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Conteudista: Prof.ª Ma. Mara Sampaio Revisão Textual: Thaís Teixeira Tardivo Stringaci Material Teórico Material Complementar Referências Neuroaprendizagem Plasticidade Neural Plasticidade é uma palavra que, entre outros sentidos, é usada para se referir à capacidade de mudança de forma de um determinado material que sofre intervenção e passa a ter um novo formato. Essa é uma propriedade do plástico – material que, quando aquecido, deforma-se e não volta mais à forma original. Nas neurociências, segundo Lent (2008, p. 112), neuroplasticidade é “a propriedade do sistema nervoso de alterar a sua função ou a sua estrutura em resposta às in�uências ambientais que o atingem”. No caso do sistema nervoso, os neurônios podem alterar a sua função e sua forma de modo mais ou menos prolongado. É a plasticidade que faz com que cérebro esteja em constante mudança, remodelando-se a cada experiência de vida. A neuroplasticidade ocorre em três estágios: 1 / 3 Material Teórico Objetivo da Unidade: Entender a maneira como o sistema nervoso central desenvolve os aspectos relacionados à aprendizagem. É a plasticidade neural que dá ao cérebro humano a capacidade dinâmica e adaptativa de se reestruturar de acordo com novos desa�os do ambiente. Em cada fase da vida, a plasticidade se expressa de uma forma. É mais intensa na infância e adolescência, mas é expressiva na fase adulta. A neuroplasticidade acontece a partir da atividade e do tipo de estimulação recebida do ambiente. Figura 1 Durante o desenvolvimento (os ciclos de vida): desde a fase embrionária, quando as células indiferenciadas passam a ser neurônios, até a maturação do Sistema Nervoso Central (SNC), sofrendo in�uência genética e do ambiente. Durante um aprendizado (ocorre pela vida toda): o comportamento gera modi�cações na representação do mapa cortical quando algo novo é aprendido. Por algum dano (fraturas ou lesões): os mecanismos de reparação e reorganização da rede neural próxima ou distante surgem logo após a lesão e podem durar muito tempo. Fonte: Getty Images Em todo o sistema nervoso, a rede neural pode ser modi�cada em função das experiências individuais. A neuroplasticidade se manifesta de três maneiras distintas durante todo o ciclo de vida de uma pessoa, e elas podem também ser simultâneas. São elas: Neurogênese Trata-se da plasticidade cerebral que se dá pelo nascimento maciço de novas células, ou seja, pela capacidade de proliferação neuronal e glial. Por muito tempo, a neurogênese foi identi�cada como uma ocorrência ativa apenas do período embrionário até as fases iniciais do desenvolvimento na infância. Considerava-se que, com poucos meses de vida, essas células paravam de nascer para que os mecanismos de posicionamento e diferenciação das células neurais acontecessem depois. Desconhecia-se até bem pouco tempo que algumas regiões do sistema nervoso pudessem produzir novos neurônios até a vida adulta. Foi na década de 1990 que um grupo de neurocientistas suecos e americanos encontrou evidências sobre o aparecimento de novos neurônios no hipocampo de indivíduos adultos. Novos neurônios são produzidos tanto no cérebro em desenvolvimento quanto no maduro, em uma região conhecida como giro denteado do hipocampo. Conhecidas como células- tronco, elas também surgem na zona subependimária dos ventrículos laterais do telencéfalo e numa terceira região, no hipotálamo. Morfológica: aumento ou redução do número de células ou alteração do trajeto, ou seja, mediante modi�cações de estruturas (axônios, dendritos e sinapses) de uma região cerebral. Funcional: mediante alterações na �siologia neuronal e sináptica, por exemplo, com maior liberação de neurotransmissores. Comportamental: relacionada aos fenômenos de aprendizagem e de memória. Segundo Lent (2008), as células-tronco são capazes de autorregeneração e multipotencialidade. Supõe-se que a células situadas no encéfalo são capazes de gerar neurônios e gliócitos de vários tipos e são aptas a proliferar continuamente em indivíduos adultos. A plasticidade nas sinapses se mostra mais característica em adultos, sendo considerada a base funcional da