Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Prévia do material em texto

Desde a infância acreditamos que o mundo existe, 
que é tal como o percebemos e tal como nos 
ensinaram que ele é. Essa crença permite, por exemplo, 
que modifiquemos a realidade, organizemo-nos 
economicamente, criemos instituições sociais e políticas. 
Acreditamos que o mundo pode ser modificado por nós, 
e também que ele é explicado pelas religiões e ciências 
e que é representado pelas artes. Acreditamos que os 
outros seres humanos também são racionais, pois, 
graças à linguagem, trocamos ideias e opiniões. 
Porém, o que assegura que os conhecimentos sobre 
os quais nossa crença se apoia são verdadeiros? 
Qual é a garantia de que nosso conhecimento não 
passa de um engano, de um erro, de que nossas opiniões 
sejam falsas e não correspondam à realidade?
Trabalhadores rurais procuram 
gafanhotos à noite em uma 
fazenda de arroz em Kampong 
Thom, Camboja, em 2007. 
Eles usam esses insetos para 
consumo próprio e para o 
comércio. A prática do trabalho 
humano só é possível porque 
acreditamos que o mundo existe 
tal como o percebemos e tal 
como nos ensinaram que ele é.
capítulo
12
Buscando a 
verdade
Mak Remissa/epa/Corbis
108
INI.FILOSOFIA_FILOS_VU_PNLD15_108a116_U03_C12.indd 108 5/9/13 1:19 PM
Buscando a verdade
ca
pí
t
u
lo
 1
2
109
Dogmatismo, estranhamento 
e busca da verdade
Nos diferentes caminhos que Sócrates e Descartes tri­
lham em busca do conhecimento verdadeiro sobre a rea­
lidade, notamos um procedimento comum: ambos des­
confiam não só das opiniões e crenças do seu tempo, 
mas também das suas próprias ideias e opiniões. Des­
confiam, enfim, do dogmatismo. O que é dogmatismo?
Dogmatismo é uma atitude natural e espontânea 
que temos desde crianças. É nossa crença de que o 
mundo existe e que é exatamente da forma como o 
percebemos. A realidade natural, social, política e cul­
tural forma uma espécie de moldura de um quadro em 
cujo interior nos instalamos e existimos. Temos essa 
crença porque nos relacionamos com a realidade 
como se ela fosse um conjunto de coisas, fatos e pes-
soas úteis ou inúteis para nossa sobrevivência.
Porém, é possível romper com o dogmatismo se for­
mos capazes de uma atitude de estranhamento diante 
das coisas que nos pareciam familiares. Para ilustrar 
essa experiência, vejamos um trecho da crônica “Nada 
mais que um inseto”, da escritora Clarice Lispector:
Custei um pouco a compreender o que estava ven-
do, de tão inesperado e sutil que era: estava vendo 
um inseto pousado, verde-claro, de pernas altas. Era 
uma esperança, o que sempre me disseram que é de 
bom augúrio. Depois a esperança começou a andar 
bem de leve sobre o colchão. Era verde transparente, 
com pernas que mantinham seu corpo, plano alto e 
por assim dizer solto, um plano tão frágil quanto as 
próprias pernas que eram feitas apenas da cor da cas-
ca. Dentro do fiapo das pernas não havia nada den-
tro: o lado de dentro de uma superfície tão rasa já é a 
própria superfície. Parecia um raso desenho que ti-
vesse saído do papel, verde, e andasse... E andava com 
uma determinação de quem copiasse um traço que 
era invisível para mim... Mas onde estariam nele as 
glândulas de seu destino e as adrenalinas de seu seco 
verde interior? Pois era um ser oco, um enxerto de 
gravetos, simples atração eletiva de linhas verdes.
LISPECTOR, Clarice. Nada mais que um inseto. In: 
A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 2008.
À primeira vista, o que há de mais banal ou familiar 
do que um inseto? No entanto, Clarice Lispector nos faz 
sentir admiração e estranhamento, como se jamais ti­
véssemos visto um. Na descrição maravilhada, a espe-
rança (inseto aparentado aos grilos e gafanhotos) tem a 
peculiaridade de ser uma superfície na qual não conse­
guimos distinguir ou separar o exterior e o interior.
No entanto, nesse ser sem profundidade, há um 
abismo misterioso: o inseto esperança é um oco, 
um vazio colorido (como um vazio pode ter cor?) ou 
uma cor sem corpo (como uma cor pode existir sem um 
corpo colorido?).
