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Desde a infância acreditamos que o mundo existe, que é tal como o percebemos e tal como nos ensinaram que ele é. Essa crença permite, por exemplo, que modifiquemos a realidade, organizemo-nos economicamente, criemos instituições sociais e políticas. Acreditamos que o mundo pode ser modificado por nós, e também que ele é explicado pelas religiões e ciências e que é representado pelas artes. Acreditamos que os outros seres humanos também são racionais, pois, graças à linguagem, trocamos ideias e opiniões. Porém, o que assegura que os conhecimentos sobre os quais nossa crença se apoia são verdadeiros? Qual é a garantia de que nosso conhecimento não passa de um engano, de um erro, de que nossas opiniões sejam falsas e não correspondam à realidade? Trabalhadores rurais procuram gafanhotos à noite em uma fazenda de arroz em Kampong Thom, Camboja, em 2007. Eles usam esses insetos para consumo próprio e para o comércio. A prática do trabalho humano só é possível porque acreditamos que o mundo existe tal como o percebemos e tal como nos ensinaram que ele é. capítulo 12 Buscando a verdade Mak Remissa/epa/Corbis 108 INI.FILOSOFIA_FILOS_VU_PNLD15_108a116_U03_C12.indd 108 5/9/13 1:19 PM Buscando a verdade ca pí t u lo 1 2 109 Dogmatismo, estranhamento e busca da verdade Nos diferentes caminhos que Sócrates e Descartes tri lham em busca do conhecimento verdadeiro sobre a rea lidade, notamos um procedimento comum: ambos des confiam não só das opiniões e crenças do seu tempo, mas também das suas próprias ideias e opiniões. Des confiam, enfim, do dogmatismo. O que é dogmatismo? Dogmatismo é uma atitude natural e espontânea que temos desde crianças. É nossa crença de que o mundo existe e que é exatamente da forma como o percebemos. A realidade natural, social, política e cul tural forma uma espécie de moldura de um quadro em cujo interior nos instalamos e existimos. Temos essa crença porque nos relacionamos com a realidade como se ela fosse um conjunto de coisas, fatos e pes- soas úteis ou inúteis para nossa sobrevivência. Porém, é possível romper com o dogmatismo se for mos capazes de uma atitude de estranhamento diante das coisas que nos pareciam familiares. Para ilustrar essa experiência, vejamos um trecho da crônica “Nada mais que um inseto”, da escritora Clarice Lispector: Custei um pouco a compreender o que estava ven- do, de tão inesperado e sutil que era: estava vendo um inseto pousado, verde-claro, de pernas altas. Era uma esperança, o que sempre me disseram que é de bom augúrio. Depois a esperança começou a andar bem de leve sobre o colchão. Era verde transparente, com pernas que mantinham seu corpo, plano alto e por assim dizer solto, um plano tão frágil quanto as próprias pernas que eram feitas apenas da cor da cas- ca. Dentro do fiapo das pernas não havia nada den- tro: o lado de dentro de uma superfície tão rasa já é a própria superfície. Parecia um raso desenho que ti- vesse saído do papel, verde, e andasse... E andava com uma determinação de quem copiasse um traço que era invisível para mim... Mas onde estariam nele as glândulas de seu destino e as adrenalinas de seu seco verde interior? Pois era um ser oco, um enxerto de gravetos, simples atração eletiva de linhas verdes. LISPECTOR, Clarice. Nada mais que um inseto. In: A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 2008. À primeira vista, o que há de mais banal ou familiar do que um inseto? No entanto, Clarice Lispector nos faz sentir admiração e estranhamento, como se jamais ti véssemos visto um. Na descrição maravilhada, a espe- rança (inseto aparentado aos grilos e gafanhotos) tem a peculiaridade de ser uma superfície na qual não conse guimos distinguir ou separar o exterior e o interior. No entanto, nesse ser sem profundidade, há um abismo misterioso: o inseto