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CARTAS PAULINAS E GERAIS AULA 1 Prof. Marlon Ronald Fluck 2 CONVERSA INICIAL Estamos dando início ao estudo de Cartas Paulinas e Gerais, pesquisando a pessoa do apóstolo Paulo. Vamos conhecer um pouco a respeito da pessoa dele, o apóstolo e escritor de grande parte do Novo Testamento, e sua formação cultural. Como primeiro passo, veremos como se deu a sua formação como pensador da Diáspora. Desde seu nascimento e desenvolvimento; percorreremos seu itinerário como estudante, fariseu e sua conversão; seguiremos a trajetória daquele que se tornou um dos maiores escritores dos textos do Novo Testamento. Veremos também o contexto em que ele foi criado e educado, bem como sua capacidade múltipla de comunicação transcultural. Num segundo momento, veremos como se deu a formação de Paulo, qual foi sua preparação intelectual e cultural. Depois, perceberemos elementos da biografia de Paulo e como isso o preparou para sua futura missão no reino de Deus. Como quarto passo, estudaremos as viagens missionárias empreendidas por Paulo. Finalizando esta aula, queremos estudar de forma introdutória as Cartas Paulinas. Dessa forma, nosso objetivo é estabelecer os fundamentos para a compreensão da obra literária de Paulo. TEMA 1 – PAULO COMO JUDEU DA DIÁSPORA Caro estudante, vamos conhecer a origem do nome de Paulo? Paulus, significa fraco. Na forma hebraica, seu nome é Saul (At 9.4.17; 22.7.13; 26.14) e Saulos (At 7.58; 8.1.3; 9.1; 11.25.30; 12.25; 13.1). Segundo o costume comum entre os hebreus da diáspora, foi-lhe dado o nome de Paulo (At 13.9; 2Pe 3.15), pelo qual é chamado em todas as suas epístolas. O nome de Paulo, Paulus, pequeno, era um nome mais próprio para aproximar-se dos gentios. Na verdade, o nome é triplo. Paulos é o nome em latim, bem como em grego. Os cidadãos romanos são reconhecidos por possuírem nomes triplos: prenome, nome gentio e cognome (Ebel, 2012, p. 111). E na forma hebraica, Saul e Saulos. Os judeus da Diáspora tinham muitas vezes dois nomes: judaico e grego. Diáspora significa dispersão de povos. É um 3 substantivo feminino de origem grega, o qual deriva da palavra diasporá. Em geral, a dispersão de povos pode ter origem política ou religiosa. Sabemos que Paulo era judeu e nunca viu motivo algum para negar essa condição. Ele dizia que era: “do povo de Israel...” (Fp 3.5); “israelita...” (Rm 11.1). O apóstolo utilizou uma expressão que fala por si mesma: “São hebreus? Também eu” (2 Co 11.22). As origens judaicas marcaram a vida do Saulo, que cresceu como judeu (At 7.58). A antiga fé dos pais era muito importante para ele (Gl 1.14); porém ele se converteu e se tornou seguidor de Jesus Cristo. Estamos acostumados a dizer que Saulo se tornou Paulo. Sabemos que Paulo nasceu na cidade de Tarso da Cilícia (At 22.3) e que residiu novamente ali, depois de sua fuga de Damasco, pois Jerusalém tornou- se uma ameaça, uma cidade bastante perigosa para ele, a tal ponto que nela corria sério risco de vida (At 9.30; 11.25). Figura 1 – Tarso na Cilícia TARSO, NA CILÍCIA Crédito: Heinrich Kiepert/CC/PD. Tarso era um local de várias influências culturais. Ele teve estudo dentro da cultura e língua grega. Ao mesmo tempo, nas cartas que enviou, ele queria provar e defender acima de tudo sua identidade de judeu. Surpreendentemente o apóstolo nunca fez nenhuma referência a Tarso em suas epístolas. E esse silêncio de Paulo, nas epístolas, poderia ser explicado pelo fato de que ele queria provar e defender acima de tudo sua identidade de judeu. 