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ser educacional gente criando o futuro Presidente do Conselho de Administração Janguiê Diniz Diretor-presidente Jânyo Diniz Diretoria Executiva de Ensino Adriano Azevedo Diretoria Executiva de Serviços Corporativos Joaldo Diniz Diretoria de Ensino a Distância Enzo Moreira Autoria Maynara Priscila Pereira da Silva Projeto Gráfico e Capa DP Content DADOS DO FORNECEDOR Análise de Qualidade, Edição de Texto, Design lnstrucional, Edição de Arte, Diagramação, Design Gráfico e Revisão. © Ser Educacional 2021 Rua Treze de Maio, nº 254, Santo Amaro Recife-PE - CEP 50100-160 *Todos os gráficos, tabelas e esquemas são creditados à autoria, salvo quando indicada a referência. Informamos que é de inteira responsabilidade da autoria a emissão de conceitos. Nenhuma parte desta publ icação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem autorização. A violação dos direitos autorais é crime estabelecido pela Lei n.º 9.610/98 e punido pelo artigo 184 do Código Penal. Imagens de ícones/capa:© Shutterstock o \ ASSISTA Indicação de filmes, vídeos ou similares que trazem informações comple- mentares ou aprofundadas sobre o conteúdo estudado. CITANDO Dados essenciais e pertinentes sobre a vida de uma determinada pessoa relevante para o estudo do conteúdo abordado. CONTEXTUALIZANDO Dados que retratam onde e quando aconteceu determinado fato; demonstra-se a situação histórica do assunto. CURIOSIDADE Informação que revela algo desconhecido e interessante sobre o assunto tratado. DICA Um detalhe específico da informação, um breve conselho, um alerta, uma informação privilegiada sobre o conteúdo trabalhado. 1 EXEM PLIFICANDO Informação que retrata de forma objetiva determinado assunto. EXPLICANDO Explicação, elucidação sobre uma palavra ou expressão específica da área de conhecimento trabalhada. Unidade 1 - Introdução à Psicologia do Esporte Objetivos da unidade Fundamentos teóricos da Psicologia do Esporte História da Psicologia do Esporte Áreas de atuação da Psicologia do Esporte A relação mente/corpo e fatores de bem-estar e saúde mental Principais teorias em Psicologia do Esporte de alto rendimento Desenvolvimento positivo de jovens no esporte Mulheres olímpicas Sintetizando Referências bibliográficas 12 13 14 17 18 22 23 26 30 32 Unidade 2 - Aspectos comportamentais e cognitivos na prática de atividades específicas Objetivos da unidade ........................................................................................................... 35 Feedback, reforçamento e motivação .............................................................................. 36 Feedback intrínseco e extrínseco ................................................................................ 37 Motivação intrínseca e extrínseca .............................................................................. 39 Percepção e atenção nas práticas esportivas ............................................................... 42 Autoconceito e crenças ................................................................................................. 44 Autoeficácia no esporte e a performance esportiva ................................................ 46 O papel do mindfulness no esporte .............................................................................. 48 Compulsão e perdas ............................................................................................................. 50 Síndrome de burnout no esporte .................................................................................. 52 O coping ........................................................................... ................................................. 54 Sintetizando ........................................................................................................................... 56 Referências bibliográficas ................................................................................................. 57 Unidade 3 - Processo grupal Objetivos da unidade ........................................................................................................... 59 O processo grupal e a competição ................................................................................... 60 Coesão grupal e cooperação ........................................................................................ 63 A competição no contexto esportivo .......................................................................... 69 Questões psicossociais, socioculturais e a prática de atividade física em grupos populacionais ......................................................................................................................... 71 A importância do esporte para a formação de crianças e adolescentes ............. 72 A prática esportiva e o envelhecimento saudável ................................................... 75 O desenvolvimento psicossocial do atleta com deficiência .................................... 77 Sintetizando ........................................................................................................................... 79 Referências bibliográficas ................................................................................................. 80 Unidade 4 - Intervenção psicológica Obietivos da unidade ........................................................................................................... 82 Técnicas para intervenção no âmbito do esporte ......................................................... 83 Intervenções cognitivas e psicológicas em esportes e e-sports competitivos ....... 84 Intervenção psicológica nas lesões esportivas ..... ................................................... . 89 A Psicologia do Esporte e a intersetorialidade ............................................................. 95 Políticas públi cas no esporte educacional ................................................................. 97 Transição de carreira no esporte ................................................................................. 98 Sintetizando ......................................................................................................................... 101 Referências bibliográficas ............................................................................................... 102 A Psicologia do Esporte aborda questões relacionadas aos fenômenos psico- lógicos que afetam a prática esportiva, focando não somente a pessoa que pra- tica a atividade física, mas todos os agentes envolvidos no processo, como pais, árbitros e treinadores. Apesar de não ter sido tão reconhecida no início, essa subárea interdisciplinar tem ganhado espaço no universo científico e prático, vis- to que contribui para entender como o esporte pode influenciar a saúde física e menta l, além de possibilitar a verificação das potencialidades ou limitações dos atletas. Por isso, pesquisadores investigam cada vez mais sobre o tema. Diante disso, nesta disciplina, pretende-se discutir e refletir sobre a constru- ção da Psicologia do Esporte, bem como seus benefícios para o bem-estar e suas consequências para a saúde. Para tal, busca-se focar nos aspectos comporta- mentais e cognitivos frente à atividade física, tais como motivação, autoconceito, crenças, percepção, atenção e compulsões. Adicionalmente, visa-se analisar o alto rendimento, a importância da coesão grupal (processo, grupo e questões psicossociais) e as intervenções psicológicas aplicadas ao meio esportivo. Bons estudos! PSICOLOGIA 00 ESPORTE • A professora Maynara Priscila Pereira da Silva é Mestre em Psicologia pela Universidade São Francisco (2021) e graduada em Psicologia pela Universi- dade Paulista (2018). Trabalha na linha de pesquisa de construção, validação e padronização de instrumentos de me- dida. É membro do Núcleo de Estudose Pesquisa em Psicologia do Esporte e do Exercício (NuEPPEE). Possui experiên- cia nas áreas de Avaliação Psicológica, Psicometria e Psicologia do Esporte. Currículo Lattes: http://lattes.cn pq .br/2101004737875827 Dedico este trabalho a todos que valorizam o conhecimento e a aprendizagem; e aos meus professores e alunos, que me incentivam e são o motivo para eu permanecer no mundo acadêmico. PSICOLOGIA 00 ESPORTE • UNIDADE ~ ~ ser educacional Objetivos da unidade Apresentar o conceito de Psicologia do Esporte, sua trajetória e sua relação com o bem-estar e a saúde mental; Mostrar os possíveis efeitos da atividade física sobre os praticantes de atividades físicas; Abordar os conceitos da Psicologia do Esporte de alto rendimento, com efeitos, consequências e estratégias. Tópicos de estudo Fundamentos teóricos da Psico- logia do Esporte História da Psicologia do Es- porte Áreas de atuação da Psicologia do Esporte A relação mente/corpo e fato- res de bem-estar e saúde mental Principais teorias em Psicologia do Esporte de alto rendimento Desenvolvimento positivo de jovens no esporte Mulheres olímpicas PSICOLOGIA 00 ESPORTE • •• Fundamentos teóricos da Psicologia do Esporte O esporte pode ser considerado um dos maiores fenômenos sociais, visto que proporciona o desenvolvi- mento de habilidades socioemocio- nais, como respeito, responsabilidade, empatia e relação interpessoal. Além disso, é uma maneira de entreteni- i mento, devido ao fato de que várias ri- pessoas gostam de acompanhá-lo ~ ~:-::· :;;.,-~ ---; por lazer. Por isso, a temática espor- tiva vem crescendo cada vez mais nas áreas de pesquisas, podendo ser de- nominada como Ciência do Esporte e incluindo diversas disciplinas, tais como Medicina, Fisiologia e Psicologia. Nessa direção, o esporte demonstra uma tendência para a interdisciplina- rida de, sendo representada por subáreas. A Psicologia do Esporte (PE) é uma delas, sendo definida por processos e fundamentos psicológicos, como tam- bém pelas consequências causadas pela regu lação psicológica e associadas à prática esportiva individual ou em grupo. Tem por objetivo verificar os compor- tamentos em diferentes dimensões (afetivas, motivacionais e cognitivas). Entende-se que a PE busca analisar as consequências psíquicas causadas pelas ações esportivas a partir de duas perspectivas. A primeira se baseia em processos psicológicos básicos (cogn ição, motivação e emoção), enquanto a se- gunda está associada à realização de tarefas, focando em diagnóstico e plane- jamento/uso de intervenções. Portanto, é uma ciência do comportamento que busca auxiliar atletas e treinadores, entre outros agentes esportivos, por meio de métodos que visam à preparação psicológica associados ao desenvolvimento e à potencialidade das habilidades físicas ou sociais. Foca-se em aplicação duran- te a prática, na pré-competição e em outros momentos em que são provocados o sentimento de estresse, fazendo com que os esportistas e os agentes consi- gam enfrentar desafios com o objetivo de melhorar a performance. PSICOLOGIA 00 ESPORTE • Apesar de ser mais reconhecida atualmente, a PE não é uma área recente. Além de englobar outros campos de estudo, como a cinesiologia, reflete as influências de mudanças sociocu lturais, como o crescimento das Olimpíadas, a liberação das mulheres para a prática esportista e a popularidade do esporte profissiona l, passando por diferentes etapas históri cas até conseguir va loriza- ção no campo da pesquisa (GOU LD; VOELKER, 2014). Ainda ganha destaque devido à sua perspectiva competit iva e por estar presente em projetos sociais e de reabi litação, na medicina preventiva e em programas de qualidade de vida . •• História da Psicologia do Esporte A PE, um campo valorizado e de futuro promissor, é uma ciência do treina- mento esportivo, cujo obj etivo é a potencialização da performance de equipes e agentes envolvidos no processo. Os primeiros estudos da área datam cerca de um sécu lo atrás, entre os séculos XIX e XX. O foco, então, era compreen- der conceitos como personal idade, agressão, motivação, liderança, dinâmica de grupo e bem-est ar na prática esportiva e na at ividade física. Tais conceitos eram considerados como necessidade ou preocupação por profissiona is e pes- quisadores (WEINBERG; GOULD, 2017). O Quadro 1 apresent a o desenvolvi- mento da PE de acordo com períodos fundamentais para o estudo. QUADRO 1. ETAPAS DA HISTÓRIA DA PE :=::::::::=:::: Etapa Primeiros anos Desenvolvimento de laboratórios e de testes psicológicos Preparação para o futuro Estabelecimento da PE como disciplina acadêmica Ciência e prática multidisciplinares na Psicologia do Esporte e do exercício Psicologia contemporânea do esporte e do exercício Fonte: WEINBERG; GOULD, 2017, p. 7-11. (Adaptado). Período 1893-1920 1921-1938 1939-1965 1966-19n 1978-2000 2001-Até o presente PSICOLOGIA 00 ESPORTE • A PE surgiu na América do Norte, com o psicólogo Norman Triplett (1861-1931), que queria compreender a velocidade dos ciclistas, fazendo uma comparação entre aqueles que pedalavam sozinhos e aqueles que pedalavam em grupos. Ele realizou também experimentos com crianças, a fim de entender o desempenho da prática ind ividual e em grupo, chegando à conclusão de que a atividade física apresentava mais desempenho na companhia de outras pessoas (WEINBERG; GOULD, 2017). O segundo período aconteceu em laboratórios localizados na Alemanha, no Japão, na Rússia e nos Estados Unidos. Havia como objetivo construir e de- senvolver testes psicológicos em atletas para levant ar informações referentes ao tempo de reação, concentração, persona lidade e agressão. Dessa forma, prepararam bases para o f uturo ao elaborar técn icas e disciplinas de psico logia do esporte e do exercício. Em meados da década de 1960, a PE passou a se tornar uma produção aca- dêmica, voltada à aprendizagem motora e a fatores psico lógicos (ansiedade, motivação, personalidade e autoestima), sendo separada da Educação Física e da Fisiologia, como uma área independente. Assim, consultores aplicavam ao esporte os esforços desenvolvidos nas disciplinas, t rabalhando com equipe e atl etas. Contudo, foi a partir da década de 1970 que a PE rea lmente começou a ser reconhecida e expandida para diferentes países, devido a novos estudos. Com mais integrantes, a área passou a ser aceita e respeitada, mas não sem passar por alguns conflitos, como questões da prática profissional, definição de qualificação, aspectos de padrões éticos, entre outros. No Brasil , a PE surgiu no f inal da década de 1970, re lacionada à Psico logia clínica e educacional e ampliada com a participação de diferentes psicólogos, tendo como foco o futebol. Após esse período, ela ultrapassou limites, englo- bando outras modalidades com a ajuda do psicólogo Mauro Lopes de Almeida. Assim, os profissionais passaram a ocupar espaços em centros ol ímpicos, além de treinamentos e pesquisa, sendo desenvolvido um trabalho de acompanha- mento psico lógico (MORETTI , 2004). No mesmo período, a Sociedade Brasi leira de Psico logia do Esporte, da Atividade Física e da Recreação (Sobrape) foi f un- dada, tendo como presidente o Professor Doutor Benno Becker Júnior. Já em 2006, foi construída, por psicó logos e profissionais de Educação Física, a Asso- ciação Brasileira de Psicologia do Esporte (Abrapesp), com o obj etivo de refletir e est imular estudos e prát icas da PE no país. PSICOLOGIA 00 ESPORTE • O Brasil lidera o número de pesquisas e traba lhos publ icados, de congres- sos e de laboratórios da temática (localizados, sobretudo, na região Sul), quan- do comparado aos países da América Latina. No entanto, em relação ao enfo- que mundial, considera-se que o desenvolvimento foi mais rápido nos Estados Unidos e no continente europeu (Quadro 2). Nessaperspectiva, a PE pode ser encarada como um ramo emergente no cenário nacional. 1945-1957 1950 1956 1960 1962-1964 QUADRO 2. ACONTECIMENTOS RELACIONADOS À PE NO MUNDO ::=::::::::=::: Acontecimento A PE é integrada na grade curricular dos cursos de Educação Física na União Soviética. O Instituto de Cultura Física, localizado em Leipzig, é reorganizado com ajuda da União Soviética. O pesquisador J. Lawther escreve o livro Psychology of Coaching, nos Estados Unidos, expl icando a relação entre investigação e aplicação do trabalho desenvolvido por treinadores. É realizado o primeiro congresso com psicólogos do esporte na União Soviética. E. Geron. publica um manual de psicologia para estudantes de Educação Física. É publicado um livro de PE que resumia o conhecimento alemão em relação à área. Fonte: ARAÚJO, 2002, p. 18. (Adaptado). Estudos nacionais demonstram que a PE cresce em núcleos, isto é, só é possível identificar mudanças e impactos em São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul e em alguns estados do Norte e Nordeste, havendo pouca comunicação entre esses polos, o que dificu lta a compreensão da área e seu desenvolvimento no País. Nessa direção, considerando que a PE nacional pos- PSICOLOGIA 00 ESPORTE • sa estar dando ainda seus primeiros passos, profissionais da área acreditam e defendem seu potencial, uma vez que afirmam es- tar empenhados, publicando artigos internacionais, construin- do testes específicos e participando de congressos. Áreas de atuação da Psicologia do Esporte •• Por volta da década de 1980, havia três possibilidades de atuação com a PE: de forma clínica; com atletas e equipes esportivas em centros de treinamento; e no âmbito acadêmico. Contudo, com o desenvolvimento da teoria, deu-se im- pulso ao campo prático, com aumento de profissionais e trabalhos científicos, aumentando também o número de programas de pós-graduação lato sensu. CONTEXTUALIZANDO A ampliação das atuações do psicólogo no esporte tem como premissa permitir explorar diferentes pessoas que buscam a atividade física. Des- sa forma, não trabalha apenas com atletas profissionais, que buscam o esporte para competição, tornando a PE mais aberta e capaz de auxiliar outras pessoas e promovendo emoções positivas. Considerando os campos ensino, pesquisa e intervenção, o psicólogo esportivo tem como possibilidades t rabalhar como professor, consultor e pesquisador. • Professor: atua ensinando e compartilhando conhecimento com base em sua especialidade; • Pesquisa: investiga, explora e avalia as diferentes atuações, buscando de- senvolver o conhecimento de instrumentos, avaliações, intervenções e outras estratégias; • Consultor: planeja e aplica intervenções com o objetivo de realizar psico- diagnósticos e indicar pontos a serem desenvolvidos. No entanto, a formação do prof issional ainda é tida como limitada, visto que a PE não está presente na maioria dos cursos de Psicologia ou está presente apenas como disciplina eletiva. Assim, apesar do crescimento e da ampliação das atuações, ainda é mantido o foco nos profissionais da Educação Física. As possibilidades de atuação estão descritas no Quadro 3. PSICOLOGIA 00 ESPORTE • Área de atuação Esporte de rendimento Esporte escolar Esporte recreativo Esporte de reabilitação QUADRO 3. ÁREAS DE ATUAÇÃO ~ Definição Trata-se de um campo com o objetivo de melhorar e otimizar a performance, de maneira formal e institucionalizada. Nessa direção, o psicólogo analisa e realiza intervenções com base nos determinantes psíquicos que podem interferir no rendimento do atleta ou da equipe esportiva. Diz respeito à formação e aos princípios socioeducativos. Assim, tem o objetivo de desenvolver habilidades sociais em quem pratica esporte, auxiliando em sua vida e, por consequência, na sociedade em que está inserido. Diante disso, o psicólogo busca compreender e verificar os processos voltados à educação e socialização inerentes à prática da atividade esportiva, bem como seu reflexo no processo de desenvolvimento. O psicólogo tem como finalidade observar e verificar a análise de comportamento das diferentes faixas etárias, e também o ambiente e as classes socioeconômicas, pois a prática esportiva nessa área visa ao bem-estar de todos os participantes. Está direcionado ao trabalho de prevenção e à intervenção de pessoas que foram lesionadas durante a prática esporte, como também de pessoas com deficiência. Fonte: SAMULSKI, 1995, n.p. (Adaptado). É importante, dessa forma, ressaltar que as pesquisas de PE têm por ob- jetivo abranger processos de avaliação, estratégias e aplicações de interven - ções, bem como análises dos comportamentos e atitudes, compreendendo os efeitos do esporte em seu praticante e possibilitando melhores resultados de desempenho, bem-estar e saúde (física e mental). •• A relação mente/corpo e fatores de bem-estar e saúde mental É notável que as pessoas têm cada vez mais procurado profissionais e méto- dos para manterem a qualidade de vida, seja com relação à alimentação, situa- ção financeira ou prática regular de atividades físicas. Nesse âmbito, a PE busca trabalhar não apenas com os atletas, mas também com árbitros, familiares, dirigentes ou demais integrantes, avaliando comportamentos e atitudes decor- rentes da atividade física e elaborando estratégias e intervenções. PSICOLOGIA 00 ESPORTE • Entende-se que o treinador tem um papel muito importante, pois deter- mina o caminho para o sucesso ou fracasso, e lidar com tais responsab ilidades pode ser desgastante e estressante, podendo afetar o emocional e, por conse- quência, os atletas. Em relação aos familiares, existem dois pontos: depositam muitas expectativas, até mesmo forçando um treinamento excessivo, com ob- jetivo de fazer com que o indivíduo em questão melhore e ganhe campeonatos; ou encaram o esporte como perda de tempo, depositando raiva e frustação em cima da criança ou adolescente, por exemplo. Por fim, os árbitros vivenciam o estresse ao decorrer das partidas, tendo que lidar com valores e punições que muitas vezes não são aceitas. Compreende-se, portanto, que é preciso se preocupar com contexto espor- tivo, relacionamentos, conhecimentos adquir idos do ambiente e característi- cas psicológicas. Fatores psicológicos são, então, verificados para se conhecer a maneira como eles afetam o desempenho e o rendimento esportivo. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), os transtornos mais reco rrentes na população são a ansiedade e a depressão, principalmente após a pandemia de COVID-19 (GAMEIRO, 2020). E, apesar dos tratamentos mais comuns para esses casos serem aconselhamento psicológico e uso de medicamentos psi- cotrópicos, alguns indivíduos têm buscado promover bem-estar psicológico por meio do exercício físico. É importante destacar que os termos que abarcam bem- -estar (psicológico, emocional e subjetivo) são comumente usados de maneiras distintas na literatura. Contudo, podem ser compreendidos com o mesmo signifi- cado, uma vez que englobam seis dimensões descritas no Quadro 4. Dimensão Autoaceitação Relação positiva Autonomia Domínio ambiental QUADRO 4. DIMENSÕES DO BEM-ESTAR ~ Definição Designa que uma pessoa tem perspectivas positivas em relação a si mesma. Refere-se à relação entre pessoas que acontece baseada em confiança, respeito, empatia e atenção. Diz-se da pessoa que tem determinação e motivação intrínsecas, conseguindo realizar suas atividades de maneira independente e com padrões autorreferenciados. Refere-se ao controle sobre o ambiente para entendimento de valores pessoais. PSICOLOGIA 00 ESPORTE • Crescimento pessoal Propósito de vida Indica a pessoa que se sente autorrealizada, percebendo suas conquistas e seu desenvolvimento ao passar do tempo. Diz-se da pessoa que determina metas para serem atingidas com base emum propósito maior a ser realizado. Estudos sugerem que a relação posit iva ent re a prática da atividade física com o bem-est ar produz benefícios como satisfação, autoeficácia, competên- cia e motivação, além de outras caracte rísticas descritas na Figura 1. É possíve l ainda observar que o exercício f ísico auxilia na diminuição de alguns compor- tamentos desadaptativos, podendo ser explicadas com hipóteses de caráter fisiológico ou psicológico. O exercício aumenta Bem-estar Confiança Autocontrole Estabilidade emocional Memória Desempenho acadêmico O exercício diminui Fobias Hostilidade Raiva Abuso de álcool Ansiedade Depressão Explicação fisiológica • Aumento no fluxo sanguíneo cerebral; • Redução da tensão muscular; • Alterações estruturais no cérebro; • Aumento no consumo máximo e na liberação de oxigênio para os tecidos cerebrais. Explicação psicológica • Aumento da sensação de controle; • Sentimento de competência e autoeficácia; • Interações soàais positivas; • Melhoria no autoconceito e na autoestima; • Satisfação e prazer pela prática. Figura 1. Benefícios da atividade física. Fonte: WEINBERG; GOULD, 2017, p. 381. (Adaptado). À vista disso, alguns pesquisadores buscam compreender a relação dessas var iáveis, afi rmando que a atividade física é uma facil itadora de resultados po- sitivos e da diminuição de ansiedade e depressão. Ad icionalmente, descrevem que os efeitos do exercício físico atingem não apenas a saúde mental, mas tam- bém a f ísica, prevenindo doenças, como osteoporose, hipertensão e câncer, além de doenças ca rdíacas. PSICOLOGIA 00 ESPORTE • A ansiedade pode ser determinada pela emoção que o indivíduo vivencia, causando agitação, estado desagradável, medo, apreensão, além de sint omas físicos, tais como coração acelerado, suor e vontade de urinar f requente. Está relacionada com diferentes transtornos, sendo eles: transtornos de ansiedade generalizada, síndrome do pânico, estresse pós-traumático e fobias. A prática do exercício tende a ser mais eficaz em pessoas com níveis ele- vados de ansiedade, fazendo com que sejam diminuídos. É ainda importante ressa ltar que a prática de exercícios está associada à redução na tensão mus- cular e que a diminuição de sintomas não tem necessariamente relação com os ganhos fisiológicos do exercício, pois a prevenção acontece independente- mente da intensidade, duração ou do t ipo do exercício. Dessa forma, conseguir manter uma rotina de at ividades físicas faz com que consequências positivas sejam promovidas, havendo como resultados redução do estresse, aumento da autoestima e melhora no humor, devido à liberação de hormônios (endor- fina, dopamina e serotonina) decorrentes da atividade f ísica. Em relação à depressão, há um t ranstorno psicológico que envolve tristeza frequente, ba ixa autoestima, pessimismo, pensamentos distorcidos e/ou negati- vos, fa lta de energia e desesperança. Os sintomas podem ser diferentes depen- dendo da pessoa, mas em geral estão associados à irritabilidade, ideação suicida e fadiga, resu ltando também em alta incapacidade e perda social. Na maior parte dos casos, os tratamentos acontecem por meio da terapia e medicamentos, mas estudos têm defendido que a prática da at ividade física pode acarretar benefícios. Os efeitos positivos do exercício físico sobre a ansiedade e depressão são classificados em dois níveis: agudos e crônicos. Os agudos acontecem ao longo da prát ica e imediatos, mas tendem a ser temporários. Já os crônicos são de- terminados a longo prazo, sendo mais necessários na prevenção e redução dos transtornos. Dessa forma, entende-se que os treinamentos mais longos são mais eficientes do que os curtos para facilitar alterações positivas. Com relação aos t ipos de exercícios, os considerados moderados tendem a estar relacionados com os índices de ansiedade, auxi liando na redução de sintomas; enquanto para a depressão, os exercícios mais eficazes são os que mantêm a pessoa mais at iva. Ressa lta- -se que os efeitos do exercício são notáveis em qualquer idade, etnia, sexo, condição de saúde ou situação econômica. PSICOLOGIA 00 ESPORTE • Principais teorias em Psicologia do Esporte de alto rendimento •• Como uma ferrament a cultural, o esporte acompanha as mudanças da so- ciedade e o apr imoramento do desempenho esportivo acontece desde o prin- cípio dos Jogos Olímpicos. A prát ica esport iva com objet ivo de alcançar me- lhores resu ltados dentro de uma competição estabelece um espaço em que o atleta pode aplicar e confirmar suas competências, sejam elas pessoais ou sociais. Assim, o desenvolvimento atlético vem sendo constituído e desenvolvi- do por diferentes perspectivas, como a Biomecânica. O esporte considerado de alto rendimento est á relacionado a um espetácu- lo, ou seja, ele é protagonizado por uma atleta profissiona l em busca de cam- peonatos, estando comprometimento e dedicação acima de uma prática por lazer ou por qualidade de vida. Dessa forma, o atleta está sempre em busca da perfeição, trabalhando de modo contínuo o corpo para que seja otimizado e potencializado. Contudo, são questionados os valores da pessoa em relação à sociedade e seu corpo pertence de alguma forma à comissão técnica. Tal avanço compe- titivo provoca uma mudança na pressão dos treinamentos, que ficam mais evidentes e com cobranças excessivas, fazendo com que o at leta tenha pouco tempo para descansar, visto que não pode perder o cond icionamento físico. Nessa perspectiva, o atleta tem que superar qualquer limite que seja imposto ao corpo ou à mente, superando sua eficiência no esporte. É coerente dizer que a motivação intrínseca é que permite ao atleta viver nesse tipo de situação, abdicando momentos da vida pessoal. Muitas vezes, ela começa a ser traba lhada na infância ou na adolescência, podendo ser considerada parte do atleta e possibilitando que objetivos sejam alcançados, independente- mente dos obstáculos e pontos fracos. A determinação também pode ser consi- derada parte do atleta de nível olímpico, visto que, mesmo sofrendo lesões ao de- correr dos treinamentos, por exemplo, ele persiste em realizar seu objetivo final. Em suma, entende-se que o traba lho e os resu ltados obtidos no esporte dependem de um tre inamento r igoroso e t rabalho árduo, sendo consideradas como prioridade na vida do atleta características como coragem, determina- ção, persistência e superação. No entanto, a sobrecarga dos treinamentos e PSICOLOGIA 00 ESPORTE • das competições pode t razer algumas consequências, como frustração, uma vez que o atleta acredita ser invulnerável. Para um bom desempenho, sem traumas, frustrações ou outras emoções negativas, é preciso, então, pensar tanto na condição física quanto na psico- lógica. Considera-se que um atleta de alto rendimento, capaz de controlar o corpo e ter inteligência emocional, pode alcançar melhores resultados e, nesse âmbito, está a PE. É importante ainda destacar que a PE não está associada apenas com as questões da prática esportiva, buscando também compreen- der os fenômenos por meio da Psico logia Social. Dessa forma, se por um lado o esporte de alto rend imento cria uma perspectiva competitiva, com foco em obter resultados positivos, o esporte, a partir da visão socia l, norteia a prát ica pensando no bem-estar e na motivação. o psicólogo que atua nessa direção tem que ter clareza de alguns pontos. Uma estratégia é fazer com que os participantes comparti lhem conhecimentos e experiências, permitindo o desenvolvimento da confiança e das técnicas, pro- movendo a cooperação e diminuindo a pressão criada por causa da competiti- vidade. Ad icionalmente, uma teoria em prát ica vê o atleta como alguém em po- tencial e capaz de desenvolver habi lidades, denominada de desenvolvimento positivo de jovens, que busca também manter a integridade do indivíduo emtransição para a vida adulta. •• Desenvolvimento positivo de jovens no esporte O desenvolvimento positivo de jovens (DPJ) é uma abordagem teórica que surgiu na década de 1990 com o intuito de compreender a ado lescência como um processo positivo. A abordagem dispõe que o jovem tem potencia l para de- senvolver habil idades e capacidades, consequentemente, prevenindo e ame- nizando comportamentos desadaptativos. As características desenvolvidas ainda podem ser alinhadas aos domínios sociais (família, comunidade e esco- la), uma vez que o jovem passa a contribui r com esses meios. Nessa di reção, o DPJ pode ser compreend ido a part ir de uma plasticidade, pois acontece a partir de uma relação com trocas bidirecionais (jovem e contexto), que, quando são reciprocamente benéficas, podem auxil iar no desempenho individual e social de forma saudável e posit iva (HOLT; DEAL; PANKOW, 2020). PSICOLOGIA 00 ESPORTE • EXPLICANDO Por comportamento desadaptativo, entende-se o uso de substâncias como drogas e álcool, depressão, ansiedade, transtornos alimentares, autoesti- ma baixa e evasão escolar. Posto que a prática esportiva permite promover características como em- patia, liderança, trabalho em equipe, carát er e responsabi lidade, o ambiente deve ser bem-estruturado e coordenado por treinadores, seguindo a premissa de proporcionar aprendizagem, cooperação e suporte. Isso contribui também para a re lação do atleta com outros atletas, fundamental para que tais habil i- dades sejam estimuladas. Entende-se que níveis mais avançados de DPJ possibilitam comportamentos de r isco menores, o que significa que as possibilidades para se engajarem com o contexto, colaborando consigo, co legas, esporte, família e comunidade são maio- res. A abordagem teórica, portanto, recomenda que o desenvolvimento aconte- ça por intermédio de intervenções, diminuindo os comportamentos de risco e promovendo comportamentos saudáveis, que englobam relacionamento socia l ou altruísmo, competências intelectuais ou físicas e melhora no rendimento. Dentro das relações que o esporte proporciona, o re lacionamento atleta -at leta é necessár io, visto que o traba lho em equipe permite construir um am- biente de formação e suporte, estando associado a maior prazer pe la prática, atitudes e emoções positivas em relação às pessoas e maior compromisso. À vista disso, o atleta adquire benefícios maiores se comparados ao traba lho sozinho, uma vez que a equ ipe estimula sacrifícios pessoais, esforços e satis- fação. Portanto, possibi lita a promoção de um ambiente social, que permite aprimorar as habil idades. Ademais, o relacionamento atleta-treinador pode ser interpretado por meio de quatro elementos, dispostos no Quadro 5. QUADRO 5. ESTRUTURA DA RELAÇÃO ATLETA-TREINADOR Elemento Complementaridade ::=:::::::=:::: Descrição Está associada ao nível de controle que um tem sobre o outro, como também a cooperação e colaboração de ambos para alcançar metas e objetivos, obtendo, consequentemente, sucesso no desempenho esportivo. Quando o atleta tem complementaridade com seu treinador e vice-versa, o ambiente saudável é estimulado, fazendo com que o atleta se sinta mais encorajado e seja engajado em sua prática. PSICOLOGIA 00 ESPORTE • Comprometimento Refere-se ao quanto o atleta está motivado com o esporte e o treinador. Engloba também o quanto o treinador valoriza esforços e relações, considerando a contribuição desses pontos para o desfecho do relacionamento. ' Proximidade Coorientação Diz respeito à confiança e respeito, ou seja, ao tom emocional ou ao estado da relação. Dependendo do nível da proximidade, os resultados pessoais e relacionais podem ser positivos. Refere-se a relacionamentos, elementos afetivos, cognitivos e comportamentais, agrupando todos os outros conceitos. Diante disso, há modelos teóricos capazes de avaliar o DPJ com foco em compreender limitações e potencialidades para conseguir compreender o atle- ta, planejar estratégias e aplicar intervenções, sem que prejudique qualquer outra área da vida e até mesmo a saúde física e mental do jovem. Entre esses modelos, está o 5 Cs, desenvolvido por Lerner (2005), com finalidade de avaliar o desenvolvimento do atleta por meio de cinco ativos internos: caráter, con- fiança, competência, conexão e cuidado (Quadro 6). Ativo interno Caráter Competência Conexão Confiança Cuidado QUADRO 6. MODELO TEÓRICO 5 CS ~ Definição Respeito pelas regras sociais e desenvolvimento moral no esporte. Perspectiva sobre as próprias ações; habilidade que o atleta demonstra e desempenha em relação à sua prática esportiva. Qualidade das relações no contexto esportivo, podendo ser com o treinador ou equipe esportiva. Sentimento interiorizado, determinando o valor e a autoeficácia que o atleta possui sobre sua capacidade de ter sucesso no esporte. Sentimento de compreensão e empatia. São diversas as medidas capazes de avaliar os cinco fatores como forma de buscar informações necessárias para verificar a eficácia dos programas espor- tivos. Diante disso, uma ferramenta proposta a isso facilita o planejamento de estratégias e aplicações de intervenções, com objetivo de alcançar resultados melhores com os atletas, englobando desempenho na prática, metas atingidas e outras emoções que promovam o desenvolvimento positivo sem qualquer prejuízo na vida do jovem, visando também seu futuro alto rendimento. PSICOLOGIA 00 ESPORTE • •• Mulheres olímpicas Outro personagem importante para o desenvolvimento do esporte de alto rendimento é a mulher. Durante muitos anos, as mulheres foram consideradas profanadoras de um espaço que era exclusivo aos homens. Assim, mesmo em uma prática não profissiona l e não competitiva, elas deveriam ser apenas ob- servadoras, ficando em arqu ibancadas, uma vez que o mundo olímpico exigia força, determinação e resistência. Diante disso, o início da participação de mulheres no esporte profissiona l aconteceu de forma precária, no decorrer do século XX, a partir dos movimen- tos feministas . A princípio, a maioria das atletas nos Jogos Olímpicos era da Europa e dos Estados Unidos, países que consegu iam aprovação do Comitê Olímpico Internacional. Na Tabela 1, é apresentado o ano de ingresso de ho- mens e mulheres para cada esporte. Observa-se que no boxe, por exemplo, as mulheres conseguiram se inserir somente no século XXI, em 2012. Esporte Atletismo Badminton Basquete Beisebol Boxe Canoagem Ciclismo Esgrima Futebol Ginástica Golfe Handebol Hipismo TABELA 1. RELAÇÃO DE INGRESSO NO ESPORTE ~ Ano de ingresso dos homens 1826 1992 1936 1992 1936 1896 1896 1908 1986 1900 1936 1900 Ano de ingresso das mulheres 1928 1992 1976 Não há 2012 1984 1924 1996 1928 1900 1976 1952 PSICOLOGIA 00 ESPORTE • Hóquei sobre grama Iatismo ' Judô Levantamento de peso Luta Natação Nado sincronizado Pentatlo moderno Polo aquático ' Remo Rúgbi Saltos ornamentais Softbol Taekwondo Tênis Tênis de mesa Tiro 1 Triatlo Vôlei 1 Vôlei de praia 1908 1900 1964 1920 1904 1896 Não há 1912 1900 1900 1900 1904 Não há 2000 1900 1988 1900 2000 1964 1996 Fonte: CARDOSO, 2000 apud NASCIMENTO, 2012, p. 26. 1980 1988 1992 2000 1912 2000 2000 1976 2016 1912 1996 2000 1988 1988 2000 1996 No Brasil, a participação demorou um pouco mais, devido a alguns impedi- mentos legais relacionados à prática esportiva de mulheres. A primeira brasi- leira a representa r o país nos Jogos Olímpicos foi a nadadora Mar ia Emma Lenk (1915-2007), em Los Angeles, no ano de 1932, sendo a única mulher em uma equipe masculina de 57 atletas. Ela voltou às Olimpíadas de Berlim, em 1936, acompanhada de 72 atletas masculinos. ASSISTA A trajetória das atletas brasileirasnão foi fácil, mas mostra muito a força dessas mulheres. Para saber mais, assista ao documentário Mulheres Olímpicas (2013), dirigido por Laís Bodanzky, que retrata histórias sob a perspectiva das atletas. PSICOLOGIA 00 ESPORTE • A edição da competição em Londres, em 1948, ocorreu após o cancela- mento dos Jogos devido à Segunda Guerra Mundial, e mesmo assim o número de atletas eram desiguais entre os sexos. A delegação brasilei ra mandou 72 homens e 11 mulheres, uma desigualdade que não era específica do Brasil e acontecia com outras delegações também, o que durou até a década de 1980. Os Jogos Olímpicos de 1984 foram marcados pela participação de 1.620 atletas mulheres, em modalidades de ti ro e ciclismo - o que ocorreu pela pri- meira vez. Além disso, foram criadas duas modal idades exclusivamente para elas: a ginástica rítmica e o nado sincronizado. A partir daí, as mulheres fo- ram ganhando cada vez mais espaço: em 1992 conseguiram disputar lutas de j udô; em 1996, passaram a competir no f utebol e no vô lei de praia (modalidade acrescentada para ambos os sexos); e em 2000, quando completava 100 anos da primeira participação das mulheres em Olimpíadas, as atletas conseguiram ocupar espaço na modalidade de salto com vara. Algumas atletas que fizeram história nos Jogos Olímpicos, em âmbito inter- naciona l ou naciona l, foram: • Larissa Latynina (1934): a ucraniana começou a carreira como ba ilarina e, aos 19 anos, competiu no Campeonato Mundial de Ginástica Artística. Em 1956, estreou nos Jogos Ol ímpicos, em Melbourne, conquistando quatro meda- lhas de ouro, uma de prata e uma de bronze. Ao todo, conquistou 18 medalhas olímpicas de três Olimpíadas: Melbourne (1956), Roma (1960) e Tóquio (1964); • Birgit Fischer (1962): a alemã é considerada até hoje o maior nome da canoagem de velocidade. Aos 18 anos, estreou nos Jogos Olímpicos de Moscou, em 1980, ganhando um ouro. Até o fina l da carreira, conqu istou 12 medalhas e participou de sete olimpíadas: Moscou (1980), Los Ange les (1984), Seul (1988), Barcelona (1992), Atlanta (1996), Sydney (2000) e Atenas (2004); • Jenny Thompson (1973): a norte-americana é a sétima maior medalhis- ta da história dos Jogos, participando da modalidade natação. Conquistou 12 medalhas, participando de campeonatos internacionais e Jogos Olímpicos. Es- treou em Barcelona (1992), participando também das Olimpíadas de Atlanta (1996) e Sydney (2000); • Jacqueline Silva (1962) e Sandra Pires (1973): foram as primeiras brasile i- ras a ganharem medalhas nos Jogos Olímpicos, com o ouro na modal idade vô lei de pra ia nas Olimpíadas de Atlanta (1996); PSICOLOGIA 00 ESPORTE • • Maurren Maggi (1976): foi uma das primeiras brasi leiras a conqu ist arem medalhas olímpicas em esportes individuais. Superou a atleta da Rússia no sa l- to em distância, com um salto de 7,04 m, conquistando o ouro e tornando-se a primeira brasileira a sub ir no pód io dessa modalidade em Pequim (2008); • Ketleyn Quadros (1987):junto com Maurren, marcou seu nome na história dos Jogos Olímpicos ganhando a primeira medalha individua l do judô feminino na- ciona l em Pequim (2008). Conquistou sua medalha de ouro com apenas 20 anos; • Hélia Souza (1970): mais conhecida como Fofão, a j ogadora de vôlei é a atleta brasileira com mais medalhas ol ímpicas, uma de ouro e duas de bronze. Participou de cinco Olimpíadas: Barcelona (1992), Atlanta (1996), Sydney (2000), Atenas (2004) e Pequim (2008). Apesar desse processo acontecer aos poucos, com pouca va lorização das atletas, não houve muito desempenho e determinação, fazendo com que le- vassem medalhas cada uma a seu país (RÚBIO, 2011). Contudo, ainda não se pode dizer que há igualdade no esporte. PSICOLOGIA 00 ESPORTE • Sintetizando • O cresc imento da Psicologia do Esporte (PE), nos âmbitos teórico e prá- t ico, passou por diferentes obstáculos até seu reconhecimento no campo científico. Considerada uma subárea, aborda conce itos que compõem ou- tras d iscip linas, sendo compreend ida como uma área multiprofissional que traba lha com aprendizagem motora, t reinamento esportivo, saúde física e fenômenos psicológicos. Com seu desenvolvimento, foi possível também dar abertura ao trabalho com ou t ras pessoas que praticam atividade física, não se lim itando apenas a atletas de alto nível. Além d isso, passou-se a compreender como todo o sistema esportivo pode afetar outras pessoas que não necessariamente praticam a atividade, incluindo o tre inador, o árbitro e os fami liares. Diante d isso, conclu i-se que a PE não é desenvolvida para um, mas para t odos que dependem do esporte. Ao entender o valor da subárea, passa a compreender o sign ificado da prá- tica da atividade f ísica, a qual visa saúde e também resultados posit ivos. Ade- mais, o estudo teórico permite identificar que o exercício físico auxil ia na redu - ção da ansiedade e da depressão, consequentemente, melhorando os níveis de humor, autoest ima e sensação de bem-estar. No entanto, nem sempre a prática pode ser considerada positiva quando comparada a atletas de alto rendimento que podem vivencia r momentos ex- tremos. Os t reinamentos que visam melhor desempenho e conquist as podem fazer com que ele se torne mais rígido e controlador, além de deixar de vi- venciar momentos que também são importantes, como o processo da ado- lescência. Além de afetar sua saúde mental, os tre inamentos árduos podem acarretar lesões. Dessa forma, é necessário pensar em formas de lidar com a promoção de habi lidades sem afetar negativamente outros aspectos da vida, aplicando, por exemplo, a abordagem do desenvolvimento positivo de jovens (DPJ). Esta teoria busca melhorar o desempenho dos atletas com equil íbrio, isto é, ao mesmo tempo em que está aplicando intervenções para melhorar suas competências, também busca t rabalhar suas emoções, comportamentos e atitudes posit ivas. PSICOLOGIA 00 ESPORTE • Ainda sobre o esporte de alto rendimento, este foi por muito tempo focado apenas nos homens, dado que mulheres eram vistas apenas como espectado- ras. Assim, durante o século XX, atletas fem ininas precisaram conquistar seu direito e espaço, pois não era possíve l imaginar mulheres realizando atividades que envolviam força e resistência. Ao longo do tempo, elas foram constru in- do sua história em competições ao mostrarem determinação e desempenho, conquistando medalhas e incentivando outras mulheres, tornando-se também uma temática importante para os estudos da PE. PSICOLOGIA 00 ESPORTE • Referências bibliográficas • ARAÚJO, D. Definição e história da Psicologia do desporto. ln: SERPA, S.; ARAÚJO, D. Psicologia do desporto e do exercício: compreensão e aplicações. Lisboa: FMH Edições, 2002. p. 9-51. GAMEIRO, N. Depressão, ansiedade e estresse aumentam durante a pandemia. Fiocruz Brasília, Brasília, DF, 13 ago. 2020. Disponível em: <https://www.fiocruz- brasilia.fiocruz.br/depressao-ansiedade-e-estresse-aumentam-durante-a-pan- demia/>. Acesso em: 01 ju l. 2021. GOULD, D.; VOELKER, D. K. The history of sport psychology. ln: EKLUND, R.; TEN- NENBAUM, G. Encyclopedia of sport psychology. Thousand Oaks, CA: Sage, 2014, p. 346-351. HOLT, N. L.; DEAL, C. J.; PANKOW, K. Positive youth development through sport. ln: TENENBAUM, G.; EKLUND, R. C. Handbook ofsport psychology. New Jersey: Wiley, 2020. p. 429-446. LERNER, R. M. Promoting positive youth development: theoretical and empirical bases. ln: Workshop on the science of adolescent health and development, 2005. Anais ... Washington, DC: National Academies ofScience; National Research Cou- ncil; lnstitute of Medicine, 2005. Disponível em: <https://lifehouseduluth.org/ wp-content/uploads/2015/02/Positive-Youth-Development1 .pdf>. Acesso em: 01 jul. 2021 . MORETTI, A. R. Psicologia do esporte: perspectivas históricas. Argumento, Jun- diaí, v. 6, n.11, p. 89-100,jul. 2004.Disponível em: <https://revistas.anchieta.br/ index.php/revistaargumento/article/view/591>. Acesso em: 01 jul. 2021. MULHERES olímpicas. Direção de Laís Bodanzky. São Paulo: Buriti Filmes; ESPN, 2013. (52 min.), son., color. NASCIMENTO, P. H. Mulheres no pódio: as histórias de vida das pr imeiras me- dalhistas olímpicas brasileiras. 