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F R E N T E F R E N T E 1 43 Nos excertos “o mal que te crucia”, “que a amarás um dia” e “pede humildemente a Deus que a faça”, os pronomes em negrito estão, adequadamente, em posição proclítica, haja vista a força atrativa exercida pelo vocábulo “que”, presente nos referidos trechos De acordo com a norma padrão, qual das sentenças abaixo também se compõe de maneira adequada quanto à colocação do pronome átono? A Nada mantinha-se como antes. b Se permita sempre amar os outros Trataria-se de uma nova vitória do time. Quando falará-se em ética na política? E Aqui também se fazem boas ações. 20 UEL Leia I Nem filhos, nem netos, ninguém lhe dava ouvidos II Quando a viu na sala, dirigiu lhe a palavra III Me avisaram do acidente por telefone Nas frases anteriores, a colocação pronominal está correta em: A I, apenas. b II, apenas. III, apenas. I e II, apenas. E I, II e III. 21 UFPE Assinale a alternativa que não apresenta desvio quanto à sintaxe de colocação do pronome oblíquo átono A Ah, quem és? Lhe pergunto, arrepiado. Bocage. b Te enganas, Cirene, pois até esse monte se sente abrasar Antônio José. Suma-se, moleque. José Lins do Rego. Dessa vez, me decidi. Vou viajar nessa máquina. Jorge Amado E Morto depois Afonso, lhe sucede Sancho II Camões. 22 Unesp Leia o texto a seguir Há anos que existe vazamentos tóxicos em todos os rios do país, causando danos à fauna e à flora. Precisamos sair da inércia ou essa situação levará-nos a um desastre completo! Carta de leitor a um jornal, comentando desastre ecológico Nesse texto, há duas situações em que a norma-pa- drão do português do Brasil é infringida. a) Identifique as áreas da gramática em que ocor- rem esses problemas: concordância, regência, pontuação, colocação pronominal, ortografia etc. ) Redija novamente o texto, corrigindo-o. 23 PUC-PR Observe as frases: 1 Não pode calcular o prejuí zo causado pelas chuvas. (se) 2 Faça o favor de enviar a car ta, sem demora (lhe) 3. De fato, ninguém havia lembrado disso. (o) 4 Ela afirmou que o colega estava moles- tando . (a) Considerando-se a norma culta da língua, em qual- quer dos espaços que se posicionem os elementos colocados entre parênteses, cam corretas somente as frases: A 1 e 3. b 2 e 4. 2 e 3. 1 e 2. E 3 e 4. 24 FGV Observe a ocorrência da mesóclise nos seguin- tes exemplos: • veremos + o = vê-lo-emos; • faríamos + os = fá-los-íamos; • veríamos + a = vê-la íamos. Assinale a seguir a alternativa em que a mesóclise ocorre de acordo com a norma culta. A Fa-los-ei. b Entende-los ás. Partí-las-ás. Integrá-las-eis. E Intui las-emos. 25 Uerj Leia o excerto a seguir E que ainda não pôde se converter em estrelas. Nesse excerto, a colocação do pronome pessoal átono na locução verbal segue a norma coloquial corrente no português do Brasil Reescreva o verso por inteiro, reposicionando o pronome em uma ou- tra colocação possível, segundo as normas do uso culto padrão 26 Ufal Assinale como verdadeiras as frases em que a colocação pronominal obedece à norma-padrão e como falsas aquelas em que isso não ocorre Concluiria-se das respostas dadas a certeza de que o aluno não levara a sério o estudo da matéria ensinada Por mais que se justifiquem as razões por que ele agiu assim, será difícil conceder-lhe o perdão. Tudo ficou suficientemente esclarecido; se conce- derá àquele menino uma nova oportunidade. Dar-se-ão todas as explicações necessárias, con- tanto que eles nos ouçam com atenção O funcionário não sujeitou-se aos exames exigidos pela empresa que chamara-o com urgência. 