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AMPLIE SEUS CONHECIMENTOS Por que a célula vegetal não estoura devido à osmose? R ep ro d uç ão p ro ib id a. A rt .1 84 d o C ód ig o P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 148 U n id a d e B • O rg a n iz a çã o e p ro ce ss o s ce lu la re s Uma célula vegetal colocada em solução hipotônica absorve água por osmose, mas, ao contrário da célula animal, não corre o risco de estourar. Isso porque, à medida que a célula incha, a parede celulósica exerce pressões cada vez maiores sobre o citoplasma, forçando a água a sair e equilibrando a pressão de entrada de água pela osmose. Pode-se comparar a célula vegetal mergulhada em solução hipotônica a uma bola de futebol que vai sendo inflada de ar. A bola contém uma câmara de borracha altamente elástica revestida por um envoltório de couro com menos elasticidade. Quando a bola está vazia, é fá- cil introduzir o ar em seu interior para enchê-la. A partir de certo ponto, porém, a câmara de borracha encosta no envoltório de couro e este passa a exercer pressão, difi- cultando a entrada de mais ar. A câmara de borracha da bola é comparável à membrana plasmática, e o envol- tório de couro é comparável à parede celulósica. A água entra livremente na célula por osmose até a pressão da parede celular igualar-se à pressão de difusão das moléculas de água, isto é, à pressão osmótica. A partir daí, toda água que entra por osmose é forçada a sair devido à pressão exercida pela parede celulósica. Um modelo físico pode ajudar-nos a entender o comportamento da célula vegetal com relação à osmose. Imagine um tubo de vidro com uma das extremidades fechada por uma membrana semipermeável (cor- respondente à membrana plasmática), parcialmente preenchido com uma solução concentrada de açúcar; esta será a solução hipertônica em nosso modelo, corres- pondendo ao conteúdo (citoplasma e vacúolo) da célula vegetal. A extremidade do tubo tapada pela membrana é mergulhada em um recipiente com água pura, uma solução hipotônica, até que os níveis dos líquidos dentro e fora fiquem na mesma altura. Logo, porém, o nível de líquido no interior do tubo tenderá a subir porque há maior passagem de água da solução hipotônica para a hipertônica, devido ao fenômeno da osmose. As células de nosso corpo são banhadas por uma solução isotônica proveniente do sangue, na qual a concentração total de solutos equivale à concentração interna dos solutos citoplas- máticos. Por isso, nossas células não ganham nem perdem água por osmose. Por outro lado, seres como protozoários de água doce têm o citoplasma hipertônico em relação ao meio externo, de modo que a água tende a entrar continuamente em sua célula por osmose. Esses seres não estouram porque dispõem de um mecanismo para compensar a entrada excessiva de água: eles têm bolsas citoplasmáticas, chamadas de vacúolos pulsáteis, que acumulam água e a eliminam periodicamente da célula. Protozoários marinhos não enfrentam problemas osmóticos, pois a água do mar é praticamente isotônica em relação ao seu citoplasma. (Fig. 5.5) As plantas aproveitam o potencial da osmose para absorver água e nutrientes. Graças a suas paredes celulósicas altamente resistentes, as células vegetais não correm o risco de estourar devido à osmose, como veremos no quadro Amplie seus conhecimentos, a seguir. Imagine agora que adaptemos um pistão ao tubo, exercendo pressão contrária à subida da coluna líquida e evitando que o nível da solução dentro do tubo suba. Esse pistão e a força que ele exerce correspondem, em nosso modelo, à pressão que a parede celular exerce, impedindo que a célula inche até estourar. Nessa con- dição, os líquidos nos dois compartimentos continuarão no mesmo nível. A força aplicada pelo pistão contraba- lança a pressão osmótica gerada pela maior tendência de difusão de solvente para dentro do tubo. (Fig. 5.6) A célula vegetal em diferentes soluções O modelo anterior ajudará a compreender o comportamento osmótico da célula vegetal quando colocada em soluções de diferentes concentrações. Acompanhe as explicações com a análise da Figura 5.7. Em A está representada uma célula vegetal colocada em água pura; o volume celular aumenta até que a pressão da parede celulósica se torna equivalente à pressão osmótica; nessas condições, fala-se em célula túrgida. Em B, uma célula é colocada em uma solução de concentração idêntica à do conteúdo celular, ou seja, isotônica; nesse caso, as pressões de entrada e de saída de água por osmose são equivalentes e