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A NECESSIDADE DO PROFISSIONAL DE PSICOLOGIA NA DELEGACIA DE DEFESA DA MULHER Amanda Monge Monteiro de Souza Rita de Cássia Soares Pires Gislaine Lima da Silva Lins – SP 2009 1 A NECESSIDADE DO PROFISSIONAL DE PSICOLOGIA NA DELEGACIA DE DEFESA DA MULHER RESUMO Este artigo foi baseado no estágio de observação realizado no primeiro semestre de 2009, na Instituição Pública Delegacia de Defesa da Mulher de Lins-SP. Aborda a necessidade da existência de um profissional de psicologia dentro dessa Instituição, que atuaria prestando atendimento em forma de Plantão Psicológico para as vítimas, realizando o acolhimento dessas com o intuito de auxiliar as funcionárias, que também seriam beneficiadas com terapias em grupo ajudando-as a manter um equilíbrio emocional, refletindo em uma melhora na qualidade do trabalho em equipe. Enfatizamos a falta de preparo dessas profissionais em dar suporte emocional para aqueles que buscam os serviços da delegacia. Palavras-chaves: Papel do psicólogo. Delegacia da mulher. Plantão psicológico. Qualidade de atendimento. 2 Esta Instituição de Segurança Pública, Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) foi criada em 1985 com espaço e quadro de funcionários composto unicamente por mulheres: escrivãs, carcereiras, investigadora, auxiliar de serviços gerais e delegada, para romper com os preconceitos presentes nas outras delegacias e com o objetivo de que a violência invisível e sem importância social, finalmente se tornaria pública e notória. Contribuiria para ampliar e reequilibrar a distribuição de justiça, ampliando a cidadania de uma categoria social discriminada e reelaborando o significado da violência com uma perspectiva de gênero. A DDM ganhou força com a Lei 11.340/06 Lei Maria da Penha de 7 de agosto de 2006. Hoje o órgão público tem por função defender a mulher nas mais diversas situações, onde de alguma maneira ela sofra algum tipo de violência física, moral ou psicológica praticada por qualquer membro da sociedade, homem ou mulher. Também são considerados os abusos de qualquer espécie cometidos contra crianças e adolescentes. Nesta Instituição de Segurança Pública, a prática psicológica ainda não tem muito espaço, o psicólogo só atua na área jurídica que é fundamental dentro do seu enfoque, contudo permanece em aberto um espaço para o psicólogo que possa orientar de maneira a dar àqueles que procuram a DDM um apoio em seus problemas de ordem familiar, o que não é função desse órgão público. Boselli (2005) comenta a esse respeito “... Porém, geralmente, não são capacitadas no âmbito das especificidades da violência de gênero. O modo como são processados os atendimentos, praticamente não difere da prática de outros distritos policiais. As características das organizações burocráticas estão todas presentes. A ordem dos procedimentos é definida por normas e regulamentos previamente estabelecidos. A divisão de tarefas e o apego rigoroso às normas acabam por ocasionar um tecnicismo exacerbado das funcionárias, interferindo nos fins das organizações(1) . A mulher que sofre violência ainda pode encontrar agentes burocráticas e despreparadas, preocupadas unicamente em identificar o crime mais recente e individualizar o autor da agressão.” O que tem lógica, pois as funcionarias foram treinadas para analisarem os casos que as vítimas trazem e não a vítima como um individuo. É obvio que com o tempo de serviço elas aprendem a fazer uma leitura corporal, mas visando a área de atuação dessas profissionais e não analisando o individuo com olhar clínico de um psicólogo, que realizará um acolhimento da vítima. Esse acolhimento é uma forma 3 de entender o individuo como um ser biopsicossocial, que dependendo do contexto que está inserido apresenta maneiras de agir e pensar próprias, sendo necessária uma análise dessa vítima como um ser único. Assim comenta Fortes (p. 31, 2004) “Humanizar na atenção à saúde é entender cada pessoa em sua singularidade, tendo necessidades específicas, e, assim, criando condições para que tenha maiores possibilidades para exercer sua vontade de forma autônoma. Segundo Rech, 2003 (citado por Fortes, p. 31, 2004), é tratar as pessoas levando em conta seus valores e vivências como únicos, evitando quaisquer formas de discriminação negativa, de perda da