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2FASE
Encontro 6 
Raízes do racismo à brasileira
Nesta fase do projeto serão postas em discussão as características do racismo à brasi-
leira (negação e camufl agem), com a organização de um debate na escola sobre indícios 
do pensamento racista em nosso dia a dia mascarado por outras formas de discriminação.
O Brasil forjou e acredita em um mito, uma forma idealizada de representar a si mesmo: 
a ideia de uma “democracia racial”. Acredita-se que, na sociedade brasileira, o lugar que as 
pessoas ocupam ou podem vir a ocupar – no mercado de trabalho, na cultura, na vida social 
– não depende da cor de sua pele. Todos, brancos, negros e indígenas, são tratados como 
iguais. Será?
O que têm a dizer tantas pessoas que sofrem as práticas veladas do racismo à brasileira? 
É autêntica a “democracia racial” que teríamos construído no país? Uma simples observação 
de dados estatísticos sobre a distribuição de renda, sobre a violência, sobre os presídios, 
sobre acesso a saúde e educação revela que não, não somos uma democracia racial.
Como se construiu esse mito de que vivemos em uma democracia racial? Quais são as 
raízes e características do racismo à brasileira? Por que é tão difícil admitir que há, sim, ra-
cismo no Brasil? E que ele é estrutural, ou seja, está entranhado nas relações cotidianas, e 
defi ne como foi erguida e como funciona nossa sociedade.
CONHECENDO AS FACES 
DO RACISMO À BRASILEIRA
  Protesto de imigrantes na 
avenida Paulista (São Paulo – 
SP), em 2018.
Afi nal, o que pretendem as pessoas que apontam as desigualdades existentes no país e 
que denunciam como elas são marcadas pelas diferenças relativas à cor da pele de brancos, 
negros e pardos? Elas buscam um pretexto para incentivar uma luta racial que não existe em 
nossa sociedade? Devemos culpar quem levanta o tapete pela sujeira que ele revela escon-
dida? Por que afi rmar a existência de racismo no país é “inventar” um problema, estimular o 
ódio entre gente pacifi cada?
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São muitos os questionamentos e, apesar das evidências, não tem sido fácil despertar a 
consciência dos brasileiros para a existência de racismo em nossa sociedade. Certamente, 
você já ouviu em algum momento a afi rmação de que o brasileiro não é racista porque so-
mos o resultado da mistura harmônica de “raças” (lembre-se das palavras de Gabriel, o Pen-
sador); que somos uma gente pacífi ca, um povo acolhedor; que o convívio entre as “raças” 
no Brasil é absolutamente pacífi co. De novo: será?
Sugerimos que, na escola, em casa ou usando um celular, você e os colegas de turma 
assistam à videoaula “Racismo à brasileira”, produzida pela Universidade Virtual do Estado 
de São Paulo (Univesp), disponível em https://www.youtube.com/watch?v=J8TrZnxySG0 
(acesso em: jan. 2020). Na sequência, com a turma toda organizada em uma roda de con-
versa, discutam as questões propostas a seguir.
 1. Por que soa estranho que nós, brasileiros, sejamos racistas?
 2. O que os dados sobre a morte de jovens brancos e jovens negros no Brasil revelam?
 3. Como os brasileiros tratam o racismo?
 4. O que é democracia racial? Após a abolição da escravatura, como fi cou a situação do ex-es-
cravizado no país?
 5. Por que no Brasil o racista é o outro?
 6. Como se mascara o racismo no Brasil e como ele se revela?
 7. O que você e seu grupo pensam da frase de Emicida: “Para o negro, na noite, a viatura para, 
mas o táxi não”?
 8. Existe “raça”? Como defi ni-la?
 9. Como o racismo se manifesta na escola?
 10. Qual é a diferença entre preconceito de marca e de origem?
 11. Por que carregamos estereótipos e imagens racistas?
 12. O que aconteceu nos anos 1930 no que diz respeito à relação entre sociedade e “raça”?
 13. Miscigenação é igualdade? Como funcionam a exclusão e a inclusão social no Brasil?
 14. Por que no Brasil o preconceito é “silencioso”? O que é racismo “velado”?
 15. Comente: “Balas perdidas sempre acertam o corpo negro” (Douglas Belchior).
 16. Qual é a relação entre conservadorismo, conformismo e preconceito?
 17. É possível simplesmente concordar com argumentos que desqualifi cam quem procura de-
bater com coragem um tema crucial para o país?