2012. 87 f . Dissertação (Mestrado em Educação) - Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2012. Dispo- nível em: <https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/48/48134/tde-12062012- 144401 /publico/PAU LO _H EN RIQ U E_DO _NASCI ME NTO.pdf>. Acesso em: 01 jul. 2021. RÚBIO, K. As mulheres e o esporte olímpico brasileiro. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2011. PSICOLOGIA 00 ESPORTE • SAMULSKI, D. Psicologia do esporte: teoria e aplicação prática. Belo Horizonte: Imprensa UFMG, 1995. WEINBERG, R. S.; GOULD, D. Fundamentos da psicologia do esporte e do exer- cício. 6. ed. Porto Alegre: Artmed, 2017. PSICOLOGIA 00 ESPORTE • UNIDADE ~ ~ ser educacional Objetivos da unidade Apresentar fatores que são importantes para o desenvolvimento e permanência para a prática esportiva, tais como feedback e motivação; Abordar questões que se referem à percepção do atleta, seu conhecimento sobre suas capacidades, habilidades, como também da sua atenção frente ao esporte, como a autoeficácia na prática e os benefícios da atenção plena (mindfulness); Expor as possíveis consequências da prática esportiva à saúde quando há fatores causando pressão, bem como a estratégia para lidar com essas situações. Tópicos de estudo Feedback, reforçamento e motivação Feedback intrínseco e extrínseco Motivação intrínseca e extrínseca Percepção e atenção nas práticas esportivas Autoconceito e crenças Autoeficácia no esporte e a performance esportiva O papel do mindfulness no esporte Compulsão e perdas Síndrome de burnout no esporte O coping PSICOLOGIA 00 ESPORTE • •• Feedback, reforçamento e motivação Entre as questões que são mais relevantes na área esportiva, está a inves- tigação dos fatores relacionados ao processo de ensino-aprendizagem. Esse processo tem como objetivo desenvolver e aprimorar habilidades motoras, pois, para que as atividades físicas sejam bem executadas, é preciso trabalhar tais habilidades. Além disso, também trabalha com o conhecimento, aplicação e os resultados obtidos dos jogos. Dessa forma, essa aprendizagem motora pode ser compreendida como um conjunto de experiência acerca da prática, que é capaz de estimular mudanças na performance. Nessa direção, a atuação do treinador/técnico se torna essencial, visto que este tem o papel de entender a proximidade com o grupo de trabalho, assim como intervir, planejar, estruturar e aplicar conteúdos a fim de alcançar objetivos em relação ao exercício ou de uma competição, a partir de diversas possibilidades que são capazes de auxiliar o seu trabalho. Dentre as possibilidades, o feedback pode ser compreendido como um dos fato res importantes ao processo. O feedback é uma variável que envolve níveis diferentes de informações, sendo reconhecida e necessária no contexto da aprend izagem das habilidades, podendo ainda ser definido como uma ferramenta que proporciona a obtenção de resultados e respostas para as diversas circunstâncias que aparecem no am- biente de ensino. Em geral, o feedback pode ser compreendido como um meca- nismo que compartilha informações com intuito de corrigir os erros, portanto, quando o feedback é fo rnecido com interação pedagógica, pode ter três tipos de influências fundamentais, que são apresentadas no Quadro 1. Motivação Reforço Informação QUADRO 1. INFLU~NCIAS DO FEEDBACK NA APRENDIZAGEM ::=::::::::::=: Diz respeito ao estímulo de novas tentativas, auxiliando para que o atleta tenha equilíbrio mental e físico, consequentemente fazendo com que aumente seu esforço, produza efeitos positivos na prática e tenha satisfação com ela. Está associado a reforços que os atletas recebem por suas ações, sendo elas corretas ou incorretas, portanto, podendo ser reforços positivos ou negativos. É sobre dar informações sobre os comportamentos e atitudes que podem ser melhorados, proporcionando que o atleta corrija e faça ajustes dos seus movimentos, por exemplo. A informação transmitida deve considerar a capacidade do atleta de processar e assimilar a informação. Fonte: PÉREZ e BANUELOS (1997); SCHMIDT (1993). (Adaptado). PSICOLOGIA 00 ESPORTE • Na prática esportiva, o feedback pode ser fornecido por diferentes motivos, sendo eles, segundo o Quadro 2. QUADRO 2. MOTIVOS PARA A REALIZAÇÃO DE UM FEEDBACK NA PRÁTICA ESPORTIVA ::=:::::::::=:: Erros constantes na realização da atividade e pela falta de interpretação dessas informações. Falta de atenção aos estímulos que podem facilitar o seu desempenho e autocontrole na execução da tarefa. Escassez de conhecimento sobre a realização da atividade. •• Feedback intrínseco e extrínseco Em suma, o feedback diz respeito à informação que é compartilhada com objetivo de auxiliar atlet as a corrigirem erros na sua prática, por consequência, desenvolver sua performance, que é dividido em duas maneiras, sendo elas o feedback intrínseco e o feedback extrínseco. O primeiro está relacionado a uma informação sensorial decorrente de uma produção de movimentos, po- dendo ter relação com fontes externas do corpo (exterocepção) ou de dentro do corpo (propriocepção), no qual os atletas percebem os movimentos pelos órgãos sensoriais enquanto e após rea lizar a atividade. Enquanto o feedback extrínseco, que também é denominado de feedback aprimorado ou aumento, é sobre as informações que o at leta recebe por meio de fontes externas, tais como, técn ico, vídeo, cronômetro, entre out ros. Nesse tipo de processo, o atleta recebe instruções que complementam aquela rece- bida pelo feedback intrínseco, assim possibilitando sua melhora na execução e nos resu ltados dos seus movimentos. Os pesquisadores Schmidt e Wrisberg (2010) descreveram que o feedback extrínseco pode ser separado em dois t ipos: aquele relacionado com a própria realização (Conhecimento de Performance - CP) e o relacionado com o result a- do obtido (Conhecimento de Resultado - CR). PSICOLOGIA 00 ESPORTE • QUADRO 3. COMPREENDENDO OS TIPOS DE FEEDBACK EXTRÍNSECO ~ Tipo Definição Diz respeito ao padrão de motivos realizados pelo atleta, ou seja. Conhecimento de Performance suas características e vícios que podem ser responsáveis por um bom desempenho ou não. Nesse processo, os técnicos informam para os atletas sobre a qualidade dessas ações, com intuito de auxiliar no desenvolvimento dos padrões de movimentos e atingirem melhores resultados. Um exemplo para esse processo é quando o atleta está treinando faltas e o seu técnico orienta que ele deve colocar o pé de apoio mais próximo à bola na hora que for chutar. Conhecimento de Resultado Tem como finalidade fornecer informações acerca do desempenho de uma habilidade específica e dos resultados de movimentos. Os dados são transmitidos, geralmente, de forma verbal. Um exemplo desse processo é quando o atleta acerta 10 finalizações de gol no primeiro tempo e o treinador passa essa informação para que o atleta esteja consciente do seu desempenho. Fonte: SCHMIDT; WRISBERG, 201 o. Enquanto o feedback intr ínseco é perceb ido por cana is sensoriais do atle- ta, o feedback extrínseco acontece a partir de treinadores, professores ou instrutores. As duas formas de receber informações são complementares e essenciais, uma vez que auxiliam para que o atleta consiga atingir resu ltados melhores na sua prática esportiva. Independentemente do t ipo de feedback recebido, este pode ser transmitido em diferentes estratégias, como símbolos, vozes e gestos. No Quadro 4 é possível observar alguns métodos que são ut il i- zados para faci litar a troca deinformações. Feedback verbal Feedback Visual QUADRO 4. TRANSMISSÃO DO FEEDBACK As instruções verbais são bem presentes em qualquer situação, mesmo fora do contexto esportivo, sendo apresentadas por meio de mensagens e falas que auxiliam os atletas a perceber seus pontos fracos, consequentemente orientando para que as habilidades motoras sejam aprimoradas. Contudo, é importante ressaltar que a sobrecarga de informações pode comprometer a evolução e resultados positivos, portanto, é recomendado que o feedback seja pensado para transmitir o máximo de informações, mas com poucas palavras ou frases chaves. A parte visual dos indivíduos é bastante complexa. diante disso alguns pesquisadores buscaram compreender a relação da visão com a prática esportiva. A partir disso, foi possível compreender que a percepção visual de qualidade possibilita que os atletas sejam mais rápidos e consigam ter mais acertos nas suas jogadas. Dessa forma, entende-se que o feedback visual é uma ferramenta essencial. que tem como finalidade facilitar a compreensão do atleta com o seu esporte. Este pode acontecer por meio de modelos, ou seja, vendo alguém realizar um movimento, podendo ser seu professor, treinador ou instrutor. como também por imagens, sejam elas fotos ou vídeos, possibilitando a aprendizagem por meio da observação. PSICOLOGIA 00 ESPORTE • O feedback só pode ser considerado final izado quando o aluno entende este como um reforço, sendo defin ido como aquilo que possib ilita o atlet a repetir ou não uma ação. Quando o reforço é positivo, o atleta entenderá como uma questão motivacional, fazendo com continue real izando seus mo- v imentos. Por outro lado, quando é negat ivo, pode bloquear qualquer apren- dizagem e processo de tentativa. Nesse sentido, o treinador, ao proporcionar o feedback, precisa considerar diferentes fatores, como, a faixa et ária, a ex- periência motora, como também a natureza do erro. •• Motivação intrínseca e extrínseca A motivação surge em conjunto com o feedback, a partir do papel que o treinador decide desempenhar com o atleta e com a equipe esportiva. A mo- tivação é considerada um dos elementos centrais para concentrar as informa- ções percebidas na direção do comportamento. A forma como os treinadores lidam com os desafios acerca do processo de ensino e as estratégias utilizadas para fortalecer os atletas é um dos fatores que determina a satisfação, engaja- mento e permanência na prát ica. O ato de praticar esportes requer especificidades do atleta por causa do alto desenvolvimento das funções, mas também da qualidade da prática e dos estados psíquicos, dessa forma entende-se que o esporte está direcionado para alcançar metas que vão além do esforço e determinação. Essa ação pode ser denominada como uma causa, um motivo ou j ustificativa para permanência na prática. Quando o motivo pe la permanência é inerente ao objeto de aprendizagem, não dependendo de fatores externos, este é chamado de motivação intrínse- ca. No ent anto, quando a determinação e engajamento pe lo esporte são cau- sados por fatores externos, ta is como saúde física, ganho de medalhas e out ras recompensas, este é determinado como motivação ext rínseca. A real ização de pesquisas sobre fatores motivais podem auxil iar na prática de esportes de crianças e adolescentes, uma vez que permite identificar e elaborar treinamentos estratégicos que faci litam o ensino. Dessa forma, o conhecimento sobre esses elementos proporciona resultados positivos futuros, a partir de pla - nejamentos mais direcionados, aumentando o interesse dos envolvidos, além de se sentirem motivados a permanecer e buscar o sucesso através do esporte. PSICOLOGIA 00 ESPORTE • Quando se trata da Psicologia do Esporte, a área busca compreender os as- pectos socioemocionais que afetam o desempenho dos atletas, principalmente os de alto rend imento, bem como entender os efeitos da prática esportiva sobre o desenvolvimento psicológico. A partir disso, a literatura vem defendendo que a motivação é um dos principais fatores que afetam o rend imento dos atletas, como também a autoestima, autoconfiança, agressividade, concentração, entre outros. A motivação pode ser considerada como determinante para a intensida- de e a direção dos esforços, uma vez que a direção está associada ao quanto o atleta se aproxima ou se afasta de algumas circunstâncias, e a intensidade diz respeito ao quanto de determinação é colocado em uma determinada situação. É possível compreender as ca racterísticas de cada tipo de motivação na Figura 1. Motivação intrínseca • Divertimento • Humor • Sensações e sentimentos da prática • Mindfulness Motivação extrínseca • Sensações físicas • Tensão muscular • Postura corporal • Controle cardiorrespiratório • Controle de peso Figura 1. Razões intrínsecas e extrínsecas para permanência na atividade física. As razões internas para permanecer no esporte são aquelas que não são afetadas por fatores externos, acont ecendo de forma voluntária, dependendo do est ado emocional e psicológico dos atletas, enquanto as razões externas têm relação com os resultados que são passíveis de observação, como ganho de massa, relação com o treinador e diminuição da gordura corporal. A par- tir da literatura foi possíve l identificar que as motivações intrínsecas são mais presentes para iniciação e manutenção das at ividades, como os relacionamen- tos que eram criados nesse ambiente e o suporte fami liar. Ad iciona lmente, o PSICOLOGIA 00 ESPORTE • encorajamento dos t reinadores, a estrutu ra do clube ou centro de treinamento e o bom desempenho em competições também aparecem como razões para a prát ica esportiva. A partir dessas informações, a Teoria de Autodeterminação (TAD) sur- giu, fazendo com que a motivação deixasse de ser compreend ida isoladamen- te, sendo o resultado de uma característica. A TAO defende que as pessoas quando estão ativas e cu r iosas tendem a demonstrar interesse para aprender e explorar novas atividades. Nessa di reção, a teoria descreve que os atletas possuem diversas formas de classificar as motivações, as quais afetam o f un- cionamento e as personalidades. A fim de organizar e invest igar os efe itos do comportamento em relação à motivação, a TAO inclui mais uma forma de motivação além da intrínseca e extr ínseca, sendo esta denominada desmotivação. Motivação Intrínseca Extrínseca QUADRO 5. A MOTIVAÇÃO SOB A PERSPECTIVA DA TAD Subtipos Para saber Para realizar Para experienciar Regulação Externa Regulação Interiorizada Regulação Identificada ~ Definição Acontece quando o atleta realiza a atividade com intuito de aprender sobre essa prática. É determinada pelo prazer que o atleta tem em realizar a atividade. Diz respeito ao atleta que participa das atividades para experienciar as situações estimulantes inerentes à tarefa. O comportamento é regulado a partir de recompensas ou de medo das consequências negativas (e.g. críticas). Esse tipo de motivação está associado a quando o treinador impõe castigos aos atletas que não cumpriram com as tarefas propostas. Acontece quando a motivação externa é internalizada, por exemplo, comportamentos reforçados por pressões internas (culpa). Tal comportamento pode ser observado quando alguém pratica a ação por "desencargo de consciência". Quando o atleta realiza um movimento ou comportamento que não optou por fazer, mas que é considerado importante. O atleta reconhece o valor disso e mesmo que não se interesse por ela, consegue fazer o que é proposto com objetivo de se esquivar de eventos aversivos, como uma bronca do treinador. PSICOLOGIA 00 ESPORTE • Desmotivação A desmotivação é o estado motivacional que indica que os atletas não identificaram razões para realizar alguma atividade. Nessa perspectiva, os atletas acreditam que a atividade não trará benefícios ou que nãoconseguirão realizar de forma satisfatória. É importante destacar que, ao se basear na TAD para entender as moti- vações dos atletas, a motivação não pode ser interpretada como dicotomia simplista de divisão entre o intrínseco e o extrínseco. O conjunto de razões é composto por fatores externos até os mais autodeterminados, além disso as motivações extrínsecas não devem ser associadas a comportamentos negati- vos, uma vez que possuem um nível de autonomia, enquanto as razões intrín- secas são de caráter autodeterminável. ASSISTA A relação com o treinador e familiares é uma das fontes de motivação extrínseca, consideradas fundamentais para a permanência da prática esportiva e do bom desempenho. No vídeo Crianças, esporte e competi- ção: comportamento de pais e treinadores é possível observar como essas duas fontes podem influenciar na motivação dos atletas. •• Percepção e atenção nas práticas esportivas A partir das atividades esportivas, as pessoas não desenvolvem apenas o físico, mas também conseguem aprimorar habilidades cogni- tivas, dessa forma a prática regu lar pode estimular a per- cepção e atenção dos participantes. A literatura defende a importância dessas habilidades dentro do processo de ensino-aprendizagem para que os atletas consigam alcançar resultados e exigências frente aos jogos esportivos competitivos. São consideradas habilidades cogni- tivas: percepção, atenção, memória, inteligên- cia e tomada de decisão, que na maioria das vezes são características fundamentais para a liderança esportiva. No Quadro 6 é possível ob- servar as definições desses processos. PSICOLOGIA 00 ESPORTE • Processo Percepção Atenção Memória Inteligência Tomada de decisão QUADRO 6. DEFINIÇÕES DOS PROCESSOS COGNITIVOS ~ Definição A percepção pode ser definida como o processo de extrair as informações presentes no meio ambiente, a partir dela é possível dar significado a objetos e coisas. Em suma, a percepção está diretamente relacionada ao conhecimento. A atenção pode ser compreendida como um estado intenso e seletivo da percepção. Durante o processo da percepção, a atenção se torna essencial, uma vez que é ela que possibilita a seleção de estímulos necessários a partir de uma interpretação e assimilação. A memória é a capacidade do atleta em adquirir, guardar e restituir as informações que são recebidas. Nesse sentido, a memória trabalha para amenizar e recuperar experiências vividas durante a prática. Contudo, não deve ser considerada como uma fonte de armazenamento de informações, mas sim como uma fonte rica de operações e acontecimentos. A inteligência é a capacidade mental. possibilitando que o atleta raciocine, planeje, resolva problemas, compreenda ideias complexas, além de adquirir aprendizagem sobre a sua prática. A tomada de decisão diz respeito ao processo de selecionar uma resposta em um ambiente que proporciona múltiplas opções de respostas. Contudo, não é só sobre chegar a uma decisão, mas conseguir perceber quais são as possibilidades de sucesso. Em modalidades esportivas que exigem altos níveis de estratégias, comovo- leibol, basquetebol, futebol e handebol, o processo de cognição é muito neces- sário, pois permite que o at leta real ize a "leitura do jogo", uma vez que pos- sibilita lidar com a imprevisibi lidade, va r iabilidade e jogadas aleatórias. No vô lei, por exemplo, os jogadores de- vem analisar as qualidades do passe, a necessidade do bloqueio, se é preciso fazer o levantamento, se a bola do ata- que tem possibi lidade de sair da qua- dra, além de planejar durante a jogada qual a melhor maneira para defender e atacar o t ime adversário. • X ~ o ----.-,r- - &::_---· X. X ~o k-0 X X 1' ~o o o , Figura 2. Exemplo de uma estratégia tática a ser cumpri- da pelos jogadores de vôlei. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 03/08/2021. (Adaptado). PSICOLOGIA 00 ESPORTE • Dessa forma, a percepção, a atenção e a tomada de decisão formam uma matriz impor tante para os jogos, pois durante as partidas os atletas precisam entender todos os estímulos proporcionados pelo ambiente e decidir qual o melhor movimento para conseguir os pontos necessários. •• Autoconceito e crenças O autoconceito é denominado pela percepção que o indivíduo tem sobre si, sendo tanto uma construção cognitiva e social que é desenvolvida ao decor- rer da vida, como também moldado por um conjunto de questões assumidas pela pessoa. A percepção, no entanto, não se limita apenas à pessoa, mas ao seu comportamento em relacionamentos com os outros também. Em suma, o autoconceito pressupõe que as capacidades, valores, atributos e limites são integrações na identidade conforme as crenças do sujeito sobre elas. O autoconceito pode ser desenvolvido a partir das interações que o sujeito tem com outras pessoas e com o ambiente, como familia res, colegas, equipe, técnico, adversários etc. Elas são fundamentais para a promoção do conheci- mento sobre si. Um exemplo dessa característica é a liderança esportiva. O esporte competitivo cria ambientes que proporcionam a formação e per- sonalidade dos atletas, aqueles que exercem um papel de líder tem respon- sabilidades de auxiliar, motivar e inspirar os atletas dentro e fora dos espa- ços esportivos, demonstrando uma postura de carisma. A liderança tem sido, frequentemente, identificada como uma das causas principais para o sucesso ou fracasso de um atleta ou equipe. Nessa direção, o líder tem como objetivo buscar o melhor dos atletas, estimulando que eles compreendam suas limita- ções e potencialidades, facilitando o processo de conhecimento do seu corpo e mente. Além disso, o líder deve ter a capacidade de compreender as razões que fazem os atletas permanecerem na prática, reforçando essa ação positi- vamente, pois, ao promover a satisfação e o comprometimento destes, o líder terá maiores chances de conduzir a equipe ao sucesso esportivo. A liderança é definida como um processo no qual um indivíduo influencia um grupo buscando alcançar uma meta ou objetivo em comum. O papel do líder no esporte tem um grande peso em criar um ambiente motivacional, com objetivo de auxiliar no processo de desenvolvimento da performance. Para PSICOLOGIA 00 ESPORTE • ser líder o atleta precisa desenvolver algumas habilidades, sendo elas sociais, emocionais, técn icas, táticas e cognitivas. Isso ocorre po is é preciso que quem exerce esse papel auxi lie outros atletas a reconhecer seu potencial, seja com estratégias aplicadas, como modelos de inspirações, ou respeitando normas e regras. Todavia, os líderes que apresentam traços agressivos e autori tários podem provocar descontrole emociona l e agressividade dos atletas. O modelo do Diagrama 1 demonstra de maneira sintética como o desem- penho e satisfação dos atlet as dependem de três comportamentos do líder: exigido, rea l e preferido. As ca racterísticas da situação, característica do líder e características do membro são considerados antecedentes que influenciam o comportamento do líder. Dessa forma, se este apresenta comportamento adequado em situações, se ajustando às preferências dos membros do grupo, consequentemente os at letas irão atingir um desempenho melhor e mais sa- tisfação. Pode-se relatar que o líder exerce um papel fundamental, de suporte, inspiração e aprendizagem, auxiliando os atletas a compreenderem suas habi- lidades, característ icas e outras potencialidades, promovendo ainda autono- mia e independência. DIAGRAMA 1. O COMPORTAMENTO DO LÍDER Antecedentes ~ Comportamentos do líder . ' ' Fonte: WEINBERG; GOULO, 2016, p. 196. (Adaptado). (-------- (-------- Consequências PSICOLOGIA 00 ESPORTE • •• Autoeficácia no esporte e a performance esportiva A teoria da autoeficácia é considerada uma das mais recentes quando com- parada a outras teorias de competência ou eficácia pessoal. A teoria tem como premissade que o início e a persistência de um comportamento dependem, primeiramente, dos ju lgamentos e expectativas sobre as habilidades compor- tamentais, capacidades e da forma como enf renta as demandas e os desafios criados pelo ambiente. Além disso, a teoria da autoeficácia t ambém entende que esses fatores são importantes e operam um papel para o controle psicológico, sendo um auxílio para lidar com problemas emocionais e comportamentais. A autoeficácia é definida como j ulgamentos que as pessoas rea lizam sobre a sua capacidade e habilidade, para delimitar estratégias e executar os planos com intuito de desenvolver a performance, e, por consequência, melhorar o rendimento visando atingir metas. O atleta com níveis significativos de autoefi- cácia apresenta convicção de que irá execut ar suas j ogadas com sucesso, real i- zando movimentos que produzem efeitos positivos para os resultados, portan- to os pensamentos e crenças pessoais associadas às capacidades para real izar uma tarefa pode determinar o rendimento do indivíduo. Nessa direção, a autoeficácia pode ser compreendida como ava liação ou percepção pessoal sobre a própr ia inteligência, habi lidade e outros conheci- mentos, contudo não diz respeito a possu ir ou não tais competências, mas em acreditar que as possua. Se considerarmos a autoeficácia como sinônimo da confiança do atleta em realizar uma atividade envolvida no processo cogn it ivo, em que é exigido um raciocínio subj etivo, pode-se pensar a autoeficácia como uma percepção subj e- tiva, pois diz sobre o que a pessoa acredita, além de representar o estado rea l de interesse. A autoeficácia é demonstrada a partir de duas maneiras, que são apresentadas no Quadro 7. Autoeficácia específica QUADRO 7. TIPOS DE AUTOEFICÁCIA :=:::::::::=::: É identificada em domínios específicos, sendo demonstrada a partir do vínculo entre a percepção e a performance. Essa autoeficácia vem sendo encontrada em diferentes situações, tais como bulimia, performance competitiva, perda de peso, entre outros. PSICOLOGIA 00 ESPORTE • Auto eficácia geral Além de ser considerada em situações específicas, a autoeficácia pode ser considerada uma variável global ou como um traço de personalidade; há estudos da autoeficácia como parte de um conceito dentro de uma estrutura desenvolvi mental de crianças. Nesse tipo de processo são consideras todas as experiências de sucessos e fracassos da vida que são atribuídos para a construção da identidade. Os atletas em busca de sucesso durante as competições precisam compreen- der que as estratégias devem superar as habi lidades físicas. Atualmente, as ha- bilidades cognit ivas são interpretadas e defendidas por pesquisadores como es- sencia is, pois têm um papel de influência no funcionamento e desenvolvimento atlético. Portanto, a aprendizagem e a performance envo lvem várias questões além dos comportamentos mecânicos. Nesse senti do, as crenças de eficácia operam um papel necessário, seja para promover habilidades ou para planejar que essas habi lidades sejam bem executadas em situações diferentes. Em circunstância desse processo não se pode cometer o erro de julgar as habilidades físicas isoladamente, é preciso considerar também a percepção do atleta para improvisar durante as jogadas, que podem proporcionar estímulos imprevisíve is e estressantes. Para que a performance tenha o desenvolvimen- to necessário, o atleta precisa estar atento para perceber quais são as habilida- des f ísicas e cognitivas que estão sendo apl icadas naquela partida. As percepções da autoeficácia contribuem para a motivação no esporte; a partir das crenças pessoais o atleta consegue tomar decisões, escolhendo des- de quais desafios irá enfrentar e a intensidade do esforço que irá ap licar, como também o seu grau de persistência. Por fim, dando fechamento à importância da autoeficácia em relação à per- formance, atletas que possuem habi lidades comparáveis, mas diferentes níveis de confiança, não apresentam o mesmo desempenho. Aqueles que apresen- tam insegurança, dúvidas sobre suas habilidades, mesmo que sejam conside- rados atletas talentosos, tendem a apresentar desempenho ba ixos, enquanto os atletas menos talentosos com altos níveis de segurança tendem a fazer uma apresentação de qual idade superior. Diante disso, a partir dos esportes competitivos é possível ident ificar a fra- gil idade da percepção de autoeficácia dos atletas, uma vez que dá para acom- panhar as quedas de performance causadas pelas falhas devido às crenças da eficácia. Mesmo com treinos intensos e planej amento para aperfeiçoar os mo- PSICOLOGIA 00 ESPORTE • vimentos físicos, as dúvidas frente ao esporte praticado bloqueiam a execução das habilidades de forma satisfatória. Nesse sentido, a percepção da au toeficácia tem efeitos sobre os pensa- mentos, influenciando diretamente o rendimento, podendo aumentar ou di- minui r a performance. Quanto mais forte for a autoeficácia, mais metas e objetivos serão estabelecidos, se ajustando à pessoa e ao compromisso que ela tem frente ao seu esporte. •• O papel do mindfulness no esporte Apesar dos benefícios causados pela prática da atividade física, como redu- ção da depressão, ansiedade e estresse, promoção do bem-estar subjetivo e condicionamento físico, muitas pessoas ainda não se sentem motivadas para rea liza r algum exercício físico. Diante disso, surge o papel do mindfulness, que pode ser descrito como uma atenção plena perante uma experiência, com ati - tudes abertas e não julgadoras, ou seja, é uma habilidade que permite ao atleta centrar-se em sua atividade sem influências de reações internas. O mindfulness permite que o atleta foque, intencionalmente, sua atenção para o momento presente, bem como para seus aspectos psicológicos para melhorar seu rendimento. As principais características são: estar centrado no presente (estar consciente da at ividade e percepção dos acontecimentos) e sem julgamento (observar com uma atit ude de aceitação plena). O termo "mindfulness" foi defin ido como a consciência que aparece por meio da atenção plena, permitindo ao atleta foco durante a prática e na experiên- cia que acontece durante a atividade. Destaca-se que a prát ica do mindfulness não é sobre ter a mente vazia de sentimentos ou pensamentos, mas sim prestar atenção ao momento presente, sem preocupações. A partir disso, as emoções, sensações e pensamentos devem ser considerados eventos da mente, podendo ser prat icados de duas formas: informal ou formal. Na primeira, a atenção plena é desenvolvida sendo empregadas competências, como ouvir os sons da natureza, perceber os movimentos que o corpo faz enquanto respi- ra, como também perceber emoções (tristeza, raiva, irritação). Para a prática formal são necessários treinos mais intensos para a atenção, acontecendo por meio da me- ditação, que permite a observação dos conteúdos relacionados ao corpo e mente. PSICOLOGIA 00 ESPORTE • Na prática do exercício físico, o mindfulness tem papel im portante para auxiliar no alcance de metas e objetivos, além disso, estimula a satisfação com essa prática, v isto que está apoiado em comportamentos de aceitação e atenção. Dessa forma, aqueles que buscam o mindfulness tendem a subs- tituir ou in ibi r tendências habituais indesejadas, consequentemente promo- vendo o autocontrole. Os treinamentos e inte rvenções que são baseados nessa abordagem pro- porcionam consequências benéficas aos praticantes, pois estimulam a regu la- ção do exercício e o controle de reações psicológicas negativas (ansiedade), por outro lado as pessoas que não vivenciam essa experiência têm probabilidades de desistir das atividades por apresentar exaustão e estresse relacionados com outros aspectos de suas vidas (por exemplo, trabalho ou família). O papel do mindfulness tem receb ido atenção devido ao seu potencial para promovera atividade física, contudo as pesquisas sobre o termo vêm sendo ambivalentes sobre as contribuições relativas das formas de traços e estado do mindfulness. O traço e o estado são compreendidos como construtos dife- rentes, teoricamente e operacionalmente (ver Quadro 8). Dessa maneira, eles podem fornecer implicações diferentes para o planejamento de intervenções da promoção da atividade física, bem como da satisfação da prática. Tipos de mindfulness Traço Estado QUADRO 8. OS TIPOS DE MINDFULNESS ~ Exemplos 1. Determinado como uma diferença individual confiável. 2. Pressupõe que os participantes tenham uma capacidade disposicional de atenção plena em qualquer contexto. 1. Definida como uma experiência momentânea que varia para cada pessoa, contexto e tempo. 2. Entende que os níveis momentâneos de atenção plena variam ao decorrer do tempo durante as atividades, como também em situações específicas, independentemente do nível da atenção plena em traços. Diante dessas conceitualizações, espera-se que as pessoas com alto nível de atenção plena experimentem os estados do mindfulness mais frequente- mente do que aquelas com baixa atenção aos t raços. Assim, o mindfulness pode ser interpretado como modificável para apl icação nas intervenções. Es- PSICOLOGIA 00 ESPORTE • sas intervenções geralmente são avaliadas com base na capacidade do atleta em aumentar o traço, pois pouco se sabe como as mudanças causadas pelo estado podem influenciar nas atividades físicas e desempenho. Adicional- mente, as intervenções têm como objetivo treinar a regu lação da atenção e adoção de uma orientação para abertura e aceitação, o que auxilia o de- senvolvimento da atenção momentânea e da consciência, assim apoiando a autorregulação da atividade. Os benefícios da autorregulação são fundamentais para as atividades físi- cas, pois uma série de fatores podem surgir com o tempo, como o estresse e a fadiga, que podem prejudicar as intenções de uma pessoa ser ativa. Para a pessoa com consciência elevada, os sentimentos e pensamentos ficam mais claros, sendo recebidos sem julgamento, ou seja, em vez de ser oprimida por fatores desmotivacionais, ela consegue enfrentar e gerenciar essas situações com mais eficácia. No Quadro 9 é possível observar algumas influências/conse- quências de cada tipo de mindfulness sobre a atividade física. QUADRO 9. ASSOCIAÇÃO DO MINDFULNESS COM ATIVIDADE FÍSICA Tipos de mindfulness Traço Estado ::=::::::::=::: Influências Estudos têm demonstrado amplamente uma associação positiva entre o traço de mindfulness e a atividade física. O traço também demonstrou ter relação com a manutenção, cumprimento de metas, prazer e satisfação pela prática esportiva. Além disso, também demonstrou ter papel como moderador nas relações entre motivação e ação, por exemplo: pessoas com níveis mais altos de atenção nas características apresentam mais motivação intrínseca para iniciar e continuar no esporte. A literatura demonstra que o aumento da atenção plena no estado em ambientes esportivos tem relação com a satisfação pela atividade. Ademais, foi possível verificar que os esportistas que apresentaram níveis elevados do estado também apresentavam crenças mais fortes, o que permite atingir com mais facilidade os objetivos estabelecidos. •• Compulsão e perdas Atualmente, o esporte profissional pode ser interpretado como uma prá- tica que exige muito das pessoas que estão envolvidas, como atletas e técni- cos, recebendo pressões de todas as formas, isto é, de patrocinadores, mídia, PSICOLOGIA 00 ESPORTE • torcida, fami liares ou até mesmo de si mesmo. Além de toda cobrança, o nível dos at letas e das equipes precisam ser elevados, precisando estar em con- dições iguais em questões técnicas, táticas e f ísicas. Nessa direção, é preci- so que os atletas, j untamente com seu treinador, busquem estratégias para consegu ir lidar com esses fatores sem afetar o desempenho, rendimento e estabil idade emocional. O treinamento físico nas diversas modalidades esportivas, principalmente nas fem ininas, proporcionam o f ísico e o atlético harmonioso, mas ao mesmo tempo implica em prob lemas específicos da categoria de atletas. Sendo um desses problemas o Transtorno do Comportamento Al imentar (TCA), denomi- nado como uma perturbação persistente do comportamento com a al imenta- ção. Ta l transtorno gera efeitos negativos nos hábitos alimentares, prejudican- do a saúde física e psico lógica. O meio competitivo proporciona muitas vezes um ambiente de pressões sociocu lturais pe lo corpo ideal, uma vez que é relacionado a uma imagem cor- poral com o desempenho físico. Adicionalmente, os at letas também são sub- metidos a cobranças de manutenção da massa corporal de acordo com a sua modal idade esportiva. Diante disso, compu lsões relacionadas a treinos e al i- mentação aparecem cada vez mais. Além da questão física, relacionada à imagem corporal e transtornos al i- mentares, as pressões e os treinos intensos também provocam alguns efeitos somáticos (respiração profunda e rápida, pressão arterial elevada, diminuição da secreção salivar, entre outros), causadas pelo estado emocional do atleta, mais especificamente pe lo estresse. We inberg e Gould (2016) afirmam que há quatro estágios para o estresse: 1) demanda ambiental (física e psicológica); 2) percepção da demanda ambiental (ameaça física ou psicológica percebida); 3) resposta o estresse (ansiedade, tensão muscular, ativação); e 4) consequências comportamentais (desempenho e resu ltado). A partir disso, entende-se que a tensão, a preocupação, a ansiedade e o medo podem ser subprodutos do estresse. Dentre os fatores psico lógicos que estão presentes no ambiente esportivo competitivo, o estresse pode ser considerado um dos principa is aspectos na determinação do desempenho, ou seja, as mu- danças fisiológicas que são estimuladas pelo estresse diminuem a energia, cau- sando interferências negativas na realização das atividades de longa duração. PSICOLOGIA 00 ESPORTE • O medo é considerado um subproduto do estresse. Em situações de estres- se, o medo pode surgir e provocar alterações fisiológicas (f requência cardíaca, pressão arterial e frequência respiratória). Ter medo em situações neutras não influencia tanto no rend imento quando comparado à uma competição, isso porque o atleta vivencia uma situação neutra, com poucas pressões e sem es- tímulos que inf luenciariam uma fuga. Nesse sentido, o estresse e as suas im- plicações estão associados à má performance e provoca lesões, uma vez que as pressões e medos têm relação direta com a autoconfiança. No entanto, é importante destacar que o bom atleta consegue identificar seus medos, bus- cando meios de enfrentá-los ou neutralizá-los; essa habil idade de reconhecer e controlar as emoções negativas é entendida como uma estratégia de enfren- tamento - coping. •• Síndrome de burnout no esporte Devido ao processo complexo e árduo que os atletas vivenciam durante a sua trajetória no esporte por causa da busca por competências físicas, técn i- cas e táticas, os fato res psicológicos tornam-se estratégias para melhorar o desempenho, influenciar na longevidade dos atletas, como também afetar os resu ltados. A síndrome de Burnout, de caráter psicofisio lógico, costuma ser evidente em ambientes organizacionais, como escritórios e hospitais, sendo pouco discutida no ambiente esportivo. Trata-se de um conjunto de sintomas de ordem física e psicológica, sen- do definida como uma síndrome que causa exaustão emocional, reduzindo a energia profissional, como também a despersonalização, podendo acontecer com qualquer pessoa que precise utilizar alguma capacidade. No esporte, mui- tas vezes o quadro de Burnout não é identificado em curto prazo em técn icos, atletas, árbitros ou até mesmo em outros membros desse contexto - o que na maioria das vezesgera uma consequência mais grave, que é o abandono espor- tivo, levando à aposentadoria precoce. Com base nessa definição, a Burnout é um conjunto de sintomas que são fundamentados em t rês dimensões: • Exaustão emocional: é caracterizada por sentimentos de extrema fa diga, provocado pelo esforço excessivo; PSICOLOGIA 00 ESPORTE • • Despersonalização: está associado aos sent imentos negat ivos, com com- portamentos impessoais, desligados e de descuido em relação ao outro; • Redução da satisfação profissional: provocadas por ava liações negati- vas sobre si, principa lmente em relação à habilidade de obter sucesso. No esporte, com a preocupação de proporcionar melhores condições e in- vestimentos para a prática da at ividade física, os profissionais têm buscado a exce lência física, técn ica, tát ica e psicológica, ao mesmo também apresenta uma preocupação sobre como evitar ou lidar com problemas relacionados à interrupção da vida profissional do atleta, como o desgaste emocional, frus- tração e o estresse. Este está associado à competição esportiva como um fator relevante, pois está diretamente ligado com o desempenho dos atlet as profis- siona is, que sempre são submet idos a tre inos rigo rosos. O estresse é definido como uma reação psicofisiológica complexa, poden- do ser um estímulo ou evento ambienta l que provoca a tensão e afeta a rea- ção ou o processo indiv idual. Quando algo é interpretado como estressan- te pode desencadear emoções negativas que prejudicam a performance do at leta. Contudo, há est udos que indicam que o estresse pode proporcionar o desenvolv imento positivo das habilidades, pois, quando contro lado e enfren- tado de maneira correta, o atleta pode utilizar do evento estressar como uma fe rramenta para alcançar o sucesso. Dessa forma, quando o estresse est á moderado, o rendimento melhora, pois há estímulos para manter o indivíduo em ativação, mas não há excessos para distraí-lo. Portanto, usar estratégias de enfrentamento é um método possível para auxi liar atletas que apresen- tam sint omas re lacionados ao Burnout. Para atlet as, a exaustão profissiona l, em geral, acontece devido às deman- das do t reinamento e das competições, estando associada à sua percepção sobre suas habilidades e rendimentos, que são baixas. A exaustão apresenta três importantes aspectos: • Relato de experiência emocional e física: são provocadas por demandas excessivas que são forçadas em t reinos e competições; • Redução de senso de autorrealização: as percepções sobre os objetivos e metas são interpretadas como inatingíveis; • Desvalorização e desinteresse pelo esporte: quando as motivações vão desaparecendo e o at leta perde o prazer pela prática. PSICOLOGIA 00 ESPORTE • CURIOSIDADE Os pesquisadores Daniel Alvarez Pires, Maria Regina Ferreira Bran- dão e Cláudia Borim da Silva buscaram estimar as evidências de validade para o Questionário de Burnout em atleta, assim disponibi- lizando para o contexto esportivo um instrumento capaz de avaliar o estado emocional, possibilitando a prevenção dos sintomas causados por estresse e pressões. •• O coping Estratégias de enfrentamento vêm sendo utilizadas, cada vez mais, por atle- tas que querem aprender a lidar com o estresse, e pode ser classificado como uma ferramenta que tem como foco as emoções e os problemas. As estratégias que têm como foco as emoções são empregadas quando os atletas acreditam que algo ou nada pode ser feitos para modificar um determinado momento. Nesse processo, o atleta pode incluir algumas opções, tais como distanciamen- to, evitação ou reavaliação positiva da situação. Quando a estratégia é focada no problema, os atletas tendem a encarar a situação estressante diretamente, seja para diminuir as demandas estressaras ou para aumentar sua capacidade em lidar com o estresse. Na literatura é possível observar alguns métodos de enfrentamento que auxiliam a controlar o estresse e reduzir esse sofrimento, estando relaciona- dos a melhores resultados. Em geral, esses métodos utilizam de recursos que abrangem a autoestima, o supor te social, o otimismo e o autocontrole. Dentre esses métodos, o coping é definido como um conjunto de esforços, cognitivos e compor tamentais, que são utilizadas por atletas e até mesmo outras pessoas encontradas em outros contextos para se adaptarem a situações adversas. Adicionalmente, as características de dominação, somatização e competência são consideradas como resultados do coping. Esse método envolve quatro con- ceitos principais: • O coping é um processo ou uma interação do atleta com o seu ambiente; • Tem como função administrar situações estressaras em vez de apenas obter controle e domínio sobre elas; • Os processos de coping são baseados na ideia de que a percepção e inter- pretação das habilidades são representados na mente do atleta; PSICOLOGIA 00 ESPORTE • • O coping exige esforços, cognitivos e comportamentais para administrar as demandas internas e externas. As estratégias de coping refletem comportamentos, pensamentos, senti- mentos e ações