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SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................... 3 2 SAÚDE MENTAL ................................................................................. 4 3 SAÚDE MENTAL EM GESTANTES .................................................. 26 4 SAÚDE MENTAL DE ADOLESCENTES NA GRAVIDEZ .................. 35 5 SAÚDE MENTAL DE GESTANTES QUE CONVIVEM COM DOENÇAS CRÔNICAS .............................................................................................. 39 6 TRANSTORNOS PSIQUIÁTRICOS NA GESTAÇÃO E NO PUERPÉRIO ............................................................................................ 42 6.3 Principais Fatores de Risco ............................................................ 45 6.4 Etiologia .......................................................................................... 46 6.5 Transtorno obsessivo-compulsivo – TOC ....................................... 46 6.6 Transtorno do pânico ...................................................................... 47 6.7 Transtornos puerperais ................................................................... 48 6.8 Mulheres com depressão pós-parto ................................................ 51 6.9 Importância do diagnóstico e do tratamento precoce ..................... 52 6.10 Opções de tratamento .................................................................. 54 6.11 Utilização de psicofármacos durante a amamentação .................. 54 6.12 Tratamento hormonal .................................................................... 55 6.13 Psicoterapia .................................................................................. 56 7 BIBLIOGRAFIA ..................................................................................... 59 1 INTRODUÇÃO Prezado aluno! O Grupo Educacional FAVENI, esclarece que o material virtual é semelhante ao da sala de aula presencial. Em uma sala de aula, é raro – quase improvável - um aluno se levantar, interromper a exposição, dirigir-se ao professor e fazer uma pergunta, para que seja esclarecida uma dúvida sobre o tema tratado. O comum é que esse aluno faça a pergunta em voz alta para todos ouvirem e todos ouvirão a resposta. No espaço virtual, é a mesma coisa. Não hesite em perguntar, as perguntas poderão ser direcionadas ao protocolo de atendimento que serão respondidas em tempo hábil. Os cursos à distância exigem do aluno tempo e organização. No caso da nossa disciplina é preciso ter um horário destinado à leitura do texto base e à execução das avaliações propostas. A vantagem é que poderá reservar o dia da semana e a hora que lhe convier para isso. A organização é o quesito indispensável, porque há uma sequência a ser seguida e prazos definidos para as atividades. Bons estudos! 2 SAÚDE MENTAL Saúde e saúde mental têm conceitos difíceis que foram historicamente influenciados por contextos sócio-políticos e pelo desenvolvimento de práticas em saúde. Nos últimos dois séculos, a ascensão do discurso hegemônico definiu esses termos como específicos ao campo da medicina. No entanto, com a consolidação da atenção multidisciplinar, o conhecimento em diferentes áreas foi gradualmente incorporado a esses conceitos (ROCHA, DAVID 2015; HUNTER et al. 2013 apud GAINO, 2018) https://redacaonline.com.br Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS):A saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não consiste apenas na ausência de doença ou de enfermidade. A definição começou em 1946 e é inovadora e ambiciosa, porque não fornece conceitos inadequados de saúde, mas amplia o conceito para incluir aspectos físicos, mentais e sociais (HUNTER et al. 2013; ALMEIDA-FILHO, 2011; FRENK, GÓMEZ-DANTÉS, 2014 apud GAINO, 2018). Apesar das intenções positivas predefinidas, ela foi fortemente criticada durante seus 60 anos de existência isto se deve, em particular, ao fato de ser proposto um significado irreal, no qual as restrições humanas e ambientais tornarão impossível alcançar a condição de "completo bem-estar" impossível de alcançar HUNTER et al. 2013; GÓMEZ-DANTÉS, 2014 apud GAINO, 2018). Devido às críticas ao conceito da OMS e à adição de vários eventos políticos e econômicos, houve uma discussão sobre o novo paradigma: saúde é produção social. Essa nova visão é a combinação de medicina preventiva e métodos abrangentes de assistência médica, a expansão dos conceitos de educação em saúde e a rejeição de métodos higienistas (BIENTZLE et al. 2018; OMS/WHO, 1946; KIND, FERREIRA-NETO, 2013 apud GAINO, 2018). Seguindo a proposta de reforma do sistema de saúde do Brasil, o conceito de saúde foi formalmente revisitado e influenciado pela experiência internacional envolvendo políticas de saúde, conforme descrito na 8ª Conferência Nacional de Saúde, em 1986. Naquela época, sugeriu-se que a saúde deveria incluir fatores como dieta, educação, trabalho, status de moradia, renda e acesso a serviços de saúde (ROCHA, DAVID, 2015; FERTONANI, 2015 apud GAINO, 2018). Como resultado, considerando os princípios de universalidade, integralidade e equidade na assistência à saúde, as pessoas passaram a entender o conceito de saúde no Brasil de maneira mais complexa. No entanto, esses princípios coexistem com métodos claramente relacionados à visão antiga (FERTONANI, 2015 apud GAINO, 2018). A palavra ‘bem-estar’, na definição da OMS é Um componente do conceito de saúde e também de saúde mental, é compreendido como um constructo de natureza subjetiva, intensamente influenciado pela cultura.A OMS define saúde mental como: m estado de bem-estar no qual um indivíduo percebe suas próprias habilidades, pode lidar com os estresses cotidianos, pode trabalhar produtivamente e é capaz de contribuir para sua comunidade (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2014 apud GAINO, 2018). A definição de saúde mental é objeto de vários tipos de conhecimento, mas, prevalece um discurso psiquiátrico que a compreende como contrária à loucura, o que indica que as pessoas com doença mental não podem ter nenhum grau de saúde mental, felicidade ou qualidade de vida, por exemplo, como se suas crises ou sintomas fossem ininterruptos (AMARANTE, 2013; FOUCAULT, 2012 apud GAINO, 2018). Na década de 1960, o psiquiatra italiano Franco Basaglia sugeriu uma reafirmação do conceito de loucura, modificando o foco da doença e ampliando as questões de cidadania e inclusão social. Essa ideia ganhou o apoio de apoiadores e desencadeou um movimento que afetou o conceito de saúde mental no país e levou à reforma da psiquiatria no Brasil (KYRILLOS, 2015; COSTA, 2016 apud GAINO, 2018). Diante do exposto, é compreensível que existam dois exemplos principais para discutir os conceitos de saúde e saúde mental, a saber, o exemplo biomédico e o exemplo da produção social de saúde. Antes de tudo, o foco é apenas a doença e suas manifestações, a loucura como sendo necessariamente o objeto de estudo da psiquiatria. No segundo, a saúde é mais complexa do que as manifestações de doenças, incluindo aspectos sociais, econômicos, culturais e ambientais. Nesse paradigma, a loucura não é apenas um diagnóstico psiquiátrico, porque pacientes com doenças mentais podem ter qualidade de vida, participar de atividades comunitárias e realizar seu potencial (GAINO, 2018). O sistema único de saúde do Brasil adotou um conceito expandido de saúde e priorizou o atendimento em saúde mental. No entanto, este estudo pressupõe que essa perspectiva não foi naturalizada pelos profissionais de saúde que integram esse sistema, ainda dominando o paradigma biomédico (GAINO, 2018). 2.1 Manuais de classificações Psiquiátricas e diagnósticos Alguns autores refletem mais intensamente a respeito do própriosistema de classificação psiquiátrica, os chamados manuais como o DSM-IV e CID-10. (GAMA, 2014). Caponi (2009) apud Gama (2014) afirma que as classificações psiquiátricas atuais se referem a sentimentos, condutas e comportamentos de sujeitos, não levando em conta os vínculos, as relações pessoais, de trabalho e afetivas no momento de se definir o diagnóstico. https://danjosua.blogosfera.uol.com.br Pereira (2000) faz uma problematização da própria concepção dos manuais de diagnósticos psiquiátricos como o DSM-IV e o CID-10. Identificando que, Atualmente, a abordagem hegemônica privilegia os sintomas do paciente e está unida a tentativa de criar uma abordagem empírica, operacional e pragmática dos problemas mentais (PEREIRA, 2000 apud GAMA, 2014). Este movimento foi iniciado por um grupo de psiquiatras americanos na década de 1970. Inicialmente, objetivou criar uma classificação de doença mental para comunicação científica. Desta forma, esta abordagem necessitaria ser ateórica sem pretensão de se constituir como uma psicopatologia. No entanto, o que observamos foi uma mudança do foco inicial, porque, de uma perspectiva biológica de problemas psicológicos, o debate sobre a etiologia da doença limitou-se à resposta de um determino quadro a um determinado medicamento. Portanto, o debate psicopatológico foi cancelado para apoiar o diagnóstico. Até a década de 1960, todos os efeitos da psicanálise na psicopatologia foram subitamente substituídos pelos efeitos da psicofarmacologia. Novas entidades nosológicas são criadas sem considerar a dinâmica ou a estrutura da doença (GAMA, 2014). Destaca-se que as versões mais recentes desses manuais abolem o chamado diagnóstico dimensional, que envolve alguma continuidade entre os vários quadros não existem fronteiras claramente delineadas e rígidas, mas são substituídas por classificações claras e objetivas. “Isso se explica devido à forma como os sintomas eram concebidos: sendo expressões polimórficas de processos subjacentes (que ocorriam sob a superfície) – o mesmo sintoma, ou um determinado conjunto de sintomas, poderia, em casos diferentes, estar referidos a mecanismos diferentes. O inverso também podia ocorrer: sintomas diferentes eram referidos a um mesmo mecanismo subjacente. Os opositores desta visão “dimensional” argumentavam que a falta de critérios objetivos para determinar as fronteiras entre as categorias diagnósticas levava a uma baixa confiabilidade do diagnóstico (RUSSO E VENÂNCIO, 2006 apud GAMA, 2014). Uma das consequências dessa mudança é a composição do discurso hegemônico, que delibera sobre a legitimidade das proposições neste campo. De tal modo, o suposto “ateorismo” destes manuais acabou por tirar do debate cientificamente autorizado, todas as outras disciplinas como a psicanálise, a fenomenologia, e a análise existencial resultando numa percepção cada vez mais natural do sofrimento mental deixando de lado as dimensões subjetiva, cultural e histórica (PEREIRA, 2000 apud GAMA, 2014). Russo e Venâncio (2006) chamam atenção para a visão totalmente biológica articulada à hegemonia do tratamento farmacológico. Esses pesquisadores questionam se o grande aumento no número de categorias de diagnóstico não está diretamente relacionado à produção de novos medicamentos, ou seja, se eles têm benefícios econômicos (RUSSO; VENÂNCIO, 2006 apud GAMA, 2014). 