o volume celular não se modifica. Em C, a célula vegetal é colo- cada em uma solução hipertônica em relação ao seu conteúdo interno; ocorre perda de água por osmose, o conteúdo celular diminui e se retrai. Em continuação, a grande diminuição do volume celular pode levar ao descolamento da membrana plasmática da parede celulósica; a solução externa invade o espaço entre esses envoltórios, uma vez que a parede celulósica é totalmente permeável ao soluto e ao solvente. Nessas condições, fala-se em célula plasmolisada. Uma célula plasmolisada colocada em meio isotônico ou hipotônico absorverá água e retornará à situação nor- mal, no primeiro caso, ou se tornará túrgida, no segundo. Nesses casos falamos em deplasmólise. (Fig. 5.7) AMPLIE SEUS CONHECIMENTOS Por que a célula vegetal não estoura devido à osmose? A B C Solução de sacarose (solução hipertônica) Água (solução hipotônica) Membrana semipermeável Subida do nível no tubo Pressão contrária à pressão osmótica Pistão R ep ro d uç ão p ro ib id a. A rt .1 84 d o C ód ig o P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 149 C a p ít u lo 5 • Fr o n te ir a s d a c é lu la Figura 5.6 Representação esquemática de um sistema físico para demonstrar a osmose na célula vegetal; as setas azuis indicam o fluxo de água. A. Um tubo, tendo na base uma membrana semipermeável, é preenchido parcialmente com uma solução concentrada de sacarose e mergulhado em um recipiente com água pura, até que os níveis dos dois líquidos fiquem na mesma altura. B. A água entra por osmose, elevando o nível do líquido no tubo. C. Um pistão é colocado no tubo e forçado para baixo até que o nível do líquido retorne à posição inicial. A pressão aplicada ao pistão equivale à pressão osmótica da solução contida no tubo. (Representação sem escala, cores-fantasia.) Figura 5.7 Representação esquemática de células vegetais colocadas em soluções de diferentes concentrações. Em A, solução hipotônica. Em B, solução isotônica. Em C, solução hipertônica. (Representação sem escala, cores-fantasia.) A B C Figura 5.5 Micrografia de um protozoário vivo ao microscópio óptico; veem-se o vacúolo pulsátil e os canais coletores de água (aumento 2903). Vacúolo pulsátil Canais coletores de água Moléculas que serão transportadas Proteína transportadora MEIO EXTERNO CITOPLASMA Transporte para o interior da célula Captura da molécula Reinício do transporte R ep ro d uç ão p ro ib id a. A rt .1 84 d o C ód ig o P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 150 U n id a d e B • O rg a n iz a çã o e p ro ce ss o s ce lu la re s Difusão facilitada As células de nosso corpo são banhadas por um líquido isotônico proveniente do san- gue, que contém água, gás oxigênio, glicídios (principalmente glicose), aminoácidos, íons e diversas outras substâncias. Poucos tipos de molécula e praticamente nenhum tipo de íon conseguem atravessar, em quantidades apreciáveis, a camada dupla de lipídios que constitui as membranas plasmáticas. Assim, o transporte da maioria das moléculas e dos íons para dentro e para fora da célula necessi- ta da participação de proteínas componentes da membrana plasmática. Algumas proteínas da membrana plasmáti- ca formam canais, através dos quais molécu- las de água, certos tipos deíons e pequenas moléculas hidrofílicas se deslocam de acordo com seu gradiente de concentração, ou seja, da região onde a concentração é maior para a região onde a concentração é menor. Outras proteínas da membrana transportam molécu- las específicas, capturando-as fora ou dentro da célula e liberando-as na face oposta. Elas são denominadas proteínas transportadoras, proteínas carregadoras, proteínas carreado- ras ou permeases. O transporte realizado por essas proteínas transportadoras segue as regras da difusão: se as substâncias transportadas estão em maior concentração no meio externo, sua tendência natural é entrar na célula, onde estão menos concentradas. As proteínas transportadoras facilitam essa entrada e a célula não gasta energia com isso. O transporte facilitado por essas proteínas da membrana plasmática é denominado difusão facilitada e também é um tipo de transporte passivo. (Fig. 5.8) Figura 5.8 Representação esquemática da difusão facilitada por proteínas transportadoras. A. Proteína transportadora incrustada na membrana e moléculas a serem transportadas. B. Ao tocarem na proteína transportadora, as moléculas são capturadas. C. A proteína transportadora muda de forma e movimenta-se na camada de lipídios, carregando as moléculas capturadas para