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O mínimo sobre arte Roberto Mallet 1ª edição — outubro de 2022 — CEDET Copyright © Roberto Mallet 2022 Sob responsabilidade do editor, não foi adotado o Novo Acordo Ortográfico de 1990. Os direitos desta edição pertencem ao CEDE — Centro de Desenvolvimento Profissional e Tecnológico Av. Comendador Aladino Selmi, 4630 Condomínio GR Campinas 2 — módulo 8 CEP: 13069-096 — Vila San Martin Campinas-SP Telefones: (19) 3249–0580 / 3327–2257 E-mail: livros@cedet.com.br CEDET LLC is licensee for publishing and sale of the electronic edition of this book CEDET LLC 1808 REGAL RIVER CIR - OCOEE - FLORIDA - 34761 Phone Number: (407) 745-1558 e-mail: cedetusa@cedet.com.br Editor: Thomaz Perroni Preparação de texto: Vitório Armelin Capa: Zé Luiz Gozzo Sobrinho Diagramação: Virgínia Morais Revisão de provas: Berenice Orviedo Conselho editorial: Adelice Godoy César Kyn d’Ávila Silvio Grimaldo de Camargo FICHA CATALOGRÁFICA Mallet, Roberto. O mínimo sobre arte / Roberto Mallet Campinas, SP: O Mínimo, 2022. ISBN: 978-65-997705-9-3 1. Teoria e filosofia da arte 2. Filosofia e teoria das belas artes 3. Cultura: Arte I. Autor II. Título cdd 700-1 / 701 / 306-47 ÍNDICES PARA CATÁLOGO SISTEMÁTICO 1. Teoria e filosofia da arte – 700-1 2. Filosofia e teoria das belas artes – 701 3. Cultura: Arte – 306-47 www.ominimoeditora.com.br Reservados todos os direitos desta obra. Proibida toda e qualquer reprodução desta edição por qualquer meio ou forma, seja ela eletrônica, mecânica, fotocópia, gravação ou qualquer outro meio de reprodução, sem permissão expressa do editor. Sumário APRESENTAÇÃO O QUE É UMA OBRA DE ARTE? BELEZA, BONDADE E VERDADE O PROBLEMA DA ARTE MODERNA GOSTO NÃO SE DISCUTE NOTAS DE RODAPÉ S APRESENTAÇÃO ão são poucas as situações constrangedoras em que o público comum se vê metido hoje em dia, sem saber como reagir a algumas “obras de arte” — e só não são mais porque essas pessoas têm encontrado cada vez mais maneiras perspicazes de evitá-las, fugindo dos teatros e passando longe dos salões de exposição. O ar pernóstico e afetado de seus autores conceituais intimida a platéia que, embaraçada, não se atreve a dizer que o rei está nu — mesmo que sua nudez já esteja sendo explorada de uma forma transgressora —, e esse estado de coisas só acaba sendo revelado ou por engano, quando uma “obra” é acidentalmente jogada fora, ou quando a performance fere muito diretamente algum limite moral, gerando reações moralmente indignadas. O fato é que, atualmente, é generalizada a confusão sobre o que seja arte. E tal confusão, mais que ocupar a cabeça do povo ou ser tema de debate público, apenas se expande e reproduz, por estar presente no próprio ensino da arte, nas escolas livres e sobretudo nas universidades. Os aspirantes a artista, em sua maioria animados e bem- intencionados, não têm clareza, e nem a recebem de seus mestres, sobre pra que, afinal, serve a obra de arte. Seria para aprimorar o olhar do próprio artista, e para seu crescimento pessoal? Ou para inspirar no público determinados sentimentos? Mudar as pessoas? Ou incutir nelas, quem sabe, algumas idéias, e ter assim uma influência política, mudar a sociedade — em última instância, mudar o mundo? Outros diriam, talvez, que a arte serve para expressar-se e, nesse movimento, libertar-se; outros, ao contrário, crêem que sua finalidade seja chocar a assembléia, despertá-la do transe anestesiado do cotidiano. Outros ainda, com o olhar um pouco alheado, dizem que o objetivo da arte é tocar a beleza. E a beleza, nesse caso, o que seria? Gosto pessoal, que não se discute? Ou uma relação matemática, que só os iniciados podem ver? A arte consiste numa boa idéia, num conceito, uma grande sacada, ou, na verdade, numa técnica apurada com muito treino? Ou num talento, uma habilidade inata fora do comum? E assim por diante, quase indefinidamente. Estas são algumas das perguntas que o professor Roberto Mallet começa por responder e esclarecer em seu trabalho costumeiro, pondo luz sobre princípios muito básicos, mas que não estão tão à vista no contexto cultural em que estamos inseridos. Por isso lançamos recentemente, pela Editora Cedro, seu livro Arte pra quê? — O que é uma obra de arte, pra que ela serve, o que afinal é a beleza e o que você tem a ver com isso. Foi a primeira iniciativa que nós, seus discípulos, tomamos de tentar compartilhar esse conhecimento com o público mais amplo de todos os leitores, transcrevendo trechos de suas aulas. Agora, de modo a difundir esse material ainda mais e a facilitar-lhe o acesso, trazemos aqui a sua síntese, o mínimo sobre arte em seus traços principais, que podem ser aprofundados num contato com o restante do trabalho do professor, seja adquirindo o livro, inscrevendo-se em suas aulas na Plataforma Convívio, ou ao menos acompanhando-o em suas redes sociais, como o Instagram @roberto_mallet. Que este pequeno livro possa ter sobre o leitor o mesmo efeito que suas aulas, em que o professor, à maneira dos mestres antigos, vai apontando para o objeto desde diferentes pontos de vista, transitando de um para o outro, de tal modo que cada novo lance enriqueça os que o antecederam, faça-os ganhar mais sentido, e assim paulatinamente, até que o aluno, sacando de sua própria experiência direta, seja de repente invadido pela evidência da verdade. — O editor P O QUE É UMA OBRA DE ARTE? ara que serve uma obra de arte, qual sua finalidade? Onde se pode encontrar isso a que chamamos “arte”, e quais são as características que nos permitem identificá-la como tal? Para responder a estas perguntas, precisamos primeiro distinguir as várias acepções que tem a palavra arte, e indicar qual delas utilizaremos aqui. O dicionário Houaiss traz vinte e cinco definições para o verbete. Dos significados próprios, não derivados, podemos reter três que correspondem àqueles que geralmente nos vêm ao espírito quando se fala em uma “obra de arte”. O mais comum, e provavelmente aquele em que você pensou quando viu o título deste livro, é: “Produção consciente de obras, formas ou objetos voltada para a concretização de um ideal de beleza e harmonia ou para a expressão da subjetividade humana”. É neste sentido que utilizarei aqui a palavra arte, com a ressalva de que as obras de arte não expressam apenas a subjetividade humana, mas também idéias, relações, emoções, estados de alma, conceitos, enfim, quaisquer realidades espirituais, anímicas ou corporais. O segundo e o terceiro significados, que abrem a lista de definições, têm como rubrica “filosofia”, e relacionam o conceito de arte respectivamente a Platão e Aristóteles: “1. Segundo tradição que remonta ao platonismo, habilidade ou disposição dirigida para a execução de uma finalidade prática ou teórica, realizada de forma consciente, controlada e racional”; e “2. Segundo tradição que remonta ao aristotelismo, conjunto de meios e procedimentos através dos quais é possível a obtenção de finalidades práticas ou a produção de objetos; técnica”. Quer dizer, segundo esse dicionário, que a diferença entre a concepção de arte dos dois filósofos gregos é que o primeiro pensa na virtude humana de produzir uma obra, na habilidade do artista, e o segundo nos meios e procedimentos que ele utiliza para essa produção, o que corresponde com mais propriedade à palavra “técnica”. Para me referir ao sentido 1, utilizarei expressões como “talento”, “virtude” ou “capacidade poética”, ou simplesmente poética. E para o sentido 2, técnica. Notem que esses dois pontos de vista sobre a arte não são excludentes, mas ao contrário, estão intimamente interligados e completam-se um ao outro. POÉTICA E ÉTICA Vejamos agora o que disse Aristóteles sobre o assunto. O filósofo toma como dado que a ação humana pode ter um objetivo puramente teorético — conhecer algo —, ou um objetivo prático — fazer alguma coisa. A faculdade do intelecto pode se ocupar de conhecer e compreender as formas das coisas, mas utilizamos nossa inteligência prática quando buscamos, não adquirir conhecimento, mas realizaruma ação, o melhor modo de agir em determinada situação. Essa ação prática (práxis) tem, por sua vez, duas modalidades distintas: a ação moral e a ação poética. A ação moral é aquela que aperfeiçoa o agente. Seu objetivo é imanente à própria ação: ela, por si mesma, deve ser boa, a melhor possível numa situação dada. A ciência da ação moral é a ética, cujo estudo nos dá os critérios de escolha e nos revela os bens possíveis que a ação humana pode ter como fim perseguido. Neste caso, a inteligência prática busca o aperfeiçoamento do agente; isto é, aquele que faz uma boa ação torna-se, nesse momento, alguém um pouco melhor; aquele que comete um erro, ou executa um ato mau, torna-se aí um pouco pior. Agora, quando realizo uma ação cujo objetivo é produzir um objeto, estou usando minha inteligência prática com uma finalidade extrínseca a essa ação: é uma ação transitiva, que busca o bem do objeto criado, e não o bem do próprio agente — e esta, segundo Aristóteles, é a ação poética. O conhecimento dos princípios, dos procedimentos, dos materiais envolvidos na fabricação de certos objetos, e a capacidade de executálos adequadamente, é o que constitui a técnica do artista. É de se notar ainda que, tanto para Aristóteles quanto para a tradição escolástica posterior, esses objetos realizados pela ação poética não precisam necessariamente ser corporais: podem sê-lo, como no caso de uma mesa, uma escultura, um quadro, uma dança, uma comida, ou podem ser mentais, como no caso de uma equação, uma demonstração lógica, uma sinfonia, um romance, um poema. Assim sendo, há duas ciências da ação prática: a ética, cuja finalidade é realizar uma boa ação, e a poética, que tem por objetivo realizar uma boa obra, um objeto bem-feito, seja ele mental ou corporal. A técnica é o conjunto de conhecimentos e habilidades que permite ao poeta bem construir o seu objeto. ARTES LIBERAIS E ARTES SERVIS Essa distinção entre as obras corporais e as mentais é o que dá motivo à divisão clássica entre as chamadas “artes liberais” e “artes servis”, que não tem a ver com a condição social do artista, como o nome nos leva hoje a pensar, mas com o fato de que as obras das artes liberais são construídas na própria alma do artista, enquanto as obras das artes servis são corpóreas e, portanto, exigem um trabalho físico, corporal, para serem realizadas. O corpo é um instrumento, o “servo” do artista. As artes liberais são sete. Três relacionadas à palavra, ao verbo: gramática, lógica e retórica, e quatro relacionadas ao número: aritmética, geometria, música e astronomia. Cada uma delas têm como finalidade a construção de um objeto mental: a lógica, por exemplo, é a arte da construção dos raciocínios, dos silogismos; a geometria constrói as figuras espaciais; já a música, ciência da harmonia e da proporção (das artes inspiradas pelas musas), abarca boa parte do que chamamos hoje com o nome “arte”: a poesia, a música, a dramaturgia, etc. Entre as artes servis temos a escultura, o teatro, a dança, a pintura, a caligrafia, e também a carpintaria, a culinária, a ginástica, a navegação, a agricultura. Notem que essa distinção não impede que um mesmo artista exerça ora uma arte liberal, ora uma arte servil. Um músico, por exemplo, pode compor uma melodia (objeto mental), melhor ou pior, e em seguida executá-la na flauta, mais ou menos bem (objeto corporal). Um poeta pode conceber um poema e depois recitá-lo em praça pública. A qualidade de cada uma delas pode diferir, como ocorre no caso, tão comum, de um compositor que é mau cantor, ou de um grande intérprete que não compõe. Mas o artista também pode ter em si as duas coisas muito interligadas e exercer ambas ao mesmo tempo, criando à medida que executa, como numa improvisação de jazz. Nem por isso se anula a distinção entre as duas ações, pois não são os mesmos os procedimentos e técnicas de cada uma: a sua lógica poética é diferente. Não é demais reforçar que a pedra de toque para sabermos se uma arte é servil ou liberal é a obra, o objeto criado: corporal, no primeiro caso, mental, no segundo. É fácil nosso pensamento escorregar e, sem perceber, mudarmos o critério, concluindo que apenas nas liberais o homem usa a sua inteligência, e que as servis são puramente mecânicas, ininteligentes. Em ambas quem age é o homem como um todo — espírito, alma e corpo —, aplicando sua inteligência à tarefa. Outro ponto importante é que, sendo a arte uma ciência, no sentido antigo do termo — isto é, um conhecimento dos princípios, procedimentos e meios para realizar certa obra —, um objeto feito sem ela, ou com um domínio precário e incompleto dela, não é propriamente uma obra artística. Nós podemos fazer, ainda, uma distinção entre as obras que são puramente mentais, como uma fórmula matemática, um silogismo etc., e a concepção da forma de uma obra corpórea. Um compositor, por exemplo, pode criar uma canção, uma sonata ou uma sinfonia apenas mentalmente, imaginativamente, sem usar o seu corpo e sem o auxílio de um instrumento, assim como um arquiteto pode conceber um edifício inteiro sem tocar em uma única pedra. Eles criaram apenas a forma da obra, um objeto puramente mental. Mas, para que a obra exista, será necessário o concurso de outras artes servis que a concretizem, que a completem. Nesses casos, o artista liberal já tem de levar em conta os vários elementos materiais de que o produto final será composto — como a qualidade específica de cada instrumento, sua sonoridade, seu timbre particular, no caso do músico, ou as características dos diversos materiais que comporão o edifício, no caso do arquiteto. Em outras palavras, os materiais e técnicas que serão usados na prática da arte servil já têm de estar, de algum modo, na prática da arte liberal, considerados em sua execução. Podemos distinguir, por último, dentro das artes servis, as ações em que o artista enfrenta diretamente sua matéria, sem mediação, manipulando-a diretamente com seu corpo — um escultor manuseando a argila —; ações em que ele utiliza um instrumento para conformar sua matéria — o cinzel do escultor, o serrote do carpinteiro, o forno do ceramista, a viola do músico —; e as ações que têm o próprio corpo do artista por matéria — o gesto do ator, o canto, a dança. O ENSINO DA ARTE Com o advento da Revolução Industrial surge uma situação radicalmente nova na história da humanidade. A invenção da máquina a vapor, no final do século xvii, e seu desenvolvimento no século xviii, transformou pouco a pouco a produção artística. A máquina de fiar substitui a roca, o tear mecânico substitui o manual, e começam a surgir máquinas para a produção dos mais diversos objetos, tecidos, instrumentos, etc. As transformações sociais, políticas e econômicas causadas por essa revolução tecnológica foram enormes. A que nos interessa especialmente aqui é o progressivo abandono do trabalho manual, artesanal, pela produção em série. Os objetos fabricados pelas máquinas em quantidades antes inimagináveis substituíram os objetos até então fabricados pela mão humana. A diferença entre essas duas coisas é algo sobre o que devemos meditar freqüentemente, até a vermos com evidência, para jamais esquecê-la. É só a partir desse momento que surge a noção de “utensílio”, de um objeto puramente útil, sem nenhuma significação além da utilidade imediata a que se destina. Os objetos artificiais, industriais, já não têm a marca da mão humana: não é mais o homem que produz o objeto, servindo-se de instrumentos, mas é a máquina, utilizando o braço humano como seu auxiliar. Antes, no trabalho manual, artesanal, em que o artista lutava corporalmente com a matéria para produzir sua obra, ele não só imprimia nessa matéria uma forma; essa mesma luta deixava, por assim dizer, a sua marca, e na obra ficava impressa a própria humanidade do artífice, e, mais ainda, a sua singular personalidade. Um amigo meu, músico, fala sempre sobre os violinos fabricados por um certo mestre, numa cidadezinha da Europa, e que são os melhores violinos do mundo. Para tornar-se talmestre, ele aprendeu o ofício de construir violinos de seu mestre, que por sua vez aprendeu-o do seu mestre, e assim sucessivamente até onde seja possível contar a história, de tal modo que estes violinos não são obra apenas desse indivíduo isolado e do seu gênio, mas resultado de uma longa tradição de geração em geração, de uma técnica que vem sendo aperfeiçoada há muito tempo, e transmitida diretamente, de artista para artista. É assim o aprendizado da arte: só se aprende junto a um artista — vendo-o trabalhar, copiando-o, imitando a sua maneira de fazer, sendo orientado e corrigido por ele, e ao mesmo tempo absorvendo a cosmovisão desse artista, a maneira como ele vê a realidade, como ele capta as coisas e cria suas obras. O ensino da arte sempre ocorreu assim. Mesmo quando, no Renascimento, surgem as escolas de belas- artes, substituindo pouco a pouco as antigas corporações de artistas, esta regra permanece universal: o aprendizado de uma arte é necessariamente pessoal, e se desenvolve no contato direto e cotidiano entre mestre e aluno. Se não se quiser aprender simplesmente conhecimentos abstratos, como história da arte, teoria da arte, filosofia estética, arte comparada, simbolismo, mas aprender a produzir uma obra de arte, esse é o único caminho. E é só depois de aprender com o mestre ao longo dos anos, absorvendo sua técnica, que um estudante pode adquirir a maestria em determinada arte. Talvez haja, na literatura, que é uma arte liberal, uma distância que nos faça considerar a possibilidade do “autodidatismo”, pensando no aspirante que, lendo e relendo os grandes escritores, vá lhes incorporando o estilo e aprendendo a escrever à medida que o absorve. Mas, além de ser preciso considerarmos que ainda assim esse aprendiz estaria tentando ultrapassar, sozinho, o véu da fruição da obra para acessar suas engrenagens, por assim dizer, para que pudesse imitar os procedimentos do mestre falecido, é fato que esse caminho é muito mais árduo e trabalhoso do que o que conta com a presença do grande escritor, que lê, rabisca, comenta os acertos do aprendiz. Nas artes que se encarnam mais francamente no corpo, então, seja conformando-o diretamente seja utilizando-o como instrumento para seu exercício, isso é praticamente impossível. Em teatro, dança, pintura, escultura, carpintaria, fica claro como só se aprende vendo e participando do trabalho de criação do mestre. A ausência dessa dinâmica inerente ao aprendizado artístico é uma das razões por que vemos hoje uma decadência tão grande nas obras de arte. Há muita arte ruim hoje em dia. Por quê? Porque os alunos querem ser mestres já aos vinte anos de idade. Querem fazer a “sua” obra de arte; não têm a paciência, a humildade e a sabedoria de aprender com um artista maduro. Ignoram que não é possível, sem esse longo aprendizado “corpo a corpo”, adquirir e construir, aos poucos, uma “personalidade poética” própria. A DIMENSÃO SIMBÓLICA Com a Revolução Industrial, dissemos, na medida em que os objetos são fabricados em série, eles vão perdendo sua qualidade artística e vão se tornando puramente úteis. Eles são fabricados por máquinas; não há mais a mão humana que conforma a matéria para gerá-los, e isso não os faz perder somente a sua aura de originalidade, não. E a elipse da presença humana, do trabalho corporal de uma pessoa concreta sobre a obra, não a priva apenas da personalidade individual do artista, nem tão-somente da força e da riqueza da tradição artística que a gerou. Os objetos industriais não têm uma marca que se imprime em sua realização unicamente através da mão humana, e que de certo modo a faz sempre presente. Podemos chamá-la de sua “dimensão simbólica”. Para compreender de que se trata, num relance, basta nos lembrarmos de dois versos, de dois poetas. Adélia Prado diz: “De vez em quando Deus me tira a poesia. Olho pedra, vejo pedra mesmo”.1 E Mário Quintana: “E nunca me perguntes o assunto de um poema: um poema sempre fala de outra coisa”.2 Repare como Adélia distingue, no mesmo verso, entre olhar e ver. Em grego, θεωρία, “visão”, significa contemplação, quer dizer, uma visão profunda, mais apurada do que a do simples olhar. Este capta apenas a aparência do objeto, sua figura ou aparência exterior, ao passo que a contemplação capta a sua forma, sua significação, imediatamente relacionando-a com o sentido de outras formas, e, em última instância, com a forma do restante do próprio universo. A visão é um olhar que verdadeiramente compreende. A contemplação transcende o objeto: transcende os sentidos — a imagem que nos chega à retina, por assim dizer — e transcende a própria individualidade, a falsa “autonomia” do objeto, e considera uma porção de relações e analogias que ele encerra. É a isto que me refiro quando falo da dimensão simbólica da arte, e que é tão fundamental. O poeta, quando olha pedra, vê mais que pedra; e o público, quando olha sua obra, vê também muitas outras coisas. Ora este elemento está ausente nas obras puramente utilitárias: não se pensa em outra coisa ao produzir em série sapatos, sabonetes, carros, computadores. E o consumidor, quando olha o computador, vê computador mesmo. Um poeta pode, sim, olhá-lo e ver outra coisa, todas as relações que esse artefato tem com sua própria vida, com a história, a cultura, com o universo. Mas o computador, enquanto objeto, não foi feito com uma intenção significante, expressiva, simbólica. Essa dimensão não faz parte da sua essência. De tal maneira que esses objetos são, sim, fruto de uma técnica, que resulta da ciência de sua produção; mas se considerarmos, como fizemos logo no início, a palavra “arte” em seu sentido de intenção expressiva, o computador não é uma “obra de arte”. J BELEZA, BONDADE E VERDADE á vimos que uma obra de arte é necessariamente um objeto, mental ou corporal. Mas, mesmo os mentais, para serem comunicados, transmitidos a um outro, precisam de um aporte corporal; isto é, sua expressão será também um objeto corporal. A obra de arte pode então ser um objeto tridimensional, que ocupa um lugar no espaço, como uma escultura, um quadro, uma ânfora etc., mas também um objeto sonoro, acústico: uma música tocada ou cantada, um poema dito. E isso é importante salientar: o que chamamos comumente de obras de arte são objetos que se dirigem aos dois dos nossos sentidos que são mais intelectuais: a visão e a audição. A proeminência desses dois sentidos fica clara no uso corrente da língua portuguesa: Não dizemos que um sabor é belo, bonito; dizemos que é gostoso, saboroso; bom, mas não belo. O mesmo vale para aromas e texturas. Isso porque a beleza só é captada pela visão e pela audição, ou melhor, só é captada pela inteligência através da visão e da audição. Veja que os animais não contemplam um objeto belo, pois, não possuindo inteligência, não podem captar a beleza. Nunca veremos um gato, um cachorro ou um macaco contemplando um pôr de sol ou a beleza de uma flor. Eles não são capazes de fazê-lo, pois não têm uma faculdade que lhes permita captar a beleza. A beleza só pode ser vista por seres inteligentes. E não só a beleza, mas também o sentido das coisas. Beleza e sentido estão intimamente relacionados, são a mesma coisa vista de pontos de vista distintos. São Tomás de Aquino dizia que o belo é o esplendor do verdadeiro. Mas não devemos concluir disso que a beleza e a verdade de algo sejam coisas separadas, independentes. Elas estão unidas, são como que aspectos de um mesmo ser. É como o esplendor do sol, que faz parte do próprio sol, não existe separadamente. É inerente a ele: o sol, por ser aquilo que é, tem esplendor. Assim também com a verdade: na medida em que é verdade, tem beleza, e vice-versa. Não falo aqui da “verdade” de uma proposição lógica, mas da verdade própria de uma coisa, de sua forma inteligível, que pode ser captada por uma inteligência. Neste sentido a verdade é uma realidade ontológica. Além desse esplendor que tudo o que é verdadeiro irradia, a beleza de um objeto está relacionada à proporção de suas partes entresi e de cada parte com o todo. Em grego, a palavra κόσμος, “cosmos”, quer dizer, além de “mundo” e “universo”, também “ordem”, “harmonia”, e “beleza” (daqui vem a palavra “cosmético”, algo que cria harmonia e ressalta a beleza). Outra observação etimológica que nos ajuda a ter uma idéia mais clara e profunda sobre a beleza é o sentido que tem a palavra καλός (kalós) em grego clássico e ainda no koiné (o grego falado no tempo de Cristo e no qual foi redigido quase todo o Novo Testamento e os escritos dos Santos Padres gregos). Atualmente, no grego moderno, ela tem apenas a acepção de “bom”, mas antigamente significava tanto “bom” quanto “belo”. Na tradução grega da Bíblia, a Septuaginta, quando Deus, no início do Gênesis, ao final de cada dia da criação contempla sua obra, e vê que ela é boa, a palavra usada é καλός (e a palavra correspondente em hebraico, בוט, tob, também tem esse duplo sentido). Quer dizer, para o gênio dessas duas línguas, em que foram redigidos quase todos os livros da Bíblia, há uma união tão substancial entre bondade e beleza que para ambas é usada uma mesma palavra. O que é bom é também belo, ordenado e harmônico. Essa passagem do livro do Gênesis liga-se a outro ponto que toquei mais acima. Nela está dito que Deus vê que sua obra é boa-bela. Ao final de cada dia, Ele olha, contempla e vê sua bondade e beleza. É uma visão da inteligência divina (da qual a nossa é uma participação), que capta estes dois aspectos justamente porque captou a verdade que havia na coisa. Também nós vemos a bondade, a beleza e a verdade de alguma coisa com a nossa inteligência, e, se essa coisa é um objeto corporal, por meio dos nossos sentidos. Estão apontados, nessa visão que Deus tem de sua obra, do universo, os chamados “transcendentais”: o que Deus cria tem ser, e ao contemplá-lo Ele afirma — verdadeiro — que sua criação é boa e bela. Esses transcendentais são conversíveis entre si. Quanto mais uma coisa é, mais é verdadeira, boa e bela. BELEZA E ESTÉTICA Quando se fala sobre a beleza de uma obra de arte, é muito comum vermos as pessoas distinguirem entre seu aspecto estético, ao qual chamam propriamente de beleza, e seu aspecto intelectual, o qual relacionam com a verdade, ou com a “mensagem” que ela transmite. Ao pensar assim, é como se assumíssemos que uma obra bela pudesse ter um conteúdo falso, mentiroso, e uma obra com um conteúdo verdadeiro pudesse ser feia. Há nisso uma confusão, que é muito importante desfazer. Uma imagem vista, ou um som ouvido, pode ser agradável aos sentidos, causar uma sensação visual ou auditiva prazerosa, mas isso não significa que seja belo. Por outro lado, o assunto, o tema de uma obra pode nos fazer pensar, pode ser interessante ou relevante, e nos levar a elaborar uma reflexão, um raciocínio lógico sobre ele, mas não podemos confundir esse assunto com o conteúdo da obra. O “conteúdo” de uma obra de arte não é o seu tema, mas sua forma — isto é, sua estrutura interna, a organização de seus vários elementos numa unidade significativa. O pensamento decorrente da contemplação de uma obra de arte autêntica é analógico, simbólico, e não discursivo. Isso quer dizer que o seu efeito, no nosso ser, é como uma “profunda impressão” (com palavras de Aristóteles), como uma dose de vitaminas para a inteligência, um vigor novo à alma que é posto ali como uma semente, cujos efeitos poderão aparecer só mais adiante. É claro que nós podemos elaborar um pensamento analítico sobre uma obra — como uma crítica, por exemplo —, mas este já não é o pensamento provocado imediatamente por ela, mas uma reflexão que fazemos a posteriori, que toma a obra por assunto e é elaborado por nós, e não é o pensamento elaborado pelo artista na criação da obra. Também o termo “belas artes” é hoje causa de confusão. Eu prefiro evitar esse termo pela seguinte complicação teórica: quando se fala em “artes do belo”, parece que o trabalho do artista é forjar uma determinada substância, a “beleza”, e que a partir dela ele compõe a obra. Na verdade, a beleza é uma qualidade da obra, uma conseqüência da sua composição. Não é um objeto material, uma coisa. Para que isto fique mais claro, meditemos um pouco sobre o conceito de estética, que muitas vezes se confunde com a verdadeira acepção de beleza. Estética vem de αἴσθησις, estesis, sensação, a percepção dos sentidos físicos. A estética estuda o que acontece com o observador, o fruidor de uma obra de arte; ela estuda, não a obra de arte em si, mas a impressão que ela causa nos sentidos humanos e, portanto, no observador. Então, apesar de a estética ser uma disciplina relevante e ter o seu lugar, ela não é uma teoria do belo, como se costuma pensar, mas o estudo da recepção humana de um fenômeno no qual identificamos algo particular que chamamos de beleza. Quando se fala em beleza hoje, tende-se a pensar na estética, em algo exterior, no ornamento, que não é propriamente a beleza na arte. Uma “beleza estética”, cujo efeito nos aliena da realidade, não é verdadeira beleza; é, no máximo, boniteza. É bonito, trata-se de uma agradabilidade puramente sensorial, que confunde e dá ilusão de beleza, mas não é propriamente o belo. A verdadeira beleza, que, como dissemos há pouco, se converte na verdade e vice-versa, nos ajuda a estar mais na realidade. Essa falsa beleza, ao contrário, nos aliena de nós mesmos. O êxtase que essa agradabilidade puramente sensorial nos causa é totalmente diferente do verdadeiro êxtase da beleza. Êxtase quer dizer “sair de si”: o êxtase desse deleite sensorial faz nós nos perdermos, nos dispersarmos, nos divertirmos (do latim divertere, de dis-vertere, “virar em diferentes direções”, pra todo lado); o da beleza é um sair de si que eleva em vez de nos dispersar, é um sair de si para cima, e não para os lados. É um sair do eu superficial para o eu profundo; um sair do eu cotidiano, social, periférico, para penetrar numa região onde o eu e o tu estão como que identificados. O êxtase que a obra de arte pode causar não aliena, pelo contrário, ele nos aproxima de nós mesmos, ele nos toca mais profundamente. Quando entramos em contato com uma grande obra de arte, saímos com a sensação de que estamos mais próximos da realidade e, portanto, do nosso eu mais íntimo, mais profundo, e, em última instância, de Deus. A beleza na arte como que irradia da própria obra, e é uma função da sua forma, da sua estrutura formal; toda forma é genuína na medida em que vem do artista, da sua verdade, na medida em que não está falseada por sua própria mente, em que não contém uma mentira — a palavra “mentira” vem de “mente”. A mentira é algo que nós fazemos com nossa cabeça, e não com a consciência. A mentira quer abafar a consciência por meio do