2.2 A demanda da saúde mental – pesquisas epistemológicas Estudo epidemiológico sobre a prevalência de doenças mentais na população com base na mesma lógica, apontada na construção do conceito de saúde mental. São estudos transversais que usam escalas de sensibilidade para determinado número de variáveis representadas pelos sintomas do sujeito. A argumentação é totalmente estruturada a partir dos números obtidos e não se averigua questionamento sobre os instrumentos usados na pesquisa. Como já dissemos, essas ferramentas definirão o padrão de normalidade (CANGUILHEM, 1990 apud GAMA, 2014). Foi identificado alguns estudos mais conexos à demanda de Saúde Mental da Atenção Primária que estão fundamentados nos conceitos de Transtorno Mental Comum, Sofrimento Difuso ou Transtorno Psiquiátrico Menor. Esses nomes se referem a configurações clínicas muito semelhantes, ligadas a queixas somáticas sem especificação como dores no corpo, dores de cabeça, mal-estar, insônia, nervosismo, nem sempre classificado como uma síndrome psiquiátrica importante (MARAGNO et. al., 2006; FONSECA et al., 2008; VALLA, 2001 apud GAMA, 2014). Declarar tais reclamações é um dos principais requisitos da atenção primária e, geralmente, não recebe tratamento. Essa demanda é classificada como: poliqueixosos, psicossomáticos, funcionais, psicofuncionais, histéricos e pitiáticos. Eles insistem em treinar os profissionais da atenção básica para entender a importância desses quadros apresentados, porque muitas vezes exibem essas queixas e são tratadas com preconceito. Apontam que a compreensão deste problema vai bem longe da individuação do problema, é necessário expandir o foco para o contexto social, as relações sociais, as condições socioeconômicas (Fonseca et al., 2008 apud GAMA, 2014). Esta configuração clínica é subnotificada, porque nenhum usuário procura tratamento e, quando procura, não recebe a atenção e o tratamento adequado que merece. Na pesquisa realizada, a prevalência foi de 24,95%, e os grupos mais vulneráveis foram mulheres, idosos, baixa escolaridade e baixa renda per capita (MARAGNO et al., 2006 apud GAMA, 2014). A relação entre incidência de transtornos mentais e classe econômica surge em vários estudos (FLECK et al., 2002; COSTA et al., 2002; CAPRARA, RODRIGUES, 2004; KRONBAUER, MENEGHEL, 2005; MARAGNO et al., 2006; MARTIN et al., 2007; BANDEIRA et al., 2007; LUDERMIR 2008; FONSECA et al., 2008; FONSECA, 2009 apud GAMA, 2014). A relação inversa entre transtornos mentais e classe econômica é um dos resultados mais consistentes dos estudos epidemiológicos da população brasileira e da saúde primária. Esses dados confirmam outros estudos internacionais que vinculam baixo status socioeconômico ao aumento de problemas mentais (KAC et al., 2006 apud GAMA, 2014). Esses estudos nos trazem algumas reflexões, incluindo a compreensão do conceito da pesquisa em si, que tipo de conceito de saúde / doença mental ela apoia, o que os resultados significam, como entender a conexão com a vulnerabilidade social e todos esses serviços e o impacto dos profissionais de saúde (GAMA, 2014). A primeira questão está relacionada ao aumento da sensibilidade dos instrumentos de pesquisa. A tendência de criar categorias mais abrangentes (como transtornos mentais comuns, morbidade psiquiátrica menor ou sofrimento mental difusa). Pode desencadear o processo patológico do estado afetivo. Comportamentos, sentimentos e situações fazem parte da vida cotidiana das pessoas, ou seja, uma certa flutuação do estado afetivo pode ser considerada um estado patológico, e a resposta para esses "problemas" geralmente é a terapia medicamentosa (GAMA, 2014). A Necessidade de tornar mais visível essa manifestação de sofrimento e estabelecendo uma conexão entre essas manifestações de sofrimento e suas raízes psicossociais. Entendemos que essas conexões devem ir além dos mecanismos existentes na racionalidade da ciência tradicional e introduzir vários elementos que tornarão cada situação singular (FONSECA et al., 2008 apud GAMA, 2014). https://veja.abril.com.br O segundo ponto que chamou nossa atenção está relacionado à correlação entre problemas mentais e indicadores sociais. Novamente, estamos diante de um problema muito complexo, porque a conexão entre "pobreza" e "loucura" geralmente é rapidamente incorporada à imaginação da população em geral e pelos profissionaisde saúde. Compreender o escopo dessa "relevância" e o comportamento estrutural resultante da saúde mental é um desafio (GAMA, 2014). A relação entre indicadores sociais e problemas mentais não devem induzir ao preconceito no qual as populações das periferias permaneceriam condenadas a uma situação estática e imutável. Por outro lado, estudos epidemiológicos mostraram que, certas condições de vida podem predispor a população a doenças não transmissíveis e não infecciosas, mas têm o potencial de incapacidade equivalente a essa manifestação já reconhecida no campo da saúde pública (Fonseca et al., 2008 apud GAMA, 2014). 2.3 O que é vulnerabilidade e sua relação com a saúde mental? O conceito de vulnerabilidade também está imerso neste cenário de lógicas conflitantes. assinalou-se que, na década de 1980, na perspectiva de re-conceituar a tendência individualizada das doenças, no contexto da epidemia de aids, o conceito de vulnerabilidade no campo da saúde foi restaurado. descrevem como se deu a reelaboração do conceito e vulnerabilidade nessa situação. Para o autor, neste caso, o uso do conceito de risco epidemiológico suscita uma série de problemas principalmente relacionados à especificidade da doença (MUÑOZ et al., 2007; AYRES et al., 2003 apud GAMA, 2014). Ocorre que os fatores de risco utilizados para os primeiros estudos epidemiológicos experimentaram um deslocamento discursivo de implicações práticas extremamente relevantes. De categorias analíticas instrutoras do raciocínio causal, o fator de risco transmutou-se no conceito operativo de grupo de risco. (...) A noção de grupo de risco difundiu-se amplamente, especialmente através da grande mídia, e agora não mais como categoria analítica abstrata, mas como verdadeira categoria “ontológica”, como uma identidade concreta AYRES et al., 2003 apud GAMA, 2014). Este momento fortaleceu atitudes preconceituosas contra os grupos de risco, especialmente contra os homossexuais. Estratégias preventivas foram desenvolvidas em torno dos temas de abstinência e isolamento sexual. O conceito de grupo de risco foi criticado tanto pela inadequação nas propostas de prevenção quanto pelos movimentos sociais pertinentes aos grupos atingidos. De “grupo de risco” Aposta vira estratégia de redução de risco e o conceito-chave passa para Comportamento de Risco”. Isso é para reduzir o estigma dos grupos mais afetados em primeiro lugar e incentivar os indivíduos a participar da prevenção. Esta mudança foi criticada também, já que trazia consigo a tendência de culpabilizar o indivíduo (culpabilização individual) pela contaminação (GAMA, 2014). A ideia que começou a surgir é defender estratégias de prevenção, que não se limitam à redução de riscos pessoais, mas também mostram que outras estratégias têm um escopo social e estrutural mais amplo. É nessa situação que o conceito de vulnerabilidade começa a ganhar visibilidade (GAMA, 2014). Entender a diferença entre vulnerabilidade e risco passa por uma primeira distinção atribuindo um caráter analítico ao risco e tendências de síntese para a vulnerabilidade. O conceito epidemiológico de risco tenta determinar o relacionamento entre os eventos para determinar a probabilidade de ocorrência de um fenômeno. Objetivo de expressar as chances matemáticas de adoecimento de qualquer indivíduo, desde que portador de certo traço identitário. Existe um processo analítico onde ocorre o isolamento de variáveis (dependentes e independentes) reconhecendo uma causalidade explicativa do mundo a partir de uma casuística identificada. Esta causalidade leva os profissionais e serviços de saúde a certas ações (AYRES et al., 2003 apud GAMA, 2014). O conceito de vulnerabilidade é muito diferente do conceito de risco. Ele busca identificar elementos relacionados ao processo de adoecimento em situações mais concretas e particulares, tendo empenho em compreender as mediações e relações que permitem estas situações, num movimento de síntese. A vulnerabilidade tem um caráter não probabilístico. Ela tem o desígnio de divulgar o “potencial de adoecimento relacionados a todo e cada indivíduo que vive em um certo conjunto de condições”. A vulnerabilidade encampa todos os fenômenos que são excluídos das análises de risco já que, não apresentam determinadas características determinadas pelos parâmetros epidemiológicos e estatísticos. Portanto, fenômenos que exibem inconstância, interferências, múltiplas causas, não permanência são os objetos de estudo das análises de vulnerabilidade (AYRES et al., 2003 apud GAMA, 2014). As análises de Vulnerabilidade envolveriam três eixos que ficariam interligados: o social, o individual e o programático. O individual conexo à qualidade de informação que os indivíduos dispõem sobre o problema, a capacidade de organizar estas informações e modifica-las em práticas de proteção e prevenção. O componente social relacionado às possibilidades de elaborar e obter informações, acesso aos meios escolarização, de comunicação, recursos materiais, enfrentamento de barreiras, influência nas decisões políticas sociais. O componente programático refere-se as políticas públicas e aos recursos sociais ligados ao problema. Os autores destacam que as análises de vulnerabilidade não prescindem das análises epidemiológicas de risco, mas são mais cuidadosas na constituição de propostas de intervenção a partir dos dados epidemiológicos (AYRES et al., 2003 apud GAMA, 2014). 2.4 Vulnerabilidade e saúde mental Nosso objetivo é mostrar que a filiação a determinado paradigma, ou seja, a origem epistemológica de determinado conhecimento influência nas práticas ligadas ao campo em questão (GAMA, 2014). Não propomos demonizar a ciência tradicional e sua racionalidade, nem de negar as várias inovações e produções e oriundas de certa forma de fazer ciência. No entanto, em questões envolvendo seres humanos, como saúde mental, devemos nos atentar para que as colaborações oriundas de distintas lógicas possam contribuir na justa medida e sejam impedidas de abarcarem algumas fronteiras intervindo de forma intrusa na própria compreensão de tratamento (GAMA, 2014). As tendências modeladoras estariam unidas a uma tradição de cultivo de saberes que não reconhece e nem faz uma autocrítica a respeito do reducionismo, presente no próprio movimento de construção de conceitos e categorias (AYRES et al., 2003 apud GAMA, 2014). O processo de construção teórica da ciência tradicional pressupõe recortes imprescindíveis para estabelecer certos conceitos que possam ser explicativos e generalizados. Porém, embora essa construção possa ser operativa, não é capaz de expressar o fenômeno na sua integridade. Para a autora não faz sentido a crítica sobre o pensamento científico no ser reducionismo e limitação, já que, estas características são características deste modelo de ciência. O problema é negar o limite da construção científica, os limites dos conceitos com relação a realidade. No limite, nenhuma ciência consegue dar conta da realidade. A singularidade presente em um determinado fenômeno sempre aparecerá mais complexa que os modelos explicativos (CZERESNIA, 2003 apud GAMA, 2014). A perspectiva construtivista, buscaria aproximar-se de forma mais complexa com relação aos fenômenos, no sentido de obter composições com a diversidade de relações existentes entre eles, considerando a dimensão da singularidade, da subjetividade e da experiência concreta (GAMA, 2014). Buscar dar conta da singularidade é estabelecer novas relações entre qualquer conhecimento construído por meio de conceitos e modelos e o acontecimento singular que se pretende explicar. Enfatiza-se aqui a necessidade de redimensionar os limites da ciência, revalorizando e ampliando a interação com outras formas legítimas de apreensão da realidade(CZERESNIA, 2003 apud GAMA, 2014). Na questão tratada, ou seja, as relações entre saúde mental e vulnerabilidade é relevante trabalharmos com perspectivas que consintam uma aproximação com o fenômeno do sofrimento mental sem prendê-lo em categorias, consentindo maior diversidade e flexibilidade tanto propostas de intervenção quanto na compreensão (GAMA, 2014). Assegura que a vulnerabilidade é multidimensional, implica em gradações e modificações no decorrer do tempo e tem caráter relacional. As pessoas podem não ser vulneráveis, mas estão vulneráveis em relação à determinada situação e num certo ponto do tempo e espaço. É relevante destacar o caráter relacional de alguma situação de vulnerabilidade (GOROVITZ, 1994 apud GAMA, 2014). Para entender a vulnerabilidade é imprescindível expandir o olhar, saindo do individual para o plano das suscetibilidades socialmente configuradas. Desta forma temos, por exemplo, o conceito de clínica ampliada que propõe uma prática clínica longitudinal e mais complexa. Pensar em termos de vulnerabilidade implica uma abertura para atos Inter setoriais e formação de redes de atenção que integrem áreas relacionadas à saúde do sujeito com a área da saúde (CAMPOS, 2003; CUNHA, 2005 apud GAMA, 2014). https://www.saocristovao.se.gov.br Outro ponto importante, relaciona-se à interface entre o serviço de saúde e a comunidade/população. Identificamos uma tendência na relação entre profissionais de saúde e populações que impõe a chamada racionalidade "científica" sem uma reflexão mais profunda sobre os fenômenos que enfrentam (GAMA, 2014). O aparecimento de uma ordem global que há uma racionalidade técnica produzirá tensão com relação à ordem local, da comunidade. Existiria uma razão local e uma razão global que em cada lugar se superporiam, movimentando-se dialeticamente, às vezes se associando, outras se contradizendo. Afirmando que, especialmente nas grandes cidades do terceiro mundo, a precariedade da vivência de uma parcela importante da