Propomos agora um exercício poético individual, baseado nas refl exões sobre o vídeo. 
Você vai escrever um poema, que pode ser uma espécie de decálogo (um conjunto de dez 
regras, como os Dez Mandamentos bíblicos) em que todos os versos se iniciam com a frase: 
“Racismo à brasileira é...”.
Além das informações obtidas na videoaula e das discussões com a turma, você pode 
buscar notícias de jornal para se inspirar em fatos concretos. Também pode inserir imagens 
e ilustrar seu poema. Não se esqueça de fazer o registro no caderno de inspiração. Ao fi nal, 
os estudantes que se sentirem à vontade podem mostrar sua produção aos colegas.
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Encontro 7 
Habitamos uma sociedade racista? O racismo habita em nós?
Vivemos em uma sociedade estruturada sobre o racismo: que suprimiu a liberdade e es-
cravizou negros e indígenas; que estabeleceu a existência de “raças” e uma hierarquia entre 
elas; que fundou relações injustas e desiguais ao estabelecer qual deveria ser o modo de ver, 
a maneira de tratar e o lugar reservado a cada uma delas na sociedade. Por isso, não po-
demos simplesmente ignorar as profundas marcas deixadas na sociedade por um sistema 
escravista que perdurou séculos. Mas é mais fácil acreditar que a abolição de 1888 pôs fi m 
a tudo o que signifi cou a escravidão. Talvez prefi ramos acreditar que a Lei Áurea, assinada 
pela princesa Isabel, em um golpe de mágica, extinguiu todos os problemas do passado e 
resolveu todas as demandas do futuro relacionadas ao sistema escravista.
O brasileiro até pode admitir que ainda existe racismo no Brasil, mas prefere acreditar 
que nossa sociedade não é racista. Por isso, muitos líderes e intelectuais negros e negras 
afi rmam que existe no Brasil uma espécie de preconceito “silencioso”, um racismo “velado”, 
com formas “camufl adas” de discriminação.
Diante disso, Djamila Ribeiro defende que é preciso perceber o racismo internalizado em 
nós. Essa escritora e fi lósofa negra indica que, para superar o racismo, é preciso, primeiro, 
entender que ele está tão entranhado na sociedade que passa despercebido. E em nós mes-
mos, nos gestos banais, nas brincadeiras corriqueiras, em situações do dia a dia, que de tão 
comuns e “naturais” acabam por tornar invisível seu caráter de preconceito racial. Ela alerta 
e desafi a:
  A pesquisadora e fi lósofa feminista brasileira Djamila Ribeiro discursa durante um painel no WOW Festival (Mulheres 
do Mundo) no Rio de Janeiro, em novembro de 2018.
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Para verifi car se essa visão é compartilhada por aqueles com quem você convive, vamos 
fazer, em grupos, uma pesquisa descritiva, que tem como uma de suas modalidades a pes-
quisa de opinião. Esse tipo de pesquisa permite investigar as razões que levam as pessoas 
a tomar determinadas decisões ou a assumir uma posição diante de um tema.
■ O primeiro passo é defi nir exatamente o que queremos saber, ou seja, o tema da pesquisa. A 
pergunta norteadora aqui é: As pessoas acreditam efetivamente que vivemos em uma demo-
cracia racial?
■ O segundo passo consiste em defi nir os sujeitos da pesquisa, isto é, a principal fonte de infor-
mações. Na escola, por exemplo, podem ser escolhidos algumas turmas, professores e funcio-
nários, pais e familiares deestudantes. Pode-se optar também por pessoas de mesma faixa 
etária, sexo, “raça”/cor. Assim, é necessário defi nir o público-alvo da pesquisa e se haverá ou 
não fi ltros (idade, turmas, sexo).
■ Outra tarefa importante é nos perguntarmos como coletar informações. São vários os instru-
mentos que podem ser empregados em uma coleta de dados. Um deles é o questionário, uma 
sequência organizada de perguntas para serem respondidas por escrito pelo entrevistado, 
mas sem a presença ou a interferência do pesquisador. A linguagem utilizada no questionário 
deve ser clara e direta, de tal maneira que quem vai responder a ele possa compreender com 
facilidade o que está sendo perguntado.
