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 Uma sociedade de escravos
No Brasil, os escravos africanos estavam presen-
tes nos engenhos e canaviais, nas minas, fazendas 
de gado e outras propriedades. Nas áreas rurais e 
nos centros urbanos realizavam tarefas domésticas 
e ofícios mais ou menos especializados, como de car-
pinteiro, sapateiro etc. Havia também os escravos de 
aluguel e de ganho. No primeiro caso, eram alugados 
por seu senhor para outras pessoas; no segundo, os 
escravos podiam exercer outros ofícios, desde que 
ao final do dia entregassem certa quantia do ganho 
ao seu senhor. 
Por ter sido, durante vários séculos, ligado ao 
continente africano por meio do tráfico negreiro, pra-
ticado em larga escala, o desenvolvimento histórico 
do Brasil não poderia ser diferente. Pode-se avaliar 
que o principal resultado do comércio de escravos e 
da escravidão foi a formação no Brasil, nos tempos 
coloniais, de uma sociedade escravista. 
O que define uma sociedade 
escravista?
O que define uma sociedade escravista é, em 
primeiro lugar, a existência da própria escravidão, 
que é um tipo de trabalho baseado em um disposi-
tivo jurídico que permite a redução de um homem à 
condição de propriedade (privada) de outro homem. 
É necessário, também, que existam escravos em uma 
escala tão grande que as características básicas des-
sa sociedade, como a hierarquia social, não possam 
ser dissociadas da escravidão.
Em uma sociedade escravista como a do Brasil co-
lonial, quase ninguém pensava na possibilidade de um 
mundo sem escravos. Antonio Vieira, por exemplo, em 
seus sermões públicos, comparava os sofrimentos 
que os negros padeciam nos engenhos aos martírios 
de Cristo e afirmava que, ao serem escravizados pelos 
portugueses, eles tinham a possibilidade de finalmen-
te abandonarem seu paganismo e viverem em uma 
terra “verdadeiramente” cristã: o Brasil. 
Padres agradeciam a Deus a existência da es-
cravidão; produtores de açúcar ou café compravam 
escravos como se comprassem bois ou carroças; 
gente de baixa condição alugava o serviço de es-
cravos para não praticar tarefas mecânicas consi-
deradas degradantes; escravos queriam ter seus 
próprios escravos, e, claro, brancos, negros, mula-
tos, índios, homens livres, escravos e ex-escravos 
fundiam suas culturas, seu sangue e produziam 
uma paisagem social complexa, diversificada, até 
hoje bastante indefinível [doc. 2]. Tudo isso com 
origem na exploração colonial portuguesa e na 
sua lógica articulada de expansão do comércio e 
da fé cristã.
DOC. 2 Extração de bicho-de-pé, cena no Brasil, pintura 
de Augustus Earle, c. 1820. Biblioteca Nacional da Austrália, 
Canberra. Mesmo pessoas sem condição econômica 
privilegiada podiam ter seus próprios escravos.
 A resistência contra 
a escravidão
As formas mais comuns de resistência iam 
desde a negociação informal com os senhores, a 
adoção de recursos jurídicos contra excessos por 
ele cometidos ou a preservação silenciosa de sua 
cultura até o uso de meios mais drásticos como 
suicídios, assassinatos, revoltas organizadas, fugas 
e a formação de quilombos, mais conhecidos na 
época como mocambos. Essas comunidades inde-
pendentes de ex-escravos fugidos incomodavam 
muito as autoridades. A maior delas, o uilombo 
de Palmares, localizada nas serras entre os atuais 
estados de Pernambuco e Alagoas, foi liquidada 
por uma expedição militar comandada pelo paulis-
ta Domingos Jorge Velho, em 1695, após quase um 
século de existência e de tentativas fracassadas de 
destruí-la [docs. 3 e 4, p. 298].
Também havia escravos que conseguiam com-
prar sua própria liberdade (alforria) negociando 
com o senhor. O escravo podia comprar sua alforria 
oferecendo um montante em dinheiro, entregando 
outro escravo para ficar em seu lugar ou obtendo-a 
gratuitamente, se previsto em testamento, quando 
morresse o senhor. A alforria existia em toda parte, 
variando de intensidade conforme o lugar e a épo-
ca. Em geral, as alforrias não ocorriam por razões 
humanitárias, mas sim para amenizar as tensões 
do sistema escravista. Em vez de querer fugir, o 
escravo se empenharia em trabalhar para obter 
sua liberdade.
