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DIREITOS REAIS APS

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Luiza Carolina Raposo Resende Bezerra Turma:3108ª02
R.A.:7075320
· Análise Crítica do RECURSO ESPECIAL N.º1.622.555-MG
O tema do RECURSO ESPECIAL Nº 1.622.555 - MG (2015/0279732-8) é de se a ação de busca e apreensão, motivada pelo inadimplemento de contrato de financiamento de automóvel, garantido por alienação fiduciária, deve ser extinta, por falta de interesse de agir, em razão da aplicação da teoria do adimplemento substancial, tal como compreenderam as instâncias ordinárias.
A discussão se deu na 2ª seção em julgamento de recurso do Banco Volkswagen, que pretendia afastar a teoria aplicada pelo TJ/MG em caso de consumidor que pagou 44 de 48 parcelas da compra de um carro.
O relator, ministro Marco Buzzi, votou no sentido de que viola a boa-fé objetiva a conduta do credor que pretende o rompimento do contrato após receber a maior parte. De acordo com Buzzi, o interesse fundamental não é o bem em si, mas a satisfação do crédito, o que pode ser alcançado por outras vias.
Conforme a fundamentação do relator, a teoria do adimplemento substancial do contrato aborda sobre as hipóteses em que não se pode acabar com a relação contratual ainda que haja inexecução (parcial) do contrato por um dos contratantes, visando uma segurança jurídica maior em casos como este (o contrato já foi cumprido quase em sua totalidade), sem dar uma vantagem ao devedor. O que se busca é a solução, através de vias menos gravosas, conforme o explicitado pelo relator. A relação obrigacional em sua atual acepção complexa, com efeito, exige a satisfação dos interesses do credor, devendo-se levar em conta, de toda forma, também os interesses do devedor, funcionando a boa-fé, em sua função de proteção, como fator que limita eventuais abusos, de parte a parte, no curso da relação.
Para Clóvis do Couto e Silva[footnoteRef:1], o adimplemento substancial é “um adimplemento tão próximo do resultado final, que, tendo-se em vista a conduta das partes, exclui-se o direito de resolução, permitindo tão somente o pedido de indenização.” [1: COUTO e SILVA apud: BECKER, (1993, p. 60), citado por Vivien Lys Porto Ferreira da Silva (2006, p. 290). 
] 
Desta feita, votou pelo parcial provimento ao recurso apenas para afastar a extinção do processo sem resolução do mérito e determinar o retorno dos autos à origem para que o banco faça emenda da inicial para que a satisfação do crédito seja por modo menos gravoso.
Entretanto, o ministro Marco Bellizze abriu divergência, por concluir que é imprópria a invocação da teoria do adimplemento substancial como fundamento para afastar a legítima intenção do credor na busca e apreensão do bem, uma vez que esta não é prevista em lei e portanto, incompatível com a lei especial da alienação fiduciária. Para Bellizze, um entendimento diverso pode levar ao enfraquecimento do instituto de alienação fiduciária, causando inclusive a sensível majoração dos juros nesse tipo de contrato.
Por conseguinte, reconheceu a existência do interesse de agir do banco em promover a busca e apreensão independentemente da extensão da mora, determinando o retorno dos autos à origem para prosseguimento da referida ação de busca e apreensão.
O ministro Antonio Carlos Ferreira em seu voto considerou que o julgamento sobre a substancialidade do adimplemento, ressalvando as hipóteses de evidente relevância, não deve se prender apenas ao critério quantitativo e que o valor restante da dívida é relevante do ponto de vista financeiro, frisando que o instituto da alienação fiduciária além de facilitar a concessão de crédito, também assegura aos credores meios eficazes para satisfação do crédito, sendo sua linha de raciocínio seguida pelo ministro Moura Ribeiro.
A ministra Nancy também seguiu a divergência, mas com fundamentação diferente. Ela considerou a possibilidade de aplicação da teoria do adimplemento substancial do contrato em outros casos, porém no caso concreto, aplicá-la seria "impedir o acesso ao Judiciário" caso a ação de busca e apreensão não prosseguisse.
Ficaram Vencidos o relator e o ministro Salomão.
Ainda que não exista previsão expressa para o adimplemento substancial em nosso ordenamento jurídico brasileiro, há várias inovações jurídicas que buscam materializar a existência de tal teoria dentro de nossos princípios. De acordo com o Enunciado 361 da IV Jornada de Direito civil, embora o adimplemento substancial pátrio não tenha previsão legal, este é baseado nos princípios basilares que devem reger toda relação jurídica, em observância, sobretudo, da função social do contrato e o princípio da boa-fé objetiva. Portanto, A argumentação do voto vencido do Ministro Marco Buzzi se mostra condizente com a construção e com os fundamentos da teoria do adimplemento substancial, uma vez que a boa-fé objetiva não se aplica apenas aos contratos regulados pelo Código Civil e,consequentemente, o adimplemento substancial. Assim, efetivamente o que deve ser analisado não é natureza da relação contratual e do dever descumprido, mas sim a gravidade do descumprimento e o atendimento ou não da função econômico-social do contrato. 
Embora a jurisprudência brasileira entenda muitas vezes pela inaplicabilidade da teoria do adimplemento substancial a contratos e relações jurídicas reguladas por legislações específicas, como é o caso da alienação fiduciária em garantia, não se mostra razoável excluir a aplicabilidade da teoria em razão deste argumento, podendo essa ser aplicada em alguns casos,como fundamentado pela ministra Nancy. 
De fato, existe a necessidade de estabelecer critérios mais unificados para a aplicação desta teoria, requisitos que não frustrem a legítima expectativa das partes e ao mesmo tempo garantam a segurança jurídica, evitando, assim, decisões baseadas em critérios puramente matemáticos. Todavia, permanecerá certa subjetividade, que resulta, também, do fato de que o inadimplemento insignificante deve ser analisado diante de cada caso concreto, não existindo uma regra objetiva que determine quando poderá ser considerado suficiente. É justamente essa flexibilidade presente nos princípios da boa-fé objetiva e da função social dos contratos que permite a concretização da justiça contratual em cada caso, diante das peculiaridades específicas de cada relação jurídica contratual.
Então, a decisão tomada pelo STJ, data vênia, é equivocada ao dizer que a tese do adimplemento substancial não se aplica aos casos de alienação fiduciária em garantia. Agindo desta forma, acaba por não concretizar principios basilares do ordenamento jurídico, causando o afastamento do papel concretizador do Poder Judiciário de direitos e garantias que proponham equilíbrio e justiça contratual para ambas as partes. 
· BIBLIOGRAFIA
SILVA, Clóvis V. Do Couto e. A obrigação como processo. 1 ed. Rio de Janeiro: FGV, 2007;
VENOSA, Sílvio de Salvo. Direito Civil – teoria geral das obrigações e teoria geral dos contratos. 8 ed. São Paulo: Atlas, 2008. V. 2;
SILVA, Vivien Lys Porto Ferreira da. Adimplemento substancial. 2006. 290 f. Dissertação (Mestrado na área de Direito das Relações Sociais, sub-área Direito Civil) – Pontífice Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2006. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/cp012536.pdf>. Acesso em 15 de out. 2018.

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