Para elaborar as questões que farão parte do questionário, é preciso observar algumas 
regras que ajudam a validar os resultados alcançados. As perguntas podem ser abertas, fe-
chadas ou mistas. Nas abertas, o entrevistado pode responder livremente, anotando em um 
espaço demarcado o que deseja registrar. Nas fechadas, ele assinala uma ou mais opções 
dentre as alternativas disponíveis. E as mistas, obviamente, combinam os dois tipos anterio-
res. Veja os exemplos dados a seguir.
Pergunta fechada Pergunta aberta Pergunta mista
O Brasil é um país que se 
caracteriza pela mistura de 
“raças”. Você é a favor dessa 
miscigenação? 
( ) Sim. ( ) Não. ( ) Não sei.
Qual é sua opinião sobre 
a mistura de “raças” que 
caracteriza o Brasil? 
O Brasil é um país que se 
caracteriza pela mistura de 
“raças”. Você é a favor dessa 
miscigenação? 
( ) Sim. ( ) Não. 
Se você respondeu não, por 
favor explique sua opinião.
Os passos fi nais são a elaboração do questionário e um pré-teste aplicado a um peque-
no grupo de pessoas selecionadas, a fi m de garantir que as perguntas fi caram claras. Em 
seguida, devem-se reproduzir cópias em número sufi ciente de acordo com o público-alvo 
escolhido e organizar sua aplicação. Por fi m, temos que tabular os dados, o que será feito no 
próximo encontro. Vamos ver como as pessoas se manifestam sobre os temas em estudo?
Nunca entre numa discussão sobre racismo dizendo “mas eu não sou racista”. O que está em 
questão não é um posicionamento moral, individual, mas um problema estrutural. A questão é: o 
que você está fazendo ativamente para combater o racismo? Mesmo que uma pessoa pudesse se 
afi rmar como não racista (o que é difícil, ou mesmo impossível, já que se 
trata de uma estrutura social enraizada), isso não seria sufi ciente – a inação
contribui para perpetuar a opressão.
RIBEIRO, Djamila. Pequeno manual antirracista. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
Inação: 
ausência de ação.
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Encontros 8 e 9 
Organizando e apresentando os dados
Estes dois encontros devem ser dedicados à tabulação dos dados obtidos na pesquisa de 
opinião e à discussão desses resultados, apresentados com a turma toda reunida em uma 
roda de conversa. Antes, porém, reunidos em grupos, pensem nestas três questões para 
nortear o trabalho.
 1. Como tabular os dados?
 2. Como interpretar os resultados obtidos?
 3. Como apresentar os dados tabulados?
Para orientar a tabulação dos dados e a análise dos resultados, apresentamos alguns 
princípios orientadores.
1. Os dados das perguntas fechadas devem ser tabulados de forma objetiva, com os va-
lores numéricos descritos. Por exemplo: Das 75 pessoas entrevistadas, 65% são a favor da 
miscigenação, enquanto 30% são contra e 5% não souberam ou não quiseram responder.
2. Os dados das perguntas abertas precisam ser organizados em sentenças afi rmativas 
que sintetizem respostas semelhantes, a fi m de resumir diferentes posições dos entrevis-
tados. Podem-se também utilizar expressões como “a maioria dos”, “metade dos”, “parte 
expressiva dos” ou “uma parcela pequena dos” entrevistados... Por exemplo: A maioria dos 
entrevistados caracterizou a mistura de “raças” no Brasil como “normal” ou “comum” e afi r-
mou não ver problemas nessa característica da formação da sociedade brasileira.
3. Para as perguntas mistas, é preciso articular dados objetivos e números com as informa-
ções obtidas após a análise das respostas abertas. Por exemplo: 25% dos entrevistados respon-
deram que são contra a mistura de “raças” no Brasil. Dentre eles, a maioria afi rma que a mis-
cigenação é responsável pelo “jeitinho brasileiro” e os problemas sociais da nossa sociedade.
4. A análise dos dados deve levar em conta dois aspectos fundamentais: o objetivo ori-
ginal da pesquisa (o que ela pretendia verifi car ou investigar) e aquilo que efetivamente 
as perguntas formuladas permitem averiguar. Assim, a interpretação dos dados coletados 
deve ser formulada em sentenças afi rmativas que defi nam os resultados mais gerais obtidos 
e deve ainda permitir uma síntese da análise, isto é, uma conclusão da pesquisa formulada 
em um parágrafo ou em uma frase afi rmativa que responda ao objetivo original da pesquisa.
