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CONTROLADORIA Conteúdo: Vaniza Pereira Pablo Rojas Coordenador P436c Pereira, Vaniza. Controladoria [recurso eletrônico] / Vaniza Pereira; coordenação: Pablo Rojas. – Porto Alegre : SAGAH, 2016. Editado como livro impresso em 2016. ISBN 978-85-69726-21-0 1. Contabilidade. 2. Controladoria. I. Título. CDU 657 Catalogação na publicação: Poliana Sanchez de Araujo – CRB 10/2094 © SAGAH EDUCAÇÃO S.A., 2016 Colaboraram nesta edição: Coordenador técnico: Pablo Rojas Capa e projeto gráfico: Equipe SAGAH Imagem da capa: Shutterstock Editoração: Renata Goulart Reservados todos os direitos de publicação à SAGAH EDUCAÇÃO S.A., uma empresa do GRUPO A EDUCAÇÃO S.A Av. Jerônimo de Ornelas, 670 - Santana 90040-340 - Porto Alegre, RS Fone: (51) 3027-7000 Fax: (51) 3027-7070 É proibida a duplicação deste volume, no todo ou em parte, sob quaisquer formas ou por quaisquer meios (eletrônicos, mecânicos, gravação, fotocópia, distribuição na Web e outros), sem permissão expressa da empresa. 136 INTRODUÇÃO Esta unidade apresenta os conceitos de projeção financeira e de orçamentos, ou seja, a estipulação de valores que serão consumidos e daqueles que ingressarão na empresa em determinado período de tempo. Uma demonstração financeira não é feita somente de números, o que comprova, mais uma vez, o papel da controladoria: interpretar diversos tipos de informação de mercado, do setor e da própria empresa, como, por exemplo, a experiência dos empregados para a otimização do processo orçamentário. OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM Ao final desta aula unidade, você deverá ser capaz de: • Elaborar a projeção financeira e o orçamento; • Identificar os tipos de orçamento que compõem as demonstrações financeiras – DRE; • Analisar as demonstrações financeiras comparando com o orçamento. CONTROLADORIA E PROCESSO ORÇAMENTÁRIO Para compreender a Analise de Demonstrações Financeiras utilizamos o orçamento, a ferramenta utilizada dentro do processo de gestão da controladoria. Primeiro momento Em um primeiro momento, esse mecanismo de apoio ao gerenciamento empresarial pode ser utilizado como direcionador de atividades. Afinal, por meio de seu uso, as tarefas são guiadas e efetivamente realizadas. Segundo momento Em seguida, o orçamento apresenta-se como importante figura na questão do controle, ao confrontar o realizado com o orçado. 137 Mas qual é o papel da controladoria dentro do processo orçamentário? Vamos conhecer suas principais atribuições: • Coordenar, de forma ativa, o processo de elaboração do orçamento; • Coordenar as premissas e diretrizes orçamentárias combinadas com os planos estratégico, tático e operacional; • Assessorar outras unidades da empresa na organização e apresentação de seus respectivos orçamentos; • Consolidar os orçamentos de todas as áreas da empresa em um só orçamento, utilizado para a organização dos aspectos operacionais, econômicos, financeiros e patrimoniais da corporação, a fim de otimizar esse processo; • Avaliar todos os orçamentos elaborados para verificar se estão obedecendo ao que foi estabelecido nos planos traçados pela companhia. O orçamento busca relacionar, de forma lógica, tudo o que foi determinado pelos gestores estratégicos com o que foi apresentado pelos gestores operacionais, ou seja, o que foi visualizado e o que pode efetivamente ser colocado em prática. Isso acontece mediante o estabelecimento de números que, posteriormente, são utilizados para o sistema de controle da organização. Disso resulta o aspecto de controle presente no orçamento. ETAPAS DO PROCESSO Projeção financeira Primeiramente, o orçamento é caracterizado como operacional. Nessa etapa de projeção financeira, são representados os planos que viabilizam condições para estruturar atividades da organização. Em seguida, essa ferramenta é utilizada para fins financeiros. Essa etapa é caracterizada pela transformação de todas as atividades em uma linguagem financeira. Inicialmente deve ocorrer a elaboração da projeção financeira, que responde a algumas necessidades de anos seguintes, como, por exemplo: • À demanda de caixa – o que representa todas as obrigações de pagamento da empresa; 138 • Ao cumprimento de obrigações financeiras para determinado período de tempo – o que envolve, novamente, os deveres financeiros da organização; • Aos lucros para o próximo ano – o que define quanto a empresa pode reinvestir ou, ainda, quanto pode ser retirado pelos sócios. O início do levantamento de uma projeção financeira deve ser feito de forma clara e objetiva, levando em conta: • Os dados referentes a clientes, à concorrência e a recursos organizacionais; • As informações relativas ao ambiente empresarial; • A receita e os custos nela envolvidos; • O fluxo de caixa – que demonstra todos os valores que entram e saem da empresa –, cujos dados importantes são: • As informações básicas sobre o negócio; • A apuração das entradas recebidas; • Os valores que podem não ser recebidos, tais como a provisão para créditos de liquidação duvidosa; • Os gastos normais da empresa; • Uma provisão para despesas e gastos imprevistos. • O pagamento de pró-labore; • A retirada de lucros dos sócios. Por fim, o fluxo de caixa e os planos de expansão e investimento da empresa devem ser revisados periodicamente. NOTA 139 DEMONSTRAÇÃO DO RESULTADO DO EXERCÍCIO (DRE) Após a elaboração de todos os orçamentos, existe a possibilidade de realizar a projeção dos demonstrativos contábeis. Todas as receitas e despesas são utilizadas nessa projeção dos resultados alcançados por meio de planejamento. A projeção da Demonstração do Resultado do Exercício (DRE) deve ser elaborada com base em orçamentos auxiliares, entre eles: • O orçamento de vendas; • O orçamento de fabricação; • O orçamento de despesas departamentais. BALANÇO PATRIMONIAL A projeção do balanço patrimonial, por sua vez, deve ser apresentada a partir da comparação com os exercícios encerrados no ano anterior e com o que foi orçado. Frente à análise desse quadro e do que estudamos até então, o que é possível concluir em relação à utilização do orçamento? Diante do exposto a respeito do assunto, podemos afirmar que todo o processo orçamentário auxilia: • O planejamento, a comunicação e a coordenação dentro da companhia; • A correta alocação dos recursos organizacionais; • O gerenciamento financeiro e operacional da empresa; • A evolução e o controle de desempenho, que serve de base para incentivos financeiros e para a remuneração variável; • A avaliação de resultado por área de responsabilidade, o que representa o papel de controle por meio do sistema contábil. Dentro do objetivo operacional do orçamento, devem estar: • A taxa interna de retorno; • A participação da organização no mercado; • O controle do ambiente em que a empresa está inserida; • A maximização do lucro. 140 ORÇAMENTO - Orçamento de vendas; - Orçamento de fabricação; - Orçamento de matéria-prima; - Orçamento de mão de obra direta; - Orçamento de custos indiretos defabricação; - Orçamento de despesas departamentais. Primeiro Plano Orçamento Operacional - Orçamento de capital; - Orçamento de caixa; - Orçamento de matéria-prima; - Demonstração do Resultado do Exercício (DRE); - Balanço patrimonial Segundo Plano Orçamento Financeiro Figura 20 – Orçamento de primeiro plano - Fonte: Autor Encerra aqui o trecho do livro disponibilizado para esta Unidade de Aprendizagem. Na Biblioteca Virtual da Instituição, você encontra a obra na íntegra. CONTROLADORIA Vaniza Pereira 144 INTRODUÇÃO É importante que o controller crie um modelo próprio de acordo com as atividades da empresa. Para isso deve conhecer toda a estrutura empresarial, missão, planejamento etc. Ter uma visão sistêmica ajuda a criar ferramentas e indicadores de controle com credibilidade, já que devem ser baseadas na realidade da empresa. Uma informação erradapode levar a decisões erradas gerando transtornos como retrabalho, custos e a perda da credibilidade como controller. OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM Ao final desta aula unidade, você deverá ser capaz de: • Criar um modelo de controladoria e suas aplicabilidades de acordo com as atividades da empresa. PRÉ-IMPLANTAÇÃO DA CONTROLADORIA Nakagawa (1993) afirma que, antes do processo de implementação da controladoria propriamente dito, precisamos observar alguns aspectos. De imediato, é necessário que seja feita uma reunião preliminar para a sensibilização do modelo de controladoria. Nessa reunião, devem ser expostas as seguintes questões: 1. O que mudará na empresa assim que esse modelo for aplicado em seu ambiente? 2. O que a organização vai ganhar, deixar de ganhar ou, até mesmo, perder com a adoção desse modelo? 3. Qual é a metodologia e quais são os recursos necessários para a implantação da controladoria? Essas são as perguntas básicas que se constituem como alvo de reflexão para conscientizar, em um primeiro momento, a alta administração do processo que, posteriormente, envolverá todas as áreas da empresa. 145 Não existe um modelo de controladoria determinado, mas padrões que se adaptam à realidade de cada empresa. Nesse caso, é necessário conhecer a empresa desde sua estrutura operacional – para que possamos compreender como ela opera – até seus aspectos gerenciais – que fornecerão valiosas informações para a controladoria. NOTA NOTA Diagnóstico sobre a situação da empresa Depois do momento de conscientização apresentado anteriormente e diante da confirmação do desejo de implantar a controladoria no ambiente empresarial, devemos agendar uma visita de diagnóstico às instalações da empresa. O objetivo é fazer o levantamento de suas características principais, enfatizando aquelas que dizem respeito aos seguintes tópicos: • Estrutura organizacional – área de vendas, produção, estoque, finanças etc. • Processos operacionais; • Eventos, transações econômicas relevantes e sistemas administrativos que as suportam; • Sistema de informações e comunicação; • Sistemas e métodos de apuração de custos para a avaliação de estoques, controle e decisões; • Relatórios e práticas gerenciais. 146 PLANO DE IMPLEMENTAÇÃO DA CONTROLADORIA Após o levantamento físico da empresa, o próximo passo é analisar a situação do ambiente empresarial, examinando, de forma cuidadosa, os dados e as informações obtidas. Os resultados dessa análise são apresentados à alta administração da empresa para que identifique as necessidades de implantação da controladoria. Nakagawa (1993) define, de maneira genérica, esse plano de implementação, composto pelas seguintes etapas: 1. Ações imediatas: Esta etapa deve ser contemplada à introdução de aperfeiçoamento, a médio e curto prazos, nos sistemas da empresa, o que inclui palestras, seminários e treinamento dos gestores de áreas específicas. O objetivo é prepará-los para a migração da empresa em direção a sistemas, métodos e procedimentos do novo modelo que será utilizado. 2. Ações a médio e longo prazos: Esta etapa contempla mudanças relativas a crenças, a valores, a atitudes e a comportamentos que viabilizarão a implementação de um novo modelo conceitual de controladoria. A CONSTRUÇÃO DE MODELOS FACILITA A TOMADA DE DECISÃO Os modelos de decisão podem – e DEVEM – atender tais necessidades sobre todos os eventos econômicos para qualquer nível hierárquico dentro das empresas. A teoria da decisão visa estabelecer um modelo lógico, sistêmico e científico de apoio ao processo decisório, o que, para Antunes e Santos (2004, p. 289), influencia o administrador na escolha do curso da ação. As decisões podem ser tomadas em ambientes de: 147 Certezas Quando o tomador da decisão tem a convicção dos efeitos das alternativas possíveis de escolha. Incertezas Quando falta ao decisor conhecimento exato dos efeitos das alternativas da decisão, momento em que se configura o fenômeno das possibilidades, dos impactos incertos, o mundo em que desfrutamos da sensibilidade do apoio dos instrumentos teóricos aplicados à decisão. SISTEMA DE INFORMAÇÃO DA CONTROLADORIA Os modelos de controladoria elaborados de forma estruturada e lógica permite que com seus “outputs”, resultados, norteiem a organização o cumprimento de seus objetivos. Podemos citar a classificação dos sistemas; • Sistemas de informação de apoio a gestão • Sistemas de informação de apoio às operações Apoio a Gestão Sistemas ligados a vida econômica e financeira da empresa e a necessidade de monitoramento e avaliação e desempenho dos Gestores internos. • Sistema de Custos • Sistema de orçamento • Planejamento de Caixa • Sistema de Informação Contábil • Sistema Planejamento de Resultados 148 Apoio às operações Sistemas cuja necessidade é o planejamento e controle das áreas da empresa conjugados ao sistema físico operacional. • Sistema de estoques • Banco de dados da produção • Processo de produção • Planejamento e Controle da produção • Sistema de Compras • Planejamento de vendas • Sistema de Controle Patrimonial • Sistema de Recursos Humanos • Carteira de pedidos 149 REFERÊNCIAS NAKAGAWA, M. Introdução à controladoria. São Paulo: Atlas, 1993. OLIVEIRA, L. M. de; PEREZ JÚNIOR, J. H. de; SILVA, C. A. dos S. Controladoria estratégica – textos e casos práticos com solução. 8. ed. São Paulo: Atlas, 2011. FIGUEIREDO, S.; CAGGIANNO, P. Controladoria – teoria e prática. 2. ed. São Paulo: Atlas, 1997. MOSIMANN, C. P.; FISCH, S. Controladoria. São Paulo: Atlas, 2002. LAUDON, K. C.; LAUDON, J. P. Sistemas de informações gerenciais. Tradução de Thelma Guimarães. Revisão técnica de Belmiro N. João. 7. ed. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2007. Análise para administração financeira Análise para administração financeira A nálise para adm inistração financeira A nálise para adm inistração financeira Robert C. Higgins Robert C. Higgins 10ª edição 10ª edição 10ª edição 10ª ed. H iggins H iggins Interessados em ter acesso a planilhas de análise de demonstração financeira e outros materiais exclusivos (em inglês) podem fazer seu cadastro no site www.grupoa.com.br, buscar este livro e clicar no link Conteúdo Online. Professores podem ter acesso a banco de testes, respostas dos exercícios e outros materiais (em inglês) depois de fazer o cadastro no site www.grupoa.com.br, buscar este livro e clicar no link Material para o Professor. Se você é um executivo não financeiro ou um estudante de MBA interessado em práticas de gestão na área de finanças, chegou ao livro certo. Aqui estão as técnicas padrão e os mais recentes avanços da área, apresentados de forma prática e intuitiva. Esta edição trata de aspectos relevantes da recente crise financeira, especialmente dos possíveis papéis desempenhados pela hipótese do mercado eficiente, pela contabilidade do valor justo e pelas agências de classificação de risco na precipitação da crise. Traz ainda ampla cobertura da análise de opções reais, incluindo árvores de decisão, e atualização das evidências empíricas de reestruturação corporativa e criação de valor para os acionistas. Conheça também: AIUBE, F.A.L. Modelos Quantitativos em Finanças: com enfoque em commodities BERK & DEMARZO Finanças Empresariais Finanças Empresariais: Essencial BERK, DEMARZO & HARFORD Fundamentos de Finanças Empresariais BLOCHER, CHEN, COKINS & LIN Gestão Estratégica de Custos, 3.ed. BODIE, KANE & MARCUS Fundamentos de Investimentos, 6.ed. (e-book) Investimentos, 8.ed. BREALEY, MYERS & ALLEN Princípios de Finanças Corporativas, 10.ed. BRUNER, R.F. Estudos de Casos em Finanças: gestão para criação de valor corporativo, 5.ed. CATTY, J. P. IFRS: Guia de Aplicação do Valor Justo DAMODARAN, A. Finanças Corporativas: Teoria e Prática, 2.ed. Gestão Estratégica do Risco EITEMAN, STONEHILL & MOFFETT Administração Financeira Internacional,12.ed. MACKENZIE & COLS. IFRS 2012: Interpretação e Aplicação ROGERS, S. Finanças e Estratégias de Negócios para Empreendedores, 2.ed. ROSS, WESTERFIELD, JORDAN & LAMB Fundamentos de Administração Financeira, 9.ed STEWART III, G.B. Em Busca do Valor: o Guia de EVA para Estrategistas TITMAN & MARTIN Avaliação de Projetos e Investimentos – Valuation ÁREA DO PROFESSOR CONTEÚDO ONLINE ADMINISTRAÇÃO www.grupoa.com.br A Bookman Editora é parte do Grupo A, uma empresa que engloba diversos selos editoriais e várias plataformas de distribuição de conteúdo técnico, científico e profissional, disponibilizando-o como, onde e quando você precisar. O Grupo A publica com exclusividade obras com o selo McGraw-Hill Education em língua portuguesa. www.grupoa.com.br 0800 703 3444 00048 Analise da Adm Financeira.indd 1 27/11/13 15:18 Catalogação na publicação: Ana Paula M. Magnus – CRB10/2052 H636a Higgins, Robert C. Análise para administração fi nanceira [recurso eletrônico] / Robert C. Higgins ; [tradução: Equipe Bookman]. – 10. ed. – Dados eletrônicos. – Porto Alegre : AMGH, 2014. Tradução da 8ª edição por Alan Vidigal Hastings e revisão técnica por Roberto Zentgraf. Editado também como livro impresso em 2014. ISBN 978-85-8055-320-8 1. Administração fi nanceira. 1. Título. CDU 005.915 Higgins_Iniciais_10ed_eletronica.indd iiHiggins_Iniciais_10ed_eletronica.indd ii 08/01/14 14:4508/01/14 14:45 Capítulo 2 • Avaliação do Desempenho Financeiro 53 O ROE É UMA MEDIDA FINANCEIRA CONFIÁVEL? Até aqui admitimos que a administração visa a aumentar o ROE da empresa e es- tudamos três importantes alavancas do desempenho por meio das quais isso pode ser feito: a margem de lucro, o giro do ativo e a alavancagem financeira. Concluí- mos que, quer a empresa seja a IBM ou a farmácia da esquina, um gerenciamento cuidadoso dessas alavancas pode ter efeito positivo sobre o ROE. Vimos também que determinar e manter valores apropriados para as alavancas de controle é uma tarefa administrativa desafiadora, que exige compreensão do negócio da empresa, da ma- neira como a empresa compete e das interdependências entre as alavancas de con- trole. Agora chegou a hora de perguntar até que ponto o ROE é confiável como medida de desempenho financeiro. Se a empresa A tem um ROE mais elevado que o da empresa B, ela será necessariamente uma empresa melhor? Se o ROE da em- presa C aumentar, será isso uma prova inequívoca de melhor desempenho? Enquanto medida de desempenho financeiro, o ROE tem três deficiências críticas às quais me refiro como o problema do timing, o problema do risco e o problema do valor. Colocados na perspectiva correta, esses problemas significam que o ROE raramente é uma medida de desempenho livre de ambiguidade. Não deixa de ser um indicador útil e importante, mas deve ser interpretado à luz de suas limitações, e ninguém deve admitir automaticamente que um ROE elevado seja sempre melhor do que outro mais baixo. O problema do timing Dizer que os administradores bem-sucedidos devem ter uma perspectiva a lon- go prazo sobre o futuro chega a ser um chavão. Mas o ROE tem características exatamente opostas: é retrospectivo e concentrado em um único ano. Assim, não Higgins_livro.indb 53 Higgins_livro.indb 53 26/11/13 10:4026/11/13 10:40 54 Parte I • Avaliação da Saúde Financeira da Empresa é de surpreender que ele, às vezes, seja uma medida distorcida do desempenho. Quando, por exemplo, uma empresa incorre em elevados custos iniciais para in- troduzir um novo produto, o ROE cairá em um primeiro momento. Mas, em vez de indicar um desempenho financeiro em deterioração, essa queda apenas reflete a natureza míope e limitada de uma medida de um exercício apenas. Como o ROE inclui, necessariamente, os lucros de um só ano, deixa de captar o pleno impacto de decisões que afetam múltiplos períodos. O problema do risco As decisões empresariais normalmente envolvem o dilema clássico de “comer bem ou dormir bem”. Se você quiser comer bem, é melhor estar preparado para assumir riscos em busca de melhores retornos. Se quiser dormir bem, provavel- mente precisará abrir mão de retornos elevados em nome da segurança. Você raramente conseguirá obter retornos elevados e segurança (e, quando conseguir, avise-me, por favor). O problema do ROE é que ele nada diz sobre os riscos que uma empresa assumiu para gerá-lo. Eis um exemplo simples: a Assuma o Risco S.A. obtém um ROA de 6% com a exploração de petróleo no Sudão, que combina com um índice ativo/patrimônio líquido de 5,0 para produzir um ROE de 30% (6% 3 5,0). Enquanto isso, a Devagar e Sempre Ltda. tem um ROA de 10% vindo de seu investimento em títulos do governo, que ela financia com partes iguais de capital próprio e dívida, resultando em um ROE de 20% (10% 3 2,0). Qual das empre- sas tem o melhor desempenho? Para mim, é a Devagar e Sempre. O ROE da As- suma o Risco é elevado, mas seu alto risco de negócio e sua extrema alavancagem financeira fazem dela um empreendimento com elevado grau de incerteza. Eu preferiria o ROE mais modesto – porém eminentemente seguro – da Devagar e Sempre.4 Os analistas de títulos chegariam à mesma conclusão, afirmando que o ROE da Assuma o Risco pode ser mais alto, mas que o valor é de muito menor qualidade do que o da Devagar e Sempre, querendo dizer que o seu risco é mais elevado. Em suma, como o ROE só trata do retorno, desconsiderando o risco, ele pode ser uma medida muito imprecisa do desempenho financeiro. Retorno sobre o capital investido Para contornar os efeitos da distorção que a alavancagem exerce sobre o ROE e o ROA, recomendo calcular o retorno sobre o capital investido (return on invested capital – ROIC), também conhecido como retorno sobre o ativo líquido (return on net assets – RONA): 4 Ainda que eu preferisse comer bem a dormir bem, optaria pela Devagar e Sempre e financiaria minha compra com uma parte de empréstimo pessoal para alavancar o rendimento de meu inves- timento. Ver o apêndice do Capítulo 6 para outras informações sobre a substituição de empréstimo corporativo por empréstimo pessoal. Higgins_livro.indb 54 Higgins_livro.indb 54 26/11/13 10:4026/11/13 10:40 Capítulo 2 • Avaliação do Desempenho Financeiro 55 ROIC EBIT (1 2 Alíquota do imposto) Dívida onerosa 1 Patrimônio líquido O ROIC da Sensient em 2010 foi de $173,2 (1 2 $47,1/$154,3) $25,5 1 $324,4 1 $983,8 9% O numerador desse índice é o lucro após impostos que a empresa apresentaria se fosse inteiramente financiada com dinheiro dos acionistas, e o denominador é a soma de todas as fontes de caixa sobre as quais a empresa precisa obter retorno. Assim, embora as contas a pagar sejam uma fonte de caixa para a empresa, elas são excluídas porque não trazem custo explícito. Essencialmente, o ROIC é a taxa de retorno obtida sobre o total de capital investido na empresa, independente- mente de ser ele dívida ou patrimônio líquido. Para entender as virtudes do ROIC, vamos considerar um exemplo. As em- presas A e B são idênticas sob todos os aspectos, a não ser pelo fato de que a A é altamente alavancada e a B é totalmente financiada pelos acionistas. Como as duas empresas são idênticas, salvo por suas estruturas de capital, gostaríamos de ter uma medida de retorno que refletisse essa similaridade fundamental. A tabela a seguir mostra que o ROA e o ROE não suprem essa necessidade. Como reflexo do uso intensivo que a empresa faz de alavancagem financeira, o ROE de A é de 18%, enquanto a posição de alavancagem zero de B gera um ROE menor, mas de melhor qualidade, de 7,2%. O ROA tem viés no sentido oposto, punindo a empresa A por seu uso de dívida e deixando B incólume. Só o ROIC é independente dos diferentes esquemas de financiamento das empre- sas, mostrando um rendimento de 7,2% para as duas. O ROIC reflete, assim, o potencial de lucratividade fundamental da empresa antes que ele seja distorci- do por diferenças entre estratégias definanciamento. Empresa A B Dívida a juros de 10% $ 900 $ 0 Patrimônio líquido 100 1.000 Ativo total $1.000 $1.000 EBIT $ 120 $ 120 – Despesas financeiras 90 0 Lucro antes de impostos 30 120 – IR 40% 12 48 Lucro após impostos $ 18 $ 72 ROE 18,0% 7,2% ROA 1,8% 7,2% ROIC 7,2% 7,2% Higgins_livro.indb 55 Higgins_livro.indb 55 26/11/13 10:4026/11/13 10:40 56 Parte I • Avaliação da Saúde Financeira da Empresa O problema do valor O ROE mede o retorno sobre o investimento dos acionistas. Mas o valor usado para o investimento é o valor contábil do patrimônio líquido, não o seu valor de mercado. Essa distinção é importante. O ROE da Sensient em 2010 foi de 10,9% e, de fato, esse é o rendimento que você obteria se pudesse comprar o patrimônio líquido da empresa pelo seu valor contábil de $983,8 milhões. Mas isso seria impossível porque, como vimos no capítulo anterior, o valor de mercado do patrimônio da empresa era de $1.821,8 milhões. A esse preço, seu retorno anual teria sido de apenas 5,9%, em vez de 10,9% ($107,2/$1.821,8 5 5,9%). O valor de mercado do patrimônio é mais significativo para os acio- nistas porque mede o valor corrente e realizável das ações, enquanto o valor contábil é meramente histórico. Assim, mesmo que o ROE meça o desempe- nho financeiro da administração, isso pode não significar um alto retorno sobre o investimento dos acionistas. Desta maneira, não basta para os investidores encontrar empresas capazes de gerar ROE elevados; elas precisam ser desco- nhecidas de outros porque, tão logo se tornem conhecidas, a possibilidade de rendimento elevado para os investidores se dissipará devido aos preços mais altos das ações. Taxa de retorno sobre o valor de mercado do patrimônio líquido (earnings yield) e o Índice P/L Pode parecer que, para contornar o problema do valor, basta substituir no ROE o valor contábil do patrimônio líquido por seu valor de mercado. Mas o índice de retorno resultante tem seus próprios problemas. No caso da Sensient, Earnings yield Lucro líquido Valor de mercado do patrimônio líquido Lucro por ação Preço por ação $2,16 $36,73 5,9% Será o earnings yield uma medida útil de desempenho financeiro? Não! O pro- blema é que o preço das ações de uma empresa é muito sensível às expectativas dos investidores quanto ao futuro. Uma ação confere a seu proprietário direito a uma parcela tanto dos lucros futuros quanto dos atuais. Naturalmente, quanto mais elevadas as expectativas de um investidor a respeito dos lucros futuros, mais ele estará disposto a pagar pela ação. Isso significa que um futuro brilhante, um preço elevado por ação e um baixo earnings yield andam de mãos dadas. Fica claro que um earnings yield elevado não é um indicador de desempenho superior – na verdade, está mais próximo do contrário. Em outras palavras, esse índice tem um grave problema de timing que o invalida como medida de desempenho. Virando o earnings yield de ponta-cabeça, temos o índice preço/lucro, ou ín- dice P/L. O índice P/L da Sensient em 2010 foi Preço por ação Lucro por ação $36,73 $2,16 17,0 vezes Higgins_livro.indb 56 Higgins_livro.indb 56 26/11/13 10:4026/11/13 10:40 Capítulo 2 • Avaliação do Desempenho Financeiro 57 O índice P/L pouco acrescenta à nossa discussão sobre medidas de desempenho, mas sua popularidade entre os investidores merece comentários. O índice P/L é o preço de um dólar de lucro presente, e é um meio de padronizar os preços das ações com relação a diferentes níveis de lucros entre as empresas. No fecha- mento de 2010, os investidores estavam pagando $17,0 por dólar de lucro da Sensient. O índice P/L de uma empresa depende, principalmente, de duas coi- sas: suas perspectivas de lucros futuros e o risco associado a esses lucros. O preço da ação – e, portanto, o índice P/L – aumenta com melhores perspectivas de lucros e diminui com o aumento do risco. Às vezes surge um padrão confuso, quando os lucros de uma empresa são baixos, mas os investidores acreditam que a situação seja temporária. Então, o preço se mantém elevado frente a lucros deprimidos, e o índice P/L aumenta. Em geral, o índice P/L diz pouco a respeito do desempenho financeiro atual, mas indica aquilo em que os investidores acre- ditam ser o futuro da empresa. ROE ou preço de mercado? Há anos os acadêmicos e profissionais divergem sobre qual seria a medida mais apropriada do desempenho financeiro. Os acadêmicos criticam o ROE pelas ra- zões que acabamos de discutir e argumentam que a medida correta do desempe- nho financeiro é o preço da ação da empresa. Além disso, afirmam que a meta da administração deve ser maximizar o preço da ação. Seu raciocínio é persuasivo: o preço da ação representa o valor do investimento dos proprietários da empresa e, se os administradores quiserem defender os interesses dos proprietários, de- verão tomar medidas que aumentem o valor para eles. Com efeito, o conceito de “criação de valor” tornou-se um tema central dos estudos de muitos acadêmicos e consultores. Os profissionais reconhecem que o raciocínio faz sentido, mas questio- nam sua aplicabilidade. Um problema é a dificuldade de especificar com pre- cisão como as decisões operacionais afetam o preço das ações. Se não souber- mos ao certo que impacto terá, por exemplo, uma alteração da estratégia de negócios de uma divisão sobre o preço da ação da empresa, a meta de eleva- ção de preço não poderá guiar a tomada de decisões. Um segundo problema é que os administradores costumam saber mais sobre suas empresas do que os investidores externos, ou pelo menos pensam que sabem. Por que, então, eles devem levar em consideração as avaliações de investidores menos infor- mados ao tomar decisões de negócios? Um terceiro problema que surge do preço da ação como medida de desempenho é que ele depende de um amplo conjunto de fatores que estão além do controle da empresa. Nunca se pode saber ao certo se um aumento do preço da ação reflete um melhor desempe- nho da empresa ou um melhor ambiente econômico externo. Por todos esses motivos, muitos profissionais ainda duvidam dos indicadores de desempenho baseados no mercado de capitais, ao mesmo tempo que os acadêmicos e con- sultores prosseguem em seus esforços para traduzir a criação de valor em um objetivo financeiro prático. Um esforço recente e promissor nesse sentido é Higgins_livro.indb 57 Higgins_livro.indb 57 26/11/13 10:4026/11/13 10:40 58 Parte I • Avaliação da Saúde Financeira da Empresa o valor econômico agregado (economic value added – EVA), popularizado pela empresa de consultoria Stern Stewart Management Services. Trataremos do EVA com