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Defeitos de desenvolvimento do esmalte na dentição decídua (Takaoka et al., 2009) Defeitos de Desenvolvimento de Esmalte (DDE) A amelogênese dos dentes decíduos começa por volta da 15ª semana gestacional com o início da formação dos incisivos e completa seu desenvolvimento ao redor dos 12 meses após o nascimento, com a completa formação dos segundos molares decíduos, sob influência de fatores genéticos e ambientais. Qualquer dano ocorrido nos estágios de formação do esmalte pode levar ao desenvolvimento de defeitos. Distúrbios que ocorreram no estágio de secreção do esmalte podem resultar em defeitos quantitativos, com a redução na quantidade ou na espessura do esmalte (hipoplasia do esmalte), já distúrbios que ocorrem durante o estágio da maturação podem levar a deficiências na mineralização e, geralmente, se manifestam como mudanças na transluzidez ou opacidade do esmalte (opacidade). As hipoplasias são defeitos quantitativos de esmalte associados à redução da sua espessura. Assim, o dente pode apresentar tanto pobre mineralização da matriz ocasionando desgastes da superfície e coloração amarelo-escuro, quanto irregularidades como fissuras, ausência total ou parcial do esmalte, esmalte delgado e, ainda, numa fase mais profunda da massa hipoplásica, superfície morfológica típica, como a observada no esmalte em desenvolvimento. As áreas hipoplásicas se apresentam com a integridade superficial alterada, mais porosa e menos mineralizada, percebendo-se uma superfície retentiva e irregular. Por serem retentivas, essas áreas favorecem a colonização de bactérias cariogênicas, podendo resultar em lesões de cárie. Dentes hipoplásicos apresentam até 15 vezes mais chances de desenvolverem lesões de cárie. As opacidades ou hipocalcificações estão localizadas ao longo das linhas de desenvolvimento e ocorrem no estágio em que a matriz orgânica é mineralizada, resultando em tecido poroso com esmalte pouco mineralizado, porém em espessura normal. Portanto, trata-se de defeito de calcificação do esmalte pós-natal, e não de defeito na formação da matriz. Clinicamente são observadas como áreas de esmalte com opacidade de cor branca, creme, amarela ou marrom. Podem ser demarcadas ou difusas, sendo a segunda uma alteração na translucidez do esmalte, de grau e coloração variável sem limite claro entre o esmalte normal e a opacidade. As opacidades mais frequentemente observadas na dentição decídua são as hipomineralizações segundos molares decíduos (HSMD) e as com menos frequência as fluoroses. A HSMD é uma hipomineralização de origem sistêmica, semelhante à hipomineralização molar-incisivo (HMI), representada por opacidade demarcada e, em casos mais severos, pode apresentar perda estrutural pós-eruptiva. As fraturas podem favorecer o acúmulo de biofilme, levando ao desenvolvimento de lesões de cárie e sensibilidade por exposição dentinária. Os dentes acometidos são os segundos molares decíduos, variando de um até os quatro dentes. A HSMD pode ser um fator preditivo importante para a HMI, sendo necessário que essas crianças passem por controle e acompanhamento, principalmente perto da irrupção dos primeiros molares permanentes. Isso se dá pelo fato de o desenvolvimento e a mineralização final dos segundos molares decíduos e a fase inicial do desenvolvimento e mineralização dos primeiros molares permanentes ocorrerem ao mesmo tempo e juntamente com os incisivos permanentes. A HMI pode afetar um ou todos os primeiros molares permanentes, podendo estar presente também nos incisivos. Ela se apresenta inicialmente como lesões opacas bem delimitadas, superfície lisa e coloração branca, amarelada ou castanha. Com o aumento da severidade, pode ocorrer perda de superfície pós-eruptiva. Geralmente, as lesões nos incisivos se apresentam na face vestibular como opacidades demarcadas e geralmente sem fraturas, por não estarem sob influência direta das forças