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GASTRONOMIA E EVENTOS AULA 1 Profª Sandra Kuchnir 2 CONVERSA INICIAL A gastronomia exerceu e exerce uma grande influência na vida das pessoas, pois não representa simplesmente o ato de alimentar-se. Envolve muito mais do que uma função biológica, representando cultura, tradição, hábitos e costumes. Por meio da gastronomia, é possível conhecer um povo, uma sociedade, um grupo de pessoas, uma civilização. A história da gastronomia nos revela fatos importantes que contribuíram para o desenvolvimento de povos e de países. A descoberta do fogo, por exemplo, representou uma importante transição cultural, pois esse elemento foi associado a religiões, magias, rituais e uma importante forma de transformar o alimento, fazendo com que a mastigação ficasse facilitada, além de garantir melhor conservação dos alimentos. Nesta aula, vamos abordar alguns aspectos importantes para o crescimento da gastronomia, desde a Pré-história até a Idade Contemporânea, passando pelas grandes descobertas marítimas do século XV. Veremos ainda a Renascença e a contribuição italiana, a influência da gastronomia francesa e os movimentos e tendências gastronômicos. TEMA 1 – DA PRÉ-HISTÓRIA À IDADE CONTEMPORÂNEA Você já parou para pensar como surgiu a gastronomia? O que a história nos conta sobre a alimentação? Quais fatos influenciaram o desenvolvimento da gastronomia? Vamos estudar aqui quais foram as primeiras técnicas de cocção de que se tem notícia, e como elas influenciaram a vida do homem. Também estudaremos a importância da descoberta do fogo e como isso impactou na sociabilização do homem, além de conhecer a gastronomia em todos os períodos, desde a Pré-história até a Idade Moderna e Contemporânea. 1.1 Pré-história e Idade Antiga Desde o início da civilização, houve a necessidade de o homem se reunir em grupos, seja para caçar, defender seu território ou se aquecer. Como ser pensante, o homem criou regras para a convivência, legitimou costumes e difundiu cultura. Passou de geração a geração os seus saberes, entre eles o de caçar, coletar e preparar os alimentos com o intuito de reparti-los. 3 Com a descoberta do fogo na Pré-história, o homem passou a se reunir em volta dele para partilhar o alimento, o que gerou a comensalidade (prática de comer junto), com sentimentos de harmonia e empatia (Freixa; Chaves, 2017). A Pré-história engloba a Idade da Pedra-lascada, ou Período Paleolítico, a Idade da Pedra Polida, ou Neolítico, e a Idade dos Metais. O homo sapiens surgiu no Paleolítico. Seu estilo de vida era ditado pela necessidade de caçar, pescar e coletar alimentos. Eram, portanto, caçadores e coletores. Por se tratar de uma atividade predatória, viam-se obrigados a migrar quando os recursos ficavam escassos. A caça permitiu ainda a utilização de peles de animais para a proteção contra o frio. Viviam em grupo, unindo forças para conseguir alimento, com divisão de tarefas entre homens e mulheres: os homens caçavam e fabricavam armas, e as mulheres coletavam vegetais e cozinhavam (Freixa; Chaves, 2017). O ato de cozinhar o alimento (utilizando o fogo), facilitou a mastigação e tornou a comida mais saborosa, além de se configurar na primeira técnica de conservação de que se tem notícia, pois cozida a carne demorava mais a deteriorar. Mais tarde, com a invenção dos utensílios de pedra e de barro, foi possível executar diferentes tipos de cozimento, trazendo ao homem uma variedade de preparações maior e uma qualidade nutricional melhor (Franco, 2010). A matéria-prima mais utilizada para a fabricação de armas e ferramentas era a pedra (vem daí o nome de Pedra Lascada). Também eram usados ossos, madeira e dentes de animais abatidos, com os quais faziam arcos e flechas, pontas de lanças, arpão dentado, entre outras ferramentas. A alimentação do homem, além da caça e pesca, envolvia “raízes, tubérculos, talos tenros, frutas e grãos silvestres. Lentilha, framboesa, figo, uva e mel foram talvez os primeiros alimentos coletados na natureza” (Freixa; Chaves, 2010, p. 24). Com o derretimento das geleiras no final do período Paleolítico, o clima tonou-se mais ameno, e assim foi possível cultivar as terras. Posteriormente, com o equilíbrio do clima no período Neolítico, o homem foi em busca de terras férteis que permitissem o cultivo de plantas e a domesticação de animais, o que possibilitou controlar o seu consumo e estocagem. Segundo Cascudo (2005), pesquisas científicas identificaram cevada, trigo, milho, batata, feijão, mandioca e arroz como as primeiras culturas. 