esperança é um oco, um vazio colorido (como um vazio pode ter cor?) ou uma cor sem corpo (como uma cor pode existir sem um corpo colorido?). Verdades reveladas e verdades alcançadas A atitude dogmática é conservadora, isto é, se pre serva das novidades, do inesperado, do desconhecido e de tudo o que possa desequilibrar as crenças e opiniões já constituídas. Esse conservadorismo se transforma em preconceito, em ideias preconcebidas que impe dem até mesmo o contato com tudo quanto possa pôr em perigo o já sabido, o já dito e o já feito. A perspicácia (1936), pintura de René Magritte (1898-1967). A atitude de estranhamento nos permite conquistar um novo saber sobre os objetos, muito além do que já tínhamos. C o le ç ã o p a rt ic u la r/ F o n d a ti o n M a g ri tt e INI.FILOSOFIA_FILOS_VU_PNLD15_108a116_U03_C12.indd 109 5/9/13 1:19 PM A verdade u n id a d e I I I 110 O conservadorismo pode aumentar quando o dog matismo estiver convencido de que várias de suas opi niões e crenças vieram de uma fonte sagrada, de uma revelação divina incontestável. Quem ousa en frentar essas crenças e opiniões com argumentos racio nais é tido como criminoso, blasfemador e herético. O verdadeiro se opõe ao falso, pseudos, que é o enco berto, o dissimulado, o que não é como parece. O ver dadeiro é o plenamente visível para a razão ou o evi dente (pois a palavra evidência significa ‘visão completa e total de alguma coisa’). Assim, a verdade é uma automanifestação da realidade ou a manifestação dos seres à visão inte lectual dos humanos. Ela é uma qualidade das pró prias coisas (o mostrarse a si mesmas), e o verdadeiro está nas próprias coisas quando o que elas manifes tam é sua realidade própria. Por isso, na concepção grega, o verdadeiro é o ser (o que algo realmente é) e o falso é o parecer (o que algo aparenta ser e não é). Em latim, verdade se diz veritas e se refere à precisão e ao rigor de um relato. Verdadeiro se refere, portanto, à linguagem como narrativa de fatos reais. A verdade depende, de um lado, da veracidade, da memória e da acuidade mental de quem fala e, de outro, de que o enunciado corresponda aos fatos. A verdade não se refere às próprias coisas (como na alétheia), mas ao re lato e ao enunciado, à linguagem. Seu oposto, portanto, verdade revelada, verdade alcançada No romance de Umberto Eco O nome da rosa, o monge Guilherme de Baske rville busca o responsável por uma série de assassinatos de frades copistas. Ele descobre que todos haviam sido envenenados ao manuse ar um livro de Aristóteles sobre a importânc ia do riso. Jorge de Burgos, monge guardião da b iblioteca e autor do envenenamento, julgava que o riso é contrário à vontade de Deus, pois viemos ao mundo para sofrer a culpa original de Adão. Nesse romance, há duas ideia s em conflito: a verdade alcançada ou humana , que estaria contida no livro de Aristóteles, e a ver dade revelada ou divina, que o bibliotecário julg a estar na proibição do riso. Em nome dessa segu nda verdade, Jorge de Burgos mata pessoas e queim a livros originados da racionalidade humana, pois, p ara ele, uma verdade revelada por Deus é única e in contestável. O monge franciscano Guilherme (ou William) de Baskerville, interpretado por Sean Connery, e o bibliotecário Jorge de Burgos (Feodor Chaliapin Jr.) na adaptação cinematográfica do romance O nome da rosa, realizada em 1986. Para Jorge, a verdade divina condena o riso como uma ameaça à fé em Deus. manifestação da realidade Quando os filósofos antigos e modernos afirmam que a verdade é conformidad e ou correspondência entre a ideia e a coisa e vice-v ersa, não estão di- zendo que uma ideia verdade ira é uma “cópia” da coisa verdadeira. Como disse um filósofo, a ideia de cão não late e a de açúcar não é doce. O que os filósofos afirmam é que a idei a corresponde à coisa conhecida porque é o conhec imento da