população produz irá atores sociais que irão exercer vários tipos de ações no sentido de construção de modelos de adaptação que m características instáveis, plásticas e criativas embasados em relações de solidariedade. Esta condição propiciaria uma abertura nos espaços onde os pobres vivem e favoreceria espaços de criatividade e aproximativos. Em algumas circunstâncias, calharia a produção de debates novos sobre a realidade do dia a dia, novas finalidades e usos para técnicas e objetos, novas normas e práticas na vida afetiva e social (SANTOS, 2007 apud GAMA, 2014). É relevante reconhecer subsídios que nos deixem perceber os territórios mais vulneráveis com outros olhos, não apenas coisas negativas, mas também algum tipo de força baseada inteiramente no tipo de exclusão. Quando deixamos a análise macro, globalizada, e buscamos apreender as dinâmicas singulares de algumas pessoas, percebemos que o mundo é muito fragmentado e não há globalização. Esse aspecto é a base de nossa discussão, pois permite vislumbrar a possibilidade de uma única produção, ou seja, a relação entre a área de saúde e a população que vive em condições instáveis (GAMA, 2014). Ao analisar a subjetividade atual, destaca-se uma tendência ao empobrecimento simbólico e a necessidade de restabelecimento de um espaço subjetivo que permita a criação de sentidos integradores no dia-a-dia (ONOCKO CAMPOS et al., 2008 apud GAMA, 2014). A saúde psíquica está diretamente relacionada com a capacidade interpretativa, associativa, de elaboração e simbolização do psiquismo. Também está ligada à capacidade de fazer laços sociais. Mostrando que as características da sociedade atual vão precisamente atrapalhar estas operações, fragilizando o psiquismo do sujeito (KAËS, 1991-2005 apud GAMA, 2014). Nosso objetivo é trabalhar um conceito de saúde mental que permita ao sujeito um certo grau de liberdade para que ele possa conversar com diferentes instâncias sociais (saúde, justiça, trabalho) e com seus pares, sem submeter-se completamente a um discurso normativo, deixando um espaço para sua singularidade, para seu desejo aparecer. É importante enfatizar o aspecto de eterna criação e recriação das condições de manutenção da saúde mental do sujeito. Consideramos esta questão de importância vital, porque a saúde mental na atenção básica poderá de forma fácil se transformar num programa higienista para dominar a vida da população de baixa renda (GAMA, 2014). Portanto, a aproximação entre saúde/doença mental e vulnerabilidade social deve ser trabalhada com elementos que excedam o discurso técnico científico tradicional aliando outros conhecimentos unidos aos sujeitos que são afetados pelo sofrimento. Teria que ser repensado o papel do profissional técnico de saúde, afastando do lugar tradicional que é de imposição de uma certa lógica para transformar-se numa espécie de mediador entre recurso da sociedade e comunidade no processo de construção da saúde (AYRES, 2003 apud GAMA, 2014). Calculamos uma mudança na direção do tratamento afastando de práticas centradas na doença, na assistência e na intervenção medicamentosa para intervenções que apreciem a criação de sentidos para o sofrimento mental e que produzam aumento das relações sociais do sujeito portador de sofrimento mental (GAMA, 2014). 2.5 Estigmas relacionados às doenças mentais A estigmatização relacionada à doença mental é um dos principais obstáculos ao acesso aos serviços de saúde mental. Afinal, afeta não apenas as pessoas com doenças mentais, mas também os seus familiares, profissionais e serviços de atenção à saúde mental, e a própria psiquiatria enquanto especialidade médica. Entre outras implicações, as pessoas com doenças mentais frequentemente não têm sua condição reconhecida e menos ainda adequadamente tratada. Mesmo que não seja um processo mais amplo de exclusão social, muitas vezes encontram muitas desvantagens em termos de aprendizado, emprego, moradia e legislação social. Essas pessoas geralmente formam um processo de autoestigma, complexo de inferioridade, deterioração da saúde física, insatisfação e redução da qualidade de vida. Geralmente, as políticas públicas de saúde não incluem doenças mentais com a importância de um orçamento e ações adequados (dada a alta prevalência e incapacidade que causam) (JORGE, 2013). https://drjosesousa.wordpress.com De acordo com estudo realizado no Brasil, Leitão et al. (2002) descreveram que cerca de 70% dos pacientes com esquizofrenia não recebem tratamento regular, situação semelhante à descrita em outras doenças mentais e em outros países (THORNICROFT, 2008 apud JORGE, 2013). Fatores que levam a uma maior probabilidade de tratamentos serem evitados ou longo atraso na procura por cuidados à saúde mental incluem a falta de saberes sobre as características e tratabilidade das doenças mentais, ignorância sobre como ter acessos a tratamento e avaliação, preconceito contra as pessoas que têm doença mental e expectativa de discriminação contra as pessoas que têm um diagnóstico de doença mental (THORNICROFT, 2008 apud JORGE, 2013). Outro estudo realizado no Brasil, tendo como objetivo avaliar a frequência e os motivos de re-hospitalizações de portadores de psicose e transtorno bipolar, mostrou, na amostra estudada, a taxa de re-internações no primeiro ano após a alta foi de 42,6%. Sobre os fatores relacionados à readmissão ao hospital destacaram- se a contenção física durante a internação, o não comparecimento às consultas após a alta, o número de readmissões anteriores e a aprovação da família para a hospitalização permanente de indivíduos portadores de doença mental, estimados de forma estereotipada como não sadios e perigosos. Os autores concluíram que a estigmatização da doença mental pela família podelevar a um aumento da frequência de reinternações de pacientes internados (LOCH, 2012 apud JORGE, 2013). 2.6 Conceitos de transtornos mentais Conceito atual de transtornos mentais (do inglês mental disorder, introduzido pelo DMS-III). Refere-se a um grupo de sintomas (síndromes) ou padrões comportamentais e psicológicos clinicamente importantes e relacionados à sofrimento ou incapacidade (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 1980 apud JORGE, 2013). Assim, este conceito privilegia fenômenos universais e objetiváveis (que correspondem à noção de disease) em detrimento de experiências subjetivas (que correspondem à noção de illness) e contrapõe o conceito de dis-order (fora da ordem, desordem, transtorno, perturbação) O conceito clássico de doença mental. No entanto, podemos observar variações na forma como as pessoas veem os transtornos mentais, mesmo em pessoas que são relativamente semelhantes do ponto de vista sociocultural (JORGE, 2013). Estudantes de colleges norte-americanos compreendem os transtornos mentais como uma disfunção em seus mecanismos psicológicos e nas habilidades e enfatizam a presença de conflitos psicológicos, perturbações emocionais e incapacidade no funcionamento. Os estudantes universitários brasileiros compreendem que os aspectos mais distintivos do conceito dizem respeito a anormalidades estatísticas (desvio da norma), irracionalidade, fraqueza de caráter e reações comportamentais inesperadas (GIOSAN et al., 2001 apud JORGE, 2013). https://www.youtube.com/watch?v=EIVpJt2Po0c A forma que os transtornos mentais são definidos pelas concepções populares e pelos profissionais da área, tem uma relação próxima com os fenômenos do estigma e a discriminação sofrida por seus portadores (JORGE, 2013). 2.7 Aspectos históricos e conceituais do estigma O estigma associado à doença mental mostra mudanças ao longo do tempo e em diferentes culturas. O termo estigma origina-se do grego stizein e significa marcar, pontuar. Na Grécia antiga, escravos, criminosos e traidores eram marcados com sinais físicos, indicando que eram pessoas a serem evitadas, especialmente em locais públicos (JORGE, 2013). A relação entre estigma e doença mental existe há muito tempo, o que se reflete no entendimento da loucura como uma possessão demoníaca e uma punição por um pecado cometido, presente na Bíblia e ao longo dos séculos seguintes (p. ex., em Malleus Maleficarum). Por outro lado, a abordagem da medicina procurando causas naturalísticas da insanidade, relacionando-a à teoria da degenerescência – sendo assim, uma condição intratável – até o século XVIII os doentes eram segregados da sociedade e seu tratamento se restringia a acorrentá-los, açoitá-los ou submetê-los a purgações (JORGE, 2013). No século XIX, esta situação começa a mudar e grande relevância é dada a Pinel, na França. Quando ele introduziu o conceito de insanidade parcial e sugeriu tratamento em um ambiente apropriado (os asilos de então). Na mesma época, os Estados Unidos da América (EUA) experimentavam uma urbanização acelerada e imigração altíssima, o que era entendido como possíveis causas de doenças mentais e, assim, os asilos eram um local de isolamento para o tratamento das mesmas (JORGE, 2013). Em seu clássico livro, Estigma: Notas sobre a Manipulação da Identidade Deteriorada, estabelece que, o termo estigma será usado em referência a um atributo profundamente depreciativo, mas... (em) uma linguagem de relações e não de atributos...” E sobre aquele sobre quem recai um estigma que,“... deixamos de considerá-lo criatura comum e total, reduzindo-o a uma pessoa estragada e diminuída”. Assim, Goffman caracteriza o estigma quando o efeito é grande de descrédito da pessoa estigmatizada e o considera um tipo especial de relação entre estereótipo e atributo (ERVING GOFFMAN, 1963 apud JORGE, 2013). Já não bastava isolar os portadores de doenças mentais da sociedade, a aplicação de rótulos no que eles ofereciam de diferente e a associação destes a traços indesejáveis (estereótipos negativos) acentuaram esta separação: não são mais considerados “um de nós” e sim constituídos como um grupo à parte (“eles x nós”), grupo este que experimenta a discriminação e perda de status (LINK & PHELAN, 2001 apud JORGE, 2013). Os resultados das pesquisas realizadas nos cinco continentes são geralmente consistentes e indicam que nenhum país, sociedade ou cultura acredita que pessoas com doença mental tenham o mesmo valor que aquelas sem doença mental. (THORNICROFT et al., 2009 apud JORGE, 2013). A palavra estigma envolve distintos significados: saberes insuficiente ou inadequado (ignorância, estereótipo), pressupostos ou emoções negativas (preconceito) e comportamentos de esquiva e rejeição (discriminação). Como resultado, pessoas estigmatizadas experimentaram graus variados de separação social (JORGE, 2013). Pesquisas realizadas desde a década de 1950 comprovaram que pessoas com doenças mentais são vistas pela população com medo, desconfiança ou até mesmo nojo, e são consideradas perigosas, sujas, imprevisíveis e sem valor apud JORGE, 2013). Phelan e colaboradores, em levantamento realizado nos EUA em 1996 usando questionamentos semelhantes a um estudo realizado por Star na década de 1950, depararam com uma aceitação maior das doenças mentais menos grave, porém 2,5 vezes mais medo e estigma em relação a doenças mentais graves e quase o dobro de percepção de que as pessoas com doenças mentais são violentas (PHELAN & LINK, 1998; PHELAN et al., 2000 apud JORGE, 2013). Por outro lado, há pouco tempo, consultar um psiquiatra não era bem visto publicamente e as pessoas faziam uma avaliação dos profissionais que tratavam de doenças mentais de forma mais negativa do que aqueles que tratavam de doenças físicas (Star, 1957, Nunnally, 1961 apud Phelan et al., 2000 apud JORGE, 2013)., essa situação teve uma evolução positiva nos fins do século passado, contudo ainda é frequente em determinadas regiões de praticamente todos os países (JORGE, 2013). Estes dados podem ser entendidos em relação às doenças mentais menos graves pela evolução do tratamento e diagnóstico das doenças mentais, como também, pela crescente presença de temas de saúde mental em veículos de mídia (incluindo o cinema). Porém, programas de desinstitucionalização que estão sendo realizados sem a devida cobertura por serviços comunitários podem colaborar para a piora do cenário no que diz respeito às pessoas com doenças mentais graves, na medida em que a população fica mais exposta a elas, reforçando estereótipos negativos e o estigma (p. ex, ANGERMEYER et al., 2011 apud JORGE, 2013). No que diz respeito à relação de violência e doenças mentais, existe entre elas uma associação suavizada, porém com pequena magnitude do risco. Contudo, estudos demonstraram que violência pode acontecer em pacientes sem tratamento) ou com histórico de abuso de álcool ou drogas. Além disso, descreveram que pessoas com esquizofrenia eram mais vítimas de abuso ou violência que perpetradores de violência. (ERONEN et al.,1998; GARMENDIA et al., 1992; ARBOLEDA-FLOREZ et al.,1996; HÄFNER e BÖKER,1982 apud JORGE, 2013). 