4 Em vários momentos, ele se referiu e foi insistente em provar suas origens judaicas, e a sua formação naquela comunidade (Gl 1.11-24; Fp 3.5-9). Os judeus da diáspora eram suspeitos de não levar definitivamente a sério a fidelidade à lei de Moisés, chamada de Toráh (Heyer, 2009, p. 17). Para Jerônimo (347-420), a família de Paulo emigrou para Tarso no ano 4 d. C., pressionada pelos romanos. Tarso, como mencionamos acima, ficava na Cilícia, Ásia Menor, nos dias de hoje conhecida como Turquia (Carrez, 1987, p. 28). A cidade de Tarso era um grande centro cultural e comercial; contava com cerca de 300.000 habitantes. Por lá passava a estrada romana que ligava Oriente e Ocidente. Como filho de judeus da diáspora, Paulo aprendeu o hebraico junto a Gamaliel em Jerusalém (At 22.3), o famoso rabino Gamaliel, de cuja moderação fala o livro de Atos (5.34-39). Como cidadão romano (At 16.37) de nascimento (At 22.28) provavelmente pertencia a uma família rica que, morando em Tarso, desfrutava do privilégio da cidadania romana concedida por Cesar Augusto. Filho de fariseus, fariseu, judeu, da raça de Israel (At 23.6), pertencente à tribo de Benjamim (Fp 3.5) tinha um comportamento irrepreensível: “Todos os judeus sabem como foi minha vida desde minha juventude e como, desde o início, vivi no meio do povo e em Jerusalém” (At 26.4). Paulo cresceu e foi educado dentro das exigências da Lei de Deus e das “tradições paternas” (Gl 1.14). Podemos concluir que Paulo nasceu mesmo na Diáspora judaica. Em casa, Paulo aprendeu aramaico. Na escola da sinagoga, hebraico. Ele deve também ter frequentado escola grega, onde passou pelas etapas primária, secundária e terciária (Hock, 2008, p. 172). Pertencia à elite intelectual. Paulo ainda comentou que havia pregado o Evangelho a todos os guardas pretorianos, visto que eles o vigiavam no cativeiro em Roma (Filipenses 1.13). Isso pressupõe a comunicação em latim. Além disto, aos cidadãos romanos se exigia o domínio da língua latina (Ebel, 2012, p.112). É provável que também tivesse falado a língua siríaca, pois foi pastor, junto com Barnabé, em Antióquia, na Síria (At 13). Dos judeus da Diáspora alguns obtiveram êxito no comércio e nos negócios. Houve também o florescimento do estudo da Escritura e da tradição. Depois da destruição do templo no ano 70 d.C., os escribas da Pérsia 5 desempenharam um papel importante no desenvolvimento da tradição judaica. Não é por acaso, portanto, que o Talmude da Babilônia fosse mais estimado que o da Palestina. Quanto à situação econômica de Paulo, a possibilidade de estudo em Jerusalém sob a orientação de Gamaliel exigiu para um judeu da diáspora investimentos financeiros (Ebel, 2012, p.113). Observamos também que tanto as epístolas quanto os Atos dos Apóstolos mencionam que o apóstolo era economicamente independente, mas não necessariamente estável. Sobreviveu como fabricante de tendas (At 18.3). Naturalmente ele deve ter aprendido esse ofício com seu pai, pois era comum naquela época. Tarso era a capital da província romana da Cilícia, o que significa que essa cidade era um centro governamental e que, consequentemente, abrigava uma guarnição militar. Mesmo em nossos dias, os exércitos precisam de tendas (Murphy-O’Connor, 2000, p. 67). A cidade de Tarso era bem antiga, pois já foi citada em uma inscrição do rei babilônico Salmanaser III em 830 a.C. Logo após as várias campanhas realizadas por Alexandre Magno, essa cidade fez parte, durante muito tempo, do reino da Síria, mas no ano 66 a.C. ela foi incorporada ao Império Romano. Era uma cidade bem conhecida e famosa. Era um dos centros mais significativos da cultura helenística. Filósofos e poetas a adotaram como lar e alguns afirmavam até que ela competia com os mais famosos centros culturais, como Atenas e Alexandria. Desde muito jovem, Paulo aprendeu que o mundo do Império Romano era particularmente rico em deuses e deusas. E em Tarso havia também templos que eram dedicados a esses deuses. Como judeu da Diáspora, ele vivia em um mundo dominado pelas concepções pagãs. Todavia, parece quase impossível que eles não o influenciassem de um modo ou de outro. Ao mesmo tempo, mesmo com sua condição de judeu da Diáspora, ele