Verdades reveladas e verdades 
alcançadas
A atitude dogmática é conservadora, isto é, se pre­
serva das novidades, do inesperado, do desconhecido e 
de tudo o que possa desequilibrar as crenças e opiniões 
já constituídas. Esse conservadorismo se transforma 
em preconceito, em ideias preconcebidas que impe­
dem até mesmo o contato com tudo quanto possa pôr 
em perigo o já sabido, o já dito e o já feito.
A perspicácia (1936), pintura de René Magritte (1898-1967). 
A atitude de estranhamento nos permite conquistar um novo 
saber sobre os objetos, muito além do que já tínhamos.
 C
o
le
ç
ã
o
 p
a
rt
ic
u
la
r/
F
o
n
d
a
ti
o
n
 M
a
g
ri
tt
e
INI.FILOSOFIA_FILOS_VU_PNLD15_108a116_U03_C12.indd 109 5/9/13 1:19 PM
A verdade 
u
n
id
a
d
e
 I
I
I
110
O conservadorismo pode aumentar quando o dog­
matismo estiver convencido de que várias de suas opi­
niões e crenças vieram de uma fonte sagrada, de uma 
revelação divina incontestável. Quem ousa en­
frentar essas crenças e opiniões com argumentos racio­
nais é tido como criminoso, blasfemador e herético.
O verdadeiro se opõe ao falso, pseudos, que é o enco­
berto, o dissimulado, o que não é como parece. O ver­
dadeiro é o plenamente visível para a razão ou o evi­
dente (pois a palavra evidência significa ‘visão completa 
e total de alguma coisa’).
Assim, a verdade é uma automanifestação da 
realidade ou a manifestação dos seres à visão inte­
lectual dos humanos. Ela é uma qualidade das pró­
prias coisas (o mostrar­se a si mesmas), e o verdadeiro 
está nas próprias coisas quando o que elas manifes­
tam é sua realidade própria. Por isso, na concepção 
grega, o verdadeiro é o ser (o que algo realmente é) e o 
falso é o parecer (o que algo aparenta ser e não é).
Em latim, verdade se diz veritas e se refere à precisão 
e ao rigor de um relato. Verdadeiro se refere, portanto, 
à linguagem como narrativa de fatos reais. A verdade 
depende, de um lado, da veracidade, da memória e da 
acuidade mental de quem fala e, de outro, de que o 
enunciado corresponda aos fatos. A verdade não se 
refere às próprias coisas (como na alétheia), mas ao re­
lato e ao enunciado, à linguagem. Seu oposto, portanto, 
verdade revelada, verdade
 alcançada
No romance de Umberto Eco 
O nome da rosa, 
o monge Guilherme de Baske
rville busca o 
responsável por uma série de
 assassinatos de 
frades copistas. Ele descobre
 que todos haviam 
sido envenenados ao manuse
ar um livro de 
Aristóteles sobre a importânc
ia do riso. Jorge de 
Burgos, monge guardião da b
iblioteca e autor do 
envenenamento, julgava que 
o riso é contrário à 
vontade de Deus, pois viemos
 ao mundo para sofrer 
a culpa original de Adão. 
Nesse romance, há duas ideia
s em conflito: a 
verdade alcançada ou humana
, que estaria contida 
no livro de Aristóteles, e a ver
dade revelada ou 
divina, que o bibliotecário julg
a estar na proibição 
do riso. Em nome dessa segu
nda verdade, Jorge de 
Burgos mata pessoas e queim
a livros originados da 
racionalidade humana, pois, p
ara ele, uma verdade 
revelada por Deus é única e in
contestável.
O monge franciscano Guilherme (ou William) de Baskerville, 
interpretado por Sean Connery, e o bibliotecário Jorge de Burgos 
(Feodor Chaliapin Jr.) na adaptação cinematográfica do romance 
O nome da rosa, realizada em 1986. Para Jorge, a verdade divina 
condena o riso como uma ameaça à fé em Deus.
manifestação da realidade
Quando os filósofos antigos e 
modernos afirmam 
que a verdade é conformidad
e ou correspondência 
entre a ideia e a coisa e vice-v
ersa, não estão di-
zendo que uma ideia verdade
ira é uma “cópia” da 
coisa verdadeira. Como disse
 um filósofo, a ideia 
de cão não late e a de açúcar 
não é doce. O que os 
filósofos afirmam é que a idei
a corresponde à coisa 
conhecida porque é o conhec
imento da estrutura 
da coisa, das relações interna
s necessárias que 
constituem a essência da cois
a e das relações e 
nexosnecessários que ela ma
ntém com outras. 