que são utilizadas como ferramentas para lidar com um estí- mulo estressar. Essas estratégias podem ser classificadas em dois tipos depen- dendo do seu objetivo, que são apresentadas no Quadro 1 O. Tipo Coping focado na emoção Coping focado no problema QUADRO 10. ESTRATÉGIAS DE COPING ::=:::::::::=:: Definição É entendido como o esforço para controlar o estado emocional, que está relacionado ao estresse ou a situações estressoras. Geralmente, são focados a nível somático ou de sentimentos, que têm como intuito auxiliar a melhorar o estado emocional do indivíduo. Dessa forma, essa estratégia tem como objetivo principal minimizar sensações físicas desagradáveis provocadas pelo estado de estresse. O coping, neste caso, tem como objetivo atuar sobre a situação que deu origem ao estresse, tentando modificar ou aprender a enfrentar. Diante disso, a partir dessa estratégia é possível auxiliar o atleta a alterar o problema que existe entre o ambiente e ele. Essa ação pode ser direcionada internamente ou externamente quando está focado em uma fonte externa de estresse, por exemplo: as estratégias podem estar associadas a negociar um conflito ou solicitar ajuda. O uso dessas estratégias vai depender da percepção avaliativa do atleta frente à situação estressara, que pode usá-la de duas formas: avaliação primá- ria e avaliação secundária. Na avaliação primária o processo é cognitivo, po- dendo interpretar o risco envolvido, enquanto na segunda é possível analisar os recursos disponíveis e outras opções que auxiliam a enfrentar o problema. CONTEXTUALIZANDO A ampliação do conceito de coping, mesmo sendo recente no esporte, vem sendo defendida e usada cada vez mais por profissionais e pesqui- sadores da área. Pois pode ser utilizada como uma ferramenta auxiliar no rendimento do atleta, por consequência fazendo com que ganhe mais competições e traga visibilidade para o esporte no Brasil. PSICOLOGIA 00 ESPORTE • Sintetizando • É possível observar que mais pessoas estão entrando para o esporte de alto rendimento, buscando participar de competições. Para isso, buscam constan- temente melhorar o desempenho, identificando suas f raquezas e potenciali- dades. O treinador, durante esse processo, é fundamental para compreender as falhas que precisam ser corrigidas. A partir dos feedbacks vistos por ou tro ângulo, os atletas conseguem trabalhar para corrigir seus erros. Isso acontece porque o atleta, ao decorrer da prática esportiva, desenvolve capacidades de atenção e percepção que o auxil iam a entender suas habilidades, caracterís- ticas, atributos e outros fatores que fazem parte do ser atleta. Aqueles que demonstram tais habilidades cognitivas, como também a autoeficácia e o min- dfulness, tendem a apresent ar melhores resultados, pois conseguem visualizar toda asituação, com abertura e atenção plena, conseguindo estabelecer estra- tégias que possibilitam a promoção do seu rend imento; além disso, o atributo confiança auxilia muito nesses resultados, uma vez que não há dúvidas sobre a sua atuação, realizando os movimentos sem medo. No entanto, apesar de alguns esportistas conseguirem manter o equi líbrio emocional, adquirir confiança e acreditar no seu potencial, muitos atletas vi- venciam cobranças excessivas, que podem partir de si ou de fatores externos, por exemplo, da família e da mídia, que provocam emoções e comportamentos negativos, levando ao desgaste ou até mesmo à desistência da prática, que é o caso das pessoas que desenvolvem a Burnout. Pensando nessas circunstâncias negativas que afetam o desenvolvimento do atleta, prejudicam a sua saúde e que muitas vezes podem levar à aposentadoria precoce, estratégias de enfrentamento às situações estressantes foram pensa- das. O Coping é uma estratégia essencia l para os atletas, uma vez que possibilita se adaptarem a situações adversas, amenizando a exaustão e o estresse. PSICOLOGIA 00 ESPORTE • Referências bibliográficas • PÉREZ, L. M.; BANUELOS, F. S. Rendimiento deportivo: claves para la optimiza- ción de los aprendizajes. Madrid: Gymnos, 1997. SCHMIDT, R. A. Aprendizagem e performance motora: dos princípios à práti- ca. São Paulo: Movimento, 1993. SCHMIDT, R. A.; WRISBERG, e. A. Aprendizagem e performance motora: ini- ciando. Porto Alegre: Artmed, 201 O. WEINBERG, R. S.; GOULD, D. Fundamentos da psicologia do esporte e do exercício. Porto Alegre: Artmed, 2016. PSICOLOGIA 00 ESPORTE • UNIDADE ~ ~ ser educacional Objetivos da unidade Apresentar as questões do processo grupal, o que denomina um grupo e suas características; Abordar as informações importantes para manter a equipe esportiva, bem como as habilidades que podem ser desenvolvidas por meio delas; Descrever a importância da competição para o desenvolvimento de habilidades e o fortalecimento do grupo quando se trata de modalidades coletivas; Expor a importância do esporte para diferentes grupos, visto que pode proporcionar uma vida saudável, de inclusão e habilidades socioemocionais. Tópicos de estudo O processo grupal e a competição Coesão grupal e cooperação A competição no contexto esportivo Questões psicossociais, socioculturais e a prática de atividade física em grupos populacionais A importância do esporte para a formação de crianças e adolescentes A prática esportiva e o envelhecimento saudável o desenvolvimento psicossocial do atleta com deficiência PSICOLOGIA 00 ESPORTE • •• O processo grupal e a competição A dinâmica de grupo é fundamental para o contexto esportivo, dado que, ao promover e manter o envo lvimen- to dos membros da equipe, possibili- ta o desenvolvimento de habilidades socioemocionais. O termo "dinâmica de grupo" é usado para descrever os processos, ações e qualquer mudan- ça que aconteça dentro de um grupo. Diante disso, pesquisadores da área esportiva começaram a estudar sobre as questões relacionadas ao grupo, tais como os relacionamentos dos atletas com os treinadores e outros atle- tas de equipe, coesão grupal e clima motivacional. Adicionalmente, estudaram também sobre as experiências individuais associadas ao grupo, por exemplo identidade socia l, motivação e liderança de pares. Em suma, a importância do processo grupal pode ser compreendida por duas razões amplas: 1) os grupos são on ipresentes nos exercícios, ou seja, as modalidades esportivas são as principais situações evocadas quando se con- sidera cenários de grupo que envolvam atividade f ísica. Além disso, as prefe- rências por essas modalidades variam com base na identidade e pelos vínculos que formam a estrutura social. 2) os grupos acontecem por meio da necessida- de de pertencer, por consequência, essa necessidade influencia a experiência da atividade f ísica, visto que o atleta percebe o seu papel, o seu valor e ostra- ços em comum com os outros, benef ícios mútuos são comparti lhados. O processo grupal tem sido amplamente usado para melhorar a atuação do atleta e da equipe, a partir de intervenções que têm como foco a comunicação, treinamento de intel igência, desenvolvimento de ident idade social e o trabalho em equipe. Em um estudo realizado por McEwan e Beauchamp (2020), os auto- res investigaram a eficácia de programas esportivos que tinham o obj etivo de avaliar o funcionamento das equipes. Ta is programas usavam como estratégias feedback, definição de metas individuais e para equipe, como também simula- ções de competições. PSICOLOGIA 00 ESPORTE • Os resultados demonstraram que as equ ipes que recebiam intervenções com o grupo apresentavam rend imentos super iores comparados àqueles que recebiam individualmente, além disso, foi possível observar o comportamento de trabalho em equipe. Nessa direção, os atletas, quando adquirem relação afetiva e de confiança, apresentam maior probabi lidade para traba- lhar com determinação, visto que conseguem perceber o propósito do grupo e acreditar no sucesso, consequentemente a sua relação com o esporte se torna mais posit iva e saudável, pois f icam mais engajados, satisfeitos e reconhecem o seu valor. O processo grupal pode ser compreendido ainda por vários fatores apresentados no Quadro 1. QUADRO 1. FATORES ASSOCIADOS AO PROCESSO GRUPAL Fator Seleção da estratégia Mobilização Desenvolvimento ::=::::::::=::: Definição As escolhas de estratégias são importantes, pois dependem delas para o sucesso das equipes esportivas. No contexto esportivo, as regras dos jogos e das competições podem restringir tanto o treinador quanto o atleta do seu propósito geral, relacionado ao esporte ou dos objetivos a serem alcançados. Uma escolha específica influencia a seleção dos atletas para o grupo, quais os papéis a desempenhar e a natureza dos treinadores. Em geral. as estratégias de um treinador são consideradas as principais temáticas das discussões por especialistas ou fãs do esporte. Diz respeito à medida em que os atletas que são considerados talentosos são recrutados como parte da equipe. Essa escolha pode variar de algo menos complexo, por exemplo, em casos de selecionar uma equipe após um teste do ensino médio ou mais elaborado, por exemplo, escalar jogadores para a Copa do Mundo. Em ambos os casos, a mobilização refere-se ao recrutamento e/ou seleção de indivíduos talentosos, em que suas habilidades e capacidades contribuem para as estratégias selecionadas. A partir da perspectiva das estratégias, os atletas selecionados deverão possuir diferentes habilidades e capacidades para se complementarem. Apesar dos atletas ficarem felizes por serem selecionados, alguns deles podem ficar insatisfeitos com as outras escolhas, dessa forma, é importante avaliar a satisfação do atleta. O desenvolvimento acontece por meio da eficácia do treinador em usar o talento disponível de maneira organizada para alcançar o sucesso nas competições. Os atletas podem avaliar de forma positiva ou negativa de acordo com as combinações realizadas pelo treinador, usando as habilidades e capacidades. Um exemplo disso é quando um jogador sente que essa combinação, de habilidades ou de jogadores, seria um influenciador para melhorar o desempenho. PSICOLOGIA 00 ESPORTE • Prática Táticas de competição Tratamento igual Ética Esforço do grupo Coordenação Apoio de auxiliares Os atletas gastam longas horas de energia, com treinamentos em relação a competições. O processo empregado durante os treinamentos é fundamental para o desempenho em competições; na medida em que vão percebendo que são ineficazes, as probabilidades de ficarem insatisfeitos aumentam. O sucesso da equipe é determinado pelas táticas que são adotadas pelo treinador durante as competições. Tais táticas podem ser proativas (ações tomadasindependentemente do que os oponentes fazem} ou reativas (táticas empreendidas para combater as iniciativas dos adversários), o grau dessas medidas vai depender das situações específicas, podendo ser adotadas táticas distintas ou até mesmo contraditórias. Considerando que a estratégia diz respeito à abordagem geral do jogo em todo o campeonato, as táticas referem-se a escolhas específicas em resposta a uma situação durante a competição. Em geral, os atletas: a} fazem comparações sobre a proporção de contribuições percebidas dos resultados com os outros membros da equipe; b} percebem quando há desigualdade presentes no ambiente. Um exemplo disso é um membro da equipe de futebol perceber que as contribuições trazidas pelo atacante (esforço, dedicação} são mais importantes do que as contribuições do centroavante. Percebendo a situação como desigual, o atleta pode ter seu nível de satisfação afetado devido ao nível de justiça do treinador com a equipe. O uso de medicamentos para melhorar o rendimento ou para avaliar a dor, pode ser considerado doping. A adoção de táticas antidesportivas e violência excessiva são algumas das questões relacionadas à ética. Os atletas podem ter reações diferentes frente a essas questões quando se relacionam com sua própria equipe. É importante avaliar sua satisfação ou insatisfação em relação à conduta ética do treinador ou dos membros da equipe. Este aspecto tem relação direta com a percepção do atleta sobre seus colegas, que estão se empenhando, mostrando determinação e esforço para melhorar os resultados da equipe. Esses esforços podem ser durante os treinamentos ou durante os campeonatos. O esforço de grupo também aborda a medida em que os outros membros se envolvem nas atividades sociais, ou seja, se um membro do grupo contribuiu ou não para a tarefa do grupo. O sucesso e as experiências positivas dependem da organização e gestão em fornecer suporte para a equipe. Essa situação é possível de observar em instalações e equipamentos fornecidos à equipe. Ao mesmo tempo em que os atletas podem estar satisfeitos ou não com o orçamento atribuído à equipe. O apoio de auxiliares pode ser oferecido pela equipe médica, comissão técnica e outros profissionais que gerenciam os jogos. Apesar da comunidade, geralmente, não estar diretamente envolvida nos assuntos da equipe, ela tem um efeito significativo sobre Suporte comunitário como as equipes podem ser eficazes, por meio do apoio implícito e explícito. Esse significado pode ser observado pelas vantagens em competições. Esse fator está diretamente relacionado à satisfação de um atleta, Fidelidade do suporte demonstrando sua lealdade com o treinador, com membros da equipe ou comissão técnica. PSICOLOGIA 00 ESPORTE • Participação decisiva A participação decisiva refere-se ao comprometimento do atleta em tomar decisões relevantes com a equipe e sobre seu desempenho, uma vez que o treinador o envolve neste processo. Fonte: CHELLAOURAI; RIEMER, 1997. (Adaptado) •• Coesão grupal e cooperação o esporte pode ser classificado em quatro categorias, sendo elas: modalida- de individual com interação com o adversário, modalidade coletiva com intera- ção com o adversário, modalidade individual sem interação com o adversário e modalidade coletiva sem interação com adversário. Essas categorias estão definidas no Quadro 2. QUADRO 2. CATEGORIAS ESPORTIVAS. ' Modalidade Coletiva Individual ~ Com interação com o adversário São esportes em que os atletas trabalham com outros companheiros de equipe, de maneira combinada, enfrentando diretamente outra equipe, considerada adversária. Esses esportes podem ser basquete, voleibol, futebol, handebol etc. São os esportes em que atletas enfrentam diretamente outro atleta, tentando alcançar seus objetivos durante a partida para ganhar pontos e vencer, e, por consequência fazer com que o adversário perca. Alguns exemplos dessa modalidade são judô, boxe, taekwondo etc. Fonte: EVANGELISTA. 2017, p.19. Sem interação com o adversário São esportes que precisam de dois ou mais atletas para atuação, mas que não interferem na atuação do adversário, por exemplo remo, nado sincronizado etc. São esportes que não exigem colaboração de outros atletas e nem confronto direto com o adversário, por exemplo, ginástica artística, natação etc. Tais definições consideram as características das modal idades e as intera- ções, reforçando que a interação é um fator importante a ser considerado para a identificação das modalidades. Além dessas categorias apresentadas no Qua- dro 2, ainda há uma subdivisão: PSICOLOGIA 00 ESPORTE • • Sem interação com o adversário, dando destaque ao desempenho; • Com interação com o adversário, dando destaque aos princípios básicos do jogo. Os esportes da primeira subdi- visão são associados ao esporte de "marca", "estéticos" e de precisão. As diferenças entre os três tipos é que o resultado da ação motora em esportes de "marca" é um registro quantitativo de tempo, da distân- cia ou do peso. No esporte estético, os resu ltados da ação motora estão relacionados na qualidade do movi- mento conforme os padrões técnico- -combinatórios. E nos esportes de precisão, os resultados dizem respei- to à eficiência e à eficácia de aproximar um objeto ou atingir um alvo. Essa subdivisão tem como foco as ações dos atletas para atingir os resultados, ou seja, tem o objetivo de compreender o desempenho e a capacidade em exe- cutar movimentos ou tarefas relacionados ao esporte praticado. Enquanto os esportes da segunda subdivisão estão direcionados para as modalidades que exigem combate ou luta, campo e taco, rede ou quadra e os em que há invasão de te rritórios entre as equipes: • Esporte de combate ou luta: as disputas em que os atletas devem usar técnicas, táticas e outras estratégias para conter os seus adversários, podendo ser por meio de uma imobilização, exclusão de espaço ou limitando que ele use ações de ataque e defesa. • Esporte de campo e taco: tem como finalidade colocar a bola longe do alcance dos outros jogadores, pensando em construir vantagens sobre o adversário. • Esporte de rede ou quadra: são modalidades esportivas em que o atleta arremessa ou lança uma bola em espaços que o adversário não seja capaz de alcançar, isto é, defender ou atacar, forçando a cometer um erro, sendo consi- derado apenas o tempo que o objeto está em movimento. PSICOLOGIA 00 ESPORTE • • Esporte de invasão ou territorial: são as modalidades que têm como intuito invadir a área que é defendida pe lo adversário para marcar um ponto, ao mesmo tempo que a sua área precisa ser protegida. As equipes esportivas, dessa forma, são compreendidas como uma ques- tão importante em várias modalidades. A equipe esportiva pode ser definida pelo agrupamento de atletas que demandam cooperação, interação, comun i- cação e outras características que fortalecem o t rabalho em equipe. Além dis- so, o grupo é compreendido pelas suas atividades e da sua dinâmica, sendo baseada em dois requisitos: • A separação dos papéis e responsabi lidades de cada atleta; • Coordenar as funções para que os atletas traba lhem como um todo, man- tendo o grupo organizado e unido. Uma equipe é caracterizada por sete aspectos, sendo eles apresentados no Quadro 3. QUADRO 3. CARACTERÍSTICAS DE UMA EQUIPE ESPORTIVA ~ Existência de uma identidade coletiva: diz respeito à união dos atletas, tornando-os diferentes de outras equipes. Estabelecimento de objetivos e metas comuns: está associado às metas de interesses que os atletas estabelecem, por exemplo, marcar um ponto ou ganhar uma partida. Enfrentamento de vivências comuns: refere-se aos números de experiências coletivas vividas, que, por consequência, aumenta a interdependência da equipe. Demonstração de padrões estruturados de interação: diz respeito ao comportamento do líder, do estilo dacomunicação. Interdependência pessoal e na tarefa: refere-se às motivações e razões para manter as relações e interação pessoal. Atração interpessoal recíproca: quando há uma colaboração e cooperação entre os membros da equipe para atingir um objetivo. Pertencimento: quando eles próprios se consideram um grupo. PSICOLOGIA 00 ESPORTE • Atualmente, as modalidades esportivas estão cada vez mais exigentes, querendo resultados posit ivos e bom desempenho. As teorias relacionadas ao grupo esportivo ao longo dos anos ganharam espaço, diante disso, muitos pes- quisadores chegaram à conclusão de que um grupo com alta coesão tem mais chance de ser unido e comprometido. A coesão de grupo pode ser entendida como as forças que existem ent re os membros, o sentimento de pertencer, como também os níveis de esforços em que os membros concentram para alcançar uma meta ou objetivo. Nesse sen- tido, a coesão de grupo pode ser defi nida como um processo dinâmico, que se refere pela vontade de se manter unido e permanecer em grupo, com objetivo de buscar satisfação para as necessidades afetivas dos membros. Ter uma alta coesão grupal é fundamental, pois auxilia no processo de de- senvolvimento do rendimento, melho- rando o desempenho. Em alguns estu- dos, foi possíve l conclui r que a coesão de grupo e o desempenho são cone- xões recíprocas, ou seja, a alt a coesão aumenta o desempenho, da mesma forma que o desempenho de sucesso promove a coesão. A coesão de grupo, portanto, existe onde os jogadores criam víncu los e têm interesses em comum, os membros compartilham esses interesses e ou tras informações que são consideradas re levantes, sendo caracterizada como uma boa coesão social. Além desta também há coesão de ta refas que é sobre a conexão de um grupo para real izar uma determinada tarefa. Essas duas defin ições concentram-se em dois conceitos que são importantes da coesão social e da tarefa. Nessa di reção, a equipe é organizada e fo rmada para consegui r atingi r um propósito, usando da coesão da tarefa para facili- tar e destacar a importância do papel de cada um dentro do grupo. A coesão social é desenvolvida ao decorrer do tempo, na medida em que a confiança e os afetos são construídos. Sobre as modal idades colet ivas que possibi litam essa coesão grupal, po- dem ser agrupadas em uma categoria, visto que todas essas modalidades pos- suem seis invariantes: PSICOLOGIA 00 ESPORTE • DIAGRAMA 1. AS SEIS INVARIANTES DAS MODALIDADES COLETIVAS ~ A partir dessas invariantes se constroem as equ ipes esportivas, possibili- tando que as modalidades sejam consideradas e visua lizadas em sua estrutura. Com o crescimento de pesquisas sobre as equipes esportivas, foi possível identificar alguns dos resul- tados influenciados pela coesão grupal, tais como, desempenho, alcance de metas coletivas, melho- ra do desempenho, maturidade da equipe, inte- gração do grupo e cooperação. A definição desses resultados é apresentada no Quadro 4. PSICOLOGIA 00 ESPORTE • QUADRO 4. RESULTADOS DA COESÃO GRUPAL Resultado Desempenho Alcance de metas coletivas Melhora do desempenho Maturidade da equipe Integração de grupo A cooperação :::=::::::::=:: Definição O desempenho é o resultado mais desejado pelos atletas e pela equipe. Sendo definida pelas situações em que os atletas investem seus tempos para realizar algum movimento ou ação. A única forma de identificar o desempenho dos atletas é por meio das vitórias, em campeonatos, jogos ou treinos. Essa avaliação segue a lógica de que o atleta busca a excelência por meio das vitórias contra os adversários, dessa forma, vencer é compreendido como um resultado significativo. Os treinadores, juntamente com seus atletas, podem estabelecer metas pensando em competições futuras, como ganhar uma porcentagem de jogos durante essa temporada. Uma vez alcançadas as metas. é possível avaliar os indicadores de desempenho e, por consequência, a satisfação do atleta. A melhoria do desempenho está associada à satisfação dos atletas e da equipe, ao perceber o seu rendimento durante a temporada anteriores ou a atual. Essas melhorias podem influenciar nos pontos ganhados durante os jogos, consequentemente, a posição no ranking. A maturidade de uma equipe acontece quando há o crescimento e o desenvolvimento dos membros sobre várias questões, tais como aptidão