mais detalhes no Capítulo 8. O ROE pode substituir o preço da ação? As Figuras 2.1 e 2.2 sugerem que o abismo entre acadêmicos e profissionais na busca da medida correta do desempenho financeiro pode ser menor do que se pensava. Os gráficos traçam o valor de mercado do patrimônio líquido dividido pelo seu valor con- tábil versus o ROE para dois grupos significativos de empresas. O valor do ROE utilizado é uma média ponderada do ROE dos três últimos exercícios. A linha contínua em cada figura é uma regressão que indica a relação geral entre as duas variáveis. A relação positiva perceptível nos dois gráficos sugere que as empresas com ROE elevado ten- dem a ter preços de ação elevados com relação ao valor contábil e vice-versa. Assim, os esforços para aumentar o ROE parecem ser, de maneira geral, condizentes com os esforços para aumentar o preço por ação. A proximidade dos pontos que representam as empresas à linha de regressão também é interessante. Isso mostra a importância de fatores que não o ROE para de- terminar o índice valor de mercado/valor contábil de uma empresa. Como seria de se esperar, esses outros fatores desempenham uma função importante na determinação do valor de mercado das ações de uma empresa. Indiquei nos gráficos as posições de diversas empresas.Observe na Figura 2.1 que a Sensient Technologies está praticamente sobre a linha de regressão, indicando que, com base exclusivamente nos ROE históricos, o preço da ação da Sensient está subavaliado se comparado a outras empresas da indústria química e derivados. Duas outras empresas destacadas, com índice valor de mercado/valor contábil muito acima da linha de regressão, são a Green Mountain Coffee Roasters e a Balchem Corporation. A Green Mountain é uma pequena produtora de café com patente protegida de café gourmet. Os investidores estão animados com as perspectivas dessa área e, aparente- mente, pensam que podem enfrentar a Starbucks em igualdade de condições, embora os resultados não estejam muito claros. A Balchem está bem acima da linha de regres- são, porque cresce rapidamente. O lucro subiu 38% dois anos atrás, e mais 21% no ano passado. A Cal-Maine Foods, maior produtor de ovos dos Estados Unidos, parece ser o Rodney Dangerfield* do mercado de ações. Apesar de um ROE muito atraente, está bem abaixo da linha de regressão, possivelmente em função dos recentes casos de salmonela. Curiosamente, a empresa não fica na Califórnia ou no Maine, mas sim, em Jackson, Mississípi. Em suma, os gráficos oferecem provas tentadoras de que, apesar de seus defeitos, o ROE pode ser, pelo menos, uma aproximação rudimentar do preço da ação na mensu- ração do desempenho financeiro. *Comediante norte-americano que utilizava o bordão “Não consigo respeito”. Higgins_livro.indb 58 Higgins_livro.indb 58 26/11/13 10:4026/11/13 10:40 Capítulo 2 • Avaliação do Desempenho Financeiro 59 Ín di ce v al or d e m er ca do /v al or c on tá bi l do p at ri m ôn io lí iq ui do Média ponderada do patrimônio líquido (%) 0 6 7 5 3 4 2 1 0 5 10 15 20 25 Green Mtn Coffee Roasters 30 Balchem Corp New Market Corp Cal-Maine Foods Sensient Technologies Tate & Lyle Figura 2.1 Índice valor de mercado/valor contábil do patrimônio líquido versus ROE para 50 empre- sas da indústria química, de carnes e de alimentos embalados. A equação de regressão é VM/VC 5 1,1 1 10,5 ROE, onde VM/VC é o valor de mercado do patrimônio líquido com relação ao seu valor contábil em março de 2011, e ROE é a média ponderada sobre o patrimônio líquido em 2010 e nos dois exercícios anteriores. As empresas menores, com valor de mercado abaixo de $500 milhões, e outliers com valor negativo ou ROE negativo superior a 45%, foram eliminadas. R² ajustado 5 0,41. A estatística t para o coeficiente de inclinação é de 5,9. Ín di ce v al or d e m er ca do /v al or c on tá bi l do p at ri m ôn io lí iq ui do Média ponderada do patrimônio líquido (%) 0 12 10 6 8 4 2 0 5 10 15 20 25 Dell AT & T 30 35 4540 Weyerhauser Amazon Apple UPS Microsoft Figura 2.2 Índice valor de mercado/valor contábil do patrimônio líquido versus ROE para 80 gran- des empresas. As empresas fazem parte do índice Standard and Poor’s das 100 das maiores empresas norte-americanas. Fo- ram eliminadas aquelas com valores negativos e as outliers com ROE acima de 45%. A equação de regressão é VM/VC 5 0,78 1 12,8 ROE, onde VM/VC é o valor de mercado do patrimônio líquido com relação ao seu valor contábil em março de 2011 e ROE é uma média ponderada do retorno sobre o patrimônio líquido em 2010 e nos dois exercícios anteriores. R2 ajustado 5 0,45. A estatística t para o coeficiente de inclinação é de 8,2. Higgins_livro.indb 59 Higgins_livro.indb 59 26/11/13 10:4026/11/13 10:40 60 Parte I • Avaliação da Saúde Financeira da Empresa ANÁLISE DE ÍNDICES Em nossa discussão sobre as alavancas do desempenho financeiro, definimos uma série de índices financeiros. Devemos abordar agora o uso sistemático desses ín- dices para analisar o desempenho financeiro. A análise de índices é muito usada por administradores, credores, reguladores e investidores. Essencialmente, isso é um processo elementar que envolve um pouco mais do que a comparação de di- versos índices da empresa com um ou mais benchmarks de desempenho. Quando empregada com cautela e imaginação, essa técnica pode revelar muito a respeito de uma empresa. Mas há algumas coisas a respeito dos índices que devemos ter sempre em mente. Primeiro, um índice nada mais é que um número dividido por outro, de modo que não seria razoável esperar que o cálculo mecânico de uma razão – ou mesmo de diversas – resultasse automaticamente em insights im- portantes sobre algo tão complexo como as corporações modernas. O melhor é pensar nos índices como se fossem pistas em um romance policial. Um só índice (ou mesmo um conjunto deles) pode ser enganoso, mas, combinada com outros conhecimentos sobre a administração de uma empresa e sobre as condi- ções econômicas, a análise de índices pode ser reveladora. Também é preciso ter em mente que não há um único valor correto para os índices. Como no caso da história de Cachinhos dourados e os três ursos, a observa- ção de ser um índice elevado demais, baixo demais ou do porte exato depende da perspectiva do analista e da estratégia competitiva da empresa. O índice de liquidez corrente, definido anteriormente como a razão entre o ativo circulante e o passivo circulante, é um bom exemplo. Do ponto de vista de um credor a curto prazo, um índice de liquidez corrente elevado é um sinal positivo que sugere boa liquidez e alta probabilidade de recebimento da dívida. Mas o proprietário de uma empresa pode ver o mesmo índice como um sinal negativo, que sugere que os ativos da empresa estão sendo usados de maneira por demais conservadora. Além disso, do ponto de vista operacional, tal índice ser elevado pode ser sinal de uma administração conservadora ou o resultado natural de uma estratégia competitiva que enfatiza condições de pagamento liberais e estoques de porte considerável. Nesse caso, a pergunta a ser feita é não se o índice está elevado ou baixo demais, mas se a estratégia escolhida é ou não a melhor para a empresa. Uso eficaz dos índices Como interpretar os índices se não existem valores universalmente corretos para eles? Como decidir se uma empresa está saudável ou doente? Há três aborda- gens, cada uma envolvendo uma referência (benchmark) de desempenho diferen- te: comparar os índices com regras de bolso, compará-los com médias setoriais, ou procurar alterações dos índices ao longo do tempo. Comparar os índices de uma empresa com regras de bolso apresenta a virtude da simplicidade, mas tem pouco a seu favor além disso. Os valores apropriados para os índices de uma em- presa são excessivamente dependentes da perspectiva do analista e das circuns- tâncias de cada caso específico para que essas regras sejam de grande utilidade. A melhor coisa que se pode dizer a respeito disso é que, com o passar do tempo, as Higgins_livro.indb 60 Higgins_livro.indb 60 26/11/13 10:4026/11/13 10:40 Capítulo 2 • Avaliação do Desempenho Financeiro 61 empresas que se ajustam às regras de bolso aparentemente chegam bem menos à falência do que as demais. A comparação dos índices de uma empresa com os de seu setor fornece uma útil impressão de como a empresa se compara a suas concorrentes, desde que se tenha em mente que as diferenças originadas pelas características peculiares de cada empresa podem resultar em desvios perfeitamente justificados com rela- ção à norma setorial. Além disso, não há qualquer garantia de que o setor como um todo saiba o que está fazendo. Saber que uma estrada de ferro era parecida com suas concorrentes não representava um grande alívio durante a depressão da década de 1930, quando praticamente todas as empresas do setor enfrentavam dificuldades financeiras. A maneira mais útil de avaliar os índices envolve a análise de tendências: calcule os índices de uma empresa para diversos anos e observe como eles mu- dam com o passar do tempo. A análise de tendências evita a necessidade de comparação entre empresas e entre setores, permitindo que o analistaextraia conclusões mais firmes sobre a saúde financeira da empresa e sua variação ao longo do tempo. Além disso, as alavancas de desempenho sugerem uma abordagem lógica à análise de tendências: em vez de calcular índices aleatoriamente, esperando tro- peçar em algum que possa ser importante, aproveite a estrutura implícita nas ala- vancas. Como mostra a Figura 2.3, as alavancas de desempenho organizam os Retorno sobre o patrimônio líquido Período médio financeiro Dívida/ativo Índice de cobertura de juros Índice de cobertura de obrigações financeiras Índice de liquidez corrente Índice de liquidez seca Dias de venda em caixa Prazo médio de recebimento Giro do estoque Giro do ativo fixo Balanço (%) Margem bruta Alíquota de imposto Demonstração de resultados Margem de lucro Giro do ativo Alavancagem financeira Figura 2.3 As alavancas de desempenho sugerem um roteiro para a análise de índices. Higgins_livro.indb 61 Higgins_livro.indb 61 26/11/13 10:4026/11/13 10:40 62 Parte I • Avaliação da Saúde Financeira da Empresa índices em três níveis. No topo, o ROE trata do desempenho da empresa como um todo; no nível intermediário, as alavancas indicam como três importantes seg- mentos da empresa contribuíram para o ROE; e, embaixo, muitos dos demais índices aqui discutidos revelam como o gerenciamento de contas individuais da demonstração de resultados e do balanço contribuíram para as alavancagens obser- vadas. Para fazer uso dessa estrutura, comece pelo topo, observando a tendência no ROE ao longo do tempo. Então, concentre seu foco e pergunte-se que alterações das três alavancas são responsáveis pelo padrão observado no ROE. Finalmente, tire o microscópio da gaveta e estude contas específicas em busca de explicações para as alterações observadas nas alavancas. Para exemplificar, se o ROE afundou enquanto a margem de lucro e a alavancagem financeira se mantiveram constantes, examine o controle das contas específicas do ativo em busca dos responsáveis. Análise dos índices da Sensient Technologies Corporation 5 Para qualquer índice, se organizarmos os dados de todas as empresas do setor em ordem decres- cente, o valor que estiver no meio da série será a mediana, o que estiver a meio caminho entre o valor máximo e a mediana será o quartil superior, e o que estiver entre o valor mínimo e a mediana será o quartil inferior. Os dados foram extraídos de Industry Norms and Key Business Ratios: Library Edition, 2009-10, Dun & Bradstreet Credit Services, 2010. 6 Esses números são o retorno médio sobre o patrimônio líquido e o retorno sobre o capital inves- tido, em 2010, das 419 empresas não financeiras no Standard & Poor’s 500 Index, que indica as 500 maiores empresas dos Estados Unidos. Os percentuais médios comparáveis foram de 14,8 e 11,8%, respectivamente. Higgins_livro.indb 62 Higgins_livro.indb 62 26/11/13 10:4026/11/13 10:40 esaito Retângulo Encerra aqui o trecho do livro disponibilizado para esta Unidade de Aprendizagem. Na Biblioteca Virtual da Instituição, você encontra a obra na íntegra. CONTROLADORIA Conteúdo: Vaniza Pereira Pablo Rojas Coordenador VANIZA PEREIRA Pablo Rojas Coordenador 2016 CONTROLADORIA 152 INTRODUÇÃO Considerando os países que se destacam de forma positiva no cenário internacional, a controladoria tende a se tornar um banco de dados e de informações financeiras e não financeiras que serve de suporte para que os gestores possam sustentar suas decisões. As mudanças são necessárias para que a empresa possa acompanhar o mercado e suas tendências. OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM Ao final desta aula unidade, você deverá ser capaz de: • Entender a atualidade empresarial. • Entender o Sistema de valor e as mudanças no setor empresarial. • Entender sobre Eficiência na controladoria. ATUALIDADE EMPRESARIAL As empresas vivem, hoje, o imperativo do valor, segundo o qual todas as suas operações e todos os seus recursos devem estar voltados para produzir ou adicionar valor. Dessa forma, a busca pela solução dos problemas do dia a dia das empresas conduz os gestores a optarem pela alternativa mais adequada de gestão. Por isso, é relevante analisar a empresa sob o ponto de vista sistêmico, isto é, unir as partes que compõem a organização para formar um sistema, de modo que haja condições de encontrar soluções e opções para administrar o todo. 153 “Toda empresa tem uma missão em relação à sociedade, e a missão das empresas corresponde a seus objetivos permanentes, que consistem em otimizar a satisfação das necessidades humanas”. NOTA Em outras palavras, como a empresa é uma entidade que processa recursos e entrega produtos, bens ou serviços à sociedade, dentro de um enfoque sistêmico, ela deve ser vista como elemento de processamento. Por isso, as organizações têm de devolver as saídas do sistema com valor superior a suas entradas, uma vez que os recursos consumidos esgotam o meio ambiente. Para Ackoff (1981): “A riqueza produzida por uma corporação é a diferença entre os consumos por ela possibilitados e seu próprio consumo”. O autor destaca, aqui, a eficiência como visão da empresa e como componente de sua missão. Essa questão é muito importante, porque não há dúvidas de que a sociedade exige das empresas um comportamento compatível com a utilização dos recursos naturais, sob pena de deterioração do ambiente e prejuízo ao futuro da sobrevivência da humanidade. O conceito de eficiência envolve, então, a utilização adequada de recursos, já a eficácia está relacionada ao alcance de resultados. De acordo com Vasconcelos (2006), com relação ao processo de produção, a eficiência pode ser avaliada sob os pontos de vista tecnológico ou econômico. 154 Vejamos como: Eficiência técnica ou tecnológica Processo que permite produzir a mesma quantidade de produto, utilizando menor quantidade física de fatores de produção, o que envolve dois ou mais processos produtivos. Eficiência econômica Processo que permite produzir a mesma quantidade de produto com menor custo de produção, o que envolve dois ou mais processos produtivos. Sendo assim, as organizações devem manter uma produção elevada com o menor custo possível e reduzir os impactos ambientais através de boas estratégias, a fim de alcançar resultados positivos com eficiência. Uma de suas premissas é atribuir valores à empresa, analisando e vislumbrando para ela as melhores oportunidades e os melhores caminhos em direção ao alcance de objetivos. Toda corporação, via de regra, tem o propósito de alcançar o sucesso, o que denota a aceitabilidade de seus produtos e serviços perante o mercado através de seus clientes. Se a atribuição de valor e a excelência nos resultados são os principais focos da controladoria, é necessário aplicar tais conceitos no dia a dia das empresas, a fim de garantir a otimização dos custos e a maximização dos lucros. A principal ferramenta de auxílio e orientação à tomada de decisão no cenário competitivo em que as organizações vivem hoje é a controladoria. NOTA 155 O pressuposto para que a controladoria tenha sempre o poder sobre o valor da empresa é nortear sua missão. NOTA Para tanto, a organização deve estar em perfeita sinergia e integração com as áreas envolvidas em seu planejamento estratégico. EFICIÊNCIA EFICÁCIA FIM RESULTADO OBJETIVO META MEIO PROCESSO MÉTODO CAMINHO SISTEMA Figura 01 – Eficiencia e Eficácia – Fonte: Autor Papel da controladoria: criação de valor Ao considerar que o foco da controladoria é a maximização de valor da empresa, por meio da criação de valor, Padoveze (2012) afirma que, nesse caso, é necessário um processo de avaliação permanente. 156 A contabilidade, por sua vez, deve mensurar, de forma adequada, esse valor, de modo que os gestores possam, a qualquer momento, redirecionar seu planejamento no sentido de manter ou não o investimento. Afinal, essa área exerce forte influência sobre os modelos de gestão por meio de suas demonstrações,a fim de realizar uma administração mais eficaz. Em outras palavras, conforme destaca Padoveze (2012), se a empresa está preservando ou criando valor, vale a pena continuar investindo nela. Mas, se esse valor estiver diminuindo ou se a empresa o destruir, o investimento não trará retorno. Na contabilidade financeira, os critérios de avaliação de empresas são centrados no custo como base de valor – preços de mercado, fluxos futuros de benefícios etc. –, cujo fundamento é o postulado da continuidade. De acordo com Padoveze (2012), a avaliação realizada a partir de outros critérios diferentes do custo pressupõe a descontinuidade da empresa, ou seja, sua paralisação definitiva ou momentânea. Já na visão da controladoria, em que aplicamos a Ciência Contábil como ciência do controle econômico, esse conceito não é importante. Muito pelo contrário: o valor da empresa é obtido justamente por meio de critérios centrados nos fluxos futuros de benefícios, e sua incorporação no sistema de informação da área é vital para a continuidade do empreendimento. Se não houver uma avaliação do potencial desses benefícios futuros do investimento, poderá ocorrer, sim, a descontinuidade da empresa. 157 REFERÊNCIAS NONAKA, I.; TAKEUCHI, H. Criação de conhecimento na empresa. Tradução de Ana Beatriz Rodrigues e Priscilla Martins Celeste. Rio de Janeiro: Elsevier, 1997. PADOVEZE, C. L. Sistemas de informações contábeis. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2000.______. Controladoria estratégica e operacional: conceitos, estrutura, aplicação. 3. ed. São Paulo: Cengage Learning, 2012. PADOVEZE, C. L. et al. Fundamentos de contabilidade: princípios. Tradução de Pedro César de Conti. São Paulo: Cengage Learning, 2007. Encerra aqui o trecho do livro disponibilizado para esta Unidade de Aprendizagem. Na Biblioteca Virtual da Instituição, você encontra a obra na íntegra. ORÇAMENTO EMPRESARIAL Conteúdo: Walter Alves de Sousa Júnior Pablo Rojas Coordenador CONTROLADORIA Vaniza Pereira 14 INTRODUÇÃO No início do século XX nos Estados Unidos com a finalidade de dar suporte ao crescimento das empresas e aos conglomerados econômicos que surgiram da fusão de diversas empresas surgiu a controladoria. As grandes empresas necessitavam de instrumentos eficientes e eficazes para gerirem a complexidade de suas atividades. No Brasil a controladoria foi incorporada à prática empresarial no momento em que muitas empresas multinacionais americanas se instalaram no país. OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM Ao final desta aula unidade, você deverá ser capaz de: • Introduzir os conceitos básicos de controladoria; • Discorrer sobre a história e evolução da controladoria; • Entender a missão e os objetivos da controladoria CONTROLADORIA E SUA EVOLUÇÃO Segundo Padoveze (2005) a controladoria é responsável pela coordenação da gestão econômica da empresa com base na ciência contábil e do sistema de informação de controladoria. A controladoria utiliza as Técnicas Gerenciais e o Sistema de Informações Contábeis. Seu funcionamento é o de um órgão administrativo que possui missão e funções baseados em princípios definidos no modelo de gestão do sistema da empresa. No início a controladoria era ligada somente a dois departamentos: contabilidade e financeiro. Os indicadores gerados eram baseados apenas em informações numéricas fornecidos por esses departamentos. 15 Com o avanço da tecnologia e competitividade de mercado a controladoria assumiu um papel mais intenso dentro da alta administração. Além do departamento contábil e financeiro passou a interagir junto a outros departamentos criando indicadores para o controle estratégico da empresa. A controladoria tem papel fundamental em uma estrutura empresarial. Para criar indicadores é preciso ter dados anteriores, presentes e a projeção do planejamento. PASSADO PRESENTE FUTURO CONTROLADORIA Figura nº 01 – Indicadores de controladoria – Fonte: Autor OS MÉTODOS DE CONTROLADORIA A controladoria possui métodos diferentes de aplicação de suas técnicas, pois elas variam de acordo com as exigências das atividades de cada empresa, mas ela mantém sua característica de ser o departamento responsável pelas informações que propiciam aos diretores, gerentes e membros dos conselhos instrumentos para decidirem sobre os rumos da organização. As informações fornecidas pela área de controladoria devem ser verdadeiras e reais, em geral fruto de longo trabalho realizado junto às áreas da organização e pautado nos conhecimentos da economia, contabilidade, custos, sistemas de informação, finanças, meio ambiente, entre outras. A informação real é um item muito importante, pois se tomam decisões estratégicas com essas informações. Uma informação equivocada pode levar a uma decisão errada e a um custo elevado comprometendo o futuro da empresa. Para obter uma informação real é preciso ter uma visão sistêmica da empresa. É preciso interagir com todas as áreas e conhecer as atividades e os resultados desejados. 16 As funções e responsabilidades do executivo financeiro mudaram muito nos últimos anos e a separação da atividade contábil da financeira ocorreu naturalmente, mas a contabilidade passou a ser importantíssima para a administração financeira e daí surgiram as funções de controladoria. Segundo Mosimann, Alves e Fisch 1993, a Controladoria é formada por um grupo de doutrinas e conhecimentos relativos à gestão econômica. A Controladoria pode ser conceituada como o conjunto de princípios, procedimentos e métodos oriundos das ciências de Administração, Economia, Psicologia, Estatística e principalmente da Contabilidade, que se ocupam da gestão Econômica das empresas, com o fim de orientá-las para eficácia. (MOSIMANN, ALVES e FISCH 1993) Segundo esses autores, a controladoria pode ser vista como: a) Uma atividade desenvolvida por um órgão administrativo da empresa que possui sua missão e função baseados e definidos no modelo de gestão adotado pela empresa. b) Uma atividade que pertence a uma área do conhecimento que possui fundamentos, conceitos, princípios e métodos oriundos de outras ciências. CONTROLADORIA: CENÁRIOS Ações dependem 100% de cenários ou dos contextos SOCIAL PSICOLÓGICO FINANCEIRO SATISFAÇÃO RESULTADO EXPECTATIVA S R= E- Figura nº 02 – Cenários – Fonte: Autor 17 MISSÃO DA CONTROLADORIA A missão da controladoria é buscar e trazer informações reais zelando assim para a continuidade da empresa. Sua missão inclui os esforços necessários para otimizar o desempenho econômico com finalidade de garantir sua sustentabilidade e integração dos recursos utilizados pelas diversas áreas. OBJETIVOS DA CONTROLADORIA De acordo com Catelli (2007), os objetivos da controladoria, a partir da missão da empresa, são: • Promover a eficácia organizacional; • Viabilizar a gestão econômica; • Promover integração das áreas de responsabilidade. Utilidade Uma empresa que possui controladoria obtém algumas informações importantes e estratégicas: • Origens de cada recurso, • Destino de cada saída, • Se as receitas e despesas estão dentro dos valores e limites esperados; • Identificar, de pronto, desvios nesses parâmetros, • Se os SIC (Sistema Interno de Comunicação) suprem as necessidades para tomadas de decisão. CONTROLADORIA AVANÇADA Aline Alves Estrutura do BSC e o desenvolvimento de objetivos múltiplos Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: n Identi� car a relação do Balanced Scorecard (BSC) e a tomada de decisão estratégica da organização. n Reconhecer as perspectivas do BSC. n Explicar o processo de elaboração do BSC. Introdução Você sabe qual a finalidade do uso do Balanced Scorecard (BSC) nas organizações? Pode-se afirmar que o BSC representa uma tentativa de expandir um método de avaliação de desempenho, que concentra aten- ção nas metas da empresa; e sistematizar a tomada de decisão particular e fornecimento de uma base parao aprendizado da empresa. Neste texto, você irá estudar sobre o uso da ferramenta BSC na to- mada de decisão estratégica, bem como irá conseguir identificar suas perspectivas e entender sobre a sua elaboração e implantação. Balanced Scorecard – ferramenta estratégica na tomada de decisão O Balanced Scorecard (BSC) possibilita que as empresas aprimorem seus pro- cessos de negócio e reconheçam e monitorem seus custos, permitindo um melhor processo na tomada de decisão. Usado de modo incorporado, o BSC mostra como aumentar os lucros e gerar valor econômico em longo prazo para a organização. Controladoria Avançada_U2_C05.indd 48 28/06/2017 15:09:22 O BSC é também um importante instrumento para medir o desempe- nho organizacional, que busca mensurar precisamente ativos intangíveis e definir ações que busquem gerar valor em tais ativos. Essa ferramenta tem por finalidade o alinhamento estratégico e a comunicação interna e externa da organização. Após mensurar o desempenho com base em perspectivas diferenciadas, o BSC progride, por se tratar de um instrumento que favorece melhores ordenação e comunicação interna e externa para a empresa. Para melhor entendimento, você precisa conhecer o mapa estratégico, que é um diagrama que contempla as quatro perspectivas do negócio: financeira, clientes, processo interno e aprendizado/crescimento. Os ob- jetivos estratégicos normalmente estão interligados por meio de relações causa-efeito. As informações financeiras e não financeiras são básicas ao processo decisório, pois a sua inexistência pode levar os gestores a tomar decisões desacertadas. Essa metodologia oferece uma igualdade entre os indicadores de tendência e os resultados alinhados à estratégia, possibilitando a integração de outros instrumentos à gestão, acordando, portanto, acréscimos de informações. Entre os benefícios oferecidos pelo uso do BSC estão: n Transmissão da estratégia em termos operacionais, isto é, a divulgação para todos os setores organizacionais; n Segurança de que os elementos da estratégia estejam ordenados e interligados; n Constituição da base para uma gestão estratégica competente e integrada; n Favorecimento para integração de outros instrumentos, dependendo das necessidades da organização. A adoção do BSC tem muitos benefícios como retorno, mas cabe destacar que a escolha dessa ferramenta põe em destaque as suas fragilidades, do mesmo modo que ocorre com tantas outras metodologias. Existem críticas, por exemplo, relati- vas à causa e efeito, à determinação transparente dos objetivos e indicadores e à versatilidade para ajustes. 49Estrutura do BSC e o desenvolvimento de objetivos múltiplos Controladoria Avançada_U2_C05.indd 49 28/06/2017 15:09:22 Perspectivas do Balanced Scorecard O BSC é um importante instrumento utilizado para medir o desempenho organizacional mediante quatro perspectivas: n Financeira; n Clientes; n Processos internos; n Aprendizagem/crescimento. O uso do BSC permite que a empresa acompanhe o desempenho financeiro e controle e faça correções nas estratégias. A seguir, veja, em detalhes, essas perspectivas. Perspectivas financeiras A perspectiva fi nanceira aborda a evolução e o perfi l da receita, o aprimo- ramento da produtividade e a diminuição dos custos. Abrange, ainda, o uso de ativos com relação à estratégia de investimento. A perspectiva fi nanceira aponta como a organização está adquirindo sucesso por meio da aplicação das estratégias estabelecidas e executadas. Os objetivos fi nanceiros devem estar concentrados nas metas e nos métodos das outras perspectivas do BSC. Toda a medida esperada precisa pertencer a uma cadeia de relações de causa e efeito, que é atingida a partir do aprimoramento do desempenho. Os objetivos podem distinguir-se de acordo com cada fase que a empresa estiver vivenciando. Essas fases são identificadas como crescimento, susten- tação e colheita. n Crescimento: nessa fase, as metas se concentram em inovações que contemplem mercados, produtos e serviços, programas, colaboradores, canais de marketing, vendas e divisão, conservando um nível equilibrado de despesas com a expansão desses produtos e processos. n Sustentação: as medidas financeiras estão interligadas ao lucro, por exemplo, retorno sobre o capital investido, lucro operacional e margem bruta. Os métodos usados nas unidades de negócios que coordenam a movimentação da receita e o nível de capital aplicado são ordenados como retorno sobre o investimento, retorno sobre o capital aplicado e valor econômico agregado, o qual verifica o desempenho de uma unidade específica de negócio e da organização de modo geral. Controladoria avançada50 Controladoria Avançada_U2_C05.indd 50 28/06/2017 15:09:22 n Colheita: a organização deve fazer uso da movimentação de caixa operacional e direcionar seu foco para a redução da necessidade de capital de giro. Nesse período, o ciclo de negócio está na sua etapa final. Os objetivos financeiros correspondem a metas de longo prazo, e o uso do BSC possibilita tornar essas metas transparentes, corrigindo cada uma de acordo com as diversas etapas dos ciclos de vida e evolução da empresa, conforme você pode ver no Quadro 1. Fonte: Adaptado de Nascimento e Reginato (2009, p. 245). Fase Elevação da receita Redução de custos elevação da produção Uso de ativos Crescimento Elevação da taxa de vendas por ramo Percentual da receita Receita/ colaborador Investimento Pesquisa e desenvolvimento Sustentação Escolha de clientes Lucro por cliente e linha de produtos Percentual de receita Custos x custos dos concorrentes Taxa de diminuição de custos Despesas indiretas Índices de capital de giro Taxa de uso de ativos Colheita Lucro por cliente e linha de produto Custo por produto Retorno Rendimento Quadro 1. Medida da perspectiva financeira. Perspectiva do cliente A organização identifi ca o ramo do cliente e o mercado no qual pretendem concorrer, assim, as empresas alinham suas medidas primordiais de resultados relativos aos clientes, como satisfação, lealdade, continuidade, captação e lucratividade, com ramos defi nidos de clientes e mercado. A perspectiva de cliente possibilita que as organizações ordenem seus métodos fundamentais aos resultados interligados aos clientes. 