Esse conflito entre verdades reveladas e verdades al­
cançadas preocupa a filosofia desde o surgimento do 
cristianismo. Podemos conhecer as verdades divinas? 
Se não pudermos conhecê­las, seremos culpados? Mas 
como seríamos culpados por não conhecer aquilo que 
nosso intelecto, por ser menor do que o de Deus, não 
teria forças para alcançar?
As concepções da verdade
Nossa ideia da verdade foi construída ao longo dos 
séculos com base em três concepções diferentes, vin­
das da língua grega, da latina e da hebraica.
Em grego, verdade se diz alétheia, palavra composta 
do prefixo a (‘negação’) e de léthe (‘esquecimento’). 
Alétheia significa ‘o não esquecido’, o que remete ao 
Mito de Er, visto no capítulo 9. Platão fala da verdade 
como “o que é lembrado ou não esquecido”. Por extensão 
do sentido, alétheia também significa ‘o não escondido, 
não dissimulado’, aquilo que se manifesta ou se mostra 
aos olhos do corpo e do espírito.
N
e
u
e
 C
o
n
s
ta
n
ti
n
 F
il
m
/C
r
is
ta
ld
if
il
m
/L
e
s
 F
il
m
s
 A
r
ia
n
e
INI.FILOSOFIA_FILOS_VU_PNLD15_108a116_U03_C12.indd 110 5/9/13 1:19 PM
ca
pí
t
u
lo
 1
2
111
Buscando a verdade
não é a aparência, e sim a mentira ou a falsificação. As 
coisas e os fatos são reais ou imaginários; já os enuncia­
dos sobre eles são verdadeiros ou falsos.
Em hebraico, verdade se diz emunah e também sig­
nifica ‘confiança’. Agora são as pessoas e Deus quem 
são verdadeiros e, para isso, devem cumprir o que pro­
metem, ser fiéis à palavra dada. A verdade se relaciona 
com a presença, a cumplicidade de alguém (Deus ou 
humano) e com a espera de que a promessa ou o pac­
to se cumpra. Por isso, a verdade refere­se ao futuro. 
Sua forma mais elevada é a revelação divina, e sua ex­
pressão mais perfeita é a profecia.
A nossa concepção da verdade é uma síntese des­
sas três concepções e por isso se refere à percepção 
das coisas reais (como na alétheia), à linguagem que 
relata fatos passados (como na veritas) e à expectativa 
de coisas futuras (como na emunah). Ou seja, nossa 
concepção da verdade abrange o que é (a realida-
de), o que foi (os acontecimentos passados) e o que 
será (as ações futuras).
Diferentes teorias sobre a verdade
Algumas teorias filosóficas concebem a natureza do 
conhecimento verdadeiro com base nas ideias de ver­
dade que acabamos de conhecer. Outra teoria define o 
conhecimento verdadeiro por um critério que não é 
teórico, e sim prático. Vamos conhecê­las.
Quando prevalece a alétheia, a teoria considera que 
o conhecimento verdadeiro é a apreensão intelectual e 
racional da verdade que está nas próprias coisas. Sua 
marca é a evidência, a visão da realidade tal como ela é, 
alcançada pelas operações de nossa razão.
Quando predomina a veritas, a teoria considera que 
nossas ideias relatam em nossa mente os fatos ou acon­
tecimentos. Elas serão verdadeiras quando obedece­
rem a princípios e normas de uma linguagem rigorosa. 
Agora não se diz que algo é verdadeiro porque corres­
ponde a uma realidade externa, mas se diz que algo 
corresponde à realidade externa porque é verdadeiro. 
O critério da verdade é dado pela coerência das ideias e 
das cadeias de ideias que formam um raciocínio. Sua 
marca é a validade lógica.
Quando predomina a emunah, a teoria considera 
que a verdade depende de um acordo ou de um pacto 
entre os pesquisadores, que definem um conjunto de 
convenções universais sobre o conhecimento verdadei­
ro a serem respeitadas. A marca da verdade é o consen-
so e a confiança recíprocos entre os membros de uma 
comunidade de pesquisadores e estudiosos.
Por fim, quando predomina não um critério teóri­
co, mas sim prático, na orientação de seus procedi­
mentos em busca da verdade, trata­se de uma teoria 
pragmática. 