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no Alcobaça
OCEANO
ATLÂNTICO
OCEANO
PACÍFICO
Calçoene
Belém Turiaçu
São Luís
Gurupi
Paraíba
Olinda
Recife
Palmares
Salvador
Jaguaripe
Caeté
Xique-Xique
Andaraí
Paraopeba
Bambuí
Baependi
São Paulo Rio de Janeiro
Preto Cosme
Oitizeiro
Ambrósio 
Jabaquara
Campo
Grande
Carlota
(ou Piolho)
Calunga
Trombetas 
Outros quilombos
Limites atuais do Brasil
Quilombo de Palmares
TuriaçuTuriaçu
 O temor despertado por Palmares
O texto a seguir é o trecho de uma carta do gover-
nador de Pernambuco, Fernão de Souza Coutinho, ao 
rei de Portugal sobre o Quilombo de Palmares.
“Há alguns anos que, dos negros de Angola fugidos ao 
rigor do cativeiro e fábricas dos engenhos desta capitania, 
se formaram povoações numerosas pela terra dentro entre 
os Palmares e matos, cujas asperezas e faltas de caminhos 
os têm mais fortificados por natureza do que pudera ser por 
arte e, crescendo cada dia em número, se adiantam tanto 
no atrevimento que com contínuos roubos e assaltos fazem 
despejar muita parte dos moradores desta capitania mais 
vizinhos aos seus mocambos, cujo exemplo e conservação 
vai convidando cada dia aos mais que fogem, por se livrar 
[do] rigoroso cativeiro que padecem, e se verem com a 
liberdade lograda no fértil das terras e segurança de suas 
habitações, podendo-se temer que com estas conveniên-
cias cresçam em poder de maneira que, sendo tanto maior 
o número, pretendam atrever-se a tão poucos como são 
os moradores desta capitania a respeito dos seus cativos; 
para evitar este dano, determino passar a Porto Calvo na 
entrada deste verão, lugar mais proporcionado para se 
fazer esta guerra e dali [...] mandar abrir caminhos para os 
ditos Palmares, por onde possam ser investidos e arrasadas 
as suas povoações, continuamente, até de todo se extin-
guirem e ficar livre esta capitania deste dano que tanto a 
ameaça; e posta que não são poucas as dificuldades que 
para este fim se me oferecem, pelas asperezas das terras, 
falta de caminhos e de carruagem, e para os mantimentos 
que em todo este Estado se não podem conduzir senão às 
costas de negros por falta de estradas para carros, nem 
DOC. 3
para mais que um homem atrás do outro. Contudo, espe-
ro que a boa diligência seja poderosa para vencer todos 
estes inconvenientes [...] mas porque se não poderá obrar 
coisa alguma sem grande despesa da fazenda de vossa 
alteza, é necessário que vossa alteza seja servido havê-lo 
assim [...] e mandar-me ordem para isso, sem embargo 
de que procurarei que os poucos contribuam com tudo o 
que lhe for possível, como fiz para o socorro de Angola e, 
creia Vossa Alteza, não está menos perigoso este Estado 
com o atrevimento destes negros, do que esteve com os 
holandeses, porque os moradores nas suas mesmas casas 
e engenhos têm os inimigos, que os podem conquistar 
se se resolverem; a seguir têm pernicioso exemplo, ad-
moestados dos mesmos rebeldes que os comunicam, 
tendo já tendas de ferreiros e outras oficinas com que 
poderão fazer armas, pois usam de algumas de fogo que 
de cá levam; e este sertão é tão fértil de metais e salitre, 
que tudo lhes oferece para sua defesa, se lhes não faltar 
a indústria que também se pode temer dos muitos que 
fogem — já práticos em todas as mecânicas. E porque de 
semelhantes perigos desprezados se vêm ordinariamentea ocasionar danos irreparáveis, me pareceu opor-me aos 
que daqui podem resultar. 