4 Com a possibilidade de se fixar em um determinado lugar, o homem passou a conviver mais em comunidade, e assim as relações sociais também sofreram transformações. Houve a necessidade de se implantar um sistema de divisão de tarefas ainda mais estável. Os homens se encarregavam das atividades de caça, pesca, criação de animais e da segurança do grupo contra predadores, enquanto as mulheres plantavam, colhiam, preparavam os alimentos e cuidavam dos filhos. Com a agricultura, os grupos passaram a ter um excedente de determinados tipos de alimentos, o que possibilitou trocas por alimentos de outros grupos. Para estocar os alimentos excedentes, o homem foi obrigado a fabricar recipientes, secando o barro no fogo, depois de moldá-lo das mais diversas formas. Esses vasos de cerâmica serviam para estocar bebidas, cereais, água, azeite de oliva, entre outros. Mais tarde, foram fabricadas as primeiras panelas de barro, que possibilitaram o cozimento em água fervente, o que levou à criação de mais pratos, inclusive com a utilização de ervas e sementes aromáticas, que deixavam o alimento ainda mais saboroso (Freixa; Chaves, 2010). Na Idade dos Metais, “o homem aprendeu a técnica da fundição dos metais. Colocando o cobre no fogo junto com o estanho, descobriu o bronze. Mais tarde o ferro. Com eles pode desenvolver armas e ferramentas de trabalho; entre elas o arado” (Freixa; Chaves, 2010, p. 28-29). Foi no período da Idade Antiga que as primeiras civilizações se desenvolveram, principalmente por conta da agricultura praticada na Mesopotâmia, no Egito, na Índia, na China e na Pérsia (atual Irã). A própria palavra mesopotâmia significa “entre rios”: é aí, em terras férteis, que as civilizações se desenvolveram, estabelecendo regras de convivência em sociedade, organizando uma divisão de tarefas e praticando a agricultura, que produzia alimentos que não só supriam as necessidades daquele grupo de pessoas, mas também serviam de base de troca com outros grupos, o que criou um verdadeiro “comércio”. Esse período também foi marcado pelo uso de especiarias e ervas nas preparações culinárias, em especial nos banquetes de famílias mais abastadas. A expansão econômica e política da região foi resultado da intenção de diversos povos de se apoderar dos centros produtores de novos alimentos, em especial entre os romanos. Por conta disso, aconteciam trocas entre os povos, de cultura, hábitos e culinária (Cascudo, 2005). Embora não se saiba ao certo qual foi o 5 primeiro cereal cultivado no Egito, a cevada foi encontrada por pesquisadores em sítios pré-históricos, assim como o trigo. Ambos compunham a base da alimentação dos egípcios, sendo usados na fabricação de pão e cerveja (Flandrin; Montanari, 1998). Os gregos e os romanos gostavam de grandes banquetes, durante os quais consumiam pão, que era apreciado juntamente com o vinho, além de carnes como de boi, cabras, carneiros e porcos. Os cozinheiros dos romanos eram considerados pessoas importantes e com reconhecimento. Else recebiam um bom salário, portanto as famílias que tivessem um eram consideradas abastadas e em franca ascensão social. 