27 Ufal O uso e a colocação dos pronomes estão corre- tos na frase: A Ver-lhe nos contenta a nós todos. b Ajudemo lo, ainda que ele não nos seja grato. Estenderão-se até a noite as discussões entre tu e mim. Os erros são muitos; convém que corrijamos-lo E Impedir-lhe de falar não parece-nos justo. LÍNGUA PORTUGUESA Capítulo 14 Colocação pronominal44 28 Unesp 2017 Para responder à questão, leia a crônica “Seu ‘Afredo’”, de Vinicius de Moraes (1913-1980), pu- blicada originalmente em setembro de 1953. Seu Afredo (ele sempre subtraía o “l” do nome, ao se apresentar com uma ligeira curvatura: “Afredo Paiva, um seu criado...”) tornou-se inesquecível à minha infância porque tratava-se muito mais de um linguista que de um encerador. Como encerador, não ia muito lá das pernas. Lembro-me que, sempre depois de seu trabalho, minha mãe ficava passeando pela sala com uma flanelinha debai- xo de cada pé, para melhorar o lustro Mas, como linguista, cultor do vernáculo1 e aplicador de sutilezas gramaticais, seu Afredo estava sozinho Tratava-se de um mulato quarentão, ultrarrespeita- dor, mas em quem a preocupação linguística perturbava às vezes a colocação pronominal. Um dia, numa fila de ônibus, minha mãe ficou ligeiramente ressabiada2 quando seu Afredo, casualmente de passagem, parou junto a ela e perguntou lhe à queima roupa, na segunda do singular: – Onde vais assim tão elegante? Nós lhe dávamos uma bruta corda Ele falava horas a fio, no ritmo do trabalho, fazendo os mais deliciosos pedantismos que já me foi dado ouvir Uma vez, minha mãe, em meio à lide3 caseira, queixou-se do fatigante ra- merrão4 do trabalho doméstico Seu Afredo virou-se para ela e disse: Dona Lídia, o que a senhora precisa fazer é ir a um médico e tomar a sua quilometragem. Diz que é muito bão De outra feita, minha tia Graziela, recém-chegada de fora, cantarolava ao piano enquanto seu Afredo, acocorado perto dela, esfregava cera no soalho. Seu Afredo nunca tinha visto minha tia mais gorda Pois bem: chegou-se a ela e perguntou-lhe: Cantas? Minha tia, meio surpresa, respondeu com um riso amarelo: – É, canto às vezes, de brincadeira... Mas, um tanto formalizada, foi queixar-se a minha mãe, que lhe explicou o temperamento do nosso ence- rador: – Não, ele é assim mesmo. Isso não é falta de respeito, não É excesso de gramática Conta ela que seu Afredo, mal viu minha tia sair, che- gou-se a ela com ar disfarçado e falou: – Olhe aqui, dona Lídia, não leve a mal, mas essa menina, sua irmã, se ela pensa que pode cantar no rádio com essa voz, ‘tá redondamente enganada. Nem em pro- grama de calouro! E, a seguir, ponderou: Agora, piano é diferente Pianista ela é! E acrescentou: Eximinista pianista! (Para uma menina com uma flor, 2009.) 1 vernáculo: a língua própria de um país; língua nacional. 2 ressabiado: desconfiado 3 lide: trabalho penoso, labuta. 4 ramerrão: rotina Observa-se no texto um desvio quanto às normas gra- maticais referentes à colocação pronominal em: A “Lembro-me que, sempre depois de seu trabalho, minha mãe ficava passeando pela sala com uma flanelinha debaixo de cada pé, para melhorar o lus- tro.” (1o parágrafo) b “Seu Afredo [...] tornou-se inesquecível à minha in- fância porque tratava-se muito mais de um linguista que de um encerador.” (1o parágrafo) “Tratava-se de um mulato quarentão, ultrarrespei- tador, mas em quem a preocupação linguística perturbava às vezes a colocação pronominal.” (2o parágrafo) “[...] seu Afredo, casualmente de passagem, parou junto a ela e perguntou-lhe à queima-roupa, na segunda do singular [...].” (2o