Quererá Deus ajudar-me para que consiga deixar esta 
capitania livre desta perturbação, que será para mim o 
maior prêmio de todos os serviços que a vossa alteza desejo 
fazer [...].”
Fernão de Souza Coutinho [1671]. 
In: INÁCIO, Inês da Conceição; LUCA, 
Tania Regina de. Documentos do Brasil colonial. 
São Paulo: Ática, 1993. p. 77-78.
onte Brasil 500 anos: atlas histórico. 
São Paulo: Três, 1998. p. 21. 
A maioria dos quilombos 
localizava-se em regiões bastante 
afastadas dos principais centros 
populacionais da colônia.
 uilombos no Brasil século ao DOC. 4
500 km
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 Uma mão de obra valiosa: 
o escravo africano
Matar um escravo era considerado contraprodu-
cente, pois no regime escravista português o tra-
balhador cativo custava caro. Além de ter sua força 
de trabalho quase que completamente expropriada 
pelo senhor, o escravo vivia pouco, dadas as terríveis 
condições de existência, iniciadas desde sua captura 
na África, passando pela travessia atlântica nos tum-
beiros, chegando enfim às lavouras, engenhos, minas 
e cidades. Segundo cálculos do historiador Stuart 
Schwartz, o trabalho de um escravo compensava 
seu preço de aquisição após um período de 13 a 16 
meses de trabalho.
Dificilmente um escravo viveria além dos 30 anos 
de idade. Essa estimativa de vida hoje pode nos 
parecer aterrorizante. De fato, ela é. A Noruega, por 
exemplo, o país com o melhor Índice de Desenvolvi-
mento Humano (IDH) do mundo em 2007, tinha uma 
expectativa de vida de 83 anos para as mulheres e 
78 anos para os homens. No Brasil, essa expectativa 
podia chegar a 76 e 68, respectivamente. Já popu-
lações da África subsaa riana, que seiscentos anos 
atrás conheceram de perto as mazelas da escravidão, 
apresentam dados de qualidade de vida que lembram 
os tempos da escravidão. Em Angola, em 2007, a 
expectativa de vida dos homens era de 36 anos e a 
das mulheres 38 anos. 
Sendo o escravo uma mercadoria cara, a disputa 
pelos mercados fornecedores dessa mão de obra era 
ferrenha, e envolveu, em diferentes épocas, portu-
gueses, espanhóis, holandeses, franceses e ingleses, 
além de mercadores italianos e judeus. As guerras 
entre os países envolvidos eram frequentes, cada 
um procurando derrotar os adversários oferecendo 
produtos mais atraentes como moeda de troca. 
Mercadores portugueses e do Brasil, por exemplo, 
adquiriam escravos na África oferecendo produtos 
como tabaco e cachaça.
Essa competição se acirrou com a constituição, 
no final do século XVI, das Províncias Unidas dos 
Países Baixos (conhecidas como Holanda), e que no 
início do século seguinte ingressou com muita força 
na competição internacional. A luta dos holandeses 
contra o Império Espanhol — especialmente contra os 
territórios portugueses, que desde 1580 faziam parte 
dos domínios espanhóis — redesenhou o cenário da 
colonização europeia em todo o mundo [doc. 5]. Foi aí 
que o Império Português declinou da Ásia e buscou, em 
compensação, se fortalecer na América e na África.
DOC. 5 Ataque da armada holandesa a navios portugueses no porto de Goa, pintura de Hendrick van 
d‘Anthonissen, 1643. Museu Nacional, Amsterdã. Portugueses e holandeses travaram várias batalhas 
pelo controle dos mercados fornecedores de matérias-primas de alto valor comercial.
 1. Releia o texto [doc. 3] e responda. 
a) Quais perigos, segundo a carta, o Quilombo de 
Palmares representava para a capitania?
b) Qual solicitação foi feita pelo autor ao rei de Por-
tugal?
c) O que se pode observar no texto em relação aos sis-
temas de comunicação e transporte da colônia?
 2. Que visão as imagens expressam a respeito dos escra-
vos e da sociedade colonial [docs. 1 e 2]?
QUESTÕES
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