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FR EN TE Ú N IC A 127 Que outro – não eu! – a pedra corte Para, brutal, Erguer de Atena o altivo porte Descomunal. Mais que esse vulto extraordinário, Que assombra a vista, Seduz-me um leve relicário De fino artista. Invejo o ourives quando escrevo: Imito o amor Com que ele, em ouro, o alto relevo Faz de uma flor. Imito-o E, pois, nem de Carrara A pedra firo: O alvo cristal, a pedra rara, O ônix prefiro. Por isso, corre, por servir-me, Sobre o papel A pena, como em prata firme Corre o cinzel. [...] Olavo Bilac. Poesias. 27 ed. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, 1961. p. 5. 18 Cite as palavras que compõem o percurso figurativo da escultura. 19 Cite as palavras que compõem o percurso figurativo da ourivesaria. 20 Cite o percurso figurativo do fazer poético. No livro A cabra vadia: novas confissões, Nelson Ro- drigues inicia a crônica “Os dois namorados” com a seguinte afirmação: “há coisas que um grã-fino só confessa num terreno baldio, à luz de archotes, e na presença apenas de uma cabra vadia.” Na crônica “Terreno baldio” ele recorre ao mesmo ani- mal para explicar a ideia que teve de criar “entrevistas imaginárias”: “Não podia ser um gabinete, nem uma sala. Lem- brei-me, então, do terreno baldio. Eu e o entrevistado e, no máximo, uma cabra vadia. Além do valor plástico da figura, a cabra não trai. Realmente, nunca se viu uma cabra sair por aí fazendo inconfidências.” (Nelson Rodrigues, A cabra vadia: novas confissões. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016, p. 52 e160.) 21 Unicamp 2020 O caráter confessional associado à figu- ra da cabra nas crônicas tem relação com A a veracidade dos depoimentos que o cronista tes- temunha nas entrevistas. b a impostura dos contemporâneos que são objeto dos comentários do cronista. c a antipatia do jornalista no que diz respeito à busca de identidade dos artistas entrevistados. D a sinceridade dos intelectuais que são objeto das crônicas dos jornalistas. O texto a seguir refere-se às questões de 22 a 24. Certa vez uma família inglesa foi passar as férias na Alemanha. No decorrer de um passeio, as pessoas da fa- mília viram uma casa de campo que lhes pareceu boa para passar as férias de verão. Foram falar com o proprietário da casa, um pastor alemão, e combinaram alugá-la no verão seguinte. De volta à Inglaterra discutiram muito acerca da plan- ta da casa. De repente a senhora lembrou-se de não ter visto o W.C. Conforme o sentido prático dos ingleses, es- creveu imediatamente para confirmar tal detalhe. A carta foi escrita assim: Gentil Pastor. Sou membro da família inglesa que o visitou há pouco com a finalidade de alugar sua propriedade no próximo verão. Como esquecemos um detalhe muito importante, agradeceria se nos informasse onde se encontra o W.C. O pastor alemão não compreendendo o significado da abreviatura W.C. e julgando tratar-se da capela da religião inglesa White Chapel, respondeu nos seguintes termos: Gentil senhora. Tenho prazer de comunicar-lhe que o local de seu inte- resse fica a 12 km da casa. É muito cômoda, sobretudo se se tem o hábito de ir lá frequentemente; nesse caso, é preferível levar comida para passar lá o dia inteiro. Alguns vão a pé, outros de bicicleta. Há lugar para quatrocentas pessoas sen- tadas e cem em pé; recomenda-se chegar cedo para arrumar lugar sentado, pois os assentos são de veludo. As crianças sentam-se ao lado dos adultos e todos cantam em coro. Na entrada é distribuída uma folha de papel para cada um; no entanto, se chegar depois da distribuição, pode-se usar a folha do vizinho ao lado. Tal folha deve ser restituída à saída para poder ser usada durante um mês. Existem ampliadores de som. Tudo o que se recolhe é para as crianças pobres da região. Fotógrafos especiais tiram fotografias para os jornais da cidade a fim de que todos possam ver seus semelhantes no desempenho de um dever tão humano. Autor desconhecido. In: José Luiz Fiorin. Elementos de análise do discurso. 13 ed. São Paulo: Contexto, 2005. p. 114. 22 Quais são os percursos figurativos envolvidos no texto? 23 Que palavra faz a conexão entre os dois percursos? 24 O que motivou a ambiguidade do ponto de vista da teoria da comunicação? O texto a seguir, pertencente ao filme O grande ditador, de Charles Chaplin, refere-se às questões de 25 a 28. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abun- dância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido. Charles Chaplin. “O último discurso”. O grande ditador. PV_2021_LU_ITX_FU_CAP5_LA.INDD / 15-09-2020 (10:01) / VIVIAN.SANTOS / PROVA FINAL PV_2021_LU_ITX_FU_CAP5_LA.INDD / 15-09-2020 (10:01) / VIVIAN.SANTOS / PROVA FINAL 128 INTERPRETAÇÃO DE TEXTO Capítulo 5 Categorias de mundo e temas e figuras Cadáver boiava na piscina Fuzilado primo de cartola tricolor Estas são as manchetes, colhidas aleatoriamente, do jornal NP do dia 1° de março de 1999. A malícia, aliada do riso, pressupõe, como já ressaltamos, um distanciamento emocional da enunciação em relação ao enunciado. Então, onde se julga ver morbidez, desponta o tom malicioso de voz, ao construir a tragédia cotidiana do outro, que também é a de si próprio. O estado da malícia, nesse caso, passa a constituir-se em meio auxiliar para que o sujeito se mantenha intensamente con- junto com o objeto desejado, a satisfação das necessidades primárias, objeto discursivizado na afirmação da sobrevivência emocional e física. O ator malicioso pauta-se, aqui, pela imagem dada por um poder-ser, um saber-ser, um querer-ser, um dever-ser, à revelia, ou por insubordinação, frente às próprias desgraças. Nesse caso, opõe-se a malícia ao temor, em que há “uma espera, modalizada ao mesmo tempo e de modo conflitual pelo poder-ser (a eventualidade) e pelo querer-não-ser (a recusa)”, como dizem Greirnas e Fontanille* (1993: 193). Firmam-se os papéis do ator da enunciação, que não pode e não deve querer-ser temeroso. Isso, paradoxalmente, por meio de um narrador que submete, aos gritos, o narratário, para que este possa “engolir sem mastigar” as notícias. Confirmamos que o estilo de um jornal definitivamente não pode ser buscado apenas em fenômenos pontuais da ex- pressão ou em desvios, com suposto significado “subjetivo” e “subjetivizador”, em relação a suposta norma. Imaginando que se acrescentariam tais desvios à suposta norma zero, “despida de estilo”, porque também supostamente despida de figuras de linguagem, de efeitos especiais e literários, de apelos estéticos, enfim, não encontraríamos estilo em NP, ou em jornal nenhum. Não. O estilo é uma determinada artimanha discursiva reiterada, definível num único enunciado totalizador, sendo este enunciado a abstração da sequência de muitos enunciados, como temos visto. Ficando com a artimanha, voltemos à primeira página de NP, que aprisiona o leitor na fluência anárquica de emoções. Cristalizam-se, aí, competências Iinguísticas e enciclopédicas de um leitor que, quanto mais evocado, menos se constitui num coenunciador, se considerarmos que lhe é dado interagir com um sentido mais “acabado”, ou com um texto menos pontilhado de lacunas a preencher. O inverso é verdadeiro, para os outros jornais. Em NP, uma homogeneidade aparente, verdadeira e assumida faz emergir um enunciado que, também aparentemente, elimina contradições. Num parecer que se confunde com um ser, um ator da enunciação, um sujeito semiótico, vai fazendo ser um sentido. Um enunciado, objeto semiótico, por sua vez e Texto complementar 25 Qual é o tema de que trata o texto? 26 Que tipo de oposição o texto trabalha? 27 Relacione os substantivos do texto em dois grupos de acordo com a oposiçãoque você estabeleceu na ques- tão anterior. 28 O texto é predominantemente temático ou figurativo? Justifique. O texto a seguir refere-se às questões de 29 a 31. (Observação: o final da fábula foi excluído propositalmente) O escorpião estava à beira do rio, quando a mata começou a pegar fogo. Acuado pela chama, pediu ajuda ao sapo, que estava preparando-se para saltar; o escorpião argumentou que se o sapo não o levasse nas costas para o outro lado do rio, morreria, pois não sabia nadar. O sapo, então, disse: – Isso eu não faço de jeito nenhum, você vai me dar uma ferroada... – Se eu lhe der uma ferroada, eu também morrerei! O sapo pensou bem e resolveu ajudar o escorpião; no meio do rio, o escorpião aplica uma ferroada no sapo; este, já sentindo a ação do veneno, diz: – Só gostaria de saber os motivos que o levaram a me matar? O escorpião responde... La Fontaine. “O sapo e o escorpião”. (Adapt.). 29 Procure explicar o motivo pelo qual o escorpião ma- tou o sapo. 30 Que temática o texto aborda? 31 O texto é predominantemente figurativo ou temático? Texto para a questão 32. Prometo construir hospitais Lego: o candidato da maioria das crianças. 32 Considere as seguintes afirmações: I. O texto utiliza dois universos de conhecimento: o da política e o da criança. II. Embora seja uma publicidade, a linguagem em- pregada no texto é literal. III. O “eu” implícito no enunciado refere-se à criança, mas também pode remeter à figura do político e ao próprio Lego. Está(ão) correta(s): A apenas I. b apenas II. c apenas I e III. D apenas II e III. E todas. PV_2021_LU_ITX_FU_CAP5_LA.INDD / 15-09-2020 (10:01) / VIVIAN.SANTOS / PROVA FINAL PV_2021_LU_ITX_FU_CAP5_LA.INDD / 15-09-2020 (10:01) / VIVIAN.SANTOS / PROVA FINAL FR EN TE Ú N IC A 129 concornitantemente, vai fazendo ser um sujeito. Assim vai-se construindo o efeito de estilo, visto como um “gesto semiótico”.