a face interna da membrana. D. As moléculas transportadas são liberadas dentro da célula e a proteína transportadora readquire sua configuração original, voltando a se expor na face externa da membrana, à espera de novas moléculas “passageiras”. (Representação sem escala, cores-fantasia.) (Baseado em Lodish, H. e cols., 2004.) Transporte ativo Bomba de sódio-potássio As células vivas mantêm a concentração interna de moléculas e íons bem diferente das con- centrações dessas substâncias no meio externo. Por exemplo, as células humanas mantêm a concentração interna de íons de potássio (K1) cerca de 20 a 40 vezes maior que no meio extrace- lular. O íon K1 é essencial a diversos processos celulares, participando, por exemplo, da síntese de proteínas e da respiração celular. Por outro lado, a concentração de íons de sódio (Na1) no interior de nossas células mantém-se cerca de 8 a 12 vezes menor que a do exterior; uma das principais razões para isso é a necessidade de compensar a grande concentração interna de íons K1. Para manter as diferenças entre as concentrações interna e externa desses íons, a célula despende energia, o que caracteriza o transporte ativo. Proteínas presentes na membrana plasmática atuam como “bombas” de íons, capturando ininterruptamente íons de sódio (Na1) no citoplasma e transportando-os para fora da célula. Na face externa da membrana, essas proteínas capturam íons de potássio (K1) do meio e os transportam para o citoplasma. Esse bombeamento contínuo, conhecido como bomba de sódio-potássio, compensa a incessante passagem desses íons por difusão simples. A B C D CITOPLASMA K+ K+ K+ K+ K+ K+ Na+ Na+ Na+ Na+ Na+ Na+ Na+ Na+ Na+ P P P P ATP ADP 1. Três íons de sódio (Na+) do citoplasma unem-se ao complexo proteico da membrana 3. Os íons de sódio (Na+) são lançados para o meio extracelular 5. O fosfato, já sem energia, libera-se do complexo proteico 6. Os íons de potássio (K+) são lançados no citoplasma 4. Dois íons de potássio (K+) do meio extracelular unem-se ao complexo proteico 2. Ocorre transferência de um fosfato energético para o complexo proteico R ep ro d uç ão p ro ib id a. A rt .1 84 d o C ód ig o P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 151 C a p ít u lo 5 • Fr o n te ir a s d a c é lu la O bombeamento de íons consome energia da célula, fornecida às proteínas transportadoras pelo trifosfato de adenosina, substância mais conhecida pela sigla de seu nome em inglês ATP (adenosine triphosphate). As moléculas de ATP, como veremos nos capítulos seguintes, são as fornecedoras de energia para todas as atividades celulares. Ao liberar energia, a molécula de ATP decompõe-se em uma molécula de adenosina difosfato (ADP) e em um grupo fosfato (P). (Fig. 5.9) A manutenção das diferenças de concentração dos íons K1 e Na1 (e de outros íons) dentro e fora da célula é fundamental para o funcionamento celular. A diferença na distribuição iônica, entre outros fatores, faz com que a superfície externa da membrana plasmática apresente ex- cesso de cargas positivas em relação à superfície interna. Isso gera uma diferença de potencial elétrico da ordem de 70 mV (milivolts). Grande parte dos processos celulares baseia-se justamente nessa propriedade da membra- na em atuar como um capacitor elétrico: sendo constituídas por moléculas não condutoras de eletricidade (lipídios), as membranas biológicas podem armazenar cargas elétricas positivas de um lado e negativas do outro. Como a célula pode controlar a passagem de íons pela mem- brana, por meio da abertura e fechamento de poros, ela consegue provocar alterações desse potencial elétrico, gerando trabalho. Você está conseguindo ver este livro porque poros de passagem de íons estão continuamente se abrindo e se fechando nas membranas plasmáticas de suas células nervosas, permitindo que elas captem estímulos do ambiente e os transmitam ao cérebro, onde são interpretados. Isso nos dá uma ideia da importância das membranas celulares para a nossa vida. O capítulo 16 deste livro traz mais detalhes sobre o transporte iônico nas células nervosas. Figura 5.9 Representação esquemática do funcionamento da bomba de sódio-potássio, um processo de transporte ativo. Um complexo proteico incrustado na membrana transporta, em cada ciclo de atividade, três íons de sódio (Na1) para fora da célula e dois íons de potássio (K1) para o citoplasma. A energia para o processo provém das moléculas altamente energéticas do ATP. (Representação sem escala, cores-fantasia.) (Baseado em Campbell, N. e cols., 1999.)