O tempo desvela a verdade, obra do 
pintor Giovanni Domenico Cerrini 
(1609-1681). A manifestação da verdade 
está simbolizada não apenas pelo 
desvelamento da mulher luminosa, 
observada com espanto e admiração 
pelas pessoas na parte inferior da tela, 
mas também pelo livro – a verdade 
como narração – próximo à mão 
direita dela. 
pragmática
Palavra derivada do grego pra
gmatikós, que significa 
‘o que é próprio da ação, o que
 é eficaz’, que, por sua 
vez, origina-se de pragma, que
 quer dizer ‘a ação que 
se faz, o que se faz, o que se de
ve fazer’.
T
h
e
 B
ri
d
g
e
m
a
n
 A
rt
 L
ib
ra
ry
/K
e
y
s
to
n
e
INI.FILOSOFIA_FILOS_VU_PNLD15_108a116_U03_C12.indd 111 5/9/13 1:20 PM
A verdade 
u
n
id
a
d
e
 I
I
I
112
Para essa teoria, um conhecimento é verdadeiro por 
seus resultados e suas aplicações práticas, e se verifica 
pela experimentação e pela experiência. A marca do 
verdadeiro é a verificabilidade dos resultados e a eficá-
cia de sua aplicação. Essa concepção da verdade está 
muito próxima da teoria da correspondência entre coi-
sa e ideia, para a qual o resultado prático, na maioria 
das vezes, é conseguido porque o conhecimento alcan-
çou as próprias coisas e pode agir sobre elas.
Verdade e falsidade
Se observarmos a concepção grega da verdade, no-
taremos que nela a realidade – o que manifesta sua 
existência para nossa percepção – é o verdadeiro ou a 
verdade. Por esse motivo os filósofos gregos pergun-
tam: como o erro, o falso e a mentira são possíveis? Em 
outras palavras, como podemos pensar naquilo que 
não é, não existe, se o erro, o falso e a mentira só po-
dem se referir ao que não é, ao não ser?
A resposta dos filósofos gregos é dupla:
1. o erro, o falso e a mentira se referem à aparência su-
perficial e ilusória das coisas e surgem quando não 
conseguimos alcançar a essência das realidades; são 
um defeito ou uma falha de nossa percepção senso-
rial ou intelectual;
2. o erro, o falso e a mentira surgem quando dizemos 
de algum ser aquilo que ele não é, quando lhe atribuí-
mos qualidades ou propriedades que ele não possui 
ou quando lhe negamos qualidades ou propriedades 
que ele possui. Nesse caso, o erro, o falso e a mentira 
se alojam na linguagem e acontecem no momento 
em que fazemos afirmações ou negações que não 
correspondem à essência de alguma coisa. Eles são 
um acontecimento do juízo ou do enunciado.
Há, porém, uma diferença entre o erro, de um lado, e a 
mentira, de outro. O erro é um engano do juízo e ocorre 
quando desconhecemos a essência de um ser. A mentira, 
porém, é um juízo deliberadamente errado; isto é, embo-
ra conheçamos a essência de alguma coisa, emitimos 
propositalmente um juízo errado sobre ela.
O que é a verdade? É a conformidade entre nosso pen-
samento e nosso juízo e as coisas pensadas ou formula-
das. Qual a condição para o conhecimento verdadeiro? 
A evidência, isto é, a visão intelectual da essência de um 
ser. Para formular um juízo verdadeiro precisamos, por-
tanto, primeiro conhecer a essência, e a conhecemos ou 
por intuição, ou por dedução, ou por indução.
Sobre a construção e a aceitação da verdade
O que, em verdade, sabe o homem sobre si mesmo? Algum dia poderia ele perceber-
-se inteiramente, exposto como numa vitrine iluminada? [...]
Na medida em que o indivíduo, em oposição a outros indivíduos, quer conservar-se num 
estado natural das coisas, ele utiliza o intelecto na maioria das vezes somente para a dissimu-
lação: mas porque ao mesmo tempo o homem, por necessidade e tédio, quer existir social e 
gregariamente, ele precisa de um tratado de paz [...]. Esse tratado de paz implica algo que 
lembra o primeiro passo daquele enigmático impulso à verdade. Agora é fixado aquilo que a 
partir de então deve ser “verdade”, quer dizer, é inventada uma designação das coisas igual-
mente válida e obrigatória, e a legislação da linguagem institui também as primeiras leis da 
verdade: pois surge aqui, pela primeira vez, o contraste entre verdade e mentira. O mentiroso 
utiliza as denominações válidas, as palavras, para fazer parecer o irreal como real; ele diz, por 
exemplo: “sou rico”, enquantoa designação correta para o seu estado seria justamente “po-
bre”. Ele abusa das convenções estabelecidas através de trocas quaisquer ou mesmo inver-
sões de nomes. Se faz isso de maneira egoísta e prejudicial, a sociedade não mais confiará 
nele e o excluirá de si. Nisso, os homens não evitam tanto ser enganados quanto serem pre-
judicados pelo engano: também nesse nível, eles basicamente não odeiam o engano, mas as 
consequências graves e hostis de certos tipos de engano. É num sentido semelhante e restri-
to que o homem quer somente a verdade: ele ambiciona as agradáveis consequências da 
verdade, que conservam a vida; e é indiferente ao conhecimento puro, sem consequências, 
se indispõe até mesmo de modo hostil às verdades talvez prejudiciais e destrutivas. 
