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ACESSE AQUI O SEU LIVRO NA VERSÃO DIGITAL! PROFESSORA Me. Raquel de Araújo Bomfim Garcia Psicologia da Educação C397 CENTRO UNIVERSITÁRIO DE MARINGÁ. Núcleo de Educação a Distância. GARCIA, Raquel de Araújo Bomfim. Psicologia da Educação. Raquel de Araújo Bomfim Garcia. Maringá - PR: Unicesumar, 2021. Reimpresso em 2023. 176 p. “Graduação - EaD”. 1.Psicologia 2. Comportamento 3. Cognição. 4. EaD. I. Título. NEAD - Núcleo de Educação a Distância Av. Guedner, 1610, Bloco 4 Jd. Aclimação - Cep 87050-900 | Maringá - Paraná www.unicesumar.edu.br | 0800 600 6360 CDD - 22 ed. 370.15 CIP - NBR 12899 - AACR/2 ISBN 978-65-5615-373-5 Impresso por: Bibliotecário: João Vivaldo de Souza CRB- 9-1679 DIREÇÃO UNICESUMAR NEAD - NÚCLEO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Diretoria Executiva Chrystiano Mincoff, James Prestes, Tiago Stachon Diretoria de Graduação e Pós-graduação Kátia Coelho Diretoria de Cursos Híbridos Fabricio Ricardo Lazilha Diretoria de Permanência Leonardo Spaine Head de Graduação Marcia de Souza Head de Metodologias Ativas Thuinie Medeiros Vilela Daros Head de Tecnologia e Planejamento Educacional Tania C. Yoshie Fukushima Head de Recursos Digitais e Multimídias Franklin Portela Correia Gerência de Planejamento e Design Educacional Jislaine Cristina da Silva Gerência de Produção Digital Diogo Ribeiro Garcia Gerência de Recursos Educacionais Digitais Daniel Fuverki Hey Supervisora de Design Educacional e Curadoria Yasminn T. Tavares Zagonel Supervisora de Produção Digital Daniele Correia Reitor Wilson de Matos Silva Vice-Reitor Wilson de Matos Silva Filho Pró-Reitor de Administração Wilson de Matos Silva Filho Pró-Reitor Executivo de EAD William Victor Kendrick de Matos Silva Pró-Reitor de Ensino de EAD Janes Fidélis Tomelin Presidente da Mantenedora Cláudio Ferdinandi EXPEDIENTE Coordenador(a) de Conteúdo Márcia Maria Previato de Souza Projeto Gráfico e Capa André Morais, Arthur Cantareli e Matheus Silva Editoração Lavígnia da Silva Santos Design Educacional Rossana Costa Giani Revisão Textual Cintia Prezoto Ferreira Sarah Mariana L. Carrenho Cocato Ilustração Natalia de Souza Scalassara Fotos Shutterstock FICHA CATALOGRÁFICA A UniCesumar celebra os seus 30 anos de história avançando a cada dia. Agora, enquanto Universidade, ampliamos a nossa autonomia e trabalhamos diaria- mente para que nossa educação à distância continue como uma das melhores do Brasil. Atuamos sobre quatro pilares que consolidam a visão abrangente do que é o conhecimento para nós: o intelectual, o profissional, o emocional e o espiritual. A nossa missão é a de “Promover a educação de qualidade nas diferentes áreas do conhecimento, for- mando profissionais cidadãos que contribuam para o desenvolvimento de uma sociedade justa e solidá- ria”. Neste sentido, a UniCesumar tem um gênio im- portante para o cumprimento integral desta missão: o coletivo. São os nossos professores e equipe que produzem a cada dia uma inovação, uma transforma- ção na forma de pensar e de aprender. É assim que fazemos juntos um novo conhecimento diariamente. São mais de 800 títulos de livros didáticos como este produzidos anualmente, com a distribuição de mais de 2 milhões de exemplares gratuitamente para nossos acadêmicos. Estamos presentes em mais de 700 polos EAD e cinco campi: Maringá, Curitiba, Lon- drina, Ponta Grossa e Corumbá), o que nos posiciona entre os 10 maiores grupos educacionais do país. Aprendemos e escrevemos juntos esta belíssi- ma história da jornada do conhecimento. Mário Quintana diz que “Livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas. Os li- vros só mudam as pessoas”. Seja bem-vindo à oportunidade de fazer a sua mudança! Reitor Wilson de Matos Silva Tudo isso para honrarmos a nossa missão, que é promover a educação de qualidade nas diferentes áreas do conhecimento, formando profissionais cidadãos que contribuam para o desenvolvimento de uma sociedade justa e solidária. BOAS-VINDAS MEU CURRÍCULO MINHA HISTÓRIA Aqui você pode conhecer um pouco mais sobre mim, além das informações do meu currículo. Me. Raquel De Araújo Bomfim Garcia Neste espaço, venho apresentar para você um pouco da minha história profissional e as minhas escolhas até che- gar aqui na Unicesumar, onde sou professora de Psico- logia (EAD) há dois anos. O meu interesse pela Psicologia se iniciou ainda no Ensino Médio, quando fazia magis- tério; e, nos meus estágios, sempre me interessava por aqueles alunos que apresentavam alguma dificuldade. Quando fiz o vestibular para Psicologia, não tinha muita noção do que era a profissão, pois havia poucos profis- sionais no interior do Estado. Durante o curso, porém, fui me apaixonando e vendo que realmente tinha feito a escolha certa. A Psicologia é fascinante, possui muitas áreas de atuação. Após o término da graduação, tinha uma única certeza: que trabalharia na área clínica. Fiz for- mação em Psicodrama. No entanto, o propósito de Deus para minha vida era outro, e fui trabalhar em uma escola especializada em atendimento a alunos com deficiência. Foi ali que tudo mudou: apaixonei-me pela Educação Es- pecial e pude entender, de maneira prática, o quanto a Psicologia Escolar/Educacional pode fazer a diferença na aprendizagem e no desenvolvimento do sujeito em todas as suas dimensões. Fiz muitos cursos e especialização na área, passei a atender, na clínica, crianças e adolescen- tes com dificuldades e transtornos de aprendizagem e a ministrar aulas em cursos de formação de professores para a Educação Especial. Quando me casei, mudei de cidade e fui trabalhar em outras escolas especializadas no atendimento a alunos com deficiência neuromotora e outras associadas. Como sempre gostei de escrever e dar aula, fiz o mestrado, que me abriu as portas para a Unicesumar. Sou muito agradecida pela minha trajetória, por fazer o que amo e poder compartilhar com você o conhecimento dessa área tão importante da Psicologia. INICIAIS PROVOCAÇÕES Você está iniciando uma nova disciplina. Talvez, já tenha tido algum contato com o tema ou não. Quem sabe já teve a curiosidade de conhecer um pouco sobre o assunto? Pode ser que tenha ouvido falar que é um conteúdo muito complexo, e isso já gerou certa ansiedade, lembrando de conteúdos acadêmicos anteriores em que teve dificuldade. O que é isso afinal? Pensamentos, sentimentos, raciocínio? Como é que tudo isso acontece no interior da nossa mente e, mais ainda, como é que aprendemos? A proposta desta disciplina é apresentar a você abordagens teóricas da Psicologia que fazem interface com a Educação, dando subsídios para o entendimento de como o sujeito aprende e se desenvolve, esclarecendo sobre os fatores que podem facilitar ou dificultar esse pro- cesso. Utilizam-se, para isso, referenciais teóricos dos próprios autores — Skinner, Piaget, Vygotsky, Freud e Wallon — e de seus seguidores, por meio de livros, teses, dissertações e artigos científicos. A disciplina de Psicologia da Educação oferece a você, futuro(a) profissional da Educação, o entendimento das principais abordagens teóricas da Psicologia, que explicam sobre o nosso comportamento, a construção do conhecimento, a organização das funções psíqui- cas superiores, a estruturação da personalidade e a importância dos afetos no processo de ensino-aprendizagem. Enfim, esse conhecimento proporcionará a você um outro nível de entendimento sobre o trabalho educacional. PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO Você perceberá que esta disciplina tem o propósito de auxiliar você a compreender o sujeito que aprende, para que, assim, tenha mais segurança na escolha da melhor estratégia de ensino que utilizará na construção do conhecimento científico, independente da sua área de atuação. Iniciamos a estruturação desse conhecimento científico pelo entendimento da Psicologia Geral, sua construção histórica e os elementosfundamentais de entendimento do sujeito enquanto ser psíquico. Isto posto, passamos ao entendimento das principais abordagens teóricas da Psicologia que fazem interface com a Educação — o Behaviorismo, a Epistemologia Genética e a Teoria Histórico-Cultural. Encerramos com outros conteúdos psicológicos que são relevantes no entendimento do sujeito que aprende: a Psicanálise, a Teoria da Afetivida- de, as relações humanas no contexto escolar e a subjetividade. Na prática, esse conhecimento possibilita para você, futuro(a) profissional da Educação, um diferencial, pois passa a conhecer e entender o processo de aprendizagem sobre um novo olhar, indo além do conhecimento científico a ser apresentado, compreendendo que o aluno pode aprender de maneiras diferentes e que cabe a você buscar a melhor estratégia para possibilitar o acesso ao conhecimento. Não se esqueça, porém, de que, ao estudar esta disciplina, você também compreenderá um pouco mais sobre a sua aprendizagem, e esse é o desafio da Psicologia. IMERSÃO RECURSOS DE Quando identificar o ícone de QR-CODE, utilize o aplicativo Unicesumar Experience para ter acesso aos conteúdos on-line. O download do aplicativo está disponível nas plataformas: Google Play App Store Ao longo do livro, você será convida- do(a) a refletir, questionar e trans- formar. Aproveite este momento. PENSANDO JUNTOS NOVAS DESCOBERTAS Enquanto estuda, você pode aces- sar conteúdos online que amplia- ram a discussão sobre os assuntos de maneira interativa usando a tec- nologia a seu favor. Sempre que encontrar esse ícone, esteja conectado à internet e inicie o aplicativo Unicesumar Experien- ce. Aproxime seu dispositivo móvel da página indicada e veja os recur- sos em Realidade Aumentada. Ex- plore as ferramentas do App para saber das possibilidades de intera- ção de cada objeto. REALIDADE AUMENTADA Uma dose extra de conhecimento é sempre bem-vinda. Posicionando seu leitor de QRCode sobre o códi- go, você terá acesso aos vídeos que complementam o assunto discutido. PÍLULA DE APRENDIZAGEM OLHAR CONCEITUAL Neste elemento, você encontrará di- versas informações que serão apre- sentadas na forma de infográficos, esquemas e fluxogramas os quais te ajudarão no entendimento do con- teúdo de forma rápida e clara Professores especialistas e convi- dados, ampliando as discussões sobre os temas. RODA DE CONVERSA EXPLORANDO IDEIAS Com este elemento, você terá a oportunidade de explorar termos e palavras-chave do assunto discu- tido, de forma mais objetiva. https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/3881 PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO: UMA INTRODUÇÃO 9 43 APRENDIZAGEM CAMINHOS DE 1 2 ABORDAGEM BEHAVIORISTA 69 ABORDAGEM DA EPISTEMOLOGIA GENÉTICA 3 4 101 ABORDAGEM HISTÓRICO- CULTURAL 5 127 TEMAS CONVERGENTES COM A PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO 1Psicologia da Educação: Uma Introdução Me. Raquel de Araújo Bomfim Garcia Iniciamos a nossa Unidade 1 entendendo como a Psicologia se estru- turou como ciência ao longo da história e o seu desdobramento em diferentes subáreas. Em seguida, você verá o processo histórico no qual a psicologia foi estabelecendo relações com a Educação, desta- cando as principais abordagens teóricas que alicerçam a Psicologia da Educação. Você também vai compreender a aprendizagem e o desen- volvimento na perspectiva da psicologia geral, tendo o discernimento que estes conceitos variam de acordo com as abordagens teóricas. Além disso, desvendará sobre os fatores que podem influenciar no processo de aprendizagem e de desenvolvimento, entendendo a influência da hereditariedade, maturidade e ambiente. Por fim, co- nhecerá alguns conceitos e termos importantes que fazem parte da Psicologia da Educação. UNIDADE 1 12 A primeira vez que entrei numa escola como estagiária do Magistério, muitas eram as minhas expectativas. Aquele ambiente inspirava o conhecimento e o meu desejo de ensinar. No entanto, a princípio, o estágio era de observação e a orientação era para que ficasse no fundo da sala sem interferir no andamento da aula. A atenção deveria ser no professor e sua metodologia de ensino, mas os meus olhos não me obedeciam e eu me vi envolvida com todo aquele movimento que acontecia entre as crianças, as conversas, as dúvidas e o que não era falado, mas expressado com o comportamento. Imagine-se você, futuro profissional da educação, diante de várias crianças, adolescentes e adultos com tantas diferen- ças, com maneiras de aprender peculiares, com atitudes e comportamentos tão distintos. O que acontece se você explicou tão minuciosamente aquele conteúdo e alguns entenderam e outros não? Ou você atendeu individualmente um sujei- to apresentando a ele um conteúdo específico com um material diferenciado e mesmo assim ele não compreendeu? Que fatores podem estar interferindo para que essa aprendizagem aconteça ou não? Afinal, como acontece a aprendizagem e o desenvolvimento? Estas e outras perguntas a psicologia vem estudando ao longo da história do homem. A psicologia é uma ciência que estuda o comportamento humano e seus processos mentais nos mais diferentes contextos; no entanto, para se organizar enquanto ciência, passou por diferentes definições. Teve influência, a princípio, de várias correntes filosóficas, mas com o avanço científico surgem novos ques- tionamentos e a necessidade de instrumentalizar e estabelecer técnicas específicas que pudessem defini-la como ciência. No que se refere à Psicologia da Educação, estudos revelam que há uma preo- cupação em dar suporte à educação, principalmente ao ensino e à aprendizagem, fundamentados pelas contribuições das diferentes subáreas da psicologia. Con- siderando as situações da sua aula ou do atendimento individualizado, podemos analisar que, apesar da grande maioria das pessoas aprenderem do mesmo jeito, vamos encontrar sujeitos que aprendem e se desenvolvem de maneira diferente. E é aí que acontece o encontro da Psicologia com a Educação. Como a psicologia auxilia no entendimento do processo de aprendizagem e de desenvolvimento? Convido você a fazer uma imersão nesta experiência. Você já parou para prestar atenção em como você aprende? Quais os recursos que você utiliza, por exemplo, para reter conteúdos na memória? Faça a experiência, tente memorizar estas seis palavras: admoesta, desasnado, iconoclasta, nódoa, UNICESUMAR 13 procrastinar e chistoso. Quando terminar o exercício, faça a análise, ou seja, quais os recursos que você utilizou para memorizar: escreveu as palavras; falou várias vezes em voz alta; procurou associá-las a alguma outra palavra conhecida; criou uma música com elas; ou algum outro recurso. Então, a psicologia, ao longo do tempo, vem estudando estas diferentes maneiras com as quais os sujeitos estru- turam a sua aprendizagem e promovem o seu desenvolvimento, a fim de auxiliar o educador na compreensão de como isso acontece, possibilitando, a partir disso, o uso de estratégias adequadas para promover uma educação para todos. Nesta breve experiência, pudemos pensar sobre apenas um dos conceitos essenciais do psiquismo humano – a memória. Contudo, nesta unidade, vamos proporcionar a você conteúdos que possibilitem o entendimento do funciona- mento psíquico do ser humano. A princípio, será apresentado a construção histó- rica da psicologia enquanto ciência e as suas aplicações nas mais diferentes áreas nas quais o ser humano se encontra; enfatizando a relação dela com a Educação. Então, serão apresentados alguns pressupostos fundamentais para a Psicologia da Educação como – aprendizagem e desenvolvimento – destacando os fatores que podem influenciá-los. É importante ressaltar que, apesar destes conceitos assumirem perspectivas diferentes de acordo com a linha teórica estudada, nesta unidade, apresento a compreensão deles para a psicologia geral. O entendimento deste conteúdo possibilitará você olhar para a aprendizagem e o desenvolvimento do outro de maneira diferenciadae, principalmente, compreender as possibilida- des que podem ser exploradas no seu trabalho enquanto educador. DIÁRIO DE BORDO UNIDADE 1 14 Você, em algum momento de sua vida, teve contato com um assunto, texto ou reportagem que trouxesse informações sobre a psicologia. É cada vez mais cres- cente o interesse das pessoas por esta ciência, mas muitas das explicações ainda se encontram no campo do senso-comum. Diante disso, convido você a conhecer esta ciência - a Psicologia. Descrição da Imagem: O símbolo da psicologia, ou símbolo psi, é representado por um tridente, o qual é semelhante à vigésima terceira letra do alfabeto grego denominada psi. Por esse motivo, o símbolo da Psicologia também pode ser chamado de símbolo psi. Figura 1 - Símbolo da Psicologia De acordo com Serbena e Rafaelle (2003), a psicologia, em seu processo de es- truturação enquanto ciência, passou por várias definições ao longo da história. Sendo assim, a Psicologia, a princípio, despontou-se da Filosofia, o termo psyche ou alma, descrito por Aristóteles, era compreendido como a realidade do corpo vivo, entendendo a alma como a plenitude do corpo. Desta forma, o comporta- mento era compreendido como a alma em movimento, em ação. Sendo assim, no início do século XX, a Psicologia era definida como o estudo da alma e da mente. Com o fim da Primeira Guerra Mundial, despertou a necessidade de uma Psi- cologia que fosse científica, com instrumentos e técnicas efetivas, sendo refutado o estudo da alma pela ausência de objetividade e precisão. À vista disto, o objeto de estudo da Psicologia passa ser o comportamento, que também gera discussões devido à sua complexidade (SERBENA; RAFAELLE, 2003). UNICESUMAR 15 Diante disso, a American Psychological Association (APA) acabou definindo a Psicologia em três enfoques distintos: como uma disciplina acadêmica, como uma profissão e como uma ciência. Enquanto ciência, o objetivo da Psicologia consiste em coletar, quantificar, analisar e interpretar informações sobre o com- portamento humano, elucidando sobre suas causas, como também a dinâmica dos padrões de comportamento (SCHLESINGER; GROVES, 1976 apud SER- BENA; RAFAELLE, 2003). Então, a psicologia passou a ser definida como a ciência que estuda o com- portamento e os processos mentais, buscando compreender os comportamentos observáveis (as atitudes) como também os ocultos, ou seja, as atividades internas e privadas (como pensamentos, memórias e outros eventos mentais) (KELLY; SAKLOFSKE, 1994). No final do século XX, houve um crescimento surpreendente na psicologia. Foram desenvolvidos novos campos de investigação, novas tecnologias de pes- quisa, como também novas abordagens de estudo dos processos mentais e do comportamento. Isso provocou um aumento na especialização dentro da psico- logia e essa passou a contribuir com outras ciências. Isto posto, a psicologia está em constante redefinição (EVANS, 1999). Com os avanços nos estudos da psicologia, desenvolveu-se diferentes subá- reas, como a psicologia clínica, a cognitiva, a transcultural, a do desenvolvimento, a industrial/organizacional, a ambiental, a evolucionista, a forense, a da saúde, a da personalidade, a das mulheres, a escolar, a social, a do esporte e a educacional, como também a genética comportamental, a neurociência comportamental, a neuropsicologia, o aconselhamento psicológico, entre outras (FELDMAN, 2015). Como você pode perceber, a psicologia vem ampliando seus campos de estudos de acordo com as novos desafios que vão se apresentando ao sujeito. UNIDADE 1 16 Considerando o desenvolvimento da psicologia, propomo-nos a estar neste es- tudo aprofundando o conhecimento sobre a Psicologia da Educação, também chamada de Psicologia Educacional. Nesse caminho de conhecimento, vários são os estudiosos que contribuíram no processo de construção desta área da Psicolo- gia. A Psicologia da Educação se desenvolveu por meio de diversos pioneiros que iniciaram seus estudos no final do século XIX, sendo os principais precursores: Willian James, John Dewey e Edward Lee Thorndike (SANTROCK, 2010). Instigo você a conhecer as teorias desenvolvidas por estes autores e a sua relevância para a Psicologia da Educação. Você deve estar se perguntando: qual a diferença entre a Psicologia Educacional e a Psi- cologia Escolar? Essas duas subáreas da psicologia: [...] são intrinsecamente relacionadas, mas não são idênticas, nem podem reduzir-se uma à outra, guardando cada qual sua autonomia relativa. A primeira é uma área de conhecimento (ou sub-área) e tem por finalidade produzir saberes sobre o fenômeno psicológico no processo educativo. A outra constitui-se como campo de atuação profissional, realizando intervenções no espaço escolar ou a ele re- lacionado, tendo como foco o fenômeno psicológico, fundamentada em saberes produzidos, não só, mas principalmente, pela subárea da psicologia, a psicologia da educação (ANTUNES, 2007, p. 3-4). Fonte: Antunes (2007, p. 3-4). EXPLORANDO IDEIAS UNICESUMAR 17 A psicologia enquanto disciplina científica se estruturou no final do século XIX, quando foi criado o primeiro laboratório experimental por Wilhelm Wundt (Alemanha), em que eram realizados estudos da experiência consciente. Seu tra- balho se baseava em compreender os componentes fundamentais da consciência, das emoções, das percepções, pensamentos e outras atividades mentais, sendo que sua teoria ficou conhecida como estruturalismo (FELDMAN, 2015). Esta teve sua relevância no entendimento da estrutura da consciência e serviu de base para outras teorias psicológicas. Entretanto, esta maneira de compreender o sujeito foi questionada por outros teóricos, cujo os estudos se voltaram para compreender a função que o compor- tamento exerce, para possibilitar que o sujeito se adapte ao meio. Assim surguiu uma nova teoria: o funcionalismo. O principal representante desta teoria foi o psicólogo norte americano Willian James, que junto a outros funcionalistas ve- rificaram “[..] como o comportamento permite que as pessoas satisfaçam suas necessidades e como o fluxo de consciência possibilita que elas se adaptem ao ambiente” (FELDMAN, 2015, p. 15). Segundo Santrock (2010), em 1890, Willian James lançou seu primeiro livro de psicologia intitulado The Principles of Psychology e passou então a proferir palestras direcionadas a professores, nas quais ele debatia sobre como a psicologia poderia ser utilizada na educação das crianças. O autor questionava a eficiência dos experimentos laboratoriais em psicologia no que se refere a como ensinar as crianças. James destacava a importância da observação no processo de ensino e aprendizagem como um recurso importante para aperfeiçoar a educação. Podemos dizer que Willian James foi o primeiro psicólogo a realizar conferências com temas direcionados para questões educacionais. Nestas, o autor observava que o que mais atraía o seu público eram as aplicações práticas; por isso, buscava apresentar a aplicabilidade da psicologia no contexto escolar, evitando conceituações e abstrações. Diante disso, orientava os mestres a estarem organizando o ambiente de tal maneira que capacitasse o aluno a conseguir absorver o máximo do que lhe era apresentado. Isto porque James entendia que a educação acontecia quando o sujeito era capaz de se dirigir em situações novas, das quais nunca teve contato, utilizando experiências retidas na memória e também de concepções abstratas que foram adquiridas. Des- ta forma, cabe ao professor integrar seus alunos em um processo de aquisição de capacidades comportamentais, nas diferentes áreas da sua vida, indo de expressões emocionais até atividades físicas (JAMES, 1899 apud MATOS; CUNHA, 2018). UNIDADE 1 18 Outra referência no campo da Psicologia da Educação foi John Dewey, que se destacou em estudos sobre a aplicabilidade prática da psicologia. No ano de 1984, Dewey organizou o primeiro laboratório de psicologia educacional, na Universidade deChicago, Estados Unidos (SANTROCK, 2010). Utilizava-se de métodos educacionais associados a técnicas de transferência de conhecimento e de memorização (COLETTA et al., 2018). De acordo com Santrock (2010), Dewey tinha como premissa o entendi- mento de que a criança é um aprendiz ativo, ou seja, ela aprende melhor quando realiza algo. Destacava, ainda, que a educação deve ter como foco a criança em sua totalidade, buscando estratégias para adaptá-la ao ambiente, não a limitando aos conteúdos acadêmicos, mas sim ensinando a pensar e lidar com as situações do mundo fora do ambiente escolar. Também alimentou a crença de que toda criança merece uma educação competente, independentemente de suas condi- ções socioeconômicas e étnicas. John Dewey era filósofo, educador e tinha doutorado em psicologia. As téc- nicas propostas por ele tinham seus fundamentos em um pensamento liberal, desenvolvendo uma filosofia diferenciada no contexto educacional, chamada de Escola Nova ou Progressista, que vinha contrapor a escola tradicional da época. Esta nova filosofia defendia a ideia de “[...] que a prática docente deveria se basear na liberdade do aluno para elaborar as próprias certezas, os próprios conhecimen- tos e as próprias regras morais” (COLLETA, 2018, p. 15). Para tal, é fundamental despertar o aluno para uma aprendizagem que seja significativa, na qual ele possa fazer uso de diversos processos mentais (como o levantamento de hipóteses, a análise, a interpretação e a avaliação), desenvolvendo a capacidade de ser o res- ponsável pelo seu desenvolvimento, sua formação (PEREIRA et al., 2009). Essa maneira de conceber a educação exige mudanças na postura do profes- sor, que precisa estar disponível para pesquisar, colaborar e dar o suporte neces- sário no aprendizado crítico do seu aluno; isto acaba “[...] exigindo que profes- sores e alunos compartilhem de fato o processo de construção e não apenas o de reconstrução e reelaboração do conhecimento” (PEREIRA et al., 2009, p. 158). A Psicologia da educação era então compreendida como uma ciência de in- tersecção entre a prática educativa e o comportamento, tendo como foco prin- cipal o ensino aprendizagem e a situação da educação. Ressaltava a importância de que os estudos referentes à aprendizagem fossem contextualizados à realidade UNICESUMAR 19 escolar e de sala de aula (CALDEIRA, 2004). Na teoria de Dewey, o conhecimento e o desenvolvimento eram vistos como um processo social, fazendo a integração dos conceitos de indivíduo e sociedade (COLETTA, 2018). No entanto, esta maneira de conceber a educação, centrada na criança, na qual era privilegiada a autonomia e a construção pessoal do conhecimento por ela, foi com- preendida erroneamente como “deixar a criança fazer o que quiser”. Isto levou, pos- teriormente, a ridicularização de sua teoria por outros autores (CALDEIRA, 2004). Outro autor que se destacou como pioneiro da Psicologia Educacional foi Edward Lee Thorndike, seus estudos foram direcionados para a medição e ava- liação da aprendizagem, sendo que desenvolveu os princípios essenciais. Para Thorndike, a escola tinha como papel fundamental desenvolver as habilidades de raciocínio de seus alunos; sendo referência nos estudos científicos relacionados ao ensino e aprendizagem (BEATTY, 1998 apud SANTROCK, 2010). A partir de seus estudos, Thorndike elaborou a Lei do Efeito que explica que “[...] todo comportamento de um organismo vivo (um homem, um pombo, um rato, etc.) tende a se repetir se nós recompensarmos (efeito) o organismo assim que ele emitir o comportamento” (BOCK; TEIXEIRA; FURTADO, 2018, p. 31). De outro modo, o comportamento tem a propensão de não ocorrer novamente se o organismo sofrer alguma punição (efeito) logo depois de sua ocorrência. Por meio desta Lei de Efeito, o organismo seguirá associando essa situação a outras que sejam semelhantes (BOCK; TEIXEIRA; FURTADO, 2018). Outra lei da aprendizagem estabelecida por Thorndike é a Lei do Exercício, que complementa a Lei do Efeito. Aqui fica estabelecido que para uma determina- da situação ocorrer novamente, depende do número de vezes que foi apresentada ao sujeito, ou seja, está vinculado a repetição da ação, a força e a duração dela (GOODWIN, 2005). Thorndike tinha claro que essas duas teorias podiam explicar boa parte da apren- dizagem; no entanto, ao aprofundar seus estudos sobre a aprendizagem humana, re- solveu modificá-las. Com relação a Lei de Efeito, chegou à conclusão de que a recom- pensa apresenta resultado mais efetivo do que a punição, quando buscamos promover a aprendizagem. Na Lei do Exercício, percebeu que tinha um valor limitado, visto que, na prática, a repetição só surtia efeito de perfeição em determinados tipos de apren- dizagem (por exemplo, habilidade motora); o mesmo não ocorria com aprendizagens mais complexas (por exemplo, compreensão de uma leitura) (GOODWIN, 2005). UNIDADE 1 20 A forte tendência de Thorndike em construir uma ciência onde houvesse a intersecção entre a Psicologia e a Educação o levou a uma investigação constante que apresentou resultados importantes sobre a aplicabilidade da Psicologia aos problemas referentes ao ensino. Todos os seus estudos experimentais resultaram em vários livros como: Elements of psychology (1903), An introduction to the theory of mental and social measurements (1904), Educational Psychology, 3 vol. (1913-1914), Fundamentals of learning (1932) e Human nature and social order (1940) (CALDEIRA, 2004). Percorrendo esta breve retrospectiva histórica sobre os estudiosos que foram os precursores da Psicologia da Educação, podemos definir que, em sua constru- ção, ela recebeu contribuições de outras áreas da psicologia, como a psicologia experimental, diferencial e do desenvolvimento (CALDEIRA, 2004). Quando nos referimos à psicologia experimental, lembramos dos laboratórios de psicologia experimental e seus objetivos em compreender o comportamento. Defendiam a ideia de que os fenômenos psicológicos podem ser regidos por de- terminadas leis da observação e experimentação, sendo a aprendizagem um tema de grande relevância nestes estudos. Os estudos tiveram diferentes ênfases como da reflexologia, behaviorismo, os processos e mapas cognitivos, a valorização de variáveis intermédias, como também, mais recente, a valorização dos contextos e das relações sociais. Todas estas teorias tinham um objetivo comum de estudar o ato ou o efeito da aprendizagem (CALDEIRA, 2004). A psicologia diferencial trouxe a ideia que os sujeitos podem ser diferentes mesmo dentro da sua espécie, essas diferenças podem apresentar-se desde o nas- cimento. Desta forma, “ [...] a Psicologia Diferencial pretendeu [e pretende] focalizar a sua pesquisa na variação (intra e inter) individual, alertando para o fac- to de que as diferenças entre os indivíduos podem constituir um elemento curial para a compreensão dos processos de desenvolvi- mento, numa óptica de singularidade, e para modelação recíproca indivíduo(s)- meio (CALDEIRA, 2004, p. 96). Para a educação, esta teoria apresenta duas implicações importantes: uma está na evidência em problemas que ocorrem com o sujeito nos períodos em que se es- UNICESUMAR 21 força para aprender; a outra se refere à influência desta teoria na organização das instituições educacionais, que oferecem essas aprendizagens (CALDEIRA, 2004). Conforme Caldeira (2004), a Psicologia do Desenvolvimento apresentou uma especificação e conceitualização diferente, tanto da infância quanto da adolescên- cia e vida adulta. Importou do movimento psicanalítico o conceito de estádios do desenvolvimento. “Consequentemente, as diferenças nos processos de aquisição e utilização do conhecimento durante o desenvolvimento ganharam particular acuidade” (CALDEIRA, 2004, p. 94). Compreende-se que este processo inicial de construção da Psicologia da Edu- cação apresenta diversos pontos de vistas, mas é fato que todos tiveram como abordagem primordial o ensino e aaprendizagem (CALDEIRA, 2004). A partir da década de 40, a Psicologia da Educação desenvolveu e ampliou seu campo teórico prático por meio da contribuição de outras áreas da Psicologia que fazem intersecção com a educação. Podemos destacar as contribuições de Binet, na França, e seus continuadores americanos Lewis Terman e Maude Merril, com a introdução da medição da inteligência por meio de testes de inteligência. No contexto da investigação educativa, estes possibilitaram uma maior objetivi- dade. Mesmo tendo ciência de que o êxito escolar não depende unicamente da inteligência, o uso de testes significou, naquele momento, um avanço no que se refere ao prognóstico escolar (MIRANDA, 1982). A Psicologia da Educação também recebeu contribuições da psicologia do desenvolvimento que tinham como principais referências Wallon, Gessel e Piaget “[...] que inaugurou a aplicação de métodos de observação e medida no estudo das mudanças quantitativas e qualitativas que ocorrem em uma ou várias di- mensões do comportamento ou atividade” (CALDEIRA, 2004, p. 97). Caldeira (2004) explica que essa teoria procurou estabelecer normas para uma extensa quantidade de processos que conduz o funcionamento do ser humano no que se refere à idade/estádio de desenvolvimento, destacando a relevância dos períodos críticos, como também o ritmo interindividual. UNIDADE 1 22 Outras escolas influenciaram e deram suas contribuições para a Psicologia da Educação, como a Gestalt, que trouxe a ideia do aspecto de totalidade da realidade psicológica, afirmando que a aquisição do conhecimento acontece por meio de elementos que, em si, já constituem formas organizadas. Outra escola foi o Behaviorismo, de Skinner, que focava seus estudos na interação que acontece entre o comportamento do organismo e o ambiente. Ao discorrer sobre o ensino, acreditava que este estava relacionado a uma disposição coerente de possibilida- des de reforço, por meio do qual o sujeito aprende. A Psicanálise também trouxe sua contribuição quando destacou a relevância de aspectos socioafetivos para o desenvolvimento do indivíduo (CALDEIRA, 2004). Os estudos desenvolvidos por Vygotsky sobre a importância da mediação social para que ocorra o desen- volvimento, principalmente das funções psicológicas superiores (OLIVEIRA, 1997), também foram pertinentes para o avanço da Psicologia da Educação. Al- gumas destas teorias ainda hoje são referência na Educação, por isso faremos o aprofundamento delas nos próximos capítulos. Neuropsicologia Outra subárea da Psicologia que atualmente tem apresentado grandes contribuições para a Educação é a Neuropsicologia. Convido você a conhecer um pouco mais sobre esta ciência. À vista disso, considerando o percurso de discussões pela qual a Psicologia Edu- cacional atravessou ao longo dos anos, entende-se que o seu objetivo hoje consiste em aproveitar conhecimentos produzidos pelos mais diversos campos da psico- logia com o intuito de buscar compreender e aprimorar as ações educacionais. Isto confere o reconhecimento enquanto “[...] área específica de conhecimento, com objetivo e método de investigação próprio” (CORDEIRO, 2016, p. 4). Partindo deste entendimento, podemos então começar a discutir alguns conteúdos cuja compreensão é essencial para a Psicologia da Educação. Eviden- ciamos, a princípio, o mais relevante para o seu trabalho enquanto profissional da educação a Aprendizagem. Afinal, no que consiste a aprendizagem? Neste primeiro momento, apresentamos uma ideia geral do termo, pois, ao longo de UNICESUMAR 23 seus estudos, você perceberá que a aprendizagem é compreendida de maneiras diferentes de acordo com a abordagem teórica. Segundo Lefrançois (2016), a aprendizagem consiste numa mudança que acontece no organismo (humano ou não), em decorrência da experiência, sendo que suas evidências poderão ser observadas por meio de alterações no potencial para o comportamento. A título de exemplo, podemos tomar a sua experiência de ler este texto; mudanças importantes podem acontecer em suas capacidades, no entanto, a maioria delas podem ficar latentes, sendo evidenciadas somente numa situação em que ocorre a oportunidade de ação, numa avaliação. O autor ressalta ainda que, para ser considerada uma aprendizagem, é preciso que a mu- dança seja permanente. “ Portanto, a aprendizagem implica mudanças na capacidade – ou seja, na potencialidade para fazer algo – e também na disposição – na inclinação para o desempenho. A evidência de que a aprendiza- gem aconteceu pode depender também da oportunidade para agir; daí a necessidade de definir a aprendizagem como uma mudança no potencial para o comportamento, em vez de simplesmente uma mudança no comportamento (LEFRANÇOIS, 2016, p. 6). É importante ressaltar que existem diferenças importantes na maneira com que cada sujeito aprende: uns aprendem melhor em grupo, outros individualmente; uns assimilam melhor quando o material é auditivo, outros preferem recursos visuais, entre tantos outros estilos. Daí a relevância dos estudos em aprendizagem para desvelar os diferentes modos de aprender, destacando que a aprendizagem não consiste num processo invariável, fixo para todos os sujeitos. O ser humano é dotado de uma notável capacidade de mudar sua maneira de aprender e de pensar (plasticidade neural). De acordo com Phelps (1990 apud FERRARI et al., 2001, p. 188), a plasticidade neural pode ser compreendida “[...] como uma mudança adaptativa na estrutura e nas funções do sistema nervoso, que ocorre em qualquer estágio da ontogenia, como função de interações com o ambiente interno ou externo ou, ainda, como resultado de injúrias, de traumatismos ou de lesões que afetam o ambiente neural”. UNIDADE 1 24 De acordo com Corrêa (2016), a aprendizagem pode modificar o homem em seu processo de desenvolvimento, sendo caracterizada como uma mudança, uma atitude, seja no modo de falar, agir, refletir e pensar sobre qualquer coisa que questionamos. O questionamento nos permite aprender pela experiência, fazendo uma conexão entre as nossas vivências e aquilo que sentimos e experi- mentamos. A aprendizagem ocorre na relação com o outro, por meio dos vínculos tanto afetivos quanto sociais e culturais, sendo um processo permanente. Isto posto, é importante considerar o papel do professor no processo de aprendizagem do aluno, pois terá a função de compreender e interferir na ati- vidade psíquica de seu aluno, mais especificamente em seu pensamento. Esta função “[...] antecede a tudo e, por isso mesmo, dirige a escolha dos modos de ensinar, pois sabe o professor que os métodos são eficazes somente quando estão, de alguma forma, coordenados com os modos de pensar do aluno” (TUNES; TACCA; BARTHOLO JR., 2005, p. 291). Um dos fatores que podem auxiliar o professor neste processo é o conhe- cimento sobre o desenvolvimento. Em conformidade com Papalia e Feldman (2013, p. 36), o estudo científico do desenvolvimento humano visa compreender “[...] processos sistemáticos de mudança e estabilidade que ocorrem nas pes- soas”. Observando aspectos nos quais o sujeito se transforma no transcorrer de sua vida, desde o momento da concepção até a maturidade, estando atento às características que se mostram certa constância. O estudo de desenvolvi- mento contempla três domínios principais do sujeito: o físico, o cognitivo e o psicossocial. Estes, por sua vez, estão interligados, sendo que cada aspecto pode afetar o outro. No quadro a seguir esclarecemos de maneira didática cada um dos domínios principais do sujeito: UNICESUMAR 25 Fonte: Papalia e Feldman (2013). O estudo de desenvolvimento contempla três domínios principais do sujeito: o físico, o cognitivo e o psicossocial. No físico, são considerados aspectos como o crescimento do corpo, as habilidades motoras, as capacidades sensoriais e a saúde. Os aspectos que envolvem aprendizagem, memória, atenção, pensamento, linguagem, criatividade e raciocínio compreende o desenvolvimentocognitivo. Nos aspectos do desenvolvimento psicossocial, encontramos as emoções, relações sociais e a personalidade. É entendido que esta é apenas uma separação didática, pois todos estes domínios estão interligados, sendo que cada aspecto pode afetar o outro (PAPALIA; FELDMAN, 2013). Descrição da Imagem: o quadro 1 está com o título de Desenvolvimento. Abaixo temos três colunas. Na primeira temos o subtítulo Físico e a descrição: crescimento do corpo, as habilidades motoras, as capacidades sensoriais e a saúde. Na segunda coluna temos o subtítulo Psicossocial, com a seguinte descrição: emoções, relações sociais e a personalidade. E na terceira coluna temos o subtítulo Cognitivo com a descrição: aprendizagem, memória, atenção, pensamento, linguagem, criatividade e raciocínio. Não há nada permanente, exceto a mudança - Heráclito, fragmento (século VI a.C). Fonte: Papalia e Feldman (2013, p. 34). PENSANDO JUNTOS UNIDADE 1 26 É importante ressaltar que, apesar dos estudos sobre o desenvolvimento consi- derar as vivências comuns aos seres humanos normais, também há uma preo- cupação com as diferenças individuais e seus impactos para as características, as influências e as consequências do desenvolvimento (PAPALIA; FELDMAN, 2013). Dentre estas, podemos considerar os aspectos herdados, os fatores am- bientais e os processos maturacionais, compreendendo seus impactos sobre o desenvolvimento do sujeito. Algumas características inatas ou ainda traços herdados dos pais biológicos po- dem influenciar no desenvolvimento do sujeito, ou seja, a hereditariedade pode ser considerada o ponto inicial na vida deste. No entanto, é fato que as demandas do ambiente também têm uma representatividade importante no desenvolvi- mento, especialmente o contexto familiar, socioeconômico, cultural, entre outros (PAPALIA; FELDMAN, 2013). Segundo Pinheiro (1994, p. 55), no que se refere à questão hereditária, é im- portante ressaltar que os genes constituem “[...] as bases para os traços culturais, mas não forçam o desenvolvimento de nenhum traço em particular. Caracteres adquiridos não são transmitidos por via biológica”. No entanto, o comportamento aprendido consiste no resultado da interação do sujeito com o meio, sendo que a constituição genética poderá auxiliar na sua execução. UNICESUMAR 27 Um outro tema comum à educação e que está intrinsecamente relaciona- do com a hereditariedade e a interação com o meio é a maturação; mas o que significa a maturação? Segundo Davidoff (1983, p. 85), está relacionada “[...] ao surgimento de padrões de comportamento que depende em grande parte do crescimento do corpo e do sistema nervoso”. Segundo a autora, depende de fatores genéticos, ou seja, a hereditariedade organiza certas potencialidades que o sujeito poderá desenvolver. Estas, por sua vez, podem não estarem completas ao nasci- mento, mas vão se realizando gradativamente conforme o sujeito vai crescendo. É importante ressaltar que o meio tem um papel fundamental neste processo, influências sensoriais, químicas e traumáticas - antes ou depois do nascimento, podem modificar a capacidade de desenvolvimento do sujeito. Mudanças que ocorrem no período da primeira e segunda infância, rela- cionadas, por exemplo, com a capacidade de falar e andar, estão associadas à maturação, tanto do corpo quanto do cérebro. Quando o sujeito avança no seu desenvolvimento, na adolescência e, posteriormente, na vida adulta, percebe-se que as diferenças individuais referentes tanto às características congênitas quanto às suas vivências passam a exercer um papel mais significativo em sua vida. No entanto, a maturação apresenta uma influência contínua em determinados pro- cessos biológicos, podendo citar, como exemplo, o desenvolvimento do cérebro (PAPALIA; FELDMAN, 2013). Diante disso, é relevante a compreensão sobre os processos de desenvolvi- mento, a fim de identificar aqueles que são maturacionais e os que não são. Para isso, é necessário “[...] observar as influências que afetam muitas ou a maioria das pessoas em determinada idade ou em determinado momento histórico, e tam- bém aquelas que afetam apenas certos indivíduos” (PAPALIA; FELDMAN, 2013, p. 42). Entretanto, mesmo considerando que, no processo maturacional, muitos dos padrões de comportamento seguem uma certa ordem, devemos ponderar que cada sujeito é único e poderá alcançar as diferentes fases de desenvolvimento em idades divergentes (DAVIDOFF, 1983). Outro fator essencial no processo de desenvolvimento é o ambiente, pois o ser humano, desde o início da vida, está envolvido num contexto social e histó- rico. Sendo que o contexto direto, na maioria das vezes, é a família que, por sua vez, recebe influências de instâncias sociais mais amplas, estando em constante transformação (PAPALIA; FELDMAN, 2013). UNIDADE 1 28 Bott (1976, p. 111) explica que o meio social no qual as famílias estão inseridas deve ser compreendido “[...] não como a área local em que vive a família, mas sim como a rede das relações sociais reais que elas mantêm [...]”. Sendo importante considerar os diferentes contextos e grupos nos quais a família está inserida. À vista disto, as crianças não estão limitadas ao contexto familiar, pois transitam em diferentes lugares (OLIVEIRA; PEDROSO, 2017). O sujeito, no seu processo de desenvolvimento, recebe influência da família nuclear e extensa, do nível socioeconômico, da cultura e etnia e o contexto his- tórico. Estes fatores serão especificados na figura a seguir: EU INDICO O filme “Mãos talentosas - A história de Ben Carson” conta a história de um menino pobre de Detroit, que sempre levou uma vida des- motivada, já que tirava notas baixas e não tinha perspectivas de um grande futuro. O que ele e os que estavam ao redor não esperavam era que ele se tornaria um neurocirurgião de fama mundial. Este fil- me retrata a importância do meio familiar na formação do sujeito, como a mãe de Ben Carson fala no filme: “[...] se alguém pode fazer, você também pode fazer e melhor”. Demonstrando que o amor, a perseverança e a mo- tivação familiar são essenciais no processo de desenvolvimento do sujeito. UNICESUMAR 29 Descrição da Imagem: a Figura apresenta os seis fatores que interferem no desenvolvimento do indi- víduo. São eles a família nuclear, a família extensa, o nível socioeconômico, a cultura, o grupo étnico e o contexto histórico. A família nuclear é a unidade econômica e doméstica, que compreende laços de parentesco envolvendo duas gerações, consiste em pai e mãe ou, apenas, um dos dois e seus filhos bio- lógicos, adotados ou enteados. A família extensa tem rede de parentesco envolvendo muitas gerações e formada por pais, filhos e outros parentes, às vezes, vivendo juntos no mesmo lar. O nível socioeconômico tem combinação de fatores econômicos e sociais que descreve um indivíduo ou uma família e que inclui renda, educação e ocupação. Para a cultura tem o modo de vida global de uma sociedade ou de um grupo, que inclui costumes, tradições, crenças, valores, linguagem e produtos materiais – todo comportamento adquirido que é transmitido dos pais para os filhos. O grupo étnico é um grupo unido por ancestralidade, raça, religião, língua ou origens nacionais, que contribuem para formar um senso de identidade comum. Por fim, o contexto histórico que tem experiências relacionadas ao tempo e o lugar em que as pessoas vivem afetam o seu curso de vida. Figura 2 - Fatores que interferem no desenvolvimento / Fonte: adaptada de Papalia e Feldman (2013). Outro fator a considerar no contexto do desenvolvimento é que existem influên- cias que podemos chamar de normativas, ou seja, que geralmente é comum às pessoas de uma determinada faixa etária, como exemplo temos a puberdade, que acontece, aproximadamente, aos 12 anos; ou, ainda, situações que são determina- das por um contexto histórico (como a Segunda Guerra Mundial) que acaba por mudar as atitudes e o comportamento de toda uma geração, devidoao fato acon- tecer num momento de formação de suas vidas. Por outro lado, temos também as influências não normativas que se configuram por situações incomuns, mas que impacta de maneira intensa a vida do sujeito, devido a transtornar a sequência A família extensa tem rede de parentesco envolvendo muitas gerações e formada por pais, �lhos e outros parentes, às vezes vivendo juntos no mesmo lar. A cultura tem o modo de vida global de uma sociedade ou de um grupo, que inclui costumes, tradições, crenças, valores, linguagem e produtos materiais - todo compor- tamento adquirido que é transmitido dos pais para os �lhos. O nível socioeconômico tem combinação de fatores econômicos e sociais que descreve um indivíduo ou uma família, e que inclui renda, educação e educação. O grupo étnico é um grupo unido por ancestralidade, raça, religião, língua ou origens nacionais, que contribuem para formar um senso de identidade comum. O contexto histórico que tem experiências relacionadas ao tempo e o lugar em que as pessoas vivem afetam o seu curso de vida. A família nuclear é a unidade econômica e dosmética que compreende laços de paren- tesco envolvendo duas gerações e que consiste em pai ou mãe, ou apenas um dos dois, e seus �lhos biológicos, adotados ou enteados. UNIDADE 1 30 esperada da vida, temos como exemplo a perda dos pais quando a criança ainda é pequena (PAPALIA; FELDMAN, 2013). Destacamos que ocorrem divergências entre as abordagens teóricas quanto à relevância de cada um destes fatores, alguns enfatizam a hereditariedade como decisiva no desenvolvimento do sujeito, enquanto outros evidenciam que o meio social é determinante neste processo; mas há uma unanimidade em considerá-los no entendimento do processo de desenvolvimento do sujeito. EU INDICO O livro de Introdução à Psicologia da Educação possibilita que o lei- tor conheça as principais abordagens psicológicas que influenciam a educação, destacando que, independentemente de seus pressupos- tos teóricos ou de sua prática, estas sempre implicarão em uma es- trutura de política educacional, aos objetivos específicos na formação acadêmica, como também a um projeto sociocultural específico. O conteúdo apresentado provocará o aprofundamento em diferentes olhares da psico- logia para o fenômeno do desenvolvimento e da aprendizagem. Além destes fatores, não podemos deixar de apresentar alguns conceitos que, fundamentados pela psicologia, podem auxiliar na compreensão do sujeito que aprende. Esclarecendo que a ideia aqui é de apenas apresentá-los, pois sabemos da complexidade de cada um deles. O intuito é despertar o seu interesse em apro- fundar-se neste conhecimento tão importante para sua formação profissional. Vamos começar pela origem do conhecimento: as sensações. É por meio dos nossos sentidos (visão, audição, paladar, olfato e tato) que coletamos as in- formações apresentadas pelo ambiente. Estes apresentam órgãos especializados que recebem, centralizam e expandem os estímulos que se apresentam ao corpo (GLEITMAN; REISBERG; GROSS, 2009). Segundo Silva e Merlín (2010), um dos processos mais elementares da nossa vivência consiste em receber e responder aos estímulos sensoriais. Os mais diversos estímulos apresentados pelos objetos ou por pessoas susci- tam o interesse da criança ao conhecimento, por isso a importância das ativida- des sensoriais (FERLAND, 2002). O tempo todo estamos recebendo inúmeros estímulos sensoriais e, mesmo diante disso, acabamos por focar nossa atenção UNICESUMAR 31 em um único estímulo ou em um pequeno número deles, desconsiderando ou eliminando os demais. “ A capacidade do cérebro de processar a informação sensorial é mais limitada do que a capacidade de seus receptores para mensurar o ambiente. A atenção, portanto, funciona como um filtro, selecio- nando alguns objetos para processamento adicional. [...] Em nossa experiência momentânea nos concentramos em informações sen- soriais específicas e excluímos (mais ou menos) as demais (KAN- DEL, 2009, p. 339). De acordo com Luria (1979), a atenção pode ser seletiva e sustentada. A aten- ção seletiva consiste na capacidade de escolher estímulos e objetos específicos, definindo uma orientação atencional focal, desencadeando uma centralização das funções mentais, sendo estabelecido o que é prioritário na atividade cons- ciente do sujeito frente à infinidade de estímulos ambientais. A seletividade é fundamental para que a ação do sujeito seja organizada, pois sem ela isto não seria possível devido à grande quantidade de informação. A atenção sustenta- da tem a função de manter a atenção seletiva direcionada a um determinado objeto ou estímulo; com isso, facilita a realização de tarefas exclusivas, como também alcançar os objetivos almejados. O professor deve considerar que inúmeros fatores podem exercer influência sobre a atenção, Davidoff (1983) apresenta alguns deles, como: o contexto em que o sujeito está incluso, a motivação, as características do estímulo, a expectativa, a relevância da tarefa a ser executada, experiências anteriores e o estado emocional. A atenção também influencia diretamente na percepção. Contudo, mas no que consiste a percepção? Segundo Schiffman (2005), a percepção organiza, in- terpreta e atribui sentido aos estímulos captados e processados inicialmente pelos órgãos dos sentidos. Com isso, a percepção possibilita ao sujeito a consciência dos objetos, como também do contexto ambiental. O processo de percepção consiste no resultado dos processos psicológicos, em que aspectos como o contexto, o sig- nificado, as relações, a experiência, o julgamento e a memória exercem um papel importante. Davidoff (1983) ressalta, ainda, que a compreensão do processo de percepção pode variar de acordo com a abordagem teórica. No entanto, o seu entendimento é de fundamental importância no contexto ensino e aprendizagem. UNIDADE 1 32 Um outro conceito importante para aprendizagem é o de memória. Esta consiste na “[...] aquisição, formação, conservação e evocação de informações” (IZQUIERDO, 2018, p. 11). O autor acrescenta que a aquisição pode ser cha- mada de aprendizagem ou aprendizado, pois o sujeito só grava aquilo que ele aprendeu. A evocação também recebe o nome de lembrança, recordação ou recuperação. Diante disso, verificamos que o registro na memória depende diretamente do que foi aprendido. O passado, nossas memórias, nossos esquecimentos voluntários, não só nos dizem quem somos, como também nos permitem projetar o futuro, isto é, nos dizem quem podere- mos ser. O passado contém o acervo de dados, o único que possuímos, o tesouro que nos permite traçar linhas a partir dele, atravessando, rumo ao futuro, o efêmero presente em que vivemos. Não somos outra coisa senão isso; não podemos sê-lo. Se não temos hoje a medicina entre nossas memórias, não poderemos praticá-la amanhã. Se não nos lem- bramos de como se faz para caminhar, não poderemos fazê-lo. Se não recebemos amor quando crianças, dificilmente saberemos oferecê-lo quando adultos. Fonte: Izquierdo (2018, p. 1). EXPLORANDO IDEIAS Cada um de nós tem um conjunto de memórias que determina nosso jeito de ser, nossa personalidade. As nossas lembranças vão nos moldando, o sujeito que foi criado no contexto de medo, por exemplo, manifestará características de perso- nalidade relacionadas a este, podendo apresentar-se mais introvertido, cuidadoso, ressentido ou lutador. O fato é que as nossas lembranças nos influenciam muito mais do que as propriedades congênitas (IZQUIERDO, 2018). Souza e Salgado (2015) destacam que as memórias podem ser classificadas segundo a maneira com que são adquiridas: memória explícita ou implícita; ou, ainda, pelo tempo que fica armazenada: memória de curto ou longo prazo e me- mória de trabalho. Especificaremos, na Figura 3, cada uma delas: UNICESUMAR 33 Desta forma, compreendemos que a memória tem um papel fundamental na apren- dizagem, visto que esta pode ser compreendida como “[...] umprocesso que conduz ao armazenamento de informação como consequência da prática, da experiência e ou da introspecção, produzindo uma alteração relativamente permanente no comportamento real ou potencial”(SOUZA; SALGADO, 2015, p. 145). A memória também apresenta relevância na compreensão da inteligência, do ponto de vista da abordagem psicométrica. Quando falamos de inteligência, devemos distinguir entre aquela que pode ser medida, relacionada à psicometria; e a inteligência que vai além do QI (GLEITMAN; REISBERG; GROSS, 2009). Você sabe o que faz sua memória melhorar? 5 Trabalho 1 Explícita ou Declarativa 2 Implícita ou Não declarativa 4 Longa Duração 3 Curta Duração Longa duração são aquelas armazenadas por horas, anos ou mesmo por toda vida. Explícita ou Declarativa são aqueles que armazenam fatos e sua aquisição está associada à plena interve- ção da consciência, como: relatar situações cotidianas, conversas do dia anterior. Curta duração são aquelas que permane- cem em nosso cérebro por curto espaço de tempo, cerca de um minuto e pode dar lugar as memórias de média duração ou serem esquecidas. Implícita ou Não Declarativa são aquelas que adquirimos de forma incosciente, como tarefas e habilidades, como: dirigir, ler, andar de bicicleta. Trabalho é a responsável por dar continuidade aos nossos atos cotidianos, armazena por poucos segundos a informação, permitindo que saibamos onde estamos e o que estamos fazendo a cada instante e nos momentos anteriores. Descrição da Imagem: a figura apresenta uma cabeça de perfil com os 5 tipos de memórias: explícita ou declarativa, implícita ou não declarativa, de curta duração, de longa duração e de trabalho. A explícita ou declarativa é aquela que armazenam fatos e sua aquisição está associada à plena intervenção da consciência, como: relatar situações cotidianas, conversas do dia anterior. A implícita ou não declarativa é aquela que adquirimos de forma inconsciente, como tarefas e habilidades, tais como: dirigir, ler, andar de bicicleta. A de curta duração são aquelas que permanecem em nosso cérebro por curto espaço de tempo, cerca de um minuto, e pode dar lugar às memórias de média duração ou serem esquecidas. A de longa duração são aquelas armazenadas por horas, anos ou mesmo por toda a vida. A de trabalho é a responsável por dar continuidade aos nossos atos cotidianos, armazena por poucos segundos a informação, permitindo que saibamos onde estamos e o que estamos fazendo a cada instante e nos momentos anteriores. Figura 3 - Tipos de memória / Fonte: Souza e Salgado (2015, p. 142-144). UNIDADE 1 34 A inteligência dentro de uma perspectiva psicométrica, segundo o modelo de Cattell-Horn-Carroll (SOUZA; SALGADO, 2015), apresenta dez aspectos de capacidades cognitivas, ou seja, inteligência fluída, conhecimento quantitativo, in- teligência cristalizada, leitura e escrita, memória de curto prazo, armazenamento e recuperação a longo prazo, velocidade de processamento, velocidade de decisão/ reação, processamento visual e processamento auditivo. O autor acrescenta que cada uma destas capacidades cognitivas pode ser aprimorada ou suprida, isso dependerá da presença ou ausência do estímulo. Os testes de inteligência, a princípio, eram computados por meio de uma razão entre a idade mental do sujeito (uma medida do seu desenvolvimento intelectual) e sua idade cro- nológica. A razão, também chamada de quociente, acabou por dar o nome ao teste, que verificava o quociente de inteligência, ou seja, o QI. Hoje, os testes de QI são analisados de maneira diferente, não comparam mais a idade mental com a cronológica. No entanto, o nome QI ainda permanece. Fonte: Gleitman, Reisberg e Gross (2009). EXPLORANDO IDEIAS A inteligência além do QI, segundo Gleitman, Reisberg e Gross (2009), consiste naquelas capacidades que não são mensuráveis por meio de testes convencionais de inteligência. Os autores se referem à inteligência prática, à emocional e às inte- ligências múltiplas. A inteligência prática está baseada no conhecimento tácito, ou seja, no conhecimento vivenciado, que foi obtido por meio da experiência no seu cotidiano. A inteligência emocional consiste na capacidade de compreender suas emoções e a dos outros e, quando necessário, é capaz de controlar suas emoções. Salovey e Mayer (1990 apud GLEITMAN; REISBERG; GROSS, 2009, p. 565) sugerem que este tipo de inteligência tem quatro partes: “ [...] a capacidade de perceber as emoções de forma precisa, a capaci- dade de usar as emoções para facilitar o pensamento e o raciocínio, a capacidade de entender as emoções (incluindo o uso da linguagem para descrever as emoções) e a capacidade de lidar com as emoções em si mesmo e em outras pessoas. UNICESUMAR 35 Gardner (1983 apud GLEITMAN; REISBERG; GROSS, 2009) chama atenção para outras habilidades. Para ele, devem ser reconhecidas a inteligência musical; a interpessoal (capacidade de compreender o outro); a corporal-cinestésica (capacidade de poder aprender e conceber padrões complexos de movimento); a naturalista (permite compreender os padrões da natureza); e a intrapessoal (eficácia em entender a si mesmo). Gleitman, Reisberg e Gross (2009) explicam que este estudo foi questionado, pois outros autores acreditam que estas capaci- dades estavam relacionadas a algum talento em especial e não à inteligência. O autor ressalta que, independentemente destas capacidades serem consideradas como formas de inteligência, é importante ressaltar a necessidade de serem exploradas e desenvolvidas. O desafio fundamental dos nossos testes de inteligência consiste em: será que eles me- dem a inteligência ou apenas medem o que denominamos como inteligência para a nossa cultura? Fonte: Gleitman, Reisberg e Gross (2009). PENSANDO JUNTOS Cada uma destas visões sobre a inteligência tem o seu valor na compreensão do homem, suas capacidades, habilidades e talentos. No contexto escolar, o professor é o grande responsável por dar condições para que o sujeito possa desenvolver suas capacidades intelectuais. Souza e Salgado (2015, p. 150) destacam que “[...] reconhecer o potencial de cada um e aperfeiçoar as habilidades para as quais a pessoa tem aptidão pode ser um caminho para que ela alcance maior êxito aca- dêmico e profissional”. Isto posto, confirmamos a relevância da psicologia para a educação. Nas uni- dades seguintes, vamos aprofundar o conhecimento nas principais teorias da psicologia que auxiliam o educador na compreensão do sujeito que aprende. Estudante, finalizamos esta unidade compreendendo o processo pelo qual a psicologia foi se estruturando enquanto ciência, definindo, assim, sua essência. A retomada histórica possibilita a você estar entendendo o quanto a especificidade do objeto de estudo da psicologia impulsionou para que ela fosse se ramificando e buscando entender o sujeito nas mais diferentes áreas. UNIDADE 1 36 Como educadores, temos que ter a consciência da importância da Psicologia da Educação, pois, como vimos, desde seus primórdios, ela traz a preocupação de entender como acontece o processo de aprendizagem para o sujeito, como também oferecer subsídios teórico-práticos para aqueles que fazem parte deste processo. A Psicologia da Educação não se limita em si mesma, mas conta com a con- tribuição de outras abordagens teóricas da psicologia. Sendo fundamental para o educador compreende-las relacionando ao contexto educacional. As particulari- dades destas teorias possibilitam um olhar mais direcionado, aprofundando gra- dativamente nas diversas especificidades do sujeito. Algumas focam na cognição, outras na emoção ou no contexto social, em aspectos neurológicos, entre outros; no entanto, o fundamental é que muito se pode acrescentar no entendimento da aprendizagem e do desenvolvimento humano. A vista disso, esteja atento(a) aos termos e conceitos que foram discutidos nesta unidade, pois eles fazem parte do cotidiano da escola e, muitasvezes, não são compreendidos em sua totalidade. Quando ouvir falar, por exemplo, sobre a importância da estimulação sensorial na educação infantil, relacione com seus estudos sobre as sensações. Quando discutir sobre os testes psicométricos, apre- sente uma visão mais ampla, respeitando sua importância, mas também consi- derando os outros tipos de inteligência que não são possíveis de medição. O conteúdo desta unidade será aprofundado nas próximas unidades do livro, sendo relacionados a cada uma das abordagens. Aproveite e aprofunde seus conhecimentos. 37 AGORA É COM VOCÊ 1. De acordo com Santrock (2010), a Psicologia da Educação se desenvolveu por meio de diversos pioneiros que iniciaram seus estudos no final do século XIX, sendo os principais precursores: William James, John Dewey e Edward Lee Thorndike. Considerando a história da relação entre a psicologia e a educação, analise as afir- mativas. I - John Dewey acreditava que as experiências retidas na memória, como também as concepções abstratas adquiridas, poderiam dar a direção nas situações novas pelas quais o indivíduo passava. II - A Lei do Efeito, elaborada por Thorndike, consiste na compreensão de que todo o comportamento apresentado por um ser vivo demonstra uma tendência a repetir-se, caso seja recompensado que ele apresenta este comportamento. III - O professor tem que ter claro a necessidade de estar pesquisando, colaborando e dando as condições necessárias para a aprendizagem crítica do aluno, possibili- tando que ele e o professor compartilhem apenas a reconstrução e reelaboração do conhecimento - pensamento de John Dewey. IV - Quando define a educação, Dewey considera a importância de estar compreen- dendo a criança na sua totalidade, com o intuito de viabilizar estratégias que possibilitem a sua adaptação ao ambiente, não a restringindo a conteúdos acadêmicos, mas sim ensinando a pensar e resolver as mais diferentes situações, nos mais diferentes contextos. É correto o que se afirma em: a) Apenas I e II estão corretas. b) Apenas II e III estão corretas. c) Apenas II e IV estão corretas. d) Apenas II, III e IV estão corretas. e) Nenhuma das alternativas está correta. 38 AGORA É COM VOCÊ 2. Quando estudamos o desenvolvimento humano, consideramos o ambiente como sendo um aspecto de grande relevância, pois o sujeito, desde o nascimento, está inserido no meio social e histórico. Na maioria das vezes, o contexto direto é a família, que também recebe influência de instâncias sociais mais amplas. Diante disso, assinale a alternativa que corresponde à família nuclear. a) Combinação de fatores econômicos e sociais que descreve um indivíduo e que inclui renda, educação e ocupação. b) Rede de parentesco envolvendo muitas gerações e formada por pais, filhos e outros parentes, às vezes, vivendo juntos no mesmo lar. c) O modo de vida global de um grupo, que inclui costumes, tradições, crenças, valores, linguagem e produtos materiais – todo comportamento adquirido que é transmitido dos pais para os filhos. d) Unidade econômica e doméstica que compreende laços de parentesco envolven- do duas gerações e que consiste em pai e mãe, ou apenas um dos dois, e seus filhos biológicos, adotados ou enteados. e) Grupo no qual as experiências relacionadas ao tempo e o lugar em que as pessoas vivem afetam o seu curso de vida. 3. De acordo com Kandel (2009), o processo da atenção acontece como num filtro, no qual são selecionados alguns objetos para serem adicionados, ou seja, em um mo- mento a nossa concentração é em determinadas informações sensoriais específicas e descartamos momentaneamente outras. Diante disso, explique a complementaridade entre a atenção seletiva e a atenção sustentada. 39 AGORA É COM VOCÊ 4. A memória está relacionada à capacidade de adquirir, formar conservar e evocar as informações. Tem uma ligação direta com a aprendizagem, pois só gravamos aquilo que foi aprendido. Como vimos, existem diferentes tipos de memória. Nesse sentido, assinale a afirmativa que corresponde à memória de trabalho. a) Dá continuidade aos nossos atos cotidianos, armazena por poucos segundos a informação, permitindo que saibamos onde estamos e o que estamos fazendo a cada instante e nos momentos anteriores. b) Permanecem em nosso cérebro por curto espaço de tempo, cerca de um minuto, e pode dar lugar às memórias de média duração ou serem esquecidas. c) Armazena fatos e sua aquisição está associada à plena intervenção da consciência. d) Consiste naquela que armazena por horas, anos ou mesmo por toda a vida. e) Adquirimos de forma inconsciente, como tarefas e habilidades. 5. Quando falamos de desenvolvimento, segundo Papalia e Feldman (2013), devemos considerar os processos de mudança dos sujeitos que ocorrem de maneira sistemáti- ca e com certa estabilidade. Isto é, aquelas características que, durante o transcorrer da vida, mostram certa constância. Analise as afirmativas e assinale a que se refere ao desenvolvimento. a) Consiste numa mudança que acontece no organismo (humano ou não) em de- corrência da experiência; sendo que suas evidências poderão ser observadas por meio de alterações no potencial para o comportamento. b) Apesar dos estudos sobre o tema considerar as vivências comuns aos seres hu- manos normais, também há uma preocupação com as diferenças individuais e seus impactos para as características, as influências e as consequências para o ele. c) Podemos considerar que não consiste num processo invariável, fixo para todos os sujeitos. O ser humano é dotado de uma notável capacidade de mudar sua maneira de aprender e de pensar. d) O desenvolvimento ocorre na relação com o outro, por meio dos vínculos tanto afetivos quanto sociais e culturais, sendo um processo intermitente. e) O desenvolvimento implica em mudanças na capacidade – ou seja, na potencia- lidade para fazer algo – e também na disposição – na inclinação para o desem- penho. 40 CONFIRA SUAS RESPOSTAS 1. C. A alternativa I e III estão incorretas. A alternativa I apresenta a ideia de Wlillian James e não de John Dewey e na alternativa III, o correto é que aluno e professor compartilhem de fato a construção e não apenas a reconstrução, reelaboração do conhecimento. 2. D. A alternativa A corresponde ao nível socioeconômico; a alternativa B, a família extensa; a alternativa C, a cultura; e a alternativa E ao grupo étnico. 3. A atenção seletiva está relacionada à capacidade de escolher os estímulos e objetos específicos, direcionando a orientação atencional focal e definindo o que é priorida- de na atividade consciente diante de tantos estímulos. Agora, a atenção sustentada complementa este processo a partir do momento que mantêm a atenção seletiva direcionada para certo estímulo ou objeto, possibilitando, ao sujeito, realizar suas atividades e alcançar seus objetivos. 4. A. Correta, porque as demais afirmativas correspondem aos outros tipos de memória. 5. B. Correta, pois todas as demais afirmativas estão relacionadas à aprendizagem e não ao desenvolvimento. MEU ESPAÇO MEU ESPAÇO 2Abordagem Behaviorista Me. Raquel de Araújo Bomfim Garcia Nesta unidade, você terá a oportunidade de conhecer sobre a abor- dagem teórica que foi fundamental no processo de organização da psicologia enquanto ciência e que tem sua relevância também na edu- cação - o Behaviorismo. Faremos, inicialmente, um resgate histórico para compreender como esta abordagem teórica se estruturou. Então, apresentaremos os principais conteúdos e conceitos que possibilitarão a sua compreensão sobre o foco central do behaviorismo - o compor- tamento humano. Por conseguinte, terá o entendimento do processo de aprendizagem nesta perspectiva teórica, fazendo a relação com a prática docente. Esperamos que, ao final desta unidade, você reflita sobre o quanto estas ideias perpassam pelo universo escolar. UNIDADE 1 44 Você se recorda do momento do intervalo de aula, ou também conhecido como recreio,quando era criança? Eu me lembro perfeitamente, era um dos momen- tos mais esperados durante o período de aula, geralmente comia rapidamente o lanche da escola ou algo que trazia de casa e logo ia brincar. Eram alguns minutos de grande liberdade, brincávamos de pega-pega, pique-esconde, amarelinha, en- tre tantas outras brincadeiras; mas em determinado momento, vinha o sinal de término, em algumas escolas era o toque de um sino de metal, outras eram uma sirene (nossa como era alta) ou uma música. No entanto, algo era certo, ao ouvir o sinal, a correria acontecia, todos iam rapidamente lavar as mãos e formar a fila para retornar à sala de aula. Você já parou para pensar por que esta situação - o sinal - produzia esta reação num grupo tão expressivo de crianças? Se cada um tem seu próprio aparato biológico, como reagimos de maneira semelhante diante desta situação? Você já pensou: é que fomos condicionados a isso, toda vez que ouvir o sinal é esperado que tenhamos este comportamento; mas então, o que é o condicionamento? Como é que ele acontece? Será que ele está presente na escola? Na busca do entendimento sobre comportamento humano é que se estruturou a abordagem teórica que nos propomos a estudar nesta unidade - o Behaviorismo. A intenção dos behavioristas era compreender como se organiza o compor- tamento humano e, principalmente, o que influencia para que ele ocorra ou não. Skinner, o mais expressivo estudioso desta teoria, entende que o comportamento consiste numa parte do funcionamento do organismo que age sobre o mundo exterior ou em interação com este. O autor focou seus estudos no comportamento operante e trouxe grandes contribuições para a educação. Ressaltando a impor- tância do planejamento ou plano de trabalho docente, estabelecendo os objetivos e meios a serem utilizados para que ocorra a aprendizagem. O posicionamento desta teoria provocará questionamentos importantes so- bre a maneira com que lidamos com as informações que a todo momento recebe- mos, seja do nosso próprio organismo ou do meio externo. Diante disso, desafio você a pensar sobre o que o levou a escolher esta graduação. Anote em um papel os motivos que o impulsionaram, as suas expectativas quanto ao futuro nessa profissão, os recursos necessários para realizá-la e o que pode ser acrescentado para que isto ocorra. Feito isso, analise esta situação, você precisou de algum estímulo para mobilizar o seu comportamento de buscar uma graduação - pode ter sido de desenvolvimento pessoal, financeiro, por status e tantos outros, sendo traçado os objetivos a serem alcançados. UNICESUMAR 45 As estratégias serão delineadas no transcorrer das disciplinas, pois elas darão as possibilidades de execução da atividade profissional que você escolheu; mas também é fundamental os recursos para que isso aconteça, sejam eles materiais, financeiros, pessoais, entre outros. Neste breve exercício, nós compreendemos como o estímulo pode impulsionar a uma ação. Imagine isso bem empregado no processo de aprendizagem. Esta teoria vem trazer muito do direcionamento do trabalho educacional, seja ele individualizado ou em grupo, numa clínica ou em uma sala de aula, pois é essencial que o pro- fissional tenha claro quais são os seus objetivos no trabalho com o sujeito, para que suas estratégias provoquem a ação desejada. DIÁRIO DE BORDO UNIDADE 1 46 Diante da proposta de compreender sobre esta abordagem psicológica, devemos ressaltar que o Behaviorismo está entre as teorias que direcionou as bases da psicologia científica que conhecemos na atualidade. Isto porque, desenvolveu conceitos inovadores referentes à natureza do ser humano, como também mé- todos de como estudá-lo (VIEGA; VANDENBERGHE, 2001). Partindo deste pressuposto e considerando o pensamento de Skinner (1972 apud HENKLAIN; CARMO, 2013), que ressalta a importância do educador em aprofundar seus conhecimentos sobre o comportamento humano, no intuito de identificar seus princípios para propor e aplicar práticas de ensino que sejam efetivas e eficien- tes, ponderamos sobre a relevância deste conteúdo para sua formação enquanto educador. Para isso, iniciamos com o resgate histórico da construção desta teoria. Como vimos na Unidade 1, no final do século XIX, a Psicologia foi estrutu- rando-se enquanto disciplina científica e muito disto se deve às pesquisas de- senvolvidas por Fechner, Thorndike e Wundt. No que se refere ao Behaviorismo, segundo Skinner (2003), Thorndike foi quem fez as primeiras experiências sérias com o intuito de analisar as mudanças que ocorrem em consequência do com- portamento, isso em 1898. No ano de 1913, John Broadus Watson (1913 apud HUBNER; MOREIRA, 2012) publicou um artigo com o título “A psicologia como um behaviorista a vê”, que ficou conhecido como Manifesto Behaviorista. Neste, o autor critica a ineficiência do método de introspecção experimental para explicar os fenômenos psicológicos, enfatizando sobre a ausência de replicabilidade dos seus resultados, ou seja, a mesma pesquisa apresentava resultados diferentes quando aplicada com outro sujeito. Esta alteração, no entanto, era atribuída ao sujeito e não à ineficiên- cia do método ou do contexto experimental onde se produziram os resultados. A vista disso, o autor propõe uma nova compreensão sobre a Psicologia, cujos objetivos estavam relacionados à previsão e também o controle do comporta- mento. O objeto de investigação passa a ser o comportamento observável (do ponto de vista de mais de um observador) e a investigação aconteceria por meio do método experimental: manipulando de maneira sistemática as características do ambiente e examinando os resultados que estas manipulações provocam no sujeito (HUBNER; MOREIRA, 2012). É importante ressaltar que o Manifesto Behaviorista é uma referência histórica para o surgimento do Behaviorismo. Muito da teoria desenvolvida por Watson pode ser encontrada ainda no que se conhece por Behaviorismo Radical, mas sofreram vá- UNICESUMAR 47 rias reformulações. Para uma compreensão correta sobre o Behaviorismo hoje, deve- mos considerar as obras de Burrhus Frederic Skinner (HUBNER; MOREIRA, 2012). A abordagem de estudo conhecida por Behaviorismo Radical foi apresentada por Skinner, em 1945, e consiste numa “[...] filosofia da ideia da mutabilidade das espécies de comportamento humano, que produz, especialmente, conhecimento por meio da análise experimental do comportamento” (BOCK, 2018, p. 52). Desta forma, para Skinner, o comportamento se constrói por meio dos processos de variação e seleção; e sua proposta está pautada no comportamento operante. Em todas as suas obras, o autor enfatiza o poder e o dever da ciência em ser a resolu- ção das dificuldades humanas. Com isso, ressalta a importância de uma ciência do comportamento humano para oferecer soluções práticas para a sociedade, dando ênfase na predição e controle (SAMPAIO, 2005). Podemos encontrar, na obra de Skinner, grande influência das ideias de Charles Darwin, principalmente no que se refere ao tema da mutabilidade das espécies, como também a proposição da teoria da seleção natural. Para Darwin, as espécies passavam por transfor- mações constantes e as variações que são produzidas nas gerações subsequentes, mes- mo que sejam mínimas, podem ser selecionadas e manterem-se na espécie. Fonte: Bock (2018). EXPLORANDO IDEIAS Estando fundamentado por estas ideias, Skinner foi organizando sua teoria na qual o desenvolvimento de um comportamento operante é base de sua propos- ta. Entretanto, para compreendermos este conceito, é necessário que tenhamos algumas noções sobre o comportamento respondente ou reflexo (BOCK, 2018). De acordo com Skinner (1953 apud LEONARDI; NICO, 2012), o entendi- mento sobre o comportamento respondente pode ser limitado, devido a referir-se, exclusivamente, a comportamentos com características fisiológicas específicas, cuja responsabilidade é de adaptar o organismo às modificações que acontecem no meio.No entanto, o autor ressalta que ignorar este tipo de comportamento re- flexo para o entendimento do comportamento humano seria um equívoco. Bock (2018) evidencia que este é essencial e de grande valor para a sobrevivência do sujeito. A autora explica que ele também é chamado de não voluntário e abrange respostas produzidas ou provocadas por estímulos advindos do ambiente. UNIDADE 1 48 O Comportamento respondente é caracterizado por “[...] um tipo de relação organismo-ambiente. Nesta, um determinado estímulo produz/elicia uma res- posta específica. O Paradigma dessa relação é S→R” (LEONARDI; NICO, 2012, p. 19), entendendo que S representa o termo estímulo e o R a resposta. De acordo com Catania (1999) e Ferster, Culbertson e Boren (1977), a causa da resposta é algo que aconteceu no ambiente, antecedentemente. Desta forma, entende-se que o estímulo é quem elicia (força) a resposta, ou seja, que ele é um eliciador; já a res- posta está eliciada (forçada) pelo estímulo; o organismo somente apresenta uma resposta ao estímulo advindo do ambiente. As relações respondentes apresentam características específicas, a saber: o limiar, a magnitude, a duração e a latência. Essas informações podem ser observadas na Figura 1, a seguir: Características das relações respondentes Limiar: refere-se à intensidade mínima do estímulo necessária para que a resposta seja eliciada. Magnitude: consiste na amplitude da resposta. Duração: refere-se ao tempo que a resposta eliciada perdura. Latência: consiste no intervalo de tempo entre a apresentação do estímulo e a ocorrência da resposta. Descrição da Imagem: a Figura 1 apresenta um infográfico com as quatro características das relações respondentes. Primeiramente, iniciamos com a limiar, que se refere à intensidade mínima do estímulo necessário para que a resposta seja eliciada. A magnitude consiste na amplitude da resposta. A duração se refere ao tempo que a resposta eliciada perdura. E a latência consiste no intervalo de tempo entre a apresentação do estímulo e a ocorrência da resposta. Figura 1 - Características das relações respondentes / Fonte: Catania (1999, p. 19). UNICESUMAR 49 Isto posto, podemos verificar a força de um comportamento respondente/reflexo medindo a magnitude e a duração de sua resposta, bem como pela latência desta relação. Considera-se que o reflexo é fraco em situações em que o estímulo é de grande intensidade e a resposta apresenta uma latência longa, uma duração curta e a magnitude pequena. O reflexo é forte, quando observamos uma latência curta, uma duração longa e uma magnitude ampla (CATANIA, 1999). Existem, ainda, duas categorias de relações respondentes: as incondicionadas e as condicionadas. As incondicionadas são aquelas que independem da expe- riência do sujeito, ou seja, que têm origem filogenética, também chamados de reflexos inatos; por exemplo, a resposta de piscar diante do estímulo de um cisco no olho. As condicionadas são as que se estruturam na relação do sujeito com o meio, ou seja, depende da sua experiência, na sua história ontogenética. Para que ocorra este tipo de relação respondente condicionada, é necessário que o indivíduo passe por um processo chamado de condicionamento respondente ou clássico (LEONARDI; NICO, 2012, p. 19). O condicionamento respondente clássico ocorre quando um estímulo consi- derado neutro (que a princípio não tem nenhuma relação com o comportamento) é pareado (associado) a um determinado número de vezes a um estímulo eliciador (o que elicia/força o comportamento) e desta forma o estímulo que, anteriormente, era neutro, passa a apresentar o mesmo tipo de resposta (BOCK, 2018). Temos como referência um exemplo comum: a comida na boca, que consiste num estímulo incondicionado para a salivação, tanto dos seres humanos quanto para os animais. Associada a um estímulo neutro - um som de uma campainha acionada todos os dias às 12:00 horas, ou seja, alguns segundos antes do momento do sujeito almoçar. O som da campainha consiste em um estímulo neutro devido, à princípio, não evocar salivação. Após o som da campainha (estímulo neutro) ser associado à comida (estímulo incondicionado) por várias vezes, pode ocasionar uma reação parecida à resposta incondicionada, ou seja, apresentar uma resposta condicionada (DAVIDOFF, 1983). UNIDADE 1 50 Davidoff (1983) esclarece que a resposta condicionada, em geral, é mais fraca e também menos completa que a resposta incondicionada. No caso do exemplo acima, a campainha, eventualmente, poderá estimular uma salivação leve. A partir do momento que o estímulo neutro elicitar uma resposta considerada condicio- nada, ele passa a ser chamado de estímulo condicionado. À vista disso, passamos, então, à compreensão do comportamento operante, que tem grande relevância na teoria behaviorista por explicar grande parte do comportamento humano. Na década de 30, Skinner iniciou seus estudos sobre o comportamento operante, na Universidade de Harvard (Estados Unidos), tendo como ponto de partida as investigações sobre o comportamento respondente, que consistia na unidade básica para a descrição das interações entre o indivíduo e o ambiente. No transcorrer de seu trabalho, o autor identificou um outro tipo de relação entre o sujeito e o ambiente, que se tornou foco de suas análises, ou seja, o comportamento operante. Destacando que este tipo de comportamento é o que caracteriza grande parte das interações humanas com o ambiente (BOCK, 2018). De acordo com Sério et al. (2002, p. 10), para se ter uma compreensão mais efetiva sobre o comportamento operante, é necessária a compreensão de dois tipos de relações: “[...] a relação entre a resposta e sua consequência e a relação entre a resposta e os estímulos que a antecedem e que estavam presentes na oca- sião em que a resposta foi reforçada”. Frutuoso e Girino (2006) afirmam ainda que toda ação do sujeito para que seja reforçada é necessário que tenha ocorrido um condicionamento operante, ou seja, num dado momento, a ação foi inédita O descobridor do reflexo condicionado foi o fisiologista russo Ivan Petrovich Pavlov (1849- 1936), por isso, muitas vezes, o condicionamento respondente também é nomeado de condicionamento pavloviano. A descoberta aconteceu “[...] durante um estudo da fisiologia das secreções digestivas dos cães, observou que os animais salivavam a estímulos que não a co- mida, tais como os passos e a visão do alimentador. Essas salivações inexplicáveis, que no início eram contratempo, ocuparam cada vez mais a atenção de Pavlov” (DAVIDOFF, 1983, p. 164). A partir disso, focou seus estudos no condicionamento respondente até a sua morte, com 87 anos. EXPLORANDO IDEIAS UNICESUMAR 51 ou original, sendo que a probabilidade dela acontecer futuramente vai depender do tipo de consequência, como também das condições que a precedem, podendo aumentar ou diminuir a sua reincidência. Diante disso, afirma-se que no comportamento operante, o que favorece a aprendizagem dos comportamentos “[...] é a ação do organismo sobre o meio e o efeito resultante - a satisfação de alguma necessidade, ou seja, a aprendizagem se dá na relação entre uma ação e o seu efeito” (BOCK, 2018, p. 54). Segundo a autora, a representação do comportamento operante consiste em: R→S, no qual o R é a resposta e o S é considerado o estímulo reforçador que, num dado momento, foi extremamente motivador para o organismo. Moreira e Medeiros (2007) elucidam sobre este tipo de comportamento por meio de um exemplo: o sujeito diante de um semáforo, a luz vermelha significa “parar”, o ato de parar o carro (resposta) é reforçado por impedir um acidente, desta forma, o estímulo apontou uma consequência. Um outro exemplo seria o de ligarmos a TV às 22:30 num determinado canal para assistir um filme, ligando o aparelho nesse horário, neste canal, teremos o reforço com o filme; no entanto, se ligarmos a TV num outro horário, não acontecerá este reforço. Assim sendo,o estímulo reforçador é denominado de reforço. De acordo com Bock (2018), o estímulo tem sua origem no ambiente do sujeito, podendo acontecer tanto antes quanto depois de uma determinada resposta. A autora reafirma então que: “ O comportamento operante refere-se à inter-relação sujeito-ambiente. Quando o organismo se comporta (emitindo essa ou aquela resposta), sua ação produz uma alteração ambiental, uma determinada conse- quência que, por sua vez, retroage sobre o sujeito, alterando a probabi- lidade futura de ocorrência. Assim, agimos sobre o mundo em função das consequências criadas pela ação (BOCK, 2018, p. 55). Para compreendermos melhor como acontece este processo e as suas aplicações na aprendizagem infantil, é importante conhecermos alguns princípios do con- dicionamento operante. Este tipo de condicionamento, segundo Braghirolli et al. (2002), acontece em circunstâncias em que o organismo se comporta com o intuito de gerar mudanças no seu ambiente; deste modo, o sujeito age sobre o meio, de um jeito que gere consequências. Os princípios do condicionamento operante são o reforço, extinção, punição, discriminação e generalização. UNIDADE 1 52 A manutenção ou não de uma ação vai depender das consequências que ela produz no meio. Sendo assim, podemos dizer que houve um condicionamento operante quando uma situação do ambiente que ocorre após um comporta- mento provoca o aumento ou a diminuição da possibilidade deste comporta- mento acontecer novamente. Então, o reforço pode ser compreendido como um processo em que a utilização de um estímulo aumenta a possibilidade de um comportamento ocorrer ou não. O reforço pode ser utilizado por meio da oferta de um estímulo que seja atraente - reforço positivo, ou pela retirada de um estímulo que seja aversivo - reforço negativo (NOLEN–HOEKSEMA et al., 2018). Para compreender como acontece estes dois tipos de reforço, convido você a analisar a Figura 2: De�nição: oferecimento de um estímulo agradável ou atrativo após uma resposta comportamento. Efeito: aumenta a frequência da resposta comportamental. Exemplo: se a ação de estudar for seguida por uma nota alta em uma prova, a incidência de estudar antes das provas aumentará. De�nição: remoção de um estímulo desagradável ou aversivo após uma resposta comportamental. Efeito: aumenta a frequência da resposta comportamental. Exemplo: se deixar a sala de estudos livra-o de um colega barulhento, o tempo gasto longe da sala aumentará. Reforço Positivo Reforço Negativo Descrição da Imagem: a Figura 2 apresenta os dois tipos de reforço: positivo e negativo. Primeiramente, apresentaremos o Reforço Positivo. Sua definição consiste no oferecimento de um estímulo agradável ou atrativo após uma resposta de comportamento. Tem como efeito aumentar a frequência da resposta comportamental. A apresentamos um exemplo em que se a ação de estudar for seguida por uma nota alta em uma prova, a incidência de estudar antes das provas aumentará. A imagem demonstra uma criança estudando ao lado da mãe estimulada e satisfeita. Após, apresentamos o Reforço Negativo. Sua definição corresponde à remoção de um estímulo desagradável ou aversivo após uma resposta comportamental. Tem como efeito aumentar a frequência da resposta comportamental. O exemplo deste reforço é que se deixar a sala de estudos livra-o de um colega barulhento, o tempo gasto longe da sala aumentará. A imagem demonstra uma criança estudando ao lado da mãe recebendo bronca pela falta de atenção. Figura 2 - Entendendo melhor o Reforço / Fonte: Nolen–Hoeksema et al. (2018, p. 191). UNICESUMAR 53 Bock (2018, p. 56) destaca o cuidado ao definir uma situação como reforçadora, pois “a função reforçadora de um evento ambiental qualquer só é definida pelo aumento na frequência da resposta que o produziu, ou seja, pela relação funcional estabelecida entre as respostas do indivíduo e o ambiente”. A autora ressalta que determinados eventos podem ser reforçadores para uma espécie como um todo (exemplo: comida, afeto, água), sendo nomeado de reforço primário. Os reforços secundários são os que assumiram uma função após terem sido pareados tem- poralmente com o reforço primário (exemplo: o dinheiro). No que se refere ao reforçamento negativo, é relevante destacar dois processos importantes: a esquiva e a fuga. O processo de esquiva ocorre quando, depois que um estímulo é condicionado, o sujeito exibe uma resposta reforçadora e esta acaba por reduzir ou evitar um segundo estímulo, que é igualmente aversivo. Por exemplo, quando o indivíduo vê um raio, a reação ou a resposta emitida é de tapar os ouvidos, esta é reforçada por reduzir o segundo estímulo, também aversivo, que é o trovão. No processo de fuga, existe um estímulo aversivo incondicionado que, quando acontece, o sujeito o evitará com um comportamento de fuga. No caso do exemplo do trovão, o sujeito procura se fechar em um ambiente (BOCK, 2018). Quando falamos de punição, precisamos entender que ela é o contrário do reforço, isto porque diminui a possibilidade de um comportamento acontecer, por meio da utilização de um estímulo que seja aversivo - punição positiva ou punição -, ou pela remoção de um estímulo que seja atrativo - punição negativa ou treinamento por subtração (NOLEN–HOEKSEMA et al., 2018). Segundo Bock (2018), pesquisas revelam que a extinção de um comporta- mento punido só se torna definitiva quando a punição for de uma intensidade extrema, visto que os motivos que desencadearam à ação acabam por não serem mudados com a punição. Ao contrário do que muitos imaginam, a punição de ações leva apenas a supressão da resposta temporariamente. Sendo este tema debatido entre os behavioristas quanto à validade do seu uso com o intuito de diminuir a frequência de determinadas respostas. O princípio da punição é muito utilizado no cotidiano, em quaisquer espa- ços no qual busque ocasionar comportamentos desejados. Um exemplo disso é o trânsito que, apesar das punições que são aplicadas aos motoristas devido as infrações cometidas, não têm levado a adotarem um comportamento que seja adequado para o trânsito. O que se vê, no entanto, é que eles se tornam peritos em fuga e esquiva (BOCK, 2018). UNIDADE 1 54 Passamos, então, para a compreensão da modelagem ou método de aproximações sucessivas que consiste no uso adequado de uma determinada estratégia com reforço positivo que pode auxiliar na aprendizagem de novas respostas do tipo operante. Neste processo, inicialmente, o treinador reforça, de maneira positi- va, uma ação no repertório habitual do organismo que se aproxima com pouca intensidade da resposta esperada. Conforme esse comportamento é reforçado, o treinador (profissional da educação) passa a selecionar e reforçar somente os comportamentos que se equiparam ao objetivo. No momento em que se estabe- lecer de maneira efetiva essa conduta, aumenta a exigência do treinador, conti- nuando até que o objetivo seja atingido (DAVIDOFF, 1983). Para melhor compreensão, tomemos como exemplo o comportamento ver- bal, ou seja, grande parte da aprendizagem de fala da criança acontece por meio da modelagem. Isto é, o bebê, ao emitir suas primeiras vocalizações (mmmm), a mãe ou substituta geralmente sorri, mantendo um contato físico ou visual, com isso aumenta a probabilidade de ocorrer respostas de vocalização. De maneira gradativa, os adultos vão aumentando as exigências, para que suas emissões vocais tenham cada vez mais proximidade dos sons e palavras conhecidas, chegando ao som mããã… e, em seguida, mamã (ARANTES; ROSE, 2009). Deixar o(a) aluno(a) sem recreio, mantê-lo isolado, obrigá-lo a fazer inúmeras cópias de um mesmo texto por castigo, humilhá-lo, entre outras práticas punitivas utilizadas pela escola, foram muito questionadas pelo Behaviorismo (BOCK, 2018). Será que ainda en- contramos esta prática na escola de hoje? PENSANDO JUNTOS EU INDICO No filme “O Show de Truman - O Show da vida” você terá a opor- tunidadede observar a modelagem de comportamento e também outros conceitos desta abordagem teórica. O filme conta a história de um sujeito cuja a vida era monitorada o tempo todo e transmitida em rede nacional; sendo as situações do cotidiano manipuladas para atender as expectativas do criador do programa. O filme possibilita também refletirmos sobre como o condicionamento está presente em muitas de nos- sas atitudes cotidianas. Vale a pena imergir no mundo de Truman. UNICESUMAR 55 Um outro conceito importante nesta abordagem é o da extinção, que ocorre quando um reforço de uma determinada resposta é retirado, consequentemen- te este comportamento tende a diminuir sua frequência gradualmente até que não se apresente com a mesma constância que acontecia antes do condiciona- mento. Na realidade, muitas das nossas aprendizagens operantes, se não forem reforçadas, a tendência é serem extintas. Tomemos como exemplo as crianças pequenas, que são estimuladas a serem educadas, sendo elogiadas quando usam palavras gentis, como obrigada e por favor, no entanto, se estas boas maneiras passarem despercebidas, a tendência é desaparecer com o tempo (DAVIDOFF, 1983). Segundo Bock (2018), o tempo essencial para a extinção de uma resposta vai depender de dois fatores: a história do sujeito e o valor do reforço envolvido. De acordo com Skinner (2003), o processo de extinção acontece de um modo mais lento do que o condicionamento operante, dependendo de como foi esta- belecido o condicionamento deste comportamento. Se o reforço deste compor- tamento foi utilizado por um longo período de tempo, sua extinção vai ocorrer de maneira muito lenta. Descrição da Imagem: a Figura 3 apresenta uma foto preta e branca do psicólogo behaviorista, inventor e filósofo norte-americano, Skinner. Um senhor na faixa etária de 50 a 60 anos. É calvo na testa com cabelos brancos. Está com uns óculos de lentes redondas, vestindo terno escuro, com camisa clara e uma gravata escura. Figura 3 - Burrhus Frederic Skinner no Departamento de Psicologia, em Harvard, 1950 / Fonte: Wikimedia Commons (1950, on-line). UNIDADE 1 56 Quando buscamos extinguir um comportamento, devemos considerar que vão aparecer efeitos colaterais indesejáveis neste processo, por isso é importante que se faça a combinação com esquemas de reforçamento, buscando amenizá-los, sendo muito importante o reforço positivo quando for suspender uma contin- gência. O uso clínico da extinção deve ter o intuito de ampliar a probabilidade de acontecer respostas que sejam mais adequadas e diferentes daquelas proble- máticas que o sujeito tem apresentado (CONTE; SILVEIRA, 2004). Na educação, um termo muito comum é a generalização, que na visão da teoria behaviorista consiste numa situação em que uma resposta é controlada por um determinado estímulo, mas que existem outros estímulos que são próximos ou similares, que devido a alguma particularidade, também podem ser efetivados. Desta forma, a generalização depende de que existam características comuns a estes estímulos (duas ou mais) (BOCK, 2018). Quando pensamos na aprendizagem escolar, podemos compreender o quan- to este princípio é fundamental, pois é na escola que aprendemos muitos con- ceitos básicos, que, por meio da generalização, transferimos essas aprendizagens para as mais diversas situações. Por exemplo, um conteúdo de física é utilizado no conserto de um aparelho eletrônico; também no cotidiano, aprendemos como nos comportar nas mais diversas circunstâncias sociais devido à habilidade de generalizar a aprendizagem de normas e regras sociais (BOCK, 2018). Um outro conceito importante da abordagem behaviorista é o estímulo dis- criminativo que consiste num estímulo antecedente que amplia a probabilidade de que, quando presente, uma certa resposta aconteça. Isto acontece devido a um histórico de reforçamento diferencial. Este, por sua vez, significa que “[...] se na presença de um estímulo uma determinada resposta ocorre e é sempre reforçada e, na ausência desse estímulo, a mesma classe de resposta ocorre e não é reforça- da, estamos falando de um reforçamento diferencial” (BOCK, 2018, p. 58). Isto é, ocorre a discriminação quando as respostas recebem reforço em determinadas ocasiões e em outras não (DAVIDOFF, 1983). UNICESUMAR 57 Para ficar mais claro, vamos aos exemplos: Pedro utiliza, no seu dia a dia, algumas gírias, seus pais reagem e ficam zangados, no entanto, seus amigos o admiram por isso. Em consequência, Pedro faz uso de gírias com seus amigos, não usando na presença de adultos (DAVIDOFF, 1983). Sendo assim, podemos verificar a nossa capacidade de emitir respostas aos estímulos nos comportando de forma diferente em cada ocasião. Consideramos, então, que esta circunstância foi instaurada como discriminativa (BOCK, 2018). Com base neste conhecimento dos pressupostos fundamentais da abordagem behaviorista, você deve estar curioso para saber qual o entendimento desta sobre a aprendizagem. A abordagem behaviorista ou comportamental tem como obje- tivo o estudo das atividades do organismo que podem ser observadas e descritas, destacando o quanto as variáveis ambientais podem influenciar a aprendizagem (ATKINSON et al., 1995). Sendo assim, afirma Moreira (2009 apud COELHO; DUTRA, 2017/2018, p. 58) que para esta teoria “[...] o ensino é obtido quando o que é ensinado pode ser colocado em condições de controle sob o comportamento observável; dessa forma, esse é obtido quando o comportamento não desejado é punido e o dese- jado é reforçado e incentivado com estímulos até que ele se torne automático”. Este modo de compreender a aprendizagem gerou muitas objeções a esta teoria, principalmente pelo fato de focar unicamente na consequência causada por uma determinada atividade de aprendizagem, ignorando a ocorrência de um processo cognitivo interno naquele que aprende (COELHO; DUTRA, 2017/2018). UNIDADE 1 58 A aprendizagem acontece, então, por meio dos estímulos que o sujeito recebe do meio. O sujeito manifesta comportamentos operantes e estes são influenciados pelos resultados deste comportamento (reforço). Se as consequências deste com- portamento ocorrem de modo satisfatório, estas retrocedem sobre o comporta- mento, ampliando a possibilidade de ocorrer novamente; se caso esta sequência insistir em acontecer, forma-se um hábito (LA ROSA, 2003). Catania (1999) e Hilgard (1973), no que se referem a aprendizagem, caracterizam o behaviorismo como uma teoria conexista, ou seja, está baseada na associação que acontece entre estímulos ou entre comportamento e estímulo; tendo três proposições básicas: 1) a aprendizagem é explicada de maneira adequa- da quando relacionada a comportamentos e respostas que podem ser observadas; 2) alguns métodos de aprendizagem usados com animais podem ser úteis com humanos também; e 3) que a compreensão da essência da aprendizagem humana mais complexa pode ser explicada por meio de análises baseadas em processos muito elementares (exemplo: estímulo e resposta). No entanto, a aprendizagem também pode acontecer de maneira indireta, ou seja, pode acontecer por meio da observação do comportamento de outrem ou pela instrução verbal. Esta maneira de aprender é comum aos seres huma- nos, sendo chamada de aprendizagem indireta. Encontramos, na literatura, dois tipos de aprendizagem indireta: a aprendizagem vicariante (também co- nhecida como aprendizagem por observação) e a aprendizagem por instrução (GOULART et al., 2012). A aprendizagem por observação se fundamenta na ação de observar as res- postas apresentadas por um outro organismo e/ou as suas consequências (CA- TANIA, 1999). Pode ocorrer a imitação do comportamento observado, mas esse processo não se restringe à imitação da resposta do que está sendo observado. Vai depender das consequências que a ação apresentada causa para o sujeito. Assim sendo, este tipo de aprendizagem apresenta vantagens para o organismo devido possibilitar que o sujeito aprenda pormeio da experiência do outro, poupando tempo, não sendo necessário aprender na relação direta com as contingências (GOULART et al., 2012). UNICESUMAR 59 “ É importante notar, no entanto, que, embora a observação permita a ocorrência da resposta apropriada no contexto apropriado sem o contato prévio com as contingências, ao emitir a resposta no con- texto apropriado, o organismo acaba por entrar em contato com as contingências, o que tornará possíveis a manutenção e eventuais refinamentos da resposta. Esse tipo de aprendizagem não é van- tajoso apenas para o indivíduo, mas também para o grupo social (GOULART et al., 2012, p. 33). Este tipo de aprendizagem é essencial para os grupos sociais, pois possibilita a sua manutenção, no que se refere às normas, crenças, regras, entre outras, que são importantes para a continuidade destes. A aprendizagem por instrução também pode ser nomeada de comportamen- to dirigido por regras. Conforme Catania (1999), as instruções (ou regras) podem instaurar novos comportamentos, antes ou até mesmo sem que se tenha contato com as contingências. Com isso, possibilita a aprendizagem de novos compor- tamentos de maneira mais rápida; as orientações podem instaurar no repertório do sujeito comportamentos apropriados mesmo que a situação de contingência seja ineficiente; sua atuação é a longo prazo ou não contactada de maneira na- tural. Goulart et al. (2012) exemplificam este tipo de aprendizagem dizendo que prestamos o vestibular, nos empenhamos aos estudos por vários anos, mesmo não tendo uma relação direta com as consequências (diploma, profissão). No entendimento dos tipos de aprendizagem, os autores usam em vários momentos a palavra contingência, mas qual o seu conceito para esta teoria? Esse é um termo técnico utilizado pela análise de comportamento com o intuito de res- saltar “[...] como a probabilidade de um evento pode ser afetada ou causada por outros eventos”. Fonte: Catania (1993, p. 368). EXPLORANDO IDEIAS UNIDADE 1 60 É importante destacar que analistas do comportamento compreendem a complexida- de tanto do ambiente quanto do comportamento; mas ressaltam que comportamentos complexos não necessitam, de maneira indispensável, resultarem de processos com- portamentais que também sejam complexos. A vista disso, explicam que a complexi- dade resulta de processos de aprendizagem simples que ocorre de forma repetida em produtos de aprendizagem anterior. Assim, o efeito cumulativo da sequência repetida de aprendizagens consiste no desenvolvimento de interações que acontecem entre estímulo e resposta, gradativamente, mais complexo (DONAHOE, PALMER, 1994). Goulart et al. (2012, p. 34) ressalta que “[...] parte da complexidade do com- portamento em ambiente natural advém do fato de que as relações entre estímu- los, respostas e consequências que compõem o repertório comportamental de um organismo não são construídas do zero”. Deste modo, os repertórios que são aprendidos em determinados contextos podem ser provenientes para outras si- tuações, como também podem ser base para a organização de novos repertórios. Destarte, o ato de aprender ocorre com o aluno em consequência do ato de ensinar do professor. O que evidencia a aprendizagem é a alteração de compor- tamento do aluno na sua relação com o meio. Desse modo, compreende-se que a aprendizagem está relacionada ao processo de aquisição de um determinado com- portamento; gerando mudanças que podem ser permanentes no que o sujeito tem capacidade de fazer ou, ainda, em como ele é capaz de realizar (CATANIA, 1999). UNICESUMAR 61 Diante disso, de acordo com Cunha (2000), Skinner buscou transpor alguns dos princípios do comportamentalismo para que fossem aplicados na escola. Para isso, foi necessário que adaptasse seu conhecimento a uma linha de pensamento pedagógico nomeada de tecnicismo. Dentro desta proposta, entende-se que os meios (métodos, ações, instrumentos e técnicas) devem ser usados para atingir um fim. Esclarecendo, Mizukami (1986) explica que, nesta lógica, o ensino de qualquer conteúdo, pensamento, comportamento pode ser programado, desde que seja definido previamente o que busca alcançar no final deste processo. O comportamentalismo auxiliou este período do tecnicismo fornecendo conceitos e também métodos, buscando transformar as metas da educação em objetivos que fossem operacionais (CUNHA, 2000). A abordagem behaviorista/comportamental acredita que a função da escola está fundamentada em instaurar nos sujeitos, de uma determinada cultura, com- portamentos que sejam importantes futuramente, tanto para ele como também para o seu grupo. E para isso, é essencial ensinar determinados comportamentos como a resolução de problemas, o autocontrole e a tomada de decisões, possibili- tando que o sujeito contribua para a sobrevivência da sua cultura (HENKLAIN, CARMO, 2013). A abordagem Behaviorista de Skinner apresenta um trabalho diferenciado com o aluno, que foi denomi- nado de Instrução Programada. Convido você a co- nhecer um pouco mais sobre este trabalho. Contudo, qual é o papel do professor neste processo? A principal função do pro- fessor é gerar condições que possibilitem e garantam o processo de aprendiza- gem. Sabemos que seu papel é ensinar, mas esta atividade consiste em processo comportamental bastante complexo. Isto é, “[...] ensinar é um termo amplo que designa uma categoria de comportamentos que caracterizam o que um professor faz sob determinadas circunstâncias e os efeitos que produz” (HENKLAIN; CAR- MO, 2013, p. 712). O aspecto essencial do processo de ensinar está relacionado ao efeito daquilo que o professor faz, isto é, a aprendizagem do aluno. Compreende- UNIDADE 1 62 -se, então, que o ensinar abrange a ação do professor como também a aprendiza- gem do aluno, sendo processos interdependentes (HENKLAIN; CARMO, 2013). Segundo Piletti e Rossato (2011, p. 29): “ Skinner afirma que é possível ensinar um aluno a estudar e que para tanto deve-se ensinar-lhe técnicas de autogoverno, a fim de que pos- sam ser aumentadas as possibilidades de que o que foi visto ou ouvido seja lembrado. Estudar por si mesmo também é um comportamento e, portanto, também deve ser aprendido para poder ser realizado. Assim, ensinar o aluno a estudar por si mesmo é fazer com que ele seja capaz de controlar o seu próprio comportamento de aprender. Esta abordagem compreende que o ato de ensinar depende de dois fatores: pla- nejamento e tomada de decisões. Primeiramente, é necessário que identifique e também descreva de maneira clara e precisa o que pretende ser ensinado. Para esta abordagem, isto significa que devem ser especificados os comportamentos que se espera que o aluno esteja apto a apresentar após o ensino, como também os critérios a serem aplicados para verificar o que ele aprendeu de fato. Um con- ceito que denomina esses objetivos é o de comportamento-objetivo (KUBO; BOTOMÉ, 2001). Este, por sua vez, considera a importância de que o ensino seja planejado, definindo-se os comportamentos que vão estabelecer os objetivos que devem ser atingidos por meio do ensino. A partir deste serão elencados os conteúdos (específicos), como também os recursos que auxiliarão no processo de ensino (HENKLAIN; CARMO, 2013). À vista disso, pode-se reconhecer os pré-requisitos ou comportamentos básicos que são necessários para alcançar o comportamento final que se busca ensinar. Isto possibilitará ao professor delimitar comportamentos básicos e orde- ná-los em sequência - do simples para o complexo. Esta maneira de pensar aponta que o ensinar será mais eficiente se acontecer de maneira gradual. Revela-se, com isso, a hierarquia de ensino, partindo de comportamentos mais simples, fáceis de aprender ou que já é conhecido do aluno, para os comportamentos mais com- plexos (HENKLAIN; CARMO, 2013). Um outro fator que é considerado neste contexto é o conhecimento sobre o aluno (seu conhecimento acadêmico, interação social, suas preferências,contexto social, entre outros); pois essas informações auxiliarão tanto no planejamento UNICESUMAR 63 de ensino como também nas contingências de reforçamento. Perceba que, nesta abordagem teórica, o trabalho do professor está voltado para as especificidades do aluno e não para o que a maioria dos alunos de uma certa faixa etária necessita (HENKLAIN; CARMO, 2013). Henklain e Carmo (2013, p. 714) concluem que: “ Com os objetivos estabelecidos e o ensino organizado de forma gradual (do simples ao complexo), bem como de posse de dados sobre o repertório do aluno e sobre o que possui valor reforçador e aversivo para ele, é possível planejar como os materiais de ensino devem ser construídos e quais atividades podem ser utilizadas em sala de aula; ou seja, é possível planejar as contingências de reforço. Com relação ao reforço, é importante ressaltar que devem ser reforçados todos os comportamentos que se aproximarem dos objetivos estabelecidos, sendo de fundamental importância para um aprendizado eficiente e gratificante que o reforço do comportamento aconteça imediatamente após a sua apresentação. O reforço é fundamental, mas deve ser usado com cautela, estando atento ao tipo de reforço utilizado como também ter claro quais os comportamentos que receberão reforço. Estando sempre atento aos comportamentos – objetivo, podemos dizer que temos claro os critérios estabelecidos para que o aluno alcance os resultados esperados em determinada situação. Cuidado na escolha dos reforçadores não se limitando a reforçadores artificiais (nota, estrelinha no caderno, prêmio, entre outros), tentando transpor estes para reforçadores naturais (compreender o que está escrito em um livro, progresso na capacidade de resolução de problemas matemáticos, entre outros). Ao planejar as contingências de reforço, deve-se estar atento na escolha e utilização dos reforçadores que fazem parte do contexto da sala de aula (HENKLAIN, CARMO, 2013). Perfazendo seus estudos sobre as contribuições desta abordagem teórica para a educação, Kubo e Botomé (2001) destacam as inovações essenciais tanto da psicologia quanto para a educação, devido a assumir uma postura de refugar construtos hipotéticos como sendo o acionador do comportamento, pois isto leva a procurar de maneira criteriosa as variáveis do ambiente que delimita o comportamento, auxiliando na elaboração de procedimentos que sejam con- cisos para o ensino. UNIDADE 1 64 Encerramos esta discussão destacando o pensamento do grande precursor desta teoria. Skinner (1969) ressalta a importância de se especificar de maneira apro- priada os objetivos, pois isso permitirá que o professor saiba o que deve ser feito e, posteriormente, vai reconhecer com facilidade se realizou o que deveria e se causou resultados previstos. EU INDICO O artigo de Costa, Barboza e Fermoseli, “Dificuldades de aprendizagem no âmbito escolar: reflexões à luz da análise do comportamento” é um tema que gera algumas controvérsias por parte dos agentes de ensino. “Grande parte destes atribuem o fracasso escolar ao próprio aluno, como se houves- se um agente causador interno que faz o aluno não “querer” aprender, utili- zando-se de descrições como “desmotivação do aluno”, “falta de interesse”, entre outras” (COSTA; BARBOZA; FERMOSELI, 2017, p. 69-82). Após estudarmos sobre os conceitos básicos desta teoria, com certeza, fica aquele desejo de conhecer como, de fato, estes podem ser aplicados no cotidia- no da escola. Para discorrer sobre as contribuições práticas do Behaviorismo na Educação, teremos a participação da Psicóloga Sabrina Camargo Silva Leva. Para saber mais é só dar o play. Essa retomada teórica sobre esta abordagem da psicologia com certeza trará a você vários questionamentos e reflexões sobre a educação e a maneira como muitas das rotinas estabelecidas dentro do contexto escolar encontram suas pre- missas desta teoria. Ao estudarmos sobre a teoria behaviorista, também conhecida como análise do comportamento, passamos a estar mais atentos a como nos comportamos e a complexidade de fatores que influenciam este processo. A princípio, a teoria parece ser muito esquematizada, mas à medida que vamos nos aprofundando, percebemos sua autenticidade e seus limites. UNICESUMAR 65 A sua autenticidade se apresenta por meio do entendimento do quanto em nosso cotidiano estamos envolvidos em situações condicionantes, o quanto so- mos movidos pelos reforços positivos e negativos. Sabemos e utilizamos em di- versas situações o recurso da punição, mesmo tendo a consciência de que ele não funciona, como também a generalização e a discriminação são tão necessárias, principalmente na fixação de conteúdo. Podemos dizer, então, que realmente esta teoria desvela o comportamento humano como ele se apresenta. E é nesse ponto que se expõe um dos seus limites, ou seja, enfatiza o que é observável em detrimento de outros fatores que podem também influenciar o comportamento. No que se refere ao processo ensino-aprendizagem, podemos verificar que muitos dos seus preceitos se fazem presentes no contexto educacional e auxiliam na organização do trabalho pedagógico. O planejamento é um exemplo; prepara- do pelo professor, ele é definido por objetivos, estratégias e um desenvolvimento que parte do simples para o complexo. A avaliação também é destacada como essencial para verificar se chegou ao resultado esperado. Destacamos, ainda, a compreensão de que, para essa teoria, o ensino deve ser preparado para atender a necessidade do aluno, ou seja, o behaviorismo não acredita em um processo de aprendizagem baseado nas características comuns a uma determinada faixa etária. Este posicionamento exige que você, profissional da educação, esteja cada vez mais atento às especificidades de cada educando. 66 AGORA É COM VOCÊ Para fixar os conteúdos e conceitos aprendidos nesta unidade sobre a Abordagem Behaviorista, eu proponho que você elabore um mapa mental. Esta atividade pos- sibilitará que você organize visualmente suas ideias sobre a teoria estudada, co- locando os principais temas, sua definição e aplicação, pois sempre um exemplo prático ajuda na fixação. Lembre-se que este vai ajudá-lo a retomar o assunto de maneira mais dinâmica, tendo a liberdade de usar os recursos que sejam mais significativos para sua fixação (ex.: figuras, desenhos, emojis, entre outros). Afinal, como estudamos nesta teoria, o reforço aumenta a possibilidade de o comporta- mento acontecer, ou seja, do conteúdo ser fixado. Anexe aqui seu mapa mental sobre esta abordagem teórica. 67 CONFIRA SUA RESPOSTA O mapa mental deverá constar a definição e aplicação dos seguintes temas estudados: comportamento respondente ou reflexo; comportamento operante e seus desdobramen- tos: reforço, punição, modelagem, extinção, generalização e discriminação; aprendizagem para esta abordagem e a relação desta com a educação. MEU ESPAÇO 3Abordagem da Epistemologia Genética Me. Raquel de Araújo Bomfim Garcia A unidade que iniciamos agora, a da Epistemologia Genética, pro- porcionará o entendimento sobre os estudos de um dos autores de maior relevância na Educação - Jean Piaget. Esta abordagem teórica fundamenta seus estudos na compreensão do processo de construção do conhecimento. O estudo desta teoria promoverá o entendimento sobre o desenvolvimento da inteligência e os fatores que são essen- ciais para que o sujeito avance neste processo, destacando que os princípios desta abordagem teórica deram origem ao Construtivismo, teoria que tem uma grande relevância na Educação. Finalizamos esta unidade com a expectativa de que você compreenda a importância da interação entre o sujeito e o meio para o processo de aprendizagem. UNIDADE 1 70 Em muitos momentos da nossa vida, seja na escola, no trabalho e, até mesmo, entre amigos, ouvimos dizer: “nossa! Como fulano é inteligente” ou, em outras, “olha! O sicrano me surpreende com a sua falta de inteligência”. Estasexpressões fazem parte do nosso cotidiano, mas quais são os princípios utilizados para veri- ficar este fator - a inteligência. E se perguntarem a você? Quais seriam os critérios que utilizaria para justificar o fato de alguém ser inteligente ou não? Pois bem, Piaget, o precursor da abordagem da Epistemologia Genética, tinha esta inquietação. A necessidade de saber como acontece a aquisição do conhecimento pelo sujeito, como ocorre o processo de desenvolvimento da inteligência. Diante disso, passou a realizar pesquisas empíricas para construir um entendimento sobre a inteli- gência. Acredito que compreender o processo da inteligência é um interesse comum e essencial aos educadores, pois o domínio deste entendimento possibilita a busca por estratégias – métodos e técnicas que possam auxiliar o sujeito na sua aprendizagem. Imagine que você é um professor do 1º ano do Ensino Fundamental e sempre ensinou seus alunos o processo de leitura e escrita de maneira presencial. No en- tanto, devido a uma situação de uma pandemia mundial, as crianças não podem vir para a escola e você, a partir deste momento, tem que realizar aulas remotas por meio da internet. Esta situação causa um conflito, um desequilíbrio e você passa a buscar, dentro do seu rol de conhecimentos, estratégias e recursos que possam auxiliar nesta situação. O domínio sobre a arte de alfabetizar não é sufi- ciente, pois o meio, a internet, ainda é um recurso novo tanto para você quanto para o aluno. E aí se inicia a pesquisa por recursos tecnológicos que possam ser mais eficientes neste processo. Essa situação retrata a aprendizagem para Piaget, que sempre será desencadeada por uma situação de desequilíbrio, em que o su- jeito resgata seus esquemas existentes, assimila e acomoda novos conhecimentos. Cada um destes conceitos você vai conhecer melhor no decorrer desta unidade. Sendo assim, provoco você a fazer uma autoanálise sobre a sua aprendiza- gem a partir do conteúdo que conhecer desta teoria. Este processo vai auxiliar para que esteja atento(a) a todos os aspectos que envolvem o ato de aprender, encontrando os subsídios necessários para que compreenda a construção do conhecimento do ser humano. UNICESUMAR 71 Ao iniciarmos os estudos sobre esta abordagem teórica, destacamos a sua im- portância para a educação, principalmente os estudos desenvolvidos por Jean Piaget. No meio educacional, a visão deste autor rompeu com alguns paradigmas, principalmente com a ideia de que o conhecimento é concedido ou pelo meio hereditário (concepção do apriorismo) ou pelo meio físico e social (concepção do empirismo). Suas ideias foram adotadas por escolas de vários países e está vinculada à teoria do Construtivismo Piagetiano, gerando críticas, motivação e pesquisa de diferentes estudiosos (NIEMANN; BRANDOLI, 2012). A epistemologia genética argumenta que o conhecimento não se constitui de modo prefixado, seja em estruturas internas do indivíduo ou em características próprias do objeto, mas sim na relação estabelecidas por eles (sujeito e objeto). Assim sendo, o desenvolvimento cognitivo não acontece apenas pela experiência, nas interações estabelecidas com o meio, nem tampouco é inato, hereditário ou genético; mas entende-se que o conhecimento acontece num processo de cons- trução no qual se deve considerar tantos os aspectos internos do sujeito quanto as interações que ele estabelece com a realidade (PIAGET, 2007). DIÁRIO DE BORDO UNIDADE 1 72 De acordo com Rosa (2010), a Epistemologia Genética se fundamenta na inteligência e na construção do conhecimento, com o intuito de esclarecer como essa construção acontece, individualmente ou no coletivo, como também quais os processos e etapas necessários para que isso aconteça. O sentido da epistemologia para Piaget consiste na reflexão a acerca dos princípios essenciais das ciências, sendo assim, Episteme (ciência) + logos (estudo, tratado), entendendo que o autor tinha a preocupação metodológica de compreender como o conhecimento acontece no ser humano, desde o mais ínfimo (PÁDUA, 2009; ROSA, 2010). Conhecer não é somente explicar; e não é somente viver: conhecer é algo que se dá a partir da vivência (ou seja, da ação sobre o objeto do conhecimento) para que este objeto seja imerso em um sistema de relações. Fonte: Ramozzi-chiarottino (1988, p. 3). PENSANDO JUNTOS Desta forma, o interesse principal desta teoria é entender como acontece a forma- ção da inteligência na criança, mas também estão incluídos neste estudo outros elementos, como a percepção, a motivação e a moral relacionados à inteligência. Com seus estudos, Piaget possibilitou a compreensão do desenvolvimento infan- til, bem como os seus comportamentos por meio de um dos aspectos qualitativos, descrevendo cada estágio do desenvolvimento – da infância à adolescência (final da maturidade cognitiva) (BRIDI, 2017). A compreensão desta teoria perpassa pela história de seu idealizador Jean Piaget, um dos mais importantes pensadores do século XX, que nasceu na ci- dade de Neuchâtel, na Suíça, em 09 de agosto de 1896. Desde a adolescência já se destaca, publicando, aos 11 anos de idade, seu primeiro artigo acerca de um pardal parcialmente albino. Logo após, com autorização e orientação do diretor do museu de história natural de Neuchâtel, passou a catalogar a coleção de con- chas, seguiu com esta atividade por quatro anos. A partir disso, iniciou a publi- cação de artigos cujo tema era a malacologia (estudo dos moluscos - zoologia), tornando-se curador da coleção de moluscos do referido museu (BRIDI, 2017). UNICESUMAR 73 Segundo Palangana (2015), esta vivência e os estudos realizados com moluscos possibilitaram a Piaget subsídios para que publicasse vários artigos sobre este e outros temas zoológicos. Ainda durante a adolescência, realizou estudos sobre filosofia, lógica e religião, que acabaram por despertar seu interesse pela episte- mologia (área da filosofia responsável pelo estudo do conhecimento). Descrição da Imagem: foto em preto e branco de Jean Piaget, senhor na faixa etária de 70 a 80 anos. Está segurando um cachimbo. É calvo com cabelos brancos na lateral da cabeça. Está com óculos de lentes redondas com a boca semiaberta (provavelmente sorrindo). Está vestindo terno e colete escuro, com camisa clara e uma gravata escura. Figura 1 - Jean Piaget (1896-1980) UNIDADE 1 74 No ano de 1915, Piaget se graduou em Ciências Naturais pela Universidade de Neuchâtel e depois de três anos se doutorou com a tese a respeito dos moluscos da região de Valois, Suíça. A formação biológica possibilitou que fizesse pressupo- sições de que os processos de conhecimento apresentavam uma dependência de mecanismos de equilíbrio relacionados ao orgânico, embora seus estudos episte- mológicos revelassem que tanto os processos de pensamento quanto atos externos do sujeito requerem uma organização lógica. O autor trabalhou em sua teoria com essas duas variáveis, o lógico e o biológico; diante disso, encontrou uma resolução para o problema do conhecimento humano (PALANGANA, 2015). No ano de 1919, passou a frequentar a Universidade de Sourbonne, em Pa- ris, onde cursou psicologia, psicopatologia, lógica, filosofia e epistemologia da ciência. Muitos conhecimentos foram apreendidos neste período, entre eles, des- taca-se o entendimento do método de entrevista clínica aberta, que possibilita identificar o fluxo de pensamento do sujeito entrevistado, não impondo nenhu- ma padronização ou direcionamento. Também trabalhou com a padronização de testes de raciocínio (em francês), em que se interessou em estudar o raciocínio das crianças, mudando-se para Genebra para trabalhar no Instituto Rousseau. Foi neste trabalho que Piaget, biólogo transformado em psicólogo, começou as pesquisas que dariam embasamento à teoria sobre a inteligência (BRIDI, 2017). Na aplicação dos testes em um número significativo de crianças, o que cha- mou mais a atenção de Piaget foram as respostas erradas,pois se mostravam mais interessantes. Por meio da observação, o autor percebeu que as crianças da mesma faixa etária apresentavam os mesmos erros, isso fez com que chegasse à conclusão que: para entender o pensamento da criança, era preciso ater-se à qualidade das soluções apresentadas por ela e não na quantidade de acertos, surgindo, assim, o fundamento central de sua teoria, em que destacou que “[...] a lógica de funcionamento mental da criança é qualitativamente diferente da lógica adulta” (PALANGANA, 2015, p. 14), direcionando seus estudos para a investigação de quais processos ou mecanismos possibilitam essa transformação (PALANGANA, 2015). UNICESUMAR 75 Foi em 1923 e 1924 que Piaget apresentou suas primeiras publicações sobre a psicologia do desenvolvimento, que se fundamentava em resultados de pes- quisas realizadas sobre o comportamento linguístico e a lógica de crianças na faixa etária de 3 a 14 anos. Por meio de suas observações, foi possível averiguar a mentalidade própria da criança. Iniciou também, nesse período, os estudos sobre o egocentrismo infantil (KESSELRING, 2008). Na década de 30, o foco de seus estudos se direcionou para a origem bioló- gica do desenvolvimento intelectual. Nestes, ponderou que o que impulsiona o desenvolvimento cognitivo é a busca por um equilíbrio intelectual cada vez mais efetivo – equilibração. As investigações sobre o desenvolvimento da criança ti- veram destaque e a observação de seus três filhos resultou em três grandes livros nos quais o autor descreve o desenvolvimento do lactente até a criança em idade pré-escolar (KESSELRING, 2008). No ano de 1936, segundo Palangana (2015), Piaget recebeu a condecoração de Doutor Honoris Causa, concedido pela Universidade de Harvard. No período entre 1939 e 1950, trabalhou na Universidade de Genebra, ministrando aulas de sociologia na Faculdade de Ciências Econômicas, sendo nomeado, em seguida, como diretor do Laboratório de Psicologia Experimental, substituindo Édouard Claparède. Nos anos seguintes, assumiu a presidência da Sociedade Suíça de Psicologia, passou a ser codiretor da Revista Suíça de Psicologia, trabalhou como professor catedrático de sociologia e psicologia na Universidade de Lausanne, como também de psicologia da criança na Sorbonne. Podemos considerar que sua obra passou por duas fases. Em um primeiro mo- mento, seus trabalhos estavam direcionados para a compreensão da estruturação do pensamento, o processo da linguagem, como também a interação entre as pessoas, revelando um interesse mais relacionado com o social. Este envolvimento pode ser observado em suas obras, principalmente em: A linguagem e o pensamento da criança, de 1923; O juízo e o raciocínio da criança, de 1924; A representação do mundo da criança, em 1924; e O julgamento moral da criança, publicado em 1932. Num segundo momento, podemos verificar que o foco de seu estudo: UNIDADE 1 76 “ [...] centra-se na ação e na manipulação dos objetos que passam a constituir, juntamente com a maturação biológica, os fatores es- senciais à estruturação do pensamento. Em outras palavras, Piaget orienta sua teorização sobre as estruturas cognitivas para a dimen- são lógico-formal. Obras como Psicologia da inteligência (1958), O nascimento da inteligência na criança (1970), Da lógica da criança à lógica do adolescente (1976) e muitas outras demonstraram bem esse novo enfoque (PALANGANA, 2015, p. 15 - grifos do autor). Em sua trajetória profissional, Piaget somou anos de pesquisas e publicações, com isso, no ano de 1955, já havia um reconhecimento da sua teoria. Foi quando fundou o Centro Internacional de Epistemologia Genética, em Genebra, cujo nome faz alusão ao seu domínio de estudo do conhecimento. Este Centro se tornou referência para estudiosos do desenvolvimento cognitivo e até os dias de hoje promove discussões contemporâneas sobre o tema (BRIDI, 2017). No ano de 1980, Piaget faleceu aos 84 anos e deixou um legado essencial para a psicologia cognitiva, pois instituiu novos critérios, tanto na investigação quanto na compreensão sobre a inteligência e o aprender (BRIDI, 2017). Fonte: Pixabay (2018, on-line). UNICESUMAR 77 Conhecendo a história de Piaget, percebemos como ele era um pesquisador in- cansável e uma das suas principais inquietações era compreender como o sujeito constrói o seu conhecimento. Você também ficou curioso em saber? Entender como você faz para compreender as demandas do meio? Será que dependemos unicamente do nosso aparato biológico? Espero que muitas perguntas estejam passando pelo seu pensamento, pois isto é essencial neste processo de construção do conhecimento e é sobre isso que estudaremos a seguir. Piaget (1976 apud FREITAS, 2000), não satisfeito com as explicações apresen- tadas até aquele momento sobre o processo evolutivo da filogenia humana, acaba por elaborar um novo jeito de entender a construção do conhecimento, que não se baseava apenas na experiência ou numa programação inata já preestabelecida, mas sim em construções contínuas, elaborando estruturas novas constantemente. Diante disso, compreende-se que o processo evolutivo humano tem uma base biológica que será ativada na interação e ação deste organismo com o ambiente, tanto físico quanto social, na qual o sujeito está inserido (COLL, 1992). Desta forma, a inteligência, na visão de Piaget, é compreendida como fun- ção e também como estrutura. Como função, por ser uma adaptação, na qual os processos da inteligência objetivam a sobrevivência do sujeito, sua adaptação ao ambiente, modificando-o para que este se adapte às suas necessidades. Na perspectiva estrutural, a inteligência é compreendida como uma organização de processos. À vista disso, o desenvolvimento da inteligência não acontece pela acumulação de conhecimentos, mas sim pela sua própria reorganização (LA TAILLE, 2006). A ideia é que o homem não nasce inteligente, ou seja, que essa faculdade mental não é algo que o indivíduo traz consigo ao nascer, como sugeriam os inatistas, mas que é in- fluenciada pelo meio em que ele vive. Fonte: Gamez (2013, p. 55). PENSANDO JUNTOS Neste processo de construção da inteligência, o sujeito não se apresenta passivo à influência do ambiente, pois responde aos estímulos advindos do meio externo de maneira ativa, operando sobre eles com o intuito de construir e organizar o seu conhecimento, de maneira cada vez mais elaborada (GAMEZ, 2013). UNIDADE 1 78 Para Piaget (1991), o desenvolvimento psíquico inicia no nascimento e ter- mina na idade adulta, sendo semelhante ao crescimento orgânico, pois como este se orienta em busca do equilíbrio, assim como o corpo busca chegar a um nível estável (crescimento e maturidade dos órgãos), na vida mental também ocorre a busca de uma forma de equilíbrio final, o pensamento adulto. Então, para o autor, o desenvolvimento psíquico consiste em um processo de equilibração progressi- va, passando de uma condição de menor equilíbrio para um equilíbrio superior. No processo de organização das funções cognitivas, destacam-se três con- ceitos fundamentais da teoria de Piaget, que são a estrutura, equilíbrio e a au- torregulação. Segundo Kesselring (2008, p. 78, grifo do autor), as “estruturas são, nesse sentido, partes articuladas de um organismo ou de seu ‘repertório’ de comportamentos, mas também das suas capacidades cognitivas humanas”. Intimamente ligado à estrutura está o conceito de equilíbrio. O equilíbrio cognitivo é diferente do biológico devido à sua capacidade de reconhecer pre- viamente prováveis perturbações e atuar de maneira preventiva por meio de providências adequadas. Por exemplo, o homem constrói diques com o intuito de que os rios não ultrapassem suas margens (KESSELRING, 2008). Conforme Kesselring (2008, p. 79), quando nos referimos à inteligência e ao conhecimento, o equilíbrio apresenta um outro significado: “ O equilíbrio é o estado em que o homem consegue agir coerente- mente e em que os seus conhecimentosse integram numa totalidade harmoniosa. A inteligência desenvolve-se em razão de uma tendên- cia interna de melhorar permanentemente as condições de equilí- brio. O desenvolvimento cognitivo é um processo de equilibração. A estrutura cognitiva pode ser compreendida, então, como um sistema de regu- lação e também de coordenação contínua, estando em constante mudança. As mudanças acontecem em decorrência da frequente interação entre o organismo e o ambiente, visto que a estrutura cognitiva consiste em um sistema aberto, em que a relação com meio e a resposta deste para o organismo proporciona um pro- cesso permanente de reorganização e de autorregulação de ambos (BRIDI, 2017). Sendo assim, o organismo procura assimilar conteúdos novos, organizando- -os e integrando-os a elementos já estabelecidos, procurando o equilíbrio entre conhecimento antigo e o novo. Este processo de autorregulação que acontece de UNICESUMAR 79 maneira dinâmica e contínua, no qual todos passamos, é denominado, por Piaget, como equilibração (BRIDI, 2017). A equilibração, de acordo com Gamez (2013), é fundamental para que a criança tenha uma interação eficaz com o ambiente. Para explicar a equilibração, La Taille (2006) esclarece que o contato com um objeto desconhecido pode gerar um conflito entre o sujeito e o objeto, gerando uma desequilibração. Nessa situação, o sujeito procura conhecer o objeto, sendo necessário acomodar-se a ele, como também modificar-se para que possa lidar com ele, buscando o equilíbrio. “Equilíbrio é a estabilidade da organização mental que responde pelo conhecimento. É um conceito central, pois o crescimento da inteligência se dá por desequilíbrio, equilibração, desequilíbrio e reequilibração, ou seja, um processo dinâmico” (LA TAILLE, 2006 apud GAMEZ, 2013, p. 60). Queiroz et al. (2011) destaca que o processo de equilibração executa um papel motivacional significativo devido mobilizar o sujeito a ir além do nível intelectual atual. Conforme Bridi (2017), o processo de equilibração acontece por meio da assimilação e acomodação, estando relacionado a estados constantes que o organismo alcança diante do meio. Sendo assim, Piaget pressupõe a existência de um tipo de função básica da vida, que seria a sustentação de que “[...] toda a multiplicidade de manifestações que a vida tem engendrado e que forneceria também a chave para a compreensão das relações entre os processos da vida intelectual e fisiológica” (KESSELRING, 2008, p. 80). Se- gundo o autor, esta função seria a assimilação, em cooperação com a acomodação. O conceito de assimilação foi adaptado da fisiologia, sendo que Piaget lhe deu um novo significado ao se referir ao plano do conhecimento e do compor- tamento. Sendo assim, a assimilação é compreendida como uma função de um esquema; mas no que consiste um esquema? “ O conceito de esquema proposto por Piaget está ligado às invarian- tes funcionais. O esquema é o construto cognitivo que se estabelece e se organiza a partir dos processos de captação e reorganização frente às interações com o ambiente. O esquema se constitui como uma organização cognitiva, criada pela assimilação e acomodadas dentro da organização cognitiva existente naquele momento. Cada vez que um novo conhecimento é assimilado, o conhecimento já existente se expande e anexa essa nova informação, ampliando sua relação com o meio e seu poder de interação (BRIDI, 2017, p. 16). UNIDADE 1 80 Coletta et al. (2018) acrescentam que, para Piaget, o cérebro se desenvolve-se a partir do momento em que a criança procura compreender o meio em que está inserida, para isso, ela constrói representações mentais ou ações por meio de esquemas, que vão dar origem ao conhecimento. Nos primeiros anos de vida, percebemos o domínio de esquemas comportamentais, ou seja, atividades moto- ras, em que a criança busca conhecer o meio; conforme ela vai avançando em seu desenvolvimento, são elaborados os esquemas mentais, as atividades cognitivas. Na idade adulta, pode-se verificar uma quantidade significativa de esquemas que coordenam as atividades cognitivas. O desenvolvimento dos esquemas acontece por meio dos processos de assimilação e acomodação. A assimilação consiste em um processo no qual tudo o que faz parte do am- biente (pessoas, coisas, ideias, referências, costumes, outros) é incluído à ativi- dade do sujeito (PULASKI, 1986). Deste modo, todo o comportamento humano é absorvido pelo ambiente que o cerca, a maneira com que nos comunicamos, nossas brincadeiras infantis, nossa alfabetização, como também nossos processos de aprendizagens resultam da assimilação do organismo ao que o ambiente pro- põe e que temos a capacidade de absorver. Sabemos que os estímulos do meio são constantes, não sendo possível controlá-los, por isso a importância de ambientes estimulantes, que propiciem desafios cognitivos e aumentem a probabilidade de assimilação de conhecimentos novos (BRIDI, 2017). As “travessuras” infantis, em geral, são frutos de novas experimentações da criança no ambiente, muitas vezes provocando situações desafiadoras ou perigosas. Para a criança que nunca vivenciou aquela situação, a travessura é apenas uma nova forma de “assimi- lação” do ambiente. Uma vez conhecedora das consequências, as crianças tendem a não repetir a mesma situação ou fazê-las de forma menos arriscada. Fonte: Bridi (2017, p. 15). PENSANDO JUNTOS Kesselring (2008) explica que a assimilação de um objeto, em um esquema de ação, nada mais é do que realizar satisfatoriamente a própria ação no objeto. Alguns esquemas, ao serem utilizados, não alteram o objeto (exemplo: deslo- car ou pegar um objeto), enquanto outros esquemas podem, de certa maneira, UNICESUMAR 81 transformar o objeto (exemplo: cortar um pão). Neste exercício progressivo de assimilação, os esquemas vão se modelando às situações mutáveis, acontecendo o que Piaget denominou como sendo o processo de acomodação. Percebe-se, então, que a acomodação é um processo que vem complementar a assimilação, ou seja, a experiência ou conhecimento adquirido incorpora elemen- tos que já fazem parte do desenvolvimento psíquico construído até o momento. Esse processo possibilita que algo que era realizado de modo simples possa ser aprimorado gradualmente, chegando a um nível mais complexo (BRIDI, 2017). Quando a criança compreende uma nova informação, esta é adicionada aos esquemas anteriores, dando-se, assim, a assimilação. Agora, quando a criança ajusta seus esquemas para se adaptar a novas informações e experiências, ocorre a acomodação. Para entender esses processos, quando a criança compreende, por exemplo, a palavra “casa”, ela passa a chamar o que vê na rua de casas, ou seja, ela assimilou o significado de casa, porém logo aprende que edifícios, prédios, condomínios não são “casas” – acontece, então, uma sintonia fina da categoria para excluir edifícios, prédio e condomínios, acomodando o esquema. Fonte: Coletta et al. (2018, p. 70). EXPLORANDO IDEIAS Entendendo o processo de assimilação e acomodação, podemos averiguar que os esquemas se apresentam flexíveis e também são capazes de transformação, sabendo que um mesmo esquema pode ser usado em diversas situações e de maneira diferenciada. Tomemos como exemplo a diferença de movimentos e os tipos de músculos ativados em uma situação em que pegamos um alfinete, e outra em que erguemos uma bola de chumbo. Portanto, “[...] cada esquema tem, por um lado, sua história (gênese), e tal história pode ser diferente de pessoa para pessoa” (KESSELRING, 2008, p. 81). A coordenação balanceada que acontece entre a assimilação e a acomoda- ção leva à equilibração, ou seja, acontece um equilíbrio progressivo que vai de um estado inferior de equilíbrio para um mais elevado, possibilitando o avanço e também uma passagem progressiva entre os estágios de desenvolvimento (PULASKI, 1986). UNIDADE 1 82 Como acontece o desenvolvimento da inteligência? Segundo Coletta et al. (2018, p. 70),o nível de competência intelectual do sujeito será determinado pelo “[...] estágio em que a natureza de seus esquemas se encontra, na quantidade e na forma em que se combinam”. Para que isso ocorra, Piaget destaca quatro fatores essenciais, que encontramos em todos os estágios do desenvolvimento, que são: a maturação, a experiência, a transmissão social e o processo de equilibração. Vamos conhecer um pouco sobre estes fatores (PULASKI, 1986). Iniciamos falando sobre a maturação. Piaget considerava a necessidade do conhecimento sobre o biológico, principalmente sobre a herança genética e fa- tores hereditários, por compreender que estes influenciam no desenvolvimento humano. No entanto, devido a sua visão interacionista do desenvolvimento, não acreditava que apenas a maturação do sistema nervoso seria suficiente, pois enten- dia este como um fator que proporciona oportunidades de interação e resposta ao ambiente. Este sistema depende da interação com o ambiente para se desenvolver e amadurecer, apresentando potencialidades para assimilar e também estruturar informações novas. Nesta perspectiva, o desenvolvimento cognitivo procede de uma base neurológica adequada, que possa receber novas informações, cuja a as- similação ocorrerá de acordo com o estado maturacional do corpo (BRIDI, 2017). UNICESUMAR 83 De acordo com Piaget (1983), a criança compõe gradativamente as suas estrutu- ras cognitivas, partindo de suas estruturas biológicas, como também de suas ações sobre o seu ambiente, demonstrando uma organização sequencial, tendo como ponto de partida os conceitos mais simples, tornando-se mais complexos, criando novos esquemas continuamente, adaptando-se aos existentes, sendo organizados conforme os estágios do desenvolvimento cognitivo em que se encontra. Outro fator relevante para o desenvolvimento dentro desta abordagem teórica, segundo Bridi (2017), é a experiência. Esta pode ser compreendida no campo físico (exemplo: brincar com objetos diversos) ou no empírico (exem- plo: explorar o contexto da sala de aula e as atividades propostas). Esta vivência permitirá que a criança estabeleça, de maneira simultânea, dois tipos de co- nhecimento: o físico e o lógico matemático. “O conhecimento físico advém da ação sobre os objetos e do conhecimento que se forma a partir da percepção de como eles reagem, são transformados pelo reconhecimento dos seus aspectos físicos como tal” (BRIDI, 2017, p. 18). A brincadeira com uma bola, por exemplo, possibilita noções referentes às características e possibilidades deste objeto, fazendo com que interaja e rein- vente interações em novos contatos com este objeto ou outro objeto similar. O conhecimento lógico-matemático acontece a partir da interação da criança com os objetos, em que ela passa a instituir relações lógicas entre objeto e o restante do ambiente. Assim sendo, é por meio da experimentação que a criança vai estabelecendo relações e construindo regras e ideias para que compreenda como os fenômenos acontecem. A exemplo disso, ao chutar uma bola com mais força, a criança veri- fica que ela vai mais longe, com isso estabelece uma relação que envolve força e distância. Neste momento, a criança vai estabelecendo esquemas primitivos que alcançaram seu ápice na aprendizagem de física, lá na adolescência, para assim serem compreendidos de maneira abstrata. Dessarte, neste processo de crescente Os interacionistas destacam que o organismo e meio exercem ação recíproca. Um influen- cia o outro e essa interação acarreta mudanças sobre o indivíduo. É, pois, na interação da criança com o mundo físico e social que as características e peculiaridades desse mundo vão sendo conhecidas. Fonte: Davis e Oliveira (1990, p. 36). EXPLORANDO IDEIAS UNIDADE 1 84 desenvolvimento, vão sendo acrescentados esquemas lógicos-matemáticos de maior complexidade, de acordo com a experimentação por parte da criança de atividades novas e mais complexas. A experiência consiste no alicerce da apren- dizagem (BRIDI, 2017). Destacamos, agora, outro fator relevante para o desenvolvimento segundo esta teoria: a transmissão social, que consiste nas informações que são aprendidas, como também o conhecimento obtido por meio da relação com outras pessoas no trans- correr de seu desenvolvimento. Na obra piagetiana, percebe-se a ênfase dada à troca de informações, interagindo os diversos níveis de conhecimento de maneira que im- pulsione a apropriação de diferentes e novas maneiras de aprender (BRIDI, 2017). “ Isso é possível porque cada criança desenvolve um modo de pensar e agir, diferente das demais e quando esse confronto se estabelece, uma nova gama de informações diferentes e desafiadoras se apresen- tam para a criança, exigindo que, estabeleça uma nova relação com o que já foi aprendido, ampliando sua capacidade cognitiva. O termo conflito cognitivo é utilizado para designar essas situações onde o equilíbrio foi alterado, fazendo com que o organismo, como um todo, estabeleça uma nova busca de equilibração (BRIDI, 2017, p. 19). E esse processo de equilibração é destacado por Bridi (2017) como o quarto fator essencial para o desenvolvimento cognitivo, devido regular a aquisição do conhe- cimento, estando presente em todas as etapas do desenvolvimento, destacando que um mesmo elemento, por exemplo uma boneca, sendo apresentada em fases diferentes de desenvolvimento, ou seja, em estágios cognitivos diferentes, poderá causar novos enfrentamentos cognitivos, como também novas aquisições no trans- correr do processo. Isto porque a maneira de apreender e absorver o elemento vai depender da capacidade cognitiva da criança de anexar, de maneira progressiva, informações novas àquelas que já existem anteriormente. Assim, uma criança de um ano de idade pode colocar a boneca na boca ou sacudi-la no ar; já para uma criança de cinco anos, a boneca fará parte de uma brincadeira de faz de conta, que aprendeu durante esses anos na interação com outras crianças ou adultos. UNICESUMAR 85 De acordo com Bridi (2017), quando nos propomos a compreender o desenvol- vimento da inteligência, precisamos considerar que este é um processo, no qual estamos em constante aquisição e em permanente ampliação. Desta forma, o sujeito, no decorrer da vida, vai tornando-se inteligente, ou seja, inteligência não é inata. Nos diferentes estágios de desenvolvimento da inteligência, encontramos características específicas e próprias daquela etapa. Desta maneira, o sujeito é inteligente em cada etapa do seu desenvolvimento, não só na vida adulta, quando já possui uma bagagem significativa de conhecimentos. Ressaltando: esta gama de conhecimentos que o sujeito apresenta na vida adulta é resultado das etapas que precederam, como também da elaboração de enfrentamentos cognitivos no decorrer do seu desenvolvimento. De acordo com Piaget (1991), no transcorrer do desenvolvimento, existem funções que se apresentam constantes e que também acontecem em todas as idades. Em todas as etapas do desenvolvimento, a ação pressupõe um interesse que a suscita, que pode ser uma necessidade emocional, fisiológica ou intelec- tual (nesse caso, pode ser uma pergunta ou problema), que busca explicar, com- preender etc. As funções de interesse também são comuns a todos os estágios, no entanto, estes interesses vão variar, de maneira considerável, em cada nível mental, como também as explicações serão diferentes dependendo do nível de desenvolvimento intelectual. Ao definir a inteligência, Piaget (1977) não considera apenas aspectos rela- cionados à situação funcional, mas também aos seus mecanismos estruturais constituintes. Na situação funcional, podemos entender que, conforme o sujeito vai mostrando-se mais inteligente, aumenta o percurso entre ele e o objeto, pois este deixa de ser simples e requer uma organização em que a interação se torna mais complexa. Esta complexidade depende de uma interação progressiva que exige o envolvimento de mais elementos deinteração. Você, alguma vez, indagou-se como as crianças de idades diferentes apresentam respos- tas tão inusitadas e distintas? Você acredita que nascemos inteligentes? Será que a inteli- gência está relacionada à quantidade de conhecimentos que acumulamos? PENSANDO JUNTOS UNIDADE 1 86 No que se refere ao mecanismo estrutural, Bridi (2017, p. 21) explica que: “ [...] refere-se ao aspecto que ao mesmo tempo que um conheci- mento apresenta uma organização estabelecida e fixada pelas regras que o sujeito constituiu sobre ele, esse mesmo conhecimento, para seu avanço e ampliação, é também capaz de reversibilidade na sua construção, definindo assim que, todas as regras e o próprio conhe- cimento já adquirido pode ser reorganizado novamente. Neste aspecto, podemos considerar que a inteligência está vinculada ao estado de reversibilidade progressiva, por meio do processo de equilibração constante. Sendo assim, a inteligência apresenta uma tendência a novas formas, que sejam mais organizadas e amplas, por meio das assimilações e acomodações que acon- tecem na interação com o meio (BRIDI, 2017). Para melhor entendimento deste processo, Piaget estabeleceu quatro estágios ou períodos de desenvolvimento, que foram organizados por meio de pesquisa empírica. Melhor dizendo, ele acompanhou desde o início as manifestações de inteligência dos seus filhos, observando atentamente as mudanças mais tênues apresentadas por eles (KESSELRING, 2008; PÁDUA, 2009). Pádua (2009) destaca que o primeiro dos estágios acontece no campo da motricidade; o segundo se destaca pela atividade representativa; enquanto o terceiro e o quarto estão relacionados ao pensamento operatório. Entenden- do que, mesmo que estes dois últimos períodos do desenvolvimento cognitivo aconteçam no campo do pensamento operatório, a distinção entre eles é que, no terceiro, o pensamento operatório ainda está vinculado ao concreto; no quarto estágio, este mesmo pensamento se vincula ao formal e abstrato. Estes estágios de desenvolvimento foram definidos como sensório-motor, pré-operatório, ope- ratório-concreto e operatório-formal. O primeiro estágio de desenvolvimento, sensório-motor, também denomi- nado de período de lactância, acontece antes do desenvolvimento da linguagem e do pensamento e é constituído de três estágios: o primeiro é o estágio dos reflexos ou mecanismos hereditários, nele acontece o início das tendências ins- tintivas (nutritivas) como também das primeiras emoções; no segundo estágio acontecem os primeiros hábitos motores, assim como as primeiras percepções organizadas e sentimentos singulares; o terceiro é denominado de estágio da UNICESUMAR 87 inteligência sensório motora ou prática, que acontece antes da linguagem, sendo característico o início das regulações afetivas e das fixações exteriores da afeti- vidade. Este estágio acontece, aproximadamente, até um ano e meio a dois anos de vida da criança (PIAGET, 1991). Kesselring (2008) apresenta uma outra subdivisão do período sensório-motor apresenta- da por Piaget, “[...] 