estrutura da coisa, das relações interna s necessárias que constituem a essência da cois a e das relações e nexosnecessários que ela ma ntém com outras. Esse conflito entre verdades reveladas e verdades al cançadas preocupa a filosofia desde o surgimento do cristianismo. Podemos conhecer as verdades divinas? Se não pudermos conhecêlas, seremos culpados? Mas como seríamos culpados por não conhecer aquilo que nosso intelecto, por ser menor do que o de Deus, não teria forças para alcançar? As concepções da verdade Nossa ideia da verdade foi construída ao longo dos séculos com base em três concepções diferentes, vin das da língua grega, da latina e da hebraica. Em grego, verdade se diz alétheia, palavra composta do prefixo a (‘negação’) e de léthe (‘esquecimento’). Alétheia significa ‘o não esquecido’, o que remete ao Mito de Er, visto no capítulo 9. Platão fala da verdade como “o que é lembrado ou não esquecido”. Por extensão do sentido, alétheia também significa ‘o não escondido, não dissimulado’, aquilo que se manifesta ou se mostra aos olhos do corpo e do espírito. N e u e C o n s ta n ti n F il m /C r is ta ld if il m /L e s F il m s A r ia n e INI.FILOSOFIA_FILOS_VU_PNLD15_108a116_U03_C12.indd 110 5/9/13 1:19 PM ca pí t u lo 1 2 111 Buscando a verdade não é a aparência, e sim a mentira ou a falsificação. As coisas e os fatos são reais ou imaginários; já os enuncia dos sobre eles são verdadeiros ou falsos. Em hebraico, verdade se diz emunah e também sig nifica ‘confiança’. Agora são as pessoas e Deus quem são verdadeiros e, para isso, devem cumprir o que pro metem, ser fiéis à palavra dada. A verdade se relaciona com a presença, a cumplicidade de alguém (Deus ou humano) e com a espera de que a promessa ou o pac to se cumpra. Por isso, a verdade referese ao futuro. Sua forma mais elevada é a revelação divina, e sua ex pressão mais perfeita é a profecia. A nossa concepção da verdade é uma síntese des sas três concepções e por isso se refere à percepção das coisas reais (como na alétheia), à linguagem que relata fatos passados (como na veritas) e à expectativa de coisas futuras (como na emunah). Ou seja, nossa concepção da verdade abrange o que é (a realida- de), o que foi (os acontecimentos passados) e o que será (as ações futuras). Diferentes teorias sobre a verdade Algumas teorias filosóficas concebem a natureza do conhecimento verdadeiro com base nas ideias de ver dade que acabamos de conhecer. Outra teoria define o conhecimento verdadeiro por um critério que não é teórico, e sim prático. Vamos conhecêlas. Quando prevalece a alétheia, a teoria considera que o conhecimento verdadeiro é a apreensão intelectual e racional da verdade que está nas próprias coisas. Sua marca é a evidência, a visão da realidade tal como ela é, alcançada pelas operações de nossa razão. Quando predomina a veritas, a teoria considera que nossas ideias relatam em nossa mente os fatos ou acon tecimentos. Elas serão verdadeiras quando obedece rem a princípios e normas de uma linguagem rigorosa. Agora não se diz que algo é verdadeiro porque corres ponde a uma realidade externa, mas se diz que algo corresponde à realidade externa porque é verdadeiro. O critério da verdade é dado pela coerência das ideias e das cadeias de ideias que formam um raciocínio. Sua marca é a validade lógica. Quando predomina a emunah, a teoria considera que a verdade depende de um acordo ou de um pacto entre os pesquisadores, que definem um conjunto de convenções universais sobre o conhecimento verdadei ro a serem respeitadas. A marca da verdade é o consen- so e a confiança recíprocos entre os membros de uma comunidade de pesquisadores e estudiosos. Por fim, quando predomina não um critério teóri co, mas sim prático, na orientação de seus procedi mentos em busca da verdade, tratase de uma teoria pragmática. O tempo desvela a verdade, obra