1.2 Idade Média e Idade Moderna Na Idade Média, os mosteiros foram essenciais para a continuação doshábitos alimentares. Segundo Franco (2010, p. 63) “pão, azeite, leguminosas e vinho, alimentos básicos do mundo romano, também o serão para os seguidores da Regra de São Bento”. A Regra de São Bento surgiu a princípio como código de conduta para os monges que viviam em comunidades e dividiam seu tempo entre orações e trabalhos manuais. Além de local de orações e contemplação, os mosteiros serviam como uma espécie de entreposto dos alimentos que eram distribuídos às populações da região, além de oferecer hospedagem aos viajantes. Os monges eram hospitaleiros e funcionavam como fonte e transmissão de conhecimentos culinários (Franco, 2010). Eles ainda difundiam a jardinagem, faziam a extração de sal das minas, realizavam a pecuária, utilizavam o couro e aprimoravam as técnicas de conservação dos alimentos. Suas carnes salgadas e especiarias eram comercializadas nas feiras. Os conhecimentos básicos da cozinha romana foram repassados aos monges, que produziam pães, cidra, vinho e a cerveja, que eram fabricados com o cultivo do trigo, da maçã, da uva e do malte. Nesse período, surgiram as corporações de ofício, uma espécie de associação de profissionais, em que cozinheiros, açougueiros, charcuteiros e padeiros se uniam dentro de suas categorias. Eram utilizados muitos temperos e especiarias no preparo dos pratos. Além de agregarem sabor, auxiliavam na conservação dos alimentos, porém muitas vezes mascaravam o verdadeiro sabor dos alimentos. A pimenta-do-reino e a noz-moscada eram consideradas 6 produtos de primeira necessidade. Utilizavam ainda anis, cebolinha, açafrão, hortelã, cominho, cravo, canela, semente de girassol e gengibre. As Cruzadas, expedições realizadas pela Igreja para retomar Jerusalém, que se encontrava em poder dos turcos seldjúcidas, serviram para difundir a culinária entre o Império Romano do Oriente e o Oriente Médio, de modo que ajudaram a enriquecer a gastronomia da Europa. Permitiram que as especiarias, o açúcar e o trigo sarraceno fossem movimentados de um lugar para outro, impulsionando o comércio no Oriente Médio e fazendo com que surgissem preparações de molhos feitos com condimentos, açúcar e pimenta. Os turcos invadiram Constantinopla em 1453. A partir de então, surgiram os primeiros países que formam o continente europeu: França, Inglaterra, Espanha e Portugal. O final da Idade Média é marcado pela queda do Império Romano do Oriente. A Idade Moderna compreende o período entre a queda do Império Romano do Oriente e a Revolução Francesa, em 1789. Esse período é marcado por grandes inovações e transformações em território europeu. As Grandes Navegações oportunizaram a dominação de continentes inteiros, como a África e a América. Em virtude do ato de esse período ter trazido muitas inovações, recebeu o nome de Renascença, época marcada pelo anseio do povo por um novo olhar em relação à vida, com a liberação de prazeres como a gastronomia, que estabelecem uma ruptura com os padrões medievais praticados até então. Apesar da escassez de alimentos, a gastronomia na Idade Moderna era mais requintada e diversificada. Inclusive, observa-se um declínio do consumo de carne e um aumento do consumo de pão. Nesse período também surge a cultura de boas maneiras à mesa, o hábito de lavar as mãos, além da utilização de talheres e guardanapos às refeições. Surgiram ainda estalagens, tabernas e cozinhas de rua – as duas primeiras funcionavam como um local onde as pessoas confraternizavam, com diversas opções de comida. 1.3 Idade Contemporânea A Idade Contemporânea surgiu no final do século XVIII, juntamente com a Revolução Francesa. Napoleão Bonaparte contribuiu para uma inovação desse período: as conservas em vidro e os enlatados. Dizem que ele tinha uma grande preocupação em garantir alimentação apropriada aos soldados, razão 7 pela qual “ofereceu um alto prêmio a quem criasse uma técnica para conservar alimentos por longo tempo” (Leal, 1998, p. 50). Além das conservas em vidro e dos enlatados, surgiram as técnicas de pasteurização e esterilização, possibilitando a conservação dos alimentos por muito mais tempo. As indústrias se expandiram, e assim uma quantidade maior de