2.8 Estratégias para mudar atitudes estigmatizantes Segundo Corrigan et al. (2001), os psicólogos sociais identificaram três abordagens para mudar atitudes estigmatizantes: educação (que busca substituir ações estigmatizantes com concepções precisas sobre as doenças), contato (desafiando atitudes públicas sobre doenças mentais interagindo diretamente com pessoas que tem estas doenças) e protesto (que suprime ações estigmatizantes direcionadas a doenças mentais e comportamentos que promovem estas atitudes) (CORRIGAN et al., 2001 apud JORGE, 2013). Segundo estes autores, todas abordagensapresentam limitações: Educação melhora nos atributos relacionados a diversas doenças mentais, mas, de forma não duradoura e sem essencialmente mudar atitudes; o contato com portadores produz maiores mudanças positivas que educação para algumas doenças mentais (p. ex., depressão e psicose) porém, não para outras (p. ex., uso habitual de cocaína e retardo mental); protesto não traz mudanças significativas nos atributos relacionados a diversas doenças mentais (JORGE, 2013). Através de revisão sistemática da literatura, a hipótese de que o aumento do saber sobre os correlatos biológicos das doenças mentais na primeira década do século XXI demonstrou melhora do conhecimento público sobre as mesmas, em maior prontidão para buscar cuidados à saúde mental e em ações mais tolerantes em direção a pessoas mentalmente doentes. Os resultados mostraram que existia maior conhecimento sobre saúde mental – principalmente do modelo biológico de doenças mentais – e uma aceitação maior de ajuda profissional para problemas de saúde mental; em contraste, houve uma piora no que diz respeito a ações em relação a pessoas com doença mental (SCHOMERUS ET al., 2012 apud JORGE, 2013). https://www.antenalivre.pt Na medida em que a questão do estigma foi crescendo e se movendo em direção a um modelo de direitos humanos que o vê como uma forma de opressão social resultado de um processo sociopolítico complexo, adicionam a estas três vastamente reconhecidas estratégias, outras três: reforma das leis, defesa de direitos e manejo do auto-estigma (ARBOLEDA-FLÓREZ; STUART, 2012 apud JORGE 2013). Nos últimos 15 anos, muitas iniciativas foram tomadas no campo da psiquiatria e saúde mental em todo o mundo para combater o estigma e a discriminação relacionados a doenças mentais. Entre algumas delas, destacamos o Programa Global para Reduzir o Estigma e a Discriminação Relacionados à Esquizofrenia da Associação Psiquiátrica Mundial (World Psychiatric Association, 1998), possuem grupos de ação presentes em mais de 20 países. No Brasil, este programa iniciou em 2001, várias pesquisas e ações tem se estabelecido na tentativa de melhor entender as raízes e combater o estigma relacionado às doenças mentais (JORGE 2013). 3 SAÚDE MENTAL EM GESTANTES Do ponto de vista psicológico, hormonal, físico ou social, a gravidez é um período de muitas mudanças nas mulheres (Camacho et al., 2006A saúde mental das mulheres durante a gravidez e o puerpério é um tópico amplamente discutido na literatura científica (PINHEIRO, LAPREGA & FURTADO, 2005; BROWN, 2001; LLEWELLYN, STOWE & NEMEROFF, 1997 apud ALIANE, 2008). Isso ocorre porque muitas mulheres podem experimentar ansiedade, distúrbios emocionais e até psicose puerperal nesta fase de suas vidas. (CAMACHO et al. apud ALIANE, 2008). Segundo Camacho et al., o período gravídico-puerperal esse é o estágio com maior incidência de doença mental feminina, e é necessária atenção especial para manter ou restaurar a saúde e prevenir que as crianças encontrem dificuldades futuramente (CAMACHO et al. apud ALIANE, 2008). Como todos sabemos, os danos à saúde mental das mulheres grávidas terão um impacto negativo no relacionamento entre mãe e filho e afetarão o crescimento das crianças. No início, essas implicações podem expressar no recém-nascido em forma de irritabilidade, choro ou apatia (MOREIRA & FURTADO, 2002. apud ALIANE, 2008) e, futuramente, colaborar como um fator de risco para o desenvolvimento de distúrbios afetivos na idade adulta (GROSS, 1989; DODGE, 1990. apud ALIANE, 2008). Entre as doenças mentais mais estudadas na gravidez e no puerpério, a ansiedade e a depressão são as que recebem maior destaque. Além disso, o uso de álcool tem sido estudado, mesmo que não constitua uma característica psiquiátrica de abuso ou dependência, pois terá consequências irreversíveis para a saúde do bebê (ALIANE, 2008). Sobre os transtornos ansiosos, um estudo realizado por pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica do Chile (Jadresic, Jara, Miranda, Arrau & Araya, (1992) apud Aliane (2008), revelou que, em 108 mulheres grávidas, 23,1% apresentaram sintomas de ansiedade, e que o diagnóstico foi em 1,9% dos casos foi diagnosticado Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG). No Brasil, encontraram uma frequência semelhante (23,3%) de casos de ansiedade em gestantes da cidade de Piracicaba (SP), (FREITAS; BOTEGA, 2002 apud ALIANE, 2008). Em relação aos transtornos do humor, a incidência de sintomas depressivos encontrada em mulheres grávidas adultas foi de 20,4% (Falcone, Mäder, Nascimento, Santos & Nóbrega, 2005, apud Aliane 2008) 20,8% das adolescentes grávidas sofrem de depressão (Freitas & Botega, 2002 apud Aliane, 2008). Entre os adolescentes, a depressão está associada à ideação suicida em 16,7% dos casos. Por outro lado, o estudo realizado no Chile, o estudo constatou que a prevalência de transtornos depressivos entre as gestantes foi de 7,4% e entre as que estão no pós-parto foi de 10,2% (JADRESIC et al., 1992 apud ALIANE, 2008). Sobre o uso de álcool durante a gestação, uma pesquisa realizada em uma maternidade filantrópica de São Paulo identificou que entre 445 puérperas, 150 (33,7%) durante a gestação consumiram álcool. Das, 79 (17,8%) consumiram durante toda a gravidez enquanto as outras 71 puérperas (15,9%) até confirmarem a gravidez. Isto mostra que um número importante de mulheres fez a utilização de álcool durante a gestação, embora a maioria (84,5%) considerou que nenhuma bebida alcoólica deva ser consumida neste período. Estes dados demonstram que a maioria das mulheres sabem sobre os malefícios do uso de álcool no período da gravidez (KAUP, MERIGHI & TSUNECHIRO, 2001 apud ALIANE, 2008). A prevalência de transtornos de ansiedade, humor e alcoolismo entre mulheres grávidas e puérperas é alta, o que indica a importância da realização de pesquisas sobre esse tema. Nesse sentido, o estudo da prevalência de doenças mentais durante a gravidez e o puerpério é de grande importância na formulação de estratégias de saúde pública destinadas a manter a saúde das mulheres e prevenir as dificuldades futuras das crianças. (ALIANE, 2008). 3.1 Atuação multiprofissional e a saúde mental da gestante A gravidez é um tempo de transição que faz parte do processo normal do desenvolvimento humano. Há grandes transformações organismo da mulher e no seu bem-estar, alterando seu psiquismo e o seu papel sócio familiar (FALCONE, 2005). Segundo Falcone, p. 613, 2005 a literatura revela que, “O período gravídico-puerperal é o período que ocorre maior incidência de transtornos psíquicos na mulher, carecendo de atenção especial para recuperar ou manter o bem-estar, e prevenir possíveis dificuldades futuras para o filho. A intensidade das mudanças psicológicas dependerá de fatores familiares, conjugais, sociais, culturais e da personalidade da gestante” A depressão pós-parto é um problema que acomete cerca de 10% a 15% das mulheres em muitos países, havendo bastantes pesquisas na área Pesquisas atuais sugerem que a depressão pré-natal pode ter sido negligenciada, e poucos estudos científicos tentaram avaliar mudanças psicológicas durante a gravidez (FALCONE, 2005). Embora os resultados do estudo às vezes sejam contraditórios do ponto de vista epidemiológico, eles ainda são insuficientes, mas existem literaturas mostrando que fatores psicológicos podem causar complicações na gravidez, parto, puerpério e feto. Particularmente, esses fatores podem ser o estresse e ansiedade, agindo principalmente durante a gravidez (FALCONE, 2005). Zucchi, ao analisar a depressão na gravidez nos últimos 10 anos, ele descobriu dois grandes grupos de pesquisas. Aqueles que pesquisaram os fatores de risco para depressãona gravidez, como falta de parceiro ou de suporte familiar e social e dificuldades econômicas; e os que procuraram associar a depressão como fator de risco para certos desfechos obstétricos, como o baixo peso ao nascer, a irritabilidade do bebê, prematuridade ou mesmo a mortalidade neonatal (FALCONE, 2005). Estudos recentes mostram que a tensão da gestante incita a produção de determinados hormônios que atravessam a barreira placentária alcançando o organismo do feto em desenvolvimento. Dessa maneira, alteram a composição placentária e do ambiente fetal (FALCONE, 2005). Como dito anteriormente, prejuízos na saúde mental da gestante podem alterar a relação mãe-feto e futuramente o desenvolvimento da criança, que de início pode se expressar no recém-nascido em forma de choro, apatia irritabilidade e futuramente provocar distúrbios afetivos na idade adulta (FALCONE, 2005). A atuação multiprofissional com mulheres grávidas deve abarcar a interação de muitos fatores. Como: a história pessoal, os antecedentes ginecológicos e obstétricos, o momento histórico da gravidez, as características sociais, culturais e econômicas vigentes e qualidade da assistência. A assistência integral precisa ser capaz de proporcionar à mulher e ao concepto um tempo satisfatório de bem-estar, visando o fortalecimento do vínculo mãe-feto (FALCONE, 2005). Os profissionais que trabalham com gestantes precisam vê-las com uma "concepção de pessoa humana", buscar estabelecer mecanismos de interação que desvelem as verdadeiras necessidades e seus significados. Não devem adotar uma posição superior, vendo as mulheres grávidas como pessoas desamparadas, submissas e fracas. Se os profissionais e os serviço assumirem essa posição de igualdade, respeito e confiança em relação às suas experiências e aprendizagens obtidas, a relação será de crescimento mútuo e desenvolvimento emocional. Assim, o aspecto básico da assistência pré-natal competente, deve conter o cuidar da mulher grávida levando em conta as suas necessidades biopsicossociais e culturais (FALCONE, 2005). Os fatores que comumente influenciam negativamente no binômio materno fetal têm seu início no período pré-concepcional ou pré-natal. Durante esse tempo, os serviços de saúde têm oportunidade de trabalhar adequadamente tais fatores, buscando colaborar para promoção de uma gestação mais saudável (FALCONE, 2005). 