** É bom lembrar que um determinado público-leitor, coletivo e único, é simulacro construído, no caso dos jornais, em um único exemplar, ou na sequência deles, assim como o é o sujeito enunciador, também sempre coletivo e único, como compete a esse gênero de discurso, que se alimenta do cotidiano, nascendo e morrendo todo dia com ele. Acontece que o enunciatário inscrito, tanto no enunciado da Folha, como no do Estado, ou no de NP, constitui-se num sujeito fortemente modalizado para querer sempre, e sempre mais, aquele e tão somente aquele discurso, o que se desdobra num dever e num poder para o jornal e para o leitor. O leitor tem, portanto, o direito de encontrar um jornal no qual se reconheça. O jornal sabe disso e, assumindo as expectativas desse leitor, tem uma performasice adequada. O jornal é vendido, bem sabemos, não pela frustração do público-alvo. Cumprem-se os objetivos da indústria cultural, nessa dinâmica entre actantes que, transformados em atores com papéis temáticos e figurativos recorrentes, determinam o efeito de individuação de dois tipos de imprensa, ou o estilo de cada uma delas. A propósito, esses papéis temáticos e figurativos recorrentes constituem os papéis configurativos resultantes do estoque de configurações discursivas, sendo próprios de isotopias formadas pela totalidade de discursos. Norma Discini. O estilo nos textos: história em quadrinhos, mídia, literatura. 2 ed. São Paulo: Contexto: 2004. p. 139-41. Observação: * Do ponto de vista da produção do discurso, pode-se distinguir o sujeito da enunciação, que é um actante implícito logicamente pressuposto pelo enunciado, do autor da enunciação: neste último, o ator será, diagamos, “Baudelaire”, enquanto se define pela totalidade de seus discursos. A. J. Greimas & J. op. cit., p. 35. ** O sentido, longe de ser recebido ou percebido, é pensado como o fruto de um ato semiótico gerador. E. Landowski, “Simulacres em construction”, In: Parret H. (Org.), Language, 70, Paris, Larousse, 1983, p. 75. Categoria pessoa-tempo-espaço Enunciação y Instância pressuposta no texto, criada pelo autor, responsável pelas operações linguísticas. y A interlocução (a comunicação entre enunciador e enunciatário). Pessoa y Primeira: efeito de aproximação. y Terceira: efeito de distanciamento. Subjetividade y Uso de figuras e/ou. y Primeira pessoa e/ou. y Julgamentos de valor e/ou. y Comunicação com o enunciatário. Objetividade y Linguagem denotativa. y Terceira pessoa. y Não há diálogo com o enunciatário. y Não há julgamento de valor. Embreagem y Embreagem: emprego conotativo das pessoas do discurso. Eis algumas possibilidades: 1. terceira pessoa pela primeira do singular. 2. terceira pessoa pela primeira do plural. 3. segunda pessoa do plural pela terceira. 4. primeira pessoa do singular pela segunda do singular. 5. segunda pessoa do singular pela primeira do singular. 6. primeira pessoa do plural pela segunda do plural. 7. segunda pessoa do singular pela primeira do plural. 8. primeira pessoa do singular pela segunda do plural. Temas e figuras Os textos podem ser figurativos ou temáticos. Na maioria das vezes, os textos são “predominantemente” figurativos ou temáticos. Textos figurativos são aqueles que utilizam figuras, elementos verbais ou visuais que remetem ao mundo natural, como homem, jogar futebol, bar, frio, azul. Textos temáticos são aqueles que utilizam categorias abstratas, como amor, rivalidade, violência, paz. Percurso figurativo é o conjunto de figuras que remete a um mesmo uni- verso semântico, ou a um mesmo tema. Por exemplo: cadeira, geladeira, mesa, cerveja, homens bebendo constituem o percurso figurativo do bar, o qual pode tematizar, dependendo do contexto, a boemia e a embriaguez. Percurso temático é o conjunto de termos abstratos que convergem para um mesmo universo semântico (ou tema). Por exemplo: serenidade, con- centração, silêncio, reflexão podem constituir um percurso temático de uma seita religiosa. Para interpretar um texto figurativo, é preciso passar do concreto para o abstrato. Quando há vários percursos (figurativos ou temáticos), a interpre- tação decorre da relação entre os percursos e de sua abstração. Resumindo PV_2021_LU_ITX_FU_CAP5_LA.INDD / 15-09-2020 (10:01) / VIVIAN.SANTOS / PROVA FINAL PV_2021_LU_ITX_FU_CAP5_LA.INDD / 15-09-2020 (10:01) / VIVIAN.SANTOS / PROVA FINAL