NIETZSCH E , Friedrich. 
Sobre a verdade e a 
mentira em um sentido 
“extramoral” (1873). 
In: M A RCON DES, 
Danilo. Textos 
básicos de filosofia: 
dos pré-socráticos a 
Wittgenstein. Rio de 
Janeiro: Jorge Zahar, 
2000. p. 141-142.
diálogos
filosóficos
INI.FILOSOFIA_FILOS_VU_PNLD15_108a116_U03_C12.indd 112 6/20/14 10:13 AM
Buscando a verdade
ca
pí
t
u
lo
 1
2
113
A verdade exige que nos libertemos das aparências das 
coisas para ver intelectualmente a essência delas; exige, 
portanto, que nos libertemos das opiniões estabelecidas e 
das ilusões de nossos órgãos dos sentidos. Em outras pala-
vras, a verdade é sempre universal e necessária, enquanto 
as opiniões variam de lugar para lugar, de época para épo-
ca, de sociedade para sociedade, de pessoa para pessoa.
O mesmo deve ser dito sobre nossas sensações ou im-
pressões sensoriais, que variam conforme o estado do 
nosso corpo, as disposições de nosso espírito e as condi-
ções em que as coisas nos aparecem. Por isso, devemos 
ou abandonar as ideias baseadas nas nossas sensações 
(como dizem Sócrates, Platão, Descartes), ou encontrar 
aqueles aspectos da experiência sensorial que são neces-
sários e universais e, por isso, capazes de perceber em 
parte algo da essência real das coisas (como diz, por 
exemplo, Aristóteles).
No primeiro caso (abandono da sensação), somente o 
intelecto (espírito) vê o ser verdadeiro. No segundo caso 
(aceitação dos aspectos necessários e universais da sen-
sação), o intelecto purifica o testemunho sensorial.
Como a verdade é possível?
O que é aceitar parcialmente os dados da experiên-
cia sensorial? Por exemplo, quando estou doente, chei-
ro a flor e não sinto seu perfume, muito embora ela o 
tenha em abundância; vejo algo embaçado e sem for-
ma, quando, na verdade, trata-se de um objeto com cor 
e forma bem definidas. Apesar desses enganos dos sen-
tidos, observo que toda percepção capta qualidades 
nas coisas; portanto, as qualidades pertencem à essên-
cia das próprias coisas e fazem parte da verdade delas.
Quando se examina a ideia latina da verdade como 
veracidade de um relato, pode-se observar que o pro-
blema da verdade e do erro, do falso e da mentira, deslo-
cou-se diretamente para o campo da linguagem. O ver-
dadeiro e o falso estão menos no ato de ver (com os 
olhos do corpo ou com os olhos do espírito) e mais no 
ato de dizer. Por isso, a pergunta dos filósofos, agora, é 
exatamente contrária à anterior: em vez de perguntar 
“como o erro e a falsidade são possíveis?”, pergunta-se 
“como a verdade é possível?”.
Por que essa pergunta? Porque, se a verdade está no dis-
curso ou na linguagem, não depende só do pensamento e 
das próprias coisas, mas também de nossa vontade para 
dizê-la, silenciá-la ou deformá-la. O verdadeiro continua 
sendo tomado como conformidade entre a ideia e as coi-
sas, mas depende também de nosso querer.
Essas questões foram posteriormente examinadas pe-
los filósofos racionalistas modernos, como Descartes. 
Eles introduziram a exigência de começar a filosofia pelo 
exame de nossa consciência para saber o que podemos 
conhecer realmente e quais auxílios devem ser ofereci-
dos ao nosso intelecto para que controle e domine nossa 
vontade e a submeta ao verdadeiro.