3.2 Apego materno fetal e a saúde mental da gestante O vínculo constituído pela mãe com o feto durante a gestação tem sido considerado um importante preditor da qualidade da relação que os dois que se estabelecerá nos primeiros meses de vida (SHIN, PARK, & KIM, 2006 apud AVARENGA, 2012). Fatores psicológicos, fisiológicos, e sociais, além do próprio comportamento do feto nos últimos meses da gravidez, interferem na formação do vínculo, e a saúde mental da mulher tem relevantes repercussões sobre esse aspecto específico da maternidade (DIPIETRO, 2010; HART & MCMAHON, 2006 apud AVARENGA, 2012).). O conceito de apego materno-fetal tem sido usado na literatura para descrever a qualidade da relação da gestante com o feto. Foi definido por Cranley (1981) como o grau com o qual as mães se engajam em comportamentos indicadores de interação e afiliação com o seu bebê durante a gravidez. O apego materno-fetal pode ser avaliado com base na assiduidade de comportamentos que demonstram cuidado e comprometimento com o feto, como, por exemplo, evitar substâncias nocivas, alimentar-se bem, conversar com o bebê e acariciar a barriga (SALISBURY, LAW, LAGASSE, & LESTER, 2003 apud AVARENGA, 2012). Além dos comportamentos que demonstram envolvimento e preocupação com a criança, o apego materno-fetal pode ser detectado através de expectativas, sentimentos e pensamentos da gestante, como a tentar imaginar o rosto e a personalidade do bebê, e o desejo por segurá-lo no colo ou amamentá-lo (CRANLEY, 1981 apud AVARENGA, 2012). Segundo Shieh, Kravitz e Wang (2001) apud Avarenga (2012) vários autores identificaram os atributos críticos do apego materno-fetal. Desta forma, os distintos tipos de indicadores do apego materno-fetal podem agrupa-se em três dimensões que compõem esse construto: a cognitiva, a afetiva e a altruística: O apego cognitivo relaciona-se ao anseio de entender, conhecer ou definir o feto corresponde à imagem psicológica do feto produzida pela mulher grávida, sua concepção dele como pessoa e sua atribuição às características ou intenções ao feto. Quando as mulheres grávidas podem ver o feto como uma existência autônoma e real, essa dimensão do apego pode ser observada, e esse processo é especialmente favorecido devido à sua sensibilidade ao movimento fetal (AVARENGA, 2012). O apego afetivo corresponde ao prazer associado a fantasia e pensamentos que envolvem o bebê, no contato indireto e interação com o feto. O fato da gestante demonstrar entusiasmo e prazer com comportamentos como acariciar a barriga e falar com o bebê comprova essa dimensão do apego materno fetal AVARENGA, 2012). O apego altruístico refere-se ao fato de a mãe proteger o feto e de preparar- se para a chegada do filho. Os comportamentos relacionados a essa dimensão são: evitar substâncias nocivas para a saúde e o desenvolvimento do feto, preocupar-se com a sua saúde, evitar níveis excessivos de estresse mental e físico e fazer o acompanhamento pré-natal (CONDON, 1985 apud AVARENGA, 2012). Alguns estudos fornecem evidências de que os indicadores do apego materno-fetal vão aumentando ao longo da gestação, e especialmente nos últimos meses, devido aos movimentos do feto (DIPIETRO, 2010; SHIEH et al., 2001 apud AVARENGA, 2012). Com base nesse conceito, alguns estudos procuram identificar os preditores do apego materno-fetal. Características sociodemográficas da família como menor número de filhos e maior nível de instrução, favorecem o apego materno-fetal (Alhusen, 2008; Cannela, 2005). Além do mais, fica evidente o papel do apoio social à gestante, de fatores fisiológicos característicos da própria gravidez como a saúde da gestante e do bebê, e dos exames realizados no período prénatal, com destaque para a ultrassonografia (Yarcheski et al., 2009). A literatura mostra ainda o impacto da preocupação com a imagem corporal da gravida e os movimentos do feto (Alhusen, 2008; Di Pietro, 2010; Huang, Wang, & Chen, 2004). Também, variáveis psicológicas como níveis de depressão e ansiedade (Hart & McMahon, 2006; Lindgren, 2001; Seymir, Sjögren, Welles-Nyström, & Nissen, 2009), a personalidade e a autoestima materna têm sido associadas à formação do apego materno-fetal (DI PIETRO, 2010; YARCHESKI, MAHON, YARCHESKI, HANKS, & CANNELLA, 2009 apud AVARENGA, 2012). 3.3 O impacto sobre a saúde mental de gestantes em relação ao diagnóstico de malformações congênitas. Desde início da fecundação até o nascimento, a gestante quanto o bebê passa por experiências fisiológicas, psicológicas e sociais únicas, as quais fazem com que a mulher tenha várias expectativas em relação ao ser que está por parir e o papel que assumirá. Isso pode levar à super idealização da maternidade, produzindo sintomas psicológicos, tornando esse momento um período particularmente estressante e propenso a crises, especialmente quando ocorrem complicações durante a gravidez (LEITHNER, 2011; PEROSA, CANAVEZ, SILVEIRA, PADOVANI, & PERAÇOLI, 2009; ROSA et al., 2010; SETÚBAL et al., 2004 apud CUNHA, 2016). Obviamente, o desejo de todo casal é ter um filho perfeito e saudável, de acordo com suas expectativas pessoais, culturais e sociais (Vasconcelos & Petean, 2009) e que origine momentos de felicidade e alegria (Perosa et al., 2009). Durante a gravidez ocorre naturalmente um processo de projeção, gerando o desejo por um, “bebê ideal” (Gomes & Piccinini, 2010). Porém, quando ocorre desse bebêidealizado ser substituído por um real, com um diagnóstico de malformação congênita, a gravidez, que é um período marcado por fantasias angustiantes em relação à integridade do feto (Leithner, 2011; Soulé 1992), se transforma intensamente em um momento de sofrimento e angústia emocional. Tudo isso acontece devido à perda da possibilidade da gestação ideal (Barros, Santos, Lima, Fonseca, & Lovisi, 2013) e a destruição de sonhos e expectativas, os quais deverão ser refeitos à luz de uma nova realidade, sempre de difícil adaptação (ANTUNES & PATROCÍNIO, 2007 apud CUNHA, 2016). Enfrentar a situação requer um processo de adaptação e dependerá de vários fatores, os quais influenciarão na capacidade de manejo desse diagnóstico. Além da gravidade da malformação, a estrutura emocional e dinâmica familiar do casal, as informações e o atendimento especializado prestado pela rede de saúde são essenciais para a auto reorganização do casal e de sua família no diagnóstico de malformação. (Setúbal et al., 2004). Portanto, enfatiza-se a importância da atuação dos profissionais de saúde, ajudarão a família a identificar seus recursos como suas fragilidades e necessidades, fornecendo formas de lidar com a situação (Sunelaitis, Arruda, & Marcon, 2007). Diante da situação vivenciada, tanto a mãe quanto a família precisarão, por parte dos profissionais de saúde, de cuidados especiais e atenção a fim de que se sintam apoiados e respeitados, desde o prénatal até o puerpério (Roecker et al., 2012). Segundo Ha, Anat e Longnecker (2010), dentro esses cuidados destaca-se a relação médico-paciente pautada em habilidades interpessoais e de comunicação do médico, que precisa ser capaz de reunir as informações necessárias para um diagnóstico preciso, além de aconselhar de adequadamente com instruções terapêuticas claras, dando prioridade a uma relação acolhedora com o paciente (CUNHA, 2016). A relação médico-paciente tem um grande desafio quando se trata da comunicação da malformação congênita (Loaiza & Arroyave, 2009). A literatura demonstra que os médicos se sentem apreensivos no desafio de transmitir más notícias, já que não tiveram treinamento suficiente em habilidades de comunicação interpessoal durante sua formação (Ha et al., 2010; Loaiza & Arroyave, 2009; Perosa & Ranzani, 2008). Dessa forma, deixam de desempenhar seu papel de facilitar a adesão ao tratamento e diminuir o sofrimento associado ao diagnóstico (PEROSA & RANZANI, 2008 apud CUNHA, 2016). Loaiza e Arroyave (2009) consideram que a má noticia precisa ser comunicada com base em alguns princípios, desde o preparo do profissional, que deve estar familiarizado com as informações clínicas importantes, até a escolha do local para a comunicação onde exista o mínimo de interrupções. Fundamentalmente, as informações sobre o diagnóstico devem ser repassadas ao paciente de maneira fácil de entender, a fim de fornecer esperança realista para o prognóstico da doença e fornece suporte emocional para o enfrentamento, sendo este último também indicado por Leithner (2011). Assim, são fundamentais estudos sobre a comunicação da notícia do diagnóstico de malformações congênitas e seus impactos, principalmente quando se sabe que a incidência dos defeitos congênitos é de três para cada 100 nascimentos e de uma em cada quatro mortes fetais durante a gravidez ou na primeira semana de vida (Aymé, 2005), com prevalência de 22.985 casos para 2.913.160 nascidos vivos (BRASIL, 2013ª apud CUNHA, 2016). Atualmente, através de exames de ultrassom, os pais já ficam sabendo da malformação do seu bebê precocemente ao longo da gestação. Portanto, a medicina fetal pode cumprir um duplo papel no enfretamento da situação, acalmando ou perturbando ainda mais a reorganização do casal (Antunes & Patrocínio, 2007). Além disso, tendo um diagnóstico precoce pode antecipar as angústias maternas (Sousa, 2003), desencadeando sentimentos de desespero, dor, e culpa, os quais podem causar também sequelas psicológicas graves a longo prazo (Leithner, 2011; Loaiza & Arroyave, 2009; Perosa et al., 2009). Isso porque o choque de um feto deficiente ou malformado pode tornar-se muito angustiante e desestruturante para o casal e sua família (VASCONCELOS & PETEAN, 2009 apud CUNHA, 2016). Essa situação precisa de atenção, já que na gestação, sendo um período sensível por si só, pode ocorrer maior ansiedade e estresse parental diante desse tipo de notícia, os quais são vividos ao longo de todo processo de investigação diagnóstica (Loaiza & Arroyave, 2009; Setúbal et al., 2004; Sousa, 2003). Resultando em acelerado desinvestimento na gravidez, tendo como consequências na saúde mental da mulher e repercussões na dinâmica familiar. Dessa forma, é importante a realização de estudos que contribuam com dados empíricos os quais auxiliem no entendimento dessa vivência pelo casal grávido (CUNHA, 2016). Esse tema aborda ainda relevância social, já que, em casos de malformações incompatíveis com a vida, os pais precisam lidar com um dilema moral: a complicada decisão de interromper ou não o curso da gravidez (Antunes & Patrocínio, 2007; Leithner, 2011). Essa decisão é aceita por lei no Brasil nos casos de anencefalia (Brasil, 2013b). Ainda, o casal tem que lidar com o estigma de “imperfeitos”, “defeituosos”, ou “anormais”, assim como potenciais transmissores de defeitos às próximas gerações (CARDOSO, 2001 apud CUNHA, 2016). Logo, um diagnóstico bem executado e de forma esclarecida seja comunicado, pode servir para que o casal e toda a família enfrente de forma mais resiliente a situação, a partir da prática de um cuidado humanizado por toda a equipe de saúde. O cuidado humanizado ajudará na elaboração do luto vivenciado pelos pais após as reações iniciais ao diagnóstico de malformação, ajudando-os a lidar com os sentimentos ambivalentes de medo e esperança, confiança e sofrimento, otimismo e pessimismo resultantes das diferentes expectativas positivas e negativas criadas por uma gestação de risco (CHAPLIN, SCHWITZER, & PERKOULIDIS, 2005 apud CUNHA, 2016). 4 SAÚDE MENTAL DE ADOLESCENTES NA GRAVIDEZ 4.1 Estresse Nos últimos tempos o estresse vem sendo estudado na área da saúde, procurando observar o resultado da dinâmica dos mundos subjetivos e objetivos. Esta relação atribui a todo o momento, a necessidades de ajustamentos, tentativas constantes de adaptação às várias contingências do viver. O termo estresse foi utilizado inicialmente por Seyle em 1936, e definido como sendo uma resposta do corpo a qualquer demanda que o forçasse a adaptar-se a uma mudança (PANIZZON, PANIZZON, 2008; KAPCZINSKI, MARGIS 2003 apud CORREIA, 2012). O organismo, exposto a um esforço causado por um estímulo interpretado como ameaçador a homeostase, seja químico, físico, psicossocial, biológico, evidencia uma tendência a reagir de forma uniforme e inespecífica, envolvendo-o todo. A esse processo chamou-se de Síndrome Geral de Adaptação (SGA), classificando-o em três fases: reação de alarme/alerta, fase de resistência e fase de exaustão (SEYLE, 1936 apud CORREIA, 2012). A fase de alarme é caracterizada pelo aparecimento de uma excitação, quer seja de desejo de fuga agressão ou resultante da ação do estressor. Esta fase inicial do processo de estresse pode ser compreendida como um comportamento de adaptação. Sendo um momento entendido como reação saudável, porque existe a probabilidade do retorno a uma situação de equilíbrio, após a experiência estressante (RODRIGUES AL, GASPARINI, 1992, LIPP, 2003 apud CORREIA, 2012). A segunda fase, a de resistência, o organismo modifica seus parâmetros de normalidade e concentra a reação interna em um determinado órgão-alvo, desencadeando a Síndrome de Adaptação Local (SAL). Nesse momento, ocorre a manifestação de sintomas da esfera psicossocial,tais como: medo, ansiedade, isolamento social, oscilação do apetite, roer unhas, impotência sexual (RODRIGUES AL, GASPARINI, 1992, LIPP, 2003 Apud CORREIA, 2012). A terceira fase, a de exaustão, o organismo está esgotado pelo excesso de atividades e pelo alto consumo de energia na busca da homeostase. Assim ocorre, a falência do órgão mobilizado na SAL, que se manifesta sob a forma de doenças orgânicas (LIPP, 2003 apud CORREIA, 2012). Lipp, pesquisadora brasileira, identificou uma outra fase no processo de estresse, tanto clínica como estatisticamente significante, como se encontra entre a fase de resistência e a de exaustão denominou-a de fase de quase-exaustão. Caracteriza-se por um enfraquecimento do organismo, que não pode mais adaptar- se ou resistir ao fator estressor. Nesta fase ocorre o surgimento de doenças, mas as patologias ainda não são tão graves, como aquelas que aparecem na fase posterior que é a de exaustão (LIPP, 2003 apud CORREIA, 2012). Desta forma, a gravidez é um período que provoca modificações psíquicas e físicas na mulher, associada a uma maior fragilidade da sua saúde mental. A adolescência compõe-se por si só uma fase delicada do desenvolvimento humano; fase de busca de uma nova identidade, transições de papel. No caso da ocorrência de uma gravidez precoce, é exigido da mulher adolescente, competências psicoemocionais de difícil enfrentamento (SABROZA, 2001 apud CORREIA, 2012). 