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FR EN TE 2 AULA 14 Romantismo na Europa 75 André Capelão, autor da época (Tratado do amor cortês, ed. Martins Fontes), sintetiza esse amor como sendo uma “doença do pensamento”. Doença essa que podemos descrever como uma forma de obsessão em saber o que ela está pensando, o que ela está fazendo nessa exata hora em que penso nela, com o que ela sonha à noite, como é seu corpo por baixo da roupa que a veste, o desejo incontrolável de ouvir sua voz, de sentir seu perfume. Mas a doença avança: sentir o gosto da sua boca, beijá-la por horas a fio. Mas, quando em público, jamais deixe ninguém saber que se amam. Capelão chega a supor que desmaios femininos poderiam ser indicativos de que a infeliz estaria em presença de seu desgraçado objeto de amor inconfessável. A inveja dos outros pelos amantes, apesar de condenados à tristeza pela interdição sempre presente nas narrativas (casados com outras pessoas, detentores de responsabilidades públicas e privadas), se dá pelo fato que se trata de uma doença encantadora quando correspondida. Nada é mais forte do que o desejo de estar com alguém a quem você se sente ligado, mesmo que a milhares de quilô- metros de distância, sem poder trocar um único olhar ou toque com ela. O erro dos modernos românticos teria sido a ilusão de que esses medievais imaginariam o amor romântico numa escala universal e capaz de conviver com um apartamento de dois quartos, pago em cem anos. Não, o amor cortês seria algo que deveríamos temer justamente por seu caráter intempestivo e avassalador. Sempre fora do casamento, teria contra ele a condenação da norma social ou religiosa que, aos poucos, levaria as suas vítimas à destruição, psicológica ou física. Para os medievais, um homem arrebatado por esse amor tomaria decisões que destruiriam seu patrimônio. A mulher perderia sua reputação. Ambos viriam, necessariamente, a morrer por conta desse amor, fosse ele em batalha, por obrigação de guerreiro, fosse fugindo do horror de trair seu melhor amigo com sua até então fiel esposa. Ela morreria eventualmente de tristeza, vergonha e solidão num convento, buscando a paz de espírito há muito perdida. A distância física, social ou moral, proibindo a realização plena desse desejo incessante como tortura cotidiana. O poeta mexicano Octavio Paz, que dedicou alguns textos ao tema, entendia que a literatura medieval descrevia o em- bate entre virtude e desejo, sendo a desgraça dos apaixonados a maldição de ter que pôr medida nesse desejo (nesse amor fora do lugar), em meio à insuportável culpa de estar doente de amor. Luiz Felipe Pondé. Folha de S.Paulo, 16 maio 2016. Disponível em: <www1.folha.uol.com.br/colunas/ luizfelipeponde/2016/05/1771569-a-doenca-do-amor.shtml>. Acesso em: 21 set. 2016. (Adapt.). Depreende-se do texto que o amor romântico se caracteriza pela tensão entre: A ideais dos escritores medievais e dos escritores modernos. B expectativa do plano ideal e experiência no plano real. c sentimentos de profundo desejo e de tristeza. D anseio do público adulto e do público jovem. Língua Portuguesa • Livro 1 • Frente 2 • Capítulo 4 I. Leia as páginas de 334 a 336. II. Faça os exercícios de 1 a 6 da seção “Revisando”. III. Faça os exercícios propostos 5, 6 e 9. Guia de estudos MED_2021_L1_POR_F2.INDD / 24-09-2020 (16:17) / GISELE.BAPTISTA / PROVA FINAL MED_2021_L1_POR_F2.INDD / 24-09-2020 (16:17) / GISELE.BAPTISTA / PROVA FINAL LíNGUA PoRTUGUEsA AULA 15 Romantismo: de Portugal ao Brasil76 FRENTE 2 AULA 15 Romantismo: de Portugal ao Brasil y O Romantismo português desenvolveu-se em um cenário conturbado, tanto do ponto de vista políti- co como econômico. No início do século XIX, dois eventos foram decisivos na história de Portugal: a fuga da família real para o Brasil, devido à invasão napoleônica que motivou uma reação para livrar a nação portuguesa de uma difícil conjuntura; e a Inde- pendência do Brasil, que ocasionou a perda de um importante mercado exportador. y As primeiras publicações de obras classificadas como românticas pelos críticos tradicionais constituíram o início de uma revolução literária. Diante de uma nova conjuntura social, amplia-se o público leitor e se ex- pandem os meios de circulação. y Os escritores, além de se dedicarem à literatura, pas- saram a exercer também uma função política à medida que disseminavam suas opiniões, suas aspirações e seus ideais em jornais e revistas do período. y As características do Romantismo no mundo se repe- tem no Romantismo português: exaltação do caráter nacional, figura do herói, sentimentalismo e emoção em detrimento da razão. y O início do Romantismo português se dá com a pu- blicação do poema “Camões”, de Almeida Garrett. Além de poeta e romancista, Garrett atuou como dramaturgo, ensaísta, jornalista, orador, pedagogo, político, legislador e jurista, sendo, por isso, uma per- sonalidade marcante que viveu momentos decisivos da história de Portugal. y Alexandre Herculano, autor de Eurico, o presbítero, foi outro escritor importante do Romantismo português. Sua formação cultural se deu em meio às instabilida- des e incertezas das invasões francesas, chegando a participar de forma ativa nas questões políticas que afe- tavam o seu país. As experiências de Herculano com a literatura tiveram início, sobretudo, na poesia, e se nota- bilizou por introduzir o romance histórico em Portugal, gênero que veio a se tornar o principal guia das nar- rativas do Romantismo português, sendo o patriotismo e o resgate ao passado as matérias que sustentam as inúmeras tendências e interesses do período. y camilo castelo Branco traduziu, em sua obra, os sen- timentos da fase europeia de transição entre o arcaico modelo feudal e o Romantismo, a modernidade e as no- vas estruturas sociais. Em sua produção literária, o autor procura se equilibrar entre a realidade de seu tempo e a antipatia que nutria em relação ao espírito burguês orientado ao lucro. Produziu narrativas passionais, ele- vando ao extremo o sentimentalismo romântico. Entre essas narrativas, a mais famosa é Amor de perdição. y O Romantismo é um movimento especialmente im- portante para a literatura brasileira, pois representa o momento em que surgiu a necessidade de definir uma identidade própria da nação recém-independente. É preciso ressaltar que a cultura e as estruturas so- ciais historicamente estabelecidas em Portugal foram transpostas para o Brasil, mesmo que ainda de forma muito estranha aos padrões da sociedade europeia. C ap a © M ik ae lD am ki er | D re am st im e. co m 3 J oã o C ris tin o da S ilv a /M N A C (D om ín io p úb lic o) Fig. 15 João Cristino da Silva, Cinco artistas em Sintra, 1855, óleo sobre tela, Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa, Portugal. MED_2021_L1_POR_F2.INDD / 24-09-2020 (16:17) / GISELE.BAPTISTA / PROVA FINAL MED_2021_L1_POR_F2.INDD / 24-09-2020 (16:17) / GISELE.BAPTISTA / PROVA FINAL Frente 2 - Língua Portuguesa Aula 15 - Romantismo: de Portugal ao Brasil