memória. (LENT, 2008). A neurogênese no cérebro adulto produz uma pequena quantidade de neurônios em proporção à já existente. Exercícios físicos e novos aprendizados podem estimular a neurogênese, assim como o cuidado com o sono e com a alimentação contribuem para gerar novos neurônios. Neuroplasticidade Morfológica A capacidade plástica dos neurônios pode acontecer em diferentes localidades: Corpo do neurônio: a plasticidade somática está relacionada ao nascimento de novos neurônios. Esse fenômeno corresponde à neurogênese e ocorre geralmente no giro denteado do hipocampo. Dendritos: a plasticidade ocorre durante a diferenciação, o crescimento e a arborização do dendrito. Ela é controlada por neurotro�nas, especialmente o BDNF (crescimento, diferenciação e reparo dos neurônios), que são relacionadas à memória e à aprendizagem. Axônios: a plasticidade axônica é a capacidade de essas células e seus terminais reorganizarem a sua estrutura em resposta às in�uências do ambiente. Os axônios respondentes são íntegros e, em determinadas circunstâncias �siológicas, podem modi�car-se mesmo sem a ocorrência de lesões. Sinapses: a plasticidade sináptica é a forma de plasticidade prevalente no cérebro adulto normal. É considerada a base para a memória de longa duração. Nessa forma de plasticidade, a principal questão a ser observada é a e�cácia da transmissão sináptica, e ela ocorre tanto estrutural quanto funcionalmente. Figura 2 Fonte: Getty Images Regeneração A regeneração é um outro tipo de plasticidade e ocorre frequentemente no sistema nervoso periférico. Pode ser bem-sucedida ou malsucedida. Neuroplasticidade Funcional É a capacidade de modi�car sua estrutura e função como consequência de uma lesão ou experiência. Pesquisas desenvolvidas nos últimos anos têm contribuído para o conhecimento sobre a neuroplasticidade funcional. Uma delas, feita com músicos e não músicos, indicou que pessoas que treinam desde a infância a tocar violino e violoncelo possuem uma área cerebral maior para o comando dos dedos da mão esquerda em relação aos não músicos. A síndrome do membro fantasma é um exemplo, um fenômeno sempre reportado por pessoas que tiveram algum membro amputado. Essas pessoas continuam a apresentar as sensações provenientes do membro perdido, como se ele ainda estivesse intacto. Essa sensação foi considerada um processo de plasticidade axônica pelo neuropsicólogo Vilayanur S. Ramachandran, pesquisador da Universidade da Califórnia (EUA), que atribuiu a percepção do “membro fantasma” à possibilidade de brotamento colateral nos axônios. No ano 2000, pesquisadores ingleses descobriram que os taxistas de Londres tinham o hipocampo mais desenvolvido, pois o exercitavam mais para memorizar ruas e rotas da cidade. Outro exemplo ocorre com o córtex visual que passa a processar informações táteis; ele assume essa função em pessoas que �cam cegas. Bem-sucedida: acontece toda vez que um nervo da perna ou do braço é esmagado ou rompido por um corte ou outro tipo de trauma. Há boa recuperação funcional dos nervos, mesmo que seja necessário fazer cirurgia para reaproximar as extremidades e reativar suas funções. Esse processo de reconstrução de axônios traumatizados acontece por meio das células de Schwann. Malsucedida: ela é inexistente ou bloqueada por algum fator no sistema nervoso central. A incapacidade de regeneração dos axônios centrais torna permanente o efeito das lesões. Em alguns sistemas, a regeneração é mais difícil. Lesão no nervo óptico (neurônios da retina) pode gerar cegueira irreversível. As neurociências têm descoberto cada vez mais o potencial de criação de novos neurônios e a sua capacidade de migrar e ocupar outras áreas do cérebro. Os estudos da plasticidade bené�ca podem, no futuro, ajudar na preservação de funções cognitivase na recuperação de muitos traumas e doenças degenerativas para as quais ainda não existem tratamentos e�cazes. Como o Cérebro Aprende Vamos relembrar que, ao falarmos do cérebro, quase sempre estamos nos referindo ao encéfalo, que é o conjunto do cérebro, cerebelo e tronco encefálico. Eles constituem um único sistema dentro da caixa craniana. No entendimento da