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TP3 - Matemática nas Formas Geométricas e na Ecologia - Parte I 114 Texto de referência Teoria das situações didáticas Cristiano Alberto Muniz O ponto de partida da aprendizagem matemática no programa de matemática do GES- TAR é a resolução de situações-problema, colocando a questão da «situação» como foco importante na discussão acerca do processo de ensino. Como visto ao longo das seções de cada unidade dos Cadernos de Teoria e Prática, há uma forte preocupação dos seus autores com o contexto no qual se realiza a produção matemática. Resolver situação desprovida de uma significação mais ampla daquela da escola não pode ter o mesmo sentido e valor quando o aluno está mergulhado numa situação de alta relevância sociocultural. Isso faz com que seja importante para o professor considerar o contexto no qual se aloca a situação proposta ao aluno para sua produção matemática. Segundo a Teoria das Situações do matemático e didata francês Guy Brousseau1 da Universidade de Bordeaux, dois contextos diferentes devem ser considerados no que se refere à aprendizagem matemática. Num Texto de Referência anteriormente trabalhado por nós, falávamos e refletíamos sobre o conhecimento matemático em ação, quando discutimos sobre as regras que definem as ações do aluno na geração do conhecimento matemático. Para Brousseau, o contexto de ação é determinante na constituição do processo de produção do conhecimento, pois o contexto é um critério importante sobre os saberes que o aluno pode ou não mobilizar para sua ação cognitiva. Os critérios de validação de ação do pensamento dos alunos advém sobretudo da situação à qual ele está submetido, da representação que o aluno possui desta situação, e, em especial, do conjunto de regras que estruturam as relações nesse contexto. A Teoria das Situações define dois contextos, as situações a-didádicas e as situações didáticas. Estar numa ou noutra situação define a natureza do processo de produção de conhecimento matemático. Essa diferenciação deve ser levada em conta pelo professor enquanto mediador desse processo de aprendizagem matemática. Fazer uma conta dian- te de professor não é a mesma coisa de fazer uma conta diante de um pipoqueiro. As influências dos personagens presentes nas cenas, as regras existentes nas relações entre o aluno e os demais participantes da situação, a natureza do conhecimento presente na situação, os critérios de validação de cada situação, a forma de avaliação da capacidade do aluno em fazer matemática em cada uma delas, faz grande e importante diferença na postura do aluno, tanto em relação ao objeto de conhecimento matemático, quanto dos procedimentos de fazer matemática. 1 Teve sua tese e suas idéias centrais que forma sua teoria sobre a didática matemática, publicada na obra Théorie des Situations Didactiques, La pensée sauvage, éditions, Grenoble, 1998. Situação A-Didática como o objetivo da educação matemática A grande meta da educação matemática é o desenvolvimento de habilidades e compe- tências para que o aluno resolva as situações presentes no espaço exterior da escola, quando o professor é personagem ausente, onde não há ninguém a controlar as formas Semelhanças, revestimentos, preenchimentos U ni da de 1 0 115 Situação didática como estratégia de ensino Trata-se da situação onde a produção é controlada pelo professor via um contrato didáti- co. O aluno produz de forma não livre, sendo balizada por um conjunto de regras que definem um contrato didático. Esse contrato é constituído por um conjunto de regras implícitas ou explícitas que definem o papel do aluno, como do professor, no processo de produção de conhecimento. Assim, o contrato didático, base da constituição da situação didática, diz respeito a esse conjunto de regras que rege a totalidade do funcionamento da prática pedagógica. As regras do contrato, que definem o que se pode e não se pode, o que se deve e o que não se deve, o que é desejável e não desejável no processo da construção do saber, acabam por definir as ações realizadas pelos alunos no processo de aprendizagem. Ações que não estariam presentes na situação a-didática são aqui presentes, pois é necessário cumprir com o contrato didático. Na mesma linha de raciocínio, ações presentes na situação didática estão ausentes nas situações a-didáticas pois o aluno não se vê sob a tutela do professor e subjugado às regras de um contrato que só tem validade no espaço e no tempo da escola. Assim, as ações matemáticas realizadas dentro ou fora da escola começam a se distanciarem de maneira significativa, onde a produção nas situações a-didáticas são mais naturais e espontâneas, enquanto que na escola a