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@vestibularesumido 87 A ideia de identidade e de individualidade é uma construção social que varia de acordo com o tempo e com a cultura local. Atualmente, há uma noção de pessoa ligada originalmente a uma construção de cidadania jurídica, estabelecida no advento do direito romano. A partir do século XIX e, especialmente no século XX, fortaleceram-se na sociedade as questões psicológicas e subjetivas que compõem o indivíduo. As sociedades indígenas, porém, se constituíram com base em valores e pensamentos paralelos ao contexto ocidental, e cada povo tem um conceito de pessoa diversificado, fundado em cosmogonias e valores específicos. Pode-se apenas pincelar, partindo das documentações e culturas sobreviventes, o que foi parte desse aglomerado de culturas que viveu por aqui. Os povos Asurini, que vivem no Xingu, na região Norte, são um desses povos. Os desenhos geométricos utilizados na ornamentação do corpo são uma de suas características mais fortes. Essa arte é elaborada pelas mulheres da tribo, e cada área do corpo possui regras próprias para os desenhos que determinam divisões sociais, de gênero e de idade, além de atividades desempenhadas no grupo. Para elas, a marca principal dos desenhos está no ventre e está ligada à maternidade. Nos homens, a divisão das linhas acontece a partir de uma faixa horizontal que liga os ombros e é feita quando o inimigo é morto na guerra. Os índios utilizam plantas para criar seus pigmentos e pequenos talos vegetais como pincéis. Os Kadiwéu, que vivem no Mato Grosso do Sul, região Centro-Oeste, são outro exemplo de cultura sobrevivente. As pinturas corporais feitas por eles se diferem dos padrões geométricos por apresentarem curvas delicadas em desenhos minuciosos e simétricos que, no passado, marcavam especialmente as divisões de classes sociais. Os trabalhos artísticos são feitos em sua maioria pelas mulheres e se apresentam também em peças de cerâmica em forma de grafismos. "Por que você pinta seu corpo?", perguntou um viajante a um nativo, em meados do século XVIII. A resposta veio acompanhada de uma nova pergunta: "E você, não pinta o seu? Quer se parecer com um animal?". As tramas e grafismos indígenas observados atualmente promovem reflexões acerca de questões e origens da abstração muito distintas daquelas desenvolvidas na história da arte ocidental. Para o pintor Wassily Kandinsky, por exemplo, a meta da arte era reduzir a forma a uma essência que era geométrica e de natureza espiritual. Para grande parte dos povos indígenas brasileiros, no entanto, aquilo que se vê como arte e grafismos é parte de um conjunto de práticas coletivas ritualísticas, ou seja, tem função social e espiritual. As formas eram derivações de observações da natureza que estavam ligadas à origem desses povos e eram repetidas por gerações. Não havia, por exemplo, o conceito de inspiração ou de uma obra artística autoral. Essas funções eram designadas por setores específicos e executadas em momentos pontuais com objetivos predeterminados pela cultura Figura 8. Padrão das pinturas mebêngôkre. O simbolismo está presente em todas as imagens e ações dos Mebêngôkre, que vivem no Mato Grosso e no Pará. Suas pinturas corporais determinam espaços sociais e rituais. Como pigmento, são utilizados o jenipapo e o carvão. PERSPECTIVAS ESTÉTICAS NA IDENTIDADE NACIONAL @vestibularesumido 88 Na arte contemporânea, identifica-se a participação da cultura indígena de três formas principais: na exibição de peças e registros originais, nos registros fotográficos com fins artísticos ou antropológicos e na apresentação de artistas indígenas ou descendentes desses povos. Paulo Nazareth (1977), nascido em Governador Valadares, Minas Gerais, é um exemplo desse terceiro caso. Seu trabalho é interdisciplinar, contando com desenhos, gravuras, textos, fotografias e principalmente performances e ações. Sua bisavó era índia e, em sua homenagem, ele usa seu nome. Numa de suas performances, partiu descalço de uma aldeia de origem kalowá, em Santa Luzia, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, até Miami, nos EUA, andando a pé ou pegando caronas. Seu objetivo era chegar na feira Art Basel Miami Beach, para a qual fora convidado. Suas anotações, fotografias e desenhos formaram parte da obra que o artista vendeu no evento. Após essa experiência, o artista se propôs a fazer caminhadas de longas distâncias no continente africano, atravessando as memórias perdidas da origem do Brasil. Seu trabalho enfatiza a questão da mestiçagem e dos preconceitos que circundam a construção da identidade brasileira. No evento, Paulo Nazareth mostrou uma placa que, em português, diz: "Minha imagem de homem exótico à venda". Assim, aponta uma crítica sobre o olhar eurocêntrico, fundado na projeção europeia em relação aos países e povos ditos periféricos, predominante nas narrativas que formam a história oficial desde a colonização do Brasil. Ao mesmo tempo Figura 9. Paulo Nazareth. My image of exotic man for sale. 2011