física, domínios das habilidades. estratégias e táticas. Diz respeito ao estado direcionado para a solidariedade, envolvendo orientações e processos grupais, compreensão e aceitação das estratégias e táticas, reconhecimento e respeito. Essa solidariedade é promovida a partir das relações e vínculos prolongados, como também contribuições sobre as tarefas. Adicionalmente, a integração grupal é associada aos aspectos psicológicos da coordenação e do trabalho em equipe. É caracterizada pelo processo social. em que todos os membros dos grupos têm o mesmo objetivo, a partir disso as recompensas e benefícios são iguais, os papéis são divididos de modo que todos tenham uma responsabilidade dentro do grupo. Em jogos cooperativos características como aceitação, envolvimento, diversão, respeito são evidenciados, enquanto a exclusão, agressividade, seletividade são minimizadas. Dentre os princípios da cooperação, está incentivar a criatividade, flexibilidade nas regras e evitar confronto. CURIOSIDADE Na literatura ainda há poucos instrumentos que possam avaliar o trabalho em equipes esportivas de jovens, as escalas que são disponibilizadas têm como foco a avaliação do trabalho em equipe com profissionais em empresas ou indústrias. No entanto, alguns pesquisadores, sendo um deles a autora deste conteúdo, adaptou a Teamwork Se ale for Youth para o contexto esportivo. PSICOLOGIA 00 ESPORTE • •• A competição no contexto esportivo A natureza de uma competição esportiva tem duas dimensões: competi- tiva e cooperativa. Em esportes coletivos, os atletas buscam coordenar seus movimentos e ações com os outros membros da equipe, na busca pelo ob- jetivo competitivo comum, havendo, dessa forma, uma cooperação entre os atletas em vários momentos dos jogos. A competição esportiva é como um sistema auto-organizado, caracte r izado por um r itmo de jogo que assume duas formas: 1) Competições que tendem a exibir uma atividade de impulso e defesa, com possessão alternadas iguais, como tênis e badminton; 2) Competições que trocam posse de maneira desigual, exibindo at itudes e comportamentos de va i e vem, como basquete, futebol e hóquei. Em competições, um dos estados emocionais mais reco rrentes é a ansie- dade, sendo caracterizada como um estado emocional negativo que está as- sociado aos pensamentos de estresse e preocupação que podem influenciar nas sensações físicas. A teoria multidimensional da ansiedade competitiva é formada por três componentes, apresenta dos no Quadro 5. QUADRO 5. COMPONENTES DA ANSIEDADE COMPETITIVA ~ Cognitivo: diz respeito aos pensamentos e questionamentos que a pessoa tem sobre si, em relação ao desempenho e sobre o momento da competição. Perturbação somática: refere-se às sensações fisiológicas, como aumento da sudorese, aumento ou diminuição de batimentos cardíacos e da frequência respiratória, excitação e frio no estômago. Autoconfiança: a crença que o atleta tem em reconhecer suas capacidades e saber que vai obter um desempenho positivo. Em crianças e adolescentes, a competição se torna importante, visto que pode influenciar no processo de formação esportiva, contribuindo para ou- tros aspectos da vida (escola, família e comunidade}, desde que aconteça PSICOLOGIA 00 ESPORTE • de maneira saudáve l, ou seja, conforme as necessidades, motivações e in- teresses de quem pratica o esporte. Nesse sentido, a compet ição assume d iferentes formas, com base na transição de carreira, passando pe las com- petições não forma is, progred indode maneira gradual até participar das competições formais. A partir d isso, é pensado em uma estrutura teórica, denominada enge- nharia competitiva, que tem o obj etivo de propor mudanças em competições, promovendo experiências positivas, buscando estimular o atleta a f icar mais engaj ado com o esporte, facilitando a motivação in trínseca. Para isso, são empregadas algumas alterações pensando em alcan- çar algumas metas para estimular esse envo lvimento, sendo elas estrutura is, materiais, instalações espor- tivas e das regras dos j ogos, possib ilitando a maior participação, dado que o ambiente se ajusta ao níve l de desenvolvimento das crianças e adolescentes. Essa situa- ção é chamada de engajamento do atle- ta, dividida em quatro pontos apresenta- dos no Quadro 6. QUADRO 6. METAS DE ENGAJAMENTO DO ATLETA ~ Aumentar a ação e pontuação: é caracterizada pela procura do atleta em se manter ativo durante os jogos, aumentando a pontuação da equipe. Estratégias recomendadas são diminuir o tamanho do espaço ou alterar o tamanho/peso dos equipamentos. Criar alto envolvimento pessoal: diz respeito a estimular o engajamento e a autonomia nas atividades, usando como estratégias as contribuições dos atletas para fortalecer o grupo e alcançar o sucesso, além de promover as sensações de pertencimento e outras emoções positivas. Manter pontuações próximas: é sobre evitar as vantagens dos adversários nos resultados para que não estimule sensações negativas, como perda de motivação e do prazer. Nesses casos, recomenda-se que a organização do evento equalize os níveis dos participantes, além de criar regras para que os resultados não sejam tão discrepantes. Promover relações sociais positivas: é denominada a partir da elaboração das práticas que envolvam diferentes equipes e regras de socialização, com objetivo de fornecer um ambiente de suporte e social, promovendo emoções positivas e compartilhamento de experiências fora do ambiente de competição. PSICOLOGIA 00 ESPORTE • •• Questões psicossociais, socioculturais e a prática de atividade física em grupos populacionais A prática esportiva não faz parte apenas das vidas dos atletas de alto rend i- mento e competitivos, visto que o conceito de esporte vem sendo modificado nos últ imos anos, sendo reconhecido como um fenômeno social e contemporâ- neo. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), indivíduos que praticam e mantêm o hábito de realizar exercícios físicos promovem a sua saúde f ísica, por consequência, minimizando doenças durante todo o curso da vida. Essas promoções da saúde envo lvem os comportamentos individuais e famil iares, enquanto as ações de prevenção estão associadas a três níveis hierárquicos: • Primária: tem objetivo de evitar que a exposição a riscos provoque doen- ças ou traumas. • Secundária: diz respeito sobre a detecção, como também a intervenção precoce sobre as doenças, antes que elas se desenvolvam. • Terciária: tem como foco prevenir complicações que são avançadas e ou- tras lesões que permanecem devido à doença, além de promover reabilitação. Além da questão da promoção da saúde física, a prática regu lar da at ivida- de física, em geral, pode proporcionar vários benefícios à vida, tais como: DIAGRAMA 2. BENEFÍCIOS À VIDA DECORRENTES DA ATIVIDADE FÍSICA REGULAR ~ PSICOLOGIA 00 ESPORTE • Nesse sentido, entende-se que as atividades físicas podem promover quali- dade de vida, independente da pessoa que a pratica. Além disso, o suporte social durante a prática é considerado uma variável importante, pois exerce uma fonte de magnitude que influencia na permanência e satisfação com a atividade física, facilitando resultados positivos em relação a emoções, comportamentos e atitu- des dos indivíduos. O suporte pode exercer diferentes funções, como pode ser observado no Quadro 7. QUADRO 7. FUNÇÕES DO SUPORTE SOCIAL ::=:::::::=:::: Integração social ou companhia: as atividades físicas são realizadas em conjunto. Suporte emocional: todo apoio moral e psicológico que a lguém possa receber. Suporte informacional: serve como uma orientação. Suporte instrumental: caracterizado pelos recursos que estão disponíveis e são necessários para a prática. Com o avanço do esporte ao longo dos anos, o fenômeno, além de ser re- conhecido socialmente, transfo rmou -se em um fenômeno plural, polissêmico e de realidade polimorfa, ou seja, sendo interpretado como um modelo caracte- rizado pelas relações humanas, que está associada a um conjunto de fatores, sendo eles: vitória, derrota, esforço, desejo, interesses e deter- minação. Dentre as pessoas que realizam essas atividades: crianças, adolescentes, adultos, idosos e pessoas com defi- ciência, o objetivo da prática e o significado são individuais, podendo ser diferente em cada um desses grupos. •• A importância do esporte para a formação de crianças e adolescentes O esporte na vida de crianças e adolescentes, na maioria das vezes, encontra- -se no contexto escolar, sendo considerada uma atividade complexa, pois está relacionado a diversas limitações, uma delas a formação de educadores físicos. Contudo, é preciso pensar nessa área como um componente educativo que não PSICOLOGIA 00 ESPORTE • agrupa apenas a aprendizagem de técnicas e t át icas, além dos seus benefícios fí- sicos, mas que pode fornecer também cond ições para que os esportivos se com- prometam com suas capacidades, fazendo com que vivenciem uma experiência que permita configurar sua ident idade, ou seja, sua singularidade e atingir sua autoestrut uração. Nesse sentido, entende-se que, mesmo com limitações e difi- culdades que precisam ser trabalhadas e discutidas, o contexto escolar possibi- lita a prática esportiva auxil iando o desenvolvimento dos alunos em relação às suas habilidades e capacidades de ordem psicossocia l. Ao longo do seu crescimento e va lorização, o esporte vem sendo conside- rado uma parte positiva na vida das pessoas que o realizam. A partir disso, as crianças e adolescentes que praticam esporte de maneira regu lar, com o hábito de desenvolvimento, recebem estímulos para aprimorar suas habi lidades e qua- lidades mentais, sociais e sentimentais. No entanto, é importante destacar que esse desenvolvimento acontece dependendo da modalidade esportiva e da lo- calização, isto é, se o jovem realiza a atividade com outra pessoa, se compartilha experiências, se o treinamento acontece em um lugar de fácil acesso e popular. Para esse grupo, para que a prática da atividade f ísica seja iniciada e mantida, é preciso pensar em algumas questões. Por exemplo, para crianças a motivação para começar um esporte está relacionada a três fatores: DIAGRAMA 3. FATORES QUE INFLUENCIAM AS CRIANÇAS A COMEÇAREM UMA PRÁTICA ESPORTIVA :::=::::::::=:: PSICOLOGIA 00 ESPORTE • Enquanto as razões dos adolescentes estão apenas vo ltas para ser bom em alguma coisa e ter reconhecimento do grupo em que pertence, as razões vol- tadas para o pertencer e ser reconh ecido são semelhantes com as razões das crianças, sugerindo a relevância dos papéis e das relações sociais para o desen- volvimento emociona l ao longo da vida nos diferentes contextos que a pessoa está inserida, por exemplo, no próprio esporte ou escolar. Nessa direção, pode-se conclu ir que a participação em esportes, para as crianças e adolescentes, sejam eles individuais ou coletivos, proporciona a faci- litação para o desenvolvimento e aprimoramento das habi lidades sociais, possi- bilitando maior interação no âmbito social, consequentemente aumento na au- toestima, autocontrole, independência, autonomia e diminuição da frustração. Sobre o desenvolvimento dessas habilidades, conceituam-se as socioemocio- nais, definidas como habi lidades que os jovens podem aprender, prat icar e ensinar. Durante o processo da for- mação esportiva, os jovens aprendem a se inserir nos esportes, promover respeito,autocontrole, empatia, como também alcançar objetivos, manter as relações socia is positivas e tomar decisões coerentes. Enquanto as com- petências emociona is são a base para que esse desenvolvimento aconteça, visto que é a forma como o indivíduo se expressa e gerencia seus sentimentos, tais como, raiva, frustração, alegria, ansiedade e estresse. Dentre as diversas teorias que visam discutir e divulgar sobre o desenvolvi- mento das habilidades e competências socioemocionais do ser huma- no, está a teoria cujo foco é analisar a persona lidade humana atra- vés de cinco dimensões, sendo popularmente conhecida como Big Five: abertura a novas experiências, extrover- são, amabilidade, consciência e estabilidade emocio- nal (ou neuroticismo), tais dimensões são definidas no Quadro 8. PSICOLOGIA 00 ESPORTE • QUADRO 8. AS DIMENSÕES DO 8/G FIVE :::=::::::::=:: Dimensão Definição Abertura a novas experiências Caracterizado pela tendência do indivíduo para ser aberto a novas experiências, sejam elas culturais, intelectuais ou estéticas. Consciência Extroversão Amabilidade Estabilidade emocional Diz respeito à organização, esforço e responsabil idade. Aquele que é consciente apresenta características de eficiência, organização, autonomia, discipl ina, além de ser racional e focado em seus objetivos. Refere-se à orientação de interesses e energia sobre o mundo exterior, pessoas e outros objetos que não estão integrados no mundo subjetivo. Aquele que é extrovertido é caracterizado como alguém sociável, com facilidade em fazer amizades, aventureiro e entusiasmado. É sobre agir sem egoísmo, ou seja, de forma cooperativa e colaborativa, sendo amável. tolerante, altruísta, simpático e objetivo. É caracterizado pela previsibilidade e consistência das reações emocionais, ou seja, não há mudanças significativas do humor. Contudo, quando acontece o contrário, o indivíduo apresenta sentimentos como preocupação, impulsividade, falta de confiança e irritação. ASSISTA A formação esportiva é muito importante para os jovens brasileiros, visto que possibilita o desenvolvimento de habi- lidades, como também oferece oportunidades de acesso a treinamentos, local e ida em competições. No vídeo "Qual a importância da formação esportiva de jovens no Brasil?" é possível observar com mais clareza como o esporte pode influenciar na vida dos jovens. A prática esportiva e o envelhecimento saudável •• A iniciação esportiva pode ser compreendida como o primeiro contato que a pessoa tem com alguma atividade física ou uma prática esportiva organizada e orientada. Em teoria, a prática esportiva pode ser realizada em qualquer faixa etária da vida, contudo, geralmente, o processo da atividade é concentrado em crianças e adolescentes. PSICOLOGIA 00 ESPORTE • Essa situação foi sendo modificada gradualmente, visto que a partir da legisla- ção de 1988 a constituição passou a garantir o direito de todos para o acesso ao esporte, dessa forma tentando acabar com a limitação de que idosos não poderiam realizar uma atividade. Uma das perspectivas que contribui para essa limitação é compreender o esporte como sendo exclusivamente de alto rendimento, de que todas as pessoas que praticam alguma modalidade fazem de maneira semelhante a um atleta profissional, portanto, contribuindo para a carência de locais que ofere- cem a iniciação ta rdia no esporte. Em relação ao idoso, ao praticar o esporte o objetivo está associado ao espor- te de participação, ou seja, faz o exercício de forma voluntária, em um momento de lazer, buscando promover a saúde e a integração da sua vida social. De acordo com o Ministério do Esporte, a principal razão para os idosos realiza rem uma atividade f ísica é porque promovem qualidade de vida e bem-estar. Ad iciona l- mente, o exercício físico como prática regular e crônica tem potencial para de- senvolver as funções cogn itivas dos idosos, de maneira geral, a literatura aponta alguns mecanismos que podem ser responsáveis pela relação entre o exercício físico na cognição, como: • Estrutura cerebral: a estrutura cerebral, à medida que o indivíduo envelhece, sofre declínios (redução do volume e atrofia dos neurônios), alguns estudos ind icam que o exercício aeróbico possa ter relação com o enfraquecimento dessas perdas. • Função cerebral: o processo de envelhecimento está associado com os declí- nios da função cerebral, contudo, há evidências que o exercício aeróbico provoca efeitos positivos sobre essa função. • Perfusão cerebral: com o passar dos anos os idosos podem sofrer com a re- dução do fluxo sanguíneo em algumas regiões do cérebro, alguns estudos demons- traram que o idoso ativo apresentou manutenção e prevenção da perfusão cerebral quando comparados a idosos sedentários. • Aptidão cardiovascular: a prática regular do exercício físico apresenta efeitos positivos na aptidão, por consequência, exercendo uma influência benéfica na fun- ção cognitiva. A literatura ainda demonstra que o esporte, seja de modalidade coletiva ou in- dividual, mas que permite o contato com o outro por meio da rivalidade, é capaz de influenciar positivamente a função cognitiva, pois isso demanda que o indivíduo realize habilidades motoras e cognitivas na mesma atividade. PSICOLOGIA 00 ESPORTE • É importante destacar que a atividade física é um direito de todos, inclu- sive para os idosos que só recebem benef ícios por meio da prática, visto que há uma melhora na saúde física (por exemplo, controle da pressão arteria l), desenvolvimento da função cognitiva, aumento da ve locidade, coordenação motora e interação social, diminuindo a ansiedade e depressão. •• O desenvolvimento psicossocial do atleta com deficiência Defin ir o termo deficiência pode parecer complexo, uma vez que há uma sé- rie de fatores socia is, econômicos e cultura is que impactam e influenciam direta- mente. A Organização Mundial de Saúde, especificamente, faz a distinção entre três conceitos: • Impedimento: caracterizado por alguma perda ou anormalidade das fun- ções da estrutu ra anatômica, fisiológica ou psicológica; • Deficiência: diz respeito ao próprio conceito, quando apresenta alguma restrição ou perda, causando limitações para desenvolver habilidades conside- radas normais para o ser humano; • Incapacidade: refere-se a uma desvantagem individual, causado pelo im- pedimento ou pela deficiência, que restringe o desempenho ou o cumprimento. Em geral, as definições sobre a deficiência são diferenciadas em dois t ipos: primária e secundária. A primária diz respeito aos conceitos de deficiência e da incapacidade, defin ida por aspectos biológicos, enquanto a secundária é ca- racterizada pelo impedimento associada aos aspectos ambientais. O esporte pode configurar-se como uma estratégia, desempenhando um papel impor- tante no desenvolvimento dessas pessoas, em vários aspectos, tais como f ísi- cos, culturais, sociais e emocionais. O esporte pode ser definido como um dos principa is fenômenos sociais que possibi lita a construção de valores morais e éticos, como também o desenvolvimento integral da pessoa em sua esfera biopsicossocia l. Para pessoas com deficiência o esporte está relacionado dire- tamente com a sociab ilização, pois facilita a comunicação, autoimagem, rea lização pessoa l, independência e o au- toconhecimento, além disso, auxilia na diminuição das limitações e valoriza as capacidades. PSICOLOGIA 00 ESPORTE • A trajetória em direção a uma sociedade mais inclusiva para pessoas com deficiência deve ser pautada, principalmente, em uma compreensão cultural e de vivência, através de políticas públicas efetivas, com objetivo de realizar intervenções sobre as diferenças favorecendo o desenvolvimento psicossocial de cada praticante. No Quadro 9 é possível observar algumas medidas ou es- tratégias para pensar em aplicar nesse contexto. QUADRO 9. RECOMENDAÇÕESPARA PROFISSIONAIS DO ESPORTE ::=::::::::=::: Buscar reconhecer, aceitar e valorizar as diferenças nas culturas esportivas, pensando não apenas em um público de pessoas com deficiência, mas em todos os participantes, visto que cada esportista desenvolve sua capacidade e habilidade de maneira individual, podendo estar em níveis diferentes. A partir disso, são impulsionados, naturalmente, novos esportes e atos esportivos associados com a compreensão. Nessa direção, as práticas esportivas criam um movimento de interação entre os participantes. Educar criticamente a sociedade sobre o valor da diferença e do pluralismo, promovendo a participação positiva de qualquer pessoa neste campo, chamando a atenção ainda para que todos percebam a falta de acesso à oportunidade para algumas pessoas por seu gênero, classe, raça, sexualidade e religião. Promover uma compreensão fortalecedora no que diz respeito às diferenças focadas nas deficiências. exigindo maior participação, visibilidade e representatividade, em vez de dar a função de meros receptores de serviços. CONTEXTUALIZANDO A ampliação dos esportes para pessoas com deficiência acontece a cada olimpíada, fornecendo visibilidade e representatividade para aqueles que não realizam algum esporte por achar que tem alguma limitação. Na olim- píada de 2016, no Rio, as paraolimpíadas conseguiram um maior número de medalhas do que nos jogos olímpicos, e espera-se que nas próximas edições esse número seja ainda superior. PSICOLOGIA 00 ESPORTE • Sintetizando • As pessoas vivem em um mundo em que depender do outro pode parecer, em alguns momentos, um defeito, em outros uma qualidade necessária, mas é importante ressaltar que o ser humano é um ser que precisa das relações sociais para diversos fatores. No esporte, essa dependência não é diferente, se é que pode ser chamado de dependência, visto que a participação em uma equipe ou a interação com o outro permite o desenvolvimento de habilidades que fazem do atleta alguém melhor. No esporte existem as modalidades co letivas e individuais, contudo, mes- mo o atleta que pratica seu esporte sozinho pode vivenciar experiências com os outros por meio dos seus treinamentos, com seu treinador e seu adversá- r io, o que permite o desenvolvimento da comunicação, a troca de experiência, amadurecimento e sentimentos de autonomia. Essa relação de grupo com as habil idades tem um ciclo sem f im que causa resu ltados positivos de quem participa, ou seja, dado que o atleta sente-se integrante de um grupo, de uma equipe, desenvolve emoções positivas e habi- lidades. Ao desenvolvê-las, o atleta sente que o grupo é importante para a sua prática esportiva, para o permanecer e ficar satisfeito com o esporte, fazendo com que os atletas estabeleçam um vínculo e queiram manter o grupo unido em busca de alcançar metas e objetivos. o esporte, em geral, proporciona diferentes satisfações e prazeres, além de promover saúde física, autocontro le e outras habilidades socioemocionais. Por isso, a cada ano que passa, o esporte deixa de ser compreendido apenas como aquele de competições, que exige recompensas financeiras e patrocínios, para abranger pessoas que buscam a qualidade de vida. O esporte é direito de to- dos, sendo uma ferramenta importante para qualquer pessoa que a pratique (jovens, adultos, idosos), visto que pode proporcionar uma formação, vida sau- dável e inclusão. PSICOLOGIA 00 ESPORTE • Referências bibliográficas • CHELLADURAI, P.; RIEMER, Harold A. A classification of facets of ath lete satis- faction. Journal of sport management, n. 2, 1997, v. 11. EVANGELISTA, S. T. S. Satisfação e coesão: um estudo correlaciona! com atletas do esporte coletivo. 