parágrafo) (E) “Seu Afredo virou-se para ela e disse: [...].” (4o parágrafo) 29 Mackenzie Assinale a alternativa que apresenta erro de colocação pronominal. A Você não devia calar-se. b Não lhe darei qualquer informação. O filho não o entendeu. Se apresentar-lhe os pêsames, faça-o discretamente. E Ninguém quer aconselhá-lo. 30 FMABC Assinale a alternativa em que todos os pro- nomes pessoais estão colocados corretamente, segundo o uso clássico da língua portuguesa. A Eu o vi, não lhe falei, darei-te o livro. b Eu o vi, falei-lhe, nada lhe direi. Nada dir-lhe-ei, não o estimo, Deus ajude-nos. Deus nos ajude! Não quero te ofender, mas vai-te embora. E Me dá o livro, que eu te devolvo assim que o ler. 31 Omec Assinale a frase em que há pronome enclítico A Far me ás um favor? b Nada te direi a respeito Convido-tepara a festa Não me fales mais nisso. E Dir-se-ia uma incoerência 32 FCMSCSP Há um erro de colocação pronominal em: A Sempre a quis como namorada b Os soldados não lhe obedeceram às ordens Todos me disseram o mesmo. Recusei a ideia que apresentaram-me 33 UEM O oblíquo o coloca se proclítico (antes do verbo) nos períodos abaixo, exceto em: A Deus livre de um tropeço na prova! b Como achou ontem. Não quis o rapaz aqui, mandei em- bora. Talvez encontre na outra sala. F R E N T E 1 45 Período pronominal (1919) Há na história do pensamento brasileiro um alongado período, que entrou a acentuar-se cerca de 1880 e cujo termo ainda não é possí- vel predizer-se. Distinguem-no algumas feições curiosas, de ordem intelectual e moral, as quais só ao futuro é dado apreciar e definir com acerto. Abstraindo outras manifestações, satisfaz-me chamar-lhe período pronominal, qualificativo que bem lhe caracteriza um dos traços, e porventura abrange todos, ou explica-os. De fato, nesse período domina o pensamento brasileiro a preocupação locativa do pronome oblíquo. É cousa comuníssima ouvir-se a um colegial como a um letrado, a um negociante como a um repórter ou a um político o juízo eliminatório de um livro ou de um escritor com o simples critério e enunciado de que não sabe colocar pronomes Foi a mesma sentença com que Valentim Magalhães fulminou, uma vez, em conversa e ar superior um livro de alentado esforço. Não lhe importavam ideias nem estilo. Estava arrasado o livro Foi isso há mais de quinze anos E é estranho que em gente como a nossa, tão versátil em tudo, perdure ainda e desde trinta anos essa preocupação, que assume o aspecto de fetichismo, porque aí ao culto do ídolo não preside sempre, já não digo a consciência do sentimento, o interesse e a inteligência do objeto. E para não faltar em cousa alguma ao feitio sectário, tornou-se fanatismo. Era a condição instintiva para vencer e dominar. E o caso é que venceu e dominou. Renderam-se todos, uns contaminados da convicção gramatical, outros por medo. A colocação dos pronomes ficou sendo a pedra de toque do escritor: e escritor que não queira ficar desmoralizado tem de aquilatar ali a sua linguagem. Do contrário, a uma penada de repórter, que lhe enxergue um pronomezinho fora do ponto, já ninguém lhe dá mais atenção nem apreço. O fato chegou a ser obsessão. Os espíritos mais rebeldes, mais porfiados em inovar, capazes de praticarem por gosto e insolência um solecismo para de- notarem a sua independência, entibiaram ante o fetiche. A Medeiros e Albuquerque ouvi dizer, por exemplo, que para satisfazer a imposição geral, quando acabava os seus artigos, lia os logo, cantando os pro nomes transviados, e ia pondo-os cada qual no seu lugar estabelecido por decreto