1) reflexos e modelos do movimento inato (do nascimento a um mês de idade); 2) primeiros hábitos de conduta (1 a 4 meses); 3) modos de comportamento, que ajudam a prolongar espetáculos interessantes (4 a 8 meses); 4) surgimento da inteligência prática, que se manifesta através da utilização de modos de comportamento em situações novas (8 a 12 meses); 6) interiorização dos esquemas de representação (18 a 24 meses). Este último estágio forma a transição para o segundo nível, ou nível operacional”. Fonte: Kesselring (2008, p. 105). EXPLORANDO IDEIAS Depois do estágio sensório-motor, a criança passa ao estágio pré-operatório da inteligência intuitiva, em que são característicos os sentimentos interindividuais espontâneos, onde suas relações sociais são submissas ao adulto. Este estágio vai dos dois anos até os sete anos de idade, compreendendo a primeira parte da primeira infância. O estágio seguinte é chamado de operatório-concreto ou das operações intelectuais concretas, nesta fase acontece o início da lógica, como tam- bém dos sentimentos relacionados à moral e ao social no sentido de cooperação, sucedendo dos sete aos onze ou doze anos de idade. O último estágio denomina- do de operatório-formal compreende as operações intelectuais abstratas, como também a formação da personalidade e a inclusão tanto social quanto afetiva no contexto dos adultos, período da adolescência (PIAGET, 1991). Podemos dizer que o termo operação é polissêmico, pois apresenta diferentes definições de acordo com o contexto, podendo ser utilizado, por exemplo, como procedimento cirúrgico (Maria fará uma operação da vesícula) ou como operação aritmética (adição, subtração, divisão e multiplicação). Contudo, qual a perspectiva deste termo para a teoria de desenvolvi- mento de Piaget? UNIDADE 1 88 No processo de desenvolvimento, devemos considerar que em cada estágio vão aparecer estruturas originais que, devido à sua construção, diferencia-se dos es- tágios que o antecede. “O essencial dessas construções sucessivas permanece no decorrer dos estágios ulteriores, como subestruturas, sobre as quais se edificam as novas características” (PIAGET, 1991, p. 13). No entanto, cada estágio também apresenta características secundárias e momentâneas que podem ser alteradas pelo desenvolvimento posterior, no intuito de uma organização melhor. Os es- tágios podem ser constituídos pelas suas estruturas e uma maneira própria de equilíbrio, efetivando a evolução mental e visando uma equilibração cada vez mais complexa (PIAGET, 1991). Apresentamos, na Figura 2, as principais carac- terísticas dos estágios de desenvolvimento, segundo Piaget. Sensório-motor Inteligência prática é realizada por meio das percepções e dos movimentos, com uma coordenação sensório-motora das ações. Sem o uso exato do pensamento. Linguagem é maior desenvolvivemto, mas possuem di�culdade em manter uma conversa, pois entram em contradição durante os siálogos e não explicam seu ponto de vista. Socialização ocorre uma maior interação, pois consegue comunicar-se com os demais, mas ainda é característico o egocentrismo e monólogos coletivos. Período dos questionamentos, fase dos porquês. Fase das condutas de representação ou manifestações da função simbólica, sendo capaz de realizar jogo simbólico. Irreversibilidade, impossibilidade de reverter um pensamento. Nominalismo, nomeação de variadas coisas, cujos nomes a criança desconhece. Pensamento intuitivo que considera as percepções imediatas não conseguindo seguir regras coletivas. Transição entre a ação e as estruturas lógicas mais gerais, pensando de forma lógica e concreta, baseando-se no que é perceptivo. Ordens de operação são as operações infralógicas, com base em algo concreto. Aquisições cognitivas matemáticas, classi�cação e a seriação, e em seguida ocorrem a multiplicação lógica e compensação simples. Capacidade de consolidar as conservações. Não se limita mais a uma representação imediata, mas ainda depende do mundo concreto para desenvolver a abstração. A criança já não é mais tão egocêntrica e já consegue se colocar abstratamente no lugar do outro. Socialização, na organização social passa a ser de grupos de amigos �xos. Capaz de formar esquemas conceituais abstratos. Realiza operações mentais que seguem os princípios da lógica formal. Discute valores e constrói seus próprios valores. Critica sistemas sociais e propõe novos códigos de conduta. Consciente do seu pensamento, re�etindo sobre ele. Lida com relações entre relações. 0 a 2 anos Pré-operatório 2 a 7 anos Operatório-concreto 7 a 12 anos Operatório-formal 12 anos em diante UNICESUMAR 89 Sensório-motor Inteligência prática é realizada por meio das percepções e dos movimentos, com uma coordenação sensório-motora das ações. Sem o uso exato do pensamento. Linguagem é maior desenvolvivemto, mas possuem di�culdade em manter uma conversa, pois entram emcontradição durante os siálogos e não explicam seu ponto de vista. Socialização ocorre uma maior interação, pois consegue comunicar-se com os demais, mas ainda é característico o egocentrismo e monólogos coletivos. Período dos questionamentos, fase dos porquês. Fase das condutas de representação ou manifestações da função simbólica, sendo capaz de realizar jogo simbólico. Irreversibilidade, impossibilidade de reverter um pensamento. Nominalismo, nomeação de variadas coisas, cujos nomes a criança desconhece. Pensamento intuitivo que considera as percepções imediatas não conseguindo seguir regras coletivas. Transição entre a ação e as estruturas lógicas mais gerais, pensando de forma lógica e concreta, baseando-se no que é perceptivo. Ordens de operação são as operações infralógicas, com base em algo concreto. Aquisições cognitivas matemáticas, classi�cação e a seriação, e em seguida ocorrem a multiplicação lógica e compensação simples. Capacidade de consolidar as conservações. Não se limita mais a uma representação imediata, mas ainda depende do mundo concreto para desenvolver a abstração. A criança já não é mais tão egocêntrica e já consegue se colocar abstratamente no lugar do outro. Socialização, na organização social passa a ser de grupos de amigos �xos. Capaz de formar esquemas conceituais abstratos. Realiza operações mentais que seguem os princípios da lógica formal. Discute valores e constrói seus próprios valores. Critica sistemas sociais e propõe novos códigos de conduta. Consciente do seu pensamento, re�etindo sobre ele. Lida com relações entre relações. 0 a 2 anos Pré-operatório 2 a 7 anos Operatório-concreto 7 a 12 anos Operatório-formal 12 anos em diante Descrição da Imagem: a Figura 2 apresenta os quatro estágios de desenvolvimento segundo Piaget. Há quatro colunas de cores diferentes, com uma imagem e informando os estágios propostos. Da esquerda para a direita, na primeira coluna, ilustra-se a foto de um bebê afrodescendente sorrindo, representando o estágio sensório-motor, do 0 aos 2 anos, em que a inteligência é prática, realizada por meio das percepções e dos movimentos, com uma coordenação sensório-motora das ações. Sem o uso exato do pensamento. Na segunda coluna, ilustra-se com a foto de um menino branco mostrando as palmas das mãos pintadas, representando o estágio pré-operatório, que vai dos 2 aos 7 anos, em que ocorre um maior desenvolvi- mento da linguagem, mas possuem dificuldades em manter uma conversa, pois entram em contradição durante os diálogos e não explicam seu ponto de vista. A socialização neste estágio é de maior interação, pois consegue comunicar-se com os demais, mas ainda é característico o egocentrismo e monólogos coletivos. São característicos os questionamentos, é a fase dos porquês. Consiste na fase das condutas de representação ou manifestações da função simbólica, sendo capaz de realizar jogo simbólico. Podemos verificar, neste período, a irreversibilidade que consiste na impossibilidade de reverter um pensamento; o nominalismo que significa nomeação de variadas coisas, cujos nomes a criança desconhece e também o pensamento intuitivo que considera as percepções imediatas não conseguindo seguir regras coletivas. Na terceira coluna, ilustra-se a imagem de uma menina parda, sorrindo com cabelos longos e vestida com gorro e roupa colorida. Este estágio é denominado de operatório-concreto, dos 7 aos 12 anos, nesse acontece a transição da ação para as estruturas lógicas mais gerais, pensando de forma lógica e concreta, baseando-se no que é perceptivo; as ordens de operações são as operações lógico-matemáticas e as ope- rações infralógicas, com base em algo concreto; apresentam aquisições cognitivas matemáticas que são classificação e a seriação, e, em seguida, ocorrem a multiplicação lógica e compensação simples; apresenta capacidade de consolidar as conservações; não se limita mais a uma representação imediata, mas ainda depende do mundo concreto para desenvolver a abstração; a criança já não é mais tão egocêntrica e já consegue se colocar abstratamente no lugar do outro e a organização social passa a ser de grupos de amigos fixos. Na quarta e última coluna, ilustra-se a imagem de um jovem adolescente afrodescendente, sorrindo, está vestido com uma camisa branca, gravata e usando uma mochila. Este estágio é denominado de operatório-formal, dos 12 anos em diante, e apresenta uma capacidade de formar esquemas concei- tuais abstratos, realiza operações mentais que seguem os princípios da lógica formal; discute valores e constrói seus próprios valores; critica sistemas sociais e propõe novos códigos de conduta; tende a ser consciente do seu pensamento, refletindo sobre ele e lida com relações entre relações. Figura 2 - Estágios de desenvolvimento de Piaget / Fonte: adaptada de Souza e Wechsler (2014); Rappaport (1981). UNIDADE 1 90 Existem alguns mecanismos funcionais que são comuns a todos os estágios. Po- demos verificar que, de modo geral, toda ação, seja ela um pensamento, senti- mento ou movimento, está relacionada a uma necessidade, ou seja, um motivo para a ação. A necessidade é uma expressão de um desequilíbrio. O desequilíbrio acontece quando algo, seja interno (físico ou mental) ou externo a nós, alterou-se, sendo preciso reajustar a conduta devido a esta mudança. Exemplificando, a fome faz com que ocorra a procura pelo alimento. Diante disso, consideramos que a ação termina quando ocorre a satisfação da necessidade e, consequentemente, o restabelecimento do equilíbrio. “A cada instante, pode-se dizer, a ação é dese- quilibrada pelas transformações que aparecem no mundo, exterior ou interior, e cada nova conduta vai funcionar não só para restabelecer o equilíbrio, como também para tender a um equilíbrio mais estável que o estágio anterior a esta perturbação” (PIAGET, 1991, p. 14). Além dos estudos acerca do desenvolvimento da in- teligência, Piaget interessou em entender como acon- tecia o desenvolvimento moral nas crianças. Você já parou para pensar como é que construímos nossos julgamentos? Ficou curioso? Vamos então conhecer sobre este processo. De Bonis Racy (2012) destaca que o entendimento da teoria do desenvolvimento cognitivo de Piaget perpassa pela compreensão de que este acontece tendo como base o desenvolvimento biológico e que é constituído por meio da equilibração. E é nesse processo de desenvolvimento que o sujeito vai construindo o seu co- nhecimento. Portanto, para o autor, a aprendizagem consiste numa consequência do desenvolvimento. UNICESUMAR 91 Para esta abordagem teórica, a aprendizagem consiste na interação que acon- tece entre o sujeito e o objeto, sendo que o conhecimento se constrói continua- mente, ou seja, não consiste em algo finalizado, nem no ambiente, nem no sujeito. Deste modo, o conhecimento acontece na relação que se estabelece entre eles (COLLARES, 2003). Então, a aprendizagem acontece quando o aluno, enquanto sujeito ativo, atua sobre os conteúdos acadêmicos, ocorrendo a assimilação do que é proposto pelo professor. Segundo Becker (2013), no entendimento piagetiano, a maturação do sujeito é importante, mas não é suficiente, pois ele necessita ser estimulado, sen- do que esta estimulação é essencial no contexto escolar. É na ação do aluno que ocorre a transformação de um material estimulante em um verdadeiro estímulo. Para isso, é fundamental a orientação do professor, que deverá utilizar-se da ação do aluno para possibilitar a sua aprendizagem. Vergnaud (2009) acrescenta que o professor deve ter não só o conhecimento profundo acerca do conteúdo que vai ensinar, mas também conseguir relacioná-lo com as contingências do aluno. Nesta perspectiva, a escola terá como ponto de partida os esquemas de as- similação do aluno, proporcionando atividades que sejam desafiadoras e que estimulem desequilíbrios e reequilíbrios constantes (equilibração majorante), levando o aluno a descobertas inusitadas, construindo seu conhecimento.No processo de aprendizagem, o sujeito se vê frente a novidades que causam pertur- bação em seu equilíbrio, sendo que a autorregulação possibilita ao sujeito reaver o equilíbrio que fora perdido, por meio da construção de algo novo, no intuito de restabelecer o equilíbrio (BECKER, 2013). No que se refere às competências cognitivas, Becker (2013) explica que po- demos considerar que nada é concedido ao sujeito, ou seja, tudo é um processo de construção que depende tanto das possibilidades de assimilação quanto do interesse do sujeito. Assim sendo, na teoria piagetiana, a aprendizagem consiste num epifenômeno do desenvolvimento. O autor conclui dizendo que “a apren- dizagem depende em tudo do desenvolvimento; suas possibilidades são abertas e limitadas pelo desenvolvimento cognitivo” (BECKER, 2013, p. 83). É importante ressaltar que, para Piaget (1991), a aprendizagem não irá acontecer se não houver o interesse do sujeito, pois o interesse equivale a um regulador de energia. Quando há a intervenção do interesse, são mobilizadas reservas de força internas, levando a uma sensação de facilidade, como também a diminuição da fadiga, em situações em que o conhecimento suscita o interesse UNIDADE 1 92 do aluno. O autor ressalta que o rendimento dos alunos é melhor quando o ensino recorre para seus interesses e em situações em que o conhecimento se relaciona com as suas necessidades. As ideias e trabalhos desenvolvidos por Piaget, principalmente suas pes- quisas sobre o desenvolvimento cognitivo e sobre a origem do conhecimento, suscitaram o interesse de educadores. No entanto, estes tinham preocupações que se divergiam das de Piaget, pois o intuito deles era de encontrar uma teo- ria que integrasse o desenvolvimento com questões relacionadas ao processo ensino-aprendizagem. Sendo assim, a apropriação de sua teoria pela educação foi feita por leitores de Piaget, que buscavam encontrar respostas para os pro- blemas de desenvolvimento e de aprendizagem das crianças e que viram, nesta teoria, possibilidades de soluções para situações problemas na área da educação (JOBIM E SOUZA, 2008). Com este direcionamento, foram elaboradas propostas pedagógicas que ti- nham como embasamento a perspectiva do Construtivismo de Piaget, sendo usado este termo para um determinado modo de trabalho pedagógico. “ Este modelo se fundamenta, prioritariamente, em uma concepção de criança que age sobre a realidade, e, portanto, não aprende de forma passiva, mas a partir da diversidade e da riqueza de oportu- nidades de interação que lhe são oferecidas cotidianamente na própria vida, e, particularmente, nas instituições escolares (JOBIM E SOUZA, 2008, p. 65). O construtivismo trouxe mudanças profundas nas relações escolares, principal- mente entre o professor e o aluno, como também entre as crianças. A organização pedagógica também passou por alterações e o professor deixou de ser o centro do processo ensino-aprendizagem, passando a ser a criança. Isto, por sua vez, transformou o modo de interação entre o adulto e a criança, “[...] afetando não só a concepção de criança que orienta as práticas educativas a partir deste mo- mento, mas também o comportamento e as expectativas dos adultos em relação às crianças” (JOBIM E SOUZA, 2008, p. 65). A teoria de Piaget (1964) apresenta várias propostas para o ensino, como: o entendimento de que a aprendizagem consiste em um processo ativo de elabo- ração e não apenas uma recepção passiva de conteúdos; erros na compreensão UNICESUMAR 93 acontecem por assimilações incorretas ou incompletas do conteúdo, sendo estas necessárias e úteis para o processo de elaboração; o processo de ensino deve proporcionar várias interações entre o sujeito e o conteúdo que irá aprender; e que a construção do conhecimento acontece em ações efetivas ou mentais que se constrói sobre o conteúdo. O Construtivismo Piagetiano considera que, se o conteúdo apresentado ao aluno for muito além de sua possível compreensão, não provocará nenhum de- sequilíbrio ou este será tão extremo que impossibilitará qualquer mudança. No entanto, se o conteúdo estiver no nível de compreensão do aluno, não provocará de- sequilíbrio algum e a aprendizagem será limitada ou nula; ,as entre esses extremos há uma zona em que os conteúdos podem possibilitar uma defasagem distinta, um desequilíbrio que pode ser manejável dentro das contingências de compreensão do sujeito. E é aí que deve estar situada a ação pedagógica (SILVA, 2019). EU INDICO Este vídeo foi produzido na Suíça, em 1977, pelo próprio Jean Piaget, com o intuito de esclarecer sobre a Epistemologia Genética, discutindo suas ideias, esclarecendo mal entendidos e mostrando algumas de suas experiências clássicas com crianças. Para que o professor possa promover um ambiente construtivista, é preciso que tenha consciência da relevância do educar-educando, tendo ciência que todo processo de aprendizagem perpassa pela interação que ocorre de maneira signi- ficativa entre o sujeito da aprendizagem com o objeto. É nesta interação completa que acontece a construção de estágios de conhecimento inéditos, tanto para quem aprende quanto para quem ensina (GEBARA; MARIN, 2005). Na abordagem construtivista, o erro tem um papel relevante, sendo visto como uma fonte de aprendizagem, pois possibilita o sujeito a questionar-se a respeito das consequências de seus atos, partindo de seus erros e acertos e, as- sim, construindo conceitos. Desta maneira, o erro deixa de ser simplesmente um modo de verificar o que o sujeito assimilou do que foi repassado pelo professor. Nesta perspectiva teórica, a avaliação passa por mudanças significativas, passan- do a ter uma importância relevante no processo e assume uma nova maneira de avaliar, diferente da convencional (GEBARA; MARIN, 2005). UNIDADE 1 94 Na teoria construtivista, o professor tem um papel de destaque como media- dor do processo de aprendizagem do sujeito, promovendo a interação entre os próprios alunos e também dele com os alunos. Para isso, ele deve criar situações problemas que oportunizem conflitos para o aluno e provoque seu avanço cog- nitivo. Nesta perspectiva, o aluno é considerado como um ser ativo, não fican- do apenas na espera de alguém para ensiná-lo e para iniciar sua aprendizagem; ele mesmo pode ordenar, comparar, classificar, elaborar, reformular hipóteses e reorganizar sua ação, dirigindo-se à elaboração do conhecimento (ELIAS, 1992). Leão (1999) conclui que o professor que se propõe a utilizar o Construti- vismo, primeiramente, deve aceitar que ele não é mais o centro do processo de ensino-aprendizagem, tendo claro que o aluno aprende na relação com o outro, podendo ser com seus amigos ou com o próprio professor. Esta mudança suscita no professor a competência de promover situações problemas que instiguem o raciocínio do aluno, levando à aprendizagem. Piaget não foi um educador, como muitos pensam ainda hoje, e sua obra destinada à educação não é extensa se comparada a outros temas. Mesmo assim, ele deixou contri- buições incalculáveis quando conseguimos interpretar sua obra com vistas à prática esco- lar. Para ele, a educação deve possibilitar à criança o desenvolvimento amplo e dinâmico desde o período sensório-motor até o período operatório-abstrato. A escola deve levar em consideração os esquemas de assimilação da criança e partir deles. Deve favorecer a realização de atividades desafiadoras que provoquem desequilíbrio (“conflitos cogniti- vos”) e reequilibrações sucessivas, para que promovam a descoberta e a construção do conhecimento. [...] Assim, o conhecimento não é concebido apenas como espontaneamente descoberto pela criança, nem como mecanicamente transmitido pelo meio exterior ou pelo adulto, mas como resultado dessa interação na qual o indivíduo é sempre ativo. Contrariando todas as formas de modismos educacionais, Piaget efetivamente elabora uma teoria do conhecimento e não um método de ensino. Fonte:Leão (1999, p. 201). EXPLORANDO IDEIAS Conhecendo um pouco da obra de Jean Piaget, percebemos o quanto esta é rele- vante para a educação, possibilitando a compreensão de como o conhecimento é construído nas interações do sujeito com o meio, não descartando fatores de maturação neurológica. Espero que esta amostra desta abordagem teórica possa UNICESUMAR 95 incentivar você a buscar conhecer ainda mais, aprofundando seus conhecimentos e aperfeiçoando sua prática enquanto educador. Respondendo aos nossos questionamentos iniciais, podemos verificar que a inteligência não é inata e que vai desenvolvendo-se a partir da relação entre as predisposições biológicas e a interação com o meio, sendo que este será essencial para que o processo aconteça. É preciso que o meio provoque este desenvolvi- mento, pois, como vimos, a aprendizagem ocorre por meio da equilibração, ou seja, num processo dinâmico e contínuo de autorregulação, acontecendo por meio da assimilação e acomodação. Piaget estabeleceu os estágios de desenvolvi- mento da inteligência e esclareceu que fatores como a maturação, a experiência, a transmissão social e a equilibração são fundamentais para que o sujeito avance no seu desenvolvimento. Como vimos, esta abordagem teórica deu subsídios para a teoria do Constru- tivismo, que tem grande relevância na educação até os dias de hoje e provocou mudanças profundas nas relações no contexto escolar, como também na organi- zação pedagógica. A aprendizagem passou a ser entendida como um processo de construção e não só de retenção de conteúdos. Você pode verificar que o papel do educador, nesta teoria, tem grande importância no processo de construção do co- nhecimento. Cabe a ele promover desafios que provoquem desequilíbrios e levem o aluno a buscar a resolução da situação problema, voltando ao equilíbrio inicial. Os estudos de Piaget são de grande relevância para a psicologia e também para a educação. Seguindo a sua perspectiva teórica, vários outros autores foram aprimo- rando e avançando no entendimento do processo de aquisição do conhecimento. Encerramos esta unidade com a expectativa de ter despertado em você, alu- no(a), o interesse de buscar conhecer ainda mais sobre esta abordagem teórica. 96 AGORA É COM VOCÊ 1. Quando explica a teoria do desenvolvimento, Piaget enfatiza que existem alguns fato- res que são essenciais em todos os estágios, são eles: a maturação, a experiência, a transmissão social e o processo de equilibração. Nesse sentido, analise as alternativas e assinale a que apresenta características que correspondem ao fator experiência. a) O biológico, principalmente a herança genética e a hereditariedade podem in- fluenciar o desenvolvimento. b) Este fator é essencial porque regula a aquisição do conhecimento, sendo carac- terístico em todas as etapas do desenvolvimento. c) A criança, em todos os estágios de desenvolvimento, estabelece relações e cons- trói regras e ideias visando a compreensão de como acontecem os fenômenos. d) Acontece por meio da interação com outras pessoas durante o processo de desenvolvimento que possibilita a apreensão de conhecimentos e informações. e) A inteligência está vinculada ao estado de reversibilidade progressiva, por meio do processo de equilibração constante. 2. Como vimos, a teoria de Piaget foi apropriada pela educação devido à necessidade de encontrar respostas para as dificuldades apresentadas pelas crianças em seu de- senvolvimento e em sua aprendizagem; a partir disso, a utilização do Construtivismo de Piaget se constituiu numa possibilidade de solucionar problemas na Educação. Considerando o Construtivismo de Piaget, analise as afirmativas e considere V para verdadeiro e F para falso. I - Esta teoria compreende que os erros acontecem devido a assimilações incorre- tas ou incompletas do conteúdo, sendo que estes são essenciais e proveitosos para a elaboração. II - Para o Construtivismo, as instituições escolares têm um papel fundamental na aprendizagem da criança à vista que esta aprende de maneira passiva, em que sua ação sobre a realidade não é relevante. III - A avaliação, nesta teoria, apresenta mudanças importantes, tendo maior relevância no processo, assumindo um novo jeito de avaliar que se difere do convencional. As afirmativas I, II e III são, respectivamente: a) V, V, F. b) F, F, V. c) V, F, V. d) F, F, F. e) V, V, V. 97 AGORA É COM VOCÊ 3. Para Piaget, o processo evolutivo humano acontece a partir de uma base biológica que poderá ser ativada por meio de interações e ações do sujeito com o meio em que está inserido. Sendo assim, explique porque o autor compreende a inteligência como função e estrutura. 4. Visando uma melhor compreensão do processo de desenvolvimento, Piaget esta- beleceu quatro estágios de desenvolvimento. Estes, por sua vez, foram organizados por meio de pesquisa empírica. Diante desse contexto, assinale a alternativa que apresenta características do estágio operatório-concreto. a) Este estágio acontece antes da criança adquirir a linguagem, sendo característico o início das regulações afetivas e das fixações exteriores da afetividade. b) Este estágio estabelece a compreensão das operações intelectuais abstratas, acontece o ápice da formação da personalidade e uma maior inclusão social e afetiva. c) Neste estágio, verificamos os primeiros hábitos motores, a criança apresenta as primeiras percepções organizadas e sentimentos singulares. d) Neste estágio, a criança apresenta uma inteligência intuitiva, sendo característicos sentimentos interindividuais espontâneos, no entanto, suas relações sociais ainda são submissas ao adulto. e) Neste estágio, pode ser percebido o início da lógica, dos sentimentos relacionados à moral e ao social no sentido de cooperação. 5. A equilibração é um termo de grande relevância na teoria de Piaget, o autor o utiliza para explicar o processo de autorregulação do sujeito, no qual acontece de maneira dinâmica e contínua, sendo essencial para a interação com o meio. Diante disso, explique no que consiste o processo de equilibração. 98 CONFIRA SUAS RESPOSTAS 1. C. É correta, porque a alternativa A fala sobre a maturação, a alternativa B evidencia a equilibração, a alternativa D explica a transmissão social e a alternativa E expõe sobre a inteligência. 2. C. Está correta, pois a afirmativa I e III são verdadeiras e a II é falsa, visto que, para o Construtivismo, a criança não aprende de modo passivo, mas por meio da diversidade e da riqueza de oportunidades de interação que lhe são oferecidas em seu cotidiano e principalmente pela escola. 3. A inteligência é compreendida como função devido estar o tempo todo buscando adaptar-se ao ambiente, visando a sobrevivência do sujeito e, ainda, modificando o ambiente para adequar-se às suas necessidades. E a inteligência é entendida como estrutura devido à sua organização de processos. 4. E. Está correta, porque as demais alternativas se referem aos outros estágios de desenvolvimento segundo Piaget. 