nunca perdeu aconsciência de sua identidade judaica (Heyer, 2009, p. 20). TEMA 2 – FORMAÇÃO DE PAULO Paulo é tradicionalmente descrito como aluno de Gamaliel. O nome de Gamaliel não aparece nas epístolas de Paulo. No entanto, ele tem seu nome citado com respeito na literatura judaica. Ele fazia parte de um grupo de influentes escribas. Era neto de Hillel, fundador de uma das mais importantes 6 escolas dentro da corrente judaica dos fariseus. No final do século I, um de seus netos pertencia à geração dos primeiros rabinos que se consagraram a assegurar a continuidade da tradição judaica (Murphy-O’Connor, 2000, p. 65). Qualquer pessoa que fosse formada aos pés desse respeitável mestre poderia ser considerada especialista na Escritura e na tradição. Atos certamente sugere que Gamaliel foi o mais importante mestre de Paulo, porém o apóstolo também teve a inspiração e a influência de outros escribas em Jerusalém. Vamos ver agora Paulo como fariseu. Seus pais seguiram os mandamentos da lei, a Toráh. Na sua juventude, ele viajou a Jerusalém para ali se formar na interpretação da Escritura e da tradição, sob a direção de Gamaliel, um escriba pertencente à corrente dos fariseus, dentro do judaísmo da época (At 5.34). Quando Jesus chega a Jerusalém, os fariseus saem de cena. Depois da destruição do templo, no ano 70 d.C., cresceu rapidamente a influência dos fariseus, que se converteram em chefes espirituais do judaísmo. Ao mesmo tempo, as tensões entre judeus e cristãos cresceram até ao ponto de acontecer uma grande cisão entre eles. Foi sob o calor dessa tensão que os Evangelhos foram escritos. Com certeza, como em todo grupo religioso, existiam hipócritas nos círculos dos fariseus, porém não é justo denominá-los todos como hipócritas. Os fariseus levavam a vida religiosa muito a sério. O movimento dos fariseus surgiu logo após a revolta dos Macabeus, nos anos 167-164 a.C. Eram os piedosos que se recusavam a obedecer às ordens de seu soberano sírio, que pretendia modernizar e helenizar a fé judaica; desafiavam as ameaças dele de submetê-los por meio de tortura. Os fariseus se consideravam um movimento penitencial, inspirado por profetas como Jeremias, e personagens como Esdras e Neemias. Infelizmente, eles descobriram que as advertências que chegavam a eles, desde um passado distante, não haviam perdido a vigência e que a maior parte do povo judeu não havia aprendido nada da experiência vivida. Os fariseus compreenderam que eram chamados a se opor com todas as suas forças ao perigo que os ameaçava. Para isso, eles se concentraram na observância dos mandamentos da Toráh, com a esperança de que outros seguiriam seu exemplo. Por serem bem radicais, eles entraram em conflito com 7 todos os judeus que aceitavam a influência helenística sobre a própria fé e suas tradições (Pinto, 2008, p. 25, 26). Os fariseus eram considerados especialistas na Escritura e na tradição, mas combinavam o estudo permanente da Toráh com o exercício de uma profissão. Muitos aprendiam um ofício. Havia, entre eles, quem trabalhasse com a confecção de tendas – como Paulo e sua família, ou como carpinteiros – à semelhança de José e Jesus (Mt 13.55). Na literatura rabínica tardia, inclusive, os carpinteiros são elogiados por sua habilidade e considerados especialistas no atento estudo dos mandamentos da Toráh (Dana, 1990, p. 95, 96). O matrimônio e a família desfrutavam de uma elevada estima nos círculos fariseus. Os fariseus estavam firmemente estabelecidos na sociedade de seu tempo e tinham de ganhar a vida (Hale, 2001, p. 18, 19). TEMA 3 – BIOGRAFIA DE PAULO Estamos aprendendo nesta aula elementos novos sobre a sociedade judaica. Convido você para seguirmos juntos nessas descobertas. Não temos um conhecimento preciso da data de nascimento de Paulo, como a de todas as personagens da Antiguidade, exceto as pessoas pertencentes à alta