Igual tarefa tomavam os autores nas reedições de livros e se era em livro de poesia, onde o verso não sofresse a desloca ção pronominal, fazia-se até o sacrifício de toda uma estrofe Nunca perdoei ao meu querido Raimundo Correia a mutilação de uma das suas mais trabalhadas poesias, pela supressão de uma quadra, que ele não pudera acomodar à legislação nova Eu também afinal sofri o jugo, em vão revoltava-se o meu bom senso, e argumentava contra a exótica tirania com que as razões do gosto pessoal, da índole da língua, do exemplo de outras línguas tão desembaraçadas daquela e de outras pelas cerebrinas; calei as razões e entreguei a cerviz à canga da proclítica. Mas o jugo sentia-o sempre pesado, nunca o levei convencido, e o tempo e o costume não conseguiriam fazer-me o calo da indiferença. Ao contrário, crescia a minha irritação toda vez que se renovava a prédica pública a serviço do fetiche gramatical. E essas prédicas tão frequentes fazem-se a qualquer pretexto, no jornal e no livro; até nos balcões que se tornou uso instalar à porta das gazetas para a venda a varejo e barato dos segredos da linguagem raro é o dia em que não apregoem a receita dos pronomes. E há sempre quem compre o seu tostão de droga e recolha contente o seguro de que leva no papelucho toda a ciência da língua. À simples consideração do fato, poder-se ia concluir a declinação do espírito literário no Brasil Pois só nos períodos em que escasseia a ca pacidade criadora e o gosto de admirar, é que se desenvolve o pendor da análise miúda, a preocupação das nugas linguísticas, e o dogma tismo gramatical Mas o fato parece que tem uma significação moral Foi em 1880 que apareceu na Revista Brasileira um artigo de Artur Bar- reiros sobre a colocação dos pronomes. Era a primeira pessoa do Brasil que reparava no assunto e ocupava-se dele. Anteriormente, mesmo em Portugal, a não ser um só gramático, Ferreira Júnior, ninguém cogitara a sério daquilo: surgia lá um ou outro reparo de estranheza de português, culto ou inculto, ao acento brasileiro diferente do português, do mesmo modo que nós aqui estranhávamos o acento dos portugueses recém- -chegados, tão diferente do nosso. Tratava-lhes também ao provarem das nossas frutas, assim como nós ainda não nos convencemos do decantado sabor das cerejas nem das uvas deles que nos chegam com o gosto de serragem, ou de fruta insípida, colhida antes de madura Mas brasileiro que foi e viveu em Portugal, lá se lhe muda a convicção sobre as frutas portuguesas, as primeiras do mundo, e português que veio e viveu no Brasil, aqui se lhe a faz o paladar a nossa manga e goiaba, a ponto que as prefere a quantas de além-mar. Tal qual com a expressão da nossa linguagem e do nosso acento oratório: a mesma língua, mas um quer que é tão diferente, que logo distingue para os menos atilados a nacionalidade do que fala ou escreve. Assim já o entendiam os que pensavam com o espírito desanuviado Fetichismo: admiração exagerada, irrestrita, incondicional por uma pessoa ou coisa; veneração; Porfar: competir ou lutar por (algo); disputar; Solecismo: algo imperfeito, falho; erro, falta; Entibiar: enfraquecer, afrouxar; Cerebrina: que adota ou prefere soluções intelectualizadas; Cerviz: cabeça, pescoço; Canga: peça de madeira us. para prender junta de bois a carro ou arado; jugo; Proclítica: relativa à próclise; Nuga: coisa sem importância, inútil; insignificância, ninharia (mais usado no plural); Atilado: dotado de sagacidade; esperto, vivo; eTexto complementar R e p ro d u ç ã o Página da Revista de Língua Portuguesa, de 1919