relação do cérebro com a aprendizagem, consideraremos as dimensões físicas e funcionais, mas é importante não esquecer da contribuição das emoções e da intencionalidade de nossas ações para tornar completo o processo de aprendizado. Aprender signi�ca obter um conhecimento ou adquirir uma habilidade. É um processo que modi�ca o estado atual para dar lugar a algo novo. Sendo assim, para aprender, o cérebro deve estar em constante reordenamento de suas funções, que possibilitam, por meio de múltiplas interações, o surgimento de novas rotas neurais e a eliminação daquelas que não terão mais utilidade. A neuroplasticidade cerebral está intimamente relacionada ao processo de aprendizagem. É por meio da liberação de neurotransmissores que se cria novas sinapses e se modi�ca o campo neurológico química, anatômica e �siologicamente quando ocorre a aquisição de informações. Isso acontece a todo momento em que se aprende algo novo. É assim que se processa a aprendizagem no cérebro. Figura 3 Fonte: Getty Images Segundo Rotta, Bridi Filho e Bridi (2018), a aprendizagem ocorre por modi�cação das forças sinápticas, dos processos de fortalecimento ou do enfraquecimento de sinapses. Isso signi�ca que o sistema, ao mesmo tempo que mantém uma informação anterior, modi�ca sua estrutura de forma permanente para apreender a nova informação. Todo novo aprendizado depende de uma experiência anterior como base. Novos circuitos neurais são criados sem eliminar os elementos já construídos nas interações anteriores com o ambiente. Essas informações �cam armazenadas na memória e são evocadas por algum estímulo externo, pela aprendizagem de um novo comportamento que se traduz numa recomposição nova dessas informações. Segundo Lent (2001), a aprendizagem se diferencia no processo de aquisição e armazenamento das informações e não é o mesmo que memorização. A interação com o ambiente que nos cerca e o modo como usamos nosso sistema perceptivo e físico-motor é o que produzirá a aprendizagem. Interagir, experimentar e modi�car o ambiente induzirá à formação de conexões nervosas e à aquisição de novos comportamentos. Embora nosso cérebro seja programado para desenvolver certas capacidades, como andar, falar e se relacionar, nós necessitamos de um processo de aprendizado para adquiri-las. Nascemos com muito pouco conhecimento ou comportamentos instalados. Na grande maioria, nossos comportamentos são aprendidos na relação com o ambiente (COSENZA; GUERRA, 2011). As conexões neurais são ampliadas de forma permanente pela intencionalidade de nossa ação, somada às experiências físicas e perceptivas que temos com o ambiente. Toda nova interação, desde as mais simples às complexas, exigem uma crescente renovação de células e dos percursos sinápticos. Pode-se dizer que o desenvolvimento neuronal (ou seja, a renovação celular constante) é uma resposta às necessidades do organismo de se manter em equilíbrio na interação com o ambiente, bem como pela necessidade progressiva que temos de conhecimento. O aumento da conectividade entre os neurônios do córtex cerebral, que é maior e crescente durante a infância, diminui durante a adolescência e se estabiliza na fase adulta. A aprendizagem de novas informação diminui nos adultos, porém, aumenta a capacidade de utilizar o que já foi aprendido. Mesmo com diferença de intensidade nas diversas fases, a - LENT, 2001, p. 594 “O processo de aquisição de novas informações que vão ser retidas na memória é chamado aprendizagem. Através dele nos tornamos capazes de orientar o comportamento e o pensamento. Memória, diferentemente, é o processo de arquivamento seletivo dessas informações, pelo qual podemos evocá-las sempre que desejarmos, consciente ou inconscientemente ” capacidade de aprendizagem no ser humano permanece pela vida inteira (COSENZA; GUERRA, 2011). O aprendizado é uma condição constante de propostas de interação com o ambiente, que desa�am ou afastam o indivíduo conforme as percepções de cada um. O afastamento, a inatividade consciente ou inconsciente, leva ao empobrecimento das conexões e diminui as chances de desenvolvimento de novos caminhos neurais. A plasticidade que ocorre no processo de