51Estrutura do BSC e o desenvolvimento de objetivos múltiplos Controladoria Avançada_U2_C05.indd 51 28/06/2017 15:09:22 As necessidades de clientes e os objetivos financeiros direcionam os pro- cessos internos que a organização precisa escolher visando satisfazê-las. Essa perspectiva representa a missão e a estratégia em objetivos definidos para ramos concentrados de clientes e mercados, que podem ser divulgados a toda a empresa. Os métodos fundamentais de resultados dos clientes con- templam alguns indicadores, veja a seguir: n Participação de mercado: representa a extensão de negócios em mer- cados específicos, considerando clientes, valores gastos ou quantidade unitária vendida. n Obtenção de novos clientes: mensura, de modo total ou relativo, a intensidade como uma unidade de negócios envolve ou adquire novos clientes ou negócios. n Retenção de clientes: monitora, de forma total ou relativa, a intensi- dade como uma unidade de negócios mantém ou preserva as relações constantes com seus clientes. n Satisfação de clientes: mensura o grau de satisfação dos clientes, conforme métodos definidos de desempenho dentro da combinação de valor. n Lucratividade de clientes: mensura o lucro líquido de clientes ou ramo, posterior a dedução de determinadas despesas consideradas necessárias para sustentar tais clientes. A controladoria tem o importante papel de analisar todos os indicadores relativos à perspectiva de clientes, com o intuito de adquirir informações relevantes ao seguimento dos negócios, verificando se as ações das áreas estão em conformidade com os planos traçados pela administração. Perspectiva de aprendizagem e crescimentoA perspectiva de aprendizagem e crescimento envolve sabedoria referente à empresa, capacidade e conduta organizacional e competências, sendo estes imprescindíveis para manter a empresa no mercado. No entanto, é necessário investir em treinamentos para os colaboradores e mantê-los motivados, dando suporte com um sistema de informação efi caz, que enfatize o empowerment e o alinhamento. Esses elementos devem estar presentes na estrutura de gestão escolhida na empresa. Controladoria avançada52 Controladoria Avançada_U2_C05.indd 52 28/06/2017 15:09:22 Com relação às capacidades dos colaboradores, podem ser indicadas as habi- lidades estratégicas, os níveis de capacitação e a alavancagem das habilidades. Perspectivas de processos internos Os proprietários buscam identifi car processos que necessitem de melhorias, visando atingir a excelência, com o objetivo de cumprir os objetivos dos acionistas e também dos clientes. A cadeia de processos internos contempla alguns processos considerados essenciais, tendo como propósito no atendimento ao cliente: n Inovação n Operações n Serviço pós-venda Esses processos implicam em um trabalho contínuo de todos os setores da empresa, em busca do cumprimento dos objetivos traçados nessa perspectiva. É preciso que exista um controle constante pela controladoria, a fim de garantir o eficiente desempenho dos processos internos. Fatores importantes para a elaboração do Balanced Scorecard A elaboração do BSC pode ocorrer em virtude de modifi cações relevantes nos ambientes empresariais, tanto interno como externo, podendo se tratar de empresas privadas, públicas ou, ainda, sem fi ns lucrativos. A transição da Era Industrial para a Era da Informação exigiu modifi cações que resultaram na descontinuidade dos padrões tradicionais competitivos e de estabilidade. As organizações tiveram que repensar suas ações e métodos de controle, a partir de mudanças ocorridas em consequência do aumento da competitividade, do processo de globalização, da interação dos processos com as empresas, da precisão de mercadorias diferenciadas para poder competir no mercado, da valorização do capital intelectual, entre outros. A estrutura clássica contábil não conseguiu integrar essas modificações em seus processos e tratar os ativos intangíveis, fundamentais na Era da informação. 53Estrutura do BSC e o desenvolvimento de objetivos múltiplos Controladoria Avançada_U2_C05.indd 53 28/06/2017 15:09:22 Os exemplos que demonstram os ativos intangíveis são: relação com os clientes; mercadorias e serviços diferenciados; e tecnologia da informação e banco de dados. Os ativos intangíveis vão muito além das habilidades, competências, incen- tivos e capacidade dos colaboradores. Esses elementos correspondem a novas possibilidades de criação de vantagens competitivas, mediante estratégias fundamentadas em conhecimento. Durante as décadas de 1980 e 1990 ficou visível que as empresas estavam restritas apenas aos dados financeiros, mas isso foi modificado, pois elas passaram a adotar qualidade como um referencial de gestão. Dessa maneira, indicadores financeiros e sistemas de qualidade não bastavam para a sustenta- bilidade da gestão empresarial. As empresas inseriram outros métodos, como a gestão de recursos humanos estratégicos, reengenharia, aprimoramento nas informações digitais, entre outros. Vale ressaltar que essas medidas eram implantadas de forma isolada e não de maneira sistemática. A partir da relevância dos ativos intangíveis e da aplicação dos sistemas integrados para gerar valor na gestão empresarial, criou-se o BSC, no ano de 1992. Essa ferramenta manteve as medidas financeiras clássicas e adicionou outros elementos intangíveis, que favorecem o desempenho financeiro. O BSC tem sua origem na tradução da visão e da estratégia da organização em objetivos estratégicos determinados, por meio de um trabalho desenvolvido em equipe pelos membros da alta administração. Os objetivos e os métodos estratégicos da empresa precisam ser divulga- dos para todos, fazendo uma relação entre as medidas focadas referentes ao desempenho, passando pelas metas que estimulam o desempenho futuro e por meio das perspectivas financeiras, de clientes, de processos internos e de aprendizado/crescimento. No Quadro 2, você encontrará uma representação da construção do BSC. Controladoria avançada54 Controladoria Avançada_U2_C05.indd 54 28/06/2017 15:09:23 Fonte: Adaptado de Nascimento e Reginato (2009, p. 248). Esclarecer e traduzir a visão e a estratégia Tem sua origem a partir de um trabalho em equipe, realizado por elementos da alta administração, desenvolvendo um processo que busca traduzir a estratégia das unidades de negócio em objetivos estratégicos definidos. Comunicar e combinar objetivos e métodos estratégicos As metas e os métodos estratégicos precisam ser divulgados para toda a empresa por meios internos. Os administradores devem discutir mediante reuniões sobre o BSC e divulgar entre as áreas organizacionais. Planejar, definir objetivos e ordenar iniciativas estratégicas O BSC cria um maior impacto ao ser usado para incentivar modificações na empresa. Melhorar o feedback e o aprendizado estratégico O BSC gera ferramentas para o aprendizado empresarial em nível executivo. Vale destacar que o aspecto mais inovador do BSC ocorre mediante a capacidade de criar aprendizado estratégico, a partir do instante que o controle dos indicadores de desempenho admite a forma de teste para possibilidade das relações de causa e efeito estruturadas no mapa estratégico. Quadro 2. Elaboração do Balanced Scorecard. É importante destacar que cada empresa possui missão, visão, estratégia e medidas apropriadas, desse modo, pode-se afirmar que não há um conjunto de medidas padrão adequado, pois ele pode variar de uma empresa para outra. A ideia é reconhecer os indicadores de acordo com a missão, a estratégia, a tecnologia, o ambiente de negócios e a cultura da organização. Implementação do Balanced Scorecard Para a implantação do BSC, alguns processos são necessários, veja a listagem a seguir: a) Determinar a indústria, definir seu desenvolvimento e execução da entidade; b) Definir e afirmar a visão da empresa; 55Estrutura do BSC e o desenvolvimento de objetivos múltiplos Controladoria Avançada_U2_C05.indd 55 28/06/2017 15:09:23 c) Determinar as perspectivas; d) Transmitir para todos na empresa a sua visão, de acordo com as pers- pectivas e, assim, determinar as metas empresariais e estratégicas; e) Reconhecer os elementos decisivos para que a empresa alcance o êxito; f) Elaborar métodos, apontar as causas e os reflexos, definindo estabilidade em toda a empresa; g) Definir um BSC extensivo, divulgar e informar a todos na empresa para, dessa forma, obter a participação dos mesmos; h) Dividir o BSC e os métodos conforme cada unidade empresarial, con- siderando todos os níveis hierárquicos; i) Elaborar os objetivos e um plano de ação. As fases do processo do BSC podem ser definidas como: 1º passo: determinar a estrutura dos indicadores, em que é preciso escolher a unidade empresarial modelo. É necessário reconhecer as relações entre a unidade de negócio e a empresa. 2º passo: deve-se estabelecer um entendimento referente aos objetivos estratégicos e desenvolver o mapa estratégico. 3º passo: definir e desenvolver indicadores com base nos objetivos essenciais. 4º passo: desenvolver o plano e executar o plano de aplicação do BSC. É preciso que o grupo responsável pelo desenvolvimento do BSC reúna todos os colaboradores da empresa, ou seja, as partes interessadas, e comunique sobre a ferramenta e sua aplicação na empresa, explicando que a ferramenta de gestão terá um programa que a sustente. Controladoria avançada56 Controladoria Avançada_U2_C05.indd 56 28/06/2017 15:09:23 NASCIMENTO, A. M; REGINATO, L. Controladoria: um enfoque na eficácia organizacional. 2. ed. São Paulo: Atlas,2009. Leituras recomendadas FERREIRA, J. A. S. Finanças corporativas: conceitos e aplicações. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2005. MACEDO, J. J. Análise de projeto e orçamento empresarial. Curitiba: InterSaberes, 2013. MARTINS, T. S. et al. Incrementando a estratégia: uma abordagem do Balanced Score- card. Curitiba: InterSaberes, 2012. (Série Administração Estratégica). Referência Controladoria avançada58 Controladoria Avançada_U2_C05.indd 58 28/06/2017 15:09:25 FUNDAMENTOS DE CONTROLADORIA Organizadoras: Vaniza Pereira Cláudia dos Santos Farias Decisão, informação e mensuração Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: n Citar o processo de decisão baseado na informação. n Analisar o tipo de informação. n Mensurar o conteúdo da informação. Introdução O papel da controladoria é zelar pelo bom desempenho da empresa. Também é desenvolver sistemas e metodologias que proponham mo- delos gerenciais que, por meio de sistemas de gestão, otimizem o de- sempenho das empresas, fornecendo informações para os gestores na tomada de decisão. Neste texto, você vai estudar o modelo de decisão, o modelo de informação e o modelo de mensuração dentro da gestão em controladoria. Modelo de decisão A teoria da decisão é parcialmente descritiva e normativa. Descritiva, quando um esforço explica como as decisões são atualmente tomadas; normativa, quando ela é um esforço para ilustrar como as decisões deveriam ser tomadas. A teoria da decisão preocupa-se em fundamentar as possibilidades de solução de problemas e a subsequente necessidade de tomada de decisão. Ela envolve, portanto, a informação para elaborar as previsões. Dessa maneira, dentro da teoria da decisão, encontramos os instrumentos desenvolvidos para o processo de tomada de decisão, bem como o desenvolvi- mento de modelos de decisão para atender às necessidades gerenciais. Esses modelos devem atender às necessidades gerenciais sobre todos os eventos econômicos, para qualquer nível hierárquico dentro da empresa. Assim, é Fundamentos_de_Controladoria_U2_C05.indd 103 13/01/2017 11:57:23 possível a construção de modelos de decisões operacionais, e de modelos de carácter mais genérico, para decisões tidas como estratégicas. A atuação da área de controladoria pode ser vista de duas maneiras: pri- meira, como um órgão facilitador que fornece informações às demais áreas de uma empresa, para que possam executar suas estratégias específicas; segunda, como a área que procura integrar o processo de decisões estratégicas de cada área com o objetivo global da organização. A função da controladoria é dar apoio à tomada de decisão através da coleta de dados e geração de informações relevantes, reais e tempestivas, oferecer aos gestores meios de alcançar um resultado global de acordo com as metas traçadas, procurando a eficácia empresarial e a sua sobrevivência. Assim, a controladoria exerce papel preponderante na empresa, apoiando os gestores no planejamento e controle de gestão, através da manutenção de um sistema de informações que permita integrar as várias funções e especialidades. Na escolha das diretrizes estratégicas, é muito importante priorizar a habilidade do gestor de modo a evitar o engessamento da capacidade. Seus principais pilares são a determinação de metas e o conjunto de decisões, objetivos e políticas a serem adotados, para que tais metas sejam atingidas. Geralmente, essas metas são de longo prazo. Portanto, você deve analisar bem o caminho a seguir, e qual objetivo estabelecido faz parte de uma boa estratégia. A tomada de decisão nas empresas deve obter o equilíbrio entre os inte- resses dos administradores e dos acionistas. Além da tomada de decisão, é de responsabilidade dos gestores a compreensão e a análise das estratégias. A função da controladoria é fornecer aos administradores das empresas a informação que eles precisam para atingir seus objetivos, de modo eficaz e eficiente. Essa visão assume a seguinte sequência: Toda e qualquer ciência deve possuir uma representação adequada da rea- lidade com a qual vai trabalhar. É fundamental a representação que se utiliza, porque é dela que decorre a natureza das informações que vão estabelecer Fundamentos de controladoria104 Fundamentos_de_Controladoria_U2_C05.indd 104 13/01/2017 11:57:23 o quadro interpretativo ou modelo de realidade – o que vai fundamentar o recolhimento das informações, que, por sua vez, vão dar base às decisões. Assim, a sequência completa é a seguinte: O modelo de decisão evidencia a forma como os gestores geram as infor- mações, e como se define que a entidade deve ser gerida. A controladoria contempla o modelo de decisão como um de seus objetos de estudo, considerando a necessidade de se produzir as informações de acordo com as demandas dos gestores e a forma como decidem. Por exemplo: não adianta a controladoria gerar um relatório de rentabilidade de produtos segmentado por região, se os diretores tomam suas decisões por unidades de negócios. Modelo de informação A teoria da informação vem conforme seu propósito, que é possibilitar a uma organização alcançar seus objetivos pelo efi ciente uso de seus outros recursos. A ideia de efi ciência é expressa na relação entre inputs e outputs. Como a informação é um recurso, a sua teoria considera os problemas de seu uso efi ciente. Esse recurso é visto como um confronto entre os custos associados com a produção da informação contra os benefícios derivados de seu uso. Portanto, é muito importante estudar as necessidades informacionais dos diretores. O modelo de informação é que estabelece a forma como os relatórios devem ser preparados, passando, portanto, a compor o objeto de estudo da controladoria. Esse modelo define as características que devem conter as informações organizacionais, tendo em vista as ações dos gestores buscando modelos de gestão e de decisão. Em muitas situações, o que a priori se considera informação, na verdade, é apenas um simples conjunto de dados. Não são poucas as vezes que algo nos é apresentado sob o rótulo de “Sistema de Informação” e, imediatamente, se descobre que tudo não passa de um mero banco de dados. Daí a necessidade de diferenciar com maior clareza dado de informação. De modo geral, dado é um conjunto de caracteres que serve para descrever objetos ou eventos. As informações, por sua vez, são dados inseridos no con- 105Decisão, informação e mensuração Fundamentos_de_Controladoria_U2_C05.indd 105 13/01/2017 11:57:24 texto da decisão; ou seja, correspondem à parte dos dados que tem impacto sobre nossas ações. Por exemplo, um número que designa o volume de deter- minada mercadoria disponível em estoque é simplesmente um dado. Porém, no momento em que alguém precisa saber se existe mercadoria suficiente para atender a um pedido, esse número passa à categoria de informação. A informação é o dado trabalhado que permite ao executivo tomar deci- sões. Por isso, é relativamente comum afirmar que as pessoas jamais recebem informações, mas apenas dados que poderão se tornar úteis como informação se forem apresentados de tal forma que possam ser utilizados para facilitar decisões. O valor da informação reside no seu uso final; isto é, gerando clareza para as pessoas que tomam decisões e sua relevância para tais decisões. É por meio das informações que a controladoria desempenha apropria- damente sua função de facilitar o processo decisório, como um conjunto de normas e procedimentos que deve ser estabelecido para alcançar os objetivos concretos de uma organização. Um bom sistema de informações permite à controladoria atuar no monitoramento e na integração do processo de gestão da organização, estruturado nas fases do planejamento estratégico e operacional, execução e controle. Esse sistema deve atender a todas as fases do processo de gestão, com informações oportunas, corretas, confiáveis, e com periodicidadenecessária para viabilizar a tomada eficaz de decisões por parte dos gestores. O processo de gestão tem por objetivo assegurar a eficácia empresarial, atividade que tem sido caracterizada como um contínuo processo de tomada de decisões. Por isso, é relevante entender, de forma clara, como a controladoria conduz o monitoramento e a integração desse processo. Partindo do princípio de que um modelo de informação deve viabilizar a seleção da alternativa de ação que conduza a uma otimização do resultado econômico da empresa, esse modelo deve então ter uma estrutura que permita Fundamentos de controladoria106 Fundamentos_de_Controladoria_U2_C05.indd 106 13/01/2017 11:57:24 que as informações sejam distribuídas aos gestores e acessadas diretamente por eles, conforme suas necessidades. Essa estrutura deve ainda permitir a facilidade de interação do usuário; ser um banco de dados unificado e estrutu- rado pelo conceito de engenharia de informações; fornecer informações com oportunidade para ações gerenciais no momento da ocorrência dos eventos; e espelhar o que realmente ocorre em nível operacional. Note que a função da informação está associada à capacidade que ela tem de ajudar o indivíduo a decidir de acordo com os seus objetivos. Uma informação é necessária quando sem ela a decisão é diferente. Assim, você já pode concluir que a informação não tem nenhuma utilidade se não for capaz de influenciar decisões. Uma informação, portanto, só é conveniente quando: a) Modifica nosso conhecimento a priori do mundo que nos rodeia. b) Incrementa o valor esperado de uma decisão que é função desse co- nhecimento do mundo. c) O incremento do valor esperado da decisão é maior que o custo da informação. O valor de uma informação é representado pelo valor da alteração na decisão que ela possa promover, menos o seu respectivo custo. Isso significa que, se a informação provocar diferença na decisão a ser tomada, seu valor será a diferença entre os resultados da antiga e da nova decisão, deduzida do custo de obtenção da informação. A literatura, por exemplo, indica que o valor da informação depende de algumas características qualitativas, como: relevância, relação custo- benefício, flexibilidade, oportunidade, compreensibilidade e adequação ao modelo decisório do usuário. Isso nos leva a crer que a informação precisa reunir alguns atributos básicos para conseguir cumprir o papel que lhe é devido. Desse modo, podemos considerar os Sistemas de Informações como sistemas abertos, que dependem do ambiente e da interação com ele para sobreviverem, e podem ter sua performance analisada segundo critérios de eficiência e eficácia, conforme descrito na Figura 1. Esses sistemas também possuem os três componentes básicos de um sistema, ou seja: recebem dados como entrada; processam; e fornecem informações como saídas. Daí a importância de analisarmos primeiro o funcionamento dos sistemas para depois estudarmos os Sistemas de Informações. 107Decisão, informação e mensuração Fundamentos_de_Controladoria_U2_C05.indd 107 13/01/2017 11:57:24 Figura 1. Funcionamento dos sistemas. Modelo de mensuração A defi nição da mensuração são os objetos ou eventos de acordo com regras que evidenciem os atributos do objeto ou evento de interesse. Os atributos representam aspectos qualitativos ou quantitativos dos objetos ou eventos, como peso, altura, volume, valor e estado de conservação. A teoria da mensuração deve solucionar os seguintes problemas: n Os eventos ou objetos a serem medidos. n Os padrões ou escalas a serem usados. n Qual deve ser a dimensão da unidade de mensuração. Fundamentos de controladoria108 Fundamentos_de_Controladoria_U2_C05.indd 108 13/01/2017 11:57:24 A mensuração é necessária não apenas para expressar objetivos como metas fixadas claramente, sobre quais decisões devem ser tomadas. Elas são necessárias para controlar e avaliar os resultados das atividades envolvidas. A natureza das decisões é que vai determinar que objetos devem ser mensurados, e em qualquer tempo: passado, presente ou futuro. Para a gestão econômica, o modelo de mensuração é o conjunto de conceitos e critérios utilizados para a correta quantificação e mensuração das variáveis identificadas com cada transação. Para fins de apuração do impacto das di- versas alternativas de realização de uma transação, esse modelo deve utilizar conceitos como: valor do dinheiro no tempo, equivalência de capitais, custo de oportunidade dos recursos ativados, método de custeio variável direto, preço de transferência entre departamentos, custos correntes, remuneração do capital investido, sistema de custeio padrão e valores à vista. Essa teoria tem particular significado para a controladoria porque diz respeito ao complexo problema de avaliar ou estimar dados que impactam as decisões. O seu foco principal é a atribuição de números a determinados atributos de eventos ou objetos. Você pode ver o mecanismo da mensuração como um conjunto de pro- cessos destinados a atribuir números a objetos e eventos, com a finalidade de gerar informações válidas, confiáveis, apropriadas e econômicas para os tomadores de decisões. Segundo essa definição, o termo válidas quer dizer informações capazes de representar os verdadeiros atributos dos eventos ou objetos mensurados; confiáveis – indica que não podem conter erro ou viés, ou que, pelo menos, os erros da mensuração são conhecidos e controláveis; apropriadas – destaca que a informação deve ser harmônica com o modelo decisório do usuário; e, finalmente, fala-se em econômicas para salientar que a informação deve apresentar uma relação custo-benefício satisfatória. O conjunto de objetos e eventos a serem mensurados recebe a denominação de sistema relacional empírico. Dessa forma, o conjunto de números passa a ser chamado de sistema racional numérico. Podemos afirmar que, em es- sência, a mensuração é uma espécie de vínculo entre um sistema numérico e alguns aspectos de eventos ou objetos. Por exemplo, um conjunto de máquinas (sistema empírico) pode ser vinculado a um conjunto de números (sistema numérico), para representar algumas de suas características, como valor, peso, comprimento e largura. A mensuração pode ser considerada como uma aproximação, uma vez que retrata, numericamente, as propriedades dos eventos e objetos. O tipo de decisão a tomar vai influenciar a correta mensuração do objeto ou evento. Ao mensurar 109Decisão, informação e mensuração Fundamentos_de_Controladoria_U2_C05.indd 109 13/01/2017 11:57:24 o valor econômico dos objetos ou eventos, eles serão traduzidos a um único padrão de medida, no caso da Contabilidade, o monetário. Sem a apropriada análise das relações entre os objetos ou eventos de interesse de medição, pode resultar em um processo de geração de informações distorcidas. De fato, a simples atribuição de números a objetos não é suficiente. Mais do que isso, é necessário que eles expressem um determinado significado para o tomador de decisão. Portanto, é preciso definir uma escala ou unidade de mensuração. O sistema de mensuração, no entanto, pode ser influenciado pelos conhe- cimentos de valores dos interessados. Assim, determinados eventos ou objetos podem ser mensurados, monetariamente, de forma diferente de uma empresa para outra ou de um gestor para outro. É importante destacar que as regras a serem adotadas para nortear o processo de mensuração devem estar sempre sintonizadas com a natureza da decisão. Isso é uma condição fundamental para que a informação seja útil ao processo decisório. É importante destacar, por exemplo, que a primeira etapa do processo de mensuração é a identificação do tipo de decisão a ser tomada. O modelo de mensuração se caracteriza pelas seguintes etapas: a) Identificar o tipo de decisão a ser tomada. b) Identificar o sistema relacional empírico. c) Identificar a característica de interesse da medição. d) Identificar a unidade de mensuração.e) Definir a base conceitual (critérios de mensuração). f) Identificar o sistema relacional numérico. g) Analisar o sistema de mensuração caracterizado, à luz do purposive view (informação adequada) e do factual view (confiabilidade, validade, tipo de escala e significado numérico). As duas categorias de decisão que podem contemplar a mensuração, de acordo com as necessidades dos gestores, são as decisões corrente e táticas. No evento produção, se a decisão operacional consiste em otimizar o resultado do processo de transformação de recursos em produtos, podemos identificar os seguintes sistemas relacionais empíricos: o primeiro formado de recursos e o outro, de produtos. O modelo de mensuração requer a identificação das características relevan- tes dos eventos e objetos que formam o sistema relacional. Os componentes desse sistema podem apresentar características físicas ou econômicas. Nos estoques, por exemplo, uma característica física de interesse poderia ser o peso ou a quantidade de itens. Já a característica de interesse de medição Fundamentos de controladoria110 Fundamentos_de_Controladoria_U2_C05.indd 110 13/01/2017 11:57:24 econômica é o valor dos recursos aplicados na produção ou aquisição dos produtos, utilizando-se o mesmo exemplo. O tipo de mensuração pode ser física ou monetária, muito embora esta última seja utilizada com maior frequência. No Brasil, predominantemente, o sistema relacional numérico tem como unidade de mensuração o real. Na verdade, a escolha da escala deve ser feita em função do tipo de decisão que se quer adotar. Em algumas circunstâncias, escalas físicas, como toneladas, metros cúbicos, hectares e outras do gênero podem ser extremamente úteis a um sistema de informações gerenciais. Nesse modelo de mensuração, é definida a base conceitual aplicável, se- gundo a escala adotada, para mensurar as propriedades dos objetos e eventos. Por exemplo, na hipótese de se adotar uma escala monetária, diversos caminhos podem ser trilhados. Um deles seria utilizar conceitos econômicos, como custo de oportunidade, reconhecimento da receita pela produção, preço de transferência, custeio variável, custo padrão e outros de igual natureza. Outra alternativa seria atribuir valores, com base no custo original, no custeio por absorção, e assim por diante. A função-objetivo do modelo de decisão é um ponto de grande importância para se identificar a base conceitual adequada. Se essa base for o desenvolvi- mento do resultado econômico dos eventos, a preferência deve então incidir sobre a primeira alternativa. A própria teoria da contabilidade nos oferece um conjunto de conceitos alternativos aos que utilizamos com mais frequência nos subsistemas de informações. Na concepção do modelo de mensuração, o que deve ser observado é o reconhecimento do sistema relacional numérico. Essa etapa diz respeito aos procedimentos necessários para coletar os números que serão atribuídos aos objetos e eventos, aplicando-se a base conceitual definida. Por fim, o próprio sistema de mensuração deve ser analisado no sentido de verificar se os seus critérios são compatíveis com as necessidades dos gestores; isto é, se efetivamente proporcionam informações que motivem decisões ade- quadas ao modelo decisório. Esta é a chamada análise em termos de eficácia. A mensuração é definida como o estabelecimento de números a objetos ou eventos de acordo com regras que especificam a propriedade a ser mensurada, a escala a ser usada e as dimensões da unidade. 111Decisão, informação e mensuração Fundamentos_de_Controladoria_U2_C05.indd 111 13/01/2017 11:57:25 Fundamentos de controladoria112 Fundamentos_de_Controladoria_U2_C05.indd 112 13/01/2017 11:57:25 BRUNI, Adriano L.; GOMES, Sônia Maria da Silva (Org.).Controladoria: conceitos, ferra- mentas e desafios. Salvador: EDUFBA, 2010. MARTIN, Nilton C. Da contabilidade à controladoria: a evolução necessária. Rev. Con- tabilidade e Finanças, São Paulo, n. 28, p. 7-28, jan./abr. 2002. PADOVEZE, C. L. Controladoria estratégica e operacional: conceitos, estruturas, aplicação. 