autonomia, enfim, é preservar a dignidade do ser humano.” Atuando dessa forma o psicólogo estaria realizando uma triagem auxiliando e facilitando o trabalho das escrivãs no momento de colher os depoimentos. Acreditamos que a inexistência do psicólogo nessa instituição deve-se ao fato da ignorância social a respeito da amplitude do trabalho desse profissional. Pouco ouviu-se falar da psicologia social que é uma área que atua exatamente nesse contexto. Contini (p. 53, 2000) nos diz que “A formação, hoje, via de regra, está calcada em um modelo conservador de promoção de saúde... sustentado por teorias que têm o seu foco voltado para a descrição dos comportamentos patológicos... Essa situação tem contribuído para uma consolidação da identidade do psicólogo marcada exclusivamente pelo seu caráter terapêutico, dificultando a construção de um outro profissional que possa atender diferentes situações, como as institucionais e comunitárias”. Nas relações sociais os indivíduos atuam em grupo dentro de um contexto, onde a sua cultura e o meio influenciam nas suas maneiras de relacionarem-se. Isto pode gerar os conflitos individuais de ordem social. Pois como relata Praça (2004) “São entidades quase tangíveis, que se articulam e se cristalizam por meio de gestos, falas, encontros, de forma ininterrupta, no universo cotidiano, impregnando a maioria de nossas relações sociais” Ou seja, a sociedade influencia nas ações do individuo e o individuo através de suas ações influencia o meio, o que gera uma relação de interdependência. A atuação de um psicólogo, no sistema de Plantão Psicológico, estaria voltada apenas para aqueles que procuram a delegacia em busca de amparo e, junto às funcionárias, seria desenvolvido um trabalho de terapia em grupo, com 4 dinâmicas especificas para melhorar a qualidade do trabalho em equipe e do relacionamento profissional entre elas. Criando este espaço para serem colocados os problemas do dia-a-dia dessas profissionais, bem como seus conflitos e suas angustias, e isso refletiria em seu ambiente de trabalho tornando-o mais produtivo e menos estressante. O acompanhamento psicológico das profissionais que atuam na DDM se faz necessário no sentido de aliviar as tensões causadas pelas experiências estressantes no atendimento à clientela Cremos ser real a funcionalidade de um plantão psicológico nas DDMs, desempenhando um papel de atender a demanda emocional das pessoas filtrando os relatos pessoais e repassando para profissionais da DDM apenas os casos criminais assim reduzindo a sobrecarga emocional das funcionárias. Esclarecemos que entende-se por plantão psicológico “... um tipo de ajuda, ou atendimento profissional imediato, aberto às pessoas da comunidade que se sentem desesperadas, com problemas ou em crise. Caracteriza-se por fornecer alívio, orientação e apoio em situações de urgência.” (MAHFOUD, 2001 citado por MENDONÇA, 2003). O fato de nosso estágio ser de observação não nos possibilitou uma atuação efetiva no sentido de tentar colocar em pratica esse projeto que descrevemos acima, o Plantão Psicológico. Porém em pesquisasque realizamos encontramos uma DDM em Itápolis –SP onde foi implantado esse sistema que atendeu uma grande parte da comunidade em um momento de crise. Na DDM de São Carlos – SP, encontramos um trabalho também muito interessante realizado por estagiários de psicologia, que desde março de 1998 realizavam atendimento a vítimas de violência nesta instituição. 5 OBJETIVOS Abordar a necessidade de um profissional de psicologia dentro da Instituição (DDM). Questionar a falta de preparo das profissionais da DDM em dar suporte emocional para aqueles que buscam os serviços da delegacia em casos de violência. DESENVOLVIMENTO A observação iniciou-se em abril de 2009, pela visita de reconhecimento da Instituição de Segurança Pública Delegacia de Defesa da Mulher, e coleta de informações sobre seu histórico. Nas visitas que se seguiram, leram-se boletins de ocorrência e inquéritos, que tratavam de casos de prostituição infantil, pedofilia, atentado ao pudor, abuso sexual, violência contra menor, agressões físicas e acompanhou-se o atendimento e orientação da delegada e das escrivãs ao público. METODOLOGIA Observação da atuação das profissionais que atuam nesta instituição, como escrivãs, carcereiras, delegada e auxiliar de serviços gerais, no