mastigatórias. Embora seja um defeito assimétrico, é comum que quando um elemento é afetado, seu contralateral também seja. As fraturas pós-eruptivas promovem a formação de cavidades na estrutura dentária, favorecendo o acúmulo de biofilme e o desenvolvimento de cárie dentária. A Amelogênese Imperfeita é uma displasia do esmalte de origem hereditária e tem como consequência alterações diversas tanto nos dentes decíduos quanto permanentes. A transmissão do gene pode acontecer de forma autossómica dominante, recessiva ou relacionada ao cromossomo X. O esmalte formado é deficiente ou tem qualidade anormal e a estrutura da dentina se apresenta normal. Suas manifestações são: • Amelogênese imperfeita hipoplásica: Os dentes apresentam espessura reduzida do esmalte e se manifestam nas formas lisas, ásperas, crateriformes, onde a maioria das formas tem apresentação localizada. Os dentes têm a cor da dentina, mas são duros e podem adquirir mais tarde, a cor castanho-amarelada. O risco de incidência de cárie é menor, mas a abrasão aumentada pode causar hipersensibilidade e danos irreversíveis à polpa. As coroas podem não ter o perfil normal do esmalte, apresentando formato quadrado, sem contatos interproximais suficientes. • Amelogênese imperfeita por hipomaturação: É observada onde os ameloblastos produzem a matriz do esmalte em quantidade normal, mas a mineralização é deficiente. A espessura do esmalte é normal, porém é mais mole do que a normal. Em casos mais graves, podem ocorrer perdas maciças de substâncias dentárias na área dos molares. • Amelogênese imperfeita por hipocalcificação: Apresenta esmalte com espessura normal na erupção, mas é muito mole e tende a ser mais suscetíveis à atrição e há comprometimento estético e funcional. Além disso, apresenta maior permeabilidade, tornando-se manchado e escurecido. Radiograficamente, os dentes com amelogênese imperfeita apresentam falta da imagem que delimita o esmalte, esses dentes são mais suscetíveis à atrição, podendo ocasionar perda da dimensão vertical e sensibilidade a variações de temperatura. O tratamento de casos de amelogênese imperfeita depende da severidade da condição, sendo necessária uma inter-relação entre terapia ortodôntica, cirurgia bucomaxilofacial, periodontia e próteses dentárias. A Fluorose é um distúrbio no desenvolvimento dentário causado pela presença excessiva e/ou crônica de fluoreto durante o período formativo do dente. A ingestão crônica de fluoreto causa mudanças macroscópicas cuja severidade é proporcional à dose ingerida. Caracteriza-se clinicamente por apresentar esmalte opaco e manchas de coloração que podem variar do branco ao castanho-escuro, atingindo com mais gravidade dentes permanentes que decíduos. Pode ser classificada como leve, moderada, severa e sistêmica. A leve causa apenas alterações estéticas, caracterizadas por pigmentação branca do esmalte dentário. A moderada e a severa são caracterizadas por manchas amarelas ou marrons, além de defeitos estruturais do esmalte, apresentando repercussões estéticas, morfológicas e funcionais. A sistêmica provoca alterações esqueléticas, articulares, neurológicas e nefrológicas. Seu tratamento depende da severidade e pode variar desde clareamento, microabrasão, restaurações ou confecção de coroas protéticas. Etiologia Os defeitos de esmalte de origem sistêmica podem ser provocados por diabetes materno, toxicemia materna, hipoxia neonatal, hiperbilirrubinemia, desordens metabólicas do fígado e dos rins, infecções severas (gastroenterites), pneumonia, rubéola, doenças exantemáticas, febre, sífilis (incisivos de Hutchinsons e molares em amora); defeitos neurológicos; crianças com asma, prematuridade; radiação; intoxicações químicas dos ameloblastos (fluorose), deficiências nutricionais (vitaminas A, C e D, assim como cálcio e fósforo),endocrinopatias, síndromes e outros. Já os defeitos locais afetam dentes separadamente e estão relacionados a traumas. Nas crianças