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Quem Foi Paulo?
A narrativa de Atos nos informa que Paulo nasceu em Tarso, região da Cilícia,
Ásia Menor, atual Turquia (At 9,11; 21,39; 22,3; 9,30; 11,25). Se trata de uma
cidade grande, onde havia uma população de mais ou menos 300 mil habitantes.
Tarso era um local que possuía um centro importante de cultura e de comércio. A
estrada romana que ligava o Oriente e o Ocidente passava por lá.
Uma pergunta nos questiona: Como é que Paulo, que era judeu, nasceu tão
distante, numa cidade grega da Ásia Menor? Desde o sexto século a.C. havia um
grande sistema de migração de judeus para fora da Palestina. Em praticamente
todas as cidades do Império Romano existiam bairros judeus e cada um com sua
própria sinagoga e organização comunitária. Eles formavam a assim chamada
diáspora. De acordo com Mesters (2008, p. 15):
Havia uma comunicação muito intensa entre Jerusalém e a
diáspora; romarias, visitas, promessas, estudo... Jerusalém
era o centro espiritual de todos os judeus. Assim se entende
como Paulo, nascido em Tarso, foi criado em Jerusalém (At
22,3; 26,4-5; cf. 23,16). Ele mesmo dizia: ‘Todos os judeus
sabem como foi minha vida desde minha juventude e como,
desde o início, vivi no meio do povo e em Jerusalém’ (At 26,4).
Paulo nasceu no seio de uma família judaica, consequentemente foi educado
dentro dos padrões das leis de Deus e das “tradições paternas” (Gl 1,14). Os
judeus que se encontram na diáspora viviam com empenho a religião judaica.
Fazia parte de suas preocupações diárias a observância da lei de Deus. Por
esse motivo, não aceitavam qualquer costume imposto pelo Império Romano que
difi cultasse a observância dos mandamentos de Deus.
O apóstolo Paulo viveu num bairro judeu que era muito rigoroso e exigente
com relação às práticas da lei. Era de lá que podia perceber o ambiente aberto
que pairava sobre a cidade grega. Foram justamente esses dois locais que
infl uenciaram diretamente a sua vida. Interessante, porque Paulo procurara
se adaptar dependendo do local em que estivesse, por exemplo, possuía dois
nomes, um para cada ambiente: Saulo era o seu nome judaico (At 7,58), e Paulo
o nome grego (At 13,9). Contudo, ele prefere e assina Paulo, mas Deus o chama
de Saulo (At 9,4).
Como todos os garotos judeus de sua época, Paulo foi ensinado na casa dos
pais e na sinagoga do bairro, a escola estava ligada à sinagoga. Para a formação
básica era previsto: aprender a ler e escrever, conhecer e aprender a lei de Deus
e a história do povo; assimilar as tradições religiosas; aprender as orações, em
especial os salmos. O método era simples: pergunta e resposta, ou seja, repetir e
decorar, e também a disciplina e a convivência.
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ELEMENTOS E FUNDAMENTOS BÍBLICOS
Paulo também teve uma formação de nível superior. Isso aconteceu em
Jerusalém, aos pés de Gamalieu (At 22,3). Esse estudo era composto dos
seguintes ensinamentos: o estudo da lei ou da Torá; a tradição dos antigos; a
halaká que ensinava a viver a vida de acordo com a lei de Deus; a Hagadá que
ensinava a ler a vida de acordo com as leis de Deus; e o estudo da midrash, que
era a interpretação da Bíblia hebraica.
Sem dúvida, a leitura da Torá era a centralidade da formação de qualquer
garoto judeu. Com isso a piedade do povo era marcada profundamente. “Desde
criança” (2Tm 3,15), os judeus aprendiam sobre a importância da Torá nas suas
vidas. A mãe era a primeira a transmitir esses ensinamentos aos fi lhos (2Tm 1,5 e
3,14). Paulo desde criança aprendeu que a Torá era inspirada por Deus e útil para
instruir, refutar, corrigir, educar na justiça (2Tm 3,16-17; Rm 15,4; 1Cor 10,6.11).