2017. (Dissertação de Mestrado). Universidade Federa l de Uberlândia, Uberlândia, 2017. MCEWAN, D.; BEAUCHAMP, M. R. Teamwork in youth sport. ln: BRUN ER, M. W.; EYS, M. A.; MARTIN, L.J. (Eds.). The power of groups in youth sport. Academic Press. 2020. QUAL A importância da formação esportiva de jovens no Brasil? Postado pelo Cana l Futura. (57mi.57s.). son. col. port. Disponível em: <https://www.you- tube.com/watch?v=Rtp2A-Zge7U>. Acesso em: 19 ago. 2021 . PSICOLOGIA 00 ESPORTE • UNIDADE ~ ~ ser educacional Objetivos da unidade Apresentar as questões relacionadas à importância de intervenções no esporte; Abordar as intervenções cognitivas e psicológicas em esportes e e-sports competitivos; Descrever as influências do esporte nas lesões e apresentar possíveis processos de reabilitação; Expor a importância do esporte para diferentes setores e seu auxílio na transição da carreira esportiva. Tópicos de estudo Técnicas para intervenção no âmbito do esporte Intervenções cognitivas e psicológicas em esportes e e-sports competitivos Intervenção psicológica nas lesões esportivas A Psicologia do Esporte e a intersetorial idade Políticas públicas no esporte educacional Transição de carreira no esporte PSICOLOGIA 00 ESPORTE • •• Técnicas para intervenção no âmbito do esporte Cada vez mais o esporte tem ganhado espaço e visibilidade, uma vez que proporciona desenvolvimento físico, social e emocional, principalmente por va- lorizar os esforços de atletas de alto rend imento que promovem conquistas, medalhas e investimentos. Devido à pressão causada para atingir esses objeti- vos e ganhar competições, esses atletas frequentemente enfrentam estresse e ansiedade quando envolvidos com sua modalidade esportiva. A partir disso, busca-se compreender melhor os fenômenos psicossocia is acerca das cont ingências comportamentais e metacontingências, identificando o pré e o pós-comportamento com o objetivo de analisar as relações f uncionais e seu contexto. Contudo, há poucos profissionais e pesquisas re lacionadas a esse campo; diante disso, competições com grande reconhecimento ao redor do mundo, como a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, tornaram-se essen- ciais para chamar a atenção para as questões relativas a estresse, ansiedade, concentração, planejamento de estratégia, leitura de jogo, coesão de grupo, entre outros aspectos que fazem parte da prática esportiva competitiva. É importante afirmar que a ansiedade não está associada apenas a des- vantagens: quando em níveis considerados adequados, ela pode auxiliar no desempenho, visto que é capaz de aumentar a concentração. Isto permite que o atleta vo lte seu foco para funções específicas do esporte, consequentemente minimizando distrações e outros efeitos negativos. No entanto, ela precisa ser traba lhada conforme as funções que a prática exige, pois cada uma das tarefas requer um nível de ansiedade para que seu funcionamento seja positivo e pro- picie um rendimento adequado. o \ CURIOSIDADE Uma das possibilidades de avaliação da ansiedade foi adaptada por Karen Cristine Teixeira, Joana Bender Remus e Carlos Henrique Sancineto da Silva Nunes e é denominada de Escala Tridimensional de Ansiedade para o Esporte. Esta ferramenta permite identificar o quanto a ansiedade in- fluencia positiva ou negativamente o desempenho nas competições. o estresse pode ser definido como qualquer situação que crie uma ten- são aguda ou crônica, a qual produz uma mudança nos estados f ísico e emo- PSICOLOGIA 00 ESPORTE • ciona l. Essas reações são geradas por meio de um ambiente interpretado como exigent e e que solicita recursos de enfrentamento, o que pode amea- çar o bem-estar do indivíduo. No ambiente esportivo, o estresse é influen- ciado por diversos fatores que geram fadiga, dores, frustrações, ans iedade, depressão e alterações do estado de aler ta. Diante disso, o psicólogo possu i um papel importante, vis- to que sua função envo lve t raba lhar os aspectos citados (e que prejudicam o rendimento e o desenvolvimento esportivo) a partir de intervenções que trabalham o emociona l, o cognitivo e outras áreas da vida do atleta. Com isso, o profissional concebe planejamentos e estratégias que visam aprimorar elementos como equil íbrio emocional, concentração, desempenho sob pressão, motivação, habi- lidades táticas, autoconfiança, entre outros. •• Intervenções cognitivas e psicológicas em esportes e e-sports competitivos Os processos cognitivos assoc iados à prát ica esportiva estão relacio- nados a uma reestruturação cognitiva como forma de estimular o desen- vo lv imento desta área. A reest ruturação cogn it iva, por sua vez, refere -se à terapia cognitiva, cujo foco é trabalhar os pensamentos d istorcidos, re- formulando-os para que sejam mais adaptativos e perm it indo que o lado emocional forneça respostas mais f uncionais. Nessa perspectiva, as intervenções buscam a aceitação e o compromisso estimulando a consciência e, a partir dessa possibilidade, o atlet a se torna capaz de real izar esco lhas baseando-se em valores e v isando evitar a repe- tição de erros. Em outras pa lavras, quando se trabalha esses dois fato res, pensamentos negativos podem ser modificados a partir de reforços positivos que m inimizam os sintomas de ansiedade e estresse que podem prejudicar o rendimento do atleta. Isso permite que o indivíduo desenvolva habilidades cognitivas para lidar com diversas sit uações. Essas intervenções são utilizadas em diferentes luga- res no mundo, inclusive no Brasil e, além desse processo, o mindfulness tam- PSICOLOGIA 00 ESPORTE • bém é uma forma de intervenção cognitiva, visto que permite que os atletas desenvolvam sua consciência e tenham uma mente aberta sobre o esporte. A intervenção psicológica pode ser realizada de diferentes maneiras, sendo a mais comum a avaliação psicológica, que pode ser compreendida como uma área específica da Psicologia. Este campo tem como intuito ope- racionalizar as teorias psicológicas em situações observáveis, possibilitando que o profissional alinhe a teoria com a prática. No âmbito esportivo, essa intervenção é conhecida como psicodiagnóstico esportivo e seu foco é conhe- cer e compreender fenômenos e outros aspectos do atleta ou da interação com sua modalidade. ASSISTA Como a pressão é frequente em esportes de alto rendimento, intervenções são utilizadas com o intuito de auxiliar no desenvolvimento saudável do atleta. No vídeo disponibilizado é possível observar a importân- cia dos psicólogos neste processo, os quais sempre buscam aplicar estratégias que aprimorem o desem- penho dos atletas. O psicólogo tem como responsabilidade a utilização de referências teó- ricas para selecionar os métodos adequados para determinado contexto e avaliação, sempre considerando todos os fatores do ambiente (indivíduo, modalidade, relações). Portanto, seu objetivo é coletar o maior número de dados comportamentais para favorecer o desempenho esportivo. Em caso de modalidades individuais, o profissional pode empregar uma série de téc- nicas, como entrevistas, observação e testes psicológicos. Já em modalidades coletivas, o profissional pode lançar mão de inventários adicionais, como, por exemplo, instrumentos sociométricos, além da observação dos comportamentos de grupo em treinos ou jogos com o objetivo de analisar habilidades de colaboração, liderança e conexão interpessoal. A avaliação no contexto esportivo é baseada em determinados proce- dimentos, os quais são agrupados em cinco ca- tegorias (Quadro 1). PSICOLOGIA 00 ESPORTE • QUADRO 1. PROCEDIMENTOS DE AVALIAÇÃO NA ÁREA DA PSICOLOGIA DO ESPORTE ~ Procedimento Processo Observação Entrevista Experimento em laboratório Experimento pedagógico Teste Tem como intuito avaliar os dados relacionados à personalidade por meio de uma explicação subjetiva do atleta. Pode ser realiza- do em treinos e jogos. Permite compreender as questões psicológicas e de personali- dade que podem surgir durante as práticas esportivas. A entre- vista possibilita que o profissional identifique as influências da personalidade no comportamento do atleta, além de observar a influência do ambiente sobre este comportamento. Neste procedimento os dados são estudados de maneira separa- da, ou seja, de acordo com o método de análise escolhido. A partir desse método, os profissionais conseguem perceber com clareza as influências causadas pelos treinamentos e suas conse- quências sobre o comportamento do atleta. O teste permite levantar informações específicas de caracte- rísticas que são solicitadas na modalidade praticada, o que possibilita a compreensão dos níveis de desenvolvimento das habilidades. Isso, consequentemente, pode auxiliar na obtenção de resultados futuros positivos. Fonte: VIEIRA: VISSOCI; OLIVEIRA. 2010. (Adaptado). Atua lmente, os jogos eletrônicos estão cada vez mais presentes na vida da maior parte da população mundia l. Com esse crescimento, surgem também os campeonatos do que f icou conhecido como e-sports (esporte eletrônico}, os quais ocorrem em ambientes virtuais. Dessa forma, esse campo angariou diver- sos investimentos, gerando lucros para múltiplas áreas. A partir disso, os atletas começaram a passar por pressões análogas às dos atletas de modalidades pre- senciais, deparando-se com treinamentos intensos, exigências e autocobrança que estimulam sentimentos de depressão, estresse e frustração. Com isso em mente, torna-se necessário refletir sobre a possi- bi lidade da atuação de um psicólogo dentro desse ambiente com o objet ivo de manter a saúde e o bem-estar dos j ogadores e, consequentemente, da equ ipe. Assim sendo, a presença de um profissiona l nesse cenário conduz para alguns questio- namentos fundamenta is na busca por qualidade de vida para os atletas (Quadro 2). PSICOLOGIA 00 ESPORTE • QUADRO 2. ASPECTOS RELACIONADOS A UM BOM DESEMPENHO DE ATLETAS ~ Suporte emocional: é essencial em momentos de grande pressão, como em finais de campeonato, por exemplo. Comunicação: diz respeito à integração dos participantes da equipe e à resolução dos conflitos entre os membros. Conflitos intrapessoais: têm relação com a escuta de problemas relativos à vida particular do atleta. Lidar com fracassos: relaciona-se a aprender a lutar contra a evitação do rebaixamento ou minimizar a pressão causada pela torcida do clube. É possíve l encontrar diversas semelhanças ao comparar os esportes t ra - dicionais com os e-sports, o que facilita a coleta de informações no campo da Psicologia do Esporte. No entanto, devido ao desenvolvimento científico e tecnológico contínuo nos e-sports, especialmente com o advento dos v ideo- games e computadores, surge um novo componente: os jogos virtuais, que permitem a prática competitiva. A partir da literatura, fo i possível observar que as alterações psicológi- cas causadas pelos esportes tradicionais são modificadas de acordo com os avanços tecnológicos mencionados anteriormente. Segundo Pereira (2014), muitos jogadores de videogame o fazem por diversão, mas a maioria dos jo- gadores profissionais treina por mais de 8 horas por dia, sendo que alguns chegam a 12 horas em 5 a 7 dias por semana. Quando um atleta virtual percebe que está perdendo para outra equipe ou quando se depara com ansiedade, medo ou fracasso, isto pode reduzir signi- ficativamente seu desempenho normal. Ademais, a dinâmica descontínua do ambiente esportivo pode distra ir os atletas, levando a um mau desempenho e à incapacidade de focar nos estímulos mais adequados. Nos momentos de estresse, o uso da conversa interna é uma alternativa para identificar outros estímulos discriminatórios necessários e fundamentalmente importantes para o pleno desenvolvimento das habilidades atléticas, como a precaução para vencer rodadas, por exemplo. A função de voz automatizada é uma regra pré-estabe lecida para focar nas principais prioridades do momento competitivo v igente. A ideia de re - pertório individual, neste caso com a fala interior como técnica utilizada para refinaro repertório esportivo, pode auxilia r o atleta a compreender regras PSICOLOGIA 00 ESPORTE • que podem ser empregadas para o autofortalecimento. Já como ouvintes, eles são capazes de gerar maior sensibilidade a estímulos discriminatórios valiosos e importantes no momento do problema. As possíveis intervenções em grupos de atletas foram inspiradas nas ideias de Pichon-Riviere (2005), que discorre sobre comportamentos que modificam o mundo ao mesmo tempo em que transformam e estabelecem uma relação dialética entre o indivíduo e o meio no qual ele está inserido. Ademais, na ges- tão de grupos, é necessária a presença de uma equipe de coordenação res- ponsável pela interação durante a tarefa ou pré-tarefa (objetivo da tarefa) e a posterior avaliação do processo. Este grupo possui observadores que tomam notas sobre as falas dos par- ticipantes e, após discutir os movimentos do grupo em questão, constroem uma espécie de linha do tempo em que os vetores estão claramente dispos- tos. Esses vetores existem em todos os processos grupais e devem ser obser- vados na comunicação entre os membros, na TV (ambiente de visão dominan- te), no sistema grupal e na aprendizagem. É possível pensar formas de melhorar a prática da terapia de grupo em um esporte que foca em uma tarefa específica e na coordenação dos membros da equipe para um campeonato específico; assim, a sessão e sua cronologia são executadas. Isso posto, Fernandes, Svartman e Fernandes (2003) classificam alguns grupos de maneira didática (Quadro 3): QUADRO 3. CLASSIFICAÇÃO DO TRABALHO GRUPAL E INTERVENÇÕES POSSÍVEIS Classificação do trabalho grupal Grupos temáticos Grupos de orientações Grupos comunitários :=::::::::::=:: Intervenções possíveis Grupo de terapia psicanalítica: possui foco em compreender temas específicos acerca do esporte. Grupo diagnóstico: seu objetivo é analisar erros e buscar estratégias para desenvolver o rendimento. Grupo de acolhimento: possibilita que os indivíduos tenham as mesmas possibilidades e acesso no esporte. Fonte: FERNANDES; SVARTMAN; FERNANDES, 2003. (Adaptado). PSICOLOGIA 00 ESPORTE • •• Intervenção psicológica nas lesões esportivas A Psicologia do Esporte atua em diversos âmbitos e um dos mais importan- tes diz respeito ao processo de prevenção e reabilitação de doenças. Essa área foi desenvolvida devido à alta demanda de treinamento e desempenho por parte dos atletas, o que pode deteriorar sua saúde. Assim, a Psicologia do Es- porte desempenha um papel essencial para a recuperação destes indivíduos, especialmente psico logicamente. Um passo importante é compreender a ocorrência do evento, o mecanismo da lesão, os tipos de intervenção e o tratamento a ser realizado. Além disso, é preciso analisar as responsabilidades, os medos e as ansiedades dos praticantes, assim como o trauma, o tratamento e a reabilitação. Realizar um diagnóstico com as informações coletadas e registradas no dia a dia para determinar a me- lhor forma de trabalhar com esse atleta é responsabi lidade de toda a equipe. Nesse processo, é importante que os treinadores tenham o máximo de in- formações possíveis para avaliar a adaptação psico lógica dos atletas após uma lesão (Quadro 4). QUADRO 4. AVALIAÇÃO EM ATLETAS LESIONADOS ~ Primeira parte: observação dos fatores pessoais e contextuais associados à dificuldade de adap- tação ao trauma, como possíveis motivos do não envolvimento na função de reabilitação, por exemplo. Há diminuição da força mental após o retorno à atividade física; recorrência de reabilita- ção; incapacidade de melhorar a aptidão física; tristeza e indiferença; ansiedade frequente; medo excessivo; e indiferença às lesões e à dor. Segunda parte: aqui, os treinadores devem prestar atenção às informações desprezadas no iní- cio do processo e que podem interferir na recuperação, como as questões pessoais, por exem- plo. Há dor de cabeça; sono; estômago embrulhado; metas de desempenho; preocupação com a perda de tempo; e respostas de técnicos e colegas. Durante a prática de esporte, os atletas convivem com fatores cognitivos e fisiológicos, além de experimentarem diferentes reações quando vivencian- do situações estressantes. Essas reações podem ter efeitos positivos diante de emoções difíceis, como ansiedade e irritabilidade. Essas sensações podem ampliar o fo co de atenção e causar alterações fisiológicas como aumento do estresse e da ativação do sistema nervoso simpático. PSICOLOGIA 00 ESPORTE • Com todas as mudanças geradas, os atletas geralmente são mais suscetí- veis à tensão muscular, perda de visão e distrações. Esses eventos podem ser preditores de lesões e aumentar o risco de entorses, f raturas e distensões de- vido à redução da flexibilidade, da coordenação e da eficiência muscular, bem como do desempenho atlético devido à fa lta de concentração. Além disso, outros fatores, como histórico de lesão induzida por treinamen- to, traços de personalidade e mudanças nos níveis de estresse, podem con- tribuir para um aumento do risco de lesão. Isso posto, quando há uma lesão, a Psicologia do Esporte busca estudar e compreender a reação do atleta em recuperação para que medidas eficazes possam ser tomadas. Após uma lesão, os atletas tendem a entrar em uma fase que envolve a ne- gação da ocorrência do evento. Assim, compreender a gravidade do problema permite entrar na fase de negociação consigo mesmo, o que acelera o processo de recuperação (WEINBERG; GOULD, 2016). Esportes de alto rendimento geralmente envolvem a realização de movimen- tos rápidos e repetitivos, e a criação de eventos de alto impacto expõe os atletas a condições propícias a lesões, como hematomas, fraturas, distensões e luxa- ções. Nesse contexto, a lesão é uma causa frequente de afastamento temporário ou permanente de atletas das mais variadas disciplinas e níveis de habilidade. Há muito tempo as lesões são tratadas apenas do ponto de vista biomédico; todavia, com as mudanças recentes no âmbito do esporte, o trauma se tornou um foco de estudo em outras áreas do conhecimento. Essa mudança se deve principalmente às características políticas e econômicas do esporte, que pos- sui ênfase no alto desempenho atlético. Há fatores psicológicos intimamente relacionados à pred isposição a le- sões, ao tempo necessário para recuperação e retomada do esporte e ao grau de reabilitação bem-sucedida. A habilidade do atleta em evitar lesões e gerenciá-las de maneira adequada é fundamental para sua longevidade e para o desenvolvimento de seu desempenho atlético. Além disso, o apoio social, o controle real sobre o desenvolvimento e a recuperação de lesões e experiências de vida não esportivas significativas são fatores que podem influenciar o risco de desenvolvimento e reabilitação de lesões. Em outras palavras, a taxa de lesões por esforço repetitivo é um fator que sugere a necessidade de intervenção psicológica em atletas. Da mesma forma, PSICOLOGIA 00 ESPORTE • praticantes e não praticantes de atividade física enfatizam que os fatores psico- lógicos e a intervenção de um profissiona l são excelentes facili tadores das capa- cidades de reabilitação. Em resumo, monitorar atletas lesionados é uma ativida- de de psicólogos do esporte que visa reduzir o estresse emocional, aperfeiçoar a cognição relacionada ao gerenciamento de problemas e estabelecer ou reforçar hábitos, incluindo intervenções direcionadas (WEINBERG; GOLD, 2016). Entre os fatores psicológicos que interferem na reabi litação, estão presen- tes t raços de personalidade do atleta, nível de motivação para manter a par- ticipação no esporte, presença de depressão e ansiedade anteriores, gênero, nível de estresse atua l e humor, entre outros. Os atletas podem desenvolver a percepção de que seu va lor social está diretamente re lacionado ao seu desem- penho atlético e espera-se que esses sejam mais afetados psico logicamentedo que aqueles sem essa percepção. Esses atletas, por outro lado, são mais propensos a adotar uma estratégia de reabilitação mais competente do que outros que não parecem compreen - der que os esportes de performance, por si só, podem causar lesões. Ademais, o aumento de eventos de vida negativos que causam frustração, tristeza e de- cepção parece estar associado à ocorrência mais frequente de traumas. A maneira e a qualidade do confronto de um atleta durante os treinamentos e competições depende de características individuais, da gravidade da lesão, da importância da competição futura e da importância da posição do j ogador. Isso posto, os atletas devem conviver com os sintomas das lesões diariamente durante a fase de tratamento. o processo de reabi litação pode ser demorado e a discip lina aplicada às operações clín icas, cirúrgicas, fisio- terapêuticas e psicoterapêuticas re - tardará a recuperação das cond ições técnicas e físicas. Essa sequência de situações pode desencorajar os atle- tas a manterem os procedimentos de tratamento ou o desempenho atléti- co, principalmente se ocorrerem por um período re lativamente longo. PSICOLOGIA 00 ESPORTE • Em resumo, eventos estressares podem levar à diminuição da autoconfian- ça e causar efeitos psico lógicos significativos no desempenho atlético. Movi- mentos associados ao desenvolvimento de traumas ou que induzem a uma sensação de autocontrole derivada de estruturas recém-criadas podem estar relacionados ao medo de uma nova lesão e à necessidade de reap licar o t ra- tamento e as restrições de reabilitação. A gravidade da lesão parece ter uma forte influência nas respostas emocionais e cogn it ivas do atleta lesionado. O trauma mais grave costuma ser acompanhado por emoções mais inten- sas e consequências comportamentais mais óbvias. Por outro lado, à medida que a recuperação avança, ela geralmente tende a melhorar as respostas emo- ciona is e está ligada a emoções como esperança e otimismo. Manter a motivação do atleta em um nível ideal de participação é uma meta constante e uma reabilitação bem-sucedida deverá contar com a participação de especial istas e diversas tarefas realizadas durante o atendimento médico. Isso posto, ressalta-se que a avaliação psicológica das intervenções de reabili- tação deve ser baseada em uma série de fat ores: • Estado mental do atleta antes da lesão; • Tipo e gravidade da lesão; • Prognóstico da possibi lidade de recuperação; • Consequências de possíveis lesões na vida do atleta; • Compreensão do conhecimento apresentado sobre lesões e reabi lita- ção pelos atletas; • Reações emociona is expressas pela experiência traumática; • Determinação de como os atletas organ izam suas ações em resposta ao processo de reabilitação. Há algumas evidências