produtos era exposta nas prateleiras dos supermercados, o que contribuiu para o crescimento da economia nos países. Dessa forma, a sociedade tinha uma oferta maior de produtos alimentícios, uma vez que poderia ter acesso a alimentos que não necessariamente eram produzidos localmente, fazendo com que a alimentação se tornasse mais variada – lembrando que ela interferia diretamente na saúde do homem. Com a percepção de que o que era consumido interferia diretamente na saúde das pessoas, na primeira década do século XIX houve uma tendência crescente pela moderação no consumo dos alimentos. Priorizou-se o consumo de quantidades menores de alimentos, o que proporcionava benefícios à saúde, entre eles bem-estar, maior disposição e longevidade. A partir dessa constatação, a classe média percebeu que se tratava de um momento oportuno para deixar de se sentir inferiorizada pelas refeições prodigiosas realizadas pelas classes mais endinheiradas da sociedade (Cascudo, 2005). TEMA 2 – AS DESCOBERTAS MARÍTIMAS DO SÉCULO XV A tomada de Constantinopla pelos turcos e a busca por especiarias e riquezas fora do continente europeu, em meados do século XV, levou à procura de novas rotas para o Oriente, o que impulsionou as Grandes Navegações e possibilitou o descobrimento de outras terras, inclusive o descobrimento do Brasil. Vamos ver como se deram essas descobertas marítimas. 2.1 Novos caminhos em busca de especiarias Sabemos que as especiarias eram muito utilizadas pelos europeus nos preparos de suas refeições. Além de melhorarem o sabor, ajudavam na conservação dos alimentos e ainda tinham propriedades medicinais. Tal era a sua importância e valor, que o fato de uma família ter uma grande variedade de especiarias representava riqueza e ascensão social. Além do mais, a elite europeia ansiava por objetos de luxo, pedras e metais preciosos. Porém, em 8 1453, a cidade de Constantinopla (hoje Istambul) foi tomada pelos turcos, e assim foi fechada a principal porta de entrada de especiarias e riquezas na Europa, tendo em vista que a cidade era o entroncamento do itinerário comercial entre Oriente e Europa. Com isso, portugueses e espanhóis foram obrigados a procurar outros caminhos para as Índias, levando a descobrimentos importantes, como em 1492, quando os espanhóis chegaram no continente americano, e em 1498, quando “os portugueses, contornando a África e através do oceano Atlântico, alcançaram a Índia” (Freixa; Chaves, 2010, p. 87). Todo esse movimento realizado pelos espanhóis e portugueses contribuiu para o mundo moderno e para a globalização, pois houve uma troca de conhecimentos, culturas e gastronomia entre África, Ásia, Europa e América. Freixa e Chaves (2010, p. 90) relatam alguns fatos da época: Com as Grandes Navegações, a América entra no Mapa do mundo. Alimentos nativos de um continente foram assimilados por outras culturas a partir da Expansão Marítima. Temperos, frutas, plantas exóticas, cereais, raízes, animais, peixes, novos sabores passaram a frequentar as mesas europeias. Desse intercâmbio gastronômico surgiram produtos importantes para a culinária mundial, como batata, tomate, peru, chocolate (subproduto do cacau), baunilha, tabaco, milho, todos nativos das Américas Central e do Sul. (Freixa; Chaves, 2010, p. 90) Outros ingredientes passaram a fazer parte da alimentação do mundo, como é o caso de certos asiáticos, como açúcar, arroz e o chá, além dos provenientes da África, como o café e a pimenta-malagueta. A partir disso, houve uma mudança na forma de cozinhar: as especiarias que antes eram usadas de forma indiscriminada, disfarçando o sabor das carnes, por exemplo,passaram a ser usadas somente para valorizar o sabor dos alimentos. O açúcar, que era anteriormente considerado produto de luxo, passou a ser utilizado como substituto do mel em muitas preparações. Também vieram mudanças de hábitos, como maior consumo de vegetais, laticínios e carnes frescas, além da utilização de novos utensílios na cozinha e