fazer e no de desfazer as conexões existentes entre as células nervosas é a base do aprendizado. A aprendizagem permanente só ocorrerá com a formação de novas associações sinápticas, e isso requer intencionalidade e empenho pessoal para se expor a novas experiências (ROTTA; BRIDI FILHO; BRIDI, 2018; COSENZA; GUERRA, 2011). Segundo Cosenza e Guerra (2011), a aprendizagem do ponto de vista neurobiológico é um fenômeno individual que se dá pela consolidação das diversas conexões entre as células nervosas formadas durante as novas experiências pessoais de cada um, pela repetição do uso do circuito criado pela nova experiência. Por ter in�uência da interação com o ambiente, é possível criar situações de aprendizagem em ambientes desa�adores que possam promover intencionalmente a ativação de novas sinapses e tornar as experiências enriquecedoras. Lateralidade Cerebral Quem nunca ouviu alguém tentar dividir a responsabilidade por suas habilidades e capacidades entre os dois lados de nosso cérebro? “Não me saio bem na matemática porque sou canhoto”. Ou, então, “�z o curso de engenharia porque o lado esquerdo do meu cérebro é melhor”. Essas referências, é claro, têm explicações anatômicas. Quando olhamos o cérebro de cima, notamos uma certa semelhança com uma noz. Para se acomodar dentro da caixa craniana, ele se mostra enrugado, com sulcos e giros. Também é dividido ao meio pelo corpo caloso, a estrutura que conecta os lados que chamamos de hemisférios cerebrais: o direito (HD) e o esquerdo (HE). Por muito tempo se acreditou que havia uma dominância de um dos lados sobre o outro no comportamento humano. Essa visão, que está ultrapassada, se referia aos aspectos morfológicos do cérebro e simpli�cava as funções cerebrais ao atribuir, por exemplo, a razão ao HE e a emoção ao HD. Com o avanço das tecnologias de imagens funcionais e seu uso como base para os estudos na Neurociência, tornou-se possível identi�car com mais precisão as áreas dos dois hemisférios envolvidas nas diversas tarefas cerebrais. O que existe não é uma divisão de tarefas, mas a especialização funcional de cada um dos hemisférios. Essa característica, que chamamos de lateralidade hemisférica, é o grau de controle do hemisfério esquerdo ou do direito sobre várias funções cognitivas e comportamentais. Cada um dos lados é especializado em processar diferentes funções cognitivas. Figura 4 Fonte: Adaptada de Getty Images O hemisfério esquerdo lida com o processamento verbal (língua, fala, leitura e escrita). Ele é mais especializado na motricidade e controla os movimentos do lado direito do corpo (95% dos humanos são destros). É mais pragmático. Responde pelos cálculos matemáticos, pelas habilidades analíticas e lógico-sequenciais. Identi�ca relações espaciais qualitativas (dentro, fora) e a atenção. O hemisfério direto, por sua vez, controla o processamento não verbal e o lado esquerdo do corpo. Ele permite a percepção holística do mundo, a compreensão da linguagem �gurada e as nuances afetivas da fala. A percepção de sons musicais, o reconhecimento espacial e visual (da face humana) e a identi�cação de objetos e animais. É, também, responsável pela habilidade para o desenho e pela identi�cação de emoções. Existem funções que, para serem realizadas, valem-se das duas lateralidades. É o caso da prosódia, parte da fala responsável pela entonação e acentuação. A criatividade,outro exemplo interessante, sempre foi identi�cada com o HE, principalmente o momento do insight, que se refere ao surgimento de uma nova ideia. Porém, uma parte importante, o processo que leva a essa solução de um problema depende de uma rede cortical bem ampla, que inclui o HD. Isso signi�ca que não se pode falar em dominância cerebral numa pessoa ou considerar o “cérebro direito” e o “cérebro esquerdo” como se fossem separados. Por mais que exista uma especialidade funcional, a maior parte das tarefas complexas tem o envolvimento de ambos os hemisférios, e é um só cérebro. O corpo caloso, além da ligação estrutural entre os hemisférios, também é responsável pela comunicação e conexão entre eles. Tudo que percebemos e aprendemos na interação com o meio ambiente depende