4.2 Gravidez na adolescência e suas vulnerabilidades O crescimento da gravidez na adolescência vem aumentando no Brasil, com destaque na faixa que vai dos 10 aos 14 anos. Inerente a esse aumento, existe uma alta prevalência de repercussões médicas e sociais entre as jovens que, muitas vezes, descuidam de aspectos de sua saúde configurando como uma situação de risco. Na rede do Sistema Único de Saúde (SUS), a gravidez é a primeira causa de internações médicas, dos 10 aos 19 anos, que corresponde a um quarto do total de partos. Em 2000, dos 2,5 milhões de partos concretizados nos hospitais públicos do país, 689 mil foram de adolescentes com menos de 20 anos de idade, na maioria pertencente às camadas populares. A literatura também mostra é maior o a incidência de gravidez não planejada/não desejada, entre mães adolescentes, como também um fraco vínculo entre mãe e bebê no período pré-natal (SUS, 2000). (FREITAS; BOTEGA, 2002; DADOORIAN, 2003 apud CORREIA et al. 2011). https://saude.to.gov.br A gestação na adolescência é responsável por um número de mortalidade materna e perinatal. No Brasil, esses números estão relacionados a complicações da própria gravidez, parto e puerpério. As complicações e lesões mais frequentes são: toxemia gravídica, disfunção uterina, maior índice de parto cesárea, desproporção céfalo-pélvica, síndromes hemorrágicas, lacerações perineais, amniorrexe prematura, prematuridade, anemia materna, trabalho de parto prolongado, infecções urogenitais, abortamento, baixo peso ao nascer (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 1993; FIGUEIREDO et. al., 2005 apud CORREIA et al. 2011). Desse modo, “As adolescentes precisam ser orientadas quanto à importância do pré- natal com vistas à promoção da saúde e à prevenção de doenças decorrentes da gravidez”. (Duarte, 2003) Os riscos da gravidez nesse momento estão relacionados a aspectos psicológicos tais como: níveis elevados de estresse, ausência de apoio familiar, presença de sintomas depressivos, bem como alta prevalência de repercussões emocionais, pouca expectativa em relação ao futuro; encontra-se em um terço dos casos, altos índices de sofrimento psíquico. Os estudos destacam que a presença do estresse exerce influência na relação da mãe com seu bebê, como por exemplo da elevação de casos de maus tratos em filhos, quando a gravidez não é planejada (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 1993; FIGUEIREDO et. al., 2005 apud CORREIA et al. 2011). Nossa cultura valoriza a maternidade, alguns estudos destacam a relação entre a gravidez precoce e status que ela traz a mulher, ou seja, as adolescentes em situação de vulnerabilidade social encontram em sua gravidez uma possibilidade de reconhecimento social, uma adaptação à circunstância de pobreza ante a falta de oportunidades vivida por elas, diminuindo este tipo de sofrimento (DADOORIAN, 2003; FIGUEIREDO et. al., 2005 apud CORREIA et al. 2011). Sendo afirmado por Bretas (2002), “O contexto familiar é fundamental na definição das experiências de crescimento, desenvolvimento e construção da identidade do adolescente e deve ser visualizado como processo dinâmico em que histórias de vida e projetos individuais interagem e se conformam num complexo de relações plurais e não excludentes, de afetos, de poder e resistência, de conflitos e dominação, de cooperação e harmonia, entre outras”. O quadro clínico de uma pessoa pode ser avaliado pelos: sinais (evidências objetivas do estado mórbido); sintomas (fenômenos ou mudanças referidas pela pessoa no momento do exame, que facilitam a obtenção do diagnóstico). A gestação é um período em que o corpo da mulher sofre várias transformações e adaptações provocando sinais e sintomas considerados comuns a este período. Todavia, quando os mesmos ultrapassam os níveis da normalidade aceitos, ou surgem outros não comuns ao período, podem surgir intercorrências que resultem em complicações, podendo trazer riscos a mulher e ao feto (CORREIA et al. 2011). 5 SAÚDE MENTAL DE GESTANTES QUE CONVIVEM COM DOENÇAS CRÔNICAS A gestação é uma experiência única na vida de uma mulher. Nesse período, ocorrem mudanças físicas, sociais e emocionais que são capazes de gerar ansiedade, medo, novas descobertas e expectativas, o que requer instruções e ensinamentos para auxiliá-la no que tange a gestação, autocuidado, preparo para o parto e para a maternidade (Vasques, 2006). Por ser um fenômeno fisiológico, a gestação, tem o seu desenvolvimento, na maioria dos casos, sem intercorrências. Entretanto, algumas mulheres por apresentarem algum tipo de patologia crônica, sofrerem algum dano ou desenvolverem problemas, se tornam vulneráveis a evoluir para uma gestação prejudicial, tanto para a mãe quanto para o feto (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2012 apud SILVEIRA, 2016). A doença crônica, por várias vezes, pode significar ameaça aos planos futuros de dos indivíduos, já que são impostas mudanças grandes nos seus padrões de consumo, hábitos e rotina, além do controle permanente de sinais e sintomas que, se não mantidos dentro dos padrões, podem progredir para níveis mais graves e ocasionar a morte (Quevedo, Lopes, e Lefevre, 2006). A mulher que convive com a doença crônica se tornará uma grávida de alto risco. Em virtude disso, poderá encontrar dificuldades para as adaptações emocionais impostas pela nova realidade. Em consequência da doença crônica se tornar um fator de risco à gestação, podem acabar surgindo determinadas situações como: o medo em a saúde do bebê e sua própria saúde; as mudanças que estão ocorrendo com seu corpo; o medo de seu filho nascer com alguma anormalidade e, acrescentando a esses fatores, a perda de controle em relação de si mesma e da gravidez (Quevedo, 2010). Urge que o enfermeiro no pré-natal desenvolva conhecimentos e sensibilidade para detectar e entender o processo emocional que rodeia o acompanhamento da gestação de alto risco (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2012 SILVEIRA, 2016).). A assistência ao pré-natal tem conquistado cuidado especial na saúde materno-infantil, em decorrência de taxas desfavoráveis relacionada aos coeficientes de mortalidade materna e infantil o que tem estimulado o desenvolvimento de políticas voltadas ao ciclo gestacional e puerperal, como o Programa de Humanização no Pré-natal e Nascimento (PHPN) (Duarte, 2012). Tal programa visa assegurar a melhoria do acesso, da cobertura e da assistência ao partoe puerpério às gestantes e aos recém-nascidos. Entre as ações realizadas pelo programa estão: exames laboratoriais básicos e os procedimentos obstétricos considerados essenciais, classificados como adequados, inadequados ou intermediários (DUARTE, 2012 apud SILVEIRA, 2016). Dessa forma, o pré-natal oferece como um conjunto de ações voltadas ao bebê e à mulher grávida, que objetiva: confirmar ou diagnosticar enfermidades maternas; realizar o tratamento; tratar as complicações clínicas referentes à gravidez; acompanhar a evolução da gravidez a partir das condições da gestante e o desenvolvimento fetal; dirigir quanto medidas de prevenção para saúde da gestante/feto e instruir a mãe para o momento do parto e o posterior aleitamento (CALDAS, SILVA, BOING, CREPALDI, CUSTÓDIO, 2013 apud SILVEIRA, 2016). Com a aumento do Programa Saúde da Família, a assistência a gestante no pré-natal acontece de forma multidisciplinar, admitindo que as condutas e cuidados sejam divididos (DUARTE, 2012 apud SILVEIRA, 2016). De acordo com o funcionamento atual do Sistema Único de Saúde, a atenção básica é responsável por realizar atendimento ambulatorial de pré-natal de grávidas que não oferecem risco e por conduzir as gestantes identificadas como “alto risco” para os serviços de referência (CALDAS et al., 2013 apud SILVEIRA, 2016). O objetivo da assistência pré-natal de alto risco incide em intervir para atenuar os danos que as complicações pertinentes à patologia materna possam causar para a mãe e para o feto (SILVEIRA, 2016). Entretanto diante da complexidade envolvida em gestações de mulheres que convivem com doenças crônicas (gestação de alto risco), a assistência de saúde prestada se limita a consulta médica individual, que tem como foco a patologia e como esta influência na vida da mãe e do feto, não sendo abordadas questões que envolvam o estado emocional da gestante e como a mesma enfrenta as situações impostas pela doença (SILVEIRA, 2016). Maçola, Vale e Carmona (2010) relatam que estudos evidenciam a importância da atenção à saúde mental da gestante e sua relação com o desenvolvimento do vínculo mãe-filho. Porém, ainda é escassa a realização de programas de pré-natal que abordem efetivamente as questões emocionais, visando auxiliar a mulher a lidar com o processo de gestação e maternidade (SILVEIRA, 2016). Assim, a inclusão de estratégias de promoção da saúde mental das grávidas no âmbito do pré-natal torna-se essencial, porque visa minimizar os efeitos negativos que a presença da patologia na gestação possa gerar. Para Guerra, Braga, Quelhas e Silva (2014) algumas estratégias marcadas como promotoras de saúde mental em gestantes são: identificação no início da gestação de fatores de risco, estabelecimento de uma relação de confiança com o enfermeiro especialista em saúde materna e obstétrica, preparação para o desempenho de seu papel, identificação da rede de suporte social, estimular o envolvimento do pai na vigilância da gestação nos cuidados com a criança e realização de cursos de preparação para a parentalidade em grupo (SILVEIRA, 2016). É fato que a assistência à mulher durante o pré-natal já não se satisfaz mais com medidas biomédicas, a gestação passou a ser vista como um momento de mudanças não apenas fisiológicas, mas também, como um momento de profundas transformações emocionais e biopsicossociais, onde cada casal a vivencia de forma única, exigindo, portanto, atenção individualizada e holística (SANTOS, 2014 apud SILVEIRA, 2016). 6 TRANSTORNOS PSIQUIÁTRICOS NA GESTAÇÃO E NO PUERPÉRIO 6.1 Gestação e o puerpério A gestação e o puerpério são momentos da vida da mulher que necessitam ser avaliados com cuidado especial, já que envolvem bastantes alterações físicas, hormonais, psíquicas e de inserção social, que podem refletir de forma direta na saúde mental dessas pacientes (CAMACHO et al., 2006). Tem-se dado importância cada vez maior a essa temática, e estudos contemporâneos têm objetivado delinear os fatores de risco para os transtornos psiquiátricos nessas fases da vida, a fim de realizar diagnóstico e tratamento o mais precocemente possível (CAMACHO et al., 2006). Estudos recentes revelaram que transtornos psiquiátricos subdiagnosticados e não tratados em gestantes podem levar a graves consequências materno fetais, até mesmo durante o trabalho de parto (JABLENSKY et al., 2005; SENG et al., 2001 apud CAMACHO et al., 2006). É sabido que a presença de depressão ou ansiedade na gravidez está associada a sintomas depressivos no puerpério (BLOCH et al., 2003 apud CAMACHO et al., 2006). https://www.naomaispelo.com.br Esses temas têm sido mais pesquisados nas últimas décadas e ainda não há especificação para essas patologias na Classificação Internacional de Doenças (CID-10), a não ser como diagnóstico de exclusão, no caso dos transtornos relacionados ao puerpério (CAMACHO et al., 2006). O Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais, na sua quarta edição e com texto revisado (DSM-IV-TR), não distingue os transtornos do humor do pós-parto daqueles que ocorrem em outros períodos, exceto como especificador "com início no pós-parto", que é usado quando o surgimento dos sintomas acontece no período de quatro semanas após o parto (CANTILINO, 2003 apud CAMACHO et al., 2006). 