5. As formas visuais propiciam uma compreensão mais rápida dos dados apresentados 
em comparação com a descrição oral ou escrita. Então, seria oportuno criar tabelas, gráfi cos 
ou infográfi cos para demonstrá-los. Caso o grupo tenha difi culdades para utilizar esse tipo 
de recurso, há inúmeros tutoriais que orientam a criação de tabelas e gráfi cos com o uso de 
softwares adequados. Depois da tabulação e da interpretação dos dados, os grupos devem 
organizar uma apresentação que tomará praticamente todo o tempo do nono encontro.
Ao fi nal deste encontro, reservem pelo menos 
cinco minutos para cada estudante fazer, no ca-
derno de inspiração, um registro escrito de pala-
vras, expressões e ideias que surgiram durante a 
pesquisa ou debate. Cada um pode anotar o que, 
entre todas as conversas, entrevistas e debates, 
mais lhe chamou a atenção, o que incomodou 
ou emocionou. Esse registro será utilizado como 
matéria-prima para a criação dos poemas que 
farão parte do produto fi nal.
Passando por aqui para destacar a necessidade 
de preparar a apresentação para a turma com 
antecedência, com um roteiro do que será dito 
e mostrado, incluindo o cálculo do tempo gasto. 
Apresentações com mais de dez minutos ten-
dem a ser cansativas e perdem o sentido para 
quem assiste. Para isso, levem em consideração 
o tempo dedicado ao encontro e o número de 
grupos. Não se esqueçam de contabilizar o 
tempo para debater as respostas apresentadas.
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3FASE
Encontro 10 
A arte que denuncia
As denúncias sobre o racismo podem ser feitas das mais diferentes formas, inclusive 
por meio da criação de experiências individuais ou coletivas que provoquem os sentidos, 
toquem as emoções, despertem empatia, afetividade e admiração estética. A arte, em suas 
várias manifestações, tem sido utilizada para tocar as pessoas, conscientizá-las sobre temas 
sensíveis e provocar o debate sobre questões controversas. Mas, contraditoriamente, pode 
tanto disseminar o racismo quanto combatê-lo.
Embora sejam muitos os exemplos de uma arte antirracista, são poucos os negros que 
ocupam lugar de destaque no cenário artístico brasileiro. Nas artes plásticas, destaca-se 
Jaime Lauriano, que assim explica a situação dos negros no cenário da arte contemporânea 
do país:
Ser um artista negro é complicado porque não se toca nesse assunto. O artista negro que se 
destaca na arte brasileira não é visto como um artista negro. O discurso de miscigenação é tão 
disseminado, que é como se isso não fosse uma questão. Ser um artista negro já é um ato político, 
mesmo que seu trabalho não fale da questão racial. [...] Eu não vejo um preconceito racial ou 
racismo, porque se dissesse isso seria leviano, mas é um racismo mais velado. É não lidar com essa 
questão.É como se a cor dele fosse nenhuma. [...]
DO RACISMO na arte contemporânea. Folha de S.Paulo, 7 fev. 2015. 
Disponível em: https://www.geledes.org.br/racismo-na-arte-contemporanea/. Acesso em: 12 nov. 2019.
Veja uma das obras de Jaime Lauriano.
Entalhe em eucalipto de frases de racismo institucional, encontradas em comunicados ofi ciais e boletins de 
ocorrência, da Polícia Militar brasileira. Edição única, 30 cm × 90 cm × 3 cm.
A ARTE DENUNCIA, 
CONSCIENTIZA E SUPERA
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Que impressão essa obra despertou em você? Que palavras você associaria a ela? Escre-
va no caderno de inspiração.
Agora, propomos um exercício de reescrita. As placas reproduzidas a seguir apresentam 
dizeres, pensamentos, frases. Esse tipo de objeto tem se tornado popular, ao trazer mensa-
gens em geral bem-humoradas, mas também conscientizadoras.
■ Escolha uma ou mais dessas placas e reescreva seu conteúdo pensando nos temas discutidos 
até aqui. Você pode usar a frase de referência e alterar seu conteúdo, ou apenas usar a estética 
e modifi car a mensagem. Fique à vontade. Vamos lá? Lembre-se de anotar sua reescrita no 
caderno de inspiração.
Encontro 11 
A música que denuncia
Na música, é o rap que melhor expressa a luta contra os preconceitos, a discriminação e 
o racismo. Leia o fragmento da letra de uma canção da rapper mineira Bia Ferreira.