Os juízos sintéticos a priori
Quando estudamos a razão, vimos os problemas cria-
dos pelo inatismo e pelo empirismo, a solução de Leibniz 
e também a “revolução copernicana” de Kant. Este distin- 
gue as estruturas da razão dos conteúdos trazidos a ela 
pela experiência e afirma que o conhecimento (científico 
e filosófico) deve realizar-se apenas com juízos a priori.
R
e
p
ro
d
u
ç
ã
o
/P
a
lá
c
io
 P
it
ti
, 
F
lo
re
n
ç
a
, 
It
á
li
a
.
A mentira (1650), quadro de Salvator Rosa (1615-1673). Quando 
conhecemos realmente alguma coisa, mas intencionalmente fazemos 
um juízo errado sobre ela, estamos mentindo ou dizendo o falso.
verdade voluntária 
A filosofia cristã introduziu a i
deia de vontade livre 
ou de livre-arbítrio da vontade
, pela qual a verdade 
depende não só da conformid
ade entre relato e fato, 
mas também da vontade que 
deseja o verdadeiro. 
O cristianismo afirma que a v
ontade livre foi 
responsável pelo pecado orig
inal e que a vontade, 
criada boa por Deus, foi perve
rtida pelo primeiro 
homem. Assim sendo, a menti
ra, o erro e o falso 
tenderiam a prevalecer sobre
 a verdade porque 
nosso intelecto é mais fraco d
o que nossa vontade.
INI.FILOSOFIA_FILOS_VU_PNLD15_108a116_U03_C12.indd 113 6/20/14 10:13 AM
A verdade 
u
n
id
a
d
e
 I
I
I
114
Margem da lagoa da Pampulha, em Belo Horizonte, capital de 
Minas Gerais, em 2011. Se digo “Esta lagoa é poluída”, sei que 
alguém ou algo a poluiu, mesmo que não veja este alguém 
ou algo despejando poluentes. Essa relação de causalidade 
que nossa consciência faz constitui um juízo sintético a priori.
Um juízo é um ato mental de julgamento pelo qual 
atribuímos a alguma coisa certas propriedades e lhe re­
cusamos outras. O juízo estabelece uma relação entre 
dois termos (um sujeito e um predicado) por meio de 
uma proposição, cuja forma mais simples é “S é P” ou “S 
não é P”. Um juízo é verdadeiro quando o que o predi­
cado afirma ou nega do sujeito corresponde ao que a 
coisa é; e é falso quando não há essa correspondência.
Um juízo é analítico quando o predicado ou os pre­
dicados do enunciado nada mais são do que a explicita­
ção do conteúdo do sujeito do enunciado. Por exem­
plo: quando digo que o triângulo é uma figura de três 
lados, o predicado “figura de três lados” nada mais é do 
que a explicitação do sujeito “triângulo”. Ou, quando 
digo que “todos os corpos são dotados de massa”, o 
predicado “são dotados de massa” não acrescenta ne­
nhum conhecimento novo sobre o sujeito “corpos”, 
mas apenas explicita o conceito desse sujeito. No juízo 
analítico, podemos dizer que o predicado é um sinôni­
mo do sujeito ou que ele analisa o conteúdo do sujeito. 
Portanto, o juízo analítico é explicativo.
Quando, porém, o predicado de um enunciado ofe­
rece informações novas sobre o sujeito, o juízo é sinté-
tico, isto é, formula uma síntese entre um predicado e 
um sujeito. Assim, por exemplo, se, em vez de dizer que 
os corpos são dotados de massa, dissermos que “alguns 
corpos são pesados”, o predicado “são pesados” nos diz 
algo novo sobre o sujeito. O juízo sintético, diz Kant, é 
ampliativo, ou seja, ele aumenta nosso conhecimento.
Para Kant, os juízos analíticos correspondem às ver­
dades de razão de Leibniz, mas os juízos sintéticos te­
riam de ser considerados verdades de fato, isto é, uma 
relação entre termos que depende dos acontecimen­
tos ou dos fatos e que requer a experiência para ser 
conhecida.
Dessa maneira, a verdade parece ficar reduzida aos 
juízos analíticos, que nada nos ensinam, mas apenas 
nos explicam. Em contrapartida, como os juízos sintéti­
cos dependem da experiência de cada um de nós, não 
são verdadeiros no sentido preciso da palavra, isto é, 
não são necessários nem universais.