do pintor Giovanni Domenico Cerrini (1609-1681). A manifestação da verdade está simbolizada não apenas pelo desvelamento da mulher luminosa, observada com espanto e admiração pelas pessoas na parte inferior da tela, mas também pelo livro – a verdade como narração – próximo à mão direita dela. pragmática Palavra derivada do grego pra gmatikós, que significa ‘o que é próprio da ação, o que é eficaz’, que, por sua vez, origina-se de pragma, que quer dizer ‘a ação que se faz, o que se faz, o que se de ve fazer’. T h e B ri d g e m a n A rt L ib ra ry /K e y s to n e INI.FILOSOFIA_FILOS_VU_PNLD15_108a116_U03_C12.indd 111 5/9/13 1:20 PM A verdade u n id a d e I I I 112 Para essa teoria, um conhecimento é verdadeiro por seus resultados e suas aplicações práticas, e se verifica pela experimentação e pela experiência. A marca do verdadeiro é a verificabilidade dos resultados e a eficá- cia de sua aplicação. Essa concepção da verdade está muito próxima da teoria da correspondência entre coi- sa e ideia, para a qual o resultado prático, na maioria das vezes, é conseguido porque o conhecimento alcan- çou as próprias coisas e pode agir sobre elas. Verdade e falsidade Se observarmos a concepção grega da verdade, no- taremos que nela a realidade – o que manifesta sua existência para nossa percepção – é o verdadeiro ou a verdade. Por esse motivo os filósofos gregos pergun- tam: como o erro, o falso e a mentira são possíveis? Em outras palavras, como podemos pensar naquilo que não é, não existe, se o erro, o falso e a mentira só po- dem se referir ao que não é, ao não ser? A resposta dos filósofos gregos é dupla: 1. o erro, o falso e a mentira se referem à aparência su- perficial e ilusória das coisas e surgem quando não conseguimos alcançar a essência das realidades; são um defeito ou uma falha de nossa percepção senso- rial ou intelectual; 2. o erro, o falso e a mentira surgem quando dizemos de algum ser aquilo que ele não é, quando lhe atribuí- mos qualidades ou propriedades que ele não possui ou quando lhe negamos qualidades ou propriedades que ele possui. Nesse caso, o erro, o falso e a mentira se alojam na linguagem e acontecem no momento em que fazemos afirmações ou negações que não correspondem à essência de alguma coisa. Eles são um acontecimento do juízo ou do enunciado. Há, porém, uma diferença entre o erro, de um lado, e a mentira, de outro. O erro é um engano do juízo e ocorre quando desconhecemos a essência de um ser. A mentira, porém, é um juízo deliberadamente errado; isto é, embo- ra conheçamos a essência de alguma coisa, emitimos propositalmente um juízo errado sobre ela. O que é a verdade? É a conformidade entre nosso pen- samento e nosso juízo e as coisas pensadas ou formula- das. Qual a condição para o conhecimento verdadeiro? A evidência, isto é, a visão intelectual da essência de um ser. Para formular um juízo verdadeiro precisamos, por- tanto, primeiro conhecer a essência, e a conhecemos ou por intuição, ou por dedução, ou por indução. Sobre a construção e a aceitação da verdade O que, em verdade, sabe o homem sobre si mesmo? Algum dia poderia ele perceber- -se inteiramente, exposto como numa vitrine iluminada? [...] Na medida em que o indivíduo, em oposição a outros indivíduos, quer conservar-se num estado natural das coisas, ele utiliza o intelecto na maioria das vezes somente para a dissimu- lação: mas porque ao mesmo tempo o homem, por necessidade e tédio, quer existir social e gregariamente, ele precisa de um tratado de paz [...]