Ao mesmo tempo que Paulo teve toda essa oportunidade de estudo entre
os sábios de Jerusalém, vivia na Galileia um homem chamado Jesus, pobre,
carpinteiro e que não teve condições de estudar em Jerusalém. Ao que tudo
indica, Paulo e Jesus nunca se encontraram em vida (2Cor 5,16). Jesus era mais
velho que Paulo, em torno de cinco ou oito anos. Contudo, os dois devem ter tido
formação básica em casa, na sinagoga e na escola ligada à sinagoga. Mesters
(2008, p. 18) faz uma breve comparação entre Jesus e Paulo:
Paulo é da cidade. Jesus era do campo, do interior. As
comparações de Jesus são quase todas do mundo rural:
semente, campo, fl ores... As comparações de Paulo vêm do
ambiente da grande cidade que marcou sua vida. Paulo pode
não ter entendido muito de roça e de plantas, mas entendia
de jogos urbanos. Uma cidade do tamanho de Tarso tinha seu
estádio de esportes onde, a cada quatro anos, se organizavam
jogos de atletismo: corridas, lutas, lançamento de disco, acertar
no alvo etc. Quando jovem, Paulo deve ter gostado dos jogos
no estádio. Pois, como adulto, deles ainda se lembra e os usa
para comparar as exigências do Evangelho: ganhar a coroa
(1Cor 9,25), perseguir o alvo (Fl 3,12-14), alcançar o prêmio
(1Cor 9,26), correr na direção certa (1Cor 9,26; cf Gl 2,2; 5,7;
Fl 2,16). Ele fala em combate (2Tm 4,7) e pugilato (1Cor 9,26).
Conhece o esforço e a disciplina dos atletas (1Cor 9,25).
Paulo tinha uma profi ssão, era fabricante de tendas (At 18,3). Pode ser que
tenha herdado esta profi ssão do próprio pai, pois era esse o costume da época. O
aprendizado começava por volta dos 13 anos e durava de dois a três anos.
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Capítulo 4 SEGUNDO TESTAMENTO
Paulo fazia questão de dizer que tinha cidadania romana (At 16,37; 22,25)
e que possuía esse direito desde o seu nascimento (At 22,29), ou seja, herdou
do seu pai. Se a família de Paulo possuía cidadania romana, signifi cava que
tinha uma boa fortuna (At 22,28). É muito provável que Paulo tenha aprendido
a profi ssão do pai não tanto para sobreviver disso como trabalhador, mas para
administrar a ofi cina do pai como proprietário.
Agora que já conhecemos um pouco de Paulo, vamos conhecer as cartas
que ele escreveu ou que foram atribuídas a ele.
Para entender mais sobre Paulo, bem como as pesquisas
recentes a seu respeito, leia: HORSLEY, Richard A. Paulo e o
Império. Religião e poder na sociedade imperial romana. São Paulo:
Paulus, 2011.
Carta aos Romanos
As cartas escritas por Paulo mostram o empenho missionário em levar a Boa
Nova para além da cultura judaica. Paulo foi o grande evangelizador do mundo
gentio, e as comunidades que receberam sua infl uência estavam espalhadas
em diferentes regiões da Ásia Menor e Europa: Filipos, Tessalônica, Corinto,
Galácia. Essas comunidades possuíam características próprias, fruto da realidade
local de cada uma, mas também apresentavam pontos em comum, uma vez que
estavam inseridas na cultura greco-romana. Destacamos três semelhanças entre
elas. Primeira: as comunidades são formadas, basicamente, por cristãs/os de
origem greco-romana. Segunda: seus membros sofrem pressão dos judaizantes,
que querem obrigar os cristãos gentios à prática da lei mosaica, em especial os
ritos de purifi cação e a circuncisão (3, 1-19; Gl 3, 1-29). Terceira: os membros
das comunidades têm difi culdade em deixar para trás os costumes trazidos da
sua cultura de origem, o que gera confl itos (1Cor 5,1-13; 6,1-20; 7,12-16); têm
problemas de relacionamento na vida comunitária (2, 6-7;1Cor 12,1-14,25); e têm
problemas com as autoridades locais (1Cor 6, 1-11).
A carta de Paulo aos Romanos é a primeira carta do chamado cânon paulino.
Se trata da carta mais longa e também a que possui uma teologia bastante
elaborada. Essa carta pode ter sido escrita em Corinto mais ou menos em 57 ou
58 d.C.