3. ed. São Paulo: Cengage Learning, 2012. SOUZA, Bruno C.; BORINELLI, Márcio L. Controladoria. Curitiba: IESDE Brasil, 2009. Conteúdo: Análise para administração financeira Robert C. Higgins 10ª edição Catalogação na publicação: Ana Paula M. Magnus – CRB10/2052 H636a Higgins, Robert C. Análise para administração nanceira [recurso eletrônico] / Robert C. Higgins ; [tradução: Equipe Bookman]. – 10. ed. – Dados eletrônicos. – Porto Alegre : AMGH, 2014. Tradução da 8ª edição por Alan Vidigal Hastings e revisão técnica por Roberto Zentgraf. Editado também como livro impresso em 2014. ISBN 978-85-8055-320-8 1. Administração nanceira. 1. Título. CDU 005.915 Higgins_Iniciais_10ed_eletronica.indd ii 08/01/14 14:45 C a p í t u l o 2 Avaliação do Desempenho Financeiro Não se pode administrar o que não se pode medir. William Hewlett A cabine de comando de um Boeing 747 parece um videogame tridimensional. É um ambiente de tamanho razoável e cheio de medidores, chaves, luzes e mos- tradores que exigem a total atenção de três pilotos altamente treinados. Quando a comparamos com a cabine de um Cessna monomotor, ficamos tentados a con- cluir que os dois aviões pertencem a espécies diferentes em vez de serem primos distantes. Mas, em um nível mais fundamental, as semelhanças entre eles su- peram as diferenças. Apesar da complexidade tecnológica do Boeing 747, seu piloto controla o avião da mesma maneira que controlaria um Cessna: com um manche, throttle e flaps. E, para alterar a altitude do avião, o piloto (seja de uma aeronave, seja da outra) faz ajustes simultâneos às mesmas e poucas alavancas de controle existentes. O mesmo se pode dizer das empresas. Uma vez que se remova a fachada de aparente complexidade, as alavancas por meio das quais os gestores afetam o desempenho financeiro de suas empresas são relativamente poucas e asse- melham-se em todas as empresas. A função do executivo é controlar essas ala- vancas para garantir um voo seguro e eficiente. E, como um piloto, o executivo precisa ter em mente o fato de que as alavancas estão inter-relacionadas; não se pode alterar o equivalente empresarial dos flaps sem ajustar, também, o manche e o throttle. AS ALAVANCAS DO DESEMPENHO FINANCEIRO Neste capítulo, analisaremos as demonstrações financeiras com o objetivo de ava- liar o desempenho e entender as alavancas de controle administrativo. Começare- mos pelo estudo das ligações entre as decisões operacionais de uma empresa, como o número de unidades a produzir por mês e como precificá-las e o seu desempe- nho financeiro. Essas decisões operacionais são as alavancas por meio das quais a administração controla o desempenho financeiro. Em seguida ampliaremos a dis- cussão para abranger os usos e as limitações da análise de índices como ferramen- ta de avaliação do desempenho. Em nome da praticidade, usaremos novamente as demonstrações financeiras da Sensient Technologies Corp., apresentadas nas Higgins_livro.indb 37 26/11/13 10:40 38 Parte I • Avaliação da Saúde Financeira da Empresa Tabelas 1.2, 1.3 e 1.5 do capítulo anterior, para exemplificar as técni- cas. O capítulo se encerra com uma avaliação do desempenho financeiro da Sensient com relação ao de suas concorrentes. (Para mais informações sobre o HISTORY, um software gratuito de análise de índices, veja Leituras Comple- mentares no final do capítulo. Há também a Tabela 2.5, que apresenta definições resumidas dos principais índices mencionados ao longo do capítulo.) RETORNO SOBRE O PATRIMÔNIO LÍQUIDO Entre os investidores e gestores experientes, a medida mais popular de desem- penho financeiro é, de longe, o retorno sobre o patrimônio líquido (return on equity, ou ROE), definido como Retorno sobre o patrimônio líquido 5 Lucro líquido Patrimônio líquido O ROE da Sensient em 2010 foi de Não seria exagerodizer que as carreiras de muitos altos executivos sobem e des- cem com os ROE de suas empresas. Atribuímos tanta importância ao ROE por- que ele é uma medida da eficiência com que uma empresa emprega o capital de seus proprietários. É uma medida de lucro por dólar investido como capital próprio ou do retorno percentual sobre o investimento dos proprietários. Em suma, o ROE mede quanto cada dólar rende. Mais adiante, abordaremos alguns problemas significativos do ROE como medida de desempenho financeiro. Por enquanto, vamos admiti-lo provisoria- mente como uma medida que, pelo menos, é muito usada e ver o que consegui- mos aprender com ele. Os três determinantes do ROE Para aprender mais sobre o que a administração pode fazer para aumentar o ROE, vamos reescrevê-lo nos termos dos seus três principais componentes: ROE Lucro líquido Vendas Vendas Ativo Ativo Patrimônio líquido Designando as três últimas razões, respectivamente, como margem de lucro, giro do ativo e alavancagem financeira, a expressão pode ser escrita como Retorno sobre o patrimônio líquido 5 Margem de lucro 3 Giro do ativo 3 Alavancagem financeira Isso indica que a administração só dispõe de três alavancas para controlar o ROE: (1) os lucros que consegue espremer de cada dólar de faturamento, ou mar- gem de lucro; (2) as vendas geradas com cada dólar de ativo empregado, ou giro do Higgins_livro.indb 38 26/11/13 10:40 Capítulo 2 • Avaliação do Desempenho Financeiro 39 ativo; e (3) o montante de capital próprio usado para financiar o ativo, ou alavan- cagem financeira.1 Com poucas exceções, o que quer que a administração faça para aumentar essas razões também aumentará o ROE. Observe também a forte correlação entre as alavancas do desempenho e as de- monstrações financeiras das empresas. Assim, a margem de lucro resume o desem- penho da demonstração de resultados da empresa, indicando o lucro por dólar de vendas. O giro do ativo resume a maneira como a empresa administra o lado do ativo de seu balanço, indicando os recursos necessários para sustentar as vendas. E a alavancagem financeira resume a administração do lado do passivo do balanço, indi- cando o montante de capital próprio usado para financiar o ativo. Esta é uma prova reconfortante de que, apesar de sua simplicidade, as três alavancas efetivamente cap- turam os principais elementos do desempenho financeiro de uma empresa. Podemos observar que o ROE da Sensient em 2010 foi gerado como segue: $107,2 $983,8 $107,2 $1.328,2 $1.328,2 $1.599,3 $1.599,3 $983,8 10,9% 8,1% 0,8 1,6 A Tabela 2.1 apresenta o ROE e seus três principais componentes para 10 ramos de negócio diversos. Ela mostra com clareza que existem vários cami- 1 À primeira vista, a razão entre o ativo e o patrimônio líquido pode não parecer uma medida de ala- vancagem financeira, mas pense no seguinte: Ativo Patrimônio líquido Passivo 1 Patrimônio líquido Patrimônio líquido Passivo Patrimônio líquido 115 5 E a razão entre passivo e patrimônio líquido torna-se claramente uma medida de alavancagem financeira. Tabela 2.1 ROE e alavancas de desempenho de 10 empresas diversas, 2010* Retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) (%) 5 Margem de lucro (P) (%) 3 Giro do ativo (A) (vezes) 3 Alavancagem financeira (T) (vezes) Adobe Systems 14,9 5 20,4 3 0,47 3 1,57 Chevron 18,1 5 10,0 3 1,03 3 1,76 Google 18,4 5 29,0 3 0,51 3 1,25 Hewlett-Packard 21,7 5 7,0 3 1,01 3 3,08 JPMorgan Chase 10,3 5 15,0 3 0,05 3 12,58 Norfolk Southern 14,0 5 15,7 3 0,34 3 2,64 Novartis 15,5 5 19,3 3 0,41 3 1,95 Safeway 11,8 5 1,4 3 2,71 3 3,03 Sensient Technologies 10,9 5 8,1 3 0,83 3 1,63 Southern Company 12,6 5 11,7 3 0,32 3 3,40 *Os totais podem não coincidir devido ao arredondamento. Higgins_livro.indb 39 26/11/13 10:40 40 Parte I • Avaliação da Saúde Financeira da Empresa nhos possíveis para se chegar ao paraíso: os ROE das empresas são muito seme- lhantes, mas as combinações de margem de lucro, giro do ativo e alavancagem financeira que produzem esse resultado final variam muito. Assim, os ROE va- riam de um máximo de 21,7% no caso da Hewlett-Packard, grande produtora de hardware e software, a um mínimo de 10,3% para o banco JPMorgan Cha- se, enquanto a escala da margem de lucro, por exemplo, vai de um mínimo de 1,4% para a cadeia de supermercados Safeway, Inc. a um máximo de 29,0% para o Google. A proporção entre o ROE máximo e o mínimo é de 2:1, mas a margem de lucro varia por um fator de mais do que 20:1. As faixas corres- pondentes do giro do ativo e da alavancagem financeira são, respectivamente, de 54:1 e 8:1. Por que os ROE são semelhantes enquanto as margens de lucro, os giros do ativo e as alavancagens financeiras variam tão drasticamente? A resposta é uma só: competição. A obtenção, por uma empresa, de um ROE excepcionalmente elevado funciona como um ímã que atrai rivais ansiosas por imitar tal desempe- nho. Com a entrada das rivais no mercado, a maior competição empurra o ROE da empresa bem-sucedida para baixo em direção à média. Da mesma forma, os ROE excepcionalmente baixos repelem novos concorrentes em potencial e for- çam as empresas existentes para fora do mercado, de modo que, com o tempo, os ROE das sobreviventes elevam-se em direção à média. Para entender como as decisões administrativas e o ambiente competitivo de uma empresa se combinam e afetam o ROE, examinaremos mais detidamente cada uma das alavancas do desempenho. Antecipando a discussão a seguir sobre a análise de índices, abordaremos também índices financeiros de uso comum. Para fontes publicadas de índices empresariais, ver Leituras Complementares no final do capítulo. A margem de lucro A margem de lucro mede a fração de cada dólar de vendas que, passando pela demonstração de resultados, chega ao lucro. Esse índice é de especial importân- cia para os administradores porque reflete a estratégia de preços da empresa e sua capacidade de controlar os custos operacionais. Como mostra a Tabela 2.1, as margens de lucro diferem muito entre os setores, dependendo da natureza do produto vendido e da estratégia competitiva da empresa. Observe também que a margem de lucro e o giro do ativo tendem a variar em direções opostas. Isso não acontece por acaso. As empresas que agregam um valor significativo ao produto, como Google e a farmacêutica Novartis, podem exigir margens elevadas de lucro. No entanto, como agregar valor ao produto normalmente exige uma grande quantidade de ativos, essas mesmas empresas tendem a apresentar menores giros do ativo. No extremo oposto, supermerca- dos, como o Safeway, trazem o produto para a loja em caminhões, vendem à vista e fazem o cliente transportar suas próprias compras. Como agregam pouco valor ao produto, têm margens de lucro muito baixas e giro do ativo correspondente- mente elevado. Deve ter ficado claro, portanto, que a margem de lucro elevada Higgins_livro.indb 40 26/11/13 10:40 Capítulo 2 • Avaliação do Desempenho Financeiro 41 não é necessariamente melhor do que outra mais baixa – tudo depende do efeito combinado da margem de lucro e do giro do ativo. Retorno sobre o ativo Para analisar o efeito combinado da margem e do giro, podemos calcular o re- torno sobre o ativo (Return on Assets – ROA): Lucro líquido Ativo ROA Margem de lucro Giro do ativo 5 3 5 O ROA da Sensient em 2010 foi Retorno sobre o ativo 5 $107,2 $1.599,3 6,7%5 Isso significa que a Sensient ganhou em média 6,7 cents a cada dólar colocado na empresa. O ROA é uma medida básica da eficiência com que uma empresa aloca e gerencia seus recursos. Difere do ROE porque mede o lucro como porcentagem do dinheiro fornecido pelos proprietários e credores, em vez de apenas aquele que foi fornecido pelos proprietários. Algumas empresas, como Google, Novartis e Norfolk Southern, produzem seus ROA por meio de uma combinação de margem de lucro elevada e giro do ativo de baixo a moderado; outras, como Safeway, adotam a estratégia inversa. Teruma margem de lucro e um giro do ativo elevados seria o ideal, mas isso tende a atrair uma competição considerável. Pelo mesmo raciocínio, uma mar- gem de lucro baixa combinada com um giro do ativo igualmente baixo só atrairá advogados falimentares. Margem bruta Ao analisar a lucratividade, muitas vezes é interessante distinguir entre custos variáveis e custos fixos. Os custos variáveis mudam com as variações do fatu- ramento, ao passo que os custos fixos se mantêm constantes. Empresas com uma proporção elevada de custos fixos são mais vulneráveis a quedas de faturamento que as demais porque não podem reduzir seus custos fixos à medida que as ven- das caem. Isso quer dizer que em atividades de custo fixo elevado, uma queda do faturamento produzirá grandes quedas do lucro. Infelizmente, o contador não distingue entre custo fixo e custo variável quando está elaborando a demonstração de resultados. Mas normalmente é se- guro admitir que a maior parte das despesas do custo das mercadorias vendidas é variável e que a maior parte dos demais custos operacionais é fixa. A margem bruta permite distinguir, na medida do possível, entre os custos fixos e os custos variáveis. Ela é definida como Margem bruta 5 Lucro bruto Vendas $451,8 $1.328,2 5 34,0% Higgins_livro.indb 41 26/11/13 10:40 42 Parte I • Avaliação da Saúde Financeira da Empresa onde lucro bruto é igual às vendas líquidas menos o custo das mercadorias vendi- das. Cerca de 34% de cada dólar de faturamento da Sensient são uma contribuição para o custo fixo e o lucro; ou seja, 34 cents de cada dólar de vendas estão disponíveis para pagar os custos fixos e aumentar o lucro. Um uso comum da margem bruta é estimar o ponto de equilíbrio (break- -even) nas vendas de uma empresa. A demonstração de resultados da Sensient revela que as despesas operacionais totais em 2010 foram de $278,6 milhões. Se admitirmos que essas despesas são fixas, e se 34 cents de cada dólar de fatu- ramento da Sensient estão disponíveis para fazer frente aos custos fixos e serem somados ao lucro, o volume de vendas que levará ao lucro zero da empresa deve ser de $278,6/0,340, ou $819,4 milhões.2 Admitindo que as despesas operacionais e a margem bruta são independentes do faturamento, a Sensient perde dinheiro quando as vendas ficam abaixo de $819,4 milhões e ganha quando elas ficam acima desse valor. Giro do ativo Alguns iniciantes em finanças acreditam que ativos são uma coisa boa: quanto mais, melhor. A realidade mostra justamente o contrário: a não ser que uma empresa esteja para encerrar suas atividades, o seu valor é determinado pelo retorno que ela gera, e seus ativos se constituem simplesmente em um meio necessário para alcançar esse fim. De fato, a empresa ideal seria aquela que pu- desse produzir sem ativo algum. Dessa maneira, nenhum investimento seria necessário e os retornos seriam infinitos. Fantasia à parte, a equação do ROE nos diz que, com outros fatores mantidos constantes, o desempenho financeiro melhorará com o crescimento do giro do ativo. Esta é a segunda alavanca do desempenho administrativo. O giro do ativo mede as vendas originadas por dólar de ativo. O giro do ati- vo de 0,8 da Sensient significa que ela gerou 80 cents de vendas para cada dólar investido em ativos. Esse índice mede a intensidade de ativos, com um baixo giro significando um negócio de bens de capital intensivo, e um alto giro, o contrário. A natureza dos produtos de uma empresa e sua estratégia competitiva têm uma forte influência sobre o giro do ativo. Uma siderúrgica jamais terá o giro do ativo de uma quitanda. Mas a história não acaba aí, já que a diligência e a criati- vidade da administração no controle dos ativos também são determinantes vitais do giro do ativo de uma empresa. Quando a tecnologia do produto é equivalente entre os competidores, frequentemente o controle dos ativos faz a diferença entre o sucesso e o fracasso. O controle sobre o ativo circulante é particularmente crítico. Você pode- ria imaginar que a distinção entre ativos circulantes e fixos, com base apenas na possibilidade de o ativo se converter ou não em caixa dentro de um ano, é artificial. Mas há mais do que isso em questão. Os ativos circulantes, espe- 2 Lucro 5 Vendas 2 Custo variável 2 Custo fixo 5 Vendas 3 Margem bruta 2 Custo fixo. Igualan- do o resultado a zero e solucionando para vendas, temos Vendas 5 Custo fixo/Margem bruta. Higgins_livro.indb 42 26/11/13 10:40 Capítulo 2 • Avaliação do Desempenho Financeiro 43 cialmente as contas a receber e o estoque, apresentam diversas propriedades singulares. Uma delas é que se algo der errado – se o faturamento cair de maneira imprevista, se os clientes atrasarem os pagamentos, ou se um com- ponente crítico não chegar a tempo à linha de produção – o investimento de uma empresa em ativos circulantes pode inflar com muita rapidez. Quando até as companhias manufatureiras investem, rotineiramente, metade ou mais de seu dinheiro em ativos circulantes, é fácil perceber que mesmo alterações modestas no gerenciamento desses ativos podem afetar muito as finanças das empresas. Uma segunda distinção é que, ao contrário dos ativos fixos, os ativos circu- lantes podem tornar-se uma fonte de caixa durante períodos de baixa atividade econômica. Com a queda do faturamento, o investimento da empresa em con- tas a receber e estoques também deve diminuir, liberando com isso caixa para outros fins (lembre-se de que uma redução de conta de ativos representa fonte de caixa). O fato de em uma empresa bem administrada o ativo circulante se comportar como uma sanfona, acompanhando o faturamento, é bem visto pe- los credores. Eles sabem que, durante a fase ascendente do ciclo de negócios, o aumento dos ativos exigirá empréstimos, enquanto que, na fase descendente, a queda dos ativos circulantes fornecerá o caixa necessário para honrar as dívidas. No jargão dos banqueiros, um empréstimo nessas condições é chamado de au- toliquidante no sentido de que o fim para o qual o dinheiro é empregado cria a fonte de pagamento. Muitas vezes é útil analisar individualmente o giro de cada tipo de ativo constante no balanço de uma empresa. Isso origina o que conhecemos como ín- dices de controle. Embora a forma de expressar um índice possa variar, cada índice de controle nada mais é do que o giro de um tipo específico de ativo. Em cada caso, o investimento da empresa no ativo em questão é comparado às vendas líquidas ou a outro valor assemelhado. Por que comparar os ativos com as vendas? O fato de o investimento de uma empresa em contas a receber, por exemplo, aumentar com o tempo, pode ser devido a duas forças: (1) as vendas podem ter aumentado e arrastado con- sigo os recebíveis, ou (2) a administração pode ter relaxado seus esforços de cobrança. Relacionar os recebíveis com o faturamento, criando um índice de controle, corrige as variações das vendas, permitindo que o analista se concen- tre no que é mais importante: os efeitos da mudança dos controles da adminis- tração. Assim, o índice de controle distingue entre variações do investimento causadas pelas vendas e outras causas possivelmente mais graves. Apresentamos a seguir alguns índices de controle básicos e seus valores para a Sensient Tech- nologies em 2010. Giro do estoque O giro do estoque é expresso como Giro do estoque 5 $876,4 $392,2 Custo das mercadorias vendidas Estoque final 5 2,2 vezes Higgins_livro.indb 43 26/11/13 10:40 44 Parte I • Avaliação da Saúde Financeira da Empresa Um giro do estoque de 2,2 vezes significa que os artigos do estoque da Sensient giram em média 2,2 vezes ao ano; em outras palavras, o artigo típico fica no esto- que cerca de 166 dias antes de ser vendido (365 dias/2,2 vezes 5 165,9 dias). Existem diversas definições alternativas do índice de giro do estoque, inclu- sive vendas divididas pelo estoque final e o custo das mercadorias vendidas di- vidido pelo estoque médio. O custo das mercadorias vendidasé um numerador mais apropriado do que vendas, porque estas incluem um markup de lucro (re- marcação para cima) que está ausente do estoque. Exceto por esse detalhe, não vejo grandes diferenças entre as definições. Prazo médio de recebimento O prazo médio de recebimento destaca a administração das contas a receber de uma empresa. No caso da Sensient, Período médio de recebimento 5 Contas a receber Vendas a crédito por dia $218,6 $1.328,2/365 5 60,1 dias Aqui surgem as vendas a crédito em vez das vendas líquidas, porque só as ven- das a crédito geram contas a receber. Na qualidade de observador externo, contudo, não sei que parcela das vendas líquidas da Sensient é feita à vista, de modo que presumo que todas sejam a crédito. As vendas a crédito por dia são definidas como as vendas a crédito do período divididas pelo número de dias do período contábil que, no caso de demonstrações anuais, é obviamente de 365 dias. Atenção às empresas sazonais Interpretar índices de empresas sazonais pode ser complicado. Suponhamos que as vendas de uma empresa apresentem pico elevado no Natal, resultando em aumento de contas a receber no fim do ano. Um período médio de recebimento, calculado ingenu- amente por meio da relação entre as contas a receber do fim do ano e a venda diária média do ano inteiro, produzirá um prazo de cobrança que pode parecer muito alto, porque o denominador não é sensível ao pico sazonal de vendas. Para evitar confusão, uma maneira preferível de calcular o período médio de recebimento de uma empresa sazonal é usar as vendas a crédito por dia com base apenas nas vendas dos 60 a 90 dias anteriores. Isso equipara as contas a receber com as vendas a crédito, que efeti- vamente geram os recebíveis. Duas interpretações do período médio de recebimento da Sensient são pos- síveis. Podemos dizer que ela tem em média 60,1 dias de vendas presos nas con- tas a receber, ou podemos dizer que o intervalo médio entre a venda e a respecti- va entrada de caixa é de 60,1 dias. Se quisermos, podemos definir um índice de giro mais simples para as contas a receber como vendas a crédito/contas a receber. Mas o formato de período de recebimento é mais informativo, porque permite comparar o prazo de cobrança de uma empresa com os prazos de pagamento que oferece. Assim, se uma em- Higgins_livro.indb 44 26/11/13 10:40 Capítulo 2 • Avaliação do Desempenho Financeiro 45 presa vender a prazo de 90 dias, um período médio de recebimento de 65 dias é excelente, mas se ela vender a 30 dias, nossa interpretação será completamente diferente. Dias de vendas em caixa O índice dias de vendas em caixa da Sensient é: Dias de vendas em caixa 5 Caixa e títulos Vendas por dia $14,3 $1.328,2/365 5 3,9 dias A Sensient tem 3,9 dias de vendas em caixa e títulos. É difícil dizer de manei- ra genérica se esse montante é apropriado para a empresa ou não. As empresas precisam de quantidades moderadas de caixa para facilitar as transações, e às vezes precisam ter à disposição montantes mais elevados, para servir de saldo de com- pensação de empréstimos bancários. Além disso, o caixa e os títulos negociáveis podem ser uma importante fonte de liquidez em caso de emergência. Assim, a questão de quanto uma empresa deve ter em caixa e títulos muitas vezes está mais ligada à questão mais ampla de quão importante a liquidez é para a empresa, e qual é a melhor maneira de obtê-la. Para fins de comparação, a mediana para as 419 maiores empresas não financeiras no Standard & Poor’s 500 Index, em 2010, foi de 43,4 dias, mais do que o dobro em 2000. Na verdade, a mediana dos dias de vendas entre as 75 empresas de tecnologia da informação no S&P 500 foi de 171,4 dias, com o Google em 435,4 e a Microchip Technology em 467,7. Em comparação, os 3,9 dias da Sensient são minúsculos. Prazo médio de pagamento O prazo médio de pagamento é um índice de controle para um passivo. Nada mais é do que o período de recebimento aplicado às contas a pagar. No caso da Sensient, Prazo médio de pagamento Contas a pagar Compras a crédito por dia $95,9 $876,4/365 39,9 dias A definição apropriada deste índice usa as compras a crédito porque são elas que geram as contas a pagar. Mas um observador externo raramente sabe o mon- tante das compras a crédito, de modo que muitas vezes é necessário aceitar a melhor aproximação: o custo das mercadorias vendidas. Foi o que fiz no caso da Sensient; $876,4 milhões é o custo das mercadorias vendidas, e não o valor de suas compras a crédito. Esse custo pode diferir das compras a crédito por dois motivos. Primeiramente, a empresa pode estar aumentando ou diminuindo seu estoque, ou seja, comprando e vendendo em ritmos diferentes. Em segundo lugar, todas as empresas industriais acrescentam trabalho e depreciação aos materiais no processo produtivo, fazendo o custo das mercadorias vendidas ser maior do que o valor das compras. Por causa dessas diferenças, é compli- cado comparar o período médio de pagamento de uma empresa industrial, com base no custo das mercadorias vendidas, com seus prazos de pagamento de compras. No caso da Sensient, é quase certo que o custo das mercadorias Higgins_livro.indb 45 26/11/13 10:40 46 Parte I • Avaliação da Saúde Financeira da Empresa vendidas superestime as compras a crédito por dia, e que os fornecedores da empresa estejam esperando bem mais do que 39,9 dias, em média, para receber seu pagamento. Giro do ativo fixo Dizemos que as empresas e setores que exigem grandes investimentos em ativos de vida longa para produzir seus bens são empresas de capital intensivo. Como Alavancas de desempenho do Google Em 2010, as alavancas do desempenho do Google – o titã da Internet – proporciona- ram uma leitura instrutiva. Como mostrado na Tabela 2.1, e repetido a seguir, a empresa combinou uma margem de lucro atraente e uma alavancagem financeira conservadora com um giro do ativo incrivelmente baixo de apenas 0,51 vez, para gerar um ROE mo- desto de 18,4%. Esse desempenho é fraco para uma empresa cujas ações são transa- cionadas por um preço mais de 20 vezes maior do que seu lucro e que se afirma como operador dominante da Internet. Como uma empresa da Internet pode gerar um giro do ativo comparável ao de uma siderúrgica ou de uma empresa de serviços públicos? O mistério pode ser explicado pelo balanço do Google. No final do ano fiscal de 2010, em junho, um total de $35 bi- lhões, ou mais da metade dos ativos da empresa, estavam em caixa e títulos negociá- veis. É como se ela tivesse se fundido com um banco de médio porte. E o Google não está só: hoje, manter caixas imensos é uma prática comum entre as principais empre- sas de tecnologia, que dizem ser necessário para financiar o crescimento continuado e facilitar possíveis aquisições – talvez, por exemplo, adquirir o Panamá ou o Estado de Dakota do Sul. Alguns, inclusive Ralph Nader, dizem que isso tem um objetivo mais sinis- tro: manter o dinheiro longe das mãos dos acionistas e evitar impostos. Para nos concentrarmos no desempenho operacional do Google em vez de em sua capacidade de investir o caixa excedente, podemos extrair o caixa e os títulos negociáveis de nossa análise. Para tanto, imagine que a empresa tenha devolvido 90% de seu caixa e títulos negociáveis aos acionistas sob a forma de um enorme pagamen- to de dividendos. Ou, imagine o Google dividido em duas empresas: uma de Internet e outra de fundo de investimento do mercado monetário encarregada de investir 90% do excesso de caixa da empresa. Isso reduziria o ativo e o patrimônio líquido em cerca de $31,5 bilhões, deixando a empresa com sólidos 43,6 dias de vendas em caixa. Admi- tindo um modesto retorno de 2% (após impostos) sobre o caixa e títulos negociáveis, isso etiraria cerca de $630 milhões do lucro líquido. As alavancas de desempenho re- sultantes desse ajuste são as indicadas a seguir. O giro do ativo de 1,11 agora é mais plausível – embora ainda seja baixo – e o ROE atinge vigorosos 53,4%.Esses valores refletem melhor os aspectos econômicos da atividade do Google. Retorno sobre o patrimônio líquido 5 Margem de lucro 3 Giro do ativo 3 Alavancagem financeira Declarado 18,4% 5 29,0% 3 0,51 3 1,25 Revisto 53,4% 5 26,9% 3 1,11 3 1,79 Os totais podem não coincidir devido ao arredondamento. Higgins_livro.indb 46 26/11/13 10:40 Capítulo 2 • Avaliação do Desempenho Financeiro 47 uma parte preponderante de seus custos é fixa, as empresas de capital intensivo, como as montadoras de automóveis e companhias de transportes aéreos, são es- pecialmente sensíveis ao estado da economia, crescendo em períodos de prospe- ridade, quando seu faturamento aumenta com relação aos custos, e sofrendo na mesma medida quando a situação se inverte. A intensidade de capital, também chamada de alavancagem operacional, é preocupante para os credores porque ela amplifica os riscos básicos de negócios enfrentados por uma empresa. O giro do ativo fixo é uma medida da intensidade de capital, sendo que um baixo giro indica elevada intensidade. Em 2010 este índice para a Sensient foi Giro do ativo fixo Vendas Imóveis, instalações e equipamentos líquidos $1.328,2 $432,5 3,1 vezes onde $432,5 milhões são o valor contábil dos imóveis, instalações e equipamen- tos líquidos da Sensient. Alavancagem financeira A terceira alavanca por meio da qual a administração afeta o ROE é a alavan- cagem financeira. A alavancagem financeira de uma empresa aumenta quando ela eleva a proporção de seu endividamento com relação ao capital próprio usado para financiar as atividades. Ao contrário da margem de lucro e do ín- dice de giro do ativo, onde normalmente quanto mais, melhor, a alavancagem financeira não é algo que a administração deseje necessariamente maximizar, mesmo que isso possa elevar o ROE. Pelo contrário, o desafio da alavancagem financeira é atingir um equilíbrio prudente entre os benefícios e os custos do endividamento. Mais adiante, dedicaremos todo o Capítulo 6 a essa im- portante decisão financeira. Por enquanto, basta reconhecer que uma maior alavancagem não é necessariamente preferível a uma menor e que, embora as empresas tenham considerável liberdade para decidir quanta alavancagem fi- nanceira desejam empregar, essa liberdade está sujeita a restrições econômicas e institucionais. Como podemos deduzir da Tabela 2.1, a natureza das atividades e dos ati- vos de uma empresa influencia a alavancagem financeira que ela pode empre- gar. De maneira geral, empresas com fluxos de caixa