. Esse tratado de paz implica algo que lembra o primeiro passo daquele enigmático impulso à verdade. Agora é fixado aquilo que a partir de então deve ser “verdade”, quer dizer, é inventada uma designação das coisas igual- mente válida e obrigatória, e a legislação da linguagem institui também as primeiras leis da verdade: pois surge aqui, pela primeira vez, o contraste entre verdade e mentira. O mentiroso utiliza as denominações válidas, as palavras, para fazer parecer o irreal como real; ele diz, por exemplo: “sou rico”, enquantoa designação correta para o seu estado seria justamente “po- bre”. Ele abusa das convenções estabelecidas através de trocas quaisquer ou mesmo inver- sões de nomes. Se faz isso de maneira egoísta e prejudicial, a sociedade não mais confiará nele e o excluirá de si. Nisso, os homens não evitam tanto ser enganados quanto serem pre- judicados pelo engano: também nesse nível, eles basicamente não odeiam o engano, mas as consequências graves e hostis de certos tipos de engano. É num sentido semelhante e restri- to que o homem quer somente a verdade: ele ambiciona as agradáveis consequências da verdade, que conservam a vida; e é indiferente ao conhecimento puro, sem consequências, se indispõe até mesmo de modo hostil às verdades talvez prejudiciais e destrutivas. NIETZSCH E , Friedrich. Sobre a verdade e a mentira em um sentido “extramoral” (1873). In: M A RCON DES, Danilo. Textos básicos de filosofia: dos pré-socráticos a Wittgenstein. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000. p. 141-142. diálogos filosóficos INI.FILOSOFIA_FILOS_VU_PNLD15_108a116_U03_C12.indd 112 6/20/14 10:13 AM Buscando a verdade ca pí t u lo 1 2 113 A verdade exige que nos libertemos das aparências das coisas para ver intelectualmente a essência delas; exige, portanto, que nos libertemos das opiniões estabelecidas e das ilusões de nossos órgãos dos sentidos. Em outras pala- vras, a verdade é sempre universal e necessária, enquanto as opiniões variam de lugar para lugar, de época para épo- ca, de sociedade para sociedade, de pessoa para pessoa. O mesmo deve ser dito sobre nossas sensações ou im- pressões sensoriais, que variam conforme o estado do nosso corpo, as disposições de nosso espírito e as condi- ções em que as coisas nos aparecem. Por isso, devemos ou abandonar as ideias baseadas nas nossas sensações (como dizem Sócrates, Platão, Descartes), ou encontrar aqueles aspectos da experiência sensorial que são neces- sários e universais e, por isso, capazes de perceber em parte algo da essência real das coisas (como diz, por exemplo, Aristóteles). No primeiro caso (abandono da sensação), somente o intelecto (espírito) vê o ser verdadeiro. No segundo caso (aceitação dos aspectos necessários e universais da sen- sação), o intelecto purifica o testemunho sensorial. Como a verdade é possível? O que é aceitar parcialmente os dados da experiên- cia sensorial? Por exemplo, quando estou doente, chei- ro a flor e não sinto seu perfume, muito embora ela o tenha em abundância; vejo algo embaçado e sem for- ma, quando, na verdade, trata-se de um objeto com cor e forma bem definidas. Apesar desses enganos dos sen- tidos, observo que toda percepção capta qualidades nas coisas; portanto, as qualidades pertencem à essên- cia das próprias coisas e fazem parte da verdade delas. Quando se examina a ideia latina da verdade como veracidade de um relato, pode-se observar que o pro- blema da verdade e do erro, do falso e da mentira, deslo- cou-se diretamente para o campo da linguagem. O ver- dadeiro e o falso estão menos no ato de ver (com os olhos do corpo ou com os olhos do espírito) e mais no ato de dizer. Por isso, a pergunta dos filósofos, agora, é exatamente contrária à anterior: em vez de perguntar “como o erro e a falsidade são possíveis?”, pergunta-se “como a verdade é possível?”