização da transação, quando o ato não se demonstrar oneroso para a Administração e representar a melhor maneira para ultimar o interesse coletivo. Nesse sentido, vejamos a ementa do RE 252.885/MG: “Em regra, os bens e o interesse público são indisponíveis, porque pertencem à coletividade. É, por isso, o Administrador, mero gestor da coisa pública, não tem disponibilidade sobre os interesses confiados à sua guarda e realização. Todavia, há casos em que o princípio daindisponibilidade do interesse público deve ser atenuado, mormente quando se tem em vista que a solução adotada pela Administração é a que melhor atenderá à ultimação deste interesse. (...)”. Princípios da razoabilidade e da proporcionalidade Os princípios da razoabilidade e da proporcionalidade exigem da administração pública a aplicação de limites e sanções dentro dos limites estritamente necessários para satisfazer o interesse público, sem aplicação de sanções ou restrições exageradas. Esses princípios não estão previstos de forma expressa na Constituição Federal, mas estão previstos na Lei 9.784/1999, que regula o processo administrativo na Administração Pública federal. Muitas vezes, esses dois princípios são tratados como sinônimos ou, pelo menos, são aplicados de forma conjunta. Por conseguinte, tentar diferenciá-los é um trabalho um tanto difícil. Os dois princípios se aplicam na limitação do poder discricionário. A discricionariedade ocorre quando a lei deixa uma margem de decisão para o agente público aplicá-la ao caso concreto. Por exemplo, a Lei 8.112/1990 apresenta, entre as penalidades aplicáveis aos servidores públicos, a advertência, a suspensão e a demissão. No caso concreto, caberá à autoridade responsável decidir qual das penalidades será cabível. Isso é a discricionariedade. Contudo, ela não pode ser exercida de forma ilimitada. Vamos voltar ao exemplo. Quanto à suspensão, a Lei 8.112/1990 determina que ela será aplicada em caso de reincidência das faltas punidas com advertência e de violação das demais proibições que não tipifiquem infração sujeita a penalidade de demissão, não podendo exceder de noventa dias. Agora, suponha que um servidor chegue atrasado, de forma injustificada, por uma hora e, por consequência, após a realização das formalidades legais, seja penalizado com advertência. Imagine que, uma semana após ser penalizado, o agente volte a chegar atrasado. Após o regular processo administrativo, a autoridade competente aplicou a penalidade de suspensão por noventa dias, ou seja, o limite máximo para este tipo de penalidade. Todavia, o atraso do servidor não gerou nenhum outro prejuízo nem prejudicou ninguém. Dessa forma, podemos considerar o ato da autoridade pública desarrazoado, uma vez que ele poderia ter alcançado a finalidade pública com uma pena muito menos gravosa. No caso, a autoridade agiu dentro de sua competência, cumpriu as formalidades – pois instaurou o devido processo administrativo – e teve como finalidade o interesse público – uma vez que buscou punir o agente para evitar novas irregularidades. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 30 85 Contudo, a medida foi exagerada, incoerente com os fatos. Imaginem um novo atraso, novamente sem outros prejuízos, seria o servidor demitido por isso? 3 Dessa forma, os princípios em comento realizam uma limitação à discricionariedade administrativa, em particular na restrição ou condicionamento de direitos dos administrados ou na imposição de sanções administrativas, permitindo que o Poder Judiciário anule os atos que, pelo seu excesso, mostrem-se ilegais e ilegítimos e, portanto, passíveis de anulação. Após esse exemplo, podemos tentar conceituar os dois princípios. A razoabilidade impõe que, ao atuar dentro da discrição administrativa, o agente público deve obedecer a critérios aceitáveis do ponto de vista racional, em sintonia com o senso normal de pessoas equilibradas. Dessa forma, ao fugir desse limite de aceitabilidade, os atos serão ilegítimos e, por conseguinte, serão passíveis de invalidação jurisdicional. São ilegítimas, segundo Celso Antônio Bandeira de Mello, “as condutas desarrazoadas, bizarras, incoerentes ou praticadas com desconsideração às situações e circunstâncias que seriam atendidas por quem tivesse atributos normais de prudência, sensatez e disposição de acatamento às finalidades da lei atributiva da discrição manejada”. A proporcionalidade, por outro lado, exige o equilíbrio entre os meios que a Administração utiliza e os fins que ela deseja alcançar, segundo os padrões comuns da sociedade, analisando cada caso concreto4. Considera, portanto, que as competências administrativas só podem ser exercidas validamente na extensão e intensidade do que seja realmente necessário para alcançar a finalidade de interesse público ao qual se destina. Em outras palavras, o princípio da proporcionalidade tem por objeto o controle do excesso de poder, pois nenhum cidadão pode sofrer restrições de sua liberdade além do que seja indispensável para o alcance do interesse público. Dos conceitos apresentados acima, é possível perceber o quanto é difícil diferenciar um do outro. Nos dois casos, os agentes públicos não podem realizar exageros, devendo sempre obedecer a padrões de adequação entre meios e fins. Quanto ao excesso de poder, por exemplo, podemos afirmar seguramente que ele se aplica aos dois princípios. Nesse sentido, alguns doutrinadores chamam o princípio da razoabilidade de princípio da proibição de excesso;5 enquanto outros relacionam esse aspecto (excesso de poder) ao princípio proporcionalidade6. Por isso, alguns autores consideram que o princípio da proporcionalidade é uma das facetas do princípio da razoabilidade7, ou seja, aquele está contido no conceito deste. Isso porque o princípio da razoabilidade, entre outras coisas, exige proporcionalidade entre os meios de que se utiliza a Administração Pública e os fins que ela tem que alcançar. Em que pese sirvam de fundamento para o Judiciário analisar os atos discricionários, os princípios não significam invasão ao poder de decisão do Administração Pública, naquilo que se chama mérito administrativo – conveniência e oportunidade. O juiz jamais poderá intervir quando o agente público possui duas alternativas igualmente válidas para alcançar a finalidade pública, ou seja, quando existe um grau de 3 Exemplo adaptado de Furtado, 2012, p. 101. 4 Marinela, 2013, p. 56. 5 e.g. Meirelles, 2013, p. 96; Marinela, 2013, p. 54. 6 e.g. Mendes, 2001. 7 Di Pietro, 2014, p. 81; Bandeira de Mello, 2014, p. 114. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 31 85 “liberdade” e o agente age dentro desse parâmetro, o Poder Judiciário não poderá desfazer o ato administrativo. Entretanto, os atos desarrazoados, realizados de maneira ilógica ou incoerente, não estão dentro da margem de liberdade. As decisões que violarem a razoabilidade não são inconvenientes; mas são, na verdade, ilegais e ilegítimas, por isso passíveis de anulação mediante provocação do Poder Judiciário por meio da ação cabível. Nesse sentido, vejamos as palavras do Prof. Celso Antônio Bandeira de Mello: Não se imagina que a correção judicial baseada na violação do princípio da razoabilidade invade o “mérito” do ato administrativo, isto é, o campo de “liberdade” conferido pela lei à Administração para decidir-se segundo uma estimativa da situação e critérios de conveniência e oportunidade. Tal não ocorre porque a sobredita “liberdade” é liberdade dentro da lei, vale dizer, segundo as possibilidades nela comportadas. Uma providência desarrazoada, consoante dito, não pode ser havida como comportada pela lei. Logo, é ilegal: é desbordante dos limites nela admitidos. Dessa forma, quando o Judiciário analisa um ato administrativo com fundamento da razoabilidade e proporcionalidade, ele não tomará como base a conveniência e oportunidade, mas a legalidade e legitimidade. Dessa forma, não se trata de revogação – que só pode ser realizada pela própria Administração –, mas de anulação do ato desarrazoado ou desproporcional. Os princípios da razoabilidade e da proporcionalidade não invadem o mérito administrativo,pois analisam a legalidade e legitimidade. A proporcionalidade possui três elementos que devem ser analisados no caso concreto: adequação, necessidade e proporcionalidade em sentido estrito. O princípio da proporcionalidade possui três elementos que devem ser observados no caso concreto: a) adequação (pertinência, aptidão): significa que o meio empregado deve ser compatível com o fim desejado. Os meios devem ser efetivos para os resultados que se deseja alcançar. b) necessidade (exigibilidade): não deve existir outro meio menos gravoso ou oneroso para alcançar o fim público, isto é, o meio escolhido deve ser o que causa o menor prejuízo possível para os indivíduos; Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 32 85 c) proporcionalidade em sentido estrito: a vantagens a serem conquistadas devem superar as desvantagens. Pela adequação, verifica-se se o ato realmente é um meio compatível para alcançar os resultados desejados. A necessidade, por outro lado, verifica se não existem outros atos que causem menos limitação e, ainda assim, sirvam para satisfazer o interesse público. Por fim, a proporcionalidade em sentido estrito avalia se as vantagens conquistadas superam as limitações impostas ao administrado. Na Lei 9.784/1999, podemos encontrar diversas aplicações desses princípios. Por exemplo, o art. 29, § 2º, estabelece que os “atos de instrução que exijam a atuação dos interessados devem realizar-se do modo menos oneroso para estes”. Já o parágrafo único, art. 2º, dispõe que, nos processos administrativos, deve ser observados, entre outros, os seguintes critérios: “adequação entre meios e fins, vedada a imposição de obrigações, restrições e sanções em medida superior àquelas estritamente necessárias ao atendimento do interesse público” (inc. VI); “observância das formalidades essenciais à garantia dos direitos dos administrados” (inc. VIII); “adoção de formas simples, suficientes para propiciar adequado grau de certeza, segurança e respeito aos direitos dos administrados”. Com efeito, os princípios da razoabilidade e da proporcionalidade não servem apenas para o controle dos atos administrativos8, mas de qualquer outra função do Estado. Nesse contexto, o STF pode declarar a inconstitucionalidade material – aquela que se relaciona com o conteúdo – de uma lei (que se insere na função legislativa) se ela se mostrar desproporcional ou desarrazoada.9 Da mesma forma, quando o legislador for elaborar uma lei, deverá elaborá-la dentro dos limites da razoabilidade e da proporcionalidade. Por exemplo: se o legislador resolver criar restrições de acesso a determinado cargo público, não poderá criar restrições exageradas, desproporcionais, uma vez que tal limitação poderá ser considerada inconstitucional por restringir desnecessariamente o acesso ao cargo. (STJ - 2018) O princípio da proporcionalidade, que determina a adequação entre os meios e os fins, deve ser obrigatoriamente observado no processo administrativo, sendo vedada a imposição de obrigações, 8 Exemplo de aplicação dos princípios da proporcionalidade e da razoabilidade no controle de ato administrativo encontra- se no RMS 28208/DF, em que o STF anulou a pena de demissão de servidor, uma vez que o suposto delito cometido não ficou comprovado no âmbito Penal, além de não se ter notícia da prática de outros atos irregulares por parte do agente, podendo-se afirmar que se tratava de servidor público possuidor de bons antecedentes, além de detentor de largo tempo de serviço prestado ao Poder Público. 9 Por exemplo, na ADI 855/PR, o STF declarou inconstitucional lei que obrigava os estabelecimentos que comercializem gás liquefeito de petróleo a pesarem, à vista do consumidor, os botijões ou cilindros entregues ou recebidos para substituição, com abatimento proporcional do preço do produto ante a eventual verificação de diferença a menor entre o conteúdo e a quantidade líquida especificada no recipiente. A Corte entendeu que esse tipo de balança não alcançaria os benefícios desejados, uma vez que sua utilização ensejaria custos elevados, alta capacidade tecnológica e inviabilizaria, por exemplo, a entrega domiciliar. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 33 85 restrições e sanções em medida superior àquelas estritamente necessárias ao atendimento do interesse público. Comentários: A assertiva está correta. A legislação de processo administrativo exige a aplicação de adequação entre meios e fins, vedada a imposição de obrigações, restrições e sanções em medida superior àquelas estritamente necessárias ao atendimento do interesse público (Lei 9.784/99, art. 2º, parágrafo único, VI), sendo essa justamente a aplicação dos princípios da razoabilidade e da proporcionalidade. Princípio do controle ou da tutela Para Maria Sylvia Zanella Di Pietro, o princípio do controle ou da tutela foi elaborado para assegurar que as entidades da Administração Indireta observem o princípio da especialidade10. Esse princípio é representado pelo controle da Administração Direta sobre as atividades das entidades administrativas, com o objetivo de garantir a observância de suas finalidades institucionais. Dessa forma, são colocados em confronto a independência da entidade, que possui autonomia administrativa e financeira; e a necessidade de controle, uma vez que a entidade política (União, estados, Distrito Federal e municípios) precisa se assegurar que a entidade administrativa atue em conformidade com os fins que justificaram a sua criação. Contudo, como não há subordinação entre a Administração Direta e a Indireta, mas tão somente vinculação, a regra será a autonomia; sendo o controle a exceção, que não poderá ser presumido, isto é, só poderá ser exercido nos limites definidos em lei. Princípio da autotutela Não se pode esperar que os agentes públicos sempre tomem as decisões corretas no desempenho de suas funções. Dessa forma, é imperioso que exista uma forma de a Administração corrigir os seus próprios atos. Nesse sentido, o princípio da autotutela estabelece que a Administração Pública possui o poder de controlar os seus próprios atos, anulando-os quando ilegais ou revogando-os quando inconvenientes ou inoportunos. Assim, a Administração não precisa recorrer ao Poder Judiciário para corrigir os seus atos, podendo fazê-lo diretamente. Este princípio possui previsão em duas súmulas do STF, a 346, que estabelece que “A Administração Pública pode declarar a nulidade dos seus próprios atos”, e 473, que dispõe o seguinte: Súmula nº 473 - A Administração pode anular seus próprios atos, quando eivados de vícios que os tornam ilegais, porque deles não se originam direitos; ou revogá-los, por motivo de conveniência ou oportunidade, respeitados os direitos adquiridos, e ressalvada, em todos os casos, a apreciação judicial. 10 Vamos falar do princípio da especialidade ainda nesta aula. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 34 85 Atualmente, o princípio ganhou previsão legal, conforme consta no art. 53 da Lei 9.784/1999: “A Administração deve anular seus próprios atos, quando eivados de vício de legalidade, e pode revogá-los por motivo de conveniência ou oportunidade, respeitados os direitos adquiridos”. Nesse contexto, a autotutela envolve dois aspectos da atuação administrativa: legalidade: em relação ao qual a Administração procede, de ofício ou por provocação, a anulação de atos ilegais; e mérito: em que reexamina atos anteriores quanto à conveniência e oportunidade de sua manutenção ou desfazimento (revogação).Quanto ao aspecto da legalidade, conforme consta na Lei 9.784/1999, a Administração deve anular seus próprios atos, quando possuírem alguma ilegalidade. Trata-se, portanto, de um poder-dever, ou seja, uma obrigação. Dessa forma, o controle de legalidade, em decorrência da autotutela, pode ser realizado independentemente de provocação, pois se trata de um poder-dever de ofício da Administração. Todavia, no Brasil vigora o princípio da inafastabilidade de tutela jurisdicional (sistema de jurisdição única), segundo o qual a lei não afastará do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito (CF, art. 5º, XXXV). Assim, o controle de legalidade realizado pela própria Administração Pública não afasta a competência do Poder Judiciário de controlar a legalidade dos atos públicos. A diferença, no entanto, é que a Administração pode agir de ofício, enquanto o Poder Judiciário só atuará mediante provocação. A Administração não se limita ao controle de atos ilegais, pois poderá retirar do mundo jurídico atos válidos, porém que se mostraram inconvenientes ou inoportunos. Nesse caso, não estamos mais falando de controle de legalidade, mas de controle de mérito. Dessa forma, após o juízo de valor sobre a conveniência e oportunidade, a Administração poderá revogar o ato. Aqui reside uma segunda diferença da autotutela para o controle judicial, pois somente a própria Administração que editou o ato poderá revogá-lo, não podendo o Poder Judiciário anular um ato válido, porém inconveniente de outro Poder. Vale dizer, o Poder Judiciário poderá anular um ato ilegal de outro Poder, porém não poderá revogar um ato válido. Isso ocorre porque o controle judicial analisa os aspectos de legalidade e legitimidade, mas não pode se imiscuir no mérito administrativo. 11 Cumpre frisar, no entanto, que o controle judicial faz parte da função típica do Poder Judiciário, que ocorrerá, por exemplo, quando esse Poder anula um ato administrativo do Poder Executivo. Contudo, quando estiver exercendo a sua função atípica de administrar (função administrativa), o Poder Judiciário 11 O Poder Judiciário, e os demais órgãos de controle, não poderão invadir o mérito, ou seja, a conveniência e a oportunidade que cabe ao gestor. Todavia, isso não impede o controle dos atos discricionários, que poderão ser analisados sobre o prisma da legalidade e legitimidade. Assim, se um ato discricionário fugir da liberdade atribuída pela lei ao agente público, ou então se for realizado de forma desproporcional, poderá o Poder Judiciário realizar o controle, anulando o ato. Dessa forma, não ocorreu revogação, mas sim a anulação em virtude de o ato ocorrer fora dos parâmetros legais, ou seja, o ato não era válido. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 35 85 também poderá revogar os seus próprios atos. Isso porque, nesse caso, estará atuando como um órgão administrativo e não como “Poder Judiciário”. Dessa forma, a autotutela é mais ampla que o controle judicial em dois aspectos. Em primeiro lugar, porque permite a atuação, tanto na revogação quanto na anulação, de ofício, ou seja, independentemente de provocação; enquanto a tutela jurisdicional pressupõe necessariamente tal manifestação (princípio da inércia). Em segundo lugar, porque somente na autotutela é possível revogar os atos administrativos. Autotutela Controle judicial Legalidade Poderá anular seus atos, de ofício ou por provocação. Poderá anular, somente por provocação. Mérito (conveniência e oportunidade Poderá revogar seus atos, de ofício ou por provocação Não pode revogar. A despeito de ser um poder-dever, nem sempre a anulação será a melhor alternativa. Em alguns casos, o administrador deverá anular os atos ilegais, salvo quando a sua retirada causar danos graves ao interesse público, motivo que, considerando a sua supremacia, justifica a manutenção do ato, desde que não se perca de vista a proporcionalidade entre o benefício e o prejuízo causados, além do princípio da segurança jurídica.12 Com efeito, a autotutela também encontra limites no princípio da segurança jurídica e da estabilidade das relações jurídicas. Assim, conforme consta no art. 54 da Lei 9.784/1999, o direito da Administração de anular os atos administrativos de que decorram efeitos favoráveis para os destinatários decai em cinco anos, contados da data em que foram praticados, salvo comprovada má-fé. Assim, após esse prazo, o exercício da autotutela se torna incabível. Finalmente, outra limitação para a autotutela se refere à necessidade de oportunizar o contraditório e a ampla defesa, por meio de processo administrativo, às pessoas cujos interesses serão afetados negativamente em decorrência do desfazimento do ato. Todavia, conforme ensina Lucas Rocha Furtado13, a necessidade de direito de defesa só ocorre nas hipóteses de atos individuais – definidos estes como os atos que afetam pessoa ou pessoas determinadas –, como a anulação da nomeação de uma pessoa aprovada em concurso. Nesse caso, a nomeação é um ato individual, pois alcançou uma pessoa determinada. Para anular esse ato, deverá ser oportunizado o contraditório e a ampla defesa ao interessado, que poderá trazer argumentos para evitar o desfazimento do ato. Por outro lado, quando os atos forem gerais, como a anulação de um concurso público por motivo de vazamento de gabarito, não se fala em direito de defesa. A professora Maria Sylvia Zanella Di Pietro apresenta um segundo significado do princípio da autotutela. De acordo com a doutrinadora, a autotutela também se refere ao poder que a Administração Pública possui para zelar pelos bens que integram o seu patrimônio, sem necessitar de título fornecido pelo Poder Judiciário. Assim, ela pode, por meio de medidas de polícia administrativa, impedir quaisquer atos que coloquem em risco a conservação desses bens. 12 Marinela, 2013, p. 64. 13 Furtado, 2012, p. 114. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 36 85 Vamos resolver algumas questões? (TRT 11 - 2017) A atuação da Administração é pautada por determinados princípios, alguns positivados em âmbito constitucional ou legal e outros consolidados por construções doutrinárias. Exemplo de tais princípios são a tutela ou controle e a autotutela, que diferem entre si nos seguintes aspectos é através da tutela que a Administração direta exerce o controle finalístico sobre entidades da Administração indireta, enquanto pela autotutela exerce controle sobre seus próprios atos. Comentários: A assertiva está correta. A tutela trata do controle finalístico exercido pela Administração direta sobre a indireta, ou seja, trata-se de um controle que tem o objetivo de verificar o cumprimento das finalidades legais das entidades administrativas. Por outro lado, a autotutela trata do controle da administração sobre os seus próprios atos, permitindo realizar a anulação ou revogação, conforme o caso. Princípio da motivação A motivação representa que o administrador deve indicar os fundamentos de fato e de direito que o levam a adotar qualquer decisão no âmbito da administração pública, demonstrando a correlação lógica entre a situação ocorrida e as providências adotadas. Dessa forma, a motivação serve de fundamento para examinar a finalidade, a legalidade e a moralidade da conduta administrativa. O princípio da motivação é decorrência do Estado Democrático de Direito, determinando que os agentes públicos, ao decidirem, apresentem os fundamentos que os levaram a tal posicionamento. Assim, apesar de não constar expressamente, ele decorre da interpretação de diversos dispositivos constitucionais.14 Conforme ensina Hely Lopes Meirelles,15 para o direito público a vontade do administradoré irrelevante, pois os seus desejos, ambições programas e atos não possuem validade jurídica se não estiverem alicerçadas no Direito e na Lei. Dessa forma, como ninguém está obrigado a fazer ou deixar de fazer algo senão em virtude de lei, todo ato do Poder Público deve trazer consigo a demonstração da base legal e de seu motivo. As discussões doutrinárias deixam dúvidas sobre a necessidade ou não de motivar todos os atos administrativos. Alguns doutrinadores16 entendem que, em alguns atos administrativos, oriundos do poder 14 Para o Poder Judiciário, todavia, este princípio consta expressamente no inc. X, art. 93 – que também se aplica ao Ministério Público por determinação do art. 129, §4º – que determina que as “decisões administrativas dos tribunais serão motivadas e em sessão pública, sendo as disciplinares tomadas pelo voto da maioria absoluta de seus membros”. Para concursos, contudo, vale a regra geral: o princípio da motivação é implícito. 15 Meirelles, 2013, p. 106. 16 e.g. Meirelles, 2013, p. 107. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 37 85 discricionário, a justificação será dispensável, bastando demonstrar a competência e a conformação do ato com o interesse público. Contudo, o posicionamento da doutrinária majoritária e da jurisprudência, não é esse. A professora Maria Di Pietro17 assevera que a obrigatoriedade de motivar se justifica em qualquer tipo de ato, pois se trata de formalidade necessária para permitir o controle de legalidade dos atos administrativos. No mesmo sentido, Lucas Rocha Furtado18 ensina que todos os atos administrativos devem ser motivados, sejam eles discricionários ou vinculados, com uma única exceção, que é a exoneração de ocupante de cargo em comissão, conhecida como exoneração ad nutum, uma vez que possui tratamento constitucional próprio19. Na mesma linha, o STJ entende que o motivo é requisito necessário à formação do ato administrativo, sendo que a motivação é obrigatória ao exame da finalidade e da moralidade administrativa.20 Com efeito, a Lei 9.784/1999 determina que a “indicação dos pressupostos de fato e de direito que determinarem a decisão” é um dos critérios aplicáveis ao processo administrativo (art. 2º, parágrafo único, VII). Além disso, “os atos administrativos deverão ser motivados, com indicação dos fatos e dos fundamentos jurídicos” (art. 50). Em seguida, a Lei dispõe que os atos administrativos devem ser motivados quando: I - neguem, limitem ou afetem direitos ou interesses; II - imponham ou agravem deveres, encargos ou sanções; III - decidam processos administrativos de concurso ou seleção pública; IV - dispensem ou declarem a inexigibilidade de processo licitatório; V - decidam recursos administrativos; VI - decorram de reexame de ofício; VII - deixem de aplicar jurisprudência firmada sobre a questão ou discrepem de pareceres, laudos, propostas e relatórios oficiais; VIII - importem anulação, revogação, suspensão ou convalidação de ato administrativo. Segundo a Lei de Processo Administrativo, a motivação deve “ser explícita, clara e congruente, podendo consistir em declaração de concordância com fundamentos de anteriores pareceres, informações, decisões ou propostas, que, neste caso, serão parte integrante do ato” (art. 50, §1º). Nesse caso, percebe-se a possibilidade da motivação aliunde, que é realizada pela mera referência, no ato, a pareceres, informações 17 Di Pietro, 2014, p. 82. 18 Furtado, 2012, p. 104. 19 Art. 37. [...] II - a investidura em cargo ou emprego público depende de aprovação prévia em concurso público [...], ressalvadas as nomeações para cargo em comissão declarado em lei de livre nomeação e exoneração; 20 STJ, AgRg no RMS 15.350/DF: “1. O motivo é requisito necessário à formação do ato administrativo e a motivação, alçada à categoria de princípio, é obrigatória ao exame da legalidade, da finalidade e da moralidade administrativa”. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 38 85 ou propostas anteriores.21 Por exemplo: em um processo administrativo foi emitido um parecer jurídico sobre determinado assunto; ao decidir, a autoridade não precisa “copiar” todo o conteúdo do parecer em sua motivação, bastando a mera menção do parecer como fundamento de sua decisão (isso se a autoridade concordar com o conteúdo do parecer). A Lei dispõe ainda que, “na solução de vários assuntos da mesma natureza”, poderá ser utilizado meio mecânico que reproduza os fundamentos das decisões, desde que isso não prejudique direito ou garantia dos interessados (art. 50, §2º). Por fim, a motivação das “decisões de órgãos colegiados e comissões ou de decisões orais” deverá constar da respectiva ata ou de termo escrito (art. 50, §3º). Princípio da continuidade do serviço público Pelo princípio da continuidade, os serviços públicos devem ser prestados de maneira contínua, ou seja, sem parar. Isso porque é justamente pelos serviços públicos que o Estado desempenha suas funções essenciais ou necessárias à coletividade. Segundo Carvalho Filho, a “consequência lógica desse fato é a de que não podem os serviços públicos ser interrompidos, devendo, ao contrário, ter normal continuidade”. Em que pese a aplicação desse princípio seja principalmente na prestação de serviços públicos, ele se aplica a qualquer atividade administrativa. Nessa linha, a paralisação da Administração em suas atividades administrativas internas também pode trazer prejuízos ao interesse público. Maria Sylvia Zanella Di Pietro apresenta as seguintes consequências do princípio da continuidade:22 a) proibição de greve dos servidores públicos – essa não é mais uma proibição absoluta, uma vez que o art. 37, VII, determina que “o direito de greve será exercido nos termos e nos limites definidos em lei específica”; b) necessidade de institutos como a suplência, a delegação e a substituição para preencher as funções públicas temporariamente vagas; c) impossibilidade, para quem contratada com a Administração, de invocar a cláusula da exceção do contrato não cumprido (exceptio non adimpleti contractus) nos contratos que tenham por objeto a execução de serviço público [na verdade, não temos uma impossibilidade, mas uma limitação]. Por exemplo, a Lei 14.133/2021 determina que o 21 A motivação aliunde é aceita pela doutrina (Meirelles, 2013, p. 108) e também na jurisprudência (STF, MS 25518/DF). 22 Di Pietro, 2014, pp. 71-72. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 39 85 particular deverá continuar a cumprir o contrato, mesmo após um atraso de até dois meses nos pagamentos devidos (art. 137, § 2º, IV); d) faculdade que se reconhece à Administração de utilizar os equipamentos e instalações da empresa com que ela contrata, para assegurar a continuidade do serviço; e) com o mesmo objetivo, a encampação da concessão de serviço público. Outra situação que demonstra a aplicação do princípio da continuidade dos serviços públicos é a possibilidade de reversão dos bens necessários à prestação dos serviços públicos nos contratos de concessão ou permissão. Isso significa que os bens que as delegatárias de serviços públicos utilizam na prestação dos serviços serão, ao término do contrato, incorporados ao patrimônio da Administração Pública, realizando-se a devida indenização daqueles que ainda não amortizados. A continuidade dos serviços públicos guarda relação com o princípio da supremacia do interesse público, pois pretende que a coletividade não sofra prejuízos em razão de eventuais interesses particulares. Também guarda relação como princípio da eficiência, pois um dos aspectos da qualidade dos serviços públicos é justamente que eles não sofram solução de continuidade. Por essa razão, acaba limitando, em algumas hipóteses, os direitos individuais, buscando assegurar o interesse maior da coletividade. Nesse sentido, vale trazer a situação do exercício do direito de greve pelos servidores públicos. Inicialmente, o STF entendia o direito de greve era norma de eficácia limitada e que, portanto, não poderia ser exercida enquanto não fosse editada a lei específica prevista no art. 37, VII. Posteriormente, o Supremo Tribunal Federal, ao julgar os mandados de injunção 670-ES, 708-DF e 712-PA, decidiu pela aplicação da Lei 7.783/1989 – que regulamenta o direito de greve dos trabalhadores – suprimindo temporariamente a omissão legislativa. Com isso, os servidores públicos passaram a poder exercer o seu direito constitucional. Atualmente, no entanto, há muita discussão em relação ao direito de greve de determinadas categorias, sobretudo aquelas consideradas essenciais. O STF já chegou a afirmar que determinadas categorias seriam privadas do direito de greve, como as que exercem atividades relacionadas com a manutenção da ordem pública e a segurança pública, a administração da Justiça, as carreiras de Estado, cujos membros exercem atividades indelegáveis, inclusive as de exação tributária, e a saúde pública23. Contudo, esse tema ainda não foi discutido de forma mais aprofundada no STF. Em relação aos policiais civis, porém, o entendimento já está consolidado na linha de que o direito de greve é inconstitucional. Nessa linha, entendeu o STF que o exercício do direito de greve, sob qualquer forma ou modalidade, é vedado aos policiais civis e a todos os servidores públicos que atuem diretamente na área de segurança pública.24 Vale lembrar que os militares em geral já não possuem direito de greve, por expressa disposição da Constituição Federal (art. 142, § 3º, IV). Com isso, tanto os policiais civis como os policiais militares não podem exercer o direito de greve. Ainda em relação ao direito de greve e ao princípio da continuidade, o STF também já firmou o entendimento de que a administração pública deve proceder ao desconto dos dias de paralisação decorrentes do exercício do direito de greve pelos servidores públicos, em virtude da suspensão do vínculo 23 STF: Rcl 6.568-SP. 24 ARE 654.432/GO. Vide também a Rcl 11246 AgR/BA. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 40 85 funcional que dela decorre, permitindo, todavia, a compensação em caso de acordo. Essa regra do desconto, contudo, não se aplica quando ficar demonstrado que a greve foi provocada por conduta ilícita do Poder Público, a exemplo do atraso no pagamento da remuneração dos servidores.25 Em resumo, podemos dizer o seguinte: a) em regra, os servidores possuem direito à greve, nos termos da legislação aplicável aos trabalhadores; b) os militares não possuem direito à greve, conforme expressamente dispõe a Constituição Federal (CF, art. 142, IV); c) os policiais civis são equiparados, em relação ao direito de greve, aos policiais militares, sendo vedado o direito de greve (ARE 654.432/GO; Rcl 11246 AgR/BA); d) uma vez iniciada a greve, a Administração deve proceder ao desconto dos dias de paralisação, permitindo-se a compensação de horário; porém, o desconto será incabível se a greve decorreu de conduta ilícita do poder público (RE 693.456/RJ). Além disso, o princípio da continuidade já foi invocado pelo Tribunal de Contas da União, que, ao identificar falhas em procedimento licitatório utilizado para contratar determinada empresa para prestar serviços essenciais à Administração Pública, optou por determinar que o órgão realizasse nova licitação, sem fixar, no entanto, prazo para que o órgão anulasse o contrato. Com isso, o TCU permitiu que fosse dada continuidade aos serviços durante o período estritamente necessário para a realização da nova contratação26. Além disso, o princípio da continuidade relaciona-se com o dever do dever público de manter o equilíbrio econômico-financeiro dos contratos administrativos. No meio privado, os contratos somente podem ser alterados por acordo das partes. Nos contratos administrativos, por outro lado, a Administração pode realizar alterações unilaterais, ou seja, mesmo sem concordância prévia da outra parte. Contudo, essas alterações não podem modificar o equilíbrio econômico-financeiro do contrato – por exemplo: se o contratado ia receber R$ 100,00 pelo fornecimento de 10 unidades de um produto; deverá receber R$ 120,00 se as quantidades forem alteradas para 12, mantendo o equilíbrio financeiro inicial. Se a Administração pudesse alterar unilateralmente o equilíbrio-financeiro, o contratado poderia sofrer prejuízos, tornando insustentável a continuidade da prestação do serviço. Daí a aplicação do princípio da continuidade do serviço público. Todavia, a continuidade não possui caráter absoluto, existindo situações em que é possível a paralisação temporária dos serviços públicos. Eventualmente, o serviço poderá ser paralisado temporariamente para reparos técnicos ou para a realização de obras de expansão e melhorias dos serviços.27 25 RE 693.456/RJ, 27.10.2016. 26 Acórdão 57/2000-TCU-Plenário: “3. Acerta, a meu ver, a unidade instrutiva ao propor que o Tribunal determine à ICC a imediata realização de procedimento licitatório para a supressão da impropriedade acima referida e, ao mesmo tempo, sugerir a continuidade da execução dos serviços por parte da atual prestadora. Essa solução parece-me consentânea com o princípio da continuidade do serviço público, que não permite a interrupção dos serviços referidos, necessários à preservação do patrimônio público”. Veja também: Furtado, 2012, p. 113. 27 Carvalho Filho, p. 38, 2017. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 41 85 Nesse sentido, a Lei 8.987/1995 prescreve que não se caracteriza como descontinuidade do serviço a sua interrupção em situação de emergência ou, após prévio aviso, quando: (a) motivada por razões de ordem técnica ou de segurança das instalações; (b) por inadimplemento do usuário, considerado o interesse da coletividade (art. 6º, §3º). Dessa forma, é plenamente possível a suspensão de serviço por falta de pagamento de fatura, mas que deverá ser restabelecido tão logo o débito seja quitado. Vamos resolver algumas questões de provas. (TRE PE - 2017) O princípio da continuidade dos serviços públicos a) afasta a possibilidade de interrupção, ainda que se trate de sistema de remuneração por tarifa no qual o usuário dos referidos serviços esteja inadimplente. b) diz respeito, apenas, a serviços públicos, não alcançando as demais atividades administrativas. c) torna ilegal a greve de servidores públicos. d) tem relação direta com os princípios da eficiência e da supremacia do interesse público. e) impede a paralisação, ainda que a justificativa desta seja o aperfeiçoamento das atividades. Comentários: a) a legislação permite a interrupção dos serviços por falta de pagamento da tarifa da prestação dos serviços. Nesse caso, prevalece o interesse público em detrimento do interesse privado, pois se não fosse possível a interrupção do serviço por inadimplência, consequentemente o custeio dos serviços poderia ser tornar inviável pela falta de pagamento de vários usuários – ERRADA; b) o princípio aplica-se predominantemente aos serviços públicos, porém alcança todas as atividades administrativas, já que a interrupção destas também afeta o interesse público – ERRADA; c) a greve dos servidores públicos não é, em si, ilegal, pois se trata de um direito assegurado na ConstituiçãoFederal. A falta de regulamentação específica, entretanto, fez o STF determinar a aplicação das normas privadas aos servidores públicos, até que o Poder Legislativo elabore a norma correspondente. Porém, ressalva-se que algumas categorias não podem exercer o direito de greve, seja por expressa previsão constitucional (militares), ou por entendimento do STF (policiais civis, categorias de segurança pública) – ERRADA; d) o princípio da continuidade tem relação com o princípio da supremacia, pois deve prevalecer o interesse público em detrimento do interesse privado da empresa ou do agente que pretende paralisar a sua prestação; e também tem relação com o princípio da eficiência, pois a qualidade do serviço é diretamente ligada à sua prestação continuada – CORRETA; e) o princípio não é absoluto, uma vez que pode ocorrer a paralisação temporária, seja por manutenção ou aperfeiçoamento do serviço, ou ainda em virtude de inadimplência no pagamento da fatura – ERRADA. Gabarito: alternativa D. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 42 85 Princípio do contraditório e da ampla defesa O princípio do contraditório e da ampla defesa decorre do art. 5º, LV, da Constituição Federal, que determina que “aos litigantes, em processo judicial ou administrativo, e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes”. Além disso, eles constam expressamente no caput do art. 2º da Lei 9.784/1999. Conforme ensinamentos de Ada Pellegrini Grinover,28 a Constituição estende as garantias a todos os processos administrativos, sejam eles punitivos, caso em que estaremos falando dos acusados, ou não punitivos, quando os envolvidos são apenas litigantes. Em síntese, o princípio do contraditório e da ampla defesa deve ser aplicado tanto em processos punitivos quanto nos não punitivos. O contraditório e a ampla defesa estão intimamente relacionados com o princípio do devido processo legal. Na verdade, alguns autores os consideram eles subprincípios deste. O devido processo legal está previsto na CF, art. 5º, LIV, nos seguintes termos: “ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal”. Por esse princípio, a autoridade administrativa deve atuar, material e formalmente, nos termos que o direito determinar, impedindo que o processo de decisão do Poder Público ocorra de maneira arbitrária29. Dessa forma, consagra-se a exigência de um processo formal e regular, realizado nos termos de previsão legal, impedindo que a Administração Pública tome qualquer medida contra alguém, atingindo os seus interesses, sem lhe proporcionar o direito ao contraditório e a ampla defesa. O contraditório se refere ao direito que o interessado possui de tomar conhecimento das alegações da parte contrária e contra elas poder se contrapor, podendo, assim, influenciar no convencimento do julgador. A ampla defesa, por outro lado, confere ao cidadão o direito de alegar e provar o que alega, podendo se valer de todos os meios e recursos juridicamente válidos, vedando, por conseguinte, o cerceamento do direito de defesa. Decorre da ampla defesa o direito de apresentar os argumentos antes da tomada de decisão; de tirar cópias do processo; de solicitar produção de provas; de interpor recursos administrativos, mesmo que não exista previsão em lei para tal etc. Por fim, a ampla defesa abrange também o direito à defesa técnica. Contudo, em processos administrativos, cabe ao interessado decidir se precisa ou não de defesa técnica, conforme entendimento do STF constante na Súmula Vinculante nº 5: “A falta de defesa técnica por advogado no processo administrativo disciplinar não ofende a Constituição”. 28 Grinover, apud Meirelles, 2013, p. 109. 29 Marinela, 2013, p. 51. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 43 85 ==2537cb== Em processo administrativo disciplinar, não é obrigatória a defesa técnica por advogado. Vejamos como esses princípios são exigidos em provas. (Câmara de Salvador – BA/2018) Processo administrativo é um conjunto concatenado de atos administrativos sequenciais, respeitada a ordem legal, com uma finalidade específica que não confronte com o interesse público, ensejando a prática de um ato final. Como corolário do princípio da ampla defesa vigente no processo administrativo, tem-se a defesa técnica, que é exercida pela imprescindível presença de advogado no processo administrativo disciplinar, sob pena de nulidade. Comentários: Conforme enunciado da Súmula Vinculante º 5 do STF, a “falta de defesa técnica por advogado no processo administrativo disciplinar não ofende a Constituição”. Logo, a defesa por advogado não é indispensável, motivo pelo qual a questão está errada. Gabarito: errado. Princípio da especialidade O princípio da especialidade reflete a ideia de descentralização administrativa, em que se criam entidades para o desempenho de finalidades específicas. Decorre, ademais, dos princípios da legalidade e da indisponibilidade do interesse público. Nessa linha, vale dizer que a Constituição Federal exige edição de lei específica para a criação ou autorização de criação das entidades da Administração Indireta (art. 37, XIX). Nesse caso, a lei deverá apresentar as finalidades específicas da entidade, vedando, por conseguinte, o exercício de atividades diversas daquelas previstas em lei, sob pena de nulidade do ato e punição dos responsáveis. Embora tenha sido criado inicialmente para as autarquias, uma das espécies de entidades administrativas, o princípio aplica-se modernamente a todas as pessoas administrativas que integram a Administração Pública Indireta (autarquias, fundações públicas, empresas públicas e sociedades de economia mista). Princípio da segurança jurídica, proteção à confiança e boa-fé O princípio da segurança jurídica, também conhecido como princípio à confiança legítima, é um dos subprincípios básicos do Estado de Direito, fazendo parte do sistema constitucional como um todo e, portanto, trata-se de um dos mais importantes princípios gerais do Direito. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 44 85 Ele tem por objetivo assegurar a estabilidade das relações jurídicas já consolidadas, considerando a inevitável evolução do Direito, tanto em nível legislativo, jurisprudencial ou de interpretação administrativa das normas jurídicas. Tal princípio mostra-se, sobretudo, no conflito entre o princípio da legalidade com a estabilidade das relações jurídicas consolidadas com o decurso do tempo. Muitas vezes, anular um ato após vários anos de sua prática poderá ter um efeito mais perverso do que a simples manutenção de sua ilegalidade. Trata-se de um princípio com diversas aplicações, como a proteção ao direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada. Além disso, é fundamento da prescrição e da decadência, evitando, por exemplo, a aplicação de sanções administrativas vários anos após a ocorrência da irregularidade. Ademais, o princípio é a base para a edição das súmulas vinculantes, buscando pôr fim a controvérsias entre os órgãos judiciários ou entre esses e a administração pública que acarretem “grave insegurança jurídica e relevante multiplicação de processos sobre questão idêntica” (CF, art. 103-A, §1º). Nesse contexto, a Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro dispõe que as autoridades públicas devem atuar para aumentar a segurança jurídica na aplicação das normas, inclusive por meio de regulamentos, súmulas administrativas e respostas a consultas (redaçãoinserida pela Lei 13.655/2018). Esses documentos terão caráter vinculante em relação ao órgão ou entidade a que se destinam, até ulterior revisão. O propósito dessa medida é justamente o de padronizar as interpretações de decisões da administração. O princípio da segurança jurídica possui previsão no art. 2º, caput, da Lei 9.784/199930. Além disso, o inciso XIII, do parágrafo único, do mesmo artigo, determina que a Administração Pública deve obedecer ao critério da “interpretação da norma administrativa da forma que melhor garanta o atendimento do fim público a que se dirige, vedada aplicação retroativa de nova interpretação”. Não se busca evitar que a Administração evolua e, por conseguinte, modifique o seu entendimento sobre as normas. Na verdade, deseja-se evitar que esse entendimento seja aplicado de forma retroativa, alterando as decisões já tomadas. Assim, a nova interpretação deverá ser aplicada somente aos casos futuros. Segundo Di Pietro, a segurança se relaciona com a ideia de boa-fé. Caso a Administração adote determinado entendimento como correto, aplicando-o ao caso concreto, não pode depois vir a anular atos anteriores, sob o pretexto de que eles foram praticados com base em errônea interpretação. Busca-se, assim, que os direitos dos administrados não fiquem flutuando conforme a variação de entendimentos da Administração ao longo do tempo. Princípio da proteção à confiança A doutrina costuma diferenciar os princípios da segurança jurídica e da proteção à confiança. O primeiro trata do aspecto objetivo do conceito, indicando a inafastabilidade da estabilização jurídica; o segundo, por sua vez, trata do aspecto subjetivo, que reflete o sentimento do indivíduo em relação aos atos que 30 Art. 2º A Administração Pública obedecerá, dentre outros, aos princípios da legalidade, finalidade, motivação, razoabilidade, proporcionalidade, moralidade, ampla defesa, contraditório, segurança jurídica, interesse público e eficiência. (g.n.) Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 45 85 possuem presunção de legitimidade e de aparência de legalidade.31 Vale dizer, o aspecto subjetivo (proteção à confiança), trata da boa-fé que os indivíduos possuem ao crer que os atos estatais foram praticados conforme a lei. Nesse contexto, vale analisarmos o conteúdo do art. 54 da Lei 9.784/1999, que dispõe que o “direito da Administração de anular os atos administrativos de que decorram efeitos favoráveis para os destinatários decai em cinco anos, contados da data em que foram praticados, salvo comprovada má-fé”. Tal regra, conjuga simultaneamente o aspecto do tempo e da boa-fé. Primeiro porque a estabilização jurídica surge pelo decurso do tempo (segurança jurídica), mas também depende do aspecto subjetivo: a boa-fé do beneficiário do ato (proteção à confiança). Dessa forma, evita-se que a Administração, por meio do exercício da autotutela, anule atos administrativos após cinco anos contados da data em que foram realizados, excepcionando os casos de comprovada má- fé. Nesses casos, buscando estabilizar as relações jurídicas, flexibiliza-se o princípio da legalidade convalidando atos viciados. Com base nos postulados da segurança jurídica e da proteção à confiança, o STJ já firmou o entendimento de que é incabível a devolução de parcelas remuneratórias percebidas de boa-fé pelo agente público, mas que a decisão que fundamentou o pagamento venha a ser desfeita por se considerar que foi adotada em virtude de errônea ou inadequada interpretação da lei.32 Vale dizer: a administração tinha um entendimento sobre a matéria, mas depois mudou a sua interpretação – nesse caso, o agente público não terá que devolver aquilo que já percebeu, mas não continuará percebendo a vantagem daquele momento em diante. Em termos mais simples: o que passou, passou! Além disso, o princípio da segurança jurídica, no aspecto subjetivo (proteção à confiança), se aplica na preservação dos efeitos de um ato administrativo nulo, mas que tenha beneficiado terceiros de boa-fé. O exemplo clássico ocorre quando uma pessoa é aprovada em concurso público para o qual se exigia curso superior. Posteriormente, a pessoa é empossada e passa a expedir autorizações de anuência de entrada de produtos importados no Brasil. Contudo, alguns meses depois, constata-se que a pessoa não possuía o curso superior, fazendo com que sua nomeação seja anulada. Nesse caso, não faria sentido anular todas as 31 Carvalho Filho, 2017, p. 38. 32 RESp 1.244.182/PB, de 10/10/2012; o Tribunal de Contas da União possui entendimento semelhante, porém com exigência de erro escusável na interpretação de lei, conforme Súmula TCU 249: “É dispensada a reposição de importâncias indevidamente percebidas, de boa-fé, por servidores ativos e inativos, e pensionistas, em virtude de erro escusável de interpretação de lei por parte do órgão/entidade, ou por parte de autoridade legalmente investida em função de orientação e supervisão, à vista da presunção de legalidade do ato administrativo e do caráter alimentar das parcelas salariais”. Por fim, segue o mesmo sentido a Súmula Administrativa 34 da AGU: “Não estão sujeitos à repetição os valores recebidos de boa-fé pelo servidor público, em decorrência de errônea ou inadequada interpretação da lei por parte da Administração Pública”. Segurança Jurídica Objetivo Estabilidade das relações jurídicas Subjetivo Proteção à confiança - Relacionado à boa-fé do administrado perante a administração Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 46 85 anuências expedidas pelo agente público investido irregularmente, uma vez que o ato foi praticado com aparência de legalidade e as pessoas beneficiados sequer tinham ideia de que o agente não estava legalmente investido no cargo. Nessas situações, o princípio da segurança jurídica fundamenta a preservação dos efeitos do ato que tenham atingido os terceiros que agiram de boa-fé, ou seja, aqueles que agiram dentro da legalidade e que não faziam ideia da ilicitude presente na investidura do agente. Princípio da boa-fé A Prof. Maria Di Pietro diferencia os princípios da proteção à confiança do princípio da boa-fé. O princípio da boa-fé está presente nas relações entre o Estado e a sociedade há muito tempo e, mais recentemente, passou a ter diversas previsões na legislação. Como exemplo, a Lei 9.784/99 exige a “atuação segundo padrões éticos de probidade, decoro e boa-fé” (art. 2º, parágrafo único, IV). Com efeito, é dever do administrado “proceder com lealdade, urbanidade e boa-fé” (L9784, art. 4º, II). De forma objetiva a boa-fé significa agir de forma leal e honesta. Já de forma subjetiva representa a crença do sujeito de que está fazendo algo correto. Assim, se a pessoa tem ciência de que está cometendo algo ilegal, estará agindo de má-fé. Pois bem, mas qual é a diferença entre a proteção à confiança e a boa-fé? Eu diria que, na maioria dos casos, os significados são os mesmos (e assim devemos tratar em muitas questões de prova). Contudo, Maria Di Pietro explica uma diferença. A proteção à confiança protege a boa-fé do administrado, ou seja, representa a confiança que o cidadão deposita na atuação lícita do Estado. Exemplo: João acredita que a prefeitura emitiu a sua licença corretamente e, por isso, não poderá ser prejudicado. Logo, os atos antijurídicos podem ser preservados, quando o particular não deu causa à ilegalidade (exemplo: licença emitida por agente de fato). Por outro lado, a boa-fé está presente tanto do lado da administração como do lado do administrado, uma vez que os dois devem agir com lealdade, honestidade e correção. Vamos resolver mais algumas questão?! Proteção à confiança Protejea boa-fé do administrado Preserva atos antijurídicos, quando o administrado não deu causa à ilegalidade Boa-fé Presente nos dois lados: administração e administrado Ambos devem agir com lealdade e correção Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 47 85 (DPE TO/2022) No que tange à atividade administrativa, são aplicáveis tanto à administração pública quanto ao administrado os padrões firmados pelo princípio a) da publicidade. b) da legalidade. c) da boa-fé. d) da segurança jurídica. e) do interesse público. Comentário: a questão quer saber quais princípios devem ser observados tanto pela administração quanto pelos particulares. Vamos analisar cada alternativa: a) o princípio da publicidade é aplicável à administração, mas não aos particulares. A publicidade diz respeito à necessidade de publicação dos atos administrativos em órgãos oficiais e à exigência de transparência na atuação administrativa. No âmbito privado, as relações podem correr somente entre as partes interessadas, não necessariamente devendo ser divulgadas – ERRADA; b) o princípio da legalidade deve ser observado tanto no âmbito público quanto no privado, mas com significados distintos. Nas relações privadas, é permitido fazer tudo o que a lei não proíbe (autonomia da vontade); enquanto no âmbito público a administração somente pode fazer aquilo que estiver autorizado por lei (legalidade administrativa). Dessa forma, eles não possuem o mesmo sentido, motivo pelo qual o item é ERRADO; c) o princípio da boa-fé se relaciona com as ideias de probidade e de honestidade, que devem fundamentar as relações da administração e dos administrados. Se relaciona com o princípio da moralidade, que estabelece a observância dos preceitos éticos na atuação administrativa. Se um conjunto de particulares combinarem o resultado de uma licitação, agindo de má-fé, será possível anular o procedimento, ainda que nenhum agente público esteja envolvido. Logo, este princípio vale para a administração e para o administrado – CORRETA; d) o princípio da segurança jurídica deve ser observado pela administração, que deve assegurar a estabilidade das relações jurídicas já consolidadas das mudanças inevitáveis que ocorrem no Direito, na legislação e na jurisprudência – ERRADA; e) o princípio do interesse público aplica-se à Administração, que atua no interesse da coletividade. A supremacia do interesse público sobre o privado caracteriza uma prerrogativa administrativa, que coloca a Administração em posição de superioridade perante o administrado, aplicando-se somente nas relações em que o Poder Público atua em prol do interesse da coletividade – ERRADA. Gabarito: alternativa C. (STJ - 2018) Em decorrência do princípio da segurança jurídica, é proibido que nova interpretação de norma administrativa tenha efeitos retroativos, exceto quando isso se der para atender o interesse público. Comentários: Na verdade, o princípio da segurança jurídica veda a aplicação retroativa de nova interpretação. Isso não significa que ele vede a evolução da interpretação, uma vez que, no direito, é muito comum a mudança de entendimentos conforme os acontecimentos da sociedade. O que se veda é que essa nova interpretação volte no tempo. Por isso, o novo entendimento vale do momento em que ele for proferido em diante. Nessa linha, o item está incorreto, pois não se pode alegar o interesse público para voltar no tempo com a interpretação. Por exemplo: se a administração mudar o entendimento sobre o pagamento de um Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 48 85 benefício, “voltar no tempo” pode atender ao interesse público, pois isso representaria a devolução de dinheiro já pago. Contudo, isso fere o princípio da segurança jurídica (tanto no aspecto objetivo como subjetivo). Gabarito: errado. Princípio intranscendência subjetiva das sanções Apesar do nome “complicado”, a aplicação do princípio é bastante simples: a penalidade deverá atingir a pessoa que cometeu a irregularidade, não podendo prejudicar outras pessoas que não tiveram responsabilidade pelo fato. Assim, um administrador não pode ser prejudicado por ato de outro. Por exemplo: o ex-prefeito de um município não prestou contas sobre a utilização de recursos federais e, por isso, o município foi considerado inadimplente para receber recursos federais. Essa penalidade, porém, deverá ficar restrita ao mandato do prefeito inadimplente. Assim, quando o novo prefeito assumir, ele não poderá ser prejudicado pelo ato do prefeito anterior, especialmente quando estiver adotando as medidas para correção da falha da gestão anterior. Logo, a vedação para receber recursos federais não poderá ser aplicada no mandato do novo prefeito.33 Outro exemplo ocorre no descumprimento dos limites legais da Lei de Responsabilidade Fiscal. Imagine que o Ministério Público de um estado da Federação descumpriu o limite legal de despesa com pessoal (gastou mais do que poderia). Por conseguinte, a União aplica as sanções legais ao citado estado, proibindo o repasse de recursos para o governo (Poder Executivo). Porém, o governador não pode intervir no Ministério Público, ou seja, não pode corrigir a falha que o órgão com autonomia cometeu. Logo, não pode o governo sofrer a sanção por infração que não cometeu. Esse tema já foi objeto de decisão do STF, vejamos: I. A imposição de sanções ao Poder Executivo estadual em virtude de pendências de órgãos dotados de autonomia institucional e orgânico-administrativa, tais como o Ministério Público estadual, constitui violação do princípio da intranscendência, na medida em que o Governo do Estado não tem competência para intervir na esfera orgânica dessa instituição autônoma. II. O Poder Executivo não pode ser impedido de contratar operações de crédito em razão do descumprimento dos limites setoriais de despesa com pessoal por outros poderes e órgãos autônomos (art. 20, II, e 23, § 3º, da Lei de Responsabilidade Fiscal). III. Ação cível originária julgada procedente. (ACO 3072, Relator(a): RICARDO LEWANDOWSKI, Tribunal Pleno, julgado em 24/08/2020, PROCESSO ELETRÔNICO DJe-229 DIVULG 16-09-2020 PUBLIC 17-09-2020) 33 Sobre este tema, o STJ elaborou a seguinte súmula: Súmula 615 – Não pode ocorrer ou permanecer a inscrição do município em cadastros restritivos fundada em irregularidades na gestão anterior quando, na gestão sucessora, são tomadas as providências cabíveis à reparação dos danos eventualmente cometidos. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 49 85 Em resumo, um Poder não pode sofrer sanções por infrações cometidas por outro Poder ou por um órgão com autonomia (como o Ministério Público e o Tribunal de Contas). Outros princípios Princípio da hierarquia Trata de relação de coordenação e de subordinação presente na administração. Assim, como regra, o subordinado deve cumprir as ordens emanadas de seus superiores hierárquicos. Além disso, representam aplicação do poder hierárquico a possibilidade de rever os atos dos subordinados; delegar e avocar34 atribuições; punir os subordinados que cometam irregularidades, etc. Com efeito, esse é um princípio típico do exercício da função administrativa. Logo, não será um princípio presente no exercício das funções jurisdicional e legislativa. A Prof. Maria Di Pietro ressalva, no entanto, que com o advento das súmulas vinculantes também passou a existir uma relação de subordinação hierárquica dos órgãos do Poder Judiciário ao Supremo Tribunal Federal, uma vez que este poderá determinar que sejam emitidas novasdecisões das demais instâncias quando a decisão anterior contrariar o enunciado da súmula vinculante. Essa mesma relação de subordinação ocorre também em decisões proferidas nas ações diretas de inconstitucionalidade e nas ações declaratórias de constitucionalidade. Princípio da precaução Decorre da ideia de que é preciso evitar a ocorrência de catástrofes antes que elas ocorram, uma vez que muitos danos são de difícil reparação quando já consumados. Com isso, a Administração deve adotar conduta preventiva diante da possibilidade de danos ao ambiente ou ao próprio interesse público. Uma consequência desse princípio é a inversão do ônus da prova diante de projetos que possam causar riscos à coletividade. Caberá ao interessado provar que o seu projeto é seguro para a coletividade, devendo a Administração sempre avaliar a existência ou não de reais condições de segurança. Princípio da presunção de legitimidade ou de veracidade A presunção de legitimidade significa que o ato foi praticado conforme a lei, ao passo que a presunção de veracidade significa que os fatos alegados para praticar um ato são verdadeiros. Por exemplo: quando um guarda aplica uma multa porque um motorista usava o celular enquanto dirigia, presume-se que a multa foi licitamente aplicada (presunção de legitimidade) e que o fato alegado realmente aconteceu, ou seja, que a pessoa realmente usava o celular (presunção de veracidade). Eles são analisados como se fossem um único princípio, que, às vezes, é também chamado de presunção de legalidade. A consequência desse princípio é que os atos administrativos serão de execução imediata, ainda que o particular afetado não concorde com o conteúdo do ato ou venha até mesmo a questionar a sua legalidade. Assim, enquanto não for declarada a nulidade, o ato estará apto a produzir os seus efeitos. 34 Delegar é passar a parcela do exercício de uma competência para terceiros; por outro lado, avocar é atrair para si uma competência que originariamente seria de seu subordinado. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 50 85 Essa presunção, no entanto, é relativa (juris tantum), pois admite prova em contrário, mas ocorre a inversão do ônus da prova, ou seja, o particular que terá que provar a ilegalidade do ato administrativo. Princípio da sindicabilidade O princípio da sindicabilidade significa que todo ato administrativo pode se submeter a algum tipo de controle. O termo “sindicável” significa que algo é controlável. Portanto, por este princípio, todos os atos da Administração Pública são passíveis de controle. Tal princípio engloba tanto a autotutela como o controle judicial. Vale lembrar que, no Brasil, vigora o princípio da inafastabilidade da tutela jurisdicional (CF, art. 5º, XXXV), de tal forma que toda lesão ou ameaça de direito poderá ser controlada pelo Poder Judiciário. Além disso, a sindicabilidade também abrange a autotutela, pois a própria Administração pode exercer controle sobre os seus próprios atos, anulando os ilegais e revogando os inconvenientes e inoportunos. Princípio da responsividade O administrador deverá prestar contas e poderá ser responsabilizado pelas suas condutas. Dessa forma, esse princípio é diretamente ligado ao princípio da indisponibilidade (o agente não é “dono” da coisa pública e por isso deverá prestar contas da utilização de recursos públicos. Além disso, caso cometa irregularidades, o agente poderá ser responsabilizado, sofrendo as sanções previstas em lei e tendo o dever de ressarcir o dano causado. Princípio da subsidiariedade Significa que a participação do Estado na vida da sociedade deverá ser limitada, atentando-se a: (i) exercer as suas funções próprias (também chamadas de exclusivas), como a segurança, justiça, defesa, regulação, etc.; (ii) atuar de forma supletiva em relação às questões sociais e econômicas. Logo, o Estado somente deveria fazer aquelas funções que só o Estado faz (como segurança pública e justiça) e, nas demais áreas, a atuação estatal seria limitada ao efetivamente necessário. A aplicação desse princípio é bastante controversa, por algumas razões: (i) há correntes que defendem uma maior atuação e participação estatal; (ii) é difícil separar objetivamente quais questões são exclusivas e relevantes ao ponto de exigirem a participação do Estado e, por consequência lógica, dispensarem a participação em outras questões. Princípio da consensualidade Em razão do princípio da supremacia do interesse público, a Administração atua em posição privilegiada na relação com os particulares. Dessa forma, o poder público por impor a sua vontade por meio da imperatividade e do poder extroverso dos seus atos. Contudo, os modelos mais modernos de Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 51 85 Administração reconhecem a importância da participação popular. A democratização tende a diminuir o autoritarismo estatal, substituindo decisões unilaterais pelo consenso. Dessa forma, o princípio da consensualidade significa que a Administração deve adotar, quando possível, medidas cada vez mais participativas, substituindo as práticas coercitivas (autoritárias, impositivas) por mecanismos consensuais. Dessa forma, reduz-se a unilateralidade (determinação) pelo consenso entre Administração e cidadão. Tal procedimento é, por vezes, conhecido como “administração consensual ou negociada”. Segundo Cyonil Borges e Adriel Sá, podemos citar como exemplos de aplicação da consensualidade no direito administrativo:35 (i) termo de ajustamento de conduta; (ii) contratos de gestão; (iii) consórcios públicos; (iv) parcerias público-privadas; (v) audiências e consultas públicas; (vi) meios alternativos de resolução de conflitos, como conciliação, mediação e arbitragem; (vii) colaboração do Estado com pessoas não estatais sem fins lucrativos (entidades paraestatais). Vamos citar um exemplo rápido. Imagine que a prefeitura pretende construir ciclovias em determinada região. Entretanto, os comerciantes serão prejudicados com a extinção dos estacionamentos ao lado da rodovia. No caso, poderia a prefeitura organizar uma audiência pública para tratar o assunto com a sociedade, especialmente com os comerciantes e ciclistas. Assim, o consenso tornaria a decisão mais participativa, legítima e democrática. 35 Borges e Sá; 2019. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 52 85 QUESTÕES PARA FIXAÇÃO 1. (Cesgranrio – Transpetro/2023) Determinado cidadão foi eliminado de concurso público, na investigação social, por ter cometido ilícito sete anos antes do certame. No recurso contra sua eliminação, aduziu que, além do tempo decorrido, passou a exercer outro cargo público, onde permanece, com elogios a sua atuação. Nos termos dos princípios aplicáveis à administração pública, o ato que eliminou o cidadão do concurso ofende a a) veracidade b) necessidade c) validade d) publicidade e) proporcionalidade Comentário: a) como o caso realmente ocorreu, não podemos dizer que houve ofensa à veracidade – ERRADA; b) a necessidade é citada como um subprincípio da proporcionalidade, significando que, na imposição de restrições, não deve existir outro meio menos gravoso ou oneroso para alcançar o fim público – ERRADA; c) em tese, não existe o princípio da validade – ERRADA; d) a publicidade realmente é um princípio, que se relaciona com tornar os atos da administração públicos e de conhecimento dos administrados. Mas não há relação com esse princípio no caso narrado pelo enunciado – ERRADA; e) podemos defendersim a ofensa à proporcionalidade nessa questão, pois não é proporcional penalizar o cidadão por um fato ocorrido há tanto tempo, sendo que ele inclusive já exerce um cargo público de forma idônea e reconhecida. Assim, realmente a eliminação nesse caso se mostra desproporcional. Vale lembrar que, na proporcionalidade, o ato deve ter adequação, ou seja, deve servir para alcançar o fim desejado. Na verdade, se o servidor já desempenha muito bem as funções em outro cargo, a sua eliminação no concurso não atende ao fim público (não tem adequação), logo será desproporcional – CORRETA. Também houve ofensa ao princípio da segurança jurídica, considerando que o fato já ocorreu há muito tempo. Gabarito: alternativa E. 2. (Cesgranrio – Transpetro/2023) O prefeito de um município verificou que tinha sido deferida licença sem esteio legal para prática de ato de competência municipal. Após ser cientificado do ocorrido, editou portaria declarando nulo o deferimento e cancelando a licença. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 53 85 Nos termos dos princípios aplicáveis à administração pública, a portaria municipal realiza o princípio da a) preponderância b) razoabilidade c) comunidade d) autotutela e) iniciativa Comentário: no caso do enunciado, a própria administração reviu o ato praticado e declarou sua nulidade. No caso, temos uma típica aplicação do princípio da autotutela, que dispõe que a Administração Pública possui o poder de controlar os seus próprios atos, anulando-os quando ilegais ou revogando-os quando inconvenientes ou inoportunos. Assim, a Administração não precisa recorrer ao Poder Judiciário para corrigir os seus atos, podendo fazê-lo diretamente, exatamente como ocorreu no caso do enunciado. Portanto, o gabarito está na alternativa D. Gabarito: alternativa D. 3. (Cesgranrio – Transpetro/2023) Um administrador de empresas exerce cargo comissionado em determinado órgão público que está assoberbado de requerimentos com pleitos diversos. Com o intuito de resolver o problema, cria sistema de metas, com prêmios de produtividade, buscando respaldo em autorização normativa recentemente aprovada. No caso em tela, está sendo realizado o princípio, aplicável à administração pública, da a) moralidade b) publicidade c) eficiência d) organização e) solidariedade Comentário: a) o princípio da moralidade impõe que o administrador público não dispense os preceitos éticos que devem estar presentes em sua conduta – ERRADA; b) a publicidade se relaciona com a exigência de publicação em órgãos oficiais como requisito de eficácia; e com a exigência de transparência da atuação administrativa – ERRADA; c) a eficiência diz respeito a uma atuação da administração pública com excelência, fornecendo serviços públicos de qualidade à população, com o menor custo possível (desde que mantidos os padrões de qualidade) e no menor tempo, ou seja, incentivando a produtividade, exatamente como no caso narrado pela questão – CORRETA; d e e) organização e solidariedade não são princípios da administração pública – ERRADAS. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 54 85 Gabarito: alternativa C. 4. (Cesgranrio – Transpetro/2018) A logística inbound de uma empresa é o setor da logística que, entre outras atividades, realiza a compra de materiais, sempre buscando o menor custo e as melhores condições para a empresa. A administração pública também busca realizar as suas compras com o intuito de garantir, entre outros quesitos, o menor custo, respeitando-se os princípios presentes na Constituição Federal de 1988. Um desses princípios, que une qualidade, celeridade e menor custo na prestação do serviço ou no trato com os bens públicos, é o princípio da a) razoabilidade b) economicidade c) impessoalidade d) moralidade e) publicidade. Comentário: a) a razoabilidade impõe que, ao atuar dentro da discrição administrativa, o agente público deve obedecer a critérios aceitáveis do ponto de vista racional, em sintonia com o senso normal de pessoas equilibradas. Em resumo, não as sanções e limitações aplicadas pelo Estado não podem ser exageradas – ERRADA; b) o princípio da economicidade visa a minimização de custos, sem comprometer a qualidade, justamente como explicado no enunciado – CORRETA; c) pelo princípio da impessoalidade, todo ato da Administração deve ser praticado visando à satisfação do interesse público (sentido amplo) e da finalidade para ele especificamente prevista em lei (sentido estrito) – ERRADA; d) o princípio da moralidade impõe que o administrador público atue de forma ética e honesta – ERRADA; e) o princípio da publicidade se relaciona com a exigência de publicação em órgãos oficiais como requisito de eficácia; e com a exigência de transparência da atuação administrativa – ERRADA. Gabarito: alternativa B. 5. (Cesgranrio – Petrobrás/2018) São princípios constitucionais que regem a administração pública, EXCETO a) Legalidade b) Impessoalidade c) Moralidade d) Marketing Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 55 85 e) Publicidade. Comentário: os cinco princípios expressamente previstos no art. 37, caput, da Constituição Federal de 1988 são: legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência. “Marketing” não é um princípio constitucional da administração pública, portanto. Gabarito: alternativa D. 6. (Cesgranrio – FINEP/2014) Os serviços públicos estão submetidos a alguns princípios gerais comuns de funcionamento que lhes impõem uma ética do interesse geral, diferenciando-os das atividades privadas lucrativas. O princípio que obriga os gestores do serviço a não fazer discriminação ou favoritismo em função das opiniões políticas, opções filosóficas ou convicções religiosas dos usuários do serviço ou de seus agentes é denominado: a) neutralidade e impessoalidade b) continuidade do serviço e eficiência c) moralidade e probidade d) mutabilidade ou adaptabilidade e economicidade e) legalidade e publicidade. Comentário: a) não é comum estudar o “princípio da neutralidade”, mas só pelo nome podemos dizer que tal princípio impõe uma função pública focada no interesse público, independente dos assuntos do governo determinados pela mutação dos partidos políticos no poder. Ao lado do princípio da imparcialidade e da impessoalidade, veda o tratamento desigual dos cidadãos por parte dos agentes públicos e impõe a igualdade de tratamento dos direitos e interesses dos cidadãos por meio de uma uniformidade de ponderação dos interesses públicos – CORRETA; b) pelo princípio da continuidade, os serviços públicos devem ser prestados de maneira contínua, ou seja, sem parar; já pelo princípio da eficiência, espera-se a melhor atuação possível da administração, a fim de obter os melhores resultados – ERRADA; c) o princípio da moralidade e da probidade impõe um dever de atuação ética, segundo o qual o agente público deve ter um comportamento ético e honesto perante o administrado – ERRADA; d) o princípio da mutabilidade ou adaptabilidade permite alterações na execução dos serviços públicos com o objetivo de adaptá-lo ao interesse público, às possibilidades financeiras da Administração e às necessidades dos administrados. Por exemplo: a delegação do serviço de manutenção de rodovias pode sofrer mudanças, conforme alterações no fluxo de veículos na região, buscando melhor atender ao interesse da sociedade. Já o da economicidade se refere à minimização de custos, sem comprometer a qualidade do serviço prestado– ERRADA; Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 56 85 e) o princípio da legalidade dispõe que a função administrativa se subordina às previsões legais e, portanto, o agente público só poderá atuar quando a lei determinar (vinculação) ou autorizar (discricionariedade). Ou seja, a atuação administrativa obedece a vontade legal. Já a publicidade se relaciona com a exigência de publicação em órgãos oficiais como requisito de eficácia, além de exigir a transparência da atuação administrativa – ERRADA. Gabarito: alternativa A. 7. (Cesgranrio – EPE/2014) Em um determinado município, por falta de consenso nas discussões políticas, o Poder Legislativo municipal encerrou a segunda parte da sessão sem aprovar a proposta orçamentária para o exercício subsequente. Em decorrência da necessidade de execução de serviços e obras imprescindíveis à manutenção das atividades do município, o prefeito decidiu dar início à execução dos programas previstos na proposta orçamentária enviada ao Poder Legislativo. A situação acima descrita fere um princípio da administração pública, que é o da a) moralidade b) publicidade c) transparência d) legalidade e) eficiência. Comentário: o foco da questão foi a falta de aprovação da proposta orçamentária, que deveria ocorrer através de uma lei. Contudo, essa lei não foi aprovada, já que a sessão terminou sem a aprovação da proposta. Ao decidir iniciar a execução dos serviços mesmo sem ter a aprovação do orçamento, o prefeito violou o princípio da legalidade, portanto. Até poderíamos defender que os demais princípios citados também foram violados, mas não constituem o foco central da questão. Sempre pense assim: uma mesma conduta pode violar vários princípios, mas você deve escolher aquele que envolve o cerne da questão. Por isso, nosso gabarito está na alternativa D. Gabarito: alternativa D. 8. (Cesgranrio – EPE/2014) Quando a lei estabelece que as informações dos órgãos públicos devem estar disponíveis a todos mediante acesso facilitado, atende-se ao primado do princípio aplicável à Administração Pública que consiste na a) proporcionalidade b) impessoalidade c) publicidade d) razoabilidade e) finalidade. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 57 85 Comentário: a) o princípio da proporcionalidade exige o equilíbrio entre os meios que a Administração utiliza e os fins que ela deseja alcançar, segundo os padrões comuns da sociedade, analisando cada caso concreto – ERRADA; b) o princípio da impessoalidade se relaciona com a igualdade de tratamento que a administração deve dispensar aos administrados que estejam na mesma situação jurídica, exigindo uma atuação impessoal e genérica, com vistas ao atendimento do interesse coletivo – ERRADA; c) o princípio da publicidade é justamente o que exige um atuar com maior transparência possível, para que a população tenha conhecimento de todos os seus atos – CORRETA; d) com base no princípio da razoabilidade, o agente público deve obedecer a critérios aceitáveis do ponto de vista racional, em sintonia com o senso normal de pessoas equilibradas. Exigem da administração pública a aplicação de limites e sanções dentro dos limites estritamente necessários para satisfazer o interesse público – ERRADA; e) o princípio da finalidade, em sentido amplo, é sinônimo de interesse público, uma vez que todo e qualquer ato da administração deve ser praticado visando à satisfação do interesse público. Por outro lado, em sentido estrito, o ato administrativo deve satisfazer a finalidade específica prevista em lei – ERRADA. Gabarito: alternativa C. 9. (Cesgranrio – BNDES/2013) Um agente público, fiscalizando determinado estabelecimento, verifica que alguns alimentos estão em situação irregular. Além disso, as condições de higiene não são adequadas ao desempenho normal da empresa, apresentando, assim, sérios riscos à saúde dos clientes e à dos vizinhos. Por esses motivos, o agente determina a interdição do local até que as irregularidades sejam sanadas, condicionando a reabertura à vistoria oficial dos agentes públicos competentes. Nesse caso, existe a aplicação do princípio que rege a Administração Pública, denominado a) publicidade b) moralidade c) impessoalidade d) autotutela e) capacidade. Comentário: a publicidade se relaciona com a divulgação dos atos praticados pela administração; a moralidade, com o dever de probidade no trato das coisas públicas; a impessoalidade tem relação com a igualdade de tratamento a ser dispensada pela administração aos administrados, vedando favoritismos infundados. Por fim, a capacidade não é um princípio administrativo, pelo menos não é abordado assim pela doutrina clássica. Resta-nos, então, o princípio da autotutela, que estabelece que a Administração Pública possui o poder de controlar os seus próprios atos, anulando-os quando ilegais ou revogando-os quando inconvenientes ou inoportunos. Assim, a Administração não precisa recorrer ao Poder Judiciário para corrigir os seus atos, Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 58 85 podendo fazê-lo diretamente, assim como ocorreu no caso do enunciado, em que o próprio agente determinou a interdição do local, sem necessidade de autorização judicial prévia. De forma mais tradicional, relacionamos o princípio da autotutela à anulação e à revogação, mas ele envolve a revisão dos atos em geral. No caso da questão, a interdição está suspendendo temporariamente o licenciamento. Trata-se, assim, de uma forma de revisão dos atos administrativos. Gabarito: alternativa D. 10. (Cesgranrio – CMB/2012) Com relação aos princípios básicos da gestão pública, o Princípio da Eficiência está a) vinculado à noção de administração burocrática. b) vinculado à redução de autonomia dos entes administrativos. c) relacionado à diminuição da aferição do atingimento dos resultados. d) relacionado ao princípio da economicidade. e) relacionado ao aumento do controle das atividades meio. Comentário: a eficiência diz respeito a uma atuação da administração pública com excelência, fornecendo serviços públicos de qualidade à população, com o menor custo possível (desde que mantidos os padrões de qualidade) e no menor tempo. Com efeito, o princípio da eficiência ganhou ênfase na reforma gerencial, que buscou substituir o modelo de administração burocrática até então prevalecente. Logo, a letra A está errada. Uma das ideias do princípio da eficiência se relaciona à forma de organização da máquina pública, que deve buscar um modelo focado em resultados, aumentando a autonomia das entidades administrativas, com diminuição do controle de processos (controle de atividades meio) e foco no controle de desempenho. Logo, as letras B, C e E também estão erradas. Assim, podemos dizer que o princípio da eficiência se relaciona com a ideia de economicidade, que visa a minimização de custos, sem comprometer a qualidade, conforme alternativa D. Gabarito: alternativa D. 11. (Cesgranrio – FINEP/2011) A Constituição Federal expressa princípios básicos que condicionam a atuação da Administração Pública Direta e Indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios. Dentre os postulados fundamentais explícitos no texto constitucional, tem-se o princípio da a) publicidade que exige a ampla divulgação dos atos da Administração, ressalvadas as hipóteses previstas em lei. b) proporcionalidade que determina a adequada proporção entre os meios de que se utiliza a Administração e os fins que elapretende alcançar. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 59 85 c) autotutela que determina que a Administração exerça controle sobre seus próprios atos, com a possibilidade de anular os ilegais e revogar os inconvenientes ou inoportunos. d) motivação que estabelece que a Administração indique os fundamentos de fato e de direito de suas decisões. e) hierarquia que estabelece que os órgãos da Administração sejam estruturados de forma a ser criada uma relação de coordenação e subordinação entre uns e outros, na forma da lei. Comentário: os princípios constitucionais administrativos explícitos são os que constam do art. 37, caput, da CF/88: Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência e, também, ao seguinte [...]. Então, das alternativas citadas, apenas o princípio da publicidade se relaciona com o enunciado. Destaque-se que as alternativas citam princípios administrativos e traz suas definições corretamente, mas esses não são considerados princípios administrativos expressos na Constituição (são princípios implícitos). Gabarito: alternativa A. 12. (Cesgranrio – DETRAN AC/2009) Suponha que o Departamento de Trânsito do Estado do Acre (DETRAN/AC) pretenda rever atos administrativos praticados há mais de quinze anos. Considerando que tais atos administrativos vêm produzindo, desde então, efeitos jurídicos favoráveis aos seus destinatários, qual princípio poderia ser invocado para impedir tal postura administrativa? a) Segurança jurídica. b) Motivação. c) Sanatória dos atos administrativos. d) Irrevogabilidade dos atos administrativos. e) Inafastabilidade do controle jurisdicional. Comentário: a) o princípio da segurança jurídica tem por objetivo assegurar a estabilidade das relações jurídicas já consolidadas. Nesse sentido, nos termos do art. 54 da Lei 9.784/1999, o “direito da Administração de anular os atos administrativos de que decorram efeitos favoráveis para os destinatários decai em cinco anos, contados da data em que foram praticados, salvo comprovada má-fé”. Dessa forma, a Administração não poderia rever esses atos praticados há mais de quinze anos – CORRETA; b) o princípio da motivação determina que os agentes públicos, ao decidirem, apresentem os fundamentos de fato e de direito que os levaram a tal posicionamento – ERRADA; c) a sanatória se relaciona com o controle dos atos administrativos e a possibilidade de convalidação de atos viciados – ERRADA; Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 60 85 ==2537cb== d) os atos administrativos podem ser revogados por motivos de conveniência ou oportunidade – ERRADA; e) o controle jurisdicional realmente é inafastável, mas tal previsão não se relaciona com o que foi pedido no enunciado. Na verdade, se houvesse o desfazimento do ato, o interessado eventualmente prejudicado poderia buscar a revisão da anulação na via judicial. Logo, não haveria ofensa ao princípio da inafastabilidade do controle jurisdicional – ERRADA. Gabarito: alternativa A. 13. (Cesgranrio – DETRAN AC/2009) Analise as assertivas abaixo, considerando os princípios da Administração Pública. I – O princípio da razoável duração do processo, inserido na Constituição da República pela Emenda nº 45/04 (Reforma do Judiciário), não se aplica aos processos administrativos. II – O princípio da segurança jurídica é violado quando da aplicação retroativa de nova interpretação jurídica conferida pela Administração Pública a um mesmo dispositivo legal. III – O princípio da legalidade administrativa confere aos agentes da Administração Pública a plena liberdade de atuação, excetuando-se, apenas, as condutas expressamente vedadas por lei. É(São) correta(s) APENAS a(s) afirmativa(s) a) III. b) II. c) I e III. d) I e II. e) I. Comentário: I – A CF dispõe que “a todos, no âmbito judicial e administrativo, são assegurados a razoável duração do processo e os meios que garantam a celeridade de sua tramitação” (art. 5º, LXXVIII). Logo, o princípio da razoável duração do processo também se aplica aos processos administrativos – ERRADA; II – a interpretação da norma administrativa deve ocorrer da forma que melhor garanta o atendimento do fim público a que se dirige, vedada aplicação retroativa de nova interpretação. Esse dispositivo visa a evitar que esse entendimento seja aplicado de forma retroativa, alterando as decisões já tomadas. Assim, a nova interpretação deverá ser aplicada somente aos casos futuros – CORRETA; III – a legalidade administrativa não dá plena liberdade ao administrador, ao contrário, determina que a atuação estatal deve ocorrer somente nos termos da lei. Então, não se refere apenas a condutas vedadas, mas à prática do que está autorizado pela lei. Na verdade, a questão descreveu o princípio da autonomia da vontade, que se aplica aos particulares – ERRADA. Assim, apenas o item II está correto. Gabarito: alternativa B. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 61 85 14. (Cesgranrio – Liquigás/2018) É considerado um princípio geral do direito administrativo, o princípio da a) isonomia. b) dualidade. c) probabilidade. d) unitariedade. e) finalidade. Comentário: Dualidade, probabilidade e unitariedade não são princípios administrativo. Logo, as letras B, C e D estão erradas. O princípio da isonomia se relaciona com a ideia de que a Administração deve atender a todos os administrados sem discriminações, sem favorecer pessoas ou se utilizar de perseguições indevidas. Somente quando fundamentado em lei e no interesse público será possível tratar as pessoas de forma distinta (igualdade material), como nas cotas em concursos. Esse é considerado um princípio geral do direito administrativo, pois todo ato deve buscar a isonomia. O princípio da finalidade, por outro lado, é sinônimo de interesse público, uma vez que todo e qualquer ato da administração deve ser praticado visando à satisfação do interesse público. Por outro lado, em sentido estrito, o ato administrativo deve satisfazer a finalidade específica prevista em lei. Tanto a isonomia como a finalidade representam aplicações do princípio constitucional da impessoalidade. Mas professor, qual o erro da letra E? Como a finalidade pode ser geral (interesse público) ou específica (fim de cada ato), nem sempre o princípio da finalidade terá um sentido geral. Por exemplo: os atos de remoção e de suspensão têm o objetivo de preservar o interesse público (finalidade geral). Porém, a finalidade específica de cada um é diferente. O ato de remoção tem o objetivo de recompor a quantidade de servidores em cada unidade, enquanto a suspensão tem o fim de punir servidores e manter a disciplina na Administração. Gabarito: alternativa A. 15. (Cesgranrio – Transpetro/2018) No âmbito do princípio da legalidade atuam a supremacia da lei e a reserva de lei. No que concerne à reserva de lei, a doutrina assente estabelece uma relação com a denominada a) atuação negativa. b) vinculação positiva. c) juridicidade atual. d) mecânica limitativa. e) inclusão das lacunas. Comentário: o princípio da legalidade decorre diretamente do art. 37, caput, da CF/88, impondo a atuação administrativa somente quando houver previsão legal. Portanto, a Administração só poderá agir quando houver previsão legal (lei em sentido amplo, abrangendo qualquer tipo de norma, desde a ConstituiçãoEquipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 62 85 Federal até os atos administrativos normativos). Por esse motivo, ele costuma ser chamado de princípio da estrita legalidade. Por outro lado, a reserva legal significa que determinadas matérias devem ser regulamentadas necessariamente por lei formal (lei em sentido estrito – leis ordinárias e complementares). Nesse sentido, a reserva de lei, para a Administração, relaciona-se com o sentido positivo de legalidade, pois cria hipóteses de atuação (amplia as competências do poder público). Dessa forma, nosso gabarito está na alternativa B. Para o particular, por outro lado, a legalidade é vista como autonomia da vontade, possuindo um aspecto negativo (restringe o campo de atuação, proibindo condutas). Juridicidade atual, mecânica limitativa e inclusão das lacunas não se relacionam com o tema legalidade x reserva legal, de forma que poderiam ser logo desconsideradas as alternativas C, D e E. Gabarito: alternativa B. 16. (Cesgranrio – IBGE/2016) A supervisão do almoxarifado de uma organização pública vem controlando os níveis de estoque, de forma a provocar a redução do volume de compras e a provocar o aumento nas quantidades de pedidos. Ou seja, o setor tem gerenciado o tamanho dos lotes e o intervalo de tempo dos pedidos, por considerar que lotes pequenos significam uma redução do nível de estoque, um acréscimo no número de pedidos e uma redução no intervalo de tempo existente entre dois pedidos. Essa nova forma de gestão do setor está relacionada a uma supervisão que busque no controle a garantia de a) lucratividade b) economicidade c) isonomia d) legalidade e) moralidade Comentário: Pelo que foi descrito no enunciado, a atitude da Administração, podemos concluir que a atitude dos servidores visa dar maior economicidade à atuação estatal. Nesse sentido, a CF/88, em seu artigo 70, ao determinar competência ao Congresso Nacional para proceder à fiscalização contábil, financeira, orçamentária, operacional e patrimonial da União e das entidades da administração direta e indireta, inclui, ao lado da legalidade e da legitimidade, o critério de economicidade, entendido neste conceito o procedimento que visa alcançar as finalidades estabelecidas pela Administração Pública através do menor custo econômico possível. Portanto, a alternativa B é o nosso gabarito. Vamos analisar as demais alternativas e ver por que elas não se relacionam com o enunciado: A lucratividade, como princípio jurídico, se reveste de dois aspectos, segundo Fernando Scaff: um “direito” à busca de lucros, e o segundo, o “dever” de não ter lucros abusivos, em observância dos princípios constitucionais. Assim, visa impedir o exercício abusivo do direito de lucrar, bem como de "garantir" o direito Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 63 85 à busca de um mínimo de lucro em face de ações omissivas ou comissivas do Estado que venham a impedir este exercício. Segundo o princípio da igualdade ou isonomia, a Administração deve atender a todos os administrados sem discriminações. Não se pode favorecer pessoas ou se utilizar de perseguições indevidas. Isso quer dizer que todos são iguais perante a lei (art. 5º, caput), sendo que eventuais tratamentos diferenciados só podem ocorrer quando houver previsão legal. O princípio da legalidade impõe a atuação administrativa nos termos da lei e constitui uma das garantias principais de respeito aos direitos individuais. Isso ocorre porque a lei, ao mesmo tempo em que os define, estabelece também os limites de atuação administrativa que tenha por objeto a restrição ao exercício de tais direitos em benefício da coletividade. Por fim, o princípio da moralidade impõe que o administrador público não dispense os preceitos éticos que devem estar presentes em sua conduta. Gabarito: alternativa B. 17. (Cesgranrio – CEFET RJ/2014) O prefeito de um município apresenta projeto de lei para autorizar, no âmbito de sua competência, a contratação de parentes dos membros do Executivo, do Legislativo e do Judiciário que atuam no local. Nos termos da Constituição Federal, tal norma violaria o princípio da a) democracia b) moralidade c) segurança d) necessidade e) compatibilidade Comentário: Existe em nosso ordenamento a vedação ao nepotismo, que proíbe a indicação de parentes para exercer cargos públicos, nos termos da súmula vinculante nº 13 do STF: “A nomeação de cônjuge, companheiro ou parente em linha reta, colateral ou por afinidade, até o terceiro grau, inclusive, da autoridade nomeante ou de servidor da mesma pessoa jurídica investido em cargo de direção, chefia ou assessoramento, para o exercício de cargo em comissão ou de confiança ou, ainda, de função gratificada na administração pública direta e indireta em qualquer dos Poderes da União, dos estados, do Distrito Federal e dos municípios, compreendido o ajuste mediante designações recíprocas, viola a Constituição Federal”. Nesse sentido, a conduta descrita no enunciado viola o princípio da moralidade, previsto no caput do art. 37 da CF/88. Gabarito: alternativa B. 18. (Cesgranrio – EPE/2014) Ao se estabelecer que o Estado deve perseguir o interesse público em detrimento do interesse privado, busca-se realizar, primacialmente, o princípio da: a) finalidade b) continuidade Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 64 85 c) legalidade d) impessoalidade e) indisponibilidade Comentário: O princípio da finalidade constitui uma das vertentes do princípio da impessoalidade, e diz respeito ao fato de que todo ato da Administração deve ser praticado visando à satisfação do interesse público (sentido amplo) e da finalidade para ele especificamente prevista em lei (sentido estrito). Se não for assim, o ato será inválido. Gabarito: alternativa A. 19. (Cesgranrio – IBGE/2013) A Emenda Constitucional no 45/2004, denominada Reforma do Judiciário, acrescentou o inciso LXXVIII ao art. 5º da Constituição Federal em vigor, o qual estabelece que “a todos, no âmbito judicial e administrativo, são assegurados razoável duração de processo e os meios que garantam a celeridade de sua tramitação”. Tal mandamento, que alcança o modo pelo qual se processa a atividade estatal, tem por conteúdo o princípio da a) publicidade b) eficácia c) efetividade d) eficiência e) impessoalidade Comentário: O princípio da eficiência (alternativa D) diz respeito a uma atuação da administração pública com excelência, fornecendo serviços públicos de qualidade à população, com o menor custo possível (desde que mantidos os padrões de qualidade) e no menor tempo. Assim, dos princípios apresentados, é o que mais se aproxima do comando do enunciado. Gabarito: alternativa D. 20. (Cesgranrio – BNDES/2013) Recorre-se ao princípio da proporcionalidade para aferir a legitimidade de um ato do poder público que restringe um direito fundamental visando a alcançar um fim que também tem base constitucional. O princípio da proporcionalidade impõe o exame do ato quanto a a) adequação e necessidade b) unidade e excesso c) impessoalidade e moralidade d) razoabilidade e eficiência e) legalidade e efetividade Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 65 85 Comentário: O princípio da proporcionalidade exige o equilíbrio entre os meios que a Administração utiliza e os fins que ela deseja alcançar, segundo os padrões comunsda sociedade, analisando cada caso concreto. Considera, portanto, que as competências administrativas só podem ser exercidas validamente na extensão e intensidade do que seja realmente necessário para alcançar a finalidade de interesse público ao qual se destina. Assim, a observância da adequação e da necessidade visa um equilíbrio entre os fins e os meios do que é realizado pela Administração. Gabarito: alternativa A. 21. (Cesgranrio – Caixa/2012) Creso, servidor do órgão W, vinculado a determinado estado federado, foi surpreendido com recomendação verbal de que deveria atender, em horário especial fora do expediente, a pessoas vinculadas a determinada associação e que os problemas dessa associação deveriam ter preferência sobre os demais que estivessem sob sua responsabilidade. Sob a ótica dos princípios constitucionais da Administração Pública, tal prática, fere, predominantemente, o princípio da a) publicidade b) impessoalidade c) eficiência d) indisponibilidade e) continuidade Comentário: O princípio da impessoalidade divide-se em quatro vertentes: ▪ finalidade: todo ato da Administração deve ser praticado visando à satisfação do interesse público (sentido amplo) e da finalidade para ele especificamente prevista em lei (sentido estrito). Se não for assim, o ato será inválido; ▪ igualdade ou isonomia: a Administração deve atender a todos os administrados sem discriminações. Não se pode favorecer pessoas ou se utilizar de perseguições indevidas. Isso quer dizer que todos são iguais perante a lei (art. 5º, caput), sendo que eventuais tratamentos diferenciados só podem ocorrer quando houver previsão legal; ▪ vedação da promoção pessoal: os agentes públicos atuam em nome do Estado. Dessa forma, não poderá ocorrer a pessoalização ou promoção pessoal do agente público pelos atos realizados; e ▪ impedimento e suspeição: esses institutos possuem o objetivo de afastar de processos administrativos ou judiciais as pessoas que não possuem condições de aplicar a lei de forma imparcial, em função de parentesco, amizade ou inimizade com pessoas que participam do processo. Sendo assim, pelo princípio da impessoalidade (isonomia) qualquer atividade de gestão pública deve ser dirigida a todos os cidadãos, sem determinação de pessoa ou discriminação de qualquer natureza, motivo pelo qual a atitude descrita no enunciado fere esse princípio. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 66 85 Gabarito: alternativa B. 22. (Cesgranrio – BNDES/2011) Qual princípio da Administração Pública justifica o estabelecimento de prazo decadencial para o exercício da autotutela administrativa nas hipóteses em que o destinatário do ato ilegal esteja de boa-fé? a) Proporcionalidade b) Segurança jurídica c) Eficiência administrativa d) Instrumentalidade processual e) Devido processo legal Comentário: Segundo Di Pietro, o princípio da segurança jurídica está na base das normas sobre prescrição e decadência. Os posicionamentos da administração podem mudar no decorrer do tempo, devendo-se assegurar que as situações já consolidadas sejam mantidas. Nesse sentido, a prescrição e a decadência constituem formas de assegurar essas situações, dando segurança aos administrados. Gabarito: alternativa B. 23. (Cesgranrio – BACEN/2010) Após consulta formulada pelo Governador, o órgão central do sistema jurídico de um Estado-membro da Federação exarou parecer revendo a interpretação anteriormente conferida a determinada norma administrativa, aplicando-a retroativamente de forma a cassar direitos que já haviam sido reconhecidos a diversos interessados. Essa postura da Administração Pública agride o princípio básico da a) instrumentalidade das formas. b) motivação. c) lealdade processual. d) segurança jurídica. e) publicidade. Comentário: Em matéria de interpretação da norma jurídica, é essencial que a Administração possua meios de garantir que novas interpretações não prejudiquem situações já reconhecidas e consolidadas na vigência de orientação anterior. Essa garantia se dá a partir do princípio da segurança jurídica, que se relaciona com a boa-fé. Não significa que o entendimento administrativo não possa mudar; o que não é possível é fazê-la retroagir a casos já decididos com base em interpretação anterior, considerada válida diante das circunstancias do momento em que foi adotada. Os demais princípios também devem ser observados no âmbito dos processos administrativos, mas o que guarda relação com o enunciado é o da segurança jurídica. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 67 85 Gabarito: alternativa D. 24. (Cesgranrio – IBGE/2010) No âmbito federal, o direito da Administração Pública de anular os atos administrativos de que decorram efeitos favoráveis para os destinatários decai em cinco anos, contados da data em que foram praticados, salvo comprovada má-fé. O princípio básico da Administração Pública que justifica a fixação de tal prazo decadencial é a: a) segurança jurídica. b) legalidade. c) impessoalidade. d) probidade administrativa. e) eficiência. Comentário: A banca gosta desse princípio, fiquem de olho! Já dissemos que o princípio da segurança jurídica está na base das normas sobre prescrição e decadência, como descrito no enunciado. Vale lembrar que os posicionamentos da administração podem mudar no decorrer do tempo, mas deve-se assegurar que as situações já consolidadas sejam mantidas. A prescrição e a decadência constituem formas de assegurar essas situações, dando segurança aos administrados. Gabarito: alternativa A. 25. (Cesgranrio – MEC/2009) A notícia acima está relacionada aos princípios da administração pública. Os responsáveis por esses atos administrativos infringiram o princípio da a) impessoalidade, por terem violado regras de conduta relativas à disciplina interior à administração. b) legalidade, em função de os atos noticiados estarem previstos em medidas administrativas. c) publicidade, pois a priori todo ato administrativo deve ser tornado público. d) moralidade, já que esse princípio está restrito à criação de cargos públicos da administração direta. e) razoabilidade, dado que está vedada a prática de ato administrativo sem interesse público. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 68 85 Comentário: O princípio da publicidade exige a publicação em órgãos oficiais como requisito de eficácia de atos administrativos gerais (efeitos gerais e externos), bem como a transparência da atuação administrativa, constituindo um requisito indispensável para o efetivo controle da Administração Pública por parte dos administrados. Assim, claramente a atitude descrita na notícia fere a esse princípio. Gabarito: alternativa C. 26. (Cesgranrio – TJ RO/2008) No exercício da autotutela, a Administração Pública tem a(o) a) faculdade de revogar seus atos por razões de conveniência e oportunidade, mas precisa ir ao Poder Judiciário para anulá-los. b) faculdade de anular seus próprios atos, quando eivados de ilegalidade, mas precisa ir ao Poder Judiciário para revogá-los. c) faculdade de anular seus atos por questões de legitimidade e de revogá-los, quando eivados de nulidade. d) dever de anular seus próprios atos, quando eivados de ilegalidade, e pode revogá-los, por razões de conveniência e oportunidade. e) dever de revogar seus atos por razões de conveniência e oportunidade, mas precisa ir ao Poder Judiciário para anulá-los quando eivados de ilegalidade. Comentário: O princípio da autotutela estabelece que aAdministração Pública possui o poder de controlar os seus próprios atos, anulando-os quando ilegais ou revogando-os quando inconvenientes ou inoportunos, na forma da Súmula 473 do STF. Assim, a Administração não precisa recorrer ao Poder Judiciário para corrigir os seus atos, podendo fazê-lo diretamente. Gabarito: alternativa D. 27. (Cesgranrio – TJ RO/2008) Quanto aos princípios da administração pública, analise as assertivas abaixo. I - Viola o princípio da segurança jurídica a aplicação retroativa de nova interpretação jurídica conferida pela Administração Pública a um mesmo dispositivo legal. II - Com base no princípio da supremacia do interesse público sobre o privado, é lícito ao Estado desapropriar qualquer bem particular, mesmo sem que haja prévia indenização. III - O princípio da razoável duração do processo, inserido na Constituição da República pela Emenda no 45/04 (Reforma do Judiciário), não se aplica aos processos administrativos. É(São) correta(s) APENAS a(s) afirmativa(s) a) I b) II Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 69 85 c) III d) I e II e) I e III Comentário: I - Viola o princípio da segurança jurídica a aplicação retroativa de nova interpretação jurídica conferida pela Administração Pública a um mesmo dispositivo legal – perfeito! É essencial que a Administração possua meios de garantir que novas interpretações não prejudiquem situações já reconhecidas e consolidadas na vigência de orientação anterior. Essa garantia se dá a partir do princípio da segurança jurídica, que se relaciona com a boa-fé – CORRETA; II - Com base no princípio da supremacia do interesse público sobre o privado, é lícito ao Estado desapropriar qualquer bem particular, mesmo sem que haja prévia indenização - o princípio da supremacia do interesse público sobre o privado autoriza que, em uma situação de conflito entre interesse de um particular e o interesse público, este último deve predominar. No caso da desapropriação de um imóvel, o interesse público prevalece sobre o interesse do proprietário do bem, mas deve ser respeitado o que prevê a CF/88, que no art. 5º, XXIV prevê que “a lei estabelecerá o procedimento para desapropriação por necessidade ou utilidade pública, ou por interesse social, mediante justa e prévia indenização em dinheiro, ressalvados os casos previstos nesta Constituição” – ERRADA; III - O princípio da razoável duração do processo, inserido na Constituição da República pela Emenda no 45/04 (Reforma do Judiciário), não se aplica aos processos administrativos – esse princípio assegura a todos, no âmbito judicial e administrativo, a razoável duração do processo e os meios que garantam a celeridade de sua tramitação – ERRADA. Portanto, apenas a afirmativa I está correta, como previsto na alternativa A. Gabarito: alternativa A. 28. (Cesgranrio – CAPES/2008) O instituto da requisição, previsto na Constituição Federal (artigo 5º, inciso XXV), autoriza às autoridades o uso de propriedade particular em determinadas situações, assegurando ao proprietário indenização ulterior, se houver dano. Trata-se de exemplo típico de aplicação concreta de um dos princípios que norteia a Administração, que é o da a) motivação. b) ampla defesa. c) segurança jurídica d) controle judicial dos atos administrativos. e) supremacia do interesse público sobre o privado. Comentário: Aqui a banca apresentou uma outra vertente do princípio da supremacia do interesse público. Segundo o art. 5º, XXV da CF/88, no caso de iminente perigo público, a autoridade competente poderá usar de Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 70 85 propriedade particular, assegurada ao proprietário indenização ulterior, se houver dano. Aqui, a própria Constituição autoriza a utilização do instituto, pois sabemos que, em uma situação de conflito entre interesse de um particular e o interesse público, este último deve predominar, obedecidos os preceitos legais. Gabarito: alternativa E. 29. (Cesgranrio – Petrobras/2008) "A Administração Pública pode declarar a nulidade de seus próprios atos." (Súmula no 346 do Supremo Tribunal Federal) Que princípio da Administração Pública reflete a súmula acima transcrita? a) Supremacia do interesse público b) Autoexecutoriedade c) Impessoalidade d) Razoabilidade e) Autotutela Comentário: O princípio da autotutela estabelece que a Administração Pública possui o poder de controlar os seus próprios atos, anulando-os quando ilegais ou revogando-os quando inconvenientes ou inoportunos. Assim, a Administração não precisa recorrer ao Poder Judiciário para corrigir os seus atos, podendo fazê-lo diretamente. Este princípio decorre possui previsão em duas súmulas do STF, a 346, que estabelece que “A Administração Pública pode declarar a nulidade dos seus próprios atos”, e 473, que dispõe o seguinte: Súmula nº 473 A Administração pode anular seus próprios atos, quando eivados de vícios que os tornam ilegais, porque deles não se originam direitos; ou revogá-los, por motivo de conveniência ou oportunidade, respeitados os direitos adquiridos, e ressalvada, em todos os casos, a apreciação judicial. (grifos nossos) Atualmente, o princípio ganhou previsão legal, conforme consta no art. 53 da Lei 9.784/1999: “A Administração deve anular seus próprios atos, quando eivados de vício de legalidade, e pode revogá-los por motivo de conveniência ou oportunidade, respeitados os direitos adquiridos”. Gabarito: alternativa E. 30. (Cesgranrio – ANP/2008) A respeito de princípios de Administração Pública, são feitas as afirmações a seguir. I - São considerados como princípios constitucionais expressos da Administração Pública, dentre outros, aqueles mencionados no caput do art. 37 da Constituição Federal em vigor. II - Os princípios constitucionais expressos da Administração Pública são apenas aqueles listados no caput do art. 37 da Carta Política de 1988. III - Existem outros princípios constitucionais, previstos em leis específicas, que devem ser observados na Administração Pública Federal. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 71 85 IV- Pode ser considerado como princípio constitucional da Administração Pública, implicitamente, o direito à motivação, previsto no inciso X, do art. 93 da Constituição Federal em vigor. É(São) verdadeira(s) APENAS a(s) assertiva(s) a) I b) I e III c) I e IV d) II e III e) II e IV Comentário: Questão interessante sobre princípios expressos e implícitos. Os princípios podem ser expressos, quando estão previstos taxativamente em uma norma jurídica de caráter geral, ou implícitos, quando não constam taxativamente em uma norma jurídica, decorrendo, portanto, da jurisprudência ou da doutrina. Saber se um princípio é expresso ou implícito depende do ponto de vista. Por exemplo, entre os princípios expressos da Administração, podemos destacar os princípios constitucionais capitulados no artigo 37 da Constituição Federal de 1988 (CF/88), nos seguintes termos: Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência [...]. Os princípios previstos acima são considerados expressos tendo como referência a Constituição Federal. Além dos princípios previstos expressamente na Constituição Federal, temos previsão taxativa em diversas leis. Portanto, já sabemos que a afirmativa I está ERRADA (por causa do “dentre outros”), enquantoa afirmativa II está CORRETA. A afirmativa III está ERRADA, pois, por óbvio, os princípios constitucionais constam da Constituição, apesar de poderem ser repetidos em leis infraconstitucionais. Por fim, pode ser considerado como princípio constitucional da Administração Pública, implicitamente, o direito à motivação, previsto no inciso X, do art. 93 da Constituição Federal em vigor, que representa que o administrador deve indicar os fundamentos de fato e de direito que o levam a adotar qualquer decisão no âmbito da Administração Pública, demonstrando a correlação lógica entre a situação ocorrida e as providências adotadas. Portanto, apenas as afirmativas II e IV estão corretas, sendo a alternativa E o nosso gabarito. Gabarito: alternativa E. 31. (Cesgranrio – ANP/2008) Pode-se considerar como parte de um quadro principiológico, em relação aos processos administrativos, no âmbito da União, os princípios constitucionais expressos e os princípios específicos, previstos legalmente. São eles: Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 72 85 a) segurança jurídica, motivo, interesse público, contraditório, impessoalidade, ampla defesa, moralidade, finalidade, eficiência, legalidade, razoabilidade, publicidade, motivação, proporcionalidade. b) interesse público, finalidade, proporcionalidade, legalidade, eficência, moralidade, ampla defesa, motivação, contraditório, publicidade, transparência, segurança jurídica, razoabilidade, impessoalidade. c) legalidade, organização, impessoalidade, razoabilidade, eficiência, publicidade, proporcionalidade, contraditório, moralidade, segurança jurídica, motivo, finalidade, ampla defesa, motivação. d) publicidade, finalidade, ampla defesa, motivação, razoabilidade, moralidade, proporcionalidade, impessoalidade, contraditório, legalidade, segurança jurídica, interesse público, eficiência. e) publicidade, contraditório, proporcionalidade, finalidade, legalidade, duplo grau de jurisdição, impessoalidade, motivação, interesse público, ampla defesa, moralidade, segurança jurídica, eficiência. Comentário: Dentre os princípios administrativos expressos na CF, temos no art. 37 da CF a Legalidade, Impessoalidade, Moralidade, Publicidade e Eficiência (LIMPE). Além desses princípios, outros encontram-se expressos não na CF, mas em legislação infraconstitucional, como na Lei 9.784/99, que trata do Processo Administrativo na esfera federal, dispondo em seu art. 2º que a Administração Pública obedecerá, entre outros, aos princípios da legalidade, finalidade, motivação, razoabilidade, proporcionalidade, moralidade, ampla defesa, contraditório, segurança jurídica, interesse público e eficiência. Gabarito: alternativa D. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 73 85 QUESTÕES COMENTADAS NA AULA 1. (Cesgranrio – Transpetro/2023) Determinado cidadão foi eliminado de concurso público, na investigação social, por ter cometido ilícito sete anos antes do certame. No recurso contra sua eliminação, aduziu que, além do tempo decorrido, passou a exercer outro cargo público, onde permanece, com elogios a sua atuação. Nos termos dos princípios aplicáveis à administração pública, o ato que eliminou o cidadão do concurso ofende a a) veracidade b) necessidade c) validade d) publicidade e) proporcionalidade Comentário: a) como o caso realmente ocorreu, não podemos dizer que houve ofensa à veracidade – ERRADA; b) a necessidade é citada como um subprincípio da proporcionalidade, significando que, na imposição de restrições, não deve existir outro meio menos gravoso ou oneroso para alcançar o fim público – ERRADA; c) em tese, não existe o princípio da validade – ERRADA; d) a publicidade realmente é um princípio, que se relaciona com tornar os atos da administração públicos e de conhecimento dos administrados. Mas não há relação com esse princípio no caso narrado pelo enunciado – ERRADA; e) podemos defender sim a ofensa à proporcionalidade nessa questão, pois não é proporcional penalizar o cidadão por um fato ocorrido há tanto tempo, sendo que ele inclusive já exerce um cargo público de forma idônea e reconhecida. Assim, realmente a eliminação nesse caso se mostra desproporcional. Vale lembrar que, na proporcionalidade, o ato deve ter adequação, ou seja, deve servir para alcançar o fim desejado. Na verdade, se o servidor já desempenha muito bem as funções em outro cargo, a sua eliminação no concurso não atende ao fim público (não tem adequação), logo será desproporcional – CORRETA. Também houve ofensa ao princípio da segurança jurídica, considerando que o fato já ocorreu há muito tempo. Gabarito: alternativa E. 2. (Cesgranrio – Transpetro/2023) O prefeito de um município verificou que tinha sido deferida licença sem esteio legal para prática de ato de competência municipal. Após ser cientificado do ocorrido, editou portaria declarando nulo o deferimento e cancelando a licença. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 74 85 Nos termos dos princípios aplicáveis à administração pública, a portaria municipal realiza o princípio da a) preponderância b) razoabilidade c) comunidade d) autotutela e) iniciativa Comentário: no caso do enunciado, a própria administração reviu o ato praticado e declarou sua nulidade. No caso, temos uma típica aplicação do princípio da autotutela, que dispõe que a Administração Pública possui o poder de controlar os seus próprios atos, anulando-os quando ilegais ou revogando-os quando inconvenientes ou inoportunos. Assim, a Administração não precisa recorrer ao Poder Judiciário para corrigir os seus atos, podendo fazê-lo diretamente, exatamente como ocorreu no caso do enunciado. Portanto, o gabarito está na alternativa D. Gabarito: alternativa D. 3. (Cesgranrio – Transpetro/2023) Um administrador de empresas exerce cargo comissionado em determinado órgão público que está assoberbado de requerimentos com pleitos diversos. Com o intuito de resolver o problema, cria sistema de metas, com prêmios de produtividade, buscando respaldo em autorização normativa recentemente aprovada. No caso em tela, está sendo realizado o princípio, aplicável à administração pública, da a) moralidade b) publicidade c) eficiência d) organização e) solidariedade Comentário: a) o princípio da moralidade impõe que o administrador público não dispense os preceitos éticos que devem estar presentes em sua conduta – ERRADA; b) a publicidade se relaciona com a exigência de publicação em órgãos oficiais como requisito de eficácia; e com a exigência de transparência da atuação administrativa – ERRADA; c) a eficiência diz respeito a uma atuação da administração pública com excelência, fornecendo serviços públicos de qualidade à população, com o menor custo possível (desde que mantidos os padrões de qualidade) e no menor tempo, ou seja, incentivando a produtividade, exatamente como no caso narrado pela questão – CORRETA; d e e) organização e solidariedade não são princípios da administração pública – ERRADAS. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 75 85 Gabarito: alternativa C. 4. (Cesgranrio – Transpetro/2018) A logística inbound de uma empresa é o setor da logística que, entre outras atividades, realiza a compra de materiais, sempre buscando o menor custo e as melhores condições para a empresa. A administração pública também busca realizar as suas compras com o intuitode garantir, entre outros quesitos, o menor custo, respeitando-se os princípios presentes na Constituição Federal de 1988. Um desses princípios, que une qualidade, celeridade e menor custo na prestação do serviço ou no trato com os bens públicos, é o princípio da a) razoabilidade b) economicidade c) impessoalidade d) moralidade e) publicidade. 5. (Cesgranrio – Petrobrás/2018) São princípios constitucionais que regem a administração pública, EXCETO a) Legalidade b) Impessoalidade c) Moralidade d) Marketing e) Publicidade. 6. (Cesgranrio – FINEP/2014) Os serviços públicos estão submetidos a alguns princípios gerais comuns de funcionamento que lhes impõem uma ética do interesse geral, diferenciando-os das atividades privadas lucrativas. O princípio que obriga os gestores do serviço a não fazer discriminação ou favoritismo em função das opiniões políticas, opções filosóficas ou convicções religiosas dos usuários do serviço ou de seus agentes é denominado: a) neutralidade e impessoalidade b) continuidade do serviço e eficiência c) moralidade e probidade d) mutabilidade ou adaptabilidade e economicidade e) legalidade e publicidade. 7. (Cesgranrio – EPE/2014) Em um determinado município, por falta de consenso nas discussões políticas, o Poder Legislativo municipal encerrou a segunda parte da sessão sem aprovar a proposta orçamentária para o exercício subsequente. Em decorrência da necessidade de execução de serviços e Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 76 85 obras imprescindíveis à manutenção das atividades do município, o prefeito decidiu dar início à execução dos programas previstos na proposta orçamentária enviada ao Poder Legislativo. A situação acima descrita fere um princípio da administração pública, que é o da a) moralidade b) publicidade c) transparência d) legalidade e) eficiência. 8. (Cesgranrio – EPE/2014) Quando a lei estabelece que as informações dos órgãos públicos devem estar disponíveis a todos mediante acesso facilitado, atende-se ao primado do princípio aplicável à Administração Pública que consiste na a) proporcionalidade b) impessoalidade c) publicidade d) razoabilidade e) finalidade. 9. (Cesgranrio – BNDES/2013) Um agente público, fiscalizando determinado estabelecimento, verifica que alguns alimentos estão em situação irregular. Além disso, as condições de higiene não são adequadas ao desempenho normal da empresa, apresentando, assim, sérios riscos à saúde dos clientes e à dos vizinhos. Por esses motivos, o agente determina a interdição do local até que as irregularidades sejam sanadas, condicionando a reabertura à vistoria oficial dos agentes públicos competentes. Nesse caso, existe a aplicação do princípio que rege a Administração Pública, denominado a) publicidade b) moralidade c) impessoalidade d) autotutela e) capacidade. 10. (Cesgranrio – CMB/2012) Com relação aos princípios básicos da gestão pública, o Princípio da Eficiência está a) vinculado à noção de administração burocrática. b) vinculado à redução de autonomia dos entes administrativos. c) relacionado à diminuição da aferição do atingimento dos resultados. d) relacionado ao princípio da economicidade. e) relacionado ao aumento do controle das atividades meio. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 77 85 ==2537cb== 11. (Cesgranrio – FINEP/2011) A Constituição Federal expressa princípios básicos que condicionam a atuação da Administração Pública Direta e Indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios. Dentre os postulados fundamentais explícitos no texto constitucional, tem-se o princípio da a) publicidade que exige a ampla divulgação dos atos da Administração, ressalvadas as hipóteses previstas em lei. b) proporcionalidade que determina a adequada proporção entre os meios de que se utiliza a Administração e os fins que ela pretende alcançar. c) autotutela que determina que a Administração exerça controle sobre seus próprios atos, com a possibilidade de anular os ilegais e revogar os inconvenientes ou inoportunos. d) motivação que estabelece que a Administração indique os fundamentos de fato e de direito de suas decisões. e) hierarquia que estabelece que os órgãos da Administração sejam estruturados de forma a ser criada uma relação de coordenação e subordinação entre uns e outros, na forma da lei. 12. (Cesgranrio – DETRAN AC/2009) Suponha que o Departamento de Trânsito do Estado do Acre (DETRAN/AC) pretenda rever atos administrativos praticados há mais de quinze anos. Considerando que tais atos administrativos vêm produzindo, desde então, efeitos jurídicos favoráveis aos seus destinatários, qual princípio poderia ser invocado para impedir tal postura administrativa? a) Segurança jurídica. b) Motivação. c) Sanatória dos atos administrativos. d) Irrevogabilidade dos atos administrativos. e) Inafastabilidade do controle jurisdicional. 13. (Cesgranrio – DETRAN AC/2009) Analise as assertivas abaixo, considerando os princípios da Administração Pública. I – O princípio da razoável duração do processo, inserido na Constituição da República pela Emenda nº 45/04 (Reforma do Judiciário), não se aplica aos processos administrativos. II – O princípio da segurança jurídica é violado quando da aplicação retroativa de nova interpretação jurídica conferida pela Administração Pública a um mesmo dispositivo legal. III – O princípio da legalidade administrativa confere aos agentes da Administração Pública a plena liberdade de atuação, excetuando-se, apenas, as condutas expressamente vedadas por lei. É(São) correta(s) APENAS a(s) afirmativa(s) a) III. b) II. c) I e III. d) I e II. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 78 85 e) I. 14. (Cesgranrio – Liquigás/2018) É considerado um princípio geral do direito administrativo, o princípio da a) isonomia. b) dualidade. c) probabilidade. d) unitariedade. e) finalidade. 15. (Cesgranrio – Transpetro/2018) No âmbito do princípio da legalidade atuam a supremacia da lei e a reserva de lei. No que concerne à reserva de lei, a doutrina assente estabelece uma relação com a denominada a) atuação negativa. b) vinculação positiva. c) juridicidade atual. d) mecânica limitativa. e) inclusão das lacunas. 16. (Cesgranrio – IBGE/2016) A supervisão do almoxarifado de uma organização pública vem controlando os níveis de estoque, de forma a provocar a redução do volume de compras e a provocar o aumento nas quantidades de pedidos. Ou seja, o setor tem gerenciado o tamanho dos lotes e o intervalo de tempo dos pedidos, por considerar que lotes pequenos significam uma redução do nível de estoque, um acréscimo no número de pedidos e uma redução no intervalo de tempo existente entre dois pedidos. Essa nova forma de gestão do setor está relacionada a uma supervisão que busque no controle a garantia de a) lucratividade b) economicidade c) isonomia d) legalidade e) moralidade 17. (Cesgranrio – CEFET RJ/2014) O prefeito de um município apresenta projeto de lei para autorizar, no âmbito de sua competência, a contratação de parentes dos membros do Executivo, do Legislativo e do Judiciário que atuam no local. Nos termos da Constituição Federal, tal norma violaria o princípio da a) democracia b) moralidade c) segurança Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal -2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 79 85 d) necessidade e) compatibilidade 18. (Cesgranrio – EPE/2014) Ao se estabelecer que o Estado deve perseguir o interesse público em detrimento do interesse privado, busca-se realizar, primacialmente, o princípio da: a) finalidade b) continuidade c) legalidade d) impessoalidade e) indisponibilidade 19. (Cesgranrio – IBGE/2013) A Emenda Constitucional no 45/2004, denominada Reforma do Judiciário, acrescentou o inciso LXXVIII ao art. 5º da Constituição Federal em vigor, o qual estabelece que “a todos, no âmbito judicial e administrativo, são assegurados razoável duração de processo e os meios que garantam a celeridade de sua tramitação”. Tal mandamento, que alcança o modo pelo qual se processa a atividade estatal, tem por conteúdo o princípio da a) publicidade b) eficácia c) efetividade d) eficiência e) impessoalidade 20. (Cesgranrio – BNDES/2013) Recorre-se ao princípio da proporcionalidade para aferir a legitimidade de um ato do poder público que restringe um direito fundamental visando a alcançar um fim que também tem base constitucional. O princípio da proporcionalidade impõe o exame do ato quanto a a) adequação e necessidade b) unidade e excesso c) impessoalidade e moralidade d) razoabilidade e eficiência e) legalidade e efetividade 21. (Cesgranrio – Caixa/2012) Creso, servidor do órgão W, vinculado a determinado estado federado, foi surpreendido com recomendação verbal de que deveria atender, em horário especial fora do expediente, a pessoas vinculadas a determinada associação e que os problemas dessa associação deveriam ter preferência sobre os demais que estivessem sob sua responsabilidade. Sob a ótica dos princípios constitucionais da Administração Pública, tal prática, fere, predominantemente, o princípio da a) publicidade b) impessoalidade Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 80 85 c) eficiência d) indisponibilidade e) continuidade 22. (Cesgranrio – BNDES/2011) Qual princípio da Administração Pública justifica o estabelecimento de prazo decadencial para o exercício da autotutela administrativa nas hipóteses em que o destinatário do ato ilegal esteja de boa-fé? a) Proporcionalidade b) Segurança jurídica c) Eficiência administrativa d) Instrumentalidade processual e) Devido processo legal 23. (Cesgranrio – BACEN/2010) Após consulta formulada pelo Governador, o órgão central do sistema jurídico de um Estado-membro da Federação exarou parecer revendo a interpretação anteriormente conferida a determinada norma administrativa, aplicando-a retroativamente de forma a cassar direitos que já haviam sido reconhecidos a diversos interessados. Essa postura da Administração Pública agride o princípio básico da a) instrumentalidade das formas. b) motivação. c) lealdade processual. d) segurança jurídica. e) publicidade. 24. (Cesgranrio – IBGE/2010) No âmbito federal, o direito da Administração Pública de anular os atos administrativos de que decorram efeitos favoráveis para os destinatários decai em cinco anos, contados da data em que foram praticados, salvo comprovada má-fé. O princípio básico da Administração Pública que justifica a fixação de tal prazo decadencial é a: a) segurança jurídica. b) legalidade. c) impessoalidade. d) probidade administrativa. e) eficiência. 25. (Cesgranrio – MEC/2009) Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 81 85 A notícia acima está relacionada aos princípios da administração pública. Os responsáveis por esses atos administrativos infringiram o princípio da a) impessoalidade, por terem violado regras de conduta relativas à disciplina interior à administração. b) legalidade, em função de os atos noticiados estarem previstos em medidas administrativas. c) publicidade, pois a priori todo ato administrativo deve ser tornado público. d) moralidade, já que esse princípio está restrito à criação de cargos públicos da administração direta. e) razoabilidade, dado que está vedada a prática de ato administrativo sem interesse público. 26. (Cesgranrio – TJ RO/2008) No exercício da autotutela, a Administração Pública tem a(o) a) faculdade de revogar seus atos por razões de conveniência e oportunidade, mas precisa ir ao Poder Judiciário para anulá-los. b) faculdade de anular seus próprios atos, quando eivados de ilegalidade, mas precisa ir ao Poder Judiciário para revogá-los. c) faculdade de anular seus atos por questões de legitimidade e de revogá-los, quando eivados de nulidade. d) dever de anular seus próprios atos, quando eivados de ilegalidade, e pode revogá-los, por razões de conveniência e oportunidade. e) dever de revogar seus atos por razões de conveniência e oportunidade, mas precisa ir ao Poder Judiciário para anulá-los quando eivados de ilegalidade. 27. (Cesgranrio – TJ RO/2008) Quanto aos princípios da administração pública, analise as assertivas abaixo. I - Viola o princípio da segurança jurídica a aplicação retroativa de nova interpretação jurídica conferida pela Administração Pública a um mesmo dispositivo legal. II - Com base no princípio da supremacia do interesse público sobre o privado, é lícito ao Estado desapropriar qualquer bem particular, mesmo sem que haja prévia indenização. III - O princípio da razoável duração do processo, inserido na Constituição da República pela Emenda no 45/04 (Reforma do Judiciário), não se aplica aos processos administrativos. É(São) correta(s) APENAS a(s) afirmativa(s) a) I Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 82 85 b) II c) III d) I e II e) I e III 28. (Cesgranrio – CAPES/2008) O instituto da requisição, previsto na Constituição Federal (artigo 5º, inciso XXV), autoriza às autoridades o uso de propriedade particular em determinadas situações, assegurando ao proprietário indenização ulterior, se houver dano. Trata-se de exemplo típico de aplicação concreta de um dos princípios que norteia a Administração, que é o da a) motivação. b) ampla defesa. c) segurança jurídica d) controle judicial dos atos administrativos. e) supremacia do interesse público sobre o privado. 29. (Cesgranrio – Petrobras/2008) "A Administração Pública pode declarar a nulidade de seus próprios atos." (Súmula no 346 do Supremo Tribunal Federal) Que princípio da Administração Pública reflete a súmula acima transcrita? a) Supremacia do interesse público b) Autoexecutoriedade c) Impessoalidade d) Razoabilidade e) Autotutela 30. (Cesgranrio – ANP/2008) A respeito de princípios de Administração Pública, são feitas as afirmações a seguir. I - São considerados como princípios constitucionais expressos da Administração Pública, dentre outros, aqueles mencionados no caput do art. 37 da Constituição Federal em vigor. II - Os princípios constitucionais expressos da Administração Pública são apenas aqueles listados no caput do art. 37 da Carta Política de 1988. III - Existem outros princípios constitucionais, previstos em leis específicas, que devem ser observados na Administração Pública Federal. IV- Pode ser considerado como princípio constitucional da Administração Pública, implicitamente, o direito à motivação, previsto no inciso X, do art. 93 da Constituição Federal em vigor. É(São) verdadeira(s) APENAS a(s) assertiva(s) a) I b) I e III Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br83 85 c) I e IV d) II e III e) II e IV 31. (Cesgranrio – ANP/2008) Pode-se considerar como parte de um quadro principiológico, em relação aos processos administrativos, no âmbito da União, os princípios constitucionais expressos e os princípios específicos, previstos legalmente. São eles: a) segurança jurídica, motivo, interesse público, contraditório, impessoalidade, ampla defesa, moralidade, finalidade, eficiência, legalidade, razoabilidade, publicidade, motivação, proporcionalidade. b) interesse público, finalidade, proporcionalidade, legalidade, eficência, moralidade, ampla defesa, motivação, contraditório, publicidade, transparência, segurança jurídica, razoabilidade, impessoalidade. c) legalidade, organização, impessoalidade, razoabilidade, eficiência, publicidade, proporcionalidade, contraditório, moralidade, segurança jurídica, motivo, finalidade, ampla defesa, motivação. d) publicidade, finalidade, ampla defesa, motivação, razoabilidade, moralidade, proporcionalidade, impessoalidade, contraditório, legalidade, segurança jurídica, interesse público, eficiência. e) publicidade, contraditório, proporcionalidade, finalidade, legalidade, duplo grau de jurisdição, impessoalidade, motivação, interesse público, ampla defesa, moralidade, segurança jurídica, eficiência. GABARITO 1. E 11. A 21. B 31. D 2. D 12. A 22. B 3. C 13. B 23. D 4. B 14. A 24. A 5. D 15. B 25. C 6. A 16. B 26. D 7. D 17. B 27. A 8. C 18. A 28. E 9. D 19. D 29. E 10. D 20. A 30. E Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 00 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 84 85 Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) Autor: Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó 16 de Janeiro de 2024 Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida Índice ..............................................................................................................................................................................................1) Conceitos Iniciais sobre Organização Administrativa 3 ..............................................................................................................................................................................................2) Conceitos Iniciais da Administração Direta e Indireta 25 ..............................................................................................................................................................................................3) Autarquias 34 ..............................................................................................................................................................................................4) Questões Comentadas - Organização Administrativa (Parte 1) - Cesgranrio 60 ..............................................................................................................................................................................................5) Lista de questões - Organização Administrativa (Parte 1) - Cesgranrio 81 CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 2 90 ORGANIZAÇÃO ADMINISTRATIVA A organização do Estado é matéria de ordem constitucional, tratando da divisão política do território nacional, da estruturação dos Poderes, da forma de Governo, do modo de investidura dos governantes e dos direitos e garantias fundamentais.1 Para o Direito Administrativo, por outro lado, cabe o estudo da organização administrativa, matéria que estuda a organização das entidades estatais, das suas autarquias e das empresas estatais. Nessa linha, devemos entender que a Administração é o instrumental de que dispõe o Estado para colocar em prática as opções políticas do Governo. Em outras palavras, enquanto o Governo é o responsável pelo estabelecimento de diretrizes e planos, a Administração é o aparelhamento utilizado para pôr em prática essas decisões. A atuação da Administração e do Governo ocorre por meio de entidades – pessoas jurídicas –, de órgãos – centros de decisão – e de seus agentes – pessoas físicas investidas em cargos e funções2. Os agentes não são objeto de nossa aula. Nesse momento, interessa-nos entender o conceito de entidade e de órgão, conforme veremos nos tópicos seguintes. Vamos iniciar pelas entidades, depois debateremos os conceitos de centralização, descentralização e desconcentração e, finalmente, vamos entender o que são os órgãos. Entidades políticas e administrativas A Lei 9.784/1999 define entidade como “a unidade de atuação dotada de personalidade jurídica” (art. 1º, § 2º, II). Possuir personalidade jurídica significa que o ente pode, em nome próprio, adquirir direitos e contrair obrigações. Assim, as entidades são unidades de atuação que possuem personalidade jurídica e, portanto, podem adquirir direitos e contrair obrigações em seu próprio nome. 1 Meirelles, 2013, p. 63. 2 Meirelles, 2013, p. 67. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 3 90 As entidades dividem-se em políticas e administrativas. Aquelas, também chamadas de entidades primárias3, são as pessoas jurídicas de direito público que recebem suas atribuições diretamente da Constituição, integrando, portanto, a estrutura constitucional do Estado. São entidades políticas a União, os estados, o Distrito Federal e os munícipios. São entidades políticas a União, os estados, o Distrito Federal e os municípios. As entidades políticas possuem capacidade de auto-organização, autogoverno e autoadministração, possuindo, portanto, autonomia plena. Vamos ver o que significa cada uma dessas capacidades: 3 Furtado, 2012, p. 140. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 4 90 ▪ autogoverno: é a competência que os Estados-membros possuem para organizar os seus Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário4 locais, conforme consta nos arts. 27, 28 e 125 da Constituição Federal; ▪ auto-organização (e autolegislação): é a capacidade do ente para se organizar na forma de sua constituição (CF, art. 25, caput) ou lei orgânica (CF, art. 29, caput, e 32) e de suas leis. Em síntese, a auto-organização representa a capacidade de legislar. ▪ autoadministração: capacidade que cada entidade política possui para prestar os serviços dentro da distribuição de competências estabelecidas na CF/88 (arts. 18 e 25 a 28). Representa a capacidade dos entes políticos para prestarem os serviços de saúde, educação, assistência social, etc. As entidades administrativas são pessoas jurídicas, de direito público ou de direito privado, criadas pelas entidades políticas para exercer parte de sua capacidade de autoadministração. Assim, podemos dizer que as entidades administrativas são criadas pelas entidades políticas para desempenhar determinado serviço daqueles que lhes foram outorgadas pela Constituição Federal. São entidades administrativas as autarquias, fundações públicas, empresas públicas e sociedades de economia mista, que juntas formam a chamada Administração indireta ou descentralizada. Enquanto as entidades políticas gozam de capacidade genérica, nos termos previstos na Constituição, as entidades administrativas possuem somente a capacidade administrativa específica, ou seja, elas possuem somente a capacidade de autoadministração, sendo ainda de forma restrita. Isso porque o ente político cria a entidade administrativa para atuar em uma área específica, ou seja, a criação das entidades administrativas ocorre para especializara Administração. Contudo, a diferença principal entre as entidades políticas e as entidades administrativas é que aquelas possuem autonomia política, decorrente de sua capacidade de legislar (auto-organização). Ou seja, as entidades políticas possuem capacidade para editar atos normativos que inovem na ordem jurídica, criando direitos e obrigações. Somente as entidades políticas possuem autonomia política. Ademais, as entidades políticas recebem, diretamente da Constituição, competência para legislar e administrar. Por outro lado, as entidades administrativas recebem suas competências de lei. 4 Lembrando que os municípios não possuem Poder Judiciário próprio. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 5 90 (FUB - 2013) As entidades políticas são aquelas que recebem suas atribuições da própria CF, exercendo- as com plena autonomia. Comentários: as entidades políticas possuem autonomia plena, pois possuem capacidade de autogoverno, auto-organização e autoadministração. Com efeito, as atribuições dessas entidades decorrem diretamente da Constituição Federal, em particular dos arts. 18 ao 32. Logo, o item está correto! Centralização e descentralização Somente os entes políticos recebem competências diretamente da Constituição para prestar serviço público à sociedade. Assim, quando o Estado presta os serviços por meio de seus órgãos e agentes integrantes da Administração direta, ou seja, que compõem as pessoas políticas, diz-se que o serviço é prestado de forma centralizada. Assim, os serviços são prestados pelos órgãos despersonalizados integrantes da própria entidade política. Exemplo disso são os serviços prestados pelos ministérios, pelas secretarias estaduais e municipais ou por seus órgãos subordinados. A Secretaria da Receita Federal do Brasil é um órgão integrante do Ministério da Economia. Assim, os serviços prestados pela Receita Federal são realizados de forma centralizada. Contudo, a entidade política pode optar por transferir a terceiro a competência para determinada atividade administrativa, caso em que teremos a descentralização. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 6 90 Segundo Maria Zylvia Zanella Di Pietro5, a descentralização é a distribuição de competências de uma para outra pessoa, física ou jurídica. A autora classifica a descentralização em política e administrativa. Aquela se refere à distribuição de competências previstas na Constituição, que dá origem à federação. Sendo assim, quando os estados ou municípios prestam os serviços previstos na Constituição, eles estão prestando os serviços próprios, que não decorrem do ente central. Em outras palavras, a descentralização política envolve a distribuição de competências aos Estados-membros e aos municípios. A descentralização administrativa, por sua vez, ocorre quando o Estado não executa o serviço por meio de sua Administração direta. Envolve, portanto, duas pessoas distintas: o Estado – União, estados, Distrito Federal e municípios – e a pessoa que executará o serviço, uma vez que recebeu essa atribuição do Estado6. 0(DPE AM - 2018) Considere que o Estado do Amazonas tenha decidido criar, por lei específica, uma autarquia, atribuindo a ela o serviço público de transporte intermunicipal. A situação narrada constitui exemplo de descentralização política, com transferência, nos termos da lei editada, do serviço público antes titulado pelo Estado, dotando o novo ente de autonomia. Comentários: a situação representa a descentralização administrativa. A descentralização política ocorre no nível constitucional, quando os estados, o DF e os municípios recebem as suas atribuições próprias. Desta forma, o item está incorreto. Nesse contexto, podemos mencionar três formas de descentralização administrativa: ✓ descentralização por outorga, por serviços, técnica ou funcional; ✓ descentralização por delegação ou colaboração; 5 Di Pietro, 2014, p. 481. 6 Alexandrino e Paulo, 2011, p. 23. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 7 90 ✓ descentralização territorial ou geográfica A descentralização por outorga, por serviços, técnica ou funcional ocorre quando o Estado cria uma entidade com personalidade jurídica própria e a ela transfere a titularidade e a execução de determinado serviço público. Esse tipo de descentralização dá origem à Administração indireta (autarquias, fundações públicas, sociedades de economia mista e empresas públicas), pressupondo a elaboração de lei para criação ou autorização da criação da entidade. Na descentralização por delegação ou colaboração, uma entidade política ou administrativa transfere, por contrato ou por ato unilateral, a execução de um serviço a uma pessoa jurídica de direito privado preexistente. Assim, a pessoa que recebe a delegação poderá prestar o serviço diretamente à população, em seu próprio nome e por sua conta e risco, sofrendo a fiscalização do Estado. Esse tipo de descentralização dá origem aos delegatários de serviço público por meio de concessão, permissão ou autorização. Um exemplo de descentralização por delegação ocorre com os serviços de telefonia, prestados por empresas privadas. É fundamental distinguir essas duas formas de descentralização. Na primeira hipótese, a outorga, a própria titularidade do serviço é transferida ao terceiro por meio de lei e, por conseguinte, somente por lei poderá ser retirada ou modificada. Ademais, a outorga tem presunção de definitividade, isto é, em tese será exercida indeterminadamente pelo ente outorgado. Por outro lado, na descentralização por delegação, transfere-se apenas a execução do serviço por ato administrativo (unilateral) ou contrato administrativo (bilateral). Na primeira hipótese (ato administrativo – autorização de serviços públicos), em regra, não há prazo determinado para a delegação, uma vez que esse instrumento reveste-se de precariedade, isto é, pode ser revogado a qualquer tempo e, em geral, sem direito à indenização. No caso do contrato (concessão ou permissão de serviços públicos), porém, a delegação é efetivada por prazo determinado, estando sujeita às cláusulas legais e contratuais para modificação e revogação do instrumento. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 8 90 Vejamos alguns exemplos: ✓ a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) é uma autarquia sob regime especial criada pela Lei nº 9.472, de 16 de julho de 1997, vinculada ao Ministério das Comunicações, com a função de órgão regulador das telecomunicações (descentralização por outorga); ✓ a Empresa de Planejamento e Logística S.A. (EPL) é uma empresa pública cuja criação foi autorizada pela Lei nº 12.404, de 4 de maio de 2011, vinculada ao Ministério da Infraestrutura, com o objetivo de planejar e promover o desenvolvimento do serviço de transporte ferroviário de alta velocidade de forma integrada com as demais modalidades de transporte (descentralização por outorga); e ✓ as diversas empresas de telefonia móvel (Oi, Tim, Claro, Vivo, etc.) oferecem os serviços de forma descentralizada por meio de contrato de concessão de serviços públicos (delegação ou descentralização por colaboração). Na descentralização por outorga, não há hierarquia ou subordinação entre as pessoas envolvidas, mas apenas vinculação. Assim, o órgão central realiza a tutela (administrativa), supervisão (ministerial) ou controle finalístico sobre o exercício daatividade por parte do ente descentralizado, nos termos estabelecidos em lei. Nesse contexto, Hely Lopes Meirelles conceitua o controle finalístico da seguinte forma: É o que a norma legal estabelece para as entidades autônomas, indicando a autoridade controladora, as faculdades a serem exercitadas e as finalidades objetivadas. Por isso mesmo, é sempre um controle limitado e externo. Não tem fundamento hierárquico, porque não há subordinação entre a entidade controlada e a autoridade ou o órgão controlador. É um controle teleológico, de verificação do enquadramento da instituição no programa geral do Governo e de seu acompanhamento dos atos de seus dirigentes no desempenho de suas funções estatutárias, para o atingimento das finalidades da entidade controlada. Assim, o controle finalístico é exercido pela Administração direta sobre a indireta, com o objetivo de garantir que a entidade administrativa esteja realizando adequadamente as atividades para a qual se destinam. Contudo, em razão da autonomia administrativa que as entidades da Administração indireta detêm, este é um controle limitado, que necessita expressa previsão legal que determine os meios de controle, os aspectos a serem controlados e as ocasiões em que ocorrerá. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 9 90 No caso da descentralização por colaboração ou por delegação, as formas de controle são mais amplas do que na outorga. Isso porque a delegação ocorre por meio de ato ou contrato administrativo, admitindo alteração unilateral e diversas formas de fiscalização das condições do serviço prestado. O entendimento é simples. Como a outorga é feita por lei, transfere-se a titularidade do serviço, permitindo o desempenho da atividade com autonomia. Assim, as interferências do ente político são somente aquelas admitidas na lei que transferiu a competência para a Administração Indireta. Por outro lado, por meio da delegação – descentralização por colaboração – transfere-se apenas o exercício da atividade, por meio de ato ou contrato administrativo. Dessa forma, a titularidade permanece com o Estado, que poderá exercer formas de controle mais amplas. De qualquer forma, não haverá relação hierárquica em nenhuma forma de descentralização. Além das formas apresentadas acima, podemos falar, ainda, na descentralização territorial ou geográfica. A Constituição Federal, no §2º do artigo 18, dispõe sobre a possibilidade de criação dos chamados territórios federais, vejamos: Art. 18. [...] § 2º - Os Territórios Federais integram a União, e sua criação, transformação em Estado ou reintegração ao Estado de origem serão reguladas em lei complementar. Essa é uma modalidade de descentralização na qual a União cria uma pessoa jurídica com limites territoriais determinados e competências administrativas genéricas. Assim, enquanto as entidades que compõem a Administração indireta apresentam capacidade administrativa específica para desempenhar a atividade para a qual foram criadas, os territórios possuem capacidade administrativa genérica para atuar em diversas áreas dentro do limite geográfico que os compõem. Os territórios não integram a federação, mas possuem personalidade jurídica de direito público. Não possuem também capacidade política, mas apenas administrativa genérica, por esse motivo alguns doutrinadores chegam a chamá-las de autarquias territoriais ou geográficas. Por fim, cabe destacar que atualmente não existem territórios federais no Brasil, apesar de existir a possibilidade de sua criação. A figura abaixo resume o que vimos sobre a descentralização. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 10 90 (SEFIN RO - 2018) Na centralização, o Estado executa suas tarefas diretamente, por intermédio dos inúmeros órgãos e agentes administrativos que compõem sua estrutura funcional. Comentários: quando os serviços são prestados diretamente pelos órgãos da Administração direta, diz-se que o serviço foi prestado de forma centralizada. Portanto, o quesito está correto. Se, por outro lado, os serviços forem prestados por entidades administrativas ou mediante delegação, aí o serviço será prestado de forma descentralizada. Logo, o item está correto! Concentração e Desconcentração Passaremos, agora, a falar sobre a desconcentração. Diferentemente da descentralização, a desconcentração ocorre exclusivamente dentro de uma mesma pessoa jurídica, constituindo uma técnica administrativa utilizada para distribuir internamente as competências. Assim, quando os municípios se organizam em secretarias, nada mais estão fazendo do que desconcentrando as competências dentro de sua própria estrutura. Por meio da desconcentração é que surgem os órgãos públicos. Para Hely Lopes Meirelles7 a desconcentração é uma técnica administrativa de simplificação e aceleração do serviço dentro da mesma entidade, diversamente da descentralização, que é uma técnica da especialização, consistente na retirada do serviço de dentro de uma entidade e transferência a outra para que o execute com mais perfeição e autonomia. 7 Meirelles, 2013, p. 394. DESCENTRALIZAÇÃO Duas pessoas jurídicas distintas Não há hierarquia Especialização Por outorga (por serviços, técnica ou funcional) Exige-se lei para criar ou autorizar a criação de outra entidade Dá origem à Administração indireta (autarquias, fundações públicas, EP e SEM) Transfere a titularidade do serviço Presunção de definitividade Tutela ou controle finalístico Por colaboração ou por delegação Ato administrativo - autorização de serviço público (precariedade) Contrato - concessão ou permissão (prazo determinado) Territorial ou geográfica Capacidade administrativa genérica Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 11 90 Nesse contexto, há desconcentração quando a União se organiza em ministérios ou quando uma autarquia ou empresa pública se organiza em departamentos para melhor prestar os seus serviços. Dessa forma, podemos perceber que a desconcentração pode ocorrer tanto no âmbito das pessoas políticas (União, DF, estados ou municípios) quanto nas entidades administrativas da Administração indireta. A descentralização pressupõe a existência de, no mínimo, duas pessoas distintas: uma que transfere a competência e a outra que recebe. Não há relação hierárquica. A desconcentração ocorre dentro uma única pessoa jurídica, constituindo uma técnica administrativa de distribuição interna de competências. Existe relação hierárquica. Conforme destacado acima, a desconcentração ocorre na mesma pessoa jurídica e, por conseguinte, realiza-se dentro de uma estrutura hierarquizada, com relação de subordinação entre os diversos níveis. Nas entidades desconcentradas, temos o controle hierárquico, que compreende os poderes de comando, fiscalização, revisão, punição, delegação, avocação, solução de conflitos de competência, etc.8 Por exemplo, as inspetorias especiais e alfândegas são órgãos subordinados às superintendências regionais, que, por sua vez, são subordinadas à Secretaria da Receita Federal do Brasil. Nesses casos, as unidades superiores controlam as inferiores por meio do controle hierárquico. Existem três formas distintas de desconcentração: ✓ em razão da matéria: Ministério da Educação, da Saúde etc.; ✓ por hierarquia (ou grau): ministérios, superintendências, delegacias, etc.; ✓ territorial ou geográfica: Superintendência Regional do INSS do Norte, Superintendência Regional do INSS do Nordeste, etc. O inverso dessa técnica administrativa é a concentração, istoé, a situação em que a pessoa jurídica integrante da Administração Pública extingue seus órgãos até então existentes, reunindo em um número menor de unidades as respectivas competências. Podemos mencionar, como exemplo, uma situação em que uma secretaria municipal de obras resolva diminuir o número de subsecretarias regionais com o objetivo de cortar gastos, distribuindo as subáreas das unidades extintas entre as estruturas remanescentes. Vamos dar uma olhada em mais uma figura de resumo. 8 Alexandrino e Paulo, 2011, p. 27. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 12 90 É importante destacar, ademais, que a concentração/desconcentração e a centralização/descentralização não são conceitos excludentes, ou seja, um serviço pode ser prestado de forma centralizada mediante desconcentração, quando for desenvolvido por um órgão integrante da Administração direta; ou pode ser prestado descentralizadamente mediante desconcentração, quando for realizado por uma unidade integrante da Administração indireta (ex. Superintendência Regional do INSS). Por exemplo, um serviço prestado por uma delegacia regional da Receita Federal é prestado de forma centralizada – uma vez que a Receita Federal é órgão da Administração direta – e desconcentrada – pois a delegacia regional é criada para desconcentrar as competências dentro do Ministério da Economia. Outro exemplo é um serviço prestado pela Superintendência Regional do Instituto Nacional do Seguro Social – INSS, que é uma autarquia da União. Assim, o INSS pertence à Administração indireta. Assim, o serviço em análise foi prestado de forma descentralizada – Administração indireta – e desconcentrada – Superintendência Regional. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 13 90 (TCE PB - 2018) No processo de descentralização por serviço, em que o órgão passa a deter a titularidade e a execução do serviço, ocorre a distribuição interna de competências no âmbito de uma mesma pessoa jurídica. Comentários: a distribuição interna de competências é manifestação da desconcentração e não da descentralização. Logo, o quesito está incorreto. Na verdade, a descentralização envolve a relação de mais de uma pessoa jurídica, criando uma nova entidade (descentralização por serviço) ou firmando um vínculo de delegação (descentralização por colaboração). Logo, o item está incorreto! Órgãos Públicos Conceito Segundo Hely Lopes Meirelles, os órgãos públicos são “centros de competências instituídos para o desempenho de funções estatais, através de seus agentes, cuja atuação é imputada à pessoa jurídica”.9 Na mesma linha, Maria Sylvia Zanella Di Pietro define órgão público como “uma unidade que congrega atribuições exercidas pelos agentes públicos que o integram com o objetivo de expressar a vontade do Estado”.10 Os órgãos são, portanto, centros de competências, sem personalidade jurídica própria, que atuam, por meio dos agentes nele lotados, em nome da entidade política ou administrativa que a integram. Nesse 9 Meirelles, 2013, p. 69. 10 Di Pietro, 2014, p. 590. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 14 90 ponto, é importante destacar que os órgãos não possuem personalidade jurídica, pois fazem parte de uma pessoa política ou administrativa, essas sim possuidoras de personalidade jurídica própria. Dessa forma, o desempenho das atribuições dos órgãos é imputado à pessoa jurídica a que pertencem. Por exemplo, a União, que é uma entidade política que recebe suas atribuições diretamente do texto constitucional, pode se organizar por meio de ministérios (órgãos). A atuação de cada ministério, no entanto, deverá ser atribuída à União – entidade política possuidora de personalidade jurídica própria. Da mesma forma, quando a Superintendência Regional do INSS desempenha as suas competências, ela não o faz em seu nome, mas sim em nome do INSS, que é uma autarquia federal – entidade administrativa com personalidade jurídica própria. O Estado – ou seus entes políticos – é uma pessoa jurídica, um ente abstrato, e, nessa condição, não pode, por si só emitir declarações de vontade, não pode produzir atos jurídicos sozinho. Para tanto, ele atua por meio de pessoas físicas, cujas manifestações representam a sua vontade. Tais pessoas físicas são denominadas agentes públicos.11 No entanto, apesar de materialmente ser praticado pela pessoa física (agente público), a autoria dos atos administrativos deve ser atribuída ao Estado, ou a pessoa jurídica que o agente representa. Nesse contexto, existem três teorias principais para explicar a atuação do Estado por meio de seus agentes:12 Teoria do mandato: o agente público é mandatário (como se atuasse por meio de uma procuração – contrato de mandato) da pessoa jurídica. O mandato é um contrato e, como tal, pressupõe a existência de duas pessoas com vontades próprias. Assim, a teoria foi criticada por não explicar como o Estado, que é um ente abstrato e, portanto, sem vontade própria, poderia outorgar o mandato. Essa teoria não é adotada no Brasil. Teoria da representação: equipara o agente público à figura do tutor ou curador, que representa os incapazes. Dessa forma, o agente público seria o representante do Estado por força de lei. Essa teoria foi criticada por diversos motivos: (i) por equiparar a pessoa jurídica ao incapaz; (ii) por representar a ideia de que o Estado confere representantes a si mesmo, quando não é isso que ocorre na tutela e curatela; (iii) apresenta o inconveniente de que, quando o representante ultrapassasse os poderes da representação, a pessoa jurídica não responderia por esses atos aos terceiros prejudicados. Também não é uma teoria adotada no Brasil. 11 Barchet, 2008, p. 25. 12 Di Pietro, 2014, p. 589. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 15 90 Teoria do órgão: a pessoa jurídica manifesta sua vontade por meio de órgãos, de modo que quando os agentes que os compõem manifestam a sua vontade, é como se o próprio Estado o fizesse. Dessa forma, substitui-se a ideia de representação por imputação. De acordo com Otto Gierke, idealizador dessa teoria, o órgão parte do corpo da entidade e, assim, todas as suas manifestações de vontade são consideradas como da própria entidade. Esta é a teoria adotada no Brasil. A teoria do órgão fundamenta-se no princípio da imputação volitiva (teoria da imputação), que significa que a manifestação emanada de um órgão – e materializada pelo respectivo agente público – é atribuída externamente à pessoa jurídica a cuja estrutura organizacional pertença. Dessa forma, quando um órgão externa a vontade, é a própria entidade, sob o ponto de vista jurídico, que a manifesta de forma a produzir os efeitos jurídicos.13 Maria Di Pietro ensina que, enquanto a teoria da representação considera a existência da pessoa jurídica e do representante como dois entes autônomos, a teoria do órgão funde os dois elementos, concluindo que o órgão é parte integrante do Estado. A teoria do órgão é utilizada para justificar a validade dos atos praticados por “funcionário de fato”14. Desde que a atividade provenha de um órgão, não tem relevância o fato de ter sido praticado por um agente que não tenha investidura legítima. Basta a aparência de legalidade e o exercício da atividade pelo órgão, pois os efeitos da conduta serão imputados à pessoa jurídica.15 Esse é o ponto fundamental para entender o que é um órgãopúblico. O órgão nada mais é do que a parte de um todo. É o mesmo raciocínio do corpo humano. O órgão (fígado, estômago, rim) não existe sozinho, ele depende da pessoa. Da mesma forma, cada órgão desempenha uma atividade que, na verdade, é imputada à pessoa. É com fundamento nessa teoria que os órgãos, mesmo sendo despersonalizados, podem exercer as funções superiores de direção ou mesmo as funções meramente executivas. 13 Carvalho Filho, 2007. 14 Segundo Celso Antônio Bandeira de Mello (2014, p. 249), o “funcionário de fato” é “aquele cuja investidura foi irregular, mas cuja situação tem aparência de legalidade. Em nome do princípio da aparência, da boa-fé dos administrados, da segurança jurídica e do princípio da presunção de legalidade dos atos administrativos reputam-se válidos os atos por ele praticados, se por outra razão não forem viciados”. Por exemplo, se determinado agente encontrar-se em uma repartição pública, mas, depois de alguns meses, constatar-se que sua investidura ocorreu de maneira irregular – como em decorrência da nulidade do concurso público – os atos praticados por ele serão considerados válidos, uma vez que se considera que foram realizados pelo órgão e, por conseguinte, imputados à pessoa jurídica a que pertence. 15 Carvalho Filho, 2014, p. 13. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 16 90 Nesse contexto, quando afirmamos que os órgãos são “centros de competências”, significa que eles são unidades que receberam determinadas atribuições, devendo desempenhá-las, por meio de seus agentes, em nome da entidade (política ou administrativa) que compõem. Logo, quando um ministério firma um contrato, não o faz em seu nome, mas no da União, entidade a que pertence. Isso porque os órgãos não podem adquirir direitos e obrigações. No mesmo sentido, se o ministério descumprir o contrato, eventual demanda judicial terá como polo passivo a União, e não o órgão público. Capacidade processual Segundo o Código de Processo Civil: Art. 70. Toda pessoa que se encontre no exercício de seus direitos tem capacidade para estar em juízo. Por conseguinte, a regra geral é que os órgãos não possuem capacidade processual, uma vez que são figuras despersonalizadas. Assim, entende-se que os órgãos não podem figurar em nenhum dos polos de uma relação processual. Todavia, o entendimento tem evoluído para permitir que determinados órgãos públicos, de natureza constitucional, possam impetrar mandado de segurança, na defesa de suas competências, quando violado por outro órgão. Essa capacidade processual excepcional alcança somente os órgãos mais elevados do Poder Público, ou seja, aqueles que recebem suas competências diretamente da Constituição Federal. São os chamados órgãos independentes, a exemplo da Presidência da República, Câmara dos Deputados, Senado Federal, STF, STJ, TCU, MPU, etc. – sem deixar de incluir os seus simétricos nos demais entes da Federação. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 17 90 Por exemplo, já se admitiu mandado de segurança impetrado por Câmara Municipal contra o Prefeito Municipal para obrigá-lo a prestar contas, atendendo ao preceito do art. 3116 da Constituição Federal, que atribui ao Poder Legislativo Municipal o exercício do controle externo do Poder Executivo.17 Outra exceção decorre do Código de Defesa do Consumidor (Lei 8.078/1990), dispondo que são legitimados para promover a liquidação e execução de indenização “as entidades e órgãos da administração pública, direta ou indireta, ainda que sem personalidade jurídica, especificamente destinados à defesa dos interesses e direitos protegidos por este Código” (art. 82, III). Criação dos órgãos públicos A criação dos órgãos públicos deve ocorrer na forma prevista na Constituição, existindo uma disciplina diferente para cada Poder. O Poder Executivo depende de lei em sentido formal para a criação ou extinção de órgãos públicos da Administração Direta (CF, art. 61, §1º, II, “e”). Nesse caso, a lei será de iniciativa do chefe do Poder Executivo (Presidente, governadores, prefeitos), devendo ser aprovado pelo Poder Legislativo. A organização e o funcionamento dos órgãos da Administração Direta, quando não implicarem “aumento de despesa nem a criação ou extinção de órgãos públicos”, será realizada por meio de decreto do Poder Executivo (CF, art. 84, VI, “a”18). São os chamados decretos autônomos. Nesses casos, os órgãos já foram criados por lei, sendo disciplinada apenas a organização e o seu funcionamento por decreto. No Poder Legislativo, compete à Câmara dos Deputados e ao Senado Federal dispor, por atos próprios de cada Casa, sobre a sua organização, funcionamento, criação e extinção de órgãos públicos (Câmara: 51, IV; Senado: art. 52, XIII; tudo da CF). Já no Poder Judiciário, a criação, extinção e organização da estrutura judiciária depende de lei de iniciativa do Supremo Tribunal Federal, dos Tribunais Superiores e dos Tribunais de Justiça, conforme o caso, nos termos do art. 96, II, “c” e “d” da CF. A mesma regra se aplica ao Ministério Público (CF, art. 127, §2º) e ao Tribunal de Contas (CF, art. 73, caput), que podem iniciar o processo legislativo para dispor sobre sua organização e funcionamento. Ressalva-se, no entanto, que se a questão perguntar genericamente como são criados e extintos os órgãos públicos, devemos responder que depende da edição de lei, uma vez que a situação no âmbito do Poder Legislativo constitui apenas uma exceção. 16 CF/88: “Art. 31. A fiscalização do Município será exercida pelo Poder Legislativo Municipal, mediante controle externo, e pelos sistemas de controle interno do Poder Executivo Municipal, na forma da lei.” 17 TJ-RJ, MS 2008.004.00067, Rel. Min. MARCOS ALCINO DE AZEVEDO TORRES, publ. em 18/9/2009. 18 Art. 84. Compete privativamente ao Presidente da República: [...] VI – dispor, mediante decreto, sobre: a) organização e funcionamento da administração federal, quando não implicar aumento de despesa nem criação ou extinção de órgãos públicos; Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 18 90 (SEFIN RO - 2018) Centros de competência especializada dispostos na intimidade de uma pessoa jurídica, sem personalidade jurídica e vontade próprias, com intenção de garantir a especialização nas atividades prestadas com maior eficiência, são chamados pela doutrina de Direito Administrativo de órgãos, sejam da Administração Direta, sejam as entidades de direito público da Administração Indireta, e somente podem ser criados ou extintos por meio de lei. Comentários: os órgãos públicos são centros de competência sem personalidade jurídica. Com efeito, em virtude da teoria da imputação, podemos fizer que os órgãos não possuem vontade própria, já que as suas manifestações são imputadas ao ente do qual fazem parte. Ademais, eles representam meio para especializar tarefas e aumentar a eficiência. Normalmente, utiliza-se a expressão especialização para a descentralização, mas também não é errado dizer que os órgãos são criados para se especializar em determinada área. Com efeito, podemos identificar os órgãos tanto da Administração direta como na Administração indireta, já que eles são distribuições internas de competências. Por exemplo, uma autarquia pode se subdividir internamente em unidades regionais, que serão seus órgãos internos. Logo, o item está correto! Classificação Há diversas classificações dos órgãos públicos, porém a mais utilizada é a de Hely Lopes Meirelles, conforme iremos tratar a seguir. Quanto à posição estatal Quantoà posição estatal – posição ocupada pelos órgãos na escala governamental ou administrativa – os órgãos classificam-se em independentes, autônomos, superiores e subalternos: Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 19 90 ==2537cb== a) órgãos independentes – são os originários da Constituição Federal e representativos dos Poderes de Estado – Presidência da República, Câmara dos Deputados, Senado Federal, STF, STJ e demais tribunais, TCU, MPU etc. (e seus representantes simétricos nos entes da Federação). Estão no ápice da pirâmide governamental, não possuindo qualquer subordinação hierárquica ou funcional. São também chamados de órgãos primários. Exercem precipuamente funções políticas, judiciais ou quase judiciais, outorgadas diretamente pela Constituição para serem desempenhadas por seus membros, conhecidos como agentes políticos. b) órgãos autônomos – estão localizados na cúpula da Administração, imediatamente abaixo dos órgãos independentes e diretamente subordinados a seus chefes. Possuem ampla autonomia administrativa, financeira e técnica, caracterizando-se como órgãos diretivos, com funções precípuas de planejamento, supervisão, coordenação e controle. São exemplos: os ministérios, as secretarias dos estados e municípios, a Advocacia-Geral da União, etc. c) órgãos superiores – são os que detêm poder de direção, controle, decisão e comando de assuntos de sua competência específica, mas sempre estão sujeitos à subordinação e ao controle hierárquico de uma chefia mais alta. Não gozam de autonomia administrativa nem financeira. Representam as primeiras repartições dos órgãos independentes a autônomos, recebendo diferentes denominações, como: gabinetes, secretarias-gerais, inspetorias-gerais, procuradorias, coordenadorias, departamentos, divisões, etc. d) órgãos subalternos – são os órgãos que exercem predominantemente atribuições de execução, com reduzido poder decisório. Encontram-se subordinados a vários níveis hierárquicos superiores. Destinam-se à realização de serviços de rotina, cumprimento de decisões, atendimento ao público, etc. São exemplos as portarias e seções de expediente. Quanto à estrutura Quanto à estrutura, os órgãos classificam-se em simples ou compostos. a) simples ou unitários: são aqueles constituídos por um só centro de competência. Isso não significa que não existem vários cargos dentro do órgão. Na verdade, o que caracteriza os órgãos simples é Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 20 90 a inexistência de outros órgãos em sua estrutura, ou seja, a inexistência de desconcentração. As portarias são exemplos de órgãos unitários, pois desempenham suas competências de forma concentrada, ainda que existem vários cargos ou agentes em sua estrutura. b) órgãos compostos: são os que reúnem diversos órgãos menores em sua estrutura, como consequência da desconcentração administrativa. Por exemplo, o Ministério da Justiça pode se dividir em diversos órgãos, como o Departamento de Polícia Federal, que, por sua vez, poderá se subdividir em diversos outros órgãos (divisões, coordenadorias, superintendências, etc.). Todas essas subdivisões formarão novos órgãos compostos até chegar ao nível mais baixo, que são os “serviços”. Esses últimos órgãos não admitem mais subdivisão, ou seja, não podem mais se desconcentrar, logo serão órgãos unitários. Quanto à situação funcional Quanto à situação funcional os órgãos classificam-se em singulares ou colegiados: a) órgãos singulares ou unipessoais – são os que atuam e decidem através de um único agente, que é seu chefe ou representante. O órgão pode possuir centenas ou milhares de agentes, mas as decisões são tomadas por uma única pessoa, o chefe. São exemplos: a Presidência da República, as governadorias dos estados, as prefeituras municipais. b) órgãos colegiados ou pluripessoais – são aqueles que atuam ou decidem pela manifestação conjunta de seus membros. Não prevalece a vontade individual do chefe ou presidente, nem as decisões isoladas de seus membros, mas sim a vontade conjunta, emanada por meio de deliberações aprovadas pela maioria. São exemplos o Congresso Nacional (as corporações legislativas em geral), o STF e demais tribunais, o TCU, etc. Após a apresentação das classificações de Hely Lopes Meirelles, vamos apresentar outras três classificações, uma de Bandeira de Mello e outras duas de Di Pietro. Quanto às funções que exercem Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 21 90 Celso Antônio Bandeira de Mello classifica os órgãos quanto às funções que exercem em: a) órgãos ativos: são os que expressam decisões estatais para o cumprimento dos fins da pessoa jurídica. Ex.: os Ministérios; b) de controle: são os prepostos a fiscalizar a controlar a atividade de outros órgãos ou agentes. Ex.: TCU; c) consultivos: são os órgãos de aconselhamento e elucidação (emissão de pareceres) para que sejam tomadas as providências pertinentes pelos órgãos ativos. Quanto à sua estrutura Maria Sylvia Zanella Di Pietro, citando os ensinamentos de Renato Alessi, apresenta a classificação dos órgãos públicos, quanto à sua estrutura, em burocráticos e colegiados: a) burocráticos: estão a cargo de uma só pessoa física ou de várias pessoas físicas ordenadas verticalmente, ou seja, encontram-se ligadas por uma estrutura hierárquica, ainda que cada uma possa atuar individualmente – p. ex.: a Diretoria, sabe-se que existe um Diretor (responsável pelo órgão), mas existem diversas pessoas ligadas a ele que podem atuar individualmente: secretários, datilógrafos, contínuos, etc. Este tipo de estrutura se equipara aos órgãos unipessoais; b) colegiados: são formados por uma coletividade de pessoas físicas ordenadas horizontalmente, isto é, com base em uma relação de coordenação e coligação, e não de hierarquia. Quanto à composição Quanto à composição, Maria Sylvia Zanella Di Pietro apresenta a seguinte classificação: a) singulares: quando integrados por um único agente – ex.: a Presidência da República e a diretoria de uma escola; b) coletivos: quando integrados por vários agentes – ex.: Tribunal de Impostos e Taxas. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 22 90 Hely Lopes Meirelles Posição estatal Independentes Previstos na Constituição: PR, SF, CD, STF, TCU, MPU Autônomos Cúpula da Adm, abaixo dos independentes: ministérios, secretárias; Superiores Órgãos de direção e comando: gabinetes, secretarias-gerais, divisões; Subalternos Atividades de execução: portarias, seções de expediente. Estrutura Simples ou unitários Único centro de competência: portarias Compostos Reúnem diversos órgãos subordinados (desconcentração) Atuação Funcional Singulares ou unipessoais Decisão em um único chefe: presidência, governadorias, prefeituras; Colegiados ou pluripessoais Decisão por um conjunto de membros: tribunais Bandeira de Mello Funções que exercem Ativos Expressam as decisões estatais: ministérios De controle Fiscalizam e controlam: TCU Consultivos Aconselham: advocacias, procuradorias Maria Di Pietro Quanto à estrutura Burocráticos Ordenação vertical dos agentes, subordinados a um chefe: diretorias (equivale aos unipessoais) Colegiados Decisões tomadas pela coletividade (equivale aos pluripessoais) Quanto à composição Singulares Integrado por um único agente Coletivos Integrado por vários agentesVamos resolver algumas questões! (TRT MA - 2014) Considere a seguinte assertiva: A Câmara dos Deputados classifica-se, quanto à posição estatal, como órgão independente. Isto porque, dentre outras características, não possui qualquer Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 23 90 subordinação hierárquica ou funcional, estando sujeita apenas a controle constitucional. A assertiva em questão está correta, pois trata-se de órgão independente, estando a fundamentação também correta. Comentários: a Câmara dos Deputados encontra-se no ápice da estrutura do Poder Legislativo federal, logo constitui órgão independente, em virtude da ausência de qualquer subordinação a outro órgão. Portanto, a afirmação está correta e a justificativa também está certa. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 24 90 ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA Administração Direta A Administração Direta é o conjunto de órgãos que integram as pessoas políticas ou federativas (União, estados, Distrito Federal e municípios), aos quais foi atribuída a competência para o exercício das atividades administrativas do Estado de forma centralizada.1 Trata-se, portanto, dos serviços prestados diretamente pelas entidades políticas, utilizando-se, para tanto, de seus órgãos internos, que são centros de competências despersonalizados. Conquanto a função administrativa seja exercida com predominância pelo Poder Executivo, devemos saber que existem órgãos da Administração Direta em todos os Poderes e em todas as esferas da federação. É possível extrair este entendimento diretamente do art. 37, caput, da Constituição Federal, que dispõe que “A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência [...]”. Assim, é possível afirmar que existem órgãos da Administração Direta atuando na administração federal, estadual, distrital e municipal, nos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. No entanto, o que nos interessa é estudar o Poder Executivo, uma vez que quase todos os órgãos da Administração Direta encontram-se subordinados a este Poder. Nessa linha, vale mencionar o texto do Decreto Lei 200/1967, aplicável exclusivamente ao Poder Executivo Federal, que dispõe que a “Administração Direta, que se constitui dos serviços integrados na estrutura administrativa da Presidência da República e dos Ministérios” (art. 4º, I). Assim, no âmbito do Poder Executivo, a Administração Direta é formada pela estrutura da Presidência da República, incluindo a Casa Civil, e pelos Ministérios e seus órgãos subordinados. Outros exemplos de órgãos da Administração Direta são a Secretaria da Receita Federal, que é um órgão subordinado ao Ministério da Economia; o Departamento de Polícia Federal e o Departamento de Polícia Rodoviária Federal, órgãos subordinados ao Ministério da Justiça. Nos estados, Distrito Federal e municípios, a lógica é a mesma. Teremos os órgãos diretamente subordinados aos governos estaduais e prefeituras municipais e os órgãos subordinados às secretarias. Assim, são exemplos de órgãos da Administração Direta municipal as secretarias de educação, saúde, obras, etc. 1 Carvalho Filho, 2014, p. 459. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 25 90 (PC GO - 2016) A administração direta da União inclui a Casa Civil. Comentários: a Casa Civil é um órgão do Poder Executivo federal diretamente ligado à estrutura da Presidência da República. Dessa forma, o item está correto, pois ela faz parte da Administração direta da União. Desta forma, a assertiva está correta. Administração Indireta A Administração Pública Indireta é composta pelas entidades administrativas, que possuem personalidade jurídica própria e são responsáveis por executar atividades administrativas de forma descentralizada. São elas: as autarquias, as fundações públicas e as empresas estatais (empresas públicas e sociedades de economia mista). As entidades da Administração Indireta não possuem autonomia política e estão vinculadas à Administração Direta. Vale dizer, a vinculação não é subordinação, mas apenas uma forma de controle finalístico para fins de enquadramento da instituição no programa geral do Governo e para garantir o atingimento das finalidades da entidade controlada. A organização clássica da Administração Pública decorre do Decreto Lei 200/1967, conforme consta em seu art. 4º: Art. 4° A Administração Federal compreende: I - A Administração Direta, que se constitui dos serviços integrados na estrutura administrativa da Presidência da República e dos Ministérios. II - A Administração Indireta, que compreende as seguintes categorias de entidades, dotadas de personalidade jurídica própria: a) Autarquias; Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 26 90 b) Empresas Públicas; c) Sociedades de Economia Mista. d) fundações públicas. Algumas observações são importantes. A primeira delas é que o Decreto Lei 200/1967 só se aplica ao Governo Federal, porém esse modelo de organização é adotado em todos os níveis de Federação, ou seja, temos esse modelo de Administração Indireta nas administrações estaduais, distrital e municipais. Além disso, a mesma observação sobre a possibilidade de existência de órgãos da Administração Direta em todos os Poderes, decorrente do texto do art. 37, caput, da Constituição Federal, se aplica à Administração Indireta. Vale transcrever o conteúdo do artigo novamente: Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência [...]: Daí decorre o entendimento que é possível existir uma entidade administrativa vinculada aos Poderes Legislativo ou Judiciário. É claro que, na prática, só observamos Administração Indireta vinculada ao Poder Executivo, mas, do Texto Constitucional, seria possível, por exemplo, o Poder Legislativo criar uma fundação responsável por fazer pesquisas sobre o impacto de possíveis propostas legislativas. Outro ponto que vale ser mencionado é quanto à definição que apresentamos acima para a Administração Indireta. A doutrina costuma dizer que a Administração Indireta é o conjunto de pessoas administrativas que, vinculadas à respectiva Administração Direta, têm o objetivo de desempenhar atividades administrativas de forma descentralizada.2 Entretanto, existem entidades administrativas que não desempenham atividade administrativa. É o caso das empresas públicas e sociedades de economia mista criadas com o objetivo de explorar atividades econômicas em sentido estrito3, conforme dispõe o art. 173 da Constituição Federal. Essas empresas estatais não prestam serviços públicos nem exercem atividades próprias da Administração Pública, mas, ainda assim, integram a Administração Indireta. Por fim, além dos quatro tipos de entidades administrativas previstas no DL 200/1967, devemos mencionar a existência dos chamados consórcios públicos. A doutrina apresenta entendimento diferente se elas representam ou não uma quinta forma de pessoa jurídica da Administração Indireta. A doutrinadora Maria Sylvia Zanella Di Pietro4, por exemplo, informa que a Administração Indireta é composta pelas autarquias, fundações instituídas peloPoder Público, as sociedades de economia mista, as empresas públicas e os consórcios públicos. Entretanto, Marcelo Alexandrino e Vicente Paulo entendem que não se trata de uma quinta forma de pessoa jurídica da administração indireta. Perfilhamos com o entendimento dos autores, uma vez que os 2 e.g. Carvalho Filho, 2014, p. 463. 3 Alexandrino e Paulo, 2011, p. 29. 4 Di Pietro, 2014, p. 493. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 27 90 consórcios públicos, conforme dispõe a Lei 11.107/2005, podem adquirir personalidade jurídica de direito público ou de direito privado. Na primeira hipótese, serão consideradas associações públicas, integrando a administração indireta de todos os entes da Federação consorciados (art. 6º, §1º). Nesse caso, nada mais serão do que uma espécie de autarquias, conforme se depreende do art. 41, IV, do Código Civil, com a redação dada pela própria Lei 11.107/2005: Art. 41. São pessoas jurídicas de direito público interno: [...] IV - as autarquias, inclusive as associações públicas. Na segunda hipótese, ou seja, quando adquirirem personalidade jurídica de direito privado, limitando-se à interpretação da Lei 11.107/2005, os consórcios públicos não integram formalmente a administração pública. Logo, também não podem ser considerados uma nova espécie de entidade administrativa. Os consórcios públicos constituídos na forma de associação pública (direito público) integram a Administração Indireta de todos os entes consorciados. (TCE PB - 2018) As entidades que integram a administração pública indireta incluem as autarquias, as empresas públicas e as sociedades de economia mista. Comentários: fazem parte da Administração indireta as autarquias, as fundações públicas, as empresas públicas e as sociedades de economia mista. Note que a questão não menciona todas as entidades, mas está correta, pois a pergunta não foi taxativa. Vale dizer: entre as entidades da Administração indireta, incluem-se as autarquias, empresas públicas e sociedades de economia mista. Correta, portanto, a assertiva. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 28 90 Características gerais As entidades da administração indireta – autarquias, fundações públicas, empresas públicas e sociedades de economia mista – possuem algumas características comuns, são elas: a) personalidade jurídica própria e, por isso, possuem responsabilidade por seus atos, patrimônio e receita próprios e autonomia técnica, administrativa e financeira; b) criação e extinção5 condicionada à previsão legal (lei cria ou autoriza a criação); c) finalidade específica, definida pela lei de criação; d) não estão subordinadas à Administração Direta, mas estão sujeitas a controle. A personalidade jurídica própria significa que elas podem ser sujeitos de direitos e obrigações, sendo, por conseguinte, responsáveis por seus atos. Para tanto, elas possuem patrimônio próprio, independentemente de sua origem. Quando de sua criação, a entidade política que as criou transfere parte de seu patrimônio que, a partir daí, passa a pertencer ao novo ente, servindo para viabilizar a prestação de suas atividades e para garantir o cumprimento de suas obrigações. Por exemplo, quando o Governo Federal criou a Agência Nacional de Aviação Civil – Anac, ocorreu a transferência de patrimônio que antes pertencia ao Comando da Aeronáutica – órgão da Administração Direta –, conforme determinou o art. 32 da Lei 11.182/2005 (Lei de criação da Anac): “Art. 32. São transferidos à ANAC o patrimônio, o acervo técnico, as obrigações e os direitos de organizações do Comando da Aeronáutica, correspondentes às atividades a ela atribuídas por esta Lei”. Ainda em decorrência da personalidade jurídica própria, as entidades administrativas possuem capacidade de autoadministração e receita própria. A primeira é representada por sua autonomia técnica, administrativa e financeira. No que se refere à receita própria, essas entidades podem receber dotações orçamentárias, decorrentes da Administração Direta, ou como resultado de suas próprias atividades.6 A segunda característica comum é a criação ou extinção condicionada à previsão em lei específica, conforme estabelece os art. 37, XIX, da CF/88: XIX – somente por lei específica poderá ser criada autarquia e autorizada a instituição de empresa pública, de sociedade de economia mista e de fundação, cabendo à lei complementar, neste último caso, definir as áreas de sua atuação; 5 Vamos analisar adiante que não há tanto rigor no que se refere à extinção de empresas estatais. 6 Por exemplo, a Agência Nacional de Telecomunicações – Anatel, autarquia do Governo Federal, pode receber receitas oriundas de taxas devidas pelas concessionárias, permissionárias e autorizadas dos serviços de telecomunicações ou, ainda, receber dotações consignadas no Orçamento Geral da União. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 29 90 Nesse contexto, Fernanda Marinela dispõe que por “lei específica” devemos entender a edição de uma lei ordinária que terá como finalidade criar autarquias ou autorizar a criação das demais pessoas jurídicas.7 Na prática, a “lei específica” não significa que a lei tratará tão somente da criação da entidade. Por exemplo, a Lei 10.233/2001 criou três autarquias – Agência Nacional de Transportes Terrestres; Agência Nacional de Transportes Aquaviários; e Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes – e ainda dispôs sobre o Sistema Federal de Viação e ainda criou um Conselho. Assim, o que não pode ocorrer é a criação ou autorização genérica dessas entidades. Por exemplo, não pode uma lei autorizar o Poder Executivo a “criar empresas públicas”. Cada entidade criada ou autorizada deve receber disposição legal para isso, ainda que a lei trate de outras matérias conjuntamente. Da mesma forma como ocorre na criação, também se exige previsão legal para extinguir ou autorizar a extinção da entidade administrativa. Isso significa que não se pode extinguir a entidade por mero ato administrativo, uma vez que deve haver paralelismo – o que foi feito por lei, somente por lei poderá ser desfeito. A terceira característica é a finalidade específica, definida pela lei de criação (ou autorização). Assim, a entidade se encontra vinculada a este tipo de atividade, atendendo ao princípio da especialidade. Se a pessoa jurídica descumprir a sua finalidade, atuando em um escopo mais amplo do que o previsto, sua atuação será ilegal, não podendo o ato administrativo contrariar aquilo que foi definido em lei.8 Por exemplo, o Departamento Nacional de Infraestrutura – DNIT, autarquia federal criada pela Lei 10.233/2001, tem o seu objetivo definido no art. 80 da Lei, compreendendo a implementação, em sua esfera de atuação, da política formulada para a administração da infraestrutura do Sistema Federal de Viação. Essa será a finalidade específica do DNIT, ao qual o Departamento encontra-se vinculado. A última característica comum às entidades administrativas é que elas não estão subordinadas à Administração Direta, embora estejam sujeitas ao controle destas. Já discutimos acima que, no caso de descentralização, não há relação hierárquica. Contudo, as pessoas jurídicas integrantes da Administração Indireta encontram-se vinculadas à Administração Direta, em geral ao ministério da área correspondente. Por exemplo, a Anatel, que é uma autarquia sob regime especial criada com a função de órgão regulador das telecomunicações, está vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações.Da mesma forma, o INSS, que também é autarquia, tem por finalidade promover o reconhecimento de direito ao recebimento de benefícios administrados pela Previdência Social, e, portanto, está vinculado ao Ministério da Economia. A vinculação, no entanto, não é subordinação nem relação hierárquica, mas tão somente uma forma de assegurar o controle para fins de cumprimento das atividades da entidade. Nessa linha, o Decreto Lei 200/67 esclarece que o controle da Administração Indireta tem por objetivo (art. 26): a) assegurar o cumprimento dos objetivos fixados no seu ato de criação; b) harmonizar sua atuação com a política e programação do Governo; 7 Apesar das considerações da autora, vamos observar adiante que, além das autarquias, as fundações públicas de direito público também são criadas diretamente por lei específica. 8 Marinela, 2013, p. 112. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 30 90 ==2537cb== c) assegurar a obtenção da eficiência administrativa; d) assegurar a autonomia administrativa, operacional e financeira. Por isso, diz-se que, entre as entidades administrativas e a Administração Direta, ocorre o chamado controle finalístico, também chamado de supervisão ministerial. Além do controle da administração direta, as pessoas jurídicas da administração indireta realizam o controle sobre os seus próprios atos – controle interno – e também estão submetidos a ações de órgãos estranhos à sua estrutura - controle externo. Assim, essas pessoas jurídicas se submetem à fiscalização contábil, financeira e orçamentária dos Tribunais de Contas; às ações do Ministério Público; e ao controle de legalidade do Poder Judiciário. Além disso, também podemos mencionar as formas de controle da sociedade, como a ação popular ou representações aos órgãos de controle do Estado. Antes de finalizarmos, cumpre destacar que a doutrina diverge sobre a classificação do controle realizado pela Administração Direta sobre a Indireta. Instituição das entidades da Administração Indireta As entidades da Administração Indireta podem ser de direito público ou de direito privado. O que vai definir isso será a forma de criação: serão de direito público quando criadas diretamente por lei específica e de direito privado quando forem criadas pelo registro de seu ato constitutivo, após autorização para criação em lei específica. A matéria é tratada na Constituição Federal no inc. XIX do art. 37, nos seguintes termos: XIX – somente por lei específica poderá ser criada autarquia e autorizada a instituição de empresa pública, de sociedade de economia mista e de fundação, cabendo à lei complementar, neste último caso, definir as áreas de sua atuação; A redação do inciso mencionado acima decorre de alteração da Emenda Constitucional 19/1998. Acontece que, na antiga redação, as fundações também eram criadas diretamente por lei. Isso gerou muita polêmica e divergência sobre a natureza jurídica e forma de criação das fundações públicas. Atualmente, no entanto, o assunto foi resolvido pelo STF, que assentou o entendimento que atualmente existem dois tipos de fundações públicas: as de direito público – criadas diretamente por lei específica; e as de direito privado, criadas pelo registro de seu ato constitutivo, após receberem autorização legislativa. Dessa forma, podemos concluir que as autarquias e fundações públicas de direito público são criadas diretamente por lei específica. Ou seja, logo após a promulgação de suas leis, as entidades adquirem personalidade jurídica, independentemente de qualquer procedimento complementar. Por outro lado, as empresas públicas, as sociedades de economia mista e as fundações públicas de direito privado são criadas após o registro de seu ato constitutivo no órgão competente, dependendo, para isso, de autorização legislativa. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 31 90 O procedimento é o seguinte: a lei autoriza a instituição da entidade administrativa de direito privado; em seguida, o chefe do Poder Executivo edita, por meio de decreto, o ato constitutivo da entidade; por fim, o decreto é levado à Junta Comercial ou ao Registro Civil de Pessoas Jurídicas, conforme o caso; após a efetivação do registro, a entidade adquire personalidade jurídica própria. Quanto às fundações públicas, ainda vale destacar que a parte final do inc. XIX do art. 37 da CF/88 determina a edição de lei complementar para definir área de atuação das fundações públicas. Essa lei complementar irá balizar a área de atuação tanto das fundações públicas de direito público quanto das de direito privado. No entanto, até o presente momento, a mencionada lei não foi editada. O quadro abaixo resume os procedimentos de instituição das pessoas jurídicas da Administração Indireta: Entidade administrativa Aquisição da personalidade jurídica Natureza jurídica ▪ Autarquias Vigência da lei de criação Direito Público ▪ Fundações públicas Vigência da lei de criação Direito Público Registro do ato constitutivo, após autorização legislativa. Direito Privado ▪ Empresas públicas; ▪ Sociedades de economia mista Registro do ato constitutivo, após autorização legislativa. Direito Privado Encerrando o assunto, vale destacar novamente o que foi abordado no capítulo anterior. A doutrina entende que a extinção de uma entidade administrativa deveria ocorrer pela mesma forma de sua criação. Diz-se, assim, que há simetria entre a criação e a extinção. Em outros termos: se é necessária uma lei específica para criar, teoricamente haveria a necessidade de uma lei para extinguir. Entretanto, no julgamento da ADI 6241, o STF firmou um posicionamento menos restritivo para e extinção das empresas estatais. Na visão do STF, basta uma autorização legislativa genérica, prevista em lei que veicule programa de desestatização, para autorizar a desestatização (privatização ou extinção) de empresa estatal. Por exemplo, o Programa Nacional de Desestatização – PND (Lei 9.491/1997) e o Programa de Parceria de Investimentos (Lei 13.334/2016) autorizam genericamente a desestatização de empresas estatais, conforme critérios definidos nestas leis. Contudo, duas regras devem ser observadas: (i) a lei que autorizar genericamente as extinções de empresas estatais não pode “dar uma carta em branco” para o Poder Executivo: a norma deve estabelecer uma política pública a ser atingida, estabelecendo objetivos e regras. Por exemplo, a Lei do PND definiu uma política de redução do tamanho do Estado, definindo casos de empresas estatais que poderiam ser extintas; (ii) não será possível extinguir uma empresa estatal a partir de autorização legislativa genérica quando a própria lei que autorizar a criação da entidade exigir uma lei específica para autorizar a sua extinção. Por exemplo: a Lei X autorizou a criação de empresa estatal e, em um dos seus artigos, constava que Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 32 90 a extinção dessa entidade somente seria possível mediante autorização legislativa específica. Nesse caso, a autorização genérica não será suficiente. Em resumo, podemos dizer o seguinte: a) para as autarquias e fundações públicas deve-se observar a simetria, ou seja, se precisa de lei específica para criar ou autorizar a criação, haverá necessidade de lei específica para extinguir ou autorizar a extinção; b) para as empresas estatais, em regra, não há necessidade de lei específica, bastante uma autorização legislativa genérica, que estabelece uma política de extinção das estatais. Nesse caso, somente haveránecessidade de autorização legislativa específica se a lei que autorizou a criação trouxe expressamente esta necessidade. (EBSERH - 2018) Somente por decreto específico poderá ser criada autarquia e autorizada a instituição de empresa pública, de sociedade de economia mista e de fundação, cabendo à lei complementar definir as áreas de atuação. Comentários: o item é quase reprodução do art. 37, XIX, da Constituição Federal. Contudo, a criação e extinção de entidades administrativas depende da edição de lei específica (e não de decreto). Por isso, a assertiva está incorreta. Extinção de entidade administrativa Autarquias e fundações públicos Por lei específica ou por autorização em lei específica Empresas estatais Regra: é suficiente a autorização legislativa genérica Exceto: se a lei que autorizar a instituição exigir lei específica para autorizar a extinção Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 33 90 AUTARQUIAS Conceito O Prof. Celso Antônio Bandeira de Mello define autarquia como “pessoas jurídicas de Direito Público de capacidade exclusivamente administrativa”. Para José dos Santos Carvalho Filho, pode-se conceituar a autarquia como a “pessoa jurídica de direito público, integrante da Administração Indireta, criada por lei para desempenhar funções que, despidas de caráter econômico, sejam próprias e típicas do Estado”. Outra importante definição é da lavra da Prof.ª Maria Sylvia Zanella Di Pietro, que define autarquia como a: [...] a pessoa jurídica de direito público, criada por lei, com capacidade de autoadministração, para o desempenho de serviço público descentralizado, mediante controle administrativo exercido nos limites da lei. No ordenamento jurídico, é muito utilizada a definição prevista no Decreto-Lei 200/1967, que, apesar de ser aplicado exclusivamente à Administração Pública federal, costuma servir de referência para os demais entes. Vejamos, então, o conteúdo do art. 5º, I, do DL 200/1967: I - Autarquia - o serviço autônomo, criado por lei, com personalidade jurídica, patrimônio e receita próprios, para executar atividades típicas da Administração Pública, que requeiram, para seu melhor funcionamento, gestão administrativa e financeira descentralizada. De forma mais simples, as autarquias representam uma extensão da Administração Direta, pois, em regra, realizam atividades típicas de Estado, que só podem ser realizadas por entidades de direito público. Assim, elas são a personificação de um serviço retirado da Administração Direta. Elas são criadas para fins de especialização da Administração Pública, pois desempenham um serviço específico, com maior autonomia em relação ao Poder central. Segundo Maria Sylvia Zanella Di Pietro, há certo consenso entre os autores ao apontarem as características das autarquias: ▪ criação por lei; ▪ personalidade jurídica pública; ▪ capacidade de autoadministração; ▪ especialização dos fins ou atividades; ▪ sujeição a controle ou tutela. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 34 90 Assim como todas as demais entidades administrativas, não se encontram subordinadas a nenhum órgão da Administração Direta, ou seja, elas não se submetem ao controle hierárquico da administração centralizada, mas estão vinculadas à pessoa política que a criou, normalmente por intermédio do ministério da área correspondente. Vejamos alguns exemplos de autarquias federais: ▪ Instituto Nacional do Seguro Social – INSS: autarquia vinculada ao Ministério da Economia; ▪ Agência Nacional de Telecomunicações – Anatel: autarquia vinculada ao Ministério das Comunicações. Quando se relacionam com os administrados, justamente pelo fato de serem pessoas jurídicas de direito público, as autarquias agem como se fossem a própria Administração Pública central e, portanto, gozam das mesmas prerrogativas e restrições que informam o regime jurídico-administrativo. Ademais, como possuem personalidade jurídica própria, os seus direitos e obrigações são firmados em seu próprio nome. Com efeito, ainda em decorrência da personalidade jurídica própria, como essas entidades recebem competência em lei para desempenhar determinado serviço (princípio da especialização), as autarquias são chamadas de serviço público personalizado. No que se refere à relação com a Administração central, a Prof.ª Maria Di Pietro ensina o seguinte: Perante a Administração Pública centralizada, a autarquia dispõe de direitos e obrigações; isto porque, sendo instituída por lei para desempenhar determinado serviço público, do qual passa a ser titular, ela pode fazer valer perante a Administração o direito de exercer aquela função, podendo opor-se às interferências indevidas; vale dizer que ela tem o direito ao desempenho do serviço nos limites definidos em lei. Paralelamente, ela tem a obrigação de desempenhar suas funções; originariamente, essas funções seriam do Estado, mas este preferiu descentralizá- las a entidades às quais atribuiu personalidade jurídica, patrimônio próprio e capacidade administrativa; essa entidade torna-se a responsável pela prestação do serviço; em consequência, a Administração centralizada tem que exercer o controle para assegurar que essa função seja exercida. Complementa a autora afirmando que esse duplo aspecto – direito e obrigação – dá margem a outra dualidade: independência e controle. Dessa forma, a capacidade de autoadministração é exercida nos limites da lei; enquanto, da mesma forma, os atos de controle não podem ultrapassar os limites legais. (TCE PB - 2018) Serviço autônomo com personalidade jurídica de direito público, patrimônio e receita próprios, criado por lei para executar atividades típicas da administração pública que requeiram, para seu melhor funcionamento, gestão administrativa e financeira descentralizada é o conceito de autarquia. Comentários: perfeito! As autarquias são entidades de direito público; possuem seu próprio patrimônio e receita; são criadas por lei; e atuam de forma descentralizada. Vale lembrar que normalmente se utiliza a Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 35 90 expressão serviço público personalizado ou serviço autônomo para descrever a forma de criação dessas entidades. Logo, o item está correto! Criação e extinção Conforme já estudado anteriormente, tanto a criação, quanto a extinção das autarquias devem ocorrer por meio de lei específica, nos termos previstos no art. 37, XIX, da CF. Na esfera federal, a lei para a criação ou extinção das autarquias é de iniciativa privativa do Presidente da República, por força do art. 61, §1º, II, “e”1, da Constituição Federal. Essa regra aplica-se, por simetria, aos estados, Distrito Federal e municípios. Assim, caberá aos governadores e prefeitos a iniciativa de lei para a criação ou extinção de autarquia dentro da esfera de governo de cada um. Tanto a criação quanto a extinção de autarquia dependem de edição de lei específica. Entretanto, na hipótese de autarquia vinculada aos Poderes Legislativo ou Judiciário, a iniciativa de lei caberá ao respectivo chefe de Poder. (SEFIN RO - 2018) As autarquias são criadas por lei. Comentários: fácil demais, não!? As autarquias são efetivamente criadas por lei, “nascendo” com a vigência da lei de criação. Correta, portanto, a assertiva. Atividades desenvolvidas Segundo o DL 200/1967, as autarquias são criadas para executar atividades típicas da Administração Pública. A doutrina defende, então, que as autarquias devem executar serviços públicos de natureza social e atividadesadministrativas, excluindo-se os serviços e atividades de cunho econômico e mercantil.2 1 Art. 61. [...] § 1º - São de iniciativa privativa do Presidente da República as leis que: [...] II - disponham sobre: [...] e) criação e extinção de Ministérios e órgãos da administração pública, observado o disposto no art. 84, VI; 2 Carvalho Filho, 2014, p. 477. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 36 90 Marcelo Alexandrino e Vicente Paulo mencionam como atividades desenvolvidas pelas autarquias a prestação de serviços públicos em sentido amplo, a realização de atividades de interesse social e o desempenho de atividades que envolvam as prerrogativas públicas, como o exercício do poder de polícia. Com efeito, as autarquias podem ser criadas para o desempenho e fiscalização de obras, a exemplo do que faz o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes – DNIT, criado pela Lei 10.233/2001.3 Tutela ou controle do ente político Como já abordado, as autarquias, assim como as demais entidades administrativas, não estão subordinadas ao ente instituidor, ou seja, não há relação de hierarquia entre uma entidade autárquica e os órgãos da administração direta do ente político que as instituiu. Diz-se, no entanto, que há vinculação administrativa, normalmente com o ministério da área correspondente. Por exemplo, o DNIT está vinculado ao Ministério da Infraestrutura; o INSS está vinculado ao Ministério da Economia; a Anatel vincula-se ao Ministério das Comunicações; a Ancine4 encontra-se vinculada ao Ministério do Turismo; e assim por diante. O órgão da administração direta exerce sobre a autarquia o denominado controle finalístico – também conhecido como tutela administrativa ou supervisão (normalmente chamada de “supervisão ministerial” em decorrência da vinculação com os ministérios). A grande diferença do controle hierárquico (quando há relação de hierarquia) e o controle finalístico, é que o primeiro é mais amplo, sendo considerado presumido e permanente, abrangendo todos os aspectos da atuação do subordinado controlado, independentemente de previsão legal; o controle finalístico, por outro lado, só pode ocorrer nos limites expressamente previstos em lei. Ademais, o controle finalístico tem como o objetivo de verificação do enquadramento da instituição no programa geral do Governo e de seu acompanhamento para garantir o atingimento das finalidades da entidade controlada.5 (PC MA - 2018) As autarquias são pessoas jurídicas com capacidade de autodeterminação, patrimônio e receitas próprias, criadas por lei para o desempenho de atividades típicas do Estado, submetidas ao controle hierárquico pela administração pública direta. 3 Lei 10.233/2001: Art. 80. Constitui objetivo do DNIT implementar, em sua esfera de atuação, a política formulada para a administração da infra-estrutura do Sistema Federal de Viação, compreendendo sua operação, manutenção, restauração ou reposição, adequação de capacidade, e ampliação mediante construção de novas vias e terminais, segundo os princípios e diretrizes estabelecidos nesta Lei. 4 Agência Nacional do Cinema. 5 Meirelles, 2013, p. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 37 90 Comentários: as autarquias não se submetem ao controle hierárquico, uma vez que não há subordinação com o ente instituidor, mas apenas tutela ou controle finalístico. Desta forma, a assertiva está incorreta. Regime jurídico das autarquias Pessoal A Constituição Federal de 1988, na redação inicial do art. 39, determinava que a União, os estados, o Distrito Federal e os municípios deveriam instituir, no âmbito de sua competência, regime jurídico único (RJU) para os servidores da administração pública direta, das autarquias e das fundações públicas. Dessa forma, os entes da Federação deveriam instituir o mesmo regime jurídico para os servidores da administração direta, autárquica e fundacional. A Constituição não determinou que o regime devesse ser estatutário, apenas impôs que os entes adotassem um regime jurídico único. Contudo, o regime estatutário, em virtude das inúmeras garantias que representa ao servidor, foi o que prevaleceu.6 No entanto, a Emenda Constitucional 19/1998 alterou a redação do art. 39, caput, da Constituição, tendo por objetivo abolir o regime jurídico único. A nova redação, portanto, permitiu a adoção de regime jurídico múltiplo, ou seja, um mesmo ente poderia utilizar tanto o regime estatutário quanto o regime celetista para a administração direta, autarquias e fundações públicas. Para ter uma noção melhor, vamos comparar as duas redações do art. 39, caput, antes e pós EC 19/1998: Redação anterior à EC 19/1998: Art. 39. A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios instituirão, no âmbito de sua competência, regime jurídico único e planos de carreira para os servidores da administração pública direta, das autarquias e das fundações públicas. Redação instituída pela EC 19/1998 (atualmente suspensa pela ADI 2.135): Art. 39. A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios instituirão conselho de política de administração e remuneração de pessoal, integrado por servidores designados pelos respectivos Poderes. Contudo, ao analisar a Ação Direta de Inconstitucionalidade – ADI 2.135, o STF, em sede de cautelar, reconheceu a inconstitucionalidade formal da nova redação do art. 39 da CF, uma vez que não foram observadas as regras para alteração do texto constitucional, resgatando, por conseguinte, o regime jurídico único. Todavia, a medida foi tomada com efeitos ex nunc, ou seja, os efeitos valem da data da decisão 6 Marinela, 2013, p. 123. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 38 90 (2/7/2007) em diante. Com isso, toda a legislação editada durante a vigência da redação do art. 39, caput, com redação dada pela EC 19/1998, contínua válida, bem como as respectivas contratações de pessoal.7 Assim, a partir da decisão e até que o STF pronuncie-se definitivamente sobre o mérito da ADI 2.135, voltou a vigorar a redação inicial do art. 39, caput, da Constituição Federal. Dessa forma, atualmente os entes devem possuir regime jurídico único, aplicável a todos os servidores da Administração Direta, das autarquias e das fundações públicas. Com efeito, atualmente não é mais permitida a contratação concomitante de servidores públicos (regime estatutário) e empregados públicos (regime celetista) na administração direta, autárquica e fundacional dos entes políticos, uma vez que vigora novamente a regra do regime jurídico único. Tendo em vista que o regime estatutário foi adotado pelo Governo Federal, as autarquias e fundações, atualmente, seguem este tipo de regime. Com efeito, o art. 1º8 da Lei 8.112/1990 – que institui o regime jurídico dos servidores públicos civis da União – deixa claro que suas normas se aplicam às “autarquias, inclusive as em regime especial” e às fundações públicas federais. Nesse contexto, os agentes das autarquias, assim como todos os servidores públicos, sujeitam-se a regras como: exigência de concurso público (CF, art. 37, II); proibição para acumulação (CF, art. 37, XVII); teto remuneratório (CF, art. 37, XI); direito à estabilidade (CF, art. 41); regras de regime especial de aposentadoria (CF, art. 40); seus atos são passíveis de remédios constitucionais e ao controle de improbidade administrativa; bem como são considerados funcionários públicos para fins penais.9 Nomeação e exoneração dos dirigentes A nomeação dos dirigentes das autarquias cabe privativamente ao Presidente da República,nos termos do art. 84, XXV10, da Constituição Federal. Essa competência aplica-se, por simetria, aos governadores e prefeitos. A forma de investidura será disciplinada na lei que criar a entidade. Em alguns casos, a Constituição Federal exige que o nome indicado pelo chefe do Poder Executivo dependerá de aprovação pelo Poder Legislativo, como ocorre com a indicação do presidente e dos diretores do Banco Central (CF, art. 84, XIV11), que depende de aprovação do Senado Federal (CF, art. 52, III, "d"). Ademais, a Constituição Federal prevê que o Senado aprovará a escolha de “titulares de outros cargos que a lei determinar” (CF, art. 52, III, “f”). É o que acontece, por exemplo, com a indicação dos diretores das agências reguladoras (Anatel, Antaq, ANP, etc.), em que a legislação determina que a nomeação será aprovada previamente pelo Senado, tomando como fundamento o art. 52, III, “f” da Constituição. 7 Alexandrino e Paulo, 2011, p. 46. 8 Art. 1º Esta Lei institui o Regime Jurídico dos Servidores Públicos Civis da União, das autarquias, inclusive as em regime especial, e das fundações públicas federais. 9 Marinela, 2013, p. 128. 10 Art. 84. Compete privativamente ao Presidente da República: [...] XXV - prover e extinguir os cargos públicos federais, na forma da lei; 11 Art. 84. [...] XIV - nomear, após aprovação pelo Senado Federal, os Ministros do Supremo Tribunal Federal e dos Tribunais Superiores, os Governadores de Territórios, o Procurador-Geral da República, o presidente e os diretores do banco central e outros servidores, quando determinado em lei; Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 39 90 Por outro lado, o STF entende que a legislação estadual não pode submeter à aprovação prévia da Assembleia Legislativa a nomeação de dirigentes das autarquias e das fundações públicas, de presidentes das empresas de economia mista e assemelhados.12 No caso, o Supremo entende que a legislação estadual somente poderá condicionar a escolha dos diretores de autarquias quando se tratar de agências reguladoras, uma vez que, nesse caso, existe previsão equivalente em âmbito federal. Ademais, o STF entende que é vedada e exigência de autorização legislativa para a exoneração de dirigentes da administração indireta pelo chefe do Poder Executivo. Com efeito, também não é possível que a exoneração seja efetivada diretamente pelo Poder Legislativo. Dessa forma, em respeito ao princípio da separação dos poderes, não é possível que a exoneração de dirigentes das autarquias seja realizada pelo Poder Legislativo, nem mesmo que se exija autorização desse Poder para que o chefe do Executivo possa exonerá-los.13 Podemos resumir da seguinte forma: a) a escolha e nomeação dos dirigentes de autarquias e de fundações cabe ao chefe do Poder Executivo; b) em casos excepcionais, a escolha do dirigente poderá ser condicionada à aprovação pelo Poder Legislativo (sabatina), como ocorre com os dirigentes do Banco Central e das agências reguladoras; c) no âmbito dos estados, a legislação não poderá condicionar a escolha dos dirigentes à aprovação do Legislativo, exceto no caso de agências reguladoras; d) em nenhum caso, a exoneração poderá depender de aprovação do Legislativo nem ser realizada diretamente por este Poder. Patrimônio De acordo com o novo Código Civil, “São públicos os bens do domínio nacional pertencentes às pessoas jurídicas de direito público interno; todos os outros são particulares, seja qual for a pessoa a que pertencerem” (CC, art. 98). Por conseguinte, a natureza dos bens das autarquias é a de bens públicos, uma vez que essas entidades são pessoas jurídicas de direito público. Em decorrência dessa qualificação, os bens das autarquias possuem os mesmos atributos dos bens públicos em geral14, destacando-se a impenhorabilidade (não podem ser objeto de penhora – assim, a execução de judicial em desfavor de uma autarquia se submete ao regime de precatórios, nos termos do art. 100, CF); a imprescritibilidade (não podem ser adquiridos por meio de usucapião); e as restrições quanto à alienação de bens públicos (que se submetem a regras específicas). Ademais, o patrimônio inicial da autarquia é oriundo de transferências do ente que as criou, passando a pertencer à nova entidade. Por outro lado, ao se extinguir a autarquia, os seus bens serão reincorporados ao patrimônio da pessoa política15. 12 ADI 2167, julgada em 3/6/2020. 13 Nesse sentido: ADI 1.949/RS. 14 Carvalho Filho, 2014, p. 487. 15 Alexandrino e Paulo, 2011, p. 43. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 40 90 Prerrogativas das autarquias Considerando a natureza da atividade desempenhada pelas autarquias, o ordenamento jurídico as atribui algumas prerrogativas de direito público. Segundo José dos Santos Carvalho Filho, as prerrogativas mais importantes são as seguintes:16 a) imunidade tributária recíproca: o art 150, §2º, da CF (c/c17 art. 150, VI, “a”), veda a instituição de impostos sobre o patrimônio, a renda e os serviços das autarquias, desde que vinculadas a suas finalidades essenciais ou às que delas decorram. O entendimento literal é que a imunidade protege somente o patrimônio, a renda e os serviços vinculados às finalidades essenciais das autarquias, ou decorrentes dessas finalidades. No entanto, o STF possui um entendimento mais amplo, estendendo a aplicação da imunidade tributária à renda decorrente de atividades estranhas às finalidades da autarquia, desde que esses recursos sejam integralmente aplicados nas finalidades essenciais da entidade.18 Assim, se uma autarquia federal alugar um imóvel pertencente ao seu patrimônio e empregar a renda decorrente da locação em suas finalidades essenciais, o município em que está sediado o imóvel não poderá cobrar-lhe o IPTU. b) impenhorabilidade de seus bens e de suas rendas: os seus bens não podem ser penhorados como instrumento coercitivo para garantia do credor. Os débitos decorrentes de decisões judiciais transitadas em julgado devem ser quitados por meio do sistema de precatórios (CF, art. 100). As regras de exigibilidade seguem as linhas próprias da legislação processual.19 c) imprescritibilidade de seus bens: os bens das autarquias são considerados bens públicos e, portanto, não podem ser adquiridos por terceiros por meio de usucapião; d) prescrição quinquenal: as dívidas e os direitos em favor de terceiros contra as autarquias prescrevem em cinco anos (Decreto 20.910/1932, art. 1º20, c/c Decreto-Lei 4.597/1942, art. 2º21). Dessa forma, se alguém tem um crédito contra uma autarquia, deverá promover a cobrança nesse prazo, sob pena de prescrever o direito de ação; 16 Carvalho Filho, 2014, pp. 491, 492. 17 “c/c” = combinado com. 18 Nesse sentido, STF: RE 589.185 RS; e RE 237.718 SP: “Imunidade tributária do patrimônio das instituições de assistência social (CF, art. 150, VI, c): sua aplicabilidade de modo a preexcluir a incidência do IPTU sobre imóvel de propriedade da entidade imune, ainda quando alugado a terceiro, sempre que a renda dos aluguéis seja aplicada em suas finalidades institucionais” (RE 237.718, Rel. Min. Sepúlveda Pertence, Tribunal Pleno, DJ 6.9.2001). 19 Há exceções ao sistema de precatórios, conforme prevê o art. 100, §3º, da CF. 20 Art. 1º As dívidas passivas da União, dos Estados e dos Municípios, bem assim todo e qualquer direito ou ação contra a Fazenda federal, estadual ou municipal, seja qual for a sua natureza, prescrevem em cinco anos contados da data do ato ou fato do qual se originarem. 21 Art. 2º O Decreto nº 20.910, de 6 de janeiro de 1932, que regula a prescrição qüinqüenal, abrange as dívidas passivas das autarquias, ou entidades e órgãos paraestatais,criados por lei e mantidos mediante impostos, taxas ou quaisquer contribuições, exigidas em virtude de lei federal, estadual ou municipal, bem como a todo e qualquer direito e ação contra os mesmos. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 41 90 e) créditos sujeitos à execução fiscal: possibilidade de inscrever os seus créditos em dívida ativa e realizar a respectiva cobrança por meio de execução fiscal, na forma da Lei 6.830/1980; f) principais situações processuais específicas: → prazo em dobro para todas as suas manifestações processuais – (Novo CPC, art. 183);22 → estão sujeitas ao duplo grau de jurisdição obrigatório, de forma que a sentença proferida contra tais entidades, ou a que julgar, no todo ou em parte, embargos opostos à execução de sua dívida ativa, só adquirem eficácia jurídica se confirmada por tribunal (Novo CPC, art. 496). O duplo grau de jurisdição obrigatório significa que o juiz, ao prolatar a sentença, deverá determinar a remessa dos autos ao tribunal, ainda que não tenha ocorrido recurso voluntário (apelação). Caso o juiz não o faça, deverá o presidente do tribunal avocar os autos (Novo CPC, art. 496, § 1º). De forma simples, seria como “um recurso de ofício”, aplicável a maioria das decisões proferidas contra as entidades políticas, autarquias e fundações públicas. 23 Por fim, podemos apresentar outros privilégios processuais para as autarquias: → isenção de custas judiciais, com exceção da obrigação de reembolsar as despesas judiciais feitas pela parte vencedora (Lei 9.289/1996, art. 4º, I e parágrafo único); → dispensa de apresentação do instrumento de mandato, pelos procuradores de seu quadro de pessoal, para a prática de atos processuais em juízo (Lei 9.469/1997, art. 9º); Súmula nº 644/STF: “Ao titular do cargo de procurador de autarquia não se exige a apresentação de instrumento de mandato para representá-la em juízo”. 22 Art. 183. A União, os Estados, o Distrito Federal, os Municípios e suas respectivas autarquias e fundações de direito público gozarão de prazo em dobro para todas as suas manifestações processuais, cuja contagem terá início a partir da intimação pessoal. § 1o A intimação pessoal far-se-á por carga, remessa ou meio eletrônico. § 2o Não se aplica o benefício da contagem em dobro quando a lei estabelecer, de forma expressa, prazo próprio para o ente público. 23 De acordo com o Novo Código de Processo Civil, o duplo grau de jurisdição não se aplicará em dois grupos de casos. O primeiro refere-se ao “proveito econômico obtido na causa”, isto é, quando o valor certo e líquido for inferior a (CPC, art. 496, § 3º): I - 1.000 (mil) salários-mínimos para a União e as respectivas autarquias e fundações de direito público; II - 500 (quinhentos) salários-mínimos para os Estados, o Distrito Federal, as respectivas autarquias e fundações de direito público e os Municípios que constituam capitais dos Estados; III - 100 (cem) salários-mínimos para todos os demais Municípios e respectivas autarquias e fundações de direito público. O segundo grupo refere-se aos casos em que a sentença esteja fundada em: I - súmula de tribunal superior; II - acórdão proferido pelo Supremo Tribunal Federal ou pelo Superior Tribunal de Justiça em julgamento de recursos repetitivos; III - entendimento firmado em incidente de resolução de demandas repetitivas ou de assunção de competência; IV - entendimento coincidente com orientação vinculante firmada no âmbito administrativo do próprio ente público, consolidada em manifestação, parecer ou súmula administrativa. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 42 90 (TRT MS - 2017) Os bens e rendas das autarquias, não apenas quando vinculados a suas finalidades essenciais, mas em toda e qualquer circunstância, possuem imunidade tributária. Comentários: a imunidade tributária recíproca alcança o patrimônio, a renda e os serviços das autarquias, desde que vinculadas a suas finalidades essenciais ou que sejam decorrentes dessas (CF, art. 150, VI, “a” e § 2º). Portanto, em regra, a imunidade alcança tão somente os bens ligados às finalidades essenciais dessas entidades. O STF até possui uma interpretação um pouco mais ampla, alcançando o patrimônio e a renda não ligados diretamente às finalidades essenciais, mas desde que os recursos oriundos sejam aplicados integralmente na finalidade essencial da entidade. Por exemplo: a renda decorrente da locação de um imóvel pertencente a uma autarquia não será tributada se o recurso for integralmente aplicado na finalidade da autarquia. Contudo, isso não significa que ela será aplicada a qualquer circunstância. A questão, portanto, está incorreta. Responsabilidade civil A responsabilidade civil do Estado diz respeito ao dever de reparar danos causados pelos agentes públicos a terceiros. Por exemplo: se um servidor de uma autarquia, cumprindo as suas atividades funcionais, causar um acidente de trânsito, danificando veículos de terceiros, haverá a responsabilidade civil do Estado (por intermédio da autarquia), que terá que indenizar os proprietários dos veículos danificados. As autarquias são pessoas jurídicas de direito público e, portanto, respondem na forma do art. 37, § 6º, da Constituição Federal. Nesse caso, a responsabilidade civil será objetiva, pois independe de dolo ou culpa e a teoria aplicável será a teoria do risco administrativo. Esse tema tem vários detalhes e exceções. Por ora, vamos nos limitar a regra geral: as autarquias respondem objetivamente pelos danos que os seus agentes públicos causarem a terceiros. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 43 90 Juízo competente (foro) Nos termos do art. 109, I, da CF, serão julgadas na Justiça Federal as causas em que uma autarquia federal for interessada na condição de autoras, rés, assistentes ou oponentes. Na mesma linha, os mandados de segurança contra atos coatores de agentes autárquicos federais também serão processados e julgados na Justiça Federal (CF, art. 109, VIII). Nas causas envolvendo usuários-consumidores e concessionárias de serviços públicos, intervindo agência reguladora federal, na qualidade de litisconsorte passiva necessária (quando a agência obrigatoriamente é ré do processo juntamente com a concessionária), assistente ou oponente, a competência para julgar o caso será da Justiça Federal. Porém, quando a agência não estiver em nenhuma dessas situações, ou seja, quando a demanda envolver apenas o usuário e a concessionária, sem participação da agência reguladora, o processo será de competência da Justiça Estadual. Nesse sentido, vale transcrever a Súmula Vinculante nº 27 do STF: Súmula Vinculante nº 27 Compete à justiça estadual julgar causas entre consumidor e concessionária de serviço público de telefonia, quando a Anatel não seja litisconsorte passiva necessária, assistente, nem opoente. No caso das autarquias estaduais ou municipais, não existe regra específica. Por conseguinte, será da Justiça Estadual as causas em que figurarem as autarquias estaduais e municipais, inclusive nos mandados de segurança contra atos das autoridades dessas entidades. Por fim, no que se refere às ações de relação de trabalho, a competência ocorrerá de acordo com o regime de pessoal adotado. Na esfera federal, as causas entre os servidores públicos (vínculo estatutário) e as autarquias, serão processadas e julgadas na Justiça Federal. Nos estados e municípios, essas mesmas causas serão de competência da Justiça Estadual. Por fim, em qualquer caso, quando o regime for o celetista (empregadospúblicos), as causas serão resolvidas na Justiça do Trabalho (CF, art. 114). Contudo, é importante lembrar que, com o retorno da redação primitiva do art. 39, caput, da Constituição Federal (regime jurídico único), não é mais possível a existência de dois regimes para o pessoal da administração direta, autárquica e fundacional. (TJDFT - 2013) Nos litígios comuns, as causas que digam respeito às autarquias federais, sejam estas autoras, rés, assistentes ou oponentes, são processadas e julgadas na justiça federal. Comentários: conforme redação do art. 109, I, da Constituição Federal, as causas em que a União, entidade autárquica ou empresa pública federal forem interessadas na condição de autoras, rés, assistentes ou oponentes serão processadas e julgadas na Justiça Federal. Assim, o item está correto. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 44 90 Atos, contratos e licitação Existem dois tipos de atos, os atos administrativos, que gozam de certos atributos que colocam a Administração em posição de superioridade perante o administrado, como a presunção de veracidade e de legitimidade, a imperatividade e a autoexecutoriedade; e os atos de direito privado, que, de forma geral, são produzidos em condições de igualdade na relação Administração e administrados. Da mesma forma, os contratos podem ser contratos administrativos, que possuem as chamadas cláusulas exorbitantes, que asseguram a posição de superioridade da Administração ante o administrado; e os contratos de direito privado, em que as partes (Administração e administrados) estão em condições de igualdade. As autarquias, como são entidades de direito público e que realizam atividades típicas de Estado, formalizam, em regra, atos administrativos e contratos administrativos. Vale dizer, seus atos possuem todos os requisitos de validade (competência, finalidade, forma, motivo e objeto) e possuem os atributos de presunção de veracidade e de legitimidade, a imperatividade e a autoexecutoriedade; enquanto os seus contratos sujeitam-se ao mesmo regime jurídico direito público dos ajustes da administração direta. Lembrando, é claro, que em algumas hipóteses, da mesma forma como na administração direta, as autarquias realizarão atos e contratos de direito privado. É o que ocorre, por exemplo, em um contrato de compra e venda da Administração. Por fim, os contratos firmados pelas autarquias devem se submeter previamente à licitação, na forma da Lei 14.133/2021 (Lei de Licitações), com exceção das ressalvas previstas na própria Lei de Licitações (as exceções ao dever de licitar são denominadas de dispensa e inexigibilidade de licitação) (CF, art. 22, XXVII; L14133, art. 1º, caput). Conselhos de fiscalização de profissão Os conselhos regionais e federais de fiscalização de profissão, com exceção da OAB, são autarquias federais24 (conhecidas como autarquias corporativas ou profissionais), consoante entendimento do STF (MS 22.643/SC). Por conseguinte, os conselhos de fiscalização de profissão (exemplos: Conselho Federal de Medicina – CFM; conselhos regionais de medicina – CRM; Conselho Federal de Engenharia e Agronomia – Confea; Conselho Federal de Nutricionistas – CFN; conselhos regionais de nutricionistas – CRN), como entidades autárquicas federais, são (RE 539.224/CE): ▪ criados por lei, tendo personalidade jurídica de direito público com autonomia administrativa e financeira; ▪ exercem a atividade de fiscalização de exercício profissional, atividade tipicamente pública; ▪ têm o dever de prestar contas ao Tribunal de Contas da União. 24 Os conselhos regionais são entidades federais. Pode parecer confuso, mas os conselhos “regionais” não pertencem aos estados. Por exemplo: o Conselho Regional de Medicina de São Paulo é uma entidade autárquica da União (e não do estado de SP). Consequentemente, a prestação de contas destas entidades será analisada pelo TCU e a tutela é realizada pela União. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 45 90 Adicionalmente, também podemos afirmar que os conselhos devem fazer concurso público e licitação. Todavia, o STF vem entendendo que os conselhos profissionais são “autarquias sui generis”, ou seja, são autarquias que seguem um regime especial. Assim, ainda que sejam entidades de direito público, os conselhos se submetem a um regime híbrido ou regime especial, misturando regras de direito público com regras de direito privado. Nessa linha, os conselhos contratam pessoal mediante concurso público. Porém, o STF admite que esse regime seja o da CLT. Dessa forma, os agentes públicos dos conselhos são empregados públicos, que são contratados por concurso, mas não adquirem estabilidade. Além disso, o STF já entendeu que “os pagamentos devidos em razão de pronunciamento judicial pelos conselhos de fiscalização não se submetem ao regime de precatórios” (RE 938.837). Esse "regime de precatórios" é a forma como o Estado paga as suas "dívidas" decorrentes de decisões judiciais. Por exemplo: se você processar o Estado e "ganhar" a ação, em regra, o seu pagamento ocorrerá por meio de um "precatório", uma vez que os bens públicos não podem ser penhorados. Contudo, a cobrança de dívidas dos conselhos segue regramento semelhante ao das entidades privadas, como por exemplo por intermédio da penhora de seus bens, já que não se lhes aplica o regime de precatórios. A situação da Ordem dos Advogados do Brasil – OAB, contudo, é diferente. Para o STF, a OAB não integra a Administração Pública, sendo considerada um serviço público independente, categoria ímpar no elenco das personalidades jurídicas existentes no direito brasileiro (ADI 3.026/DF). Consequentemente, a OAB: ▪ não faz concurso público; ▪ não faz licitação pública; ▪ não tem o dever de prestar contas ao TCU (RE 1182189, Tema 1024).25 Sobre este último item, o STF resolveu uma polêmica sobre o dever de prestar contas ao TCU. A Corte de Contas entendia que, apesar de não compor a Administração, a OAB deveria prestar contas ao Tribunal, pois as suas anuidades eram recolhidas compulsoriamente, possuindo natureza semelhante aos tributos. O STF, contudo, afastou a determinação do TCU e a obrigação da prestação de contas, alegando que os recursos da OAB não possuem natureza tributária que a entidade, em razão do seu papel constitucional, não poderia se submeter a qualquer tipo de controle estatal. Ao final, foi fixada a seguinte tese de repercussão geral: “O Conselho Federal e os Conselhos Seccionais da Ordem dos Advogados do Brasil não estão obrigados a prestar contas ao Tribunal de Contas da União nem a qualquer outra entidade externa”. Podemos concluir, dessa forma, que as entidades de fiscalização de profissão integram a Administração Pública indireta federal, com exceção da OAB, que não faz parte da Administração Pública. 25 RE 1182189, Tema 1024, julgamento finalizado em 24.4.23. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 46 90 Conselhos de fiscalização em geral OAB ▪ Compõem a Administração Pública (natureza autárquica) (RE 539.224/CE) ▪ Entidades administrativas de direito público ▪ Não compõe a Administração Pública ▪ Entidade de direito privado Regime jurídico híbrido ▪ D. Público: ▪ Prestar contas ao TCU ▪ Realizar licitação ▪ Realizar concurso público ▪ D. Privado ▪ Não se submetem ao regime de precatórios (RE 938837) ▪ Regime de pessoal da CLT (empregados públicos) Regime de direito privado: ▪ Não devem prestar contas ao TCU ▪ Não realizam licitação pública ▪ Não faz concurso públicoConselhos de fiscalização Regra Autarquias Administração indireta Regime híbrido Pessoal: CLT Não se submetem ao regime de precatórios Exceção OAB Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 47 90 (TJ CE - 2018) Embora seja reconhecida a natureza autárquica dos conselhos de classe, em razão da natureza privada dos recursos que lhes são destinados, essas entidades não se submetem ao controle externo exercido pelo TCU. Comentários: os conselhos de fiscalização de atividade profissional possuem natureza autárquica, conforme informado na questão. Consequentemente, por integrarem a Administração indireta federal, submetem-se ao controle externo do TCU! Portanto, a assertiva está incorreta. Autarquias sob regime especial Muito se tem falado sobre as “autarquias sob regime especial”. Porém, a legislação raramente apresenta a definição adequada. José dos Santos Carvalho Filho apresenta uma classificação das autarquias quanto ao regime jurídico em: (a) autarquias comuns (ou de regime comum); (b) autarquias especiais (ou de regime especial). As primeiras apresentam um regime sem qualquer especificidade, enquanto as últimas seriam regidas por um regime com disciplina específica, atribuindo como característica algumas prerrogativas especiais e diferenciadas a certas autarquias. Todavia, o difícil é saber sobre o que elas se distinguem. Assim, alguns autores mencionam o regime previsto no Decreto Lei 200/1967 como o regime ordinário, comum ou normal, enquanto as autarquias sob regime especial receberiam de suas leis instituidoras as características próprias. No entanto, o DL 200/1967 aplica-se exclusivamente ao governo federal e, em geral, os entes administrativos não possuem uma norma que discipline o regime ordinário dessas entidades. De qualquer forma, devemos saber que as autarquias sob regime especial são entidades que recebem características próprias do ordenamento jurídico, em geral com o objetivo de outorgar-lhes maior autonomia em relação ao ente instituidor. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 48 90 Atualmente, o exemplo mais comum são as agências reguladoras. Não significa que todas as autarquias sob regime especial são agências reguladoras, porém este é o exemplo mais comum. Algumas universidades também recebem a designação de autarquia especial e, para parte da doutrina, os consórcios públicos, quando organizados na forma de associação pública, também são considerados autarquias sob regime especial. Por fim, os conselhos de fiscalização de atividade profissional são entidades autárquicas, mas sujeitos a regime especial com regras próprias. Para exemplificar, vamos apresentar o conteúdo do art. 8º, caput e § 2º, da Lei 9.472/1997, que criou a Anatel: Art. 8° Fica criada a Agência Nacional de Telecomunicações, entidade integrante da Administração Pública Federal indireta, submetida a regime autárquico especial e vinculada ao Ministério das Comunicações, com a função de órgão regulador das telecomunicações, com sede no Distrito Federal, podendo estabelecer unidades regionais. [...] § 2º A natureza de autarquia especial conferida à Agência é caracterizada por independência administrativa, ausência de subordinação hierárquica, mandato fixo e estabilidade de seus dirigentes e autonomia financeira. Conforme ensinam Marcelo Alexandrino e Vicente Paulo, o termo “independência administrativa” é utilizado de forma inadequada, pois nenhuma entidade da administração indireta pode ser “independente”, por força, dentre outros dispositivos, do art. 84, II, da CF. Com efeito, todas as autarquias possuem autonomia administrativa e financeira e ausência de subordinação hierárquica, o que, portanto, não é nada de novo. Dessa forma, de especial, só sobra o mandato fixo e estabilidade dos dirigentes. Importante também é destacar que não se confunde autarquia sob regime especial com agências executivas, pois estas são autarquias que cumpriram os requisitos previstos em lei (Lei 9.649/1998, art. 51) para receber a mencionada qualificação, podendo ser, inclusive, as autarquias “normais”; enquanto aquelas são as autarquias que receberam um regime especial de sua lei instituidora. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 49 90 Agências reguladoras e agências executivas Agências reguladoras Origem das agências reguladoras Não há uma definição exata do surgimento das agências reguladoras no mundo. Segundo Alexandre Santos Aragão, as agências reguladoras possuem como marco principal a Interstate Commerce Commission, criada nos Estados Unidos da América em 1887 para regulamentar os serviços interestaduais de transporte ferroviário. No Brasil, as primeiras entidades com funções regulatórias e fiscalizatórias do setor econômico já existiam no início do século XX, conforme destaca Maria Sylvia Zanella Di Pietro:26 [...] no período de 1930-1945, o Comissariado de Alimentação Pública (1918), o Instituto de Defesa Permanente do Café (1923), o Instituo do Açúcar e do Álcool (1933), o Instituto Nacional do Mate (1938), o Instituto Nacional do Pinho (1941), o Instituto Nacional do Sal (1940), todos esses institutos instituídos como autarquias econômicas, com a finalidade de regular a produção e o comércio. Além desses, podem ser mencionados outros exemplos, como o Banco Central, o conselho Monetário Nacional, a Comissão de Valores Mobiliários e tantos outros órgãos com funções normativas e de fiscalização. No entanto, a adoção do modelo atual e a designação de “agência reguladora” surge no bojo da Reforma Gerencial, a partir de 1995. Assim, as emendas constitucionais 8 e 9 de 1995 incluíram o termo “órgão regulador” na Constituição Federal de 1988, especificamente para tratar da regulação dos serviços de telecomunicações (art. 21, XI) e atividades relacionadas com o petróleo (art. 177, §2º, III), vejamos: Art. 21. Compete à União: [...] XI - explorar, diretamente ou mediante autorização, concessão ou permissão, os serviços de telecomunicações, nos termos da lei, que disporá sobre a organização dos serviços, a criação de um órgão regulador e outros aspectos institucionais; (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 8, de 15/08/95:) Art. 177. Constituem monopólio da União: [...] § 2º A lei a que se refere o § 1º disporá sobre: (Incluído pela Emenda Constitucional nº 9, de 1995) III - a estrutura e atribuições do órgão regulador do monopólio da União; (Incluído pela Emenda Constitucional nº 9, de 1995) 26 Di Pietro, 2009, p. 190-181. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 50 90 A partir desses dispositivos, foram criadas as duas agências reguladoras que possuem respaldo constitucional: a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), criada pela Lei 9.472, de 16 de julho de 1997, e a Agência Nacional do Petróleo (ANP), criada pela Lei 9.478, de 6 de agosto de 1997. Deve-se destacar que essas foram as primeiras agências reguladoras criadas com previsão constitucional, mas há diversas outras agências criadas pelo legislador infraconstitucional. Assim, atualmente, existem onze agências reguladoras federais, sendo que somente a Anatel e a ANP possuem previsão na CF, vejamos: Agência Lei de criação Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) Lei nº 9.427/1996 Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) Lei nº 9.472/1997 Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) Lei nº 9.478/1997 AgênciaNacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) Lei nº 9.782/1999 Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) Lei nº 9.961/2000 Agência Nacional de Águas (ANA) Lei nº 9.984/2000 Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) Lei nº 10.233/2001 Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) Lei nº 10.233/2001 Agência Nacional do Cinema (Ancine) Medida Provisória 2.228/2001 Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) Lei nº 11.182/2005 Agência Nacional de Mineração Lei nº 13.575/2017 Assim, podemos perceber que a primeira agência reguladora criada no âmbito federal foi a Agência Nacional de Energia Elétrica, criada em 26 de dezembro de 1996 com a finalidade de regular e fiscalizar a “produção, transmissão, distribuição e comercialização de energia elétrica, em conformidade com as políticas e diretrizes do governo federal” (art. 2º, Lei 9.427/1996). Conceito e atividades desenvolvidas As agências reguladoras surgiram no Brasil a partir da década de 90, durante o período da Reforma Gerencial ou Reforma do Aparelho do Estado. Este foi um período em que o modelo intervencionista, ou de prestação direta de serviços, foi substituído por um modelo regulador, em que o Estado diminuiu a sua atuação direta na economia, privatizando diversas empresas estatais. Todavia, para o desequilíbrio do mercado em virtude do poder econômico das grandes empresas, foi necessário criar entidades administrativas com grande capacidade técnica e autonomia para realizar a regulação da atividade econômica. Essas entidades são as agências reguladoras. No Brasil, elas se inserem no estudo da regulação. Inicialmente, foram criadas para regular atividades econômicas atribuídas ao Estado, possuindo ou não natureza de serviço público, sendo objeto de concessão, permissão ou autorização. Isso ocorreu primeiro nos setores de energia elétrica, telecomunicações, exploração de petróleo e outras. Dessa forma, pode-se dizer que as agências reguladoras passaram a desempenhar uma dupla função:27 27 Di Pietro, 2012, p. 180. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 51 90 a) de um lado, elas assumem os poderes e encargos do poder concedente nos contratos de concessão, como os de fazer licitação, contratar, fiscalizar, punir, alterar, rescindir, encampar, etc.; b) de outro lado, as agências exercem a atividade chamada de regulação propriamente dita que, em sentido amplo, abrange a competência de estabelecer regras de conduta, fiscalizar, reprimir, punir, resolver conflitos, não só no âmbito da própria concessão, mas também nas relações com outras prestadoras de serviço. A despeito de a primeira função praticamente estar abrangida pela segunda, Maria Di Pietro faz uma abordagem em separado para destacar o papel clássico das agências de atuar em nome do poder concedente, como parte do contrato de concessão, e, por outro lado, o papel mais amplo de resolver conflitos e garantir a competição. Para exemplificar, devemos lembrar que a Anatel é responsável pelos contratos de concessão de telefonia e, ao mesmo tempo, promove a competição e resolve conflitos sobre a prestação de serviços. No entanto, além desses papéis desempenhados pelas primeiras agências, atualmente a Administração Federal possui agências com papel tipicamente de poder de polícia, voltadas para outras áreas de atividade privada, sem que ocorra concessão de serviço público. São exemplos a Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa), a Agência Nacional de Saúde Pública Suplementar (ANS) e a Agência Nacional de Águas (ANA). Ainda assim, essas entidades fiscalizam, reprimem, aplicam sanções e impõem outras limitações administrativas. Percebe-se, portanto, que atualmente as agências reguladoras atuam em um campo mais amplo que os serviços públicos. Nessa linha, esse tipo de agência que exerce atividade típica de poder de polícia, não representa novidade no Direito Público brasileiro. Isso porque, desde a década de 30-45, conforme vimos acima, já existiam entidades que exerciam esse tipo de fiscalização. Dessa forma, o nosso ordenamento jurídico comporta, há várias décadas, a existência de entidades que exercem o poder de polícia, nos moldes que fazem a ANS, a ANA, a Anvisa, etc., mas, ainda assim, não recebem a designação de agências reguladoras. Por exemplo, o Banco Central do Brasil (Bacen) e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) possuem funções normativas e de fiscalização, mas não são considerados agências reguladoras em sentido estrito. Assim, de acordo com Maria Sylvia Di Pietro, agência reguladora, em sentido amplo, é “qualquer órgão da Administração Direta ou Indireta com função de regular a matéria específica que lhe está afeta”. Dessa forma, este conceito abrange, além das “verdadeiras” agências reguladoras que vimos acima, o Bacen, a CVM, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e outros órgão com função de regulação e fiscalização. Por outro lado, em sentido estrito, e abrangendo apenas o modelo que surge a partir da década de 90, a “agência reguladora é entidade da Administração Indireta, em regra autarquia de regime especial, com a função de regular a matéria que se insere em sua esfera de competência, outorgada por lei”. Assim, nesse segundo conceito, no nível federal, encontramos apenas aquelas onze agências reguladoras que mencionamos acima. Em concursos e, por conseguinte, no restante da aula, vamos utilizar apenas o conceito estrito de agência reguladora. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 52 90 Mas qual é a diferença entre as agências do conceito amplo e do conceito estrito? Em geral, costuma-se dizer que as agências reguladoras são autarquias sob regime especial. Diz-se especial, pois essas entidades possuem algumas características distintivas das demais autarquias, concedendo-lhes maior autonomia em relação ao ente instituidor. A mais marcante característica das agências reguladoras se refere ao mandato fixo de seus membros, conforme prazo disposto na Lei Geral das Agências Reguladoras. Isso porque os dirigentes das autarquias “comuns” podem ser exonerados ad nutum, ou seja, o chefe do Poder Executivo pode exonerá-los a qualquer momento. Dessa forma, apesar de todas as autarquias possuírem maior autonomia em relação ao ente instituidor, os seus dirigentes podem ser exonerados a qualquer momento. Por outro lado, nas agências reguladoras, a aprovação e exoneração dos diretores não é tão flexível, permitindo que eles atuem com maior autonomia em relação ao Presidente da República, por exemplo. Outra característica dessas entidades é que elas devem possuir competência regulatória para serem consideradas agências reguladoras. Ou seja, uma autarquia será considerada uma agência reguladora, em sentido estrito, quando os seus membros possuírem mandato fixo e, ao mesmo tempo, possuírem competências regulatórios em um setor específico (telecomunicações, petróleo, cinema, etc.). Depois dessa apresentação, vamos discutir o conceito e as características das agências reguladoras, abordando inclusive as questões de autonomia. Características e autonomia das agências reguladoras Para Alexandre Santos de Aragão, as agências reguladoras independentes brasileiras são: [...] autarquias sob regime especial, dotadas de considerável autonomia frente à Administração centralizada, incumbidas do exercício de funções regulatórias e dirigidas por colegiado cujos membros são nomeados por prazo determinado pelo Presidente da República, após prévia aprovação pelo Senado Federal, vedada a exoneração ad nutum. Portanto, as agências reguladoras são autarquias sob regime especial, integrantes da Administração indireta, criadas por lei, dotadas de autonomia financeirae orçamentária, organizadas em colegiado cujos membros detém mandato fixo, com a finalidade de regular e fiscalizar as atividades de prestação de serviços públicos. Não estão subordinadas a nenhum outro órgão público, sofrendo apenas a supervisão ministerial da área em que atuam. Assim, as agências reguladoras não representam uma nova entidade administrativa, elas são apenas uma forma especial de autarquia. Ou seja, atualmente nós possuímos quatro tipos de entidades administrativas, quais sejam as autarquias, fundações públicas, empresas públicas e sociedades de economia mista, sendo que as agências reguladoras são apenas um modelo diferente das primeiras. Percebam que o conceito que apresentamos de autarquia envolve a autonomia. Contudo, as agências reguladoras possuem uma autonomia ainda maior, ao ponto de alguns autores chamarem de Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 53 90 independência. Lembramos, todavia, que a expressão “independência” é inadequada, já que a entidade se submete a diversas formas de controle dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. Nessa linha, Maria Di Pietro dispõe que o regime especial dessas entidades vem disciplinado em suas leis instituidoras, dizendo respeito, em regra, (a) à maior autonomia em relação à Administração direta; (b) à estabilidade de seus dirigentes, garantida pelo exercício de mandato fixo, que eles somente podem perder nas hipóteses expressamente previstas, afastada a possibilidade de exoneração ad nutum, e; (c) ao caráter final de suas decisões, que não são passíveis de apreciação por outros órgãos ou entidades da Administração Pública (em regra). Assim, a autora faz uma relação entre as margens de autonomia das agências em relação a cada um dos três poderes: a) em relação ao Poder Legislativo – porque dispõem de função normativa, que justifica o nome de órgão regulador ou agência reguladora; b) em relação ao Poder Executivo – porque suas normas e decisões não podem ser alteradas ou revistas por autoridades estranhas ao próprio órgão; c) em relação ao Poder Judiciário – porque dispõem de função quase-jurisdicional, no sentido de que resolvem, no âmbito das atividades controladas pelas agências, litígios entre os delegatários (empresas/pessoas que prestam serviços mediante concessão, permissão ou autorização) e entre estes e os usuários dos serviços públicos. Por exemplo, em relação ao Poder Judiciário, apesar de suas decisões (das agências) terem um caráter quase-jurisdicional, uma vez que encerram a discussão no âmbito administrativo, não afastam a possibilidade de apreciação da decisão pelo Judiciário, nos termos previstos no art. 5º, XXXV, da CF/88. Com efeito, as agências reguladoras se submetem ao controle externo realizado pelos tribunais de contas, que podem realizar auditorias e inspeções para verificar o desempenho das entidades, e do Poder Legislativo. Ademais, o poder normativo das agências não pode conflitar com os regramentos previstos na Constituição e nas leis. Elas submetem-se também ao controle interno (como a Controladoria Geral da União – CGU) e à vinculação ao ministério do setor correspondente, para fins de tutela ou supervisão ministerial. Dessa forma, podemos perceber que a autonomia é muito relativa e só é marcante em relação ao Poder Executivo. A autonomia elevada, nesse contexto, tem como principal função diminuir as influências políticas sobre a atuação da agência como órgão regulador. Além disso, a Lei 13.848/2019 dispõe que a natureza especial conferida à agência reguladora é caracterizada pela (art. 3º): a) ausência de tutela ou de subordinação hierárquica; b) pela autonomia funcional, decisória, administrativa e financeira; c) pela investidura a termo de seus dirigentes e estabilidade durante os mandatos; d) pelas demais disposições constantes desta Lei ou de leis específicas voltadas à sua implementação. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 54 90 ==2537cb== Segundo a Lei 13.848/2019, a autonomia administrativa da agência reguladora é caracterizada pelas seguintes competências: I - solicitar diretamente ao Ministério da Economia: a) autorização para a realização de concursos públicos; b) provimento dos cargos autorizados em lei para seu quadro de pessoal, observada a disponibilidade orçamentária; c) alterações no respectivo quadro de pessoal, fundamentadas em estudos de dimensionamento, bem como alterações nos planos de carreira de seus servidores; II - conceder diárias e passagens em deslocamentos nacionais e internacionais e autorizar afastamentos do País a servidores da agência; III - celebrar contratos administrativos e prorrogar contratos em vigor relativos a atividades de custeio, independentemente do valor. Com efeito, as agências reguladoras se distinguem das demais autarquias por serem dirigidas por colegiado cujos membros são nomeados por prazo determinado pelo Presidente da República, após prévia aprovação pelo Senado Federal, vedada a exoneração ad nutum. Nessa linha, a Lei 13.848/2019 fixa em cinco anos o prazo de duração do mandato dos dirigentes das agências reguladoras federais, vedando a recondução. Agências reguladoras Os dirigentes possuem mandato fixo, não podendo ser exonerados ad nutum. Outras autarquias Os dirigentes são exonerados ad nutum pelo chefe do Poder Executivo. A exoneração, por sua vez, não poderá ocorrer ad nutum. Nessa linha a Lei 9.986/2000, estabelece que os conselheiros e os diretores das agências reguladoras somente perderão o mandato (art. 9º): a) em caso de renúncia; b) em caso de condenação judicial transitada em julgado; c) em caso de condenação em processo administrativo disciplinar; d) por infringência de quaisquer das vedações previstas na Lei 9.986/2000.28 Além do mandato fixo, os membros das agências reguladoras submetem-se a um período de quarentena. Nessa linha, a quarentena é o período em que os membros do Conselho Diretor ou da Diretoria Colegiada 28 O art. 8º-B, da Lei 9.986/2000 enumera uma série de vedações aplicáveis aos diretores das agências reguladoras. A infringência às mencionadas vedações ensejará na perda do mandato. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 55 90 ficam impedidos de exercer atividade ou de prestar qualquer serviço no setor regulado pela respectiva agência, por período de seis meses, contados da exoneração ou do término de seu mandato, assegurada a remuneração compensatória. Quem violar tal vedação incorrerá na prática de crime de advocacia administrativa (Lei 9.986/2000, art. 8º). Para exemplificar: um ex-dirigente da Anatel não pode, durante o período de seis meses contados de sua exoneração ou término de mandato, prestar serviços para as empresas de telefonia, como TIM, Vivo, Oi, Claro, etc. Durante a quarentena, o ex-dirigente ficará vinculado à agência, percebendo remuneração compensatória equivalente à do cargo de direção que exerceu e aos benefícios a ele inerentes (Lei 9.986/2000, art. 8º, § 2º). Em relação à supervisão ministerial e ao controle hierárquico impróprio, é importante tecer alguns comentários. Entende-se que, em regra, as decisões das agências reguladoras não podem ser revistas pelo ente central. Contudo, Advocacia-Geral da União emitiu parecer flexibilizando tal entendimento. De acordo com o Parecer AGU 51/2006, o Presidente da República, por motivo relevante de interesse público, poderá avocar e decidir qualquer assunto na esfera da Administração Federal, incluindo competências das agências reguladoras. Além disso, o Parecerreconheceu a possibilidade de interposição de recurso hierárquico impróprio, desde que a decisão da agência fuja às finalidades da entidade ou estejam inadequadas às políticas públicas definidas para o setor. Por conseguinte, há possibilidade de interposição de recurso hierárquico impróprio, mas apenas em situações excepcionais. Por outro lado, se a decisão da agência for coerente com as suas finalidades e com as políticas definidas para o setor, não poderá ser provido o recurso dirigido ao ministério. Diante do que vimos até aqui, podemos resumir as características das agências reguladoras no Brasil da seguinte forma: ✓ são pessoas jurídicas de direito público; ✓ desempenham atividades típicas do Poder Público; ✓ são autarquias sob regime especial (não representam uma nova forma de entidade administrativa); ✓ integram a administração indireta (descentralizada); ✓ possuem maior autonomia que as outras entidades da administração indireta; ✓ são dirigidas por colegiado cujos membros são nomeados por prazo determinado pelo Presidente da República, após prévia aprovação pelo Senado Federal, vedada a exoneração ad nutum; ✓ não se submetem, em regra, ao controle hierárquico do ente central. Porém, em casos específicos, admite-se o controle hierárquico impróprio pelo ministério ou a avocação de competências pelo Presidente da República; Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 56 90 ✓ encontram-se vinculadas ao Ministério do Setor correspondente, para fins de tutela, supervisão ou controle finalístico. Agências executivas O Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado (PDRAE), que é o documento de referência da Reforma Administrativa implementada no Brasil na década de 90, estabeleceu como objetivo para o setor das atividades exclusivas29: transformar as autarquias e fundações que possuem poder de Estado em agências autônomas, administradas segundo um contrato de gestão. Percebam que o termo utilizado pelo PDRAE foi agências autônomas. Todavia, a Lei 9.649/1998, que dispõe sobre a organização da Presidência da República e dos ministérios, preferiu utilizar o termo agências executivas, estabelecendo algumas exigências para que a autarquia ou fundação receba tal qualificação. Segundo a Prof. Maria Sylvia Zanella Di Pietro30, Agência executiva é a qualificação dada à autarquia ou fundação que tenha celebrado contrato de gestão com o órgão da Administração Direta a que se acha vinculada, para melhoria da eficiência e redução de custos. Não se trata de entidade instituída com a denominação de agência executiva. Trata-se de entidade preexistente (autarquia ou fundação governamental) que, uma vez preenchidos os requisitos legais, recebe a qualificação de agência executiva, podendo perdê-la, se deixar de atender aos requisitos. Dessa forma, podemos perceber que as agências executivas não representam uma nova forma de entidade administrativa, mas tão somente uma qualificação especial outorgada à autarquia ou à fundação pública que celebre um contrato de gestão com o respectivo órgão supervisor. Busca-se, com o contrato de gestão e, por conseguinte, com a qualificação, aumentar a eficiência das autarquias e fundações públicas. Os requisitos para receber a qualificação estão disciplinados nos arts. 51 e 52 da Lei 9.649/1998, vejamos: Art. 51. O Poder Executivo poderá qualificar como Agência Executiva a autarquia ou fundação que tenha cumprido os seguintes requisitos: I - ter um plano estratégico de reestruturação e de desenvolvimento institucional em andamento; II - ter celebrado Contrato de Gestão com o respectivo Ministério supervisor. § 1º A qualificação como Agência Executiva será feita em ato do Presidente da República. § 2º O Poder Executivo editará medidas de organização administrativa específicas para as Agências Executivas, visando assegurar a sua autonomia de gestão, bem como a 29 O setor de atividades exclusivas é aquele em que está presente o poder de império do Estado e que, portanto, só poderá ser desenvolvido por entidades de direito público, como as autarquias e fundações públicas de direito público. 30 Di Pietro, 2014, p. 538. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 57 90 disponibilidade de recursos orçamentários e financeiros para o cumprimento dos objetivos e metas definidos nos Contratos de Gestão. Art. 52. Os planos estratégicos de reestruturação e de desenvolvimento institucional definirão diretrizes, políticas e medidas voltadas para a racionalização de estruturas e do quadro de servidores, a revisão dos processos de trabalho, o desenvolvimento dos recursos humanos e o fortalecimento da identidade institucional da Agência Executiva. § 1º Os Contratos de Gestão das Agências Executivas serão celebrados com periodicidade mínima de um ano e estabelecerão os objetivos, metas e respectivos indicadores de desempenho da entidade, bem como os recursos necessários e os critérios e instrumentos para a avaliação do seu cumprimento. § 2º O Poder Executivo definirá os critérios e procedimentos para a elaboração e o acompanhamento dos Contratos de Gestão e dos programas estratégicos de reestruturação e de desenvolvimento institucional das Agências Executivas. Para receber a qualificação como agência executiva, a autarquia ou fundação pública deve: a) ter um plano estratégico de reestruturação e de desenvolvimento institucional em andamento; e b) ter celebrado contrato de gestão com o respectivo Ministério supervisor. A celebração do contrato de gestão com o respectivo Ministério é apenas um dos requisitos para receber a qualificação. Contudo, é por meio de decreto que a autarquia ou fundação pública se torna agência executiva. Vale dizer, após elaborar o plano estratégico de reestruturação e desenvolvimento e ter celebrado o contrato de gestão, será expedido um decreto, que efetivamente outorgará à qualificação à entidade. Além disso, a concessão da qualificação é ato discricionário do Presidente da República. Conforme dispõe o caput do art. 51 da Lei 9.649/1998, o “Poder Executivo poderá qualificar” as entidades como agências executivas. Dessa forma, mesmo que a entidade preencha os requisitos, caberá ao Presidente da República decidir se concede ou não a qualificação. Os contratos de gestão das agências executivas devem ser celebrados com periodicidade mínima de um ano e estabelecerão os objetivos, metas e respectivos indicadores de desempenho da entidade, bem como os recursos necessários e os critérios e instrumentos para a avaliação do seu cumprimento. Após receber a qualificação, a autarquia ou fundação pública passa a se submeter a um regime jurídico especial, em que há maior autonomia para atuação. Por exemplo, no que se refere às licitações e contratos, as agências executivas possuem um limite duplicado para dispensa de processo licitatório. Nessa linha, a Lei de Licitações (L14133, art. 75, § 2º) dispensa o dever de licitar quando o valor é muito baixo. Contudo, Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 58 90 o valor da dispensa para as agências executivas é multiplicado por dois, gerando mais flexibilidade para as contratações dessas entidades. É importante frisar que a Lei 9.649/1998 é uma lei federal e, portanto, aplica-se tão somente à União. Assim, em tese, os estados e municípios deveriam elaborar as suas próprias normas se desejassem dispor de mecanismo semelhante, estabelecendo o regramento de qualificação. Na prática, contudo, é raro de ver norma estadual ou municipal sobre o assunto. (TJ CE - 2018) Autarquiase fundações públicas podem receber, por meio de lei específica, a qualificação de agência executiva, para garantir o exercício de suas atividades com maior eficiência e operacionalidade. Comentários: a qualificação das fundações e autarquias em agências executivas ocorre mediante decreto do Poder Executivo. Logo, não ocorre por meio de lei específica. Vale lembrar, ademais, que a qualificação depende da existência de um plano estratégico de reestruturação e de desenvolvimento institucional em andamento e de um contrato de gestão celebrado com o respectivo ministério supervisor. Desta forma, a questão está incorreta. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 59 90 1. (Cesgranrio – PNS/2022) A iniciativa, no âmbito do processo legislativo, para a criação de uma autarquia federal, que é ente da administração pública indireta, compreendida como o serviço autônomo, criado por lei, com personalidade jurídica, patrimônio e receita próprios, para executar atividades típicas da Administração Pública que requeiram, para seu melhor funcionamento, gestão administrativa e financeira descentralizada, é atribuída a) exclusivamente aos membros do Congresso Nacional b) concorrentemente aos membros do Congresso Nacional e ao Presidente da República c) privativamente aos senadores d) privativamente ao Presidente da República e) privativamente aos deputados federais. Comentário: tanto a criação quanto a extinção das autarquias devem ocorrer por meio de lei específica, nos termos previstos no art. 37, XIX, da CF. Na esfera federal, a lei para a criação ou extinção das autarquias é de iniciativa privativa do Presidente da República, por força do art. 61, §1º, II, “e”, da Constituição Federal. Portanto, a competência é privativa do Presidente da República, conforme alternativa D. Até seria possível a criação de autarquias em outros Poderes e, assim, a competência privativa ficaria no âmbito do respectivo Poder. Porém, em geral, as questões consideram a criação de entidades no Poder Executivo. Gabarito: alternativa D. 2. (Cesgranrio – FINEP/2014) Nas relações entre os Órgãos da Administração Direta e Entidades da Administração Indireta é importante considerar que a) existe uma hierarquia entre a Administração Direta e a Administração Indireta, já que a Administração Pública Indireta, ao representar o Estado, descentraliza poderes e atribuições para a Administração Direta. b) os órgãos da Administração Indireta não são detentores originais das competências que repassam à Administração Direta, já que esta não possui a competência para a execução do serviço público. c) o Estado brasileiro é centralizado ao trabalhar suas competências originais, e, ao mesmo tempo, é descentralizado ao delegar atribuições à Administração Indireta. d) as autarquias são pessoas jurídicas de direito privado, enquanto as sociedades de economia mista e as empresas públicas se enquadram no conceito de pessoas jurídicas de direito público. e) quando a Administração Indireta descentraliza competências para as Autarquias e Empresas Públicas, há uma descentralização por outorga; e quando os entes da Administração Indireta repassam atribuições para as concessionárias e permissionárias de serviço público, há uma descentralização por delegação. Comentário: Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 60 90 a) não há hierarquia entre a Administração Direta e Indireta. Além disso, é a Administração Indireta que representa as entidades descentralizadas do Estado – ERRADA; b) na verdade é o contrário: a Administração Direta repassa as competências para as entidades da Administração Indireta. Ademais, a Administração Direta detém a competência originária, oriunda da Constituição – ERRADA; c) a centralização se relaciona com as competências originariamente conferidas pela Constituição aos entes políticos (União, estados, DF e municípios), quando estes executam diretamente suas tarefas, através de seus órgãos e agentes. Assim, o trecho inicial está correto, uma vez que o Estado é centralizado (Administração Direta) ao trabalhar suas competências originais (aquelas determinadas pela Constituição). A descentralização, por outro lado, ocorre quando o Estado executa suas atribuições através de outras pessoas, e não de sua Administração Direta, pressupondo a existência de duas pessoas distintas: o Estado (a União, o Distrito Federal, um estado ou um município) e a pessoa que executará o serviço, por ter recebido do Estado essa atribuição. Dessa forma, quando as atribuições são delegadas (outorgadas, atribuídas) às entidades administrativas, a competência é descentralizada – CORRETA; d) as autarquias são pessoas jurídicas de direito público, enquanto as empresas públicas e sociedades de economia mista são pessoas jurídicas de direito privado – ERRADA; e) a descentralização por outorga ocorre quando o Estado cria uma entidade com personalidade jurídica própria e a ela transfere a titularidade e a execução de determinado serviço público. Esse tipo de descentralização dá origem à Administração indireta (autarquias, fundações públicas, sociedades de economia mista e empresas públicas). Já na descentralização por delegação, uma entidade política ou administrativa transfere, por contrato ou por ato unilateral, a execução de um serviço a uma pessoa jurídica de direito privado preexistente, como as concessionárias de serviços públicos – ERRADA. Gabarito: alternativa C. 3. (Cesgranrio – EPE/2014) São atividades típicas das Agências Reguladoras: a) proteção do direito dos consumidores e coibição do abuso de poder econômico b) prestação de serviço público uti universi e concessão de subsídios a setores da economia c) coibição do abuso de poder econômico e prestação de serviço público uti singuli d) concessão de subsídios a setores da economia e prestação de serviço público uti singuli e) concessão de subsídios a setores da economia e coibição do abuso de poder econômico. Comentário: de acordo com Maria Sylvia Di Pietro, agência reguladora, em sentido amplo, é “qualquer órgão da Administração Direta ou Indireta com função de regular a matéria específica que lhe está afeta”. Já em sentido estrito, seria a entidade da Administração Indireta, em regra autarquia de regime especial, com a função de regular a matéria que se insere em sua esfera de competência, outorgada por lei. É este sentido estrito que adotamos em geral nas questões de concursos. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 61 90 Não está dentre as suas competências, portanto, a prestação de serviços públicos ou a concessão de subsídios a setores da economia. Quem presta serviços é o Estado, diretamente ou por entidades criadas para este fim, ou entidades privadas que recebem delegação (concessionárias e permissionárias). Logo, as alternativas B, C, D e E estão incorretas. O papel das agências reguladoras é de regular a atividade, agir como poder concedente na delegação do serviço, solucionar conflitos entre os usuários e as concessionárias, etc. Na tarefa de regulação, as agências disciplinam determinada atividade econômica, buscando maximizar a produção e evitar abuso de poder econômico. Além disso, a agência reguladora deve proteger os usuários (consumidores). Logo, o gabarito é a letra A. Por fim, os conceitos de serviços públicos uti singuli e uti universi são estudados nas aulas de serviços públicos. Porém, vamos explicá-los aqui rapidamente. O serviço público uti singuli, também chamado de individual, é aquele passível de mensuração individualizada.Assim, é possível saber quanto que cada pessoa usufruiu do serviço. É o caso do fornecimento de energia elétrica, quando os relógios quantificam o consumo em cada casa. Por outro lado, o serviço público uti universi, ou geral, não é passível de quantificação individual, pois se espalha pela sociedade. Um exemplo é a segurança pública. Gabarito: alternativa A. 4. (Cesgranrio – EPE/2014) Na complexa organização da Administração Pública federal, atuam diversas pessoas jurídicas, dentre as quais as autarquias. Considera-se um privilégio das autarquias a a) execução privada b) quitação de taxas federais c) impenhorabilidade dos seus bens d) irresponsabilidade dos seus dirigentes e) equiparação com as sociedades de economia mista. Comentário: a) como pessoa jurídica de direito público, a execução das dívidas das autarquias ocorre sob regime público, que se dá através do regime de precatórios – ERRADA; b) a quitação de taxas não é um privilégio concedido às autarquias – ERRADA; c) de fato, os bens das autarquias são impenhoráveis, o que significa que não podem ser penhorados para garantir o pagamento de dívidas da entidade. Logo, o pagamento de débitos das autarquias segue o regime de precatórios – CORRETA; d) os dirigentes das autarquias respondem sim quando praticarem atos que gerem danos a terceiros, uma vez que vivemos em um Estado Democrático de Direito – ERRADA; Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 62 90 e) as sociedades de economia são pessoas jurídicas de direito privado que prestam serviços públicos ou exercem atividade econômica. Portanto, em regra, os regimes entre autarquias e essas entidades são distintos – ERRADA. Para consolidar, são exemplos de privilégios das autarquias: (i) prazos processuais em dobro (ii) duplo grau de jurisdição obrigatório; (iii) prescrição quinquenal; (iv) impenhorabilidade dos seus bens e pagamento de débitos via precatórios; (v) imunidade tributária recíproca. Gabarito: alternativa C. 5. (Cesgranrio – EPE/2014) Os órgãos da Administração Pública atendem a sucessivos governos dos mais variados matizes políticos. Essa circunstância não afeta os órgãos administrativos dada a sua característica de a) neutralidade b) parcialidade c) honestidade d) validade e) entidade. Comentário: esta não é uma questão de organização administrativa em si. Por sinal, até pensei em retirá-la do material. Porém, apenas por precaução, vamos deixá-la aqui. Aproveite para tomar nota deste assunto. A neutralidade se relaciona com a imparcialidade no exercício das funções públicas. O princípio da neutralidade política da função pública fundamenta a garantia da estabilidade na função pública. Está ligado à ideia de satisfação de interesses gerais por parte dos corpos administrativos permanentes que não estão a serviço de um governo em particular. O governo possui um caráter temporário, enquanto os funcionários simbolizam a permanência da administração. Assim, nossa resposta está logo na alternativa A. Gabarito: alternativa A. 6. (Cesgranrio – EPE/2014) A autarquia criada pelo ente público para prestar determinados serviços tem como característica a sua a) vinculação b) dependência c) autonomia d) organização Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 63 90 e) funcionalidade. Comentário: a) as autarquias não estão subordinadas ao ente instituidor, ou seja, não há relação de hierarquia entre uma entidade autárquica e os órgãos da administração direta do ente político que as instituiu. Diz-se, no entanto, que há vinculação administrativa, normalmente com o ministério da área correspondente. Então, no meu ponto de vista, essa também poderia ser uma alternativa correta. Porém, vamos ver adiante que a banca considerou outro gabarito (que de fato é uma alternativa um pouco melhor), e já vamos explicar o porquê – ERRADA; b) as autarquias não possuem relação de dependência com o ente instituidor, mas apenas de vinculação – ERRADA; c) as autarquias são conceituadas como o serviço autônomo, criado por lei, com personalidade jurídica, patrimônio e receita próprios, para executar atividades típicas da Administração Pública, que requeiram, para seu melhor funcionamento, gestão administrativa e financeira descentralizada. Então sim, a autonomia é uma característica dessas entidades – CORRETA; Observação: este foi o gabarito da banca. Quando comparamos com a letra A, percebemos que a opção C faz um pouco mais de sentido. É claro que a letra A, em si, não é errada. Porém, “dando uma explicação” para o gabarito, eu diria que a vinculação não é uma característica da autarquia, mas sim da relação entre a autarquia e a Administração Direta. Assim, a letra C faz mais sentido. Não obstante, se não houvesse a letra C, eu marcaria a opção A como correta também. d) a capacidade de auto-organização se relaciona com a capacidade conferida aos entes políticos de se auto- organizar por constituições ou leis orgânicas próprias – ERRADA; e) funcionalidade não é uma característica atribuída às autarquias – ERRADA. Gabarito: alternativa C. 7. (Cesgranrio – EPE/2014) Na Administração Pública brasileira existem os denominados órgãos primários. Nessa categoria podem ser alocados os a) provisionadores b) departamentos c) inspetores d) ministérios e) tribunais. Comentário: segundo a classificação de Hely Lopes Meirelles, “os órgãos independentes são os originários da Constituição e representativos dos Poderes de Estado - Legislativo, Executivo e Judiciário -, colocados no ápice da pirâmide governamental, sem qualquer subordinação hierárquica ou funcional, e só sujeitos aos controles constitucionais de um Poder pelo outro. Por isso, são também chamados órgãos primários do Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 64 90 Estado. Esses órgãos detêm e exercem precipuamente as funções políticas, judiciais e quase judiciais outorgadas diretamente pela Constituição, para serem desempenhadas pessoalmente por seus membros (agentes políticos [...])”. Como exemplos de órgãos independentes / primários temos: (i) as Corporações Legislativas (Congresso Nacional, Câmara dos Deputados, Senado Federal, Assembleias Legislativas, Câmaras de Vereadores) (ii) as Chefias de Executivo (Presidência da República, Governadorias dos Estados e do Distrito Federal, Prefeituras Municipais), (iii) os Tribunais Judiciários e os Juízos singulares (Supremo Tribunal Federal, Tribunais Superiores Federais, Tribunais Regionais Federais, Tribunais de Justiça e de Alçada dos Estados-membros, Tribunais do Júri e Varas das Justiças Comum e Especial). (iv) O Ministério Público federal e estadual (v) as defensorias públicas e (vi) os Tribunais de Contas da União, dos Estados-membros e Municípios Assim, o gabarito é a letra E. Os ministérios são órgãos autônomos, enquanto as inspetorias e os departamentos são órgãos superiores. Por fim, provisionadores não é uma categoria de órgãos. Gabarito: alternativa E. 8. (Cesgranrio – EPE/2014) Os processos admissionais na Administração Pública dependem de aprovação prévia em concurso público, ressalvados os cargos comissionados e os de livre nomeação. Há, porém, trabalhadores sem concurso público que atuam junto à Administração Pública, cuja forma de contratação não gera vínculo empregatício. Esses trabalhadores atuam em organizações que, juridicamente, se relacionam com a Administração Pública na forma de a) autarquias b) fundações c) empresas públicas d) sociedades de economia mistas e) prestadorasde serviços contratadas. Comentário: uma característica das entidades administrativas é que o privimento de seus servidores (entidades de direito público) e empregados públicos (entidades de direito privado) depende de concurso público. Assim, como as letras A, B, C e D descrevem entidades administrativas, o provimento dependerá de concurso. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 65 90 A letra E, por outro lado, reflete uma empresa (privada) contratada pelo Estado para lhe prestar serviços. Essas empresas são particulares e contratam os seus funcionários como qualquer outra empresa que não faça parte do Estado. Por exemplo: se um órgão contrata uma empresa para realizar a pintura de sua fachada, os funcionários (pintores) desta empresa não são contratados via concurso público. Assim a letra E é o gabarito. Gabarito: alternativa E. 9. (Cesgranrio – CEFET RJ/2014) Dentre os denominados privilégios atribuíveis às autarquias, encontra-se a a) sujeição a concursos de credores b) imunidade de impostos sobre seu patrimônio c) prescrição trienal das suas dívidas passivas d) execução geral dos seus créditos e) penhorabilidade dos seus bens. Comentário: sobre os privilégios conferidos às autarquias, os principais são: Além desses, ainda temos a impenhorabilidade de seus bens e de suas rendas e a imprescritibilidade de seus bens. A impenhorabilidade significa que os bens das autarquias os seus bens não podem ser penhorados como instrumento coercitivo para garantia do credor. Os débitos decorrentes de decisões judiciais transitadas em julgado devem ser quitados por meio do sistema de precatórios (CF, art. 100). Com essas informações, já sabemos que as autarquias não se submetem ao concurso de credores (que é um procedimento utilizado nas ações de execução, que não se aplicam e essas entidades). Erradas as alternativas A, D e E, portanto. A alternativa B é o nosso gabarito. O art 150, §2º, da CF (c/c art. 150, VI, “a”), veda a instituição de impostos sobre o patrimônio, a renda e os serviços das autarquias, desde que vinculadas a suas finalidades essenciais ou às que delas decorram. Por fim, a alternativa C está errada, pois a prescrição é quinquenal, e não trienal. Gabarito: alternativa B. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 66 90 10. (Cesgranrio – IBGE/2013) A Administração Pública se subdivide em Administração Direta e Indireta. NÃO são órgãos integrantes da Administração Direta a) a Advocacia-Geral da União e o Tribunal de Contas da União b) as Fundações Públicas, como, por exemplo, o IBGE c) os Conselhos, como, por exemplo, Conselho de Defesa Nacional d) os Ministérios, como, por exemplo, o Ministério do Trabalho e) os Tribunais, como, por exemplo, o Tribunal de Contas da União Comentário: as alternativas A, C, D e E trazem exemplos de órgãos públicos, sem personalidade jurídica, que integram a estrutura da administração direta. Apenas as Fundações Públicas, mencionadas na alternativa B, é que são entidades administrativas criadas a partir de um processo de descentralização, com personalidade jurídica própria, integrantes da administração indireta. Além disso, o IBGE, de fato, é uma fundação pública. Todos os demais são órgãos públicos, integrando a administração direta. Gabarito: alternativa B. 11. (Cesgranrio – EPE/2012) A distribuição interna de tarefas administrativas entre órgãos públicos decorre da aplicação da técnica denominada a) descentralização por hierarquia b) descentralização por colaboração c) autotutela administrativa d) desconcentração e) outorga Comentário: a) não há hierarquia em nenhuma das formas de descentralização – ERRADA; b) a descentralização por colaboração, também chamada de delegação, ocorre quando o Estado delega a execução de serviços públicos para uma entidade particular. Isso dá ensejo aos contratos de concessão ou permissão de serviços públicos ou aos atos de autorização de serviços públicos – ERRADA; c) a autotutela consiste na possibilidade de a administração rever os seus próprios atos, sem necessidade de provocação de terceiros, podendo anulá-los quando ilegais ou revogá-los quando inconvenientes ou inoportunos – ERRADA; d) a desconcentração ocorre exclusivamente dentro de uma mesma pessoa jurídica, constituindo uma técnica administrativa utilizada para distribuir internamente as competências, executadas pelos órgãos públicos – CORRETA; Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 67 90 e) a outorga é uma forma de transferência da execução de serviços públicos às pessoas jurídicas integrantes da Administração Indireta – ERRADA. Gabarito: alternativa D. 12. (Cesgranrio – EPE/2012) A administração indireta do Estado é composta por pessoas jurídicas criadas por lei ou instituídas mediante autorização legal, com o objetivo de desempenhar atividades administrativas de forma descentralizada. Nesse contexto, são entidades integrantes da denominada administração indireta: a) autarquias, empresas públicas e sociedades de economia mista b) associações públicas, organizações sociais e fundações públicas c) sociedades de economia mista, empresas estatais e organizações da sociedade civil de interesse público d) empresas públicas, sociedades de economia mista e concessionárias de serviços públicos e) fundações públicas, concessionárias de serviços públicos e consórcios públicos Comentário: a) todas essas são, juntamente com as fundações públicas, entidades administrativas que compõem a administração indireta – CORRETA; b) as associações públicas são consideradas pessoas jurídicas de direito público interno, e integram a administração indireta, assim como as fundações públicas. Já as organizações sociais são entidades privadas que não integram a administração pública – ERRADA; c) as SEM e as empresas estatais são entidades administrativas de direito privado que integram a administração indireta. Já as organizações da sociedade civil de interesse público (OSCIP) são entidades privadas sem fins lucrativos, que compõem as entidades paraestatais – ERRADA; d) as concessionárias de serviço público não integram a administração pública – ERRADA; e) as concessionárias e os consórcios públicos não integram a administração pública. Vale aqui a ressalva quanto aos consórcios públicos, que, conforme dispõe a Lei 11.107/2005, podem adquirir personalidade jurídica de direito público ou de direito privado. Na primeira hipótese, serão consideradas associações públicas, integrando a administração indireta de todos os entes da Federação consorciados (art. 6º, § 1º) – ERRADA. Gabarito: alternativa A. 13. (Cesgranrio – FINEP/2011) Um determinado servidor público federal tomou posse em um órgão público que se caracteriza por: - ser representativo de um dos três poderes do Estado; - estar sujeito apenas aos controles constitucionais exercidos por estes; - não possuir subordinação hierárquica ou funcional. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 68 90 Quanto à posição estatal, o referido órgão é classificado como a) independente b) autônomo c) superior d) subalterno e) singular Comentário: a) os órgãos independentes são os originários da Constituição Federal e representativos dos Poderes de Estado, como a Presidência da República, Câmara dos Deputados, Senado Federal, STF, STJ etc. (e seus representantes simétricosnos entes da Federação). Estão no ápice da pirâmide governamental, não possuindo qualquer subordinação hierárquica ou funcional – CORRETA; b) os órgãos autônomos estão localizados na cúpula da Administração, imediatamente abaixo dos órgãos independentes e diretamente subordinados a seus chefes. Possuem ampla autonomia administrativa, financeira e técnica – ERRADA; c) os órgãos superiores são os que detêm poder de direção, controle, decisão e comando de assuntos de sua competência específica, mas sempre estão sujeitos à subordinação e ao controle hierárquico de uma chefia mais alta. Não gozam de autonomia administrativa nem financeira – ERRADA; d) os órgãos subalternos são os órgãos que exercem predominantemente atribuições de execução, com reduzido poder decisório. Encontram-se subordinados a vários níveis hierárquicos superiores – ERRADA; e) Esta é outra classificação. Os órgãos singulares ou unipessoais são os que atuam e decidem através de um único agente, que é seu chefe ou representante. Eles se opõem aos órgãos colegiados, que adotam as decisões mediante deliberação (votação) dos seus membros, como os tribunais – ERRADA. Gabarito: alternativa A. 14. (Cesgranrio – FINEP/2011) A entidade integrante da Administração Indireta Federal, dotada de personalidade jurídica de direito público, criada por lei para execução de atividades típicas da administração pública que requeiram, para seu melhor funcionamento, gestão administrativa e financeira descentralizada, denomina-se a) autarquia b) empresa pública c) agência de fomento d) consórcio administrativo e) sociedade de economia mista Comentário: Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 69 90 a) esse é o conceito de autarquia: o serviço autônomo, criado por lei, com personalidade jurídica, patrimônio e receita próprios, para executar atividades típicas da Administração Pública, que requeiram, para seu melhor funcionamento, gestão administrativa e financeira descentralizada (art. 5º, I, do DL 200/1967) – CORRETA; b) na forma do art. 3º da Lei n° 13.303/16, empresa pública é a entidade dotada de personalidade jurídica de direito privado, com criação autorizada por lei e com patrimônio próprio, cujo capital social é integralmente detido pela União, pelos Estados, pelo Distrito Federal ou pelos Municípios – ERRADA; c) uma agência de fomento é a instituição com o objetivo principal de financiar capital fixo e de giro para empreendimentos previstos em programas de desenvolvimento, na unidade da Federação onde estiver sediada – ERRADA; d) os consórcios administrativos podem ter distintos conceitos. Segundo Hely Lopes Meirelles, “acordos firmados entre entidades estatais, autárquicas ou paraestatais, sempre da mesma espécie, para a realização de objetivos de interesse comum dos partícipes”. Atualmente, porém, o conceito mais adotado é o de “consórcio público”, que consta no Decreto 6.017/2007, que define a entidade como: “pessoa jurídica formada exclusivamente por entes da Federação, na forma da Lei no 11.107, de 2005, para estabelecer relações de cooperação federativa, inclusive a realização de objetivos de interesse comum, constituída como associação pública, com personalidade jurídica de direito público e natureza autárquica, ou como pessoa jurídica de direito privado sem fins econômicos” – ERRADA; e) sociedade de economia mista é a entidade dotada de personalidade jurídica de direito privado, com criação autorizada por lei, sob a forma de sociedade anônima, cujas ações com direito a voto pertençam em sua maioria à União, aos Estados, ao Distrito Federal, aos Municípios ou a entidade da administração indireta 9art. 4°, Lei n° 13.303/16) – ERRADA. Fique atento quanto aos conceitos de empresas públicas e de sociedades de economia mista, pois a Cesgranrio gosta das definições do DL200/67. Contudo, os conceitos desta norma são muito desatualizados, mas vale a pena pelos menos conhecê-los. Gabarito: alternativa A. 15. (Cesgranrio – FINEP/2011) As empresas, sob o enfoque administrativo, classificam-se em estatais, mistas e privadas. São empresas estatais aquelas cujo capital é controlado totalmente pelo poder público. Como exemplo de empresa estatal, tem-se a(o) a) Eletrobras b) Petrobras c) Caixa Econômica Federal d) Banco do Brasil e) Banco do Nordeste Comentário: o conceito da questão é MUITO RUIM! Mas é possível “traduzir” o que a banca quer. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 70 90 Empresas podem ser classificar em estatais e privadas. As empresas privadas são aquelas que não fazem parte da Administração Pública, já as estatais compõem a Administração Indireta. Existe ainda uma “margem cinzenta” quanto às subsidiárias, pois há autores que consideram que elas fazem parte da Administração e outros que consideram que não fazem. As empresas estatais ainda se subdividem em empresas públicas e sociedades de economia mista. As três diferentes entre elas constam na tabela abaixo: Capital Forma jurídica Foro (entidades federais) Empresa pública Público Qualquer Justiça federal Sociedade de economia mista Público / Privado S.A. (sempre) Justiça estadual Logo, nas empresas públicas, o capital é totalmente público, enquanto nas sociedades de economia mista o capital é majoritariamente público. A questão cita que “são empresas estatais aquelas cujo capital é controlado totalmente pelo poder público”. Na verdade, a banca usou o termo de forma incorreta, pois estas são as “empresas públicas”. Feita a tradução, podemos resolver o quesito. Eletrobrás, Petrobrás, Banco do Brasil e Banco do Nordeste são sociedades de economia mista. Já a Caixa Econômica Federal é exemplo de empresa pública. Gabarito: alternativa C. 16. (Cesgranrio – BR Distribuidora/2010) A estrutura legal que dispõe sobre a organização administrativa brasileira define a composição da administração federal, compreendendo a administração a) federal e a estatal. b) pública e a privada. c) direta e a indireta. d) política e a administrativa. e) autárquica e a de economia mista. Comentário: em tema de estrutura, a organização administrativa brasileira a nível federal é composta pela administração direta e indireta. Nos termos do art. 4° do DL n° 200/67: Art. 4° A Administração Federal compreende: I - A Administração Direta, que se constitui dos serviços integrados na estrutura administrativa da Presidência da República e dos Ministérios. Equipe Direito Administrativo, Herbert Almeida, Rodrigo Rennó Aula 01 - Prof. Herbert Almeida CNU - Administração Pública Federal - 2024 (Pós-Edital) www.estrategiaconcursos.com.br 71 90 II - A Administração Indireta, que compreende as seguintes categorias de entidades, dotadas de personalidade jurídica própria: a) Autarquias; b) Empresas Públicas; c) Sociedades de Economia Mista. d) fundações públicas. Portanto, o gabarito está na letra C. Gabarito: alternativa C. 17. (Cesgranrio – BR Distribuidora/2010) A função administrativa envolve atividades de naturezas diversas que não podem ser realizadas por um único órgão ou entidade. A essa difusão das funções administrativas entre os órgãos da pessoa federativa dá-se o nome de a) desconcentração. b) descentralização. c) distribuição. d) repartição. e) divisão. Comentário: distribuição, repartição e divisão não são conceitos utilizados para se referir à distribuição de competências na organização administrativa. Com isso, já podemos eliminar as alternativas C, D e E. A descentralização é a distribuição de competências de uma para outra pessoa. A descentralização administrativa envolve duas pessoas distintas: o Estado – União, estados,