aristocracia. Uma data provável, que poderia ser admitida, seria por volta do ano 5 de nossa era. Aparentemente, foi um homem maduro alcançado pelo Cristo por volta do ano 35, após ter perseguido os discípulos do Mestre da Galileia (Quesnel, 2008, p. 26). Uma data precisa que pode ser usada como referência, um ponto histórico, com certeza é a duração do pró consulado de Gálio, em Corinto. Uma inscrição descoberta em Delfos, em 1905, permite afirmar que Gálio ocupou o cargo de pró cônsul de maio de 51 a maio de 52. Segundo At 18.12-16, o apóstolo Paulo compareceu perante Gálio na primavera de 52. Logo, se é certo que este acontecimento está em relação com a permanência de dezoito meses de Paulo em Corinto, ela pode ser situada de uma chegada a Corinto pelo fim de 50 a uma partida por volta de julho de 52 (Murphy-O’Connor, 2000, p. 30). Um segundo ponto histórico é o edito de Claudio, que expulsou os judeus de Roma, publicado em 49, e foi a razão pela qual Priscila e Áquila chegaram a Corinto vindos de Roma (At 18.2). Se situarmos o edito de Cláudio por volta do ano 41 em vez de 49, facilitaria uma reconstrução cronológica baseada em At 18.2, 12. Nesse caso, Paulo teve duas missões em Corinto. Uma no início do 8 seu apostolado, conforme a referência a Priscila e Áquila, e outra no fim, onde se situa o pró-consulado de Gálio (At 18.12-16) (Patte, 1987, p. 473). Podemos apresentar três tipos possíveis de vida de Paulo: 3.1 Primeiro tipo a. O primeiro tipo possível seria uma vida reconstituída unicamente com o auxílio das epístolas. E enfrentaríamos bastante dificuldade, pois ninguém conseguiu uma reconstituição sem recorrer aos Atos dos Apóstolos. O texto mais rico de informações é Gl 1.6-2.14. Sabemos pelas epístolas que Paulo foi circuncidado ao oitavo dia (Fp 3.5), pertencia à raça de Israel (Fp 3.5) da ascendência de Abraão (2 Co 11.22). Quando escreveu a epístola à Filemon, Paulo era prisioneiro e velho (Fm 9). A menção a si mesmo como velho (presbútes, “ancião”) seria, segundo Filo, uma referência ao fato de que a pessoa possuía mais de 49 anos, o que significa que Paulo teria nascido nos primeiros anos do século I d.C. (Ebel, 2012, p.108). São notícias ligadas a um acontecimento da vida de Paulo. Na maioria das vezes, essas informações aparecem num contexto de polêmica e defesa da pessoa de Paulo e seu ensinamento. 3.2 Segundo tipo O segundo tipo possível seria uma vida segundo o livro dos Atos dos Apóstolos. Temos aí informações sobre sua origem (At 22.3), vocação, viagens, estadia em Jerusalém. São informações valiosas, mas que devemos submeter a uma crítica literária, histórica e teológica. Lucas apresenta uma sequência de fatos em vista do objetivo de sua obra: o crescimento da palavra (At 6.7; 12.24; 19.20) que deve ser proclamada até os confins da terra (At 1.8). No livro de Atos encontramos várias menções às viagens de Paulo a Jerusalém (At 9.23; 11.30-12.24; 15.3; 18.21; 21.15-26) que destacam a importância dessa cidade no ritmo da história da salvação. As fontes de Lucas não eram as epístolas paulinas, mas narrações que eram passadas, seja entre as equipes missionárias, sejam entre as comunidades paulinas (Carrez, 1987, p. 21). 9 3.3 Terceiro tipo O terceiro e último tipo possível seria reunir os dados paulinos e lucanos (encontrados no livro de Atos). É o que vários autores fazem. Assim, é possível reconstituir uma cronologia de Paulo, seja baseada em Gl 1.6-2.14 ou reunindo os elementos de Atos e das epístolas juntos. Sabemos quão difícil será obter dados precisos. As várias reconstruções são um tanto hipotéticas (Patte, 1987, p. 471-479). Para que possamos entender quão difícil é o estabelecimento de uma cronologia paulina, ou de uma relação plausível entre os dados biográficos em Atos e nas epístolas paulinas, vamos utilizar o seguinte exemplo: a informação fornecida pelos Atos (9.26) menciona que Paulo teria ido imediatamentea Jerusalém ao deixar Damasco. Aqui compreendemos que todos esses elementos têm por fim estabelecer uma forte ligação entre Paulo e Jerusalém, útil a Lucas para afirmar a unidade da Igreja primitiva em suas diferentes sensibilidades religiosas, mas eles são pouco compatíveis com as afirmações do próprio Paulo, que escreve explicitamente isto na epístola aos Gálatas (Quesnel, 2008, p. 27). De fato, em Gálatas 1.15-24, encontramos a seguinte informação: Mas, quando aprouve a Deus, que desde o ventre de minha mãe me separou e me chamou pela sua graça, revelar seu Filho em mim, para que o pregasse entre os gentios, não consultei carne nem sangue, nem tornei a Jerusalém, a ter com os que já antes de mim eram apóstolos, mas parti para a Arábia e voltei outra vez a Damasco. Depois, passados três anos, fui a Jerusalém para ver a Pedro e fiquei com ele quinze dias. E não vi a nenhum outro dos apóstolos, senão a Tiago, irmão do Senhor. Ora, acerca do que vos escrevo, eis que diante de Deus testifico que não minto. Depois, fui para as partes da Síria e da Cilícia. E não era conhecido de vista das igrejas da Judéia, que estavam em Cristo; mas somente tinham ouvido dizer: Aquele que já nos perseguiu anuncia, agora, a fé que, antes, destruía. E glorificavam a Deus a respeito de mim. Isso acontece novamente, quando comparamos os três relatos da vocação de Paulo em Atos 9.3-9; 22.6-11 e 26.12-18 com as informações dadas pelo apóstolo em 1 Coríntios 9.1. Podemos perceber algumas diferenças com facilidade. Quanto às informações geográficas, podemos afirmar que essas são poucas durante o período imediato após a conversão. Foi na cidade de Damasco que Paulo começou o anúncio da Boa-Nova, mas provocou conflitos e teve que fugir (At 9.20-25). Foi para a Arábia, leste do Jordão (Gl 1.17), depois à Síria. 10 Em sua primeira viagem à Jerusalém (At 9.26-27; Gl 1.18) conheceu Cefas (Pedro) e Tiago. Novamente surgiu outro conflito, que o fez voltar para Tarso (At 9.29-30). Nove anos depois, Barnabé o chamou para trabalhar em Antióquia, onde judeus e pagãos convertidos viviam em harmonia (At 11.19-26). Essas primeiras tentativas missionárias resultaram em fracasso total devido à sua pouca experiência e precipitação. Paulo parecia pouco realista. TEMA 4 – VIAGENS MISSIONÁRIAS Vemos em At 13.2-4 que a Igreja cristã envia Paulo para sair pelo mundo. Havia três a quatro milhões de judeus dispersos pelo mundo e um milhão na Palestina para cerca de vinte milhões de homens livres em todo o império. Paulo sentia que tinha muita gente a evangelizar. O apóstolo fez muitas viagens (2 Co 11). O Evangelho do mundo rural da Palestina precisava ser encarnado no mundo urbano das grandes cidades: Antioquia da Síria (500.000), Corinto (600.000), Roma (1.000.000), Éfeso, Atenas etc. Mesmo conhecendo bem a língua grega (At 21.37) e o hebraico (At 21.40; 26.14), Paulo deve ter tido dificuldade em se comunicar. Entre os judeus não havia problema, pois dominava o aramaico (língua falada na Palestina). Na Galácia não conhecia o dialeto da região, por isso parece ter resolvido o problema com gestos e desenhos: “Diante de vocês foi desenhada a imagem de Jesus crucificado” (Gl 3.1). Ele teve algumas dificuldades financeiras. Tinha que parar a viagem e trabalhar com as próprias mãos para conseguir dinheiro (2Ts 3.10; At 20.30-44). Ainda houve conflitos violentos com falsos irmãos. Conflito com Pedro (Gl 2.11- 14), alguns conflitos pastorais gerados com a entrada dos pagãos na comunidade sem passar pelas leis do Judaísmo (At 15.6-21; Gl 2.1-10) (Carrez, 1987, p. 28). Quando somamos isso aos desafios pastorais: um povo massacrado pelos altos impostos e a centralização da renda do sistema que o Império denominou de Paz Romana, buscava resposta em outras religiões e filosofias que surgiam a cada dia. Isso mostra que em