das lateralidades cerebrais, do funcionamento integrado entre os dois hemisféricos. Quando se fala que as escolas deveriam dar mais ênfase ao lado direito do cérebro, como se um dos lados fosse melhor ou superior ao outro, as pesquisas já comprovaram que não. O incentivo a esse tipo de preocupação por parte das escolas só faz sentido se for para que enfatizar a educação integral ou para desenvolver holisticamente as habilidades de ambos os hemisférios. Desa�os da Aprendizagem Alguns desa�os tradicionais, que sempre instigaram a Educação, tornaram-se mais fáceis de serem enfrentados a partir do avanço das neurociências. É, por exemplo, o caso da de�nição da inteligência e da maneira de lidar com ela. O que é, a�nal, um estudante inteligente? Como medir, como desenvolver, como diferenciar quem é mais de quem é menos inteligente? E o que, a�nal, signi�ca inteligência? A esses desa�os históricos somaram-se outros, que surgiram com a evolução e a complexidade da sociedade e com o avanço e o domínio de novas tecnologias. O que é ser um educador nesse novo ambiente? Como ensinar ou como se preparar para esse papel? O que signi�ca ensinar para uma geração que já nasceu na era digital, que se sente livre e desmotivada a aprender – e, ao mesmo tempo, ávida por recompensas imediatas? A esses desa�os somam-se outros, não menos importantes. Um deles é o de atender à diversidade e à inclusão. O mundo está desejoso por eliminar as barreiras do preconceito e advoga pela ausência de discriminação na escola, com a defesa da ideia de que todos os estudantes, por maiores que sejam as diferenças cognitivas, emocionais, sociais e culturais, possam aprender juntos. Entre muitos outros desa�os que transitam no domínio entre a Neurociência e a Educação, vamos falar um pouco mais sobre os três que se seguem. Figura 5 Fonte: Getty Images Teste de Inteligência O conceito de inteligência tem grande variação, mas pode ser visto como a capacidade ampla e profunda que cada pessoa tem para compreender o ambiente: apreender o contexto, dar sentido às coisas e antecipar o melhor curso de uma determinada ação. Ainda que alguns deles sejam controversos, há uma grande variedade de modelos e pesquisas destinados a medir a inteligência humana. O teste de Quociente de Inteligência (QI) foi o primeiro teste de avaliação da inteligência, desenvolvido por Alfred Binet a pedido do governo francês, no início do século XX. Ele avaliava vários aspectos da cognição a partir de tarefas como a cópia de um desenho, a memorização de uma série de algarismos, a reprodução de uma história e algumas outras atividades. Difundido mundialmente, o QI se tornou sinônimo de inteligência humana. A psicometria é bem estabelecida como campo cientí�co, sua área de atuação é a medição e avalição das funções cognitivas como a sensação, a percepção e a memória. As principais vertentes datam do início de século XX. Uma vertente britânica importante é a teoria trifatorial, composta pelo fator geral (G), por fatores especí�cos (E) e pelo de grupo, desenvolvida pelo pesquisador britânico Charles Spearman na década de 1920. O fator G seria a inteligência geral relacionada à apreensão da experiência. O segundo fator é a educação das relações, ou seja, a capacidade do indivíduo em detectar relações entre duas ou mais ideias. Já o terceiro processo refere-se à capacidade de formular novas ideias. A abordagem americana na década de 1930, com a Teoria das Aptidões Primárias, fez uma contraposição à abordagem britânica. O foco passou a ser fatores como a compreensão e a �uência verbal, o raciocínio indutivo, numérico, aritmético e dedutivo, a visualização espacial, a memorização e a rapidez perceptiva (NASCIMENTO; RUEDA, 2014). Nos modelos desenvolvidos mais recentemente, os pesquisadores buscam ser mais complementares e não excludentes com as propostas de teste da inteligência humana. A Teoria Cattell-Horn-Carroll de Inteligência (CHC) tem esse propósito em relação aos dois modelos anteriores. Trata-se de uma organização hierárquica e multidimensional das habilidades cognitivas. O fator G da inteligência geral é composto por dois fatores: a inteligência �uida (Gf), capaz