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Anos Iniciais do Ensino Fundamental 251 PEDAGOGIA Conforme Lemle: A comparação com as regras de uso de vestimenta é esclarecedora: assim como difere o tipo de roupa a ser usada segundo o tipo de ocasião social, também diferem segundo a ocasião social as características da linguagem apropriada. Ficam socialmente estigmatizados os falantes inadimplentes às regras tácitas do jogo, tal como as pessoas que não cumprem as convenções sociais do bem-vestir. (LEMLE, 1978, p. 62). 4º – Alertar os alunos para o devido respeito que a fala dos pais, tios, avós etc. merece. Se o professor não esclarece que nem todas as pessoas tiveram a oportunidade de frequentar a escola e aprender a língua padrão (preferimos padrão à culta, pois automaticamente estaremos chamando a forma popular de inculta), a criança começará a corrigir os familiares e gerar situações desagradáveis. 5º – Apontar a necessidade de aprenderem a língua formal da escola para poderem optar entre o uso da forma padrão e a popular conforme a necessidade: saber falar dos dois jeitos. Quem domina as duas formas pode optar, quem não as conhece usará sempre a mesma linguagem e poderá passar por situações constrangedoras. É interessante associar as diferentes linguagens questionando sobre os motivos que levam um médico a falar diferente de um gari, que fala diferente de um professor e assim por diante. 6º – Na sequência, selecionar 15 frases (diariamente) para que os alunos corrijam (oralmente), passando-as da forma popular para a padrão. O professor falará a forma popular e os alunos farão a transposição para a padrão. Na primeira frase, o professor ajudará os alunos a fazerem a transposição. Na segunda, alguns alunos ainda terão dúvidas, mas a maioria já conseguirá realizar o exercício. A partir da terceira sentença, já terão compreendido a sistemática e realizarão a atividade com segurança. 7º – A atividade de bidialetalismo funcional será feita só oralmente durante a alfabetização, a partir da 2ª série, poderá envolver a escrita. Para tanto, um exemplo prático é o de trabalhar a transcrição de historinhas do Chico Bento. Alertamos para o fato de que o trabalho oral é indispensável para o sucesso do aluno. Se o professor se limitar a realizar apenas atividades escritas, o trabalho irá fracassar, porém se realizar as duas modalidades, em curto espaço de tempo, constatará os resultados positivos. 8º – O trabalho com o bidialetalismo para transformação (exige consciência de que a fala varia em função da classe social a que pertence o falante) é desenvolvido através da conscientização sobre a condição social em que o falante está inserido. Sua fala pode ser, ainda, trabalhada por meio de atividades práticas de comparação entre falas de diferentes indivíduos, de níveis sociais diversos, dentro de uma mesma comunidade. Anos Iniciais do Ensino Fundamental252 PEDAGOGIA Exemplo de frases a serem desenvolvidas oralmente (do 1º ao 5º ano): a. Hoje eu ponhei o vaso de flor pa tomá uma chuvinha. b. Na semana passada eu di uma bronca na minha irmã. c. Meu amor a Deus é mais grande qui tudu na vida. d. Sábado nóis vai nu cinema assisti o homi aranha. e. A gente fomos no concurso de Pipa. f. Eu truxe dinheiro pra comprá doci. g. Vô ponhá u livru nu armáriu. h. O Felipe é mais maior du qui eu. i. Tá nervosu vai pescá! j. Onti nóis foi passiá nu Parqui du Povu. Amostra de atividade didática de bidialetalismo funcional (1º e 2º ano só oralmente) 1. Primeiro apresenta-se a história em quadrinhos com a fala dos personagens para a realização da transposição oral da linguagem popular para a padrão. Depois, entrega-se a cada aluno a cópia da história, mas com o balão de fala em branco, para que façam a transposição por escrito: Fonte: (MENDONÇA; MENDONÇA, 2013). Amostras de atividades didáticas de bidialetalismo para transformação (exige consciência de que a fala varia em função da classe social a que pertence o falante – trabalhar, oralmente e por escrito, a partir do 3º ano). Anos Iniciais do Ensino Fundamental 253 PEDAGOGIA 2. Observando a imagem abaixo elabore um pequeno texto usando a gíria e, depois, transcreva-o para a língua formal. Fonte: (MENDONÇA; MENDONÇA, 2013) 3. Analisando as imagens abaixo, como você as descreveria: 3.1 Em uma linguagem formal. 