. Por que essa pergunta? Porque, se a verdade está no dis- curso ou na linguagem, não depende só do pensamento e das próprias coisas, mas também de nossa vontade para dizê-la, silenciá-la ou deformá-la. O verdadeiro continua sendo tomado como conformidade entre a ideia e as coi- sas, mas depende também de nosso querer. Essas questões foram posteriormente examinadas pe- los filósofos racionalistas modernos, como Descartes. Eles introduziram a exigência de começar a filosofia pelo exame de nossa consciência para saber o que podemos conhecer realmente e quais auxílios devem ser ofereci- dos ao nosso intelecto para que controle e domine nossa vontade e a submeta ao verdadeiro. Os juízos sintéticos a priori Quando estudamos a razão, vimos os problemas cria- dos pelo inatismo e pelo empirismo, a solução de Leibniz e também a “revolução copernicana” de Kant. Este distin- gue as estruturas da razão dos conteúdos trazidos a ela pela experiência e afirma que o conhecimento (científico e filosófico) deve realizar-se apenas com juízos a priori. R e p ro d u ç ã o /P a lá c io P it ti , F lo re n ç a , It á li a . A mentira (1650), quadro de Salvator Rosa (1615-1673). Quando conhecemos realmente alguma coisa, mas intencionalmente fazemos um juízo errado sobre ela, estamos mentindo ou dizendo o falso. verdade voluntária A filosofia cristã introduziu a i deia de vontade livre ou de livre-arbítrio da vontade , pela qual a verdade depende não só da conformid ade entre relato e fato, mas também da vontade que deseja o verdadeiro. O cristianismo afirma que a v ontade livre foi responsável pelo pecado orig inal e que a vontade, criada boa por Deus, foi perve rtida pelo primeiro homem. Assim sendo, a menti ra, o erro e o falso tenderiam a prevalecer sobre a verdade porque nosso intelecto é mais fraco d o que nossa vontade. INI.FILOSOFIA_FILOS_VU_PNLD15_108a116_U03_C12.indd 113 6/20/14 10:13 AM A verdade u n id a d e I I I 114 Margem da lagoa da Pampulha, em Belo Horizonte, capital de Minas Gerais, em 2011. Se digo “Esta lagoa é poluída”, sei que alguém ou algo a poluiu, mesmo que não veja este alguém ou algo despejando poluentes. Essa relação de causalidade que nossa consciência faz constitui um juízo sintético a priori. Um juízo é um ato mental de julgamento pelo qual atribuímos a alguma coisa certas propriedades e lhe re cusamos outras. O juízo estabelece uma relação entre dois termos (um sujeito e um predicado) por meio de uma proposição, cuja forma mais simples é “S é P” ou “S não é P”. Um juízo é verdadeiro quando o que o predi cado afirma ou nega do sujeito corresponde ao que a coisa é; e é falso quando não há essa correspondência. Um juízo é analítico quando o predicado ou os pre dicados do enunciado nada mais são do que a explicita ção do conteúdo do sujeito do enunciado. Por exem plo: quando digo que o triângulo é uma figura de três lados, o predicado “figura de três lados” nada mais é do que a explicitação do sujeito “triângulo”. Ou, quando digo que “todos os corpos são dotados de massa”, o predicado “são dotados de massa” não acrescenta ne nhum conhecimento novo sobre o sujeito “corpos”, mas apenas explicita o conceito desse sujeito. No juízo analítico, podemos dizer que o predicado é um sinôni mo do sujeito ou que ele analisa o conteúdo do sujeito. Portanto, o juízo analítico é explicativo. Quando, porém, o predicado de um enunciado ofe rece informações novas sobre o sujeito, o juízo é sinté- tico, isto é, formula uma síntese entre um predicado e um sujeito. Assim, por exemplo, se, em vez de dizer que os corpos são dotados de massa, dissermos que “alguns corpos são pesados”, o predicado “são pesados” nos diz algo novo sobre o sujeito. O juízo sintético, diz Kant, é ampliativo, ou seja, ele aumenta nosso conhecimento. Para Kant, os juízos analíticos correspondem às ver dades de razão de Leibniz, mas os juízos sintéticos te riam de ser considerados verdades de fato, isto é, uma relação entre termos que depende dos acontecimen tos ou dos fatos e que requer a experiência para ser conhecida. Dessa maneira, a verdade parece ficar reduzida aos juízos analíticos, que nada nos ensinam, mas apenas nos explicam. Em contrapartida, como os