estipulação de horários das refeições, diferentes dos anteriormente praticados – principalmente na França, apesar de a prática ter atingido o restante da Europa posteriormente. Diante disso, houve o desenvolvimento das gastronomias regionais, ou seja, cada região começou a valorizar suas tradições e a usar os produtos que mais lhe convinham. Alguns preferiam manteiga, outros preferiam azeite como opção de gordura; alguns usavam açúcar na maioria dos pratos e outros o utilizavam somente para o preparo de sobremesas. Essas mudanças causaram 9 algumas separações, mas também auxiliaram a gastronomia a obter uma identidade própria, o que posteriormente seria difundido através de novo intercâmbio cultural. Dessa forma, com a regionalização dos costumes e as tradições gastronômicas unidas aos intercâmbios culturais e aos novos produtos inseridos pelas navegações, a Idade Moderna consolidou o desenvolvimento de novas cozinhas, como foi o caso da gastronomia francesa, que passou a ganhar cada vez mais destaque nessa época. TEMA 3 – O PERÍODO RENASCENTISTA E A CONTRIBUIÇÃO ITALIANA A Idade Moderna compreende os séculos XV a XVIII, tendo sido marcada pelas Grandes Navegações. Foi também nesse período que nasceu o Renascimento, movimento que estimulou a liberação dos prazeres, entre os quais o prazer gastronômico. A Itália teve destaque no Renascimento, pois contribuiu com diversas mudanças em vários outros países. Vejamos então as principais contribuições italianas para o período renascentista, que impactaram o restante do mundo. 3.1 A influência da Itália na França Em 1533, Catarina de Médici, que nasceu e viveu em Florença, na Itália, se casou com o futuro rei da França, Henrique II, indo morar em Paris. Florença é considerada o berço do Renascimento. Catarina leva para Paris jogos de porcelana, toalhas, talheres, objetos de ouro e prata, copos de cristal, além de cozinheiros italianos. Segundo Freixa e Chaves (2010), os cozinheiros italianos “agraciavam as mesas nobres francesas com pratos mais elaborados e requintados, como quenelles1 de peixe e de ave, parmesão ralado, ris-de-veau2, galinha-d’angola recheada com castanhas, escargots, trufas e carne de vitelo” (Freixa; Chaves, 2010, p. 81). Os florentinos também desenvolveram o hábito de consumir frutas combinadas ou não com salgados antes das refeições, como melão com presunto, uma entrada considerada clássica até os dias atuais, na Itália e na 1 Quenelles. Da cozinha francesa, bolinho de massa leve, de formato oval, alongado, composto de uma base de ovos e um ingrediente principal moído, que pode ser peixe, ave, ou carne de vitela. É cozido por imersão em caldo (Freixa; Chaves, 2010). 2 Nome em francês dado ao timo do vitelo, que é considerado uma iguaria, por seu sabor delicado e sua textura firma, mas macia. Timo é uma glândula encontrada na garganta e próximo ao coração do boi, do carneiro e do porco (Freixa; Chaves, 2010). 10 França. Catarina de Médici promovia banquetes admiráveis, nos quais eram servidos produtos escolhidos cuidadosamente por seus cozinheiros, como vegetais (alcachofra, feijões, brócolis, ervilhas e tomates, pois as grandes navegações já haviam iniciado), sorbets, sorvetes, compotas de frutas e tortas. Ela também mudou hábitos na corte francesa, ao insistir que as mulheres participassem dos banquetes e não ficassem mais isoladas em seus quartos. Outras práticas atribuídas a ela foram a separação de doces e salgados e a introdução do uso de talheres à mesa, como facas e colheres. A influência da Renascença e de Catarina de Médici na gastronomia foram consideradas de extrema importância para a forma como a alimentação era encarada. O surgimento da imprensa facilitou a transcrição e a divulgação de informações gastronômicas, fazendo com que os tratados culinários fossem registrados e levados a mais lugares. A difusão de informações e as trocas culturais continuaram a se consolidar cada vez mais, fortalecendo o fechamento da Idade Média e a abertura para uma nova idade histórica e gastronômica: a Idade Moderna. TEMA 4 – A INFLUÊNCIA DA GASTRONOMIA FRANCESA NO MUNDO A França, a partir do século XVII, passa a ter grande importância no cenário gastronômico: trouxe as regras de etiqueta à mesa, seus chefs tornaram- se famosos e disputados, e houve intensa evolução das técnicas de cozinha e da criatividade no preparo. Vamos entender como tudo isso aconteceu. 