de lidar com problemas novos; e John Carroll (1993 apud COSENZA; GUERRA, 2011) combinou os principais aspectos da teoria da inteligência geral de Spearman (G) e da teoria da inteligência cristalizada e �uida de Horn e Cattell (Gf-Gc) e propôs a teoria da inteligência de três estratos. A partir daí, desenvolveu aquele que é considerado um dos mais completos modelos sobre inteligência conhecidos atualmente, que compreende dezesseis habilidades cognitivas amplas e mais de oitenta estreitas. O modelo CHC tem sua validação por mais de 50 anos de pesquisa (COSENZA; GUERRA, 2011). A Figura 6 exempli�ca as três dimensões em que todas as habilidades estão ligadas ao fator G hierarquicamente. Figura 6 Fonte: Adaptada de COSENZA; GUERRA, 2011, p. 119 Nos últimos anos, tem sido veri�cado um considerável avanço dos estudos que promovem a integração da psicometria e da psicologia cognitiva com a Neurociência. Muitos testes de inteligência (capacidade cognitiva) mudaram para incorporar o modelo CHC e se tornaram base para a avaliação psicoeducacional. Outro modelo recente foi proposto pelo psicometrista americano Robert Sternberg. Trata-se de uma teoria de inteligência bem-sucedida, em que a inteligência é vista como a atividade mental voltada para a adaptação intencional ao mundo real. Ela seria utilizada para resolver a maioria dos problemas do cotidiano. Foi criada para se opor aos modelos de teste de a inteligência cristalizada (Gc), destinada a lidar com habilidades já existentes. inteligência que Sternberg considerava um ciclo fechado, por se basearem apenas no pensamento e na memória e desconsiderar as experiências vividas. O foco de estudo de Sternberg era a inteligência, a criatividade e a sabedoria, que derivou na criação da teoria triárquica da inteligência ou teoria da inteligência plena, na década de 1990, que envolve três fatores diferentes (COSENZA; GUERRA, 2011): Figura 7 – Teoria Triárquica das Inteligência de Sternberg Habilidades analíticas: analisar os problemas e as opções disponíveis; Habilidades criativas: gerar soluções para os problemas identi�cados; Habilidades práticas: fazer funcionar as opções escolhidas. Além dos modelos psicométricos, a inteligência ganhou popularidade e novas dimensões de estudos a partir da década de 1990, com as teorias de D. Goleman sobre inteligência emocional e a Teoria de Inteligências Múltiplas, de Howard Gardner. A verdade, como se vê, é que existem muitas maneiras de ser inteligente e que, além dos fatores genéticos, também devem ser levados em conta os ambientais, que in�uenciam o funcionamento do cérebro, somados aos processos socioculturais, que alteram negativa ou positivamente a capacidade de inteligência de um indivíduo. Este é o grande desa�o para os educadores: como utilizar a contribuição dos neurocientistas na escolha de métodos e práticas educativas que ajudem a aumentar o grau de inteligência dos estudantes pela escolarização. Capacitação de Educadores No início dosanos 2000, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) publicou um documento apontando que a prática educativa deveria se bene�ciar dos achados da Neurociência. Ainda é um desa�o aproximar os educadores do conhecimento produzido pela Neurociência. Mesmo com todos os avanços registrados nos últimos anos, é grande a quantidade de professores que não têm a dimensão do quanto sua ação pedagógica desencadeia reações hormonais e efeitos neurológicos no organismo do estudante. Esses efeitos, como se sabe, têm in�uência decisiva na motivação para aprender. - Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, 2003, p. 46 “Nas próximas décadas, temos boas possibilidades de desvendar as complexidades do cérebro e compreender, pelo menos, a natureza da memória e da inteligência (por exemplo, e o que realmente acontece quando o aprendizado ocorre). Quando atingirmos esse objetivo, seremos capazes de reassentar nossa prática educativa sobre uma sólida teoria da aprendizagem. ” O conhecimento sobre os avanços da Neurociência pode validar aspectos importantes da sabedoria intuitiva e, principalmente, proporcionar embasamentos consistentes para o uso de novas ferramentas educacionais