discurso, de uma composição de imagens. Então, toda obra de arte genuína terá a sua beleza, desde que expresse adequadamente a idéia que está na alma do artista. Quando vemos uma coisa bela, parece que ela atrai nosso olhar. Você tenta tirar o olho dela, mas seu brilho continua nos chamando. A palavra “claridade” tem a mesma raiz de “clamor”. A claridade de uma obra de arte é algo que chama e clama a nossa atenção, que nos atrai. Do que fica dito podemos concluir que não há uma definição clara de beleza. Podemos descrevê-la, apontar para ela, falar sobre ela, enumerar suas características, mas não defini-la. A beleza é um transcendental, ela é principial. Não há um gênero em que a possamos incluir para lhe dar uma definição. Considerados filosoficamente, o bom, o belo e o verdadeiro são três aspectos do ser. Teologicamente, são três aspectos de Deus. É como se O olhássemos de pontos de vista diferentes e falássemos do Ser de Deus, que é bom, da sua luz, que é verdadeira, e da sua atração, do seu brilho, daquilo que nos faz voltarmos nosso olhar para contemplá-lo, a Ele que é belo. FRONTEIRAS DA TÉCNICA Leiam este trecho do segundo capítulo do livro Três alqueires e uma vaca, de Gustavo Corção: “Reflexões inúteis sobre escritores inúteis”. O livro é sobre a pessoa e a obra do escritor inglêsG. K. Chesterton. Nas suas primeiras páginas, Corção faz algumas reflexões sobre a arte da literatura, mas que podemos facilmente e com muito proveito aplicar a todas as obras de arte. Diz ele que As obras escritas, em todos os muitos gêneros, são em grande parte meros acidentes, ondas fortuitas, que não chegam a ficar incorporadas, realmente incorporadas, nessa pirâmide das grandes ofertas que o homem faz ao homem. Se não tiram, também não acrescentam. Formam depósitos secundários de que vivem os livreiros e as traças. Funcionam como os assuntos do dia, escândalos ou banquetes, não chegando a ser propriamente obras, mas acontecimentos. Entram no calendário, nos salões, nas colunas da crítica e muitas vezes nas academias, mas não aderem ao compacto e concreto mundo da verdade. Têm a natureza dos passos de dança de que nem o chão guarda memória, ou a semelhança do palito que só entretém um breve e subalterno contato com o alimento. Há escritores (ai de nós!) cujo maior título é uma pontualidade ou uma atitude: estar escrevendo. Vivem num particípio presente que não participa de um presente. Estão na literatura como os generais na ativa. Reformados, vai- se-lhes o prestígio; mortos, fica um registro nos almanaques e outro na sepultura. Há no mundo dois mundos, um de pedra e outro de neblina: geologia e meteorologia. Na literatura há também montanhas e brisas. Os livros que encontramos são, na maior parte, como as correntes de ar; e sua leitura tem a brevidade e o enfado de uma gripe. Leu- se; sofreu-se; acabou-se.3 Gustavo Corção, cujos livros têm não só a consistência e a densidade existencial de um homem que escreve com o coração na mão, mas também o brilho e o gênio do grande poeta, constata aqui algo que vemos em todas as artes, em todos os tempos e lugares. Porém, com o espantoso desenvolvimento das máquinas e dos artefatos iniciado com a Revolução Industrial e potencializado pela revolução tecnológica e digital contemporânea, os instrumentos técnicos que permitem a produção de obras sem que se precise adquirir pessoalmente a técnica de produzi-las cresceram vertiginosamente, e continuarão crescendo. Não se trata apenas da reprodutibilidade das obras estudada por Walter Benjamin no seu clássico ensaio.4 Hoje, além das cópias em altíssima resolução de obras concretas, essas sim forjadas pelos artistas no embate corpo a corpo com sua matéria, como pinturas e peças musicais; além das cópias de obras produzidas diretamente num meio digital, e que, portanto, não diferem em nada da obra original; temos artefatos que copiam, emulam a própria técnica artística, o próprio trabalho pessoal do artista, permitindo a produção de simulacros, não apenas de obras, mas de artistas. É claro que esse avanço facilitou o trabalho dos verdadeiros criadores, e abriu-lhes novos campos materiais e formais a explorar. Surgem novas espécies de artes, novas técnicas que ampliam as possibilidades expressivas. Mas isso vem acompanhado da quantidade alucinante de imagens visuais e auditivas postas em circulação diariamente. E um dos principais efeitos dessa produção de obras supostamente artísticas foi o rebaixamento radical na qualidade do que a população absorve como arte. O próprio apreço pelas obras foi diminuído, já que o acesso a elas foi extremamente facilitado. Não foi só o trabalho corporal e imaginativo na produção das obras que diminuiu ou, em muitos casos, foi substituído pela tecnologia. O trabalho necessário para adquiri-las ou para contemplá-las também. Não cabe aqui pesar os prós e os contras dessa revolução tecnológica para saber se, no frigir dos ovos, a arte, a cultura e o próprio tecido social ganham ou perdem com isso. Meu intuito é apenas assinalar algumas conseqüências dela no campo das artes expressivas para ajudar você a se orientar nele e aproveitar, em sua vida, dos muitos benefícios que a arte, e somente a arte, pode oferecer. Uma das mais evidentes vantagens dessa nova situação é o acesso às obras que em nada perdem, ou que perdem muito pouco, com a sua digitalização, especialmente os livros. Os mais jovens, que já nasceram rodeados de tecnologia, não têm idéia da dificuldade que era adquirir um livro trinta ou quarenta anos atrás. Hoje há bibliotecas inteiras digitalizadas, edições antes inacessíveis, ao seu alcance. É bem verdade que a leitura do livro físico tende a ser mais rica e efetiva, mas neste caso não há dúvida de que os benefícios superam em muito as perdas. Além disso, a aquisição do próprio livro físico é muito mais fácil: você pode comprá-lo pela internet e recebê-lo pelo correio, sem botar os pés fora de casa — outra coisa a que as novas gerações não dão o devido valor. Quando morava em Porto Alegre, fiz várias viagens a São Paulo somente para comprar livros, porque simplesmente não encontrava nas livrarias da cidade os livros que queria. Muitas vezes você nem sabia os títulos de uma boa bibliografia sobre determinado assunto, pois não tinha onde consegui-los. Era preciso ir pessoalmente às grandes livrarias de São Paulo, a livrarias especializadas nesta ou naquela área, não apenas para comprar, mas para descobrir os livros que lhe podiam interessar. O mesmo se dá nas comunicações: hoje todos têm celular (com câmera fotográfica e filmadora) e computador, e comunicam- se com a maior facilidade. Por meio da internet, nos comunicamos com o mundo inteiro. Tudo isso é muito bom; mas também tem efeitos catastróficos, especialmente entre os mais jovens, que não podem fazer a comparação entre o passado e o presente. Como lêem pouco e têm pouco contato com as obras de arte em geral, não têm imaginação suficiente para conceber, para imaginar como se vivia em outras épocas. Não têm idéia dos imensos benefícios de que se usufruía, e muito menos das realidades e possibilidades que existiam nessas outras épocas, e que se perderam. E esta, aliás, é uma das funções da obra de arte; não apenas das grandes obras de arte, que, é claro, cumprem melhor esta função, mas de qualquer obra de arte, desde que seja autêntica: ela nos dá instrumentos, meios, matéria para imaginar como outras culturas, outras épocas, outras pessoas em outras situações viviam. Seja nas tragédias gregas, nas epopéias de Homero ou nas esculturas gregas, nós podemos ter uma idéia da concepção de homem que os gregos tinham; temos acesso à sua cosmovisão, participamos imaginativamente do ambiente espiritual, cultural e material que está retratado na obra. Elas são testemunhos de uma época. Também podem ser testemunhos de personalidades, retratar os mais variados caracteres, e expressar a própria pessoa do autor, seja indiretamente, seja diretamente, nas obras confessionais e autobiográficas. (E a literatura tem uma função muito especial sob este ponto de vista, pois cumpre essa função de uma forma mais ampla e profunda do que as outras artes). E isto nos leva de volta aos escritores inúteis do Gustavo Corção. Diz ele que a maioria das obras de arte hoje em dia (o livro é de 1946) são como uma gripe, “leu-se, sofreu-se e acabou-se”. E de fato, quase tudo que nos chega por meio dos “artistas”, as imagens que vemos na internet e na televisão, os poemas, contos, canções, com essa facilidade tecnológica que expusemos, são semelhantes a um resfriado — sofremos, e esquecemos. O FALSO E O GENUÍNO Falamos da distinção entre o que é belo, daquela luz que irradia da forma de uma obra e que nos atrai e eleva, e o que, ao ser sensorialmente agradável, apenas parece belo. Mas como distinguir uma obra verdadeira de uma mentirosa? Quando uma obra de arte é autêntica? Gustavo Corção, no capítulo “O falso e o genuíno”, do mesmo livro, disse: Quando falo em livros que pesam, e me lamento dos que não pesam, quero me referir a uma distinção mais delicada — ou talvez mais brutal — do que aquela que geralmente se estabelece entre um bom e um mau bife, entre o casaco bem feito e um outro de mau pano ou defeituosa costura. Essas serão, na acepção aqui adotada, avaliações puramente adjetivas. Têm incontestável importância, sem dúvida,e cada dia maior, porque um dos aspectos mais tristes da política moderna ou das mais recentes concepções de vida é certamente a degradação geral das qualidades.5 Um dos objetivos deste livro é fornecer ao leitor critérios e instrumentos para reconhecer as obras de arte de qualidade, e, portanto, oferecer como que um antídoto, uma vacina para que você evite as más obras de arte, das quais o melhor a fazer é afastar- se. E não me refiro ao sentido moral das obras, mas também não só puramente à sua qualidade técnica: falo das obras malfeitas, mal ajambradas, fracas, das obras que não têm peso, como diz Corção, que são como a gripe... Vivemos num tempo em que somente a consciência individual pode fazer esse trabalho seletivo, separar o joio do trigo no populoso universo das obras artísticas. Não temos nenhuma instituição, nenhuma estrutura social que nos poupe o trabalho de adquirir um conhecimento básico sobre as