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R ep ro du çã o pr oi bi da . A rt .1 84 d o C ód ig o P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 297 C ap ít u lo 1 5 • A tl nt ic o ne ro o t r ic o de e sc ra os e a s re la ç es c om er ci ai s co m a ri ca Uma sociedade de escravos No Brasil, os escravos africanos estavam presen- tes nos engenhos e canaviais, nas minas, fazendas de gado e outras propriedades. Nas áreas rurais e nos centros urbanos realizavam tarefas domésticas e ofícios mais ou menos especializados, como de car- pinteiro, sapateiro etc. Havia também os escravos de aluguel e de ganho. No primeiro caso, eram alugados por seu senhor para outras pessoas; no segundo, os escravos podiam exercer outros ofícios, desde que ao final do dia entregassem certa quantia do ganho ao seu senhor. Por ter sido, durante vários séculos, ligado ao continente africano por meio do tráfico negreiro, pra- ticado em larga escala, o desenvolvimento histórico do Brasil não poderia ser diferente. Pode-se avaliar que o principal resultado do comércio de escravos e da escravidão foi a formação no Brasil, nos tempos coloniais, de uma sociedade escravista. O que define uma sociedade escravista? O que define uma sociedade escravista é, em primeiro lugar, a existência da própria escravidão, que é um tipo de trabalho baseado em um disposi- tivo jurídico que permite a redução de um homem à condição de propriedade (privada) de outro homem. É necessário, também, que existam escravos em uma escala tão grande que as características básicas des- sa sociedade, como a hierarquia social, não possam ser dissociadas da escravidão. Em uma sociedade escravista como a do Brasil co- lonial, quase ninguém pensava na possibilidade de um mundo sem escravos. Antonio Vieira, por exemplo, em seus sermões públicos, comparava os sofrimentos que os negros padeciam nos engenhos aos martírios de Cristo e afirmava que, ao serem escravizados pelos portugueses, eles tinham a possibilidade de finalmen- te abandonarem seu paganismo e viverem em uma terra “verdadeiramente” cristã: o Brasil. Padres agradeciam a Deus a existência da es- cravidão; produtores de açúcar ou café compravam escravos como se comprassem bois ou carroças; gente de baixa condição alugava o serviço de es- cravos para não praticar tarefas mecânicas consi- deradas degradantes; escravos queriam ter seus próprios escravos, e, claro, brancos, negros, mula- tos, índios, homens livres, escravos e ex-escravos fundiam suas culturas, seu sangue e produziam uma paisagem social complexa, diversificada, até hoje bastante indefinível [doc. 2]. Tudo isso com origem na exploração colonial portuguesa e na sua lógica articulada de expansão do comércio e da fé cristã. DOC. 2 Extração de bicho-de-pé, cena no Brasil, pintura de Augustus Earle, c. 1820. Biblioteca Nacional da Austrália, Canberra. Mesmo pessoas sem condição econômica privilegiada podiam ter seus próprios escravos. A resistência contra a escravidão As formas mais comuns de resistência iam desde a negociação informal com os senhores, a adoção de recursos jurídicos contra excessos por ele cometidos ou a preservação silenciosa de sua cultura até o uso de meios mais drásticos como suicídios, assassinatos, revoltas organizadas, fugas e a formação de quilombos, mais conhecidos na época como mocambos. Essas comunidades inde- pendentes de ex-escravos fugidos incomodavam muito as autoridades. A maior delas, o uilombo de Palmares, localizada nas serras entre os atuais estados de Pernambuco e Alagoas, foi liquidada por uma expedição militar comandada pelo paulis- ta Domingos Jorge Velho, em 1695, após quase um século de existência e de tentativas fracassadas de destruí-la [docs. 3 e 4, p. 298]. Também havia escravos que conseguiam com- prar sua própria liberdade (alforria) negociando com o senhor. O escravo podia comprar sua alforria oferecendo um montante