4.1 Gastronomia francesa Depois do frisson causado pelo Renascimento na Europa, tem início uma nova era: o apogeu da gastronomia francesa, a partir do século XVII, durante o reinado de Luís XIV. Esse período foi marcado pelo aperfeiçoamento de técnicas de cozinha e pelo uso da criatividade. A Revolução Francesa ocorreu em 1789, ocasionada pelos protestos constantes do povo, que estava cansado de ver a nobreza e a burguesia fartarem-se de comer em grandes banquetes, enquanto eles não tinham nem pão. Com a Revolução, veio também o desemprego de vários chefs de cozinha que trabalhavam para a nobreza – não havendo mais banquetes e grandes jantares, não eram necessários chefs. Foi então que esses profissionais 11 resolveram abrir os seus próprios estabelecimentos para servir a nobreza, a burguesia e quem mais pudesse pagar. Nascem assim os restaurantes. Sobre os restaurantes, é importante ressaltar que a França já tinha tabernas e hospedarias, locais simples, com pouca decoração, sem nenhum requinte, barulhentos, onde eram servidas refeições sem muitas variedades. Os alimentos oferecidos aos clientes eram os mesmos comidos pelos donos do local, assim como os pratos e os talheres utilizados. Já os restaurantes tinham um menu (carta de comidas), com base no qual o cliente poderia escolher o que iria comer. O ambiente era mais refinado, mais limpo e tranquilo, com uma decoração apropriada. O destaque para a gastronomia francesa remonda a um período anterior à Revolução Francesa, impulsionada pelos seus reis que incentivavam os chefs e suas equipes. Podemos destacar, já no reinado de Luís XIII, entre 1610 e 1643, o hábito de consumir chocolate nas cortes francesas, levado pela esposa de Luís XIII, Ana da Áustria, que era apaixonada por essa bebida. Depois de Luís XIII, quem assumiu o poder foi seu filho, Luís XIV, um grande entusiasta das artes e da gastronomia francesas. Durante seu reinado, eram oferecidos banquetes que eram verdadeiros shows. No Palácio de Versalhes, moradia de Luís XIV, havia hortas e pomares, de onde se tiravam os ingredientes que seriam servidos nas refeições e nos banquetes, além de plantas e flores. Durante o reinado de Luís XIV, um respeitado cozinheiro de nome François Pierre La Varenne, que trabalhava para o Marquês d’Uxelles, publicou o livro “Le cuisiner françois” (o cozinheiro francês), com inúmeras receitas que são utilizadas até hoje. O livro traz as receitas divididas por tipos de pratos, na mesma ordem que eram servidos em um banquete. La Varenne instituiu mudanças nos hábitos de cozinhar, como o uso comedido de especiarias, que deveriam servir somente para exaltar o alimento, e não para disfarçá-lo. Ervas frescas, legumes e frutas passaram a ser usados nas preparações dos pratos. No reinado de Luís XV, filho de Luís XIV, apareceram os primeiros menus, que foram elaborados por aristocratas que mandaram imprimir uma lista de 48 pratos que que seriam servidos ao rei em um banquete oferecido a ele. Luís XV gostava de refeições mais reservadas, com menos gente, tendo instituídoo “petit souper, um jantar mais íntimo, com menos convidados e sem a rigidez dos protocolos reais.” (Freixa; Chaves, 2010, p. 108). 12 Finalmente, no reinado de Luís XVI, veio a Revolução Francesa, e com a Queda da Bastilha (1789) o fim da monarquia. TEMA 5 – TENDÊNCIAS DA GASTRONOMIA A PARTIR DO SÉCULO XX Com a Idade Contemporânea, surgiram vários movimentos e tendências gastronômicas em todo o mundo. Alguns movimentos se contrapõem a outros, mas convivem na sociedade lado a lado, em uma típica demonstração de democracia e de que há espaço para todos. Por exemplo, podemos citar o fast- food e o slow food, bem como adeptos do vegetarianismo e carnívoros. Neste tema, vamos descrever algumas tendências ou movimentos, como a nouvelle cuisine, o fast-food, o slow-food, o vegetarianismo, a cozinha de fusão e a gastronomia molecular. 5.1 Nouvelle cuisine O movimento da nouvelle cuisine teve seu início em meados dos anos 60. Foi difundido pelo chef Paul Bocuse, como oposição à culinária que vinha sendo praticada, marcada pelo excesso de temperos, molhos pesados e alimentos muito gordurosos. Junto com Paul Bocuse, estavam Jean Pierre Troigros, Michel Guérd, Roger Vergé e Raymond Olivier, precursores de uma cozinha caracterizada pela leveza, baseada em ingredientes frescos e naturais. Eram repelidas as preparações complicadas, muito gordurosas e pesadas, prezando pela saúde. Segundo Franco (2010, p. 273), os chefs envolvidos no movimento mantiveram a sua individualidade na cozinha, mas apresentavam em comum as seguintes características: cozimento rápido; alimentos frescos (sazonalidade); molhos sem excesso de temperos e gordura; alimentos menos gordurosos; preparação dos alimentos com técnicas apropriadas, para que não perdessem o sabor natural; harmonia de cores, aromas, texturas e temperaturas; relevância para as cozinhas regionais; preocupação dietética. Porém, “a inaptidão e os excessos de alguns chefs fizeram Paul Bocuse declarar, já em 1982, que a nouvelle cuisine havia terminado.” 13 5.2 Fast-Food Esse movimento nasceu nos Estados Unidos da América nos anos 40, e logo se espalhou pelo mundo. É marcado pela preparação de pratos rápidos, sem variedades alimentares, para serem vendidos em pouco tempo. Apesar das críticas que sempre foram feitas a esse segmento, ele “apresenta um aspecto funcional inegável: satisfaz a necessidade atual de rapidez e responde à demanda de relações impessoais decorrentes da cultura urbana e de seu ritmo.” (Franco, 2010, p. 242). O fast-food ficou conhecido principalmente pela expansão da rede McDonald’s por todo o mundo. 5.3 Slow food O slow food surgiu como forma de se contrapor ao fast-food, considerado prejudicial à saúde. Esse movimento foi liderado por Carlo Petrini, em 1986, e pretendia “resgatar nada mais do que a essência do convívio à mesa, do comer e beber devagar, assim como preservar as tradições de receitas e ingredientes regionais que se perderam com a globalização” (Freixa; Chaves, 2017, p. 265). Petrini (2009, p. 32) descreve: O alimento e sua produção devem ser devolvidos ao lugar central que merecem entre as atividades humanas, e os critérios que guiam nossas ações devem ser rediscutidos. O ponto crucial não é mais a quantidade de alimento produzido, mas sua qualidade complexa, conceito que abrange questões de gosto e variedade, respeito pelo ambiente, pelos ecossistemas e pelos ritmos da natureza em geral, assim como o respeito pela dignidade humana. O objetivo é melhorar a qualidade da vida de todos, sem mais tolerar um modelo de desenvolvimento incompatível com as exigências do planeta. Esse movimento cresceu, com representantes em muitas partes do mundo, divulgando suas ações e ideias por meio do site da rede e de livros, cartilhas e revistas. 5.4 Vegetarianismo Esse movimento ganha mais adeptos a cada dia. Há algum tempo, ser vegetariano era motivo de críticas pelos carnívoros. A comida vegetariana era considerada “sem graça”. Porém, essa ideia foi se modificando com o passar do tempo, e assim muitos chefs de cozinha renomados se renderam à preparação de pratos vegetarianos em seus cardápios. Conforme nos explica Freixa (2017), 14 ser vegetariano significa não consumir nenhuma carne (peixes, frutos do mar, carnes brancas e vermelhos). Porém, pode haver consumo de derivados de animais, como leite, manteiga e ovos. Já o veganismo vai além desse conceito, pois baseia-se unicamente em ingredientes vegetais, opondo-se a qualquer alimento de origem animal. O mercado