artes para fazermos por nós mesmos esse trabalho de garimpo. A consciência individual é a única luz que pode nos dar a possibilidade de sair deste caos em que nos encontramos. Continua Corção: “A distinção que investigo, entretanto, é mais interior à natureza das coisas. Um mau bife ainda é um bife; um mau casaco ainda veste”. Ou seja, obras de arte medíocres, ou malfeitas, ainda são obras de arte. Então, o que distingue uma obra de arte de uma falsificação, de um pastiche? “Seria a verdade?”, ele se pergunta. Ouso dizer que não é isso. Um livro pode ser grande e digno de interesse mesmo quando escrito contra a verdade. Estarei mais próximo, mais quente, se disser que o primeiro divisor das obras humanas, de onde se tira a condição primeira e eliminatória, não é tanto a verdade nelas contida, mas a sua ligação com a verdade. Com amor ou com ódio, acerto ou desacerto, o primeiro traço fisionômico de uma obra humana deve ser a sua humanidade. Deve ser a conexão vital e real com as coisas do homem, sua invencível tendência, colérica ou cordial, para tudo que nos toque na carne e no sangue. Esse é o sinal que umas obras possuem e outras não. Sinal de participação na concórdia ou no combate; notícia boa ou má (a ser verificada logo depois), verdadeira ou falsa (a ser cuidadosamente examinada); mas notícia que me faça pensar: “isto é comigo”.6 Este, então, é um primeiro critério que podemos estabelecer aqui: uma obra de arte é profundamente verdadeira na sua humanidade, de maneira que, quando a observo, percebo que, por meio dela, o autor está falando comigo. Ela é concreta, toca minha carne e meu sangue, como diz Corção. Não é abstrata nem indiferente ao ser humano. Se numa narrativa ou numa peça teatral, por exemplo, acontece uma avalanche numa geleira, onde não há nenhum ser vivo, ninguém, isto não tem interesse dramático nenhum. Se não há conseqüência para pessoa alguma, se não surge dali um drama humano, se aquilo não se relaciona com a nossa carne, com o nosso sangue, com nosso espírito, com nossa alma, se não tiver relação alguma com o ser humano vivo, não provoca nenhum interesse em nós. Não basta, porém, que o artista, com seu domínio poético adquirido ao longo dos anos, trate de temas e situações essenciais para o homem. Há uma exigência mais profunda, pois, no pastiche, na falsificação, na contrafação, há qualquer coisa de inassimilável e inassimilado, como um cálculo, que obstrui, que impede a circulação, e que proporciona ao desprevenido a ilusão de ter encontrado a poesia, o romance, a filosofia, e que simboliza esse desprevenido diante de um muro. O homem goza do estranho e inquietante privilégio de poder falsificar tudo: o pão, o livro, a sua própria humanidade. Pode falsificar um deus. E no paroxismo de todas essas falsificações, torna-se mais estranho e mais inquietante quando conclui que não existem falsificações.7 Essa autenticidade do artista é uma dificuldade que só os grandes artistas vencem com plenitude. Poderíamos resumi-la na seguinte questão: Como é que eu entro em contato com a minha percepção real e concreta de algo, que acontece no íntimo do meu ser, e a traduzo numa obra? A dificuldade é dupla. Por um lado, eu tenho de estar em contato com a realidade, sem filtros, hábitos mentais e discursos que podem ocultá-la para mim — um movimento de assimilação, de fora para dentro; por outro lado, em um movimento oposto, de dentro para fora, eu devo plasmar essa verdade obtida da realidade em uma obra de arte, do modo mais sincero possível, tendo esse caminho desimpedido também. Para isso eu preciso tanto de instrumentos técnicos, que me permitam fazer essa transposição, como de instrumentos poéticos, ou seja, uma imaginação rica, criativa, que me permita realizar a concepção adequada daquela obra, que é o que caracteriza os grandes artistas. É neste sentido que se pode dizer que o artista é um “canal” de realidades superiores, e é um canal mais perfeito na proporção em que não distorce essas realidades quando as capta, e que tem os recursos capazes de expressá-las. Se a obra não for uma comunicação entre dois corações humanos, se não for uma voz humana falando sobre o homem para o homem, se não houver, enfim, qualquer relação com o homem vivo, concreto, ela não pertence ao gênero de coisas que nós aqui entendemos por obra de arte. FACE À MORTE Quando falamos em situação humana, ou drama humano, não podemos ignorar a realidade da morte. É justamente em face da morte que a vida adquire seu sentido, e o indivíduo sente o peso e a importância de realizar sua trajetória, com o valor inestimável que tem cada instante vivido. Esse tema, fundamento para incontáveis grandes obras de arte, também é muito caro a mim, não só como artista, mas também como professor. É um costume meu em sala de aula, ao longo de um semestre, seja numa disciplina de ensino poético, seja no processo de montagem de um espetáculo, retomar o tema da morte e meditar sobre ele, lembrando aos atores nossa condição mortal. É impressionante como, às vezes, simplesmente lembrar-se da realidade inelutável da morte já torna uma cena melhor. Em seu belo texto O narrador,8 Walter Benjamin constata que, já na década de 30 do século passado, a realidade da morte estava desaparecendo do horizonte cultural. Antigamente, havia em toda casa aquele quarto em que fulano morreu, assim como aquele quarto — muitas vezes o mesmo — em que fulano nasceu. Morria-se em casa, nascia-se em casa. A casa era uma espécie de microcosmo, uma imagem do universo; e hoje, além de a pessoa não morrer em casa, ela é colocada num hospital, longe do contato com a família. Muitas vezes morre-se sozinho, no meio de instrumentos médicos, e geralmente dopado, inconsciente, narcotizado, dormindo. Ou seja, não se está presente no momento de sua própria morte — o momento do desenlace de todo o caminho que percorremos na vida, o instante das últimas palavras. Essa imagem é uma síntese da situação do homem contemporâneo diante dessa realidade última, e ela é terrível. A morte foi tirada do nosso horizonte. Além de não a presenciarmos mais, sequer falamos dela. Citá-la tornou-se uma espécie de tabu, de inconveniência. No dia-a-dia, a imensa maioria das pessoas não pensam na morte, e pior: não querem sequer ser lembradas dela. Acabam vivendo como se não fossem morrer. É que algo em nós diz que não vamos morrer — pois temos uma alma imortal. Segundo a tradição judaico-cristã, a morte entrou no mundo após o pecado de Adão e Eva. Não fomos feitos para morrer, e, assim, vivemos como se não fôssemos morrer, como se estivéssemos no Paraíso. Mas o fato é que vamos morrer. E, portanto, para que vivamos nossa vida como ela de fato é, devemos constantemente nos esforçar por trazer essa realidade à consciência e aos poucos moldarmos nossas ações de acordo com ela. O que diz Nelson Rodrigues a respeito do amor, vale para todas as realidades mais substanciais da vida humana: “Não há amor se, ao mesmo tempo, falta o sentimento da morte. É preciso que, olhando o ser amado, cada qual pense: ‘Um de nós morrerá primeiro’. Amaremos melhor se pensarmosna morte. Os que não se lembram da morte têm a alma mais árida do que três desertos”. ABSORVER A TRADIÇÃO Voltemos ao texto do Corção: As obras genuínas se comunicam, formando uma trama orgânica e quase viva; tocando uma delas, entramos em contato com todas as que estão penduradas na mesma teia. Quem lê um desses autores, lê também, através de uma especial refração, os livros que ele leu e muitos que, por sua vez, ele recebeu através do mesmo processo indireto de assimilações. Há qualquer coisa de Homero, de Tertuliano, de Santo Agostinho, de Erasmo, de Pascal, de Verlaine e de Proust, num romance de Otávio de Faria ou num poema de Murilo Mendes. Citei aqueles nomes ao acaso. A lista verdadeira e completa seria extensíssima e deveria incluir escultores, arquitetos e músicos, de todos os tempos e todas as raças, sem falar nas influências menores, extraliterárias, proporcionadas pelas frases que se ouvem na rua, pelo olhar que se intercepta num segundo e que se perde para sempre. Na cultura universal corre uma seiva comum, tornando as obras comunicadas e comunicantes.9 Outro dia alguém me perguntava por onde começar a ler os clássicos, e eu, depois de indicar-lhe uma série de livros, recordei-lhe a frase de Jorge Luis Borges: “Para entender um livro, é preciso ter lido muitos livros”. Isso vale para as obras de arte em geral. Para compreender uma obra de arte é preciso ter absorvido muitas obras de arte. E essa absorção deve ser feita sem inquietude, com calma, sem querer compreender tudo desde o primeiro momento, mas deixando que as obras vão se imprimindo em você — “fazendo o seu trabalho”, que se constitui de povoar sua memória com imagens significativas e iluminadoras. À medida que for lendo as grandes obras literárias, vendo as pinturas, as esculturas, ouvindo as músicas etc., você vai começar a notar que existe um grande diálogo entre elas, e, de algum modo, um longo diálogo entre seus criadores, ao longo dos séculos. Ao perceber essas relações, e como algumas obras iluminam as outras, e às vezes revelam segredos e abrem sentidos antes impensáveis, você começará a se orientar. Você irá penetrando aos poucos no universo da arte, até adquirir ali seu direito de cidadania. J O PROBLEMA DA ARTE MODERNA á nos debruçamos o suficiente sobre os princípios, os conceitos, que são como que os alicerces de nossa abordagem das obras de arte. De posse dessas idéias, podemos avançar, agora, na compreensão do sentido da arte, olhando para gêneros, estilos artísticos e até obras específicas, e sobrevoando rapidamente a história da arte moderna. Tenhamos claro, em síntese, o que dissemos até aqui: a obra de arte é determinada essencialmente por sua forma. Entretanto, a matéria da qual é feita também faz parte dela, e já é considerada em sua concepção. A qualidade da matéria também é significativa, também tem uma dimensão simbólica. Não se faz um objeto sagrado de um material baixo, por exemplo; ele deve ser feito de materiais nobres: não se faz um cálice para a liturgia de plástico, ou de papel latão. Tudo que existe no universo é composto de matéria e forma, e, portanto, a matéria que é usada numa produção artística também