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ELEMENTOS E FUNDAMENTOS BÍBLICOS
A população da época era em torno de um milhão de habitantes, a maioria se
tratava de plebeus libertos. Nero era o grande imperador e o povo estava marcado
por uma grande massa de escravos.
Paulo não conhece essa comunidade e por esse motivo escreve para
preparar uma possível visita. Mesmo em meio a sua complexidade teológica,
mantém o objetivo pastoral em todas as cartas.
As comunidades cristãs de Roma cresceram muito, isso por conta do
ingresso de gentios (1,5-6.13; 11,13). Essa situação gerava muitos confl itos, por
exemplo, entre judeu-cristão e étnico-cristão, talvez esse seja um dos motivos porque o imperador Cláudio expulsou os judeus de Roma e com ele muitos cristãos,
como o casal Priscila e Áquila, conhecido por Paulo na comunidade de Corinto (At
18,1-3).
De acordo com o que está escrito na carta de Paulo aos Romanos, a
situação do povo é crítica e deprimente. Isso porque os cristãos se encontram
subordinados à ideologia imperial chamada de “pax romana”, no sistema da
escravidão, e a lista de pecados é assustadora (Rm 1,28-32). Por outro lado, os
judeus estão submetidos à ideologia da lei Mosaica, no sistema da circuncisão, e
a lista de pecados também é muito grande (Rm 2,17-24). As soluções para todos
esses confl itos só podem ser resolvidas por meio da graça, dom gratuito e dado
por Deus (Rm 3,21-28).
Carta aos Coríntios
Assim como a Carta aos Romanos, a Carta aos Coríntios demonstra que
existem muitos confl itos na comunidade. Contudo, a comunidade é formada na
sua maioria de pessoas pobres e desvalidas. Foi Paulo mesmo quem fundou esta
comunidade. No momento em que escreve a carta, por volta do ano 67 ou 57
d.C., está em Éfeso, essa seria a segunda carta, a primeira possivelmente tenha
se perdido de acordo com o que está escrito em 1Cor 5,9. Provavelmente esta
segunda carta seria a união de várias outras.
Paulo chegou a Corinto após o discurso fi losófi co feito em Atenas, que aliás
foi um grande fracasso. Em um ano e meio, Paulo descobriu que a opção pelos
mais pobres era a mensagem culminante da cruz de Cristo (At 18,11). Foi acolhido
pelo casal Priscila e Áquila e se inseriu na vida da cidade através de trabalhos
manuais como fabricante de tendas.
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Capítulo 4 SEGUNDO TESTAMENTO
Carta aos Gálatas
A Carta aos Gálatas pode ter sido escrita após o ano 53 e não mais que 57
d.C. O tema principal que Paulo trata nesta carta é o da justifi cação através da fé
e pela liberdade dada por Cristo. Esta carta se tornou uma forma de circular pela
região da Galácia e demonstra o caráter forte e apaixonado de Paulo, além de
suas intensas convicções teológicas.
Paulo passou pela Galácia por ocasião da sua segunda viagem missionária
(At 16,6). E aí fundou comunidades que voltaria a visitá-las na sua terceira viagem
missionária (At 18,23). Éfeso representou uma espécie de posto missionário, a
partir do qual Paulo mantinha contato com as comunidades. Foi aí que chegaram
para ele notícias da Galácia.
Os povos da Galácia viviam sob condições rurais, mais do que em realidades
urbanas. A região era muito distante e totalmente esquecida pelas autoridades
romanas. Por conta da sua origem estrangeira, tinham direitos limitados, por
exemplo, não podiam adquirir propriedade. Por conta disso, viviam como
peregrinos e viajantes. Nesse sentido, Paulo fala a essa comunidade sobre a
liberdade em Cristo. Escravidão e liberdade percorrem todo o texto.
Carta aos EFésios, Filipenses,
Colossenses e FilÊmon
Existe certa relação entre essas cartas. É provável que tenham sido escritas
na prisão. Não se sabe ao certo de qual prisão Paulo se refere, uma vez que
esteve preso em Éfeso, Cesareia, Filipos e Roma.
O interessante é que entre essas quatro cartas existem muitas similaridades,
principalmente em relação à doutrina. Contudo, Efésios e Colossenses
apresentam um conteúdo mais aproximado, parece que a primeira retoma e
amplia a segunda.
