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FILOSOFIA COM VIVIANE CATOLÉ 1 2 FILOSOFIA COM VIVIANE CATOLÉ ANTROPOLOGIA FILOSÓFICA - TRABALHO E ÓCIO “Antes havia os relógios d`água, antes havia os relógios de areia. O tempo fazia parte da natureza. Agora é uma abstração – unicamente denunciada por um tic- tac mecânico, como o acionar contínuo de um gatilho numa espécie de roleta russa. Por isso é que os antigos aceitavam mas naturalmente a morte.” (QUINTANA, Mario. Das ampulhetas e das clepsidras. 1997) O termo trabalho é originário do latim tripalium, que designa instrumento de tortura. Por extensão, significa aquilo que fatiga ou provoca dor. O trabalho é da idade do homem e é uma atividade pela qual o homem transforma o universo. Será que trabalhar é uma condição essencial ao homem? Ou o homem só trabalha por necessidade e pela ameaça de se poder extinguir se não trabalhar? Na filosofia, o trabalho foi tradicionalmente compre- endido como uma tarefa menor ao ócio contempla- tivo. Os indivíduos mais importantes eram aqueles ocupados com atividades ligadas ao pensamento, en- quanto o trabalho era compreendido como algo em- brutecedor. Esse pensamento só foi modificado após as revoluções burguesas, quando o trabalho passou a ser reconhecido como produtor de riqueza, dando origem ao pensamento liberal. Para Kant, o homem é o único animal votado ao trabalho. É necessária muita preparação para conseguir desfrutar do que é necessário à sua conservação. Mesmo que todas as condições existissem para que não houvesse necessidade do homem trabalhar, este precisa de ocupações, ainda que lhe sejam penosas. A ociosidade pode ser ainda um maior tormento para os homens. Michel Foucault tem outra perspectiva: em todos os momentos da história, a humanidade só trabalha perante a ameaça de morte, qualquer população que não encontre novos recursos está votada à extinção e, inversamente, à medida que os homens se multiplicam, empreendem trabalhos mais numerosos, mais difíceis e menos fecundos. O trabalho deve crescer de intensidade quanto maior for a ameaça de morte e por todos os meios terá de se tornar mais rentável, quanto de menos acesso as subsistências existirem. É como uma atividade penosa a que o homem não pode fugir que a concepção de trabalho herdou das suas origens grega e judaico-cristã. Só o êxito do capitalismo burguês, no século XIX, coloca o trabalho como um valor supremo de uma sociedade voltada para o lucro e para a prosperidade e crescimento. Para Marx, na segunda metade do século XIX, o trabalho era entendido como um instrumento de humanização dos indivíduos. Entretanto, no modo de produção capitalista, o trabalho torna-se trabalho alienado e o ser humano torna-se coisa, um análogo às máquinas e ferramentas para a produção. O trabalho constitui-se mais tarde como uma questão social com a produção industrial, o trabalho torna-se um fim em si mesmo e o trabalhador é um mero instrumento de produção, necessário ao funcionamento de uma fábrica, mas do qual existe a outra parte, o capital, necessário para a fábrica se estabelecer e que não depende do trabalhador. Nos nossos tempos, com novo sistema de valores, o trabalho é uma das dimensões em que o homem se realiza juntamente com a família, os tempos livres, os amigos, a cultura, etc. O trabalho é um processo universal, está presente em todos os homens, em todas as gerações, mas também tem uma dimensão pessoal, pois é através do sujeito que se efetua e esse sujeito, através do trabalho, tem uma forma de realização pessoal. Não se pode esquecer igualmente a sua vertente social, já que integra o homem num grupo profissional, onde estabelece relações interpessoais. FILOSOFIA COM VIVIANE CATOLÉ 3 Na época de desenvolvimento industrial, existiram conflitos de classes: Mundo do Trabalho versus Capitalismo. Para Marx, o trabalho é o prolongamento da atividade natural do homem, mas mais tarde conclui que a força de trabalho é uma mercadoria e que, para viver, o proletário vende o capital. Segundo Marx, o trabalho denuncia uma exploração econômica e uma situação em que o homem não se revê no seu trabalho mecanizado e repetitivo, ou seja, não obtém a realização profissional que deveria obter, referindo- se a uma essência do homem que seria suposto o trabalho completar. Ócio, Lazer e Tempo Livre na Sociedade do Consumo e do Trabalho O ócio é um fenômeno cultural presente na narrativa da humanidade através dos tempos. Por exemplo, na Grécia Antiga, figura como valor nobre, ligado ao desenvolvimento pessoal, por intermédio da filosofia política e cultural. Ócio deriva do termo grego scholé, que significa um estado de paz, de fruição criadora, condição para a sabedoria. Configura-se a partir de uma condição humana que busca conhecimento, autonomia, tempo e lugar para o prazer e reinvenção da vida — como a possibilidade de usufruir e decidir entre o que desejamos ou não fazer para o nosso desenvolvimento durante a prática tempo livre das obrigações sociais e profissionais. Tais projetos podem ao teatro pessoal para potencialização de virtudes a partir do contato com culturas culturais e como literatura, arte, práticas sociais, contemplação, conhecimento, festas políticas, contemplação, acesso, cujo interesse é somente complementar capital cultural à portanto, nos tornar