de que o estresse agudo está associado a um aumento da probabil idade de lesão e vem daí a importância de determinar o estado mental do atleta (WEINBERG; GOULD, 2016). Há duas hipóteses alternativas e não mu- tuamente exc lus ivas para este fenômeno: os atletas podem ser feridos por uma combina- ção de (a) demandas f ísicas do treinamento e (b) ans iedade/sofrimento de contrações mus- culares involuntárias. PSICOLOGIA 00 ESPORTE • Adicionalmente, ou alternativamente, a necessidade de pres- tar atenção à experiência estressante acaba competindo com a atenção às atividades esport ivas, reduzindo a precisão dos mo- vimentos do at leta e aumentando o risco muscular. O tipo de lesão, sua gravidade, o prognóstico de recuperação e as possíveis consequências da lesão são parâmetros objetivos para determinar possíveis distorções cogniti - vas. Ou seja: um erro na compreensão do processo e das consequências do t rauma e da reabi litação pode levar ao enfoque nas respostas emociona is e fatores disfuncionais. o princípio básico é que, se contando com informações confiáveis, os atle- tas têm menos probabilidade de exibir tendências cognitivas e delírios prejudi - ciais ao processo e mais chances de se comporta rem de acordo com as carac- terísticas da lesão. A percepção de que seu comportamento pode influenciar a recuperação por meio da participação consciente cria expectativas positivas e realistas, o que a torna benéfica para o tratamento. As estratégias de enf rentamento psicológico podem ser guias de interven- ção importantes, uma vez que parecem estar associadas a períodos mais cu r- tos de trat amento e reabilitação. Atletas fer idos que estabeleceram met as de trat amento de curto prazo demonstram uma autotransformação mais positiva. Weinberg e Gould (2016) propõem um conjunto de princípios que enfoca os fatores psicológicos envolvidos no processo de reabil itação. Assim, segundo os autores, a intervenção psicológica deve ter como foco: • A busca por intimidade e o desenvolvimento de empat ia pelos atletas lesionados; • Apreensão de mais informações sobre acidentes e reab ilitação; • Compreensão de habil idades específicas de controle psicológico do atleta; • Aquisição de habilidades para lidar com cont ratempos; • Incentivo do apoio social; • Troca de experiência com outros atlet as que tenham passado por uma exper iência semelhante. Outra estratégia foi reduzi r o custo e o tempo de tratamento em quatro etapas, as quais são divididas em três categor ias (Quadro 5). PSICOLOGIA 00 ESPORTE • QUADRO 5. ETAPAS PARA O PROCESSO DE REABILITAÇÃO Etapa Técnicas de relaxamento Visualização Reconstrução cognitiva Diálogo interno ~ Definição Utilizadas principalmente para reduzir a tensão muscular e as res- postas emocionais inadequadas. Entre as técnicas de relaxamento, cita-se a meditação, o treinamento autógeno, a hipnose, a ioga, entre outros. Também podem ser empregadas para relaxar gradu- almente e respirar fundo. Essas técnicas estão ligadas à habilidade de o atleta realizar movimentos e ações de visualização mental. Atletas lesionados utilizam técnicas de visualização mental para testar e praticar exercícios de reabilitação, manter uma postura positiva e aumentar seu nível de motivação, relaxamento e auto- confiança. Ademais, durante o retorno à atividade esportiva, o trei- namento visual é empregado para promover a reforma das habili- dades motoras, controlar a ansiedade, reduzir o nível de frustração associado ao desempenho e aumentar a autoconfiança. É utilizada para organizar o processo de raciocínio do atleta ao ava- liar a experiência traumática e reabilitá-lo de forma prática e fun- cional, gerando padrões de resposta emocional espontaneamente e de maneira mais eficaz. Técnicas de reconstrução cognitiva in- cluem treinamento de estresse, definição de metas de curto, médio e longo prazo e técnicas de definição de metas. Refere-se a focar a atenção em fatores relacionados ao desempe- nho do atleta a fim de obter maior controle sobre o próprio desen- volvimento do desempenho esportivo e definir parâmetros de autorreforço. O desenvolvimento de métodos funcionais de conver- sa interna também se aplica a atletas lesionados e objetiva melho- rar sua participação no processo de reabilitação. Fonte: WEINBERG; GOULD, 2016. (Adaptado). Além das etapas descrit as, o processo de reabi litação ainda possui dois ou- tros estágios (Quadro 6). QUADRO 6. ESTÁGIOS NO PROCESSO DE REABILITAÇÃO Autoaperfeiçoamento: administrado na forma de recompensas quando o atleta atinge as metas estabelecidas durante a reabilitação. Apresentação de instruções de uso: inclui o máximo fornecimento possível de informações factuais sobre a lesão, o processo de reabilitação e o potencial impacto dessas experiências na carreira esportiva. PSICOLOGIA 00 ESPORTE • •• A Psicologia do Esporte e a intersetorialidade O debate sobre a intersetoria lidade cresceu no final dos anos 1970 quando as sociedades capitalistas enfrentaram uma nova crise do neoliberalismo. Nes- te, a indústria focava na reduçãode custos operacionais e possuía diferentes formas de lidar com questões complexas. Nesse sentido, argumenta-se que a intersetorial idade é vista apenas como uma forma de otimizar recu rsos, ao passo que a descentra lização é frequentemente utilizada para neutralizar re- gulamentações nacionais redundantes, não a democratização. Isso posto, a descentralização possibi lita a interdiscip linaridade em prol da promoção da inclusão social. Em relação ao conceito de intersecção, esta diz respeito à integração das diferentes disciplinas e da sociedade civil para resol - ver os problemas sociais. Essa integração pode ser alcançada por meio de comunicação, interação e compartilhamento de conhecimento sobre objetivos comuns. Ressalta-se que o potencial para o comportamento interdisciplinar está na eficácia do compor- tamento coordenado e nas sinergias entre os diferentes setores. De uma perspectiva interna e externa, ao vincular a intersetoria lidade ao conceito de redes, esse modelo surge como uma nova forma de gestão, não fragmentação: integração, esclarecimento de conhecimento e serviço e/ou parcerias, propondo, dessa forma, a concepção de uma rede de necessária ao indivíduo que pratica atividades físicas. A intersetoria lidade é um modelo de gestão de políticas públicas que tem como objetivo compartilhar responsabilidades, objetivos e recursos de forma a respeita r a autonomia de cada setor e a interdependência mútua. Na imple- mentação de políticas públicas, a intersecção é um processo político e, portanto, é necessário considera r as contradições, limitações e obstácu los no esclarecimento do campo, além de analisar o comportamen- to entre as partes, considerando a possibilidade de conflitos e obstácu los em seu relacionamento. Os riscos identificados neste tipo de gestão incluem problemas relacionados a atrasos, altos custos de transação, complexidade de processos e res- ponsabilidade pelas ações. PSICOLOGIA 00 ESPORTE • A divisão de especialidades tornou -se uma característica fundamental do processo de busca de conhecimento e, por isso, alguns pesquisadores têm enfatizado a importância da pesquisa interdiscipl inar para a análise integral dos problemas e o desenvolvimento de estratégias de gest ão intersetor iais, visando promover de forma mais eficaz as melhores práticas. Assim, o plano de ação conjunto proporciona o conhecimento para a resolução dos prob lemas identificados e condições para seu esclarecimento, bem como a integração das atividades práticas dos departamentos. Uma ferramenta importante para a implementação da gestão transversa l é a facilitação dos mecanismos que suportam os fluxos de diálogo e comu- nicação, aspectos que nos permitem comparar as diferenças entre os atores envolvidos a partir de três abordagens observadas no Quadro 7. QUADRO 7. ABORDAGENS DA INTERSETORIALIDADE Abordagem lntersetorialidade como complementaridade de setores lntersetorialidade como prática lntersetorialidade como princípio de gestão de redes ~ Definição Define a possibilidade de novas formas de atender às necessi- dades dos indivíduos a partir da complementaridade da indús- tria para fazer negócios. A ideia é que o conhecimento e as ações de cada política sejam acessíveis de acordo com os problemas da população. Além disso, a interseção não nega a divisão existente, mas reco- nhece seu domínio para quaisquer conexões. Segundo essa abordagem, a intersetorialidade é uma nova modalidade de atuação que mobiliza sujeitos, campos e saberes para servir de esclarecimento integrado de políticas públicas. Aqui, as práticas são baseadas em questões específicas e inte- gram novos espaços construídos por contribuições da indús- tria. Portanto, a intersetorialidade pode ser vista como uma estrutura helicoidal, satisfazendo o acúmulo e a variabilidade da disciplina e permitindo o aprendizado contínuo. Esta abordagem permite que as atividades interdisciplinares possibilitem abordagens e preocupações comuns em relação às questões populacionais, permitindo que cada setor contri- bua claramente para sua própria perspectiva industrial. Considera a intersetorialidade como diretriz para a construção de redes entrelaçadas. O termo urede" evidencia a articulação, a ligação e a associação dos comportamentos complementa- res, as relações horizontais entre os sócios, os segmentos vul- neráveis da empresa e a gestão holística dos riscos sociais. Propõe a interdependência dos serviços a serem prestados, afirmando que diversos sujeitos podem ser mobilizados para participar dos processos de gestão das políticas sociais e gerar comportamentos e conhecimentos interseccionais. PSICOLOGIA 00 ESPORTE • •• Políticas públicas no esporte educacional Até o momento, diversas iniciativas e ações foram realizadas dentro do Progra- ma Segundo Tempo (PST), o qual oferta práticas esportivas para jovens de áreas vulneráveis e que participam da rede pública de ensino. Algumas foram criadas e permanecem, ao passo que outras foram modificadas ou mesmo não existem mais. Nesse sentido, a coordenadora do Projeto Memória, que participa do PST desde 2009, concebeu o Projeto Especial no segundo semestre do programa (2013-2014), ampliando os métodos inclusivas por meio da educação esportiva. Dadas as inúmeras iniciativas que ocorrem diariamente nas diversas loca- lidades do País, é difícil documentar todas as ações de todos os programas. Portanto, pretende-se abordar as principa is iniciativas com características evi - dentes na gestão interdiscip linar: • Diretrizes do PST (2003): não são detectados elementos da gestão in- tersetorial. Têm como obj etivo enfatizar a prática do esporte educacio- nal dentro da escola; • Diretrizes do PST (2004): contêm estratégias para a construção de alianças e parcerias institucionais com governos estaduais, prefeituras e organ izações não governamentais, entre outros, que tenham relação direta com o público-alvo e conheçam sua realidade. Os programas são uma iniciativa do Ministério do Esporte como parte da parceria com o MEC e visam democrat izar o acesso ao esporte de crianças e j ovens matricu lados em escolas púb licas brasileiras. Para os princípios meto- dológicos do programa, objetivos específicos que ressa ltam as ações de inter- setoria lidade devem ser estabelecidos, como: • Contr ibu ir para a educação e a inclusão social; • Auxi liar o caráter da educação continuada e integrada pelo esporte, favorecendo o desenvolvimento das atividades educaciona is; • Colaborar para a redução do tempo de exposi- ção de crianças e adolescentes a situações so- ciais de risco (violência, traba lho infantil e fome, entre ou tros); • Apoiar ações para erradicar o traba lho infantil; PSICOLOGIA 00 ESPORTE • • Contr ibuir para a redução das taxas de evasão e de retenção de crian- ças e Jovens; • Apoia r a geração de emprego e renda por meio de campanhas para o mercado esportivo nacional. Na exp licação relativa ao programa, sugeriu-se que os centros esporti- vos operem no espaço do campus, demonstrando integração entre as ins- t itu ições em quest ões de infraestrutura. No que se refere à distribuição de roupa desport iva em escolas, merecem destaque as ações integradas no projeto Pintando a Liberdade. Além disso, são disponibilizados materiais técnico-educativos de apoio a ações do programa articu ladas com a mídia em diversas áreas, como educação física e esportes escolares, cu ltura, entreten imento e jogos cooperativos, etn ia, educação especial, gênero e nutr ição. Essas áreas são consideradas temas re- lacionados ao esporte apl icáveis a atividades educaciona is. •• Transição de carreira no esporte O prolongamento da carreira esportiva, que não é privi légio de nenhum esporte em particular, remete à ide ia de que o ampl iamento da expectativa de vida de uma pessoa leva à rejeição de algo que pertenceao processo vital. Isso ocorre porque, em geral, as mudanças de estado evidenciam a inexorável vulnerabi lidade humana. As quest ões estruturais e de sustentabi lidade estão mais ou menos presentes para a maioria dos profissionais, tanto no contexto esportivo quanto no empresarial. A carreira esportiva abrange uma gama de decisões e ações de um prat ican- te, desde consultar e selecionar o esporte até sua prática e a aposentadoria. Situações imprevistas obrigam os atletas a se adaptarem a diferen- tes aspectos de sua vida e esses ajustes e adaptações diferem em alguns aspectos de outros tipos de profissões, posto que possuem algumas características únicas. Nas últimas décadas, examinar como todo esse processo funciona na vida de um atleta tem sido tema de pesquisas de vários grupos de psi- cólogos do esporte em todo o mundo. A transição PSICOLOGIA 00 ESPORTE • esportiva refere-se a eventos ou não eventos que determinam uma mudança nos pressupostos sobre si mesmo e sobre o mundo e, portanto, uma mudança correspondente nos relacionamentos e comportamento. Um tipo de transição que os psicólogos do esporte empenham-se para compreender é o fim da carrei- ra ou a transição para a aposentadoria dos esportes. EXPLICANDO A transição de carreira é um processo muito dificil para o atleta: na maio- ria das vezes, os esportistas se aposentam em um tempo menor do que em outras profissões devido às limitações do próprio corpo. Além disso, no esporte não há muitas oportunidades para se realocar, o que faz com que esses atletas ponderem sobre outras profissões fora de sua área. A transição esportiva é uma parte natural e inevitável do desenvolvimento de uma carreira esportiva, sendo caracterizada como um processo complexo (ao invés de um evento único) que abrange uma ampla gama de situações. Os profissionais precisam se adaptar a um novo campo que envolve fatores finan- ceiros, psicológicos e sociais, entre outros. Assim, a transição do esporte pode ser definida como um evento que provoca uma mudança nos pressupostos sobre si mesmo e sobre o mundo. No Quadro 8 são apresentados os principais fatores relativos à transição de carreira. QUADRO 8. FATORES QUE LEVAM À TRANSIÇÃO DE CARREIRA Fator Lesão :=:::::::::=::: Definição Lesões causam mais problemas de coordenação se comparadas com outras razões para aposentadoria. Além disso, alguns estudos sugerem que as variáveis da personalidade pré-traumática podem desempenhar um papel importante na resposta psicológica ao trau- ma e ao resultado, encontrando uma relação entre a vulnerabil idade percebida e o enfrentamento. Atletas que temem a lesão tendem a se sentir mais estressados, uma vez que estão constantemente preocupados com a recorrência dela e com a melhoria do desempenho. Embora não haja consenso entre os pesquisadores no que diz respei- to aos estágios adaptativos associados a atletas lesionados, é geral- mente aceito que o trauma pode afetar as habilidades psicológicas e os recursos e mecanismos de enfrentamento. PSICOLOGIA 00 ESPORTE • Desengajamento Tempo Interesse por transição de carreira Os egressos podem ocorrer tanto em esportes individuais quanto em equipes e, no segundo caso, é importante reconhecer o impacto que a saída de um atleta tem no desempenho e na coesão de toda a equipe. Assim, o desengajamento é definido como a saída de um atleta de uma equipe e/ou esporte que pode ser executada de forma planejada ou não. Isso significa que o motivo da retirada pode ser voluntário ou involuntário. As razões para a retirada involuntária são desencadeadas por circuns- tâncias além do controle da equipe, esporte ou atleta. No entanto, há situações em que os atletas optam por sair voluntariamente, uma vez que eles têm a liberdade de estrear ou interagir com outras equipes e de escolher diminuir seu nível de participação para se concentrar em outras atividades ou mesmo para trabalhar em outras habilidades. Há vários motivos para um hiato, dependendo do nível em que o atleta está competindo. Para os atletas que participam de esportes coletivos, os intervalos são uma experiência individual e em grupo. As implicações em deixar uma equipe incluem: (a) estágio de desen- volvimento do grupo; (b) papel dos companheiros ausentes; (c) razões para sair; (d) divisões planejadas; (e) período de transição. Embora acredite-se que a equipe continue a ter um bom nível de de- sempenho, atualmente há poucas pesquisas sobre o impacto relativo a saídas de atletas. O que se sabe é que o absenteísmo afeta todos os aspectos da manutenção da equipe. O momento certo é um fator decisivo para uma transição de carreira no esporte. Atletas ou carreiras podem ser mensurados a partir de uma ordem cronológica e, para atletas de elite, a idade pode impedi-los de competir no nível mais alto. Os efeitos da idade no final da carreira de um atleta incluem fatores fi. siológicos, psicológicos e sociais (como, por exemplo, os efeitos negativos de um mau desempenho). Há muitas questões e reações diferentes no que se refere às transições de carreira esportiva, e cada uma exige diferentes tratamentos e intervenções. Frequentemente, essa transição desencadeia reações psicológicas inten- sas, uma vez que as transições do final da carreira destacam a natureza limitada do tempo dos atletas, o envelhecimento natural do corpo e a perda de desempenho. O interesse profissional e acadêmico nas transições de carreira cres- ceu exponencialmente nas últimas décadas. Um exemplo é que, an- tes de 1980, cerca de 20 publicações sobre isto haviam sido escritas. É importante lembrar que todas essas preocupações com o tema levam em consideração questões interculturais como raça, etnia e gênero na pesquisa. Os indivíduos mais jovens, por exemplo, parecem estar mais mo- tivados para aprimorar seu desenvolvimento físico, seja por meio de habilidade, competição ou preparação física . Essas descobertas podem abrir novas perspectivas para o trabalho relacionado à idade durante a transição para a prática. Também houve diferenças nas faixas etárias em relação à partici- pação em esportes: a aprendizagem de esportes é muito valorizada pelas crianças pequenas (6 a 9 anos), mas o status social é a razão mais importante para as crianças acima dos 10 anos. PSICOLOGIA 00 ESPORTE • Sintetizando • Ao pensar sobre atletas de alto rendimento, é natural que surja a ideia de com- petições e atletas de alto nível que buscam melhorar seu desempenho dia após dia com treinos intensos. Neste caso, a prática esportiva pode acarretar em conse- quências negativas quando não planejada de maneira adequada. Diferentemente das outras pessoas que praticam atividade física, seja por saúde, lazer ou prazer, atletas de alto rend imento vivenciam pressões diárias, o que afeta sua saúde física e mental. Por exemplo: eles podem desenvolver sen- timentos e emoções negativas que podem tanto desmotivar a prática esporti- va como ocasionar lesões que, caso não sejam devidamente t ratadas, podem levar à aposentadoria precoce. Diante desse cenário, é necessário que haja intervenções preparadas por diversos profissionais, principalmente o psicólogo, uma vez que ele irá buscar técnicas para cada atleta com uma demanda específica para traba lhar essas dificu ldades e limitações, aumentando sua potencialidade. É importante ressaltar que o papel do psicó logo neste campo não é clínico: seu foco encontra-se no desenvolvimento do rendimento ao mesmo tempo em que auxilia o atleta a compreender seu esporte de maneira mais harmônica, ou seja, sem pressões e autocobranças excessivas. Além disso, o esporte ganha espaço a cada ano que passa, principalmente devido às competições mundiais transmitidas nas mais diversas mídias. Isto faz com que esse campo ganhe espaço em outras áreas, como a escola, por exemplo, tornando necessário pensar em novas diretrizes para além das que existema fim de regulamentar a prática, valorizar profissionais da área e pro- mover benefícios para quem a pratica. Por fim, é necessário pensar em recursos e projetos para atletas que priorizam o esporte, visto que algumas modalidades costu- mam aposentar o atleta mais cedo do que ocorre em outras profissões. Dessa maneira, preparar os atle- tas para esse fim é essencial, visando não prejudi- car sua vida social, pessoal e profissional. PSICOLOGIA 00 ESPORTE • Referências bibliográficas • FERNANDES, W.J.; SVARTMAN, B.; FERN ANDES, B. s. Grupos e configurações vin- culares. ln: Grupos e configurações vinculares. Porto Alegre: Artmed, 2003. IMPORTÂNCIA da Psicologia no Desempenho Esportivo. Postado por La is Yuri Psicóloga e Coach Esportiva. (0Smin. 43s.). son. color. port. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=GEhRg2rfNTc>. Acesso em: 30 ago. 2021. PEREIRA, s. K. O videogame como esporte: uma comparação entre esportes ele- trônicos e esportes tradicionais. 2014. 122 f . Trabalho de Conclusão de Curso (Gra- duação) - Faculdade de Comunicação, Universidade de Brasília, Brasília, DF, 2014. PICHON-RIVIÊRE, E. o processo grupal. São Paulo: Martins Fontes, 2005. VIEIRA, L. F.; VISSOCI, J. R.; OLIVEIRA, L. P. Etapas do processo de intervenção psicológica em equipes de voleibol de alto rend imento. ln: MACHADO, A. A.; BRANDÃO, M. R. F. (orgs.). Coleção Psicologia do Esporte e do Exercício: o vo leibol e a psicologia do esporte. São Paulo: Atheneu, 2010. WEINBERG, R. S.; GOULD, D. Fundamentos da Psicologia do Esporte e do Exercício. Porto Alegre: Artmed, 2016. PSICOLOGIA 00 ESPORTE • p1 p2 p3 p4 p5 p6 p7 p8 p9 p10 p11 p12 p13 p14 p15 p16 p17 p18 p19 p20 p21 p22 p23 p24 p25 p26 p27 p28 p29 p30 p31 p32 p33 p34 p35 p36 p37 p38 p39 p40 p41 p42 p43 p44 p45 p46 p47 p48 p49 p50 p51 p52 p53 p54 p55 p56 p57 p58 p59 p60 p61 p62 p63 p64 p65 p66 p67 p68 p69 p70 p71 p72 p73 p74 p75 p76 p77 p78 p79 p80 p81 p82 p83 p84 p85 p86 p87 p88 p89 p90 p91 p92 p93 p94 p95 p96 p97 p98 p99 p100 p101 p102