em dinheiro, entregando outro escravo para ficar em seu lugar ou obtendo-a gratuitamente, se previsto em testamento, quando morresse o senhor. A alforria existia em toda parte, variando de intensidade conforme o lugar e a épo- ca. Em geral, as alforrias não ocorriam por razões humanitárias, mas sim para amenizar as tensões do sistema escravista. Em vez de querer fugir, o escravo se empenharia em trabalhar para obter sua liberdade. HIST_PLUS_UN_E_CAP_15.indd 297 11/11/10 11:07:21 R ep ro du çã o pr oi bi da . A rt .1 84 d o C ód ig o P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 298 U n id ad e E • A c on st ru çã o do m un do m od er no Alcobaça OCEANO ATLÂNTICO OCEANO PACÍFICO Calçoene Belém Turiaçu São Luís Gurupi Paraíba Olinda Recife Palmares Salvador Jaguaripe Caeté Xique-Xique Andaraí Paraopeba Bambuí Baependi São Paulo Rio de Janeiro Preto Cosme Oitizeiro Ambrósio Jabaquara Campo Grande Carlota (ou Piolho) Calunga Trombetas Outros quilombos Limites atuais do Brasil Quilombo de Palmares TuriaçuTuriaçu O temor despertado por Palmares O texto a seguir é o trecho de uma carta do gover- nador de Pernambuco, Fernão de Souza Coutinho, ao rei de Portugal sobre o Quilombo de Palmares. “Há alguns anos que, dos negros de Angola fugidos ao rigor do cativeiro e fábricas dos engenhos desta capitania, se formaram povoações numerosas pela terra dentro entre os Palmares e matos, cujas asperezas e faltas de caminhos os têm mais fortificados por natureza do que pudera ser por arte e, crescendo cada dia em número, se adiantam tanto no atrevimento que com contínuos roubos e assaltos fazem despejar muita parte dos moradores desta capitania mais vizinhos aos seus mocambos, cujo exemplo e conservação vai convidando cada dia aos mais que fogem, por se livrar [do] rigoroso cativeiro que padecem, e se verem com a liberdade lograda no fértil das terras e segurança de suas habitações, podendo-se temer que com estas conveniên- cias cresçam em poder de maneira que, sendo tanto maior o número, pretendam atrever-se a tão poucos como são os moradores desta capitania a respeito dos seus cativos; para evitar este dano, determino passar a Porto Calvo na entrada deste verão, lugar mais proporcionado para se fazer esta guerra e dali [...] mandar abrir caminhos para os ditos Palmares, por onde possam ser investidos e arrasadas as suas povoações, continuamente, até de todo se extin- guirem e ficar livre esta capitania deste dano que tanto a ameaça; e posta que não são poucas as dificuldades que para este fim se me oferecem, pelas asperezas das terras, falta de caminhos e de carruagem, e para os mantimentos que em todo este Estado se não podem conduzir senão às costas de negros por falta de estradas para carros, nem DOC. 3 para mais que um homem atrás do outro. Contudo, espe- ro que a boa diligência seja poderosa para vencer todos estes inconvenientes [...] mas porque se não poderá obrar coisa alguma sem grande despesa da fazenda de vossa alteza, é necessário que vossa alteza seja servido havê-lo assim [...] e mandar-me ordem para isso, sem embargo de que procurarei que os poucos contribuam com tudo o que lhe for possível, como fiz para o socorro de Angola e, creia Vossa Alteza, não está menos perigoso este Estado com o atrevimento destes negros, do que esteve com os holandeses, porque os moradores nas suas mesmas casas e engenhos têm os inimigos, que os podem conquistar se se resolverem; a seguir têm pernicioso exemplo, ad- moestados dos mesmos rebeldes que os comunicam, tendo já tendas de ferreiros e outras oficinas com que poderão fazer armas, pois usam de algumas de fogo que de cá levam; e este sertão é tão fértil de metais e salitre, que tudo lhes oferece para sua defesa, se lhes não faltar a indústria que também se pode temer dos muitos que fogem — já práticos em todas as mecânicas. E porque de semelhantes perigos desprezados se vêm ordinariamentea