juízos sintéti cos dependem da experiência de cada um de nós, não são verdadeiros no sentido preciso da palavra, isto é, não são necessários nem universais. Que faz Kant? Vimos que ele distingue a estrutura universal e necessária da razão dos conteúdos da expe riência dizendo que a experiênciaé a ocasião para o conhecimento, mas não a causa dele, pois este depen de das estruturas a priori da sensibilidade (espaço e tempo) e do entendimento (categorias e conceitos). Partindo dessa formulação, Kant introduz a ideia de juí- zos sintéticos a priori, isto é, juízos sintéticos nos quais a síntese do sujeito e do predicado depende da estrutura universal e necessária de nossa razão, e não da variabili dade individual de nossas experiências. Os juízos sintéticos a priori exprimem o modo como nosso pensamento relaciona e conhece a reali- dade. A causalidade, por exemplo, é uma síntese a priori que nosso entendimento formula para as ligações uni versais e necessárias entre causas e efeitos, independen temente de hábitos psíquicos associativos. Segundo Kant, se dissermos que “o calor é uma medida de temperatura dos corpos”, o predicado “medida de temperatura dos corpos” simplesmente explicita o conteúdo do sujeito “calor”, não acrescentando nada a ele. Trata-se, portanto, de um juízo analítico. Porém, se dissermos que “o calor é capaz de alterar a forma do ferro”, não estamos definindo o que é calor, mas sim oferecendo uma informação nova sobre ele. Neste caso, temos um juízo sintético. M a rc e lo P ra te s /H o je e m D ia /F u tu ra P re s s G e rs o n G e rl o ff /P u ls a r Im a g e n s INI.FILOSOFIA_FILOS_VU_PNLD15_108a116_U03_C12.indd 114 5/9/13 1:20 PM Buscando a verdade ca pí t u lo 1 2 115 Todavia, vimos também que, para Kant, a realidade que conhecemos filosófica e cientificamente não é a realidade em si das coisas, mas tal como é estruturada por nossa razão. A realidade conhecida é o que depen de inteiramente de nossas ideias verdadeiras, e o kantis mo é um idealismo. Idealismo e verdade Quando estudamos a razão, vimos que Kant distin gue a realidade em si (nômeno) da realidade manifesta à nossa razão ou conhecida por nós (fenômeno). Ele afirma que só podemos conhecer o fenômeno (aquilo que se apresenta à consciência a partir da estrutura a priori da própria consciência) e que não podemos co nhecer o nômeno (a coisa em si). Vimos também que o filósofo contemporâneo Husserl criou a fenomenologia, baseandose na filosofia kantiana – sobretudo na ideia de fenômeno. Fenomenologia signi fica “conhecimento daquilo que se manifesta para nossa consciência ou para a razão porque é organizado e expli cado com base na própria estrutura a priori da consciên cia”. A verdade se refere aos fenômenos, e os fenômenos são o que a consciência conhece. Ora, se Husserl diz que o fenômeno é o que se mani festa para a consciência, então podemos indagar: o que é esse fenômeno? A própria consciência, ele diz. Conhe cer os fenômenos e conhecer a estrutura e o funciona mento necessário da consciência são uma só e mesma coisa, pois é a própria consciência (reflexiva) que, antes da experiência (a priori), constitui os fenômenos. Por que reflexiva? Porque o fenômeno é apenas uma expressão da própria consciência, é o resultado da reflexão. Por que a priori? Porque essa consciência não depende da experiência psicológica para conhecer, e sim de sua estrutura, anterior a toda e qualquer expe riência. A consciência reflexiva a priori é aquilo por meio do qual há fenômeno e experiência. Como a consciência constitui os fenômenos? Dando sentido às coisas. Conhecer é conhecer a significação das coisas tal como ela foi produzida a priori pela estru tura da consciência. A significação, quando oferece o sentido universal e necessário de uma coisa, é a essên- cia da coisa significada. A verdade é o conhecimento das essências