Depois de ler a letra dessa canção, organizem-se em grupos para responder: O que não 
te disseram na escola? Na sequência, propomos a construção individual de um acróstico, 
tipo de texto em que cada verso se inicia com a primeira letra de determinada palavra. Aqui, 
a palavra escolhida é ESCOLA. Portanto, o primeiro verso deste novo poema deve começar 
com a letra E. Para encerrar este encontro, anote sua produção no caderno de inspiração.
Existe muita coisa que não te disseram na escola
Cota não é esmola!
Experimenta nascer preto na favela pra você ver!
O que rola com preto e pobre não aparece na TV
Opressão, humilhação, preconceito
A gente sabe como termina quando começa desse jeito
[...]
E nem venha me dizer que isso é vitimismo
Não bota a culpa em mim pra encobrir o seu racismo!
[...]
COTA não é moda. Intérprete e compositor: Bia Ferreira. In: Bia Ferreira no Estúdio 
Showlivre. Intérprete: Bia Ferreira. Rio de Janeiro: Showlivre, 2018. 1 CD. Faixa 3.
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Eu tenho um problema: meu ascendente é em Áries. E eu tenho outro problema: é que eu sou 
a menina que nasceu sem cor. Pra alguns eu sou “preta”, para outras eu sou Preta, para muitos e 
muitos eu sou parda. Ainda que eu sempre tenha ouvido por aí que parda é cor de papel e a minha 
consciência racial quando me chamem de parda fi que tão bamba quanto a autodeclaração de artista 
pop como Anitta quando pratica apropriação cultural. Eu sou a menina que nasceu sem cor porque 
eu nasci num país sem memória, com amnésia, que apaga da história todos os seus símbolos de 
resistência negra, que embranquece a sua população e trajetória a cada brecha, que faz da Redenção 
de Cam a sua obra-prima, Monalisa da miscigenação. E ô ode ao milagre da miscigenação, calcado 
no estupro das minhas ancestrais, na posse de corpos que nasceram para serem livres, na violação 
de ventres que nunca deveriam ter deixado de serem nossos. E eu tenho outro problema... pô, eu 
não sei dar cambalhota e não importa que pra alguns eu seja a menina que nasceu sem cor, que falte 
melanina pra minha pele ser retinta, que os meus traços não sejam tão marcados. O colorismo é uma 
política de embranquecimento do Estado que por muito tempo fez com que eu odiasse os traços 
genéticos do meu pai herdados, me odiasse, me mutilasse, meu cabelo alisasse. Meninas pretas não 
brincam com bonecas pretas. Mas faço questão de botar no meu texto que pretas e pretos estão se 
armando, se amando. Porque me chamam por aí de parda, morena, moreninha, mestiça, mulata, café 
com leite, marrom bombom... Por muito tempo eu fui a menina que nasceu sem cor, mas um dia 
gritaram-me: NEGRA. E eu respondi. – Midria.
PEREIRA, Midria da Silva. Reprodução a partir do áudio disponível em: 
https://www.facebook.com/iamidria/videos/2075942802499881/. Acesso em: 10 jan. 2020.
Passando aqui para sugerir que você acesse o site da Enciclopédia Itaú Cultural (http://enciclopedia.itaucultural.org.
br/obra3281/a-redencao-de-cam) para visualizar a obra Redenção de Cam, do pintor espanhol Modesto Brocos, e 
ler o texto que a contextualiza.
Encontro 12 
A poesia que ativa
Neste projeto, vamos pensar e agir sobre as palavras. Refl etir sobre como nos expres-
samos por meio delas. Há palavras de amor, esperança, confi ança, que nos confortam, in-
centivam, inspiram. Há palavras que cortam, machucam, ferem, agridem e transmitem ódio, 
desprezo, indiferença. As palavras, portanto, carregam ideias, valores, sentimentos. Elas 
também traduzem atitudes e práticas. Racismo, preconceito e discriminação são palavras 
que expressam juízos, ideias, formas de pensamento, mas também comportamentos e ati-
tudes praticados numa sociedade para separar, hierarquizar e justifi car formas injustas de 
tratamento.