ocasionar danos irreparáveis, me pareceu opor-me aos que daqui podem resultar. Quererá Deus ajudar-me para que consiga deixar esta capitania livre desta perturbação, que será para mim o maior prêmio de todos os serviços que a vossa alteza desejo fazer [...].” Fernão de Souza Coutinho [1671]. In: INÁCIO, Inês da Conceição; LUCA, Tania Regina de. Documentos do Brasil colonial. São Paulo: Ática, 1993. p. 77-78. onte Brasil 500 anos: atlas histórico. São Paulo: Três, 1998. p. 21. A maioria dos quilombos localizava-se em regiões bastante afastadas dos principais centros populacionais da colônia. uilombos no Brasil século ao DOC. 4 500 km HIST_PLUS_UN_E_CAP_15.indd 298 11/11/10 11:07:22 R ep ro du çã o pr oi bi da . A rt .1 84 d o C ód ig o P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 299 Uma mão de obra valiosa: o escravo africano Matar um escravo era considerado contraprodu- cente, pois no regime escravista português o tra- balhador cativo custava caro. Além de ter sua força de trabalho quase que completamente expropriada pelo senhor, o escravo vivia pouco, dadas as terríveis condições de existência, iniciadas desde sua captura na África, passando pela travessia atlântica nos tum- beiros, chegando enfim às lavouras, engenhos, minas e cidades. Segundo cálculos do historiador Stuart Schwartz, o trabalho de um escravo compensava seu preço de aquisição após um período de 13 a 16 meses de trabalho. Dificilmente um escravo viveria além dos 30 anos de idade. Essa estimativa de vida hoje pode nos parecer aterrorizante. De fato, ela é. A Noruega, por exemplo, o país com o melhor Índice de Desenvolvi- mento Humano (IDH) do mundo em 2007, tinha uma expectativa de vida de 83 anos para as mulheres e 78 anos para os homens. No Brasil, essa expectativa podia chegar a 76 e 68, respectivamente. Já popu- lações da África subsaa riana, que seiscentos anos atrás conheceram de perto as mazelas da escravidão, apresentam dados de qualidade de vida que lembram os tempos da escravidão. Em Angola, em 2007, a expectativa de vida dos homens era de 36 anos e a das mulheres 38 anos. Sendo o escravo uma mercadoria cara, a disputa pelos mercados fornecedores dessa mão de obra era ferrenha, e envolveu, em diferentes épocas, portu- gueses, espanhóis, holandeses, franceses e ingleses, além de mercadores italianos e judeus. As guerras entre os países envolvidos eram frequentes, cada um procurando derrotar os adversários oferecendo produtos mais atraentes como moeda de troca. Mercadores portugueses e do Brasil, por exemplo, adquiriam escravos na África oferecendo produtos como tabaco e cachaça. Essa competição se acirrou com a constituição, no final do século XVI, das Províncias Unidas dos Países Baixos (conhecidas como Holanda), e que no início do século seguinte ingressou com muita força na competição internacional. A luta dos holandeses contra o Império Espanhol — especialmente contra os territórios portugueses, que desde 1580 faziam parte dos domínios espanhóis — redesenhou o cenário da colonização europeia em todo o mundo [doc. 5]. Foi aí que o Império Português declinou da Ásia e buscou, em compensação, se fortalecer na América e na África. DOC. 5 Ataque da armada holandesa a navios portugueses no porto de Goa, pintura de Hendrick van d‘Anthonissen, 1643. Museu Nacional, Amsterdã. Portugueses e holandeses travaram várias batalhas pelo controle dos mercados fornecedores de matérias-primas de alto valor comercial. 1. Releia o texto [doc. 3] e responda. a) Quais perigos, segundo a carta, o Quilombo de Palmares representava para a capitania? b) Qual solicitação foi feita pelo autor ao rei de Por- tugal? c) O que se pode observar no texto em relação aos sis- temas de comunicação e transporte da colônia? 2. Que visão as imagens expressam a respeito dos escra- vos e da sociedade colonial [docs. 1 e 2]? QUESTÕES HIST_PLUS_UN_E_CAP_15.indd 299 11/11/10 11:07:22