operacionais altamente previsíveis e estáveis, como a Southern Company, uma concessionária de ener- gia elétrica, podem assumir com segurança uma alavancagem financeira maior do que empresas sujeitas a um alto grau de incerteza em seus mercados, como Adobe System e Google. Além disso, empresas como os bancos comerciais, que têm carteiras diversificadas de ativos líquidos e de venda fácil, também podem usar com segurança uma alavancagem financeira maior do que a das empresas comuns. Outro padrão que se destaca na Tabela 2.1 é que o ROA e a alavanca- gem financeira tendem a estar inversamente relacionados. Empresas com bai- xo ROA geralmente empregam maior financiamento por crédito e vice-versa. Higgins_livro.indb 47 26/11/13 10:40 48 Parte I • Avaliação da Saúde Financeira da Empresa Isso condiz com o parágrafo anterior: investimentos seguros, estáveis e líqui- dos tendem a gerar rendimentos baixos, mas também uma substancial capaci- dade de endividamento. Os bancos comerciais são exemplos extremos desse padrão. O JPMorgan Chase combina um ROA de 0,5%, que seria deplorável pelos padrões industriais, com um astronômico índice de alavancagem finan- ceira de 12,58 gerando um representativo ROE de 10,3%. A chave para essa combinação está na natureza segura e líquida dos ativos do banco. (Os em- préstimos feitos no passado a ditadores do Terceiro Mundo e às companhias energéticas do Texas são, evidentemente, um caso à parte – que o banco ado- raria esquecer.) Os índices a seguir medem a alavancagem financeira, ou capacidade de endi- vidamento, e o conceito correlato de liquidez. Índices do balanço As medidas mais comuns de alavancagem financeira comparam o valor contábil do passivo de uma empresa com o valor contábil de seus ativos, ou de seu patri- mônio líquido. Isso dá origem ao índice dívida/ativo e ao índice dívida/patrimônio líquido, definidos como Índice dívida/ativo Passivo total Ativo total $615,5 $1.599,3 38,5% Índice dívida / patrimônio líquido Passivo total Patrimônio líquido $615,5 $983,8 62,6% O primeiro índice informa que o dinheiro usado para pagar 38,5% dos ativos da Sensient, em termos contábeis, vem de credores de algum tipo. O segundo índice diz a mesma coisa de modo um pouco diferente: os credores proporcio- nam à Sensient 62,6 cents para cada dólar fornecido pelos acionistas. Como de- monstrou a nota de rodapé 1, a alavanca de desempenho anteriormente apresen- tada – o índice ativo/patrimônio líquido – nada mais é do que o índice dívida/ patrimônio líquido mais 1. Como muitas empresas têm acumulado grandes saldos excedentes de cai- xa e títulos negociáveis, os analistas têm cada vez mais substituído a dívida nessas equações com a dívida “líquida”, definida como passivo total menos caixa e títulos negociáveis. A ideia é que como ativos seguros e que rendem juros, excesso de caixa e títulos negociáveis são essencialmente dívida nega- tiva e, portanto, devem ser subtraídos do passivo ao medir o endividamento agregado. Não tenho qualquer objeção a esse ajuste, mas não acredito que seja um problema para a Sensient Technologies, dado o seu dinheiro modesto e o balanço de títulos negociáveis. Índices de cobertura Existem diversas variações das medidas de alavancagem financeira descritas há pouco. Conceitualmente, não há motivo para dar preferência a uma com relação às outras, já que todas se concentram em valores constantes do balanço e, por- Higgins_livro.indb 48 26/11/13 10:40 Capítulo 2 • Avaliação do Desempenho Financeiro 49 tanto, apresentam o mesmo ponto fraco. O ônus financeiro que uma empresa enfrenta ao se financiar por endividamento depende, em última instância, não do porte de seu passivo com relação ao ativo ou ao patrimônio líquido, mas de sua capacidade de fazer frente aos pagamentos anuais que a dívida exige. Podemos ilustrar a diferença com um exemplo simples. Suponhamos que duas empresas, A e B, tenham o mesmo índice dívida/ativo, mas que a empresa A seja muito lu- crativa e que B esteja perdendo dinheiro. O mais provável é que a empresa B tenha dificuldades para honrar suas obrigações anuais de juros e principal, e que A faça frente a elas sem problemas. A conclusão óbvia é a de que os índices do balanço só são realmente importantes no caso de liquidação da empresa, quando os proventos da venda de todos os ativos são distribuídos entre os credores e proprietários. Em todos os demais casos, devemos estar mais interessados na comparação do encargo anual imposto pela dívida com o fluxo de caixa dispo- nível para servi-la. Isso dá origem ao que chamamos de índices de cobertura, entre os quais os mais comuns são o índice de cobertura de juros e o índice de cobertura de encargos financeiros. Sendo EBIT o lucro antes de juros e impostos, esses índices são defi- nidos da seguinte maneira: $173,2 $20,4 (Pagamento do principal) 1 2 Alíquota do imposto Índice de cobertura de juros EBIT Despesa de juros 8,5 vezes Índice de cobertura de encargos financeiros EBIT Juros Não há números que ilustrem o cálculo do índice de encargos financeiros da Sen- sient porque a empresa não tinha obrigações de pagamento do principal em 2010. Os dois índices comparam a renda disponível para o serviço da dívida no numerador com alguma medida da obrigação financeira anual. Nos dois casos, a renda disponível é o EBIT,3 o lucro que a empresa gera e que pode ser usado para fazer pagamentos de juros. O EBIT é estimado antes dosimpostos porque a despesa financeira se dá antes do pagamento dos tributos, e queremos comparar quantidades semelhantes. O índice de cobertura de juros da Sensient significa que, em 2010, a empresa ganhou 8,5 vezes suas obrigações de pagamento de juros; o EBIT foi 8,5 vezes maior do que os juros. Se os dentistas podem dizer, com razão, que se você ignorar seus dentes, eles irão embora mais cedo ou mais tarde, o mesmo não se pode dizer dos pagamen- tos do principal. Se uma empresa deixar de saldar o principal de uma dívida em seu vencimento, o resultado será o mesmo que deixar de fazer um pagamento de juros. Tanto em um caso quanto no outro, a empresa fica inadimplente, e 3 EBIT é o lucro operacional da Tabela 1.3. Uma definição alternativa é lucro antes de impos- tos 1 despesas financeiras. Acredito que a primeira seja superior, porque ignora as despesas não operacionais e vários itens especiais que tendem a ser encargos não recorrentes e não monetários. Higgins_livro.indb 49 26/11/13 10:40 50 Parte I • Avaliação da Saúde Financeira da Empresa os credores podem pedir a sua falência. O índice de cobertura de obrigações financeiras reflete esse fato, expandindo a definição das obrigações financeiras anuais para que ela inclua, além dos juros, o pagamento do principal. Quando incluímos o pagamento do principal nos encargos financeiros de uma empre- sa, precisamos lembrar de expressar o valor antes de impostos, de maneira comparável ao EBIT. Ao contrário dos pagamentos de juros, os pagamentos do principal não podem ser deduzidos dos impostos, isto é, se uma empresa estiver sujeita, digamos, à alíquota de impostos de 50%, deverá ganhar $2 an- tes de impostos para ter $1 após os impostos a fim de pagar seus credores. O outro dólar vai para o coletor de impostos. Nas demais alíquotas, o encargo antes de impostos de um pagamento do principal é encontrado dividindo-se o paga- mento por 1 menos a alíquota do imposto. Esse ajuste do pagamento do prin- cipal a seu equivalente antes de impostos é chamado no jargão de engrossar (grossing up) o principal – o que mostra que finanças nem sempre é coisa fina. Uma pergunta frequente é: qual desses índices de cobertura é mais significa- tivo? A resposta é que os dois são importantes. Se uma empresa pudesse sempre rolar suas obrigações vincendas, contraindo novos empréstimos para pagar os antigos, o encargo líquido da dívida seria simplesmente a despesa de juros, e o índice mais importante seria o índice de cobertura de juros. O problema, do qual lembramos vividamente durante a recente crise financeira, é que a substituição da dívida vincenda por novas dívidas não é uma característica automática dos mercados de capitais. Em alguns casos, quando estes estão nervosos, ou quando a sorte de uma empresa muda para pior, os credores podem se recusar a renovar as obrigações que vencem. Então o encargo da dívida se tornará, subitamente, juros mais principal, e o índice de cobertura de obrigações financeiras assumirá uma importância preponderante. Isso aconteceu no verão de 2007, quando a crescente inadimplência das hi- potecas de alto risco levou alguns credores de curto prazo a exigir o pagamento das hipotecas de empresas de investimento. Estas empresas emitiram dívida de curto prazo para financiar a propriedade de títulos lastreados em hipotecas de longo prazo. Era um bom negócio, desde que os credores voluntariamente rolas- sem os débitos vincendos. Mas no momento em que eles não puderam fazê-lo, teve início um círculo vicioso em que os devedores vendiam seus títulos a preços reduzidos para pagar credores de curto prazo, e estes credores, reagindo à queda dos preços, cada vez mais se recusavam a rolar dívidas vincendas. Em suma, é justo concluir que o índice de cobertura de encargos financeiros é muito conservador, porque supõe que a empresa vai pagar todos os seus em- préstimos existentes; e que o índice de cobertura de juros é muito liberal, pois admite que a empresa sempre vai rolar todas as suas obrigações à medida que vencerem. Índices de alavancagem baseados no valor de mercado Uma terceira família de índices de alavancagem relaciona o passivo de uma em- presa com o valor de mercado de seu patrimônio líquido ou o valor de mercado de seus ativos. Para a Sensient Technologies, em 2010, Higgins_livro.indb 50 26/11/13 10:40 Capítulo 2 • Avaliação do Desempenho Financeiro 51 Valor de mercado da dívida Valor de mercado do ativo Valor de mercado da dívida Valor de mercado do patrimônio líquido Valor de mercado da dívida Número de ações 3 Preço por ação $615,5 $1.821,8 38,5% Valor de mercado da dívida Valor de mercado da dívida 1 patrimônio líquido $615,5 $615,5 1 $1.821,8 25,3% O leitor atento perceberá que admiti, para esses dois índices, que o valor de mercado da dívida é igual ao seu valor contábil. Isso, na verdade, raramente acontece, mas a diferença entre os dois valores é pequena. Além do mais, es- timar com precisão o valor de mercado da dívida muitas vezes revela-se uma tarefa tediosa e demorada que é melhor evitar – a menos, é claro, que você receba por hora de trabalho. Os índices de valor de mercado são evidentemente superiores aos de valor contábil, pelo simples fato de que os valores contábeis são números históricos e frequentemente irrelevantes, ao passo que o valor de mercado indica o verdadei- ro valor da participação de credores e proprietários na empresa. Lembrando que os valores de mercado se baseiam nas expectativas dos investidores quanto aos fluxos de caixa futuros, os índices de alavancagem com base no valor de mercado podem ser considerados índices de cobertura estendidos para diversos exercícios futuros. Em vez de comparar os resultados com os encargos financeiros de um só ano, como fazem os índices de cobertura, os índices de valor de mercado compa- ram o valor presente dos resultados futuros esperados com o valor presente dos encargos financeiros futuros. Os índices de valor de mercado são especialmente úteis na avaliação da alavan- cagem financeira de empresas iniciantes em crescimento acelerado. Mesmo quando essas empresas têm índices de cobertura terríveis ou inexistentes, os credores ainda assim podem lhes conceder crédito de monta se acreditarem que os fluxos de caixa futuros serão suficientes para o serviço da dívida. A McCaw Communications é um exemplo: no fechamento de 1990, a McCaw tinha mais de $5 bilhões em dívidas; um índice dívida/patrimônio líquido, em termos contábeis, de 330%; e despesas financeiras anualizadas de mais de 60% da receita líquida. Além disso, apesar de seu crescimento explosivo, a McCaw jamais apresentara qualquer lucro operacional significativo em sua atividade principal de telefonia celular. Por que, então, credo- res que parecem ser inteligentes concederam à empresa empréstimos no valor de $5 bilhões? Porque eles e os acionistas acreditavam que seria apenas uma questão de tempo até que a empresa começasse a gerar enormes fluxos de caixa. Esse oti- mismo foi generosamente recompensado no final de 1993, quando a AT&T pagou $12,6 bilhões pela McCaw. Incluindo a dívida de $5 bilhões assumida pela AT&T, a aquisição foi, na época, classificada como a segunda maior da história corporativa. Outro exemplo é o da Amazon.com. Em 1998, a empresa registrou seu maior prejuízo de todos os tempos, de $124 milhões, jamais apresentara lucro algum Higgins_livro.indb 51 26/11/13 10:40 52 Parte I • Avaliação da Saúde Financeira da Empresa e tinha apenas $139 milhões restantes de patrimônio líquido. Mas isso não foi motivo de preocupação: os credores ficaram satisfeitos em conceder à empresa $350 milhões em dívida a longo prazo. Eles aparentemente se dispõem a ignorar diversos detalhes incômodos quando o faturamento do devedor aumenta 300% ao ano e o valor de mercado de seu patrimônio líquido supera os $17 bilhões – em especial quando a dívida é conversível em ações. Afinal, em termos de valor de mercado, o índicedívida/patrimônio líquido da Amazon era de apenas 3%. Hoje, o patrimônio líquido da Amazon vale quase $83 bilhões, e livre de dívidas. Os economistas gostam dos índices de alavancagem baseados no valor de mercado porque são indicadores precisos do endividamento de uma empresa em um ponto qualquer do tempo. Mas é preciso ter em mente que os índices de valor de mercado não estão livres de problemas. Um desses problemas é o fato de que eles ignoram os riscos de rolagem. Quando os credores adotam a atitude de exigir pagamento do principal com caixa em vez de promessas de caixa futu- ro, índices modestos de alavancagem de valor de mercado podem ser de pouca valia. Além disso, apesar do apelo conceitual desses índices, poucas empresas os utilizam para estabelecer políticas de financiamento ou monitorar os níveis de endividamento. Isso talvez se deva, em parte, ao fato de que a volatilidade dos preços das ações pode fazer os índices de valor de mercado parecerem um tanto arbitrários e distantes do controle da administração. Índices de liquidez Como vimos, um determinante da capacidade de endividamento de uma empresa é a liquidez de seus ativos. Um ativo é dito líquido se puder ser prontamente conver- tido em caixa, ao passo que um passivo é líquido se tiver que ser pago no futuro pró- ximo. Como demonstrou o fracasso das hipotecas de alto risco, é perigoso financiar ativos sem liquidez, como instalações e equipamentos fixos, com passivos líquidos a curto prazo, já que esses passivos serão devidos antes que os ativos gerem caixa su- ficiente para pagar por eles. Esse “descasamento de vencimentos” faz os devedores rolarem, ou refinanciarem, passivos vincendos para evitar a insolvência. Dois índices comumente usados para medir a liquidez dos ativos de uma empresa com relação à dos seus passivos são o índice de liquidez corrente e o índice de liquidez seca (acid test). Para a Sensient, $ 672,4 $ 205,1 Índice de liquidez corrente Ativo circulante Passivo circulante 3,3 vezes Índice de liquidez seca Ativo circulante 2 Estoque Passivo circulante $ 672,4 2 $392,2 $ 205,1 1,4 vez O índice de liquidez corrente compara os ativos que se transformarão em cai- xa no prazo de um ano com os passivos que serão devidos no mesmo período. Higgins_livro.indb 52 26/11/13 10:40 Encerra aqui o trecho do livro disponibilizado para esta Unidade de Aprendizagem. Na Biblioteca Virtual da Instituição, você encontra a obra na íntegra. GESTÃO DE CUSTOS INDUSTRIAIS Gustavo Antoni Índices de endividamento, de rotação, de rentabilidade e de lucratividade Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: � Listar os principais índices de endividamento, rotação, rentabilidade e lucratividade. � Identificar o endividamento de uma empresa baseado nos relatórios contábeis. � Apurar os índices de rentabilidade e de lucratividade de uma empresa. Introdução A análise da saúde financeira de uma empresa inicia pela avaliação dos demonstrativos contábeis. A tomada de decisão gerencial precisa de informações que vão além dos dados obtidos diretamente dos relatórios. Para obter informações sólidas e relevantes, é necessário saber quais dados precisam ser analisados, de acordo com a visão que se deseja obter. Esses dados analisados de forma mais minuciosa formam índices de desempenho. Os índices podem informar sobre o endividamento da empresa, ou como os recursos e o capital giram nas atividades operacionais. Podem também fornecer informações fundamentais para o sócios, investidores e acionistas da empresa, como a rentabilidade e a lucratividade. Este texto aborda a análise de índices de endividamento, rotação, rentabilidade e lucratividade de uma empresa, sendo que tal análise é feita com base nos dados dos demonstrativos contábeis. Índices de endividamento Os índices de endividamento revelam o grau de endividamento da empresa. A análise desse indicador pode mostrar a política de obtenção de recursos da empresa, isto é, podemos avaliar se a empresa financia o seu ativo com recursos próprios ou de terceiros e em que proporção (TÉLES, 2003). Continue a leitura para conhecer os índices de endividamento geral (EG) e de composição do endividamento (CE), os quais são determinados a partir de dados extraídos do balanço patrimonial. Índice de endividamento geral O índice de endividamento geral (EG) é calculado dividindo-se a soma do passivo circulante (PC) e do passivo não circulante (PNC) pelo ativo total da empresa e multiplicando o valor por 100, para obtenção do valor percentual. Confira a equação: Segundo Limeira et al. (2012), este índice demonstra o grau de endivi- damento de uma empresa, ou seja, identifica se a empresa depende mais do capital próprio ou do capital de terceiros para financiar o seu ativo. Quanto maior o valor do EG, maior é a dependência de empréstimos ou capital de terceiros, logo, maior é o risco oferecido aos bancos na concessão de créditos. Composição do endividamento O índice de composição do endividamento (CE) é calculado dividindo-se o valor do passivo circulante (PC) pela soma do passivo circulante e não circulante (PNC), multiplicando-se o valor por 100, para obtenção do valor percentual. Confira a equação: O índice da composição do endividamento mostra a política adotada pela empresa para captação de recursos de terceiros, ou seja, se a empresa forma sua dívida com maior porcentagem no curto prazo ou no longo prazo. Se a maior parte das dívidas for de curto prazo, maior é o risco que a empresa oferece aos seus credores. Se as dívidas tiverem perfil predominante de longo Gestão de custos industriais148 prazo, a empresa tem uma situação mais confortável, o que indica uma boa política de captação de recursos (LIMEIRA et al., 2012). Para saber mais sobre índices de endi- vidamento, leia o texto Como calcular o índice de endividamento da sua empresa, disponível em: https://goo.gl/ukIC4J Índices de rotação Os índices de rotação, também conhecidos como indicadores de prazo médio, demonstram quanto tempo algumas verbas do patrimônio levam para girar durante o exercício (LIMEIRA et al., 2012). A análise dos prazos médios permite conhecer a estratégia de compra e venda da empresa e analisar se os recursos estão sendo bem administrados. Confira a gora o que são o prazo médio de compras (PMC), o prazo médio de estoques (PME) e o prazo médio de recebimentos (PMR). Prazo médio de compras O prazo médio de compras (PMC) é calculado dividindo-se o valor da conta “Fornecedores” do balanço patrimonial pelo montante de compras, e multiplicando o valor por 360, para obtenção do prazo em dias, como mostra a equação a seguir. Este índice também é conhecido por prazo médio de pagamento e de- monstra qual o tempo médio que a empresa leva para pagar seus fornecedores em função de compras de matérias-primas ou mercadorias. Quanto maior o valor do PMC, melhor será a situação da empresa, pois estará financiando seu giro com recursos de longo prazo e menos onerosos (LIMEIRA et al., 2012). 149Índices de endividamento, de rotação, de rentabilidade e de lucratividade Prazo médio de estoques O prazo médio de estoques (PME) é calculado dividindo-se o valor da conta “Estoques” do balanço patrimonial pelo custo das mercadorias vendidas obtido na DRE, e multiplicando o valor por 360, para obtenção do prazo em dias. Confira a equação: O PME mostra quantos dias a empresa leva para girar seus estoques, em função das vendas, e qual o prazo médio entre a compra e a venda de mercadorias. Prazo médio de recebimentos O prazo médio de recebimentos (PMR) é calculado dividindo-se o valor da conta “Clientes” do balanço patrimonial pela receita líquida obtida na DRE, e multiplicando o valor por 360, para obtenção do prazo em dias. Veja na equação a seguir: O PMR evidencia o tempo que a empresa leva para receber dos seus clien- tes. Quanto menor for este tempo, melhor para a empresa,pois os recursos de clientes reduzem a necessidade de capital de giro, podendo gerar até uma folga no caixa (LIMEIRA et al., 2012). Índices de rentabilidade Os índices de rentabilidade têm por objetivo avaliar a empresa quanto ao seu desempenho final, pois a rentabilidade é o resultado das decisões tomadas Gestão de custos industriais150 pelos gestores e expressa, em termos econômico-financeiros, o grau do êxito atingido (LIMEIRA et al., 2012). A seguir, você vai conhecer os índices de retorno sobre o patrimônio líquido (ROE ou RPL) e o retorno sobre o investimento (ROI ou RI), os quais são calculados com dados obtidos do balanço patrimonial e da DRE. Retorno sobre o patrimônio líquido O índice de retorno sobre o patrimônio líquido (RPL), ou taxa de retorno sobre o patrimônio líquido, é calculado dividindo-se o lucro líquido do exercício pelo patrimônio líquido, como mostra a equação: O retorno sobre o patrimônio líquido mede a rentabilidade do capital próprio investido na empresa, ou seja, mede o quanto o patrimônio líquido cresceu em função do resultado do período. Esse índice é conhecido como return on equity (ROE), que, mesmo sendo uma expressão em inglês, é utilizada no mercado nacional (LIMEIRA et al., 2012). O retorno sobre o patrimônio líquido é o indicador mais importante para quem investe em uma empresa, pois, através dele, pode-se avaliar a remuneração do capital próprio e comparar com outras opções de investimento. Retorno sobre o investimento O índice de retorno sobre o investimento (RI), ou taxa de retorno sobre o investimento (TRI), é calculado dividindo-se o lucro líquido do exercício pelo ativo total. Confira a equação: 151Índices de endividamento, de rotação, de rentabilidade e de lucratividade O retorno sobre o investimento (ROI) indica o quanto a empresa recebe de retorno sobre o investimento total. Esse índice permite avaliar o payback, ou o tempo que leva para recuperar os investimentos realizados na empresa (LIMEIRA et al., 2012). Índices de lucratividade Os índices de lucratividade têm por objetivo avaliar as margens geradas no resultado da empresa, tanto do ponto de vista do produto quanto da eficiência do negócio (LIMEIRA et al., 2012). Confira agora o que é a margem bruta de lucro, a margem operacional de lucro e a margem líquida de lucro, as quais são calculadas com dados obtidos da DRE. Margem bruta de lucro A margem bruta de lucro (MB) é calculada dividindo-se o lucro bruto do exercício pelo total de vendas líquidas, ou receita líquida, e multiplicando o valor por 100, para obtenção do valor percentual. Veja na equação: Conforme Limeira et al. (2012), a margem bruta representa a lucratividade do produto, mercadoria ou serviço prestado pela empresa e mostra o percentual remanescente do faturamento, após a dedução dos custos, para cobrir despesas operacionais e gerar lucro. Se calcularmos a margem bruta conforme a equa- ção e obtivermos, por exemplo, um valor de 70%, isso significa que 70% da receita líquida é lucro e 30% é custo, das mercadorias vendidas, dos produtos vendidos, ou dos serviços prestados (MARION, 2015). Gestão de custos industriais152 Margem operacional de lucro A margem operacional de lucro (MO) é calculada dividindo-se o lucro operacional do exercício pelo total de vendas líquidas, ou receita líquida, e multiplicando o valor por 100, para obtenção do valor percentual. A equação usada é: A margem operacional avalia o retorno operacional da empresa em relação ao fatura- mento líquido e mede a eficiência operacional da empresa na sua atividade principal, ou atividade-fim. Margem líquida de lucro A margem líquida de lucro (ML) é calculada dividindo-se o lucro líquido do exercício pelo ativo total e multiplicando o valor por 100, para obtenção do valor percentual. Confira a equação: A margem líquida quantifica a lucratividade obtida pela empresa ou o retorno líquido. O que diferencia a margem líquida da margem operacional é que a primeira deduz do próprio lucro operacional o resultado das atividades não operacionais, o Imposto de Renda e a contribuição social. 153Índices de endividamento, de rotação, de rentabilidade e de lucratividade TÉLES, C. C. Análise dos demonstrativos contábeis: índices de endividamento. Belém, 2003. Disponível em: <http://www.peritocontador.com.br/artigos/colaboradores/ Artigo_-__ndices_de_Endividamento.pdf>. Acesso em: 16 abr. 2017. Gestão de custos industriais154 CONTROLADORIA AVANÇADA Aline Alves Catalogação na publicação: Poliana Sanchez de Araujo – CRB 10/2094 A474c Alves, Aline. Controladoria avançada / Aline Alves, Cláudia dos Santos Farias ; revisão técnica: Lilian Martins. – Porto Alegre : SAGAH, 2017. 154 p. : il. ; 22,5 cm. ISBN 978-85-9502-092-4 1. Controladoria - Contabilidade. I. Farias, Cláudia dos Santos. II. Título. CDU 657 Revisão técnica: Lilian Martins Especialista em Controladoria e Planejamento Tributário (UNIFIN) Professora do Curso de Ciências Contábeis (Faculdades São Judas Tadeu, FAPA e UniRitter) Coordenadora do Núcleo de Assessoramento Fiscal (NAF) das Faculdades São Judas Tadeu Controladoria Avançada_Iniciais_Impressa.indd 2 28/06/2017 15:19:43 EVA, MVA e EBITDA Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: n De� nir o conceito do Economic Value Added (EVA). n Explicar o método de cálculo do EVA. n Analisar os métodos de cálculo do Market Value Added (MVA). Introdução Você conhece bem os métodos EVA, MVA e Earnings Before Interest, Taxes, Depreciation and Amortization (EBITDA)? Vários métodos foram elaborados, partindo dos tradicionais e chegando aos mais recentes usados na avaliação de gestão, como o EVA, que avalia a performance das organizações e o MVA, técnica usada para medir o desempenho financeiro que permite analisar o resultado, os recursos investidos e a estrutura do capital. Já o EBITDA, corresponde à geração de caixa da empresa e é muito usado por empresas que possuem capital aberto. Neste texto, você irá estudar sobre os métodos EVA, MVA e EBITDA e entender os critérios utilizados para calcular cada um deles. Economic Value Added (valor econômico agregado ou adicionado) O signifi cado do EVA se refere ao conceito de custo de oportunidade ou lucro residual, estabelecido atualmente. Corresponde a um conceito clássico de teoria econômica. Esse conceito afi rma que de fato existe um valor adicionado à organização, caso o lucro líquido posterior ao imposto de renda (IR) seja maior que um determinado custo de oportunidade de capital. O custo de oportunidade de capital se refere ao lucro mínimo que a orga- nização deveria possuir para remunerar, de modo apropriado, o investimento do acionista. Essa rentabilidade mínima do acionista corresponde a um custo de oportunidade. Controladoria Avançada_U4_C12.indd 122 29/06/2017 13:38:31 Caso um acionista invista recursos em outro negócio ou em outra organização, ele possuirá ao menos esse rendimento, ou seja, o valor adicionado só deve ser considerado se o lucro adquirido pelo acionista for superior que um rendimento mínimo de mercado. A aplicação do EVA é sugerida tanto para a rentabilidade do acionista como para a rentabilidade do ativo total. Para que você possa realizar o cálculo do EVA, é necessário observar a seguinte fórmula: EVA = NOPAT – C%(TC) Onde: NOPAT = lucro operacional líquido após os impostos C% = custo percentual do capital TC = capital total Dessa forma, o EVA é caracterizado por representar um conceito de lucro residual. Pode-se considerar lucro ou valor adicionado, todo o valor que exceder uma rentabilidade mínima sobre o investimento. As ferramentas EVA e MVA possuem o intuito de ajustar o conflito de agência e seus custos, levando o proprietário a agir como acionista, ajudando, assim, nas decisões relacionadas aos investimentos. O EVA é divulgado como os 4Ms: measurement,management, motivation and mindset, que correspondem à medição, gestão, motivação e atitude. Veja o detalhamento desse conceito a seguir: n Medição: mostra o acompanhamento mensal do EVA, transformando parâmetros contábeis em econômicos. n Gestão: aponta a precisão de vincular o EVA à tomada de decisão. 