O importante é: as palavras podem ajudar a transformar as pessoas, e as pessoas a trans-
formar o estado de coisas a sua volta. Palavras ditas, sussurradas, declamadas, gritadas ou 
cantadas. Palavras escritas no papel, pintadas em muros e paredes, impressas em livros, 
revistas, jornais, digitadas em espaços virtuais. Palavras podem e devem ser usadas para 
erradicar as injustiças.
Por isso perguntamos: E poesia? Poesia é apenas um conjunto de palavras sobre papel? 
A poesia falada, declamada, é apenas uma leitura em voz alta? Ler poesia não envolve ati-
tude? Ler poesia não envolve gestos? Ler poesia não requer coragem?
Leia a poesia abaixo, de Midria da Silva Pereira, jovem poeta nascida na periferia da cida-
de de São Paulo.
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Agora, veja o vídeo em que Midria declama sua poesia, disponível em https://www.
facebook.com/iamidria/videos/2075942802499881/ (acesso em: jan. 2020).
Para você, houve diferenças entre ler a escrita e ouvir a declamação de “A menina que 
nasceu sem cor”? O que mudou?
Em sua página no Facebook, em “Sobre Midria”, a jovem se autodescreve assim:
Nossa proposta agora, para encerrar este encontro, é transformar texto em poesia. Para 
isso, volte-se para seu caderno de inspiração e selecione as frases que expressam seus pen-
samentos e sentimentos em relação ao tema preconceito, discriminação e racismo. Se sentir 
necessidade, escreva novas frases.
No encontro seguinte, vamos enfrentar o desafi o de traduzir essa trajetória de refl exão 
em textos e falas poéticas que mostrem o que mudou dentro de você e o que precisa mudar 
ao nosso redor. O desafi o é transformar e expressar esse aprendizado em poesia.
Midria é estudante de Ciências Sociais, poeta, slammer, slammaster do Slam USPerifa e membra 
do Coletivo Sarau do Vale. É da zona leste de São Paulo. Vê na escrita uma forma de unir suas 
experiências pessoais aos conhecimentos de teorias que conhece na academia e na militância. 
Escreve como um exercício terapêutico, para que o mundo faça mais sentido pra si mesma. É atuante 
na cena de slams de São Paulo desde 2018, tendo participado do Slam SP (Campeonato Estadual 
de Poesia Falada) no mesmo ano como representante do ZAP! Slam (primeiro slam do Brasil). 
Participou do programa Manos & Minas e com sua poesia“A menina que nasceu sem cor” alcançou 
mais de 8 milhões de pessoas, entre vídeos publicados no Facebook, YouTube e Instagram. Já se 
apresentou na Pinacoteca, na Bienal do Livro de São Paulo e em SESCS.
Se reconhece enquanto mulher negra, periférica, que, além de atuar com cultura, se envolve em 
projetos variados na educação.
PEREIRA, Midria da Silva. Disponível em: https://www.facebook.com/iamidria/. Acesso em: 10 jan. 2020.
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https://www.facebook.com/watch/?v=2075942802499881
https://www.facebook.com/watch/?v=2075942802499881
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Encontro 13 
Encontrando a poesia afrodescendente
O trecho do texto reproduzido a seguir, publicado no site do coletivo denominado Blo-
gueiras Negras, nos desafi a a responder a algumas perguntas básicas sobre o que lemos e 
quem lemos quando se trata de poesia:
O que acontece é que autores e autoras negros são, em geral, marginalizados. Ou até 
mesmo embranquecidos, como aconteceu com Machado de Assis, considerado o maior es-
critor brasileiro de todos os tempos. Mas há também quem afi rme que existe uma literatura 
que pode ser denominada afro-brasileira e que envolve textos que tratam de temas, autores 
e linguagens identifi cadas com a afrodescendência.
O portal Literafro, disponível em http://www.letras.ufmg.br/literafro/ (acesso em: jan. 
2020), sediado no Núcleo de Estudos Interdisciplinares da Alteridade (Neia), da Faculdade 
de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais, apresenta uma valiosa lista de autoras 
e autores afrodescendentes.
Para começo de conversa, quantas escritoras negras vocês conhecem? Quantas vocês já estudaram 
ao longo da formação escolar? Quantos livros de poetisas negras vocês encontram por aí nas livrarias?
E a resposta é:
Pois é, tenho certeza que a grande maioria das pessoas que começaram a ler este texto deve ter dito 
um “NÃO” para a maioria das questões acima, sobretudo à segunda. Desde muito cedo sempre fi quei 
me questionando o porquê de estudar uma infi nidade de autores, majoritariamente brancos e homens.