tem sua forma — a forma do ouro, ou do plástico, ou da madeira, de cada tipo de madeira, etc. Logo, a escolha da matéria de uma obra tem, para o artista, uma dimensão simbólica e expressiva. A forma que ele concebeu como que pede uma matéria adequada, ou, dito de outro modo, faz parte dessa forma encarnar-se em determinado tipo de matéria, e não em outro. Vimos também que toda forma é dotada de um certo esplendor — claritas, na linguagem medieval. Relacionando uma coisa com a outra, podemos afirmar que as obras de arte são tanto mais belas quanto mais sua realização corresponde à concepção do artista e, portanto, deixa transparecer a clareza e o esplendor da forma concebida. Esse esplendor não vem só da adequação entre a concepção e a realização, mas deve-se, antes de tudo, à idéia concebida. Ela por si já tem, na mente do artista, esse esplendor, que a obra bem realizada faz brilhar para os demais. E este brilho, por um lado, atrai para si o olhar, e por outro, ilumina o sentido da mesma obra. Assim — pelo menos até o surgimento da Modernidade, quando houve uma relativização e um progressivo esvaziamento de sua função —, a obra de arte tem por finalidade revelar uma idéia, uma forma, a forma de alguma realidade experimentada ou imaginada. Tomemos, por exemplo, uma estátua grega de Ártemis. Não há nela somente a figura externa da deusa. Ela reproduz a sua forma, é uma espécie de aparição da deusa, que se faz presente nessa obra. Como todo símbolo, a estátua participa da realidade de Ártemis, quer dizer, possui algo dela em sua forma, e ao mesmo tempo aponta para ela. É uma espécie de encarnação da deusa, um meio de entrar em contato com ela. Temos o mesmo no caso de um ícone bizantino: ele traduz uma determinada realidade que é invisível aos nossos olhos, por exemplo, a pessoa do Cristo. Mas Ele não é representado em todos os seus sentidos: um dos Seus aspectos, ou alguns dos Seus aspectos, serão privilegiados na obra. O famoso Pantocrator, por exemplo, mostra-nos a majestade de Cristo, rei do universo, o senhor de todas as coisas. No ícone da Transfiguração, é a luz de glória manifestada no alto do Tabor que é enfatizada; vemos também Sua majestade, mas acentuada em seu aspecto glorioso: é o brilho da luz o que chama a atenção, esse é o foco, a forma essencial daquele ícone, aliada à reação dos apóstolos e à epifania de Deus Pai e do Espírito. No ícone da Santíssima Trindade, de Andrei Rublev, são as três Pessoas da Trindade, suas relações e sua íntima união que são manifestadas. Há uma espécie de complexo simbólico nos ícones, com um tema fundamental, e algumas variações, acentos e harmônicos desse tema, como se diz em música. Se dermos um salto e pegarmos uma pintura de Rembrandt, O construtor naval Jan Rijcksen e sua mulher Griet Jans, por exemplo, veremos ali não mais, como na estátua de Ártemis ou no ícone bizantino, figuras que representam realidades invisíveis, mas simplesmente um ser humano numa determinada situação, num determinado estado de ânimo. A luz, a composição, a forma do quadro, suas cores, tudo isso nos fala dessa situação. Aqui o objeto está ao alcance dos seres humanos comuns, enquanto no caso da arte sacra o objeto é mais árduo de ser contemplado; ele exige ascese, exige uma vida de piedade, e uma vida sacramental também. A arte sacra, como no caso dos ícones no contexto da Igreja, traz muito mais exigências para o artista do que uma arte não-sacra. Esta não deixa de trazer exigências terríveis, e sabemos que os artistas sofrem muito no processo de traduzir uma percepção, mas eles não têm, pelo menos em princípio, a necessidade de determinados exercícios ascéticos e de uma vida de oração que lhes permitam ascender a essas realidades mais altas, que é o caso dos artistas sacros. Foi no Renascimento que houve uma confusão, e mesmo uma inversão, no entendimento dos procedimentos e técnicas respectivos à arte sacra e à arte profana. Ocorreu ali de temas que poderíamos chamar de supra-humanos passarem, em geral, a ser retratados desde um ponto de vista muito humano, ainda que sempre haverá artistas que possuem um grau de espiritualidade mais alto e outros mais baixo, de acordo com sua vida e com os dons que receberem de Deus. Vejam-se, como exemplo, A agonia no horto de Andrea Mantegna, ou a Crucifixão de Antonello. A partir do Renascimento — na transição da Idade Média para a Idade Moderna —, a arte começa a se tornar a expressão de uma subjetividade, pondo a seu serviço, ao mesmo tempo, a excelência técnica e racionalizada. O surgimento da perspectiva na pintura é uma síntese disso, pois trata-se de uma matematização do olhar. Podemos ver nos estudos de perspectiva que as regras são de ordem puramente matemática e, por conseqüência, abstrata. Esta matematização da imagem pictórica já é o prenúncio da matematização da ciência física,com Copérnico, Galileu e Newton. Quer dizer, o universo começa a ser visto como uma máquina que obedece a leis matemáticas, ou seja, algo composto de elementos puramente quantitativos. E aqui está o problema fundamental, porque a pura quantidade não tem sentido nenhum, ela não quer dizer nada. Em função do grande papel que as ciências passam a ter na interpretação do mundo, e do conseqüente postulado de que a sua interpretação é a correta, é “objetiva”, a visão de mundo medieval, que no Ocidente era baseada na religião cristã, começa a perder sua importância e sua hegemonia cultural, sendo relegada ao campo do imaginário e dos sentimentos. Essa troca de cosmovisões leva a uma progressiva decadência. A autoridade espiritual, que vê o mundo em sua totalidade, a partir de seus aspectos mais altos — em suma, de seu sentido —, foi trocada pela autoridade científica, que passou a ver o mundo abstratamente, considerando apenas seu aspecto material. A influência disso sobre nós é tão grande que hoje consideramos que o mundo concreto é composto apenas pelo aspecto material das coisas, o que é evidentemente uma abstração. A maioria das pessoas acredita que, para saber o que as coisas são, deve consultar os cientistas em vez dos sacerdotes. Na Modernidade a ciência substituiu a religião. No universo medieval, quem estava no centro era o próprio Deus, e o mundo era mantido na existência pelo poder de Deus. Com o humanismo, Ele sai do centro; não que as pessoas tenham deixado de acreditar em Deus, mas Ele foi expulso do universo para as alturas, longe, para um lugar que está acima e fora do universo. Muitos de nós, hoje, ainda têm essa visão: vivemos nesse mundo, e imaginamos que Deus está em algum lugar, que criou o universo como uma máquina, pôs essa máquina a funcionar e ficou de fora, observando, e que age às vezes, para corrigir este ou aquele ponto do mecanismo — isto quando acreditamos em Deus. Ora, Deus está presente em todas as coisas, no íntimo dessas coisas, mantendo-as na existência. Não está distante de nós. Pelo contrário, como diz São Paulo, “nele vivemos, nos movemos e existimos” (At 17, 28). Com o Renascimento esta visão começa a ser substituída por uma visão de um universo “profano”, ou seja, um universo do qual Deus está ausente. E isto se reflete nas obras de arte. O modelo e o objeto do louvor ou da admiração dos artistas já não é Deus, e sim o homem. Vejam a Capela Sistina: ela tem um tema religioso, mas uma forma “humanista”. Deus, nela, está como que humanizado — e não no sentido cristão, de Deus se fazer homem, mas no sentido de rebaixar a divindade às excelências meramente humanas. Em outras palavras: o Cristo da Sistina não é glorioso, poderoso, e senhor do universo; é só musculoso. Antes o homem era visto como imagem e semelhança de Deus; a partir de então Deus foi visto como imagem e semelhança do homem. A partir do século xviii isso se acentuou radicalmente. É neste período que surgem na filosofia as obras de Kant e Hegel, que abrem uma espécie de abismo entre o mundo concreto e a percepção humana, e metem esse abismo na cabeça das pessoas, inclusive dos artistas. E isso é justamente o oposto do que fazem os grandes artistas, pois, por sua própria natureza, o objeto artístico cria uma ponte entre o mundo concreto e a percepção. As obras de arte são simbólicas no sentido etimológico da palavra: unem, sintetizam experiências. No século xx, a situação não melhorou, pelo contrário, o abismo entre a realidade e a alma humana não só foi acentuado, mas foi buscado conscientemente pelos artistas como finalidade de sua arte. A expressão da subjetividade do artista, traduzindo não mais a sua percepção de um objeto concreto, real, mas a sua vivência subjetiva dessa percepção, vai criar uma separação definitiva, desconectar a obra de arte do mundo concreto. Isso esclarece por que é que, especialmente a partir do início desse século, a maioria da população, das pessoas comuns, já não consegue absorver e gostar das obras de arte. Essas obras não estão mais traduzindo uma realidade comum a todos, mas determinadas idéias e vivências que às vezes são muito particulares de um artista, da sua subjetividade, das suas concepções, da sua maneira de ver o mundo. Isso é fruto do individualismo que começou lá no Renascimento. Para compreender o que estou dizendo, é essencial ter compreendido o que é forma, porque é na forma da obra que captamos seu sentido. E aqui tocamos no ponto central da questão: Para que serve uma obra de arte? Arte pra quê? Fundamentalmente, para nos revelar alguma verdade, alguma realidade, seja ela transcendente, seja ela humana, seja ela pertencente à subjetividade de um indivíduo, mas sempre em relação com o mundo concreto em que vivemos. É impossível que o artista fale pura e simplesmente de si mesmo; ele até pode ter essa intenção, mas não vai conseguir, pois está inserido no mundo, e sempre terá, ao criar uma obra de arte, uma intenção comunicativa, expressiva. Alguns artistas buscaram se livrar disso quase como uma obsessão. Franz Kafka, que em parte pensava assim, pediu no leito de morte para Max Brod, seu amigo íntimo, que queimasse todos os seus papéis, todas as obras. É claro que ele não queimou. Não queimou porque também sabia que esse pedido vinha de uma zona mais superficial da personalidade do Kafka, e que, na verdade, ele escrevera toda sua obra buscando intensamente o contato com o outro, com