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Direito da Criança e do Adolescente aula 1

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Direito da Criança e do Adolescente aula 1
Propósito
A compreensão dos principais pontos da doutrina da proteção integral da criança e do adolescente é essencial aos profissionais do Direito, tanto para uma atuação a nível judicial cível – como tratam o direito protetivo e o direito de família em questões que envolvam, por exemplo, poder familiar ou pensão alimentícia – quanto a nível judicial socioeducativo, na garantia dos direitos e da defesa de jovens em conflito com a lei.
Preparação
Constituição Federal, o Código Civil (Lei nº 10.406/2002) e o Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei nº 8.069/1990)
Módulo 1 = Transformações históricas e fundamento constitucional
Analisar as principais transformações históricas e o fundamento constitucional da disciplina dos direitos das crianças e dos adolescentes.
Iniciamos nosso estudo buscando, em primeiro lugar, situar o objeto da nossa análise: o direito das crianças e dos adolescentes. Para isso, precisamos considerar que, mais do que nunca, na complexidade dos inúmeros arranjos familiares que despontam na atualidade, revela-se “de fato urgente a afirmação da família (não como instituição previamente imposta por laços sanguíneos, mas) como comunidade instrumental ao pleno desenvolvimento da personalidade de seus integrantes, destinada à efetiva promoção da dignidade de cada um deles.” (TEPEDINO, 2021, p. 2).
E deve caber aos atores do Direito (advocacia, magistratura e doutrina) o inquietante “desafio de compreender e traduzir, para o cotidiano das famílias, a doutrina do cuidado e da proteção integral.” (TEPEDINO, 2021, p. 2). Como ressalta Gustavo Tepedino:
“Eis os valores subjacentes à hermenêutica exigida pelo art. 6º do ECA, para o qual paternidade e maternidade devem voltar-se à “condição peculiar da criança e do adolescente como pessoas em desenvolvimento”. Em contexto de tamanhas dificuldades econômicas, sanitárias e educacionais, o processo de adoção mostra-se indispensável ao desenvolvimento social brasileiro, importando em projeto de vida cujo êxito depende do reconhecimento genuíno da família, adotiva ou biológica e solidário, consentâneo com a legalidade constitucional.”
Dito diversamente: não se tutela mais a família por si só, enquanto instituição. A família deve cumprir uma função primordial de permitir o livre desenvolvimento de seus integrantes, ali incluídos as crianças e os adolescentes, tidos não mais como sujeito meramente incapazes, mas como pessoas humanas em desenvolvimento e que, por essa razão, devem ter asseguradas a tutela equivalente a essa condição. (CRUZ, 2021, p. 2-3)
Como esclarece Elisa Cruz, “[a] representação jurídica da criança no Brasil data de 1988 com a utilização da palavra para definir um grupo de pessoas a quem seria destinada proteção integral.” (CRUZ, 2021, p. 2).
Entretanto, foi somente com a Lei n. 8.069, de 13 de julho de 1990 (Estatuto da Criança e do Adolescente) que se passou a ter uma definição legal de criança e adolescente. Segundo o artigo 2º da referida lei, considera-se criança, para os efeitos da Lei, a pessoa até doze anos de idade incompletos, e adolescente aquela entre doze e dezoito anos de idade.
Atenção!
É importante ressaltarmos que a nossa lei “não adotou o conceito unificado de criança da Convenção sobre Direitos da Criança e que abrange todas as pessoas de até dezoito anos de idade” (CRUZ, 2021, p. 3). Essa diferença explica por que, não raro, alguns doutrinadores se referem aos adolescentes também como crianças, o que, à luz da Convenção da ONU de 1989, não se mostra completamente equivocado.
Analisando as transformações históricas referentes aos direitos das crianças e dos adolescentes, podemos verificar que nem sempre as crianças foram tidas como pessoas. O reconhecimento desse status jurídico é relativamente recente se analisarmos retrospectivamente.
Aproximadamente até o final dos anos 1800, apenas os sujeitos detentores de dignidade, no conceito dignitas latino, poderiam exercer situações jurídicas. Mas, apesar de a modernidade começar a garantir a abstração da noção de indivíduo para promover uma equivalência à noção de pessoa, isso estava ainda muito atrelado ao desenvolvimento de relações patrimoniais, o que acabava perpetuando a exclusão das crianças, porque não detinham capacidade de agir nem autonomia negocial.
No entanto, ao longo do século XX, uma série de Tratados Internacionais foram celebrados, o que culminou com o reconhecimento, ainda que lento, de direitos humanos às crianças e aos adolescentes. Elisa Cruz apresenta um sucinto panorama dessa evolução no plano internacional:
“Em meados do século XX é publicada a Declaração sobre Direitos da Criança de 1959, incorporada ao ordenamento jurídico brasileiro na década de 1960, em que pela primeira vez se reconheceu a especificada da criança e a necessidade de proteção e cuidados especiais. A partir da Declaração progressivamente se avança na consolidação da criança como pessoa, culminando na aprovação da Convenção sobre Direitos da Criança em 1989 pelas Organizações das Nações Unidas, em 1988 pela incorporação da doutrina da proteção integral na Constituição da República de 1988 e em 1990 pela edição do Estatuto da Criança e do Adolescente.”
Apesar dessa evolução no plano internacional e nas leis especiais internas, a nossa codificação civil permanecia alheia a essa realidade. Sintomático disso é que o Código Civil de 1916 sequer faz referência ao termo criança, que só foi incluído no Código Civil de 2002 no ano de 2009, por meio de alterações promovidas pela Lei n. 12.010.
Fundamento Constitucional
Fundamento constitucional do direito das crianças e dos adolescentes
É precisamente nesse contexto que se começa a falar numa noção de proteção integral, que foi incorporada pela Constituição da República de 1988, artigo 227, que, em seu caput, apresenta a seguinte redação: “É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.”
A doutrina da proteção integral pode ser vista como “a expressão do reconhecimento da criança como pessoa e sua titularidade de situações jurídicas” (CRUZ, 2021, p. 28-29). Os direitos inerentes a todas as crianças e adolescentes passam a ter “características específicas devido à peculiar condição de pessoas em desenvolvimento em que se encontrem” (PEREIRA, 1996, p. 23-24). O artigo 3º do Estatuto da Criança e do Adolescente espelha essa noção:
“A criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral de que trata esta Lei, assegurando-se-lhes, por lei ou por outros meios, todas as oportunidades e facilidades, a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e de dignidade.