produção visa sobretudo a cum- prir o professor, cumprir o contrato, ter sucesso na escola e dela se afastar. de produção de soluções das situações-problema por ele vivenciadas. Tudo aquilo que o professor propõe e faz tem de ter como meta o preparo do aluno para a vida e para o exercício de sua cidadania, o que não é possível se nos limitarmos a aprender a resolver os problemas propostos pelo livro didático. A escola, a didática e os professores serão mais competentes na medida que a proposta pedagógica se aproxime do contexto real, sem criar um mundo à parte cujo conhecimento o aluno não saiba transferir para contex- tos mais amplos e mais complexos como são os da vida real. Na situação a-didática o sujeito é livre, ele se vê e se sente livre, tendo como critério de validação e correção de sua produção suas próprias estruturas e conhecimen- to. Ele, nesta situação, não se sente controlado pelo professor, e não está preocupado em produzir para o outros, mas para resolver uma situação-problema que a ele pertence. Dialética entre situação a-didática e situação didática2 A concepção moderna de ensino demanda do professor provocar no aluno adaptações desejáveis, por uma escolha judiciosa, aos problemas por ele propostos. Estes proble- mas, escolhidos de maneira que o aluno os possa aceitar, devem fazê-lo agir, falar, refletir, evoluir em seu próprio movimento. Entre o momento onde o aluno aceita o problema como seu e aquele onde ele produz sua resposta, o professor se recusa a interferir como propositor de conhecimentos que ele quer ver aparecer. O aluno sabe bem que o proble- ma foi escolhido para fazer com que ele adquira um conhecimento novo, mas ele deve 2 Tradução livre das pp 59-60 do livro Théorie des Situations Didactiques. TP3 - Matemática nas Formas Geométricas e na Ecologia - Parte I 116 saber também que este conhecimento é inteiramente justificado por uma lógica interna da situação e que ele pode construi-la sem apelar a razões didáticas. Não somente ele pode, mas ele deve também, pois ele não terá verdadeiramente adquirido este conhecimento a não ser que seja capaz de colocá-lo em ação, ele próprio, em situações que se encontre fora de todo contexto de ensino e na ausência de toda e qualquer indicação intencional. Uma tal situação é chamada de situação a-didática. Assim, podemos dizer que o que define uma situação ser didática ou a-didática não é a sua localização geográfica, mas sim o conjunto de regras que rege, momentanea- mente e circunstancialmente, a natureza de produção matemática. Quando fora da esco- la, em casa, por exemplo, ao estudar ou fazer os deveres de casa, a produção pode ser definida pelas regras do contrato, mesmo na pseudo ausência do professor, pois a produ- ção destina-se, finalmente, ao sucesso escolar. É quando o aluno rejeita a ajuda e/ou participação de terceiros na produção matemática, alegando «Não, você não sabe como ele quer que se faça!». Assim, o engajamento na atividade matemática pelo aluno não é desprovida de um sentido maior: faça-se a atividade matemática para satisfazer um con- trato rigidamente controlado pela escola. A capacidade de «fazer matemática» do aluno é sinalizada pela sua capacidade em cumprir com as regras do contrato: «De que vale você resolver o problema com cálculo mental, se não sabe escrever como o fez na prova. Fica com zero do mesmojeito». Se pode haver situação didática fora do espaço escolar, longe da presença física do professor, pode ser (e é o mais desejável) que haja situação a-didática dentro da sala de aula e diante do professor. É o momento quando o aluno está a resolver uma situação- problema que já assumiu como sua propriedade, e se lança a estratégias e procedimen- tos próprios, a mobilizar algoritmos mais espontâneos, preocupado com o cumprimento de um contrato didático. Esses momentos são de riqueza e importância vital no processo pedagógico, pois somente nesses processos o professor pode identificar a real capacida- de do aluno de «fazer matemática». O papel do professor é buscar garantir, cada vez mais, a presença de situações a- didáticas nas situações didáticas, ou seja, que os alunos se sintam gradativamente mais livres de produzirem, testarem, reverem e fazer evoluir seus conceitos e teoremas em ação. Somente nesse contexto podemos conceber um real espaço de matematização na escola e no favorecimento do desenvolvimento do potencial matemático de nossos alu- nos. A escola e o professor falham quando o processo fica simplesmente o contexto didático pelo didático, onde o aluno desenvolve a capacidade de responder às regras do contrato, aprendendo a ser um «bom aluno», o que não significa de forma alguma em ter capacidade de mobilizar os