5. A equilibração acontece cada vez que o sujeito se depara com algo que seja desco- nhecido, que provoca um conflito, causando um desequilíbrio. Diante disso, o sujeito busca entrar em contato com o desconhecido; para isso, ele precisa acomodar-se a ele e, para que possa lidar com ele, é preciso modificar-se, procurando estabelecer o equilíbrio novamente. Este processo ocorre por meio da assimilação e acomodação. MEU ESPAÇO MEU ESPAÇO 4Abordagem Histórico-Cultural Me. Raquel de Araújo Bomfim Garcia Olá, aluno(a)! Na quarta unidade, contemplaremos os princípios es- senciais da Abordagem Histórico-Cultural, que se apresenta como uma das principais referências teóricas da Psicologia da Educação na atualidade, cujo grande mentor é Lev Semyonovich Vygotsky. Ini- ciamos nossos estudos com a contextualização histórica que serviu de base para o desenvolvimento dessa teoria e, a partir disso, pro- pomos o entendimento sobre temas que afundamentam, como a compreensão sobre a organização das funções psicológicas supe- riores, a importância da mediação e da cultura no desenvolvimento do sujeito e a relação deste com a aprendizagem. Destacamos que essa abordagem teórica serviu como base para o desenvolvimento da Pedagogia Histórico-Crítica. UNIDADE 1 102 Contarei para vocês uma das vivências que tive em meu trabalho com crianças com deficiência física neuromotora e que muito me intrigava. É a história de um aluno que, em seu nascimento, foi diagnosticado com anencefalia, ou seja, essa criança nasceu com ausência de parte do cérebro. O prognóstico médico foi de que ele sobreviveria por, no máximo, quatro meses. No entanto, essa criança foi crescendo e, mesmo com limitações motoras e na linguagem, desenvolveu uma maneira de se comunicar por meio do olhar e de suas expressões faciais. Com isso, estabelecia uma boa relação com o meio, fazendo-se ser compreendido. Como isso é possível? De que modo ele conseguiu se desenvolver? A resposta para essas e outras perguntas sobre o desenvolvimento do sujeito e de suas funções psico- lógicas superiores são apresentadas pela Teoria Histórico-Cultural. Vygotsky, o principal mentor dessa teoria, explica que onde os caminhos dire- tos estão obstruídos, impedidos, abre-se um leque de possibilidades de caminhos indiretos. Esses, por sua vez, se fazem por meio do social, na relação com o outro, utilizando-se de instrumentos e signos que foram desenvolvidos pela humanida- de em sua história. A Teoria Histórico-Cultural traz uma visão diferenciada do desenvolvimento, na qual o social é determinante nesse processo. Para compreender melhor essa situação, experienciaremos. Imagine que você recebeu uma carta do seu banco dizendo que, para que uma transação seja efetua- da, você precisa realizar o beneplácito. E aí, você faz o beneplácito? Garanto que você já entrou na internet e recorreu ao dicionário para descobrir o que é bene- plácito, não é mesmo? Para a Abordagem Histórico-Cultural, a aprendizagem e, consequentemente, o desenvolvimento acontecem com o auxílio de instrumentos e signos produzidos ao longo da história. A internet, hoje, é um instrumento que possibilita o acesso ao conhecimento, mas, com certeza, para que você recorresse a esse recurso, houve, anteriormente, a mediação de outro mais experiente que mostrou o caminho. Assim, a Abordagem Histórico-Cultural traz um novo olhar para o desenvolvi- mento e a aprendizagem, provocando você a pensar sobre a construção do conhe- cimento numa perspectiva social, na qual o homem se constitui por meio de suas relações, tanto com a natureza quanto com outros homens. E destacando a impor- tância do profissional da educação no processo de mediação do conhecimento. UNICESUMAR 103 Ao adentrar no entendimento dessa abordagem teórica, é importante que você compreenda que ela foi elaborada por meio de pesquisas que tinham como fundamento teórico o Materialismo Dialético e uma concepção materialista do contexto histórico. Este paradigma delibera sobre o entendimento de que a rea- lidade, em sua essência, é material e dialética. O que, porém, isso significa? Quer dizer que tanto a natureza quanto os seres vivos estão em constante processo de mudança, em movimento e, consequentemente, em contínua transformação (ELHAMMOUMI, 2016). Para compreender melhor sobre essa teoria, é preciso mergulhar nos estudos de seu maior idealizador: Lev Semyonovich Vygotsky. De acordo com Bortolanza e Ringel (2016), Vygotsky se preocupou com questões políticas do seu tempo e, também, dedicou-se, de maneira profunda, a estudos para desenvolver uma Psicologia que considerasse a formação de um homem novo, em uma nova so- ciedade, com uma nova educação. Foi neste contexto que se estruturou a Teoria Histórico-Cultural, que destaca a importância do contexto histórico-cultural na formação do ser humano enquanto ser social. Segundo os autores, a Escola de Vygotsky era constituída pelo Troika — Leontiev, Luria e Vygotsky, que, juntos, desenvolveram várias pesquisas que estruturaram a Teoria Histórico-Cultural. DIÁRIO DE BORDO No decorrer deste estudo, você observará que o nome de Vygotsky poderá apresentar di- ferentes grafias, escrevemos conforme a literatura e as traduções. Esclareço que a grafia será mantida de acordo com a referência bibliográfica da obra original. EXPLORANDO IDEIAS UNIDADE 1 104 Descrição da Imagem: a figura 1 apresenta uma fotografia de Lev Semyonovich Vygotsky, homem branco, com cabelos curtos e escuros, olhos castanhos. Está vestindo uma camisa branca, com gravata e terno escuro. Figura 1 - Vygotsky (1896-1934) / Fonte: Wikipedia ([2021], on-line). A essência do pensamento de Vygotsky consiste no entendimento de que o sujeito é um ser social, e isso permeia toda a sua teoria. Essa abordagem teórica trouxe relevantes questionamentos e reflexões a respeito da constituição do ser humano. Evidenciando o entendimento da atividade humana e as funções psicológicas su- periores, como, também, a personalidade e a consciência como produtos sociais cujo desenvolvimento resulta de processos sociais (ELHAMMOUMI, 2016). Essa teoria tem grande relevância na Psicologia e trouxe entendimentos importantes sobre o desenvolvimento e a aprendizagem do sujeito, sendo que o conhecimento dela se torna fundamental em sua formação enquanto profissional da educação. No entanto, para melhor compreensão sobre a origem dessa abordagem teóri- ca, é necessário conhecer a trajetória de seu maior precursor: Lev Semenovich Vygotsky. Foi na pequena cidade provinciana de Orsha (Bielorrússia), em 17 de novembro de 1896, que Vygotsky nasceu e, antes de um ano de idade, mudou-se para Gomel (REGO, 1995; VYGODSKAYA, 1995). Sua família tinha origem UNICESUMAR 105 judaica, e o autor teve uma educação que valorizava a cultura, o que favoreceu sua formação intelectual (BORTOLANZA; RINGEL, 2016). Vygotsky apresentou uma carreira acadêmica exemplar, desde a escola até a universidade, onde iniciou seus estudos no curso de Medicina, mas logo trans- feriu para Direito; interessou-se por outras áreas, como a Psicologia, Filosofia, Literatura e Artes, que subsidiaram sua vida profissional e, também, sua produ- ção científica (BORTOLANZA; RINGEL, 2016). Conforme Longarezi e Puentes (2013), Vygotsky retornou a Gomel em plena Revolução Russa de 1917, onde foi trabalhar em escolas como professor de Literatura russa e, também, em cursos técnicos de Pedagogia, onde lecionava sobre Psicologia Infantil, Geral e Pedagógi- ca; assim como se dedicava a atividades culturais. Foi nesse contexto de trabalho que o autor entrou em contato com uma realidade específica — a deficiência —, o que despertou seu interesse sobre o assunto (BORTOLANZA; RINGEL, 2016). De acordo com Bridi (2017), essa vivência serviu como estímulo para que buscasse novas possibilidades que auxiliassem essas crianças em seu desenvol- vimento. Assim, partindo de 1924, verificamos sua maior produção científica; seus trabalhos, nesta época, já estavam vinculados ao Instituto de Psicologia de Moscou. Embasado pelo método dialético, realizou pesquisas relativas às mudan- ças qualitativas que acontecem no comportamento humano no transcorrer do seu desenvolvimento, como também sobre as relações tanto com o meio social quanto cultural em que o sujeito se encontra. Em vista disso, podemos verificar que suas pesquisas e estudos tiveram ori- gem na ação revolucionária do autor, que buscava elaborar algo que fosse novo, uma ciência verdadeiramente humana, um método que pudesse atender às de- mandas daquele momento histórico. O contexto histórico no qual o autor estava inserido, ou seja, a mudança do Czarismo para o Comunismo, como também o cenário internacional — a Primeira Guerra Mundial — influenciaram-no pes- soalmente e profissionalmente (BORTOLANZA; RINGEL, 2016). Foi no período Pós-Revolução Russa, entre 1920 e 1930, que se iniciam as pesquisas conjuntas de Vygotsky,Lúria, Leontiev e outros intelectuais da Rússia, que tinham como objetivo realizar uma conexão entre o regime que se instau- rou naquele momento e a produção científica crescente. Esses jovens cientistas buscavam uma Psicologia que atendesse aos ideais revolucionários e, para isso, era necessário que ela buscasse auxiliar nos problemas enfrentados pela União Soviética, tanto sociais quanto econômicos (PALANGANA, 1998). UNIDADE 1 106 As necessidades do governo soviético, a princípio, foram de encontro com os objetivos de Vygotsky, pois eles queriam um trabalho teórico que fosse aplicável ao contexto social. Isso possibilitou ao autor explorar diferentes caminhos teó- ricos, que constituíram, posteriormente, uma metodologia de pesquisa própria. Diante disso, verificamos a relevância da multidisciplinaridade em sua teoria e prática (BORTOLANZA; RINGEL, 2016). Ou seja: “ Problemas sociais forçam ou exigem diferentes disciplinas científi- cas se relacionando entre si para que se integrem na busca de uma solução prática. A multidisciplinaridade de um problema prático conduz Vygotsky a enfrentar-se com a complexidade. A solução de um problema social prático requer a integração de diferentes disciplinas científicas, o que transforma os próprios especialistas, pelo trabalho interdisciplinar, em práticos, tanto em seu próprio fazer científico – porque abordagens interdisciplinares não estão disponíveis a priori, quanto em seu deslocamento para além dos limites da academia para se reencontrar com a vida social (GE- RALDI, 2006, p. 13). Essa vivência interdisciplinar possibilitou a Vygotsky rever princípios estabe- lecidos pela Psicologia até aquele momento, entendendo que não era possível controlar a influência do contexto no experimento, pois as variantes não tinham como ser controladas como em um experimento num laboratório. Assim, o autor e os seus colaboradores viram a necessidade de reestruturar as bases da Psicologia enquanto ciência, aplicando ideias marxistas com o intuito de construir uma educação voltada para o homem novo (LONGAREZI; PUENTES, 2013). De acordo com Tunes e Prestes (2009), no início dos anos de 1930, a Rússia vivenciou uma época marcada ideologicamente, na qual a ciência, a educação e a cultura deveriam ajustar-se às ideias do regime. Dessa forma, tudo o que era produzido cientificamente sujeitava-se às críticas e repressões de um Comitê Central do Partido Comunista da Rússia. No entanto, segundo Geraldi (2006), as ideias socialistas do país eram direcionadas para a formação de um novo homem: Homo Sovieticus, que era empregado do Estado; essas ideias, por sua vez, não condiziam com as ideias de Vygotsky, que visava a um novo homem, entendendo este como único. UNICESUMAR 107 Este anseio dos pesquisadores da Troika acabou criando problemas com a censura na URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, da qual a Rús- sia fazia parte. Nesse contexto, as obras de Vygotsky não foram divulgadas em grande escala em seu país (BORTOLANZA; RINGEL, 2016). Iarochevski (1997 apud PRESTES, 2014) destaca que as obras de Vigotski foram proibidas, apro- ximadamente, de 1936 a 1956, e o motivo principal da censura por vinte anos se relacionava a seus estudos sobre a Pedologia. No entanto, segundo Prestes (2014), havia outros motivos que não foram evidenciados na época. “[...] a tradução literal para pedologia seria ciência sobre a criança. Mas a tradução literal de denominação de uma ciência, como sempre, não expressa, de forma suficientemente precisa, o que a ciência estuda neste objeto [...]. A pedologia é a ciência sobre o desenvol- vimento da criança”. Fonte: Vygotsky (2001, p. 10-11 apud PRESTES, 2014, p. 8). EXPLORANDO IDEIAS Vigotski faleceu na madrugada do dia 11 de junho de 1934, com 37 anos, de uma doença comum na sua época, a tuberculose. O autor lutou contra essa doença, para a qual, naquele momento, não havia nenhum tratamento ou prevenção. Alguns contemporâneos relatam que sua maior produção intelectual aconteceu em momentos de crise da doença. A consciência de sua morte o incentivou a escrever, pois tinha pressa e temia a probabilidade de não conseguir registrar os estudos desenvolvidos por ele (PRESTES, 2014). Em sua biografia, escrita por Guita Vigodskaia e Tamara Lifanova, foi feito o levantamento de 274 títulos escritos pelo autor, entre livros, artigos e textos, publicados ou guardados em arquivo familiar (KRAVTSOVA, 2012 apud PRESTES, 2014). Segundo Bridi (2017), as obras de Vygotsky só foram conhecidas no Ocidente a partir de 1962, por meio da publicação americana de seu livro Pensamento e Linguagem. Já no Brasil, a primeira publicação foi do livro A Formação Social da Mente, em 1984, sendo considerado uma referência entre os psicólogos con- temporâneos. Sua obra ressoa não só na Psicologia, mas também na Educação de maneira significativa até os dias atuais. UNIDADE 1 108 Esta abordagem teórica, mesmo sendo relativamente nova no Brasil, apresentou grande aceitação nas instituições de ensino e de pesquisas educacionais (não só no Brasil, mas também em outros países) por defender “uma visão de desenvolvi- mento baseado na concepção de um ser humano ativo, cujo pensamento é cons- truído gradativamente em um ambiente que é histórico e, em essência, social” (GAMEZ, 2013, p. 82). Diante disso, proponho a você entender esta nova ma- neira de compreender o ser humano, seu desenvolvimento e sua aprendizagem. EU INDICO Neste livro, Marta Kohl Oliveira, uma das mais importantes estudio- sas sobre a teoria de Lev Vygotsky, apresenta uma síntese das ideias deste autor, localizando-o no contexto histórico em que produziu os conceitos de sua obra. Ao enfatizar a importância dada por Vygotsky à cultura e à linguagem na constituição do ser humano, ela explora as relações entre o desenvolvimento e aprendizado, pensamento e linguagem e aspectos biológicos e culturais do funcionamento psicológico. É um livro de grande relevância para quem quer ter um conhecimento mais aprofundado sobre a obra desse autor. Fonte: Pixabay UNICESUMAR 109 A compreensão dos processos intelectuais, nesta abordagem teórica, perpassa por alguns pontos essenciais, que, segundo Oliveira (2002), constituem-se no entendimento de que as funções psicológicas estão apoiadas no biológico por serem resultado de uma atividade mental. Outro ponto é que o funcionamento psicológico tem sua base nas relações sociais que o sujeito estabelece com o meio externo, desenvolvendo-se num contexto e processo histórico. A autora destaca ainda que a relação que se estabelece entre o sujeito e o meio será sempre mediada por meio de sistemas simbólicos. Ao falar sobre a mediação de sistemas simbólicos, Vygotsky explica que ela se dá por meio de instrumentos que podem ter características físicas, como ferra- mentas que viabilizam a modificação do ambiente, ou ter características psicoló- gicas, que podem ser chamadas de signos ou sistemas de signos, a exemplo disso, temos a linguagem, sistemas numéricos, entre outros sistemas convencionais. Compreendendo, a partir disso, que, para o autor, “[...] a relação do ser humano com o meio sempre é uma relação ativa e transformadora. Tal relação é possível graças ao uso de instrumentos intermediários, pelas quais, nas palavras do autor, a atividade humana define-se essencialmente como uma atividade instrumental” (MESTRES; GOÑI, 2014, p. 100). Para Vigotski (2007), o desenvolvimento ocorre como consequência não só da utilização de instrumentos pelo sujeito, mas, especialmente, por eles trazerem consi- go a cultura material, os conhecimentos que foram elaborados historicamente, pos- sibilitando a internalização de operações mentais e físicas para que possam utilizar aquele instrumento, como também adaptá-lo de forma que possa ser utilizado em outras circunstâncias. Portanto, podemos entender que os instrumentos psicológi- cos “[...] são ferramentas que auxiliam nos processos psicológicos e nãonas ações concretas, como acontece com as ferramentas materiais” (VIGOTSKI, 2007, p. 30). Ao falar sobre os instrumentos e signos que são produzidos pelo homem na relação estabelecida com os objetos reais, Vygotsky (1995) ressalta a linguagem como o sistema de signos equipado de sentido e significado. Explica que o desen- volvimento dela acontece no contexto familiar, espaço de interação com outros, que se amplia para outros contextos, como a comunidade, a escola, os amigos, o trabalho, entre outros. Dessa forma, a convivência social possibilita que a lin- guagem seja um instrumento de comunicação, podendo mediar a internalização tanto de conhecimentos quanto de conceitos científicos que organizam o mundo e, concomitantemente, o desenvolvimento do sujeito. UNIDADE 1 110 Podemos verificar, nos estudos de Vigotski (2003) sobre o pensamento e a linguagem, uma ruptura na visão fragmentada desse fenômeno. Para isso, o autor sugere que a relação entre o pensamento e a linguagem seja compreendida como um fenômeno dialético, que acontece de maneira quantitativa e qualitativa no de- correr do desenvolvimento do sujeito. Esclarece que o pensamento e a linguagem apresentam origens genéticas diferentes e que, diante disso, a evolução da fala não acontece paralelamente à evolução do pensamento. Explica que “as curvas de crescimento de ambos cruzam-se muitas vezes; podem atingir o mesmo ponto e correr lado a lado, e até mesmo fundir-se por algum tempo, mas acabam se se- parando novamente” (VIGOTSKI, 2003, p. 41). Dessa forma, o desenvolvimento dessas duas funções acontecerá por meio de trajetórias independentes e diferen- tes, mas ressalta que, no início desse processo evolutivo, acontece uma conexão entre o pensamento e a fala, que, com o tempo, modifica-se e desenvolve-se. No processo de desenvolvimento da linguagem e do pensamento, Vigotski (2003) diferencia dois momentos, os quais denominou de fase pré-linguística do desenvolvimento do pensamento e fase pré-intelectual no desenvolvimen- to da fala. Destaca, ainda, um terceiro momento, que nomeou de linguagem simbólica ou pensamento verbal, em que ocorre um entrelaçamento entre o pensamento e a linguagem. Ficou curioso para saber como acontece o desenvol- vimento do pensamento e da linguagem em cada um desses momentos descritos por Vygotsky? Então, dê o play e aprofunde o seu conhecimento sobre esse tema. É importante destacar que, quando a linguagem faz a mediação da cultura, ela proporciona a passagem do homem biológico ao ser social, fazendo com que substitua suas funções inatas e possibilitando o uso de técnicas e instrumentos culturais, que transpõem os limites da natureza. https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/6075 UNICESUMAR 111 Avançando no entendimento da origem e do desenvolvimento dos fenômenos psicológicos, Mestres e Goñi (2014) acrescentam que, para Vigotski, esses fenô- menos devem ir além do domínio ontogênico, estando pautado em outros cam- pos genéticos, a exemplo disso, tem-se a filogênese (evolução da espécie), como, também, a microgênese e a evolução sociocultural. Vigotski também ressalta que as primícias dos processos psicológicos superiores emergem das relações sociais e “ [...] sob forma de processos interpsicológicos ou intermentais (regu- lados e controlados mediante a interação social com outras pessoas) e que, até um momento posterior em que se transformam em pro- cessos individuais, não podem ser efetuados no plano intrapsico- lógico ou intramental (regulados e controlados a partir do interior do indivíduo) (MESTRES; GOÑI, 2014, p. 100). Assim, por meio da interação, convivência e trocas efetuadas entre os sujeitos e entre estes e os objetos, as capacidades são compartilhadas, podendo existir tan- to no plano interindividual quanto no intraindividual, fazendo parte de ambas (MESTRES; GOÑI, 2014,) Podemos perceber, até o momento, que o processo de formação da inteligên- cia para Vygotsky tem sua essência nas relações socioculturais do sujeito. Isto posto, o autor centralizou sua investigação em processos sociocognitivos, fazendo a distinção de dois modos de funcionamento intelectual, ou seja, os processos mentais elementares e os superiores (GAMEZ, 2013), também chamados de funções psicológicas elementares e superiores. EU INDICO O filme Nell permite que você reflita sobre o quanto a linguagem se constitui em um sistema de signos cujo contexto social possibilita o sentido e o significado. Nell é uma jovem que não teve contato com outras pessoas, vivendo isolada, numa casa na floresta, com a mãe que tinha problemas físicos e de linguagem. Após a morte da mãe, Nell é encontrada por um médico que busca ajudar a inseri-la na sociedade, mas será que é possível? Você pode tirar suas próprias conclusões assistindo a este filme fantástico. UNIDADE 1 112 De acordo com Mestres e Goñi (2014), as funções psicológicas elementares são constituídas pelas sensações, pela memória natural, atenção não consciente, reações emocionais básicas, entre outras. Essas funções podem ser encontradas tanto no ser humano quanto em outras espécies, podendo ser controladas por es- tímulos do meio, não envolvendo uma ação consciente do sujeito. Exemplificando: “ [...] seria o caso das capacidades de atenção do recém-nascido: os bebês que acabam de nascer dão atenção prioritariamente a deter- minados estímulos visuais e auditivos que cumprem determinadas características. Esses estímulos atuam sobre seu equipamento sen- sorial e perceptivo, sempre captando a sua atenção e mantendo-a centrada nele durante um certo tempo, de maneira que o bebê não possa fazer nada para evitá-lo (MESTRES; GOÑI, 2014, p. 102). Diante disso, o emergir dessas funções elementares, para Vigotsky, está relaciona- do à linha natural de desenvolvimento, fundamentada em princípios biológicos, relacionados à maturidade neurofisiológica (MESTRES; GOÑI, 2014), muito diferente do processo das funções psicológicas superiores. No entendimento da Teoria Histórico-Cultural, os processos psicológicos superiores são tipicamente humanos, como atenção ativa e consciente, memó- ria voluntária, pensamento abstrato, afetividade, entre outros. E a característica essencial desses processos consiste no fato de serem mediados por signos, que possibilitam uma execução consciente e autorregulada. Considerando a atenção, podemos exemplificar: “ [...] a partir de um determinado momento no processo de desenvol- vimento, os meninos e as meninas mostram uma atenção que pode “escapar” do controle dos aspectos mais evidentes do ambiente para exercitarem-se de maneira consciente e voluntária: trata-se da ca- pacidade de estar para aquilo que se quer estar e de manter a aten- ção sobre aquilo, especialmente se aquilo a que dá atenção é pouco importante perceptivamente (como quando somos capazes de nos concentrarmos no estudo, mesmo que por volta haja muito ruído e tráfego, ou quando escutamos uma explicação muito monótona e pouco atrativa de um conferencista (MESTRES; GOÑI, 2014, p. 103). UNICESUMAR 113 Assim, para Vigotsky, os processos psicológicos superiores têm uma natureza mediada, e, para que sejam explicados, é necessário que se referenciem as con- dições relativas à experiência social, mais precisamente, a interação com outros com maior competência no que se refere ao uso das habilidades e ferramentas culturais do grupo no qual está inserido. Essas pessoas têm a responsabilidade de fazer a regulação e o controle no uso dos instrumentos como, também, das estratégias de mediação; oferecendo o auxílio sempre que necessário e, em alguns momentos, até complementando o que o sujeito não é capaz de realizar autono- mamente (MESTRES; GOÑI, 2014). Para compreender a organização dos processos psicológicos superiores, é ne- cessário o entendimento de que esses são uma transição da regulação intermental para a regulação intramental, ou seja: “ [...] o que, a princípio, somos capazes de fazer “sob a supervisãoe o controle” de outras pessoas e no âmbito de atividades conjuntas – no plano intermental – é o que depois seremos capazes de efetuar de maneira autônoma, sob o nosso controle – em um plano intra- mental –, ou, dito de outra maneira, o que somos capazes de efe- tuar individualmente em um determinado momento foi produzido anteriormente no plano da interação com os outros (MESTRES; GOÑI, 2014, p. 106). Os autores acrescentam ainda que esse processo de transição ocorre por meio da internalização, que é definida por Vigotsky como um processo de reconstru- ção interna de uma ação que é externa. Esse processo acontece de uma maneira razoavelmente lenta, de forma parcial e gradativa, sendo o sujeito capaz de criar e modificar seu funcionamento intramental por meio da reconstrução tanto das estruturas de mediação quanto dos procedimentos que foram empregados na ação conjunta, ou também chamada de intermental (MESTRES; GOÑI, 2014). Em vista disso, para Vygotsky, o desenvolvimento do ser humano acontece em dois níveis: primeiramente, no nível de desenvolvimento real, que é cons- tituído pelas atividades que o sujeito consegue realizar de maneira independente. Está relacionado a ciclos de desenvolvimento completos, ou seja, funções psico- lógicas construídas pelo sujeito até o momento (ZANELLA, 1994). UNIDADE 1 114 O outro nível de desenvolvimento é denominado de nível de desenvolvimento potencial, que inclui aquelas ações nas quais o sujeito não realiza sozinho mas que, com o auxílio de outra pessoa que lhe oriente de maneira adequada, ele pode resolver. Este outro pode ser um adulto ou alguém com maior experiência. Vygotsky evidencia a importância deste nível de desenvolvimento devido a trazer perspectiva ao desen- volvimento da criança, impulsionando-a para o futuro (ZANELLA, 1994). Vigotski (2007) explica que existe uma distância entre o nível de desenvolvimento real (determinado pela solução de problemas de modo independente) e o nível de desenvolvimento potencial (em que os problemas são solucionados com a orientação de outro mais capaz), a qual ele denominou Zona de Desenvolvimento Proximal. Esta, por sua vez, caracteriza-se pelas funções que não se organizaram ainda, que se encontram em processo de estruturação, que estão em estado rudimentar. “Aplicando testes de inteligência nessas crianças, Vygotsky constatou uma equiparação ao nível do quociente intelectual, ou seja, ambas conseguiam resolver sozinhas os mesmos problemas. Entretanto, ao interagir com essas crianças, ao propor-lhes exercícios mais complexos, além das suas capacidades de resolução independente, este autor constatou que uma das crianças conseguia, com ajuda, resolver problemas que indicavam uma ida- de mental superior à da outra que, sob as mesmas orientações; não conseguia solucionar os problemas que a primeira resolvia. Concluiu, então, que apesar da aparente homogeneidade dessas crianças quanto ao ní- vel de desenvolvimento afetivamente alcançado, elas, na verdade, diferiam sobremaneira quanto às possibilidades futuras de aprendizagem e desenvolvimento. E a diferença entre o que as crianças resolvem independentemente e o que conseguem resolver com a ajuda de um adulto ou colega mais experiente é o que Vygotsky denominou Zona de Desenvol- vimento Proximal”. Fonte: Zanella (1994, p. 99). EXPLORANDO IDEIAS Podemos compreender, então, que a Zona de Desenvolvimento Proximal consiste em uma área dinâmica que possibilita a passagem do funcionamento interpsico- lógico para o intrapsicológico, visto que, para Vygotsky, as funções psicológicas superiores procedem da reedificação interna de uma ação social que foi parti- lhada (WERTSCH, 1984). Ressalta-se que, neste processo, é essencial a ajuda de outro, seja um adulto ou outra criança mais experiente. UNICESUMAR 115 Diante disso, você já deve ter percebido o quanto a mediação tem um papel fundamental no processo de formação das funções psicológicas superiores, au- xiliando o sujeito no seu processo de formação enquanto ser humano. Então, como essa teoria compreende a mediação? De acordo com Oliveira (2002, p. 26), Vygotsky compreendia que “[...] a mediação em termos genéricos é o processo de intervenção de um elemento intermediário numa relação; a relação deixa, então, de ser direta e passa a ser mediada por esse elemento”. De acordo com a autora, a mediação, que ocorre por meio de instrumentos e signos, não só auxilia o processo de desenvolvimento das funções psicológicas superiores, mas também é fundamental para viabilizar as atividades psicológicas voluntárias, cheias de intencionalidade, que podem ser dominadas pelo sujeito. Para Vygotsky, a mente humana estrutura seus conceitos por meio da me- diação de signos, destacando que linguagem é o modo ou meio primordial para que os seres humanos consigam elaborar conceitos e aprender, considerando que isso acontece, constantemente, em um contexto de interação social. A função semiótica tem grande relevância no processo de estruturação mental do sujeito, ou seja, na construção de seu conhecimento (MARTINS; MOSER, 2012). UNIDADE 1 116 Podemos considerar que a essência da teoria de Vygotsky está centrada na mediação, pois o elemento intermediário (o outro, sujeito mais experiente) in- terfere na relação que se estabelece entre a criança e o meio. Esta mediação, reali- zada por outro que tem maior experiência, possibilita uma ação do sujeito sobre o objeto de modo mais significativo, podendo transformar, dominar e realizar a internalização de conceitos, funções sociais e papéis do seu contexto. Dessa maneira, podemos entender que a mediação é um processo que possibilita a aprendizagem (OLIVEIRA, 2002), sendo essencial na Zona de Desenvolvimen- to Proximal por ser determinante na aprendizagem do sujeito, tendo um papel significativo neste domínio psicológico do desenvolvimento. Palangana, Galuch e Sforni (2002) ressaltam que a formação das capacidades mentais, afetivas, psicomotoras, entre outras, antes de se desenvolverem indivi- dualmente, estão disponíveis na sociedade, mais especificamente, na cultura. E é por meio das trocas, da convivência, da interação entre os sujeitos e dos sujeitos com os objetos que essas capacidades passam a existir não só no plano interindi- vidual, como também no intraindividual, próprio de cada sujeito. Isso acontece por meio da aprendizagem, que consiste não só num processo de apropriação, mas também de transformação do conhecimento que foi elaborado socialmente; enfatizando que esse processo não é inerente ao sujeito, mas que se estrutura numa relação que é mediada tanto pelo outro como pela cultura. Isso posto, compreendemos que a aquisição do conhecimento acontece por meio da interação com outros, sendo que ela é mediada por instrumentos físicos e, também, por ferramentas simbólicas, que foram desenvolvidas pelo homem com o intuito de serem mediadores em suas ações no meio. Destaca-se que “[...] a mediação é condição necessária para o desenvolvimento cultural do indivíduo’’ (FARIAS; BORTOLANZA, 2013, p. 101). A Teoria Histórico-Cultural vem questionar o modo habitual com que outras teorias psicológicas estruturam os estágios de desenvolvimento, que colocam uma similaridade nas transformações dos sujeitos, focalizando-os de manei- ra isolada. A base dessas teorias, em sua maioria, estão vinculadas a modelos de maturação biológica, comuns a todos da espécie. No entanto, a abordagem Histórico-Cultural compreende que a maturação biológica tem um papel fun- damental no processo de desenvolvimento, mas não consiste na sua totalidade, pois as transformações mais significativas na estruturação do desenvolvimento próprio do ser humano encontram-se mais na Psicologia do que na Biologia, ou UNICESUMAR 117 seja, nas “[...] circunstâncias histórico-culturais e as peculiaridades da história e das experiências de cada sujeito” (OLIVEIRA, 2004, p. 214). Para essa abordagem teórica, o desenvolvimento resulta da interaçãoentre alguns planos genéticos, que você conhecerá no olhar conceitual a seguir (Figura 2). FILOGÊNESE é entendida como aquelas determinações biológicas próprias da espécie humana, que apresenta devida homogeneidade entre os sujeitos que estão em uma certa etapa da vida pessoal. História da espécie. ONTOGÊNESE é compreendida como a história do próprio indivíduo, desde a concepção, suas transformações durante a vida, até a morte. História do sujeito. SOCIOGÊNESE apresenta uma devida homogeneidade entre os sujeitos que convivem na mesma cultura, em um grupo social especí�co, num mesmo tempo histórico. História do grupo Cultural. MICROGÊNESE apresenta elementos idiossincráticos que possibilita que o desenvolvimento psicológico do sujeito seja algo singular, não acontecendo do mesmo jeito em pessoas diferentes. História da formação de cada processo psicológico especí�co em curto prazo, bem como das experiências vividas pelo indivíduo. Visão da teoria histórico cultural de desenvolvimento Dessa maneira, ao pensar em estágios de desenvolvimento dentro dessa perspectiva, devemos compreender que eles ocorrem de maneira peculiar para cada sujeito (OLI- VEIRA, 2004). O desenvolvimento ocorre no transcorrer da vida do sujeito, sendo produto da interação que ocorre entre os quatro planos (SCHERER, 2010). Observação: apesar de Vigotski, em vários momentos de sua obra, mencionar esses aspectos como singulares ao sujeito, a utilização desses termos foi proposta por Wertsch (SILVA, 2008; WERTSCH, 1985). Descrição da Imagem: a Figura 2 apresenta a visão da Teoria-Histórico Cultural de Desenvolvimento em quatro etapas. A Filogênese é entendida como aquelas determinações biológicas próprias da espécie humana, que apresentam devida homogeneidade entre os sujeitos que estão em uma certa etapa da vida pessoal. História da espécie. A Ontogênese é compreendida como a história do próprio indivíduo, desde a concepção, suas transformações durante a vida, até a morte. História do sujeito. A Sociogênese apresenta uma devida homogeneidade entre os sujeitos que convivem na mesma cultura, em um grupo social específico, num mesmo tempo histórico. História do grupo cultural. E a Microgênese apresenta elementos idiossincráticos que possibilitam que o desenvolvimento psicológico do sujeito seja algo sin- gular, não acontecendo do mesmo jeito em pessoas diferentes. História da formação de cada processo psicológico específico em curto prazo, bem como das experiências vividas pelo indivíduo. Figura 2 - Visão da Teoria Histórico-Cultural de Desenvolvimento UNIDADE 1 118 Vygotsky (1996) explica que o desenvolvimento psicológico caracteriza-se por uma alternância entre períodos parcialmente estáveis e longos, com períodos curtos de crise. Nos períodos considerados estáveis, o desenvolvimento acontece por meio de pequenas mudanças da personalidade que são acumuladas até che- gar em um determinado limite, que se manifesta, depois, como uma formação instantânea, qualitativamente nova. Já nos períodos considerados críticos, as mudanças bruscas e importantes na personalidade acontecem em um tempo re- duzido, exigindo uma reestruturação tanto das necessidades quanto dos motivos da criança, bem como de sua relação com o ambiente. Conforme Oliveira (2004), é importante que fique claro que essa aborda- gem teórica não quer eliminar a questão das etapas do desenvolvimento, mas enfatiza que é fundamental compreendê-la de maneira histórica. A autora sugere o entendimento do fenômeno do desenvolvimento como ciclos da vida, pois essa visão permite a compreensão do desenvolvimento como um trajeto contextualizado historicamente, diferente da ideia de transição natural (abs- trata) da vida do sujeito. UNICESUMAR 119 Tendo o conhecimento de como essa abordagem teórica compreende o de- senvolvimento, partimos, então, para o entendimento da aprendizagem. Vieira (2012 apud GAMEZ, 2013) ressalta que devemos assimilar que o processo de conhecimento acontece por meio da interação. Para o autor, esse movimento interativo depende da relação entre sujeito-sujeito-objeto, ou seja, é por meio do outro que o sujeito instaura suas relações com os objetos de conhecimento. Assim, para entender a constituição do sujeito, considerando seus conhecimentos e maneiras de agir, é essencial refletir sobre a sua relação com os outros. Essa abordagem teórica remete à valorização de aspectos sociais e culturais como essenciais para que o sujeito aproprie e construa o seu conhecimento; acon- tecendo por meio das relações que estabelece em sua trajetória de vida. Estas interações sociais são imprescindíveis tanto para o grupo cultural, pois permite desenvolver novas maneiras de atividades, quanto para o sujeito, possibilitando a internalização de elementos culturais, construindo um plano intrapsicológico partindo do meio externo (OLIVEIRA, 1993 apud GAMEZ, 2013). “[...] o aprendizado humano pressupõe uma natureza social específica e um processo através do qual as crianças penetram na vida intelectual daqueles que a cercam”. (Lev Semionovitch Vigotski) PENSANDO JUNTOS Assim, a proposta de Vigotski (2007) é que o aprendizado possibilite a criação da Zona de Desenvolvimento Proximal, isso significa que a aprendizagem pro- move diversos processos internos de desenvolvimento, que são ativados quando o sujeito entra em interação com outros do seu meio, havendo cooperação com eles. Quando esses processos são internalizados, passam a fazer parte do desen- volvimento independente do sujeito. “ Desse ponto de vista, aprendizado não é desenvolvimento; entre- tanto, o aprendizado adequadamente organizado resulta em desen- volvimento mental e põe em movimento vários processos de desen- volvimento que, de outra forma, seriam impossíveis de acontecer. Assim, o aprendizado é um aspecto necessário e universal do pro- UNIDADE 1 120 cesso de desenvolvimento das funções psicológicas culturalmente organizadas e especificamente humanas (VIGOTSKI, 2007, p. 103). Podemos, então, compreender que os processos de desenvolvimento não condi- zem com os de aprendizagem, ou seja, o desenvolvimento acontece de maneira mais lenta e por meio do aprendizado. Assim, o aprendizado sempre está rela- cionado ao desenvolvimento, mas não acontece na mesma medida ou de modo paralelo a ele (VIGOTSKI, 2007). EU INDICO A formação social da mente. Este livro possibilita a você um apro- fundamento na teoria de base da Abordagem Histórico-Cultural, como também apresenta suas principais implicações na educação. Foi editado por um grupo de eminentes estudiosos desta teoria, que o organizaram a partir de uma seleção minuciosa dos ensaios mais importantes de Vigotski. Neste contexto, o profissional da educação tem uma papel fundamental, pois deverá prover ao sujeito os recursos que sejam necessários para que possa se apro- priar dos conhecimentos científicos, como também promover o desenvolvimento de suas capacidades tanto cognitivas quanto operativas (LIBÂNEO, 2004). Farias e Bortolanza (2013, p. 96) acrescentam que é no contexto escolar que o educador possibilita a aprendizagem, pois “[...] ao se colocar como mediador dos conhe- cimentos e conceitos científicos viabiliza a apropriação e a objetivação por parte de seus educandos desses conhecimentos e conceitos científicos, fundamentais para o desenvolvimento das funções psíquicas superiores”. Essa afirmação, segundo os estudos de Vygotsky, ressalta implicações impor- tantes no que se refere ao ensino, pois destaca a dependência do desenvolvimento psicológico do sujeito relacionado aos processos educativos. Partindo do pressu- posto de que as funções psicológicas superiores se originam na cultura e não no biológico, evidencia-se a necessidade de que o ensino não tenha suas bases funda- mentadas numa expectativa de maturação natural dessas funções, como também não deve considerar essa maturação como condição para a aprendizagem, mas, UNICESUMAR 121 sim, deve serresponsável pela promoção do desenvolvimento. O educador deve planejar o seu trabalho considerando que é um mediador da cultura socialmente reconhecida, estando entre o sujeito e o conhecimento escolar, tendo como tarefa guiar o primeiro a se apoderar do segundo (CORRÊA, 2017). Ao explicar o processo de educação, Leontiev (1978) esclarece que, para que o sujeito se aproprie do que foi desenvolvido historicamente das aptidões humanas, é fundamental que o sujeito, o ser humano entre em relação com fenômenos do seu contexto circundante por meio de outros homens, por meio da comunicação. Só assim ocorrerá a aprendizagem. “ Quanto mais progride a humanidade, mais rica é a prática sócio-his- tórica acumulada por ela, mais cresce o papel específico da educação e mais complexa é sua tarefa. Razão por que toda a etapa nova de desenvolvimento da humanidade, bem como no dos diferentes po- vos, apela forçosamente para uma nova etapa no desenvolvimento da educação (LEONTIEV, 1978, p. 273). Diante disso, amplifica-se e se aprimora a educação por meio de novos estabe- lecimentos escolares, o ensino se torna mais especializado, ocorre o enriqueci- mento dos programas de ensino e o aperfeiçoamento dos métodos e técnicas pedagógicas, havendo o desenvolvimento da ciência de ensinar. A relação que ocorre entre o progresso histórico e o da educação é bastante próxima, podendo “[...] sem risco de errar julgar o nível geral de desenvolvimento histórico da so- ciedade pelo nível de desenvolvimento do seu sistema educativo e inversamente” (LEONTIEV, 1978, p. 273). Assim, ensinar e aprender são capacidades típicas e fundamentais do ser hu- mano. A educação é responsável por promover o desenvolvimento das potencia- lidades do sujeito, como também de se construir enquanto expressão histórica e, também, de crescimento da cultura do homem (MOLL, 1996). Vygotsky (1991) ressalta que o bom ensino consiste naquele que se antecipa ao desenvolvimento: “o ensino seria totalmente desnecessário se pudesse utilizar apenas o que já está maduro no desenvolvimento, se ele mesmo não fosse fonte de desenvolvimento e surgimento do novo” (VIGOTSKI, 2001, p. 334). UNIDADE 1 122 Duarte (2013, p. 19) destaca que “ as relações entre psicologia e educação estão no próprio núcleo teórico e prático da psicologia histórico-cultural”. Essa teoria psicológica tem sido a base da prática pedagógica de muitos profissionais de educação, mas o autor alerta para alguns aspectos que devem ser considerados, ou seja, que essa abordagem oferece fundamentação à educação escolar. Contu- do, para que possa colaborar com o trabalho educativo, torna-se essencial que seja inserido em uma teoria pedagógica. Isso significa que, entre essa abordagem teórica e uma prática educativa, é fundamental a mediação de uma teoria que seja pedagógica. Dessa forma, a Psicologia Histórico-Cultural não consiste em uma Pedagogia, mas oferece subsídios para a sua fundamentação. O autor destaca outro aspecto a ser considerado, que é a delimitação de uma teoria pedagógica de acordo com os fundamentos da Psicologia Histórico-Cul- tural e que faça sua mediação com a educação escolar. Para isso, é necessário que essa Pedagogia tenha sua fundamentação no materialismo dialético e uma con- cepção materialista do contexto histórico, sendo a Pedagogia Histórico-Crítica a mais coerente com essas ideias (DUARTE, 2013). Para a Pedagogia Histórico-Crítica, “[...] o trabalho educativo é o ato de pro- duzir, direta e intencionalmente, em cada indivíduo singular, a humanidade que é produzida histórica e coletivamente pelo conjunto dos homens” (SAVIANI, 2003, p. 13), com isso, resgata-se o trabalho do profissional da educação como mediador no processo de transmitir o conhecimento acumulado no decorrer da história da humanidade (HADDAD; PEREIRA, 2013). Encerramos esta unidade destacando que a obra produzida por Vygotsky trouxe uma nova concepção de homem, entendendo este como um ser que se E quando o sujeito apresenta alguma alteração bioló- gica, seja ela neuromotora, intelectual ou sensorial? Qual é o entendimento dessa abordagem no traba- lho com alunos com necessidades educacionais es- peciais? Convido você a conhecer as contribuições da Defectologia na compreensão do desenvolvimento e aprendizagem de pessoas com deficiência. UNICESUMAR 123 concebe por meio de um processo de interação com os outros num contexto his- tórico, social e cultural. “Ao relacionar aprendizagem ao desenvolvimento, o autor trouxe um novo olhar para a abordagem de ensino e aprendizagem, mostrando como o ensino intencional pode promover o desenvolvimento das funções psico- lógicas superiores dos educandos” (FARIAS; BORTOLANZA, 2013, p. 100-101). Ao conhecer essa abordagem teórica, você pode levantar suas hipóteses so- bre os motivos pelos quais ela tem uma relevância considerável na educação brasileira, servindo de embasamento teórico de muitos dos projetos políticos pedagógicos e servindo de base para a construção de uma educação diferenciada. Como verificamos no transcorrer desta unidade, as ideias dessa abordagem teórica perpassam pelo entendimento de que estamos num processo constante de mudança, transformando-nos e nos desenvolvendo o tempo todo a cada nova aprendizagem. Enquanto profissionais da educação, deparamo-nos com a importância do nosso papel enquanto mediadores do conhecimento, possibilitando o desen- volvimento das funções psicológicas superiores. Apresentamos os instrumentos e signos desenvolvidos no transcorrer da história da humanidade que possam impulsionar a sua aprendizagem e, consequentemente, o desenvolvimento en- quanto ser humano. O entendimento de que a cultura é determinante no processo de desenvolvi- mento destaca o papel da educação, em que o sujeito terá acesso ao conhecimento científico por meio de intervenções repletas de intencionalidade, por meio da sistematização da aprendizagem, viabilizando a organização dos processos de formação do sujeito, estruturando a sua humanização. A visão dessa abordagem teórica propicia a você, futuro(a) profissional da educação, um novo olhar para o desenvolvimento, com muito mais possibilida- des, não se limitando às determinações biológicas, tendo a certeza de que o social é determinante nesse processo. Chegamos ao final desta unidade com a expectativa de que as ideias revolu- cionárias de Vigotsky tenham despertado o seu interesse em se aprofundar, cada vez mais, no conhecimento sobre essa abordagem teórica que será de grande importância na sua vida profissional. 