atendimento ao público feminino que procura a DDM para fazer queixas e solicitar a elaboração de um boletim de ocorrência. RESULTADOS Por meio de relatos das funcionárias que atendem as vítimas na DDM, comprovou-se o quanto é difícil para elas darem respaldo aos problemas de ordem emocional. Segundo as atendentes vêem-se obrigadas a utilizar de suas próprias experiências de vida para tentar confortar a vitima, sem qualquer respaldo científico, 6 ou seja, sem estarem preparadas pela ciência da psicologia, permanecendo nelas a angustia de não estar orientando-as corretamente, pois estas encontram-se geralmente em total descontrole emocional. Este quadro exerce um agravante em ambos os lados, vítima e funcionaria, pois a vítima não recebe a orientação profissional adequada e a funcionária na maioria das vezes somatiza os problemas que a vítima relata o que prejudica na sua atuação dentro da instituição, apresentando sintomas como nervosismo, ansiedade, no seu dia a dia na instituição e em sua vida pessoal. A exaustiva rotina de trabalho também consiste em um fator de prejuízo, pois atendem as mais variadas queixas do público, analisam a necessidade de registrar a queixa em um boletim de ocorrência (B.O.), deliberando a veracidade do depoente, redigem BOs, formulam intimações e ordens de prisão, muitas vezes saem em busca do logradouro do possível infrator causando grande estresse físico e mental. A prova de que sentem a necessidade da presença de um psicológico na instituição reside no fato de que algumas profissionais, as que têm condições, buscam aperfeiçoamento na área de psicologia. Como é o caso da delegada titular na delegacia onde realizamos o estágio, que apesar de ser Mestra em Direito, fez Extensão universitária em Psicologia. Fica evidente que isso não é o suficiente, pois a sobre carga de trabalho não permite que atuem ao mesmo tempo em duas áreas distintas com eficiência. E também esses cursos não preparam para a prática da psicologia. Percebemos que para protegerem-se utilizam como mecanismo de defesa uma postura de frieza e distanciamento o que transmite para a instituição uma imagem de “dureza”. Nos relatos do trabalho realizado em Itápolis observou-se que aqueles que procuravam a delegacia desorientados, necessitando de ajuda ou simplesmente precisando serem ouvidos, encontravam lá o acolhimento e orientação para identificarem seus reais problemas de uma maneira rápida e eficiente. Os estagiários de São Carlos relataram que em conversas com as oficiais, estas se queixaram “que a Academia da Polícia não as havia preparado para um adequado atendimento às vítimas de violência, impedindo-as de realizar um atendimento ideal.” Após entrevista individual com cada oficial elaboraram uma Oficina com o objetivo de reconhecer o direito do ser humano e, especificamente da mulher, de não sofrer agressão, rever crenças que perpetuam a violência contra a mulher, redefinindo-as e analisar as crenças subjacentes à sua atuação na DDM. 7 No estágio de observação realizado acompanhou-se a delegada no atendimento de uma mulher viúva que teme que os avós paternos tomem a guarda de seus três filhos. Após a delegada orientá-la, realizou um boletim. A mãe disse ter casado muito jovem, parado de estudar, não está trabalhando, morar com os pais e um irmão ainda solteiro. Sua fala foi sempre em voz baixa, tremula olhar para o chão, durante todo o tempo que permaneceu na delegacia, diante a algumas perguntas como, por exemplo, a idade do filho mais velho ela se confunde sendo corrigida pelo pai que a acompanhava, este um senhor com fala bem segura e argumentação coerente. Observou-se também o relato de uma mãe adotiva com sua filha que temia que a mãe biológica a perturbasse e quisesse sua guarda de volta. A delegada explicou que era impossível ela conseguir a guarda, pois a adoção é irreversível. Ainda mais se tratando de um caso de violência, a mãe biológica perdeu a guarda da menina ainda bebê, porque agredia fisicamente, com queimaduras de cigarro e pancadas. Ouviu-se o depoimento de uma senhora que procurou a DDM, não para fazer um boletim de ocorrência, mas para pedir orientação sobre como agir com a filha de 19 anos que está dando muito trabalho. Ela é filha adotiva, mas sabe disso desde pequena. A depoente conta que sua filha trabalhava, fazia faculdade e tinha um namorado, com