o amor humano, ainda que não o encontrasse. E é justamente na obra do Kafka que temos uma imagem fiel deste drama do homem moderno desenraizado e sem referências. Ele nos dá um testemunho, por meio de sua expressividade imaginativa, da situação do homem contemporâneo, exilado no mundo, sem conseguir ter um contato fraternal e amoroso com o seu semelhante, desorientado e sem Deus. Assim, mesmo que sua obra tenha um caráter muito individual, ela é ao mesmo tempo universal, pois consegue iluminar para nós um aspecto da nossa própria existência, e acaba servindo como um possível remédio para a situação, um possível antídoto, na medida em que, como já dizia Aristóteles, a catarse é uma purificação: no horror — neste caso, um horror irônico — é possível se libertar desse isolamento. Viktor Frankl, o psiquiatra que criou a logoterapia, diz em um ensaio que a arte moderna faz um diagnóstico, mas não oferece uma terapia. Isto é muito certeiro. Se isso é assim, se o artista expressa em sua obra a sua percepção de um objeto ou de uma realidade interior, pertencendo e vivendo numa certa cultura, num certo tempo, num certo lugar, ele também é um testemunho de sua época. Por isso as obras antigas e de outras culturas nos são às vezes muito pouco acessíveis; porque, para absorvê-las, para fruir delas, precisamos também ter uma certa idéia, uma certa compreensão do meio em que foram feitas. Um grande romance, na qualidade e no tamanho, pode servir muito bem para esse fim de penetrar em uma cultura, justamente por sua complexidade. Ele trata de vários aspectos dessa cultura, conta-nos histórias de diversas pessoas, descreve-nos situações, costumes, dando-nos assim um panorama daquela cultura. Por isso a literatura é, de todas as artes de ficção, a mais rica, e a mais profícua. Assim, se tivermos de escolher um gênero artístico para nos aprofundar, certamente será a literatura de ficção, pela sua amplitude, por um lado, e por ser uma arte verbal, dando- nos, além de um vasto universo simbólico, meios para expressarmos nossa própria realidade. Uma língua já traz no seu bojo uma cosmovisão — ou algumas cosmovisões —, e traz na sua história arqueológica, na etimologia das palavras e nas suas estruturas gramaticais, uma herança dos nossos antepassados. A literatura é, portanto, a arte mais rica, à qual devemos dedicar mais tempo, mais atenção. Ela nos dá meios de compreensão tanto da nossa realidade atual quanto de outras culturas, outras épocas, outros homens. Em qualquer cultura, a obra de arte é símbolo de uma realidade que não é física, mesmo que a matéria retratada, seuconteúdo literal, esteja no nível puramente físico, como uma paisagem. Pelo simples fato de ter sido criada por mãos humanas, as obras de arte são expressões de um psiquismo e de uma visão de mundo: tudo que elas retratam tem relação com a vida humana e seus dramas. Com alguns artistas isso fica muito evidente. Uma paisagem de Van Gogh nos dá toda uma atmosfera que é análoga a uma tensão da nossa própria alma, uma tensão psíquica. Não há sequer um objeto artístico que expresse um objeto material puro e simples: a própria escolha desse objeto e o estilo com que ele é representado, o ponto de vista sob o qual é observado, já nos dão uma carga de sentido que não é física, corporal. E o sentido é espiritual, nós o captamos com a nossa inteligência, ainda que a reverberação dessa captação, da contemplação da obra, se dê num plano mais emocional, ou até corporal (como uma obra pornográfica, que vise excitar o espectador sexualmente, por exemplo). Podemos, então, fazer esta importantíssima distinção: uma coisa é o tema da obra, que pode até ser predominantemente físico; outra coisa é aquilo para o qual ela aponta, seu sentido, que pode ser um estado de alma, um conflito humano, ou mesmo uma realidade transcendente, como os ícones e boa parte da estatuária greco-romana. Muitas vezes, também, elas podem traduzir ao mesmo tempo realidades que pertencem a planos distintos: tanto um estado de alma como uma realidade transcendente, como é o caso dos salmos. Essa é uma distinção que podemos fazer das obras de acordo com o objeto que elas simbolizam, e para o qual elas apontam. A obra de arte não é um fim em si mesmo; ela é, como diz Pavel Florensky, uma janela para a realidade. No final da Idade Média vemos surgir nas artes uma tendência cada vez mais acentuada de produzir obras que retratem as coisas de um ponto de vista puramente humano, “natural”. A estilização e a carga simbólica começam a desaparecer, dando lugar a uma espécie de humanismo estético. Isto culmina no início do Renascimento, com o surgimento da idéia da perspectiva. Ao contrário do que muitos dizem, os artistas anteriores a esse período não ignoravam a técnica da perspectiva, eles apenas não se interessavam por ela na produção das obras. Quer dizer, a chave para a expressão, para a construção da obra, obedecia a outros critérios, critérios de valor, critérios simbólicos. No final do século xix e início do xx, a intensificação dessa busca “naturalística” faz surgirem, na literatura, o realismo e o naturalismo. No teatro essa quimera da imitação perfeita da vida real, de não produzir um símbolo, mas a própria vida, foi ainda mais influente (e, de certa maneira, ainda existe). Um dos fundadores do naturalismo no teatro, o francês André Antoine, influenciado pelas idéias expostas por Zola no ensaio Naturalismo no teatro (1881), na sua busca de colocar “a vida real” nos palcos, chegou a pendurar postas de boi em cena, na peça Os açougueiros, de Fernand Icres, o que causou um grande escândalo. E Stanislavski, que reconheceu explicitamente a influência do trabalho de Antoine, buscou essa mesma “verdade cênica” durante um bom período de sua trajetória. Almejava criar uma cena tão realista, tão “natural”, que o público chegasse a esquecer que estava no teatro e acreditasse estar vendo a própria coisa representada. O diretor russo passava tardes ensaiando sons de trem, de chuva, grilos, para também criar essa ilusão. Acontece que esse projeto é irrealizável. Não é possível criar “uma fatia da vida real”, uma obra de arte que não seja simbólica, pois é impossível recriar a própria realidade. A obra de arte é, por definição, artificial. Pode-se criar uma ilusão da vida real, com a complacente suspensão da descrença por parte do público; mas quando se insere um naco autêntico de realidade na obra, o público o rejeita como um objeto descolado e estranho à obra. Isto logo ficou evidente, e em pouco tempo os bons artistas abandonaram esse projeto. Meyerhold, que trabalhou com Stanislavski e nunca deixou de admirá-lo, já em 1905 fez críticas demolidoras àquela idéia. Ele fala de uma montagem em que, para dar a sensação de vento forte, as muitas cortinas no fundo da cena eram movidas, a partir dos bastidores, por contra-regras; porém, as vestimentas das personagens não se moviam. Não havia vento real; dava-se a ilusão do vento pelo movimento das cortinas, mas a ilusão era quebrada pela contradição com a ausência de vento nas roupas. Outro exemplo: no cenário de uma peça havia um telão de fundo onde era pintado em perspectiva um campo com uma estrada que se perdia no horizonte; mas quando os atores caminhavam para o fundo do palco não diminuíam na mesma proporção. Criar a ilusão em arte mostrou-se a maior ilusão de todas. Não é possível fazer em arte uma obra absolutamente naturalista. Há sempre estilização, há sempre um recorte. Ela não é uma fatia da vida real, ao contrário, ela faz parte da vida real. É um símbolo, a representação de um ou alguns de seus aspectos. O que a obra de arte faz é proporcionar ao público uma visão imaginativa sobre a vida real. Muitos artistas do século xx foram percebendo essa armadilha e começaram a romper com a idéia ilusionista, inspirados inclusive em obras artísticas de outras culturas. Picasso e outros pintores da época se voltaram para essas fontes, para as artes orientais e pré- renascentistas, e levaram ao extremo a negação do naturalismo. Essa radicalização teve algumas ramificações: alguns ficaram apenas com os elementos pictóricos, dando origem à arte abstrata, que reduz a pintura apenas às linhas, cores, figuras geométricas, tinta, tela, sem representar objetos do mundo concreto (Mondrian é um exemplo desse grupo de artistas). Outra vertente não nega a representação de objetos reais, mas deforma-os, carrega-os de conteúdos emocionais, afetivos, como os expressionistas. Outros ainda criam obras que atacam os conceitos e hábitos do público ou da crítica, ou a moral vigente. São os avós dos nossos artistas performáticos e ativistas. É o caso de Marcel Duchamp, enviando para um museu seu famoso urinol, e René Magritte, com o quadro Ceci n’est pas une pipe. — Para quem não sabe, esse quadro apresenta um cachimbo pintado, e abaixo dele a frase: “Isto não é um cachimbo”. O público, ao ver o quadro, não entendia: “Como assim não é um cachimbo? Eu estou vendo que é um cachimbo! Por que não é um cachimbo?”