cada uma das viagens o apóstolo teve que se confrontar com problemas e diversos conflitos de todos os tipos. A respeito da geografia das viagens, também podemos encontrar algumas possíveis contradições entre o Livro de Atos e as Epístolas Paulinas. Um 11 exemplo pode ser tomado de Gl 1.17, onde Paulo menciona que, depois de sua conversão, viajou para a Arábia; em At 9.26 Lucas diz que o apóstolo foi para Jerusalém. Os estudiosos, em geral, dão razão a Paulo. Como vimos acima, o interesse de Lucas está em relatar uma teologia em forma de história. De igual modo, sua geografia também é teológica; começando em Jerusalém até os confins do mundo. Podemos datar as viagens missionárias de Paulo entre os anos 45-58. No início dessas viagens, o imperador de Roma era Cláudio (41-54). Ao final, em 58, o imperador era Nero (54-67). As viagens de Paulo, registradas nos Atos dos Apóstolos, seguem o seguinte esquema: Primeira viagem: At 13.3 até At 14.28. Data aproximada da viagem 45-48; Segunda viagem: de At 15.36 até At 18-22. Data aproximada 49-52; Terceira viagem: At 18.23 até At 21.17, pelos anos 52-56. A viagem final de At 27.1 até At 28.16, pelos anos 58/59. De acordo com o roteiro estabelecido nos Atos dos Apóstolos, Ronald Hock calculou que Paulo deve ter viajado em torno de dez mil milhas durante toda a sua vida missionária, o que o coloca, em matéria de percurso, no mesmo nível dos funcionários do governo, comerciantes, portadores de epístolas (Meeks, 1992, p. 32). O apóstolo Paulo inventou um método próprio para evangelizar. Normalmente ele chega a um lugar, anuncia as Boas Novas, cria uma ou mais comunidades e vai adiante. Em sua segunda viagem missionária, Paulo prossegue com o mesmo método, mas agora fica mais tempo, por volta de um ano e seis meses em Corinto (At 18.11). Sua terceira viagem foi completamente diferente da primeira. Paulo seguiu diretamente para Éfeso (At 19.1.8-10) e lá permaneceu por três anos (At 20.31). Em seguida, mais três meses na cidade de Corinto (At 20.3). No fim, o método já é outro: irradiar o Evangelho a partir de uma base central (At 19.10.26), enquanto as viagens funcionam para que o apóstolo possa visitar e confirmar as comunidades já estabelecidas (At 18.23; 20.2). Vejamos a seguinte, provável, cronologia da vida de Paulo: 12 Quadro 1 – Cronologia da vida de Paulo Nascimento Em torno de 5 d.C. Tarso Formação farisaica Em torno de 30 d.C. Jerusalém Conversão Em torno de 32 d.C. Damasco Pastor – At 13 Em torno de 45 d.C. em Antióquia, Síria 1ª viagem missionária Em torno 46-48 d.C. Concílio - At 15 Em torno de 48 d.C. Jerusalém 2ª viagem missionária Em torno 49-52 d.C. Gl, 1 e 2 Ts Corinto – At 18 Em torno de 51 d.C. 3ª viagem missionária 52-56 1 e 2 Co e Rm Éfeso – At 19-20 Em torno 52-55 d.C. Viagem a Roma 56-57 Prisão em Roma 59 – 61 Ef, Fp, Cl, Fm,1 e 2 Tm, Tt Morte 67 mártir, em Roma Fonte: Fluck, 2021. TEMA 5 – CARTAS PAULINAS Segundo o cânon do Novo Testamento, 13 epístolas são atribuídas a Paulo e o mencionam explicitamente como remetente. Grande parte dos pesquisadores, entretanto, acredita que seis dessas epístolas (Colossenses, Efésios, 2 Tessalonicenses, 1 e 2 Timóteo, Tito) não foram redigidas pelo próprio apóstolo, mas pela escola paulina, seus alunos – no sentido amplo do termo. Nas outras sete cartas (Romanos, 1 e 2 aos Coríntios, Gálatas, Filipenses, 1 aos Tessalonicenses e Filemon), há a convicção da autoria paulina. Além disso, em diversas cartas são apontados problemas quanto à “integridade”, isto é, se elas foram o que são desde o início. Alguns veem diversos textos que podem ter sofrido interpolações (inserções de outros), rupturas e deslocamentos (Bull, 2009, p. 64). Contudo, para nós, o que importa é a que essas epístolas têm sido aceitas desde a Antiguidade pela Igreja de Cristo e, como veremos, não há razões convincentes para duvidar de sua