quem namorou por três anos. Tinha sonho de fazer uma faculdade de Rádio e TV em São Paulo. Fez o vestibular e passou, porém o pai não deixou que ela fosse. Ela conta que é separada do marido, mas que mantém um bom relacionamento, e que este paga uma pensão de seiscentos reais para a filha. A mãe gostaria de ter o boletim de ocorrência para persuadir a filha a ter um comportamento menos agressivo, selecionar os amigos e voltar a estudar. A oficial disse ser impossível esse procedimento e procurou orientá-la em como poderia agir com a filha, para obter dela a melhora desejada. Posteriormente, após a mulher sair, a oficial nos perguntou se havia orientado corretamente, pois passou para a mulher o que ela particularmente considerava correto. Enfatizou ser uma tarefa difícil esse tipo de atendimento por não ter sido preparada para tal de situação, pois esses casos não são criminais e sim de ordem emocional e de conduta moral. 8 As profissionais da DDM dizem não serem psicólogas, que foram preparadas para atendimento criminal. Na academia, o mais próximo que chegaram de estudar o ser humano foi o de aprender os tipos de estrutura física de uma pessoa e de acordo com essa estrutura física, poderia se relacionar a ser um assassino ou não. CONCLUSÃO O plantão psicológico se faz útil e importante nesse contexto de conflitos e sofrimento emocional. A mulher, na maioria dos casos observados, está emocionalmente fragilizada por problemas familiares e/ou sociais. O acompanhamento psicológico das profissionais que atuam na DDM se faz necessário no sentido de aliviar as tensões causadas pelas experiências estressantes no atendimento a clientela. O reconhecimento de uma pessoa com um quadro psicopatológico mais característico seria realizado o encaminhamento para uma terapia individual tradicional, ou seja, fora do PlantãoPsicológico. Os estagiarias da Oficina de São Carlos chegaram a conclusão de que as policiais realmente não recebem o devido preparo para atuarem em diversas situações cotidianas em seu trabalho. E também não menos importante o stress que gera o fato de se sentirem inferiorizadas e rotuladas como “cozinha da policia” por atuarem na resolução de problemas domésticos. Mais uma vez comprovamos a veracidade de nossa observação sobre a necessidade da atuação de um psicólogo dentro da DDM . 9 THE NECESSITY OF A PHSYCOLOGY PROFESSIONAL IN POLICE DEFENSE OF WOMAN ABSTRACT This article was based on the observation stage realized in the first semester of 2009, in the Public Institution Police Defense of Women, Lins-SP. It works the necessity for a psychology professional in that institution, who will acts rendering medical care in the form of Psychological Duty to the victims, making the host of them with the intention To assist the employees, who would also benefit from group therapy would help to keep an emotional balance resulting in an improvement in the quality of teamwork. We stressed the lack of preparation of these professionals to offer emotional support to those who look for the services department. Keywords: role of psychologist . police women. Psychological Duty. Quality of care. 10 REFERÊNCIAS ARAÚJO, M.F. Gênero e Violência Contra a Mulher: o perigoso jogo de poder e dominação. Psicol.Am.Lat. n.14 México out. 2008. BOSELLI, G.Delegacia de Defesa das Mulheres: permanências e desafios. CFEMEA. abril.2005 CONTINI, M. L. J. Discutindo o Conceito de Promoção de Saúde no Trabalho do Psicólogo que Atua na Educação. Psicologia: Ciência e Profissão. Brasília, v. 20, n. 2, 2000, pp.46-58. FORTES, PAC. Ética, direitos dos usuários e políticas de humanização da atenção à saúde. Saúde soc. vol.13 no.3 São Paulo Sept./Dec. 2004, pp. 31. MENDONÇA, AHSDF. Plantão Psicológico na Delegacia de Defesa da Mulher. Anais da 2ª Jornada Junguiana de Bauru e região, julho, 2003. PRAÇA, K. e NOVAES,H. A Representação Social do Trabalho do Psicólogo. Psicologia: Ciência e Profissão. Brasília, v.24 n.2, junho 2004 11 Autores: Amanda Monge Monteiro de Souza – Graduanda em Psicologia amandamonge@terra.com.br – fone: (14) 9748 1025 Rita de Cássia Soares Pires – Graduanda em Psicologia belaelanor@gmail.com – fone: (14) 9602 9498 Orientadora: Prof. MS. Gislaine Lima da Silva - Mestra em Psicologia do Desenvolvimento e Aprendizagem pela Unesp - Bauru gilisilva@ig.com.br – fone: (14) 3522 3934