3.2 Em uma linguagem coloquial. Fonte: (MENDONÇA; MENDONÇA, 2013). O desenvolvimento deste trabalho tem demonstrado alta produtividade no aprimoramento das habilidades orais e escritas das crianças. Brincando e corrigindo o professor, o aluno incorpora a versão formal da língua portuguesa que em muito o auxiliará na produção escrita de textos, pois se considerarmos que muitos dos erros ortográficos são de transcrição fonética, a partir do momento Gíria: Formal: Anos Iniciais do Ensino Fundamental254 PEDAGOGIA em que o aluno se acostuma a realizar a transposição da versão informal para a formal da língua, eliminará inúmeros erros de concordância, por exemplo. É importante frisar que, para agilizar os resultados, o professor deverá realizar, oralmente, a atividade com as frases todos os dias. Esta é uma estratégia simples de ser elaborada, porque partirá da oralidade dos alunos, é rápida, eficiente e prazerosa. É interessante observar que, a partir do momento em que tomam consciência sobre as diferenças na fala, os alunos passam a se policiar, cobrando uns dos outros o uso da fala padrão em sala de aula, dizendo que lá fora, no recreio, podem falar de modo informal, mas na classe não. Essa consciência crítica sobre a língua será determinante para que possam exercer sua cidadania sem serem discriminados por sua fala. Como referenciar este texto Originalmente publicado em: MENDONÇA, Onaide Schwartz. A norma culta e a oralidade em sala de aula. In: UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA [UNESP]; UNIVERSIDADE VIRTUAL DO ESTADO DE SÃO PAULO [UNIVESP] (Org.). Caderno de formação: formação de professores: didática dos conteúdos. São Paulo: Cultura Acadêmica: Universidade Estadual Paulista, Pró-Reitoria de Graduação, 2011. v. 2. p. 131-137. ISBN 978-85-7983-161-4. Disponível em: <https://goo.gl/Ql7bKv>. Acesso em: 31 jan. 2017. (Conteúdo e Didática de Alfabetização, Caderno de formação n. 10, bloco 2, disciplina 16). Referências BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto. Parâmetros curriculares nacionais de língua portuguesa para o 1o e 2o ciclos. Brasília: MEC/SEF, 1987. LEMLE, M. Heterogeneidade dialetal: um apelo à pesquisa. Tempo Brasileiro, Rio de Janeiro, n. 53/54, p. 60-94, abr./set., 1978. MENDONÇA, O. S.; MENDONÇA, O. C. Alfabetizar as crianças na idade certa com Paulo Freire e Emilia Ferreiro: práticas socioconstrutivistas. São Paulo: Paulus, 2013. Anos Iniciais do Ensino Fundamental 255 PEDAGOGIA Anos Iniciais do Ensino Fundamental256 PEDAGOGIA Anos Iniciais do Ensino Fundamental 257 PEDAGOGIA Uma visão sobre a aquisição da leitura e da escrita Elisandra André Maranhe Doutora em Educação Especial. Especialista em Educação Digital na MSTech Educação e Tecnologia, Bauru-SP D14 – Conteúdos e Didática de Alfabetização Anos Iniciais do Ensino Fundamental258 PEDAGOGIA Os leitores dos sistemas alfabéticos podem ler palavras sem nunca as terem visto antes e sem a necessidade de memorizarem padrões simbólicos, o que demonstra a força do alfabeto para representar uma língua. Dizer isto não significa que a aquisição da leitura e da escrita alfabéticas seja mais fácil do que a aquisição de outros sistemas de escrita. Apenas estamos querendo dizer que o grau de dificuldade de aquisição depende não somente da transparência da ortografia de cada língua que utiliza a escrita alfabética, mas também da descoberta do fonema como chave para compreensão do princípio alfabético1. Pelo exposto, qual é a reação de uma criança em processo de alfabetização, ou até mesmo de um leitor/escritor fluente, diante de palavras novas e palavras já conhecidas? Como se processa a leitura e a escrita dessas palavras? Oprocessamento da leitura A grande maioria dos modelos teóricos de aquisição de leitura e escrita divide esse processo em vários estágios ou fases. Esta constatação pôde ser revelada a partir, sobretudo, de pesquisas apresentadas na década de 1980, como as de Marsh et al. (1981), Frith (1985), Ferreiro e Teberosky (1985), Read et al. (1986), entre outras, que se basearam nos fundamentos da Psicologia Cognitiva, mediante uma abordagem de processamento da informação. Para Frith (1985), a aquisição e o desenvolvimento da leitura e da escrita é um processo interativo e passa por três fases: logográfica, alfabética e ortográfica. Na fase logográfica, a criança lê de maneira visual direta. Ela reconhece palavras familiares pertencentes ao seu vocabulário de visão. Toma como referência as características gráficas das palavras e não considera a ordem das letras. Sendo assim, o reconhecimento das palavras (leitura) depende do contexto, das cores e formas do texto; o conhecimento fonológico (decodificação) tem um papel secundário nesta fase. Por exemplo, a criança pode ler logograficamente o rótulo Coca-Cola e se as vogais forem trocadas de lugar, mantendo-se o mesmo layout gráfico, ela poderá continuar lendo da mesma forma que antes. Na fase alfabética, a criança começa adquirir conhecimento sobre o princípio alfabético, exigindo dela a consciência dos sons que compõem a fala; inicia-se o processo de associação fonema-grafema, podendo decodificar palavras novas e escrever algumas palavras simples. Em um primeiro momento, se aprende as regras mais simples (decodificação sequencial) e, depois, as regras contextuais (decodificação hierárquica). Com isto, a criança consegue, por exemplo, ler sapato sem alterar a sonorização dos fonemas (fazendo sua real correspondência com os