OLIVEIRA, Luma. Poetisas negras: gênero e etnia através dos versos. Blogueiras Negras, 5 abr. 2013. Disponível em: http://
blogueirasnegras.org/poetisas-negras/. Acesso em: 11 jan. 2020.
Verifi que na lista acima que autores você conhece e busque um poema feito por um es-
critor negro e um feito por uma escritora negra. Pesquise na internet uma breve biografi a, 
selecione algum texto poético e o compartilhe em sala de aula. Registre o poema no cader-
no de inspiração.
Autoras: Aline França, Alzira dos Santos Rufi no, Ana Cruz, Ana Maria Gonçalves, Anajá Caetano, Antonieta de Barros, 
Carolina Maria de Jesus, Cidinha da Silva, Conceição Evaristo, Cristiane Sobral, Cyana Leahy-Dios, Elaine Marcelina, 
Eliana Alves Cruz, Eliane Marques, Elisa Pereira, Elizandra Souza, Esmeralda Ribeiro, Geni Guimarães, Heloisa Pires 
Lima, Inaldete Pinheiro de Andrade, Jenyff er Nascimento, Jussara Santos, Kiusam de Oliveira, Lia Vieira, Lívia Natália, 
Lourdes Teodoro, Madu Costa, Mãe Beata de Yemanjá, Mãe Stella de Oxóssi, Maria Firmina dos Reis, Maria Helena 
Vargas, Mel Adún, Mel Duarte, Miriam Alves, Neide Almeida, Nilma Lino Gomes, Nívea Sabino, Patrícia Santana, Rita 
Santana, Ruth Guimarães, Sônia Fátima da Conceição, Tatiana Nascimento.
Autores: Abdias Nascimento, Abelardo Rodrigues, Abílio Ferreira, Aciomar de Oliveira, Adão Ventura, Ademiro Al-
ves (Sacolinha), Aldri Anunciação, Allan da Rosa, Aloísio Resende, Anelito de Oliveira, Anízio Vianna, Antônio Vieira, 
Aristides Teodoro, Arlindo Veiga dos Santos, Arnaldo Xavier, Bahia (José Ailton Ferreira), Bernardino da Costa Lopes, 
Carlos Correia Santos, Carlos de Assumpção, Cruz e Sousa, Cuti, Domício Proença Filho, Domingos Caldas Barbosa, 
Edimilson de Almeida Pereira, Edson Lopes Cardoso, Eduardo de Oliveira, Éle Semog, Elio Ferreira, Estevão Maya Maya, 
Eustáquio José Rodrigues, Fábio Mandingo, Fausto Antônio, Fernando Conceição, Fernando Góes, Francisco Maciel, 
Gonçalves Crespo, Grande Othelo, Guellwaar Adún, Helton Fesan, Henrique Cunha Jr., Hermógenes Almeida, Ivan 
Cupertino, Jaime Sodré, Jamu Minka, Jeferson Tenório, Joel Rufi no dos Santos, Jônatas Conceição, Jorge Dikamba, 
José Carlos Limeira, José do Patrocínio, José Endoença Martins, Josias Marinho, Júlio Romão da Silva, Júlio Emílio 
Braz, Lande Onawale, Lepê Correia, Lima Barreto, Lino Guedes, Luís Fulano de Tal, Luiz Gama, Machado de Assis, 
Manto Costa, Márcio Barbosa, Marcos A. Dias, Marcos Fabrício Lopes da Silva, Martinho da Vila, Maurício Pestana, 
Mestre Didi, Michel Yakini, Muniz Sodré, Nascimento Moraes, Nei Lopes, Nelson Maca, Oliveira Silveira, Oswaldo de 
Camargo, Oswaldo Faustino, Oubi Inaê Kibuko, Paula Brito, Paulo Colina, Paulo Lins, Plínio Camillo, Ramatis Jacino, 
Raul Astolfo Marques, Raul Joviano do Amaral, Raymundo de Souza Dantas, Renato Noguera, Ricardo Dias, Rogério 
Andrade Barbosa, Romeu Crusoé, Ronald Augusto, Salgado Maranhão, Santiago Dias, Sergio Ballouk, Silvério Gomes 
Pimenta, Solano Trindade, Ubiratan Castro de Araújo, Waldemar Euzébio Pereira.
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