saberes escolares na sua ação enquanto cidadão. Assim afirma Brousseau: «O professor deve sem cessar ajudar o aluno a se liberar, desde que possível, a situação de todos os seus artifícios didáticos para lhe deixar o conhecimento pessoal e objetivo»(p. 60) O que vem, então, a ser didática? A didática busca, nesta perspectiva da Teoria das Situações, não ser uma prescritora de técnicas e metodologias de transmissão do saber científico. O papel da ciência e da prática da didática é de buscar descrever e de compreender esse complexo sistema de construção de conhecimento entre o espaço da situação didática e da situação a- didática, a partir do qual o professor possa constituir um contrato de conotação provi- Semelhanças, revestimentos, preenchimentos U ni da de 1 0 117 sória, fluída e frágil. Somente essa característica de fragilidade do contexto permite ao aluno uma breve liberação das regras do contrato para assumir as ações desenvolvidas na situação didática como esquema de ação a ser mobilizado em contextos mais amplos e significativos. A noção de devolução proposta por Brousseau Partindo da idéia de que é papel do professor selecionar e oferecer ao aluno a «boa situação» que favoreça a aprendizagem, isso faz com que, de início, antes de ser propri- edade do aluno, a situação seja produto do professor. É o professor que, conhecendo os objetivos educacionais, busca nas situações a-didáticas uma situação adequada e adapta a situação para o contexto didático. Mas, para que a aprendizagem se efetive, a situação tem de ser propriedade, espaço de pensamento do aluno e não do professor. Isso requer uma transferência de propriedade psicológica da situação do professor para o aluno. É necessário instaurar um processo onde o aluno sinta que o problema é seu e que sinta alto desejo e necessidade de resolvê-lo. Esse processo de transferência de propriedade é chamado de devolução. Enquanto a devolução não se processa, o aluno não começa a pensar na situação e não produz matemática. Mas, na nossa concepção, a devolução é um processo de mão dupla: se em um sentido o professor transfere a situação ao aluno, seduzindo-o pela problemática, no outro sentido, o aluno deve transferir o processo de resolução ao professor, fazendo compreender que o processo foi construído na busca da construção de uma solução. Acreditamos que a mediação pedagógica só será completa quando a devolução se realizar nessa perspectiva de mão dupla. As regras de realização da devolução nos dois sentidos devem estar explicitadas no contrato didático estipulado entre as partes. Tanto o processo de assimilação da situação pelo aluno, quanto a respon- sabilidade de comunicar o processo de resolução formam uma coluna vertebral da medi- ação pedagógica. A didática como um jogo: as regras que definem a aprendizagem num contexto didático Segundo Brousseau (p. 60-61), o contrato didático é a regra do jogo e a estratégia da situação didática. É o meio que o professor tem de colocar em cena a situação. Mas a evolução da situação modifica o contrato que permite então a obtenção de novas situa- ções. Da mesma maneira, o conhecimento é aquilo que se expressa pelas regras da situação a-didática e pelas estratégias. A evolução destas estratégias requer produções de conhecimento que permitem à sua vez a concepção de novas situações a-didáticas. O contrato didático não é um contrato geral. Ele depende estritamente dos conheci- mentos em jogo. Na didática moderna, o ensino é a devolução ao aluno de uma situa- ção a-didática, correta, a aprendizagem é uma adaptação a esta situação. Veremos que podemos conceber essas situações como jogos formais e que esta concepção favorece a compreensão e a teorização das situações de ensino. TP3 - Matemática nas Formas Geométricas e na Ecologia - Parte I 118 O que leva a estabelecer uma relação do fazer matemático na situação com o jogo é o fato de haver uma convergência conceitual entre as duas atividades: • Um conjunto de relações que coloca em cena a existência de um jogador que sente prazer na realização da atividade. • A organização da atividade num sistema de regras. • A existência de «instrumentos do jogo». • As estratégias e táticas. Isso refere-se ao desenvolvimento de procedimentos. • A possibilidade de tomada de posição, de opções, de escolhas possíveis entre mais de uma possibilidade, por não se tratar de trajetória de caminho único. Muitas são as maneiras de conceber a construção do conhecimento como um tipo de jogo. Numa primeira aproximação entre jogo e fazer matemática é a relação do indivíduo com o objeto de conhecimento, num jogo solitário, e em segundo, num jogo coletivo, sustentado pela necessidade de comunicação, argumentação e provas.