grafemas), porém pode alterar a sonorização do fonema /z/ na palavra casa devido à letra [s], e corrigir em seguida, dependendo de sua contextualização (estar isolada ou dentro de um texto, associada por imagem...). No momento em que a criança consegue analisar as palavras em unidades ortográficas – grupos de letras e morfemas – sem realizar a conversão fonológica, podemos considerar que ela se encontra na fase ortográfica, pois estas unidades já estão armazenadas no léxico. A criança Anos Iniciais do Ensino Fundamental 259 PEDAGOGIA realiza a leitura e a escrita de palavras, não somente regulares, mas também irregulares, de forma automática. Podemos simplificar afirmando que, neste estágio, temos uma fusão da fase logográfica (reconhecimento instantâneo) com a fase alfabética (habilidade de análise sequencial). É relevante dizermos que, dependendo do contexto de leitura e escrita ao qual a criança estiver exposta, os estágios podem acontecer concomitantes e não apenas sequencialmente. Além disso, também podem sofrer a influência das diferenças individuais das crianças, que demonstram perfis de aprendizagem distintos. Segundo Santos e Navas (2002, p. 12), embora “[...] existam elementos que todas as crianças precisam aprender para que se tornem leitores proficientes, elas podem tomar diferentes caminhos para alcançá-las”. A partir dessas considerações, podemos dizer que o processamento da leitura é traduzido como um modelo de duplo processo que utiliza duas estratégias: a fonológica (rota fonológica), desenvolvida no estágio alfabético; e a lexical (rota lexical), desenvolvida no estágio ortográfico (SHARE, 1995). Utilizamos a rota lexical quando fazemos a leitura (que pode induzir à escrita) de palavras familiares que ficaram armazenadas na memória ortográfica em decorrência de nossas experiências repetidas de leitura. Denominamos esta memória estabelecida de léxico de input visual ou sistema de reconhecimento visual das palavras (ELLIS, 1995). A partir do momento em que estamos diante de uma palavra a ser lida e esta é reconhecida pela rota lexical, outro sistema entra em ação – o semântico – com o intuito de permitir a compreensão do significado da palavra. Com isto, sua pronúncia é efetivada (sistema de produção fonológica de palavras), finalizando a leitura em voz alta. Se esta rota atende a leitura das palavras conhecidas, a rota fonológica se destina à leitura de palavras desconhecidas ou pouco frequentes. Diante desse tipo de palavra, fazemos uma análise de sua sequência grafêmica, segmentando-a em unidades menores (grafemas e morfemas) e associando aos seus respectivos sons (fonemas). Há uma junção dos segmentos fonológicos para que, então, seja efetuada a pronúncia da palavra. Em seguida, o acesso ao sistema semântico é obtido pelo feedback acústico da pronúncia realizada em voz alta ou encobertamente. Dentro de um contexto de leitura, podemos encontrar a necessidade do uso das duas rotas de processamento, dependendo do tipo de palavra que encontramos. Nas crianças em processo de alfabetização é sempre importante que haja o estímulo das duas rotas. Para isto, atividades devem ser desenvolvidas com o objetivo de promover o uso efetivo de ambos os processos: fonológico e lexical. Quando encontramos crianças com dificuldades de leitura e escrita, possivelmente, uma dessas rotas pode estar prejudicada. Veja a seguir (Figura 1) o esquema do modelo funcional proposto por Ellis (1995, p. 31) que demonstra alguns dos processos cognitivos envolvidos no reconhecimento de palavras escritas apresentados nos parágrafos anteriores: Anos Iniciais do Ensino Fundamental260 PEDAGOGIA Figura 1 – Modelo funcional proposto por Ellis (1995, p. 31) de alguns dos processos cognitivos envolvidos no reconhecimento de palavras escritas. Fonte: Ellis (1995, p. 31). Sugestão de um programa de estimulação e treinamento de leitura e escrita A partir das leituras realizadas sobre o tema abordado anteriormente (Modelo de Duplo- processo) e da consulta a trabalhos dedicados a estratégias de ensino aprendizagem (ALLIENDE et al., 1994a, 1994b, 1994c; SHARE, 1995; ELLIS, 1995; CAGLIARI, 2000; CAPOVILLA; CAPOVILLA, 2000; CIASCA, 2003; CONDEMARIN, 1995; CONDEMARIN; CHADWICK, 1994; CONDEMARIN; GALDAMES; MEDINA, 1997; CONDEMARIN; MILICIC, 1996; JOLIBERT, 1994a, 1994b; KAUFMAN, 1998; PINHEIRO, 1994; SOLÉ, 1998, entre outros), sugerimos o programa a seguir que denominamos de Programa Fonológico-lexical, com o intuito de proporcionar a professores um auxílio nas atividades de sala de aula. Todavia, é importante destacar que a proposta configura-se apenas como sugestão estrutural e, a partir dela, muitas outras podem ser consideradas, sobretudo, em questões estratégicas. Não queremos com esta sugestão engessar o trabalho do professor. Por isso, solicitamos que seja considerada apenas como um ponto de partida para reflexões da prática de sala de aula.