123EVA, MVA e EBITDA Controladoria Avançada_U4_C12.indd 123 29/06/2017 13:38:31 n Motivação: aponta a precisão de conversão da conduta dos gestores na conduta de empreendedores. n Atitude: mostra a necessidade de ações e da divulgação de informações referente ao EVA para os acionistas. O EVA, portanto, assim como os outros instrumentos de avaliação e con- trole, é decorrente da estrutura de gestão da organização, segundo a qual a medição, o gerenciamento, a motivação e a atitude podem ser extensamente elaborados ou limitados. O EVA corresponde a um método de uso financeiro, no entanto, sua di- vulgação pode contemplar toda a organização visando à atuação conjunta e sistêmica de todos os que estão envolvidos com a empresa e que buscam o mesmo objetivo. Agregar valor a um negócio somente é possível com a ocorrência de ao menos um dos elementos a seguir: n A taxa de retorno sobre o capital existente é aprimorada, ou seja, são produzidos mais lucros operacionais sem que seja preciso realizar mais investimentos. n O capital adicional é aplicado em projetos nos quais os retornos são superiores ao custo do capital. n O capital é afastado das operações em que os retornos atingidos são menores ao custo de oportunidade do investimento efetuado. Quando se pretende avaliar a organização, é preciso recorrer à extensão de monitoramento de dados e informações, que contempla todos os casos que ocorreram no ambiente empresarial, de essência econômica, financeira ou de produtividade, que estão acumuladas na contabilidade. A empresa que escolher a avaliação pelo método EVA passa a possuir um meio de comunicação extensivo entre os agentes internos e externos e um comprometimento maior da empresa com as ações que adicionam valor ao acionista. O que significa EBITDA? LAJIDA ou EBITDA, como também é denominada, corresponde a um método de análise empresarial, no entanto, se utilizado de modo isolado e sem métodos, não é satisfatório para a análise de uma organização. A sigla EBITDA corres- Controladoria avançada124 Controladoria Avançada_U4_C12.indd 124 29/06/2017 13:38:31 ponde a Earnings Before Interest, Taxes, Depreciation and Amortization, ou seja, lucro antes dos juros, impostos sobre o lucro, depreciação e amortização. A partir da década de 1990, o EBITDA vem sendo cada vez mais usado no momento de avaliar uma empresa, pois esse método apresenta o potencial referente à geração de caixa de um negócio, mostrando a quantia de dinheiro gerado resultante dos ativos operacionais. É importante ressaltar, contudo, que o EBITDA não considera os gastos financeiros. O EBITDA representa um conceito que surgiu devido à grande quantidade de negociações entre as empresas, fusões, cisões, aquisições, entre outras, em diversos ramos, inclusive empresas estatais que são privatizadas, ocorridas nos últimos anos. EBITDA é um indicador que busca mensurar os ativos em longo prazo e o valor econômico agregado, podendo ainda ser usado como indicador facilitador dentro das expectativas financeiras da organização. Trata-se de um método utilizado para mensurar o desempenho das ações empresariais relativas a fluxo de caixa, a fim de auxiliar de modo prático no processo de medir, verificando a capacidade de geração de recursos dos ativos da organização. O plano de internacionalização das empresas por meio de aquisições fora do Brasil, deixou a situação mais complexa. Os métodos de contabilizar de- preciação, dívidas e impostos só podem ser equiparados dentro do mesmo país. Na economia globalizada, os mesmos números apresentam informações diferentes. A depreciação de ativos no Brasil é contabilizada dentro de um período de até dez anos, já nos Estados Unidos esse período é bem menor. O EBITDA não sofre reflexo por variáveis determinadas conforme cada país, como taxas de juros, normas de depreciação e especialmente, as diferenças entre leis tributárias. Esses fatores deixam mais complexas as projeções sobre o futuro da empresa. O EBITDA representa uma variável operacional e se modifica pouco, considerando um ano para outro e de um país para outro também. Por esse fator, corresponde a um método de extrema utilidade quando uma empresa decide comparar-se com um concorrente ou ainda globalizar suas operações. Seu indicador possibilita utilizar o passado para presumir o futuro, o que é algo complexo na contabilidade. Pode-se conciliar as previsões futuras de fluxo de caixa com o resultado alcançado em exercícios passados. Foi devido a essa capacidade de análise que o EBITDA ganhou tanta importância nos últimos tempos. Cálculo do EBITDA A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) prevê na Instrução nº 527/2012 como as organizações devem efetuar o cálculo do EBITDA para fi ns de pu- 125EVA, MVA e EBITDA Controladoria Avançada_U4_C12.indd 125 29/06/2017 13:38:31 blicação. Essa instrução foi desenvolvida em função dos diversos métodos que estavam sendo utilizados no mercado para calcular este valor. Ela é válida para empresas de capital aberto. De acordo com Instrução CVM nº 527, arts. 1º a 10º, alguns aspectos devem ser observados para fins de cálculo do EBITDA (Comissão de Valores Mobiliários, 2012): • Art. 1º Esta Instrução rege a divulgação voluntária pelas companhias abertas de informações denominadas LAJIDA (EBITDA) – Lucro Antes dos Juros, Impostos sobre Renda incluindo Contribuição Social sobre o Lucro Líquido, Depreciação e Amortização e LAJIR (EBIT) – Lucro Antes dos Juros e Impostos sobre a Renda incluindo Contribuição Social sobre o Lucro Líquido. • Art. 2º O cálculo do LAJIDA e do LAJIR deve ter como base os números apresentados nas demonstrações contábeis de propósito geral previstas no Pronunciamento Técnico CPC 26 – Apresentação das Demonstrações Contábeis. § 1º Não podem compor o cálculo do LAJIDA e do LAJIR divulgados ao mercado, valores que não constem das demonstrações contábeis referidas no caput, em especial da demonstração do resultado do exercício. § 2º A divulgação do cálculo do LAJIDA e do LAJIR deve ser acompanhada da conciliação dos valores constantes das demonstrações contábeis referidas no caput. • Art. 3º O cálculo do LAJIDA e do LAJIR não pode excluir quaisquer itens não recorrentes, não operacionais ou de operações descontinuadas e será obtido da seguinte forma: I – LAJIDA - resultado líquido do período, acrescido dos tributos sobre o lucro, das despesas financeiras líquidas das receitas financeiras e das depreciações, amortizações e exaustões; INSTRUÇÃO CVM Nº 527, DE 04 DE OUTUBRO DE 2012 II – LAJIR – resultado líquido do período, acrescido dos tributos sobre o lucro e das despesas financeiras líquidas das receitas financeiras. • Art. 4º A companhia pode optar por divulgar os valores do LAJIDA e do LAJIR excluindo os resultados líquidos vinculados às operações descontinuadas, como especificado no Pronunciamento Técnico CPC 31 – Ativo Não Circulante Mantido para Venda e Operação Descontinuada, e ajustado por outros itens que contribuam para a informação sobre o potencial de geração bruta de caixa. § 1º Os valores referidos no caput devem ser divulgados em conjunto com os valores calculados de acordo com o art. 3º desta Instrução. § 2º Os outros itens referidos no caput somente podem ser usados para ajuste quando constarem dos registros contábeis que serviram de base para a elaboração das demonstrações contábeis do período. § 3º A divulgação dos valores referidos no caput deve ser acompanhada da descrição de sua natureza, bem como da forma de cálculo e da respectiva justificativa para a inclusão do ajuste. Controladoria avançada126 Controladoria Avançada_U4_C12.indd 126 29/06/201713:38:31 127EVA, MVA e EBITDA • Art. 5º A divulgação prevista no art. 4º desta Instrução deve ser sempre identificada pelo termo “ajustado”. • Art. 6º Os administradores da companhia devem dispensar à divulgação das informações de natureza não contábil tratadas nesta Instrução o mesmo tratamento dado à divulgação das informações contábeis. • Art. 7º Toda a divulgação relativa ao LAJIDA ou LAJIR deve ser feita de forma consistente e comparável com a apresentação de períodos anteriores e, em caso de mudança, deve ser apresentada justificativa, bem como a descrição completa da mudança introduzida. • Art. 8º A divulgação dos valores do LAJIDA ou do LAJIR deve ser feita fora do conjunto completo de demonstrações contábeis previsto no pronunciamento Técnico CPC 26 – Apresentação das Demonstrações Contábeis. • Art. 9º A divulgação do cálculo do LAJIDA ou do LAJIR, conforme previstos nos arts. 3º e 4º desta Instrução, devem ser objeto de verificação por parte do auditor independente da companhia nos termos da norma NBC TA 720 emitida pelo Conselho Federal de Contabilidade. INSTRUÇÃO CVM Nº 527, DE 04 DE OUTUBRO DE 2012. • Art. 10 Esta instrução entra em vigor na data de sua publicação, produzindo efeitos nas divulgações relativas ao LAJIDA e ao LAJIR efetuadas a partir de 1º de janeiro de 2013. O percentual adquirido por meio do EBITDA apresenta aos investidores de uma organização específica se ela foi competente ou, ainda, se conseguiu elevar a sua produtividade. O indicador é relevante porque apresenta o valor real de geração de caixa da organização, apontando a quantidade de dinheiro que é de fato gerado pela sua principal atividade. Assim, demonstra o total de recurso gerado por meio da atividade fim da empresa e se ele é satisfatório para investir, saldar os juros sobre capital de terceiros, pagar os tributos que são de responsabilidade da empresa e, também, remunerar os acionistas. Por esse motivo, nas publicações de informações de companhias abertas, normalmente encontramos o indicador EBITDA. Market Value Added (MVA) O MVA corresponde a um método de avaliação de desempenho econômico e de gestores, representando a diferença entre o valor de mercado da organização, ou seja, o quanto seria recebido com a sua venda e o capital aplicado pelo empreendedor. O MVA busca mensurar o valor acumulado de uma organização em todo o seu percurso de acordo com um período específi co. O MVA corresponde ao nível de eficácia da atuação dos gestores na administração dos recursos que eles possuem controle. Na ocorrência da organização evidenciar um MVA positivo, significa que os gestores agregaram valor ao negócio. No entanto, se o MVA for negativo, aponta que o capital aplicado está sendo consumido. O MVA representa, portanto, uma medida de desempenho corporativo acumulado. Demonstra como a empresa aplicou de forma eficiente o capital em um período passado e como estão suas expectativas de evolução e de investimentos futuros, pois demonstra as aplicações realizadas, os resultados e a expectativa do valor que será gerado. O MVA demonstra a expressão monetária, referente à evolução da riqueza dos que estão sob posse do capital, definido pela capacidade operacional da organização em gerar resultados elevados ao seu custo de oportunidade. Corresponde a uma avaliação futura, calculada com base na perspectiva do mercado referente à capacidade apresentada pelo empreendimento em gerar valor. Dessa forma, o MVA pode ser calculado pela diferença entre o valor de mercado da organização e o total de capital aplicado pelos acionistas e credores. O valor evidenciado pelo MVA está vinculado ao futuro potencial do EVA de uma organização, da mesma maneira que, quando o valor concedido às pers- pectivas dos credores e acionistas atinge o valor dos investimentos realizados, pode-se afirmar que há uma geração de riqueza, ou também MVA positivo. Entendendo melhor o Market Value Added O MVA é a diferença entre o valor de mercado da organização (considerando o capital próprio e também o de terceiros) e o capital total aplicado pela organização. Veja a fórmula utilizada: MVA = VALOR DE MERCADO – CAPITAL APLICADO Controladoria Avançada_U4_C12.indd 127 29/06/2017 13:38:31 Controladoria avançada128 O MVA contempla a riqueza em termos monetários. A fim de um melhor entendimento sobre o MVA, quando o EVA for positivo, em consequência o MVA será reduzido. Assim, as perspectivas futuras de EVA positivo, isto é, a evolução da riqueza dos acionistas, induz ao MVA positivo atual da organização. Há sete anos, uma organização aplicou R$ 200 milhões em outra empresa que possuía risco semelhante. Se o custo do capital próprio era de 15%, isso resultaria em uma probabilidade de renda de 15% ao ano, ou seja, no término dos sete anos, o investidor aguardaria ter R$ 200 × (1,15)7 = 532.004 milhões. Imagine que a empresa valia R$ 160 milhões conforme o mercado. Seria correto afirmar que após a situação apresentada houve geração de valor? A resposta é não, pois para remunerar o capital investido nesta empresa, ela deveria valer pelo menos R$ 200 milhões que é o valor investido. Portanto, considerando a fórmula do MVA, não contempla o custo de oportunidade do capital aplicado na organização De todo modo, o MVA é considerado um importante instrumento de medida de desempenho, desde que usado adequadamente. O gestor que o utilizar esse método deve ter bem claro o objetivo que pretende atingir, fazendo uso ou tomando suas decisões com o mesmo embasamento. A controladoria disponibiliza informações para a tomada de decisão, assim como o uso de um instrumento específico para a avaliação e acompanhamento (o MVA), especificando o quanto o seu uso pode ser benéfico. Não sendo tão vantajoso, é necessário verificar outras técnicas, que combinadas a ela poderão possibilitar opções que direcionem a decisões saudáveis para organização. Na escolha pelo método MVA, a organização estará também verificando a expectativa do mercado relacionado aos esforços efetuados pela organização. Entretanto, vale ressaltar que esses métodos de avaliação tendem a modificar a conduta da empresa, a direcionando para um aspecto sistêmico econômico, de modo que a fixação pela evolução empresarial desconsidere qualquer outro objetivo. Por meio da análise do controle empresarial, o modelo de gestão deve per- mitir situações apropriadas para que exista um ambiente propício à efetivação e à elaboração de sistemas e outros métodos de controle. A controladoria pode agir de modo sistêmico, tendo como atividade principal a comunicação de informações aos gestores na ocasião conveniente, em que estas forem solici- tadas e com alto grau de credibilidade, conforme é esperado. Controladoria Avançada_U4_C12.indd 128 29/06/2017 13:38:31 128EVA, MVA e EBITDA COMISSÃO DE VALORES MOBILIÁRIOS. Instrução CVM 527. Rio de Janeiro: CVM, 2012. Disponível em: <http://www.cvm.gov.br/legislacao/inst/inst527.html>. Acesso em: 02 jun. 2017. Leituras recomendadas BLATT, A. Análise de balanços: estrutura e avaliação das demonstrações financeiras e contábeis. São Paulo: Makron, 2001. CHING, H. Y.; MARQUES, F.; PRADO, L. Contabilidade e finanças para não especialistas. 2. ed. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2007. CREPALDI, S. A. Contabilidade gerencial: teoria e prática. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2008. MARTELANC, R.; PASIN, R.; CAVALCANTE, F. Avaliação de empresas: um guia para fusões e aquisições e gestão de valor. São Paulo: Prentice Hall, 2005. NASCIMENTO, A. M.; REGINATO, L. Controladoria: um enfoque na eficácia organiza- cional. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2009. PADOVEZE, C. L. Controladoria básica. 2. ed. São Paulo: Cengage Learning, 2010. Referência Controladoria Avançada_U4_C12.indd 130 29/06/2017 13:38:33 Controladoria avançada129 CONTROLADORIA AVANÇADA Aline Alves Catalogação na publicação: Poliana Sanchez de Araujo – CRB 10/2094 A474c Alves, Aline. Controladoriaavançada / Aline Alves, Cláudia dos Santos Farias ; revisão técnica: Lilian Martins. – Porto Alegre : SAGAH, 2017. 154 p. : il. ; 22,5 cm. ISBN 978-85-9502-092-4 1. Controladoria - Contabilidade. I. Farias, Cláudia dos Santos. II. Título. CDU 657 Revisão técnica: Lilian Martins Especialista em Controladoria e Planejamento Tributário (UNIFIN) Professora do Curso de Ciências Contábeis (Faculdades São Judas Tadeu, FAPA e UniRitter) Coordenadora do Núcleo de Assessoramento Fiscal (NAF) das Faculdades São Judas Tadeu Controladoria Avançada_Iniciais_Impressa.indd 2 28/06/2017 15:19:43 Vantagens e desvantagens da adoção do orçamento na empresa Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: n Apontar as responsabilidades empresariais por meio do planejamento orçamentário. n De� nir os critérios e as responsabilidades para a estimativa de gastos empresariais. n Identi� car a importância do orçamento empresarial para o controle � nanceiro. Introdução Você sabe qual a real importância do orçamento empresarial? O orça- mento é um relevante instrumento de planejamento e controle das operações da organização, independentemente de sua segmentação, natureza ou porte. Por meio do orçamento é possível prever como devem prosseguir as operações da empresa, normalmente considerando um período mínimo de um ano, permitindo uma visão bem próxima do futuro da organização. Neste texto, você irá estudar sobre as vantagens e as desvantagens do uso de orçamento nas empresas. Você estudará, também, sobre a relevância da participação dos gestores na elaboração do orçamento e a sua influência sobre o controle financeiro. Controladoria Avançada_U3_C07.indd 69 28/06/2017 15:09:38 Planejamento orçamentário empresarial O processo de gestão corresponde ao ciclo das ações administrativas de pla- nejamento, execução e controle, e a estrutura orçamentária precisa estar em harmonia com o modelo de gestão. O orçamento representa um plano financeiro usado para implementar a estra- tégia organizacional para um exercício específico. Representa muito mais que uma estimativa, pois deve ter como base a responsabilidade dos gestores em relação às metas que precisam ser atingidas. O processo orçamentário faz os gestores quantificarem e especificarem as datas para as ações sobre as quais eles possuem responsabilidades e estão comprometidos com a cobrança dos resultados. Para que o planejamento orçamentário tenha êxito, é preciso saber aplica-lo na empresa, usando ações adequadas e os conhecimentos necessários na sua execução. O orçamento empresarial contém as preferências e a direção da organização para um período determinado e favorece condições de avaliação de desempenho da empresa, de seus setores e gestores. Veja, de modo resumido, os fundamentos do sistema orçamentário: n Envolvimento de gerentes da empresa: é necessário que eles tenham grande parte na participação do processo de planejamento e controle, pois, assim, se obtém o seu engajamento. n Comunicação completa: é preciso que exista conformidade entre os sistemas de informação, a tomada de decisão e o modelo empresarial. n Perspectivas reais: é necessário que o sistema apresente metas desa- fiadoras para que seja incentivador, no entanto, essas metas devem ser possíveis de ser atingidas. n Execução adaptável: a valorização do sistema orçamentário está no processo de criar planos, assim, o sistema deve possibilitar a correção e os ajustes, como a revisão de valores e de planos. n Identificação do estímulo particular e de grupos: o sistema orçamen- tário representa uma das mais significativas ferramentas de avaliação de desempenho. A participação dos gestores é de extrema importância na elaboração do orçamento, que é gerado de acordo com as características e as ações dos gestores responsáveis pelo processo. Controladoria avançada70 Controladoria Avançada_U3_C07.indd 70 28/06/2017 15:09:38 O orçamento empresarial pode ser considerado um dos pilares da gestão e um ins- trumento essencial para o accountability. Métodos usados para elaborar o orçamento empresarial O orçamento surge a partir da decisão de aplicar e utilizar uma ferramenta que favorecerá a gestão e servirá como controle. Desse modo, a elaboração inicial de um orçamento deve observar alguns critérios mínimos, por exemplo: a) O desenvolvimento do orçamento deve estar traçado na contri- buição dos gestores e dos responsáveis por setores específicos da organização. b) É importante que o orçamento seja flexível e dinâmico, permitindo que possam ser realizados ajustes aos desvios, alinhando o previsto com o realizado. c) É preciso que o orçamento seja elaborado prevendo cenários tanto favoráveis como desfavoráveis, permitindo, assim, definir planos de ação acessórios. d) Deve haver conformidade do orçamento com os objetivos traçados pela empresa. É necessário verificar o modelo básico de um orçamento a ser de- senvolvido. A estrutura precisa envolver planos e previsões financeiras de receitas e despesas para um espaço de tempo específico, em conformidade com as ações financeiras e as ações operacionais, criando, desse modo, um plano operacional, que precisa contemplar: orçamento de vendas, orçamento de logística, orçamento de fabricação, orçamento de gastos (custos e despesas) e orçamento financeiro, conforme você pode ver na Figura 1. 71Vantagens e desvantagens da adoção do orçamento na empresa Controladoria Avançada_U3_C07.indd 71 28/06/2017 15:09:39 Figura 1. Orçamento operacional. Fonte: Adaptada de Guindani et al. (2012, p. 78). Entendendo o planejamento orçamentário Para compreender o planejamento orçamentário, é preciso que você conheça cada um dos tipos de orçamento, conforme detalhado a seguir. n Orçamento de vendas: precisa prever uma provável relação de demanda, usando como base a pesquisa de mercado, em que será apresentada a dimensão do mercado consumidor de um respectivo bem ou serviço, para que seja possível definir as estratégias adequadas. n Orçamento de logística: tem como base as necessidades evidenciadas no orçamento de vendas, observando o fornecimento de insumos, es- toque de materiais e distribuição necessários para o desenvolvimento do orçamento de fabricação. n Orçamento de fabricação: precisa prever a possibilidade estrutural referente à tecnologia e mão de obra, além de cumprir as demandas do orçamento de vendas. Sua elaboração deve estar embasada no mape- amento de modelos existentes, facilitando o reconhecimento de limi- tações, auxiliando na tomada de decisão referente aos investimentos estruturais, tecnologia ou, ainda, pessoal. n Orçamento de gastos: contempla custos, despesas e investimentos, e precisa ser elaborado embasado nas ações dos outros orçamentos, considerando os gastos administrativos, operacionais e de investimentos precisos à operação, como de máquinas e equipamentos, salários e encargos, entre outros. n Orçamento financeiro: é desenvolvido por meio das informações do orçamento de gastos, sendo verificado com as estimativas quantita- tivas de vendas, definindo uma perspectiva de verificação relativa à viabilidade financeira. Controladoria avançada72 Controladoria Avançada_U3_C07.indd 72 28/06/2017 15:09:39 O orçamento de gastos precisa ser estruturado em conformidade com o método de custeio usado pela organização, já que a espécie de classificação entre custos, despesas e investimentos varia conforme o método aplicado. Os métodos de custeio são denominados custeio por absorção, custeio por atividade (ABC) e custeio direto ou variável. O orçamento financeiro pode ser usado como base para criação de projeções de resultado, permitindo relacionar dois métodos de monitoramento, entre eles, o controle de caixa e o controle de resultado. Algumas organizações integram à estrutura de planejamento orçamen- tário o conceito de sistema de autorização degastos, ou seja, se existe recurso aprovado via orçamento de despesas, não será preciso que o gestor responsável solicite autorização para fazer uso desse recurso liberado antecipadamente. Um supervisor possui R$ 6.000,00 disponível para despesas com capacitações dos colaboradores, desse modo, ele poderá gastar até o limite desse valor sem que seja necessário pedir autorização a um diretor, por exemplo, ou superior acima dele no nível hierárquico. Algumas empresas exigem que o supervisor faça uso de todo o recurso programado para a despesa que foi definida, para que não seja prejudicada a avaliação de desempenho. Existem casos de empresas que trabalham com outros métodos, prevendo que para gastos específicos, ou que estejam acima da importância estipulada, seja necessária uma solicitação de confirmação para que o recurso possa ser utilizado, mesmo que ele já esteja dentro do orçamento empresarial. Uma organização possui previsto no orçamento gastos com propaganda e publicidade referente a um período, no entanto, é preciso que o supervisor responsável pelo gasto solicite novamente uma autorização para que esse recurso seja usado. 73Vantagens e desvantagens da adoção do orçamento na empresa Controladoria Avançada_U3_C07.indd 73 28/06/2017 15:09:39 Você pode compreender o orçamento como uma ferramenta de gestão que a empresa possui e que tem por finalidade o planejamento, a prática e o controle do processo para elevar a riqueza empresarial e dos acionistas ou proprietários, resultante da geração de lucro. Entendendo a relevância do planejamento orçamentário Existem muitas críticas ao orçamento, no entanto ele é uma das principais ferramentas de controladoria, e sua utilização na empresa apresenta bons resultados. As principais críticas com relação ao orçamento são: n Pode gerar frustração ao processo de gestão, referente aos resultados alcançados no processo. n Fixação do plano traçado, impossibilitando a criatividade e a iniciativa de gestores, podendo gerar conformismo e insatisfação. n Dificuldade para adquirir dados quantitativos para futuras previsões. n Pode gerar rotinas contábeis em excesso e, assim, desperdiçar tempo. Pode ocorrer o engessamento das ações organizacionais, porém, também demonstra que a empresa possui gestores sem capacitação adequada para lidar com essa situação. Contudo, é muito importante que você saiba reconhecer os benefícios do planejamento orçamentário, entre eles: n Por meio do orçamento é possível transmitir o planejamento financeiro para toda a empresa. n Mediante o orçamento empresarial, gerentes são impostos a planejar e a refletir sobre o futuro. n O orçamento favorece um meio de designar recursos da organização, de modo que eles possam ser empregados de forma eficaz. n Por intermédio do orçamento ocorre a coordenação das ações de toda a empresa, mediante a interação dos planos de várias partes. O desen- volvimento do orçamento permite que todos na empresa trabalhem em busca dos mesmos objetivos. n Pelo orçamento são determinados os objetivos que podem funcionar como indicativos para a avaliação de desempenho. Um dos benefícios do orçamento empresarial está relacionado à comu- nicação apropriada de ações das políticas, das instruções fornecidas pela Controladoria avançada74 Controladoria Avançada_U3_C07.indd 74 28/06/2017 15:09:39 administração e da definição de metas. Ele possibilita que a empresa tenha uma visão antecipada das ações que devem ser aplicadas e os recursos precisos. No entanto, sua finalidade não é somente prever o que será gasto, mas também definir e traçar os objetivos das áreas da empresa. Por fim, você precisa também conhecer as desvantagens do orçamento, entre elas: a) Os resultados podem evidenciar mudanças, por se tratar de projeções ou de previsões. b) A necessidade contínua de melhoria no processo e nas técnicas utilizadas. c) O êxito da aplicação orçamentária depende do empenho constante dos gestores. d) A verificação do orçamento não pode acontecer de forma isolada para a gestão. Muitas empresas cometem falhas no uso do orçamento para a melhoria do processo empresarial, pelo fato de não utilizar esse instrumento para aprimorar a comunicação e a orientação entre os níveis da empresa. 75Vantagens e desvantagens da adoção do orçamento na empresa Controladoria Avançada_U3_C07.indd 75 28/06/2017 15:09:39 GUINDANI, A. A. et al. Planejamento estratégico orçamentário. Curitiba: InterSaberes, 2012. Leituras recomendadas FERREIRA, J. A. S. Finanças corporativas: conceitos e aplicações. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2005. FIGUEIREDO, S.; CAGGIANO, P. C. Controladoria: teoria e prática. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2008. FREZATTI, F. Orçamento empresarial: planejamento e controle gerencial. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2009. MACEDO, J. J. Análise de projeto e orçamento empresarial. Curitiba: InterSaberes, 2013. PADOVEZE, C. L.; TARANTO, F. C. Orçamento empresarial: novos conceitos e técnicas. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2009. Referência 77Vantagens e desvantagens da adoção do orçamento na empresa Controladoria Avançada_U3_C07.indd 77 28/06/2017 15:09:41 Encerra aqui o trecho do livro disponibilizado para esta Unidade de Aprendizagem. Na Biblioteca Virtual da Instituição, você encontra a obra na íntegra. CONTROLADORIA AVANÇADA Aline Alves Catalogação na publicação: Poliana Sanchez de Araujo – CRB 10/2094 A474c Alves, Aline. Controladoria avançada / Aline Alves, Cláudia dos Santos Farias ; revisão técnica: Lilian Martins. – Porto Alegre : SAGAH, 2017. 