Que faz Kant? Vimos que ele distingue a estrutura 
universal e necessária da razão dos conteúdos da expe­
riência dizendo que a experiênciaé a ocasião para o 
conhecimento, mas não a causa dele, pois este depen­
de das estruturas a priori da sensibilidade (espaço e 
tempo) e do entendimento (categorias e conceitos). 
Partindo dessa formulação, Kant introduz a ideia de juí-
zos sintéticos a priori, isto é, juízos sintéticos nos quais a 
síntese do sujeito e do predicado depende da estrutura 
universal e necessária de nossa razão, e não da variabili­
dade individual de nossas experiências.
Os juízos sintéticos a priori exprimem o modo 
como nosso pensamento relaciona e conhece a reali-
dade. A causalidade, por exemplo, é uma síntese a priori 
que nosso entendimento formula para as ligações uni­
versais e necessárias entre causas e efeitos, independen­
temente de hábitos psíquicos associativos.
Segundo Kant, se dissermos que “o calor é uma medida de 
temperatura dos corpos”, o predicado “medida de temperatura dos 
corpos” simplesmente explicita o conteúdo do sujeito “calor”, não 
acrescentando nada a ele. Trata-se, portanto, de um juízo analítico. 
Porém, se dissermos que “o calor é capaz de alterar a forma do 
ferro”, não estamos definindo o que é calor, mas sim oferecendo uma 
informação nova sobre ele. Neste caso, temos um juízo sintético.
 M
a
rc
e
lo
 P
ra
te
s
/H
o
je
 e
m
 D
ia
/F
u
tu
ra
 P
re
s
s
 G
e
rs
o
n
 G
e
rl
o
ff
/P
u
ls
a
r 
Im
a
g
e
n
s
INI.FILOSOFIA_FILOS_VU_PNLD15_108a116_U03_C12.indd 114 5/9/13 1:20 PM
Buscando a verdade
ca
pí
t
u
lo
 1
2
115
Todavia, vimos também que, para Kant, a realidade 
que conhecemos filosófica e cientificamente não é a 
realidade em si das coisas, mas tal como é estruturada 
por nossa razão. A realidade conhecida é o que depen­
de inteiramente de nossas ideias verdadeiras, e o kantis­
mo é um idealismo.
Idealismo e verdade 
Quando estudamos a razão, vimos que Kant distin­
gue a realidade em si (nômeno) da realidade manifesta 
à nossa razão ou conhecida por nós (fenômeno). Ele 
afirma que só podemos conhecer o fenômeno (aquilo 
que se apresenta à consciência a partir da estrutura a 
priori da própria consciência) e que não podemos co­
nhecer o nômeno (a coisa em si).
Vimos também que o filósofo contemporâneo Husserl 
criou a fenomenologia, baseando­se na filosofia kantiana 
– sobretudo na ideia de fenômeno. Fenomenologia signi­
fica “conhecimento daquilo que se manifesta para nossa 
consciência ou para a razão porque é organizado e expli­
cado com base na própria estrutura a priori da consciên­
cia”. A verdade se refere aos fenômenos, e os fenômenos 
são o que a consciência conhece.
Ora, se Husserl diz que o fenômeno é o que se mani­
festa para a consciência, então podemos indagar: o que 
é esse fenômeno? A própria consciência, ele diz. Conhe­ 
cer os fenômenos e conhecer a estrutura e o funciona­
mento necessário da consciência são uma só e mesma 
coisa, pois é a própria consciência (reflexiva) que, antes 
da experiência (a priori), constitui os fenômenos.
Por que reflexiva? Porque o fenômeno é apenas uma 
expressão da própria consciência, é o resultado da 
reflexão. Por que a priori? Porque essa consciência não 
depende da experiência psicológica para conhecer, e 
sim de sua estrutura, anterior a toda e qualquer expe­
riência. A consciência reflexiva a priori é aquilo por 
meio do qual há fenômeno e experiência.
Como a consciência constitui os fenômenos? Dando 
sentido às coisas. Conhecer é conhecer a significação 
das coisas tal como ela foi produzida a priori pela estru­
tura da consciência. A significação, quando oferece o 
sentido universal e necessário de uma coisa, é a essên-
cia da coisa significada. A verdade é o conhecimento 
das essências universais e necessárias ou o conheci­
mento das significações constituídas a priori pela cons­
ciência reflexiva.
Na perspectiva idealista, seja ela kantiana, seja ela 
husserliana, não podemos mais dizer que a verdade é a 
conformidade do pensamento com as coisas ou a cor­
respondência entre a ideia e o objeto. A verdade será o 
encadeamento interno e rigoroso das ideias ou dos 
conceitos (Kant) ou das significações (Husserl), sua 
coerência lógica e sua necessidade.