Parágrafo único. Os direitos enunciados nesta Lei aplicam-se a todas as crianças e adolescentes, sem discriminação de nascimento, situação familiar, idade, sexo, raça, etnia ou cor, religião ou crença, deficiência, condição pessoal de desenvolvimento e aprendizagem, condição econômica, ambiente social, região e local de moradia ou outra condição que diferencie as pessoas, as famílias ou a comunidade em que vivem.”
Como nos esclarece David Cury Júnior:
“Na realidade, a cláusula da proteção integral constitui nota distintiva dos direitos da personalidade da criança e do adolescente em face de igual direito das pessoas com personalidade plena. Tal princípio obriga a ação dos pais, das entidades sociais e dos órgãos estatais, na efetivação dos direitos essenciais referidos no artigo 4º, da Lei n. 8.069/1990, indispensáveis para o pleno desenvolvimento da personalidade de meninos e jovens, e também na preservação de ameaça ou violação aos seusdireitos fundamentais, sem prejuízo da reparação dos danos que porventura venham a sofrer, nos termos do artigo 98, incisos I e II, da Lei n. 8.069/1990.”
Princípio da Proteção Integral
O grande traço distintivo da proteção integral em relação a outros direitos é justamente “o deslocamento da criança da margem do sistema para o centro, reconhecendo-a efetivamente como pessoa, o que é realizado pelo princípio do melhor interesse” (CRUZ, 2021, p. 30), também conhecido como doutrina do best interest, na expressão utilizada em língua inglesa.
Esse princípio consiste
Na lição de Heloisa Helena Gomes Barboza, esse princípio foi ratificado e alçado a um patamar de natureza constitucional, mediante a doutrina da proteção integral, que possui maior abrangência (BARBOZA, 2000, p. 206). A ideia é que ele “permanece como um padrão, considerando, sobretudo, as necessidades da criança em detrimento dos interesses de seus pais, devendo realizar-se sempre uma análise do caso concreto” (PEREIRA, 2000, p. 218).
Trata-se, pois, de um giro conceitual que passa a encarar os menores não mais como incapazes, mas como sujeitos de direito igualmente merecedores de tutela, que deve ser ainda mais intensa haja vista a vulnerabilidade que lhes é ínsita por ainda estarem em formação. Além disso, por ser o melhor interesse veiculado sob a estrutura de princípio, ele:
“tem elevado grau de abstração, e sua aplicação depende da situação concreta em análise, mas direciona para a adoção de soluções que privilegiem o interesse da criança enquanto pessoa, ao mesmo tempo em que busca superar uma tendência patriarcal que considere o ponto de vista do direito ou interesse de adultos envolvidos.”
Dito em outras palavras, o melhor interesse busca romper o patriarcalismo que imperava a tal ponto, que se falava no Código Civil de 1916 numa ideia de pátrio poder.
O instituto, completamente anacrônico nos dias atuais, “refletia a orientação hierarquizada e patriarcal que enxergava no pai o chefe da família, submetendo os filhos ao seu comando e arbítrio.
O pátrio poder fincava raízes no patria potestas dos romanos, “dura criação de direito despótico, que se assemelhava a autêntico direito de propriedade sobre os filhos” (SCHREIBER, 2018, p. 863). Como ressalta Pontes de Miranda (2012, p. 175), “[o]s romanos davam ao pater familias, por exemplo, o direito de matar o filho”.
Especificamente sobre o pátrio poder, este passou por uma transformação: primeiro se tornou um poder familiar, nomenclatura acolhida pela legislação, e atualmente é concebido como uma autoridade parental, que espelha um poder-dever por parte dos genitores em relação aos filhos.
Ele deixou, assim, de ser tutelado como um valor em si mesmo, devendo seu exercício, de igual hierarquia entre homens e mulheres, ser compatibilizado com outros princípios do ordenamento, sobretudo o melhor interesse da criança e do adolescente. Daí se depreende que o poder dos pais não pode tudo. Ele encontra limites impostos pelo ordenamento. Há quem defenda, até mesmo, que seria mais adequado se falar em “responsabilidades parentais”, uma vez que essa expressão enfatizaria “o conjunto de atribuições conferidas pelo ordenamento aos pais para desenvolverem e cuidarem de seus filhos” (CRUZ, 2021, p. 65).
Na lição de Ana Carolina Brochado:
“A autoridade parental, neste aspecto, foge da perspectiva de poder e de dever, para exercer sua sublime função de instrumento facilitador da construção da autonomia responsável dos filhos. Nisso consiste o ato de educá-los, decorrente dos Princípios da Paternidade/Maternidade Responsável, e da Doutrina da Proteção Integral, ambos com sede constitucional, ao alicerce de serem pessoas em fase de desenvolvimento, o que lhes garante prioridade absoluta.”
Módulo 2 = Princípios Orientadores
Identificar os princípios orientadores da doutrina da proteção integral como o princípio da prioridade absoluta; do superior interesse; e da municipalização.
Prioridade absoluta
Princípios fundamentais
Os princípios que regem o direito das crianças e dos adolescentes
Como destaca Andréa Rodrigues Amin, no campo do chamado direito infantojuvenil brasileiro, há tanto princípios quanto regras que concretizam a doutrina da proteção integral, que é, em verdade, um espelho do princípio da dignidade da pessoa humana aplicado para a peculiar situação em que se encontram crianças e adolescentes.
Nessa direção, seriam três os princípios gerais que atuam como orientadores de todo o Estatuto da Criança e do Adolescente (AMIN, 2018, p. 70):
1. Princípio da prioridade absoluta;
2. Princípio do superior interesse, também designado de melhor interesse;
3. Princípio da municipialização.
Andréa Amin ainda destaca que há outros princípios específicos a certas áreas de atuação ou que dizem respeito a institutos próprios.
Exemplo: Princípios relativos “às medidas específicas de proteção, estabelecidos no parágrafo único do art. 100 do Estatuto da Criança e do Adolescente, com redação introduzida pela Lei n. 12.010, de 3 de agosto de 2009, bem como princípios regentes da execução das medidas socioeducativas, estabelecidos no art. 35 da Lei n. 12.594, de 18 de janeiro de 2012” (AMIN, 2018, pp. 71-72).