154 p. : il. ; 22,5 cm. ISBN 978-85-9502-092-4 1. Controladoria - Contabilidade. I. Farias, Cláudia dos Santos. II. Título. CDU 657 Revisão técnica: Lilian Martins Especialista em Controladoria e Planejamento Tributário (UNIFIN) Professora do Curso de Ciências Contábeis (Faculdades São Judas Tadeu, FAPA e UniRitter) Coordenadora do Núcleo de Assessoramento Fiscal (NAF) das Faculdades São Judas Tadeu Controladoria Avançada_Iniciais_Impressa.indd 2 28/06/2017 15:19:43 O resultado econômico como decorrência das ações dos gestores Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: n Descrever a composição do resultado econômico. n Identi� car as ações da gestão que in� uenciam no resultado econômico. n Reconhecer o processo de mensuração do resultado econômico. Introdução Você sabe como é formado o resultado econômico de uma organização? O resultado econômico é constituído pelos resultados econômicos das áreas que o contemplam. Essas áreas são estabelecidas como centros de responsabilidade, isto é, têm um gestor que possui responsabilidades exclusivas sobre atividades específicas. Os resultados das áreas, no entanto, são constituídos pelos resultados propiciados pelas ações que controlam. Neste texto, você vai estudar sobre a constituição do resultado eco- nômico, entendendo de modo claro o papel do gestor e seus efeitos. Composição do resultado econômico O resultado econômico empresarial é constituído pelos resultados econômicos dos setores que o compõem. Esses setores são determinados como centros de responsabilidade, portanto, devem ter um gestor exclusivo, que possua res- ponsabilidade sobre algumas ações específi cas. Os resultados dos setores são constituídos pelos resultados ajustados mediante às ações que os gerenciam. O resultado de uma atividade é formado por meio do resultado de eventos necessários para a sua execução, como a aquisição, a produção, as vendas, Controladoria Avançada_U4_C14.indd 146 28/06/2017 15:12:56 entre outros. Pelo fato de influenciarem a situação patrimonial da organização, tais eventos são conhecidos por eventos econômicos. Um evento econômico contempla um conjunto de operações que possuem a mesma essência, nas quais o reflexo econômico pode ser avaliado do mesmo modo. A operação equivale,consequentemente, ao menor grau em que pode ser apontado o resultado econômico. Os resultados econômicos das operações podem ser acumulados conforme os eventos, os produtos, as atividades, os setores e a organização. Dessa maneira, demonstra-se onde, como e quando são constituídos os resultados da organi- zação, treinando seus gestores para a melhoria dos resultados de suas decisões. O modelo de decisão do setor de produção tem por finalidade favorecer as decisões operacionais. Os efeitos das decisões tomadas nos resultados econômicos dos setores da empresa precisam ser mensurados. Tratando-se de um modelo próprio para indústrias, ele deve oferecer aos gestores indicadores referentes aos efeitos econômicos das decisões por eles tomadas. Analise, a seguir, a estrutura sugerida para a área produtiva, com base em resultado econômico, com a seguinte composição: Definição do resultado econômico para o setor de produção Receita dos produtos e serviços (−) Custos variáveis ■ Custos dos insumos ■ Outros custos (=) Margem de contribuição de produtos e serviços (+) Receita financeira dos produtos e serviços (−) Custo financeiro (=) Resultado financeiro dos produtos e serviços (−) Custo fixo da área de produção (=) Resultado econômico da área de produção O resultado econômico representa um indicador de política pública que possibilita aos gestores e à sociedade mensurar de forma objetiva se o ca- 147O resultado econômico como decorrência das ações dos gestores Controladoria Avançada_U4_C14.indd 147 28/06/2017 15:12:56 pital público aplicado em programas governamentais produz resultados de interesse da população, ou seja, se o retorno é maior que os recursos que foram gastos. É um indicador importante para demonstrar as ações ou serviços que adicionam maior valor para a população daqueles que gastam recursos e não fornecem grau de retorno ajustado com o investimento, ou gasto com tributos. Fatores que influenciam no resultado econômico das empresas públicas e das empresas privadas O resultado total da organização é constituído pelos resultados analíticos das várias operações que representam a materialização das atuações dos gestores. Portanto, o grau de qualidade da atuação do gestor é um aspecto decisivo relativo ao nível de melhoria do resultado. Os gestores precisam de motivações e incentivos para fazer escolhas e tomar as decisões mais adequadas para a empresa. Com isso, é necessário um modelo de gestão que integre um conjunto de convicções, valores e definições que impulsione a capacidade gerencial, incluindo a criatividade, a cooperação, o potencial, entre outros. O sistema Gestão Econômica (GECON) recomenda a relevância de possi- bilitar um ambiente organizacional com base em incentivos, compromissos e no desenvolvimento de pessoas, principalmente dos gestores. É preciso que os gestores sejam avaliados pelas decisões que aplicam e por meio das variáveis que estão sob seu domínio. Os gestores representam pessoas confiáveis da empresa, assim, devem colocar os interesses totais da empresa acima dos interesses individuais do seu setor. Os gestores devem alcançar os objetivos estimados por meio do atingimento dos resultados econômicos idealizados, observando que a elevação dos resul- tados por áreas não direciona ao resultado total superior. Vale ressaltar que no âmbito em que há delegação de domínio, cada área é responsável por seus negócios, considerando o planejamento, a aplicação e o monitoramento, não deixando lugar para políticas punitivas pela alta administração nem podendo existir causas por parte dos gestores. O setor de finanças é julgado de forma tão operacional como uma área de produção industrial, que exerce suas ações de maneira determinada, considerando a captação e a execução de recursos, gestão de exigíveis e Controladoria avançada148 Controladoria Avançada_U4_C14.indd 148 28/06/2017 15:12:56 recebíveis, entre outros, que tenham finalidades econômicas para serem alcançadas. A controladoria efetua a coordenação de processo de planejamento de vários setores e atividades, visando ao maior desempenho econômico empresarial de modo geral. A controladoria também possibilita a atuação dos gestores em vários setores, conservando um sistema de informação econômico-financeiro que favorece todas as etapas do processo decisório, de maneira que os gestores aprimorem o resultado dos fatos. Realiza também o controle dos desempe- nhos, buscando garantir que o resultado econômico total planejado seja de fato alcançado. A função do gestor envolve dois compromissos: um em relação à área que está sob seu comando e o outro relacionado à organização de modo geral. A divisão da empresa em vários setores de responsabilidades e o compro- metimento em medir o resultado econômico, fornece um modelo apropriado à área de produção, por exemplo. O ambiente concorrente permite reco- nhecer os reflexos econômicos nas operações efetuadas pelo setor e, dessa forma, tomar decisões buscando a melhoria do resultado econômico junto das metas globais da organização. Por meio do processo de planejamento e monitoramento é demonstrada a função que os gestores têm sobre as ações da organização em geral e a inter-relação com os demais setores de responsabilidade. Todos os setores devem ser mensurados separadamente e precisam colaborar para a constituição do resultado econômico geral da empresa. Mensuração do resultado econômico Quando os gestores decidem sobre os eventos econômicos, ou seja, aquisi- ções, produção, estoques, entre outros, eles precisam apontar as melhores opções econômicas para a organização, de forma que as opções sob sua responsabilidade colaborem de modo benéfi co para o resultado total da empresa. Todas as ações da organização necessitam colaborar de forma positiva para seu resultado. É preciso que a gestão esteja direcionada para a rentabilidade, o que exige sistemas de informações que apoiem, de maneira apropriada, às decisões dos gestores, com informações referentes aos resultados econômicos das transações, ações, clientes e ramos relativos ao setor que estiver sob sua responsabilidade. Dessa forma, possibilitando que os gestores atuem conti- nuamente objetivando a eficiência e eficácia das ações. 149O resultado econômico como decorrência das ações dos gestores Controladoria Avançada_U4_C14.indd 149 28/06/2017 15:12:56 A função dos gestores é fazer com que as coisas ocorram, ou seja, não devem aguardar cobranças ou serem direcionados para que efetuem tarefas que são de sua respon- sabilidade e restritas ao seu setor. O gestor corresponde a um empreendedor e age como se estivesse cuidando do seu próprio negócio. O gestor é na verdade um empreendedor que atua como se fosse dono do próprio negócio, sendo assim, trata os setores internos como organizações independentes. O resultado econômico, quando mensurado adequadamente, corresponde a melhor medida de desempenho, já que permite aos gestores a verificação correta das metas atingidas em termos monetários, isto é, se refere a avaliar o que de fato ocorreu ou foi efetuado pelos gestores, apresentando o nível de acertos dos seus planejamentos e das decisões tomadas. O êxito das organizações será espelho da qualidade da tomada de decisões. Assim como a adoção das melhores opções em todos os setores, o planejamento e o controle pertencem ao processo de gestão. Você pode analisar, a seguir, as dimensões necessárias ao método de mensuração, para que ele ocorra de modo apropriado: n Dimensão operacional: se refere aos elementos físicos dos eventos, isto é, a quantidade de serviços e mercadorias produzidas, a quantidade de recursos absorvidos, a qualidade e o atendimento de prazos. n Dimensão econômica: a quantidade real de recursos absorvidos, assim como gerar produtos, é imposta a um método de mensuração econômica, que se caracteriza pelo uso de valores de mercado na circunstância de pagamento à vista. Os valores econômicos dos recursosutilizados se referem aos custos e aos valores econômicos dos produtos, e os serviços produzidos contemplam às receitas. Sendo assim, pode-se verificar que qualquer ação demonstra um resultado econômico operacional. n Dimensão financeira: os valores e os recursos utilizados no processo de aplicação da ação devem ser consumidos conforme um prazo determi- nado. O prazo pode ser inexistente, isto é, o desembolso do pagamento do recurso pode ser realizado no dia em que se efetua o consumo, ou o pagamento precisa acontecer futuramente, por exemplo, em um período estimado de 30 dias. O mesmo acontece com as mercadorias Controladoria avançada150 Controladoria Avançada_U4_C14.indd 150 28/06/2017 15:12:56 produzidas, ou seja, a receita pode ser auferida à vista ou em 30 dias, ou também ser auferida de modo antecipado. Independentemente dos prazos, a atividade apresenta um fluxo de recebimento e pagamento. O fluxo financeiro da atividade gera receitas e custos financeiros, identificando o resultado econômico-financeiro da atividade. n Dimensão patrimonial: apresenta a variação nas contas patrimoniais entre os intervalos de tempo t0 e t1, em virtude dos reflexos financeiros e econômicos relativos aos eventos econômicos. Considerando que tais eventos estejam mensurados de modo correto, quanto ao momento de ocorrência e aos reflexos temporais/conjunturais, a mutação apurada no patrimônio líquido estará apontando o resultado econômico rece- bido no período. O patrimônio líquido resultante em t1, em virtude dos efeitos dos eventos no fluxo patrimonial, apresenta o valor de custo da empresa. Desse modo, o fluxo patrimonial reflete o resultado das decisões tomadas e aplicadas pelos gestores. 151O resultado econômico como decorrência das ações dos gestores Controladoria Avançada_U4_C14.indd 151 28/06/2017 15:12:56 1. Analise as afirmativas referente ao resultado econômico e assinale a correta. a) O resultado de uma atividade é formado mediante ao resultado de eventos precisos para efetuá-la, por exemplo, a contratação de colaboradores. b) Os resultados das áreas são formados por meio dos resultados que não foram corrigidos. c) O resultado econômico empresarial é constituído pelos resultados econômicos dos setores que o compõem. d) Pelo fato de refletirem a posição patrimonial da organização, os eventos são conhecidos por mercados financeiros. e) A operação corresponde ao maior nível em que pode ser apontado o resultado econômico. 2. Dentro do modelo apresentado referente à definição do resultado econômico para o setor de produção, analise e indique a resposta correta. a) Dentro do modelo apresentado, logo após a dedução do custo financeiro está apresentado o resultado financeiro de clientes. b) Os custos variáveis contemplam os custos de insumos e outros custos. c) A margem de contribuição de produtos e serviços corresponde ao resultado após as deduções da receita dos fornecedores. d) A receita financeira dos produtos financeiros deve representar valores negativos na estrutura apresentada. e) Posterior à dedução do custo variável da área de produção, é apresentado o resultado econômico da área de produção. 3. Com relação aos fatores que influenciam no resultado econômico, avalie e indique a alternativa correta. a) O resultado total da organização é constituído somente pelos resultados sintéticos das várias operações. b) O nível de qualidade da ação do gestor é um fator decisivo em relação ao nível de melhoria do resultado. c) Não são necessárias motivações para que os gestores tomem as decisões corretas e façam as escolhas apropriadas para a empresa. d) É necessário avaliar os gestores por meio das decisões que aplicam e ainda pelas variáveis que fugiram do seu controle. e) Os gestores não são considerados pessoas confiáveis da empresa. 4. Avalie as afirmativas e indique a correta. a) Os gestores devem aguardar que a empresa cobre deles suas funções, para que as coisas aconteçam. b) O gestor trata os setores externos como organizações independentes. c) É necessário que a gestão esteja orientada para a rentabilidade, o que impõe Controladoria avançada152 Controladoria Avançada_U4_C14.indd 152 28/06/2017 15:12:57 CATELLI, A. et al. Controladoria: uma abordagem da gestão econômica - GECON. 2. ed. São Paulo: Atlas, 1999. HIGA, N.; ALTOÉ, S. M. L. Contabilidade em processo: da escrituração à controladoria. Curitiba: InterSaberes, 2015. (Série Gestão Financeira). Leituras recomendadas sistemas de informações que apoiem de maneira correta às decisões dos gestores. d) O resultado econômico, quando não medido corretamente, representa a melhor medida de desempenho. e) Nem sempre o sucesso das organizações será espelho da qualidade da tomada de decisões. 5. Referente às dimensões precisas ao processo de mensuração, avalie e identifique a alternativa correta. a) Na dimensão econômica, os valores econômicos dos recursos usados consideram os custos e os valores econômicos dos produtos e serviços produzidos e contemplam às despesas. b) O fluxo financeiro da atividade gera receitas e custos financeiros, apontando o resultado econômico-financeiro da atividade. Isso se relaciona com a dimensão operacional. c) A dimensão patrimonial se refere aos fatores físicos dos eventos. d) O fluxo patrimonial reflete o resultado das decisões tomadas e aplicadas pelos gestores. e) A dimensão equatorial apresenta a mutação nas contas patrimoniais. 153O resultado econômico como decorrência das ações dos gestores Controladoria Avançada_U4_C14.indd 153 28/06/2017 15:12:58 CONTROLADORIA Luara Pinto Minuzzi 108 INTRODUÇÃO As empresas vivem, hoje, o imperativo do valor, segundo o qual todas as suas operações e todos os seus recursos devem estar voltados para produzir ou adicionar valor. Dessa forma, a busca pela solução dos problemas do dia a dia das organizações conduz os gestores a optarem pela alternativa mais adequada de gestão. Por isso, é relevante analisar a empresa sob o ponto de vista sistêmico, isto é, unir as partes que compõem a organização para formar um sistema, de modo que haja condições de encontrar soluções e opções para administrar o todo. OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM Ao final desta aula unidade, você deverá ser capaz de: • Mostrar a importância da visão sistêmica e do papel da gestão nos processos de criação de valor, de gerenciamento de riscos e de avaliação do desempenho das organizações; • Entender o processo de globalização e seus impactos; • Entender os sistemas da empresa e criação de valor. EMPRESA Antes de iniciarmos é importante sabermos o conceito de empresa e suas transações necessárias. A empresa é um organismo vivo que precisa manter o equilíbrio, renovar-se constantemente e adaptar-se à realidade para garantir sua continuidade e sustentabilidade no mercado. 109 Trata-se de uma unidade produtiva que objetiva lucros e crescimento mediante transações entre dois mercados: 1. Fornecedor: Quem vende produtos ou serviços. 2. Consumidor: Quem compra produtos ou serviços. Sistema empresarial Os subsistemas que compõem o sistema empresarial são: • Institucional: Subsistema relacionado às crenças e aos valores dos proprietários da empresa, que deve ser assimilado por todos os seus integrantes. • Administrativo: Subsistema relacionado ao sistema de planejamento e controle da empresa, bem como à área de gerenciamento. • Organizacional: Subsistema representado pela estrutura da empresa e pela autoridade e delegação de responsabilidades dentro de seu ambiente. • Físico: Subsistema relacionado aos elementos materiais da empresa, tais como veículos, edifícios, móveis etc. • Social: Subsistema relacionado aos elementos humanos da organização, incluindo as características pessoais do grupo que a integra. Ambiente empresarial Agora que você já entendeu a noção de empresa, vamos definir o ambiente em que elase encontra. Em outras palavras, vamos identificar quais são os desafios das empresas, como está o mercado nacional e globalizado, e o que elas podem esperar deles. Processo de globalização O processo de globalização que afetou as economias em todo o mundo vem impactando não somente as sociedades, mas também as estruturas empresariais mundiais. 110 O desenvolvimento dos meios de comunicação, que colaborou para a transformação das formas de gerenciamento de empresas. Por exemplo, para um gerente entrar em contato com uma filial em outro país. O processo pré globalização era completamente diferente do que é hoje. A tecnologia da informação era primitiva se comparada com os recursos disponíveis atualmente. Com a globalização e o avanço da tecnologia todos os países passaram a interagir de forma rápida e eficiente trazendo assim muitos benefícios não só para o país, mas também para as empresas. O gerenciamento das finanças passou a ser mais fácil e dinâmico, pois os fatos e lançamentos ocorrem em tempo real. Isso exige alto preparo dos gestores e a controladoria passou a ser uma importante ferramenta de defesa dos interesses dos acionistas. Sistema de empresas e geração de valor A principal ferramenta de auxílio e orientação à tomada de decisão no cenário competitivo em que as organizações vivem hoje é a controladoria. Um de seus objetivos é atribuir valores à empresa, analisando e traçando as melhores oportunidades e os melhores caminhos em direção ao alcance de objetivos. Toda empresa tem o propósito de alcançar o sucesso, o que demanda a aceitabilidade de seus produtos e serviços perante o mercado através de seus clientes. Se a atribuição de valor e a excelência nos resultados são os principais focos da controladoria, é necessário aplicar tais conceitos no dia a dia das empresas, a fim de garantir a otimização dos custos e a maximização dos lucros. Para isso, a organização deve estar em equilíbrio e integração com as áreas envolvidas em seu planejamento estratégico. As organizações empresariais interagem com a sociedade, pois são sistemas abertos e dinâmicos. 111 Sendo assim, a empresa é composta por várias partes. Cada uma realiza um conjunto de atividades que, apesar de distintas, possuem relação de dependência entre si para que se possa atingir um objetivo, nesse caso, a missão organizacional. Por exemplo, o departamento de vendas de uma empresa cumpre determinadas atividades que lhe são atribuídas e pertence ao sistema empresarial, pois concretiza a venda de um produto. Essa venda movimenta outros departamentos como compras, estoque, produção, qualidade, RH, financeiro, etc. A empresa busca incessantemente aumentar seus resultados e a interação de suas atividades são influenciadas pela economia, por outras empresas, pelo país e pelas pessoas e sociedade. Figura 02 – Sistema empresarial – Fonte: Padoveze (2003, p.35) CONTROLADORIA - Asseguradora da Eficácia Empresarial Compras ComprasComercializaçãoProdução Desenvolvimento de produtos Missão, Crenças e valores Empresa Produtos/Serviços e Processos ÁREAS DE RESPONSABILIDADE Sistemas de Informação de Apoio às Operações Sistemas de Informação de Apoio à Gestão 112 A MISSÃO DA EMPRESA De acordo com Catelli (2004 apud PADOVEZE, 2012, p. 13): “Toda empresa tem uma missão em relação à sociedade, e a missão das empresas corresponde a seus objetivos permanentes, que consistem em otimizar a satisfação das necessidades humanas”. A missão de uma empresa é a razão de sua existência, o proposito para o qual ela foi criada e em sua essência transmite a ideia do empresário sobre o que ele espera obter e informa aos clientes o que esperar dela. Ao escrever a missão da empresa é preciso ser o mais claro possível para evitar que sejam passadas informações não verdadeiras e dessa forma deixar a empresa exposta ao mercado concorrente. A missão deve ter em si o poder de transmitir segurança a todos os interessados ligados a ela, sejam diretos (funcionários, acionistas), ou indiretos (fornecedores, parceiros, comunidade. Etc.). Os subsistemas empresariais As empresas buscam incessantemente manter o equilíbrio entre o ambiente em que estão inseridas e as diversas áreas que compõem suas operações. Para conseguir esse equilíbrio elas se utilizam de subsistemas que oferecem formas de obter resultados e tomar decisões. Os principais subsistemas empresariais utilizados para manter o equilíbrio ambiental na atualidade são: • Subsistema Institucional: Segundo Catelli (2010), o objetivo deste subsistema é definir como a empresa deve se comportar com relação ao ambiente externo a partir de sua missão, crenças e valores. • Subsistema físico-operacional: Busca a interação entre as atividades empresariais (estrutura empresarial) com o objetivo de torna-las compatíveis com o meio ambiente (relações com entidades governamentais, sociedade, clientes, fornecedores). Para Rosa Filho (2005), a configuração do subsistema físico operacional deve: 113 • Ser configurado de acordo com as diretrizes estabelecidas pelo subsistema modelo de gestão para permitir o cumprimento da missão; • Assegurar interações proativas entre as partes: fornecedores de recursos, o sistema físico-operacional e os diversos clientes dos produtos e serviços gerados; • Dimensionar o ambiente próximo, detectando as variáveis (fornecedores de recursos, concorrentes, e clientes) bem como o ambiente remoto com suas variáveis (econômicas, sociais, políticas, tecnológicas, regulatórias etc.) das quais dependem a eficácia da empresa; • Fazer com que cada transação desenvolvida neste subsistema gere produtos e serviços de valor superior aos recursos consumidos. O bom andamento desse subsistema garante que o subsistema social tenha todas as possibilidades de gerar bons rendimentos pela empresa, pois terá todo o suporte necessário. Ao atender esses requisitos segundo Rosa Filho (2005) “a empresa obterá a composição ideal de um modelo sistêmico de atuação empresarial”. • Subsistemas sociais: Composto pelas pessoas da organização e dependem diretamente das capacidades e características dos indivíduos que interagem entre si e influenciam o que vai ocorrer e como irão ocorrer as operações empresariais e os procedimentos ditados pelo Subsistema Modelo de Gestão. De acordo com as ideias de Guerreiro (1996), citado por Rosa Filho (2005), para que o subsistema social componha o adequadamente o modelo de atuação empresarial é necessário: • Existir sinergia entre os objetivos pessoais e da empresa; • Existir espirito de liderança e conhecimentos multidisciplinares por parte dos gestores. Somente assim eles terão capacidade de tomar decisões com base em variáveis diversas; • Motivar e aglutinar indivíduos com especialidades e crenças diferentes para atingir os objetivos e cumprir a missão da empresa; • Tornar possível a comunicação e coleta de feedback dos indivíduos e dos gestores sobre todas as operações. • Criar um clima organizacional que proporcione às pessoas relacionarem-se 114 adequadamente durante a execução de suas atividades na empresa. • Subsistemas organizacionais: Tem como objetivo interagir os recursos humanos e as necessidades para realizar os objetivos da empresa. Quanto maior a organização, maiores as necessidades desses subsistemas. Para que os subsistemas organizacionais realizem as suas funções, de acordo com Rosa Filho (2005), é preciso: • Montar uma estrutura organizacional integrada entre os administradores e empresários; • Estabelecer normas; • Preencher os cargos com pessoas treinadas nas normas e procedimentos. • Disponibilizar os recursos produtivos necessários; • Estruturar o organograma da empresa. • Subsistemas de gestão: Elaborado de acordo com os subsistemas institucional e do modelo de gestão com a finalidade de indicar o caminho a ser seguido para atingir os objetivos estabelecidos. Ele é composto por diversos modelos (mensuração, decisão,informação, outros) que oferecem suporte ao administrador para tomar decisões. Esse subsistema precisa ser elaborado com a flexibilidade necessária para permitir ajustes diante das mudanças de cenários impostas pelo mercado. • Subsistemas de informação: Muito útil para transmitir conhecimentos. O conhecimento é uma necessidade básica para a empresa para estabelecer seus planos estratégicos táticos e operacionais. De acordo com Laudon e Laudon (2007, p. 10) as informações podem ser classificadas como: 1) Informações Seletivas: técnica nova de levar ao público, comunidade, governo e à concorrência informações sobre a empresa. É como se fosse um feedback tanto para o cliente interno quanto para o externo; 2) Informações Obrigatórias ou Legais: são aquelas caracterizadas pela sua obrigatoriedade, periodicidade e são impostas pelas leis e por convenções. Exemplo: notas fiscais, recibos, balanços financeiros, impostos, etc. 115 3) Informações Confidenciais: caracterizadas pelo sigilo, por serem acessíveis a poucas pessoas. Exemplo: formulas planos, patentes, projetos, lucros, perdas e logística. 4) Informações Complementares: são informações que precedem as outras, servindo como complemento. Exemplo: descrições, comentários, narrações, explicações, anexos, demonstrativos e gráficos. 5) Informações Arquivadas: é a técnica de detectar até que ponto a empresa tem condições de tratar suas informações como algo de valor, como uma demonstração de sua organização em relação ao passado, presente e futuro. Uma empresa que toma decisões retrospectivas não trabalha com informações atualizadas. Os requisitos necessários para que um sistema de informação forneça as informações necessárias para que as operações empresariais e os eventos ambientais sejam integrados segundo ROSA FILHO (2005, p. 7) são os seguintes: • Ser elaborado após a formalização de todos os outros subsistemas, conforme mencionado; • Ser supridor das necessidades decisórias dos gestores gerando informações relevantes, tempestivas e confiáveis; • Ser formalizado e integrado ao processo de gestão; • Deve evidenciar os impactos das variáveis internas e externas; • Deve permitir avaliações de desempenho global e analítico; 116 Sistema Ambiental Subsistema de objetivos e valores Subsistema Técnico Subsistema Estrutura Subsistema Psicossocial Subsistema de Gestão Figura 01 – Sistema Ambiental – Fonte: Autor REFERÊNCIAS CATELLI, Armando. Controladoria: uma abordagem da gestão econômica – GECON. São Paulo: Atlas, 2010. FIGUEIREDO, S.; CAGGIANO, P. C. Controladoria: teoria e prática. São Paulo, Atlas, 2004. LAUDON, Kenneth C; LAUDON, Jane P. 1944. Gerenciamento de Sistemas de Informação; tradução Thelma Guimarães. 7 ed. – São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2007. 117 MOSIMANN, C. P.; ALVES, J. O. de C.; FISCH, S. Controladoria: seu papel na administração das empresas. Florianópolis, Fundação ESAG, 1993. NAKAGAWA, M. Introdução à controladoria. São Paulo: Atlas, 1993. OLIVEIRA, L. M. de; PEREZ JÚNIOR, J. H. de; SILVA, C. A. dos S. Controladoria estratégica – textos e casos práticos com solução. 8. ed. São Paulo: Atlas, 2011. OLIVEIRA, Jayr Figueiredo de. Sistemas de informação: um enfoque gerencial inserido no contexto empresarial e tecnológico. São Paulo: Ética, 2000. PADOVEZE, C. L. Controladoria básica. 2. ed. São Paulo: Cengage Learning, 2010. O MODELO DINÂMICO DE ANÁLISE ECONÔMICO-FINANCEIRA DE EMPRESAS: UMA APLICAÇÃO NAS COMPANHIAS DISTRIBUIDORAS DE ENERGIA ELÉTRICA DO SUL DO BRASIL Saulo Fabiano Amâncio Vieira (UEL) saulo@uel.br Wellington Bueno (UEL) admwb@yahoo.com.br A presente pesquisa buscou realizar a aplicação do Modelo Dinâmico de Administração do Capital de Giro (Modelo Fleuriet) para analisar como ocorreu o processo de administração do capital de giro. O estudo pode ser classificado como descritiivo e explicativo. Utilizou-se demonstrativos contábeis coletados junto ao site da Bovespa das concessionárias de distribuição de energia elétrica do sul do Brasil, no período de 1998 a 2007. As demonstrações financeiras e contábeis anuais foram ajustadas a valor presente e atualizadas pelo método da correção monetária integral, sendo que na seqüência utilizou-se o software Microsoft Excel para o cálculo: da Necessidade de Capital de Giro (NCG), do Capital de Giro (CDG), do Saldo de Tesouraria (T), e do Indicador de Liquidez para a análise do Efeito Tesoura. Verificou- se que a AES Sul e a Celesc, a partir de 2002, e a Copel, a partir de 2005, apresentaram Indicadores de Liquidez positivos ou levemente negativos, evidenciando a diminuição do risco de insolvência, sendo que a AES Sul experimentou o efeito tesoura no período 1999 a 2001, a Copel de 2002 a 2004 e a Gerasul a partir de 2004. Evidenciando um descompasso entre a evolução do CDG e da NCG. Palavras-chaves: Modelo Dinâmico, capital de giro, liquidez, efeito tesoura. XXVIII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO A integração de cadeias produtivas com a abordagem da manufatura sustentável. Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2008 XXVIII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO A integração de cadeias produtivas com a abordagem da manufatura sustentável. Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2008 2 1. Introdução Nas últimas décadas o mundo dos negócios tem sofrido muitas mudanças o que vem acarretando alterações em seus modelos de gestão. Acontecimentos como a crise do petróleo na década de setenta, a abertura aos mercados mundiais e o desenvolvimento tecnológico acelerado, impulsionaram as organizações a assumirem uma nova forma de fazer negócios e, por conseguinte, mudarem a na maneira de se administrar uma organização. Tem-se que na essência do conceito de administrar esta o processo de tomada de decisão. Da qualidade das decisões tomadas depende a continuidade de qualquer negócio. Assim, administrar é decidir, conforme descreve Assaf Neto (2005). Segundo o autor, o administrador financeiro passou a ser mais exigido. Identificando uma necessidade cada vez maior de atualização e especialização. Como forma de auxiliar os gestores financeiros em seus processos de tomada de decisão, surgem ferramentas e métodos de análise, dentre as quais pode-se destacar o Modelo Dinâmico de análise econômico-financeira. Este método diferencia-se dos convencionais por considerar a dinâmica operacional com relação à questão do capital de giro e, como ele está sendo empregado pelos gestores financeiros para garantir a continuidade da empresa. Os fatos descritos acima podem ser transpostos para o setor de Energia Elétrica que foi escolhido para ilustrar a aplicação do Modelo Dinâmico. No que tange ao referido setor, verifica-se que o mesmo é estratégico para o desenvolvimento do país por ser uma das principais fontes energéticas do setor produtivo. Outro fato relevante está relacionado às mudanças para o mercado elétrico brasileiro que foram incluídas no novo marco regulatório do setor, instituído em 2004, ano no qual as concessionárias de distribuição correspondiam a 95% do fornecimento de energia elétrica, segundo (ROCHA, BRAGANÇA e CAMACHO, 2006). Os autores complementam dizendo que muitos dos investimentos a serem feitos no setor envolvem recursos privados, assim eles estimam que para sustentar um crescimento anual da ordem de 4,5% até 2010, o setor demandará US$ 6 bilhões de investimentos por ano, 50% destinados à geração, 15% à transmissão e 35% à distribuição de energia elétrica. Assim, tem-se no setor de distribuição o gerador de caixa que custeará os novos investimentos necessários à expansão do sistema, a atratividade de novos investimentos e a adimplência do setor. Conforme relatam Rocha, Bragança e Camacho (2006) há uma tendência para a recuperação do setor desde 2005 devido à recuperação na demanda, as revisões tarifárias e adiminuição nos níveis de endividamento. Complementada pela demanda de US$ 6 bilhões em investimentos anuais o estudo sobre a análise da saúde financeira das concessionárias de distribuição de energia elétrica tem sua relevância acentuada. Tendo como base o exposto acima, a presente pesquisa buscou realizar a aplicação do Modelo Dinâmico de Analise Econômico-Financeiro (Modelo Fleuriet) nas concessionárias de distribuição de energia elétrica do sul do Brasil, no período de 1998 a 2007, para analisar como ocorreu o processo de administração do capital de giro. 2. Modelo Dinâmico de Análise Econômico-Financeira (Modelo Fleuriet) Neste item é apresentado o modelo dinâmico de análise econômico-financeira, modelo este que surgiu com o enfoque de mudança na análise das empresas, passando da estática analise XXVIII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO A integração de cadeias produtivas com a abordagem da manufatura sustentável. Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2008 3 dos indicadores de liquidez e capital de giro, para uma base dinâmica, utilizando dados contábeis atualizados, visando enxergar a capacidade de captação de recursos e a sua utilização para a obtenção de retornos maximizados. A base para a formulação desta sessão foi à obra de Fleuriet, Kehdy e Blanc (2003) por ser uma reedição e atualização da obra original que lançou o método em 1978. O modelo dinâmico de análise econômico-financeira ou Modelo Fleuriet, foi desenvolvido pelo Prof. Michael Fleuriet, juntamente com colaboradores brasileiros e o seu principal objetivo era o de elaborar técnicas de gerenciamento financeiro e um modelo de análise que considerasse a realidade econômica brasileira e permitisse uma tomada rápida de decisão, permitindo elaborar o planejamento financeiro a curto e longo prazo. O modelo dinâmico considera que as contas devem ser classificadas de acordo com o seu ciclo. Desta forma três grupos principais de reclassificação das contas contábeis são definidos por Fleuriet, Kehdy e Blanc (2003), a saber: − Permanente ou Não cíclico: devido a sua lenta movimentação. (Realizável a longo prazo; Investimentos; Reserva de lucros, etc.); − Contínuo ou cíclico: pois estão relacionadas com o ciclo operacional do negócio. (Estoques, Clientes, Fornecedores, etc.); − Descontínuo ou errático: onde se abrigam as contas que não estão diretamente relacionadas com a operação da empresa. (Disponível, Títulos negociáveis, Duplicatas descontadas, etc.). Os autores destacam que a estrutura estática do modelo tradicional de análise das demonstrações financeiras evidencia vários índices, esses indicadores são calculados através dos grupos contábeis e para que uma boa análise seja desenvolvida, esses índices devem ser analisados em conjunto. O modelo dinâmico utiliza essencialmente três indicadores: a Necessidade de Capital de Giro (NCG); o Capital de Giro (CDG) e o Saldo de Tesouraria (T). O conceito, a aplicação e, o cálculo destes indicadores é apresentado mais adiante, juntamente com os Tipos de Balanços que são formados através da utilização do modelo, permitindo uma análise em conjunto dos indicadores, e da situação financeira da empresa. A realidade dinâmica da empresa é evidenciada com essa reclassificação nas contas do Ativo e do Passivo. A Figura 1 ilustra a nova estrutura do Balanço Patrimonial após a reclassificação das contas e como ficam assim dispostos os novos grupos de contas. XXVIII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO A integração de cadeias produtivas com a abordagem da manufatura sustentável. Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2008 4 Figura 1 – Estrutura do Balanço Patrimonial após a reclassificação Após essa reestruturação nas contas do Balanço Patrimonial os indicadores NCG, CDG e T são calculados. Os próximos passos são: a classificação num dos Tipos de Balanço, o cálculo do Indicador de Liquidez e a verificação da ocorrência do Efeito Tesoura. 2.1 A Necessidade de Capital de Giro (NCG) A Necessidade de Capital de Giro expressa à diferença entre as contas do ativo cíclico (soma das contas cíclicas do Ativo) e do passivo cíclico (soma das contas cíclicas do Passivo). Desta forma: NCG = ativo cíclico – passivo cíclico. Quando as saídas de caixa ocorrem antes das entradas de caixa cria-se uma necessidade de aplicação permanente de fundos, evidenciada por uma diferença positiva entre o ativo cíclico e o passivo cíclico, conforme demonstrado pela Figura 2. A essa necessidade permanente de fundos denomina-se de Necessidade de Capital de Giro, segundo (FLEURIET, KEHDY e BLANC, 2003, 7). Ativo Cíclico Passivo Cíclico NCG Fonte: adaptado de Fleuriet, Kehdy e Blanc (2003, 9) Figura 2 – Necessidade de Capital de Giro (NCG) Fleuriet, Kehdy e Blanc (2003) destacam os seguintes pontos sobre a NCG: a NCG difere do Capital Circulante Líquido (CCL), devido ao fato da mesma ser composta por apenas uma parte do ativo e do passivo circulantes; a NCG refere-se ao saldo de contas cíclicas (ligadas a operação da empresa). Assim, sua medida pode variar, de acordo com as informações disponíveis para o analista sobre os ciclos operacional e financeiro da empresa; a NCG XXVIII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO A integração de cadeias produtivas com a abordagem da manufatura sustentável. Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2008 5 depende, basicamente, da natureza dos negócios (determinada pelo ciclo financeiro) e do nível de atividades da empresa (função das vendas); contas do ativo e do passivo ligadas às operações da empresa e que representam aplicações ou fonte de fundos compõem a NCG; uma NCG negativa evidencia que as saídas de caixa ocorrem depois das entradas de caixa. Constituindo o passivo cíclico como uma fonte de fundos para a empresa; quando a NCG é financiada com recursos de curto prazo, o risco de insolvência aumenta; e de modo geral, a NCG, quando positiva, deve ser financiada com uma parte dos fundos permanentes (patrimônio líquido e certas contas do Exigível a longo prazo) utilizados pela empresa. 2.2 O Capital de Giro (CDG) Uma parte dos fundos permanentes é utilizada para financiar a Necessidade de Capital de Giro, visto que esses recursos são normalmente utilizados para financiar as aplicações permanentes (Ativo permanente e certos itens do Realizável a Longo Prazo). A parte do passivo permanente (contas não cíclicas do passivo) que não esteja financiando o ativo permanente (contas não cíclicas do ativo) compõe o Capital de Giro. Desta forma: CDG = Passivo permanente – Ativo permanente. O ativo permanente é constituído pelo Realizável a Longo Prazo somado ao Ativo Permanente e, o Passivo permanente somado ao Patrimônio Líquido, segundo (FLEURIET, KEHDY e BLANC, 2003, 11). CDG Passivo Permanente Ativo Permanente Fonte: adaptado de Fleuriet, Kehdy e Blanc (2003, 11) Figura 3 – Capital de Giro (CDG) No que tange ao Capital de Giro tem-se: apesar de apresentarem conceitos diferentes, o Capital de Giro e o Capital Circulante Líquido obtêm resultados idênticos; novos investimentos em ativo permanente geralmente são realizados por meio de Autofinanciamento (recursos que são gerados pela empresa e que são conservados para seu financiamento interno), empréstimos a Longo Prazo e aumento no capital social, que acabam por aumentarem o passivo permanente. Assim, o CDG apresenta-se razoavelmente estável ao longo do tempo; um CDG negativo ocorre quando o ativo permanente é maior que o passivo permanente e, significa que a empresa está financiando parte de seus ativos permanente com fundos de curto prazo. Aumentando o risco de insolvência; mesmo com um CDG negativo a empresa pode se desenvolver desde que tenha uma NCG negativa, segundo (FLEURIET, KEHDY E BLANC, 2003). 2.3 O Saldo de Tesouraria (T) O Saldo de Tesouraria é determinado pela diferença entre o ativoe o passivo erráticos, assim como apresentado na Figura 4. Tanto o ativo como o passivo errático representam contas do circulante que se alteram de forma aleatória, ou seja, não estão diretamente ligadas com a operação da empresa. Assim temos: T = Ativo errático – Passivo errático. O Saldo de Tesouraria também representa a diferença entre o Capital de Giro e a Necessidade de Capital de Giro, portanto, outra expressão pode ser utilizada para representá-lo: T = CDG – NCG, segundo (FLEURIET, KEHDY e BLANC, 2003, 13). XXVIII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO A integração de cadeias produtivas com a abordagem da manufatura sustentável. Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2008 6 Ativo Errático Passivo Errático T Fonte: adaptado de Fleuriet, Kehdy e Blanc (2003, 14) Figura 4 – Saldo de Tesouraria (T) Em relação ao Saldo de Tesouraria verifica-se que: se o Saldo de Tesouraria for negativo, significa que o Capital de Giro é insuficiente para financiar a Necessidade de Capital de Giro. Indicando que a empresa financia parte de sua NCG e/ou o ativo permanente com fundos de curto prazo, aumentando o risco de insolvência; e se o T for positivo, significa que a empresa dispõe de fundos de curto prazo que, podem ser aplicados em títulos de liquidez imediata. Aumentando sua segurança financeira. Entretanto, isto pode evidenciar que a empresa não esteja aproveitando adequadamente suas oportunidades de investimento, segundo (FLEURIET, KEHDY E BLANC, 2003) 2.4 Os Tipos de Balanço Uma vez realizada a reclassificação das contas e apurados o CDG, a NCG e o T é possível classificar a empresa em um dos seis tipos de balanços, conforme proposto por Vieira (2005), iniciando-se o processo de análise da empresa. Apesar de Fleuriet, Kehdy e Blanc (2003) apresentarem os tipos de balanços, eles enumeram apenas quatro deles, considerando serem aqueles os que mais freqüentemente aparecem nas empresas nacionais. Sendo assim, para a elaboração deste trabalho, utilizou-se a classificação apresentada por Vieira (2005, 109), que certamente conduz ao mesmo conjunto de análise, embora, com os seis tipos, e está disposta numa seqüência de liquidez, iniciando com as empresas que apresentam um alto risco financeiro (tipo 1) para uma situação considerada como sólida (tipo 6). A Tabela 1 descreve as possíveis classificações. Tipo NCG CDG T 1 >0 <0 <0 2 <0 <0 <0 3 <0 <0 >0 4 >0 >0 <0 5 >0 >0 >0 6 <0 >0 >0 Fonte: adaptado Vieira (2005) Tabela 1 – Identificação da estrutura financeira da empresa Portanto, de acordo com Vieira (2005), as estruturas financeiras das empresas podem ser assim consideradas: − Tipo 1: evidencia a pior situação financeira, pois a NCG positiva precisa ser financiada, como o CDG está negativo o T acaba sendo o responsável pelo financiamento de ambas, ocasionando um alto risco devido a grande dependência de empréstimos de curto prazo. − Tipo 2: é uma situação muito delicada, apesar da NCG negativa, constituindo uma fonte de recursos para a empresa, o financiamento do CDG, também negativo, precisa ser complementado pelo T, deixando a empresa muito exposta as flutuações externas. XXVIII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO A integração de cadeias produtivas com a abordagem da manufatura sustentável. Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2008 7 − Tipo 3: nesta situação a NCG negativa é suficiente para financiar o CDG, também negativo, formando um excedente em T, agora positivo. Esta estrutura ainda envolve riscos que precisam ser gerenciados. − Tipo 4: evidencia uma demanda operacional, NCG positiva, que é financiada pelo CDG e pelo T. − Tipo 5: os recursos do CDG, positivo, são suficientes para financiar a NCG, também positiva, gerando ainda um excedente no T. Essa estrutura é bastante confortável do ponto de vista financeiro. − Tipo 6: evidencia a melhor situação financeira, pois a NCG negativa torna-se numa fonte de recursos para a empresa, que somados aos recursos gerados pelo CDG, são aplicados no T. É uma estrutura sólida, evidenciando uma gestão para voltada para baixos níveis de risco financeiro. 2.5 O Indicador de Liquidez Uma das considerações feitas a respeito da Necessidade de Capital de Giro, quando positiva, é a de que ela deve ser financiada com recursos de longo prazo. Quando esses recursos de longo prazo não são suficientes para financiar a Necessidade de Capital de Giro o restante desta será financiado com recursos de curto prazo, ou seja, com parte do Saldo de Tesouraria. Esta prática de financiamento, apesar de arriscada, é utilizada com freqüência pela “maior parte das empresas” brasileiras, merecendo assim um constante monitoramento, segundo (VIEIRA, 2005). Vieira (2005) ressalta que, neste contexto, a utilização dos recursos financeiros do Saldo de Tesouraria, representados principalmente pelos empréstimos e financiamentos bancários de curto prazo, no financiamento da demanda operacional de recursos indicada pela Necessidade de Capital de Giro, representa um certo distúrbio ou desequilíbrio e se torna um dos pilares para a avaliação do risco financeiro e da liquidez da empresa. O Indicador de Liquidez (ILNCG) expressa à proporção entre o Saldo de Tesouraria em relação à Necessidade de Capital de Giro, e atende ao objetivo de monitorar a utilização de recursos de curto prazo no financiamento das operações da empresa, conforme indicado por (VIEIRA, 2005, 119). Indicador de Liquidez (ILNCG) = Ainda segundo Vieira (2005, 119 e 131), quanto mais negativo for o valor do indicador, pior tenderá a ser situação financeira da empresa e, a análise de tendência, evidenciada por este indicador, ao longo de pelo menos três anos, verifica a existência do efeito tesoura. 2.6 O Efeito Tesoura As empresas que operam com Saldo de Tesouraria negativo financiam sua Necessidade de Capital de Giro com fundos de curto prazo. Caso esses recursos de curto prazo não sejam renovados essas empresas podem ser levadas ao estado de insolvência, conforme discorrem (FLEURIET, KEHDY e BLANC, 2003). Para Vieira (2005, 121) “o efeito tesoura se instala quando ocorre um descompasso entre a evolução das fontes disponíveis de longo prazo (CDG) e as aplicações que precisam ser financiadas (NCG)”, conforme evidenciado na Figura 5. XXVIII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO A integração de cadeias produtivas com a abordagem da manufatura sustentável. Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2008 8 Fonte: adaptado de Vieira (2005) CDG NCG Tempo $ T Figura 5 – Efeito Tesoura Vieira (2005) descreve ainda que as principais causas do efeito tesoura são: a) Crescimento muito elevado das vendas; b) Investimentos elevados com retorno a longo prazo; c) Crescimento expressivo do ciclo financeiro; d) Baixa geração de lucros; e) Investimentos com baixos retornos; f) Inflação elevada; g) Distribuição de resultados elevada com alto percentual de dividendos; h) Redução das vendas. De acordo com Fleuriet, Kehdy e Blanc (2003, 42) para evitar o efeito tesoura a empresa deve planejar a evolução do Saldo de Tesouraria, que depende de variáveis que afetam o Autofinanciamento, a Necessidade de Capital de Giro e o Capital de Giro. Fazendo com que o Autofinanciamento seja suficiente, pelo menos, para financiar os aumentos da NCG. 3. Procedimentos Metodológicos Devido a suas características relevantes, este trabalho se classifica como uma pesquisa descritiva e explicativa. Para Cooper e Schindler (2003, 31): “Um estudo descritivo tenta descobrir respostas para as perguntas quem, o que, quando, onde, e, algumas vezes, como”. Assim, uma exposição do desempenho econômico e financeiro das empresas objeto de estudo foi realizada. Apoiado na pesquisa descritiva, esse trabalho procurou identificar e discutir as determinantes do desempenho destas companhias, para Vergara (2004,47), a investigação explicativa “visa, portanto, esclarecer quais fatores contribui de alguma forma, para a ocorrência de determinado fenômeno”. A pesquisa empírica foi desenvolvida através dos demonstrativos contábeis, das empresas que compõem a amostra deste estudo, coletados junto ao site da Bovespa e acessados através do software “Divulgação Externa”, disponibilizado gratuitamente pela própria Bovespa. Foram realizados os downloads das Demonstrações Financeiras Padronizadas (DFP) referentes aos anos de 1.998 a 2.007 de cada empresa. Como premissa, todo estudo estatístico, requer a definição de população, que de acordo com Vieira (1999, 8) “é o conjunto de elementos sobre o qual desejamos obter informação” e da amostra, que “é todo subconjunto de elementos retirados da população para obter a informação desejada”. Neste contexto, a população do estudo é formada por todas as empresas distribuidoras de energia elétrica do Brasil. Tal escolha se deu, dentre outros XXVIII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO A integração de cadeias produtivas com a abordagem da manufatura sustentável. Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2008 9 motivos, pelo fato da remuneração dos novos investimentos em geração de energia elétrica passa pelas empresas distribuidoras, classificadas como o caixa do sistema de energia elétrica, conforme analisaram (ROCHA, BRAGANÇA e CAMACHO, 2006). Assim, esses investimentos estabelecem um campo propício a analise no Modelo Dinâmico. Em relação à amostra, definiu-se como sendo as empresas de distribuição de energia elétrica, localizadas no sul do país e que disponibilizaram suas demonstrações financeiras e contábeis no site da Bovespa no período de 1998 a 2007, sendo selecionadas para formarem a amostra pesquisada seis empresas: AES SUL, CEEE e RGE do Rio Grande do Sul; CELESC e Tractebel Energia (Gerasul) de Santa Catarina e a COPEL do Paraná. Sendo que a empresa CEEE foi retirada da amostra, para que a uniformidade no período em análise fosse mantida. As demonstrações financeiras e contábeis anuais de cada uma das empresas pertencentes à amostra foram ajustadas a valor presente e atualizadas pelo método da correção monetária integral, de acordo com Matarazzo (1993) e Fipecafi (2007), conforme sugerido por Assaf Neto (2005, 104) e padronizadas no intuito de se proceder a reclassificação da rubricas contábeis conforme o modelo dinâmico. Na seqüência utilizou-se o software Microsoft Excel para a realização dos cálculos: da NCG, do CDG, e do T. No que tange ao processo de análise dos dados, foi realizada a classificação dos novos demonstrativos conforme os tipos de balanços, calculado o Indicador de Liquidez e verificado a existência do Efeito Tesoura, através da análise do Indicador de Liquidez, conforme proposto por (VIEIRA, 2005, 130). 4. Análise dos Resultados Após os ajustes, atualizações e padronizações iniciais, os Balanços Patrimoniais de cada empresa foram organizados cronologicamente e o calculo dos indicadores forneceram o conjunto de dados apresentado nas tabelas abaixo. A NCG apresentou-se essencialmente positiva evidenciando a necessidade do seu financiamento com parte dos recursos de Longo Prazo. Com exceção da AES Sul que durante o período em análise manteve sua NCG essencialmente negativa, o que a torna uma fonte de recursos para a empresa. 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 AES Sul -109.810 -179.792 -340.173 101.121 -844.762 -886.023 -739.898 -975.874 -242.594 -258.851 Celesc 225.653 57.958 -88.068 -269.782 1.407 253.143 337.636 374.563 322.940 70.988 Copel 456.048 616.103 555.131 429.233 413.452 454.363 -109.648 -315.677 437.044 532.436 Gerasul 12.514 -40.924 19.416 998.552 380.629 403.820 653.368 330.320 325.099 21.954 RGE -69590 45243 60759 33794 64395 111520 128976 105690 136889 90266 Fonte: elaborado pelos autores com base nos resultados obtidos Tabela 2 – Necessidade de Capital de Giro O Capital de Giro manteve-se negativo na maioria dos resultados apurados, evidenciando que parte dos ativos permanentes foram financiados com fundos de curto prazo. Neste contexto a AES Sul manteve sua NCG essencialmente negativa diminuindo o impacto na sua liquidez. A Copel e a Celesc conseguiram manter o CDG essencialmente positivo a partir de 2002, o que somado a NCG também essencialmente positiva para esse período melhorou a liquidez destas empresas. XXVIII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO A integração de cadeias produtivas com a abordagem da manufatura sustentável. Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2008 10 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 AES Sul -3.539 -208.495 -443.998 -194.766 -994.106 -1.087.889 -763.565 -958.080 -124.479 -206.839 Celesc -42.445 -375.133 -377.458 -358.903 44.958 215.773 371.347 388.398 295.344 392.775 Copel 92.952 -24.093 192.115 -5.114 275.982 97.042 -719.614 154.630 423.028 1.306.974 Gerasul -463.135 -329.621 -1.366.568 265.866 286.869 -210.385 -109.690 -425.905 -504.041 -213.831 RGE -30.068 -129.236 -82.408 -286.531 -418.676 -401.252 -175.506 -71.467 26.816 -109.446 Fonte: elaborado pelos autores com base nos resultados obtidos Tabela 3 – Capital de Giro O Saldo de Tesouraria também se manteve essencialmente negativo durante o período em análise, indicando que as empresas financiam parte de sua NCG e/ou de seus Ativos permanentes com recursos de curto prazo, aumentando o risco de insolvência. 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 AES Sul 106.271 -28.703 -103.825 -295.888 -149.343 -201.866 -23.667 17.794 118.115 52.012 Celesc -268.098 -433.091 -289.391 -89.121 43.550 -37.370 33.711 13.835 -27.595 321.787 Copel -363.096 -640.196 -363.016 -434.347 -137.469 -357.322 -609.966 470.307 -14.016 774.538 Gerasul -475.648 -288.697 -1.385.984 -732.686 -93.760 -614.205 -763.058 -756.225 -829.140 -235.785 RGE 39.522 -174.479 -143.168 -320.326 -483.071 -512.772 -304.482 -177.156 -110.073 -199.712 Fonte: elaborado pelos autores com base nos resultados apurados Tabela 4 – Saldo de Tesouraria As estruturas financeiras, ou tipos de balanços, gerados pela classificação da NCG, do CDG e do T, das empresas objeto de análise, demonstram um alto risco de insolvência predominante até 2002. A AES Sul melhorou sua liquidez ao manter o Saldo de Tesouraria positivo a partir de 2005, embora o tipo 3 ainda envolva riscos e a necessidade de um melhor gerenciamento. A Celesc melhorou significativamente sua liquidez a partir de 2002 ao manter o CDG positivo e o T também essencialmente positivo. A Copel manteve o CDG e a NCG essencialmente positivos durante o período analisado, contudo sua melhora de estrutura financeira somente ocorreu a partir de 2005 com o T permanecendo positivo, ou levemente negativo. A Gerasul e a RGE apresentaram predominantemente a estrutura financeira do tipo 1, evidenciados pela NCG positiva, pelo CDG e T negativos, portanto com elevada dependência de empréstimos de curto prazo. 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 AES Sul 3 2 2 1 2 2 2 3 3 3 Celesc 1 1 2 2 5 4 5 5 4 5 Copel 4 1 4 1 4 4 2 6 4 5 Gerasul 1 2 1 4 4 1 1 1 1 1 RGE 3 1 1 1 1 1 1 1 4 1 Fonte: elaborado pelos autores com base nos resultados obtidos Tabela 5 – Estrutura financeira Conforme mencionado anteriormente, o Indicador de Liquidez atende ao objetivo de monitorar a utilização de recursos de curto prazo no financiamento das operações da empresa, através da proporção de T em relação à NCG. Desta forma a tabela 6 demonstra que a AES Sul e a Celesc, a partir de 2002, e a Copel, a partir de 2005, apresentaram Indicadores de Liquidez positivos ou levemente negativos, evidenciando a diminuição do risco de insolvência. XXVIII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO A integração de cadeias produtivas com a abordagem da manufatura sustentável. Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2008 111998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 AES Sul 0,9678 -0,1596 -0,3052 -2,9261 -0,1768 -0,2278 -0,0320 0,0182 0,4869 0,2009 Celesc -1,1881 -7,4725 -3,2860 -0,3303 30,9428 -0,1476 0,0998 0,0369 -0,0855 4,5330 Copel -0,7962 -1,0391 -0,6539 -1,0119 -0,3325 -0,7864 -5,5629 1,4898 -0,0321 1,4547 Gerasul -38,0105 -7,0545 -71,3827 -0,7337 -0,2463 -1,5210 -1,1679 -2,2894 -2,5504 -10,7398 RGE 0,5679 -3,8565 -2,3563 -9,4787 -7,5016 -4,5980 -2,3608 -1,6762 -0,8041 -2,2125 Fonte: elaborado pelos autores com base nos resultados obtidos Tabela 6 – Indicador de Liquidez A deterioração do Indicador de Liquidez por pelo menos três anos evidencia o Efeito Tesoura, conforme citado anteriormente. Desta forma a AES Sul experimentou o efeito tesoura no período 1999 a 2001, a Copel de 2002 a 2004 e a Gerasul a partir de 2004. Evidenciando o descompasso entre a evolução do CDG e da NCG. 5. Considerações Finais Em relação à Necessidade de Capital de Giro, esta apresentou-se essencialmente positiva evidenciando a necessidade do seu financiamento com parte dos recursos de Longo Prazo. Com exceção da AES Sul que durante o período em análise manteve sua NCG essencialmente negativa, o que a torna uma fonte de recursos para a empresa. Em relação ao Capital de Giro manteve-se negativo na maioria dos resultados apurados, evidenciando que parte dos ativos permanentes foram financiados com fundos de curto prazo. Neste contexto a AES Sul manteve sua NCG negativa diminuindo o impacto na sua liquidez. A Copel e a Celesc conseguiram manter o CDG essencialmente positivo a partir de 2002, o que somado a NCG também essencialmente positiva para esse período melhorou a liquidez destas empresas. No que tange ao Saldo de Tesouraria também se manteve essencialmente negativo durante o período em análise, indicando que as empresas financiam parte de sua NCG e/ou de seus Ativos permanentes com recursos de curto prazo, aumentando o risco de insolvência. Tem-se que as estruturas financeiras, ou tipos de balanços, gerados pela classificação da NCG, do CDG e do T, das empresas objeto de análise, demonstram um alto risco de insolvência predominante até 2002. A AES Sul melhorou sua liquidez ao manter o Saldo de Tesouraria positivo a partir de 2005, embora o tipo 3 ainda envolva riscos e a necessidade de um melhor gerenciamento. A Celesc melhorou significativamente sua liquidez a partir de 2002 ao manter o CDG positivo e o T também essencialmente positivo. A Copel manteve o CDG e a NCG essencialmente positivos durante o período analisado, contudo sua melhora de estrutura financeira somente ocorreu a partir de 2005 com o T permanecendo positivo, ou levemente negativo. A Gerasul e a RGE apresentaram predominantemente a estrutura financeira do tipo 1, evidenciados pela NCG positiva, pelo CDG e T negativos, portanto com elevada dependência de empréstimos de curto prazo. Conforme mencionado anteriormente, o Indicador de Liquidez atende ao objetivo de monitorar a utilização de recursos de curto prazo no financiamento das operações da empresa, através da proporção de T em relação à NCG. A AES Sul e a Celesc, a partir de 2002, e a Copel, a partir de 2005, apresentaram Indicadores de Liquidez positivos ou levemente negativos, evidenciando a diminuição do risco de insolvência. A deterioração do Indicador de Liquidez por pelo menos três anos evidencia o Efeito Tesoura, conforme citado anteriormente. Desta forma a AES Sul experimentou o efeito tesoura no XXVIII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO A integração de cadeias produtivas com a abordagem da manufatura sustentável. Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2008 12 período 1999 a 2001, a Copel de 2002 a 2004 e a Gerasul a partir de 2004. Evidenciando o descompasso entre a evolução do CDG e da NCG. Referências ASSAF NETO, Alexandre. Finanças corporativas e valor. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2005. BOVESPA. Informações por empresa. Disponível em: <http://www.bovespa.com.br> Acesso em: 15/abril/ 2008. COOPER, Donald R.; SCHINDLER, Pâmela S. Métodos de pesquisa em administração. 7.ed. Porto Alegre: Bookman, 2003. FIPECAFI. Manual de contabilidade das sociedades por ações: aplicável às demais sociedades / FIPECAFI; diretor responsável Sérgio de Iudícibus; coordenador técnico Eliseu Martins, supervisor de equipe de trabalho Ernesto Rubens Gelbcke. 7.ed. – 3. reimpr. São Paulo: Atlas, 2007. FLEURIET, Michael; KEHDY, Ricardo; BLANC, Georges. Modelo Fleuriet: A dinâmica financeira das empresas brasileiras: um método de análise, orçamento e planejamento financeiro. Belo Horizonte: Campus, 2003. 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Capa Introdução Objetivos de aprendizagem Controladoria e processo orçamentário Etapas do processo Demonstração do resultado do exercício (DRE) Balanço patrimonial Página em branco Controladoria como agente de gestão e de mudança comportamental nas organizações Introdução OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM Atualidade empresarial Eficiência técnica ou tecnológica Eficiência econômica Papel da controladoria: criação de valor Referências Página em branco Controladoria Avançada_U4_C14