R
e
p
ro
d
u
ç
ã
o
/M
u
s
e
u
 d
’O
rs
a
y
, 
P
a
ri
s
, 
F
ra
n
ç
a
.
Campo de papoulas 
próximo a Argenteuil 
(1873), óleo sobre tela 
de Claude Monet (1840-
-1926). Kant distingue a 
“realidade em si” (nômeno) 
da “realidade conhecida 
por nós” (fenômeno); esta, 
como no quadro de Monet, 
é a realidade tal como se 
apresenta à nossa razão.
INI.FILOSOFIA_FILOS_VU_PNLD15_108a116_U03_C12.indd 115 5/9/13 1:20 PM
A verdade 
u
n
id
a
d
e
 I
I
I
116
Pessoas atravessam a ru
a em cruzamento na reg
ião central 
de São Paulo, em 2011.
 M
a
rc
o
s
 A
n
d
ré
/O
p
ç
ã
o
 B
ra
s
il
 I
m
a
g
e
n
s
Para Kant e para Husserl, o erro e a falsidade 
encontram-se no realismo, por supor que os conceitos 
ou as significações se referem a uma realidade em si. 
Em outras palavras, para esses filósofos, é a consciên-
cia que dá sentido às coisas.
 e Observe a fotografia ao lado e escreva um texto expli-
cando o que caracterizaria o “erro” ou a “falsidade” 
do realismo, neste caso. Releia os conceitos do capítu-
lo para fundamentar sua resposta.
a filosofia nas e
ntrelinhas
A verdade é um acontecimento interno ao nosso 
intelecto ou à nossa consciência e, portanto, a corres­
pondência entre ideias e coisas depende inteiramente 
das próprias ideias, uma vez que são elas as responsá­
veis pelo objeto do conhecimento.
As personagens Hugo 
e Isabelle observam o 
autômato em cena do 
filme A invenção de Hugo 
Cabret, do diretor Martin 
Scorsese.
c
ré
d
it
o
IndIcação de fIlme
A invenção de Hugo 
Cabret 
Direção de Martin 
Scorsese. 
Estados Unidos, 2011. 
Hugo Cabret (Asa Butterfield) é 
um órfão que trabalha e mora 
no relógio da estação de trem 
de Paris, no início do século XX. 
Hugo busca desvendar o segre-
do que acredita estar dentro 
do robô mecânico que ganhou 
de seu falecido pai. Em uma de 
suas fugas do guarda da estação 
(Sacha Baron Cohen), encontra 
Isabelle (Chloë Moretz) e, com 
ela, uma chave que se encaixa 
na fechadura no peito do autô-
mato. Admirada com os belos 
desenhos feitos pelo misterioso 
autômato, a dupla decide des-
cobrir quem o inventou. 
01_12_F010_IFg15mA: Re-
produção de cena do filme 
A invenção de Hugo Cabret, 
em que Hugo e Isabelle 
observam o autômato dese-
nhando. [Referência: http://
www.imdb.com/media/
rm1957215232/tt0970179]
Para Kant e para Husserl, o erro e a falsidade encon­
tram­se no realismo, isto é, na suposição de que os con­
ceitos ou as significações se refiram a uma realidade em 
si, independentemente do sujeito do conhecimento. 
Esse erro e essa falsidade Kant chamou de dogmatismo, 
e Husserl, de atitude natural ou tese natural do mundo.
atividades
 1. O que é dogmatismo? Como e por que o estranhamen-
to pode romper com o dogmatismo?
 2. Dê um exemplo (tirado de sua vida pessoal, da literatura 
ou do cinema) de uma atitude de estranhamento diante 
de alguma coisa ou de algum fato que até então parecia 
natural.
 3. Explique nossa concepção de verdade com base nas 
ideias de alétheia, veritas e emunah, expondo como 
cada uma delas contribuiu para formar essa concepção 
contemporânea.
 4. O que significa pragmatismo? Como a teoria pragmática 
concebe a verdade?
 5. Qual a diferença entre juízo analítico e juízo sintético? Dê 
exemplos. 
 6. O que diferencia um juízo sintético a priori dos demais 
juízos sintéticos? 
 7. O que é a verdade para a filosofia idealista de Kant e 
Husserl?
Interfoto/Latinstock
INI.FILOSOFIA_FILOS_VU_PNLD15_108a116_U03_C12.indd 116 5/9/13 1:20 PM