Princípio da Prioridade absoluta
Começamos pelo chamado princípio da prioridade absoluta, que encontra assento constitucional. Ele está estampado no artigo 227, caput: “É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.”.
Recomendação: Além deste dispositivo, devemos fazer a leitura de duas normas constantes do Estatuto da Criança e do Adolescente, a saber: o artigo 4º e o inciso II do parágrafo único do artigo 100.
Com redação bastante assemelhada à Constituição, o artigo 4º dispõe que:
“É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária.”.
Em seu parágrafo único, a norma esmiúça que a garantia de prioridade compreende, em rol meramente exemplificativo:
· Primazia de receber proteção e socorro em quaisquer circunstâncias, ou seja, se há um acidente de carro e os socorristas precisam prestar atendimento às vítimas, as crianças devem receber atenção prioritária;
· Precedência de atendimento nos serviços públicos ou de relevância pública;
· Preferência na formulação e na execução das políticas sociais públicas;
· Destinação privilegiada de recursos públicos nas áreas relacionadas com a proteção à infância e à juventude.
Importante destacarmos que, como adverte Gustavo Cives Seabra, “embora a lei tenha mencionado ‘em qualquer circunstância’, deve-se interpretar o dispositivo como a primazia nos casos em que várias pessoas estejam na mesma situação fática” (SEABRA, 2020, p. 49).
Reflexão: Se no exemplo do acidente de carro verifica-se que a criança foi protegida pela cadeirinha de segurança e há um adulto com perfurações e hemorragia, este deve ser atendido com prioridade.
Como ressalta Andréa Amin, tal princípio “[e]stabelece primazia em favor das crianças e dos adolescentes em todas as esferas de interesse. Seja no campo judicial, extrajudicial, administrativo, social ou familiar, o interesse infantojuvenil deve preponderar” (AMIN, 2018, p. 72).
Questão problemática reside em saber o que fazer diante de conflito entre prioridades. Isto é: se, por exemplo, houver recursos escassos e for preciso optar entre construir uma creche ou um lar para idosos, qual solução deveria preponderar? Há aqui divergência na doutrina, conforme podemos conferir a seguir (SEABRA, 2020,p. 50):
Prioridade de Crianças = Algumas advertem que a proteção das crianças deveria ser prevalente por gozar de status constitucional
Analisar cada situação = Outros defendem que a situação deve ser analisada em concreto, não havendo qualquer hierarquia abstratamente considerada.
Por seu turno, o artigo 100 do Estatuto da Criança e do Adolescente, que se insere no capítulo das Medidas Específicas de Proteção, dispõe em seu caput que: “Na aplicação das medidas levar-se-ão em conta as necessidades pedagógicas, preferindo-se aquelas que visem ao fortalecimento dos vínculos familiares e comunitários.”.
Esmiuçando isso, o parágrafo único traz que também são princípios que regem a aplicação das medidas, conforme o inciso II: “proteção integral e prioritária: a interpretação e aplicação de toda e qualquer norma contida nesta Lei deve ser voltada à proteção integral e prioritária dos direitos de que crianças e adolescentes são titulares.”.
Atenção!
Como podemos notar, trata-se de uma regra que se destina a guiar a interpretação e a aplicação das normas constantes do Estatuto, que deve ter como grande norte a proteção integral e prioritária dos direitos dessas pessoas humanas em desenvolvimento.
A interpretação jurisprudencial do princípio da prioridade absoluta
Os Tribunais brasileiros também têm buscado assegurar o princípio da prioridade absoluta. Vejamos, nessa direção, a ementa deste acórdão da 1ª Turma do Superior Tribunal de Justiça, que acabou por assegurar o direito fundamental à saúde:
“DIREITO CONSTITUCIONAL À ABSOLUTA PRIORIDADE NA EFETIVAÇÃO DO DIREITO À SAÚDE DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE. NORMA CONSTITUCIONAL REPRODUZIDA NOS ARTS. 7º E 11 DO ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE. NORMAS DEFINIDORAS DE DIREITOS NÃO PROGRAMÁTICAS. EXIGIBILIDADE EM JUÍZO. INTERESSE TRANSINDIVIDUAL ATINENTE ÀS CRIANÇAS SITUADAS NESSA FAIXA ETÁRIA. AÇÃO CIVIL PÚBLICA. CABIMENTO E PROCEDÊNCIA. [...] 2. O direito constitucional à absoluta prioridade na efetivação do direito à saúde da criança e do adolescente é consagrado em norma constitucional reproduzida nos arts. 7º e 11 do Estatuto da Criança e do Adolescente. 3. [...] 4. Releva notar que uma Constituição Federal é fruto da vontade política nacional, erigida mediante consulta das expectativas e das possibilidades do que se vai consagrar, por isso que cogentes e eficazes suas promessas, sob pena de restarem vãs e frias enquanto letras mortas no papel. Ressoa inconcebível que direitos consagrados em normas menores como Circulares, Portarias, Medidas Provisórias, Leis Ordinárias tenham eficácia imediata e os direitos consagrados constitucionalmente, inspirados nos mais altos valores éticos e morais da nação, sejam relegados a segundo plano. Prometendo o Estado o direito à saúde, cumpre adimpli-lo, porquanto a vontade política e constitucional, para utilizarmos a expressão de Konrad Hessem, foi no sentido da erradicação da miséria que assola o país. O direito à saúde da criança e do adolescente é consagrado em regra de normatividade mais do que suficiente, porquanto se define pelo dever, indicando o sujeito passivo, in casu, o Estado. [...] 6. A determinação judicial desse dever pelo Estado não encerra suposta ingerência do judiciário na esfera da administração. Deveras, não há discricionariedade do administrador frente aos direitos consagrados, quiçá constitucionalmente. Nesse campo a atividade é vinculada sem admissão de qualquer exegese que vise afastar a garantia pétrea. 7. Um país cujo preâmbulo constitucional promete a disseminação das desigualdades e a proteção à dignidade humana, alçadas ao mesmo patamar da defesa da Federação da República, não pode relegar o direito à saúde das crianças a um plano diverso daquele que o coloca como uma das mais belas e justas garantias constitucionais. 8. Afastada a tese descabida da discricionariedade, a única dúvida que se poderia suscitar resvalaria na natureza da norma ora sob enfoque, se programática ou definidora de direitos. Muito embora a matéria seja, somente nesse particular, constitucional, porém sem importância revela-se essa categorização, tendo em vista a explicitude do ECA, inequívoca se revela a normatividade suficiente à promessa constitucional, a ensejar a acionabilidade do direito consagrado no preceito educacional. [...] 12. O direito do menor à absoluta Prioridade na garantia de sua saúde, insta o Estado a desincumbir-se do mesmo através da sua rede própria. Deveras, colocar um menor na fila de espera e atender a outros é o mesmo que tentar legalizar a mais violenta afronta ao princípio da isonomia, pilar não só da sociedade democrática anunciada pela Carta Magna, mercê de ferir de morte a cláusula de defesa da dignidade humana. 13. Recurso especial provido para, reconhecida a legitimidade do Ministério Público, prosseguir no processo até o julgamento do mérito.”
Superior Interesse
Princípio do superior interesse
O segundo princípio de que nos ocupamos é mais popularmente conhecido como melhor interesse da criança e do adolescente e encontra ampla previsão em instrumentos normativos internacionais.
Exemplo = Vejamos a Declaração de Direitos das Crianças de 1959, cujo princípio 2 afirma que “a criança gozará de proteção social e ser-lhe-ão proporcionadas oportunidades e facilidades, por lei e por outros meios, a fim de lhe facultar o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, de forma sadia e normal e em condições de liberdade e dignidade. Na instituição das leis, visando este objetivo, levar-se-ão em conta, sobretudo, os melhores interesses da criança.”.
O artigo 3.1 da Convenção dos Direitos das Crianças segue na mesma direção ao dispor que: “Todas as ações relativas às crianças, levadas a efeito por instituições públicas ou privadas de bem-estar social, tribunais, autoridades administrativas ou órgãos legislativos, devem considerar, primordialmente, o interesse maior da criança”.
Em nosso ordenamento, também podemos encontrar uma projeção desse princípio em um dos incisos do parágrafo único do artigo 100 do Estatuto da Criança e do Adolescente. Vejamos: “Art. 100. Na aplicação das medidas, levar-se-ão em conta as necessidades pedagógicas, preferindo-se aquelas que visem ao fortalecimento dos vínculos familiares e comunitários. Parágrafo único.
São também princípios que regem a aplicação das medidas: (...) IV - interesse superior da criança e do adolescente: a intervenção deve atender prioritariamente aos interesses e direitos da criança e do adolescente, sem prejuízo da consideração que for devida a outros interesses legítimos no âmbito da pluralidade dos interesses presentes no caso concreto.”
O grande problema em torno da aplicação de tal princípio é que ele se trata, em verdade, de um conceito jurídico indeterminado. Nessa direção, como esclarece Gustavo Cives Seabra, “[a]pesar desse princípio servir de norte também ao legislador e ao administrador, consideramos difícil estabelecer genericamente o que seria o melhor interesse de determinada criança ou adolescente. Acreditamos que sua aplicação se coaduna com uma avaliação individual, o que se mostra inviável para a lei” (SEABRA, 2020, p. 52).
Seabra traz um exemplo bastante elucidativo a partir do artigo 19 do ECA:
“Cuida do princípio da prevalência da família natural e excepcionalidade da família substituta. Todavia, em caso de maus tratos praticados pelos pais a um recém-nascido, será que o melhor interesse é buscar de forma incessante membros da família ampliada (art. 25, PU do ECA) que podem residir longe da criança e possuam pouco contato com o infante ou a colocação para adoção lhe é mais conveniente? A resposta só o caso concreto definirá! A lei não consegue fazer essa previsão e acertar sempre o que é melhor para a criança e o adolescente.”
Nada obstante a ausência de concretude desse princípio, o Comentário Geral 14/2013 do Comitê da ONU sobre os Direitos das Crianças esclarece que o interesse superior da criança seria, em verdade, um conceito triplo:
· Um direito substantivo
Enquanto um direito substantivo,“o interesse superior da criança deve receber uma consideração primordial na ponderação diante de distintos interesses para tomar uma decisão. Sempre que for decidida uma questão que afete uma criança, esse direito deverá ser colocado em prática.” (PAIVA, 2018, p. 172).
· Um princípio jurídico interpretativo fundamental
Por outro lado, enquanto um princípio jurídico interpretativo fundamental, ele se revelaria na ideia de que “se uma disposição jurídica admite mais de uma interpretação, deve ser eleita a interpretação que satisfaça de maneira mais efetiva o interesse superior da criança. Os direitos consagrados na Convenção e seus Protocolos facultativos estabelecem o marco interpretativo.” (PAIVA, 2018, p. 172).
· Uma norma de procedimento
Finalmente, na sua acepção de norma de procedimento: ”sempre que se tenha que tomar uma decisão que afete uma criança em concreto, um grupo de crianças em concreto ou as crianças em geral, o processo de adoção de decisões deve incluir uma estimativa das possíveis repercussões (positivas ou negativas) da decisão na criança ou nas crianças interessadas. A análise e a determinação do interesse superior da criança requerem garantias processuais. Além disso, a justificação das decisões deve deixar claro que foi levado em conta explicitamente esse direito. Nesse sentido, os Estados Partes devem explicar como foi respeitado esse direito na decisão, isto é, que chegou-se à conclusão que o interesse superior da criança estava sendo atendido, em quais critérios a decisão foi baseada e como foram ponderados os interesses da criança frente a outras considerações.” (PAIVA, 2018, p. 172).
Uma ressalva importante precisa ser feita: “não se está diante de um salvo-conduto para, com fundamento no best interest, ignorar a lei. O julgador não está autorizado, por exemplo, a afastar princípios como o do contraditório ou do devido processo legal, justificando seu agir no interesse superior do menor (AMIN, 2018, p. 83).
Municipalização
Princípio da municipalização
O derradeiro princípio geral relativo ao direito infantojuvenil que vamos analisar é o chamado princípio da municipalização.
A ideia aqui é que o ente federativo mais próximo das crianças e dos adolescentes deveria tomar maiores atitudes para concretizar e dar efetividade ao complexo de direitos que compõem a proteção integral.
Isso porque acaba se tornando mais fácil e simples, na prática, “fiscalizar a implementação e cumprimento das metas determinadas nos programas se o Poder Público estiver próximo, até porque reúne melhores condições de cuidar das adaptações necessárias à realidade local” (AMIN, 2018, p. 84).
Como esclarece Andréa Amin a esse respeito:
“A municipalização, seja na formulação de políticas locais, por meio do CMDCA, seja solucionando seus conflitos mais simples e resguardando diretamente os direitos fundamentais infantojuvenis, por sua própria gente, escolhida para integrar o Conselho Tutelar, seja por fim, pela rede de atendimento formada pelo Poder Público, agências sociais e ONGS, busca alcançar eficiência e eficácia na prática da doutrina da proteção integral.”
Nada obstante, é preciso destacar que o fato de se desejar que os municípios adotem essa postura mais ativa não exclui a necessidade de que os demais entes da federação também se envolvam nessa promoção e garantia dos direitos das crianças e dos adolescentes: muito pelo contrário!
Não há dúvidas, nessa direção, de “que Estado e União são solidários ao município na tutela e resguardo dos direitos infantojuvenis” (AMIN, 2018, p. 86).
É precisamente o que determina o inciso III do parágrafo único do artigo 100 do Estatuto da Criança e do Adolescente: “Art. 100. Na aplicação das medidas levar-se-ão em conta as necessidades pedagógicas, preferindo-se aquelas que visem ao fortalecimento dos vínculos familiares e comunitários. Parágrafo único. São também princípios que regem a aplicação das medidas: (...) III - responsabilidade primária e solidária do poder público: a plena efetivação dos direitos assegurados a crianças e a adolescentes por esta Lei e pela Constituição Federal, salvo nos casos por esta expressamente ressalvados, é de responsabilidade primária e solidária das 3 (três) esferas de governo, sem prejuízo da municipalização do atendimento e da possibilidade da execução de programas por entidades não governamentais.”.
Com isso, elencados e analisados os princípios mais relevantes, passamos no módulo seguinte a nos debruçarmos sobre o estudo dos direitos fundamentais das crianças e dos adolescentes.
Módulo 3 = Direitos Fundamentais
Reconhecer os direitos e as garantias fundamentais das crianças e dos adolescentes.
Direito à Vida e à Saúde
Direito Fundamentais
Neste módulo, vamos adentrar na análise dos principais direitos fundamentais relativos às crianças e aos adolescentes.
Recomendação = Vamos seguir, como linha de condução geral, a estrutura da Lei n. 8.069, de 13 de julho de 1990 (Estatuto da Criança e do Adolescente), que traz, em seu título II, o tema: “Dos Direitos Fundamentais”. Tal título é subdividido em capítulos, que tratam respectivamente: (i) Do Direito à Vida e à Saúde; (ii) Do Direito à Liberdade, ao Respeito e à Dignidade; (iii) Do Direito à Convivência Familiar e Comunitária; (iv) Do Direito à Educação, à Cultura, ao Esporte e ao Lazer; (v) Do Direito à Profissionalização e à Proteção no Trabalho.
Antes, precisamos fazer uma importante ressalva: apesar de tais direitos estarem descritos no Estatuto da Criança e do Adolescente, trata-se de um rol meramente exemplificativo, já que, enquanto pessoas que o são, as crianças e os adolescentes são destinatários dos direitos fundamentais presentes em outros diplomas, ressalvando-se, logicamente, aqueles incompatíveis com a idade como, por exemplo, o direito ao voto, que não pode ser exercido pelas crianças e é facultativo para os adolescentes a partir dos 16 anos de idade.
Do Direito à Vida e à Saúde
Dispõe o artigo 7º do Estatuto da Criança e do Adolescente que: “A criança e o adolescente têm direito a proteção à vida e à saúde, mediante a efetivação de políticas sociais públicas que permitam o nascimento e o desenvolvimento sadio e harmonioso, em condições dignas de existência.”.
Como podemos imaginar, não era preciso que o legislador infraconstitucional previsse isso, já que a própria Constituição já traz, por exemplo, a garantia do direito à vida tanto no caput do artigo 5º quanto no caput do artigo 227, que é específico em relação às crianças e aos adolescentes.
No entanto, houve previsão expressa no ECA e algumas normas foram adicionadas em seguida para buscar a efetivação desses direitos fundamentais. A ideia geral é que desde antes do nascimento, enquanto nascituros, as pessoas já recebem algum tipo de proteção por parte do Estado.
Exemplo = O estado assegura o nascimento em condição dignas e saudáveis.
Isso inclui, naturalmente, normas destinadas às gestantes, como o artigo 8º do ECA: “É assegurado a todas as mulheres o acesso aos programas e às políticas de saúde da mulher e de planejamento reprodutivo e, às gestantes, nutrição adequada, atenção humanizada à gravidez, ao parto e ao puerpério e atendimento pré-natal, perinatal e pós-natal integral no âmbito do Sistema Único de Saúde.”.
Ainda nesse artigo, podemos destacar alguns de seus parágrafos que trazem direitos muito importantes: “§3º: Os serviços de saúde onde o parto for realizado assegurarão às mulheres e aos seus filhos recém-nascidos alta hospitalar responsável e contrarreferência na atenção primária, bem como o acesso a outros serviços e a grupos de apoio à amamentação.”.
Saiba mais = Destaca-se a preocupação com o aleitamento materno na primeira infância. Além disso, atento aos possíveis efeitos danosos do estado puerperal, previu o §4º que incumbe ao poder público proporcionar assistência psicológica à gestante e à mãe, nos períodos pré e pós-natal, inclusive como forma de prevenir ou minorar as consequências do estado puerperal. Ainda nessa linha, o §5º trata da possibilidade deque as genitoras entreguem seus filhos para adoção e, ainda assim, recebam o auxílio por parte do Estado.
Finalmente, podemos destacar a garantia reservada pelo artigo às mulheres que se encontrem em situação de privação de liberdade. É o que dispõe o §10: “Incumbe ao poder público garantir, à gestante e à mulher com filho na primeira infância que se encontrem sob custódia em unidade de privação de liberdade, ambiência que atenda às normas sanitárias e assistenciais do Sistema Único de Saúde para o acolhimento do filho, em articulação com o sistema de ensino competente, visando ao desenvolvimento integral da criança.”.
Em relação à saúde, o artigo 11 do ECA afirma que é assegurado acesso integral às linhas de cuidado voltadas à saúde da criança e do adolescente, por intermédio do Sistema Único de Saúde, observado o princípio da equidade no acesso a ações e serviços para promoção, proteção e recuperação da saúde. O parágrafo primeiro esmiúça que a criança e o adolescente com deficiência serão atendidos, sem discriminação ou segregação, em suas necessidades gerais de saúde e específicas de habilitação e reabilitação.
Saiba mais = Norma importante também consta do §3º, ao instituir que os profissionais que atuam no cuidado diário ou frequente de crianças na primeira infância receberão formação específica e permanente para a detecção de sinais de risco para o desenvolvimento psíquico, bem como para o acompanhamento que se fizer necessário.
Por derradeiro, devemos ressaltar o artigo 13, que cuida da proteção à integridade físico-psíquica da criança em relação a maus-tratos, que devem ser prontamente reprimidos: “Os casos de suspeita ou confirmação de castigo físico, de tratamento cruel ou degradante e de maus-tratos contra criança ou adolescente serão obrigatoriamente comunicados ao Conselho Tutelar da respectiva localidade, sem prejuízo de outras providências legais.”.
Direito à Liberdade, ao Respeito e à Dignidade
Em relação ao direito à liberdade, são válidas as mesmas considerações feitas no item anterior:
A Constituição já assegura a liberdade e a dignidade, então o que o Estatuto da Criança e do Adolescente faz é tentar disciplinar a garantia desses direitos de modo mais peculiar e atento à realidade das crianças e dos adolescentes.
É nessa direção que caminha o artigo 15 do ECA, que assim dispõe: “A criança e o adolescente têm direito à liberdade, ao respeito e à dignidade como pessoas humanas em processo de desenvolvimento e como sujeitos de direitos civis, humanos e sociais garantidos na Constituição e nas leis.”
Especificamente em relação ao direito à liberdade, o artigo 16 enumera em seus incisos os aspectos que ele compreende. São eles, respectivamente:
I. Ir, vir e estar nos logradouros públicos e espaços comunitários, ressalvadas as restrições legais;
II. Opinião e expressão;
III. Crenças e culto religioso;
IV. Brincar, praticar esportes e divertir-se;
V. Participar da vida familiar e comunitária, sem discriminação;
VI. Participar da vida política, na forma da lei;
VII. Buscar refúgio, auxílio e orientação.
Com todo direito, a liberdade das crianças e dos adolescentes também pode comportar restrições, como se dá no caso de medidas de privação de liberdade (artigo 106 do ECA) e de imposição de internação (Artigo 121).
Importante, ainda, a ressalva de Gustavo Cives Seabra de que:
os direitos compreendidos no artigo 16 não são suprimidos quando a criança ou adolescente estiver cumprindo medida socioeducativa de meio fechado (internação ou semiliberdade) ou quando estiver em medida protetiva de acolhimento institucional. Assim, ressalvadas as limitações inerentes à aplicação da medida, é certo que as unidades socioeducativas e de acolhimento devem possuir espaço para a prática de esportes, cultos religiosos e não deve ser vedada a reunião das crianças e adolescentes para postular melhorias, já que isso é uma forma de participar da vida política (nem que seja restrito ao âmbito da unidade).”
No que tange ao direito ao respeito, afirma o artigo 17 que esse direito “consiste na inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral da criança e do adolescente, abrangendo a preservação da imagem, da identidade, da autonomia, dos valores, ideias e crenças, dos espaços e objetos pessoais.”.
Como concretização desse direito mais amplo, tem-se a norma do artigo 18: “É dever de todos velar pela dignidade da criança e do adolescente, pondo-os a salvo de qualquer tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor.”. Esta última norma se relaciona diretamente com os artigos 18-A e 18-B, que foram introduzidos pela Lei n. 13.010/2014, conhecida popularmente como “Lei da Palmada” e que gerou muita controvérsia e debates na sociedade quando da sua promulgação.
Assim dispõe o artigo 18-A:
“A criança e o adolescente têm o direito de ser educados e cuidados sem o uso de castigo físico ou de tratamento cruel ou degradante, como formas de correção, disciplina, educação ou qualquer outro pretexto, pelos pais, pelos integrantes da família ampliada, pelos responsáveis, pelos agentes públicos executores de medidas socioeducativas ou por qualquer pessoa encarregada de cuidar deles, tratá-los, educá-los ou protegê-los. Parágrafo único. Para os fins desta Lei, considera-se: I - castigo físico: ação de natureza disciplinar ou punitiva aplicada com o uso da força física sobre a criança ou o adolescente que resulte em: a) sofrimento físico; ou b) lesão; II - tratamento cruel ou degradante: conduta ou forma cruel de tratamento em relação à criança ou ao adolescente que: a) humilhe; ou b) ameace gravemente; ou c) ridicularize.”
Direito á Convivência Familiar e Comunitária
O capítulo relativo ao direito à convivência familiar e comunitária é, inegavelmente, um dos mais importantes e centrais de todo o Estatuto. Entre os artigos 19 e 24, há uma série de normas gerais sobre o tema.
Merece o nosso destaque o artigo 19, que enuncia em seu caput que: “É direito da criança e do adolescente ser criado e educado no seio de sua família e, excepcionalmente, em família substituta, assegurada a convivência familiar e comunitária, em ambiente que garanta seu desenvolvimento integral.”.
Tal norma traz dois princípios basilares:
· Princípio da prevalência da família natural;
· Princípio da excepcionalidade da colocação em família substituta.
A ideia geral aqui é que, tanto quanto possível, deve-se buscar manter a criança e o adolescente no convívio com sua família natural, de modo que só se deveria buscar uma colocação em família substituta em casos excepcionais. Entende o legislador que não importa tanto, por exemplo, a pobreza dos genitores: é preferível que aquela pessoa humana em desenvolvimento fique no seu ambiente da família natural (Artigo 25: “Entende-se por família natural a comunidade formada pelos pais ou qualquer deles e seus descendentes.”).