pessoas mais e vida, criativas, inventivas, críticas, politizadas e humanizadas. Entretanto, os romanos não assimilaram essa visão grega do ócio. Adotaram o sentido dado do latim à palavra otium , que designa o ócio em oposição ao trabalho, considerado negotium, ou seja, negócio. Deixar ser uma dimensão da vida útil pessoal e passar a ser como desenvolvimento e útil do espírito útil, destinado ao tempo útil à recreação. O ócio transforma- se em diversão, considerado uma prática de atividades instrumentais ao serviço, muitas vezes, do controle político e religioso sobre o povo pelo viés da regulação da escolha das práticas, e em quais tempos e tempos devem acontecer. Por exemplo, o controle do calendário religioso que organizou, e ainda organiza, em alguns territórios, a vida social dos cidadãos. Essa ideia de trabalho até a transformação, com a mudan- ça de pensamento, Idade Média e Renascimento France- sa, está acontecendo com as transformações modernas. Durante esse processo, o mundo do trabalho, a Igreja e o Estado atuarão mais uma vez, retirando do trabalho, o protagonismo das escolhas como reguladores aos inte- resses culturais, transformando a produção cultural do povo em produção industrial, sustentando nos mesmos moldes do modelo de capital, ou seja, a oferta hoje ser vendida e comprada, chamada de mercado do lazer. Com intensas influências religiosas, profissionais como o trabalho uma virtude e o ócio, um vício a ser curado, oficinas do diabo populares, de origem religio- sa, nunca pareceram mais corretos, invertendo final- mente o sentido atribuído pelos gregos. Na moderni- dade, o fenômeno do negócio passa a ser denominado ociosidade, indo de encontro às expectativas do siste- ma de produção, e por isso é considerado um tempo improdutivo, impactado por tendências sociopolíticas, geopolíticas e somente aceito a partir da ideia de tempo de recuperação, às imposições da sociedade ocidental industrializada. A ócio entre tempo de trabalho e tem- po de trabalho se potencializam, decretando o fim do ócio vivido no tempo livre, pois, para muitos, nenhum tempo é livre, todo tempo é dinheiro. Nos grandes centros urbanos, o impacto dessa tensão reflete-se na falta de tempo para os cuidados com a saúde, o lazer, a cultura, a participação cidadã, entre outras dimensões da vida cotidiana. A ausência desse tempo gera o de uma vida mais singular e coletiva mais força de trabalho para encarar a luta a luta também pela força de trabalho para encarar a luta. Na tentativa de resistência à invasão lógica em todos os setores de produção dessa resistência, inclusive nos bens imateriais, as experiências dobens imateriais podem se configurar como formas de emancipação, pois esse tempo “poderá ser considerado como possibilidade de o homem, o ser-aí heideggereano, permanecer na escuta do ser e da verdade, logo, o mais próximo de si próprio que é possível” (BAPTISTA; VENTURA, 2014, p. 95). Pensar em um (re)posicionamento ao lugar das experiências de relacionamento só é possível se 4 FILOSOFIA COM VIVIANE CATOLÉ houver um maior equilíbrio entre essas dimensões. O tempo não é mais livre, também não é dinheiro, mas é necessário para a sobrevivência da condição humana e, portanto, deve ser (re)conquistado a partir de uma educação para e pelo lazer, possível aprender a melhor e lutar por esse direito social. Um dos caminhos para essa (re)conquista transita entre três polos distintos, porém complementares: cultura, políticas públicas e acesso a bens culturais. A cultura, pilar de sustentação das experiências de lazer, “ é uma única faceta da vida e da condição humana em que o conhecimento da realidade e do humano pelo autoperfeiçoamento e pela realização se fundem continuamente […], ela questiona constantemente a sabedoria, a serenidade e a autoridade que o real atribui a si mesmo” (BAUMAN, 2012, p. 300). Mas precisamos ficar atentos porque o sistema mercantil, os meios de comunicação e outras instituições de poder podem tentar moldar produtos culturais, como, por exemplo, a literatura, o esporte, o e a música, os quais são atravessados pela dinâmica social de classe, gênero , raça, idade e etnias e podem gerar a exclusão em tais experiências. No Brasil, quando houve a promul- gação da Constituição da República Federativa de 1988, foram estabe- lecidos vários direitos e objetivos fundamentais para a brasileira. Foi emergiram os debates sobre a legislação trabalhista que o lazer foi incluído como um direito social fundamental de todo cidadão. Con- forme consta no art. 6º, “direitos à proteção social à educação, à saúde, ao trabalho, à residência, lazer, à segurança, à maternidade e à infância, a assistência aos de proteção social, na forma de proteção social, aparados, na forma de proteção social, a proprie- dade, o lazer, a segurança à educação, a saúde, a direitos a proteção social, a lazer, a segurança, à educação, a saúde, a proteção social, à educação, a saúde, a proteção social, o la- zer, a segurança, a direitos a educação, a saúde, a proteção social, o lazer, a segurança à maternidade e à infância”. (BRASIL, 1988). REFERÊNCIAS BAPTISTA, MMRT; VENTURA, A. (Org). Do ócio: debates no contexto cultural contemporâneo. Gracio Editor: Coimbra/Portugal, 2014. BAUMAN, Z. Ensaios sobre o conceito de cultura. Rio de Janeiro: Anotações: