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SOCIOLOGIA COM VIVIANE CATOLÉ 1 2 SOCIOLOGIA COM VIVIANE CATOLÉ GÊNERO E SEXUALIDADE "Sexo", "sexualidade" e "gênero" são palavras que usamos para pensar sobre nossa identidade. No entanto, os termos não são tão simples quanto imaginamos. Sexo O que determina o sexo de uma pessoa é a anatomia do seu corpo. Ou seja, biologicamente, nascemos menino ou menina, em função de um órgão sexual. Esta ideia reflete o que todos temos aprendido: temos um sistema reprodutor, características físicas secundárias (como seios ou barba) e sexualmente somos definidos por esses elementos. Verdade? Não necessariamente. O sexo é apenas uma parte da identidade sexual de uma pessoa. É apenas a parte física desta individualidade, que pode encontrar diferentes posturas psicológicas. Gênero Segundo especialistas, gênero “é o que determina aquilo que culturalmente seriam características do ser masculino e do feminino”. Estariam incluídos nessa classificação a anatomia, forma, vestimentas, comportamentos, valores e seus respectivos interesses. Identidade de gênero A manifestação social da identidade de gênero de acordo com as expectativas culturais e sociais constitui o papel social de gênero. Papel social de gênero significa a forma como a sociedade espera que uma pessoa se comporte pelo fato de pertencer ao sexo masculino ou feminino. O papel social de gênero determina como homens e mulheres devem se vestir, pensar, falar e interagir. Os papeis sociais de gênero refletem os valores da sociedade e são transmitidos de geração em geração. Eles afetam a vida diária de quase todas as pessoas. Há homens e mulheres que não agem conforme seu papel social de gênero. Muitas pessoas não vivem de acordo com as expectativas da sociedade. Por exemplo, a esposa pode passar o dia no trabalho e o marido em casa, cuidando dos filhos. Contudo, é impossível mudar de papel sexual. O papel sexual de uma pessoa está anatomicamente limitado a um só gênero. Por exemplo, o homem não pode engravidar. Estereótipos de gênero Estereótipos de gênero são generalizações feitas sobre os comportamentos, as atitudes e as características de mulheres e homens. Os estereótipos podem ser positivos ou negativos, mas são raramente verdadeiros. A perpetuação de estereótipos de gênero é a base do machismo ou feminismo – crenças preconceituosas que dão mais valor a um sexo do que ao outro. É importante notar que há diversos graus de machismo e feminismo. Orientação sexual refere-se à atração romântica, emocional e sexual que uma pessoa sente em relação aos outros. Existe uma ampla gama de orientações sexuais com as quais uma pessoa pode se identificar, que incluem: SOCIOLOGIA COM VIVIANE CATOLÉ 3 • heterossexualidade; • homossexualidade; • assexualidade; • pansexualidade; • bissexualidade. Desigualdade de gênero A desigualdade de gênero ocorre quando há privilégio de um gênero em detrimento de outro, ou outros. Historicamente, os direitos e vontades do homem se sobrepuseram aos das mulheres e pessoas não- binárias. Essa diferença está enraizada em nossa sociedade sob a forma do machismo, muito em função de uma cultura patriarcal ultrapassada. Isso porque a estrutura familiar e as relações sociais antigas colocavam o gênero masculino no lugar mais elevado da pirâmide social. Os homens trabalhavam fora, tomavam as decisões e impunham suas vontades às suas esposas e filhos. Entretanto, desde crianças, também fomos ensinados a diferenciar as pessoas pelo gênero, o que reforça o preceito de que é preciso rotular as pessoas e, consequentemente, prejulgá-las. Quais as origens e causas da desigualdade de gênero? É necessário reforçar que o gênero, determinado pelos cromossomos em nossa genética, não é um parâ- metro para definir nossos direitos e deveres nas re- lações sociais. No entanto, historicamente, as mulhe- res receberam um papel de submissão na pirâmide social. Enquanto os homens trabalhavam fora, tinham direitos políticos e podiam estudar, as mulheres cuidavam da casa e dos filhos. A superioridade financeira masculina potencializava a dependência da mulher e limitava o seu poder de escolha. Além disso, a percepção coletiva de que essa formação social está errada demanda muitos fatores, tornando o processo lento. Até hoje, os meninos ganham foguetes, aviões, kits de ciências ou carros conversíveis, enquanto as meninas brincam de casinha e bonecas. Sem perceber, as famílias educam suas filhas mulheres a terem atribuições domésticas e serem submissas aos seus companheiros. Por isso, esses fatores, muitas vezes, estão intrínsecos em nossa cultura. Algumas causas da desigualdade de gênero abrangem a existência e perpetuação de conceitos normativos, que reforçam a necessidade de rotular pessoas e estabelecer uma divisão. Além disso, a falta de representatividade, evidenciada pela predominância de símbolos culturais masculinos — grandes pensadores, figuras históricas e até seres mitológicos que são predominantemente homens —, dificultam essa mudança na percepção da sociedade. Logo, superioridade econômica e questões culturais são fatores que contribuem para a desigualdade de gênero. Entretanto, essa diferenciação pode ser atribuída a outras questões. O que justificaria a existência de mulheres que perpetuam o discurso machista? Como explicar que mulheres brancas simpatizam mais por homens brancos do que por mulheres negras, ou que mulheres de classes sociais mais altas se solidarizam mais por homens da mesma classe que mulheres de classes inferiores? Por muito tempo, a mulher foi considerada inferior e incapaz. Infelizmente, nos dias atuais, elas ainda experimentam o peso de tentar se libertar dessa perpetuação do patriarcado. Mas é preciso olhar para o passado a fim de estabelecer um parâmetro de mudança. Quais as consequências dessa desigualdade para a nossa sociedade? A desigualdade de gênero tem consequências graves em nossas relações sociais. Ela é usada como justificativa para a violência, reforça a falta de representatividade nos espaços e as diferenças salariais. Desigualdade de gênero no Brasil A igualdade entre homens e mulheres no Brasil foi consagrada na Constituição de 1988. Desde então, têm sido desenvolvidas políticas públicas e legislação específica para mulheres no âmbito político, no 4 SOCIOLOGIA COM VIVIANE CATOLÉ mercado de trabalho e no ambiente doméstico. Há avanços e uma ampliação da participação feminina em todas as esferas, mas ainda há muitos obstáculos a superar para que igualdade promulgada em lei seja plenamente efetiva na sociedade brasileira. Em 2019, conforme o Fórum Econômico Mundial, o Brasil ocupava a 92ª posição em um ranking que mede a igualdade entre homens e mulheres num universo de 153 países. As mulheres brasileiras estão sub-representadas na política, têm remuneração menor, sofrem mais assédio e estão mais vulneráveis ao desemprego. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil é o quinto país do mundo em número de feminicídios. Observando dados educacionais, é possível perceber que as mulheres permanecem mais tempo na escola e têm maior escolaridade do que os homens. De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílio Contínua de 2016, feita pelo IBGE, na população entre 25 e 44 anos, 21,5% das mulheres concluíram o Ensino Superior, enquanto entre os homens o percentual era de 15,6%. No entanto, a maior escolaridade não se reflete no mercado de trabalho. Conforme o IBGE, em 2017, as mulheres brasileiras ganhavam em média 24% menos que os homens e eram mais afetadas pelo desemprego (13.4%) do que os homens (10,5%). Quando as pesquisas são estratificadas entre mulheres brancas e negras, observa-se que entre estas a taxa de desemprego era ainda maior, 15,9% contra 10,6% entre as mulheres brancas. Um estudo realizado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) constatou que a maternidade é um dos principais motivos de discriminação sofridapor mulheres no mercado de trabalho. A pesquisa que acompanhou a licença-maternidade de um grande grupo de mulheres entre 2009 e 2012 apontou que metade delas foi demitida no período de até dois anos após tirarem a licença. Conforme a pesquisadora Cecília Machado, os salários são baixos para ser possível pagar por uma babá ou escola privada, as creches públicas não absorvem a demanda e muitas empresas não têm um suporte para funcionárias que são mães, sendo que esse conjunto de fatores retira muitas delas do mercado de trabalho. Em relação ao assédio e à violência, embora haja avanços, especialmente após a promulgação da Lei Maria da Penha (2006), é necessário ampliar a proteção de mulheres por meio de políticas públicas. Quando o assunto é participação política, conforme o Mapa Mulheres na Política 2019, relatório da ONU, o Brasil ocupa a 134ª posição entre 193 países no ranking de representação feminina no Parlamento. O percentual de mulheres no atual Congresso Nacional é somente de 15%. Dados sobre a desigualdade de gênero O Fórum Econômico Mundial realiza anualmente uma pesquisa que compara a paridade de gênero entre 153 países. Conforme dados de 2019, a equidade de gênero no mercado de trabalho só será alcançada daqui a 257 anos se permanecermos no ritmo atual. A área trabalhista, no ano 2019, foi a única em que houve regressão. Nas demais: saúde, educação e política, os índices foram melhores que no ano anterior. Conforme o relatório, na área trabalhista, a diferença salarial é decorrente do baixo número de mulheres em cargos gerenciais e também de outros fatores, como congelamento de salários e menor participação na força produtiva. Quando se olha a disparidade de gênero de maneira global, envolvendo todas as variáveis, e não só o mercado de trabalho, a estimativa é que o tempo necessário para alcançar-se a plena equidade entre homens e mulheres no mundo é 99,5 anos. Os países nórdicos são os mais igualitários do mundo. Em primeiro lugar no ranking está a Islândia, seguida da Noruega, Finlândia e Suécia. REFERÊNCIAS Renata Pádua, Sexo, sexualidade e gênero.