124 AGORA É COM VOCÊ Ao longo desta unidade, trabalhamos alguns conceitos fundamentais da Teoria Histórico- -Cultural. Diante disso, sugiro que você construa um mapa conceitual no qual destacará as ideias essenciais no pensamento de Vygotsky. Esse esquema mental é uma estratégia que possibilitará que você recorde o conhecimento trabalhado. Para isso, poderá utilizar um instrumento já produzido e disponível gratuitamente, no link www.goconqr.com, para realizar esta atividade. http://www.goconqr.com 125 CONFIRA SUA RESPOSTA Nesta atividade, o aluno deverá conceituar desenvolvimento, funções psicológicas elemen- tares e superiores, mediação, signo, instrumento, funcionamento intramental e intermental, níveis de desenvolvimento, aprendizagem, papel do profissional da educação e da escola e Pedagogia Histórico-Crítica. MEU ESPAÇO 5Temas Convergentes com a Psicologia da Educação Me. Raquel de Araújo Bomfim Garcia Esta unidade tem como propósito apresentar algumas teorias da Psi- cologia que fazem interface com a educação ao trazer conteúdos que auxiliam o profissional da educação na compreensão do sujeito em sua totalidade. Para isso, introduzimos alguns conceitos fundamentais da Psicanálise que contribuem na compreensão do funcionamento emo- cional do sujeito. Avançamos neste entendimento com conteúdos refe- rentes à Teoria da Afetividade ao destacar sua importância no processo de ensino-aprendizagem.Apresentamos, então, aspectos relevantes das relações humanas e os reflexos de seu adoecimento no contexto escolar. Finalizamos destacando a importância da escola no processo de formação da subjetividade. Consideramos que esta unidade trará subsídios importantes para sua formação profissional, fazendo com que tenha um olhar diferenciado para o sujeito que aprende. UNIDADE 1 128 A coordenadora pedagógica de uma escola particular, em uma cidade pequena do interior do Paraná, preocupada com alguns comportamentos apresentados pelos alunos do sétimo ano, convidou-me para realizar um trabalho sobre sexualidade. Preparei uma dinâmica com música, movimento e solicitei para que refletissem individualmente sobre o tema. Logo que a música começou a tocar, percebi que os alunos formavam pequenos grupos, não conseguiam pensar sobre o tema indi- vidualmente. Claro que tive que mudar a estratégia. No entanto, o que aconteceu? Por que esses alunos não conseguiram realizar essa atividade individualmente? Quando escolhi a estratégia, não considerei um dado muito importante: a fase do desenvolvimento na qual esses alunos se encontravam — a adolescência. Esse período consiste numa das fases de desenvolvimento emocional do sujeito em que uma das características mais marcantes é a importância do grupo na sua identidade. É o que podemos chamar de identidade grupal — pensam, agem, vestem, tudo que fazem tem que estar de acordo com o grupo. O conhecimento sobre a organização psíquica do sujeito, seu desenvolvimento emocional e a di- nâmica de suas relações são essenciais para que o profissional de educação possa entender e auxiliar o sujeito neste processo de construção de sua subjetividade. Esse processo, porém, não é tão simples de ser compreendido e observado, visto que também depende de um autoconhecimento, de estarmos atentos à nossa subjetividade. Eu desafio você, neste momento, a fazer um exercício de autoco- nhecimento: escreva em um papel suas principais características, quais são as suas qualidades, dificuldades, potenciais, sentimentos mais comuns, limitações. Procure, então, para cada uma delas, colocar uma estratégia para aperfeiçoar ou lidar com essa característica. Essa atividade nos ajuda a compreender um pouco mais sobre o nosso jeito de ser e perceber que as respostas para as mudanças podem ser encontradas em nós mesmos. No desenvolvimento da sua atividade profissional, a sua maneira de ser, ou seja, a sua subjetividade também exercerá influência na formação de outros sujeitos. É essencial que você, profissional da educação, tenha consciência dessa responsabilidade. Pense nisso. UNICESUMAR 129 A opção de trabalhar com temas convergentes com a Psicologia da Educação nesta última unidade resultou do entendimento de que existem outras teorias es- tudadas pela Psicologia que trazem a discussão de conteúdos que fazem interface com a educação e que são essenciais para o conhecimento do profissional de edu- cação. Diante disso, apresentamos temas relacionados à Psicanálise, à afetividade, às relações humanas e à subjetividade, buscando sua conexão com a educação. Em vista disso, iniciamos nosso estudo buscando compreender a relação entre a Psicanálise e a educação, que, segundo Freud (1913 apud PEDROZA, 2010), estabeleceu-se há muito tempo, quando o autor percebeu a necessidade do co- nhecimento, por parte dos profissionais de educação, sobre o desenvolvimento da criança e, também, do adolescente. DIÁRIO DE BORDO UNIDADE 1 130 Descrição da Imagem: a Figura 1 apresenta a imagem de Sigmund Freud em preto e branco, um senhor na faixa etária de 60 anos, com cabelo e barba bran- cos, olhos castanhos, expressão séria. Está sentado em uma cadeira de madeira, veste uma camisa branca, gravata pequena e escura, terno, colete e calça preta. No primeiro botão do colete, está pendurada uma corrente de relógio. Figura 1 - Sigmund Freud / Fonte: Pixabay (2016, on-line). UNICESUMAR 131 Para compreendermos essa relação, porém, precisamos conhecer a Teoria Psicanalítica desenvolvida por Freud e os seus principais ensinamentos. Sig- mund Freud (1856-1939) foi um médico vienense que buscou se especializar no tratamento de pacientes com alterações no sistema nervoso, especialmente, relacionadas a desordens neuróticas. Entendo estas como ansiedade extrema ou, também, em alguns casos, fadiga, depressão, paralisia, insônia e outras alterações que fossem relacionadas com tensões e conflitos. A Psicanálise tem uma grande influência na Psicologia e revolucionou a concepção e o tratamento de problemas emocionais ao desvendar temas relacionados à personalidade, ao inconsciente e ao desenvolvimento infantil (DAVIDOFF, 1983). Entenderemos, primeiramente, em que consiste a personalidade. É impor- tante ressaltar que esse tema é bastante complexo e que, para compreendê-lo, devemos considerar alguns fatores. Um deles refere-se ao fato de que, mesmo tendo alguns traços em comum, não existem personalidades idênticas. Outro fator importante é que ela é temporal (nasce, vive e morre com o sujeito). “Na sua temporalidade, não pode ser considerada como uma simples soma de funções vitais mas uma integração dinâmica cuja resultante se expressa pelo comporta- mento individual frente a estímulos de variada natureza” (D’ANDREA, 1996, p. 9). O autor destaca, ainda, que a existência da personalidade está vinculada ao meio em que ela busca se adaptar, sendo essencial que passe por um processo de desenvolvimento. Diante disso, sempre consideramos a história pessoal do sujeito ao tentarmos compreender sua personalidade, analisando os aspectos biopsico- lógicos herdados, as condições ambientais e socioculturais, as interações entre hereditariedade e meio, como, também, as características e o funcionamento do sujeito nessa interação, de modo que possibilite um prognóstico de suas ações futuras (D’ANDREA, 1996). Diante disso, Freud explica que os elementos básicos da personalidade são os instintos ou pulsões, que ele define como a motivação que impulsiona o compor- tamento e determina o seu destino (SCHULTZ, 2015). Exemplificando: UNIDADE 1 132 “ Os estímulos (fome ou sede, por exemplo) dos instintos são inter- nos. Quando uma necessidade como a fome é despertada no corpo, ela gera uma situação de excitação ou energia fisiológica. A mente transforma essa energia corporal em um desejo. É esse desejo – a representação mental da necessidade fisiológica –, que é o instinto ou a força impulsora que motiva a pessoa a se comportar de uma forma que satisfaça a necessidade. Uma pessoa com fome, por exem- plo, agirá para satisfazer a sua necessidade procurando comida. O instinto não é o estado corporal, mas a necessidade corporal trans- formada em um estado mental, um desejo (SCHULTZ, 2015, p. 46). Essa maneira de compreender a satisfação de nossos instintos ou nossas pulsões foi chamada de abordagem homeostática, por sugerir que o ser humano é moti- vado a buscar recuperar e, também, manter um certo equilíbrio que mantenha o corpo sem tensão. Freud ressalta que, diante de certa tensão instintual, a tendência é que busquemos sempre a sua redução, não sendo possível livrar-nos de nossas necessidades fisiológicas. Dessa forma, os instintos ou pulsões influenciam cons- tantemente em nosso comportamento, e cada sujeito estabelecerá o seu jeito de satisfazer suas necessidades (SCHULTZ, 2015). Segundo Azevedo e Mello Neto (2015), com a evolução de seus estudos, Freud passou a utilizar apenas o termo pulsão, fazendo a distinção de dois tipos de pulsões: de vida e de morte. Em relação às pulsões de vida, Freud (1996a) as denominou como pulsões de autopreservação e pulsões sexuais. A função das pulsões de autopreservação é conservar a existência do sujeito, seu ego. Já as pulsões sexuais visam a objetos que possibilitem a preservação da espécie, como também a satisfação sexual. Ambas estão ligadas por buscarem satisfação e vinculação com o que possibilita a preservaçãoda vida. Schultz (2015) destaca que a pulsão de vida busca garantir a sobrevivência do sujeito, como também da espécie, sendo orientada para o desenvolvimento e cres- cimento. Segundo a autora, Freud estabelece que a energia psíquica manifestada pelas pulsões de vida é a libido, que tem um caráter especificamente sexual, que impulsiona o sujeito para pensamentos e comportamentos que são prazerosos. UNICESUMAR 133 “É importante esclarecer a visão de Freud sobre a sexualidade, pois é bastante ampla e complexa e apresenta dois princípios essenciais. Em princípio, a sexualidade é separada da sua ligação próxima demais com os genitais e considerada uma função corporal mais abrangente, ten- do o prazer como sua meta e só secundariamente atendendo aos fins de reprodução. Em segundo lugar, os impulsos sexuais são encarados como incluindo todos os impulsos meramente afetivos e amigáveis, aos quais se aplica a palavra amor, demasiadamente ambígua (FREUD, 1925, p. 38). Sendo assim, para Freud a sexualidade é a motivação essencial do ser humano. Entenden- do que os desejos eróticos tem sua origem em zonas erógenas do corpo que são a boca, o ânus e os órgãos sexuais. Para o autor, o sujeito predominantemente busca o prazer, e sua teoria da personalidade abrange o entendimento da necessidade de reprimir ou inibir os desejos sexuais”. Fonte: Schultz (2015, p. 47-48). EXPLORANDO IDEIAS Contrárias às pulsões de vida, Freud (1996a) descreveu as pulsões de morte. Entendia estas como disposição natural que visava à eliminação dos estímulos advindos do organismo. De acordo com Schultz (2015), essa pulsão consiste em um impulso que é inconsciente e que age na direção da destruição, degenera- ção e agressão. A agressividade acabou por ser considerada por Freud como tão presente na natureza humana quanto a sexualidade. Em relação aos impulsos agressivos, Freud (1996b, p. 66) perfaz que “quanto mais um homem controla a sua agressividade para com o exterior, mais severo — isto é, agressivo — ele se torna em seu ideal do ego [...]”, isso quer dizer uma intensa tendência do seu ideal de ego (superego) para a agressividade, contrariamente ao seu ego. Para compreendermos o que constitui o ego e o que Freud chamava de ideal de ego, precisamos compreender como o autor organizou um sistema de enten- dimento da personalidade. Segundo Lima (2010), Freud utilizou o termo apa- relho com o intuito de explicar uma organização psíquica dividida em sistemas (ou instâncias psíquicas) que apresentam funções únicas, interligadas entre si, que ocupam um determinado espaço na mente. Desse modo, Freud formulou a sua primeira tópica, chamada de Teoria Topográfica, e, depois, expôs a segunda tópica, denominada Teoria Estrutural ou Dinâmica. UNIDADE 1 134 Na Teoria Topográfica, Freud afirma que o aparelho psíquico constitui-se por três sistemas: o consciente, o pré-consciente e o inconsciente. O consciente constitui-se em uma parte pequena da mente, nele, está tudo de que estamos cientes no momento. Para essa teoria, o consciente encontra-se na periferia do aparelho psíquico e recebe informações advindas tanto do meio externo quanto do seu interior. Já o pré-consciente instaura-se em articulação com o consciente, cuja função é selecionar o que pode ou não alcançar a consciência. Assim, o pré- -consciente é uma parcela do inconsciente que pode chegar à consciência com certa facilidade, isso significa que seus conteúdos podem ser acessados e levados à consciência (LIMA, 2010). Já o inconsciente é considerado a parte mais antiga do aparelho psíquico, nele, encontram-se, por herança genética, nossos instintos ou pulsões, sendo acres- centadas suas energias respectivas. Ou seja, no inconsciente, encontram-se os elementos instintivos dos quais não temos consciência. É importante ressaltar que nele também estão os conteúdos que foram excluídos da consciência por meio dos processos psíquicos da repressão e censura. O conteúdo censurado perma- nece no inconsciente, mas não se admite que seja lembrado. É no inconsciente que se localizam muitos dos determinantes da nossa personalidade, as pulsões (ou instintos) e as fontes de energia psíquica (LIMA, 2010). É importante que o mecanismo de funcionamento do inconsciente siga leis opostas às do consciente e do pré-consciente. Ou seja, no inconsciente, não há noção de tempo (os conteúdos são sempre atuantes e intensos, não se desgastam com o tempo), não existe lógica (desconhece normas de causalidade, contra- dição e identidade), a noção de espaço não se relaciona com a realidade, não ocorrem incertezas e dúvidas, acontecem deslocamento e condensação (dois ou mais desejos ou imagens podem estar numa única representação), a linguagem é simbólica e não verbal (existem símbolos universais e individuais), ocorre a identificação (pode igualar-se a um objeto ou o objeto a outro, mesmo que não sejam semelhantes), entre outros (D’ANDREA, 1996). Freud, no entanto, percebeu que nem todos os fenômenos psíquicos podiam ser explicados por essa teoria. Diante disso, ele organizou uma outra teoria, a segunda tópica, na qual instituiu a concepção do aparelho psíquico, também chamado de modelo estrutural ou dinâmico. Entende-se estrutura como “um conjunto de elementos que têm funções específicas, porém que interagem per- manentemente e se influenciam reciprocamente” (LIMA, 2010, p. 281). O enten- UNICESUMAR 135 “O aparelho psíquico se divide em um ‘isso’, que é o portador das moções pulsionais, um ‘eu’, que constitui a parte mais superficial do ‘isso’, modificada pela influência do mundo exterior, e um “supereu’ que, saindo do ‘isso’, domina o eu e representa as inibições da pulsão, características do homem”. (Sigmund Freud) PENSANDO JUNTOS dimento dessa concepção estruturalista apresenta uma divisão da mente, sendo caracterizada por três instâncias psíquicas: Id, Ego e Superego. Compreenderemos melhor cada uma dessas instâncias psíquicas. No Id, en- contram-se os impulsos e desejos inconscientes de ordem genética que estão relacionados tanto à preservação da vida quanto à sua propagação. Constitui-se do que é herdado, principalmente, os elementos instintivos, estando presente desde o nascimento. O Id funciona pelo princípio do prazer, buscando resposta imediata e direta para um estímulo instintivo, não considerando o contexto real. Meurer (2005) ressalta que por ser estruturalmente inconsciente, o Id organiza seus processos sem a participação ou a percepção do consciente. Considerando as demandas com que a criança se defronta na sua relação com o meio, faz-se necessário que ela direcione, de maneira gradual, as de- mandas do Id, garantindo que elas sejam satisfeitas dentro do princípio da realidade, dessa forma, estrutura-se o Ego (D’ANDREA, 1996). Diante disso, o Ego consiste na instância intermediária entre o desejo e a realidade, atendendo às demandas vindas não só do Id (estrutura arcaica), mas também do Superego (proibições que advém da evolução da espécie), possuindo partes conscientes e inconscientes (MEURER, 2015). O Superego, também chamado de Supereu, consiste na representação moral, da ordem e da lei. Considerada uma instância crítica e controladora, principal- mente, de conteúdos do Id que não são aceitos conscientemente. Mesmo não sendo consciente, o Superego constrói-se por meio da internalização de valores, normas e regras sociais que foram impostas pelo meio, tanto cultural quanto fa- miliar do sujeito (NOGUEIRA, 2015). No Olhar Conceitual (Figura 2), podemos visualizar uma analogia sobre as teorias Topográfica e Estrutural do funciona- mento mental comparadas a um iceberg. UNIDADE 1 136 EGO Princípio de realidade Processo secundário ID Princípio do prazer Processo primário SUPEREGO Imperativos morais Consciente: Contato com o mundo exterior Pré-consciente: Material um pouco abaixo da superfície da consciência Inconsciente: Material difícil de recuperar, bem abaixo da superfície da consciência Descriçãoda Imagem: a Figura 2 apresenta uma imagem de um iceberg com uma pequena parte acima do nível da água e outra parte maior submersa. No lado direito da figura, especifica-se uma comparação de partes do iceberg com a Teoria Topográfica, demonstrando que a parte que fica acima do nível da água corresponde ao consciente (contato com o mundo exterior), a parte logo abai- xo do nível da água é o pré-consciente (material um pouco abaixo do nível de consciência), e, na parte mais profunda do iceberg, encontramos o inconsciente (material difícil de recuperar; bem abaixo da superfície da consciência). Na pró- pria figura do iceberg, temos três divisões que delimitam a atuação do Ego, Id e Superego. O Ego (princípio de realidade — processo secundário) contempla a parte acima do nível da água e, também, a parte logo abaixo do nível da água. O Superego (imperativos morais) está no lado esquerdo do iceberg, sempre abaixo do nível da água. Na parte direita e mais profunda da água, fica o ID (princípio do prazer — processo secundário). Figura 2 - Teorias Topográfica e Estrutural do funcionamento mental / Fonte: adaptada de Schultz (2015). UNICESUMAR 137 Em seus estudos, Freud desenvolveu a teoria na qual destaca que os padrões da personalidade do adulto relacionam-se com os primeiros anos de vida do sujei- to. Partindo dessa compreensão, ele estabeleceu os estágios de desenvolvimento psicossexual infantil, denominados de fase oral, fase anal, fase fálica, período de latência e fase genital. Em cada uma das fases, haverá um direcionamento diferen- te da libido, e o sujeito deverá aprender a solucionar problemas específicos, que têm origem no próprio crescimento da sua estrutura física, como, também, da sua relação com o meio (D’ANDREA, 1996). Na Figura 3, apresentamos as principais características de cada uma das fases de desenvolvimento da personalidade. UNIDADE 1 138 Descrição da Imagem: a Figura 3 apresenta as cinco fases de desenvolvimento da personalidade desde o nascimento até a fase adulta. De cima para baixo: a primeira fase é a fase oral, que corresponde ao primeiro ano da vida da criança; a libido está localizada na parte superior do trato digestivo; e a energia voltada para a autopreservação, principalmente ligada à alimentação. A segunda fase é a fase anal, que acontece entre o segundo e terceiro ano de vida. Nesta, a libido centra- liza-se na atividade anal, coincidindo com o momento de treinamento da higiene pessoal e as exigências vindas do meio referentes ao controle dos esfíncteres. A terceira fase é a fase fálica, que acontece no período que vai dos três aos cinco anos. O interesse libidinal direciona-se para os órgãos genitais, sendo comum, nessa fase, a exibição e manipulação dos genitais, como também o interesse pelas diferenças sexuais. A quarta fase é o Período de Latência, este período vai dos cinco anos até a puberdade, e, nesta, só os impulsos libidinais são postergados a um segundo plano, priorizando-se o desenvolvimento intelectual. A quinta e última fase é a fase genital, que se inicia com a puberdade, dos 12 anos em diante. A libido retorna sua ação, reforçada pelo desenvolvimento dos órgãos genitais e a preparação para as relações adultas, em preparação para a maturidade. Figura 3 - Fases de desenvolvimento da personalidade / Fonte: adaptada de D’Andrea (1996) e Nogueira (2015). FASE ORAL Correspondente ao primeiro ano da vida da criança. Libido está localizada na parte superior do trato digestivo. Energia voltada para a autopreservação, principalmente ligada a alimentação. FASE ANAL Acontece entre o segundo e terceiro ano de vida. Nesta a libido centraliza-se na atividade anal, coincidindo com o momento de treinamento da higiene pessoal. Exigências vindas do meio referentes ao controle dos esfíncteres. FASE FÁLICA Período que vai dos 3 aos 5 anos. Interesses libidinal direciona-se para os órgãos genitais, sendo comum nessa fase a exibição e manipulação dos genitais, como também o interesse pelas diferenças sexuais. PERÍODO DE LATÊNCIA Este período vai dos 5 até a puberdade. Nesta só os impulsos libidinais são postergados a um segundo plano, priorizando-se o desenvolvimento intelectual. FASE GENITAL Inicia com a puberdade, dos 12 anos em diante. A libido retorna sua ação reforçada pelo desenvolvimento dos órgãos genitais. Preparação para as relações adultas, em preparação para a maturidade. UNICESUMAR 139 Após conhecermos alguns dos pressupostos essenciais da abordagem psicanalí- tica, passamos ao entendimento sobre a sua relação com o processo de ensino- -aprendizagem. De acordo com Nogueira (2015), a Psicanálise trouxe um novo olhar sobre a educação, que, até aquele momento, era um tanto modeladora, em que o desejo do sujeito era subjugado, sendo valorizado o treino e a transmissão de valores. “A partir desta prática, apareceram novas ideias e necessidades edu- cativas, e passou-se a considerar o ‘aprender pela satisfação’, e não o ‘aprender pela coerção’, como parâmetro para um processo de ensino-aprendizagem mais prazeroso e, consequentemente, mais significativo” (NOGUEIRA, 2015, p. 113). Em vista disso, entendemos que uma das grandes contribuições da Psicaná- lise para a educação é a compreensão de que o profissional da educação não se restringe à reprodução de conhecimentos, cabe a ele organizar ações que pos- sibilitem a evolução do sujeito não só na sua maturação, mas também no seu desenvolvimento psíquico, não se restringindo à vida acadêmica, mas, sim, à vida como um todo (NOGUEIRA, 2015). Ao destacar a importância das emoções no processo de aprendizagem do sujeito, apresentamos uma outra abordagem teórica de grande relevância para a educação, a Teoria da Afetividade. Ela foi elaborada pelo francês Henri Wallon, que se formou em Filosofia e Medicina, mas seu grande interesse era pela Psicolo- gia, que, na época, não tinha uma formação acadêmica específica. Como médico, consolidou o interesse pela Psicologia Infantil, sendo que, em 1925, inaugurou o Laboratório de Psicologia da Criança em Paris, que funciona até os dias atuais. Wallon também participou do Movimento da Escola Nova e promoveu muitas reflexões e discussões sobre os problemas vivenciados no ensino primário. O autor trouxe grandes contribuições tanto para a compreensão do processo de constituição do sujeito quanto para a educação (NOGUEIRA, 2015). UNIDADE 1 140 Descrição da Imagem: a Figura 4 apresenta a fotografia, em preto e branco, de Henri Wallon jovem, na faixa etária de 30 anos. Cabelos e barba escuros, olhos castanhos, veste camisa branca, gravata escura com detalhes brancos pequenos e um terno escuro. Figura 4 - Foto de Henri Wallon (jovem) / Fonte: Wikipédia ([2021], on-line). A Teoria da Afetividade tem sua base em uma visão interacionista do desenvol- vimento da criança, na qual este “se constitui no encontro, no entrelaçamento de suas condições orgânicas e de suas condições de existência cotidiana, encravada numa dada sociedade, numa dada cultura, numa dada época” (MAHONEY; ALMEIDA, 2004, p. 14). Ferreira e Acioly-Régnier (2010) acrescentam que essa teoria psicogenética possibilitou a compreensão da constituição do sujeito numa dimensão afetiva. UNICESUMAR 141 No processo de desenvolvimento, Wallon considera como eixo essencial dois tipos de integração, a do organismo com o meio e a cognitiva-afetiva-motora. Nes- sa perspectiva, o autor destaca a importância de estudos do desenvolvimento que envolvem diferentes campos funcionais: a afetividade, o conhecimento (cognição/ inteligência) e a motricidade. Entende que a ação da criança consiste no resultado da integração entre a cognição, o afeto e o motor (MAHONEY; ALMEIDA, 2004). O primeiro desses campos a se desenvolver é o movimento, pois, por meio dele, é desenvolvida a percepção. Wallon compreende a motricidade como a percepção do eu corporal, sendo fundamental para o desenvolvimento do eu psíquico. Épor meio da interação com os outros e com os objetos “que a crian- ça estabelece relações entre seus movimentos e suas sensações e experimenta, sistematicamente, a diferença de sensibilidade existente entre o que pertence ao mundo exterior e o que pertence a seu próprio corpo” (GALVÃO, 2007, p. 51). Já a dimensão cognitiva, segundo Galvão (2007), permite ao sujeito conquis- tar o conhecimento não só de si, mas também do ambiente em que está inserido. O autor destaca que, para Wallon, o desenvolvimento cognitivo eficaz depende da integração entre fatores biológicos e sociais ao enfatizar que a linguagem tem um papel essencial nesse processo. Sendo a linguagem “o instrumento e o suporte in- dispensável aos progressos do pensamento. Entre pensamento e linguagem existe uma relação de reciprocidade: a linguagem exprime o pensamento, ao mesmo tempo que age como estruturadora do mesmo” (GALVÃO, 2007, p. 77). Com relação à afetividade, Wallon a entende como uma característica própria do ser humano, que se constitui na capacidade de sermos afetados, tanto interna- mente como externamente, por sensações que nos despertam um bem estar ou mal estar. Para o autor, a afetividade se divide em emoção, paixão e sentimento, destacando que a emoção é entendida como a primeira expressão de afetividade. “ A afetividade é um conceito amplo que, além de envolver um com- ponente orgânico, corporal, motor e plástico, que é a emoção, apre- senta também um componente cognitivo, representacional, que são os sentimentos e a paixão. O primeiro componente a se diferenciar é a emoção, que assume o comando do desenvolvimento logo nos primeiros meses de vida; posteriormente, diferenciam-se os senti- mentos e, logo a seguir, a paixão (MAHONEY, 2004 apud MAR- QUES, 2016, p. 7). UNIDADE 1 142 Ao considerar a premissa orgânica da afetividade, essa abordagem teórica recu- pera o orgânico na formação do sujeito. Com isso, sinaliza que o social possibilita, de maneira gradual, a transformação dessa afetividade orgânica, fazendo com que suas manifestações sejam moldadas e se tornem progressivamente mais sociais. Evidenciando, assim, a união entre o corpo e o contexto social. “ Em Les origines du caractère chez l’enfant (1934). Esse autor destaca a importância da afetividade no processo de desenvolvimento da personalidade da criança, que se iniciaria de forma sincrética e gra- dativamente adquiriria contornos mais nítidos através dos proces- sos de diferenciação” (FERREIRA; ACIOLY-RÉGNIER, 2010, p. 26). Partindo desse entendimento integral do sujeito, Wallon destaca as relações esta- belecidas entre essas dimensões funcionais em momentos distintos do desenvol- vimento do ser humano, fazendo com que cada estágio seja caracterizado como um sistema em si, no qual o sujeito integral é uma consequência desse processo de integração, formando um conjunto, uma unidade única e indissociável. Dessa forma, entende que o desenvolvimento acontece em um movimento contínuo, em constante transformação no transcorrer da vida do sujeito (CALIL, 2007). De acordo com Tassoni e Leite (2013), Wallon estabeleceu cinco estágios do desenvolvimento humano: o Impulsivo-Emocional (até 1 ano); o Sensório-Mo- tor e Projetivo (1 a 3 anos); o do Personalismo (3 a 6 anos); o Categorial (6 a 11 anos); e o da Puberdade e Adolescência (11/12 anos em diante). Dessa forma, apresento, no olhar conceitual (Figura 5), as principais características dos estágios de desenvolvimento segundo Wallon. No 1º Estágio — impulsivo-emocional (0 a 1 ano) A criança expressa sua afetividade através de movimentos descoordenados, respondendo a sensibilidades corporais: proprioceptiva (sensibilidade dos músculos) e interoceptivas (sensibilidade das vísceras). descooA criança expressa sua afetividade através de movimentos d nsibilidrespondendo a sensibilidades corporais: proprioceptiva (sen músculos) e interoceptivas (sensibilidade das vísceras). No 2º Estágio — sensório-motor e projetivo (1 a 3 anos) Quando já dispõe da fala e da marcha, a criança se volta para o mundo externo (sensibilidade exteroceptiva) para um intenso contacto com os objetos e a indagação insistente do que são, como se chamam, como funcionam. Quando já dispõe da fala e da marcha, a criança se volta (sensibilidade exteroceptiva) para um intenso contacto indagação insistente do que são, como se chamam, com No 3º Estágio — personalismo (3 a 6 anos) Existe outro tipo de diferenciação — entre a criança e o outro. É a fase de se descobrir diferente das outras crianças e do adulto. oExiste outro tipo de diferenciação — entre a criança e o descobrir diferente das outras crianças e do adulto. No 4º Estágio — o categorial (6 a 11 anos) A diferenciação mais nítida entre o eu e o outro dá condições mais estáveis para a exploração mental do mundo externo, físico, mediante atividades cognitivas de agrupamento, classi�cação, categorização em vários níveis de abstração até chegar ao pensamento categorial. A organização do mundo em categorias bem de�nidas possibilita também uma compreensão mais nítida de si mesma. ç g p g g ç em categorias bem de�nidas possibilita também uma compreensão mais nítida de si mesma. No 5º Estágio — puberdade e adolescência (11 anos em diante) Vai aparecer a exploração de si mesmo, na busca de uma identidade autôno- ma, mediante atividades de confronto, auto-a�rmação, questionamentos, e para isso se submete e se apóia nos pares, contrapondo-se aos valores tal qual interpretados pelos adultos com quem convive. O domínio de categorias cognitivas de maior nível de abstração, nas quais a dimensão temporal toma relevo, possibilita a discriminação mais clara dos limites de sua autonomia e de sua dependência. UNICESUMAR 143 Descrição da Imagem: a Figura 5 apresenta as principais características dos estágios de desenvolvimento segundo Wallon. No 1º estágio, impulsivo-emo- cional (0 a 1 ano), a criança expressa sua afetividade por meio de movimentos descoordenados, respondendo a sensibilidades corporais: proprioceptiva (sensi- bilidade dos músculos) e interoceptivas (sensibilidade das vísceras). No 2º estágio, sensório-motor e projetivo (1 a 3 anos), quando já dispõe da fala e da marcha, a criança se volta para o mundo externo (sensibilidade exteroceptiva) para um intenso contato com os objetos e a indagação insistente do que são, como se chamam, como funcionam. No 3º estágio, personalismo (3 a 6 anos), existe outro tipo de diferenciação: entre a criança e o outro. É a fase de se descobrir diferen- te das outras crianças e do adulto. No 4º estágio, o categorial (6 a 11 anos), a diferenciação mais nítida entre o eu e o outro dá condições mais estáveis para a exploração mental do mundo externo, físico, mediante atividades cognitivas de agrupamento, classificação, categorização em vários níveis de abstração até chegar ao pensamento categorial. A organização do mundo em categorias bem definidas possibilita, também, uma compreensão mais nítida de si mesma. E, no último e 5º estágio, puberdade e adolescência (11 anos em diante), vai aparecer a exploração de si mesmo, na busca de uma identidade autônoma, mediante ati- vidades de confronto, autoafirmação, questionamentos, e, para isso, submete-se e se apoia nos pares, contrapondo-se aos valores tal qual interpretados pelos adultos com quem convive. O domínio de categorias cognitivas de maior nível de abstração, nas quais a dimensão temporal toma relevo, possibilita a discriminação mais clara dos limites de sua autonomia e de sua dependência. Figura 5 - Estágios do desenvolvimento de Henri Wallon / Fonte: Mahoney e Almeida (2005, p. 22-24). No 1º Estágio — impulsivo-emocional (0 a 1 ano) A criança expressa sua afetividade através de movimentos descoordenados, respondendo a sensibilidades