autenticidade. Caro estudante, chegamos ao final desta aula.Pudemos aprender muito sobre a vida do apóstolo Paulo. Vimos que ele era um judeu da diáspora e 13 também fariseu; que Paulo foi aluno de Gamaliel, que era um nome muito respeitado no judaísmo. Aprendemos que a data de nascimento de Paulo é desconhecida, porém existem três tipos possíveis de vida de Paulo seguindo o Novo Testamento. Por fim, estudamos que Paulo foi autor de 13 epístolas, embora alguns pesquisadores acreditem que ele não redigiu algumas delas. NA PRÁTICA Percebemos a grande contribuição trazida por Paulo ao Cristianismo. Vimos a pesquisa sobre a pessoa de Paulo, sua conversão a Cristo e sua contribuição na comunicação transcultural da mensagem cristã em suas viagens e cartas. Ele teve seu caráter moldado em Tarso, na Cilícia, bem como na escola judaica de Gamaliel, em Jerusalém. Nunca perdeu sua consciência de identidade judaica. Como fariseu, era radical na aplicação da Toráh. Não temos uma cronologia exata da vida de Paulo. Apresentamos as três viáveis de acordo com as informações bíblicas. Também apresentamos as viagens missionárias ocorridas no decorrer de sua vida. Ele enfrentou dificuldades de todos os tipos: de comunicação, de finanças, bem como conflitos pastorais de vários tipos. Em cada local em que esteve houve conflitos com novos problemas e confrontos. Paulo empreendeu quatro viagens missionárias entre os anos 45 e 58 d.C., tendo percorrido cerca de dez mil milhas como missionário. Ele chegava a um local e anunciava a mensagem do evangelho. Geralmente criava uma ou duas comunidades de fé cristã, indo então adiante para fazê-lo em outro local. Nas outras viagens, procurava esses grupos organizados em viagens anteriores para confirmá-los na fé no Senhor Jesus Cristo. As treze cartas paulinas têm gerado uma série de estudos e debates teológicos. Com relação a sete delas, há convicção generalizada da autoria paulina, enquanto seis delas são atribuídas à escola paulina. Com relação a essa discussão, o que importa é que a Igreja cristã, em toda sua história, vinculou a Paulo todas elas e seu conteúdo. 14 FINALIZANDO O estudo da pessoa e da teologia paulina nas epístolas nos desafia também hoje. Sua formação intelectual, cultural e religiosa o preparou para a grande tarefa missionária que desenvolveu. Paulo nos desafia por meio de sua comunicação transcultural. Para ele, crer é também pensar. Ele teve uma preparação linguística múltipla. Sua adaptação diante dos variados contextos em que transitou nos desafia até hoje na comunicação da teologia. Finalizamos essa aula, desejando um grande enriquecimento acadêmico e intelectual a todos. 15 REFERÊNCIAS BULL, K.-M. Panorama do Novo Testamento: história, contexto e teologia. São Leopoldo: Sinodal, 2009. CARREZ, M. P. et al. As Cartas de Paulo, Tiago, Pedro e Judas. São Paulo: Paulinas, 1987. EBEL, E. Das Leben des Paulus. In: WISCHMEYER, O. (ed.). Paulus: Leben, Umwelt, Werk, Briefe. 2. ed. Tübingen/Basel: Franke Verlag, 2012. p.105-118. HALE, B. D. Introdução ao estudo do Novo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2001. HALLEY, H. Manual bíblico. São Paulo: Vida Nova, 2001. HEYER, C. J. D. Paulo: um homem de dois mundos. São Paulo: Paulus, 2009. HOCK, R F. Paulo e a educação greco-romana. In: SAMPLEY, J. P. (org.). Paulo no mundo greco-romano: um compêndio. São Paulo: Paulus, 2008. p. 171- 196. MEEKS, W. A. Os primeiros cristãos urbanos: o mundo social do apóstolo Paulo. São Paulo: Paulinas, 1992. MURPHY-O’CONNOR, J. Paulo de Tarso – História de um apóstolo. São Paulo: Loyola, 2000. PATTE, D. Paulo, sua fé e a força do evangelho. São Paulo: Paulinas, 1987. PINTO, C. O. C. Foco e desenvolvimento no Novo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2008. QUESNEL, M. Paulo e as origens do cristianismo. São Paulo: Paulinas, 2008. TEMA 4 – VIAGENS MISSIONÁRIAS