que potencializem as ações pedagógicas. A aprendizagem adquire novas perspectivas com a neuroeducação, campo de estudo que traz os avanços dos estudos do cérebro humano para o interior da sala de aula (SILVA, 2021). Figura 8 Fonte: Getty Images O ato de aprender é, por si só, complexo. Ele envolve as emoções, a memória, a experimentação, a relação, a alimentação, o repouso, a motivação e muito mais. A Neurociência ajuda o professor a compreender os mecanismos do processo de aprendizagem em cada pessoa. Alguns princípios da Neurociência, uma vez presentes na ação pedagógica, potencializam uma aprendizagem mais signi�cativa para o estudante. Veja alguns deles: A Unesco propôs, em um relatório de recomendações coordenado pelo economista Jacques Delors que, no século XXI, a concepção de uma educação signi�cativa e integral estivesse baseada em quatro pilares de aprendizagem: O desa�o para o professor, nesse novo ambiente, é encontrar formas de ensinar a conhecer, ensinar a fazer, ensinar a conviver e ensinar a ser. O diálogo entre a Neurociência e a Educação, mesmo sem fornecer receitas para a aprendizagem, pode contribuir para preparar o O cérebro se modi�ca com a experiência. Ampliar o envolvimento ativo dos estudantes com as aulas práticas, atividades físicas e experiências externas que envolvam os processos de construção e produção pelo próprio estudante desenvolve o potencial neurológico de aprendizagem. A ação pro�ssional estimula a plasticidade neural. A plasticidade que promove a aprendizagem é desencadeada por novos fatores do ambiente. O próprio professor é um fator de estímulo aos neurotransmissores e pode provocar nos estudantes o desejo e o prazer em aprender. Emoções e motivação na aprendizagem individualizada. É importante conhecer a importância das emoções positivas no aprendizado. Os fatores motivacionais possibilitam ao professor de�nir as condições mais adequadas para estimular a motivação em sala de aula. Planejar formas especí�cas para atender aos diversos tipos de estudantes presentes numa mesma turma. A maturidade das funções cerebrais tem períodos especí�cos. Saber que a aprendizagem não se esgota com a idade e conhecer o período certo de cada etapa de maturação das funções cognitivas faz com que o professor ajuste sua expectativa e adeque sua estimulação por desa�os, sem acelerar o processo de aprendizagem possível naquela etapa de vida do estudante. Aprender a conhecer: aquisição de um repertório de saberes.1 Aprender a fazer: habilidade de caráter cognitivo e técnico. 2 Aprender a viver junto: conviver de forma colaborativa e inclusiva. 3 Aprender a ser: tornar-se autônomo intelectual e socialmente.4 educador para fortalecer o processo de ensino-aprendizagem em que estudante e professor são protagonistas. Inclusão Escolar A educação inclusiva foi criada com o objetivo de integrar as diferenças entre os estudantes no ensino formal. Ela é fundamentada na diversidade e no direito à igualdade, bem como em diferenças como valores complementares. Promover de forma adequada uma aprendizagem diferenciada, que atenda à especi�cidade de cada estudante nas suas Necessidades Educacionais Especiais (NEE), tem sido um grande desa�o para o sistema escolar. Esse objetivo visa mudar a cultura educacional para alinhar as demandas da sociedade contemporânea, que cobra cada vez mais respeito e tolerância com a diversidade. Dessa forma, entende-se que todas as crianças aprenderão com as diferenças e que a escola passa a ser um espaço de exercício de cidadania. Além de oportunizar o acesso aos conteúdos básicos aos estudantes com aprendizagem “padrão”, a proposta inclusiva de escolarização indica que a escola também deve garantir acesso às crianças que apresentam altas habilidades (ou seja, as precoces e superdotadas) e também àquelas com de�ciência e di�culdades de aprendizagem decorrentes, por exemplo, de condutas típicas de síndromes, transtornos, distúrbios psicológicos ou neurológicos, entre outros. O paradigma da inclusão não se restringe a compartilhar o mesmo espaço físico e nem a levar o estudante com NEE a se adaptar ou a se moldar à escola. Ao contrário. Ele se refere a uma