universais e necessárias ou o conheci mento das significações constituídas a priori pela cons ciência reflexiva. Na perspectiva idealista, seja ela kantiana, seja ela husserliana, não podemos mais dizer que a verdade é a conformidade do pensamento com as coisas ou a cor respondência entre a ideia e o objeto. A verdade será o encadeamento interno e rigoroso das ideias ou dos conceitos (Kant) ou das significações (Husserl), sua coerência lógica e sua necessidade. R e p ro d u ç ã o /M u s e u d ’O rs a y , P a ri s , F ra n ç a . Campo de papoulas próximo a Argenteuil (1873), óleo sobre tela de Claude Monet (1840- -1926). Kant distingue a “realidade em si” (nômeno) da “realidade conhecida por nós” (fenômeno); esta, como no quadro de Monet, é a realidade tal como se apresenta à nossa razão. INI.FILOSOFIA_FILOS_VU_PNLD15_108a116_U03_C12.indd 115 5/9/13 1:20 PM A verdade u n id a d e I I I 116 Pessoas atravessam a ru a em cruzamento na reg ião central de São Paulo, em 2011. M a rc o s A n d ré /O p ç ã o B ra s il I m a g e n s Para Kant e para Husserl, o erro e a falsidade encontram-se no realismo, por supor que os conceitos ou as significações se referem a uma realidade em si. Em outras palavras, para esses filósofos, é a consciên- cia que dá sentido às coisas. e Observe a fotografia ao lado e escreva um texto expli- cando o que caracterizaria o “erro” ou a “falsidade” do realismo, neste caso. Releia os conceitos do capítu- lo para fundamentar sua resposta. a filosofia nas e ntrelinhas A verdade é um acontecimento interno ao nosso intelecto ou à nossa consciência e, portanto, a corres pondência entre ideias e coisas depende inteiramente das próprias ideias, uma vez que são elas as responsá veis pelo objeto do conhecimento. As personagens Hugo e Isabelle observam o autômato em cena do filme A invenção de Hugo Cabret, do diretor Martin Scorsese. c ré d it o IndIcação de fIlme A invenção de Hugo Cabret Direção de Martin Scorsese. Estados Unidos, 2011. Hugo Cabret (Asa Butterfield) é um órfão que trabalha e mora no relógio da estação de trem de Paris, no início do século XX. Hugo busca desvendar o segre- do que acredita estar dentro do robô mecânico que ganhou de seu falecido pai. Em uma de suas fugas do guarda da estação (Sacha Baron Cohen), encontra Isabelle (Chloë Moretz) e, com ela, uma chave que se encaixa na fechadura no peito do autô- mato. Admirada com os belos desenhos feitos pelo misterioso autômato, a dupla decide des- cobrir quem o inventou. 01_12_F010_IFg15mA: Re- produção de cena do filme A invenção de Hugo Cabret, em que Hugo e Isabelle observam o autômato dese- nhando. [Referência: http:// www.imdb.com/media/ rm1957215232/tt0970179] Para Kant e para Husserl, o erro e a falsidade encon tramse no realismo, isto é, na suposição de que os con ceitos ou as significações se refiram a uma realidade em si, independentemente do sujeito do conhecimento. Esse erro e essa falsidade Kant chamou de dogmatismo, e Husserl, de atitude natural ou tese natural do mundo. atividades 1. O que é dogmatismo? Como e por que o estranhamen- to pode romper com o dogmatismo? 2. Dê um exemplo (tirado de sua vida pessoal, da literatura ou do cinema) de uma atitude de estranhamento diante de alguma coisa ou de algum fato que até então parecia natural. 3. Explique nossa concepção de verdade com base nas ideias de alétheia, veritas e emunah, expondo como cada uma delas contribuiu para formar essa concepção contemporânea. 4. O que significa pragmatismo? Como a teoria pragmática concebe a verdade? 5. Qual a diferença entre juízo analítico e juízo sintético? Dê exemplos. 6. O que diferencia um juízo sintético a priori dos demais juízos sintéticos? 7. O que é a verdade para a filosofia idealista de Kant e Husserl? Interfoto/Latinstock INI.FILOSOFIA_FILOS_VU_PNLD15_108a116_U03_C12.indd 116 5/9/13 1:20 PM