corporais: proprioceptiva (sensibilidade dos músculos) e interoceptivas (sensibilidade das vísceras). descooA criança expressa sua afetividade através de movimentos d nsibilidrespondendo a sensibilidadescorporais: proprioceptiva (sen músculos) e interoceptivas (sensibilidade das vísceras). No 2º Estágio — sensório-motor e projetivo (1 a 3 anos) Quando já dispõe da fala e da marcha, a criança se volta para o mundo externo (sensibilidade exteroceptiva) para um intenso contacto com os objetos e a indagação insistente do que são, como se chamam, como funcionam. Quando já dispõe da fala e da marcha, a criança se volta (sensibilidade exteroceptiva) para um intenso contacto indagação insistente do que são, como se chamam, com No 3º Estágio — personalismo (3 a 6 anos) Existe outro tipo de diferenciação — entre a criança e o outro. É a fase de se descobrir diferente das outras crianças e do adulto. oExiste outro tipo de diferenciação — entre a criança e o descobrir diferente das outras crianças e do adulto. No 4º Estágio — o categorial (6 a 11 anos) A diferenciação mais nítida entre o eu e o outro dá condições mais estáveis para a exploração mental do mundo externo, físico, mediante atividades cognitivas de agrupamento, classi�cação, categorização em vários níveis de abstração até chegar ao pensamento categorial. A organização do mundo em categorias bem de�nidas possibilita também uma compreensão mais nítida de si mesma. ç g p g g ç em categorias bem de�nidas possibilita também uma compreensão mais nítida de si mesma. No 5º Estágio — puberdade e adolescência (11 anos em diante) Vai aparecer a exploração de si mesmo, na busca de uma identidade autôno- ma, mediante atividades de confronto, auto-a�rmação, questionamentos, e para isso se submete e se apóia nos pares, contrapondo-se aos valores tal qual interpretados pelos adultos com quem convive. O domínio de categorias cognitivas de maior nível de abstração, nas quais a dimensão temporal toma relevo, possibilita a discriminação mais clara dos limites de sua autonomia e de sua dependência. UNIDADE 1 144 Nesses estágios, a criança organiza maneiras diferentes de interação tanto com o meio social quanto físico, entrelaçando aspectos cognitivos e afetivos, numa constante alternância e preponderância entre eles (TASSONI; LEITE, 2013). Calil (2007) ressalta que, para Wallon, na sequência dos estágios do desenvolvimento, deve-se considerar três leis que orientam essa sucessão: a lei da alternância fun- cional, da preponderância funcional e da integração funcional. Tassoni e Leite (2013, p. 264) evidenciam que, “ Quando a afetividade prepondera sobre a dimensão cognitiva, o indivíduo está voltado para a construção do seu eu e, por isso, o movimento é para o interior da pessoa (movimento centrípeto). Quando a cognição prepondera, o movimento é para o exterior (força centrífuga), para o conhecimento do mundo, das coisas. A dimensão motora não assume preponderância em fase alguma, mas exerce um papel fundamental na evolução da pessoa. Declarada, dessa forma, a lei da alternância, em que são previstas as mudanças na direção do desenvolvimento, ora centrípeto ora centrífugo, como, também, a lei da preponderância, relacionada ao domínio de um dos campos funcionais em um mesmo estágio. Outro fato a ser observado é a relação que se estabelece nos estágios precedentes e subsequentes de maneira hierarquizada. Assim, as ações inéditas em cada novo estágio não extinguem as antecedentes, mas as integram num processo de diferenciação constante, constituindo a lei de integração fun- cional (CALIL, 2007). É importante evidenciar que o avanço de um dos campos funcionais beneficia os outros também, promovendo sua evolução. Nesse processo de alternância de dominância nos diferentes estágios de desenvolvimento, todos os campos funcio- nais são favorecidos. Com isso, essa teoria apresenta o desenvolvimento em uma perspectiva que envolve todos os aspectos do sujeito (TASSONI; LEITE, 2013). Como enfatiza Mahoney (2000, p. 15): “ O motor, o afetivo, o cognitivo, a pessoa, embora cada um desses aspectos tenha identidade estrutural e funcional diferenciada, estão tão integrados que cada um é parte constitutiva dos outros. Sua se- UNICESUMAR 145 paração se faz necessária apenas para a descrição do processo. Uma das consequências dessa interpretação é de que qualquer atividade humana sempre interfere em todos eles. Qualquer atividade mo- tora tem ressonâncias afetivas e cognitivas; toda disposição afetiva tem ressonâncias motoras e cognitivas; toda operação mental tem ressonâncias afetivas e motoras. E todas essas ressonâncias têm um impacto no quarto conjunto: a pessoa, que, ao mesmo tempo em que garante essa integração, é resultado dela. Nesse processo de desenvolvimento, segundo Wallon, é importante destacar que a idade não deve ser considerada como um indicador essencial do estágio e que cada um dos estágios consiste em um sistema completo por si mesmo. As características apresentadas em cada um deles expressam-se por meio de conteúdos que são determinados pela cultura. Destaca, ainda, que o desenvol- vimento propõe transformações constantes no transcorrer da vida do sujeito (MAHONEY; ALMEIDA, 2005). Assim, a teoria psicogenética de Wallon evidencia que, na construção do Eu, somos, essencialmente, dependentes do Outro, somos geneticamente sociais; para nos desenvolvermos e humanizarmos, necessitamos do Outro desde o nasci- mento. E é por meio dessas relações com o Outro que acontece a aprendizagem, em um processo que ocorre continuamente no transcorrer da vida do sujeito (CALIL, 2007). Entendendo a aprendizagem nessa perspectiva, Wallon destaca que a educação deve estar atenta a três pontos essenciais: “ [...] 1. a ação da escola não se limita à instrução, mas se dirige à pessoa inteira e deve converter-se em um instrumento para seu desenvolvimento: esse desenvolvimento pressu- põe a integração entre as dimensões afetiva, cognitiva e motora; 2. a eficácia da ação educativa se fundamenta no conhecimento da natureza da criança, de suas capacidades, necessidades, ou seja, no estudo psicológico da criança; 3. é no meio físico e social que a atividade infantil encontra as alternativas de sua realização; o saber escolar não pode se isolar desse meio, mas sim, nutrir-se das possibilidades que ele oferece (ALMEIDA, 2002, p. 32). UNIDADE 1 146 Vamos nos aprofundar no entendimento sobre a afe- tividade no processo de ensino e aprendizagem? Se- gundo Wallon, existem alguns princípios que regulam aprendizagem. Para conhecê-los, é só apertar o play. Wallon enfatiza que a escola tem a função de possibilitar o desenvolvimento do sujeito por meio de um ensino que seja democrático, que propicie oportunidades igualitárias, utilizando estratégias variadas, viabilizando uma formação que seja integral (CALIL, 2007). Essa visão da psicogenética walloniana não enfatiza o desenvolvimento intelectual como o objetivo essencial e exclusivo da educação. Pelo contrário, evidencia que a inteligência é um meio de alcançar a meta maior, que é o desenvolvimento da pessoa, visto que é uma de suas partes constituintes (FERREIRA; ACIOLY-RÉGNIER, 2010). Assim, Tassoni e Leite (2013) destacam o quanto a afetividade interfere no proces- so de ensino e de aprendizagem, como também nas relações entre os implicados nesse processo. Os autores enfatizam a importância da compreensão do profis- sional de educação sobre esse mecanismo, refletindo, de maneira criteriosa, sobre a sua práxis, buscando identificar emoções e sentimentos que possam ocasionar a inibição ou bloqueio dos processos cognitivos. É necessária a compreensão de que a afetividade evolui, torna-se mais complexa no transcorrer dos anos, as trocas afetivas se aprimoram, e diferentes exigências se organizam. “ Wallon destaca que as interações com o outro promovem avan- ços na forma do sujeito relacionar-se com o mundo físico e so- cial, levando a novas formas de sentir e pensar. Em cada estágio de desenvolvimento há necessidades diferentes, que exigem formas de relacionamento diferentes, níveis de sensibilização e percepção distintos, induzindo sentimentose emoções qualitativamente mais sofisticados. As exigências afetivas acompanham as exigências cog- nitivas e vice-versa (TASSONI; LEITE, 2013, p. 270). UNICESUMAR 147 “Em sua essência a empatia significa colocar-se na posição ou situação da outra pessoa, num esforço de entendê-la” (BOWDITCH; BUONO, 2002, p. 86). Por mais que isso possa ser considerado simples, não é uma tarefa fácil de se colocar em prática, pois a sociedade, geralmente, ensina as pessoas a esconderem suas emoções. EXPLORANDO IDEIAS Minicucci (2019) ressalta que o aspecto mais relevante das relações humanas é a compreensão do outro, entendendo-a como uma sensibilidade social, uma empatia. Um outro aspecto que o autor destaca como essencial é a flexibilida- de de ação (comportamento), ou seja, ser capaz de reagir a uma certa situação, com uma determinada pessoa, de maneira apropriada (exemplo: a minha reação frente a uma agressão será diferente se ela for realizada por uma criança ou por um adulto). Assim, a flexibilidade de comportamento nos exige a capacidade de analisar o comportamento do outro, percebendo suas especificidades. Como desenvolver a sensibilidade social e a flexibilidade de comportamento? De acordo com Minicucci (2019), isso só acontece por meio do aprimoramento do conhecimento sobre si mesmo e dos outros, com uma boa convivência gru- pal e, também, pelo desenvolvimento de certas capacidades de relacionamento interpessoal mais eficazes. No processo de autoconhecimento, é fundamental que o sujeito compreenda a sua ação, percebendo como e por que age de determinada maneira, buscando formas de equilibrar esses comportamentos (MINICUCCI, 2019). Nesse pro- cesso, muitas vezes, precisamos rever nosso autoconceito, ou seja, a imagem que fazemos de nós mesmos e que exerce influência em tudo o que percebemos, fa- zemos ou dizemos. Quatro fatores compõem o autoconceito: os valores, crenças, competências e metas pessoais (BOWDITCH; BUONO, 2002). No que se refere ao conhecimento do outro, é necessária a observação de seu comportamento, dando oportunidade para que possa expor seus sentimentos, pensamentos e ações (MINICUCCI, 2019). A observação do comportamento é essencial no contexto escolar, o profissional da educação deve utilizar esse ins- trumento para compreender as relações que se estabelecem e como os sujeitos se comportam nas mais diferentes circunstâncias. UNIDADE 1 148 Nesse processo, devemos ter cuidado com os estereótipos, efeito Halo e as expec- tativas. O estereótipo consiste em “um modo rígido de se formar impressões consisten- tes sobre as outras pessoas, supondo que todas tenham certas características comuns em virtude de sua afiliação (tanto atribuída como obtida) a algum grupo ou categoria [...]” (BOWDITCH; BUONO, 2002, p. 66). Já no efeito Halo, verificamos a atitude de deixar que uma única caraterística do sujeito ou de um grupo acabe por impedir a percepção de outras características deles (exemplo: porque o sujeito é excelente em uma determinada área, tem que ser bem informado em outras áreas da vida). As nossas expectativas também podem influenciar na nossa percepção social, em como veremos e ouviremos, induzindo nosso comportamento e atitudes para com os outros e até distorcendo a situação (BOWDITCH; BUONO, 2002). Quando falamos de convivência grupal, precisamos compreender que os gru- pos, seja ele familiar, escolar, de trabalho ou lazer, apresentam características que são comuns. Ou seja, os grupos são constituídos por duas, três ou mais pessoas, conscientes umas das outras e que, por meio da interação, visam a um objetivo comum (BOWDITCH; BUONO, 2002). Minicucci (2019) destaca os papéis que são desempenhados no contexto dos grupos, esclarecendo que eles podem ser funcionais (que facilitam o desenvolvimento das atividades) e bloqueadores (que impedem seu desenvolvimento). Diante disso, é importante que o profissional da educação esteja atento aos papéis que se estabelecem nos grupos, entenden- do, também, quais são os seus objetivos, para auxiliá-los a terem relações mais funcionais e enriquecedoras. No desenvolvimento de capacidades de relacionamento mais eficazes, de- paramo-nos com um dos aspectos mais importantes nas relações interpessoais: a comunicação. Bowditch e Buono (2002, p. 80) explicam que a comunicação é definida frequentemente como “uma troca de informações entre o transmissor e um receptor, e a inferência (percepção) do significado entre os indivíduos en- volvidos”. Consiste num processo didático (de pessoa para outra pessoa) e inte- rativo, em que são compartilhados significados e expectativas por meio da troca de símbolos. Estes, por sua vez, podem ser não verbais ou verbais, que recebem influência de fatores que são intencionais ou não (como sentimentos e emoções). Os autores acrescentam que, no contexto da comunicação interpessoal, po- de-se definir quatro funções básicas: controle (relacionado ao esclarecimento de responsabilidades, introdução de regras, buscando o estabelecimento de au- toridade), informação (propiciando o suporte para a tomada de decisões como, UNICESUMAR 149 Como melhorar a comunicação? [...] (1) usando uma linguagem apropriada e direta (evitando o uso de jargão e termos eruditos quando palavras simples forem suficientes), (2) fornecer informações claras e completas quando for possível; (3) tentar evitar interferências físicas [...] e interrupções psicológicas (preocupação com outras pessoas, sonhar acordado, etc.); (4) usar canais múltiplos para estimular vários sentidos do receptor (audição, visão etc.); e (5) usar a co- municação face a face sempre que possível (BOWDITCH; BUONO, 2002, p. 86, grifos dos autores). EXPLORANDO IDEIAS também, para a execução de instruções e ordens), motivação (influenciando os outros com intuito de conseguir cooperação e compromisso no que tange a me- tas e objetivos) e emoção (com o intuito de expressar emoções e sentimentos). Destarte, a comunicação interpessoal apresenta propósitos diferentes, e as infor- mações podem ser trocadas por diversas razões, nem sempre dirigidas a uma tarefa singular (BOWDITCH; BUONO, 2002). Outro ponto a ser conhecido sobre a comunicação, segundo Stefanelli (1993), é que ela pode ser verbal ou linguística, não verbal ou não linguística ou, ainda, paraverbal ou paralinguística. A comunicação verbal ou linguística é composta pela linguagem falada e escrita, palavras e sons dos quais fazemos uso para a nossa comunicação. Acontece por meio de palavras e depende da linguagem, que rece- be grande influência da cultura. Já a comunicação não verbal ou não linguística abrange qualquer manifestação de comportamento que não é expressa por meio de palavras. Muitas vezes, esse tipo de comunicação não é consciente, nem sempre sabemos como ela acontece. Pode se manifestar a partir da expressão corporal e facial ou, ainda, por manifestações fisiológicas. Transpassando esses dois modos de comunicação, temos a paralinguística, que, de acordo com Sundeen et al. (1985 apud STEFANELLI, 1993, p. 40), pode ser considerada, em sua essência, como “a comunicação sobre a comunicação; é como se houvesse uma instrução sobre como compreender a mensagem emitida”. Bowditch e Buono (2002) explica que, nesse tipo de comunicação, são considera- dos o tom de voz, ritmo e demais particularidades extralinguísticas da fala, como pausas, silêncios e timbres de voz. Os autores destacam a importância de estarmos atentos a esse importante referencial de informação nas relações interpessoais. UNIDADE 1 150 Conhecendo sobre esses aspectos essenciais das interações sociais, avançamos, agora, para o entendimento deles na escola, entendida como uma organização que apresenta uma estrutura complexa em que estão reunidas diversas pessoas com histórias, cultura e valores distintos. Trabalhar diariamente com pessoas é um desafio, uma vez que ter a capacidade de desenvolver relacionamentos inter- pessoais saudáveis tem sido uma das competênciasmais esperada dos profissio- nais na contemporaneidade (SILVA et al., 2008). Segundo Bock, Furtado e Teixeira (2002), a Psicologia da Educação tem ela- borado, ao longo da história, maneiras para compreender o ser humano, de quem as condutas no contexto escolar são entendidas a partir das relações estabelecidas, considerando as subjetividades desenvolvidas na relação com a sociedade e a cultura. Entende-se que a escola tem o compromisso não só na estruturação, ela- boração e transmissão do conhecimento científico, mas também na formação do sujeito para a cidadania, auxiliando-o nos desafios de sua época e nas influências interpessoais que defrontarão em diversas situações e pessoas. Quando pensamos no processo de ensino e aprendizagem, compreendemos que este deve ser repleto de afetividade, envolvendo sentimentos relacionados tanto à satisfação em ensinar e aprender, como também outros sentimentos que provocam sofrimento psíquico, tanto no professor quanto no aluno, que são a baixa autoestima, frustração e tristeza. Quando falamos desses sentimentos, de- paramo-nos com discussões sobre o bullying, no caso dos alunos, e a Síndrome de Burnout e o mal estar docente, expressando o adoecimento/sofrimento do profissional da educação (FACCI, 2019). Contudo, para compreendermos melhor esses fenômenos, é necessário co- nhecer sobre a violência. Charlot (2002) a distinguiu em violência na escola, violência da escola e violência contra a escola. A primeira delas, a violência na escola, consiste na que é produzida no contexto escolar, mas não se relaciona diretamente com as ações que são desenvolvidas nesse contexto (exemplo: acerto de contas de questões extra escolares que são resolvidas no espaço da escola). Já a violência contra a escola é direcionada à própria instituição e a todos os que a representam (exemplo: insulto ao professor, depredação do patrimônio). Agora, a violência da escola consiste em “uma violência institucional, simbólica, das relações de poder entre professores e alunos, além de atos considerados pelos alunos como injustos ou racistas” (CHARLOT, 2002, p. 435). UNICESUMAR 151 “Fundamentalmente, a violência é percebida como exercício da força física e da coação psíquica para obrigar alguém a fazer alguma coisa contrária a si, contrária aos seus inte- resses e desejos, contrária ao seu corpo e à sua consciência, causando-lhe danos profun- dos e irreparáveis, como a morte, a loucura, a autoagressão ou a agressão aos outros”. Fonte: Chauí (2000, p. 432). EXPLORANDO IDEIAS Para Facci (2019), a violência na escola está direcionada tanto à instituição escolar quanto à comunidade escolar, agregando, também, a maneira que as re- lações se estabelecem no dia a dia da escola. Abramovay e Rua (2002) ressaltam que a compreensão e explicação da violência na escola perpassa pela análise de aspectos relacionados aos espaços intraescolar e extraescolar, aos atributos das vítimas e agressores, como também aos ambientes pelos quais o aluno frequenta. De acordo com Sposito (2001), a violência que chega ao meio pedagógico pode ter sua origem tanto na violência social externa que reflete na instituição escolar, principalmente, nas públicas, como, também, pode resultar de ações agressivas que se constroem dentro do contexto de ensino. Benevides-Pereira (2002) explica que essa situação somada à responsabilidade pela aprendizagem e bem estar dos alunos, como, também, as exigências profissionais, dentre outros fatores, acabam por tornar a atividade docente um tanto complexa. Todos esses aspectos que constituem o ambiente de trabalho docente desencadeiam um clima escolar/ social desfavorável, desencadeando, muitas vezes, a Síndrome de Burnout. UNIDADE 1 152 Em que consiste a Síndrome de Burnout? Segundo Maslach e Jackson (1981 apud CARLOTTO, 2002), o burnout se caracteriza por uma espécie de estresse relacionado ao trabalho comum a profissionais cuja atividade exige um cuidado relacionado à atenção direta, ininterrupta e de alto teor emocional. Numa pers- pectiva sociopsicológica apresentada por Maslach e seus colaboradores, podemos considerar que essa síndrome se constitui por três dimensões: despersonalização, exaustão emocional e um declínio na realização pessoal no que se refere ao tra- balho (CARLOTTO, 2002). É importante destacar que essa síndrome prejudica o contexto educacional, interferindo na obtenção dos objetivos pedagógicos propostos, desenvolvendo no docente um processo de apatia, alienação e desumanização. Dessa maneira, o adoecimento do docente pode repercutir de maneira negativa em toda a organi- zação escolar (GUGLIEIMI; TATROW, 1998). Outro aspecto a ser considerado em relação ao profissional da educação é o mal estar docente, que se origina da “falta de apoio da sociedade aos professores, tanto no terreno dos objetivos do ensino como nas compensações materiais e no reconhecimento do status que se lhes atribui” (MOSQUERA; STÖBAUS, 1996, p. 141). Em vista disso, Maslach e Leitter (1999) destacam que uma das mais relevan- tes estratégias de prevenção da Síndrome de Burnout vincula-se à promoção de valores humanos no contexto do trabalho, como também assumir valores que estejam direcionados para a coletividade, evitando valores que sejam individua- listas. O processo de mudança tanto pessoal quanto institucional deve partir de propostas que sejam participativas e construtivas, promovendo a estruturação de espaços que sejam mais saudáveis no ambiente de trabalho. Para isso, é essencial a avaliação constante do clima escolar/social averiguan- do os aspectos relacionados a fatores de risco de proteção, como também as di- ficuldades a serem vencidas, buscando estratégias que possibilitem a todos os envolvidos no sistema escolar examinar os suportes necessários para melhorar o clima escolar/escolar como, também, a prevenção de fatores de risco, princi- palmente, em relação à violência (ÁRON; MILIC, 1999). UNICESUMAR 153 Um outro cuidado que se deve ter no contexto escolar com relação à violência refere-se ao aluno, sendo que uma das manifestações dela é o bullying. Conforme Smith (2002 apud ANTUNES, 2010), o bullying caracteriza-se por comporta- mentos agressivos, repetitivos, apoiados num desequilíbrio de poder. O destaque quanto à natureza repetitiva do bullying acontece devido à mesma pessoa ser o alvo de agressões por várias vezes, não sendo capaz de se defender de maneira eficiente a ponto de conseguir cessá-la. Com relação ao desequilíbrio de poder, caracteriza-se por diferenças quanto à idade, estatura, desenvolvimento tanto físico quanto emocional e, também, pelo suporte de outros colegas envolvidos na situação (FANTE, 2005; OLWEUS, 1993). EU INDICO Extraordinário é um filme muito incomum que trata vários aspectos das relações humanas, como empatia, sensibilidade social, comuni- cação, estereótipos, bullying, violência escolar, entre outros, de uma maneira bastante reflexiva. Conta a história de Auggie Pullman, um menino que nasceu com uma deformação facial, passou por várias cirurgias e, aos 10 anos, frequentará, pela primeira vez, uma escola regular e terá que lidar com a sensação constante de ser sempre observado e avaliado por todos ao seu redor. Assista e faça o exercício de identificar nas cenas os aspectos mencionados anteriormente. EU INDICO Esse tema despertou seu interesse? Quer conhecer um pouco mais sobre a Síndrome de Burnout? Então, leia o texto “Síndrome de Burnout ou estafa profissional e os transtornos psiquiátricos” em Para Aguiar e Barrera (2017), o bullying apresenta duas variações, podendo ser direto ou indireto. Quando ocorre o bullying direto, o agressor foca suas agres- sões diretamente à vítima (exemplo: ofensas, xingamentos, apelidos impróprios, entre outros), podendo apresentar, também, agressões físicas e até sexuais. Pode acontecer da vítima ter seus pertences roubados ou danificados, pode, ainda, ser forçada a pagar despesas ou fazer atividades escolares dosagressores. Já no bullying indireto, verificamos atos que têm como objetivo ignorar ou excluir UNIDADE 1 154 a vítima por meio de mentiras, boatos humilhantes e difamatórios, buscando desprestigiar a imagem da vítima socialmente. Com um novo cenário onde encontramos uma influência acelerada do desen- volvimento de novas tecnologias de comunicação e sua infiltração no contexto social, deparamo-nos com um outro tipo de bullying: o cyberbullying. Com isso, as agressões e a violência estenderam-se para além do meio escolar por meio de instrumentos tecnológicos, como aparelhos celulares e internet (SLONJE; SMITH, 2008). Shariff (2011 apud WENDT; LISBOA, 2014, p. 42) acrescenta: “ [...] é importante contextualizar o fenômeno, ou seja, considerando o tipo de ato realizado (por exemplo, violação de senhas, acesso e roubo de dados pessoais, piadas e comportamentos de humilhação, entre outros) e o meio onde ocorre (sites de redes sociais, e-mails, torpedos SMS [Short Message Service], entre outros). No que se refere aos papéis desempenhado por cada sujeito na ocorrência, Antunes (2010) reuniu as tipologias apresentando dois tipos de agressores ou autores (os líderes e os seguidores); três espécie de vítimas ou alvos (passivas típicas, vítimas intimidadora dos outros e agressivas provocadoras); e qua- tro jeitos de testemunhas (os reforçadores da intimidação, os intimidadores seguidores com participação ativa na intimidação, os que só observam e os que defendem a vítima). O bullying é um tema bastante atual e complexo. O conhecimento sobre suas manifestações é essencial para o profissional da educação. Será que sabemos realmente identificar os protagonistas dessa situação de violência? Então, quer saber mais? Este podcast, com certeza, ampliará a sua visão sobre o tema. O bullying apresenta consequências importantes tanto no processo de ensino- -aprendizagem, no desenvolvimento psicossocial como, também, na saúde (ZE- QUINÃO et al., 2017). Segundo Sampaio et al. (2015), as vítimas podem apre- sentar alterações no seu rendimento escolar, levando ao fracasso ou abandono UNICESUMAR 155 da escola, como, também, desenvolver quadros psicopatológicos — depressão, medo, fobia social, autoflagelação, ansiedade generalizada, baixa estima, trans- tornos alimentares, pensamentos negativistas e ideação suicida. Com relação aos agressores, Mello et al. (2017) esclarecem sua tendência em apresentar com- portamentos de risco para sua integridade física, alterações na saúde mental e, também, dificuldades em seu processo de aprendizagem. “A terceira edição da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar, por exemplo, revelou que 88,9% das escolas investigadas no país possuem uma política que proíbe a prática de bullying, entretanto, mesmo assim, 20,1% dos seus alunos admitem praticarem esse tipo de violência”. Fonte: Oliboni et al. (2019, p. 10). PENSANDO JUNTOS Toro, Neves e Rezende (2010, p. 135), em seus estudos, destacam “que o cenário de violência na escola está ancorado em relações de expropriação de poder sus- tentadas por autoritarismo, repressão e ruptura do diálogo, elementos essenciais à potencialização do bullying”. Os autores enfatizam que, para que ocorra uma mudança nesse cenário, é necessário que se construam relações baseadas em princípios de respeito, tolerância, desenvolvimento e criação. É fundamental o entendimento sobre o bullying, sabendo, assim, identificar situações de violência na escola, pensando em estratégias de enfrentamento. Esse, com certeza, é um grande desafio, mas torna-se fundamental nas diferentes instâncias que organi- zam o contexto educacional. Diante disso, Cardoso (2009) esclarece que a violência consiste em um com- portamento aprendido e que, por isso, pode ser desaprendido, dessa forma, a escola se torna o ambiente ideal para o desenvolvimento de programas de prevenção, trabalhando estratégias de resolução de conflitos, o respeito mú- tuo, o autocontrole, modos de resistir à frustração como, também, noções de equidade, conscientização e respeito às especificidades. Para o autor, essas ex- periências tanto podem ser aprendidas quanto experimentadas e concretizadas por meio do debate de ideias e diálogo, possibilitando, assim, que optem por alternativas não violentas. UNIDADE 1 156 Essa ideia perpassa pelo entendimento do que é essencial no processo de cons- trução da subjetividade do sujeito. Como, porém, ocorre a constituição da subje- tividade? Podemos entender que a subjetividade organiza-se articulada à história, ou seja, o sujeito apresenta marcas da sua cultura como, também, das experiências imediatas que o caracterizam. Assim, podemos considerar que a compreensão da tradição cultural proporciona ao sujeito o seu reconhecimento como, também, o reconhecimento do outro por meio de memórias e narrativas sobre si e, também, sobre o entorno social (BIRMAN, 1997; LE GOFF, 1996). Souza (2004) reafirma esse entendimento ao ressaltar a importância de con- siderar, no processo de constituição do sujeito, tanto o coletivo quanto o singular, reconhecendo a importância de sua história e experiências. Entendendo que: “ [...] o entorno social, representado pelos valores, conhecimentos e ideais sociais predominantes em determinado período histórico, articula-se à elaboração de pressupostos coletivos, no sentido da sua predominância em relação às pessoas que vivem nesse período. Nessa perspectiva, configura-se a construção de uma rede cultural e social que se agrega à constituição subjetiva, mas não restringe ou define essa constituição, já que o aspecto singular se configura via as experiências idiossincráticas das pessoas, ou seja, pela apropriação que elas realizam da dimensão coletiva (SOUZA, 2004, p. 121). UNICESUMAR 157 Dentro dessa perspectiva, entendemos que a organização da constituição psíquica está atrelada tanto a questões singulares quanto coletivas, estas, por sua vez, com- preendidas numa dimensão social e histórica. É essencial o conhecimento a respeito da tradição cultural em que o sujeito está inserido e como ele se apropria dessa tradição fundamental na formação da sua subjetividade (CASTORIADIS, 1982). Destarte, o fato é que, mesmo que a subjetividade refira-se ao que é pró- prio e único do sujeito, não quer dizer que a sua origem está no seu interior. Sua gênese encontra-se nas relações sociais do sujeito, no momento em que se apropria dessas relações de maneira singular. Isso significa que o desenvolvi- mento da subjetividade acontece numa relação contínua entre interno e externo (SILVA, 2009). Rey (2003) acrescenta que a subjetividade é um processo que busca tornar o universal em único, singular, isso significa tornar o sujeito como pertencente ao gênero humano. A escola, segundo Vygotsky (2007), tem um papel fundamental nesse pro- cesso de construção da subjetividade do sujeito ao entendê-lo como um ser psi- cológico que se desenvolve numa sociedade escolarizada. O processo de media- ção realizado pelo profissional da educação relacionando o aluno às atividades propostas no contexto da sala de aula apresenta algumas especificidades, isso significa que a educação formal tem como finalidade possibilitar a apropriação de instrumentos culturais fundamentais, propiciando o entendimento da realidade social como, também, promovendo o seu desenvolvimento pessoal. Quando a prática pedagógica viabiliza o acesso a esses conhecimentos, passa a contribuir na apropriação de sistemas de referência que possibilitam ao sujeito a ampliação de oportunidades de desenvolvimento a níveis mais elevados, indo além da satisfação de necessidades identificadas e colocadas pelo desenvolvi- mento permanente, mas criando novas necessidades, ponderando sobre o desen- volvimento potencial. As ações pedagógicas não só estimulam como, também, potencializam o desenvolvimento do sujeito (VYGOTSKY, 2007). O profissional da educação deve conscientizar-se que suas relações e ações podem influenciarna vida do aluno. “Ser consciente sobre algo não nos possibilita controlar a própria produção subjetiva, mas nos possibilita agir com intencionali- dade” (ROSSATO; MATOS; PAULA, 2018, p. 17). Também é a consciência de que o profissional da educação pode mobilizar experiências que possibilitem oportu- nidades de produzir novos sentidos subjetivos pelo aluno no transcorrer de sua vida. Mesmo não podendo controlar a produção subjetiva do aluno, o profissional UNIDADE 1 158 da educação pode proporcionar relações de diálogo, sendo consciente dos des- dobramentos que podem surgir, possibilitando espaços de autoria, expressão e pertencimento, promovendo vivências que dinamizam a formação de sentidos subjetivos. Estes, por sua vez, mobilizam-se por meio de envolvimento emocional naquilo que é vivenciado, não acontecendo em circunstâncias automatizadas e que não proveem relações dialógicas (ROSSATO; MATOS; PAULA, 2018). Diante disso, encerramos esta unidade destacando que são as pessoas que podem fazer a diferença no processo educacional por meio das ações que rea- lizam, pelas atitudes assumidas, pelo modo com que utilizam os recursos que estão ao seu dispor, pelo empenho que empregam na produção, na busca por novos recursos, pelas estratégias empregadas na solução de situações problemas, na forma com que enfrentam os desafios e, principalmente, na promoção do desenvolvimento (LUCK, 2009). Os conteúdos abordados nesta unidade oferecem subsídios importantes para uma compreensão mais ampla do sujeito que aprende, o intuito é entender que, no processo de ensino-aprendizagem, existem muitos outros aspectos envolvidos que vão além do conteúdo científico. As emoções e as afetividades fazem parte do contexto da aprendizagem e devem ser consideradas e exploradas com o intuito de proporcionar ao sujeito experiências de aprendizagem significativas. É fundamental que você, futuro(a) profissional da educação, tenha claro o quanto influencia e também é influen- ciado pelas relações que são estabelecidas nesse contexto. Tenha o compromisso de estar atento(a) a essas relações, identificando possíveis desajustes, buscando alternativas que possibilitem relações mais saudáveis, tanto com os alunos quanto com os demais envolvidos no contexto escolar. Por isso, a importância de proporcionar ao aluno atividades que tenham sen- tido e significado, estimulando-o no seu processo de desenvolvimento como um todo. Contudo, para isso, a sua prática também deve estar pautada nesses princípios, não se limitando à reprodução de conteúdo. A expectativa, ao final desta unidade, é que esse conteúdo seja significativo em seu trabalho profissional, abrindo o seu olhar para outras possibilidades e com uma maior compreensão sobre esse ser humano que tem uma história de construções e desconstruções emocionais, como você. Que você exercite sempre a empatia. 159 AGORA É COM VOCÊ Um dos temas abordados nesta unidade foi a empatia, que, em linhas gerais, significa a ca- pacidade de estarmos nos colocando no lugar do outro. Compreendendo-o a partir da sua perspectiva, sendo essa atitude essencial no trabalho educacional. Como colocamos no início desta unidade, o autoconhecimento é fundamental nesse processo. Por isso, propomos com esta atividade que você organize um MAPA de EMPATIA, o qual proporcionará uma reflexão sobre alguns aspectos importantes das suas relações. Apresentamos um modelo para que você possa estruturar suas ideias. Mergulhe nessa oportunidade de autoconhecimento com o intuito de perceber pontos fortes e, também, o que precisa melhorar. Com certeza, isso fará a diferença no seu trabalho como profissional da educação, comprometido com a formação integral do aluno. Apresento, a seguir, as questões sobre as quais deverá refletir em cada um dos campos. O que VÊ? O que OUVE? O que PENSA E SENTE? O que FALA E FAZ? Quais são as NECESSIDADES?Quais são as DORES? Ideias que lhe in�uenciam, ídolos, estilo musical, meios de comunicação. Como é o contexto que vive? Como são seus amigos? Como é seu cotidiano? Como se sente em relação ao mundo, suas preocupações e sonhos. Sobre o que fala e como age, quais os seus hobbies. Medos, frustrações, obstáculos que deseja transpor. O que entende por sucesso, onde quer chegar, qual seria a solução de seus problemas. 160 AGORA É COM VOCÊ O que VÊ? O que OUVE? O que PENSA E SENTE? O que FALA E FAZ? Quais são as NECESSIDADES?Quais são as DORES? 161 CONFIRA SUA RESPOSTA Essa atividade busca um aprofundamento pessoal ao possibilitar ao(à) aluno(a) reflexões sobre as diversas áreas de relações, buscando o autoconhecimento. Para isso, deverá responder aos questionamentos relacionados a cada campo e refletir sobre sua maneira de pensar e agir. MEU ESPAÇO MEU ESPAÇO 164 REFERÊNCIAS Unidade 1 ANTUNES, M. A. M. Psicologia escolar e educacional: história, compromissos e perspectivas. Cadernos de Psicopedagogia, v. 6, n. 11, 2007. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo. php?pid=S1413-85572008000200020&script=sci_arttext. Acesso em: 11 nov. 2020. BOCK, A. M. B.; TEIXEIRA, M. L. T.; FURTADO, O. Psicologias: uma introdução ao estudo de psi- cologia. 15. ed. São Paulo: Saraiva Educação, 2018. BOTT, E. Família e rede social. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1976. CALDEIRA, S. N. Da Psicologia à Psicologia da Educação. Universidade de Açores. 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