. Enquanto obra de arte, não tem muito valor. É apenas uma provocação, o questionamento de uma tradição naturalista e ilusionista na arte, que não era muito longa, mas já se tornara um hábito mental do público, que se acostumara com ela e exigia dos artistas que suas obras fossem “fatias da realidade”. Com a progressiva negação da imitação, concomitante ao desaparecimento da visão simbólica da realidade, somados ao esvaziamento do próprio sentido da obra de arte (condensado na fórmula “arte pela arte”), não demorou muito para que, lá pela década de 60, os artistas começassem a romper com a idéia mesma de “obra”. A arte começa a ser um instrumento político, ou uma experiência vivencial, ou um grito de revolta. A forma da obra vai perdendo importância até praticamente desaparecer — e com ela desaparece a obra. O espaço que se abriu após o abandono do sentido espiritual da obra de arte foi preenchido por finalidades inferiores. A arte foi instrumentalizada, com fins políticos ou puramente individuais. Hoje, qualquer performance sem nenhuma estrutura formal — alguém que, por exemplo, fique em uma praça urrando, ou tire a roupa em uma solenidade — é considerada arte, quando o indivíduo está simplesmente expressando uma sensação, uma vivência psíquica, ou uma opinião política, sem sequer se preocupar com a estrutura formal daquilo que faz. As transgressões, muito admiradas por inúmeros artistas hoje, na verdade são simplesmente negações da ordem do mundo, da cultura e da civilização. De arte mesmo, não têm nada. Ainda que esquemática e muito breve, creio que essa vista panorâmica da história da arte no Ocidentemoderno seja suficiente para fazermos uma idéia desse movimento secular, que vai de uma cultura civilizacional teocêntrica, na qual, em última instância, tudo era símbolo de Deus, tudo falava de Deus, até chegar ao desaparecimento de toda e qualquer forma, e a uma expressão pura e simples do estado emocional do indivíduo que se diz artista, mas que não justifica esse nome, porque não produz uma estrutura formal que tenha o mínimo de sentido. A obra de arte nos revela uma situação espiritual, humana, que é manifestada, atualizada e realizada por um artista. Ela reflete a realidade humana num determinado momento do tempo e do espaço, e é, simultaneamente, algo comum a todos os homens, universal. Quanto melhor é uma obra de arte, quanto mais profunda, mais universal ela é. E por isso podemos classificá-las de acordo com o nível espiritual ou a profundidade humana que retratam, incluindo os planos supra-humanos, isto é, a relação do artista com as realidades transcendentes por meio de sua inteligência e vontade. O naturalismo é fruto de uma civilização materialista, que acredita que a realidade se restringe ao plano natural — ao corpo e ao psiquismo. Quando o artista se gaba de retratar uma situação “naturalista”, entendendo por essa palavra apenas o lado animal e social do homem, sem qualquer referência ao seu espírito, ou aos anjos, ou a Deus, ou mesmo aos deuses, acreditando que está sendo realista, ele está, na verdade, sendo sub-realista. Está retratando apenas uma parte da realidade, e ignorando aquilo que é mais alto, e que, mesmo sendo invisível, não é por isso menos real — e poderíamos dizer que justamente pelo seu caráter imaterial e imutável ele é mais real do que as coisas visíveis e mutáveis. Temos dificuldade em compreender que aquilo que é invisível, espiritual, é tão real quanto um pedaço de pau. As grandes obras de arte de qualquer época estão aí para nos revelar e iluminar essas realidades, que não estão ao alcance da mão, e que nos passam despercebidas. As artes, as musas, nos lembram daquelas realidades que são essenciais, e das quais, no nosso dia-a-dia, nos esquecemos. Sem isso, vivemos à superfície do mundo, esquecidos de nós mesmos, como se nossa vida neste mundo fosse a vida, toda a vida; como se Deus não existisse; como se o amor fosse uma realidade ilusória, e não a própria substância de tudo aquilo que existe. U GOSTO NÃO SE DISCUTE samos a palavra gosto no sentido estético por analogia com o sentido do paladar. Assim como determinado alimento agrada nosso paladar, determinada obra agrada nosso senso estético. A semelhança vem de que, quando contemplamos uma obra de arte, nós a estamos degustando, e absorvendo; corresponde ao alimento que, depois de agradar ao paladar, encaminha-se para tornar-se parte do nosso próprio ser. Nós incorporamos a obra ao nosso mundo imaginário, nós nos tornamos, de certa forma, essa obra. Dizia Aristóteles que o homem é, de um certo modo, tudo aquilo que ele conhece. E ele também é, de outro modo, tudo aquilo que deposita em sua memória. Mas, como em toda analogia, há uma diferença entre esses dois gostos: o paladar, sendo orgânico, corporal, se modifica pouco, e não tem uma relação direta com nossa inteligência; o gosto artístico é anímico, e pode ter uma relação direta com a inteligência, com o conhecimento, com a compreensão que temos das obras de arte. Quanto melhor você conhece um gênero artístico, mais o seu gosto vai se refinando e aguçando, você passa a perceber e apreciar vários aspectos da forma da obra que não eram acessíveis ao seu olhar desavisado. O paladar é um sentido corporal, e reage fisicamente ao que experimenta; o gosto artístico é resultado de uma interação entre o psiquismo e a inteligência, e pode ser desenvolvido com educação. É verdade que, para nenhum dos casos, cabe fazer uma discussão verbal, argumentativa, sobre os gostos que uma pessoa tem. No caso da arte, porém, o gosto pode ser desenvolvido e ampliado, por meio do estudo e da contemplação das grandes obras. Isto quer dizer que, em arte, gosto não se discute: educa-se. Minha intenção aqui não era propriamente desenvolver o seu gosto, estudar a forma de uma obra de arte específica, mostrar sua estrutura, suas relações com outras obras, seu estilo individual e sua relação com outros estilos, etc., até porque o estudo analítico das obras de arte deve vir muito depois da absorção de um grande número delas. A obra de arte é feita para ser contemplada, e seu gosto artístico vai evoluir na mesma medida em que você for absorvendo as grandes obras. Minha intenção, aqui, é exortá-lo: cultive o seu gosto, procure ouvir, ver, ler obras de arte consideradas as melhores naquela área. Isso não é difícil de encontrar. Hoje é fácil pegar uma lista de filmes, de grandes romances, de antologias poéticas, de músicas das várias épocas consideradas as melhores por quem conhece o assunto. Aos poucos, você mesmo vai adquirir um senso crítico, vai aprimorar o seu gosto artístico de maneira a escolher as formas artísticas que mais lhe agradam. Não se trata agora de ver, ouvir, ler e assistir a tudo que existe de excelente, e aderir a tudo, porque isso é impossível. Comece devagar, por aquilo que primeiro chama a sua atenção. Se você gosta mais de literatura, procure grandes romances, ou grandes poetas — especialmente os da língua portuguesa (e nossa poesia lírica é, de todas as artes, aquela em que temos o maior número de grandes artistas). Já a música não depende da língua, e você pode começar tanto pelas músicas medievais como pelas canções brasileiras de raiz popular. E assim por diante. É com a absorção das grandes obras que se vai adquirindo meios de expressão e ampliando a imaginação, descobrindo situações e temas que não estão presentes na nossa vida cotidiana ou que estão em camadas mais profundas da realidade, inexistentes para um olhar superficial. A arte não é uma evasão da vida cotidiana: é uma espécie de mergulho na realidade cotidiana através da imaginação. Com ela descobrimos que a vida é muito mais rica e tem muito mais dimensões do que sonham os nossos pensamentos cotidianos, focados, em sua maioria, apenas naquilo que é imediato, nas notícias do dia, nos problemas políticos, sociais, ou nos problemas domésticos, financeiros, etc. Esquecemo-nos da brevidade da vida, da morte, do amor, da vida eterna, e também das grandes paixões, dos grandes feitos, enfim, do sentido da nossa própria história. A maioria das pessoas, hoje, têm um horizonte temporal e existencial muito apequenado. Perdem tempo com fofocas, com as notícias do dia. Não estou dizendo que devamos nos alienar das realidades atuais, mas que é preciso nos conectarmos com aquilo que é permanente, que é eterno, e que as grandes obras de arte nos tornam acessível. Jerzy Grotowski, um diretor de teatro polonês muito importante no século xx, dizia que as pessoas vão ao teatro (e podemos generalizar para todas as artes) por três motivos. Primeiro, para se divertir. “Eu não tenho nada contra as pessoas irem ao teatro simplesmente para se divertir”, dizia ele. “Mas não é para essas pessoas que faço teatro. Para elas existe o music-hall, o teatro de variedades”. Há também o público que vai ao teatro para dizer que foi ao teatro, para “adquirir cultura”, para valorizar sua imagem social, em suma, para adquirir um “verniz cultural”. Para essas pessoas a arte é uma espécie de ornamento pessoal, que lhes dá um certo brilho e as faz sentirem-se superiores à ignara maioria da população. Não pensam em transformar de fato a sua própria personalidade, em ampliá-la e abri-la para outras dimensões, em atualizar possibilidades pessoais que estão adormecidas e podem ser despertadas; não pretendem olhar de fato para si mesmas e para a própria vida, ou, como se diz, “pôr o dedo na ferida”, o que costuma doer. Elas apenas “adquirem cultura”. Ora, cultura não é algo que se adquire; é algo de que nos alimentamos, e que se transforma em nosso próprio ser. “Por fim”, dizia Grotowski, “há pessoas que vãoao teatro porque estão em busca de algo. É para essas que eu faço teatro”. Todas as grandes obras de arte se dirigem a pessoas que estão em busca de algo. Pessoas que sabem que a vida humana é uma trajetória ao longo da qual vamos nos desenvolvendo, nos tornando “mais”; não nos tornamos “mais” quantitativamente, nem “melhores” num sentido puramente comportamental, mas pessoas mais plenas, mais amplas: nos tornamos mais nós mesmos. A isso se refere aquela famosa frase de Píndaro: “Homem, torna-te aquilo que és”, isto é, atualize as possibilidades que estão como que em semente em você, torne-se o que você pode ser, ou você plenamente; torne-se mais você mesmo. Esta é minha exortação neste livro: Não fique totalmente à mercê das circunstâncias, das contingências, e torne-se mais ativo no cultivo de si por meio das obras de arte. Assuma a responsabilidade por sua própria formação, sua criação, pois isso é assumir responsabilidade por sua própria personalidade, sua própria vida. As verdadeiras obras de arte foram feitas para isso. São como que recados, mensagens, presentes que ganhamos e que custaram muito suor, muito trabalho, muito sangue e muitas lágrimas para serem trazidos ao mundo; são tesouros herdados para que as absorvamos e as transformemos em nossa própria substância. NOTAS DE RODAPÉ 1 “Paixão”, em Poesia reunida. Rio de Janeiro: Record, 2015, p. 146. 2 “O assunto”, em Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2006, p. 260. 3 Campinas: Vide Editorial, 2020, p. 15. 4 “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, em Obras escolhidas, vol. 1, trad. Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1993, pp. 165–196. 5 Idem, p. 17. 6 Idem, p. 18. 7 Idem, p. 28. 8 Op. cit., pp. 197–221. 9 Op. cit., p. 27. APRESENTAÇÃO O que é uma obra de arte? Beleza, bondade e verdade O problema da arte moderna Gosto não se discute Notas de Rodapé