mudança de concepção educacional que, por meio de ações de equidade, desenvolva o potencial e promova a interação dinâmica entre todos. Ensinar na diversidade exige conhecimento especializado das diferentes condições e das especi�cidades de estudantes com NEE. Isso é fundamental, por exemplo, para se fazer um diagnóstico mais preciso dos casos de desinteresse em sala de aula e perceber se eles são motivados por algum distúrbio ou por falta de atenção. Isso é importante tanto para planejar estratégias didáticas quanto para criar procedimentos pedagógicos particulares que facilitem a aprendizagem adequada a cada NEE. As pesquisas em neurociências proporcionaram o acesso ao conhecimento do funcionamento do cérebro, dos distúrbios e dos transtornos sensoriais e intelectuais decorrentes de fatores genéticos ou de lesões. Independentemente de o estudante apresentar De�ciência Intelectual (DI), Transtorno do Espectro Autista (TEA), De�ciência Visual (DV), surdez ou altas habilidades, além do diagnóstico, ele tem características diferenciadas que impactam a sua aprendizagem. Esse conhecimento é fundamental para que a inclusão educacional seja efetiva e promova a evolução de cada estudante de acordo com suas necessidades. Re�ita Quais outros desa�os da educação promovem um diálogo com as neurociências? Pesquise alguns exemplos de práticas educacionais que promovam a aprendizagem com base nos achados das neurociências. Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade: Livro COSENZA, R. M.; GUERRA, L. B. Neurociência e Educação: como o cérebro aprende. Porto Alegre: Artmed, 2011. Leitura A escola e os novos desa�os da educação inclusiva: contribuições da didática e da Neurociência CORREIA, M. O. A escola e os novos desa�os da educação inclusiva: contribuições da didática e da Neurociência. Humanidades & Inovação, Palmas, v. 8, n. 42, abr. 2021. 2 / 3 Material Complementar UNITINS https://revista.unitins.br/ Vídeos A inteligência humana revolta-se Franck Maistre | TEDxAgroParisTech A ESCOLA E OS NOVOS DESAFIOS DA EDUCAÇÃO INCLUSIVA: CONTRIBUIÇÕES DA DIDÁTICA E DA NEUROCIÊNCIA Palavras-chave: Inclusão. Didática. Neuroaprendizagem. O artigo tem como objetivo contribuir e analisar o quadro atual da educação inclusiva através de um estudo bibliográ�co de assuntos ligados à didática, ao ensino e ao funcionamento da mente humana com foco na aprendizagem, a �m de contribuir para a melhoria da inclusão de de�cientes no nosso país. LEIA MAIS UNITINS https://revista.unitins.br/index.php/humanidadeseinovacao/article/view/3416https://revista.unitins.br/index.php/humanidadeseinovacao/article/view/3416 https://revista.unitins.br/index.php/humanidadeseinovacao/article/view/3416 After watching this, your brain will not be the same Lara Boyd | TEDxVancouver A Dra. Lara Boyd descreve como a neuroplasticidade lhe dá o poder de moldar o cérebro que você deseja. L'intelligence humaine se Rêvolte | Franck Maistre | TEDxAgroParisTech Même bêtes, nous sommes intelligents. Reconnaître la diversité de nos intelligences est une richesse pour l'humanité et une source insoupçonnée de progrès individuel et collectif. Franck Maistre a 44 ans. Pacsé et père d'un �ls, il aime travailler dans la banque avec les chefs d'entreprises pour les accompagner dans les opérations de liquidation. LEIA MAIS TED After watching this, your brain will not be the same | Lara Boyd | T… https://www.ted.com/talks/franck_maistre_l_intelligence_humaine_se_revolte https://www.ted.com/talks/franck_maistre_l_intelligence_humaine_se_revolte https://www.ted.com/talks/franck_maistre_l_intelligence_humaine_se_revolte https://www.youtube.com/watch?v=LNHBMFCzznE COSENZA, R. M.; GUERRA, L. B. Neurociência e Educação: como o cérebro aprende. Porto Alegre: Artmed, 2011. Disponível em <https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788536326078/>. Acesso em: 26/09/2021. LENT, R. Cem Bilhões de Neurônios?: Conceitos Fundamentais da Neurociência. 1. ed. São Paulo: Editora Atheneu, 2001. LENT, R. (coord.). Neurociência da Mente e do Comportamento. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2008. 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