oferece, atualmente, uma infinidade de pratos e produtos que atendem a esse nicho de mercado, que é o vegetarianismo e o veganismo. A cada ano há mais estabelecimentos gastronômicos nesse ramo. 5.5 Cozinha de fusão Com a globalização do século XX, aumentou o número de restaurantes étnicos, também por conta das imigrações ao redor do mundo. Dessa forma, surgiram técnicas e ingredientes de várias cozinhas. “Essa permuta de ingredientes fez surgir uma tendência chamada de fusion cuisine ou fusion cook (cozinha de fusão), que mistura técnicas culinárias de várias partes do mundo” (Freixa; Chaves, 2017, p. 270). Como exemplo, podemos citar um prato tipicamente francês, o confit de pato, feito com tucupi, que é tipicamente brasileiro. 5.6 Gastronomia molecular A cozinha molecular surgiu com o químico francês Hervé This, na década de 1980. Hervé era apaixonado por gastronomia, e iniciou uma série de experiências aplicada aos alimentos, envolvendo química e física. Como exemplo, podemos citar o suflê feito no forno à vácuo (usado para desidratar amostras em laboratórios). Eles ficavam maiores, porque mais ar e moléculas se movem no interior dos alimentos. A ideia é que o movimento de dentro para fora resulta em um suflê maior (Freixa; Chaves, 2010). Ferran Adriá é um dos chefs renomados da gastronomia molecular. Foi proprietário do El Bulli, na Espanha, até 2011. Seu trabalho era dividido: seis meses fazendo experiências de pratos com a gastronomia molecular e os outro seis meses servindo os pratos ao público em seu restaurante. Como exemplo de pratos servidos por Ferran Adrià no El Bulli, podemos citar: “o espaguete elaborado sem massa, apenas com parmesão; o ar de cenoura, uma espuma de textura quase tão leve quanto o ar; as colheres de piña colada, um coquetel 15 sólido servido no talher; um ovo de leite de coco puro congelado, feito com nitrogênio líquido” (Freixa; Chaves, 2010, p. 281). No Brasil, um dos chefs que desenvolve técnicas da gastronomia molecular é o carioca Felipe Bronze. NA PRÁTICA Vamos imaginar que você foi contratado(a) para fazer uma consultoria em uma cantina que funciona dentro de uma Universidade. Ela fornece almoço e jantar para os clientes, de segunda a sexta-feira. O gerente da cantina relata que os alunos reclamam porque não há pratos vegetarianos no cardápio, somente saladas e alguns legumes. Assim, você deverá elaborar um cardápio vegetariano, contendo uma preparação diferente para cada dia da semana, em um total de 5 dias. Não se esqueça de que a preparação deve ser nutritiva, saudável e equilibrada. FINALIZANDO A alimentação é imprescindível para todo ser vivo, porém o homem fez dessa prática algo prazeroso e elaborado. Quando estudamos a história da gastronomia, conseguimos entender que ela está em constante evolução, o que percebemos ao estudar os períodos históricos, desde a pré-história, passando pelos principais marcos da alimentação humana, até a gastronomia contemporânea. O ato de comer envolve técnica, conhecimento, história e prazer. Os movimentos e tendências gastronômicos nos mostram que a gastronomia atual passou e ainda passa por grandes evoluções, tendo sido influenciada por praticamente todos os povos do mundo. Compreender esses processos e modificações, bem como a grandecarga cultural que a alimentação traz, é importante para o profissional de nutrição. 16 REFERÊNCIAS CASCUDO, L. C. História da alimentação no Brasil. São Paulo: Global, 2005. FLANDRIN, J. L.; MONTANARI, M. História da alimentação. São Paulo: Estação Liberdade, 1998. FRANCO, A. De caçador à gourmet: uma história da gastronomia. 5. ed. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2010. FREIXA, D.; CHAVES, G. Gastronomia no Brasil e no mundo. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2017. LEAL, M. L. de M. S. A história da gastronomia. Rio de Janeiro: Senac, 1998. PETRINI, C. Slow food: princípios da nova gastronomia. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2009. Na prática FINALIZANDO