Nem mesmo a prisão dos pais parece ser um obstáculo, como destaca o §4º desse mesmo artigo: “Será garantida a convivência da criança e do adolescente com a mãe ou o pai privado de liberdade, por meio de visitas periódicas promovidas pelo responsável ou, nas hipóteses de acolhimento institucional, pela entidade responsável, independentemente de autorização judicial.”. Na mesma direção, o §5º: “Será garantida a convivência integral da criança com a mãe adolescente que estiver em acolhimento institucional.”.
Essas noções são esmiuçadas pelo artigo 23 e seus parágrafos, que assim dispõem: “A falta ou a carência de recursos materiais não constitui motivo suficiente para a perda ou a suspensão do poder familiar. §1º: Não existindo outro motivo que por si só autorize a decretação da medida, a criança ou o adolescente será mantido em sua família de origem, a qual deverá obrigatoriamente ser incluída em serviços e programas oficiais de proteção, apoio e promoção. §2º: A condenação criminal do pai ou da mãe não implicará a destituição do poder familiar, exceto na hipótese de condenação por crime doloso sujeito à pena de reclusão contra outrem igualmente titulardo mesmo poder familiar ou contra filho, filha ou outro descendente.”.
Reflexão = Acima de tudo, tenta-se manter o convívio dos filhos com a família natural, por ser esse um princípio basilar que informa o Estatuto da Criança e do Adolescente.
Direito à Educação, à Cultura, ao Esporte e ao Lazer
Cada vez mais, entende-se que o desenvolvimento da pessoa humana se dá de forma muito mais proveitosa quando se recebe, desde a infância, acesso a educação, cultura, esporte e lazer. Não basta apenas receber as lições escolares: é preciso também sorver cultura, praticar esportes e ter momentos de lazer.
Nessa direção, tratando especificamente da educação, o artigo 53 do ECA prevê que: “A criança e o adolescente têm direito à educação, visando ao pleno desenvolvimento de sua pessoa, preparo para o exercício da cidadania e qualificação para o trabalho, assegurando-se-lhes:
I - igualdade de condições para o acesso e permanência na escola;
II - direito de ser respeitado por seus educadores;
III - direito de contestar critérios avaliativos, podendo recorrer às instâncias escolares superiores;
IV - direito de organização e participação em entidades estudantis;
V - acesso à escola pública e gratuita, próxima de sua residência, garantindo-se vagas no mesmo estabelecimento a irmãos que frequentem a mesma etapa ou ciclo de ensino da educação básica.
Parágrafo único. É direito dos pais ou responsáveis ter ciência do processo pedagógico, bem como participar da definição das propostas educacionais.”.
Podemos destacar, por exemplo, o inciso IV, que assegura que os estudantes possam se organizar no ambiente escolar, além do inciso V, que traz a importância de que haja o acesso a escola pública próxima da residência dos alunos, que devem estudar na mesma escola de seus irmãos, até mesmo para facilitar o deslocamento por parte dos pais e a rotina da família.
Atenção!
Importante notarmos que há deveres específicos não apenas para os pais e para o Estado, mas também para instituições particulares. É exemplo disso o artigo 53-A, que assim afirma: “É dever da instituição de ensino, clubes e agremiações recreativas e de estabelecimentos congêneres assegurar medidas de conscientização, prevenção e enfrentamento ao uso ou dependência de drogas ilícitas.”.
Em relação ao Estado, o artigo 54 impõe como seu dever assegurar à criança e ao adolescente:
“I - ensino fundamental, obrigatório e gratuito, inclusive para os que a ele não tiveram acesso na idade própria;
II - progressiva extensão da obrigatoriedade e gratuidade ao ensino médio;
III - atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino;
IV – atendimento em creche e pré-escola às crianças de zero a cinco anos de idade;
V - acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da criação artística, segundo a capacidade de cada um;
VI - oferta de ensino noturno regular, adequado às condições do adolescente trabalhador;
VII - atendimento no ensino fundamental, através de programas suplementares de material didático-escolar, transporte, alimentação e assistência à saúde.”.
Esse acesso à educação é tão sério que os parágrafos desse artigo trazem previsões expressas:
“§1º: O acesso ao ensino obrigatório e gratuito é direito público subjetivo; §2º: O não oferecimento do ensino obrigatório pelo poder público ou sua oferta irregular importa responsabilidade da autoridade competente; §3º: Compete ao poder público recensear os educandos no ensino fundamental, fazer-lhes a chamada e zelar, junto aos pais ou responsável, pela frequência à escola.”.
O direito à educação e o ensino domiciliar
Em relação aos pais, o artigo 55 impõe a obrigação de que eles matriculem seus filhos ou pupilos na rede regular de ensino, o que abre margem para a discussão relativa ao chamado homeschooling, isto é, o ensino domiciliar.
Importante relembrarmos que o Supremo Tribunal Federal, por meio de seu Plenário, acabou negando provimento ao Recurso Extraordinário (RE) n. 888815, com repercussão geral reconhecida, no qual se discutia a possibilidade dessa modalidade de ensino, o que tem gerado iniciativas por parte do Legislativo, uma vez que o fundamento principal para a improcedência do recurso foi por ausência de norma legal que regulamente a sua prática.
Assim ementou a Corte o referido acórdão:
“CONSTITUCIONAL. EDUCAÇÃO. DIREITO FUNDAMENTAL RELACIONADO À DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA E À EFETIVIDADE DA CIDADANIA. DEVER SOLIDÁRIO DO ESTADO E DA FAMÍLIA NA PRESTAÇÃO DO ENSINO FUNDAMENTAL. NECESSIDADE DE LEI FORMAL, EDITADA PELO CONGRESSO NACIONAL, PARA REGULAMENTAR O ENSINO DOMICILIAR. RECURSO DESPROVIDO.
1. A educação é um direito fundamental relacionado à dignidade da pessoa humana e à própria cidadania, pois exerce dupla função: de um lado, qualifica a comunidade como um todo, tornando-a esclarecida, politizada, desenvolvida (CIDADANIA); de outro, dignifica o indivíduo, verdadeiro titular desse direito subjetivo fundamental (DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA). No caso da educação básica obrigatória (CF, art. 208, 1), os titulares desse direito indisponível à educação são as crianças e adolescentes em idade escolar.
2. É dever da família, sociedade e Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, a educação. A Constituição Federal consagrou o dever de solidariedade entre a família e o Estado como núcleo principal à formação educacional das crianças, jovens e adolescentes com a dupla finalidade de defesa integral dos direitos das crianças e dos adolescentes e sua formação em cidadania, para que o Brasil possa vencer o grande desafio de uma educação melhor para as novas gerações, imprescindível para os países que se querem ver desenvolvidos.