Do ponto de vista doutrinário e teológico, Efésios apresenta maior relevância
porque reapresenta para a nova geração de cristãos toda a mensagem de
Paulo. Possivelmente foi escrita em torno do ano 90 d.C., por isso é considerada
deuteropaulina, ou seja, pós-paulina. O autor teria sido um seguidor de Paulo,
muito ligado a seu mestre e que morava no vale do rio Lico, região de Éfeso.
A carta apresenta uma forma de ver o projeto do reino de Deus para toda a
humanidade por meio de Jesus Cristo.
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ELEMENTOS E FUNDAMENTOS BÍBLICOS
Filipenses tem como conteúdo principal a palavra “Evangelho” e toda
trabalhada na arte da alegria e do afeto, por esse motivo se distingue de todas as
outras cartas. Trata-se da igreja primogênita de Paulo na Europa. Também como
a igreja que começou com um pequeno grupo de mulheres à beira de um rio.
Paulo aceitou se hospedar na casa de uma mulher, Lídia, e aceitou contribuições
da comunidade para as suas despesas.
Colossenses é uma comunidade onde existem muitos pagãos convertidos
ao cristianismo, e por conta disso, muitas difi culdades em acreditar em Jesus
Cristo como o fi lho de Deus, por isso Paulo insiste que Jesus Cristo é o senhor do
universo e a cabeça da Igreja.
Filêmon, no fundo se trata muito mais de um bilhete do que propriamente
uma carta, pois é a mais curta de todas. É um bilhete escrito de próprio punho
para recomendar um escravo fugitivo. O bilhete é extremamente afetuoso, mas
persuasivo, junta vários argumentos para que consiga convencer o destinatário,
aos poucos, sem dar ordem autoritária.
Carta aos Tessalonicenses
Tessalonicenses é uma carta que possui um caráter bem sentimental para o
cristianismo, pois é o primeiro texto escrito do Segundo Testamento. Essa carta foi
escrita antes dos Evangelhos, por volta do ano 51 ou 52 d.C. e abre a coleção de
textos aceitos como a Bíblia cristã.
É uma carta que possui muita originalidade, bem como as preocupações
pastorais de Paulo. O texto é bastante revolucionário e inovador, pois anunciava
que Jesus, morto na cruz, era o Cristo ressuscitado e portador de salvação. Para
uma população que vivia na periferia, até acostumada ao sofrimento provocado
pela escravidão, era muito difícil compreender a proposta de Paulo, que enaltecia
o trabalho braçal. Contudo, essa proposta era extremamente provocadora,
porque colocava em risco o sistema escravocrata. Por conta disso, Paulo e seus
seguidores foram perseguidos pelos governantes. Como consequência disso, a
comunidade esperava ansiosamente pela vinda de Jesus ressuscitado, que os
livraria de todo o sofrimento que há tempo padeciam.
A pregação cristã oferecia elementos que correspondiam a todos esses
anseios, como a possibilidade de reunir-se como assembleia de irmãos com o
intuito de reivindicar direitos e aprofundar a fé.
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Capítulo 4 SEGUNDO TESTAMENTO
Carta a Timóteo
A carta de Timóteo deve ter sido escrita na Macedônia por volta dos anos 64
ou 65 d.C. Busca prevenir a liderança da comunidade de Éfeso contra os falsos
doutores (1Tm 1,3-20; 4,1-11; 6,3-10). O ambiente cosmopolita possibilitava a
inserção de novas ideias e concepções religiosas.
A carta de Timóteo e também a de Tito são consideradas cartas pastorais,
isso porque são de cunho orientativo para pastores e/ou líderes de comunidades.
Contudo é bom sabermos que todas as cartas paulinas possuem caráter pastoral,
porque orientam e motivam o desenvolvimento das comunidades cristãs.
No entanto, Timóteo se diferencia de todas as outras porque possui uma
linguagem mais formal, apresenta um plano menos organizado e mais livre, possui
muitas repetições e apresenta uma visão teológica bem diferente das outras.
Nesta visão a comunidade possui uma organização interna mais delimitada e é
mais importante do que a missão, as lideranças devem possuir dons especiais, a
fé é vista como a sã doutrina, a piedade é expressão da fé e as falsas doutrinas
devem ser combatidas.

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