prematuras os alvéolos dos dentes em formação são comprimidos pela lâmina do larigoscópio no momento da intubação traqueal e pela fixação da cânula na permanência da ventilação mecânica. Código dos Defeitos de Desenvolvimento do Esmalte Em 1982, pesquisadores da Comission on Oral Health, Research and Epidemiology propuseram um sistema de classificação para os DDE e esse registro tomou-se o índice epidemiológico mais usado. Ele é denominado de DDE Index (Index of Developmental Defects of Dental Enamel). Foi normatizado de acordo com os seguintes critérios: superfície, tipo, número e demarcação e localização dos defeitos. Quanto ao número e demarcação dos defeitos, deve-se distinguir as apresentações: • Simples: Marcação única no dente de defeito bem diferenciado do esmalte normal adjacente; • Múltiplo: Mias de um defeito com margens bem definidas e diferenciado do esmalte adjacente normal; • Difuso em linhas brancas finas: Segue o padrão das periquimácias, com opacidade bem distinta. Linhas adjacentes de confluência podem ser observadas; • Difuso com áreas nebulosas irregulares: Opacidades bem distintas e com margens sem definição; Superfície Número e Demarcação dos Defeitos (N) A – Vestibular A – Simples B – Lingual B – Múltiplo C – Palatina C – Difusos (linhas finas brancas) D – Mesial D – Difusos (irregular) E – Distal Tipo de Defeito (TD) Localização dos Defeitos (L) A – Normal A – Nenhum B – Opacidade – branca/creme B – Metade gengival C – Opacidade – amarelo/marrom C – Borda incisal D – Hipoplasia – fossas D – Metade incisal e gengival E – Hipoplasia – Sulco horizontal E – Oclusal F – Hipoplasia – Sulco vertical F – Toda a cúspide G – Hipoplasia – falta do esmalte G – Toda a superfície H – Esmalte descolorido H – Outras combinações I – Outros defeitos Repercussões clínicas dos DDE A prevalência de cárie na dentição decídua em crianças que apresentam defeitos de desenvolvimento de esmalte é relatada na literatura como sendo maior do que nas sem defeitos. As primeiras apresentam fatores de risco para o desenvolvimento da doença cárie suficientes para que sejam classificadas como crianças de alto risco para o desenvolvimento de cárie dentária. O esmalte hipoplásico é retentivo para a placa e tais dentes são mais suscetíveis à cárie. Além disso, a hipocalcificação pode conduzir a uma progressão da cárie mais rápida. Os tratamentos empregados para reabilitar os dentes com DDE dependem da extensão da hipoplasia ou hipocalcificação do esmalte. As técnicas devem ser o menos invasivas possíveis, e a restauração deve ser sempre restrita a área envolvida. Nos casos em que houver grandes perdas de estrutura dentária, estão indicados procedimentos restauradores. A maioria das lesões podem ser restauradas com materiais resinosos. Nos casos onde os dentes apresentam amplas áreas de esmalte defeituosas, antes mesmo de irromperem por completo na cavidade bucal, pode-se fazer uso de cimentos ionoméricos e de vernizes de flúor para a redução da sensibilidade e evitar a destruição dos dentes afetados. Essas crianças são candidatas à terapêutica reabilitadora por coroas totais, prótese total e procedimentos ortodônticos. TAKAOKA, L. A. M. V.; GOULART, A. L.; CORRÊA, M. S. N. P. Defeitos de desenvolvimento do esmalte na dentição decídua. In: (Ed.). Odontopediatria na primeira infância, 2009. MOREIRA, Maria Paula Marquez Cruvinel; JULIANA, A. R. I. D.; ORTEGA, Mariana Martins. AMELOGÊNESE IMPERFEITA: REVISÃO DA LITERATURA. Revista Científica, v. 1, n. 1, 2022. BEVILACQUA, Flávia Magnani; SACRAMENTO, Tamires; FELÍCIO, Cristina Magnani. Amelogênese imperfeita, hipoplasia de esmalte e fluorose dental–revisão da literatura. Revista Brasileira Multidisciplinar-ReBraM, v. 13, n. 2, p. 136-148, 2010. CARVALHO, Patrícia de. Estudo epidemiológico dos defeitos de desenvolvimento do esmalte em crianças de 2 a 4 anos de idade do município de Santa Isabel, SP. 2021. Tese de Doutorado. Universidade de São Paulo.