6.2 Epidemiologia Apesar da gestação ser considerada um momento de bem-estar emocional e de se acreditar que a vinda da maternidade seja uma ocasião alegre na vida da mulher, o período perinatal não a protege dos transtornos do humor (CAMACHO et al., 2006). Estima-se uma prevalência de depressão na gravidez da ordem de 7,4% no primeiro, 12,8% no segundo e 12% no terceiro trimestre (BENNETT et al., 2004 apud CAMACHO et al., 2006).). Nas adolescentes, verificou-se prevalência entre 16% e 44%, quase duas vezes mais elevada que nas grávidas adultas, podendo relacionar à falta de maturidade afetiva e de relacionamentos dessas pacientes, bem como ao fato de grande parte delas precisarem abandonar seus estudos em razão da maternidade (SZIGETHY; RUIZ, 2001 apud CAMACHO et al., 2006). A disforia no pós-parto (maternity blues) inclui sintomas depressivos leves e pode ser identificada em 50% a 85% das puérperas, dependendo dos critérios diagnósticos utilizados (CANTILINO, 2003 apud CAMACHO et al., 2006). https://drauziovarella.uol.com.br Um estudo com 1.558 mulheres detectou 17% das gestantes com sintomas significativos para depressão na gestação tardia, 18% no puerpério imediato e 13% entre a sexta e a oitava semanas do puerpério. O mesmo valor (13%) foi encontrado no sexto mês do puerpério (JOSEFSSON et al., 2001 apud CAMACHO et al., 2006). Um outro estudo verificou valores oscilando entre 8,6% e 10,1% para o diagnóstico de depressão entre a 6ª e a 24ª semanas do puerpério (BOYCE; HICKEY, 2005 CAMACHO et al., 2006) Uma metanálise de 59 estudos evidenciou uma estimativa de prevalência de depressão pós-parto da ordem de 13% (O’HARA; SWAIN, 1996 apud CAMACHO et al., 2006). A psicose puerperal é um quadro bem mais raro, e casos encontrados foi entre 1,1 e 4 para cada 1.000 nascimentos (BLOCH et al., 2003 apud CAMACHO et al., 2006). 6.3 Principais Fatores de Risco Os principais fatores de risco psicossociais relacionados à depressão maior no puerpério são: idade inferior a 16 anos, história de transtorno psiquiátrico prévio, eventos estressantes experimentados nos últimos 12 meses, conflitos conjugais, ser solteira ou divorciada, estar desempregada (a paciente ou o seu cônjuge) e apresentar pouco suporte social (CAMACHO et al., 2006). Outros fatores de risco registrados foram: personalidade vulnerável (mulheres pouco organizadas ou responsáveis), estar aguardando um bebê do sexo oposto ao desejado,proporcionar poucas relações afetivas satisfatórias e suporte emocional deficiente (Boyce e Hickey, 2005). Abortos espontâneos ou de repetição também foram indicados como fatores de risco (BOTEGA, 2006 apud CAMACHO et al., 2006). Mulheres mais suscetíveis aos transtornos do humor no puerpério também teriam diagnóstico de transtorno disfórico pré-menstrual ou apresentaram sintomas depressivos no segundo ou quarto dia do pós-parto. Pacientes que tiverem história de sensibilidade aumentada ao uso de anticoncepcionais orais também seriam mais vulneráveis (BLOCH et al., 2005 apud CAMACHO et al., 2006). Um outro estudo tentou relacionar gravidez indesejada e o risco para depressão, mas os resultados foram pouco conclusivos. Identificou-se apenas que mulheres com melhor rendimento financeiro e escolaridade mais alta apresentavam menor risco, já as mulheres vindas de famílias populosas apresentavam alto risco para depressão. Levantou-se também a hipótese de que a existência prévia de transtorno mental pode ser o mais relevante fator associado ao risco de ter novos episódios no puerpério (SCHMIEGE; RUSSO, 2005 apud CAMACHO et al., 2006). Mulheres portadoras de transtorno afetivo bipolar apresentaram risco elevado de psicose puerperal (260/1.000) quando comparadas a mulheres saudáveis, que apresentavam 1 a 2 casos a cada 1.000 puérperas (CHAUDRON; PIES, 2003 apud CAMACHO et al., 2006). 6.4 Etiologia A etiologia da depressão puerperal ainda não é totalmente conhecida, porém acredita-se que, além dos fatores de risco mencionados acima, fatores hereditários e hormonais também estejam envolvidos CAMACHO et al., 2006). Na gestação, os níveis de estrógeno e progesterona são superiores àqueles vistos nas mulheres fora do período gestacional e esse fator pode estar envolvido nas alterações do humor que ocorrem nessa fase. A queda brusca desses hormônios no pós-parto estaria envolvida na etiologia da depressão puerperal. Bloch et al. (2003) realizaram uma revisão da literatura a fim de correlacionarem os fatores endócrinos e hereditários com a etiologia desse transtorno. Não se constatou relação genética diferente daquela já esperada em quadros não puerperais. Levantou-se a hipótese de que determinadas mulheres seriam mais sensíveis a mudanças hormonais em qualquer período de suas vidas, incluindo-se período pré-menstrual, menarca, gravidez, puerpério, menopausa e até mesmo durante o uso de anticoncepcionais (CAMACHO et al., 2006). 6.5 Transtorno obsessivo-compulsivo – TOC Das gestantes portadoras de TOC, 46% apresentaram piora da sintomatologia na primeira gestação e 50%, na segunda gestação. Sintomas de TOC são freqüentes no pós-parto e incluem pensamentos e obsessões relacionados a possíveis contaminações da criança e pensamentos obsessivos negativos em relação ao trabalho de parto (LABAD et al., 2005 apud CAMACHO et al., 2006). A gravidez também se associa ao aparecimento do TOC em 13% das mulheres e constatou-se o agravamento da sintomatologia em 29% das puérperas. Mulheres portadoras de TOC podem apresentar também alto risco para o desenvolvimento de depressão pós-parto (WILLIAMS; KORAN, 1997 apud CAMACHO et al., 2006). 6.6 Transtorno do pânico Fonte: https://www.vix.com Um estudo comparou a sintomatologia em mulheres com transtorno do pânico diagnosticado previamente e constatou que 43% dessas pacientes apresentaram melhora dos sintomas ansiosos na gestação, 33%, piora e 24% não apresentaram nenhuma alteração. Já no sexto mês do puerpério, 63% tiveram piora dos sintomas de pânico (NORTHCOTT; STEIN, 1994 apud CAMACHO et al., 2006). Um outro estudo verificou que o puerpério seria um período de alta vulnerabilidade para o desencadeamento do primeiro episódio de pânico. Entre as mulheres estudadas, 10,9% exibiram o surgimento dos sintomas no puerpério (neste caso, até 12 semanas do puerpério), um número bem maior do que o esperado, que é de 0,92% (CAMACHO et al., 2006). 6.7 Transtornos puerperais Os transtornos psiquiátricos puerperais são caracteristicamente classificados como: disforia do pós-parto (puerperal blues), depressão pós-parto e psicose puerperal (CHAUDRON; PIES, 2003 apud CAMACHO et al., 2006). A puerperal blues acomete as mulheres nos primeiros dias após o nascimento do bebê, alcançando um pico no quarto ou quinto dia após o parto e remitindo de forma espontânea, no máximo, em duas semanas. Inclui labilidade do humor, irritabilidade e comportamento hostil para com familiares e acompanhantes, choro fácil. Esses quadros geralmente não precisam de intervenção farmacológica, e a abordagem é realizada no sentido de sustentar suporte emocional, compreensão e ajuda nos cuidados com o bebê (Cantilino, 2003). Evidências sugerem que a depressão pós-parto pode ser parte ou prolongamento da depressão iniciada na gestação (RYAN et al., 2005 apud CAMACHO et al., 2006). Os sinais e sintomas de depressão perinatal são pouco diferentes daqueles característicos do transtorno depressivo maior não psicótico que se desenvolvem em mulheres em outras épocas da vida. As pacientes apresentam-se com humor deprimido, choro fácil, labilidade afetiva, irritabilidade, perda de interesse pelas atividades habituais, sentimento de culpa e capacidade de concentração prejudicada. Sintomas neurovegetativos, incluindo insônia e perda do apetite, são descritos com frequência (Nonacs e Cohen, 1998; Gold, 2002). Contudo, alguns sintomas somáticos podem ser confundidos com situações normais desse período. Assim, sintomas como hipersonia, aumento de apetite, fadigabilidade fácil, diminuição do desejo sexual e queixas de dor e desconfortos em diferentes sistemas são de pouca utilidade para o diagnóstico de depressão nessa fase (CAMACHO et al., 2006). É relevante frisar que muitas mulheres com depressão perinatal não falam sobre os seus sintomas de depressão com medo de possível estigmatização (Epperson, 1999). As mulheres sentem que as expectativas sociais são de que elas fiquem satisfeitas e acabam sentindo-se responsáveis por estarem vivenciando sintomas depressivos num momento que deveria ser de alegria (CAMACHO et al., 2006). Algumas particularidades clínicas são descritas na depressão pós-parto. Há sugestão de haver um componente ansioso mais proeminente (Ross et al., 2003), além de pensamentos recorrentes de causar danos ao bebê (JENNINGS et al., 1999 apud CAMACHO et al., 2006). Wisner et al. (1999) analisaram pensamentos obsessivos em mulheres deprimidas e observaram que mulheres com depressão pós-parto tinham mais pensamentos de agressividade contra seus filhos do que mulheres deprimidas fora do período pós-parto, independentemente da gravidade do quadro. Godfroid et al. (1997), em estudo polissonográfico em mulheres com depressão, mostraram que mulheres com depressão pós-parto tinham aumento significativo na fase IV do sono e menor tempo de estágio I quando comparadas a mulheres com depressão de gravidade semelhante fora do período pós-parto. Hendrick et al. (2000), também numa comparação entre mulheres com depressão no pós-parto e fora dele, perceberam que a depressão pós-parto exige tempo maior para responder à farmacoterapia e tem a tendência de precisar de mais agentes antidepressivos para se obter remissão dos sintomas. Além disso, é reiterado o relato de sentimentos ambivalentes acerca do bebê e de opressão pela responsabilidade de criar os filhos (Beck, 1996; Nonacs e Cohen, 2000). Esses dados apresentam-se em favor da especificidade do conceito de depressão pós-parto (CAMACHO et al., 2006). https://dicasdadoutora.com.br A psicose puerperal costuma ter início mais abrupto. Estudos verificaram que 2/3 das mulheres que apresentaram psicose puerperal iniciaramsintomatologia nas duas primeiras semanas após o nascimento de seus filhos. Descreve-se um quadro com presença de delírios, alucinações e estado confusional que parece ser peculiar aos quadros de psicose puerperal. Pode haver sintomas depressivos, maníacos ou mistos associados. Não foi estabelecida nenhuma apresentação típica. No entanto, essas mulheres costumam apresentar comportamento desorganizado e delírios que envolvem seus filhos, com pensamentos de lhes provocar algum tipo de dano. Apesar de o suicídio ser raro no período puerperal em geral, a incidência deste nas pacientes com transtornos psicóticos nesse período é alta, necessitando muitas vezes de intervenção hospitalar por esse motivo, bem como pelo risco de infanticídio. Sintomas depressivos, mais do que maníacos, em geral estão associados aos quadros em que ocorrem infanticídio ou suicídio (CHAUDRON; PIES, 2003 apud CAMACHO et al., 2006). Estudos neurocientíficos atuais amparam a hipótese de que a mulher portadora de psicose puerperal que comete infanticídio precisa mais de tratamento e reabilitação do que de punição legal, a fim de se impedirem outros casos decorrentes da gravidade do quadro; hoje em dia, alguns países já defendem essa hipótese. A educação familiar também estaria presente nesse tipo de intervenção (SPINELLI, 2004 apud CAMACHO et al., 2006). 6.8 Mulheres com depressão pós-parto Mulheres no puerpério com frequência são examinadas por seus obstetras ou clínicos gerais em consultas focadas na recuperação física após o parto. Além disso, são vistas por pediatras dos seus filhos de quatro a seis vezes durante o ano seguinte ao nascimento de seu bebê. Quando apresentam depressão, embora busquem ajuda mais comumente com esses médicos do que com profissionais de saúde mental (Gold, 2002), muitas vezes não são diagnosticadas ou reconhecidas como deprimidas de forma adequada. Trabalhos recentes vêm mostrando a utilidade do uso de escalas de auto avaliação para triagem de mulheres com depressão pós-parto em serviços de atendimento primário (Buist et al., 2002). A possibilidade de detectar a depressão pós-parto com essas escalas tem-se mostrado expressivamente maior que a detecção espontânea durante avaliações clínicas de rotina por médicos nesses serviços (Fergerson et al., 2002). As escalas serviriam para alertar clínicos, obstetras e pediatras para aquelas mulheres que possivelmente precisariam de avaliação mais profunda e tratamento CAMACHO et al., 2006). No Brasil, onde os médicos a cada dia se veem obrigados a realizar atendimentos em um grande número de pacientes com uma disponibilidade de tempo pequena, instrumentos desse tipo acabam tendo valor considerável. Ademais, essas escalas são autoaplicáveis e de fácil uso por profissionais não médicos e sem especialização em saúde mental. Essas características fazem com que o procedimento de aplicação destas sejam, além de prático, considerados de baixo custo, o que torna viável o seu uso em serviços de atenção primária à saúde. Pensando nessa praticidade, foram criadas duas escalas desenhadas especificamente para rastreamento de depressão pós-parto: a EPDS, em 1987, e a Postpartum Depression Screening Scale (PDSS), em 2000. Ambas já possuem tradução para o português e validação no Brasil, sendo o estudo da PDSS realizado por um dos autores deste artigo (CANTILINO, 2003 apud CAMACHO et al., 2006). A EPDS (Cox et al., 1987) foi o primeiro instrumento achado na literatura desenvolvido para triar especificamente a depressão pós-parto. A EPDS é um instrumento de auto registro que têm 10 questões de sintomas comuns de depressão e que usa formato de respostas do tipo Likert. A mãe indica as respostas que descrevem melhor o modo como tem se sentido na última semana (CAMACHO et al., 2006). Realizando um estudo fenomenológico de depressão pós-parto, Beck (1992) percebeu temas que descreviam mais sobre a essência dessa experiência. Esses temas tinham relação com solidão insuportável, pensamentos obsessivos, sensação de estar fora de si, culpa sufocante, dificuldades cognitivas, perda de interesses prévios, ansiedade incontrolável, insegurança, perda de controle das emoções e ideias relacionadas à morte. Um outro estudo fenomenológico administrado por Beck (1996) investigou especificamente o significado de experiências de mães com depressão pós-parto que interagiram com seus bebês e crianças mais velhas. Em um estudo de avaliação de instrumentos para depressão em mulheres no pós-parto, Ugariza (2000) apontou a necessidade de uma escala de avaliação que possa mensurar sintomas específicos de depressão pós-parto. Considerando as observações feitas nos estudos e buscando maior acurácia na triagem de pacientes com depressão pós-parto, idealizou-se a criação de uma nova escala que abrangesse esses conceitos CAMACHO et al., 2006). Existem outros instrumentos para essa avaliação. 