3. A Constituição Federal não veda de forma absoluta o ensino domiciliar, mas proíbe qualquer de suas espécies que não respeite o dever de solidariedade entre a família e o Estado como núcleo principal à formação educacional das crianças, jovens e adolescentes. São inconstitucionais, portanto, as espécies de unschooling radical (desescolarização radical), unschooling moderado (desescolarização moderada) e homeschooling puro, em qualquer de suas variações.
4. O ensino domiciliar não é um direito público subjetivo do aluno ou de sua família, porém não é vedada constitucionalmente sua criação por meio de lei federal, editada pelo Congresso Nacional, na modalidade “utilitarista” ou “por conveniência circunstancial”, desde que se cumpra a obrigatoriedade, de 4 a 17 anos, e se respeite o dever solidário Família/Estado, o núcleo básico de matérias acadêmicas, a supervisão, avaliação e fiscalização pelo Poder Público; bem como as demais previsões impostas diretamente pelo texto constitucional, inclusive no tocante às finalidades e objetivos do ensino; em especial, evitar a evasão escolar e garantir a socialização do indivíduo, por meio de ampla convivência familiar e comunitária (CF, art. 227).
5. Recurso extraordinário desprovido, com a fixação da seguinte tese (TEMA 822): “Não existe direito público subjetivo do aluno ou de sua família ao ensino domiciliar, inexistente na legislação brasileira”
Direito à Profissionalização e à Proteção no Trabalho
Finalmente, no que diz respeito ao direito à profissionalização e à proteção no trabalho, é preciso tomar muito cuidado porque há um diálogo constante tanto com a Constituição da República quanto com as leis trabalhistas, como a CLT. E, não raro, acabam acontecendo alterações legislativas nesses outros diplomas que nem sempre são acompanhadas pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, o que acaba gerando incompatibilidades que precisam ser resolvidas pelos intérpretes.
Nessa direção, o próprio artigo 61 do ECA faz a ressalva de que: “A proteção ao trabalho dos adolescentes é regulada por legislação especial, sem prejuízo do disposto nesta Lei.”.
O artigo 60, por sua vez, dispõe que: “É proibido qualquer trabalho a menores de quatorze anos de idade, salvo na condição de aprendiz.”. Nada obstante, aqui, mais do que nunca,é preciso realizar a análise comparativa. Tal dispositivo estava em consonância com a redação originária do artigo 7º, XXXIII da CRFB.
Ocorre que, como explica Gustavo Cives Seabra:
“a EC 20/1998 alterou a redação do dispositivo constitucional para prever ‘a proibição de trabalho noturno, perigoso ou insalubre a menores de dezoito e de qualquer trabalho a menores de dezesseis anos, salvo na condição de aprendiz, a partir de quatorze anos’. Portanto, quem ainda não completou quatorze anos não pode trabalhar nem mesmo na condição de aprendiz, de forma que entendemos pela revogação do artigo 60 do ECA. Na mesma linha, perde sentido o artigo 64 do Estatuto que diz ser assegurada bolsa aprendizagem ao adolescente até quatorze anos. Ora, se quem tem menos de 14 anos não pode trabalhar, por óbvio não receberá bolsa aprendizagem.”
Importante ainda mencionarmos o artigo 69, que consagra: “O adolescente tem direito à profissionalização e à proteção no trabalho, observados os seguintes aspectos, entre outros: I - respeito à condição peculiar de pessoa em desenvolvimento; II - capacitação profissional adequada ao mercado de trabalho.”.
Merece destaque, especialmente, o inciso I, pois, ainda que se permita que os adolescentes exerçam alguns tipos de trabalho, eles devem ser compatíveis com a condição de pessoas humanas em desenvolvimento, de modo que nem tudo é permitido.
Por fim, é preciso considerar que, como alerta Gustavo Cives Seabra (2020, p. 133), “todos os direitos trabalhistas devem ser assegurados àqueles que não completaram a idade para o trabalho, mas mesmo assim tiveram seus direitos violados. Pensar de forma diferente levaria a uma dupla violação: 1- violação da proteção ao trabalho; 2- concessão de menos direitos que aqueles atribuídos aos adultos.”.
Foi precisamente nesse sentido que decidiu o Supremo Tribunal Federal no Recurso Extraordinário n. 600.616, em que se discutia a concessão de salário maternidade a uma adolescente que ainda não havia alcançado a idade para o trabalho. O julgado foi assim ementado pela Corte:
“Ementa: AGRAVO REGIMENTAL EM RECURSO EXTRAORDINÁRIO. DIREITO PREVIDENCIÁRIO. TRABALHADORA RURAL. MENOR DE 16 ANOS DE IDADE. CONCESSÃO DE SALÁRIO-MATERNIDADE. ART. 7º, XXXVI, DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL. NORMA PROTETIVA QUE NÃO PODE PRIVAR DIREITOS. PRECEDENTES.
Nos termos da jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, o art. 7º, XXXIII, da Constituição “não pode ser interpretado em prejuízo da criança ou adolescente que exerce atividade laboral, haja vista que a regra constitucional foi criada para a proteção e defesa dos trabalhadores, não podendo ser utilizada para privá-los dos seus direitos” (RE 537.040, Rel. Min. Dias Toffoli). Agravo regimental a que se nega provimento.”
Considerações Finais
Como vimos, a Doutrina da Proteção Integral vigora no cenário normativo atual e substituiu a antiquada Doutrina da Situação Irregular.
O artigo 227 da Constituição Federal estipula o importante princípio da prioridade absoluta na proteção da criança e do adolescente, que pode, contudo, sofrer limitações no caso concreto. Assim, a disciplina constitucional dos direitos da criança e do adolescente deve estar sempre acompanhada do Estatuto da Criança e do Adolescente, lei especial que concretiza os princípios da Carta Magna.
O ECA resguarda diversos direitos da criança e do adolescente, envolvendo o direito à vida, à saúde, à liberdade religiosa, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização e a tantos outros, todos condizentes com o objetivo principal de reconhecimento da criança e do adolescente como sujeitos de direito merecedores de tutela.

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