6.9 Importância do diagnóstico e do tratamento precoce O infanticídio e o suicídio estão entre as complicações mais graves decorrentes de transtornos puerperais sem intervenção adequada. No entanto, a existência de transtornos psiquiátricos não só no puerpério, mas também na gestação, pode levar a outras graves consequências CAMACHO et al., 2006). https://noticias.r7.com Mulheres com diagnóstico de depressão maior ou esquizofrenia exibem elevado risco de complicações na gravidez, trabalho de parto e período neonatal. Entre essas complicações, existe as anormalidades placentárias, hemorragias e sofrimento fetal. Mulheres com esquizofrenia apresentam alto risco de descolamento prematuro de placenta e, mais frequentemente, tiveram filhos com baixo peso ao nascer. Seus bebês também apresentaram malformações cardiovasculares e menor circunferência encefálica do que os filhos de mães saudáveis (JABLENSKY et al., 2005 apud CAMACHO et al., 2006). Seng et al. (2001) constataram que mulheres portadoras de transtorno de estresse pós-traumático exibem alto risco para gestação ectópica, abortamento espontâneo, hiperemese gravídica, contrações uterinas prematuras e crescimento fetal excessivo (CAMACHO et al., 2006). O relacionamento mãe-filho também demonstrou estar prejudicado quando foram avaliadas 507 mães e seus filhos, aos 3 meses de idade. Os filhos de mães que apresentaram diagnóstico de depressão pós-parto tinham dificuldades para dormir e se alimentar. Apresentavam também prejuízos de interação corporal com o ambiente e sorriso social diminuído. Essas pacientes queixavam-se com muita frequência de cansaço excessivo, o que acabava refletindo de forma negativa no relacionamento com seus filhos e, por consequência, no desenvolvimento deles (RIGUETTII-VELTEMA et al., 2002 apud CAMACHO et al., 2006). Deve-se, assim, avaliar cada caso com especial cautela, a fim de pôr a melhor estratégia de tratamento para cada caso em particular, da maneira mais precoce possível (CAMACHO et al., 2006). 6.10 Opções de tratamento Pesquisas têm utilizado técnicas de tratamento psicofarmacológico, psicossocial, psicoterápico e tratamentos hormonais, além da eletroconvulsoterapia (ECT), indicada para casos mais graves ou refratários a outras formas de tratamento. A maioria das intervenções psicossociais e hormonais tem-se mostrado pouco eficiente. Entretanto, resultados de estudos focados sobre psicoterapia interpessoal, estratégias cognitivo-comportamentais e intervenções farmacológicas têm-se evidenciado eficientes (CAMACHO et al., 2006). 6.11 Utilização de psicofármacos durante a amamentação Hoje em dia, muitos antidepressivos estão sendo analisados em relação à lactação, e os ISRS foram os menos presentes no leite materno. Entre eles, a sertralina e a paroxetina apresentam como melhores alternativas (Haberg e Matheson, 1997). Também foram consideradasseguras (de baixo risco) as seguintes drogas: sulpirida, a maior parte dos tricíclicos, triptofano, moclobemida, benzodiazepínicos em dose baixa e única, zolpidem, carbamazepina, valproato em doses baixas e fenitoína (CAMACHO et al., 2006). Drogas como haloperidol, fenotiazinas em baixas doses, IMAOS, mirtazapina, ISRS, trazodona, benzodiazepínicos e betabloqueadores foram consideradas de risco moderado (CAMACHO et al., 2006). A clozapina é contra-indicada pelo risco de agranulocitose, e estudos realizados em animais detectaram-na no leite. Antipsicóticos de última geração ainda têm poucos estudos, devendo-se então não os utilizar. Deve-se evitar também o uso do carbonato de lítio porque é tóxico para o bebê. Ainda existe poucos estudos relacionados aos novos antidepressivos para que possam ser usados com segurança (BOTEGA et al., 2006 apud CAMACHO et al., 2006). 6.12 Tratamento hormonal O tratamento hormonal nos transtornos do humor é muito antigo, e atualmente o uso de estrógenos sublinguais e transdérmicos, como o 17-B estradiol tem sido testado no tratamento da depressão pós-parto (Murray, 1996). Embora esses relatos proponham que o uso de estrógenos tenha bons resultados, apenas números modestos de melhora sintomática foram apresentados. Acredita-se que os estrógenos atuem pela interação com receptores do núcleo e de membranas celulares (McEwen, 1999). A ação desses hormônios sobre receptores de membrana representaria um papel relevante na síntese, na liberação e no metabolismo de neurotransmissores, como a dopamina, a noradrenalina, a serotonina e a acetilcolina (Stahl, 2001). Os estrógenos também atuariam sobre neuropeptídeos (por exemplo, fator de liberação de corticotrofinas [CRF], neuropeptídeo Y [NPY]), influenciando também a modulagem de outras atividades, como a termo regulação em centros hipotalâmicos, e o controle da saciedade, do apetite e da pressão arterial sanguínea. Assim, em momentos de modificações abruptas dos níveis de estrógenos circulantes, aconteceria maior vulnerabilidade para o desenvolvimento de transtornos psíquicos na mulher, particularmente de cognição e do humor (CAMACHO et al., 2006). Em relação à utilização de doses supra fisiológicas de estrogênios, são necessários mais estudos que comprovem sua eficácia em mulheres que estão amamentando. Essa modalidade de tratamento não é a primeira escolha ao se considerarem riscos e benefícios do tratamento estrogênico para mulheres em fase reprodutiva (CAMACHO et al., 2006). 6.13 Psicoterapia http://www.ficargravida.com.br Muitas mulheres repudiam ou não acolhem o tratamento farmacológico quando descobrem estar grávidas, e conforme a história de evolução e menor gravidade da doença, a psicoterapia é uma ótima opção de tratamento (CAMACHO et al., 2006). Segundo a pesquisa realizada pelo Instituto de Psiquiatria e Neurociência do King's College London, no Reino Unido: "A decisão sobre o tratamento tem que ser bem informada, para que mãe e médico cheguem à alternativa considerada mais adequada." A psicoterapia também pode ser uma aliada no que diz respeito a medidas de descontinuação ou redução de dose no tratamento farmacológico, diminuindo o risco de recaídas ou os sintomas depressivos na gestação. No entanto, é importante ressaltar que não é adequado descontinuar a farmacoterapia em casos mais graves ou recorrentes. Episódios depressivos leves ou depressão menor podem ter boa resposta ao tratamento psicoterápico, sendo benéfico às pacientes e ao feto tentar inicialmente o tratamento não farmacológico nesses casos (CAMACHO et al., 2006). Newport et al. (2002) realizaram um estudo com 576 mulheres no pós-parto. Foram estudadas as abordagens psicoterápicas mais significativas na redução da sintomatologia nesses casos e verificaram-se duas modalidades mais efetivas: a psicoterapia interpessoal, que foca o seu trabalho nos sintomas depressivos da paciente e no seu relacionamento com o mundo, assim como o rompimento da barreira interpessoal; e a terapia cognitivo-comportamental (TCC), que tem como objetivo ajudar o paciente a solucionar seus comportamentos e cognições disfuncionais por meio da aprendizagem e da reestruturação cognitiva (CAMACHO et al., 2006). A TCC tem como base medir quais são os pensamentos, as ideias, e as emoções que a pessoa tem sobre si mesma e que se encontram distorcidos, provocando uma cadeia de reações comportamentais disfuncionais (CAMACHO et al., 2006). Em pacientes deprimidos, é corriqueiro surgirem relatos de ideias, pensamentos e sentimentos que deixam o paciente com humor alterado, refletindo- se assim diretamente na vida dele e dos que o cercam. Esses pensamentos denominados automáticos são o coração da teoria cognitivo-comportamental. A mudança desses pensamentos, várias vezes distantes da realidade, faz com que o paciente com depressão passe a reavaliar sua condição e reestruturar seu dia-a- dia (CAMACHO et al., 2006). No caso das mulheres que apresentam depressão pós-parto, é extremamente comum apresentarem pensamentos e sentimentos relacionados a questões referentes aos cuidados do bebê e à sua situação atual. Dessa maneira, a atuação da TCC visa avaliar e reestruturar tais cognições que refletem em seu comportamento (CAMACHO et al., 2006). Foi detectado evolução significativa em grávidas e puérperas que foram submetidas à TCC em grupos de terapia, fundamentando-se nas escalas de Edinburgh, no Inventário de Beck para Depressão e no Profile of Mood States (MEAGER,1996 apud CAMACHO et al., 2006).). Um estudo com gestantes comparando dois grupos diferentes: o primeiro foi submetido a técnicas de educação familiar e o segundo, à psicoterapia interpessoal. As mulheres do segundo grupo foram submetidas a sessões semanais de 45 minutos, durante 16 semanas. Obtiveram-se os seguintes resultados: baseando-se na escala de Edinburgh, notou-se melhora em 11,8% das pacientes submetidas a técnicas de educação familiar e em 33,3% das mulheres submetidas à psicoterapia interpessoal. Em relação à escala de Hamilton, notou-se melhora em 29,4% no primeiro e 52,4% no segundo grupo, respectivamente. Tendo-se como base o Inventário de Depressão de Beck, houve melhora em 23,5% das pacientes do primeiro grupo, enquanto 52,4% das pacientes submetidas à psicoterapia interpessoal melhoraram (SPINELLI; ENDICOTT, 2003 apud CAMACHO et al., 2006).). Os transtornos psiquiátricos na gravidez e no puerpério são bem mais comuns do que se imagina, e vários casos ainda são subdiagnosticados. Tem-se dado relevância crescente ao tema, e pesquisas atuais têm focado também o dano que essas patologias podem acarretar não só à saúde da mãe, mas também ao desenvolvimento do feto, ao trabalho de parto e à saúde do bebê. Múltiplos fatores de risco estão enredados, mas a etiologia exata ainda não foi constituída. Esses transtornos costumam acometer pacientes que já tenham história de patologia psiquiátrica antecedente, logo, uma boa medida de prevenção é o tratamento apropriado desses episódios. As medidas de tratamento ainda são largamente debatidas, devendo-se levar em consideração a relação risco–benefício, sendo, assim, o bom senso do médico é um aliado importante quanto à escolha do tratamento nesses casos (CAMACHO et al., 2006). 7 BIBLIOGRAFIA GAINO, Loraine Vivian et al . O conceito de saúde mental para profissionais de saúde: um estudo transversal e qualitativo*. SMAD, Rev. Eletrônica Saúde Mental Álcool Drog. (Ed. port.), Ribeirão Preto , v. 14, n. 2, p. 108-116, 2018. Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1806697620180002 00007&lng=pt&nrm=iso>. acessos em 21 abr. 2020. GAMA,Carlos Aberto Pegolo et al. Saúde Mental e Vulnerabilidade Social: a direção do tratamento. Rev.Latinoam. Psicopat. Fund., São Paulo, 17(1), 69-84, mar. 2014. JORGE, Miguel Roberto, et al. Concepções Populares e Estigma Relacionados as doenças mentais. Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 46, p. 8-19, agosto 2013. CORREIA. Divanise Suruagy et al. 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